Você está na página 1de 280

íl -£- 2fc0,lfr

mJ J A R D I M
BOTÂNICO
RIO DE J A N E I R O ARQUIVOS
DO
JARDIM BOTÂNICO
« D O

RIO DE JANEIRO

VOLUME XXI

BRASIL
1977
ARQUIVOS DO JARDIM BOTÂNICO DO RIO DE JANEIRO, é publicado
anualmente, sem publicidade, editado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
Na divulgação de dados ou de reprodução desta publicação, deve-se fazer referência
à revista, autoria, volume e número.
Preço da assinatura (1 número por ano) para o país CrS 25,00, para o exterior CrS
37,50 — USS 2.50, pagável em nome de Arquivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro,
por cheque ou por ordem de pagamento, para a rua Jardim Botânico 1008, Rio de Janei-
ro.
Subscription price (1 number for year) for foreign countries USS 2.50, enclosing
money order, should be placed to Arquivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, rua
Jardim Botânico 1008, Rio dejaneiro.
ARQUIVOS DO JARDIM BOTÂNICO
Jardim Botânico
R. Jardim Botânico, 1008 — Rio de Janeiro, Brasil

DIRETOR
Osvaldo Bastos de Menezes

Arquivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

V. 1 —1915

V. ilust. 26 cm

1. Botânica — Periódicos I.

Rio de Janeiro —Jardim Botânico


CDD 580.5
CDU 58(5)
MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

ARQUIVOS
DO

JARDIM BOTÂNICO
DO

RIO DE JANEIRO

VOLUME XXI

Ü3 J A R D I M
BOTÂNICO
RIO DE JANEIRO

tíSESlM

BRASIL
1977
COMISSÃO DE REDAÇÃO

L. de A. Penna I. de Vattimo C. T. Rizzini


SUMÁRIO

Apparicio Pereira Duarte — O Problema da especiação no gênero Aspidosperma . . 5


Carlos Toledo Rizzini — Duas questões de Filosofia da Ciência 9
Elsie Franklin Guimarães — Revisão taxonômica do gênero Deianira Cham. & Schl.
(Gentianaceae) 45
George Eiten — Delimitação do conceito de cerrado 125
Humberto de Souza Barreiros — Cedrela (Meliaceae): formas de crescimento. Taxono-
mia I 135
Janette Maciel Pacheco — Contribuição ao estudo farmacognóstico do melão-de-são-
caetano (Momordica charantia L.) 141
Jorge Fontella Pereira — Revisão taxonômica do gênero Tassadia Decaisne (Asclepia-
daceae) 235
O PROBLEMA DA ESPECIAÇÃO NO GÊNERO ASPIDOSPERMA
Apparicio Pereira Duarte
Pesquisador em Botânica do
Jardim Botânico do Rio de
Janeiro. Bolsista do C.N. Pq

O Professor Robert E. Woodson Jr. levanta uma hipótese segundo a qual várias
espécies deste gênero devem ser consideradas híbridos naturais, analisando, em princípio,
três espécies da Amazônia: Aspidosperma álbum, Aspidosperma spruceanum e
Aspidosperma jendleri; o autor considera-as como sendo as espécies que apresentam
maior dispersão dentro daquela região. Na verdade, as espécies da Série Nobüe se
caracterizam, em certos aspectos, por uma grande uniformidade. Esta uniformidade, em
parte, pode correr por conta dos fatores climáticos, condições ecológicas de constância
quase absoluta, ao lado dos fatores climáticos propriamente ditos; temos de levar em con-
sideração, também, a uniformidade do relevo e, sobretudo, a imensa rede hidrográfica.
Não há barreiras naturais que estabeleçam isolamento geográfico entre os indivíduos; a
fabulosa rede potamográfica contribui enormemente como vetor responsável pela dis-
persão das espécies. Admite-se que a distribuição de determinadas plantas, da Amazônia,
possa cobrir áreas imensas permitindo deste modo uma vasta superposição de diferentes
binômios. Este fato é bem caracterizado na célebre afirmativa de Adolpho Ducke, quando
compara a riqueza específica entre duas regiões fitogeográficas distintas da flora brasi-
leira, ou seja, a Amazônia, situada em plena zona equatorial chuvosa, e a região Centro-
Oeste, em região tropical, com períodos de estiagem de 6-7 meses, em altitude acima do
nível do mar que oscila entre 1.000 e 1.600 metros. A afirmativa é que um metro
quadrado na Serra do Cipó, localizada a noroeste de Belo Horizonte, cerca de 100 km,
tem mais espécies proporcionalmente, que um quilômetro quadrado da Amazônia. É a
afirmativa de um dos maiores botânicos de todos os tempos, que por um período superior
a meio século palmilhou aquela imensa planície, em todas as suas direções. Perlustrou os
vales da maioria dos grandes e médios afluentes do Amazonas, quer da margem direita
quer da esquerda. O seu imenso trabalhoe sua invulgar capacidade de observação permi-
tiam-lhe que nos deixasse registrados os limites de distribuição de numerosas espécies
daquela vasta região. O seu trabalho de exímio taxionomista, fitogeógrafo e ecólogo, não
se limitou apenas à Amazônia, o seu principal teatro de operações, pois ainda encontrou
tempo para visitar as regiões Centro-Oeste e Nordeste; trabalhou entre Pernambuco e
Ceará, onde terminou seus dias. Estas digressões em torno da figura e da obra de Ducke-
servem-nos de arrimo para contestar as possíveis hibridações entre as espécies de Aspi-
dosperma, na Amazônia. Este é um fato ou melhor uma hipótese que ele jamais aventou,
porque a sua grande memória visual e capacidade de observador arguto não teriam deixa-
do passar fatos desta ordem sem uma nota ao menos.
No que concerne às espécies características da região Centro-Oeste, Brasil meridio-
nal e formações atlânticas, o fato ainda é mais gritante. Woodson chega admitir, os grupos
de I-VIII como tomentosum puro, australe, subincanum, parvifolium, gomesianum, etc,
depois considera A. tomentosum x australe? (tomentosum x subincanum, camporum,
warmingii), tomentosum x parvifolium. No grupo VIII ainda admite um retrocruzamento
para tomentosum.
Lamentamos ter de contestar a teoria de Woodson, em que pese o nosso respeito pela
sua memória.
Na verdade, ele foi um bom taxionomista, mas o foi somente de gabinete, ou seja,
burocrata, como definiu Ducke, muito acertadamente, os botânicos que se cingem exclu-
sivamente ao trabalho de manipular pontas de ramos mumificados nos herbários, sem ter
visto uma única planta na natureza. Pois bem, as espécies supostamente consideradas

Arq.Jard.Bot. (5) Vol XXI


Rio de Janeiro 1977
— 6—

híbridas eu as considero como muito boas e distintas entidades. Não fora o exaustivo
conhecimento de cada uma no seu próprio habitat, e não representada por um só
indivíduo, mas numerosos, bem como várias procedências, nos Estados do Rio de Janeiro,
Espirito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Goiás, Bahia, Pará,
Amazonas, etc. Além do mais, temos a composição química alcaloidífera de cada uma. Os
estudos fitoquímicos realizados pelo Dr. Benjamim Gilbert e sua equipe, no Centro de
Pesquisas de Produtos Naturais, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (U.F.R.J.),
provam exaustivamente a diferente composição de cada uma. Naturalmente, há
substâncias que se encontram em várias espécies, visto tratar-se de grupos de espécies
afins dentro de cada Série. M a s a maioria esmagadora dos demais componentes se
diversifica de modo absoluto. Por exemplo: a uleína é muito freqüente nas espécies da
Série Pyricolla; a apparicina, depois de verificada a sua presença em Aspidosperma
dasycarpon, ficou patente a sua ocorrência em muitas outras espécies, não só da Série
Pyricolla mas também da Série denominada por nós Tormentosa, onde serão grupadas
todas aquelas que apresentam a maior soma de caracteres naturais comuns. Temos outro
aspecto que reputamos de suma importância para a diversificação das espécies, isto é, o
isolamento geográfico, que se impõe muito particularmente para a região Centro-Oeste,
dado os numerosos acidentes geográficos, particularmente as serras e as enormes
distâncias que separam estas plantas entre si, fator de grande preponderância que
contribui para elimminar muitas dúvidas, ou melhor, servir de arrimo à nossa exposição.
Do ponto de vista ecológico, encontramos medrando lado a lado nos afloramentos de
calcáreo as seguintes espécies: Aspidosperma polyneuron, A. ramiflorum, A. cylindrocar-
pon, A. australe. A, subincanum.
Tios afloramentos de arenito temos: Aspidosperma macrocarpon, A. verbascifolium,
A. dasycarpon, A. gübertü, A. jormosanum. Entre blocos de arenito compacto, na Serra
dos Cristais, no Alto Jequitinhonha, na transição do Serro para Diamantina, no vale do
Itacambiraacú, na Serra do Grão Mogol, o Aspidosperma dispermum, árvore tipicamente
casmófita. A. ellipsocarpum, A. parvifolium, A. longipetiolatum, todas crescem onde o
embasamento geológico é o gneis-granito, A. pyricollum nas formações quaternárias
psamofíticas bem como o Aspidosperma gomezianum. Temos as três espécies da Série
Macroloba, Aspidosperma populijolium, A. pyrifolium e A. refractum das caatingas e
matas semidecíduas, que na maioria das vezes estão sobre embasamento calcáreo ou
melafiro. As duas espécies da Série Ndbüe, A. melanocalyx e A. nobüe crescem em Cer-
radão ou caapões, em solos provenientes da Série cristalina ou Complexo Brasileiro, que
dá origem a solos de baixa fertilidade e geralmente muito secos.
E, finalmente, um dos elementos de preponderância notável, as flores.
Como se sabe, os Aspidospermas na sua quase totalidade não apresentam flores
aliciadoras capazes de atrair os insetos que poderiam e podem prestar auxílio à
fecundação.
a) O gênero, como vimos, não tem flores com p^oder aliciante, que poderia ser assim
considerado: cor brilhante, tamanho e perfume. Na maioria são esverdeadas ou amare-
ladas, de pouca visibilidade. Quanto a tamanho: são medíocres, às vezes ficando ocultas
pela própria folhagem, com poucas exceções como veremos mais abaixo. Quanto ao
perfume, não o apresentam e quando o têm, é graveolente; predominando o cheiro de
espermina principalmente nas espécies da região Centro-Oeste, muito acentuado no
Aspidosperma macrocarpon e A. verbascijolium.
b) As espécies deste gênero são, ou deveriam ser, entomógamas por excelência, mas
em todas as nossas observações nunca tivemos oportunidade de verificar a presença de
insetos de porte, como por exemplo: os Coleópleros, Hymenópteros, etc; no material das
espécies que temos tido oportunidade de coletar em flor, só encontramos uma pequena
espécie de inseto que nos lembra o Gynaoicotripés Jicorum. Com a diferença que, no caso
da espécie que freqüenta os Aspidospermas, o inseto possui asas menores do que o abdô-
men e que praticamente não lhes permite deslocar-se para fora da árvore. Com muita
freqüência, encontram-se os ovários transformados em galhas, que acreditamos serem
causadas por este inseto. Outro fato que invalida a hipótese da hibridação é que o límen
ou fauce da corola é de tal modo constringido que não permite a entrada de inseto de
grande porte no tubo da corola. As flores, além deste aspecto da constrinção, têm as
anteras inclusas, ficando sempre ou quase no meio do tubo. Não se nota a presença de
nectário desenvolvido, portanto, poucas possibilidades de atração de insetos polinisadores.
Por tudo isto, concluímos que os Aspidospermas apresentam nitidamente a autofecunda-
ção, não patenteiam os mínimos sinais de fecundação cruzada.
Quanto às variações morfológicas apresentadas por VVoodson, principalmente para
Aspidosperma üasycarpon, não passam de aspecto que se reduz ao tamanho e às vezes à
forma foliar dentro de uma população, que absolutamente não tem peso e nem serve na
qualidade de caráter específico, visto tratar-se de elemento variável. Os caracteres especí-
ficos se conservam inalterados, tais como inflorescências, flores, frutos, tecido suberoso,
etc.
DUAS QUESTÕES DE FILOSOFIA DA CIÊNCIA

Carlos Toledo Rizzini


Pesquisador em Botânica do
Jardim Botânico do Rio de Janeiro

INTRODUÇÃO

Os primórdios em síntese

A espécie humana, classificada pela Zoologia entre os primatas ("macacos") sob a


designação de líomo sapiens, evoluiu, durante longo tempo, a partir de um grupo de
símios que viveu no período dito Mioceno — há uns 20-10 milhões de anos. Encontram-
se entre eles vários antropóides de grandes dimensões, como o Proconsul, Dryopithecus,
o Ureopithecus e o Ramapithecus, parecidos com os antropóides atuais, gorila e chim-
panzé. Porém, no período geológico subseqüente, o Plioceno, que durou 10 milhões de
anos, acelerou-se a evolução humana. Surgem nele os famosos Australopithecus, tidos
pela Ciência como reais ancestrais do Homem — há cerca de 2 milhões de anos! Não
se sabe como, pois, estão separados das formas anteriores por um enorme hiato de 9 mi-
lhões de anos. Os australopitecos (e alguns outros sem importância) desenvolveram-se en-
tre os últimos 2 e 1 milhões de anos, no período pliocênico. São os primeiros hominídeos
autênticos — porquanto, a 'despeito do seu aspecto simiesco, tinham vários caracteres
humanos e sabiam fabricar e utilizar instrumentos rudimentares de pedra. Vivendo na
África austral e oriental, em áreas de vegetação aberta como o nosso cerrado, alimenta-
vam-se de vegetais mas já comiam carne. Tinham perto de 1,20 m de altura e menos de
50 k de peso; andavam erectos e possuíam dentes semelhantes aos nossos, pelo que mais
próximos estavam do homem do que dos grandes macacos atuais. Seus crânio e cérebro
mostravam-se três vezes menores do que os nossos.
O primeiro homem genuíno é conhecido atualmente como Homo erectus, que difere
do moderno pelo crânio menor e mais grosseiro, com testa e queixo fugidios, inclinados
para trás. Pithecantropus é um nome célebre que lhe foi dado inicialmente, junto com
vários outros nomes. Viveu entre I milhão e 400.000 anos passados, em diversos pontos
do planeta. Era caçador e sabia usar o fogo, fato importante porque, em sua época, o frio
era muito intenso. Além disso, o tubo digestivo humano é próprio para receber alimentos
vegetais; para bem aproveitar a carne, precisa de cozinhá-la. Media em torno de 1,5 m de
altura e o seu cérebro (de meio a um terço menor do que o atual) permitia raciocinar;
operava em equipe para abater os grandes mamíferos de então, o que exigia certa capaci-
dade mental. Espalhou-se notavelmente pela crosta terrestre, tendo sido achado na Áfri-
ca, Java e China; era, pois, altamente adaptável.
Em seguida dá entrada no cenário o homem moderno (Homo sapiens), em sua forma
primitiva. Existem vários tipos desta, mal conhecidos, os quais se situam entre 300.000 e
200.000 anos passados. Porém, de 1 10.000 anos para cá, vamos deparar com dois grandes
e bem conhecidos tipos humanos pré-históricos: o Homem de Neandertal e o Homem de
Cro-Magnon, ambos bastante difundidos na Europa e dos quais muita coisa chegou ao
nosso conhecimento. O primeiro é um ser humano grosseiro, baixo e atarracado, com o
crânio mais achatado, o queixo mais recuado e as arcadas orbitárias bem mais grossas e
salientes; media entre 1,5 e 1,6 m, mas era musculoso e possante. Vivendo em época
gelada, morava em abrigos nas rochas e fabricava roupas de peles. Parece que no Homem
de Neandertal despertaram os sensos sociel e religioso. Enterrava os mortos em sepultu-
ras providas de lerramentas e alimentos, indicando crença na continuação da vida além
da morte. Disseminou-se pela África e Ásia, dando tipos bastante diversificados já em épo-
ca tão recuada. Subitamente, há cerca de 35.000 anos, desapareceu da face da Terra. Em
seu lugar, surgiu o Homem de Cro-Magnon, tão evoluído que em nada se distingüia do
atual. Era um belo espécime: alto, forte e bem constituído. Revelava-se mentalmente

Arq.Jard. Bot (q) Vo, x x ,


Rio de Janeiro jq77
— 10 —

muito superior ao neandcrtalense. Os famosos pintores das cavernas francesas e espanho-


las pertenciam a essa raça; seus coloridos desenhos de animais têm encantado inúmeros
de seus irmãos atuais... Fazia colarcs e estatuetas curiosas. Nos últimos 10.000 anos,
período denominado Holoceno, encontramos o homem contemporâneo — que só difere do
Gro-Magnon pelo que se chama de cultura: aprendendo a cultivar plantas úteis e a criar
animais domesticáveis, a moer grãos, e depois a produzir e trabalhar metais, pôde aban-
donar as cavernas e a vida nômade, radicar-se em núcleos estáveis e constituir uma civili-
zação, que evoluiu continuamente até a complexa vida moderna. Até o fim do período
Cro-Magnon, os artefatos de pedra eram simplesmente lascados; temos aí o Período
Paleolítico ou idade da pedra antiga, que começa com os australopitecos. No Holoceno,
depois do Cro-Magnon, eclodiu um notável melhoramento: as pedras lascadas eram em
seguida polidas, fornecendo utensílios bem mais funcionais; isso inaugura o Período
Neolítico ou idade da pedra recente. Logo seguem-se a cerâmica e a metalurgia do cobre
e do ferro. A civilização, com registro escrito dos eventos, ou História, começa há
8.000-7.000 anos atrás, caracterizando-se pelo trabalho muscular (razão da escravidão,
feição peculiar durante milênios), invenção do alfabeto, extração e emprego de metais,
desenvolvimento do pensamento abstrato, da arte e de grandes sistemas religiosos, forma-
ção de vastos impérios territoriais e econômicos, etc. O pensamento abstrato gerou pri-
meiro a Filosofia e depois a Ciência — a criadora do mundo moderno através de sua ilus-
tre coirmã pragmática: a Técnica.
Os homens pré-históricos viviam pouco, comparados aos atuais, que chegam a ler
uma vida média de 75 anos na Holanda e Suécia. O Neandertal ia aos 29 anos; o Cro-
Magnon, aos 32; e o da Idade do Bronze, aos 38 anos (bem como o do fim da Idade Mé-
dia, na Inglaterra).

D e s e n v o l v i m e n t o cultural

Herculano Pires (1964) estuda o desenvolvimento cultural da humanidade, desde


os primórdios, por meio do método cultural usado pelo antropólogo inglês John Murphy
em suas investigações sobre a origem e história das religiões. A noção-chave é o chamado
horizonte cultural, que consiste num dado meio físico e social no qual transcorreu uma fa-
se da evolução do psiquismo. Pelo exame do "horizonte", ficamos conhecendo o ambiente
e a maneira de o homem concebê-lo e nele atuar ou, dito de outro modo, como se deu o
desenvolvimento afetivo c intelectual numa dada época e lugar. Ora, tal desenvolvimento
não é fragmentário, desordenado, mas processa-se ao longo do tempo percorrendo fases
cada vez mais complexas, pelo que merece o nome de evolução psíquica, mental ou espi-
ritual (conforme o ângulo em que se coloca o observador); esta noção é fundamental para
a compreensão de tudo quanto é humano: veremos posteriormente a evolução orgânica
do homem e agora é preciso encarar a evolução da mente — que tem mudado enorme-
mente no correr do tempo. Cumpre notar que as fases ou horizontes não são fechados, mas
transitam de uns para outros; quando um está no apogeu, outro entra em formação, pelo
que há evidente superposição. Segue-se que a individualização de uma fase em relação
à seguinte é um operação artificial necessária à compreensão do todo, o que não impede
haja fatos fundamentais nítidos que permitem a identificação ou delimitação de cada uma
delas; só que a circunscrição de uma fase não significa que ela seja absolutamente desli-
gada das demais: há um como conünuum espaço-temporal. Isto é lógico, visto que os
espíritos humanos não têm todos a mesma idade, nem tão pouco progridem com a mesma
intensidade; ao lado dos mais jovens e bisonhos e dos estagnados por vontade própria,
encontram-se os mais velhos, experientes e esforçados. Assim, as fases culturais sucedem-
se como os elos de uma corrente e não como as contas de um rosário.
O primeiro é o horizonte primitivo, estágio em que o homem tem um psiquismo
rudimentar por meio do qual aplica ao mundo exterior as escassas noções que possui de
sua própria natureza, conferindo forma humana aos elementos naturais: é o antropomor-
fismo, maneira simples da mente infantil interpretar a Natureza, suas forças, seres e obje-
tos. Nessa ocasião, alvorece a razão e as concepções revestem antes um caráter afetivo.
— 11 —
Há duas formas de antropomorfismo: 1) a vital, na qual a mente primeva projeta o seu
sentimento de vida e confere animação às coisas do mundo exterior; 2) a volitiva, pela qual
projeta também a sua vontade e personaliza as mesmas coisas. Neste ponto, entra em cena
o animismo, consistente em identificar uma alma, além da vida e da vontade, nos objetos
externos. Conseqüência destes processos mentais iniciais é a adoração, cujo aspecto curio-
so é parecer que o homem adora a si mesmo nas coisas e seres naturais, em virtude da
projeção anímica (isto é, do homem nas coisas). Começa ela com htolatna ou adoração
de pedras, rochas, montanhas, e t c ; depois, filolatria ou adoração de vegetais, árvores,
flores, bosques, e t c ; logo, a zoolatria ou adoração de animais, dos quais alguns são sagra-
dos até hoje; finalmente, chega, muito depois, à mitologia politeísta. Admite-se que resí-
duos antropomórficos e anímicos tenham persistido nas religiões atuais. Posto isto, a ado-
ração começa a exercer-se exteriormente nos objetos materiais e acaba no coração hu-
mano.
A essa forma do horizonte primitivo denominou-se anímica. Outra forma é a agríco-
la, de magna importância.
Agora estamos no período Neolítico (veja acima). O homem constitui os primeiros
grupamentos sociais e já conta com plantas e animais submetidos aos seus interesses. Co-
meça a despontar o uso da razão. O animismo da tribo sofre uma elaboração racional.
Surgem as duas modalidades básicas de racionalização anímica: as concepções de Terra-
M ã e e Céu-Pai; este é o deus-pai que fecunda a Terra, deusa-mãe (à vezes, há uma inver-
são: o Céu é a mãe e a Terra o pai, como no antigo Egito). Conforme faz notar H. Pires, o
processo de racionalização decorre da experiência concreta e não do uso da abstração,
ainda inexistente. Começa a aparecer a mitologia, impregnada de magia, e muitos deuses
vão sendo criados, ao lado do culto dos acestrais. Os espíritos dos mortos assumem papel
preponderante e, através da racionalização, transfiguram-se em "divindades especiais",
como dizia Kardec.
Os mitos desenvolvidos durante a época agrária tiveram profunda influência no cres-
cimento do espírito humano rumo à Civilização; assim, vários deles, bastante alterados na
forma graças às adaptações sofridas, alcançaram o nosso tempo, sendo, para muitos auto-
res ilustres, intensa a impregnação mítica das concepções religiosas vigentes (visto a ori-
gem destas estar muito recuada no passado). Ainda não se conseguiu, portanto, a liberta-
ção da fase agrária e o horizonte seguinte desenvolveu-se em meio às fórmulas agrárias.
Entramos no horizonte civilizado de Murphy. Caracteriza-o inicialmente a consti-
tuição de grandes impérios teológicos, em que os aspectos humano e divino se confundem
numa organização uniforme; Religião e Estado interpenetram-se num bloco monolítico.
O monarca (egípcio, babilônio, assírio, persa, chinês, etc.) goza de poder absoluto e
prerrogativas divinas. O indivíduo não possui autonomia, é antes uma peça anônima da
grande estrutura estatal: pensar, sentir e agir são-lhe determinados de maneira irrevogá-
vel. Os sacerdotes elaboram os mitos, definem os deuses e as relações destes com os ho-
mens; e possuem todo o escasso conhecimento existente, que guardam ciosamente. Os deu-
ses representam forças e seres da Natureza, como os deuses agrícolas, mas agora estão
fundamente personalizados e muito mais reais, o que se explica pelo avanço da atividade
mental.
Todavia, aí enxerta-se " u m acontecimento de imensa importância", diz Murphy.
Trata-se do que ele denomina espírito civilizado, caracterizado por três novas funções
mentais (espirituais): 1) a capacidade de formular conceitos abstratos; 2) formular JUíZOí
éticos; 3) formular princípios jurídicos. Do uso coordenado dessas funções emergirá o
indivíduo — a realização peculiar ao horizonte civilizado. Aqui ele começa a escapar às
cadeias da organização social e a destacar-se como individualidade, processo que só atingi-
rá o clímax no Século XX, em virtude da suspensão medieval (da qual falaremos mais
tarde).
O novo fator que jaz por trás de tal progresso é o desenvolvimento da razão, isto é,
o pensamento abstrato, que gera a faculdade de formular conceitos — ou seja, conceber
no plano mental os objetos do mundo exterior. Daí para diante, podendo avaliar, medir,
comparar e julgar as coisas e eventos, torna-se apto a emitir juízos éticos e morais, e a
— 12 —

formular normas para a própria conduta. Em suma, 9 dever, antes imposto à força e de
fora pelos fortes e poderosos, passará a ser ordenado internamente e aceito espontanea-
mente ou, pelo menos, reconhecido como necessidade. Tal passo evolutivo representa fase
tardia da evolução psíquica e, por isso, está em pleno curso; daí o estado moral da Huma-
nidade parecer desagradavelmente retardado. Os princípios jurídicos ou normas de direi-
to, reguladoras da vida em comum, aparecem antes dos juízos éticos, visto representarem
exigências materiais destinadas a resguardar os interesses humanos. Transforma-se, por-
tanto, o homem (não uniformemente, é claro) num ser moral, o que acarreta não poucas
alterações nas estruturas sociais e no modo de encarar a vida e o mundo.
Uma característica da vida religiosa neste período é o recurso aos oráculos, alguns
citados até hoje, como o de Delfos. O oráculo tanto podia ser um templo, a resposta dada,
o médium, o local das consultas, como a própria divindade, mas em qualquer caso o cará-
ter dominante era o mistério; por isso, era mister a interpretação das respostas, a cargo
de um corpo de sacerdotes. Todavia, o oráculo de Delfos declarou diretamente que Sócra-
tes era o mais sábio dos homens, verdade cristalina por si mesma; e no caso da Pitonisa de
Endor, consultada pelo rei Saul, a operação transcorreu como hoje numa sessão mediúni-
ca: o comunicante respondeu sem rebuços.
O horizonte subseqüente é o profético. Os homens, conquistada a consciência de sua
individualidade, tratam de ampliá-la. Cresce o uso da abstração mental, do poder de racio-
nalização, o que significa liberdade crescente. Pensar por si mesmo, julgar, escolher, quer
dizer libertação dos moldes tradicionalmente impostos e da sujeição a vida puramente ma-
terial. Surge o profetismo, que coloca o indivíduo acima do "rebanho", da craveira co-
mum, e dá-lhe o poder de manobrá-la. Segundo Murphy, do nono ao terceiro séculos
a. C , na área que vai da Grécia e Egito até a índia e a China, surgem: a filosofia grega,
o profetismo hebraico, o misticismo hindu e o moralismo chinês, todos englobados num
mesmo espírito racional usado de maneiras diferentes. Entre os judeus, todavia, corpori-
ficou-se a figura do profeta propriamente dito, ou seja, do homem que dizia entender-se
com Deus e transmitir "suas palavras" aos demais. Isto porque tal povo aceitava convicta-
mente um deus único e cria-se "eleito" dele.
O horizonte profético termina com a entronização da razão, cujo produto mais ela-
borado é a filosofia grega, depois adaptada à cultura romana e, mais tarde, parcialmente
à medieval. H. Pires, judiciosamente, acrescenta um último horizonte espiritual — forte-
mente marcado pela personalidade e doutrina de Jesus Cristo — aos de Murphy, na
qualidade de conseqüência natural dos anteriores. O Cristianismo, que evidentemente
exige como condição prévia adequados dotes racionais e éticos, espalhou-se por boa parte
do orbe, ao contrário das concepções anteriores, restritas a círculos iniciáticos. Temos
nele uma doutrina ético-religiosa, espiritual, sem culto externo (Deus deve ser adorado
"em espírito"), cuja intensidade de aceitação íntima depende do grau e da direção do
progresso realizado.
Dos homens atuais, muitos permanecem na mentalidade agrária. Numerosos são os
que se restringem ao espírito de civilização, ocupando-se de mil pequenos detalhes da vida
terrena. Outros estão adstritos à mentalidade profética e não conseguem desprender-se
da velha tradição filosófica ou religiosa ou do misticismo oriental que, no passado, os
impregnou fortemente. Há neles uma como rigidez mental conducente a uma impossibi-
lidade de penetrarem na área espiritual, dentro da qual o Evangelho avulta como código
supremo.
Se, por um lado, a razão mostrava-se plenamente desenvolvida no horizonte profé-
tico como prenuncio de sua posterior supremacia universal, por outro lado esta não se ins-
talou pacificamente. Violenta reação obscurantista emergiu da parte daqueles que deram
ao Cristianismo, uma doutrina para uso pessoal, a estrutura de instituição político-econô-
mica denominada "religião". Tal reação assumiu a forma de luta entre razão e fé, ten-
do durado cerca de 1.000 anos conhecidos como Idade Média; a submersão da razão
recebeu perfeita caracterização na célebre expressão medieval: "philosophia ancilla
theologiae" (a filosofia é serva da teologia) — sabido que a primeira foi filha dileta do ra-
cionalismo grego e a segunda da religiosidade dogmática do medievo.
— 13 —

Passou-se o seguinte. Na velha Grécia, a Filosofia surgira independentemente da re-


ligião e da política, conforme Boutroux (1924) explica. Foi a época do desenvolvimento
explosivo da razão (inteligência) humana, motivo pelo qual os primeiros pensadores
elevaram a razão à categoria de princípio do homem e do universo, a ponto de julgarem
que tudo poderia, por meio dela, ser descoberto, revelado e explicado. A Filosofia, pri-
meiro grande produto racional humano, tornou-se a verdadeira religião dos homens inte-
ligentes, um deles proclamando mesmo que os homens fazem os deuses à sua imagem;
coisa idêntica sucedeu em Roma, mais tarde. Na Idade Média, o Cristianismo, transmu-
dado em religião dogmática e oficialmente estabelecida, aboliu tal estado de espírito e de
coisas. A razão foi substituída pela fé em Deus como onipotência e onisciência — à força.
Considerando estas qualidades divinas, a atitude medieval parece lógica. O pensamento
racional foi tomado dos gregos, sobretudo de Aristóteles, mas o genuíno conhecimento
havia de forçosamente emanar da revelação sobrenatural. Sendo tudo quanto existe obra
divina, razão e fé deviam concordar perfeitamente: um conceito simplista, mas razoável
para o atraso da época. A razão (Filosofia) e a fé (Teologia) estariam de acordo — desde
que a primeira ficasse subordinada à segunda, à qual devia fornecer elementos utilizáveis
para o desenvolvimento da dogmática cristã. Coisas deste tipo foram proclamadas: certum
est quia impossibile est (é certo ainda que seja impossível) e credo quia absurdum (creio
mesmo sendo absurdo), de acordo com a concepção então vigente.
Tomou-se, pois, de Aristóteles o que era de interesse como material de demonstração
e o Evangelho foi reduzido a rígidas definições e fórmulas incompreensíveis, perdendo o
sentido espiritualizante, que não havia sido alcançado (o que não é nada de mais). Tal
foi a operação de enxertia que pretendeu atender aos reclamos da inteligência medieval:
a adaptação da doutrina evangélica à filosofia grega; como ninguém jamais entendeu tais
fórmulas abastratas e abstrusas, religião era um hábito mental e social (e em grande parte
continua sendo até hoje) imposto pela força por uma corporação poderosa. Esta, contu-
do, teve mais de um papel importante, como o de impor disciplina aos espíritos belicosos
e orientar suas tendências inferiores para ideais mais nobres; por exemplo, o indivíduo
armado cavaleiro só matava em defesa do direito e da religião (verdadeira racionalização
freudiana); e o de fomentar a produção artística.
Chega, porém, a Renascença. A razão não havia sido esmagada, mas apenas entra-
vada. Entram em cena Bacon, Descartes.e Galileu, afastando decididamente as concep-
ções filosófico-teológicas, a famosa escolástica, que associava a razão e a fé de modo que
a primeira justificasse e servisse a segunda, que era imposta, quando ambas devem inte-
ratuar espontaneamente, ü Renascimento marca a emancipação espiritual do homem,
que vai achar o seu marco definitivo na Revolução Francesa; esta liquida o poder divino
dos reis, o direito de nascimento da nobreza, prega a igualdade, entroniza a razão, e t c ,
pelo que tem profundo sentido de libertação em relação ao passado nebuloso (a despeito
dos crimes que cometeu). Agora enceta-se a reação oposta: o racionalismo moderno, que
recusa tudo quanto não possa submeter aos seus moldes racionais mediante o emprego
dos sentidos; dele deriva o materialismo irreverente, transbordamento compreensível da
inteligência recém-liberta até o século passado. Atualmente, porém, o materialismo dei-
xou de ser racional para ser afetivo, pois a base física que o sustentava diluíu-se em ondas
energéticas.
Ao mesmo tempo que o racionalismo cartesiano e o experimentalismo de Galileu
abalam o império da fé cega, dá entrada no cenário Lutero e outra modalidade de ativi-
dade racional surge, desta vez no plano religioso: a Reforma Protestante, que prega vigo-
rosamente o exame dos textos sagrados, por isso traduzidos, daí em diante, em linguagem
vernácula e postos ao alcance de todos. Gs reformadores, apesar do seu espírito estreito,
prestaram esse serviço valioso.
Galileu introduz um novo procedimento de obter conhecimentos sobre a natureza,
em princípios de 1600. Ao invés de voltar-se para dentro de si mesmo e extrair vagas e
obscuras noções especulativas, divorciadas da realidade, ele dirige-se aos objetos da natu-
reza e maneja-os pela observação e experimentação. Inaugura, desta arte, o método expe-
rimental e, com ele, a Ciência — não a "ciência moderna", mas a única, porquanto, nun-
— 14 —

ca houve outra antes, embora haja o costume de dizê-lo erroneamente. Ciência é sinônimo
de experimentação; a história da Ciência é a história do método experimental. Os homens
anteriores a Galileu, por exemplo Aristóteles, não conseguiram formar idéia lúcida de tal
método; mesmo o que Bacon e Descartes escreveram sobre ele não pode ser equiparado
ao que praticam os cientistas.
Depois de cerca de 200 anos de investigação científica, ao iniciar-se o século XIX,
as aplicações práticas avolumam-se dando origem a modificações tão amplas da vida hu-
mana que a época é caracterizada como Primeira Revolução Industrial; entramos no do-
mínio da Técnica, aplicada a todos os setores onde atui o ser humano.
Até meados do século XVIII, as massas humanas estavam escravizadas ao trabalho
muscular, animal e humano. As descobertas científicas de Newton e Huygens só encontra-
vam alguma aplicação na Astronomia. Por exemplo, navegar longe da costa era um pro-
blema sério, cheio de riscos; a mineração e a tecelagem, trabalhos penosíssimos e escra-
vizantes. Com o aparecimento das máquinas a vapor e depois elétricas, a energia muscu-
lar perdeu parte da sua antes absoluta importância e as energias físicas e químicas permi-
tiram magno impulso ao progresso da Humanidade, criando uma multidão de facilidades.
A Primeira Revolução Industrial (conhecida como Revolução Industrial simples-
mente, nos textos mais antigos) caracteriza-se pela introdução da máquina como substi-
tuto do músculo e começa com a invenção de uma máquina a vapor realmente utilizável.
Conquanto, como sempre acontece, haja precursores e, pois, já existissem máquina desse
tipo antes dele, coube ao escossês James Watt (1736-1819) aperfeiçoar uma que funcio-
nasse na prática, em 1782. Os engenhos deste inventor, cuja primeira patente foi reque-
rida em 1769, foram desde logo empregados tanto para esgotar a água das minas como
para atender a objetivos industriais. O século dezoito chega ao fim vendo a máquina a
vapor integrada na indústria; em pouco tempo, portanto, de tal sorte estava a época ma-
dura para o benefício.
A energia motriz do vapor encontrou o seu primeiro uso prático num dos piores ser-
viços humanos: o bombeamento da água que se acumula no fundo das minas. E um traba-
lho que nunca termina e que não pode ser interrompido sob pena de obstruir-se a mina
para sempre. Cavalos moviam o primitivo mecanismo, mas muitas vezes eram escravos
humanos postos a girá-lo. O segundo grande emprego da máquina a vapor foi na nave-
gação fluvial, por meio de barcos a vapor, inventados por Robert Fulton (1765-1815); em
1807, Fulton já navegava regularmente no rio Hudson, entre New York e Albany, num
barco de sua propriedade.
Quase ao mesmo tempo, a indústria de tecelagem recebia idêntico benefício da má-
quina de Watt. Tal indústria, manual na época, não conseguia produzir o necessário
para satisfazer o consumo e, contudo, ao iniciar-se o século XIX ela estava quase com-
pletamente mecanizada. Logo de princípio, houve bárbara exploração do trabalho de mu-
lheres e crianças; elas trabalhavam do nascer do dia noite a dentro e só ganhavam o estri-
tamente necessário para manterem-se de pé — se não adoecessem e tivessem despesas
adicionais. Fsta situação social degradante deveu-se, em parte, ao fato de que. gastando
grandes cópias de combustível de maneira pouco econômica, era preciso fazer as máqui-
nas operarem em grande escala; por isso, teares e fusos eram reunidos em imensas fábri-
cas, de modo a serem acionados por uma máquina somente, aproveitando ao máximo a
energia do vapor. Tudo funcionava, portanto, de uma só vez, durante 12 a 15 horas por
dia. Todavia, como foi característico do capitalismo do século passado, um egoísmo feroz
estava também envolvido, ao lado do embaraço mecânico, na desenfreada exploração do
operário. A transmissão da força motriz era feita, de máquina a máquina, pela linha de
eixos suplementada pela polia e pela correia.
Logo a seguir, entravam em cena a locomotiva a vapor, a serraria a vapor; em 1815,
a imprensa e a indústria de gás começam a utilizar o vapor, e t c , e o ser humano foi, aos
poucos, sendo aliviado das cargas mais pesadas para os seus músculos e onerosas para a
sua saúde.
O quadro acima delineado mudou radicalmente mediante a introdução da eletrici-
dade em lugar do vapor. Por volta de 1870, dá entrada o motor elétrico, que opera funda
— 15 —

mudança na estrutura das fábricas a vapor. Agora, cada máquina individual recebe a for-
ça motriz do seu próprio motor; este, alérrTde ser mais eficiente, é de tamanho e preço
menores. E, ao demais, possibilitou o enorme avanço na produção de utilidade domésti-
cas, como o liqüidificador, cada uma conduzindo o seu pequeno motor, a fonte da força
que a move. A indústria elétrica entrou em atividade a partir de 1880 e a de automóveis
inicia-se em 1900.
Mudança tão drástica quanto a ocasionada pela utilização do motor elétrico deu-se,
já no século XX, com a invenção da válvula eletrônica, da qual saiu o rádio e, depois, to-
da uma longa série de utilisissimos aparelhos domésticos, científicos e industriais. For
meio dela, transitamos da Primeira para a Segunda Revolução Industrial.
A industrialização, conforme assinalada acima, não se fez pacificamente. Acarretou
intensas lutas sociais, em virtude da impiedosa exploração do trabalhador. Até princípios
do século vinte, aquele ganhava tão-somente o indispensável para manter-se vivo nas pio-
res condições de existência. Só o lucro merecia consideração; o capital dominava o merca-
do e o destino do operário, ü marxismo apareceu para dar combate a esse capitalismo
desumano, pondo em destaque os direitos do trabalhador; infelizmente, prega a violência,
propondo apenas uma troca de posições, e não leva em conta a necessidade de o próprio
homem mudar; julga bastar a melhoria das condições do meio social. Todavia, no pró-
prio meio industrial desencadeia-se uma grande revolução pacífica, que iria frutificar
amplamente. Em 1914, Henry Ford institui, na sua fábrica de automóveis, o dia de 8 ho-
ras de trabalho e eleva os salários acima do dobro, propiciando condições de vida muito
melhores ao operário, que passa de escravo a comprador de artigos manufaturados.
Isso não foi feito ao acaso, por sentimcntalismo desorientado. O famoso industrial
espiritualista guiava-se por princípios próprios bem definidos (era um convicto reencar-
nacionista). Para ele, indústria e comércio são formas de serviço público e o lucro deve ser
encarado como um recurso para manter as fábricas em funcionamento. Sempre que podia,
Ford baixava o preço do automóvel, facilitando a aquisição por maior número de pessoas,
inclusive trabalhadores.
Semelhantes conceitos evoluíram com o tempo, que foi trazendo a adesão de outros
industriais. Nota-se certa tendência para considerar o dinheiro como um dos instrumentos
dos negócios e estes como um meio de servir à humanidade. A moderna indústria já é um
organismo social de produção inteiramente novo (em confronto com o anteriormente cita-
do), um sistema de organização humana dentro da sociedade. A evolução é sempre um
fato impossível de desconsiderar. As grandes fábricas, hoje, cuidam do trabalhador e até
de sua família, visto possuírem restaurante, escola, serviço médico, etc. Se a guerra entre
o capital e o trabalho, entre o que paga e o que recebe salário, continua, é porque ambos,
como todos nós, precisam de modificar-se. Isto não será levado a cabo a pauladas e pedra-
das, mas como se exemplificou acima, no caso de Henry Ford e no que se vê atualmente,
aos poucos.
Segunda Revolução industrial. Mas, o progresso não se deteve nas realizações mecâ-
nicas, ü pensamento indutivo próprio da Ciência, forma mais segura do pensamento abs-
trato, continuou a crescer desmesuradamente. Dele resultou, na segunda metade do sé-
culo XX, a Segunda Revolução Industrial, expressão já usada em 1954 por Norbert
VViener e que Muraro (1968) estuda bem. Neste período situa-se o grande desenvolvimen-
to tecnológico, que nos propiciou as utilidades mais importantes de que dispomos (como
televisão, satélites artificiais, energia nuclear, microscópio eletrônico, antibióticos, corti-
costeróides, etc.) e levou a humanidade a dar o seu maior passo — descer na Lua, isto é,
viajar pelo espaço cósmico superando o que antes parecia impossível: a gravidade e o vá-
cuo.
O que deve ser ressaltado aqui é que, no curso da Primeira Revolução Industrial, o
homem substituiu seus M Ú S C U L O S por máquinas e agora — nesta Segunda Revolução
Industrial — está substituindo o seu C É R E B R O por outras máquinas! Ao primeiro
processo chama-se mecanização e ao segundo automação. Automação, portanto, vem a
ser a realização de trabalho mental por uma máquina (computador, calculadora, "cére-
bro" eletrônicos); por meio dela, a máquina comanda o trabalho "musculiforme" de ou-
— 16 —

tra máquina; por exemplo, um trator ara o campo spzinho ao conduzir sobre si um pe-
queno cérebro eletrônico; um robot é um homem metálico que faz trabalho de vários ho-
mens de carne; o vôo inicial do foguete Saturno, condutor das cápsulas espaciais Apoio,
é dirigido por um computador; e assim por diante. Não confundir automatização com
automação: automatização é um conjunto aberto de máquinas mecânicas conjugadas que
operam a baixa velocidade, como existe nas fábricas para a produção em série; automa-
ção é um sistema fechado de máquinas eletrônicas operando a velocidades instantâ-
neas, o que exige muita pouca participação humana.
Não há, conseqüentemente, comparação possível entre os primeiros dois milhões de
anos da pré-história humana e os dois últimos séculos da História da Civilização, nem en-
tre o século anterior (mecanização) e o atual (automação). Uma seríssima conclusão ema-
na do precedente: a automação dos processos de produção vai, lenta mas seguramente,
tornando o homem cada vez menos útil como máquina de trabalho, j á agora nenhum cé-
rebro humano pode acompanhar o ritmo de atividade eletrônica; há computadores que
realizam um bilhão de operações por segundo, não diferindo o seu funcionamento essen-
cialmente do que exibe o neurônio do cérebro humano (unidade celular nervosa: a célula
nervosa e seus prolongamentos). A máquina computadora de alta velocidade é basica-
mente um mecanismo lógico que confronta proposições diferentes e delas extrai conclu-
sões corretas, num lapso de tempo em que ninguém o poderia fazer. Os campos de aplica-
ção de tais instrumentos são sempre mais vastos — e isto está apenas nos primeiros pas-
sos. Cada vez mais as empresas automotizam suas instalações, pois os computadores po-
dem controlar operações tais como distribuir energia elétrica para uma cidade ou coman-
dar uma linha de produção contínua. Julga-se que em breve eles terão o poder de tomar
decisões... Nesses campos, eles são muito mais rápidos e eficientes do que o cérebro huma-
no.
Ora, sejamos lógicos: os ambientes conformados pela lecnica nao podem, de ma-
neira alguma, ser passivos, mas são constituídos de forças ativas que modelam homens e
povos por influirem poderosamente no psiquismo — já que inapelavelmente determi-
nam novas maneiras de pensar e de viver. Além disso, dito psiquismo, em geral, é bastan-
te amorfo e, pois, maleável. Eram iguais os homens antes e depois que Gutenberg inven-
tou a imprensa? São iguais os homens da era da máquina aos escravos da Antigüidade?
A Eletrônica acarretou um novo tipo de ambiente-com a instantaneidade da comunicação
de informações; pode-se assistir televisão da maior parte do planeta e até mesmo da su-
perfície lunar. Já não há distância, e os povos estão aproximados temporal e espacialmen-
te. Todo o mundo está, portanto, engolfado nos mesmos problemas fundamentais.
De um modo geral, a Técnica amplia enormemente partes do corpo humano. E o
próprio homem que cresce, em dimensões e poder, com os implementos que cria. Micros-
cópios e telescópios aumentam os olhos; telefone, rádio, televisão, e t c , são extensões do
sistema nervoso; automóvel, avião, navios, e t c , prolongam os pés. E os computadores são
cérebros externos; a automação é a inteligência operando fora do seu dono, investida num
ser metálico que não conhece outro valor. Não pode, conseqüentemente, o ser humano e-
quiparar-se aos seus antecessores. Tais ampliações e extensões determinam pressões sobre
o espírito, obrigando-o a crescentes reajustamentos, pelo que o ambiente tende a confor-
mar os seres nele imersos. Com isto, arrasta-se a massa humana para a frente; durante os
mil anos da Idade Média quase ninguém sabia ler, nem mesmo príncipes e reis, fato hoje
inconcebível; era natural, portanto, que vivessem no escuro. Outrora, o impacto do pro-
gresso técnico era fácil de suportar porque entre uma aquisição importante e a seguinte
decorria tempo suficiente para a necessária adaptação mental.
Aproxima-se o jim do trabalho muscular (e até, em parte, do trabalho cerebral).
A Primeira Revolução Industrial desalojou o homem e o animal como fontes de força mo-
triz; a pá e a picareta, bem como o cavalo e o burro, estão sendo, cada vez mais, subs-
tituídos pelas máquinas mecânicas, como tratores, escavadeiras, guindastes, caminhões,
e t c ; a força física já vale bem pouco... A Segunda Revolução Industrial eliminará a mão-
de-obra fabril no que concerne ás tarefas repetititvas, deslocada pelas máquinas auto-
máticas. Para muitos, isso significa libertação e oportunidade de utilizar suas energias
— 17 —

em atividades mais elevadas para o espírito. Todavia, haverá um vazio para a massa
humana formada de seres comuns: fazer o que? Além disso, a Técnica terá ido tão longe
que o seu controle estará concentrado nas mãos de uma elite de poderosos intelectuais.
E espontânea a pergunta: que tratamento darão eles àquela, a seus irmãos menos evo-
luídos? Escravizá-los-ão? Promoverão o progresso deles? "A nova Revolução Industrial
é, pois, uma espada de dois gumes", diz N. Wiener, um dos pais da automação, e poderá
ser usada em benefício da Humanidade ou contra ela, na dependência da utilização que
for dada às novas máquinas; em si mesmas, elas só oferecem vantagens materiais e espiri-
tuais ao homem do futuro.
O novo critério da História. Referência foi feita acima à energia muscular e às ener-
gias químicas e físicas, ü s recursos energéticos, de que dispunham os povos, servem tam-
bém para caracterizar as principais etapas do desenvolvimento da humanidade. Sob tal
ponto de vista, reconhecem-se três grandes épocas, cada uma marcada por uma mudança
na forma de energia empregada preferentemente. É que a energia é a causa motriz fun-
damental que possibilita as múltiplas atividades humanas ao longo do tempo e até a pró-
pria vida. Basicamente, a nossa fonte energética é o Sol, não só porque dele recebemos luz
e calor, mas porque toda a energia disponível é energia solar acumulada e condensada. Ao
queimar madeira, carvão, hulha e derivados de petróleo, estamos apenas libertando ener-
gia que, do Sol, foi aprisionada pelas plantas verdes sob forma química, através da fotos-
síntese. Ora, a energia radiante do Sol origina-se da energia atômica e ao utilizarmos es-
ta, por nós obtida, estamo-nos libertando da primeira e imitando-a.
A primeira época vai até meados do século XVIII (início da Primeira Revolução In-
dustrial). No curso deste longuíssimo período, as muitas civilizações só dispunham, para
os trabalhos mecânicos (transportes, lavrar a terra, tecelagem, locomoção, extração de pe-
dras e metais, etc), da energia muscular de animais e homens. A energia química, produ-
zida pela combustão da madeira, só encontrava utilização para cozinhar, aquecer e em
algumas técnicas metalúrgicas muito restritas. Esta escassez de energia obrigava muitos a
trabalharem para poucos desfrutarem um alto nível de vida, material e intelectual, livres
dos pesados misteres manuais que ocupariam o dia todo. Calculou-se que a energia con-
sumida diariamente por uma pessoa moderna corresponde ao esforço muscular de cer-
ca de 40 escravos trabalhando 8 horas por dia. Eis uma razão poderosa para explicar a
escravidão e a sujeição das classes sociais menos bem dotadas, como a dos camponeses.
As grandes e magníficas obras do passado foram construídas por escravos humanos; por
trás dos grandes templos, pirâmides e castelos, cuja magnificência impressiona, estão mi-
lhares de seres humanos impiedosamente sacrificados à vaidade inútil dos que se tinham
na conta de deuses. Aristóteles mesmo não via como dispensar os escravos para que os
gregos pudessem ter vida digna. Como poderia ele prever o desenvolvimento técnico-cien-
tífico?
Semelhante situação ia-se agravando, ainda, em virtude do crescimento das popula-
ções. Estima-se que, no ano I d. C , havia uns 300 milhões de pessoas em toda a Terra.
Até o século XVII, não houve aumento notável. Contudo, a partir daí o número entrou
a crescer rapidamente; em 1900, chegava a 1 bilhão e 500 milhões; em 1950, a 2 bilhões e
300 milhões — e calcula-se que por volta de ano 2000 haverá cerca de 7 bilhões de seres
humanos sobre a face da Terra.
A segunda época coincide com a Primeira Revolução Industrial e caracteriza-se pelo
emprego da energia química derivada da queima de combustíveis orgânicos: carvão e pe-
tróleo, tendo a madeira ocupado posição de menor destaque. Sem isto, a industrialização
não teria podido avançar tanto. Perto de 80% da energia utilizada hoje provêm da com-
bustão de hulha, petróleo e gás; a energia hidro-elétrica fornece cerca de 1,5-2% apenas,
a energia muscular somente 1% e os restantes pouco mais de 15% derivam da queima de
madeira e resíduos agrícolas. Conseguiu, portanto, o industrioso ser humano a energia
de que precisava para mover seus engenhos e aliviar sua própria carga.
Todavia, supõe-se que as reservas de carvão-de-pedra e de petróleo não durem 1
século. Ao demais, como notamos, as necessidades crescem sem parar em vista do aumento
demográfico e, ainda, do progresso técnico. No século atual, a eletricidade tem cooperado
— 18 —

grandemente como forma de energia extremamente útil, mas é evidentemente preciso en-
contrar uma nova fonte de energia para a Humanidade prossiga em ascenção.
Essa energia é a energia atômica ou nuclear, que demarca a terceira época do desen-
volvimento material da humanidade. Trata-se da energia física decorrente da rutura do
núcleo atômico de metais como o urânio e o tório. As técnicas para isso são difíceis e o
equipamento caríssimo, mas vão sendo postas em função, sobretudo por meio da coopera-
ção internacional. Algumas usinas, navios e submarinos, movidos a energia atômica, estão
em funcionamento há vários anos. O consumo atual de energia corresponde a uns 2 bi-
lhões de toneladas de carvão por ano; ao fim do século, será de ca. 8 bilhões. O gasto em
1950 foi dez vezes maior do que em 1850. Ora, 1 tonelada de urânio eqüivale, como fonte
de energia, a 1-3 milhões de ton. de hulha; uma usina atômica poderá extrair, de 1 ton.
de urânio, o equivalente térmico de umas 10.000 ton. de carvão, mas a energia extraída,
mediante métodos precisos, admitirá ser multiplicada por 5 ou mesmo 10. Uma ton. de
plutônio produz energia equiparável a 3 milhões de ton. de hulha no reator-gerador,
conquanto seja muito deletério à saúde; em 1973, valia 10.000 dólares o quilo. Em sínte-
se, a energia atômica é muito mais concentrada do que a energia química e oferece imen-
sas possibilidades ao futuro, a despeito dos não menores perigos. Todavia, outra possibi-
lidade existe, sem qualquer perigo e certamente muitíssimo menos onerosa: a captação
da energia solar; basta dizer ter-se calculado que a quantidade que cai sobre 300 km 2 de
deserto se aproxima de toda energia utilizada atualmente; espera-se que dentro de alguns
anos ela possa vir a ser posta em serviço, com a vantagem de dispensar quaisquer recur-
sos naturais do solo terrestre.
Assim, a Segunda Revolução Industrial, além dos computadores e do processo de au-
tomação, caracteriza-se também pelo emprego da energia nuclear. Como se fez notar no
primeiro caso, aqueles e esta estão ainda em seus primórdios. A utilização generaliza-
da, para o bem da humanidade, dos cérebros eletrônicos e da energia atômica, ao que tudo
indica, será peculiar ao Terceiro Milênio — quando haverá, igualmente, melhores condi-
ções espirituais na Terra.
Uma conclusão salta espontanemente da exposição anterior. È que o desenvolvi-
mento científico e técnico dá-nos uma nova maneira de compreender e dividir a história da
humanidade. Não mais referência a reis, imperadores e conquistadores — tiranos que
deixaram um rastro sangrento no tortuoso.caminhar dos homens pelo espaço e pelo tem-
po, e que espezinharam a mais não poder os seus semelhantes, então tidos como inferiores
ou simples bestas. J á não é mais tempo de nos ocuparmos com os feitos militares de um
sujeito na Gália ou na Helvetia, com quantos ele matou e aprisionou, ou condenou à
escravidão. Isso pertence a um passado morto e que pede esquecimento. De nada servirá
relembrá-lo às crianças, na escola, a não ser que queiramos atiçar a agressividade, valori-
zando a violência. Um conquistador ou imperador antigo (com poucas exceções) é um cri-
minoso que a sociedade atual meteria na cadeia por muito menos...
Agora conviria dividir a História, de conformidade com os marcos cio progresso, em
épocas ou etapas caracterizadas pelas formas de energia e de utensílios que permitiram a
humanidade avançar com crescente realização do Homo sapiens na qualidade de ser inte-
ligente e moral.
É de notar-se que Unger, em seu livro "Louis Pasteur,\ chegou à conclusão de que
"nos futuros livros de história, muito menor importância terão os anos em que se feriu a
guerra entre japoneses e chineses... e até as duas terríveis guerras mundiais. Em lugar dis-
so, o que se há de ensinar serão os grandes jeitos da história cultural que trazem proveito
para todos. E será mais importante saber quando foram libertados os escravos na Tur-
quia, quando decretou a Alemanha a lei que proibia o trabalho das crianças, quando fa-
bricaram os Estados Unidos o primeiro navio a vapor... As descobertas dos raios X", da
radioatividade, do rádio, serão consideradas vitórias mais famosas do que quaisquer ou-
tras. Aureolados já não serão os nomes dos conquistadores do mundo e de generais vito-
riosos, mas sim os dos grandes benfeitores da humanidade."
— 19 —

E S C O R Ç O DA H I S T Ó R I A DA C I Ê N C I A

Precursores

Na Antigüidade, houve umas poucas realizações rudimentares no campo do conhe-


cimento da natureza, que se podem considerar como sendo de índole científica segundo
os padrões modernos. Destaca-se o nome de Aristóteles (384-322 a . C ) , profundo pen-
sador que, contra o método da época, estudou especialmente os animais examinando-os
de fato; sobre eles, escreveu três obras, nas quais os descreve e classifica. Sua divisão do
reino animal em dois grupos: Enaima (com sangue rubro) e Anaima (sem sangue rubro),
corresponde exatamente à nossa em: Vertebrados e Invertebrados; os Enaima foram
subdivididos em: Vivíparos e Ovíparos. Com base em seus escritos zoológicos, outros
autores compilaram uma classificação mais completa que serviu durante 2.000 anos.
Teofrasto (372-287), discípulo e sucessor de Aristóteles, fêz trabalho semelhante com as
plantas, redigindo duas obras a respeito delas. Strato, discípulo de Teofrasto, seguiu o
caminho aberto por ambos os predecessores no que tange aos primórdios da ciência na-
tural. E por aí ficaram os gregos da Antigüidade clássica.
Em época próxima àquela, em Alexandria, capital do Egito, embora grega na reali-
dade, entre os séculos IV e III, houve bastante investigação anatômica envolvendo os
nomes de Herófilo e Erasístrato; contudo, pouco se sabe a respeito disso. Em Roma, so-
bressai Plínio (23-79), autor de uma enciclopédia dita História Natural, cuja influência
durou longos séculos, mas que não encerra pesquisas originais; é tão-somente uma vasta
compilação, porém, importante porque dela extraiu Lineu a técnica de redigir diagnoses
latinas, mediante o uso especial do caso ablativo. O último e notável precursor da Biologia
na Antigüidade foi C. Galeno (131-210 d . C ) , grande médico e eminente anatomista
(conquanto dissecasse apenas símios). Além disso, revelou-se também esclarecido ser
humano; dizia, por exemplo: "em minha opinião, a verdadeira piedade não consiste em
sacrificar centenas de animais (nos templos), nem em oferecer grandes cópias de espe-
. ciarias e incenso, mas em conhecer-se a si mesmo e aprender acerca da sabedoria, poder e
amor do Criador."
Depois, acelerou-se a decadência do mundo romano, sobreveio a destruição do im-
pério e a ocupação de Roma (476) pelos bárbaros do norte da Europa, entrando-se na
longa noite de dez séculos — chamada de Idade Média, época de obscurantismo e fana-
tismo, caracterizada por espessa ignorância e desinteresse por tudo que não fosse de natu-
reza religiosa e militar. A frase clássica do medievo — "Philosophia ancilla Iheologiae"
(a Filosofia é serva da Teologia) — mostra bem a subordinação da atividade intelectual à
especulação religiosa, a razão escravizada à fé cega. Em quejando período, ó Cristianis-
mo, de doutrina ético-religiosa que objetiva a edificação pessoal, transformou-se em
instituição político-econômica cheia de interesses temporais a preservar. Pensar livre-
mente e discordar do que era imposto pela autoridade eclesiástica tornou-se empresa
mortalmente perigosa, desencadeando perseguições, torturas e prisão, quando não morte
ignominiosa.

Após a R e n a s c e n ç a

Pelo fim da Idade Média e princípio da Renascença (1453), começam a surgir os


intelectuais chamados de humanistas, eruditos que gozavam de certa liberdade de pensa-
mento, porém, dentro de limites determinados. J á era um progresso sobre os séculos
anteriores.
O Humanismo foi um movimento intelectual surgido no início do Renascimento
italiano (final do século XIII), que se espalhou pela Europa durante o século XV.
Francesco Petrarca (1304-1374), o famoso literato, pode ser cognominado o "Pai do
Humanismo". Este era uma continuação, um desenvolvimento do ensino profissional de
retórica e de gramática das escolas medievais. Caracterizou-se pela ênfase conferida ao
estudo dos autores clássicos gregos e latinos, cujo elegante estilo procurava imitar e dos
— 20 —

quais se citavam constantemente trechos. Com semelhante matéria prima, tratavam os


humanistas de expressar, e vigorosamente, as circunstâncias da própria vida, seus pensa-
mentos, estudos, emoções e sentimentos. Interessavam-se por retórica, poesia e filosofia
moral, sempre tomando os clássicos como modelo. A tal grupo de disciplinas, os eruditos
denominavam Studia Humanitalis ("Humanidades"), donde chamarem-se a si mesmos
humanistas (o termo Humanismo foi cunhado por historiadores do século X I X ) . Despre-
zavam o estudo da lógica e da filosofia natural, cultivadas nos séculos precedentes; o seu
interesse filosófico limitava-se ao campo da ética. Eram sobretudo literatos e, depois,
moralistas, dentro da fé religiosa que possuíam. Em geral, não aceitavam Aristóteles e o
seu interesse científico; opunham-se a ele em favor de uma vida religiosa mais profunda.
Assim, o platonismo era o refúgio contra as escolas aristotélicas por melhor ajustado aos
valores e ideais religiosos; além disso, fora cristianizado há muito na familiar tradição
agostiniana. Petrarca, p. ex., era profundo admirador e seguidor de Santo Agostinho, e
Ficino era o chefe da Academia Platônica de Florença. Nas universidades medievais
vigorava a tradição aristotélica, que acentuava a importância da lógica, do método, da
filosofia natural e da metafísica. Pomponazzi e Zabarella, ex. gratia, foram humanistas
ligados ao aristotelismo. Segue-se daí que o Humanismo desde sempre se opôs ao conhe-
cimento científico, o qual, depois de Bacon, Descartes, Galileu e Newton, venceu em toda
a linha (a partir de 1600).
Á Idade Média caracterizou-se por: grande apego à religião e dissolução de costu-
mes, altos ideais e paixões baixas, heroísmo pela pátria e religião ao lado de crueza nas
inimizades e ódios, que separavam pessoas, corporações e cidades. Estas viviam em com-
bates e estavam protegidas com fossos, muralhas e fortalezas. Os homens viviam rezando
e brigando por vantagens, posições e prestígio. A Igreja era o fator de equilíbrio, mas os
sacerdotes não se mostravam melhores do que os outros, em matéria de lutas rasteiras.
A Renascença marca a emancipação espiritual do homem, que vai encontrar o seu
marco definitivo na Revolução Francesa; esta liquida o poder divino dos reis, o direito de
nascimento da aristocracia, prega a igualdade, entroniza a razão como suprema deusa,
e t c , tendo, portanto, profundo sentido de libertação em.relação ao passado nebuloso (a
despeito dos inúmeros crimes que cometeu). Agora, enceta-se a reação oposta à ação:
o raaonalismo moderno, que recusa tudo quanto não possa submeter aos seus moldes
intelectuais mediante o emprego dos sentidos. Dele deriva o materialismo irreverente do
século passado, transbordamento compreensível da inteligência longamente represada e
recém-liberta da sujeição medieval. Atualmente, porém, o materialismo deixou de ser
racional para ser emocional, porquanto, a base física que o sustentava (a matéria) se
diluiu em ondas de energia. Ao mesmo tempo que o racionalismo cartesiano e o experi-
mentalismo galileano abalavam o império da fé cega, dá entrada no cenário Lutero e
outra modalidade de atividade racional eclode, desta vez no plano religiosa: a Reforma
Protestante, que prega vigorosamente o exame dos textos sagrados, para isso traduzidos,
daí em diante, em linguagem vernacular e postos ao alcance de todos. Os reformadores,
apesar do seu esprito estreito, prestaram esse valioso serviço. O que se acaba de dizer,
embora repetição de trecho anterior, precisava ser inserido aqui.
Na vigência do Humanismo, os trabalhos de natureza aproximadamente científica
reduziam-se a comentários sobre as obras clássicas da Antigüidade, como, p. ex., a de P.
A. Mattioli (1501-1577) sobre a De Matéria Medica de Dioscórides (I a século da era cris-
tã), cujo título traduzido é: "Comentários acerca dos seis livros sobre a Matéria Médica
de Pedácio Dioscórides Anazarbeu", publicada em Veneza no ano de 1565. Em obras des-
se tipo, não raro volumosas, os autores reproduziam o texto original e introduziam suas
próprias "observações; estas, freqüentemente irrelevantes e fantasiosas, eram a única
contribuição dada pelo comentarista — porquanto, faltava o método para a obtenção de
dados acurados e os autores não dispunham de conhecimentos seguros. Tudo era escrito
em latim e poucos podiam ler.
O século XVI apresenta, assim, os primeiros trabalhadores científicos rudimentares,
pioneiros sem método preciso dè investigação. Contudo, muitos nomes podem ser citados,
revelando a transição do conhecimento especulativo, baseado na opinião e impressão
— 21 —

pessoais, para o conhecimento positivo, alicerçado na observação exata e na experimenta-


ção precisa. Servem de exemplo: N. Copérnico (1473-1543), que revolucionou a con-
cepção medieval da Terra como centro do Universo, provando que o Sol é o centro de
um sistema no qual a Terra é apenas um dos membros modestos; G. Bruno (1548-1600),
que a despeito das fantasias e do misticismo, foi pensador profundo e renovador; L. Fuchs
(1501-1566), descritor de plantas, como C. Bauhin (1550-1624), M. de Lobel (1538-
1616), P. A. Mattioli (1501-1577), O. Brunfels (1488-1534) e W. Turner (1515-1568);
A. Cesalpino (1519-1603), botânico, médico, anatomista e mineralogista; B. de Palissy
(1510-1589), ceramista e mineralogista; C. Gesner (1516-1626), descritor de animais em
vasta obra, como o seu discípulo U. Aldrovandi (1522-1605); G. Rondelet (1507-1556),
descritor de peixes; B. Belon (1517-1564), estudioso de peixes e aves; os anatomistas A.
Vesalio (1514-1564), G. Fallopio (1523-1563), G. Fabrizio (1537-1619), C. Varolio
(1543-1575); T . Brahé (1546-1601), astrônomo; W . Gilbert (1540-1603), físico; e mui-
tos outros menos importantes. Nota-se bem a passagem da introspecção individual para a
atividade concreta sobre objetos na Natureza exterior.
O século XVII, porém, é decisivo em virtude da intensa renovação que introduz
no panorama intelectual, com uma plêiade de grandes pensadores seguindo rumo novo.
Aí começa propriamente a Ciência moderna, embora seja ainda poderosa a influência do
passado. Mas, os dados positivos vão-se acumulando em vários setores da atividade inves-
tigadora e, aos poucos, os novos sábios afastam-se da superstição e da invencionice. Veja-
mos mediante que mecanismo, dividindo os pesquisadores em dois grupos conforme a
maneira de enfrentar os problemas relativos à aquisição do conhecimento.
filósofos. Seguem ainda as vias dos períodos precedentes, embora com nova orienta-
ção do pensamento e dando novo objetivo à busca intelectual. Francis Bacon (1561-1626)
e o ilustre iniciador do movimento científico com os seus vários livros em que insti-
tuiu o método experimental e onde discorreu sobre as ciências, sua natureza e impor-
tância para a humanidade. Seguem-se René Descartes (1596-1650) e G. Wilhelm
Leibnitz (1646-1716), os quais trataram explicitamente do valor da experiência para a
obtenção de conhecimentos seguros. P. ex., afirma o primeiro: "Notei, igualmente, no que
diz respeito às experiências, que elas são tanto mais necessárias quanto mais adiantado se
e em conhecimentos." E explica que não podendo um só homem realizar quantas são
precisas, devem comunicar uns aos outros os resultados alcançados; é o embrião da orga-
nização do trabalho científico e da sua difusão universal. Esclarece o segundo que preci-
samos de "uma arte de instituir experiências que sirvam para suprir o que falta aos nossos
dados." Ele próprio fundou uma sociedade de sábios e uma revista para difundir traba-
lhos de pesquisa (Actas Eruditorum; Leipzig, 1682). Outros grandes pensadores da
mesma época, embora não ligados diretamente ao recente sistema de conhecer as coisas,
mas que tiveram funda influência em vários setores da elaboração intelectual, foram:
T. Hobbes (1588-1679), B. Spinoza (1632-1677), J. Locke (1632-1704) e N. Malebran-
che (1638-1715), entre diversos outros menos afamados. Tais homens, de mente poderosa
e convicções firmes, prepararam o terreno para a implantação de profunda renovação de
idéias e de maneiras de pensar.
Cientistas. Entra em cena Galileu Galilei (1564-1642), que inaugura efetivamente
o método experimental — não apenas pensando e escrevendo, mas usando-o em investi-
gações reais. Trata de conhecer e interpretar a Natureza por meio da medida exata dos
fenômenos e de sua expressão mediante fórmulas matemáticas. Para isso, observa e
experimenta, estabelecendo relações numéricas constantes entre os fatores examinados,
as quais permitirão enunciar as leis que governam os fenômenos da Natureza. O meca-
nicismo desponta e vai crescendo paulatinamente. Galileu cria, portanto, uma ciência
físico-matemática da Natureza; não diz o que as coisas são, como o faziam os filósofos,
mas demonstra, pela experimentação e pelo cálculo, como elas se comportam, que prin-
cípios regem os seus movimentos. J á não se cuida de pensar como as coisas são, em sua es-
sência (o que, séculos mais tarde, acabou sendo feito até um ponto bastante apreciável pela
ciência atual), mas de manejar as coisas para conhecê-las efetivamente.
A partir do século XVII, o objeto do conhecimento científico cessa de ser a qualidade
— 22 —

percebida e torna-se a qualidade medida. A física das qualidades é definitivamente substi-


tuída pela física quantitativa. Até tal época, a palavra ciência estava reservada ao conhe-
cimento do ser, ou seja, das coisas eternas, imutáveis (que não existem, sabe-se hoje). A
aparência era uma base contingente do ser e, daí, matéria de opinião. Explicar algo con-
sistia em ir da aparência à coisa em si, à realidade última, essencial. A " a r t e " é que mani-
pulava a aparência, trabalho de artesão. A nova ciência, ao contrário, trata de tomar nas
mãos o concreto e de pensar nele mediante teorias exatas, unindo a teoria à prática. A
antiga fórmula: conhecer é contemplar, tornou-se: conhecer é manipular. Interessante é
que o já citado W. Gilbert, pouco antes de Galileu (em 1600), em seus estudos sobre
magnetismo (ímã), proclama os resultados que alcançou "oriundos de uma nova maneira
de filosofar." Gilbert insistia no valor da experimentação, declarando, p. ex.: " N a desco-
berta dos segredos e na investigação das causas ocultas das coisas, claras provas são forne-
cidas por experimentos dignos de confiança antes do que por advinhação provável e opi-
niões de professores e de filósofos."
O dogmatismo dos filósofos (v. gr., em Descartes e em Spinoza) não se observa aí. A
ciência mecanicista não é uma explicação total, definitiva, pronta já em seus primórdios, e
deixa lugar livre para outras ordens de idéias. O sujeito poderá continuar filosofando,
tratando de metafísica e sendo religioso. Não é, por certo, faceta das menos notáveis que a
quase totalidade desses homens ferrenhamente racionalistas e mecanicistas continue a
crer e respeitar Deus; muitos são mesmo profundamente religiosos, como: Lineu, Descar-
tes, Bacon, Malebranche, Spinoza, Pascal, Newton, etc. A Ciência, afinal, objetiva o
conhecimento dos fatos e das leis naturais.
O trabalho encetado por Galileu, na mesma ocasião e de maneira independente, foi
levado a cabo por William Harvey (1578-1657) na Inglaterra, nos campos da Anatomia e
da Fisiologia. Ele aplicou idêntico método, realizando observações exatas e experiências
precisas, inclusive medindo os fenômenos, sobre o aparelho circulatório e a reprodução
dos animais. Harvey descobriu a circulação do sangue e enunciou o célebre aforisma:
"Omne vivum ex ovo" (todo ser vivo provém de um ovo). Daí para a frente, o pensamento
humano seguiria essa trilha fecunda, embora a Filosofia persistisse com outros interesses
e acabasse por ver-se forçada a tomar como base o labor cientifico (sob a dúbia designação
de "Filosofia da Ciência"; figuras do passado próximo como Comte, Spencer e Bergson,
p. ex., eram donos de grande preparo científico e usaram-no deveras em seus sistemas
filosóficos).
À margem das velhas universidades, que continuavam com o ensino palavroso,
formaram-se núcleos intelectuais novos, inicialmente privados, sob a forma de sociedade
de pesquisadores e de filósofos informais. Surge a Academia de Ciências, em Paris, em
1658, freqüentada por Roberval, Gassendi e Pascal, e. gr. Na Itália, a Academia dei
Lincei, em 1603, onde esteve Galileu, e a Academia dei Cimento, que se comunicava com
a de Paris. Na Inglaterra, a famosa Sociedade Real de Londres, em 1645, que congregava
filósofos, físicos, anatomistas, matemáticos, astrônomos, químicos, e t c , cujos trabalhos
eram baseados na experimentação. Na Alemanha, em 1699, Leibnitz funda a Sociedade
de Ciências, mais tarde transformada em Academia. Tudo isso existe e funciona até este
momento. Concomitantemente, aparecem as primeiras revistas científicas objetivando a
divulgação do conhecimento exato. No passado, nunca houve tal esforço coletivo em
busca da verdade segura e objetiva. Começa o novo racionalismo, que utiliza a razão
humana em sua atividade efetiva. Organiza-se o conhecimento, ordena-se a pesquisa,
unem-se os homens (esquecidos momentaneamente de suas paixões) para trabalhar e
aprender. O que antes era feito individulamente, conforme o gosto pessoal, para a ser feito
em conjunto, mediante método impessoal e universal, e inter-comunicação cada vez mais
ampla. Assim, enquanto há filosofias de Platão, Aristóteles, Spinoza e Hegel, p. ex.,
denotando sistemas estanques de pensamento e produtos individuais (tipos de espíritos
transpostos para o papel), não existem ciências de Newton, Pascal e Einstein — só há a
Física e a Astronomia; e nem ocorrem ciências de Lineu, Pasteur, Fleming e Oswaldo
Cruz — existe apenas a Biologia, à qual todos deram suas contribuições. A Ciência é
impessoal e supra-nacional.
— 23 —

No 17a século, transitando do espírito medieval para o espírito moderno, desenvolve-


se a então chamada filosofia natural (ou experimental) em torno de 1650, sobretudo na
Inglaterra. E que a palavra ciência ainda não tinha o seu uso generalizado. A voz filoso-
fia continuava em utilização, agora adjetivada para indicar a mudança de orientação. A
obra fundamental de Newton denomina-se Phüosophiae Naturalis Principia Mathemati-
ca (1685), isto é: Princípios Matemáticos de Filosofia Natural. Ainda muito tempo depois
dela, encontramos o vocábulo filosofia em títulos de livros afamados, como: Philasophia
Botânica, de Lineu (1751), e Phüosophie Zoologique, de Lamarck (1809). Depois disto, a
palavra Ciência passou a ser universalmente empregada com absoluta exclusividade.
Obras decisivas para a instauração do movimento, em seu início, foram: Novo Órgão
e Dignificação e Progressos das Ciências, de Bacon (1620e 1623); Diálogo e Discursos, de
Galileu (1632 e 1638); Discurso sobre o Método, Meditações e Princípios, de Descartes
(1637, 1641 e 1644). Inúmeros pesquisadores tomaram parte nessa epopéia, devendo-se
mencionar alguns que deram contribuições de apreciável magnitude, tais como: R. Boyle
(1627-1691), físico e químico; I. Newton (1643-1727), físico e astrônomo; O. von Gue-
rricke (1602-1777) e J. B. van Helmont (1577-1644), físicos; P. Gassendi (1592-1655),
astrônomo; T. Bartholin (1616-1680) e T. Willis (1621-1675), anatomistas; O. Rudbeck
(1630-1702), anatomista e botânico; G. A. Borelli (1608-1679), fisiólogo; N. Steno
(1638-1686), anatomista e paleontólogo; M. Malpighi (1628-1694), histólogo animal e
vegetal; N. Grew (1628-1712), anatomista de plantas; A. van Leeuwenhoek (1632-
1723), microscopista; R. de Graaf (1641-1673), anatomista e fisiólogo; T. Sydenham
(1624-1689), médico; A. Q. Rivinus (1652-1723), J . P. de Tournefort (1656-1708) e R. J .
Camerarius (1665-1721), botânicos; J. Ray (1627-1705), zoólogo e botânico; E. Torri-
celli (1608-1647) e B. Pascal (1623-1662), físicos, bem como C. Huygens (1629-1695) e
G. P. de Roberval (1620-1675); J. Kepler (1571-1630) e J. Picard (1620-1682), astrô-
nomos; P. Fermat (1601-1665), matemático; R. Hooke (1635-1703), histólogo; F. Syl-
vius (1614-1672), anatomista; S. Vaillant (1669-1722) e C. Plumier (1646-1706), botâ-
nicos.
Isaac Newton foi o principal responsável pelo crescimento científico, depois de Gali-
leu, com a sua celebérrima mecânica celeste, provida de uma série de fórmulas que permi-
tem calcular precisamente os fenômenos astronômicos, como o movimento dos planetas e
cometas, a gravidade, as marés, etc. Esse labor sofreu crescente incremento, enquanto as
filosofias de Bacon e de Descartes declinaram a pouco e pouco; ao entrar o século XVIII,
o cartesianismo estava abandonado e a Ciência em ascenção. Bem antes disso, já a Socie-
dade Real londrina considerava o mecanicismo cartesiano "personalíssimo" e impos-
sível de ser empregado; seu pensamento era tido como demasiado sistemático e pessoal,
impedindo o livre jogo das idéias, que devem ser modeladas pela experiência (fato de que
o próprio Descartes tinha consciência até certo ponto). O pensador gaulês tentou inter-
pretar todos os fenômenos naturais mediante conceitos mecânicos claros e distintos, po-
rem, o futuro demonstrou a inadequação de uma interpretação exclusivamente mecânica.
Era norma da Sociedade exigir que toda demonstração fosse experimental e todos os
resultados fossem provisórios, passíveis de sofrer ulterior modificação por novas expe-
riências. Em suma, a verdade científica desejada era progressiva e de aquisição gradual;
devia ser modificável de acordo com o progresso realizado. Esse caráter do conhecimento
positivo nunca mudou até hoje. A Ciência caminha pela adição de novos dados, obtidos
pelo labor de muitos ao longo de tempo; apura-se, portanto, continuamente: o seu estado,
em dado momento, é provisório.
Até aquele século, cresceram as ciências da natureza física, do mundo inaminado,
então com os seus princípios organizados sistematicamente. As ciências da vida (bioló-
gicas) e a Química eram também cultivadas, como se vê na relação acima de cientistas,
mas com rendimento menor por falta de metodologia estabelecida. O estudo de animais
e plantas, bem como o trabalho químico, era realizado de maneira irregular, com técni-
cas pessoais precárias e variáveis, incapazes de fornecer resultados coerentes. A Biologia
era ainda um caos de fatos e dados desordenados; e a Química não passava de um con-
junto de conhecimentos sobre as transformações da matéria sem as respectivas leis. Coube
— 24 —

a Karl von Linné (1707-1778), mais conhecido entre nós como Carlos Lineu, com o seu
Systema Naturae (1735), organizar uma classificação dos três reinos da Natureza: mine-
ral, vegetal e animal, e, em seguida, criar normas, hoje universais, para reger a pesquisa
entre os seres vivos. E a Antoine L. Lavoisier (1743-1794) codificar as regras do trabalho
experimental em Química.
Convém esclarecer o seguinte. Os antigos filósofos praticamente só dispunham da
introspecção ou auto-observação para obterem conhecimentos sobre o mundo exterior. A
maneira de discutir que empregavam consistia em explorar o próprio intelecto para des-
cobrir nele as leis do Universo e a solução dos enigmas da vida. Ora, a História prova que
os fatos e leis da Natureza não puderam ser adivinhados. O intelecto humano, concen-
trado em si mesmo e de costas para a realidade, mostrou-se francamente impotente (fora
algumas intuições vagas) para elucidar o mais simples dos mecanismos do mundo e da
vida (basta ver o que pensa Descartes sobre a circulação do sangue, na época mesmo em
que esta foi descoberta). Tal começou somente a ser, realmente, feito depois que se passou
a observá-los, descrevê-los, medi-los, compará-los, sob condições naturais e artificialmente
controladas, segundo suas analogias e diferenças, para chegar ao conhecimento de suas
condições e leis por meio da indução. As soluções filosóficas nunca passaram de solu-
ções verbais, desprovidas de conteúdo positivo. Contudo, rendamos as nossas homenagens
ao esprito racional, indagador, dos filósofos pelo labor que empreenderam na época que
lhes era própria. Agora, porém, a razão humana segue noutro rumo: abandonou a "vaga
região dos princípios filosóficos e dos métodos abstratos'' para penetrar no domínio das
ciências particulares, no terreno da técnica instrumental (Ramon y Cajal, 1942). Tanto
que os filósofos modernos lidam com ciência, conforme informaremos. Feibleman (1961),
p. ex., declara que examinando cuidadosamente a Ciência é possível descobrir nela " u m a
filosofia completa", coisa que ele define assim: "filosofia é um sistema de idéias mais geral
do que qualquer outro" — só isso! A atual atividade filosófica consiste somente em exer-
cer "pela reflexão, a crítica dos resultados estabelecidos pelas ciências", para dar uma
explicação hipotética que sirva de guia ao ser humano... (Abel Rey, 1941).
O subseqüente serve de exemplo de como Ramon y Cajal tem razão. O filósofo G.
Berkeley, em sua última obra (1744), "descobre" (isto é: pensa ou acha) que a água de
akalrão é uma panacéia universal, ou seja, que cura todas as doenças. No título do refe-
rido livro está a frase: "investigações filosóficas acerca das virtudes da água de alca-
trão...", coisa que não existe — a investigação dos efeitos de uma droga curativa é feita
por meio de experiências em animais de laboratório. Noutra obra {De Motu, 1720),
ataca a parte conceptual da física de Newton, a essa altura em pleno curso e franco pro-
gresso. Olhando para dentro de si mesmo só se extraem parcos conhecimentos... Aliás,
um afamado filósofo, enciclopedista, Diderot (1713-1784), dizia: "Desgraçadamente é
mais fácil e rápido consultar-se a si mesmo do que consultar a natureza." Diderot reco-
nhece a impossibilidade de filosofar sem recorrer à experimentação: urge associar os que
refletem aos que investigam, para que o experimental e o especulativo, mantidos em
isolamento, não resultem estéreis e que a verdade seja bem servida. Afirmava que sem o
conhecimento científico não há boa metafísica nem boa moral.
E assim penetramos no 18 s século, no qual é bem maior o número de operários
científicos. Mencionaremos alguns nomes relevantes: G. E. .Stahl (1660-1734), J. Pri-
estley (1733-1804), H. Cavendish (1731-1810), N. T . de Saussure (1767-1845), C. W.
Scheele (1742-1786), K. F. Wenzel (1740-1793) e J . B. Richter (1762-1807), todos quí-
micos; H. Boerhaave (1668-1738), medico e fisiólogo; R. A. F. de Réaumur (1683-1757),
zoólogo, como J. B. de Lamarkc (1744-1829); F. X. Bichat (1771-1802), anatomista
como J. Hunter (1728-1793); I. Hedwig (1730-1799) e J. G. Koclreuter (1733-1806),
botânicos; S. Hales (1679-1761), fisiólogo vegetal; A. von Haller (1707-1777), fisiólogo;
C. Bonnet (1720-1793), biólogo; L. Spallanzani (1729-1799), fisiólogo; C. F. Wolff
(1733-1794), embriólogo; L Euler (1707-1783), J . L. Lagrange (1736-1813), J. H.
Lambert (1728-1777), N. Bernouilli (1687-1759), D. Bernouilli (1700-1782) e J. Le R.
D'Alembert (1717-1783), todos matemáticos; L. Carnot (1753-1823), ] . Bradley (1693-
1762), F. Fourier (1768-1830), A. Celsius (1701-1744), C. F. Du Fay (1698-1739), G.
— 25 —

D. Farenheit (1686-1736), D. Fapin (1647-1714), S. Gray (1666-1736), B. Franklin


(1706-1790), W. Watson (1715-1787), C. A. Coulomb (1736-1806) e A. Volta (1745-
1827), todos físicos; E. Halley (1656-1742), astrônomo como F. S. Laplace (1749-1827);
A. von Humboldt (1769-1859), geógrafo; G. L. Buffon (1707-1788) e A. Trembley
(1700-1784), zoólogos; F. Vicq-D'Azur (1748-1794), anatomista; A. L. Jussieu (1748-
1836), E. Acharius (1757-1819), J. Dillen (1687-1747) e N . J a c q u i n (1727-1817), todos
botânicos; A. G. Werner (1750-1817), J . Hutton (1726-1797) e J . E. Guettard (1715-
1786), os três geólogos; R J . Haüy (1743-1822), mineralogista.
E o "grande século". O progessso científico firma-se. J á se começa a viver à custa do
pensamento e da pena; o cientista (savant, em vernáculo: homem de ciência) passa a ser
admirado e repeitado. Antes, abrir caminho no meio social exigia a farda ou sotaina.
A atividade científica liga-se à vida da sociedade. Forja-se a Educação, instrumento do
progresso social.
No século subseqüente, X I X , os pesquisadores constituem legião maciça. Inicia-se o
século com um fator inédito — a Técnica, cujo desenvolvimento gera a chamada Revolu-
ção industrial — que irá, até nossos dias, conformar uma nova sociedade, ou seja, a atual.
Vejamos alguns nomes altamente representativos.
G. Cuvier (1769-1832), zoólogo e paleontólogo; J . F. Meckel (1781-1833), anato-
mista; H. M . D. de Blainville (1777-1850), zoólogo e fisiólogo, de quem Auguste Comte
auferiu a maioria dos seus conhecimentos biolgicos; J. J. Berzelius (1779-1848), químico;
K. E. von Baer (1792-1876), embriólogo; F. Magendie (1785-1855), C. Bernard (1813-
1B78) e j . E. Purkinje (1787-1869), fisiólogos; J. MUer (1801-1848), fisiólogo e anato-
mista; H. Mohl (1805-1872) e T . Schwann (1810-1882), citólogos; M . J . Schleiden
(1804-1881), botânico; A. A. Koellicker (1817-1905), histólogo; R. C. L. Virchow
(1821-1902), patologista; F. Wohler (1800-1882) e J . Liebig (1803-1895), químicos;
L. L. Mayer (1814-1878), físico; H. L. F. Helmholtz (1821-1894), físico e biólogo; R.
Owen (1804-1892), anatomista; K. G. F. R. Leuckart (1822-1898), H. M . Edwards
(1800-1885), A. R. Wallace (1823-1913), T. H. Huxley (1825-1895) e J. L. R. Agassiz
(1807-1873), todos zoólogos; L. Pasteur (1822-1895), microbiologista e químico; R.
Brown (1773-1858), A. P. De Candolle (1778-1841), C. F. P. von Martius (1794-1868)
e A. Saint-Hilaire (1779-1853), todos botânicos; C. Lyell (1797-1875), geólogo; C.
Darwin (1809-1882), zoólogo e botânico; C. Gegenbaur (1826-1903), anatomista; E. H.
Haeckel (1834-1919) e F. Müller (1821-1897), zoólogos; E. Strasburger (1844-1912),
E. Warming (1884-1924), H. de Vries (1848-1935) e J. G. Mendel (1822-1884), todos
botânicos; C. Golgi (1844-1926) e L. A. Ranvier (1835-1922), citólogos; H. H. R. Koch
(1843-1910) e E. K. Hansen (1824-1909), microbiologistas; A. Laveran (1845-1922),
parasitologista; C. Flammarion (1842-1925), astrônomo; C. W . Naegeli (1817-1891),
botânico e citólogo; A. F. W. Schimper (1856-1901), fitogeógrafo; A. Weissman (1834-
1914), biólogo; E. D. Cope (1840-1897), paleontólogo; J. Loeb (1859-1924) e M . Ver-
worm (1862-1921), fisiólogos; P. Curie (1859-1906),'.VI. Faraday (1791-1867), W.
Crookes (1822-1919) e H. R. Hertz (1857-1894), todos físicos; J . L. Gay-Lussac (1788-
1850), J. Dalton (1766-1844), M. Berthelot (1827-1907), H. Davy (1778-1829), J. H.
Vant'Hoff (1852-1911) e E. Fischer (1852-1919), todos químicos. Esta lista poderia fa-
cilmente ser multiplicada por várias centenas...
No 19» século ainda subsiste a atividade intelectual especulativa denominada filo-
sofia. Grandes sistemas desse tipo de elaboração mental são criados nele. Uns, de base
total ou predominantemente científica, tais como o positivismo de A. Comte, o evolucio-
nismo de H. Spencer, o monismo de E. Haeckel e o espiritualismo de H. Bergson. Outros,
quase que somente introspectivos, visões pessoais dos problemas vitais e sociais, como os
sistemas de Maine de Biran, J. G. F. Hegel, K. Marx, F. Engels, A. Schopenhauer, C.
Renouvier e W. [ames, entre os mais conhecidos.
O século XX toma início com duas grandes revoluções científicas. A relatividade de
Albert Einstein origina uma nova física; em o nível subatômico, surge a mecânica ondu-
latória, aplicável a partículas mínimas em movimento, diferente da mecânica clássica ou
newtoniana, que descreve o movimento dos grandes corpos. A segunda é o estabeleci-
— 26 —

mento das leis da hereditariedade, de que se ocupa uma ciência recém-criada então: a
Genética, hoje operando na intimidade da célula por meio da Bioquímica, sobre os fato-
res primários da transmissão dos caracteres de pais para.filhos (ou genes). Mas, em todos
os setores do conhecimento da Natureza, inclusive do Espírito, o progesso é enorme e
cada vez mais intenso. De pouco vale citar nomes de sábios de laboratório, pois somam
alguns milhões. Daremos apenas alguns exemplos, abaixo.

W. C. Roentgen, M. Planck, N. Bohr, É. Fermi, L. de Broglie, C. Lattes, G. Mar-


coni, R. Millikan, N. Wiener, E. Rutherford, J. Chadwick, J. Rosenberg, J. J . Thonson,
M. Curie, W. Heisenberg, I. Curie, S. A. Arrhenius, F. Svedberg, S. P. H. Sorensen, W .
Ostwald — físicos. A. Szent-Gyorgyi, P. Karrer, L. Pauling, C. Djerassi, V. Asahina, J.
Monod, G. Domagk, J. Bonner, W. B. Mors, E. Abderhalden, B. Tollens, V. Grignard,
S. Shibata, L. L. van Slyke — químicos; C. Correns, E. Tschermak; T. H. Morgan,
A. H. Sturtvant, T. Dobzhansky, H. J. Moller, C. D. Darlington, J. S. Huxley, C.
Pavan, F. G. Brieger, J. D. Watson, J. Clausen.J. W. Beadle, 5. Wright, L. Stebbins,
L. C. Dunn, J. B. Haldane — geneticistas; E. Mair, P. Grasse, L. Cuénot, J. A. Cabrera,
A. M . Ribeiro, H. Lent, L. Travassos, G. L. Jepsen, J. Moure, F. Werner, R. L. Usi-
ger — zoólogos; J. B. Rodrigues, A. Ducke, A. Engler, R. Wettstein, I. Urban, H. J.
Lam, A. W . G a l s t o n , K. V. Thimann, E. B. Bartram, F. W. Went, W. Crocker, G.
Erdtman, R. Heim, C. Epling, R. Woodson Jr., K. Goebel, J. Eames, S. J. Record —
botânicos; C. Ghagas, B. Houssay, C. Richet, A. Sabin, R. Dubos, A. Garrei, I. P.
Pavlov, V. B. Cannon, W. R. Hess, S. Ramon y Cajal, E. Brumpt, F. G. Banting, A.
Fleming, S. A. Waksmann, J. N. Langley, F. Fulton — nas ciências médicas; S. Freud,
A. Adler, C. G. Yung, K. Horney, E. Fromm, R. May, M. Klein, J. Dewey, J. B.
Watson, B. F. Skinner, J. B. Rhine, R. Spitz, E. L. Thorndike.J. Piaget, K. S. Lashley,
W. Penfield, H. F. Harlow, W. McDougall — psicólogos; J. Jeans, astrônomo; G. G.
Simpson, W. C. Darrah, K. Beurlen, O. Jaeckel, H. Schindewolf, E. Dacqué, E. Ember-
ger, R. S. Lull, C. Arambourg, F. W. Lang, R. Broom — paleontólogos; F. E. Clemen-
ts, R. .Schnell, F. Rawitscher, M. G. Ferri, P. F. Wareing, M . Evenari, A. Lang, P.
Binet, O. Stocker, C. Killian, H. Gaussen, R. Germain, J . Lebrun, I. Hayashi, M .
Numata — ecólogos.

Após esta longa, porém necessária, introdução, que ocupa metade da dissertação,
seguem-se os dois pontos de Filosofia da Ciência, mencionados no título.
— 27 —

FILOSOFIA E CIÊNCIA: MANEIRAS DE PENSAR E DE CONHECER


Não existe a "Filosofia". Tudo o que se conhece com o nome de Filosofia e de sis-
tema filosófico são produtos individuais. Mediante a anteriormente citada introspecção, o
filósofo dos séculos passados concebia soluções para os problemas que acontecia abordar;
e como não dispunha senão de escassos conhecimentos fragmentários, tais soluções ti-
nham muito de imaginação e preconceito pessoais. Mas, em se tratando de espíritos evol-
vidos, dotados de profunda intuição, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Bacon, etc,
importantes contribuições foram dadas à humanidade. Mais importante ainda foi o espí-
rito racionai de investigação que inauguraram, em épocas sombrias do pensamento
humano. Todavia, tudo não passava de contribuições individuais, sem base na realidade,
seja exterior, seja interior; neste último caso, excetua-se apenas o que diz respeito aos
aspectos gerais do espírito humano, como o que estabeleceu Sócrates sobre a moral e
Aristóteles sobre a lógica, e as relações numéricas que constituem a matemática. Por isso,
vários filósofos negam fundamento às filosofias anteriores às suas próprias, como Bacon,
Descartes, Comte, Proudhom e Husserl, por exemplo; mesmo Aristóteles discordava
abertamente de Platão, etc, e no curso dos séculos, da Antigüidade à Renascença, sem-
pre houve magnos entrechoques de idéias pessoais, pois, cada um julgava enxergar a ver-
dade melhor do que os predecessores — procedendo exatamente da mesma maneirai
Do que acaba de expor-se, servem de exemplo as bizarras afirmações do ilustre
(por outras razões) filósofo e matemático René Descartes. O trovão era o ruído de duas
nuvens caindo uma sobre a outra; as fontes e nascentes d'água vinham do mar, que subia
pelas.fendas do solo; os animais são mecanismos cegos e a mulher não tem alma. Sua
dissertação sobre a circulação, na mesma época em que Harvey tratava o assunto expe-
rimentalmente, é uma peça de museu. Ele zombava de Pascal porque este subira uma
montanha para apreciar o desnivelamento da coluna de mercúrio do barômetro. Em su-
ma, buscava soluções para os problemas dentro de si mesmo; e sempre que nada pudesse
aí descobrir, inventava.
Assim explica-nos o famoso físico Louis de Broglie o papel da Filosofia, ainda hoje
— opinião que muitos expressam (Bertand Russel, Abel Rey, A. Comte, J. Dewey, L.
Büchner, D. Diderot, v. gr.). Ela procura resumir, numa síntese suprema, o conjunto dos
conhecimentos humanos, submetendo a uma crítica comparativa os métodos empregados
para obtê-los; depois, tenta ultrapassá-los edificando sistemas e teorias que, embora
frágeis, correspondem às aspirações da alma humana. Isto é simplesmente de execução
impossível. Primeiro, ninguém consegue dominar nem sequer a milésima parte dos
conhecimentos acumulados pelas ciências e não poderá, portanto, obter uma representa-
ção do mundo suficientemente completa. Segundo, não é possível, como Comte fez notar,
avaliar os resultados dos métodos sem conhecimento pessoal prático do uso dos mesmos.
Em verdade, o que fazem os filósofos (quando tentam ultrapassar os conhecimentos de que
não dipõem) é considerar os dados que lhes interessam ou convém, que se encaixam no
esquema pessoal, e com eles comporem um sistema privado, que oferecem como grande
novidade. Assim procederam mesmo sábios quando filosofaram, como, ex. gr., Bertrand
Russel, Julian Huxley, L. de Broglie, os behavioristas, etc; todos ignoram, por exemplo,
a pesquisa psíquica, que lhes criaria pesados problemas conceptuais. Tal impedimento é
natural em virtude da complexidade das descobertas e teorias científicas contem-
porâneas, que não podem ser explicadas em linguagem usual nem compreendidas à luz
das experiências humanas comuns. A respeito, esclarece o famoso físico nuclear R. Oppe-
nheimer (1962): "Considero assim que os grandes efeitos das ciências no sentido de esti-
mular e enriquecer a vida filosófica e o interesse cultural confinam-se forçosamente aos
primeiros tempos do seu desenvolvimento". Nas etapas iniciais de cada ciência, os fatos
e concepções mostram-se compreensíveis; depois, afastam-se tanto da experiência vulgar
que só poderão ser dominados mediante preparo especial da mente.
O antecedente permite-nos compreender opiniões à primeira vista exageradas.
Anatole France afirmou que "os sistemas (filosóficos) construídos pelos sábios são contos
para divertir a eterna meninice do homem... A Filosofia e a Literatura são as Mil e uma
— 28 —

Noites do Ocidente". Eis a definição espirituosa que Eugene Nus nos transmite de Filoso-
fia: "Jogo de palavras; fantasias de dicionário; análise do vazio; síntese do falso".
Exato discernimento revela Dilthey. Explana que a Filosofia é uma expressão tem-
poral do pensamento que se baseia em dados subjetivos e vividos e cuja finalidade é obter
uma concepção do universo como todo ou apreender o ser latente sob a aparência das coi-
sas e acontecimentos. E sempre uma construção pessoal e só pessoal, afirma o mesmo au-
tor, e, como as condições são intransferíveis, a História desenterra da vida tantas filoso-
fias quantas são as maneiras de pensar sobre o todo com alguma coerência, lógica e consis-
tência científica, e quantos são os problemas abordados. Para Dilthey, não há uma única
filosofia verdadeira — porque o mundo e a vida, como objetos de pensamento, não podem
ser separados do pensamento que os analisa e porque cada ser humano é limitado: logo,
cada pensador e cada filosofia representam simplesmente uma das múltiplas possibilida-
des do viver, sentir e pensar, em épocas e lugares diferentes. Este ponto de vista foi emitido
também por: J. F. Fries (1773-1843), G. Simmel (1858-1918), R. Descartes, P. Ubaldi,
E. Husserl, entre outros.
Em síntese, as filosofias são sistemas de idéias com as seguintes características: 1) in-
dividuais, razão de especificar-se: filosofia de Platão, de Hegel, etc; 2) subjetivos, isto é,
uma observação do que se passa dentro de si mesmo; 3) limitados no tempo, donde expres-
sões como: filosofia do século 16, filosofia medieval, etc; 4) nacionais, donde dizer-se: filo
sofia grega, alemã, etc; 5) acabados, ou seja, entregues prontos pelos seus autores e não
perfectíveis por outros, não progressivos nem cumulativos; 6) incompatíveis entre si por
expressarem inclinações pessoais, visões particulares das coisas tratadas; 7) que nunca
produziram qualquer utilidade, nem um parafuso; 8) neles, a verdade é considerada defi-
nitiva, adquirida de uma vez para sempre; 9) de aprendizado puramente individual. Tudo
isso estava preso aos conhecimentos e modos de ser das épocas e das pessoas; logo, era
muito variável.
A Ciência possui índole completamente diversa. Só há uma — a Ciência, que apre-
senta as seguintes características: 1) coletiva e impessoal, dando pouca margem a posições
particulares e opiniões individuais; 2) objetiva, por basear-se no método experimental,
sendo a participação pessoal limitada segundo normas universais; 3) capaz de desenvolvi-
mento ilimitado ao longo tempo, visto serem as atividades cumulativas; 4) internacional,
ou melhor, supranacional: os homens de Ciência trabalham juntos porque a tarefa geral
é uma única; 5) o edifício científico é progressivo: as realizações são parciais e efêmeras,
sempre superadas por outras melhores; todo cientista parte do ponto mais alto alcançando
por seus predecessores e pode ir além (por exemplo, Sabin chegou onde Pasteur não so-
nhava, mas foi este quem abriu o caminho para ele); 6) os sistemas de idéias científicas são
mais do que compatíveis entre si: encaixam-se uns nos outros formando um conjunto har-
monioso; assim, conquanto sejam concepções radicalmente diversas, não há nenhuma di-
vergência entra a teoria da evolução e a teoria atômica — ambas baseiam-se em fatos posi-
tivamente verificados e expressam verdades naturais, conforme a mente atual consegue
entendê-las; 7) modificou a face da Terra, melhorando as condições da existência huma-
na; 8) a verdade é limitada e crescente, aperfeiçoando-se sempre; 9) transmite-se por con-
tinuidade, pois, Ciência aprende-se em contacto com os que sabem, exigindo treinamento
desde cedo.
Em suma, o conhecimento científico é verificado, reproduzível e organizado porque
se baseia na evidência fatual obtida em condições controladas. Não é definitivo: afirmações
irrefutáveis não são científicas, visto estas serem modificáveis mediante novas verificações.
O principal motivo do progresso da Ciência é submeter à crítica as soluções propostas a
questões específicas. "A crítica gera o progresso", a "verdade inabalável gera a estagna-
ção", esclarece Hegenberg (1969).
Em virtude desses caracteres, tem sido fácil ao homem, seja de que povo ou tradição
cultural for, aceitar a Ciência. Ela só ensina o que é reproduzível e certo (embora alterá-
vel) e informa como sujeitar as coisas do mundo ao uso pelo homem. Hoje, os países mais
atrasados aderiram a ela — e até já a utilizam mal! Não nos venham os pessimistas acusar
— 29 —

a Ciência de ajudar a fabricar venenos, bombas e armas, nem dizer que ela propicia o de-
senvolvimento da máquina, escravizadora de homens (que, antes dela, eram escravos da
miséria e da prepotência). Os aspectos negativos originam-se da visão embotada dos que
assim procedem; como tudo o mais que é humano, a Ciência é e será o que dela fizerem os
homens, seus senhores. Ao homem prático, leva a só procurar as realizações técnicas e a
aumentar o cabedal dos seus negócios; pode ajudá-lo a transformar-se num bárbaro egoís-
ta que encara os outros friamente como possíveis meios de ganhar mais. Ao cético, para
quem nada é verdadeiramente falso, nada é imoral ou moral, e tudo é " n a t u r a l " , auxilia-
rá a nutrir o egoísmo sutil e requintado que anda sempre à cata de novas sensações. Ora,
um e outro são tipos de espírito que sempre existiram e não néo-criações científicas.
A Ciência é antes e acima de tudo, um fator de desenvolvimento da inteligência e de
progresso material (e mesmo espiritual); comunente consideram-na como a própria razão
em atividade. Ora, o espírito humano não é formado somente de inteligência e a cada es-
pécime compete descobrir em si mesmo tal Jato... usando a mesma inteligência que a Ciên-
cia incrementa. Descobrindo, que procure satisfazer o outro componente, o afetivo, onde
residem sentimentos, emoções e senso moral. Se existem, devem ser objeto de considera-
ção. O papel da máquina é evidente: vai sendo e será cada vez mais um meio de liberta-
ção do ser humano em relação aos mais pesados, absorventes e tediosos trabalhos materi-
ais; dará, por fim, a ele, no futuro, tempo e lazer para atividades mais elevadas no domí-
nio do espírito.
Graças aos meios fáceis de comunicação rápida que ela descobriu e a Técnica reali-
zou, a Ciência pode espalhar-se, visto não haver senão frágeis barreiras mentais no seu
caminho: ela é desejada porque resolve os angustiantes problemas materiais e, até certo
ponto, tem ajudado a esclarecer os problemas espirituais. Por esse caminho, vai congre-
gando os homens em torno de si, o que se percebe pelo número astronômico de publica-
ções, periódicos e livros, congressos, simpósios e toda sorte de reuniões para troca de in-
formações. Dentro de cada um desses conclaves, os homens não mudam e mantêm seus e-
goísmos, vaidades, etc. — mas, um interesse comum, de base cooperativa, une suas mentes
numa espécie de campo neutro, no qual vigoram regras implícitas que todos observam. Ao
contrário, filosofias e religiões sempre dividiram os homens em escolas e seitas, as quais
se entrecombatiam, não raro sangrentamente.
Outra contribuição da atividade científica é a mudança de mentalidade que, pouco a
pouco, opera no homem comum, favorecendo o entendimento inter-humano. O noticiá-
rio de todos c/s meios de divulgação, a despeito das muitas violências, revoltas e desatinos
atuais, sempre põe em evidência novas descobertas científicas, novas realizações técnicas,
viagens espaciais, e t c , resultados esses que são admirados pela maioria. Cada cientista
que desembarca é logo objeto de notícia e assim por diante.
Mas, voltemos um pouco mais à questão das relações entre as duas atividades intelec-
tuais em pauta.
Na época moderna, os filósofos vêem-se forçados a lançar mão dos conhecimentos
científicos — que pretendem sistematizar e ultrapassar, como vimos, com o fito de consti-
tuírem sistemas pessoais cujo escopo é explicar incompreensivelmente o que não chegaram
a entender plenamente. Segundo os positivistas, a Filosofia tem por função generalizar os
resultados das ciências particulares objetivando unificar os conhecimentos. Para os néo-
kantianos, ela reconhece por meta a teoria do conhecimento, no sentido de reflexão crítica
das condições que permitem a existência da Ciência. Confronte a citação que fizemos an-
teriormente de Feibleman (1961), consoante a qual existiria uma filosofia completa na Ci-
ência. Assim, a filosofia atual é científica e, embora só aqueles autores se ocupem com tais
idéias, o fato é que a Filosofia passou a integrar-se com a Ciência, deixando manifesto que
tao-somente através da metologia científica pode adquirir-se o conhecimento das coisas
naturais, inclusive humanas.
Em 1911, um filósofo alemão célebre, E. Husserl, publicou um opúsculo introdutó-
rio de suas idéias: " / l filosofia como Ciência de Rigor" após, declara, "decênios de me-
ditação dirigida exclusivamente para esta meta", no qual procurou erigir uma filosofia
que pudesse "apresentar-se como Ciência". Vê-se logo que ele, no afã de metodizar os co-
— 30 —

nhecimentos humanos, embaralhou tudo numa mistura sem precedentes, pois, identifi-
ca as duas operações racionais sem considerar as fundas discrepâncias acima apontadas.
Outros que tiveram idéia do mesmo naipe, embora menos elaborada e mais apressada,
foram: L. Büchner ("filosofia crítica e experimental", "substituir uma filosofia de pala-
vras por uma filosofia de fatos"), R. Virchow ("se a filosofia quer ser a ciência da reali-
dade, é preciso que siga o caminho das ciências naturais e procure na experimentação os
objetos de suas investigações e de seus conhecimentos. Tornar-se-á, então, não só no seu
conjunto, mas no seu método, uma ciência natural" — como pode?), B. Russel ("os resul-
tados obtidos pela Filosofia não são radicalmente diferentes do alcançados pela Ciência"
— francamente...), Bergson ("a Filosofia apoia-se sobre a Ciência e a supõe"), J . Rehmke
("A Filosofia como Ciência Experimentar — apesar do título declara Husserl em erro,
embora pretenda o mesmo que ele), por exemplo. Este último serve de paradigma perfeito
em face do alto grau de elaboração reflexiva, em matéria de confundir os dois métodos de
obter conhecimento.
Husserl achava que as filosofias anteriores eram destituídas de fundamento sólido,
declarando-as baseadas em pontos ede vista particulares, o que já sabemos ser certo. An-
siava por uma filosofia que se mostrasse " a mais rigorosa de todas as ciências", fornecen-
do "o conhecimento puro e absoluto" — como se as duas fossem iguais e houvesse algo
absoluto no limitado reino humano. Pretendia mais: que, no futuro, a Filosofia se desen-
volvesse "como ciência rigorosa", por adições sucessivas tal como acontece às ciências atu-
ais. Em uma palavra, o que ele almejava não era uma "filosofia", mas uma verdadeira ci-
ência... sem usar o método experimental, só empregando a instrospecção.
O que é curioso é o fato de Husserl conhecer bem o caráter da Ciência; sabia tratar-
se de conhecimentos coletivos, impessoais, objetivos, etc. Afirmava ele que "só a Ciência
pode trazer decisões e estas são eternas", que "talvez não haja outra idéia mais poderosa,
mais progressiva, em toda a vida moderna, do que a Ciência", a cuja "marcha triunfal
nada se oporá", e que ela é a expressão da "própria razão, que não poderia ter outra au-
toridade igual ou superior". A par disso, reconhecia que, na Filosofia, tudo é discutível
porque reflete convicções individuais e dependência de escola. Como, pois, sendo tão luci-
damente esclarecido (e até exagerado), pretendeu ele criar uma filosofia semelhante a uma
ciência? Como não percebeu tamanha soma de contradições?
O que o nosso filósofo, e com ele muita gente digna, não compreendeu é que as pro-
fundas divergências metodológicas e conceptuais que.existem entre Filosofia e Ciência pro-
cedem de serem, ambas, fases distintas do desenvolvimento do intelecto humano. Vimos
que a filosofia clássica se situa no passado longínquo, no horizonte profético, razão porque
pertence a um nível mental muito diverso do atual. Sem o princípio universal da evolução,
nada é compreensível em nenhum setor. Elas são mutumamente exclusivas — A Ciência é
forma moderna de obter conhecimentos e as filosofias são a forma antiga — porque têm a
significação de dois estágios evolutivos da inteligência humana. Ora bem, uma fase da evo-
lução, seja orgânica ou psíquica, quando superada torna-se irreversível. Daí as atividades
filosóficas não terem mais sentido; hoje, é a experimentação que fecunda o espírito huma-
no. Isto explica as opiniões dos raros cientistas que se dignaram a expor o que pensam do
labor filosófico. Ouçamos o eminente geneticista Julian Huxley (1957): as especulações
dos filósofos gregos sobre os elementos fundamentais que constituem o mundo e sobre a e-
volução "podem ser corretamente descritas como um conjunto de mitos filosóficos", ao
passo que as opiniões da Ciência atual "repousam sobre a experiência testada e organiza-
da". O mesmo dizia T. H. Morgan, um dos criadores da moderna teoria da evolução. E o
físico e matemático Bertrand Russel (1956): "Nenhuma filosofia pode ignorar as mudan-
ças revolucionárias que se operaram em nossas idéias físicas, que os homens de ciência
acharam necessárias; com eleito, pode dizer-se que todas as filosofias tradicionais foram
postas de lado — e que teremos de partir de novo com o mínimo respeito possível pelos
sistemas do passado". E o biólogo L. Büchner (1892): " O s filósofos viram levantar-se di-
ante deles, como uma barreira insuperável, o cortejo das ciências experimentais. Os siste-
mas destroem sistemas, uma opinião contradiz uma outra e vê-se reinar por toda a parte a
dúvida, o possível e sobretudo o provável; tantos espíritos especulativos, tantas filosofias.
— 31 —

Toda solução dum problema filosófico que não tenha em conta os resultados obtidos por
essas ciências, é falsa e sem valor". Bacon e Descartes, séculos antes, não eram mais favo-
ráveis; observa o segundo que a Filosofia, conquanto "cultivada pelos espíritos mais sele-
tos que já existiram", "nada encerrava que não fosse objeto de disputa e por conseguinte
duvidoso..." É por isso que Descartes insistiu bastante na necessidade de obter conheci-
mento mediante a montagem de experiências, embora nada fizesse pessoalmente neste
sentido e preferisse o papel de adivinho. É, portanto, a Filosofia uma atividade própria de
épocas recuadas. Assegura J . Nuttin (1963) ser uma "idéia muito corrente entre os ho-
mens de ciência de que a explicação filosófica corresponde a um estágio inicial de nossos
conhecimentos nos domínios ainda pouco explorados pela pesquisa experimental". Tal
e a verdade, tendo mesmo Monteiro Lobato chamado o filósofo de "avant-coureur do
cientista".
O ilustre pensador paulista, Herculano Pires (1960), excusou-se de confundir as du-
as operações intelectuais: "Por sua função e natureza, portando, a Filosofia se distingue
da Ciência". Esta possui objeto exterior; os filósofos, ao contrário, "se debruçam sobre 0
próprio pensamento, operam no interior de si mesmos". E exatamente isto!
Embora reconheçamos que a Filosofia foi a primeira explosão da inteligência para
conseguir o conhecimento, era um trabalho puramente racional e introspectivo; os filóso-
fos, nada mais podendo fazer, entronizaram a razão e por meio dela, exclusivamente,pre-
tendiam explicar tudo — tudo! Bons observadores houve no passado, mas o método expe-
rimental só se constitui, aos poucos, a partir dè Galileu, que, em 1600, construiu a luneta
telescópica e investigou as crateras lunares, etc. O filósofo pensa, o cientista sua...
Ignorando a evolução, Husserl pretende algo que jamais existiu: "o conhecimento pu-
ro e absoluto", coisa impossível até de definir. Queria um "objeto universal" e uma "ba-
se absoluta", noções que nenhuma ciência reclama. Posto isto, desconheceu o caráter
progressivo, ao longo do tempo, das concepções da inteligência humana. E vai por aí a
fora usando uma linguagem, esta sim, absolutamente ininteligível, enredando-se numa
serie de nebulosidades e acaba naufragando num mar de incertezas apresentadas como
certezas e verdades absolutas. E o mais interessante é que há gente que se ocupa seriamen-
te de coisas desse tipo, pretendendo interpretar "o pensamento" do filósofo.
Bem ao contrário de Husserl, o ilustrado pensador Jaspers (1951) aborda profien-
temente o tema relativo ao que são Ciência e Filosofia e como diferem uma da ou-
tra. Entre muitos conceitos lúcidos, afirma, e. gr., que o cientista há de preparar-se previ-
amente para labutar na seara positiva, enquanto o filósofo pode dispensar estudo prévio:
Nossa própria humanidade, nosso próprio destino humano, nossa própria experiência
conferem-nos uma base suficiente para formular opiniões filosóficas". Todo homem deve
realizar o pensamento filosófico por si mesmo, pois, "filosofia espontânea não se encon-
tra somente nas crianças, mas também nos insanos". Isto é natural, porque, pensa J a s -
pers, o pensamento filosófico varia enormemente, é cheio de contradições, de pretenções
exclusivistas à posse da verdade. Quanto ao conhecimento científico e ao valor e significa-
ção da Ciência, o seu parecer concorda com o aqui exposto, conforme é hoje habitual. Fi-
losofar é, sobretudo, aprender a viver e saber morrer, pontifica. "A Ciência é uma coisa
maravilhosa na qual se pode confiar mais do que em qualquer outra coisa, a mais signifi-
cativa realização do homem em sua história — sem a Ciência, sabe-o o filósofo, sua pró-
pria busca desvanece-se em n a d a " .
Estes exemplos servem para encerrar a presente discussão. A Filosofia é uma fase su-
perada do desenvolvimento intelectual da humanidade, cujo valor é apenas histórico. A
Ciência é a fase moderna da evolução psíquica, embora só atenda ao componente racional
do espírito, deixando o componente afetivo a cargo de cada um. Por isso, filosofar hoje em
dia é tratar de argumentos científicos à moda antiga, fora dos padrões estabelecidos pela
Ciência.
No período que vai do início do século passado ao princípio do atual, uma série de
sistemas filosóficos, baseados nos conhecimentos assentados pelas ciências, foram ofereci-
dos ao mundo. Bem conhecidos são: o positivismo de Comte, o evolucionismo de Spencer,
o monismo de Haeckel e a evolução criadora de Bergson. Verificou-se, porém, que, após
— 32 —

breve período de refulgência, todos eles mergulharam rapidamente no'esqueeimento. Por


que? Pelo simples fato de o velocíssimo crescimento da Ciência logo tê-los tornado obsole-
tos. Basta acentuar que Comte, o mais importante dos citados, nega a evolução biológica,
afirma a fixidez das espécies vivas e proclama irracional a divisão da Química em inorgâ-
nica e orgânica — todos fatos banais ao nível ginasial...
Toda vez que um pensador organiza um sistema, ele circunscreve os fa-
tos conhecidos dentro da moldura de princípios gerais que estabeleceu. Cria, assim, uma
estrutura esquemática rígida que, mais tarde, não pode adaptar-se aos novos jatos desco-
bertos — mas estes é que teriam de sofrer modificações para serem nela inseridos. As
grandes teorias científicas (que correspondem aos sistemas filosóficos), muito ao contrá-
rio, são perferiveis e aprimoram-se continuamente nos detalhes, à medida que fatos novos
surgem. Por outro lado, sempre que idéias, conceitos ou fenômenos se recusam a ser
enquadrados no sistema, o autor simplesmente ignora-os. Considere-se o maior e mais
genialmente concebido sistema filosófico moderno, dado o imenso preparo científico do
autor e o volume relativamente pequeno de informações científicas da época: o positivisr
mo comteano. Vimos, logo atrás, que ele negava validade à evolução — pouco depois
lançada, com pleno êxito por Darwin sob a designação de transformismo; ao demais,
combateu a unidade da matéria, hoje banalidade, e declarou ser impossível conhecer a
composição química dos corpos celestes, quando, além de conhecê-la por instrumentos,
o homem recolheu diretamente rochas na superfície da Lua. Tal foi o destino de todos os
demais sistemas.
A natureza estanque dos sistemas, sua delimitação definitiva, é a principal causa da
pouca duração que demonstram. A construção de sistemas é jrontalmenle contrária á ín-
dole da Ciência. Nenhum cientista se ocupa com filosofia. A Ciência, espontânea e natu-
ralmente, unifica uma multidão de fatos sob o título de teoria. Mas, uma teoria científica,
como a Ciência em geral, é contínua e indefinidamente modificável; admite novos fatos e
hipóteses. Por isso, o que hoje é válido, amanhã poderá ser alterado — até que todas as
possibilidades sejam investigadas e o conhecimento adquira estabilidade.
J á não se levam, portanto, a sério tentativas de organizar sistemas fechados mediante
a congregação de dados científicos.
N. B. 1 — Notar-se-á que nada se disse acerca da Arte. Ê natural. A Ciência é a
descrição da Natureza pelo raciocínio; a Arte o é pela imaginação. As realizações artís-
ticas saem acabadas das mãos do artista; são espontâneas, definitivas, nacionais, indivi-
duais, e assim por diante. Os resultados são mais importantes do que as técnicas; ninguém
procura saber como foi pintada uma tela ou composta uma sinfonia: o que importa é a
beleza, é a sensação íntima de satisfação, é a harmonia que traz ao pensamento. E neste
rumo não precisamos continuar. Ê bom, contudo, lembrar que há muito de Arte nas pro-
duções da Ciência. Ambas encontram-se na área da Técnica: a Ciência, quando apli-
cada, torna-se uma arte. Sprengler (1922) dizia que há mais inteligência, e até mais bom
gosto, em qualquer empreendimento de engenharia de primeira classe do que em toda
a música e pintura da Europa contemporânea; achava mais belo um transatlântico, um
torno de precisão, uma fórmula matemática ou uma teoria física do que os produtos atuais
das artes e ofícios.
N. B. 2 — A Filosofia, inegavelmente, desempenhou papel altissimamente relevante
na Antigüidade. Ela surgiu do desejo de conhecer os mundos exterior e interior, para
atender a uma necessidade do espírito humano, cuja capacidade ultrapassava a vulgarida-
de do quotidiano e que procurava orientação superior, objetivando satisfazer aspirações
mais elevadas. Procurou desenvolver sistemas de pensamento que dessem ao homem
motivos racionais para uma conduta socialmente ajustada, substituindo o costume e o
impulso cegos como guias da vida e do comportamento.
Em Marco Aurélio, o imperador-filósofo, que detinha poderes absolutos e que não
abusou deles, vamos verificar claramente que função ela preenchia. Nas "Meditações",
que redigiu "Para uso próprio", M . Aurélio nos faz cientes do valor da Filosofia, como
sistema de referência e orientação, para conduzir o pensamento e a conduta do homem
pensante e dotado de ideais superiores. Após declarar que a vida humana é curtíssima;
— 33 —

5l-£erp~õ7putrescível; a alma, inquieta; a sorte, imprevisível; a fama, incerta; a vida, uma


guerra, um desterro; e coisas semelhantes — pergunta: " O que, pois, pode servir-nos de
guia? Só e unicamente, a Filosofia". Era, deveras, o único alimento para o intelecto do
homem superiormente evolvido. Onde mais buscar um sistema racional de idéias e de
ideais que instruísse o espírito desejoso de alçar-se acima das cogitações materiais? So-
mente mesmo nas filosofias. Para Marco Aurélio, foram os estóicos os únicos que com-
preenderam o sentido das coisas, que se mostram tão veladas a ponto de serem ininte-
ligíveis para os demais filósofos, afiança. Na Idade Média, havia a religião obrigatória e
na Época Moderna, há a Ciência. Portanto, a Filosofia tem a significação de uma fase
evolutiva do espírito humano na investigação do conhecimento. Como era produto do
pensamento individual, constituída mais de opiniões pessoais do que de fatos verificados,
hoje não tem cabimento em face da evidência experimental exigida pela mente do homem
atual (e mesmo pelo estilo de vida que leva).

Objetivo e natureza da filosofia clássica

Vimos de estudar as características da Filosofia e suas relações com a Ciência, veri-


ficando ser aquela uma fase superada do desenvolvimento do intelecto humano; seu valor
e apenas histórico. Kardec (A Gênese) e Delanne (A Evolução Anímica) revelaram a
mesma compreensão que acabamos de examinar. Assevera aquele, sobre a origem e o des-
tino do homem, que a Filosofia apenas formulou "sistemas contraditórios" cuja base
consistia "nas idéias pessoais- de seus autores". Assegura o segundo acerca dos filósofos:
As vistas gerais que possuiam eram bastante vagas, porque queriam descobrir a causa
primária dos fenômenos do universo." Noutro lanço: "e os filósofos espiritualistas, por
sua vez, empregando o senso íntimo como instrumento único de investigação, não co-
nheceram a verdadeira natureza da alma". É da maior relevância procurar conhecer o
estado de esprito dos antigos filósofos, em sua busca ao conhecimento da natureza e da
vida. Trataremos de explicar o que eles objetivavam e qual o ponto de vista qhe lhes
servia de base para enfrentar a realidade. Como isto variou ao longo do tempo, há que
subdividir esta história em três etapas.
Filosofia grega. No sexto século a . C , surgem os primeiros pensadores, chamados
jônicos, que, perguntam a si mesmos qual a natureza da substância que forma todas as
coisas, donde estas se originam e em que as mesmas coisas se decompõem de novo. Deram
respostas impessoais, considerando o que, e não quem, produziu tais coisas. Contudo,
não eram propriamente materialistas porque supuseram que a matéria final ou
fundamental era de natureza viva; costuma dar-se-lhes a designação de hilozoístas. O
primeiro destes velhos sábios foi Tales de Mileto (640-550), que declara ser a água a ma-
téria ou princípio básico das coisas. Vários outros deram respostas do mesmo tipo: água,
terra, fogo e ar, ou misturas destes elementos, constituem a causa primeira de tudo quanto
existe. Vemos, em suma, que as especulações iniciais se referiam ao mundo exterior, in-
cluindo também a prática das virtudes; buscavam as coisas sensíveis.
Com Sócrates, a Filosofia transforma-se de cosmológica em psicológica; a ênfase
passa para a realidade interior, para o conhecimento da natureza humana — "conhece-te
a ti mesmo" era o seu lema. Em Platão, discípulo e intérprete de Sócrates, encontramos o
primeiro sentido específico da palavra "filosofia": o filósofo é o indivíduo capaz de
apreender a essência ou realidade das coisas, em oposição ao que se contenta com as
aparências e as sensações; afirma: "filósofos são aqueles que podem captar o eterno e o
imutável", ou seja, "aqueles que põem os seus sentimentos naquilo que em cada caso
realmente existe". Nota-se que Platão não toma como objeto as coisas sensíveis, como
fizeram os seus antecessores, coisas que estão em estado At perpétua transformação, modi-
ficáveis, e que, por isso, não encerram nenhuma verdade segundo o seu modo de enten-
dê-las. Antes, o objeto da Filosofia (isto é, do conhecimento pela reflexão), para ele, é o
ser absoluto representado pelo que denomina Idéia, que vem a ser o princípio por meio
do qual as coisas concretas existem e que constitui a realidade objetiva e eterna, imu-
tável, da qual cada objeto sensível é uma manifestação imperfeita. Existem, p. ex., mui-
— 34 —

tos tipos de cavalo, animais que envelhecem e adoecem, alteráveis, etc. Há, porém, no
plano divino, uma forma perfeita e ideal de cavalo — é a Idéia, da qual os cavalos de car-
ne e osso são expressões variáveis e imperfeitas. Daí Platão procurar investigar o compo-
nente imutável e fundamental existente nas coisas e seres tangíveis e visíveis — o elemen-
to ideal e absoluto da realidade. Desse modo, eleva-se acima da vulgaridade e da va-
riabilidade terrenas em busca do conhecimento da Verdade, Beleza e Bondade, procu-
rando conhecer o que as coisas são na constituição final. Isto num sentido predominan-
temente ético e religioso, identificando virtude com conhecimento.
Aristóteles, coevo de Platão, mantém semelhante atitude, mas vai além separando
os diferentes aspectos da realidade e fundando a Lógica, a Psicologia, a Ética e a Estética
como campos distintos do conhecimento. A investigação reflexiva da natureza funda-
mental (ou última) do que existe, dos princípios e causas essenciais.do ser, independente
das variáveis e alteráveis manifestações sensíveis, recebeu dele a designação de "filosofia
primeira" — primeiros princípios que são comuns a todos os campos mais restritos do
conhecimento da realidade. Mais tarde, esta filosofia primeira foi denominada Metafísica
e Ontologia. Aristóteles e seguidores incluíam, os demais, no conceito de Filosofia, a
Matemática e as noções físicas de que dispunham.
Eis como Schuon (1953) enuncia o fato supra-exarado: a Filosofia tem como caráter
específico o fato de apoiar-se "sobre a ignorância sistemática... e de que uma verdade pode
ser compreendida em diferentes graus e segundo diferentes dimensões conceptuais (aspec-
tos da verdade), ou, em outros termos, ignora o que seria sua própria negação, por isso
ela opera somente com espécies de esquemas mentais que supõe absolutos, em sua pre-
tensão de universalidade."
Os pensadores subseqüentes, conquanto seguindo orientações divergentes, manti-
veram essa concepção de Filosofia. Assim, os chamados estóicos, tal como Sócrates, fize-
ram dos problemas morais o cerne do seu pensamento especulativo. Queriam sobretudo
pesquisar intiospectivamente os princípios racionais da Ética. Epicuro segue no mesmo
rumo. Cumpre, todavia, acentuar que o Estoicismo e o Epicurismo, na qualidade de
sistemas de orientação moral, eram bastante realistas. Tanto que os estóicos refletiram
longamente no problema do que chamavam de " p a i x ã o " (emoções, desejos e paixões),
que consideravam um estado mórbido da mente e, portanto, um obstáculo à conduta
correta. Quanto ao resto, pouco se lhes dava; porém, ao tratar de " d e u s " , da alma e do
mundo, mais não fizeram do que especular desajeitadamente.
Vê-se que a filosofia clássica não se interessava pelos particulares, pelos objetos
concretos, se bem que Aristóteles se dedicasse bastante aos animais e deixasse os primei-
ros rudimentos de noções biológicas dispersas e uma classificação zoológica primária. Sua
finalidade era descobrir os princípios que regem a vida e o mundo, e a causa das coisas
(hoje, isto soa como absurdo e inatingível, considerando que só dispunha da introspecção
ou observação interna como técnica de investigação). Husserl, já no século 20, não preten-
dia alcançar escopo menor.
O mundo da filosofia tradicional era um mundo fechado que consistia de formas
fixas, imutáveis e eternas, e que tinha fronteiras externas bem delimitadas. Era um orbe
dominado pela imobilidade e fixidez, as quais prevaleciam sobre o movimento e quaisquer
modificações. Nele, havia reduzido número de classes e de espécies, dispostas numa ordem
hierárquica na qual as coisas se situavam segundo critérios relativos a superioridade e
inferioridade. Cada coisa pertencia antecipadamente a certa classe e esta tinha o seu
lugar determinado na hierarquia do Ser. Ex. gratia, o filho do sapateiro, ao nascer, já
estava destinado a ser sapateiro: no comércio, as utilidades tinham um valor estabelecido
(que seria o "justo preço" da Idade Média). A Terra era o centro fixo e imóvel do uni-
verso; a abóboda celeste, formada de estrelas fixas, movia-se em eterno círculo de éter,
mantendo todas as coisas unidas e ordenadas. Dentro desse universo acanhado, as mu-
danças ocorriam em limites determinados; e. gr., os vegetais e animais crescem e vão de
uma forma fixa a outra forma da mesma categoria. O carvalho somente origina carvalho,
a ostra apenas ostra, e assim por diante. As variações que dentro do carvalho e da ostra
distinguem um carvalho de outro e uma ostra das demais eram declaradas acidentais e
— 35 —

destituídas de significação. As espécies eram tidas como fixas e imutáveis. O universo


encerrava um lugar permanente para cada coisa, razão da suprema importância das cau-
sas finais e formais. A causa final era a forma fixa que governava o desenvolvimento
de alguma coisa, de sorte que as mudanças operadas tendessem na sua direção; era a
forma perfeita, considerada como razão das mudanças precedentes. A árvore é a causa
final da semente. A causa formal é a forma que uma coisa reveste em determinada situ-
ação; a estátua é a causa formal de um bloco de mármore esculpido. Conforme perce-
bemos antes, a Ciência mudou tudo isso radicalmente. O universo científico é aberto, infi-
to, ilimitado e variável — sempre em alteração, em evolução; e o conhecimento do todo
deriva da investigação de cada parte.
Agora convém inquirir qual seria o estado mental, o processo psicológico, que condu-
ziu os pensadores de outrora a perseguirem objetivos irrealizáveis, estando despreparados
e sem instrumentos adequados, e a conceberem a realidade de maneira tão tacanha, mes-
quinha, com uma amplitude intelectual tão reduzida. Que base tinha o seu raciocínio?
Os filósofos gregos conceberam a realidade última, essencial, universal e absoluta,
por meio da idealização dos objetos e seres da natureza. Este processo consiste em atri-
buir à experiência humana ou às coisas naturais qualidades que elas não possuem na
realidade. O tempo, a memória e a fantasia combinam-se para remodelar a realidade
conforme os desejos e tendências do esprito. Isto acontece também na vida de inúmeras
pessoas, as quais, insatisfeitas com os traços característicos de suas personalidades, a
pouco e pouco vão criando uma outra personalidade, um eu fictício e fantasioso, dotado
de novos atributos, agradáveis e grandiosos, que passam a usar e a exibir. No processo
neurótico, é comum a criação de uma imagem idealizada, que oculta a verdadeira perso-
nalidade. Por este mecanismo, o sujeito julga-se e age como um santo, sábio, heróe, ora-
dor, político, poeta, e t c , quando nada demonstra que o seja — salvo suas palavras e ati-
tudes para uso externo. Os que o conhecem, notam a discrepância entre atos e palavras,
de um lado, e a falta de realizações correspondentes, de outro. É uma das maneiras de
'ugir aos conflitos internos, notando-se que o processo de idealização de si mesmo é in-
consciente; sentindo-se superior aos outros, cheio de virtudes e de valor pessoal, e fanta-
siando os fatores da circunstância, os conflitos permanecem ocultos e o sujeito dá-se por
suficientemente protegido.
Os fatos mais realçados pela imaginação são ausentes na vida real. Quanto mais
perturbada for a vida, tanto mais exaltada será a fantasia e estimulada a pintar quadros
contrários e compensatórios da realidade. Os traços peculiares aos devaneios de uma pes-
soa põem a descoberto os seus desejos básicos frustrados. O que é difícil e desagradável na
existência diária transforma-se em vitória no reino da fantasia; o que é reprovável na
conduta recebe compensação na imaginação idealizadora. É desse modo que o indivíduo
escapa das contradições internas e mesmo das conseqüências penosas dos atos passados,
tornando a cena mental menos dolorosa e menos antipática.
Entre os gregos antigos, até os deuses foram sujeitados a esse processo. É verdade que
povos mais grosseiros "levantavam altares às suas paixões, porque os seus deuses são
apenas personificações da sua concupiscência, do sensualismo que lhes corrói as entra-
nhas ' (Roma e o Evangelho). Assim, certas deusas eram cultuadas mediante irrestrita
fornicação nos templos e festas, e Moloch exigia que criancinhas fossem atiradas dentro do
seu ventre aberto e flamejante. Com os refinados gregos era diferente. As inúmeras di-
vindades que adoravam não passavam de projeções idealizadas das condições e empreen-
dimentos que os gregos admiravam e desejavam. Tais deuses não passavam de simples
mortais mais belos, fortes, poderosos, sábios e felizes, que viviam conforme os homens gos-
tariam de viver. Daí um grego ilustre ter declarado que os seus concidadãos faziam os
deuses à sua semelhança e que os bois, se tivessem deuses, adorariam apenas outros bois.
Fenômeno semelhante ocorreu na filosofia clássica em ampla escala: a idealização
da natureza mediante a concepção de uma realidade última, suprema, perfeita. Assim
podem ser entendidas as Idéias de Platão e as Formas de Aristóteles — como objetos da
experiência quotidiana desprovidos de suas imperfeições, com suas lacunas preenchidas
e suas aspirações e sugestões atendidas, em suma: tornados perfeitos pela imaginação;
— 36 —

o que se aplica a criações de muitos filósofos, inclusive Tomás de Àquino, Descartes,


Spinoza, Hegel e. Husserl, p. ex. Vemos que são apenas objetos familiares remodelados pe-
la imaginação idealizadora para satisfazer ao desejo de perfeição na medida em que a ex-
periência real é decepcionante. Diz Dewey que as qualidades ideais eram definidas
mediante conceitos "que expressam coisas opostas àquelas que fazem a vida reprovável
e tumultuosa." O que os pensadores lamentam não é a falta de bens, valores e satisfações
— e sim, a sua transitoriedade ou fugacidade; o que os pertuba é a impermanência do
prazer sensual, da fama, do poder, das realizações materiais. Em conexão com tal conceito,
H. Pires (1960) explica: "As idéias constituem uma necessidade lógica, para a compreen-
são do mundo e para a existência da Ciência. Porque não pode haver Ciência do incerto,
do efêmero, do inconsistente, como é o mundo sensível. Somente o inteligível, o mundo das
idéias, oferece base "sólida" para a permanência das coisas." " E m lugar da idéia platô-
nica, que pairava no abstrato e projetava sua sombra na matéria, Aristóteles formula a
teoria da forma, que é também abstrata, mas se entranha no concreto."
Ora, onde há mudança, há também instabilidade e esta é indício de privação, defi-
ciência e imperfeição. Estes termos indicam limitação, morte e não-ser. Por isso, a legí-
tima Realidade teria de mostrar-se imutável, inalterável, mantendo-se em repouso fixo e
perene. Desse contraste entre o permanente e o transitório promanam outros caracteres
que distinguem a Realidade Perfeita das realidades imperfeitas da vida prática. Onde haja
mudança e alteração, haverá igualmente pluralidade, multiplicidade e da variedade re-
sulta oposição e discordância. Diversidade significa divisão e esta, tendo dois lados, acar-
reta conflito. O mundo, sendo transitório, há de mostrar-se necessariamente instável e
propício a discórdias. Fosse ele governado pela unidade e não haveria contradições nem
estaria sujeito a alterações. O Ultimo e Verdadeiro Ser é unitário e imutável, só encerra
harmonia — em suma, é a Perfeição, esclarece Dewey.
Em consonância com tal modo de conceber a circunstância em que vivemos, o conhe-
cimento será tanto mais genuíno quanto mais elevada for a Realidade. O mundo que se
caracteriza por transformações, sendo carente do verdadeiro Ser, não pode ser conhecido
com exatidão. Como se move e se altera, conhecê-lo exige a descoberta de alguma forma
permanente capaz de limitar o processo de alteração ao longo do tempo. E o que se per-
cebe no caso da semente e da árvore; a semente sofre uma série de alterações que podem
ser conhecidas com referência à forma fixa dita árvore; esta circunscreve o fluxo de mu-
danças, sabendo-se que a semente procede da árvore.
Porém, nos inúmeros casos nos quais formas constantes daquele tipo, unificadoras e
limitantes, não se percebem, só parece haver variação sem finalidade ou despropositada
e o conhecimento, conseqüentemente, não pode ser realizado. Por outro lado, se forem
considerados apenas objetos completamente refratários à idéia de movimento, então o
conhecimento torna-se seguro e até perfeito — podendo chegar-se à "verdade pura e
absoluta". Este modo de raciocinar conduziu a conferir supremacia ao conhecimento con-
templativo sobre o prático e à especulação sobre a experimentação. Nada do que sofra ou
induza mudanças apresenta interesse real! O conhecimento puro é completo em si mesmo
e nada procura além de si próprio — deve, portanto, ser buscado através da visão inte-
rior, introspectiva.
Isso explica ainda porque o conhecimento do artífice é de ordem inferior, segundo
a opinião dos antigos pensadores. Ele lida com, e produz, modificações nas coisas, madei-
ra e pedra, v. gr.; logo, o seu material é deficiente em Ser. Além disso, ocupa-se com
resultados (mobiliário, agasalho, alimento, e t c ) , tem um fim prático em mira. Portanto,
esse conhecimento concerne a objetos relativos às necessidades materiais, às necessidades
do corpo. Onde há necessidade e desejo (como no caso do conhecimento oriundo da ati-
vidade material), existe imperfeição e insuficiência. Conhecimento mais elevado é o cí-
vico, político e moral, em relação ao do artífice; mas, ainda assim, inferior porque prag-
mático, implicando necessidade, esforços e reconhecendo um fim ulterior. Tão-somente
o conhecimento puro é completo e auto-suficiente, independente, contemplativo. O seu
mais alto grau está em conhecer o Ser Ideal, o Espírito Puro. E o Ser Perfeito, o ápice da
racionalidade e da idealidade. A Filosofia é justamente quem trata dessa modalidade de
— 37 —

conhecimento — é a "contemplação pura e auto-sufiente da realidade última." Platão


pensava que a função dos estudos filosóficos é impedir que a alma se engolfe na contem-
plação das coisas terrenas e das realidades inferiores e, ao contrário disso, conduzi-la à
intuição do Ser Supremo. A Ciência demonstrou que quejandas aspirações não passam
de quimeras proclamando que o conhecimento é parcial e de aquisição gradual e pro-
gressiva, nunca acabando e sempre perfectível, e que só pode ser obtido pelas mudanças
induzidas por meio das manipulações dos objetos sensíveis — tudo exatamente ao con-
trário do que imaginavam os velhos filósofos!
Filosofia medieval. Durante a Idade Média, a Teologia católica assimilou os men-
cionados conceitos por intermédio de Santo Agostinho (354-430), que se baseava em
Platão e nos autores néo-platônicos, e de Tomás de Aquino (1225-1274), que adaptou o
sistema aristotélico para constituir o aspecto racionai do seu sistema teológico, conforme já
explicamos alhures. Durante esse longo período, a Teologia substituiu a Filosofia, que
era classificada como serva daquela. Afirmava T . de Aquino que a Teologia trata da
verdade revelada e a Filosofia lida com o estudo racional do universo; o objeto de ambas
pode às vezes coincidir, mas o dogma religioso detém a primazia porque possui autoridade
superior (ou seja, a fé acima da razão). Aí o conceito de Filosofia é o mesmo de Aristóteles.
O fim do ser humano é conhecer o Verdadeiro Ser; o conhecimento é contemplativo; ad-
quirí-lo é alcançar a bem-aventurança e a salvação. E, agregavam os teólogos, não sendo
possível atingi-lo nesta vida, urge o auxílio do sobrenatural, pelo qual viria a salvação. E
durante séculos tornou-se axioma para os pensadores que o conhecimento é essencial-
mente "mera contemplação ou visão da realidade — concepção do conhecimento do es-
pectador" (Dewey). Mesmo depois que a Ciência demonstrou que conhecer é manejar e
modificar o mundo, e não somente pensar nele, a experimentação só conseguiu deslocar
cabalmente a especulação no século 19, quando a Técnica transformou por completo o
estilo de vida do homem civilizado.
Conceito moderno. Com as obras dos já referidos Bacon (Inglaterra) e Descartes
(Holanda), a Filosofia muda de rumo, coincidindo com os trabalhos experimentais de
Calileu e Newton. Os dois primeiros insistem no valor da experiência programada como
instrumento de obter conhecimento e os dois últimos fazem isso efetivamente. E verdade
que outros pensadores se dedicam à reflexão sobre o entendimento e a natureza humana,
a moral e o conhecimento, mas prevalece a investigação da realidade por meio da ação
que manipula e modifica as coisas. Não se procuram mais nem formas fixas nem essên-
cias, mas justamente provocar mudanças usando instrumentos e drogas. A forma de uma
semente ou de um inseto é apenas o início do conhecimento. Vamos manuseá-los de várias
maneiras, tratá-los sob condições diversas, fragmentá-los em muitas partes, e t c , de modo
a obter conhecimentos parciais que gradualmente se vão somando numa exposição ou
doutrina cada vez mais completa e sempre sujeita a melhoramentos.
A partir de Auguste Comte (1798-1857), fundador do positivismo, que declara o
conhecimento científico o único "positivo", visto só o sensível poder ser conhecido, a Ci-
ência absorve a Filosofia. O espírito humano poderá conhecer somente fatos e leis, fenô-
menos e relações. A atividade filosófica passa a restringir-se à análise e extensão do conhe-
cimento científico depois das elaborações de A. Comte, L. Büchner, E. Haeckel, H.
Spencer, E. Mach, H. Bergson, A. Rey, B. Russel — e é o que todos os autores afirmam
hoje. Ora, o cientista faz isto empregando a lógica natural do espírito humano, devida-
mente preparado pelo estudo, e não admite a extrapolação dos resultados, que se referem
especificamente a determinados objetos (salvo no caso das grandes construções teóricas,
como a teoria da evolução). Quando se faz necessário somar resultados compatíveis e
ampliar sua significação — ele desenvolve uma teoria. Em conclusão, filosofia e filosó-
fico são palavras cuja acepção não quadra com o moderno conhecimento buscado na
experimentação; indicam um tipo especial de conhecimento, outrora adequado, derivado
da contemplação passiva da natureza por meio da idealização dos seus componentes; era
uma atividade exclusivamente racional.
— 38 —

NíVEIS COMPLEMENTARES DE CONHECIMENTO


Fecundo, por suas amplas aplicações, é o princípio de complementaridade, desenvol-
vido pelo físico Nils Bohr e que temos empregado em não poucos casos. Esclarece um sem
número de oposições e conflitos de conceitos, idéias e interpretações.
Muitas vezes, um fato ou fenômeno, ou um grupo de fatos e de fenômenos conexos,
admite duas explicações. Autores e aderentes de cada explicação (ou teoria), firmando
suas posições, julgam a outra explicação insuficiente ou mesmo errônea. Ora, sucede fre-
qüentemente que as duas explicações contêm elementos de verdade e permanecem em cho-
que; lutam os adeptos por hegemonia e querem impor, cada um a sua, aos demais, e nes-
se empenho novos dados vão sendo descobertos e a Ciência progride.
Venticou-se, primeiro, na Física quântica, que uma mesma realidade pode apresen-
tar-se sob dois aspectos distintos, de tal maneira que quando um destes aspectos se torna
manifesto, perceptível, o outro obscurece-se e passa a ser pouco nítido. Assim, em tais
casos não chega a ocorrer contradição grosseira nem conflito direto. Na verdade, o con-
flito é antes produto da incompreensão e do desejo de impor opiniões. De acordo com o
princípio de complementaridade, em lugar de um modelo conceptual precisamente defi-
nido, o que se têm são pares complementares de conceitos inerentemente formulados de
modo parcial. A primeira vista, e antes que isto fosse compreendido, os dois conceitos,
sendo discrepantes e referindo-se à mesma coisa ou objeto, pareciam absurdos e irrecon-
ciliáveis; daí as posições extremas adotadas por alguns dos respectivos defensores, que só
podiam aceitar um deles como certo.
O exemplo clássico, hoje muito bem conhecido e não raramente mencionado, diz
respeito aos dois aspectos das partículas elementares constitutivas da matéria. Como se
sabe, prótons e elétrons, conforme o tipo de fenômeno observado, podem manifestar-se
como corpúsculos ou como ondas. Corpúsculos e ondas aparentemente são entidades mui-
to diferentes; como a mesma partícula será encarada de formas tão diversas? Dá-se que ela,
consoante a situação, apresenta manifestações distintas e nunca ao mesmo tempo. Por is-
so, num caso é evidente o aspecto corpuscular e como tal será tratado pela Física; noutro
caso, acentua-se o aspecto ondulatório e outro tratamento ser-lhe-á dispensado (para o
qual se criou uma mecânica especial, chamada de ondulatória). Sendo assim, não é possí-
vel compreender racional e imediatamente as propriedades básicas da matéria e da ener-
gia, pois não se mostram concomitantemente; o par de conceitos parcialmente definidos é
essencial a um tratamento detalhado de qualquer domínio que seja investigado nestes
campos. Compete, conseqüentemente, à mente humana integrar os dois aspectos, de sorte
que eles assumam continuidade e coerência; no plano mental, porque na realidade a pre-
sença de um embota a percepção do outro -*• isto é, eles mostram-se contraditórios ou an-
tagônicos à observação externa.
Em consonância com o que se acaba de expor, no concernente à natureza da radia-
ção visível, a teoria ondulatória, segundo faz notar Raven et ai (1976), permite aos físi-
cos descreverem certos aspectos do comportamento da luz, enquanto que a teoria corpus-
cular enseja outro conjunto de cálculos e predições matemáticas. Esclarecem aqueles
autores: "These two models are no longer regarded as opposed to one another; rather,
they are complementary, in the sense that both are required for a complete description of
the phenomenon we know as light." A coexistência destas duas teorias ilustra mais ainda
o método científico. Se o cientista define a luz como onda e a mede como tal, ela comporta-
se como onda; se ele a define como partícula, obtém informações sobre ela como partícula.
Daí o dizer Einstein certa feita: " E a teoria que determina o que podemos observar." Ou
seja, a história da Ciência é a história do método experimental: os dados recolhidos de-
pendem da técnica usada e podem variar se as técnicas forem diferentes. Por isso, os tra-
balhos científicos publicados hão de incluir, necessariamente, uma parte preliminar deno-
minada "Material e Métodos"; sem a indicação das técnicas empregadas, os resultados
obtidos não têm significação por ser impossível sua reprodução exata.
A complementaridade funciona muito bem nos domínios biológicos, das manifesta-
ções vitais. Num ser vivo, o aspecto vital e o aspecto físico-químico são complementares
— 39 —

— porquanto, è impossível determiná-los ao mesmo tempo: a descrição físico-química


completa de um animal ou planta exige tão minuciosa análise de suas partes que eles não
poderiam manter-se vivos; por outro lado, o estudo fisiológico dos mesmos obriga a ig-
norar a maior parte dos fenômenos físico-químicos que se processam na intimidade de te-
cidos e células. As operações não são exeqüíveis ao mesmo tempo, mas a mente reúne e
coordena os dados a respeito; pode-se explicar o que se passa num dado momento em am-
bos os terrenos, mas não se pode averiguar concomitantemente. Segue-se que é tão impos-
sível descrever a vida somente por meio da caracterização físico-química (com a qual tanto
sonharam os mecanicistas do século passado) quanto é impossível descrever o corpúsculo
pela onda e vice-versa. Os dois aspectos precisam ser harmonizados para uma compreen-
são mais exata.
Tem razão o físico De Broglie ao afirmar que a complementaridade é um conceito
de grande importância e que abrirá novos horizontes à reflexão. O célebre físico R. Oppe-
nheimer (1962) refere-se ao mesmo princípio como "notável aspecto" descoberto por
Bohr na teoria dos quanta. Observa que, realmente, não é possível investigar e medir to-
das as características de um sistema atômico. Podem escolher-se aquelas que se desejam
estudar e as que não queremos considerar: "Temos liberdade de escolher, mas ao reali-
zar algumas coisas omitimos outras." Acentua que "esta descoberta ainda não penetrou
na vida cultural"; seria relevante se pudesse ser compreendida. E o que colimamos com
a elaboração aqui apresentada, relativa sobretudo a questões biológicas e psicológicas
básicas.
Exemplo típico de aplicação imediata refere-se aos dois conceitos modernos de espé-
cie biológica. Durante longos anos entrechocaram-se o conceito morfológico, da Taxiono-
mia," e o conceito genético-ecológico, da Genética e da Ecologia. O primeiro define a espé-
cie como entidade estática, conforme os fatos morfológicos observados em um ou alguns
indivíduos conservados (sem vida); o segundo encara a espécie como fase da evolução, em
constante dinamismo. Depois de muitas discussões, viu-se que ambos os conceitos são
indispensáveis aos trabalhos de pesquisa em Biologia: nem a Genética e a Ecologia podem
dispensar a espécie taxionômica usual, nem a Taxionomia consegue alhear-se ao ponto
de vista dinâmico, que tem aplicado a suas próprias investigações. E que são trabalhos de
natureza diferente, exigindo critérios próprios. A verdade é que ambos os conceitos se in-
tegram perfeitamente e completam-se no plano mental, um esclarecendo aspectos do ou-
tro. O erro esteve na manutenção de posições extremas, querendo certos adeptos de um
conceito anu|ar o outro. Com o correr do tempo, patenteou-se a impossibilidade de afas-
tar qualquer deles e hoje não lutam mais: cada um possui área própria de influência e em
muitos trabalhos experimentais andam juntos conforme a fase do andamento.
As relações entre matéria e energia harmonizam-se com base no mesmo princípio.
Uma e outra nada mais são do que aspectos complementares (manifestações distintas) da
mesma substância ou realidade essencial. Quando predomina o aspecto de corpúsculo,
temos a matéria ou energia condensada; prevalecendo o aspecto de onda, temos a energia
ou matéria móvel, rarefeita. Como é impossível perceber as duas formas ao mesmo tempo,
elas sempre pareceram radicalmente opostas. Mas a Ciência provou-o e até desmateriali-
zou a matéria, transformando-a em energia; mesmo a materialização da energia é possível
sob certas condições experimentais muito restritas.
Flora e vegetação constituem outro par de conjuntos de noções em oposição, que não
podem ser estudados simultaneamente. A vegetação investiga-se ao vivo, em a natureza.
A flora é estudada no gabinete, tendo-se preparado previamente as plantas constituintes
da vegetação; ora, o método de preparação começa por dessecá-las e, portanto, tirar-lhes
a vida. Em geral, o conhecedor de vegetação mal consegue lidar com a flora e vice-versa;
poucos botânicos conhecem igualmente bem os dois aspectos da cobertura vegetal de uma
região qualquer, como se fossem mutuamente exclusivos. São-no na prática, mas devem
ser integrados no plano mental, caso em que um facilita muito a compreensão do outro.
Vegetação é o conjunto de plantas de dada localidade, que se pode manusear concre-
tamente. Flora é o conjunto de espécies de uma vegetação ou região, que se considera teo-
ricamente. Embora pareçam assim diferir muito, quase sempre são objeto de confusão —
— 40 —

mesmo por técnicos competentes. Ex. gr., Schnell (1970) diz: "les flores tropicales pafais-
sent, sur un plan physiognomique, heterogenes". Uma flora poderá ser heterogênea, se
contiver elementos de várias procedências; mas não ter "'fisionomia" — pois, é um concei-
to abstrato, teórico... O que poderá ser encarado fisionomicamente é a vegetação — por
ser real, concreta, visível... E, no entanto, Schnell conhece as vegetações do mundo inteiro
e muitas floras; mas, distrai-se... Luetzelburg (1923) afirma: " O xerofitismo, fator prin-
cipal dessa flora, é básico e preponderante na morfologia de seus elementos". O xerofitis-
mo só consegue ser um fator importante da vegetação, cuja plantas poderão ter sua forma
considerada pelo botânico; os elementos florísticos, sendo abstratos, não admitem morfo-
logia...
Em síntese: ao estudar a vegetação no campo, fica a flora fora de cogitação. Se estu-
dar a flora no gabinete, a vegetação estará distante. Logo, só a atividade de síntese mental
poderá reunir os dois níveis de conhecimento num esquema único, onde cada um comple-
tará o outro dando um conhecimento duas vezes (pelo menos) mais profundo da cobertura
vegetal em pauta.
O próprio Bohr já indicara que, mediante o princípio por si enunciado, é possível
considerar a condição humana, fazendo notar que há maneiras mutuamente exclusivas
entre si de usar nossos cérebros, almas e palavras, sem permitir combinações. P. ex., o
preparo para a ação e o estudo das razões que conduziram à mesma ação.
Podemos ampliar, sem invalidá-lo em sua significação, o princípio de complementa-
ridade e levá-lo para os domínios do espírito humano e assuntos conexos de grande inte-
resse. Vários e importantes pares de conceitos, quase sempre em conflito na mente do ho-
mem, são passíveis de fácil integração mediante o princípio em tela. Passam, desta forma,
a ser de grande utilidade para o espírito investigador uma vez que, harmonizados, dupli-
cam suas capacidades explicativas. É preciso apenas não focalizar a atenção numa das for-
mas como se a outra fosse ilegítima ou inexistente; é necessário não as colocar em compar-
timentos mentais estanques, sem intercomunicação. Nada que derive da observação dos
fatos e da experimentação poderá ser, evidentemente, tido como errado; poderá ser desa-
gradável e incômodo se não soubermos o que fazer com ele e não pudermos encaixá-lo no
esquema de conhecimentos admitidos.
A complementaridade — agora sob o nome de níveis complemenlares de conheci-
mento — permitirá que usemos conhecimentos aparentemente discrepantes quando colo-
cados lado a lado, no mesmo plano; confrontados no mesmo nível, parecem impossíveis
de conciliarem-se e apresentam-se como se se anulassem reciprocamente. Daí os adeptos,
as escolas, os sistemas, etc. Na verdade, considerados em suas respectivas posições, são
ambos exatos e completam-se, muitas vezes concedendo à razão importantíssimos subsí-
dios de compreensão e clareza.

Matéria e Espírito

Vimos que a matéria e energia constituem dois aspectos contraditórios e complemen-


tares da mesma realidade (ou substância, concebida como entidade simples e capaz de re-
vestir diversas modalidades sem que sua essência mude ou algo dela se perca). A esta subs-
tância tem sido aplicada a designação de "pensamento de Deus". O fato é que, dada sua
capacidade de mudar, varia constantemente a qualidade da substância. Ora é matéria
("ondas engarrafadas", de Jeans), ora é energia ou radiação ("ondas livres", do astrôno-
mo Jeans). Passa-se de uma para outra. Na matéria, as partículas estão aprisionadas
num movimento circular, cuja velocidade é inferior à da luz. Sob a forma de radiação ou
" l u z " , o movimento é livre e a velocidade maior. Quando se destrói a matéria, liberta-se
energia (radioatividade, mencionada antes, bomba atômica, ex. gr.). Mais um passo e
alcançamos o Espírito. Não se regerá ele pelo mesmo princípio? Não será possível conce-
ber o Espírito como uma outra modalidade evolutiva da substância? Dí-lo A Grande Sín-
tese e nada parece mais lógico, considerando-se a universalidade da evolução e o contínuo
transformismo da substância. Afinal, se o Espírito é alguma coisa deve-se ter formado
de algo inicialmente sem forma peculiar.
/
— 41 —

Matéria e espírito estiveram constantemente em conflito: materialistas e espiritua-


listas quase sempre adotaram posições extremadas. Dá-se que se nos dedicarmos ao estu-
do profundo ou ao culto exclusivo do corpo, poucas oportunidades teremos de notar o es-
pírito. A fixação da mente na matéria, seja em Ciência, seja em Literatura, seja no gozo
dos sentidos, conduz naturalmente a ignorar o que está além dela. O mesmo observar-se-à
se houver atenção total ao espírito, como nos fanáticos e místicos. Um dos aspectos assu-
mirá preponderância tal que obscurecerá o outro. Podemos, porém, focalizar a mente na
matéria, estudando-a e manejando-a, e no espírito, para conhecê-lo. Como estão em ní-
veis complementares, aparentemente opostos, faz-se mister harmonizá-los no plano men-
tal, quando ver-se-á o quanto um aspecto esclarece e completa o outro. Esta noção de com-
plementaridade ajuda-nos a estabelecer conexão entre coisas aparentemente em formal o-
posição. Quantos místicos desprezaram o corpo físico e os bens do mundo com o objetivo
de desenvolverem o espírito e aproximarem-se de Deus? Quantos materialistas julgam
inexistente ou indigno de consideração o Espírito? Estão todos com a mente partida ao
meio, incompleta. For ventura corpos e objetos materiais não se incluem na Obra Divina?
Não será Deus a Perfeição, a Onipotência, a Onisciência? Será a Criatura juiz do Cria-
dor? Não, é preciso harmonizar mentalmente aspectos distintos da Criação, se quisermos
conquistar o equilíbrio. Para nossa compreensão, que promana da inteligência, urge inte-
grar racionalmente aspectos complementares. que se opõem apenas enquanto assumimos
posições fixas, mentalmente rígidas. E estas.são produto da nossa inferioridade intelec-
tual, das nossas inclinações e pontos de vista emocionais.
Vê-se que o método experimental tem sido bastante empregado em investigações
psíquicas à parte das psicologias convencionais, tais as que compõem a Metapsíquica e a
Parapsicologia. O que foi induzido dessas pesquisas positivas não se encaixa diretamente
no esquema de conhecimentos relativos às estruturas e funções, mesmo cerebrais, concer-
nentes ao corpo físico. Semelhante desconexão gerou dois conjuntos de dados científicos
respeitantes ao homem: o da ciência da matéria e o da ciência do espírito, as duas traba-
lhando em separado. Disso resultou que os adeptos e lidadores de ambos os grupos nao se
entendem e mantêm-se em posições estanques: os primeiros negando a realidade espiri-
tual demonstrada pelo próprio método que usam e os segundos criticando o valor das con-
quistas científicas, que utilizam em todos os minutos da vida sem pensar na incoerência
entre as suas opiniões e a satisfação das suas necessidades. As duas ciências completam-se,
sendo uma indispensável à compreensão e progresso da outra.
Colocam-se conseqüentemente, em níveis diferentes, porém, harmonizáveis mental-
mente: os dois aspectos do conhecimento da natureza (material e espiritual), aparente-
mente contraditórios, são, na verdade, complementares — um completando e esclarecendo
o outro. Isso é útil entender para aliviar a mente de pesados problemas sem fundamento.
Como faz notar Paul Chauchard (Physiologie de Ia Conscience, Paris, 1948), temos aí
uma boa analogia com o "duplo aspecto onda e corpúsculo do elétron".
•Se entendermos a complementaridade que a natureza nos exibe e se, compreenden-
do-a, não adotarmos uma posição extremada, a aceitação de uma crença materialista ou
espiritualista não representa qualquer oposição ao espírito científico. As duas noções estão
em campos diversos, mas não opostos, e, se aderirmos a um deles sem procurar combater
o outro, não surgirão incoerências nem conflitos intrapsíquicos. O fanatismo, segundo
esta interpretação, promana à&fixaçãoabsoluta em um nível com desconhecimento com-
pleto do outro, o complementar; então, o indivíduo é automaticamente compelido a seguir
a orientação absoluta e, se for presa de impulsos agressivos, entrará em ação contra os seus
supostos contraditores, cuja mera existência não poderá suportar. Qualquer posição
científica ou religiosa acompanhada de rigidez mental conduz ao fanatismo, hoje feliz-
mente em franca extinção; temos aí duas atitudes mentais idênticas e igualmente perigo-
sas.
\

— 42 —

ASPECTOS ÉTICO-PSICOLÓGICOS
Os valores morais e os valores materiais ocupam posições distintas; por isso, morali-
dade e materialidade são contraditórias: o que a primeira prescreve não corresponde ao
modo de ser da segunda. E bem de ver que o materialismo científico reconhece como
princípio inviolável o princípio de causalidade, base do determinismo físico e biológico
em que se alicerça a Ciência em suas formulações, e que no plano moral o livre arbítrio é
exigência primordial. Gastin (1936), ex. gratia, observa a respeito das posições fixas
assumidas pelos respectivos adeptos: "teorias antagônicas, cujo erro consiste simplesmen-
te no fato de cada uma julgar-se absoluta e a única verdadeira". Ele, com Ubaldi e outros,
conciliam-nas no plano do pensamento, reconhecendo a coexistência de ambas em pro-
porções diferentes conforme o nível evolutivo alcançado pelo ser. Quanto mais evoluído,
tanto mais livre para escolher e agir; quanto mais atrasado e afastado do conhecimento,
tanto mais preso ao determinismo físico e mental.
Todavia, em níveis complementares nítidos estão o espiritualismo e o materialismo,
sempre em disputa por supremacia. Ora, isto não tem sentido, em um nível mais elevado
de entendimento. A questão não é discutir qual deles é o melhor — como não se pode sa-
ber se o corpúsculo "é melhor" do que a onda ou se a Ciência é preferível à té ou, ainda,
entre matéria e espírito qual o mais importante. Cada par é formado de unidades indis-
pensáveis: a fé sem o conhecimento é ignorância contrita, o segundo sem a primeira é
racionalismo irreverente; e assim por diante.
Como tudo o mais, urge levar em conta o nível evolutivo do sujeito, visto o nível de
compreensão ligar-se a ele. Para a grande multidão, o materialismo é a solução e, neste
caso, o espiritualismo nada vale; para muitos, este é o único aceitável e o materialismo
parece abominável. O que é razoável, portanto, é discernir as posições destas doutrinas e
aproveitar daquela que não nos agrada o que ela tiver de bom a oferecer; ora, o materia-
lismo pôs a Ciência à nossa disposição e não é difícil integrá-la harmoniosamente nas
principais formas de espiritualismo, ampliando com isso enormemente o quadro mental,
a visão interior, o discernimento (insight, introvisão).
Psicologias e Parapsicologia estão no mesmo caso. Rhine (1933) admira-se muito e
protesta contra o descaso das religiões e dos pensadores, em geral, com relação às desco-
bertas que fêz sobre a existência de um fator extra-físico no ser humano. Não tem razão
o sábio pesquisador. A atitude de ambos prende-se à adesão irrestrita a posições fixas
(ou dogmáticas), pelo que a Parapsicologia lhes parece algo irreal, fora da realidade con-
creta. Mesmo quando aceitam o espírito como coisa consistente, não sabem raciocinar
com ele e repetem os mesmos chavões de sempre. O que há é que a Parapsicologia (como
antes a Metapsíquica de Charles Richet) se situa em um nivel superior de conhecimentos
e para ser compreendida e integrada no quadro admitido de conhecimentos exige mente
aberta (sem compartimentos estanques) à recepção de qualquer verdade e capacidade ra-
cional apreciável.
E deveras interessante consignar que o próprio J u n g tenha notado que a complemen-
taridade se aplique à sua psicologia. Percebeu que a relação entre as mentes consciente e
inconsciente tambéms constitui um " p a r complementar de opostos". Observa von Franz,
psicanalista jungiana (Jung, 1964): "Cada novo conteúdo que emerge do inconsciente
se altera, em sua natureza básica, ao ser parcialmente integrado no consciente do observa-
dor". E a interpretação de um sonho amplia o consciente do sujeito, fato que tem marcan-
te influência sobre o inconsciente, admite ela. Segue-se disso que o inconsciente pode ape-
nas ser aproximadamente descrito por meio de "conceitos paradoxais", tal como as par-
tículas da microfísica antes citadas. Compreende-se, portanto, a declaração de von Franz:
" U m dos mais importantes conceitos dos físicos é a idéia de Nils Bohr, a complementa-
ridade".
Mais dois pares oponentes e complementares na área psicológica.-A psicologia do
consciente trata de questões como inteligência, memória, vontade, sentimentos, emoções,
e t c , e tem como método fundamental de investigação a introspecção, mediante a qual o
observador analisa os seus próprios estados de consciência. Tal é a psicologia clássica,
— 43 —

mais antiga, ou racional, outrora ramo da Filosofia. A ela opõe-se a psicologia do in-
consciente (ou analítica), que trata dos impulsos e neuroses, cujo método é a associação
de idéias, na qual o paciente fala livremente de modo a revelar certos conteúdos de que
não possui conhecimento lúcido. As duas atividades excluem-se quando são estudados os
fatos de uma ou de outra: a análise da consciência é impossível quando se deseja examinar
o inconsciente e vice-versa. E, contudo, podem instruir-se mutuamente. Por se colocarem
exclusivamente em o nível analítico, muitos psicanalistas, a começar por Freud, declara-
ram o consciente uma insignificante faixa da vida mental, quase inteiramente dominada
pelo "inconsciente dinâmico", segundo se exprimem.
Na investigação da atividade mental concorrem dois conceitos opostos concernentes
ao comportamento. Para as disciplinas morais, a ação humana é uma atividade livre; a
atividade consciente emana da pessoa de maneira autônoma. Pela psicologia experimen-
tal, ao contrário, o comportamento é encarado como um processo que se desenrola no or-
ganismo e que é regido por leis da natureza. No primeiro caso, o indivíduo comanda o
comportamento conscientemente; no segundo, é palco dele, sendo governado por forças
inconscientes. Temos aí duas maneiras radicalmente distintas de conceber a ação do espí-
rito humano no ambiente em que se situa, correspondentes a dois grupos de ciências par-
ticulares.
Podemos considerar que estamos diante de dois níveis diferentes de conhecimento do
mesmo fenômeno, a saber:
1. Nas disciplinas morais, um ponto de vista "filosófico", onde as noções de liberdade
e de sujeito autônomo são fundamentais e derivam da reflexão sobre as condições da con-
duta moral.
2. Na psicologia experimental, uma explicação científica, na qual só contam os fatos
constatáveis pela observação e experimentação, em nível positivo.
Afirma Nuttin (1963): "ambos os conceitos de comportamento podem coexistir...
depender das leis naturais e ser livre não são coisas incompatíveis". Todavia, os cientis-
tas declaram que a teoria da liberdade é incompatível com a atitude científica exigida do
pesquisador no estudo do comportamento humano; levar em conta a liberdade de ação
poria obstáculos à experimentação e entravaria o conhecimento exato. Na realidade, o
que a psicologia examina é a ação de certos fatores sobre o comportamento e não o fato de
o sujeito realizar ou não o ato. Logo, mostram-se mutuamente exclusivas as duas manei-
ras de encarar as ações humanas se ficarmos paralisados numa delas apenas. Mas, admi-
tem ser integradas no plano mental com vantagens recíprocas.

BIBLIOGRAFIA

Boutroux, P. 1924. Sciencia e Religião na Philosophia Contemporânea. Liv. Garnier,


RJ, 371 p.
Bréhier, E. 1948. História de Ia Filosofia, 2 vol. Ed. Sudamericana, B. Aires.
Broglie, L. de. 1941. O futuro da Física. Em: Para Além da Ciência, Liv. T . Martins,
Porto, p. 13-40.
Brun, J. 1957. Les Stoiciens. Presses Univ. de France, Paris, 180 p.
Büchner, L. 1892. Força e Matéria. Liv. Chardon, Porto, 2 a . ed., 386 p.
Comte, A. 1907. Cours de Philosophie Positive. Schlericher Freres Ed., Paris, 5 vols.|
5^ ed.
Delanne, G. 1952. A Evolução Anímica. FEB, RJ, 285 p.
Descartes, R. 1957. Discurso sobre o Método. Atena Editora, SP, 95 p.
Dewey,J. 1958. A Filosofia em Reconstrução. Comp. Ed. Nacional, SP, 205 p.
Diderot, D. s/d. Obras Filosóficas, Buenos Aires, 158 p.
Gastin, L. 1936. Livre Arbítrio e Determinismo. FEB, RJ, 44 p.
F e i b l e m a n J . K. 1961. The scientific philosophy. Philosophy of.Science, 28 (3): 238-259.
Haeckel, E. 1874. Histoirede Ia Création des Ètres Organisés d'aprés les Lois Naturelles.
O Reinwaldt & Cie., Paris, 680 p.
— 44 —

Hegenberg, L. 1969. Explicações Científicas. Ed. Herder, SP, 307 p.


Husserl, E. 1952. A Filosofia como Ciência de Rigor. Atlântida Ed., Coimbra, 73 p.
Jaspers, K. 1951. Way to Wisdom. Yale Univ. Press, New Haven, 208 p.
Jeans, J. 1944. O Universo Misterioso. Comp. Ed. Nacional, SP, 207 p.
Jung, C. G. 1964. Man and his Symbols. Doubleday & Co. Inc., N. York, 320 p.
Kardec, A. 1949. A Gênese. FEB, RJ, 399 p.
Luetzelburg, P. von. 1922-23. Estudo Botânico do Nordeste. Inspetoria de Obras contra
as Secas, RJ, publ. n. 57, série IA, 3 vols.
Marco Aurélio Antonino. 121-180. Meditações. Trad. Jaime Brune. Ed. Cultrix, SP,
1964, 175 p.
Morgan, T. H. 1944. As Bases Científicas da Evolução. Comp. Ed. Nacional, SP, 247 p.
Nuttin.J. 1963. As leis do comportamento e a liberdade. Serviam, RJ, 13: 69-80.
Oppenheimer, R. 1962. Reflexões sobre cultura e ciência. Ciência e Cultura, SP, 14
(2): 87-94.
Pires, H. 1960. Os Filósofos. Ed. Cultrix, SP, 316 p.
Pires, H. 1964. O Espírito e o Tempo. Ed. O Pensamento, SP, 207 p.
Ramon y Cajal, S. 1942. Regras e Conselhos sobre a Investigação Científica. Z. Valverde
e Ed. Científica, RJ, 218 p.
Raven, P. H. et ai. 1976. Biology of Plants. Worth Publishers, N. York, 685 p.
Rey, A. 1941. Psicologia, 21. ed. Liv. Globo, P. Alegre, 379 p.
R h i n e J . B . 1953. New World ofthe Mind. W. Sloane, N. York, 339 p.
Russel, B. 1956. Delineamentos da Filosofia. Comp. Ed. Nacional, SP, 376 p.
Schnell, R. 1970-71. Introduction a Ia Phytogéographie des Pays Tropicaux. Gauthier-
Villars, Paris, 2 vols.
Schuon, F. 1953. Da Unidade Transcedente das Religiões. Liv. Martins, SP, 224 p.
Taton, R. et ai. 1957-58. Histoire Générale des Sciences. Presses Univ. de France, Paris,
2 vols.
Ubaldi, P. 1950. A Grande Síntese. LAKE, SP, 441 p.
Wiener, N. 1968. Cibernética e Sociedade. O Uso Humano de Seres Humanos. Ed.
Cultrix, SP, 190p.
REVISÃO T A X O N Ô M I C A D O G Ê N E R O DEIANIRA
CHAMISSO E T SCHLECHTENDAL
(GENTIANACEAE)*

Elsie Franklin Guimarães


Pesquisador do Jardim Botânico d<
Rio de Janeiro

AGRADECIMENTOS

A Dra. Graziela Maciel Barroso, os nossos mais expressivos agradecimentos, pelos


sábios ensinamentos, dedicada orientação, interesse e estímulo que nos conduziram à
realização deste trabalhp.
Ao Dr. Jorge Fontella Pereira, pela revisão cuidadosa, principalmente no que se re-
tere aos problemas nomenclaturais.
' Ao Dr. F. A. Stafleu, pelaorientação com referência a problemas nomenclaturais.
Às mestrandas Cecília Gonçalves Costa, Maria do Carmo Mendes, Maria da Con-
ceição Valente, Ariane Luna Peixoto, aos estagiários Luciana Mautone e Gustavo M a r -
tinelli, que contribuiram na confecção dos mapas, fotografias, coleta de material botâni-
co, além de críticas e sugestões.
A mestranda Carmem Lúcia Falcão Ichaso, pelos desenhos e confecção das pranchas
que ilustram o trabalho.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela
bolsa concedida à autora.
Aos Curadores de Herbários das Instituições abaixo relacionadas, pelo empréstimo
de suas coleções.
Botanischer Staatssammlung, München, Federal Republicof Germany (M)
Botany, British Museum (Natural History) Department of Botany, London (BM)
Conservatoire et Jardin Botaniques, Genève, Switzerland (G).
Divisão de Botânica, Escola Superior de Agricultura de Viçosa (VIC)
Herbarium, T h e New York Botanical Garden, New York, U.S.A. (NY)
Herbarium Bradeanum (HB)
Herbarium da Universidade de Juiz de Fora (H.U.J.F.).
Institutt für Biologie I, Lehrbereich spezielle Botanik, Tubingen, German Demo-
cratic Republic (TUB).
Instituto de Botânica de S. Paulo (SP).
Jardim Botânico do Rio de Janeiro (RB)
Jardin Botanique National de Belgique, Bruxelles, Belgium (BR).
John G- Searle Herbarium, Field Museum of Natural History Chicago, Illinois,
U.S.A. (F).
Missouri Botanical Garden, Saint Louis, Missouri, U.S.A. (MO).
Museu Botânico Municipal, Curitiba ( M B M ) .
Museu da História Natural Universidade Federal de Minas Gerais ( B H M H ) .
Museu Nacional do Rio de Janeiro, Departamento de Botânica (R).
Naturhistoriches Museum, Wien, Áustria (W).
Sektion for Botany, Swedish Museum of Natural History (Naturhistoriska Riks-
musseet) Stockholm, Sweden (S).
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO APRESENTADA À COORDENAÇÃO DO CURSO DE PÓS-
GRADUAÇÃO EM BOTÂNICA DA UFRJ RIO DE JANEIRO 1976.

RLVÜr (45) Vo^XX.


— 46 —
Staatsinstitut fur Allgemeine Botanik und Botanischer Garten Herbarium Hambur-
gense(HBG).
The Herbarium, Institute of Systematic Botany, University of Uppsala, Uppsala,
Sweden (UPS).
The Herbarium and Library, Royal Botanical Gardens, New Great Britain (K)
Universidade de Brasília, Departamento de Biologia Vegetal, Brasília DF (ÜB).
Universidade Federal de Goiás, Goiânia (UFG).
U.S. National Herbarium, Department of Botany, Smithsonian Institution,
Washington, U.S.A. (US).

SUMÁRIO

J — INTRODUÇÃO 47
II — HISTÓRICO 47
III — MATERIAL E MÉTODOS 48
IV — RESULTADOS 49
4.1 Tratamento taxonômico 49
4.1.1 Posição 49
4.1.2 Descrição do gênero 51
4.1.3 Chave para as espécies 52
4.1.4 Descrição e discussão das espécies 52
4.1.5 Espécie excluída 67
V — CONCLUSõES 67
VI — RESUMO 68
VII — ÍNDICE DOS C O L E T O R E S , SEUS N ú M E R O S E ESPéCIES C O R R E S P O N D E N T E S 69
viu — Í N D I C E DAS E S P é C I E S 70
IX — REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 71
— 47 —

I — INTRODUÇÃO

Sempre foi de nosso interesse o estudo dos representantes das Gentianaceae, dada a
complexidade taxonômica da família.
Não raro, ao tentarmos determinar as espécies verificamos que revisões taxonômicas
se faziam necessárias. Assim, de início, interessa mo-nos pelos componentes da Tribo
Helieae (Mart.) Gilg, constituída de 15 gêneros dos quais 11 são ocorrentes no Brasil.
Para nossos estudos, selecionamos dentre eles o gênero Deianira Cham. et Schlecht.
uma vez que na maioria dos Herbários suas espécies estavam sem identificação ou mal
determinadas, inconvenientes estes que só poderiam ser solucionados através de estudos
cuidadosos baseados na consulta dos Typi e observações de campo.
Este trabalho, pois, tem como objetivo, a revisão taxonômica do gênero Deianira
Cham. et Schlecht. e a verificação da área de ocorrência de seus representantes, citando-
se uma nova localidade no Estado do Maranhão para a espécie D. chiquitana Herzog.
G A R D N E R (1840:306) ao visitar a região de Arraias (Goiás) mencionou a beleza
das Gentianaceae, citando duas espécies de Callopisma Mart. Esse autor, além de infor-
mar a abundância de uma espécie em relação a outra, citou que uma delas era muito
amarga e bastante usada como medicamento pelos habitantes locais, que a colhiam quan-
do em floração e a conservavam seca, arrumada em feixes que permaneciam pendurados
nas residências para ser utilizada sob a forma de infusão contra a dispepsia e como forti-
ficante.
As duas espécies de Callopisma, citadas por Gardner, encontram-se depositadas no
British Museum e correspondem à Deianira nervosa Cham. et Schlecht. e Deianira chi-
quitana Herzog.
Por seu porte elegante e beleza das flores, o gênero Deianira Cham. et Schlecht. cha-
ma a atenção de leigos e botânicos, fato já observado por G A R D N E R e W A R M I N G
(1908:49, 51) que assinalou Deianira erubescens Cham. et Schlecht. e Deianira nervosa
Cham. et Schlecht. dentre as poucas Gentianaceae ocorrentes em Lagoa Santa. Esse autor
ao analisar as particularidades das ervas campestres, salientou a raridade de plantas com
rosetas na base, com exceção de Deianira erubescens Cham. et Schlecht. que considerou'
^picamente constituídas de folhas basilares.
G O O D L A N D (1969:126, 127; 1970:73-74) além das espécies mencionadas, por
Warming, citou D. pallescens Cham. et Schlecht. para o Triângulo Mineiro.
O gênero é representado por 7 espécies que ocorrem nos cerrados do Brasil,'princi-
palmente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste. Fora do Brasil, apenas 1 espécie
deste gênero foi citada para a Bolívia. Caracteriza-se por ser constituído de ervas ou su-
barbustos heliófilos que crescem em solos litólicos e concrecionários distróficos, latossolo
vermelho ou solos de textura arenosa ou argilosa, com raízes ora delicadas, ora robustas
relativamente profundas, pouco ramificadas e pertencentes àquele grupo de plantas efê-
meras que perdem suas partes aéreas na época da seca, permanecendo, no entanto, os
or
gãos subterrâneos, que se desenvolvem logo após as primeiras chuvas. Em D. pallescens
jorma-se um entumescimento, que se desenvolve depois que a planta atinge uma certa
idade.
As espécies do gênero que apresentam folhas concrescidas semelhantes a taças, ar-
mazenam em seu interior apreciável quantidade de água.
O nome é derivado de Deyanira figura mitológica grega, de rara beleza, esposa de
Hércules, a respeito da qual existem numerosas versões. Nas obras consultadas (RO-
BLES: 1944: 180, 187; L E Z A M A : 1974: 112), esse nome ora é apresentado como Deja-
nir
a , ora como Deyanira, entretanto os autores do gênero usaram a grafia Deianira, que
deve ser conservada, segundo o artigo 73 do International Code of Botanical Nomen-
dature (Stafleu et alii, 1972:63).

II — H I S T Ó R I C O

O gênero Deianira foi criado originalmente por Chamisso et Schlechtendal (1826:


— 48 —

195) com três espécies: D. erubescens, D. pallescens e D. nervosa.


M A R T I U S (1827:107) descreveu o gênero Callopisma com duas espécies: C per-
foliatum e C. amplexijolium e colocou Deianira como sinônimo. Atribuiu duas variedades
para C. perfoliatum, ou sejam: a variedade angustifolia e a variedade latifolia, conside-
rando D. erubescens sinônimo da primeira e D. pallescens da segunda. D. nervosa, tam-
bém foi incluída pelo referido autor como sinônimo de Ç. amplexifolium.
S P R E N G E L (1827:41) transferiu as espécies de Deianira Cham. et Schlecht. para
o gênero Exacum L., redescrevendo-as sucintamente.
G R I S E B A C H (1839:114), redescreveu Deianira considerando D. erubescens e D.
Deianira, alterando a grafia para Dejanira, e colocando Callopisma Mart. como sinô-
nimo.
E N D L I C H E R (1838:603) seguiu o conceito de Martius, ao aceitar o gênero Callo-
pisma, colocando também Deianira como seu sinônimo.
G R I S E B A C H (1839: 114), redescreveu Deianira considerando D. erubescens e D.
nervosa como espécies válidas e D. pallescens, uma variedade da primeira. Foi o primeiro
autor a fazer um estudo mais ou menos completo da família Gentianaceae, apresentando
uma chave para as espécies do gênero Deianira e outras para as tribos e gêneros.
Esse mesmo autor (1845:48) apresentou o gênero Deianira in De Candolle Prodro-
mus, seguindo sua obra anterior, porém descrevendo originalmente a variedade foliosa
para D. nervosa.
P R O G E L (1865:201) conservou as modificações feitas por Grisebach e descreveu
duas outras variedades novas: D. erubescens var. cordijolia e D. nervosa var. latvjolia.
B E N T H A M et H O O K E R (1876:810) redescreveram Deianira, mencionando três
espécies para o Brasil, sendo uma delas D. divaricata Gardner.
BAILLON (1889:136) apresentou o gênero em questão com uma diagnose amplia-
da, considerando Callopisma Mart. como seu sinônimo.
G I L G (1895:101) redescreveu o gênero Deianira citando, da mesma maneira que
Bentham et Hooker, três espécies para o Brasil.
BARBOSA R O D R I G U E S (1898:32) embora não tenha descrito Deianira, apre-
sentou a diagnose de uma nova espécie D. cyathijolia, bem como uma nova variedade:
D. erubescens var. alba.
M A L M E (1904:15, 16, 17), como Barbosa Rodrigues também não descreveu o gê-
nero, mas fez algumas modificações dentre as quais salientamos as seguintes: elevou a
variedade cordijolia de D. erubescens à categoria de espécie, restabeleceu o status origi-
nal de D. pallescens e redescreveu detalhadamente D. cyathijolia.
L E M E É (1930:528) apresentou uma boa redescrição do gênero Deianira colocan-
do Callopisma Mart. em sinonímia e assinalando quatro espécies para o Brasil.

III — M A T E R I A L E M É T O D O S

Para o estudo taxonômico foi utilizado material vivo e herborizado, depositado nas
coleções do Jardim Botânico e Museu Nacional do Rio de Janeiro e de outras Instituições
nacionais e estrangeiras.
As folhas para observação da nervação, e partes florais, foram diafanizadas em solu-
ção de N a O H a 5%, coradas em safranina hidro-alcoólica a 1% e montadas em xarope de
Apathy. A identificação dos padrões de nervação foi baseada na classificação de Etting-
shausen adaptada por F E L I P E e A L E N C A S T R O (1966: 131-133). Para o estudo
das epidermes, foi utilizado material herborizado, dissociado em mistura de Jeffrey (ácido
nítrico a 10% e ácido crômico a 10%, em partes iguais) e montado em glicerina-água
(507o). Na classificação dos estômatos seguiu-se o conceito clássico de M E T C A L F E e
CHALK(1965:XIV-XV).
Para a realização dos desenhos que ilustram o trabalho, foram utilizados o micros-
cópio ótico Carl Zeiss e o microscópio estereoscópico da Willd com suas respectivas câma-
ras claras em diferentes escalas de aumento.
. — 49 —

IV — R E S U L T A D O S

4.1 TRATAMENTO TAXONÒMICO


4.1.1 POSIÇÃO

C H A M I S S O et S C H L E C H T E N D A L (1826:195), após a descrição do gênero


Deianira, fizeram referência a sua afinidade com o gênero Orthostemon R. Brown, di-
ferenciando-o deste pelo seu hábito, forma do estigma e distribuição geográfica. Além das
características apresentadas pelos autores, Orthostemon R. Brown, distingue-se de Deia-
nira Cham. et Schlecht. por apresentar polen isolado, corola zigomorfa, estames dispos-
tos em diferentes alturas e presença de alguns estaminódios, características estas que
levaram G I L G (1895:75) a colocá-lo em sinonímia de Canscora Lam. situando-o na
sub-família Gentianoideae, tribus Gentianeae e subtribus Erythraeinae (Griseb.) Gilg.
G R I S E B A C H (1838:31, 32, 33 e 35) inclui Deianira entre os gêneros Chlora L. e
Schultesia Mart. no grupo A de sua chave "Aestivatio corolla dextrorsum contorta.
Albumen cavum seminis explens", no subgrupo II "Placentae 2.4 suturales, hinc demum
liberae (nunquam placenta demum única centralis libera). Cápsula 1. 1 locularis 1. val-
vulis introflexis bilocularis 1 semi 2-4 locularis. — Corolla absque corona", no item c
Aparatus glandulosus in fundo corollae O" e nos sub-itens cc e B respectivamente
Stigma 2 bilamellata 1. bicruria, stylo imposita" e "Corolla demum circa capsulam
m
arcescens, rarissime decidua", subordinou Callopisma Mart. à sinonímia de Deianira.
E N D L I C H E R (1838:600, 603) colocou Deianira como sinônimo de Callopisma
Mart. incluindo-o na Subordo I, Gentianeae que se caracteriza pela prefloração torcido-
dextrorsa da corola e pelo albumen que preenche a cavidade da semente e na tribus I Chi-
ronieae Endl. caracterizada pela cápsula unilocular ou pseudo-bilocular pela intromissão
das placentas.
G R I S E B A C H (1839:69), em sua monografia clássica sobre as Gentianaceae, colo-
cou Deianira na tribo I. Chironiae Endl., pelo fato deste gênero apresentar a prefloração
da corola torcida e dextrorsa, o estilete bem formado, caduco no fruto, lóculos das anteras
opostas sem projeção do conectivo e corola rotácea, marcescente em torno da cápsula.
Esse mesmo autor, na página seguinte, organizou uma chave para a tribo Chironieae,
separando Deianira dos gêneros Chironia L. e Exacum L. por apresentar estigma bilame-
lado e lóculos das anteras distintos. Ainda nessa chave evidenciou a afinidade do gênero
Deianira com a Seção Pseudochironia Griseb. (Sabbatiae) que se distingue do gênero de
Chamisso e Schlechtendal, pelas anteras espiraladas, com rimas alongadas e estigma em
espiral. Com referência à sinonímia do gênero, Grisebach seguiu os mesmos critérios
dos autores anteriores.
Anos mais tarde (1845:38) modificou a categoria de subordem I Gentianeae de
Endlicher para tribo, por seus componentes apresentarem prefloração da corola dextror-
samente torcida, testa da semente membranácea e por serem ervas terrestres ou raramen-
te arbustos, esporadicamente parasitas com folhas opostas rarissimamente alternas de
m
argens inteiras. Considerou a tribo I. Chironieae Endl. como uma subtribo, caracteri-
zando-a pela presença dos lóculos opostos das anteras eretas, sem projeção do conectivo,
com poros apicais prolongando-se em rimas laterais.
O gênero Deianira com seu sinônimo Callopisma foram colocados por Grisebach na
tribo e subtribo acima mencionadas.
P R O G E L (1865:199-200) seguiu o mesmo sistema de Grisebach, e apresentou
u
ma chave para determinação dos gêneros das Gentianaceae. Colocou Deianira próximo
aos gêneros Coutoubea Aubl., Xestaeae Griseb. e Schultesia Mart., distinguindo-o do pri-
meiro por não ter bractéolas na base do cálice, nem filetes bidentados e dos outros dois,
Pelo conectivo inconspícuo, anteras com poros apicais que se prolongam em rimas laterais
e pelo cálice 4-partido, com segmentos não carinados.
Na apresentação de sua chave para gêneros, observamos que Progel não os incluiu
em tribos ou subtribos, só o fazendo mais adiante na descrição dos gêneros, onde conside-
— 50 —

rou Deianira próximo de Zygostigma Griseb. incluído por ele na subtribus II. Chloreae
Griseb. que se caracteriza por apresentar as anteras providas de conectivo conspícuo,
estilete distinto e caduco.
Ao analisarmos o sistema deste autor, verificamos que ele assinalou, em sua chave,
a ausência de carena no cálice de Deianira, do que discordamos, pois ao examinarmos
farto material, verificamos geralmente a presença de um cálice carinado ou subcarinado.
PROGEL, como os demais autores, considerou Callopisma Mart. como sinônimo de
Deianira.
BENTHAM et HOOKER (1876:801) incluíram Deianira na Tribus II. Chiro-
nieae Endl., tomando por base os caracteres já enunciados por seus antecessores. Estes
mesmos autores colocaram Deianira entre os gêneros lxanthus Griseb. e Cicendia Adans.
na subtribus Erythraeae (Griseb.) Benth. et Hook. caracterizada por apresentar estigma
bi-lamelado, anteras freqüentemente eretas, ovário 1-locular com placentas pouco ou
semi-intrusas, estilete freqüentemente caduco. Ervas anuais ou mais raramente perenes
e no item *** caracterizado pelas anteras imutáveis ou levemente recurvas no ápice. Como
os autores anteriores, consideraram Callopisma Mart. sinônimo de Deianira.
BAILLON (1889-136) situou Deianira na Séries II Chironieae (Endl.) Bail., entre
os gêneros Zigostigma Griseb. e Cicendia Adans.
Nesse trabalho, o autor (1. c. 117) fez referência a Deianira, bem como a outros
gêneros desse grupo, como tendo um ovário com duas placentas ligeiramente introrsas,
anteras ordinariamente eretas e a extremidade estigmatifera do estilete, bi-lamelada.
Colocou também Callopisma Mart. como sinônimo de Deianira.
GILG (1895:95) situou Deianira na sub-família I Gentianoideae, como pertencente
a tribo 3-Helieae (Mart.) Gilg, não só por apresentar os grãos de pólen isolados ou em
tétrades, quando isolados, podendo ser oblongos, oviformes ou às vezes curvos, nunca
comprimidos de um lado, corola torcida ou raramente imbricada, nunca enrolada nas
margens e mais ou menos valvares e por ter as folhas opostas e decussadas, raramente
sub-opostas, caracteres, esses, que determinam a sub-família, como, também, por apre-
sentar o pólen em tétrade, os grãos esféricos sempre providos de três poros de germinação,
ausência de colpos, juntando-se as tétrades, muitas vezes, em grandes aglomerados, o que
determina a tribus Helieae.
Organizou, o autor, uma chave para os gêneros da tribo mencionada, tendo coloca-
do o gênero em questão entre Calolisianthus Gilg e Helia Mart., diferindo, do primeiro,
por apresentar a exina com espessamento reticulado tão extraordinariamente estreito que
ela geralmente, aparece como perfurada, e do segundo pelo tubo da corola com o com-
primento igual ao do cálice.
O sistema elaborado por Gilg, foi seguido por WAGENITZ (1964:410) no Syllabus
der Pflanzenfamilien, que embora não tivesse citado o gênero Deianira, fica subentendido
que o mesmo se acha incluído na tribo Helieae, caracterizada pelos grãos de pólen em té-
trades, e por serem ervas ou vegetais lenhosos, geralmente neo-tropicais.
Verificamos, também, entre estes dois últimos autores, modificações na denomina-
ção das categorias, isto, porque Gilg considerou em seu sistema, duas sub-famílias: Gen-
tianoideae e Menyanthoideae (Endl.) Gilg, enquanto Wagenitz estabeleceu, apenas
tribos, uma vez que a sub-família Menyanthoideae foi desmembrada para constituir uma
família à parte.
Ao analizarmos os sistemas de classificação, desde Grisebach até Baillon, verifica-
mos que todos eles seguem a mesma filosofia do sistema de Endlicher, diferindo apenas
nas denominações das categorias, que ora são apresentadas como grupos, ora sub-ordens,
tribos ou séries.
Já o sistema de Gilg tem conceituação bastante diferente da de seus antecessores,
pois além de usar as características já conhecidas para a separação dos taxa, põe em
relevo nas suas chaves, os diversos tipos de grãos de pólen e caracteres anatômicos para
algumas sub-tribos.
Neste trabalho, adotamos o sistema de Gilg, por considerá-lo mais completo no estu-
— 51 —

do da família Gentianaceae. As características polínicas usadas por ele são, indubitavel-


mente de importância capital na sistemática de tal família.
O gênero Detamra, como foi apontado por Gilg, é mais afim de Helia Mart. e Calo-
tisianthus Gilg, diferindo ambos do gênero em pauta pelo número de lobos da corola e do
cálice, pelo conectivo nitidamente alongado, além de um entumescimento na porção me-
diana do tubo da corola em Helia e das anteras de início involutas e mais tarde revolutas
em CalolisiantHus.

4.1.2 DESCRIÇÃO DO GÊNERO

DEIANIRA CHAM. ETSCHLECHT.

Chamisso et Schlechtendal, Linnaea 1: 195. 1826; Grisebach, Observ. Quaedam


Gent. fam. charact. 35: 1838; Grisebach. Gen. et Sp. Gent. 114. 1839 et in A.P. de Can-
dolle. Prodr. 9:48. 1845; Progel in Mart. Fl. Brás. 6 (1): 201. 1865; Bentham et Hooker,
Gen. PI. 2:810. 1876; Baillon, Hist. PI. 10:136. 1889; Gilg in Engler et Prantl, Nat.
Pflanzenfam. 4 ( 2 ) : 101. 1895; Lemeé, 2: 528. 1930.
Callopisma Martius, Nov. Gen. PI. 2:107, Pis. 183, 184, 1827; Endlicher, Gen.
PI- 8: 603, n° 3548. 1838.
Ervas ou subarbustos eretos pouco ou não ramificados, com o sistema subterrâneo
constituído de uma raiz relativamente longa, espessa ou delgada, raramente ramificada,
com cicatrizes geralmente presentes na parte superior. Caule fistuloso ou não, cilíndrico,
liso, geralmente pruinoso. Folhas simples, decussadas, perfolhadas, semi-amplexicaules,
concrescidas ou não, desprovidas de estipulas; lâmina lanceolada, oblongo-lanceolada,
ovada, sagitado-cordada, arredondada ou atenuada na base, mucronada ou não, padrão
de nervação acródromo, misto acródromo-broquidódromo ou broquidódromo; termina-
ções vasculares simples, duplas ou múltiplas, constituídas de elementos helicoidais, acom-
panhadas por esclerócitos. Epiderme superior e inferior providas de 4-6 lados de paredes
retas, moderadamente curvas ou mesmo sinuosas, com estômatos do tipo anisocítico, dia-
citico ou anomocítico, dispostos nas duas faces ou apenas em uma. Inflorescências termi-
nais e axilares multifloras, congestas, raramente laxas, pedunculadas ou sésseis e neste
caso capituliformes; flores alvas ou róseas; bractéolas 2-3. Botões lanceolados, ovado-
elípticos ou ovado-lanceolados, agudos, acuminados ou às vezes levemente obtusos no ápi-
se. Antes da antese os lacínios do cálice ora atingem o meio da corola (D. pallescens, D.
erubescens, D. nervosa, D. chiquüana), ora ultrapassam a porção mediana (D. cordijolia
e
D- cyathifolia). Cálice persistente actinomorfo, carinado ou sub-carinado do mesmo
comprimento do tubo da corola ou às vezes ultrapassando-o, com lacínios lanceolados,
ovado-lanceolados ou triangulares, geralmente sub-hialinos na margem, providos de 3
nervuras delicadas ou muito espessadas; a mediana geralmente afilando-se à medida que
se
aproxima do ápice e as laterais delicadas, com ramificações ascendentes, formando,
por vezes, laços entre si ou dicotomia apical. Corola hipocraterimorfa, marcescente, com
4 lobos obovados ou elípticos, inteiros ou às vezes emarginados no ápice, providos de 3
nervuras aproximadamente com a mesma espessura, geralmente ascendentes, profusa-
mente ramificadas formando laços entre si em toda a extensão e dicotomia apical em di-
reção às margens não as atingindo porém; raramente bifurcados na base. Estames alter-
mpetalos, exsertos, iguais entre si, com filetes inseridos no tubo da corola; anteras eretas,
'ineares, raramente oblongas, basifixas, ditecas, abrindo-se no ápice por meio de poros
°i u e se prolongam em rimas laterais; grãos de polen em tétrades, com retículo mais ou
menos uniforme, espesso ou fino. Ovário de lanceolado a oblongo, bicarpelar, unilocular
com placentas parietal-marginais, muito projetadas, dando a impressão de um ovário
tetra-locular; estilete longo, que ultrapassa geralmente os estames, caduco no fruto, pro-
vido de duas lamelas carnosas no ápice, profusamente papilosas. Óvulos muitos, aná-
tropos. Cápsula geralmente ovado-elíptica, bivalvar, septicida. Sementes reticuladas,
pequenas, arredondadas, unilateralmente comprimidas ou angulosas e com várias de-
— 52 —

pressões nas diversas faces. Embrião mínimo, delicado, com rostelo curtíssimo.

Lectotypus — Deianira erubescens Cham. et Schlecht.


Distribuição geográfica: Brasil, Bolívia.

Das três espécies descritas originalmente para Deianira por Chamisso et Schlechten-
dal (1826:195-196). D. pallescens e D. erubescens são as que mais concordam com as ca-
racterísticas do gênero, parecendo-nos que os autores basearam-se nas duas, simultanea-
mente, para elaborarem a diagnose genérica. Torna-se, assim, praticamente impossível,
pelas descrições apresentadas, apontar qual a espécie-tipo. Entretanto elegemos D. eru-
bescens como Lectotypus, visto que, ao examinarmos dois Isotypus desta espécie, do Con-
servatoire et Jardin Botaniques de Genève e do Institute of Systematic Botany, Univer-
sity of Uppsala, observamos na etiqueta do primeiro uma pequena frase em latim, onde
era mencionada a afinidade do gênero Orlhostemon R. Brown, referência esta já assinala-
da por Chamisso et Schlechtendal (l.c.:196) após a descrição de Deianira em sua obra
original.
O gênero Callopisma cujo nome procede do grego e significa uma bela planta, foi
criado por M A R T I U S (1827:107) que o descreveu amplamente, com duas espécies bem
ilustradas e quando esse autor teve conhecimento da classificação das espécies de Chamis-
so et Schlechtendal, a diagnose de seu gênero j á estava concluída. Considerou Deianira
como um sinônimo daquele gênero e justificou em nota à parte sua preferência, em virtude
de ter havido um atrazo na publicação do trabalho, pelo fato de existirem gravuras no
texto.
E N D L I C H E R (1838:603) seguiu Martius, redescrevendo o gênero acima mencio-
nado.
G R I S E B A C H (1838:35) foi o primeiro botânico a colocar Callopisma na sinonímia
de Deianira, no que foi seguido pelos autores Progel, Bentham et Hooker, Baillon, Gilg
e Lemmé.
4.1.3 CHA VE PARA AS ESPÉCIES

A. Base das folhas concrescidas, perfolhadas.


a. Folhas sagitado-cordadas na base 1 — D. cordifoha
aa. Folhas não sagitado-cordadas na base.
6. Plantas robustas, caule de 3- lOmm de diâmetro; folhas não rosutadas na base.
c. Tubo do cálice mais curto que os lacínios; folhas com nervuras inconspícuas; inflorescências com
pedúnculos geralmente ultrapassando o comprimento das folhas 2 — D. pallescens
cc. T u b o do cálice superando os lacínios; folhas com nervuras conspícuas; inflorescências com pedún-
culos geralmente envolvidos pelas folhas 3 — D. cyalhifolia
bb. Plantas não robustas; caule de 2-3mm de diâmetro; folhas da base livres, próximas umas das outras,
dando o aspecto de rosuladas 4 — D. erubescens
AA. Base das folhas não concrescidas, não perfolhadas.
d. Folhas da base semelhantes às do ápice; eslômatos somente na face inferior; pcdicelos l-3mm de com-
primento.
e. Nervuras secundárias e principal salientes; lacínios do cálice do mesmo comprimento ou mais curtos
que o tubo da corola; anteras lineares, 3, 5-5, 5mm de comp.; folhas coriáceas ou sub-coriáceas
5 — D. nervosa
ee. Nervuras secundárias inconspícuas e principal um tanto salientes; lacínios do cálice superando o
tubo da corola; anteras oblongas, 2, 1-2, 2mm de compr.; folhas papiráceas 6 — D. damazwi
dd. Folhas da base diferentes das do ápice; estômatos nas duas faces; pedicelos 4-8mm de c o m p r i m e n t o
7 — D. chiquitana

4.1.4 D E S C R I Ç Ã O E DISCUSSÃO DAS ESPÉCIES

1. Deianira cordifolia (Lhotzky ex Progel) Malme

(Est 2, 3, 4)
Malme, Arq. f. bot 3 (12): 15. pi. 2, fig. 5.1904. Moreira, Atas Soe. Biol. 5 (1-2): 6.
1961.
— 53 —

= Callopisma cordifolium Lhotzky ex Grisebach in A. P. de Candolle, Prod. 9: 48.


1845.pro syn. Deianira erubescens Chamisso et Schlechtendal.
= Deianira erubescens Chamisso et Schlechtendal var. cordifolia Lhotzky ex Progel in
Mart. Fl. Brás. 6(1): 201. 1865.
Erva glabra Ò,60-0,70m de altura. Caule cilíndrico, ramoso em direção ao ápice 0,2-
0,4cm de diâmetro, entre-nó 3-6,5cm de comprimento. Folhas adunadas, imbricadas ou
não; ovadas sagitado-cordadas, agudas ou obtusas no ápice, com sinus triangular e
aurículas agudas na base, papiráceas ou subcoriáceas, hialinas na margem, com nervuras
salientes, 3,5-6mm de comprimento, 2,5-4cm de largura; padrão de nervação misto acró-
dromo-broquidódromo, sendo que as 3 nervuras primárias centrais seguem as diretrizes
de um padrão acródromo, enquanto as laterais (primárias e secundárias se ligam por
meio de laços; presença de nervuras terciárias axiais e laterais; rede densa; Epiderme de
paredes curvas ou retas, com estômatos nas duas faces dos tipos anisocítico, diacítico ou
anomocítico. Cimeiras multifloras congestas; flores róseas; pedúnculos 10-35mm de com-
primento, bibracteados; brácteas foliáceas, ovadas ou oblongo-lanceoladas 10-13mm de
comprimento, 7-1 l m m de largura; pedicelos 5-9mm de comprimento, estriados, bi-brac-
teolados; bractéolas lanceoladas, 4-5mm de comprimento, 0,l-0,2mm de largura, agudas
no ápice. Botões lanceolados, acuminados no ápice, 4-4,2mm de comprimento, 1,1-
l,5mm de largura. Cálice sub-coriáceo 5-7mm de comprimento, tubo curto; lacínios
'guais ultrapassando levemente o tubo da corola, lanceolados, agudos, hialinos na
margem, carinados no dorso, 5-6mm de comprimento, l,5-2mm de largura. Corola 13-
16mm de comprimento, tubo 5-6mm de comprimento, lobos elípticos ou ovais, 7-9mm de
comprimento, 3,5-4mm de largura. Estames inseridos próximos à face da corola; filetes
l>5-2mm de comprimento; anteras lineares, obtusas ou levemente emarginadas no ápice,
cordadas na base, 4,5-5mm de comprimento, l-2mm de largura. Ovário estreito-elíptico,
4,5-5mm de comprimento, 1,3-1,5mm de largura; estilete filiforme 0,6-0,7mm de compri-
mento, bi-lamelado no ápice, lamelas oblongas, cerca de l m m de comprimento. Cápsulas
não vimos.
Localidade típica: In Serra da Cujabá
Lectotypus: 1832, Lhotzky 62 et Manso Foto US
Distribuição geográfica: Brasil, no Estado de Mato Grosso.
Esta espécie foi encontrada em altitude de 400-1200m s.m. florescendo nos meses
de março a maio, parecendo endêmica do Estado acima mencionado. Seu nome refere-se à
lorma das folhas e deriva-se do latim cordatus.
Material examinado: BRASIL: Leg. Tamberlik s.n. W;
M A T O G R O S S O — In Serra da Cujabá, leg. Lhotzky 62 et Manso, Foto US;
Santa Ana da Chapada, leg. Malme 3323 (13-V-1903) S; Entre Parecis e Santo Antônio,
le
g- J G . Kuhlmann 2239 (IV-1918) SP; R, RB; Morro Podre, Chapada, leg. F.C.
H o e h n e 3 2 3 8 a ( I I I - 1 9 1 1 ) R; ibidem, leg. F.C. Hoehne 3237 (III-1911) R; Cerrado, Rio
Turvo, ca. 210Km, N. Xavantina, elev. 500m s.m.leg. H.S. Irwin 16198 et alii (28-V.
1966) UB, NY; ibidem, leg. H.S. Irwin 16266 et alii (29-V-1966) UB, NY; Xavantina,
(Caximbo Road 35Km from Xavantina, 600-1000m s.m. leg. D.R. Hunt 5668 (31-V-
1966) UB, NY; Córrego do Porco, 240Km, N. of Xavantina, S. Felix road, leg. J.A.
Ratter 1348 et alii (7-V-1968) RB; K; Chapada do Guimarães leg. Hatschbach 36153
(13-11-1975) M B M .

Deianira erubescens Cham. et Schlecht. var. cordifolia foi descrita por Progel
(1865:201), que se baseou no material coletado por Silva Manso e Lhotzky em Mato
Grosso, aproveitando para o estabelecimento da variedade, o nome Callopisma
cordijolium Lhotzky mss existente na etiqueta do referido material.

Vinte anos antes, Grisebach in A. P. Candolle, Prodr. (48), j á havia mencionado esse
cpiteto como sinônimo de D. erubescens. Ao examinarmos uma foto do material de
Lhotzky e Manso 62 do Herbário de Berlin, não tivemos dúvida em reconhecê-la como a
fotografia do Isotypus da variedade em questão.
— 54 —

Malme (1904:15) elevou a variedade cordifolia Lhotzky ex Frogel à categoria de


espécie, descrevendo-a com maiores detalhes e ilustrando-a com base no material por ele
coletado na Serra da Chapada sob o número 3323. Esse autor, após sua descrição, fez
referência à coleta de Lhotzky e Manso na Serra de Cuiabá, comprovando desta forma
sua localidade típica.

Ao examinarmos a exsicata de Malme enviada pelo Naturhistoriska Riksmuseet,


Stockholm, e outra coletada por Tamberlick e depositada em Viena, verificamos que as
mesmas eram exemplares valiosos, não apenas por terem sido os primeiros materiais
coletados depois de Lhotzky, mas também, por um deles ter servido de base para a
diagnose da espécie.

Moreira (1961:6) estudou o polen de D. cordifolia e assinalou as seguintes


características: "Tetras polhnarum lelrahedralia et tetragonalia. Pollinia triporatae
brevissime colpatae. Exinium reticulatum perjoratum Distantiae intercolpare aequales —
Crassituto eximi cirater. 2. micra. Diâmetros cellulae adfines intini constans. Exinium in
pila. Tetras diâmetros 30 micra. Axispolaris circi ter 20 micra."

2. Deianira pallescens Cham. et Schlecht.

(Est. 5 , 6 , 7 , 8 )

• Chamissoet Schlechtendal, Linnaea 1: 196. 1826; Malme, Arq. f. bot. 3 (12): 16.
1904.

= Callopisma perfoliatum Martius var. latifolia Martius, Nov. Gen. Sp. pi. 2: 108, pi.
183, 1827; Grisebach, Gen. Sp. Gent. Obs. 114, 1839 et in DC. Prodr. 9: 49. 1845, pro
syn; Progel in Mart. Fl. Brás. 6 (1): 201. 1865, pro syn; Malme loc. cit., pro syn;
Beauverd, Buli. Herb. Boiss. 7 (2): 147. 1907,pro syn. D. erubescens.
= Exacum pallescens (Chamisso et Schlechtendal) Sprengel, Syst. 4 (2) Cur. Post: 41.
1827. Grisebach, loc. cit., pro syn. D. erubescens; Beauverd, loc. cit. pro syn. D.
erubescens.
= Deianira erubescens Chamisso et Schlechtendal var. pallescens (Chamisso et
Schlechtendal) Grisebach, loc. cit. 114. 1839 et in A. P. de Candolle, Prodr. 9: 48. 1845;
Progel, loc. cit.
= Deianira erubescens auct. non Cham. et Schlecht., Barbosa Rodrigues, Plant.
Matogros. 32 1898.
= Deianira erubescens Chamisso et Schlechtendal var. alba Barbosa Rodrigues, loc. cit.;
Malme, loc. cit.,pro syn.

De erva a subarbusto, 0,80-2m de altura. Caule cilíndrico fistuloso, 0,3-1 cm de


diâmetro, entrenó de 4-14cm de comprimento. Folhas perfolhadas, decussadas; elipticas,
ovadas ou ovado-elípticas, concrescidas um pouco abaixo da metade inferior, agudas e
mucronadas no ápice, subcoriáceas, hialinas na margem, 2-7,5cm de comprimento, 2-4cm
de largura; padrão de nervação acródromo com 12 nervuras primárias conspícuas das
quais 6 dirigem para o ápice de cada lobo onde convergem, ocorrendo entre estas,
nervuras mais delgadas que se bifurcam antes de atingirem a porção mediana
anastomosando-se por meio de laços; nervuras secundárias e terciárias axiais e laterais;
rede de nervuras densa. Epiderme de paredes retas com estômatos em ambas as faces, dos
tipos'anisocítico e anomocítico. Cimeiras multifloras congestas, que superam as folhas;
flores alvas pedúnculos 15-45mm de comprimento, bi-bracteados; brácteas foliáceas,
ovado-elípticas 20-40mm de comprimento, 25-35mm de largura, agudas e mucronadas no
ápice; pedicelos de 6-9mm de comprimento, bi-bracteolados; bractéolas ovado-
lanceoladas 1-1,5mm de comprimento, 0,5-0,7mm de largura. Botões lanceolados, agudos
— 55 —

no ápice, 2,5-3mm de comprimento, 0,7-lmm de largura. Cálice carinado 6,5-7mm de


comprimento, com lacínios que ultrapassam o comprimento do tubo, sub-hialinos na
margem, 4,5-5mm de comprimento, 1,3-1,5mm de largura. Corola 10-15,5mm de
comprimento, tubo 3,5-5mm de comprimento, 3,3-4,5mm de largura. Estames inseridos
na porção mediana do tubo ou pouco acima; filetes l,2-l,5mm de comprimento, anteras
lineares, emarginadas no ápice, cordadas na base, 4,5-6,5mm de comprimento, 0,7-
0,8mm de largura. Ovário elíptico, 4,5-6,5mm de comprimento, 1-2,5mm de largura;
estilete 5-5,5mm de comprimento, bi-lamelado no ápice; lamelas 0,1 mm de comprimento.
Cápsula elíptica, ou oblongo-lanceolada, de ápice ora agudo ora obtuso e base obtusa, 6-
7mm de comprimento, 2,5-4mm de largura. Sementes com 0,25-0,4mm de comprimento,
0,25-0,3mm de largura.
Localidade típica; In Brasília regionibus interioribus.
Lectotypus; Leg Sellow 1630 foto F; Isolectotypi; foto M O , US.
Distribuição geográfica; Brasil nos Estados de Minas Gerais, S. Paulo, Mato Grosso
e Goiás.

Esta espécie foi encontrada em altitudes de 200-1200m s.m. florescendo de março a


setembro. Seu nome procede do latim, pallescens- e refere-se à tonalidade da planta.
Conhecida vulgarmente pelos nomes de Boca-de-Sapo, Copo-d'água, Quina de Raiz,
Centaurea-da-Terra, Centaurea-do-Brasil, Escovinha, Raiz amargosa, Raiz-de-Fel e
Fel-da-Terra.

No campo, distingue-se facilmente das espécies que a rodeiam, por apresentar as


folhas glaucas, com uma linha mais clara nas margens e por serem concrescidas entre si,
tormando uma espécie de taça onde acumulam uma certa quantidade de água. Estas
'olhas quando jovens, apresentam-se com os bordos coalescentes formando uma estrutura
'echada, dispostas em série. Muito próxima de D. cyathifolia Barb. Rodrig. da qual
difere, principalmente, pelos botões florais, cálice e pelas inflorescências geralmente
maiores que as folhas.
Material examinado: BRASIL — Leg. Claussen 458 (1840) G; leg. Martius s.n.,
G; leg. Glaziou u 77o, G; leg. Gardner 3894 (1836-1841) NY e fotos, NY, M O , US.
Tamberliks.n., W.
MINAS GERAIS — Leg. Saint-Hillaire s.n. (1816-1821) NY; Belo Horizonte, leg.
A.S. Teixeira s.n. (24-IV. 1899) SP; ibidem, leg. M . Barreto 7469 (6-III-1934) B H M H ;
ibidem, leg. Brade s.n. (VI-1934) RB; Serra do Taquaril, leg. M. Barreto 2887 (18-V-
19
33) R ; Ibidem, leg. M. Barreto 2885 (16-V-1933) B H M H ; ibidem, leg. M. Barreto
2894 (8-IV-1933) B H M H , Serra do Curral, leg. P. L. Roth 2216, H.U.J.F., ibidem, leg.
A. Ducke s.n. (23-111-1929) RB; Paraopeba, Horto Florestal, leg. Heringer 3986 (18-
VIII-1955) UB, RB, H B ; ibidem, leg. E. Pereira 7513 (2-IV-1963) HB, M B M , RB;
huiutaba, campo de aviação, leg. A. Macedo 2403 (29-V-1950) S, M O ; ibidem, leg. A.
Macedo 381 (22-VI-1944) S, RB, M O ; Conselheiro da Mata, leg. Brade 13622 (VI-1934)
RB; Jaboticatubas, lOKm ao norte da Lagoa Santa, Km 56, (on the road from Belo Hori-
zonte to Conceição, 19* 40'S, 43» 55'W alt. 90m s.m.), leg. L. B. Smith 6962 (28-IV-
19
52) R, NY; Município de Patos, leg. M. Barreto 4505 (19,VI-1936) B H M H ; Parau-
n
*> leg. L. Netto 137 (VI-1862) R; Caeté, leg. Damazio 1004 (12-VI-1909) RB; ibidem
H R M ' B a r r e t 0 2 8 9 2 (23-111-1933) B H M H ; Jequitibá, leg. Heringer s.n. (16-VII-1957)
™B; Lagoa Santa, leg. Warming s.n. (V-VI) S; ibidem, Santa Luzia, leg. M . Barreto
^868 (28-V-1933) B H M H ; ibidem, leg. M . Barreto 2888 (8-IV-1933) B H M H ; ibidem
leg. M. Barreto 2890 (26-11-1933) B H M H ; Sete Lagoas leg. J. B. Silva 335 (V-1969)
B H M H ; Município de Nova Lima, pico de Belo Horizonte, alt. 1300m s.m., leg. L.O.
Williams 7145 (VI-1945) US; Serra do Cipó, leg. Fuad Atala 161 (3-IV-1958) R;
Jardim Botânico de Belo Horizonte, leg. M. Barreto 1008 (3-IX-1932) RB; Entre Lagoa
Santa e Serra do Cipó, leg. A.P. Duarte 2440 (14-IV-1950) RB; B H M H ; Jaguará, leg.
M. Barreto 1250 e Brade 14844 (17-IV-1935) RB; B H M H ; Cerrado ca 500Km de
— 56 —

Brasília para Belo Horizonte, leg. J . M . Pires 58004 (19-VI-1964) RB, NY, UB, S; Serra
do Cabral, vertente ocidental, leg. A.P. Duarte 7810 (l-V-1963) RB; Município de San-
tana do Riacho, 92Km da Estrada da Lagoa Santa, leg. G. Martinelli 1014 (4-VI-1976)
RB; Entre Rios, leg. Ule 3008 (VII-1892) HBG.
SÃO PAULO — Leg. Burchell 5508 (1867) BR
GOIÁS — Leg. N. Armond s.n. (p.p.) R; leg. Riedel 2725 (2-V-1834) BR; leg.
Burchell 7167 (1867) BR; leg. Gardner 3896 (1840) G; leg. A.P. Duarte et Mattos s.n.
(10-VII-1964) UB; Rizzo 6524 U F G ; Caretao e Crixas, leg. Pohl 1709 (1839) W, BR;
entre Anápolis e Corumbá, leg. A. Lima 58-3004 (2-IV-1958) R B ; Entre Rios, leg. Ule
195 (VII-1892) RB, R; entre Rajadinha e Rio Toroto, leg. Glaziou 21770 (30-VL1895)
R; Sul de Miracema do Norte, leg. M. Macedo 10 (23-VII-1961) RB; ibidem, leg. G . T .
Prance et N . T . Silva s.n. (29-VII-1964); Rio Piau, ca. 225Km S.W. (of Barreras on
Road to Posse, elev. 850m s.m.) leg. H.S. Irwin et alii (12-IV-1966) NY; Estação Morri-
nhos, leg. Rizzo 5180 et A. Barbosa 4229 (23-V-1970) U F G ; Pirineus, leg. Rizzo 6144 et
Barbosa 5392 (5-IV-1971) U F G ; Estação n» 6 leg. Rizzo et A. Barbosa 71 (15-V-1968)
U F G ; ibidem, leg. Rizzo et A. Barbosa 186 (10-IV-1968) U F G ; Estação Caldas Novas,
Serra, leg. Rizzo 5325 et A. Barbosa 4514 (27-VI-1970) U F G ; Estrada Brasília-Minas,
leg. Aydil G. Andrade 403 et Margareth Emmerich 395 (5 : IX-1960) R; Distrito Federal,
entre Gama e Rio Corumbá, leg. A.P. Duarte 8367 et A. Mattos 454 (12-VII-1964) UB;
ibidem, Fundação Zoobotânica, leg. J . M . Pires et alii 9571 (30-IV-1963) RB, UB, NY;
ibidem, Rio Corumbá, 80Km de Brasília, leg. Henriger 9785 (8-IX-1964) U B ; ibidem
Parque Municipal do Gama 20Km, S. de Brasília, leg. H.S. Irwin et T.R. Sodestromm
(4-IV-1964) UB, NY; Rio Araguaia, Cachoeira (Mun. Alto Araguaia) leg. Hatschbach
34665 (21-VII-1974) M B M ; Goiânia, Morro da Água Branca, entre 10-15Km do centro
de Goiânia, leg. A. L. Peixoto 809 et Guimarães 339 (17-XII-1975) RB; Sul de Goiânia,
leg. J . M . Pires 57892 (7-VI-1964) S; Rio Tiquiri, Formosa, leg. Heringer 11436 (25-
V-1967) U B ; Rio da Prata, ca. 60Km S. of Posse, elev. 800m s.m., leg. H.S. Irwin 14468
et alii (6-IV-1966) NY, UB; 23Km do centro de Brasília (7Km N W of Sobradinho, alt.
1150m s.m.),leg. Turma de Tax. da Univ. de Brasília, 69 (2-VI-1973) UB; Pirinópolis,
Cachoeira do Abade, leg. E. Onishi 057, et alii (25-V-1968) U B .
MATO GROSSO — Serra da Chapada, leg. Malme s.n. (VI-1903) S; ibidem leg.
Malme 1674 c (5-VI-1894) S; leg. O. Kuntze s.n., NY; S.José da Serra (mun. Cuiabá),
leg. Hatschbach 32045 (17-V-1973) M B M ; 75Km N . of Xavantina, elev. 550m s.n.,
leg. H.S. Irwin 16638, et alii (5-V-1966) NY, UB, ca. 60Km N. Xavantina, elev. 550m
s.m., leg. H.S. Irwin 16032 et alii (25-V-1966) NY, UB.
Chamisso et Schlechtendal (1826: 196) ao descreverem D. pallescens como uma nova
espécie citaram como material estudado um exemplar coletado por Sellow. Ao examinar-
mos uma foto tirada da exsicata 1630 de Sellow, depositada no Herbário de Berlin verifi-
camos que a mesma correspondia ao Holotypus da espécie.
Martius (1827:108) descreveu Callopisma perfoliatum var. latijolia colocando D.
pallescens como sinônimo da mesma. O referido autor apresentou uma belíssima estampa
de Callopisma perfoliatum não indicando, entretanto, a que variedade a mesma perten-
cia. Examinando a estampa em questão, verificamos tratar-se da variedade latijolia.
Sprengel (1827:41) transferiu D. pallescens para o gênero Exacum L., resultando o
epíteto citado na bibliografia da espécie e colocando à página 338 Callopisma perfoliatum
tab. 183, como sinônimo de Exacum pallescens.
Grisebach (1839:114 et 1845:49)'tratou D. pallescens como uma variedade de D.
erubescens, colocando Callopisma perfoliatum var. latifolia como um sinônimo dessa
variedade, citando em sua descrição alem do material de Sellow, outros coletados por
Martius em S. Paulo e Minas.
Os mesmos conceitos acima mencionados foram mantidos por Progel (1865:201).
Barbosa Rodrigues (1898:32) citou D. erubescens sem descrição, apresentando como
sinônimo Callopisma perfoliatum. Lendo as observações do autor e levando em conside-
ração, também, que na sua citação mencionara a estampa 183 do trabalho de Martius,
— 57 —

que correspondia a Callopisma perjoliatum var. latifolia; chegamos à conclusão que essa
espécie considerada por ele, como D. erubescens é, sem dúvida alguma, D. pallescens.
Nesse mesmo trabalho, Barbosa Rodrigues descreveu a variedade alba para D. erubescens
que, também, incluímos, tal como Malme o fez em (1904: 16), na sinonímia da espécie,
aqui considerada válida. Embora não tenhamos visto o " T y p u s " referente à variedade,
a descrição apresentada é suficiente para incluí-la na sinonímia.
Malme (1904: 16) restabeleceu o status de D. pallescens, de acordo com Chamisso
et Schlechtendal. Nesse trabalho o autor apresentou uma redescrição da mesma, mais rica
em detalhes do que os autores anteriores haviam feito e manteve Callopisma perjoliatum
var. latifolia Mart. em sinonímia da espécie por ele restabelecida. Malme considerou a
variedade pallescens como atribuída a Progel (1865:201). Entretanto, a mesma deve ser
referida para Grisebach, que a citou pela primeira vez (1839:114).
Analisando um Isotypus de Callopisma perjoliatum Mart. var. latifolia de Genève,
uma fotografia de D. pallescens do material de Sellow depositado em Berlim (Holoty-
pus), além de diversas coleções examinadas, verificamos que a mesma foi tratada por
quase todos os autores como D. erubescens var. pallescens. Entretanto, seguimos o con-
ceito de Chamisso et Schlechtendal e Malme, considerando-a como uma espécie válida e
distinta das demais, principalmente por ser uma planta robusta com as bases das folhas
concrescidas entre si e por apresentar os lacinios do cálice mais longos que o comprimento
do tubo e as inflorescências geralmente maiores que as folhas.

3. Deianira cyathifolia Barb. Rodrig.

(Est.9, 10. 11)


Barbosa Rodrigues, Plant. Matogros. 32. pi. 12. 1898; Malme, Arq. f. bot. 3 (12)-
17
pi. 2, fig. 6, 1094.

De ervas a subarbustos com 0,80-1,5 m de altura. Caule ereto, cilíndrico, fistuloso na


parte inferior, 0,3-0,6cm de diâmetro, entrenó 2-5,5cm de comprimento. Folhas perfolha-
das, decussadas, concrescidas acima um pouco abaixo da metade do limbo, ovadas, sub-
agudas ou sub-obtusas no ápice, coriáceas, estreitamente sub-hialinas na margem, nervu-
ras salientes, 3,5-7,5cm de comprimento, 2,5-5cm de largura; padrão de nervação acró :
dromo broquidódromo com 14 nervuras principais, das quais as 6 centrais seguem as
diretrizes do padrão acrodromo, convergindo no ápice de cada lobo; as demais anasto-
mosam-se por meio de laços e as laterais próximas aos bordos biturcam-se antes de atin-
girem a porção mediana; presença de nervuras pseudo-secundárias conspícuas e de ter-
ciarias a x i a i s e l a t e r a i s ; rede de n e r v u r a s densa. E p i d e r m e s u p e r i o r e inferi-
0r
com células de paredes onduladas e ambas providas de estômatos do tipo anisocítico.
Inflorescências com pedúnculos variando e.itre 14-35 mm de comprimento, raramente
superando as folhas; flores róseas ou alvas; brácteas foliáceas 35-45 mm de com-
primento, 25-35jnm de largura; pedicelos de 9-13mm de comprimento, bibracteola-
dos; bractèolas oblongo-lanceoladas, agudas, 1, 7-1,9mm de comprimento, 0,5-0,7mm de
largura. Botões ovado elípticos agudos no ápice, estreitando-se em direção à base, 4,7-
5mm de comprimento, 2,3-2,5mm de largura. Cálice caririado, 6-8mm de comprimento,
tubo cilíndrico-campanulado; lacinios mais curtos do que o tubo, ovado-triangulares,
sub-hialinos na margem, agudos, 3-3,5mm de comprimento, l,5-2,5mm de largura. Co-
rola com tubo 5-5,5mm de comprimento, lobos ovados elípticos obtusos no ápice 7-9mm
de comprimento, 4,5-5mm de largura. Estames inseridos na parte mediana do tubo ou
pouco mais acima; filetes l,5-2mm de comprimento; anteras 4-4,5mm de comprimento,
°.l-0,2mm de largura. Ovário elíptico 5-omm de comprimento, 2-2,5mm de largura;
estilete 5-6,5mm de comprimento, bi-lamelado, lamelas elípticas 0,7-0,9mm de compri-
mento. Cápsulas oblongo-lanceoladas, 4-4,5mm de comprimento, l,5-l,8mm de largura;
sementes variando entre 0, l-0,2mm.
Localidade típica: In campis Serra da Chapada, prope Capão Seco ad prov. Mato
Grosso.
— 58 —

Lectotypus: Barbosa Rodrigues, PI. 12.


Distribuição geográfica: Brasil, no Estado de Mato Grosso.
Esta espécie foi encontrada em altitudes de 550 a 1200m s. m., e parece endêmica do
Estado de Mato Grosso, florescendo nos meses de abril a junho. Seu nome procede do la-
tim cyathiformis e refere-se à forma das folhas.
Muito afim de D. pallescens, diferindo desta, principalmente, por apresentar o tubo
do cálice maior que os lacínios, folhas com nervuras salientes, rede de nervação densa e
inflorescências que, geralmente, não superam o comprimento das folhas.
Material examinado: BRASIL — Tamberlick s.n., W
MATO GROSSO — Santa Ana da Chapada, leg. Malme 3323 Ba (2-VI-1903) S;
ibidem, leg. Malme 3323 B (29-V-1903) S; Serra da Chapada, Cascata Grande, leg.
Malme 3323 Bb (8-VI-1903) S; ibidem, leg. Malme 1674 c (22-VI-1894) S; Cabo do
Lobo, leg. J . G . Kuhlmann2237 (IV-1918)R; ibidem leg. Riedel 1009 (1828) S; Serra do
Roncador, 94Km N. of Xavantina, elevat. 550m s.m. leg. H.S. Irwin 16570 et alii (4-VI-
1966)NY, UB.
Barbosa Rodrigues (1898:32) descreveu D. cyathifolia de material ocorrente nos
campos da Serra da Chapada, fornecendo uma estampa bem documentada a qual classifi-
camos como um Lectotypus.
Malme (1904:17) redescreveu a espécie acima mencionada, baseado em material
coletado por ele sob números 3323B, 3323Ba e 3323Bb, comentando que a mesma diferia
da espécie afim D. pallescens Cham. et Schlecht., pelo comprimento mais longo do tubo e
pelos lobos do cálice carinados ou sub-carinádos, características essas que comprovamos,
ao examinarmos sua coleção.
4. Deianiraerubescens Cham. et Schlecht.
(Est. 12, 13, 14)

Chamisso et Schlechtendal, Linnaea 1: 196. 1826; Grisebach, Gen. Sp. Gent. Obs.
114, 1839 et in A P . de Candolle, Prodr. 9: 48. 1845; Progel in Mart., FI. Brás. 6 (1):
201. 1865.
= Callopisma perjoliatum Martius var. angustifolia Martius, Nov. Gen. Sp. PI. 2: 108.
1827; Grisebach, loc. cit. pro syn.
Exacum erubescens (Chamisso et Schlechtendal) Sprengel. Syst. 4 (2) Cur. Post: .
41.338. 1827.
Erva 0,20-0,70m de altura. Caule cilíndrico 0,20-0,30cm de diâmetro, entrenó de
2,5-6,9cm de comprimento. Folhas basais livres, próximas uma das outras dando o aspec-
to de rosuladas; lâminas obovadas, sub-arredondadas ou largamente elípticas, obtusas
no ápice, estreitadas na base, nervuras 5-7 salientes, 2,9-4,3cm de comprimento, 1,7-3,5
cm de largura; padrão de nervação acródromo-broquidódromo, com as nervuras conspí-
cuas; as três medianas seguem as diretrizes do padrão acrodromo, enquanto as outras
anastomosam-se por meio de laços; presença de algumas nervuras secundárias transver-
sais e terciárias axiais e laterais; rede de nervuras bastante densa; Folhas superiores per-
folhadas, decussadas, concrescidas um pouco acima da base ou até a metade do limbo, ra-
ramente ternadas no ápice; elípticas ou lanceoladas, agudas e mucronadas no ápice, sub-
coriáceas, estreitamente sub-hialinas na margem com nervuras imersas ou às vezes pouco
salientes, l,5-5,7cm de comprimento, 0,6-2,3cm de largura; padrão de nervação
acródromo-broquidódromo com 10 nervuras principais das quais as 6 centrais seguem as
diretrizes do padrão acrodromo, convergindo no ápice de cada lobo, enquanto as laterais
anostomosam-se por meio de laços acima da porção mediana; presença de nervuras
secundárias e terciárias laterais; rede de nervuras bastante densa. Epiderme superior e
inferior com células de paredes onduladas, ambas providas de estômatos do tipo
anisocítico. Inflorescências mais longas que as folhas; pedúnculos 15-45mm de compri-
mento, bi-bracteados; brácteas foliáceas, lanceoladas agudas, 10-11 mm de comprimento,
3,5-4mm de largura; pedicelos 2-5mm de comprimento, bi-bracteolados; bractéolas lan-
ceoladas, agudas no ápice l,5-2mm de comprimento, 0,3-0,5mm de largura. Botões ova-
— 59 —

dos, agudos ou levemente obtusos no ápice, 3-3,2mm de comprimento, l,7-2mm de lar-


gura. Cálice carinado ou sub-carinado; lacínios 3,5-4mm de comprimento, l,5-2mm de
largura, mais longos que o tubo. Coroía com o tubo 0,45-0,5cm de comprimento', lobos
obovados obtusos no ápice, 6,5mm de comprimento, 4,4-5mm de largura. Estames inseri-
dos no tubo da corola; filetes 1-1,5mm de comprimento; anteras emarginadas no ápice e
cordadas na base, 3,5-3,9mm de comprimento, 0,1-0,2mm de largura, üvário ovado elíp-
tico, 4-4,5mm de comprimento, l,9-2,3mm de largura; estilete filiforme 5,5-6mm de com-
primento, bi-lamelado no ápice, lamelas ovado-oblongas, 0,4-0,5mm de comprimento.
Cápsula ovado-elíptica, obtusa na base e aguda no ápice, 4,5-5mm de comprimento, 2,5-
3mm de largura. Sementes 0,25-0,3mm de comprimento, 0,l-0,3mm de largura.
Localidade típica: In Brasília regionibus interioribus
Lectotypus: Leg. Sellow, G
Distribuição geográfica: Brasil nos Estados de Minas Gerais, S. Paulo e Goiás.
Espécie encontrada em altitudes de 594 a 1160m s.m. florescendo nos meses de janei-
ro a agosto. Seu nome deriva-se do latim erubescens, e está relacionado com a tonalidade
das flores.
Os nomes vulgares citados para esta espécie são idênticos àqueles encontrados para
D. pallescens. Penna (1946:147) confere às raízes dessa planta propriedades amargas
tônicas e febríguas.
Material examinado: BRASIL: Leg. Sellow, G; ibidem, Sellow 1931, foto, M O ,
US; leg. Glaziou 17148 (1880) BR; leg. Riedel s.n. S, NY, G; ibidem, leg. Riedel, 249,
BR; leg. Claussen 495 (1840) G;ibidem, leg. Claussen 3, S; ibidem, Claussen 4 (1838)
NY; ibidem leg. Claussen (1843)); leg. Warming s.n., W. (1870) p. p., NY; leg. Saint-
Hilaire 409 (1816-1821) NY; Pohl 2943, W.

MINAS GERAIS — Alto Cruzeiro, leg. Heringer 4302 (4-V-1955) RB, UB; Mu-
nicípio de Barbacena, estação experimental de Ressaquinha, leg. A. Silveira 321 (VIII-
•894) R; Lagoa Santa, leg. Damazio 1554, (p.p.) G; ibidem, leg. Benjamin da Costa 56
(V-1933) R; ibidem, M. Barreto 2893 (25-1II-1933) R; ibidem, leg. Warming s. n.,
(p-p.) S, NY Corinto Fazenda do Diamante, alt. 600ms. m., leg. I. Mexia 5667 (20-IV-
1931) R. S. NY, M O ; ibidem, cerrado N. W. Lagoa Santa, 835m de altitude, leg. L. B.
•Smith 6720 (30 7 III-1952) R; Belo Horizonte, leg. A. S. Teixeira s. n. (24-IV-1899) SP;
ibidem, leg. M . Barreto, 2861 (31-1-933) B H M H ibidem, leg. Schwacke s. n. (24-IV-
1899) SP; ibidem, leg. A. Gehrt s. n. (25-IV-1926) SP; Congonhas do Campo. leg.
Stephan M D s. n. (1844) BR; Município de Jaboticatubas, leg. L. B. Smith 6964, (28-
IV-1952) p. p., R; Caldas, leg. Regnel 11-190, (p.p.) NY; S.João d'El Rey, Caminho do
Gala Boca, leg. Bertha Lutz 2 (4-IV-1921) R; j a q u a r a , leg. Moreira e E. Siqueira s.n.
(2-III-1899) R; Sete Lagoas, estrada B. Hte. — Brasília Km 91, leg. J. B. Silva 48 (15-
VI-1967) RB, B H M H ; Paraopeba, leg. E. Pereira 7497 et Pabst (I-IV-1963) HB;
M B M ; Rodovia Três Corações, S. Tome das Letras, Município Três Corações, leg.
Hatschbach 31214 et Ahumada (4-II-1973) M B M ; Fazenda Vargem Grande
- Margem do Lago, leg. Heringer 6426 (19-V-1958) RB, UB; Rio Bicudo, ca. 20Km of
Corinto, elev. 525m s. m. leg. H. S. Irwin 26801 et alii (3-giii-1970) NY, UB.

SÃO PAULO — Morro Pelado, leg. Edwall 5801 (1-1907) SP; Cajuru, leg. Riedel
HI-894 (1835), p.p., S; Mogy-Mirin, leg. Mosen 1476 (3-IV-1815) S; ibidem, leg. Mo-
sen 1470. S; Itu, leg. Riedel 1990 (11-1834), BR.

GOIÁS — Leg. N. Armond s. n. (p.p.) R.

C H A M I S S O et S C H L E C H T E N D A L ( 1 8 2 6 : 196) descreveram D. erubescens como


uma nova espécie para a ciência, citando como material estudado, um exemplar coletado
por Sellow e que se achava depositado no Botanischer Garten und Botanisches Museum
Berlin-Dahlem.
— 60 —

M A R T I U S (1827:108) descreveu Callnpisma perfoliatum var. angusüjolia,


colocando como sinônimo da mesma D. erubescens. O autor distinguiu a variedade acima
mencionada por ser de porte menor, mais delicada, com folhas lanceoladas e mais agudas.

S P R E N G E L (1827:41) transferiu ü. erubescens para o gênero Exacum, resultando


o epíteto citado na bibliografia da espécie.

Progel (1865:201) redescreveu ü. erubescens seguindo Grisebach no que diz respeito


à sinonímia, porém, descrevendo Callopisma cordifotium Lhotzky mss. como uma nova
variedade de D. erubescens. Atualmente, a variedade de Progel é considerada como D.
cordifolia (Lhotzky ex Progel) Malme.

Tivemos oportunidade de examinar o material de Sellow, enviado pelo Conservatoi-


re Botanique de Genève (IsotypusJ, que elegemos como Lectotypus em virtude do
Holotypus, depositado no Herbário do Botanischer Garten und Botanisches Museum
Berlin-Dahlem ter sido destruído durante a segunda guerra mundial.
Com referência ao Typus de Callopisma perjoliatum var. angustijolia Mart., não o
examinamos. Porém tudo leva a crer que seja o da obra original. "Leda prope S.
.Rochum Sorocaba, Itu, Villa de Campanha, S. João d'El Rey et in districtu adamatum".
Essa variedade descrita sucintamente por Martius, apresenta as mesmas características
de D. erubescens, daí ter sido considerada como sinônimo da mesma.
Estudamos, também, inúmeras coleções que nos permitiram conceituar esta espécie
como distinta das demais, principalmente pela forma dos botões florais^ por seu porte e
folhas, em particular as basais, que são sub-rosuladas e livres.
5. Deianira nervosa Cham. et Schlecht.

(Est. 15, 16, 17, 18)

Chamisso et Schlechtendal, Linnea 1: 197. 1826; Grisebach, Gen. Sp. Gent. Obs.
115, 1839 et in A. P. de Candolle. Prodr. 9: 49. 1845; Progel in Martius, Fl. Brás. 6 (1):
202. 1865.
= Callopisma amplexijolium Martius, Nov. Gen. Sp. PI. 2: 109. T . 184, 1827; Sprengel,
Syst. 4 (2) Cur. Post: 338. 1827. pro syn. Exacum nervosum (Cham. et Schlecht.)
Sprengel; Grisebach, loc. cit. pro syn; Progel loc. cit., pro syn. (Crescit in campis editis
Provinciarum S. Pauli et Minarum, nsdem cum praecedente et similibus toeis: ísolypi —
BR,G.)
= Exacum nervosum (Chamisso et Schlechtendal) Sprengel. loc. cit. 4 1 . 1827;
Grisebach, loc. cit. pro syn; Progel in loc. cit. pro syn.
= Deianira nervosa Chamisso et Schlechtendal var. latifolia Martius. ex Progel in
Martius Fl. Brás. 6 (1): 202. 1865. (Prope Caldas: Pohl; inter Rio Pardo et Rio Paraná
et prope Cuiabá: Riedet; in prov. Goyazensi: Gardner: Isosyntipi — BR. G. NY, US).
syn nov.

Erva 0,21-1 m de altura, às vezes ramificada desde a base, entrenó 2-6,5cm de


comprimento. Folhas semiamplexicaules, decussadas; lâminas lanceoladas, ovadas,
oblongas ou elípticas, raramente obovadas, agudas, subobtusas e mucronadas no ápice,
arredondadas raramente atenuadas na base, coriáceas, com nervuras salientes, 2,8-9,5cm
de comprimento, 0,8-3,5cm de largura; padrão de nervação broquidódromo, algumas
vezes tendendo para misto broquidódromo-acródromo; nervura mediana conspícua,
emitindo duas ramificações que divergem a partir da base; as secundárias laterais também
se originam na base; nervuras terciárias axiais e laterais evidentes; rede de nervuras
bastante densa. Epiderme com células de paredes retas, com estômatos do tipo anisocítico
e anomocítico dispostos na superfície inferior. Cimeiras terminais ou laterais,
capituliformes ou paniculiformes, sésseis ou com pedúnculos longos, ou curtos, 50-90mm
— 61 —

de comprimento; flores róseas; brácteas foliáceas, ovadas, oblogas, lanceoladas ou


elípticas, agudas, mucronadas ou sub-obtusas no ápice, 7-17mm de comprimento, 7-
15mm de largura; pedicelos variando entre l,5-3mm de comprimento, bi ou tri-
bracteolados; bractéolas lanceoladas ou oblongo-lanceoladas, 3,5-10mm de comprimento,
5-7mm de largura. Botões alvos, ovado-lanceolados, agudos no ápice e atenuados na base,
3,5-4,5mm de comprimento, 1,3-1,5mm de largura. Cálice carinado ousub-carinado,3,5
-7mm de comprimento mais curto ou do mesmo comprimento que o tubo da corola; lací-
nios lanceolados ou ovados, agudos e sub-hialinos na margem, iguais ou nao entre si, 4-
7mm de comprimento l,5-3,5mm de largura. Corola com o tubo de 3-8mm de compri-
mento; lobos obovados ou elípticos, obtusos, raramente emarginados no ápice, 6,5-10mm
de comprimento, 3,5-6mm de largura. Estames inseridos no tubo da
corola, filetes l-2,5mm de comprimento; anteras lineares, obtusas, emarginadas ou rara-
mente apiculadas no ápice, cordadas na base, 3-5,5mm de comprimento, l - l , 5 m m de
largura. Ovário ovado-elíptico 3-5,5mm de comprimento, l-3mm de largura. Estilete
4,5-9,5mm de comprimento, bi-lamelado no ápice; lamelas obtusas ou sub-agudas, 1,5-
2mm de comprimento. Cápsula ovado-elíptica ou oblongo-lanceolada, aguda no ápice, 9-
10mm de comprimento, 3,5-4,5mm de largura. Sementes com 0,5mm de comprimento e
largura inferior a 0,5mm.

Localidade típica: Ex interioribus Brasiliae regionibus


Lectotypus: Leg. Sellow 1632, foto F; Isolectotypi: Fotos U S , M O .
Distribuição geográfica: Brasil, nos Estados de Minas Gerais, S. Paulo e Goiás.
Espécie bastante freqüente nos cerrados, encontrada em altitudes de 500-1700m s.m.
florescendo principalmente de março a julho, chegando às vezes até a agosto, mas rara-
mente os indivíduos florescem em janeiro e fevereiro. Muito afim de D. damazioi, da
qual difere principalmente pelo comprimento do cálice que é igual ou menor que o tubo
da corola e pelas folhas coriáceas ou subcoriáceas, com nervuras muito salientes, que
divergem a partir da base. Seu nome deriva-se do latim nervosus, e está relacionado com
as nervuras das folhas. É conhecida vulgarmente como Centaurea-do-Brasil.
Cruz (1965:260-261) escreveu acerca desta espécie o que se segue: "Planta rica em
'genciana" e pelos seus princípios amargos é de grande valor medicinal, com emprego
e
m várias enfermidades, embora se trate de planta acerca da qual há escassos estudos,
predominando indicações de caráter empírico". P E N N A (1946:147) informa que seu uso
e
em forma de chá.
Material examinado: BRASIL: leg. Regnell 11-190 + S; ibidem, leg. Regnell II a et
b
> S; leg. Martius s.n., G; leg. Martius 1052, BR, B M , SW, G, M O ; leg. Riedel s.n., G,
N
Y ; leg. Glaziou 12963 (1889) BR; leg. Glaziou u771, BR; Pohl 5093, W .
MINAS GERAIS: leg. Claussen 1 et 2 (1838) S, NY; leg. Claussen s.n., R; leg
Claussen s.n. (1838) G; leg. Claussen 143(1840) G; leg. Claussen 92 (1840) T U B , B M ,
p5 leg. Claussen s.n. (1840) M O ; leg. Claussen 74 (1842) W; leg. Regnell 11-190 (1865)
US; Conselheiro da mata, leg. Brade 13617 (VI-1934) RB; Barbacena leg Riedel 105
0824) BR; Serra do Cipõ, leg. Damazio 2059 (VI-1908) RB; ibidem, leg. Castellanos et
Hennger 6306 (6-V-1958) RB; ibidem, leg. Heringer et Castellanos 5938 (3 III-1958)
KB; ibidem, leg. J. Vidal s.n. (1949) R; ibidem Fuad Atala 97 (3-V-1958) R ibidem leg
p
u a d Atala 155 (3-IV-1958) R; ibidem, leg. Fuad Atala 233 (3-IV-1958) R;'ibidem entre
as localidades S.José de Almeida e Vacaria, leg. J. Vidal 11-6370 (1953) R; Jaguará, leg.
C. Moreira et E. Siqueira s.n. (III-1899) R; ibidem, leg. A.P. Duarte 9918 (1964) RB
Ouro Preto, leg. J. Vidal s.n. (3-VII-1949) R. Turvo, leg. F.C. Hoehne et A. Gehrt s.n!
Ub-IV-1926) SP; Sabará, estrada do Caeté Km 36, leg. M. Barreto 2878 (23-111-1933)
R
; ibidem, leg. M. Barreto 2877 (23-111-1933) B H M H ; Município de Termópolis Cha-
padão de Jacuhy, leg. J. Vidal 1-887 (1945) R; São Julião, leg. Schwacke s.n. (9-III-
'o-M) R, RB; Município de Jaboticatubas, Três Barras 50 Km ao norte de Lagoa Santa,
l«g- L.B. Smith 6822 et alii (28-IV-1952) p.p., NY; ibidem, leg. G. Hatschbach 29853
(4-VIII-72) M B M . Lagoa Santa, leg. F.C. Hoehne 6194 (XI-1915) R; ibidem, leg. L.B.
— 62 —

Smith 6964 (28-IV-1952) R, NY,'S; Serra da Mutuca, Município de Nova Lima 1300-
1500m s.m. leg. L. O. Williams et V. Assis 6726 (15-IV-1945) US; Serra do Tripuhy,
leg. Schwacke 11683 (28-VII-l895) RB; Serra de Freituba, leg. A. Silveira 2213 (IV-
1897) R; Itabira do Campo, leg. Ule 2647 (VI-1892) R; Diamantina, leg. F. C. Hoehne
s.n. (16-11-1952) SP; ibidem, leg. E. Pereira 1757 (13-VI-1955) RB; Serra do Cabral,
vertente para Jequitahy, leg. A.P. Duarte 7809 (l-V-1965) RB; ibidem, E. of Joaquim
Felício, elev. ca. 850m leg. H.S. Irwin 27045, et alii (6-III-1970) UB, NY. Paraopeba,
leg. Heringer 5150 (10-11-1959) RB; ibidem, Horto Florestal, leg. Heringer 3969 (16-
VII-1955) RB; ibidem, leg. E. Pereira 7495 (I-IV-1963) HB, RB; ibidem Alto Cruzeiro,
leg. Heringer 3869 (V-1955) RB, UB; Belo Horizonte, Serra do Curral, leg. A. Ducke
s.n. (2-III-1929) RB; ibidem, leg. L. P. Roth 2217 (IV-1953) H.U.J.F.; Fazenda do Dia-
mante + 590m s.m. alt. leg. I. Mexia 5565 (8-IV-1931) p.p., M O , US, NY; Campo do
Córrego do Leitão, leg. A. Gehrt s.n. (29-1-1919) SP; Barreiro, leg. M. Barreto 1321 et
Brade 14806 (19-IV-1935) RB, B H M H ; Campo Pires, leg. L.O. Williams et V. Assis
5925 (13-1V-1945) US; Caeté, leg. E. Pereira 2705, Pabst 3541 (28-111-1957) RB; Ituiu-
taba, leg. L. B. Smith 789 (31-V-1945) S; Serra do Ouro Branco, leg. Glaziou 18373
(IV-1891) R; Caldas, leg. H. Mosen 1477 (20-IV-1874) S; ibidem, leg. Regnell 11-190
(19-111-1865) R, S, U S , N Y ; ibidem, leg. Regnell s.n. (11-III-1855) S;'Santana de Pira-
pama, leg. Confucio 8809 (l-VII-1970) U.F.J.E.; Município Itabirití, Serra do Itabirité,
Bacia do Rio S. Francisco, leg. M . Magalhães 18196 (9-VI-1963) H B , M B M ; Municí-
pio de Santana, Km 106-107 da Estrada p/Chapéu do Sul, 980m s.m. leg. G. Martinelli
1016 (4-VI-1976) RB; Município de Santo Antônio de Leite, 1208m, Fazenda das Ca-
mélias, leg. M.B. Ferreira 8.000 (5-V-1976) RB; de Brasília p/Belo Horizonte, leg.
J . M . Pires 75979 (19-VI-1964) S, NY; Serra do Espinhaço ca. 40Km N. of S. João da
Chapada, elev. 1200m s.m. leg. H. S. Irwin 28167 et alii (23-111-1970) UB, NY.
SÃO PAULO: Boa Vista, leg. Loefgren et Edwall s.n. (7-VI-1893) RB; ibidem, leg.
Loefgren et Edwall 2207 (7-VI-1893) SP.
GOIÁS: Leg. Glaziou 21771, S, NY; Between Arrayas and S. Domingos leg. Gard-
ner 4281 (1840) US, BM, W, G, NY; Rio Pardo et Rio Paraná, leg. Riedel 2233 (5-VI-
1934) BR; inter Rio Pardo et Rio Grande, leg. Riedel s.n. (5-1-1834) RB; Goiânia, leg.
Rizzo 1017, UFG; ibidem, Rizzo 5155 et A. Barbosa (16-V-1970) U F G ; ibidem, Est.
17, leg. Rizzo et A. Barbosa 639 (13-V-1968) U F G ; Serra de Caldas, leg. Rizzo 4940, et
A. Barbosa 4188 (28-111-1970) U F G ; Estação Caldas Novas, leg. Rizzo 5205 et A.
Barbosa 4454 (23-V-1970) U F G ; Chapada dos Veadeiros, leg. Rizzo 7948 (6-IV-1972)
U F G ; ibidem, leg. G.T. Prance s.n. et T . Silva (18-VII-1964) UB, NY, S; Pium, leg.
Rizzo 9824 (14-V-1974) U F G ; Distrito Federal, leg. H.S. Irwin et T . Soderstrom (IV-
1964) UB; ibidem, Fazenda da Virgem Grande, leg. Heringer 4012 (13-VIII-1955) UB;
ibidem, Rio S. Bartolomeu, elev. 700-1000m. leg. H.S. Irwin 5325 et T.R. Soderstrom
(19-VII-1964) UB, NY, ibidem, leg. H.S. Irwin 6090 et T.R. Soderstrom, elev. 700-
lOOOm (7-IX-1964) NY, U B ; ibidem entre Taguatinga e Brasiliandia, elev. HOOm.,
lev. H.S. Irwin 13113 et alii (23-11-1966) UB, NY. Serra de S. Félix, leg. P O H L / 1 9 5 1
(1819) W.
Chamisso et Schlechtendal (1826:197) descreveram ü. nervosa e citaram como ma-
terial estudado, um exemplar coletado por Sellow.
Martius (1827:109) deu uma excelente diagnose, acompanhada de belíssima estam-
pa, de Callopisma amplexifolium e citou sua ocorrência em S. Paulo e Minas Gerais,
colocando D. nervosa em sua sinonímia.
Sprengel (1827-41) transferiu D. nervosa para o gênero Exacum L., salientou sua
afinidade com Exacum tetragoum Roxb., do qual o separou pelo cálice alado e pela área
de ocorrência. A página 338 nesse mesmo trabalho, citou Callopisma amplexifolium
Mart. como sinônimo de Exacum nervosa.
Deiamra nervosa foi redescrita por G R I S E B A C H (1839:115) que incluiu em sua si-
nonímia Callopisma amplexifolium. Não podemos deixar de transcrever a citação do
outro sinônimo mencionado por esse autor na mesma pagina, ou seja "Exacum Sprgl.
Cur. Post. p. 338". Por comparação com a sinonímia de D. erubescens Cham. et
— 63 —

Schlecht., chegamos à conclusão que Grisebach, sem dúvida alguma, quiz referir-se a
Lxacum nervosum Sprengel.
Grisebach (1845:49) no tratamento de D. nervosa manteve a mesma sinonímia do
trabalho anterior e descreveu para ela a variedadeJoliosa.
Ao estudarmos D. chiquitana, consideramos que a variedade joliosa Grisebach, fica-
va melhor localizada como sinônimo desta espécie.
Progel (1865:202) manteve o mesmo conceito dado por G R I S E B A C H (1845:49) à
L>. nervosa, descrevendo para ela a variedade latifolia Martius.
Ao recebermos fotos tiradas de um material de Sellovv sob número 1632, depositado
no Botanischer Garten und Botanisches Berlin-Dahlen, verificamos que as mesmas cor-
respondiam ao Holotypus de D. nervosa. Não examinamos o Holotypus de Callopisma
amplexijolium Mart., porém tivemos oportunidade de estudar exemplares de Martius
com o número 1052, provenientes de diferentes Instituições, que correspondem, sem dú-
vida alguma, aos Isotypi da espécie anteriormente assinalada. Na etiqueta de algumas
dessas exsicatas, encontramos o nome "Callopisma amplexijolium var. latijolia" que
deve ter servido de base para o epíteto de D. nervosa var. latijolia Progel.
O referido autor citou na Flora Brasiliensis de Martius, para a var. latijolia exem-
plares coletados por Pohl (Caldas), Riedel (Inter Rio Pardo et Rio Paraná) e Gardner
(Goiás). Esses Isosyntypi, foram cedidos por empréstimo para nossos estudos, pelos cura-
dores da Smithsonian Institution, Conservatoire et Jardin Botanique de L'Etat, Bruxelas
c Naturhistoriches Museum, Viena. Além da tipificação estudamos muitas outras cole-
ções, onde verificamos uma freqüente variabilidade na forma das folhas, muitas vezes
num mesmo exemplar, o que nos permitiu considerar D. nervosa var. latijolia como um
novo sinônimo.

6. Deianira damazioi Guimarães nov. sp.


(Est. 19,20,21)

Herba glaberrima 0,30-0,40m alta. Caulis erectus, teres, basi ramosus, 0,2-0,3cm
diam., internodns vulgo 5,5- 12cm longis. Folia semiamplexicaulia, ovata vel elliplica,
2,2-4,5 cm longa, 1,6-2,2cm lata, papyracea, margine revoluta et subhialina, basi rotun-
data vel obtusa, ápice acuta, nervatio brochydodroma; nervus medius conspicuis et
laterales appostti ad partem médium hinc inde usque ad apicem alterni; nervi tertiarü
laterales et axiales cum aliquibus pseudosecundarüs jrequenlibus; nervi (duo paria)
proximi laminae marginae basique oriundi. Epidermes tanlum pagina injera stomaúbus.
Injlorescentia cymosa, terminalis, sessilis vel subsessilis; pedunculis brevis 1,5-2mm lon-
gis bractea 2,joliaceae, involucratae. Flores rosei; pedicelli 1,7-2mm longi, tribacleolal-
*»• Bracteolae joliaceae, 7-11mm longae, 1-2,8mm latae. Calyx subcoriaceus, 11-12mm
l
°ngus, dono carinato; laciniae lanceolatae, acutae, 6-7mm longae l,8-2mm latae, corol-
lie tubum superantes. Corolla 14-14,5mm longa, extus intusque glaberrima, tubo tere-
'*> 7-9,5mm longo; lobis obovatis vel elliptias, 4-5mm longis, 2,5-3mm latis, leviter con-
cavis emarginatisque ápice. Stamina super tubi médium corollae afixa; jilamenta jüijor-
mis
> l,5-2mm longa; antherae oblongae, obtusae vel emarginatae ápice, cordatae basi
2>1-2,2mm longae, OJmm latae. Ovarium ovatum vel elliplicum 6-9mm longum, 2,7-
^mm latum; stilus geniculatus, 2mm longus, sligmate billamellato; lamellis oblongis,
J
mm longis.
Localidade típica: Minas Gerais, Ouro Preto.
Holotypus: Leg. L. Damazio 975 (1903) G; Faratypi: Brasil Morro de S. Sebastião,
lc
g A.P. Alves 1045, R; Ouro Preto, leg. A.'I)ucke s.n. (26-IV-1925) RB; ibidem, leg.
H.K. Siegel s.n. (14-111-1954) RB; ibidem, leg. R.P. Campos s.n. (20-11-1901) SP, Cara-
?a auf Campos, leg. Ule 2647 (11-1892) HBG.
Distribuição geográjica: Brasil no Estado de Minas Gerais.
Material examinado: BRASIL: Leg. L / . Damazio (1903) G.
MINAS GERAIS: Morro de S. Sebastião, leg. A.P. Alves 1045, R; Ouro Preto, leg.
A
- Uucke s.n. (26-IV-1925) RB; ibidem, leg. H.K. Siegel s.n. (14-111-1954) RB; ibidem,
— 64 —

leg. R.P. Campos s.n. (20-11-1901) SP; Caraça auf Campos, leg. Ule 2647 (III-1892)
HBG.
Erva 0,30-0,40m de altura, caule cilíndrico, ramoso na base, 0,2-0,3cm de diâmetro,
estrenó 5,5-12cm de comprimento. Folhas semi-amplexicaules; lâminas ovadas ou elípti-
cas, agudas no ápice e obtusas na base, papiráceas, revolutas e sub-hialinas na margem,
2,2-4cm de comprimento, l,6-2,2cm de largura; padrão de nervação broquidódromo
com nervira mediana conspícua afilando-se para o ápice, emitindo duas ramificações que
seguem paralelas à mediana até o primeiro terço, divergindo daí, em direção ao ápice; as se-
cundárias laterais partem da base; presença de terciárias axiais e laterais; rede de nervuras
densa. Epiderme com células de paredes retas, com estômatos do tipo anisocítico e anomací-
tico na face inferior. Inflorescências terminais, sésseis ou subsésseis,capituliformes; pedún-
culos curtos l,5-2mm de comprimento; brácteas2,foliáceas; flores róseas: pedicelosl,7
-2mm tri-bracteolados; bractéolas foliáceas 7-11 mm de comprimento, 1 -2,8mm de largura.
Cálice carinado ou subcarinado, papiráceo ou levemente coriáceo, l l - 1 2 m m de compri-
mento mais longo que o tubo de corola; lacínios lanceolados agudos 6-7mm de compri-
mento, l,8-2mm de largura. Corola com o tubo de 7-9,5mm de comprimento; lobos obo-
vados ou elípticos, 4-5mm de comprimento, 2,5-3mm de largura, levemente côncavos e
emarginados no ápice. Estames inseridos acima da porção mediana da corola; filetes
l,5-2mm de comprimento; anteras oblongas, obtusas ou emarginadas no ápice, cordadas
na base, 2,l-2,2mm de comprimento, 0,7-lmm de largura. Ovário ovado-elíptico 6-9mm
de comprimento, 2,7-3mm de largura; estilete geniculado, 2mm de comprimento, bi-la-
melado no ápice; lamelas oblongas, l m m de comprimento. Cápsulas não vimos.
Espécie encontrada em altitudes de mais ou menos 1.128-1.950m s.m. florescendo
nos meses de fevereiro, março e abril. Muito afim de Deianira nervosa Cham. et
Schlecht., diferindo desta, principalmente, por um conjunto de caracteres, tais como duas
ramificações que seguem paralelas à nervura mediana até o primeiro terço da lâmina
divergindo daí, em direção ao ápice, pela rede de nervuras menos densa, pelas anteras
oblongas, pelo ovário atenuado em direção ao ápice, em estilete curto e pelos lacínios do
cálice que superam o comprimento do tubo da corola, atingindo a porção mediana dos
lobos da mesma.
7. Deianira chiquitana Herzog

(Est. 2 2 , 2 3 , 2 4 , 25)

Herzog, Fedde Repert. 7 (134-136): 65.1909.


- Deianira nervosa Chamisso et Schlechtendal var. foliosa Griseb. in A.P. de Candolle,
Prodr. 9: 49.1845; Progel in Mart. Fl. Brás. 6 (1): 202.1865; Malme, Arq. f. Bot. 3
(12): 15.1904. (In Brasília pr. Caretao et Crixas, Phol: Holotypus-WI'; Isotypus-BR) syn.
nov.
- Deianira erubescens Chamisso et Schlechtendal var. pseudo-nervosa Beauverd Buli
Herb. Boiss. 2a. ser. 7 (2): 147.1907 (Gardner n.M282, prope Goyaz, anno 1842: Lecto-
typus-G) syn. nov.
Erva 0,30-0,70m de altura, glabra, exceto na base, onde geralmente os três entrenós
apresentam pilosidade hirtela. Caule cilíndrico, 0,l-0,3cm de diâmetro. Folhas
semiamplexicaules, livres, ou obscuramente concrescidas na base; lâminas da base lan-
ceoladas corn 3 nervuras um tanto salientes, 3,9-8cm de comprimento, 0,7-2cm de largu-
ra: padrão de nervação acródromo, partindo três nervuras da base, sendo a central mais
espessa que as laterais; nervuras secundárias transversais e terciárias axiais e laterais;
rede de nervuras laxa; lâminas superiores oblongo-lanceoladas, agudas no ápice, obtusas
na base, p a p i r á c e a s , l,6-4,5cm de c o m p r i m e n t o , 1-1,5cm de largura; n e r v u r a s incons-
pícuas, p a d r ã o de nervação misto, a c r ó d r o m o - b r o q u i d ó d r o m o , sendo q u e às
três n e r v u r a s centrais seguem as d i r e t r i z e s do p a d r ã o a c r ó d r o m o ; as secundárias
laterais anastomosam-se por meio de laços acima da porção mediana; presença de nervu-
ras secundárias transversais e terciárias axiais e laterais; rede de nervuras laxa. Epider-
— 65 —
me de paredes retas, e estômatos nas duas faces do tipo anisocítico. Inflorescências com
pedúnculos de 6-30mm de comprimento; flores róseas; brácteas foliáceas oblongo-lanceo-
ladas, 6-12mm de comprimento, 2-6mm de largura; pedicelos variando de 4-8mm de
comprimento, bi-bracteolados; bractéolas l,5-2mm de comprimento. Botões ovado-lan-
ceolados, agudos no ápice 2,7-3mm de comprimento, l,2-l,5mm de largura. Cálice
carinado ou sub-carinado, 3,5-6mm de comprimento; lacínios mais longos que o tubo,
ovado-lanceolados, agudos, sub-hialinos na margem, 3-5mm de comprimento, 1-1,5mm
de largura. Corola com o tubo do mesmo comprimento do cálice; lobos elípticos obtusos
ou sub-obtusos no ápice, 3,5-8mm de comprimento, 5,5-7mm de largura. Estames com fi-
letes 2-2,5mm de comprimento; anteras lineares, obtusas no ápice, cordadas e às vezes
um pouco alargadas na base, 4-4,5mm de comprimento, 1-1,2mm de largura. Ovário
ehptico 3,5-4,5mm de comprimento, l,5-3mm de largura; estilete 4,2-7mm de compri-
mento, bi-lamelado no ápice, lamelas ovadas, sub-obtusas ou agudas, 0,2-0,3mm de com-
primento, 0,3-0,4mm de largura. Cápsula elíptica, aguda no ápice 5-7,5mm de compri-
mento e 4-5mm de largura. Sementes sub-piramidais, tetragonais, achatadas ou escava-
das nas faces, variando entre 0-4-0,5mm de comprimento, 0-1-0,3mm de largura.
Localidade típica: Auf trockenen Kampen um Santiago de Chiquitos, ca. 700m Mai
Lectotypus: Herzog 26, Foto F; Isolectotypi: Fotos US, NY, MO.
Distribuição geográfica: BRASIL nos* Estados do Maranhão, Minas Gerais, S.
Paulo, Goías e Mato Grosso. Bolívia.
Espécie relativamente delicada, heliófila, muito variável com referência ao tamanho
das folhas, ora pequenas ora bem desenvolvidas com raízes delicadas, não muito profun-
das, de cor castanho clara, às vezes com cicatrizes na porção superior, ocorrendo em alti-
tudes de 556 a 1400m s.m. e florescendo, principalmente, nos meses de fevereiro e agosto,
mais raramente em dezembro e janeiro.
Muito afim de D. erubescens da qual difere, principalmente, pelas folhas basais
•anceoladas não subrosuladas, geralmente ultrapassando o comprimento dos entrenós
pelas superiores que são livres e pelos botões florais ovado-lanceolados agudos.
Material examinado: BRASIL: Leg. Glaziou 15281, BR; leg. Glaziou u772, BR;
le
g- Sellow, W, G; leg. Humboldt 203 (1836), foto MO, US; Tamberlick s.n. W;
Lhotzky4,W.
MARANHÃO: Serra Morro de Chapéu, 15 Km of Carolina, leg. G. T. Prance
2
'01 (12-VI-1966) NY, S. loc. nov.
MINAS GERAIS: Leg. L. Netto 135 (1862) R; Lagoa Santa, leg. Warming, s.n.
jP-p.) NY; leg. Gardner 4282 (1842) NY, G; ibidem, leg. Lund. s.n., NY; ibidem, leg.
Damazio 1554 (p.p.) G; Jaguarás, estrada Cipó, leg. M. Barreto 1249, Brade 14845 (17-
iv-1935) RB; Serra Cipó, leg. S. Alvim, J.E. Oliveira s.n. (14-VI-1950) VIC; Ouro Pre-
to, leg. Glaziou 18281 (6-X-1885) G; Chapada dos Perdizes, Serra de Carrancas, leg.
Heringer 239, SP; Belo Horizonte, leg. Brade s.n. (VI-1934) RB; ibidem, leg. M. Barre-
to 2868 (16-V-1933) R; São Sebastião do Paraíso, leg. Brade 18012, A. Barbosa (IV-
94
5) RB; Congonhas do Campo, leg. Glaziou 15251 (31-VI-1884) R; Município de
Jaboticatubas, leg. L. B. Smith.6963 (28-IV-1952) R; Serra do Curral, leg. P. L. Roth
22]
3 , H.U.J.F. Ituiutaba, leg. L.B. Smith 2404 (29-V-1950) MO; 500 Km de Brasília
P/Belo Horizonte, leg. J.M. Pires 57979 (19-VI-1964) NY, RB, S; Município de Santa-
na do Riacho, Km 92 da estrada Lagoa Santa p/Serra do Cipó, 870m s.m., leg. G. Mar-
^elli 1015 et Gurken (4-VI-1976) RB; Villa de Arrayas, leg. Gardner 4282 (1840) BM,

SÃO PAULO: Entre Itu e Sorocaba, leg. Riedel 1991 (11-1834) BR; Itu, leg. A.
Rassel 357 (20-IV-1898) SP; São José dos Campos, leg. Loefgren 315 (4-VI-1909) SP,
*B; ibidem, leg. Itiriki Mimura 398 (30-V-1962) UB; Inter Casa Branca e Uberaba,
£g- Regnell 11-190 + + (VII-1848) S; Itirapina, leg. Gehrt s.n. (28-IV-1923) US; Moji-
^uaçu, leg. O. Handro 466 (18-IV-1955) US.
GOIÁS: Leg. Glaziou 21772, NY; leg. A.P. Duarte 8414 et A. Mattos (10-VII-
1964) UB r Caretao e Crixas, leg. Pohl, 1687 (1819) BR, W; Alto da Serra dos Pirineus,
— 66 —
1300-1400m s.m., Pirenópolis, leg. O.H. Leonardos s.n. (V-1936) RB; Município de
Mineiro, leg. Hatschbach 34614 (20-VIM974) MBM; Serra do Caiapó 35Km de Caia-
ponia, leg. H. S. Irwin et T.R. Soderstrom (19-1964) NY; ibidem, leg. H.S. Irvvin et alii,
56km de Caiaponia, lOOm s.m. (27-VI-1966) NY; ibidem, fazenda Monholinho, 20Km
northerst of Anápolis, alt. lOOOm s.m. leg. H. Cutler 8008 (VI-1943) US; ibidem, 40Km
de Caiaponia road to Jatai, alt. 950m s.m., leg. H.S. Irwin 17978 et alii (26-VI-1966)
NY, UB; Caiaponia, alt. 600-1000m. s.m. leg. D. R. Hunt 6266 (28-VI-1966) NY, UB;
Distrito Federal, leg. G.M. Barroso s.n. (V-1969) RB; ibidem, leg. Heringer 3660 (3-
XI-1945) UB, RB; ibidem, 2 Km from Veadeiros, leg. G.T. Prance et N.T. Silva s.n.
(18-VII-1864) S, UB; ibidem, leg. J.M. Pires 9833 et A. Mattos (7-VII-1965) UB; ibi-
dem, Campo da Universidade, leg. J.M. Pires 9060 et alii (13-IV-1963) UB, NY; ibi-
dem, alt. 1050m s.m. leg. turma de Tax. da Univers. de Brasília 71 (V-1973) UB; ibi-
dem, East. margin of Lagoa Paranoá, elev. lOOOm s.m. leg. H. S. Irwin 15338 et alii (26-
IV-1966) UB, NY; ibidem, Colina, leg. D. Sucre 510 (3-VI-1965) UB; ibidem, entre
Brasília e Fercal, leg. J.M. Pires 58069 (30-VI-1964) UB; ibidem, 600-lüOOm s.m., leg.
D.R. Hunt 5453 et Ferreira Ramos, NY, UB; ibidem, Formosa, Rio Tiquiri, leg. Herin-
ger 11453 (25-V-1967) UB; ibidem, on road to Formosa, leg. Turma de Tax. Univers. de
Brasília 230 (V-1975) UB; ibidem, Parque do Guará, leg. Heringer 13827 (20-V-1974)
UB; ibidem, Município de Luziania, leg. Heringer 14694 (6-VI-1975) UB.
MATO GROSSO: Barão de Capanema, leg. F. C. Hoehne 2104 (1908) SP; Serra
da Chapada, leg. Malme 3482 (3-VI-1903) R, S; ibidem, leg. Malme s.n. (5-VI-1894) S;
Buriti, próximo à Serra da Chapada, leg. Malme, s.n. (24-VI-1894) S; Cuiabá, leg.
Malme 1732 (14-VI-1902) S; ibidem, leg. Malme s.n. (8-V-1894) S; ibidem, leg. Riedel
s.n. (3-IV-1827) RB; ibidem, S. José da Serra, leg. Hatschbach 32033 (17-V-1973)
MBM; Inter Coxipó Mirin et Cuiabá, leg. Malme 1732 a (17-VI-1903) S; Município de
Anastácio, Palmeiras, leg. Hatschbach 23742 (17-11-1970), MBM; Município Rio Ver-
de, rod. Campo Grande, Cuiabá, leg. Hatschbach 31931 (15-V-1973) MBM; Municí-
pio Campo Grande, rod., BR. 163, próx. à Água Ruim, leg. Hatschbach 29634 (14-VIII-
1970) MBM; Serra do Roncador, 84 Km de Xavantina, elev. 550m s.m., leg. H.S. Irwin
16455 et alii (25-V-1966) UB, NY; ibidem, 30 Km of Xavantina, elev. 400m s.m. leg.
H.S. Irwin 16934 et alii (ll-VI-1966) UB, NY; ibidem, -60 Km of Xavantina, leg. H.S.
Irwin et alii (25-V-1966) UB, NY.

GRISEBACH (1845:49) descreveu D. nervosa var. foliosa baseando-se num exemplar


coletado por Pohl (pr. Caretao e Crixas).
Progel (1865:202) redescreveu D. nervosa var. foliosa Grisebach sem fornecer mais
detalhes que os mencionados na obra original.

Malme (1904:15) citou D. nervosa sem descrevê-la e mencionou como variedade


foliosa, três exemplares coletados por ele em Mato Grosso sob números 3482, 1732 a
1732a, comentando que os mesmos poderiam ser considerados como uma espécie,
deixando, entretanto, a questão em aberto.

Beauverd (1907:147) descreveu D. erubescens var. pseudo-nervosa, levando em


consideração o exame dos exemplares coletados por Damazio 1554 p.p. e Gardner 4282,
procurando, com este nome, evitar a confusão entre D. erubescens e D. nervosa, com uma
justificativa apresentada após sua descrição.

Herzog (1909:65) descreveu D. chiquitana como uma espécie nova, tomando por
base o material coletado por ele sob o número 26, em Santiago de Chiquitos.na Bolívia.

Ao recebermos um material coletado em Crixas por Pohl, verificamos tratar-se de


um Holotypus de D. nervosa Cham. et Schlecht. var. foliosa Grisebach.
— 67 —

Estudando os Syntypi de D. erubescens Cham. et Schlecht. var. pseudo-nervosa


Beauv., cedidos, por empréstimo, pelo Curador do Conservatoire et Jardin Botaniques de
Genève, verificamos que o material referente ao coletor Damazio 1554, consistia de dois
espécimes heterogêneos, correspondentes, o da esquerda, à variedade em questão e o da
direita, à D. erubescens Cham. et Schlecht. (fato salientado pelo próprio autor na obra
original e na etiqueta de Herbário). O outro Syntypus, Gardner n.a 4282, por ser o
material mais representativo e por concordar mais com o protólogo, foi aqui escolhido
tomo Lectotypus de D. erubescens var pseudonervosa Beauverd.

Ao analisarmos fotos do Holotypus de üeianira chiquitana Herzog, enviadas pelos


curadores do Field Museum of Natural History e outras Instituições, Typi de D. nervosa
Cham. et Schlecht. var. foliosa Griseb. e D. erubescens Cham. et Schlecht. var. pseudo-
nervosa Beauv., bem como inúmeras coleções, concluímos que as variedades de Grisebach
e Beauverd devam ser anexadas à sinonímia de D. chiquitana Herzog. Embora as
diagnoses das variedades sejam anteriores ao binômio de Herzog, este deve ser mantido de
acordo com o Art. 60 do Código Internacional de Nomenclatura Botânica.
4
-l.5 E S P É C I E E X C L U Í D A

lieiamra dwaricata Gardner in Bentham et Hooker, Gen. Sp. PI. 2: 810.1876; Gilg
in Engleret Prantl, Nat. Pflanzenfam. 4 (2): 101. 1895.
Ao recebermos de Viena um exemplar coletado em Pernambuco sob número 2916,
denominado por Gardner Callopisma dwancata, verificamos tratar-se da espécie men-
cionada por Bentham et Hooker (1876) e Gilg (1895), que mencionaram tal exemplar
como Deianira dwaricata Gardner. Pelas consultas bibliográficas, não encontramos
qualquer descrição para a mesma a não ser uma breve citação na diagnose do gênero feita
por Gardner e posteriormente Gilg, no que tange a inflorescência laxa, divaricato-ramo-
sa e as flores providas de pedicelos um tanto longos.
Ao analisarmos a exsicata de Gardner, verificamos que não pertencia ao gênero
yeianira sendo por nós deterninada como Schultesia lisianthoides (Griseb.) Benth. et
Hook.

V — CONCLUSÕES

O gênero Deiamra está situado na subfamília Gentianoideae, subtribo Helieae


(Mart.) Gilg, afim dos gêneros Helia Mart. e Calolisianthus Gilg.
Trata-se de um gênero com espécies muito relacionadas, exclusivo da faixa Neotro-
pical, ocorrendo nos cerrados do Brasil, das regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste,
esporadicamente na Bolívia em Santiago de Chiquitos.
As características mais importantes para a identificação de suas espécies, residem no
P°rte das plantas, nas folhas ora de base livres, ora concrescidas, na nervação foliar, na
orma dos botões florais na relação entre o comprimento do tubo e os lacínios do cálice e
f10 eomprimento deste, com o tubo da corola, além das dimensões dos pedicelos e
•nfiorescências.
Tratamos como sinônimos as variedades latifolia, pseudo-nervosa e foliosa, respecti-
vamente de /). nervosa Cham. et Schlecht. e D. erubescens Cham. et Schlecht., uma vez
q u e na maioria das espécies do gênero, há uma certa variabilidade no que se refere à for-
ma
e tamanho de folhas e flores muitas vezes num mesmo exemplar, principalmente
r
elerente à D. nervosa, fato que conduziria, sem dúvida alguma, os menos avisados, à
criação de algumas espécies novas e que nos levou a sinonimizar as variedades acima
mencionadas para as espécies D. nervosa Cham. et Schlecht. e D. chiquüana Herzog.
Descrevemos uma nova espécie D. damazioi muito próxima, de D. nervosa, mas bas-
tante característica pelo tipo de cálice, estilete e folha.
Pela dispersão do gênero muito restrita, suas espécies não devem ser muito evoluí-
das dentro das Asteridae.
— 68 —

Kubitzky (1975), assinalou uma correlação entre a presença de caracteres primitivos


e o tamanho das áreas de distribuição das espécies baseado em dados morfológicos e fito-
químicos. Esse autor ressaltou que os representantes que possuem caracteres primitivos,
geralmente têm uma distribuição restrita, enquanto que as espécies derivadas seriam
mais amplamente difundidas.
Ao tomarmos por base os caracteres morfológicos e a área de distribuição do gênero
Deianira Cham. et Schlecht. verificamos que há uma progressão do padrão broquidódro-
mo foliar primitivo para o derivado acródromo (Hickey and Wolfe 1975:551), mesclado
dos tipos intermediários broquidódromo-acródromo e acródromo-broquidódromo.
Esses padrões são acompanhados do caráter folhas livres para concrescidas. Parece-nos
que estes componentes caminham paralelos neste grupo de plantas e que o caráter folhas
livres com padrão broquidódromo de início, poderia ser considerado um caráter de primi-
tividade, embora uma das espécies do grupo tenha maior freqüência no cerrado. Situamos
aqui D. damazioi Guim., D- nervosa Cham. et Schlecht. e D. chiquitana Herzog, cuja
análise das nervações foliares nos possibilitou verificar, na primeira espécie, duas ramifi-
cações que seguem paralelas à nervura mediana até o primeiro terço da lâmina,
divergindo daí em direção ao ápice, enquanto na segunda, estas ramificações divergem
diretamente da base, nos sugerindo uma tendência para formar o tipo acródromo
evidenciado em Deianira chiquitana Herzog.
Pelo exame do material, podemos sugerir que entre as espécies de folhas concresci-
das, D. cordifolia, (Lhotzky ex Progel) Malme, D. cyathijolia Barb. Rodrig., D. eru-
bescens Cham. et Schlecht. e D. pallescens Cham. et Schlecht., as duas primeiras são
endêmicas do Estado de Mato Grosso, enquanto as outras apresentam maior distribuição
geográfica.
Ora, ao analisarmos as espécies acima mencionadas sob o ponto de vista da concres-
cência foliar, porte e dispersão, verificamos que nas endêmicas, este concrescimento vai
da espécie D. cordifolia para D. cyathijolia seguidas de D. erubescens e D. pallescens,
amplamente difundidas no cerrado, embora D. cyathijolia e D. pallescens apresentem
porte mais robusto, com tendência para subarbusto, ao contrário do que se observa em D.
cordijolia e D. erubescens que se apresentam herbáceas, o que nos leva a considerar um
inter-relacionamento com referência a estes caracteres. Parece-nos, ainda, que a concres-
cência foliar, acompanhada de água em seu interior, seria uma adaptação às condições
ambientais que a região oferece.
Por outro lado, Deianira erubescens Cham. et Schlecht. que apresenta as folhas de
base livres e as superiores concrescidas, sugere-nos um tipo intermediário entre as espé-
cies que apresentam todas as folhas livres e aquelas que as têm concrescidas.
Baseados em Cowan (1975:19), apresentamos um quadro com os caracteres e carac-
terísticas das espécies de Deianira usados para o presumível relacionamento filogenético
entre elas e representados no diagrama anexo.
Concluimos, portanto, neste gênero, em que a variação morfológica é pequena e a
distribuição geográfica restrita, há dificuldade para este tipo de indagação. Estudos
fitoquímicos anatômicos, e palinológicos, entre outros, seriam necessários, para numa
tentativa delimitar o que seria primitivo e derivado neste grupo das Gentianaceae.
VI — RESUMO

É feita a discussão taxonômica do gênero Deianira Chamisso et Schlechtendal


exclusivo da faixa neotropical, com distribuição nos cerrados do Brasil, principalmente
nas regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, esporadicamente em Santiago de Chiqui-
tos na Bolívia, onde foi coletado pela primeira vez, por T. Herzog.
O tratamento taxonômico dado ao gênero no presente trabalho, assinala 7 espécies,
com ilustrações, discussões após as diagnoses e descrições onde se salientam os tipos de
nervação das folhas, cálices e corolas, além do estudo das epidermes foliares e distribui-
ção geográfica.
— 69 —

A autora elaborou uma chave dicotômica para identificação das mesmas, classificou
uma nova espécie e sinonimizou Deiamra nervosa Cham. et Schlecht. var. latifolia Mart.
ex Prog., Deianua nervosa Cham. et Schlecht. var.foliosa Griseb. e Deiamra erubescens
Cham. et Schlecht. var. pseudo-nervosa Beauverd.
ABSTRACT
The author presents a study of the seven species of which make up the genus Deiani-
r
a Chamisso et Schlechtendal, which ocurr in Northeast, Central, Southeast Brasilian
and Bolivian área too.
This work includes descriptions and details of each species, emphasinzing venation
patterns as well as details of the leaf epidermis, sepals and petals. It also includes a
dichotoms key for the identification of species, geographic distribution, classification of a
new species and synonimizes three varieties.

VII — Í N D I C E D O S C O L E T O R E S , SEUS N Ú M E R O S E E S P É C I E S C O R R E S P O N D E N T E S

ALVES, A P . 1045, D. damazioi.


A L V I M , S. et O L I V E I R A , J . E . s.n., D. chiquitana.
A R M O N D , N . s.n., D. pallescens e D. erubescens.
A I A L A , F. 161.D.pallescens; 97, 155,233,Z). nervosa.
B A R R E T O , M . 1008, 2885, 2886, 2887, 2888, 2890, 2892, 2894, 4505, 7469, D. pallescens; 2861, 2893, D.
erubescens; 2877, 2878, D. nervosa; 2868, D. chiquitana.
B A R R E T O , M . et B R A D E , A.C. 1250/14844, D. pallescens; 1321/14908, D. nervosa; 1249/14845, D.
chiquitana.
M R R O S O , G . M . s.n. D. chiquitana.
" K A D E , A.C. s.n., 13622, D. pallescens; 13617, D. nervosa; s.n. D. chiquitana.
n t m E ' A C e t BARBOSA, A. 18012 s.n., D. chiquitana.
B U R C H E L L , W . J . 5508, 7167, D. pallescens.
C A M P O S , R.P., s.n. D. damazioi.
L.ASTELLANOS, A. 5938, D. nervosa.
C A S T E L L A N O S , A. et H E R I N G E R , E.P. 6306, D. nervosa.
CLAUSSEN, P. 458, D. pallescens, 3, 4, 459, D. erubescens; s.n. 1,2, 74, 92, 143, D. nervosa.
C O N F U C I O , V. 8809, D. nervosa.
COSTA, B. 56, D. erubescens.
rlí w E R > H 8 8 0 9 ' D- chiquitana.
UAMAZIO, L. 1004, D. pallescens; 1554, D. chiquitana e D. erubescens (p.p.) 975, D. damazioi; s.n. 2059,
D- nervosa.
U U A R T E , A.P. 2440, 7810, D. pallescens; 7 8 0 9 , 9 9 1 8 , D. nervosa.
U J J A R T E , A.P. et M A T T O S , A. 8367/454, 8413/s.n. D. pallescens; 8414/s.n., D. chiquitana.
p C C K E , A. s.n., D. pallescens, D. nervosa e D. damazioi. -•
t ü W A L L , G. 5801, D. erubescens.
•^LRREIRA, M B . 8000, D. nervosa.
^ A R D N E R , G. 3894, 3896, D. pallescens; 4281, D. nervosa; 4282, D. chiquitana.
V j t H R T , A. s.n. D. erubescens, D. nervosa e D. chiquitana.
C L A Z I O U , A . F . M . u770, 21770, D. pallescens; 17148, D. erubescens: u771, 12963, 18373, 21771, D. ner-
UAK í ' 0 í a ; u 7 7 2 > 1 5 2 5 ] . 15281, 18281, 21772, D. chiquitana.
" A N D R O , O . 466, D. chiquitana.
H A T S C H B A C H , G. 36153, D. cordifolia; 32045, 34665, D. pallescens; 29853, D. nervosa; 23742, 29634,
u . - ? 1 9 1 3 ; 32033, 34614, D. chiquitana.
H A T S C H B A C H , G. et A H U M A D A , Z. 31214 s.n., D. erubescens.
H E R I N G E R , E.P. s.n., 3986, 9785, 11436, D. pallescens; 3402, 6426, D. erubescens; 5150, 3869, 3961, 4012,
D
„ - nervosa; 239, 3660, 13827, 14694, D. chiquitana.
H E R I N G E R , E.P. et C A S T E L L A N O S , A. 5938/s.n. D. nervosa.
H O E H N E , F.C. 3237, 3238a, D. cordifolia; s.n. 6194, D. nervosa; 2104, D. chiquitana.
H O E H N E , F.C. et G E H R T , A. s.n. D. nervosa.
" C N T , D.R. 5668, D. cordifolia.
IDVA, ' D R ' e t R A M O S , J . F . 5433, 6266, D. chiquitana.
1KVVIN, H.S. et alii 16198, 16266, D. cordifolia; 14468, 16032, 16638, D. pallescens; 16570, D. cyathifolia;
26801, D. erubescens 13113, 27045, 28167, D. nervosa; 15338, 16051, 16455, 16934, 17978, D. chiqui-
tana.
IRYVIN, H.S. et S O D E R S T R O M , T . R . 5325/s.n., 6090/s.n. D. nervosa; s.n. D. pallescens.
— 70 —

K U H L M A N N , J . G . 2239, D. cordifolia; 2237, D. cyathifolia.


K U N T Z E , O. s.n. D. pallescens.
L E O N A R D O S , O . H . s.n., D. chiquitana.
LIMA,' A. 58-3004, D. pallescens.
L O E F G R E N , A. 315, D. chiquüana.
L O E F G R E N , A. et E D W A L L , G. s.n. D. nervosa.
L U N D , P.W. s.n. D. chiquitana.
L U T Z , B. 2, D. erubescens.
M A C E D O , A. 381, 2403, D. pallescens.
M A C E D O , W . 10, D. pallescens.
M A G A L H Ã E S , M . 19186, D. nervosa.
M A L M E , G.O.A. 3323, D. cordifolia; s.n. 1674c, D. pallescens; 1674c, 3323Ba, 3323Bb, 3323 B, D. cyathi-
folia; s.n. 1732, 1732a, 3482, D. chiquüana.
M A T T O S , A. s.n. 454, D. pallescens.
M A R T I N E L L I . G . 1014, D. pallescens; 1015, D. chiquüana; 1016, D. nervosa.
M A R T I U S , C.F.P. s.n., D. pallescens; s.n., 1052, D. nervosa.
M E X I A , Y. 5667, D. erubescens; 5565, D. nervosa, p.p.
M I M U R A , J . 398, D. chiquüana.
M O R E I R A , C. et S I Q U E I R A , s.n. D. erubescens e D. nervosa.
M O S E N , H. 1470, 1476, D. erubescens; 1477, D. nervosa.
M U R Ç A P I R E S , J . 9571, 57892, 58004, D. pallescens; 58069, D. chiquüana e 75979 D. nervosa
M U R Ç A P I R E S , J . et M A T T O S , A. 9833, D. chiquüana.
M U R Ç A P I R E S , J . et alii 9060, D. chiquüana.
N E T T O , L. 137, D. pallescens; 135, D. chiquüana.
O N I S C H I . E. et alii 057, Q.pallescens.
P E I X O T O , A.L. et G U I M A R Ã E S , 8 0 9 / 3 3 9 , D. pallescens.
P E R E I R A , E. 7513, D. pallescens; 1757, 7495, D. nervosa.
P E R E I R A , E. et P A B S T , G. 2 7 0 5 / 3 5 4 1 , O. nervosa; 7497, D. nervosa; 7497, D. erubescens.
P O H L , J . B . E . 1709 D. pallescens; 1687 D. chiquüana. 2943, D. erubescens; 1951, /J. nervosa.
P R A N C E , G . T . et SILVA, N . T . s.n., D. pallescens; s.n. 2101 D. nervosa, s.n. D. chiquüana.
RASSEL, A. 357, D. chiquüana.
R A T T E R , J.A. et alii 1348, D. cordifolia.
R E G N E L L , A . F . 11-190, p.p. O . erubescens; s.n. III-190, 11-190 + , Ha et b, 11-190, D. nervosa; 11-190+ +
D. Chiquüana.
R I E D E L , L. 2725, D. pallescens; 1009, D. cyathifolia; s.n. 249, III-894, p.p., 1990, D. erubescens; s.n. 105,
2233, D. nervosa; s.n. 1991 D.foliosa.
R I Z Z O , A. 6524, D. pallescens; 7948, 9824, 1017 D. nervosa; 9076, 9045, 9026, 8150, 9855, 9803, D. chi-
quüana.
R I Z Z O , A. et BARBOSA, A. 4 9 4 0 / 4 1 8 8 , 5155/s.n. 5205/4454, s.n./774, s.n./639, D. nervosa; 5180/4229
6144/5392, s . n . / 7 1 , s.n./186, 5325/4514, D. pallescens; s.n./1129, s.n./733, 6408/5656, 6337/5586,
5205/4454, 6418/5666, 6 2 2 3 / 2471, s.n./676, D. chiquitana.
R O T H , P.L. 2216, D. pallescens, 2217, D. nervosa; 2215, D. chiquüana.
S A I N T - H I L L A I R E , A. s.n., D. pallescens; 409, D. erubescens.
S C H W A C K E , C.A.W. s.n. D. erubescens; s.n. 11683, D. nervosa.
S E L L O W , F. s.n., D. erubescens, s.n., D. chiquitana.
SILVA, J . B . , 335, D. pallescens; 48, D. erubescens.
S I L V E I R A , A. 321, D. erubescensi 2213, D. nervosa.
S I E G E L , H.K. s.n. D. damazioi.
S M I T H , L.B. 6962, D. pallescens; 6720, 6964, p.p. D. erubescens; 6922, p.p. 6962, 789, 6964, D. nervosa;
6963, 2404, D. chiquüana.
S T E P H A N , N . D . s.n. D. erubescens.
S U C R E , D. 510, D. chiquitana.
T A M B E R L I C K , s.n. D. cordifolia; D. pallescens; D. cyathifolia; D. chiquitana.
T E I X E I R A , A.A. s.n., D. pallescens; s.n. D. erubescens.
T U R M A DA T A X O N O M I A da U.B. 69, D. pallescens; 71230, D. chiquüana.
U L E , E. 195, D. pallescens; 2647, D. nervosa.
V I D A L , J . s.n. 1-887,11-6370, D. nervosa.
W A R M I N G , E. s.n. D. pallescens, D. erubescens e D. chiquitana p.p.
W I D G R E N , J . F . 368 1/2, ser. 2, D. nervosa.
W I L L I A M S , L.O. 7145, D. pallescens.
W I L L I A M S , L.O. et ASSIS, V. 6726/5925, D. nervosa.

viu — ÍNDICE DAS ESPéCIES

Callopisma amplexifolium M a r t ^Q
Callopisma cordifolium Lhotzky ex Griseb 53
Callopisma perfoliatum M a r t . var. anguslijolia M a r t 5g
Callopisma perfoliatum M a r t . var. latifolia Mart 54
— 71 —

Deiamra chiquitana Herzog 64


Deian ra cordifolia (Lhotzky ex Progel) M a l m e 52
Deian ra cyathi/olia Barb. Rodrig 57
Deian ra damazioi Guim 63
Deian ra erubescens C h a m . et Schlecht 58
Deian ra erubescens C h a m . et Schlecht auct non C h a m . et Schlecht 54
Deian ra erubescens C h a m et Schlecht var. alba Barb. Rodrig 54
Deian ra erubescens C h a m et Schlecht var. cordifolia (Lhotzky ex Progel) M a l m e 54
Deian ra erubescens C h a m . et Schlecht. var. pallescens (Cham. et Schlecht.) Griseb 54
Deian ra erubescens C h a m . et Schlecht. var. pseudo-nervosa Beauv 64
Deian ra nervosa C h a m . et Schlecht 60
Deian ra nervosa C h a m . et Schlecht var. foliosa Griseb 64
Deian ra nervosa C h a m . et Schlecht var. latijolia M a r t . ex Progel 60
Deian ra pallescens C h a m . et Schlecht 54
t-xacum erubescens ( C h a m . et Schlecht.) Spreng 58
t-xacum nervosum ( C h a m . et Schlecht.) Spreng 60
t-xacum pallescens (Cham. et Schlecht.) Spreng 54

IX — REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A,
R J-';ON,H Ei889-GenünacéesinHistoiredesplantesl0:ll3-145.fig 88-107.
H c í r O S A " RODRIGUES.!. 1898 Planlae Matogrossensescu Relação de Plantas Novas 2: 1-43, lab 1-13
píAVVERD, G. 1907. Plantae Damazianac Brasiíiensis. Bulletin de l'Herbier Boissier ser. 2,7 (2): 138-152.
COVví!S S P- A 4 SCHLÉCHTENDAL, D. 1826. De Plantis in Expeditione Soeculatoria romanzoffiana observam Linnaea 1 165-226.
, , p . A N ' R S 1975. A monograph of genus Eperua (Leguminosae; Caesalpinoideae). Smithsonian Contnbutions to Botany 28:17-20.
VMH?' G - L 1 9 6 5 Livro verde das plantas medicinais c industriais do Brasil, 1: 42 pp.
t í , ÜCHER, S. 1838 Gentianeae in Genera Plantarum. 599-605. .
r
tLIPPE G. M. ALENCASTRO, F. M R. de, 1966 Contribuição ao estudo da nervacão foliar das Compositae dos cerrados I-Tnbus Helenieae,:,
Heliantheae, Inuleae Mulisieae e Senecionae. II» Simpósio sobre o Cerrado, Anais da Academia Brasileira de Ciências 38 (supl.): 125-157, íig.
6-123.
(,
ARI)NER, G. 1942. Viagem no Brasil, principalmente nas províncias do Norte e nos distritos do ouro e do diamante durante os anos de 1836-1841.
, . „ brasiliana ser. 5.223: 467 pp.
c'r\S E 1895. Gentianareae in Engler u. Prantl. Die Nuturlichen Pflanzeníamilien 4 (2): 50-108.fig.29-48.
WODLAND, R. 1969. An ecological study of the Cerrado Vegetation of South-Central Brasil (inédito). 224 pp.
p D l e _ _ 1970 Plants of the Cerrado Vegetation of Brasil, Phytologia 20 (2): 57-78.
Klst
-BACH, A. R G. 1838. Observationis auaedam de Gentianearum familiae characteribus. 37 BD.
ríTcTíT l 8 ' ' Genera et Species Gentianearum — observationibus quibusdam phytogtographicis, 364 pp
','. R ' S f B ACH,A. R.G. 1845. Gentianaceae in A P De Candolle Prodromus 9-38-141.
Ilf-Rf-OG, R 1909. Siphnnogamae Novae Bolivensis in itinere per Orientalem ab auctore lectae Fedde Repertonum (134-136): 49-64
•"CKEY, J et WOLFE 1 A 1975 The Bases of Angiosperm phylogeny vegetative morphology. Annals of the Missouri Botanical Garden 62:
538-589, figs. 1-20. ' '
KUBrZKY, K 1975. Relationships between distribution and evolution in some heterobathmic tropical groups. Botanische Jahrbucher 96 (1-4):
K
212-2)11
l „ , E ^ A. 1930. Dictionnairedescriptif et svnonymique des genres de plantes phanerogames 2:998 pp
w»,V • " 1 9 7 4 Dicionário de Mitologia, 363 pp. , „
Vlí i , • G ° 1 9 0 4 - Die Gentianaceen der Zeweiten RegneU'schen Reise Arquiv for Bolanik 3(12): 1-23, pi. 1-2.
, L S (: E p
v c-V. ' ' ' - 1827. Nova Genera et Species Plantarum 2: 69-148, Tig. 161-200.
VIOB '- F F - C R • CHALK. L. 1965. Gentianaceae. Anatomy of the Dicotyledons. 2: 933-939, fig 216 Oxford Clarendon Press
•MOREIRA, A. X. 1961. Pólen de Gentianoideae Helieae — Descrição do Pólen de Diinnira cordifolia Malme. Atas Sociedade Biologia 5 (1-2):
6-7.
UDÍ^.Í' M 1 , 4 ° Dicionário Brasileiro de Plantas Medicinais. 409 pp.
BliSfSÍ* CV Tl 8 6 5 Gentianaceae in Manius. Flora Brasiíiensis 6 (I): 197-248.pl. 55-66^
Rríni "60/61 Sistematizaçào terminológica da folha Rodriguésia 23-24(35-36). 193-208, pi. 1-3.
ST A i , ' F C S , 9 4 4 Diccionario Mitológico Universal 911 pp
Sliu í t , E U ' F A « a l 1 97 2 International Code of Botanical Nomenclature 426 pp.
VVA B . , G E L ' c l 8 27. Linnaei, Systema Vegetabilium 4 (2): Curae Posteriores: 41 338.
"ARMING. E. 1908. Lagoa Santa. 248 pp.
DIAGRAMA DO RELACIONAMENTO FILOGENETICO ENTRE
AS ESPÉCIES DE DEIANIRA

Y 4 ) D.erubescens

D.pallescens
(ABCDF)

'.cvathlfolia|
(ABCDE)

'P.cbiquitaha
D.damazioi '>*°/
!D. nervosa D.cordifolia
Z 3 X" VK
1 / ^+ B2 *v
; +C
^ :'3 /4 :5
•73 —

CARÁTER E CARACTERÍST.CAS DAS ESPÉCESDE DEIANIRA USADOS PARA


ILOGENETICO
O PRESUMÍVEL RELACIONAMENTO

CARÁTER CARACTERÍSTICAS E
O ri O Q
n «tf iri (d

Livres (0)
" • L â m i n a s da b a s e
da
Concrescidas (1)
planta

R i - Livres desde a base (O)


•Lâminas foliares
Perfolhadas ou adunadas(l)
Su
periores

p Broquidódroma ( 0 )
V*. N e r v a ç ã o .
A c r ó d r o m a ou m i s t a ( 1 /

[) . S o m e n t e na b a s e ( 0 )
•-'•.Altura do concresci-
Acima da base n)
mento foliar

Lacínios u l t r a p a s s a n d o o
c
- Cálice c o m p r i m e n t o do tubo ( 0 )
L a c i n i o s m a i s curtos doque
• o comprimento do tubo (1)

p n. Endêmicas (0)
• • d i s t r i b u i ç ã o geográ- , .
Não e n d ê m i c a s l i I
fica
— 75-
Est. 1

»W*l*

Distribuição geográfica do Gênero


-77-

Est. 2

Distribuição geográfica de Deiamra cordifolia (Lhotzky ex Progel) Malme


t s t . 3 Deianira cordifolia: Fig. 1. Botão floral — Fig. 2. Botão lloral mais desenvolvido
— Fig. 3. Flor — Fig. 4. Nervação de um lacínio do cálice — Fig. 5. Nervação de um
lobo da corola — Fig. 6. Gineceu — Fig. 7. Aspecto geral da nervação foliar — Fig. 8.
Detalhe da rede de nervação foliar — Figs. 9-9a. Epiderme inferior de paredes ondula-
das, mostrando os diferentes tipos de estomatos — Fig. 10. Epiderme superior de paredes
•"etilíneas, mostrando os estomatos — Fig. 10a. Epiderme inferior de paredes retilíneas,
mostrando os diferentes tipos de estomatos — Fig. 11. Detalhe de terminação vascular
foliar.
,0

JARDIM KOTÀMCO [Ml RIO l>K J t M l I K U

Heib. Bras,l Rt(i»il. tmi I :

.. , , . . . . , mo - -- .... gf.7c^
... *
... . - ..
f y
Deianira cordifolia (Lhotzky ex Progel) Malme
-83 —

Est. 5

Distribuição geográfica de Deianirapallescens Chamisso et Schlechtendal


Deianira pallescens

j r 8 ' ]?• B o t ã o n ° r a ' — F'g- 13' Botão floral mais desenvolvido — Fig. 14. Flor — Fig.
3- Omeceu — Fig. 16. Nervação de um lacínio do cálice — Fig. 17. Nervação de um lobo
aa corola — Fig. 18. Cápsula — Fig. 19. Aspecto geral da nervação foliar — Fig. 20.
etalhe da terminação vascular foliar — Fig. 2 1 . Epiderme inferior, mostrando os tipos
jje estômatos — Fig. 21a. Epiderme superior mostrando os estômatos — Fig. 22. Deta-
ln
e da rede de nervação foliar.
— 87-
Est.7

\ ..... í
/ <

/ '

Deianira pallescens Chamisso et Schiechtendal


Foto — 1 lábito de Deianira pallescens Cham. et Schlecht. Exemplares em plena flora-
Ção

Foto 2 — Exemplar sem flores


— 91 -

Est.9

Distribuição geográfica de Deiamra cyathifolia Barbosa Rodrigues


Deianira cyathifulia
'8- 23. Botão floral — Fig. 24. Botão floral mais desenvolvido — Fig. 25. Flor — Fig.
*J>. Gineceu — Fig. 27. Cápsula — Fig. 28. Nervação de um lacínio do cálice — Fig. 29.
j/ erv ação de um lacínio da corola — Fig. 30. Aspecto geral da nervação foliar — F'ig. 31.
etalhe da terminação vascular — Fig. 32. Epiderme inferior mostrando os estomatos —
l
8; 32a. Epiderme superior mostrando os estomatos — Fig. 33. Detalhe da rede de ner-
— 95 —
Est. 11

!í«.,

^••"•«í;
CO) -
J \ k n i M BOTÂNICO IH> klt> Í>J J \ M lk'o

. , .•„ .., ,. .. 'V •-• 3 ..


J

Deianira cyathifolia Barb. Rodr.


— 97 —

Est. 12

Distribuição geográfica de Deianira erubescens Chamisso et Schlechtendal


— 99

Est. 13

Demnira erubescens
Fig- 34. Botão floral — Fig. 35. Botão floral mais desenvolvido — Fig. 36. Flor — Fig.
-'• Gineceu — Fig. 38. Nervação de um lacínio do cálice — Fig. 39. Nervação de um lo-
bo da corola — Fig. 40. Cápsula — Fig. 41. Folha basal: aspecto geral da nervação —
\)g- 42. Folha superior: aspecto geral da nervação — Fig. 43. Detalhe da rede de.nerva-
? a o foliar — Fig. 44. Epiderme inferior mostrando os estômatos — Fig. 44a. Epiderme
Su
perior mostrando os estômatos — Fig. 45. Detalhe da terminação vascular foliar.
— 101 —

Est. 14

JtJi.

Jei-

/ >•* / « -í, *w • / ""

•i\<. J ml * 44C+ ,. J/m, .'/&•'/ M

Deiamra erubescens Chamisso et Schlechtendal


— 103-
Est. 15

Distribuição geográfica de Deianira nervosa Chamisso et Schlechtendal


Deianira nervosa
Pi
_'§• 46. Botão floral jovem em fase mais desenvolvida — Fig. 47. Flor — Fig. 48. Nerva-
p. e u m lacínio do cálice — Fig. 49. Nervação de um lobo na corola — Fig. 50. Gineceu
. " g - 51. Cápsula — Figs. 52-53. Aspecto geral da nervação foliar — Fig. 54. Detalhe
a le
nninação vascular foliar — Fig. 55. Semente — Fig. 56. Epiderme inferior mostran-
0
os estômatos — Fig. 56a. Epiderme superior — Fig. 57. Detalhe da rede de nervação
— 107 —

Est. 17

Deiamra nervosa Chamisso et Schlechtendal


— 109 —

Est. 18

Hábito de Deianira nervosa Chamisso et Schlechtendal


Fotos 1 e 2 — Exemplares em plena floração
-111 -
Est. 19

Distribuição geográfica de Deianira damazun Guimarães


Deianira damazioi
y%- 58. Flor — Fig. 59. Estame — Fig. 60. Gineceu — Fig. 61. Nervação de um lacínio
Qo cálice — Fig. 62. Nervação de um lobo da corola — Fig. 63. Aspecto geral da nervação
'oliar — Fig. 64. Epiderme inferior mostrando os estomatos — Fig. 64a. Epiderme supe-
rior .— pi„ 55 o e talhe da rede de nervação foliar — Fig. 66. Detalhe da terminação vas-
cu
'ar foliar.

\\
-115-

Est. 21

15

•10

—5

L-0
sum iHiiici ei m if usni

üeidnira damazim Guimarães


-117 —

Est. 22

.•--.V.;.

Distribuição gcográlica de Deiamra chiquitana Herzog


Deianira chiquitana
P"
*!§• 67. Botão floral — Fig. 68. Botão floral mais desenvolvido — Fig. 69. Flor — Fig.
U. Gineceu — Fig. 7 1 . Cápsula — Fig. 72. Nervação de um lacínio do cálice — Fig. 73.
^ e r vação de um lobo da eorola — Fig. 74. Semente — Fig. 75. Aspecto da nervação foliar
Fig. 76. Epiderme superior mostrando os estômatos — Fig. 76a. Epiderme inferior
jj^°strando os estômatos — Fig. 77. Detalhe da rede de nervação foliar — Fig. 78. Deta-
ne
da rede de nervação foliar.
— 121 -

Est. 24

• vi.

«SÍ8^|r,

Deiamra chiquilana Herzog


- 123 —

Est. 25

Hábito de Deianira chiquilana Herzog


D E L I M I T A Ç Ã O D O C O N C E I T O DE C E R R A D O
George Eiten
VEG-IB — Universidade de
Brasília

INTRODUÇÃO

"Cerrado é o nome geral dado à vegetação xeromorfa de arvoredos, comunidades


ar
bustivas, savanas abertas e campos graminosos do Brasil Central. O cerrado forma
urna província florística e vegetacional em uma região de precipitação intermediária com
estação seca definida. E circundada por outras províncias vegetacionais de grande escala
como as florestas atlântica e amazônica nas regiões com mais chuva e a caatinga e o chaco
ern
regiões com menos chuva (Eiten, 1972). Dentro da sua própria região, cerrado ocorre,
em geral, nos solos mais inférteis, usualmente profundos, os quais, com poucas exceções,
Sao
latossolos; podem ser arenosos ou argilosos. As poucas áreas nos interflúvios com solos
mais férteis estão (ou estavam) cobertas com mata mesofítica. Vários tipos de comunidades
ap
bustivas, savanas abertas e campos graminosos, de composição florística não de cerrado
e
ocupando áreas bem restritas, também ocorrem na província do cerrado sobre litossolos
es
peeiais nas montanhas ("campos rupestres") e estes devem ser distinguidos do cerrado.
u
cerrado, além de ocorrer no Brasil Central, onde cobre talvez 90% da área, também
ocorre em áreas pequenas disjuntas em São Paulo e no Nordeste.
As vegetações que devem ser incluídas no conceito geral de cerrado variam de um
autor para outro. A questão envolve uma consideração dos tipos de vegetação que ocor-
re
m: 1) dentro da parte principal da província do cerrado; 2) nas áreas de transição entre
a
Província do cerrado e as outras províncias de vegetação que a circundam (caatinga, flo-
estas atlântica e amazônica, e os campos graminosos do sul do Brasil); e 3) como áreas
Pequenas disjuntas dentro dessas outras províncias, especialmente os campos e savanas
o a Amazônia. Somente quando a questão de que é cerrado for resolvida, podemos caracte-
riza-lo florística e pedologicamente e mapeá-lo corretamente. Os mapas de vegetação do
r
asil existentes, freqüentemente, não mostram sua extensão toda ou, no outro lado,
mostram como cerrado muitas áreas na Amazônia que não o são.

Dentro da Província do Cerrado

r Mata ciliar. Cerrado é, em geral, uma vegetação de interflúvio, isto é, de terreno


ora dos vales. Dentro da província do cerrado, os cursos d l água são orlados por mata
"lar ou por "veredas" (fundos de vales com brejos graminosos contendo a palmeira
rborea, buriti, Mauritia vinijera). As matas ciliares são constituídas de árvores dicotile-
°neas, ou estas misturadas com palmeiras altas, ou exclusivamente de palmeiras, como
a
baçu (Urbignya martiana — O. speciosa) e outras espécies no Maranhão, e carnaúba
•"permeia prumfera — C. cerifera) no sudeste do Maranhão e Piauí adjacente. O com-
ponente dicotiledôneo é sempreverde; somente ao longo da borda nordeste da província
o cerrado, na transição climática para a caatinga onde a precipitação é menor, algumas
ata
s ciliares ao longo- dos córregos menores, que secam entre as chuvas, podem ser
mídecíduas ou completamente decíduas. Mas mesmo nesta região, cursos d'água perma-
e
ntes são orlados por mata ciliar sempreverde. Em alguns lugares, brejos sem buriti
Cür
rem ao longo dos córregos; estes são de '1'ypha (na metade sul da região do cerrado),
u
uma mistura de ciperáceas, gramíneas e juncáceas com ervas latifoliadas. Obviamente,
e
§etação ciliar não é parte do cerrado.
^ Geralmente, a borda entre cerrado e mata ciliar ou entre cerrado e brejo é nítida.
Çasiorialmente, há transições de maneira que onde um pára e o outro começa é arbi-
ar
' o . Em climas ou em situações topográficas onde os cursos d'água são temporários, ou-
. ° l | po de transição pode ocorrer nas cabeceiras dos córregos. Aqui, a vegetação ciliar de
' r v °rcs baixas e arbustos altos é fechada e contínua ou é aberta e descontínua, mas nos

fr-te <•»> }&»a


— 126 —

dois casos, constituída de mistura de espécies do cerrado e da mata mesofitica. Assim, so-
mente a composição florística pode decidir, neste caso, se esta parte da vegetação ciliar
deve ser chamada cerrado ou mata mesofitica. Rio abaixo, a vegetação ciliar sempre
torna-se mata pura.
Floresta de interfluvio. Dentro da província do cerrado, somente pequena porcen-
tagem da área total dos interfluvios está coberta com floresta mesofitica. São áreas peque-
nas de latossolo mais fértil, derivado de rochas alcalinas como basalto e gabro ou de cer-
tos tipos de gneiss e micaxisto. A maior área deste tipo está situada em Goiás Central,
o chamado " M a t o Grosso de Goiás", entre Anápolis e Geres. Aquela parte da floresta
contínua que fica no fundo dos vales é sempre verde. A parte nos interfluvios, sobre solo
profundo, é sempreverde ou semidecíduo, dependendo da fertilidade do solo. Florestas de
interfluvio sobre afloramentos de calcário são completamente decíduas; florestas com so-
lo de alguns metros de espessura sobre calcário são semidecíduas. Áreas de floresta sobre
calcário são espalhadas sobre a maior parte da província do cerrado. Nenhuma das flo-
restas mesofíticas de interfluvio é uma forma de cerrado; sua flora e aparência são total-
mente diferentes. Entretanto, em algumas áreas existem trechos de floresta mesofitica de
interfluvio, que mudam, gradativamente, para cerradão.
Campo úmico. Quando um interfluvio está coberto com cerrado, este pode descer o
lado do vale e tocar a mata ciliar diretamente, mas, em grande parte da província do
cerrado, há uma faixa de campo graminoso úmido natural na encosta do vale, que separa
o cerrado da mata ciliar. Esta faixa varia de alguns metros até algumas dezenas de metros
de largura em diferentes vales. No campo úmido, o lençol freático aproxima-se e perma-
nece perto da superfície durante parte do ano, ou a água pode aflorar na parte inferior da
encosta e correr em película fina sobre a superfície. O solo é profundo ou raso, cinzento e
geralmente mais arenoso do que o solo do interfluvio; é formado por um processo que
tem características de gleização e de podsolização. Campos úmidos semelhantes também
ocorrem nas bordas de muitos platôs (chapadas) no Brasil Central, formando faixas de
até 300 m de largura. As bordas do platô são um pouco mais baixas do que o restante
da superfície e o lençol freático chega mais perto da superfície, formando o campo.
Embora a borda entre cerrado e campo úmido seja quase sempre bem nítida, em al-
guns lugares há uma faixa de transição. Outro tipo de mistura de cerrado com campo
úmido são os "murunduns", montículos redondos de terra de alguns metros de diâmetro
e de alguns centímetros até 2 m de altura, sempre com um termiteiro em cima. Os topos
e lados dos murunduns trazem espécies do cerrado, somente ervas ou, também, arbustos,
ou, ainda, algumas árvores baixas. Entretanto, a flora do campo úmido, em que os mu-
runduns são espalhados com distribuição uniforme, não é de cerrado, mas, de brejo es-
tacionai (campo úmido). Outra mistura, que ocorre em alguns vales de encostas íngremes
são os escorregamentos de solo que formam "degraus". Os topos e lados dos degraus
trazem flora do cerrado; o resto da encosta tem campo úmido.
Uma região no noroeste de Goiás, perto de Pequizeiro, é fora do comum por que a
topografia toda, por muitas dezenas de quilômetros, está completamente coberta com
campo úmido, sem plantas lenhosas e sem murunduns. Os campos cobrem todos os pontos
mais altos do terreno; há matas ciliares estreitas ao longo dos córregos.
Em duas regiões grandes, o sudoeste de Mato Grosso (O Pantanal) e ao longo do
Rio Araguaia (incluindo a Ilha do Bananal), há grandes extensões planas de alúvio onde a
atividade das térmites construiu murunduns grandes, uniformemente espaçados, de até
mais de 3 m de altura e de 10 m de diâmetro. Arbustos e árvores baixas de espécies do
cerrado crescem nos topos dos murunduns; brejo estacionai, inundado cada ano, cobre o
chão entre os montículos. Isto é " p a n t a n a l " no sentido restrito. Como no caso dos campos
úmidos, áreas de pantanal são nitidamente demarcadas das áreas adjacentes de cerrado
drenado. Mas, em alguns lugares há uma trasição. Ao norte da cidade de Santa Terezi-
nha (10»27'S.50 a 3rW.), no canto nordeste de Mato Grosso, sobre terreno plano ao longo
do Rio Araguaia, foi notado um gradiente perfeito na vegetação não perturbada desta
região quase desabitada. No lado norte da cidade, há um cerrado, relativamente denso, da
forma "arvoredo de árvores e arbustos", com cobertura de 50% de plantas lenhosas. Este
— 127 —

J a está sob pequena influência hidromorfa porque, entre as árvores e arbustos altos, a ca-
mada rasteira não contém quase nenhum arbusto baixo ou erva alta, componentes nor-
mais do cerrado, mas somente gramíneas, ciperáceas e ervas baixas formando um tapete
Parecendo um gramado cortado. Esta vegetação é uma forma que já chamamos "cerrado
lr
npo e graminoso" (Eiten, 1972), embora, neste caso, a camada arbóreo-arbustiva tem
mais cobertura do que já tínhamos visto em cerrados com este tipo de camada rasteira,
'ndo para o norte, numa distância de 1 a 2 km, a fisionomia muda gradativamente até
Rue se torne pantanal puro. As árvores e arbustos começam agrupar-se mais e mais, for-
cando bosques redondos de 3-6 m de diâmetro sobre plataformas de solo, de altura gra-
dualmente aumentando. O tapete de gramíneas baixas entre as plataformas aumenta sua
are
a proporcional, até, na forma pura de pantanal, torna-se a matriz em que os murun-
au
n s são uniformemente distribuídos. Obviamente, neste tipo de mudança, onde o cerrado
Para e o pantanal começa, também é arbitrário.
pensidade da camada lenhosa do cerrado. O cerrado existe com larga amplitude de
densidades das plantas lenhosas: 1) "floresta" no sentido estrutural, isto é, com dossel
arbóreo fechado (60% ou mais de cobertura); 2) arvoredo, com dossel arbóreo aberto
UU-60% de cobertura), e a camada arbustiva ausente, esparsa ou aberta, mas nunca fe-
"ada; 3) camada arbórea aberta ou esparsa e camada arbustiva fechada; 4) somente
^bustos e arvoretas de menos de 3 m de altura, sem árvores mais altas; 5) "savana"
\menos de 10% de cobertura de plantas lenhosas) arbórea, arbustiva, ou arbóreo-arbusti-
*> °) campo graminoso, com ervas latifoliadas, mas sem plantas lenhosas (exceto, talvez,
a'guns arbustinhos e semi-arbustinhos escondidos nas gramíneas). Formas 1 e 2 são
cerradão"; 3 e 4 não tem nomes comuns especiais; 5 é "campo cerrado" ou, quando
ainda mais aberto, "campo sujo"; 6 é "campo limpo". As formas mais baixas e abertas,
°je, são freqüentemente resultado de corte ou queima das formas mais altas e densas,
as onde são naturais e não resultado de perturbação humana, a abertura da camada le-
[tosa tem três causas: 1) solo raso, sem suficiente profundidade para o enraizamento das
P ant a s lenhosas ("campo litossólico"); 2) teor extremamente baixo de nutrientes, espe-
. mente fósforo, mais baixo do que é usual em cerrados mais densos (com associado teor
to
de alumínio disponível), mesmo se o solo é profundo e sempre bem drenado; 3) satu-
, Çao estacionai do solo ou, pelo menos, do subsolo, formando uma transição para campo
Ur
mdo ou pantanal.
A primeira causa, solo raso, ou falta total de solo, com a rocha mãe exposta na su-
t, r t l ( 'ie, ocorre nas encostas, como lados de platôs e colinas redondas erodidas de platôs.
es
te caso, forma-se campo limpo de cerrado ou, onde algumas árvores baixas e arbus-
s
podem achar frestas na rocha meteorizada, forma-se uma savana, esparsa ou
ais densa. Todos os solos rochosos, entretanto, não são litossolos. Mesmo se rochas aflo-
m, se os blocos estão separados por solo fino profundo, cerrados arbóreos podem ocor-
' Áreas pequenas de cerradões sobre solo rochoso, ocorrem em muitos lugares na pro-
s a d o cerrado.
. uma série instrutiva de formas ocorre na Serra de Caldas, uma abóboda batolítica
topo chato perto da cidade de Caldas Novas (GO). Na região plana em volta desta
I r a, há cerradão sobre latossolo profundo, derivado de arenito. Quando a abóboda foi
antada, uma camada inferior de quartzito foi exposto no lado da serra. Na base da en-
, a, o quartzito aflora.em blocos brancos de até 2 m de altura e cobre mais da metade da
. a do chão. Entre os blocos, ao longo do Rio Quente, há mata ciliar e, fora da mata,
cerradão. Mais acima da encosta, os blocos ficam mais baixos. O cerrado fica pro-
, Slv amente mais baixo, primeiro uma faixa de arvoredo baixo, depois faixa de camada
rta
s i de arbustos, depois savana de arbustos e, finalmente, uma faixa de campo limpo
Xo f S °'° P e dregoso (de pedaços de quartzo emblocado no quartzito) imediatamente abai-
ent despenhadeiros que formam a parte superior da encosta. A camada de solo fino
e
os blocos e pedras fica mais e mais rasa, encosta acima, de maneira que o enraiza-
ra í ^ e P ' a n t a s lenhosas fica mais difícil e o substrato torna-se um litossolo verdadeiro.
L . °'° fino sobre a encosta toda, não é latossolo vermelho ou amarelo, mas, areia preta e
•nica. Todas as formações vegetais da encosta (exceto a mata mesofítica ciliar) são
— 128 —

formas naturais de cerrado, com flora típica. Assim, é possível que cerrado cresça sobre
solos não latossólicos, mas, a proporção da área do cerrado que cresce sobre solos húmi-
cos, provavelmente, é menos de um milésimo de 1 %.
Em certas regiões, geralmente as altitudes mais baixas do que aquelas que sustentam
"campos rupestres" (veja adiante), ocorrem áreas pequenas, de menos de 2 ou 3 hectares
de cada, de alloramentos horizontais da rocha-mãe ou de carapaças de laterita sem solo
ou coberto somente com uma camada rasa e densa de piçarra de laterita. Essas platafor-
mas estão cobertas com tapete de gramíneas ou ervas latifoliadas de 10-15 cm de altura,
de flora não de cerrado, e sem plantas lenhosas. Foram notadas na Serra do Roncador no
nordeste de Mato Grosso, na cidade de Paraíso do Norte de Goiás e no Maranhão e Pi-
auí, em volta da cidade de Floriano. Na região de Floriano, as plataformas geralmente
têm carnaubeiras. Mas, alguns destes campos litossólicos têm solo mais espesso e contêm
arbustos dos cerrados vizinhos. Assim, neste caso, também, há um gradiente ligando o cer-
rado a uma vegetação não de cerrado.
Teor muito baixo de nutrientes, em solos profundos e bem drenados, aparentemente
pode sustentar somente uma forma baixa e aberta de cerrado, como na Serra do Maracaju
perto de Campo Grande ( M T ) , parte da Serra do Roncador ( M T ) e ao longo da fronteira
entre Goiás e Bahia. Na última região, a infertilidade pode chegar ao ponto de poder sus-
tentar somente campo limpo.
Um pouco de saturação estacionai do solo também abre a camada lenhosa, mas per-
mite uma flora ainda essencialmente do cerrado. Entretanto, quando a saturação é sufi-
ciente para impedir todo o crescimento das plantas lenhosas, a camada herbáçea já é par-
cialmente misturada com espécies de brejo estacionai e, então, é uma vegetação de transi-
ção.
Outra maneira em que a saturação pode afetar o cerrado é a de causar às plantas
lenhosas se agruparem em bosques redondos e, com saturação mais prolongada, levantar
estes bosques sobre murunduns, comojá descrito.
Campo rupestre. Um dos problemas mais difíceis é de distinguir cerrado de uma
vegetação essencialmente diferente, o "campo rupestre". Esse nome não é dado a qual-
quer vegetação natural crescendo em área com afloramento de rochas, mas a uma série
particular de tipos que ocorrem de 800 m a quase 2000 m de altitude nos planaltos de ser-
ras e de alguns platôs altos. A flora é, em grande parte, endêmica. Espécies de veloziáceas
são comuns. Uma forma de crescimento muito freqüente e característica do campo rupes-
tre é de ervas, arbustos e árvores baixas que são "esquarrosos" ou "cruciados", em que as
muitas folhas curtas e apertadas, são arranjadas em quatro fileiras ao longo do caule, de
maneira que, olhando o ramo da sua ponta, o contorno da folhagem parece um quadrado
ou uma cruz. Os arbustos e árvores com este tipo de folhagem têm uma ramificação pare-
cendo um candelabro. Esta forma de crescimento não ocorre no cerrado ou, no caso dos
cerrados das maiores altitudes, como os de Brasília, existe somente em algumas poucas
espécies. O que complica o caso é que campo rupestre verdadeiro também contêm ervas,
arbustos e árvores baixas não esquarrosos e não cruciados e que parecem plantas do
cerrado. Parte destas plantas são espécies que também crescem comumente nos cerrados,
mas o restante cresce somente nos cerrados que imediatamente circundam aquela área de
campo rupestre e não são encontradas além de algumas dezenas de quilômetros distante.
Podemos considerá-las espécies do campo rupestre, que foram capazes de aumentar sua
área um pouco nos cerrados adjacentes.
Outra diferença do cerrado é que, enquanto as plantas lenhosas do cerrado não
podem crescer sobre rocha nua (exceto onde acham frestas), plantas do campo rupestre,
particularmente do tipo esquarroso e cruciado, podem formar bosques arbustivos fecha-
dos sobre afloramentos de rocha nua e dura, como na Serra do Cipó, de maneira que to-
da esta vegetação não é, verdadeiramente, "campo".
Uma área de campo rupestre, realmente, é um complexo. Além dos campos secos
bem drenados (que estamos aqui contrastando com o cerrado), também abrange campos
úmidos, que são brejos graminosos estacionais, encharcados durante a estação chuvosa
e secos durante a estação seca. Ocorrem sobre solo raso, de 20-30 cm de espessura, sobre
— 129 —

a rocha-mãe. Não há, naturalmente, dificuldade em distinguir os campos úmidos de cer-


ado. Na Serra do Cipó, campos úmidos são de pequena extensão e sua rocha-mãe é do
niesmo metaquartzito que os campos secos adjacentes. Na Chapada dos Veadeiros, a
jfUU km ao norte de Brasília, os campos úmidos, sobre terreno suavemente inclinado, per-
azem 80% da área e sua rocha-mãe é diferente da dos campos secos. Ê folhelho macio,
m
eteorizado (raramente arenito), geralmente com uma sobrecamada, de 1-5 dm de espes-
sura, de seixos de laterita ou quartzo. Acima disto, há a camada superficial de solo fino
P°Qsolizado de 2-3(-10) dm de espessura. Espigões e colinas pequenas de quartzito sur-
s e m aqui e acolá, trazendo o campo rupestre propriamente dito sobre suas encostas, onde
, quartzito aflora em blocos brancos. A parte inferior destas encostas de quartzito, ao
°ngo das linhas de drenagem, também trazem campo úmido, que sejunta com as grandes
xt
ensões de campo úmido entre as colinas.
Composição florística de cerrados de densidades diferentes

Trechos de cerrado aberto em uma determinada região, quer naturais ou abertos


Pela ação do homem, podem ser arranjados em uma série linear, do mais denso até o
a,
s aberto na camada lenhosa. Será notado que a composição florística muda gradati-
amente ao longo do gradiente de densidade (Goodland, 1969; estes dados também em
lte
n, 1972). Algumas espécies ocorrem sobre a gama inteira de densidades mas em pro-
P°rÇoes diferentes, enquanto outras espécies estão ausentes nos trechos mais densos ou
ais abertos. A fertilidade do solo também forma um gradiente que é correlacionado à
de
nsidade.
No sul do Maranhão, outro tipo de variação ocorre. Nesta região, a vegetação mais
mum é um cerradão mais ou menos aberto (localmente chamado "chapada"), muito
m
elhante aos cerrados do Brasil Central em riqueza de espécies e em composição flo-
I s t l c a. A "chapada" cresce sobre solos profundos dos topos planos de platôs e nos fundos
r
gos e planos dos vales entre os platôs. Em áreas pequenas, de solo diferente derivado
I r °chas diferentes, geralmente sobre terreno colinoso ou ondulado, ocorrem vários tipos
cais de cerrados com nomes locais (como, por exemplo, "tabuleiro", "morraria", e
arrasco espinhoso", ao sul de Loreto). Estes, também, são formações arbóreas de inter-
: Vl0> mas têm diferentes aspectos visuais e graus de caducidade. Embora suas floras se-
~* características do cerrado, são diferentes da "chapada" adjacente nas espécies pre-
tes ou, pelo menos, na sua importância relativa; também, há muito menor número de
Pecies de árvores presentes por unidade de área.
_ Assim, dentro da província do cerrado, é necessário examinar, floristicamente, ve-
açoes não florestais para ver se o trecho deve ser incluído ou não no conceito de cerrado.
Transições entre províncias de vegetação

p Ao longo da borda entre a província do cerrado e a floresta amazônica, em Mato


°sso e Goiás, geralmente é possível decidir se um trecho de vegetação é floresta mesofí-
a ou u m t j p 0 j e c e rrado, embora haja áreas onde a decisão é difícil (Soares, 1953). Na
a de transição entre o cerrado e a floresta atlântica, em São Paulo e Minas Gerais, a
Herença entre os dois tipos é, geralmente, clara. Entre o cerrado e a caatinga em Mi-
as Gerais e Bahia, onde o clima sustenta os dois, pode haver tipos transicionais ou vege-
a
Ções tampões não pertencendo a um ou a outro (Ab' Saber, 1967). Os dois tipos, nas
j U a s formas típicas, também ocorrem, sobre substratos diferentes, como cerrado sobre
at
ossolos derivados de arenito e caatinga sobre solos rasos derivados de calcário (Azeve-
do. 1966).
. No Maranhão e Piauí a situação também é complexa. Entre o cerrado no sul do
^ aranhão e a floresta amazônica na parte noroeste do Estado, há uma zona de transição,
rca
de 100 km de largura, constituída de um mosaico de tipos diferentes. Cada compo-
. JWe d 0 mosaico é de várias dezenas de quilômetros de largura e, em cada caso, é fácil
er
minar se a vegetação é cerrado ou não. Um dos tipos de cerrado desta transição é ar-
r
edo baixo; outro é savana aberta de árvores baixas, arbustos e palmeiras acaules sobre
— 130 —

uma relva graminosa; as espécies são típicas dos cerrados do Maranhão. Outra forma é
arvoredo meio alto, isto é, cerradão ("chapada"), semelhante ao do Sul do Maranhão.
Quarta forma também é cerrado arbóreo, com a cobertura das copas arbóreas variando
de aberta a esparsa; abaixo das árvores há uma camada, extremamente densa, de arbustos
e arvoretas de 3-5 m de altura, ou de bambu. Há dois tipos não de cerrado no mosaico.
Um é mata mesofítica decídua ou semidecídua (localmente chamada "carrasco" ou "car-
rasco alto"), com a submata densa ou muito aberta. O outro é babaçual. Nas áreas de
cerrado, matas ciliares orlam os cursos d'água; na região do babaçu, esta palmeira ocorre
nos vales bem como nos interflúvios.
No Piauí, há vários tipos de transição da província de cerrado à província de caatin-
ga. Na parte norte do Estado, ao leste e ao sul de Teresina, há uma vegetação arbustiva
densa de 2-3 m de altura, constituída de espécies mais típicas de cerrado do que de caatin-
ga. Ao sul e sudeste desta região arbustiva, ocorrem arvoredos de cerrado, mais ou menos
semelhantes aos do sul do Maranhão exceto pelo fato de serem mais baixos. Somente a
borda leste do norte do Piauí tem caatinga pura. Ao longo de uma faixa estreita leste-oeste
através da parte central do Estado, de Floriano a Picos, o cerrado muda, gradativamente,
para caatinga, sobre uma distância de 200 km. De Floriano para o sul-sudeste, para Can-
to do Buriti, outra transição ocorre. Dentro do cerradão ("chapada"), manchas de ca-
atinga arbustiva começam a aparecer. Estas tornam-se mais e mais comuns e coalescem.
Ao mesmo tempo, o próprio cerradão muda seu caráter, ficando mais e mais mesofítico e
tornando-se uma mata decídua que se restringe aos vales entre os platôs baixos, agora co-
bertos com caatinga.

Os campos e savanas amazônicas

Quase todos os mapas do Brasil feitos por brasileiros mostram as savanas e campos
amazônicos como cerrado (com exceção das "caatingas" do Rio Negro). Há razões, entre-
tanto, além do fato de que o clima e os substratos são diferentes, para excluir quase todas
as comunidades amazônicas não florestais do conceito de cerrado.
Os campos e savanas amazônicas são de vários tipos que podem ser agrupados, pro-
visoriamente, assim:
1) Topos de platôs de altitude média, de tipos especiais de rocha como quartzito
(Serra do Cachimbo, e t c ) . Estes têm solos arenosos podsólicos e sustentam campos ervo-
graminosos de aparência e espécies muito diferentes das do cerrado. Quando os solos são
rasos, aparentam os campos rupestres, quando são profundos, têm características da
"caatinga amazônica".
2) "Caatinga amazônica" ("campina", "carrasco", e t c ) . Esta formação é confinada
à área de muitas chuvas no noroeste da Amazônia (Clima de Kõppen AF) principal-
mente na bacia do Rio Negro. E constituída de florestas, baixas a meio altas, e comunida-
des arbustivas, de fechadas a muito abertas. (As comunidades arbustivas abertas freqüen-
temente são chamadas, localmente, "campinas"; esta palavra também é usada paia ou-
tros tipos de vegetação em outras partes do Brasil). Todas as caatingas amazônicas ocor-
rem sobre areia pura e branca ou, no caso das comunidades fechadas, a camada superior
pode ser escura por causa da presença de húmus. A areia é a camada Al (com húmus) e
A2 (sem húmus) de um "podsol gigante"; a camada A2 é de vários metros de profundida-
de (Sombroek, 1966). Este é o solo mais infértil da América do Sul; a água que drena
deste solo é escura de compostos húmicos, ma tem a condutividade de água destilada. A
caatinga amazônica ocorre sobre interflúvios e, em algumas regiões, também sobre terreno
mais baixo, encharcado durante a parte mais chuvosa do ano. A flora é, na maior parte,
endêmica e não tem espécies de cerrado. Troncos e galhos são finos, não torcidos, e a casca
é fina e lisa. Folhas são pequenas e com caracteres anatômicos xeromorfos. Quase não há
gramíneas e ciperáceas e esta vegetação não sofre queimadas (Pires & Rodrigues, 1964).
mesmo nas formas mais abertas, contrariando o que Sarmiento e Monasterio (1975, pág-
245) declaram. A aparência e flora são completamente diferentes das do cerrado.
3) "Campo de várzea" do Baixo Amazonas e do estuário do Oiapoque do norte do
— 131 —

Amapá. Estes são brejos estacionalmente inundados, de gramíneas e ciperáceas altas, e


não têm relação com cerrado.
4) Campos, savanas, arvoredos e comunidades arbustivas abertas sobre os interflú-
v,
os planos, entre os rios principais no leste da Amazônia (Serra Formosa, Serra dos
^•aiabis. e t c , Setzer, 1967). Pouco é conhecido sobre estas áreas. Aparentemente, o solo é
Protundo e latossólico, mas seria necessário investigar a flora e a riqueza de espécies por
área. E possível que estes campos devam ser incluídos ao cerrado.
5) Áreas grandes disjuntas, contendo um mosaico complexo de savana drenada,
campos úmidos ou brejos de encostas (freqüentemente com murunduns) e manchas de
rciata. Foram vistas em vários lugares no sudeste do Fará em terreno situado na mesma al-
titude como a da floresta contínua em volta. Algumas porções dessas savanas drenadas pa-
recem ser cerrado.
6) Campos estacionalmente inundados na Ilha do Marajó, Amapá e entre Belém e
Bragança, com camada de plantas baixas (1-3 dm) de gramíneas, ciperáceas, xiridáceas,
eriocaulonáceas, etc. As vezes, estes campos contêm moitas de arbustos, árvores baixas ou
Palmeiras ("savanas hiperestacionais" de Sarmiento e Monasterio, 1975). Os campos se-
cam na estação mais seca. Os solos são hidromorfos e cinzentos de gleização. São circun-
dados por mata ou por campos firmes (nunca saturados). A flora é de brejos estacionais e
completamente diferente da do cerrado.
7) Campos secos ("campos firmes") nunca inundados e nunca saturados por causa
de má drenagem ou afloramento de água telúrica. Faltam plantas lenhosas ou tem árvo-
res baixas e arbustos formando uma cobertura aberta ou esparsa. Estes campos ocorrem
°nde há uma estação seca moderada e a precipitação pode chegar a somente 1500 mm por
ano em média. Há vários tipos: a) sobre solo com blocos ou seixos de laterita ou quartzo
misturados com o solo fino; ocorrem em áreas grandes no leste do Amapá n o nordeste do
1 erritório de Roraima ("Campos do Rio Branco") e nas savanas adjacentes de Rupununi
no sul da Guyana (antiga Guiana Inglesa) e no sudeste do Amazonas ("Campos de Hu-
m
a i t á " ) ; áreas menores de campo laterítico também ocorrem em regiões mais chuvosas
como Monte Alegre e em milhares de áreas pequenas espalhadas sobre interflúvios em to-
da a Amazônia; b) sobre latossolo sem laterita; c) sobre solo arenoso sem laterita; como
os
"campos cobertos" e "campos firmes" ao leste de Belém e ao longo da costa leste da
1'ha do Marajó.
Algumas áreas têm um complexo de substratos com áreas' diferentes variando em
Profundidade de solo e drenagem, presença e ausência de camadas impermeáveis, e t c ,
como os campos de Paru no nordeste do Pará, com a savana adjacente de Sipaliwini em
^urinam. Algumas árvores comuns dos campos do Amapá e leste do Pará não são típicas
do cerrado, como Himatanthus arüculatus; outras não são típicas dos cerrados do Brasil
(•entrai, mas ocorrem nos cerrados do Maranhão e norte de Goiás, como Platonia insignis
e
Anacardium microcarpum. Mas, uma considerável proporção das espécies são comuns
aos cerrados do Brasil Central, como Hancornia speciosa, Curatella americana, Byrsoni-
m
a crassifolia, Andira inermis, Bowdichia virgilioides, Salvertia convallariodora, Tabe-
liã caraiba, etc.
Parece, então, que pelo menos os campos secos do grupo 7 devem ser incluídos no
conceito geral do cerrado. Mas, se nós os considerarmos como cerrado, uma situação difí-
cil surgirá. Se incluirmos estes campos nunca saturados do leste da Amazônia no conceito
de cerrado, será necessário também incluir todas as savanas das Guianas, os Lhanos da
Venezuela e Colômbia e quase todos os campos e savanas naturais de baixa altitude no
norte da América do Sul, na América Central, sul do México e nas Índias Ocidentais, por-
que estes, também, contêm espécies características do cerrado como plantas lenhosas do-
minantes. Por exemplo, em savanas de baixa altitude na América Central e sul do Méxi-
co, Curatella americana e Byrsonima crassifolia são as únicas árvores presentes ou são
dominantes com algumas espécies locais. Não há razão para excluir estas savanas não
Dr
asileiras do conceito geral de cerrado se incluirmos os campos nunca saturados de Be-
lém, Marajó, Amapá, Rio Branco, e t c , porque, juntas, todas formam uma série florísti-
Ca
gradativa. Entretanto, se incluíssemos elas todas, é evidente que o conceito de cerrado
— 132 —

se tornaria tão diluído que perderia seu caráter individual e localizante e a palavra "cer-
rado" icaria meramente um sinônimo brasileiro de "savana" (sensu Beard, 1953; Bly-
denstein, 1962; Sarmiento e Monasterio, 1975, etc). Por isso, seria melhor se pudéssemos
achar algum critério objetivo que separe estes campos dos cerrados típicos.
Observações preliminares mostram que há uma saída. Isto é, considerar a riqueza de
espécies por unidade de área ("diversidade alfa" de Whittaker, 1956, 1973, 1975) como
um critério. Qualquer trecho de cerrado no Brasil Central e São Paulo contém centenas
de espécies vegetais vasculares por hectare. Por exemplo, um hectare de cerrado" da forma
arvoredo de árvores e arbustos, perto de Botucatu (SP), investigado pela Dra. Use Silber-
baver-Gottsberger, contém cerca de 300 espécies. Um hectare de cerrado da mesma fisio-
nomia em Brasília contém cerca de 320 espécies (das quais 288 foram identificadas, He-
ringer, 1971). Em 0,1 ha de cerrado da mesma fisionomia, perto de Brasília, nós achamos
mais de 230 espécies de plantas vasculares! Em quase todos os cerrados com bastante
plantas lenhosas, isto é, todas as formas exceto os campos limpos e sujos, há 30-60 espécies
de árvores e arbustos altos por hectare. Em áreas de cerrado de alguns hectares
(Goodland, 1969) ou de algumas dezenas de quilômetros quadrados do mesmo tipo, a flo-
ra é mais rica (Warming, 1892, 1908; Eiten, 1963), chegando a 700-800 espécies. No ou-
tro lado, ao norte do Brasil Central, os campos amazônicos que são mais semelhantes ao
cerrado na sua flora e aparência geral, têm muito menos espécies,especialmente na cama-
da de árvores e arbustos altos. Em um destes campos, o número de espécies de árvores e
arbustos altos (de 2 m e mais) varia de uma só até cerca de meia dúzia por hectare e mui-
tos quilômetros quadrados do mesmo campo não contêm mais de 15-20 espécies, geral-
mente menos (Azevedo, 1967, para Amapá; Rodrigues, 1971, para o Território de Rorai-
ma; nossas próprias observações nos campos de Vigia e Martins Pinheiro perto de Belém
e entre Salvaterra e Joanes na Ilha do Marajó).
Pode-se aplicar o mesmo critério às savanas amazônicas a oeste do Brasil Central.
Em todos os campos de Humaitá, no sudeste do Estado do Amazonas, por exemplo, não
há mais de cerca de 20 espécies de árvores e arbustos altos e, em um só hectare, somente
2-11. Destas espécies, somente Curatella americana, Physocalymna scaberrinum, Xylo-
pia aromatica, Hancorma speciosa e Salvertia convallanodora são espécies de cerrado (G.
Gottsberger, comunicação pessoal).
Nas savanas mais longínquas do Brasil Central, o número de espécies de plantas vas-
culares por hectare e em uma área inteira de savana, também é pequeno e, freqüentemen-
te, menos da metade das espécies são características do cerrado. Como nas savanas amazô-
nicas, o número de espécies de árvores e arbustos altos é pequeno, às vezes uma só (Cura-
tella americana, ou Byrsomma crassifolia, ou B. verbascijolia) (van Donselaar, 1965,
para o norte de Surinam e, 1969, para a Guiana Francesa; Oldenberger, comunicação
pessoal, Oldenberger et ai., 1973, e van Donselaar, 1968, para o sul de Surinam;
Goodland, 1966, para Guyana; Blydenstein, 1962, para Venezuela e, 1967 para Colôm-
bia; Porter, 1973, para Panamá; Breedlove, 1973 e Gomez-Pompa, 1973, para México).
Não conhecemos a riqueza de espécies por área nas caatingas amazônicas, mas estas
são tão diferentes do cerrado em aparência, espécies, tipo de solo e clima, que não há difi-
culdade em distingui-los.
Ao comparar o número de espécies, é necessário considerar que muitas das savanas
do norte da América Latina são heterogêneas. A mesma savana pode conter áreas de solo
de textura diferente, com parte periodicamente saturada. Assim, sua pobreza florística em
comparação ao cerrado é mais notável, porque a soma de espécies registrada é para um
conjunto de associações diferentes (sensu Braun-Blanquet) na mesma localidade. Por
exemplo, van Donselaar (1965) menciona 33 espécies de árvores para a savana de Lobin,
de 100 ha, no norte do Surimam. Nesta savana, ele distingue seis associações. Em um hec-
tare de uma destas associações, o número de espécies de árvores é consideravelmente me-
nor que 33. Nos cerrados, as contagens dadas por hectare foram feitas em vegetação e ha-
bitat homogêneos, onde não se pode distinguir mais de uma só associação.
A razão para a pobreza florística destas savanas do norte da América Tropical, pro-
vavelmente, não é que o tipo de substrato seja geologicamente jovem e não houvesse tempo
— 133 —
para evoluir uma flora rica. AÍgumas dessas savanas estão sobre substratos jovens, mas
não todas. Algumas savanas do norte do Surinam estão sobre solos derivados de rochas
proterozóicas expostas por muito tempo (van Donselaar, 1965). A razão, provavelmente,
e
que, na maioria das savanas, o lençol freático (contínuo ou suspenso) durante ou, pelo
menos, perto do fim da estação chuvosa, chega à superfície ou perto dela (Beard, 1953;
savana hiperestacional" de Sarmiento e Monasterio, 1975). Há gleização no solo super-
ficial ou, pelo menos, no subsolo. Aparentemente, este tipo de solo pode sustentar um nú-
mero muito menor de espécies por hectare do que o cerrado. Exceto por uma pequena fra-
ção de 1 % da sua área, o solo do cerrado não é hidromorfo ou gleizado e o lençol freático
está sempre profundo. Os campos amazônicos e os do norte da América Latina que têm
solos gleizados têm uma aparência não como o cerrado, mas como os campos úmidos e
transições entre campos úmidos e cerrado que podem ser vistos nas encostas dos vales, la-
dos de platôs e em depressões rasas no Brasil Central.
Assim, com mais investigação, talvez possamos estabelecer um critério, baseado na
composição llorística e na diversidade, que nos permitiria definir, com mais precisão,
°,uando um campo na Amazônia ou fora do Brasil deve ser incluído no conceito geral de
cerrado. Com a informação preliminar que possuímos, podemos concluir que, exceto al-
guns campos, savanas e arvoredos sobre latossolos ou areias produndos no sudeste da
Amazônia perto do Brasil Central, não devemos incluir no conceito de cerrado nenhum
dos campos e savanas da Amazônia e do norte da América Tropical.
Deve-se lembrar que, como em qualquer tipo de vegetação de grande escala, circuns-
tancias raras e especiais de substrato podem reduzir o número de espécies por unidade de
ar
ea, pelo menos em certas regiões e em certas camadas da vegetação, sem aquele trecho
necessariamente ser excluído daquele tipo de vegetação. Assim, na região de cerrado do
s
ul do Maranhão, tipos especiais de rocha sustentam uma vegetação arbórea, de dossel
aberto, cujas árvores são aquelas normalmente achadas em cerrado, mas com número
muito menor de espécies ("tabuleiro", no sul de Loreto). Enquanto uma contagem de 50
arvores na "chapada" (cerradão regular) dá uma média de 18 espécies, 50 árvores do "ta-
buleiro" dá uma média de 7 ou 8. Pequenas colinas, nesta região, cobertas com pedras pe-
quenas, têm somente uma espécie de planta lenhosa, arbustos de Terminalia argentea
lespécie que é uma árvore típica do cerrado), mais uma ou duas espécies de ervas do cer-
rado. Assim, em raras circunstâncias, trechos naturais que têm que ser incluídos no con-
ceito de cerrado podem ter poucas espécies, mas estas áreas são muito restritas dentro da
ar
ea geral do cerrado de flora rica. A distinção entre a riqueza do cerrado como um todo
e
a pobreza dos campos e savanas não de cerrado como um todo, tem que ser baseada na
diversidade de trechos em uma região grande, Brasil Central, comparada com a diversi-
dade em outra região grande, Amazônia e o norte da América Tropical.

Referências
Ab' Saber, A. N. 1967. Domínios morfoclimáticos e províncias fitogeográficas do Brasil.
Orientação 3: 45-48. Instituto de Geografia, Universidade de São Paulo. São Paulo.
Azevedo, L. G. de, 1966. Tipos eco-fisionômicos de vegetação da região de Januária (Mi-
nas Gerais). Anais Acad. Brasil. Ci. 28 (suplemento): 39-57 + 1 mapa.
7- — 1967. Tropical savanna vegetation of the llanos of Colômbia. Ecology 48: 1-15.
vista Brasil. Geogr. 29: 25-51 + 1 mapa.
"eard, J. S. 1953. The savanna vegetation of northern tropical America. Ecology 25:
127-158.
"lydenstein, J. 1962. La sabana de Trachypogon dei Alto Llano. Bot. Soe. Venez. Ci.
Nat. 23: 139-206.
*- — 1967. Tropical savanna vegetation of the llanos of Colômbia. Ecology 48: 1-15.
Breedlove, D. E. 1973. The phytogeography and vegetation of Chiapas (México). In: A.
Graham, ed., Vegetation and vegetational history of northern Latin America, pág.
149-165. Elsevier Scientific Publishing Co. Amsterdam-London-New York.
— 134 —

Eiten, G. 1963. Habitat flora of Fazenda Campininha. I. In: M. G. Ferri, ed., Simpó-
sio sobre o cerrado, pág. 181-231. Editora Universidade de São Paulo. São Paulo.
Reimpresso, 1971, pp. 155-202. Editora Edgard Blücher Ltda. & Editora Universi-
dade de São Paulo. São Paulo.
— — 1968. Vegetation forms. A classification of stands of vegetation based on structure,
growth form of the components, and vegetative periodicity. Instituto de Botânica,
Boi. 4. São Paulo, iv + 88 pág. Resumo em português.
1972. The cerrado vegetation of Brazil. Bot. Rev. 38(2): 201-341.
Gomez-Pompa, A. 1973. Ecology of the vegetation of Vera Cruz. In: A. Graham, ed.,
Vegetation and vegetational history of northern Latin America, pág. 73-148. Elsevi-
er Scientfic Publishing Co. Amsterdam-London-New York.
Goodland, R. 1966. On the savanna vegetation of Calabozo, Venezuela and Rupununi, Br
Guiana. Boi. Soe. Venez. Ci. Nat. 26: 341-359.
1969. An ecological study of the cerrado vegetation of south central Brazil. Ph.D.
thesis, Botany Dept., Mc Gill University. Montreal.
Heringer, E. P. 1971. Propagação e sucessão de espécies arbóreas do cerrado em função
do fogo, do capim, da capina e de aldrin (inseticida). In: III Simpósio sobre o cer-
rado, pág. 167-179. Editora Edgard Blücher Ltda. & Editora Universidade de São
Paulo. São Paulo.
üldenberger, F. H. F., R. Norde & H. T. Riezbos, 11973]. Ecological investigations
on the vegetation of the Sipaliwini-savanna área (southern Surinam). [Laboratory
of Physical Geography, University of Utrecht. Utrecht.)
Pires, J. M. & J. de S. Rodrigues, 1964. Sobre a flora das caatingas do Rio Negro. Anais
XIII Congr. Soe. Bot. Brasil. Recife.
Porter, D. M. 1973. The vegetation of Panamá: a review. In: Vegetation and vegetational
history of northern Latin America, pág. 167-201. Elsevier Scientific Publishing Co.
Amsterdam-London-New York.
Rodrigues, W. A. 1971. Plantas dos campos do Rio Branco (Território de Roraima). In:
III Simpósio sobre o cerrado, pág. 180-193. Editora Edgard Blücher Ltda. & Edito-
ra Universidade de São Paulo. São Paulo.
Sarmiento, G. & M. Monasterio, 1975. A criticai consideration of the environmental con-
ditions associated with the oceurrence of savanna ecosystems in tropical America. In:
F. B. Golley & E. Medina, ed., Tropical Ecological Systems, pág. 223-250. Sprin-
ger-Verlag Berlin, Heidelberg, New York.
Setzer, J. 1967. Impossibilidade de uso racional do solo no Alto Xingu, Mato Grosso. Re-
vista Brasil. Geogr. 29: 102-109.
Soares, L. de C. 1953. Limites meridionais e orientais da área de ocorrência da floresta
amazônica em território brasileiro. Revista Brasil. Geogr. 15: 3-122.
Sombroek, W. G. 1966. Amazon soils, a reconnaissance of the soilsof the Brazilian Ama-
zon region. Centre for Agricultural Publication and Documentation. Wageningen.
Van Donselaar, J. 1965. An ecological and phytogeographic study of Northern Surinam
savannas. Wentia 14: 1-163 + mapas & tabelas soltas.
— — 1968. Phytogeographic notes on the savanna flora of Southern Surinam (South
América). Acta Bot. Neerl. 17 (5): 393-404.
— — 1969. Observations on savanna vegetation-types in the Guianas. Veeetatio 17:
271-312.
Warming, E. 1892. Lagoa Santa. K. danske vidensk Selsk., 6. Copenhagen.
1908. Lagoa Santa. Tradução em português por A. Lofgren. Imprensa Official do
Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte. Reimpresso, 1973, Editora Universidade
de São Paulo & Livraria Itatiaia Editora. São Paulo.
Whittaker, R. H. 1956. Vegetation of the Great Smoky Mountains. Ecol. Monogr.
26: 1-80.
1973! Direct gradient analysis: Results. In: R. H. Whittaker, ed., Ordination and
classification of communities. Handbook of vegetation science n" 5, pág. 35-51.
1975. Communities and Ecosystems. MacMillan Publishing Co., Inc. New York.
CEDRELA (MELIACEAE): F O R M A S D E C R E S C I M E N T O . T A X O N O M I A — I
Humberto de Souza Barreiros
Pesquisador em Botânica do Jardim Botânico
do Rio de Janeiro
Bolsista do CNPq

A grande variedade morfológica que compõe a diversidade nas plantas, no que se re-
'ere às folhas, flores e aos frutos, se opõe, por assim dizer, à menos pródiga diversidade
que corresponde à sua construtividade estrutural (troncos, ramos e raízes), à sua arquite-
tura, visto que esta obedece a padrões de crescimento simples (monocaulismo, monopodis-
m
o e simpodismo) e misto. Por isto, observa-se como famílias botânicas taxonomicamente
diferentes e pertencentes, por exemplo, a grupos tropicais lenhosos, podem ser representa-
das por única forma arquitetural. Este fato valeu para Hallé e Oldeman, 1970, a propo-
sição de 21 modelos morfogenéticos para plantas lenhosas e herbáceas com status diversos.
O conhecimento da arquitetura das plantas é de grande valor para a Taxonomia
(diagnoses), Fitogeografia, Geobotânica, e t c , e independe, por sua objetividade, do con-
ceito de árvore; mais do que esse conceito e o das formas biológicas conhecidas, a forma
ar
quitetural da planta é plasmada segundo um ritmo de crescimento morfogenético
comandado pelos meristemas edificadores apicais e laterais do sistema caulinar e
radicular; a ortotropia e plagiotropia de troncos, ramos e raízes, a posição da sexualidade,
a
durabilidade de vida, são relevantes para determinar a forma arquitetural, ao invés do
P°rte, hábito, dimensionamento ou estatura.
Com o objetivo de definir a forma arquitetônica de Cedrela desenvolveu-se o atual es-
tudo; propôs-se ainda em próximo trabalho (já iniciado) correlacionar às deformações
c
artesianas e às leis de alometria, outras formas de crescimento de Cedrela, como um meio
de contribuir para elucidações de equívocos taxonômicos. Para o estudo da forma arquite-
tural de Cedrela, recorreu-se ao seguinte:

Material E Método

O material constou de indivíduos adultos, jovens e incipientes de C. odorata, C. an-


gustifoha e C. fissilis, sendo que as plântulas germinadas em cultivo eram das duas pri-
meiras espécies. Os espécimes adultos e jovens foram examinados em excursões em Petró-
P°lis, Tijuca, Horto Florestal da Gávea e Jardim Botânico (Rio de Janeiro) e Cambuí,
Viçosa (Minas Gerais).
Atendendo à viabilidade das pesquisas cujo desempenho requer locais de fácil acesso
Para acompanhar os períodos de observações sobre as fases de crescimento das plantas,
Preferiu-se o Horto Florestal e o Jardim Botânico, sendo que neste último se encontra um
'ndivíduo jovem de C. odorata em plena forma arquitetural (pois é na juvenilidade que a
construtividade estrutural ou a arquitetura das plantas se define).
A preferência por esses locais evitou deslocamentos exaustivos para reanotações,
analises, e neles pôde-se acompanhar melhor as plântulas em cultivo. O método usado, de
ttallé e Oldeman, atualizado de outros botânicos, consistiu em observações, anotações e
es
quemas sobre os comportamentos dos meristemas apicais e laterais em crescimentos,
e
dificadores dos sistemas caulinares e radiculares de C odorata (desde as plântulas), e as
et
apas desses crescimentos já individualizados em unidades morfogenéticas (troncos, ra-
mos e raízes) que compõem ditos sistemas; o modo como se orientaram, e as fases, perío-
dos em que essas unidades se transformaram e sofreram modificações estruturais, a filota-
*'a5 a posição da sexualidade, todo esse processo arquitetônico resultou num esquema
Único representativo da forma arquitetural de C. odorata (indivíduo jovem do Jardim
botânico), ao qual se denominou de:

Modelo Teórico Para CEDRELA (Fig. I, a)

Tronco monopódico de crescimento contínuo indefinido.

fel^Bo, C133) Vol. XXI


»dcj.
anciro 1977
-136 —

Ramos ortótropos defilotaxia helicoidal e estrutura simpodtal.


Inflorescência apical/axilar.
Este modelo é afim do Modelo Teórico III proposto por Hallé e Oldeman, mas
difere do mesmo pela topografia da inflorescência que se localiza axilarmente no ápice dos
ramos férteis que compõem a copa e é plagiótropa por efeito gravitacional; além disto,
não há folha persistente na axila dos ramos adultos como no modelo referente.
As plântulas germinaram com os meristemas apicais dos epicótilos edificando eixos
ortótropos; a lOcm de altura (média nas experiências), os eixos já possuíam as folhas heli-
coidais características; os eixos são então monocaules e prosseguiam verticalmente em rit-
mo de crescimentos com o processo de perda (abscisão) e ganho de folhas, as novas sempre
aparecendo perto do ápice do eixo epicotilar.
Em C. odorata de mais de l m de altura, surgiram os gomos cobertos de quatro esca-
mas que originaram os primeiros ramos; aí então a estrutura do jovem eixo se articula e se
modifica para a simpodial; os ramos cresciam ortotropamente com filotaxia helicoidal,
ambos troncos e ramos com crescimentos intermitentes e indefinidos, isto porque todo esse
processo adormece durante a caducidade foliar. Com o aparecimento das primeiras folhas
nos ramos, o jovem eixo ou tronco perde essa função; há, como diria, Corner, uma "trans-
ferência."
A ramificação de C. odorata, à princípio sugerindo uma réplica do tronco, se organi-
za semelhante a enforquilhamentos sucessivos compostos de artículos ornamentados por
traços foliares, e que vão se reduzindo progressivamente até os extremos da copa, os últi-
mos munidos de folhas; no ápice dos artículos férteis surge a sexualidade.
Todo esse processo de crescimento culmina em C. odorata do Jardim Botânico, indi-
víduo de 15m de altura que se encontra no apogeu da juvenilidade,.e no qual se plasmou
definitivamente a forma arquitetural da planta, a sua construtividade morfogenética edi-
ficada pelos meristemas apicais e laterais. Há de se notar, entretanto, que indivíduos de
C. odorata ou C. angustifolia, com mais de 2m de altura, não acusaram indícios de sexua-
lidade, enquanto um congênere, Metia azedarach de 40cm de altura (não cultivada), j á es-
tá florido; em Melia há uma densidade florífera e de filotaxia muito grande por ramo, em
relação a Cedrela, pois em cada axila de folha há uma inflorescência (o que não acontece
com Cedrela), a qual permanecendo na caducidade foliar, sugere ramos antomorfos; essa
alta produtividade florífera na fase incipiente de Melia, talvez seja uma neotenia.
A copa de C. odorata é hemisférica, de pouca espessura, muito porosa e uni-estratifi-
cada; a panícula é apical/axilar e se inclina gravitacionalmente varando a copa. A
tendência das folhas para se renovarem sempre perto do ápice dos ramos tem a sua
explicação ecológica, o mesmo se dá com a topografia da inflorescência; as folhas
procuram assimilar melhor a radiação solar, não só pela localização, mas pela disposição
helicoidal sobre os ramos; as flores diminutas localizadas no ápice dos artículos férteis dos
extremos da copa, facilitam a entomofilia realizada por abelhas, a anemocoria das
sementes aladas pelo balanço das cápsulas e a ornitocoria pelos cerebídeos. (saíras,
mariquitas).
O sistema radicular de C. odorata compõe-se de um eixo pivotante munido de raízes
secundárias, e que se afunda no solo muito lentamente em relação ao crescimento rápido
do tronco, numa proporção logarítmica, as primeiras raízes secundárias se alongando ho-
rizontalmente, formando o conjunto um T (fig. I).
O modelo proposto para Cedrela P. Br. (fig. I, a) é muito importante para o conheci-
mento de sua forma arquitetural, e é aplicável não só às espécies congêneres, como àque-
las que, embora taxonomicamente diferentes, convergem arquitetonicamente; além disto,
tal modelo é de grande valia não só para Geobotânica, Fitogeografia, como também para
a Taxonomia.

Taxonomia

De acordo com os especialistas que propõem a inclusão das formas arquiteturais nas
— 137 —
diagnoses como complemento, sugere-se a seguinte reformulação para a descrição de
Cedrela:
Arvore com tronco monopódico, ramos ortótropos simpodiais, de filotaxia helicoidal,
copa hemisférica, folhas paripenadas, panícula apical/axilar plagiótropa, flores minutas,
campanuladas, heterostílicas, estames livres, porém adnatos ao ovário, cápsulas septici-
das, sementes aladas.
Nesta descrição se nota (para exemplo de outras) que a mera menção de árvore não é
suficiente, visto que é preciso convir que a natureza e a orientação da estrutura da planta,
são importantes suportes para identificação ou conhecimento da forma construtiva.

Distribuição taxônomica

Meliaceae

C. odorata L., Brasil


C.fissilis Vell., Brasil
C. angustifolia S. & Moc, Brasil, México
C. montaria Turcz., Venezuela, Colômbia
C. lilloi C. De, Peru, Bolívia
C. oaxaensis C. DC. & Rose, México, Panamá

Outras dicotiledôneas arquiteturalmente convergentes.


Abstract
Two themes are proposed, that of architectural forms and that of Cartesian forms, for discussion in 2 series,
naving as support the genus Cedrela, Meliaceae. In the present series the architectural form of this genus is dis-
cussed.
Based on the fact that the architecture of plants defines their structural construtivity, independent of
ar
borescent or suffrutescent habits, the importance of including that form in diagnoses is emphasized as well as
"s appücation in Geobotany and Phytogeography with the advantage of uniting groups architecturally related,
'hough taxonomically different.

BIBLIOGRAFIA

pH^MPAGNAT, P.. 1947 — Les príncipes íéneraux de Ia ramification des végétaux ligneux. RevneHorl., 2143: 335-341.
-nAMPAGNAT. P., 1949 — Ramification à regime rytmiqueet anisophylliechez les végélaux superieurs. Litoa 16: 161-191,
^HAMPAGNAT. P.. 1954 — Recherches sur les rameaux anticipés des végélaux ligneux. Rev. Cytol. elBwl.. 1-51.
LHA.MPAGNAT, P , 1965b — Rameaux courtset rameaux longs: proM-me: physíologiques. Encycl. Planl. Phys., 15, I: 1165-1171.
i:"RNER, E I . H., 1949 — The Durian Theory or the Origin of the Mudern Tree. Ann. Boi., NS., 13,52: 367-414.
CRn E R ' E J H ' 1 9 5 4 — The Evolution of Tropical Forest: Evolution as a Process. Allen & Unwin, London
rm*s QyiST, A., 1970 —The Evolution and Classificationof Flowering Plants. Thomas Nelson & Sons, London.
P^CANDOLLE, C., 1908 — A revision of the Indo-Malayan species of Cedrela. Rec. Boi. Surv. Ind. 3 (4): 357-376.
JíU LLIERMOND, A et MANGENOT, G., 1960 — Précis de Biologie Végétale. Masson et Cie . Paris
"ALLE, F. et OLDEMAN, R. A. A-, 1970 — Essai sur 1'Architecture et Ia Dynamique de Croissance des Arbres Tropicaux. Masson & Cie-,
Par S
HA '
"ARMS, H,, 1940 — Meliaceae in die Naturl. Pflanzen/am. (ed. 2), 19 (bl.): 1-172.
[jí-SLOP-HARRlSON, J , 1967 — Difíerentiation. Ann. Rev. PI. Phys., 18: 325-348
MIí-T!^' ^"' * ^ 2 — As Florestas da América do Sul (trad.) Universidade de Brasília, Polígono S. A. (ed.). Brasil.
t^TCHINSON.J., 1973 — The Families of Flowering Plants, Oxford Ur.Iversity Press, London W
£OZLOWSKI.T.T.. 1964 — Shoot irowth in woodv ülants Boi. «eu. 30:335-392. ., .; . , ,,„ , . „,
'«JRIBA, K, 1958 — On the periodicity of tree-growth in the tropies. with reference to the mode of branching, the leal-lall. and the lormation oi
restingbud. Gdns"BuU., Smgapore. 17, 1: 11-81.
AVARENNE-ALLARY. S., 1965 — Recherches sur Ia croissance des bourgeons de Chène et de quelques autres especes ligneuses. Ann. Sei.
I J " 0 1 - . 22, 1: '-203. Nancy.
MA M A N ' K A ' & JEN1K. j , 1974 — Tropical Foresl and its Environmenl., Longman, London
ASSART, J,, 1923 — Recherches experimentales sur Ia specialisation et 1'orientation des tiges dorsiventrales. Mem. Acait. R. Betg. Cl.
. Sei., 5: 1-55 „^_—_^_^
ÍJENSBRUCE,6., 1966 — Germination et Planlules. C.T.F.T., Nogent-sur-Marne.
^tANTEFOL, L.. 1948 — La théorie de hélices foliaires multiples. Ann. Sei. Nat. Boi., He. série, 7 et 8. Massonet Cie, Paris.
'ETZ.G. E.,1931 Life-forms of terrestrial flowering plants. Acla Phylogeogr. Suecica, 3. Upsala.
JJ2ZINI, C. T., 1971 — Manual de Dendrologia Brasileira, Edgard Blüchér Ltd., São Paulo.
I 2 t . 'J-< 1 8 7 9 — u b c r orthotrope und plagiotrope Pflanzenleíle. Arb. Inst. Würzb., 2,2: 227-284.
JAI.ISBURY FB andPARKE, R V., 1973— Vascular Plants: Form and Function The Maemillan Press Ltd. London
«HNOT, E.W., 1958 —Thegenetic Basisof organic form. Ann. ,V.K. Acad. Sei, 71:1223-1233.
r M 1 T H CE.. 1960 — A revision of Cedrela, FUld. Boi., 2» (5):I-347.
' H I M A N N K v ( e d i , j , , 5 7 _ -J^J physiology of Forest Trees Ronald Press, N.Y
"ARMlIvrj E,, 1909 — Oecology of Plants. An Introduction to thestudy of Plant-Comunities. Oxford.
139 —

, rig. I: a) Modelo teórico para Cedrela, paralelo ao Modelo Teórico III (fig. 45.3) proposto por Hallé e Ol-
man para árvores de ramos diferenciados; b) fase incipiente de C. odorata com eixo do epicótilo monocaule; c)
Parecimento dos ramos e modificação da estrutura eixo/tronco para a monopodial; d) ramo ornamentado de
a
Ç°s foliares; e) ramo folhudo com infiorescência terminal/axilar (Desenhos do autor).
C O N T R I B U I Ç Ã O AO E S T U D O F A R M A C O G N Ó S T I C O D O " M E L Ã O - D E - S Ã O -
C A E T A N O " (M0M0RD1CA CHARANTIA L.)*

Janette Maciel Pacheco


Professor Adjunto e Livre
—Docente da U F F

AGRADECIMENTOS

Aos Professores Titulares Drs. Emílio Diniz da Silva e Jayme Pecegueiro Gomes da
^ruz, da Faculdade de Farmácia da U. F. R J . , que nos iniciou na carreira do magistério.
Ao Professor Adjunto, Dr. Roberto Eduardo Morteo, da Faculdade de Farmácia da
U- F. F. e Dr. Carlos de Castro Pereira Jorge, Farmacêutico do L. U. R. A., pelo auxílio
Prestado na determinação do índice hemolítico.
Aos Pesquisadores Joaquim I. A. Falcão e Cecília Gonçalves Costa, das Seções de
^eobotânica e Sistemática do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que nos orientaram
quanto às partes: Sistemática e Anatômica.
Aos Drs. Karlheinz Guilherme Max Hupe e Paulo Cezar Sander, do Laboratório
Merck", pelo fornecimento de amostras de saponina " M e r c k " .
. Ao Professor Assistente, Dr. Mário Muniz Lannes, da Faculdade de Farmácia da
,*• F., pela presteza no fornecimento de grande parte do material utilizado na parte
química.
A Sra. Warkyria Toews de Oliveira, Bibliotecária, Chefe da Biblioteca da Faculdade
ae
Farmácia da U. F. R J . pela revisão das referências bibliográficas e organização das
tabelas.
Ao Professor Adjunto Dra. Eunice de Carvalho Loureiro Fernandes, da Faculdade
u e Farmácia da U. F. R. J . e Sra. Zaida Tebet Freitas, secretária substituta da Faculdade
üe
Farmácia da U. F. F. pelo auxílio na confecção final do trabalho.
A todos que, direta ou indiretamente contribuíram para realização deste estudo,
° s nossos melhores agradecimentos.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
POSIÇÃO S I S T E M Á T I C A DA ESPÉCIE
2.1 — Família Cucurbitaceae
2.1.1 — Diagnose
2.2 — Gênero Momordica Tourn.
2.2.1 — Diagnose
2-3 — Espécie Momordica charantia L.
2.3.1 —Sinonímia científica
2.3.2 — Diagnose
2.3.3 — Sinonímia vulgar (Brasil e outros países)
2.3.4 — " H a b i t a t " e distribuição geográfica

* Tese apresentada à Faculdade de Farmácia da Universidade Federal Fluminense, para


concorrer ao título de Docente Livre da Disciplina de Farmacognosia. Niterói/1975.

RÍoH Ja , rd B « - d*» Vol.XXI


lodc
Janc,ro 1977
—142 —

3 — ESTUDO ANATÔMICO
3.1 — Material e Métodos
3.2 — Estudo anatômico da folha
3.2.1 — P ó da folha
3.3 — Estudo anatômico do caule de estrutura primária e secundária
3.3.1 — P o d o caule
3.4 — Estudo anatômico da raiz de estrutura primária e secundária
3.4.1 — Pó da raiz
3.5 — Estudo anatômico do fruto
3.5.1 — Pó do fruto
3.6 — Estudo anatômico da semente
3.6.1 — Pó da semente
4 _ - Í N D I C E S " DIAGNÓSTICOS
4.1 — Material e Métodos
4.2 — Índice de estornas
4.3 — Proporção de paliçada
4.4 — Número de ilhotas de nervura
4.5 — Número de ponta de vêríulas
5 — PARTE QUÍMICA
5.1 — Estudo microquímico
5.1.1 — Material e Métodos
5.1.2 — Reações microquímicas
5.1.3 — Microssublimação
5.2 — Pesquisa de alcalóides
5.2.1 — Material e Métodos
5.2.2 — Extração
5.2.3 — Cromatografia
5.3 — Pesquisa de saponina
5.3.1 — "índices" e Microhemólise
5 . 3 . 1 . 1 — Material e Métodos
5.3.1.2 — índice afrosimétrico
5.3.1.3 — índice hemolítico
5.3.1.3.1 — Microhemólise
5.3.1.4 — índice ictiotóxico
5.3.2 — Extração e reações de caracterização
5.3.2.1 — M a t e r i a l e Métodos
5.3.2.2 — Extração de saponina bruta
5.3.2.3 — Reações de coloração
5.3.2.4 — Reações de precipitação
5.3.3 — Purificação e cromatografia
5.3.3.1 — M a t e r i a l e Métodos
5.3.3.2 — Purificação da saponina bruta
5.3.3.3 — Pesquisa cromatografica em camada fina
6 — USOS E U T I L I D A D E S
7 — TOXICIDADE
8 — DISCUSSÃO
9 _ CONCLUSÃO
10 — R E S U M O
11 — BIBLIOGRAFIA
— 143 —

I — INTRODUÇÃO

O território brasileiro, constituído por uma área contínua de pouco mais de


8.500.000 Km2, ocupando quase a metade da América do Sul (47,3%), apresenta uma
Hora das mais ricas e variadas de todo mundo. Apesar de ser um continente novo, mostra-
se como um pais de velhas montanhas, de planaltos cristalinos e rudimentares com exten-
sas planícies, onde vamos encontrar uma variedade de clima, solo e altitude, favorecendo
assim a cultura de espécies vegetais das mais diversificadas.
Atualmente, poucos são os brasileiros que se interessam pelas plantas aqui encontra-
das, ao passo que os estrangeiros com a finalidade de ampliar seus conhecimentos relacio-
nados com a Ciência, formam verdadeiras caravanas, percorrendo nosso território desde
°s Pagos Gaúchos até a Hiléia Amazônica.
Com a finalidade de contribuir para o estudo de plantas tóxicas aclimatadas no
Brasil, tivemos nossa atenção voltada para o melão-de-são-caetano, cujos frutos consti-
lUem
alimento saboroso para as crianças e na medicina popular, principalmente em al-
gumas cidades do interior do Brasil, todo vegetal é empregado no combate a diversos
males.
Considerada por muitos praga, devido a sua grande expansão vegetativa, atrofiado-
r
a das plantas vizinhas, a Momordica charantia L. (Fig. 1), apresenta-se como uma bela
,p
epadeira ornamental, exalando entretanto, odor desagradável, sendo comumente en-
contrada em terrenos cultivados, campos e beiras de estradas.
Espécie introduzida no Brasil pelos escravos ao tempo do tráfico africano c plantada
n
"s Jardins da Capela de São Caetano, nas proximidades da cidade de Mariana, em
Minas Gerais, recebeu o nome do Santo, dado pelos portugueses, que também a chama-
ram melão, devido à semelhança do fruto com um melão em miniatura (Cucumias melo
L-)(51).
Esta tese, longe de representar uma pesquisa-completa e perfeita mostra o resultado
de uni trabalho árduo, feito com boa vontade, dedicação e esforço.
2 _ POSIÇÃO SISTEMÁTICA DA ESPÉCIE

De acordo com a classificação de Engler (64), a espécie em estudo, está situada na se-
guinte posição taxonômica: Divisão Angwspermae, Classe Dicotyledonae, Sub-classe
Metachlamydeae, Ordem Cucurbitales, Família Cucurbitaceae, Gênero Momordica
' ourn., Espécie Momordica charantia L.

2 1 —FAMÍLIA CUCURBITACEAE *
2.1.1 — Diagnose
Plantas dicotiledôneas, escandescentes ou prostradas, de caule cirrífero, com folhas
espiralmente alternas.
Flores monóicas ou dióicas, mais raramente hermafroditas, na maioria regulares.
Piores masculinas com cálice de tubo campanulado ou tubuloso; no ápice com 5 dentes ou
^ lóbulos, mais raramente 3, 4 e 6 lacínios imbricados ou abertos. Corola gamopétala,
eampanulada ou rotada, raro tubulosa, com 5 lobos, mais raramente 3, 4 e 6 lobos, às
v
ezes sub-irregular, com lobos inteiros ou fimbriados, inseridos no tubo do cálice e com êle
alternando as divisões, distintas muito raramente unguiculadas ou mais raramente coe-
rentes; estames livres ou monadelfos, em geral 3, mais raro 5, rarissimo 1, 2 e 4 , dos quais
u
m é unilocular, os outros biloculares; filetes em geral curtos e grossos, livres ou coalecen-
tes em tubo ou coluna; anteras livres, coerentes, «influentes em capítulo, uni ou bilocula-
r
es, raramente quadriloculares, com os lóculos curvos, flexuosos, ou conduplicados, mais
r
aro retos, de deiscência extrorsa; grãos de pólen globosos ou elipsóides, lisos ou murica-
d°s, muitas vezes sulcados; pistilódio glanduliforme ou setiforme, às vezes nulo ou tríme-
r
° . Flores femininas com o tubo do cálice adnato ao ovário, muitas vezes prolongando-se
além do ovário; cálice e corola como na flor masculina. Estaminódios nulos ou 3, raro 2 ou
Diagnose da Flora Brasiliensis de Martius, v.6 (4): 2-4.
— 144 —
5, em geral ligulados, raramente anteríferos; ovário ínfero, em alguns casos um tanto livre
no ápice, na maioria dos casos composto de 3 carpídios trilocular, mais raro uni ou bilo-
cular, excepcionalmente com 4 a 6 lóculos; placentas parietais, carnosas, em geral con-
fluentes no eixo do ovário; estilete terminal, simples ou dividido no ápice, muito raramen-
te 3 estiletes distantes; estigmas grossos, lamelosos, lobados ou fimbriados; óvulos nos
ovários monocárpicos em n a de 1 ou 2 inseridos no ápice ou na base do lóculo, nos ovários
pleiocárpicos, em geral inseridos em placentas laterais na parede do ovário, horizontais,
pêndulos ou ascendentes, mais raramente erectos anátropos desde a base do lóculo, geral-
mente imersos na polpa.
Fruto em geria baga carnosa ou corticosa, indeiscente ou mais raramente deiscente
por meio de valvas ou opérculos, em geral unilocular pela transformação de septos e pla-
centas em polpa. Poucos internamente fibrosos, em geral polispermos.
Sementes em geral complanadas, horizontais, erectas ou pêndulas; testa membra-
nácea; albúmem nulo; embrião com a conformação da semente. Cotilédones foliáceos,
achatados ou plano-convexos, germinação epígea ou raramente hipógea.
Ervas ou mais raramente subarbustos, anuais ou de raiz parene, raramente arbustos.

2.2 — GÊNERO MOMORDICA T O U R N »


2.2.1 — Diagnose
Ervas escandentes ou prostradas, anuais ou com rizomas perenes, glabras ou pilosas.
Folhas inteiras, lobadas, pedadas, com 3 à 7 filíolos; cirros siples ou bífidos.
Flores monóicas ou dióicas, pequenas ou um puoco maiores, amarelas ou mais rara-
mente brancas, pedúnculo com freqüência provido de bráctea ampla. As masculinas
solitárias, corimbosas ou racemosas. Cálice de tubo muito curto, campanulado com duas a
três escamas no fundo; lacínios 5, arredondados, ovais ou lanceolados; corola rotada ou
raramente campanulada, muitas vezes penta partida até próximo a base, mais raramente
com 5 lóbulos. Estames 3, muito raramente 2 ou 5, com filetes breves livres. Anteras a
princípio unidas, depois livres, inteiras, bi ou tripartidas ou lobadas, uma unilocular, as
outras biloculares, com lóculos flexuosos, mais raramente curtos, retos ou curvos, com o
conectivo muitas vezes viloso ou papiloso. Pólem liso, quando seco é evóide, trissulcado,
umedecido é globoso triporoso. Pistilódio nulo ou glanduliforme. As femininas solitárias,
estaminódio nulo ou com 3 glândulas cingindo a base do estilete. Ovário oblongo ou fusi-
forme, com 3 placentas. Estilete gracioso, com 3 estigmas, íntegros ou bífidos. Óvulos nu-
merosos, horizontais.
Fruto oblongo, fusiforme ou cilíndrico, bacáceo, indeiscente ou às vezes com 3 val-
vas, oligo ou polisperma.
Semente túrgida ou complanada, lisa ou variadamente esculpida.

2 3 — MOMORDICA CHARANTIA L.

2.3.1 — Sinonímia Científica *

• Pavel Rheede Hort. Malab. VIII. 19. tab. 10.


Pandi—pavel Rheede 1. C. 17. tab. 9.
Balsamina cucumerina indica fructu majore flavescente Commelyn Hort.
Amstel. I. 103. tab. 54.
Amara indica seu Papan Rump. Herb. Amb. V. 410. tab. 151.
*Diagnoseda Flora Brasiliensisde Martius, v.6 (4): 14-15.
— 145 —

Momordica zeylanica Mill. Dict. n.3


Momordica senegalensis Lam. Encycl. méth. IV. 239; Willd. 1. c. 603;;
Ser. in. D.C. l.c. 311; Asa Gray l.c.
Momordica muricata Willd. l.c. 602 (Non Vellozo).
Momordica operculata Vell. F l . Flum. X. tab. 92 (Non Linn).
Mornordica anthelminthica Schum. et Thonn. P I . Guin. 423.
Momordica roxburghiana Don Gen. Syst. of Gard. III. 35.
Cucumis afncanus Lindl. in Bot. Regist. XII. tab. 980 (Non Linn).
Cucumis intermedius Roem. Syn. monogr. II. 80.

2.3.2 — Descrição *

Planta monóica, de caule herbáceo, escandente, de 1 a 2 metros de altura, gracioso,


famoso, estriado, um tanto pubescente ou tomentoso.
Folhas membranosas, reniformes, sub-orbiculares na face dorsal, pilosas nas nervu-
ras, profundamente 5-7 lobadas, com lobos oval-oblongos, para a base estreitados, denta-
dos ou lobulados, de 5 a 12 cm de largura, na face ventral intensamente verdes, na infe-
r,
or pálidas; cirros simples, graciosos, longos e pubescentes. Peciolo gracioso, sub-glabro
°u viloso.
Flores masculinas com pedúnculos de 5 a 12 cm de comprimento, glabros ou quase
vilosos, com brácteas, levemente pubescente de 5 a 15 mm de largura, reniforme ou
orbicular-cordata, mucronada inteira. Cálice de lobos oval-lanceolados, com 5 nervuras e
°-e 4 a 6 mm de comprimento e 2 a 3 mm de largura. Corola sub-irregular, não muito pe-
quena, amarela, com segmentos obtusos ou emarginados, de 1,5 a 2 cm de comprimento e
° a 12 mm de largura. Estames um tanto aglutinados, com lóculos das anteras bastante
'lexuosos. Flores femininas com pedúculo de 5 a 10 cm de comprimento, em geral brac-
teado na base, na sua metade inferior longo. Estaminódios glanduliformes em número de
3- Estilete curto, trífido no ápice, estigmas em número de 3 bífidos. Ovário fusiforme,
•"ostrado e muricado.
Fruto oblongo, amarelo cor de ouro, tuberculado, com 3 a 15 cm de comprimento,
Coberto com tubérculos dos quais alguns são agudos, outros obtusos, quando maduro no
ápice trivalvo.
Sementes achatadas em ambas as faces esculpidas, de 13 a 16 mm de comprimento e
' a 9 mm de largura.

2.3.3 — Sinonímia Vulgar


Brasil

Melão-de-são-vicente (8); erva-de-são-caetano, erva-de-lavadeira e fruta-de-negro


(51); fruta-de-cobra (5); melãozinho (35); erva-de-são-vicente (9).

Outros países
Países da América do Sul com exceção do Brasil-cundeamor. Jamaica-cerasee (9).
Martinica-pomme-verveille (8). Cuba-cundeamor (9). Porto Rico-manzana-balsámica e
cundeamor silvestre (74). Filipinas-appaclia, palia e pavia (9). Malvinas-faga (9). Gua-
dalupe-pomme-coolis (8). Portugal-balsamina longa (9). Inglaterra-bitter gourd (66) e
c
arilla fruit (9). França-pomme de merveille (87) e sorossi (18). Germânia-wunderapfel
(87). África-negikern (54). Ceilão-karawila, pakal e pava kai (9). India-karela e kareli
Segundo a Flora Brasiliensis de Martius, v. 6 (4): 14-15.
— 146 —
(74). Korilla e pandi-pavel (9). Viêt-nam do Sul- muopdang (9) China-k'ou koa (9) e fu-
qua (87). Japão-tsuru-reishi (87).

2.3.4 — Habitat e distribuição geográfica

Segundo Renato Braga (1960), a espécie Momordica charantia L., é nativa da Ásia
e África tropical, estando aclimatando no Brasil.
Sendo cosmopolita, em nosso pais ela é encontrada principalmente na Bahia, Goiás,
Minas Gerais, Estado do Rio de Janeiro e Guanabara (Kuhimann et. ai. 1947).
Para Juha Morton (1965), esta planta é cultivada em quase todas as regiões tropi-
cais e sub-tropicais.
Planta que nasce nos campos incultos, na beira dos caminhos, nos terrenos de pouca
elevação das Ilhas de Porto Rico, Vieques, Culebra, Santa Cruz, São Tomás, San Juan e
Tortola; comum também nos Estados Unidos da América do Norte, nas Antilhas e em
toda região tropical do novo e Velho Mundo (Luiz T. Díaz, 1936).
Vegetal abundante em quase todas as regiões tropicais do globo; no Brasil é encon-
trada no Estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Bahia; cresce também no Para-
guai, Peru, Venezuela, Guianas, Antilhas, México, África tropicaL Madagascar, índia
Oriental ejava (Cogniaux in Martii, Fl. Bas. 1878).

3 — ESTUDO ANATÔMICO
Muito pouco encontramos com respeito à estrutura da Momordica charantia L. e,
entre os trabalhos consultados, destaca-se o de Winton, L. & B. (1935) e Metcalfe &
Chalk, (1950). O primeiro dando uma descrição para o fruto de melão-de-são-caetano e o
segundo, mencionando os idioblastos contendo incrustações de carbonato de cálcio (cistó-
litos), situados na lâmina foliar.

3.1 — Material e Métodos

Os cortes para exame microscópico, foram feitos a mão livre, com auxílio da navalha
histológica, colocando-se fragmentos da planta fresca (raiz, caule, folha, fruto e semente),
entre medula de embaúba — Cecropia sp. — e de pita — Fourcroya gigantea Engl. — e
em seguida prendendo-os no micrótomo tipo Ranvier.
Como diafanizador, usamos a solução de hipoclorito de sódio a 50%. A maior difi-
culdade por nós encontrada foi na dissociação da epiderme para identificação dos elemen-
tos anatômicos; para tal, utilizamos a mistura de Jeffrey — ácido crômico e ácido nítrico
em partes iguais (19) — e a maceração do Schulze — cristais de clorato de potássio e
ácido nítrico a 10% em partes iguais (19). Na preparação das lâminas empregamos
diversos corantes, entre eles: a tionina, hematoxilina e safranina (coloração simples) e ver-
de de iodo x vermelho do congo (dupla coloração).
. Nas preparações semipermanentes, após diafanização dos cortes pela solução de hi-
poclorito de sódio a 50%, foram os mesmos lavados com água acética e em seguida corados
com solução de verde de iodo à 1 % em álcool a 50%; passados logo depois no álcool a 90%
graus, água, vermelho do congo, água e finalmente montados em gelatina glicerinada
(19).
As epidermes dissociadas, após a lavagem em água destilada, foram coradas pela sa-
franina e montadas em gelatina glicerinada.
As medidas dos elementos microscópicos foram realizadas com auxílio da ocular de
Leitz, após prévio cálculo do coeficiente micrométrico, utilizando para isso, o micrômetro
objetivo Leitz de 0,01 mm.
Em nossas observações, utilizamos o microscópio Elka Wetzlar e Bausch & Lomb
(ocular 10X e objetivas: 6X, 10X e 44X).
Para melhor visualização dos cristais, utilizamos luz polarizada no microscópio.
— 147 —

Tanto as fotomicrografias como a fotografia do vegetal em es"tudo, loram obtidas por


nosso intermédio, utilizando para tal o fotomicroscópio Jena e a máquina fotográfica Lei-
ca.
Para o exame microscópico do pó, cada parte do vegetal (raiz, caule, folha, fruto
e semente)-, depois de seca à temperatura ambiente, foi triturada isoladamente e passada
em um tamis número 80. Cada órgão da planta reduzido a pó, foi separadamente subme-
tido a uma preparação semi-permanente idêntica quando da montagem dos cortes, substi-
tuindo apenas, o hipoclorito de sódio pelo cloral-hidratado.
Os desenhos foram feitos com auxílio da câmara clara Beck Kassel — C B S .

3.2 — Estudo anatômico da folha

Em material dissociado da lâmina foliar, observamos:


Epiderme superior — quando examinada de face (Figs. 2 e 3), apresenta-se consti-
tuída de células com paredes onduladas, mais freqüentemente com 4-5 lados, de formas e
tamanhos variáveis. Notamos aqui, a presença de raros estômatos idênticos aos que ocor-
rem na epiderme inferior; assinalamos a existência de pêlos tectores, pluricelulares, quase
sempre unisseriados e mais raramente bisseriados, cênicos, com membrana estriada, de
tamanhos variáveis, um tanto recurvados e agudos no ápice e em menor número pêlos tec-
tores, apresentando células alargadas no ápice e pêlos estelares (Fig. 4), bem visíveis
quando a planta é reduzida a pó e também pêlos uncinados com estrangulamento perto do
ápice (Planchas 1 e 2). Além dos pêlos tectores, destacam-se os glandulares, pluricelula-
res, de pedicelo longo e curto, cuja cabeça é constituída na maioria das vezes por 2-6 célu-
las nas quais observamos a existência de gotículas de óleo essencial (Fig. 5). Notamos ain-
da a presença de glândulas secretoras em pequeno número, bem visíveis quando examina-
das em secção transversal do limbo (Fig. 8).
Epiderme inferior examinada de face, do mesmo modo que a superior, está constituí-
da de células com paredes onduladas de 4-5 lados, de tamanhos e formas diversas,
menores que as componentes da epiderme superior. Constatamos a presença de numero-
sos estômatos do tipo anomocítico (ranunculáceo), quase sempre solitários, acompanha-
dos por 4-5 células anexas, também aqui, vamos encontrar pêlos tectores e glandulares i-
dênticos aos já descritos para a epiderme superior e como destaque, observamos a presen-
ça de grande número de idioblastos isolados, duplos (na maioria das vezes), triplos ou em
maior número, contendo carbonato de cálcio (cistólitos), situados no tecido lacunoso e que
atingem os limites da epiderme inferior podendo ser observados em preparações de epider-
me dissociada (Fig. 6 e 7).

Limbo
Em secção transversal do limbo (Figs. 8, 9 e 10), na região próxima à nervura me-
diana, observamos:
Epiderme superior — apresentando um único estrato de células poligonais, medindo
em média, internamente, de 30 — 46,2 micros da direção periclínea por 16,8-25,2 micros
na anticlínea sendo revestida por uma cutícula cuja espessura não ultrapassa a 6,3 micros.
Epiderme inferior — é também uniestratificada, com suas células bem menores que
as componentes da epiderme superior, medindo internamente de 12,6-29,4 micros na
direção periclínea por 8,4-16,8 micros na anticlínea. A cutícula apresenta-se menos espes-
sa que a anterior, podendo atingir cerca de 4,2 micros.
Os pêlos tectores e glandulares que ocorrem tanto na epiderme superior como infe-
rior já foram descritos quando do estudo das epidermes dissociadas.
Mesofilo-heterogêneo, assimétrico, apresentando uma única camada de células do
tecido paliçádico, de paredes delgadas, medindo de 29,4-37,8 micros de altura por 12,6-21
micros de largura e por 4-5 camadas de células do tecido lacunoso, constituindo cerca de
2/3 da espessura do mesofilo. Além dos cloroplastos, observamos em todo mesofilo a
Presença de grãos de amido.
— 148 —

Nervura principal
Em secção transversal da nervura principal, observamos da base até o terço médio da
lâmina foliar (Figs. l i e 12), contorno bi-convexo, sendo que esta convexidade é bem
mais acentuada na fase inferior. No ápice ela é côncavo-conexa ou plano-convexa (Figs.
13e 14).
Epiderme superior — uniestratificada, medindo em média internamente de 12,6—
25,2 micros na direção anticlínea por 12,6-16,8 micros na periclínea. As células são reves-
tidas por uma cutícula estriada medindo até 6,3 micros de espessura.
Epiderme inferior — do mesmo modo que a superior, está constituída por um só es-
trato de células, medindo internamente de 8,4-16,8 micros na direção periclínea por 8,4-
12,6 micros na anticlínea. Aqui, a cutícula apresenta-se papilosa, medindo até 8,4 micros
de espessura.
Nas epidermes superior e inferior vamos encontrar os pêlos tectores e glandulares já
descritos anteriormente.
Colênquima — angular, com maior desenvolvimento na região que está voltada para
a face superior e neste caso, apresenta 4-5 estratos de células.
Parênquima — tem desenvolvimento muito discreto, sendo que na região inferior, as
células que apresentam uma forma aproximadamente isodiamétrica, são relativamente
maiores que as componentes da região superior, podendo atingir até 29,4 micros de diâ-
metro. Constatamos também a presença de numerosos cristais de oxalato de cálcio sob for-
ma de drusas e areia cristalina, sendo menos freqüente a forma de prismas.
Na região correspondente ao periciclo, observamos células de parênquima com pe-
queno diâmetro.
O feixe vascular, se apresenta formando um arco aberto, onde vamos encontrar um
liber externo contínuo e abundante, sendo que o interno se restringe a um maciço de célu-
las situado na região central. O câmbio é bem visível em alguns trechos, mostrando 2-3
estratos de células tabulares e o lenho está constituído por numerosas séries radiais de
vasos, separados por meio de estreitos raios medulares, formados por 1-2 séries de elemen-
tos. Cada série radial de vasos, está constituída por 3-4 elementos de metaxilema e 1-2 de
protoxilema. O feixe vascular caracteriza-se pela ausência de elementos fibrosos. Além
desta disposição, em alguns cortes (Figs. 15 e 16), vamos observar que o feixe vascular é
disposto em 2 e 3 porções e neste caso, o central é bem mais desenvolvido e os feixes meno-
res não apresentam liber interno. O câmbio e o lenho, em linhas gerais, apresentam as ca-
racterísticas já mencionadas.
Pecíolo
Em secção transversal do pecíolo (Figs. 17 e 18), observamos:
"Contorno — aproximadamente pentagonal, com duas saliências aliformes na região
superior.
Epiderme superior — apresenta pêlos tectores (variáveis) e glandulares idênticos aos
já descritos anteriormente. Está constituída por uma única fileira de células alongadas
tangencialmente e medindo 37,8 micros na direção periclínea a 16,8 micros, na direção
anticlínea. A cutícula não ultrapassa a 6,3 micros de espessura.
Epiderme inferior — com pêlos tectores e glandulares idênticos aos já mencionados
quando da descrição da lâmina foliar. É uniestratificada e suas células são menores que as
componentes da epiderme superior, apresentando 25,2 micros na direção periclínea e 12,6
na direção anticlínea. Apresenta uma cutícula papilosa com aproximadamente 8,4 micros
de espessura.
Colênquima — angular, apresentando-se contínuo na face inferior e em grupos isola-
dos na face superior, nas regiões correspondentes aos feixes, sendo também encontrado na
extremidade de cada saliência aliforme.
Quase todo órgão é preenchido de parênquima e na região correspondente à medula,
as células são bem maiores, podendo atingir em média 25,2 micros de diâmetro; encontra-
— 149 —

mos também cristais de oxalato de cálcio sob forma de drusas.


Os feixes vasculares, em número de 7-9, estão assim distribuídos: 1-2 colaterais, em
cada saliência aliforme e os restantes, bicolaterais, alguns mais desenvolvidos que outros,
distribuídos em arco pelo parênquima. Nestes feixes destacam-se:
Líber externo e interno — formados por grupos de células de formas e tamanhos va-
riáveis sendo o externo bem mais desenvolvido: nas duas saliências aliformes a região
überiana chega a cercar o feixe quase completamente.
Logo abaixo do liber externo, observamos a formação docâmbio, constituído por 1-2
fileiras de células.
O lenho, de um modo geral, apresenta-se em fileiras radiais e nas duas saliências ali-
formes ele é pouco desenvolvido constituído por 3-4 elementos vasculares sendo 1-2 de
protoxilema e 2-3 de metaxilema. Nos demais feixes o lenho apresenta 4-6 elementos vas-
culares, sendo 1-2 de protoxilema e 3-4 de metaxilema.

3.2.1 — P ó da folha
O pó da folha quando examinado ao microscópio, mostra os seguintes elementos:
(tranchas 1 e 2 ) .
I — Cristais de oxalato de cálcio. 2 — Idioblastos com cistólitos. 3 — Epiderme superior.
4 — Epiderme inferior. 5 — Pêlos tectores em suas diversas formas, incluindo estelares.
° — Pêlos glandulares. 7 — Vasos em espiral. 8 — Fibras. 9 — Traquéia. 10 — Amido.
II — Células do parênquima contendo cristais. 12 — Células pétreas.
3.3 — Estudo anatômico do caule de estrutura primária e secundária
Estrutura primária
Em secção transversal do caule jovem (Figs. 19 e 20), observamos:
Contorno — pentagonal.
Epiderme — apresenta numerosos pêlos tectores (raros estelares) e glandulares idên-
ticos aos já descritos. Está constituída por um estrato de células de forma aproximada-
mente retangular, medindo internamente de 12,6-21 micros na direção periclínea e 8,4—
16,8 micros na direção anticlínea, sendo revestida por uma cutícula estriada.
Colênquima.— angular, situado na região angulosa do caule, mostrando 3-4 estratos
de células de formas e tamanhos variáveis.
Parênquima cortical — formado por 1-3 estratos de células de tamanhos variáveis e
forma aproximadamente isodiamétrica, apresentando pequenos meatos triangulares.
Observamos, também aqui, grãos de amido de forma e tamanhos variáveis, isolados ou
agrupados.
Periciclo fibroso contínuo, com maior número de camadas nos ângulos onde vamos
encontrar de 5-6 estratos e elementos esclerenquimatosos e em alguns assinalamos a
presença de cristais de oxalato de cálcio sob forma de areia cristalina.
Os feixes vasculares situados nos ângulos, em número de 5, estão assim constituídos:
Líber externo e interno — apresentam todos os seus elementos característicos (vasos
crivados, células companheiras e parênquima), sendo que o interno é mais abundante e
junto a êle encontramos uma incipiente formação esclerenquimatosa.
Na região lenhosa, observamos 2 elementos maiores de metaxilema situados lateral-
mente, outros menores ocupando a parte central e próximo ao liber interno, se localizam
os elementos de protoxilema.
Os feixes centrais em número de 4, apresentam-se bem maiores que os angulares e
estão representados por:
Líber externo e interno — com todos os seus elementos, sendo que o externo é mais
desenvolvido, constituído por células de diâmetro apreciável. Notamos que o liber interno
é acompanhado por uma formação esclerenquimatosa que nos feixes mais desenvolvidos,
chega a cercá-lo quase completamente.,
Câmbio — bem mais visível que nos feixes vasculares dos ângulos, mostrando 3-4
camadas de células tabulares.
Lenho — apresenta a mesma disposição dos elementos vasculares encontrados nos
— 150 —

feixes angulares, com o diâmetro dos elementos laterais bem maior, podendo atingir até
63 micros.
Na região correspondente à medula, observa-se a existência de células comuns de pa-
rênquima, medindo as maiores até 45,2 micros de diâmetro.

Estrutura secundária

Em secção transversal, observamos:


Contorno — pentagonal.
Com o início da estrutura secundária, notamos que as células situadas logo abaixo da
epiderme, adquirem atividade meristemática, formando felógeno que desenvolve súber. O
feloderma normalmente desenvolvido, apresenta como característica, logo abaixo do
felógeno, 2-3 fileiras de células de tamanhos variáveis. (Fig. 21).
A região cortical é muito discreta, constituída por células parenquimatosas de tama-
nhos um tanto variáveis. Em cada um dos 5 ângulos, observamos a ocorrência de um feixe
cortical com as seguintes características: forma aproximadamente triangular com o vértice
voltado para a medula; do lado exterior do líber ocorre um arco de fibras esclerenquima-
tosas em 2-4 camadas; líber bem aparente, apresentando todos os seus elementos (vasos
crivosos, células companheiras e parênquima); câmbio, representado por 4-5 estratos de
células e o lenho pouco desenvolvido, formado de 5-6 elementos vasculares isolados, sendo
2-3 de protoxilema e 3-4 de metaxilema. Notamos a presença de grande quantidade de
fibras lenhosas.
Quando à região do cilindro vascular propriamente dita, observamos a ocorrência de
10 feixes de forma aproximadamente triangular, sendo 5 menores situados na direção dos
ângulos e os restantes com os vértices atingindo a região correspondente à medula. Todos
eles apresentam um pequeno maciço de fibras esclerenquimatosas externamente ao pericí-
clo fibroso. Segue-se o líber externo bem evidente com seus elementos constitutivos: vasos
crivados, células companheiras e parênquima liberiano. O câmbio bem rítido, com 5-6
estratos de células tabulares. Lenho bem desenvolvido, mostrando elementos vasculares,
sendo os de metaxilema em maior quantidade e os de protoxilema em pequeno número na
região próxima ao líber interno; apresentam-se acompanhados externamente por um arco
de fibras esclerenquimatosas.
Tanto na região interfascicular como nas proximidades da cortex, encontramos nu-
merosas células pétreas agrupadas ou isoladas; em toda região parenquimatosa destacam-
se os cristais de oxalato de cálcio principalmente sob a forma de prismas, areia e em menor
escala as drusas (Fig. 22).

Distinguimos uma região medular muito discreta formada de células comuns de pa-
rênquima (Fig. 23).

3.3.1 — Pó do caule (Prancha 3).


O pó do caule quando examinado ao microscópio, apresentou os seguintes elemen-
tos: 1 — Cristais de oxalato de cálcio. 2 — Pêlos tectores. 3 — Pêlos glandulares. 4 —
Amido. 5 — Fibras. 6 — Vasos em espiral. 7 — Parênquima longitudinal. 8 — Tra-
quéias. 9 — Células pétreas.
3.4 — Estudo anatômico da raiz de estrutura primária e secundária
Estrutura primária
Em secção transversal (Fig. 24), observamos:
Forma aproximadamente circular
Epiderme — constituída de um estrato de células de forma aproximadamente retan-
gular, medindo internamente 12-21 micros na direção periclínea c 8,2-17 micros na
anticlínea, apresentando numerosos pêlos absorventes de tamanhos variáveis.
Parênquima cortical — com desenvolvimento regular, mostrando células irregula-
res em forma e tamanho.
— 151 —

Endoderme — constituída de uma camada de células típicas com as estrias de


Caspari bem evidentes.
Logo abaixo da endoderme, temos o periciclo formado por 4 maciços fibrosos situa-
dos junto ao líber.
Líber — apresenta-se em 4 grupos, mostrando todos os seus elementos (vasos criva-
dos, células companheiras e parênquima).
Na zona lenhosa destacam-se numerosos elementos vasculares, solitários ou em gru-
pos, podendo os maiores atingir até 45 micros de diâmetro e nesta região as fibras são
abundantes. A raiz é tetrarca evidenciada pelos 4 pólos de protoxilema.
Parênquima medular muito dii~reto.

Estrutura secundária
Em secção transversal (Figs. 25 e 26), observamos:
Forma — aproximadamente circular
Súber — pouco espesso, constituído de células de paredes delgadas, dispostas irregu-
larmente. O felógeno também apresenta pouco desenvolvimento e está representado por
'-2 fileiras de células alongadas na direção periclínea; temos também o feloderma que
apresenta células de forma aproximadamente retangular, dispostas em 3-4 camadas.
Parênquima cortical — pouco desenvolvido, apresentando células de paredes delga-
das, irregulares em forma e tamanho. Vamos encontrar aqui, grupos de células pétreas tí-
picas e de uma maneira geral todo parênquima tanto o cortical como principalmente o in-
terfascicular, apresenta cristais de oxalato de cálcio sob forma de drusas, prismas e areia.
Periciclo fibroso descontínuo, envolvendo toda a região vascular que está distribuída
em 4 maciços de forma aproximadamente triangular, com os vértices voltados para a re-
grâo medular e a base para a zona cortical, estes triângulos estão constituídos em sua qua-
Se
totalidade pelo tecido lenhoso (70-80%) e o restante é preenchido pelo liber e câmbio.
Encontramos apenas o líber externo, que é bem nítido e está representado por vasos
cr
ivados, células companheiras e parênquima.
O câmbio se apresenta bem característico com 3-4 camadas de células.
Na zona lenhosa, destacam-se numerosos elementos vasculares, geralmente solitários
°u mais raramente em grupos de 2, podendo os maiores, atingir até 130 micra de diâme-
tro; os elementos vasculares apresentam pontuações areoladas típicas.
As fibras são abundantes e o parênquima escasso, restringindo-se quase que exclusi-
v
amente à região de separação dos maciços vasculares.

3.4.1 — Pó da raiz (prancha 4).


Quando examinado ao microscópio, o pó da raiz, mostra os seguintes elementos:
' -— Cristais de oxalato de cálcio. 2 — Grãos de amilo. 3 — Traquéia. 4 — Vasos em es-
piral. 5 — Fibras liberianas. 6 — Células pétreas. 7 — Fibras. 8 — Parênquima longi-
tudinal. 9 — Parênquima transversal.

3.5 — Estudo anatômico do fruto


Epiderme dissociada
Quando examinada de face (Figs. 27 e 28), apresenta-se constituída de paredes retas,
Mostrando um contorno predominante poligonal, tendo também tamanhos diversos.
Numerosos estornas foram aqui encontrados, quase sempre solitários, acompanhados por
4-6 células anexas que se dispõem em torno das células guardiães. Apresenta ainda gran-
de quantidade de pêlos tectores e glandulares, quase sempre maiores que os descritos para
tolha e caule.
Observamos em secção transversal do fruto quase maduro 0,5 cm de diâmetro (Fig.
2-'), a seguinte estrutura:
Contorno de um modo geral acompanhando o formato do endocarpo que é aproxi-
madamente poligonal com 8 pontas.
— 152 —

Epicarpo constituído de uma fileira de células de forma quase sempre retangular


com maior diâmetro periclineo,apresentando tamanhosvariáveis;é revestido por uma cu-
tícula delgada, medindo aproximadamente òmwrosde espessura, mostrando também pê-
los tectores e glandulares em geral maiores que os j á descritos para caule e folha (Fig. 30).
Mesocarpo — formado de 10-12 estratos de células parenquimatosas, ricas em clo-
roplastos, quase sempre grandes, arredondadas ou alongadas na direção anticlínea,
aumentando de tamanho à medida que se afastam da epiderme, e em muitas vamos
encontrar cristais de oxalato de cálcio sob forma de areia drusas e prismas.
Logo abaixo do mesocarpo, constatamos a presença de feixes vasculares bicolaterais
e que nos frutos mais desenvolvidos, vem acompanhados por um maciço de fibras escleren-
quimatosas de tamanhos e forma variável, situado próximo ao líber externo.
1 anto o líber externo como o interno, apresentam todos os seus elementos (vasos cri-
vados, células companheiras e parênquima).
Logo abaixo do líber externo, destaca-se o câmbio, formado geralmente por 2-4 es-
tratos de células bem nítidas.
Os vasos lenhosos, podem se apresentar isolados ou em fileiras radiais de 2-3 ele-
mentos de metaxilema com os de protoxilema em menor número, quase sempre isolados.
No endocarpo, as células são grandes, tipicamente parenquimatosas, com contorno
subcircular, apresentando as paredes um leve espessamento; observamos farto conteúdo
de oxalato de cálcio sob forma de drusas e prismas. Vamos encontrar dispersos no endo-
carpo diversos feixes vasculares pequenos, envolvidos por uma bainha parenquimatosa.
Na parte central, percebemos perfeitamente a formação da semente com seu respectivo
embrião (Fig. 31).

3.5.1 — P ó do fruto (Prancha 5).


O pó do fruto, apresenta os seguintes elementos quando examinado ao microscópio:
1 — Cristais de oxalato de cálcio. 2 — Pêlos tectores. 3 — Pêlos glandulares. 4 — Vasos
em espiral. 5 — Grãos de amilo. 6 — Fibras. 7 — Traquéia. 8 — Epiderme. 9 — Célu-
las pétreas. 10 — Células do mesocarpo contendo cristais de oxalato de cálcio.

3.6 — Estudo anatômico de semente


Em secção transversal da semente, na região mediana, notamos a seguinte estrutura:
Episperma — constituído de várias camadas de células irregulares (testa), bem visí-
veis quando a semente é jovem (Fig. 32) e pelo amadurecimento do fruto, esta capa toma
uma coloração vermelha, separando-se facilmente do espermoderma. No episperma
vamos encontrar cristais prismáticos de oxalato de cálcio e numerosos feixes vasculares
pequenos.
Espermoderma — constituído de 4 camadas distintas: 1 — uma epiderme represen-
tada por uma fileira de células de paredes delgadas, alongadas na direção anticlínea,
assemelhando-se às células paliçádicás com o seu comprimento variando na mesma
região, podendo ir de 32-65 micros de comprimento por 15-20 micros de largura, quando
situadas no ápice, base e parte mediana (Fig. 32). Fora dessas 3 posições a epiderme é
constituída de uma fileira de células de paredes delgadas, medindo no máximo 20 micros
de comprimento e até 16,8 micros de largura. 2 — Observamos sob a epiderme uma larga
faixa composta de células pétreas, de paredes espessas, de lume largo, podendo atingir
cada célula até 60 micros de diâmetro. 3 — Uma camada hialina, formada de 4-5ifileiras
de células muito achatadas e alongadas tangencialmente e nessa região observamos peque-
nos feixes vasculares. 4 — Um envólucro formado de 2 camadas de células de forma
tabular, medindo até 18 micros na direção periclínea (Fig. 33).
Endosperma — mostra várias camadas de células de forma aproximadamente poli-
gonal, que envolvem 2 cotiledones (Fig. 34), formado de células menores, dispostas regu-
larmente. No endosperma, notamos a formação de óleo fixo, grãos de aleurona e grão de
amilo.
— 153 —
3.6.1 — Pó da semente (Prancha 6).
Quando examinado ao microscópio o pó da semente apresenta os seguintes elemen-
tos:
1 — Vasos em espiral. 2 — Grãos de amilo. 3 — Cristais de oxalato de cálcio. 4 — Célu-
las em paliçada. 5 — Células do endosperma contendo grãos de aleurona. 6 — Células
pétreas.

4 — ÍNDICES D I A G N ó S T I C O S
Diversos autores, destacando-se Youngken (1951) e Wallis (1966), incluíram em
seus livros métodos para determinação de alguns números-índices como de utilidade na
diagnose de determinadas drogas. Ao investigarmos a bibliografia da Momordica charan-
«a L., nada encontramos a respeito e no desejo de ampliar os conhecimentos relaciona-
dos com a espécie, determinamos os índices de estômatos, proporção de paliçada, núme-
ro de ilhotas de nervura e número de pontas de vênulas.

4.1 — Material e Métodos


Para a determinação do índice de estômatos, utilizamos 5 folhas frescas, de desenvol-
vimento normal e com auxílio de uma tesoura, cortamos no ápice, base, margem (na altu-
ra do meio da folha) e meio caminho (entre a margem e a nervura principal — na região
correspondente ao meio da folha), fragmentos de aproximadamente 1 cm2.
Na dissociação e coloração da epiderme, empregamos o mesmo método já visto no
estudo anatômico da espécie.
Após o preparo das lâminas, efetuamos a contagem dos estômatos e células epidér-
micas, utilizando para isso os diversos fragmentos das folhas e em cada um foi feito conta-
gens em 5 campos desiguais empregando-se para tal o micròmetro ocular de Whipple
UOX) e uma objetiva de 44X.
Na resolução dos cálculos, lançamos mão da fórmula de Salsburg SxlOO -5- (E - S),
em que S é o número de estornas por unidade de área e E é o número de células epidérmi-
cas comuns na mesma unidade de área (79).
Na. proporção de paliçada, foram também usadas 5 folhas frescas de desenvolvimento
normal e com ajuda de uma tesoura, seccionamos a base, ápice, margem (na altura do
meio da folha) e na região compreendida no meio caminho (entre a margem e nervura
PHncipal do meio da folha), fragmentos com cerca de lcm2. O material foi em seguida co-
xeado em tubos de ensaio juntamente com uma solução de cloral hidratado e cuidadosa-
mente aquecidos na chama-piloto de um bico de Bunsen. Quando observamos um desco-
lamento quase que total, lavamos em água e em seguida tratamos por uma solução de ver-
de iodo a 1% por cerca de 1 minuto; lavamos novamente em água e com auxílio de um
Pincel, foram cuidadosamente montados em lâmina com glicerina e com a face superior
junto à laminula. Em seguida foram as lâminas, examinadas em um microscópio Elka
Wetzlar (ocular - 10X e objetiva - 44X); com auxílio de uma câmara clara Beck Kassel
^BS, desenhamos sobre papel 4 células epidérmicas ecom ajuda do parafuso micrométri-
co focalizamos e traçamos as células paliçádicas que se situavam sob os elementos epidér-
micos já mencionados (Fig. 39). As contagens foram feitas considerando somente as célu-
'as paliçádicas cuja maior parte de sua secção estivesse situada dentro da linha delimitada
Pelas células epidérmicas desenhadas. Deste modo foram obtidos resultados de 5
contagens em cada fragmento, tomando-se campos diferentes (Tabela II); tiramos a mé-
dia para cada um e a soma total foi dividida por 4 (49).
Na determinação do Número de ilhotas de nervura, utilizamos o material anterior e
c
°m auxílio de um microscópio Elka Wetzlar (ocular 5X e objetiva 6.1X), de uma lâmina
micrométrica e de uma câmara clara Beck Kassel-CBS, traçamos em papel um retângulo
J^e 2 mm de base por 1 mm de altura. Substituímos em seguida a lâmina micrométrica pe-
' a lâmina com o material em estudo e desenhamos no retângulo acima mencionado, as
Projeções das nervuras (Fig. 40). Tivemos o cuidado de completar as ilhotas quando estas
u
'trapassavam a linha limite da base e do lado direito do retângulo, considerando que são
— 154 —

contadas todas as ilhotas que se completam além das linhas da figura geométrica
mencionada, desprezando-se contudo, as que se formam com porções projetadas na parte
superior e a esquerda. Enpregamos 2 processos: no primeiro seguimos a teoria de
Youngken, onde foram efetuadas 5 contagens em cada fragmento de 5 folhas, correspon-
dendo cada um ao ápice, margem, base e meio caminho. (Tabela III). No segundo proces-
so empregamos a técnica de Levin, (69), quando foram efetuadas contagens em 5 folhas
utilizando apenas o meio da folha, na região compreendida no meio caminho entre a
nervura principal e a margem; neste caso calculamos o número de ilhotas dentro de um
retângulo de 4 mm de base por 1 mm de altura (Tabela III).
Para delimitarmos o número de pontas de vênulas, aproveitamos o material anterior
e efetuamos a contagem de todas as pontas de vênulas encontradas dentro de 2 mm de ba-
se por 1 mm de altura e também em um retângulo de 4 mm de base por 1 mm de altura
(69). (Tabela IV).

4.2 — índice de estômatos


A significação do número de estômatos por unidade de área das folhas foi investigada
por Timmerman ( P h a r m . J . 118.241; 1927); Salsbury, apresentou também sua colabora-
ção, demonstrando que existe uma estreita relação entre o número e estômatos e o
número de células epidérmicas por unidade de área, na superfície das folhas para cada
espécie determinada (88).
Por uma simples análise da Tabela I, observamos que foi encontrada a seguinte mé-
dia final: para estômatos - 11,83; para células epidérmicas - 61,34.
Aplicando a fórmula de Salsbury, encontramos o seguinte índice de estômatos- I =
16,16.

4.3 — Proporção de paliçada


O termo "proporção de paliçada", foi introduzido por dois farmacognostas britâ-
nicos Wallia & Dewar (1933), ao realizarem estudos comparativos e de distinção en-
tre folhas de Barosma betulina (Thumberg) Bartling & Wendland e outras espécies do
mesmo gênero, (69). Consiste em contar o número de células paliçádicas que se encon-
tram sob 4 células epidérmicas superiores e dividi-lo por 4 (88).
Alguns pesquisadores têm calculado a proporção da paliçada em outros vegetais uti-
lizado folhas inteiras ou fragmentadas e já foi verificada, entre drogas, a eficiência do mé-
todo nas diversas partes da superfície da folha (ápice, base, e margem), bem como a
variabilidade da proporção com a idade e diferença de habitat, de folhas (Wallis & Fors
Dike, 1938; George, 1946) (69).
Analisando a Tabela II, por nós efetuada, encontramos o seguinte resultado; média
final - 5,56, resultado das médias: ápice - 5,16; margem - 5, 78; meio caminho - 5,76;
base - 5,58.

4.4 — Número de ilhotas de nervuras


Eames & MacDaniel em 1925, definem ilhotas de nervuras como sendo a menor área
do tecido fotossintético envolvido pela última divisão de feixes condutores.
Segundo Levin (1929), foi Zalenski quem primeiro se interessou pelo estudo da rela-
ção matemática entre a nervação de uma folha e sua superfície. Vemos aparecer alguns
trabalhos sob o ponto de vista farmacognóstico, aonde são empregadas as ilhotas de ner-
vura na identificação de folhas inteiras ou fragmentadas. Youngken (1950), aconselha que
o número de ilhotas de nervuras seja determinado pela média de contagem em tragmentos
do ápice, centro, base e margem da folha; Levin (1929), utiliza o meio da folha na região
compreendida no meio caminho, entre a nervura principal e a margem (69).
Investigando a Tabela III, observamos que foram encontradas as seguintes médias
finais: 10,70 para o primeiro processo e 10,75 para o segundo. Ficou comprovado portan-
to no presente caso, como sendo de 10,70 a 10, 75, o número de Ilhotas de nervuras Ha
planta em estudo.
— 155 —

4.5 — Número de pontas de vênulas


Hall & Melville (1951), empregaram pela primeira vez, a expressão Veinlet termi-
nation number, significando Veinlet termination, a última terminação livre de uma vênu-
la da nervura e como número de terminação de vênulas, o número dessas terminações por
mm2 da superfície da folha (30,69).
Analisando a Tabela IV, observamos que foi encontrada a seguinte média final:
17,43 para o primeiro processo e 18,15 para o segundo. Verificamos portanto que o nú-
mero de pontas por mm2 da folha da planta em estudo é de: 17,43 à 18,15.

5 — PARTE QUÍMICA

Vários pesquisadores têm-se dedicado ao estudo químico desta planta e, dentro de


nossas possibilidades, trazemos um resumo do que já foi mencionado em bibliografia
consultada.
Em 1904, Theodoro Peckolt, isolou das folhas do melão-de-são-caetano uma subs-
tancia cristalina que denominou momordicum, sem cheiro, de sabor amargo, insolúvel
n
o éter de petróleo, álcool e água; pouco solúvel no éter etílico e facilmente solúvel no
clorofórmio. Foi encontrado ainda, pelo mesmo pesquisador: óleo 0,16% de cor pardo—
claro, sem cheiro e sabor; resina elástica 0,11%, pardo escura, transparente, de sabor
ac
re, queimando com chama viva, sem deixar resíduo; resina 0,41 %, pardo escura, trans-
parente, sem cheiro e quando aquecida derrete com cheiro desagradável e queima com
chama fuliginosa, deixando resíduo; ácido de resina 0,135%, parda, sem cheiro, com o
ac
juecimento derrete com cheiro de bacalhau, queima com chama viva, sem deixar resí-
duo; ácido de resina, 1,05%, verde pardo escuro, sem cheiro e sabor, queimando fácil com
odor de peixe, vestígios de cinzas.
Luiz Torres Dias {1936), assinalou nas folhas da Momordica charantia L., a pre-
sença de uma substância de caracter alcaloídico, bem como seus sais em forma cirstalina.
Em 1941, a revista da Flora Medicinal do Rio de Janeiro publicou um trabalho de
Gustavo Peckolt, que conseguiu extrair das folhas do melão-de-são-caetano os seguintes
componentes: 0,16% de substância gordurosa; 0,157% de cera vegetal; 0,17% de um
Princípio amargo (momordi-picrina); 0,008% de um alcalóide cristalino (momordicina);
U,203% de um ácido orgânico particular (ácido momordico); várias resinas, princípio
aromático, clorofila, e t c
No mesmo ano, Gilberto Rivera faz referência a uma fração alcaloídica contendo
provavelmente dois alcalóides, um dos quais seria a momordicina; assinala ainda a pre-
Se
nça de óleo fixo, óleo volátil, caroteno e resina.
Este mesmo autor em 1942, menciona mais duas substâncias na composição da Mo-
^ordica charantia L.: uma glucóside inócua e uma saponina tóxica, fornecendo resulta-
do negativo para o teste hemolítico. Em 1949, Oscar Ribeiro et. ai. constataram a exis-
ter
»cia do ácido orto-ftálico no melão-de-são-caetano. Julia F. Morton, em 1965, assinala
a
Presença, nesta planta, de um alcalóide amargo (momordicina) e que se parece com o
elaterin.

5.1 — E S T U D O M I C R O Q U I M I C O

Realizamos alguns testes microquímicos, visando principalmente, identificar e loca-


lizar, algumas substâncias por ventura existentes nos diversos órgãos do vegetal.

5.1.1 — Material e Métodos


Os cortes destinados às reações microquímicas foram feitos na planta fresca, à mão
llVr
e com auxílio da navalha histológica, utilizando-se a mesma técnica empregada
— 156 —

quando do estudo anatômico da espécie. Aqui, os cortes não foram diafanizados como
anteriormente, e sim, tratados diretamente pelos respectivos reagentes entre lâmina e la-
mínula. Na identificação dos grãos de amüo e das substâncias albuminnid.es, lançamos
mão da solução iodo-iodetada (14). Na pesquisa de taninos, usamos a solução de cloreto
férrico (14). Para alcalóides foi empregado o tradicional método de Errera (14), utiliza-
do até hoje com.êxito, servindo mesmo para diferenciar albuminóides e alcalóides. Inici-
almente, os cortes foram mergulhados em reativo geral de alcalóides, no caso, solução de
íodeto de potássio iodado (Bouchardat) (17), até que não observássemos mais turvação
do reativo em contacto com os cortes; simultaneamente, outros cortes da mesma planta,
foram mergulhados em solução alcoólica a 5% de ácido tartárico, que tem por fim após
curto ou prolongado contacto, dissolver os alcalóides, taninos, e t c , permanecendo entre-
tanto as substâncias albuminóides; levamos ao microscópio as duas preparações, os cor-
tes tratados diretamente pelo reativo geral de alcalóides e os que foram tratados pelo áci-
do tartárico. Pela comparação, verificamos que os cortes da primeira lâmina, apresenta-
ram um precipitado em determinadas células enquanto que os da segunda lâmina se
mostravam bem diferentes. Repetimos o processo, substituindo a solução de iodeto de DO-
tássio iodado pelo iodêto de bismuto e potássio (reagente de Draggendorff) (22) e os resul-
tados foram confirmados.
Quanto aos lipídios, utilizamos uma técnica muito empregada nas Seções de Anato-
mia e Geobotânica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde tratamos os cortes entre
lâmina e lamínula pela solução saturada de hidróxido de potássio mais amônia a 20% e
em seguida deixamos a lâmina em câmara úmida; os lipídios foram evidenciados pela
formação de bastonetes (20).
Os açúcares foram também pesquisados e para tal, empregamos a reação de Molis-
ch: inicialmente tratamos os cortes pela solução alcoólica de naftol, deixamos agir por 3-
5 minutos e pelo bordo da lamínula, adicionamos uma gota de ácido sulfúrico a 20%
(14).
Na pesquisa de resinas, utilizamos: a) solução alcoólica de violeta de anilina e de fuc-
sina em partes iguais, b) Solução aquosa concentrada de acetato de cobre (14).
Para saponinas, escolhemos a reação de Combes, que se apresenta em duas modali-
dades, mas aqui, utilizamos apenas uma, na qual os cortes da planta foram colocados em
pequeno vidro de rolha esmerilhada, contendo uma solução saturada de barita, durante
dois dias; depois, lavamos os cortes com água de cal diversas vezes e tratamos em seguida
pela solução à 10% de dicromato de potássio; passamos em água destilada para eliminar
o excesso de reativo e observamos ao microscópio (14).
Na pesquisa das essências, usamos o Sudam III em solução alcoólica e também a téc-
nica de Mesnard, na qual os cortes foram tratados pelo reativo de Braemer (solução de
aceto tungstato de sódio), em seguida lavados com bastante água, para depois serem ex-
postos aos vapores de ácido clorídrico (14).
Finalmente para identificação do carbonato de cálcio (cistólitos), utilizamos o ácido
sulfúrico diluído à 50% (14).
A planta destinada à microssublimação foi seca à temperatura ambiente, triturada
em moinho e passada num tamis número 80. Sobre um triângulo de porcelana, coloca-
mos um pequeno cadinho metálico contendo alguns miligramas do órgão da planta em
estudo; na parte superior do mesmo, apoiamos uma placa metálica com as mesmas di-
mensões de uma lâmina de microscopia, perfurada na parte central, que serviu de supor-
te para a lâmina destinada a receber o microssublimado. O aquecimento foi feito por me-
io de um micro-bico de Bunsen. Substituímos a lâmina sobre a qual se formou o sublima-
do por uma outra no fim de 1 a 2 minutos; repetimos esta operação até não se formar
mais nenhum sublimado. Imediatamente, examinamos as lâminas ao microscópio e jun-
tamos com auxílio de uma micropipeta, uma gota da solução ide ácido sulfúrico a 50% ou
ácido clorídrico na mesma percentagem.
Em nossas observações, utilizamos microscópio Bausch & Lomb com as seguintes
combinações de lentes: ocular 10X, objetiva lOXeocular 12X, objetiva 44X.
— 157 —

5.1.2 — Reações microquímicas


Foram realizadas reações microquímicas para raiz, caule, folha, fruto e semente da
Momordica charantia L. Efetuamos testes para o amido, substâncias albuminóides, tani-
nos, alcalóides, lipídios, açúcares, resinas, saponinas, essências, e carbonato de cálcio.

Amilo — presente na raiz, na zona do parênquima cortical e parênquima radial. No cau-


le, abundante no parênquima cortical e medula. Na folha, junto com os cloroplastídios
do mesofilo. No fruto, presente no parênquima do mesocarpo (quase junto ao epicarpo) e
n
as células que compõem o endocárpio. Na semente, observamos principalmente na regi-
ão do parênquima, logo abaixo das células pétreas e no endosperma.
Substs. albuminóides — existente na raiz, na região do parênquima cortical e parênqui-
ma do floema. No caule, presente no parênquima cortical e parênquima do floema. Na
folha, em algumas células do parênquima cortical e floema. No fruto, em algumas célu-
las que compõem o mesocarpo e endocarpo. Na semente, na capa que reveste (testa) a se-
mente.
Taninos — na raiz, presente no parênquima cortical, encontrado também em algumas cé-
lulas do parênquima que compõem o floema. No caule, na região do parênquima cortical.
Na folha, negativo. No fruto, nas células do parênquima que compõem o mesocarpo. Na
s
emente, na região do parênquima logo abaixo das células pétreas
Alcalóides — na raiz, em algumas células que compõem o floema. No caule, presente nas
células do floema. Na folha, em algumas células do parênquima cortical, quando junto
ao floema e em algumas células do floema. No fruto, em células do endocarpo. Na semen-
te
: na quarta camada pertencente ao espermoderma.
lipídios — na raiz, caule e folha, na região do parênquima cortical. No fruto, nas células
que compõem o mesocarpo. Na semente, em células do endosperma.
Açúcares — negativo para raiz, caule, folha, fruto e semente.
Resinas — negativo para raiz, caule, folha, fruto e semente.
Saponinas — na raiz, caule e folha, na região do parênquima cortical. Fruto, nas células
que compõem o mesocarpio. Semente, no espermoderma, na região situada sob as células
Pétreas.
Essências — na raiz, negativo. No caule em alguns pêlos glandulares encontrados nos
c
aules primários. Na folha, nas glândulas secretoras e em alguns pêlos glandulares. No
fruto, em alguns pêlos glandulares. Na semente, negativo.
Carbonato de cálcio — presente nos idioblastos, situados no parênquima esponjoso e que
atingem os limites da epiderme inferior.

5.1.3 — Microssublimação
Na microssublimação, tínhamos em mente apenas investigar a formação de possíveis
cristais e ao examinarmos as lâminas contendo o microssublimado da droga (caule do
melão-de-são-caetano), verificamos ao microscópio, que nas mesmas não se encontrava
n
enhuma formação cristalina, entretanto, tentamos mais uma vez a observação dos cris-
tais e juntamos ao microssublimado, solução de ácido sulfurico diluído a 50% e após 2-5
minutos, notamos a formação, em alguns trechos, de agulhas de tamanhos variáveis, iso-
ladas ou agrupadas (Fig. 35). Repetimos o teste e desta vez, substituímos a solução ácida
anteriormente citada, pelo ácido clorídrico diluído a 50% e decorrido o mesmo tempo,
observamos que os cristais mostravam uma forma de prismas, variáveis em tamanhos,
quase sempre isolados (Fig. 36). O mesmo processo, foi utilizado para todos os órgãos do
Ve
getal e os resultados foram idênticos.

5.2 — Pesquisa de alcalóides


De uma maneira geral, um dos assuntos que mais nos interessou, foi a verificação
uos alcalóides existentes nos diversos órgãos do vegetal. Matéria já abordada anterior-
mente por alguns pesquisadores, quando do estudo das folhas da Momordica charantia
— 158 —

L., como Luiz Torres Dias (1936), Gustavo Peckolt (1941) e Gilberto Rivera (1941), este
último, fazendo referência a uma fração alcalóidica encerrando provavelmente dois alca-
lóides.

5.2.1 — Material e Métodos


O vegetal destinado à extração de alcalóides foi convenientemente dividido em par-
tes iguais, para, depois de seco à temperatura ambiente, ser reduzido em moinho a frag-
mentos.
Na extração, empregamos o tradicional método de Castagne (15), onde tratamos
cerca de DÜg de toda planta reduzida a pó, com água acidulada pelo ácido sulfúrico ou
clorídrico. Após aquecimento em banho-maria, filtramos e juntamos hidróxido de sódio
ou potássio; depois de um completo resfriamento, a solução aquosa, límpida, foi transfe-
rida para uma ampola de decantação e lavada duas vezes como clorofórmio. Agitamos
com cuidado para não emulsionar e decorrido algum tempo, decantamos a fração cloro-
fórmica para uma cápsula de porcelana, deixamos evaporar em banho-maria. Reto-
mamos o resíduo pela água acidulada com ácido sulfúrico ou clorídrico e nesta solução
aquosa de sulfato ou cloridrato de alcalóide, foram efetuadas as reações gerais..
Repetimos o mesmo processo de extração para raiz, caule, folha, fruto e semente.
Utilizamos os reagentes de: Draggendorff (22), Mayer (22), Bouchardat (17) e ácidc
pícrico (22).
Para cromatografia, empregamos o extrato purificado da planta inteira. Executamos
a cromatografia em papel e depois em camada fina de sílica gel G. Para os testes iniciais,
incorporamos, por simples imersão, tiras de papel de filtro Whatman N.« 1 (36), com di-
mensões de aproximadamente uma lâmina de microscopia (7,5 X 2,8) no reagente de
Draggendorff modificado por Morais e Palma (reativo de Draggendorff diluído com ace-
tona e água na proporção de 1:30:10) (1). Depois de secos à temperatura ambiente
(23 S C), aplicamos por meio de capilares de vidro, 5 gotas, perfazendo uma mancha de
cerca de 3 mm de diâmetro da solução de sulfato de alcalóide. Após várias fazes móveis,
utilizando diversos eluentes, notamos que o melhor resultado foi nos fornecido pelo buta-
nol-ácido acético-água (6:2:2).
Realizamos experiências cromatográficas em placas de vidro e para tal, preparamos
lâminas de microscopia ao lado de outras maiores (12X6) e 20X5), cobertas com uma
camada de 250 micros de espessura de uma suspensão de Sílica gel G em água destilada
(1:2). Depois de ativadas na estufa a 110»C por uma hora, foi cromatografada a solução
de alcalóide diluída com ácido sulfúrico a 50%. Inicialmente nos pontos de partida foram
aplicadas 5 gotas da solução, mostrando uma mancha com cerca de 3 mm de diâmetro e
após várias fases móveis, utilizando como no teste em papel, vários eluentes, chegamos
também à conclusão que o melhor resultado foi nos dado pelo butanol-ácido acético-água
(6:2:2).
Para determinarmos o ponto de fusão da substância que tentamos identificar, lança-
mos mão da cromatografia em camada fina e em placas de (6X6), foram aplicadas man-
chas contínuas com o extrato purificado, empregando como eluente butanol-ácido acéti-
co-água (6:2:2). Após a corrida, deixamos secar e revelamos o cromatograma com auxílio
da luz ultravioleta; raspamos a sílica na região correspondente ao Rf da substância e
eliminamos a sílica com auxílio do clorofórmio.

O ponto de fusão foi determinado no aparelho de Fischer.


Temperatura do laboratório — 22'C.
Reveladores:
Luz ultravioleta.
Reativo de Draggendorff (22).
Reativo de Draggendorff modificado por Morais e Palma (1).
Reativo de Munier e Macheboeuf (1).
— 159 —

5.2.2 — Extração
ü método de Castagne (15), utilizado para testar todo vegetal, nos forneceu resulta-
dos positivos com os reagentes de Draggendorff, Mayer e Bouchardat; negativo com áci-
do pícrico. O mesmo processo foi empregado para testar separadamente raiz, caule, fo-
lha, fruto e semente e os resultados foram idênticos.
A solução de sulfato de alcalóide, quando examinada ao microscópio entre lâmina e
lamínula, mostrou agulhas de tamanhos variáveis, isoladas ou aglomeradas em alguns
pontos (Fig. 37).
Quando substituímos o sulfato pelo cloridrato de alcalóide, notamos o aparecimento
de cristais sob forma de prismas (Fig. 38).

5.2.3 —Cromatografia
Tentamos por meio cromatográfico, determinar a presença de um ou mais alcalóides
por ventura existentes no vegetal. Após várias experiências utilizando papel Whatmann
n.» 1 e empregando diversos eluentes, optamos pelo butanol-ácido acético-água (6:2:2),
quando apareceu uma mancha bem nítida, circular com um RF 0,62, indicando assim a
positividade do referido teste (Fig. 41).
As experiências realizadas em placas de vidro, mostraram após várias fases móveis
que o melhor resultado foi também nos fornecido pelo butanol-ácido acético-água (6:2:2).
Logo depois do desenvolvimento e secas, exibiram, quando examinadas à luz ultravioleta,
uma mancha circular com fluorescência azul. Borrifada com os reagentes gerais, houve o
aparecimento de uma mancha com um R F 0,63 (Fig. 42).
Na determinação do ponto de fusão, reparamos que os cristais fundiram-se à 1659C.

5.3 — Pesquisa de saponina


Visando principalmente, ampliar os conhecimentos relacionados com a parte quími-
ca do vegetal, efetuamos a pesquisa de saponina, onde vários assuntos de relativa impor-
tância, foram abordados.

5.3.1 — índices e microhemólise


5.3.1.1 — Material e métodos
O vegetal, reservado para pesquisa de saponina, foi preparado de maneira idêntica
ao utilizado para pesquisa de alcalóides.
Para determinação do índice afrosimétrico foram preparados decoctos a 1 % da dro-
ga, conservando-se o líquido neutro por adição de quantidade suficiente de carbonato de
sódio. Em 10 tubos de ensaio de 16mm de diâmetro e 18 cm de altura, com 2 graduações
correspondente respectivamente a 10 cm3 a primeira e lcm linear acima a segunda, colo-
camos diluições crescentes do decocto com água destilada. Obedecemos à seguinte escala
de diluição (Tabela V). Cada tubo foi agitado manualmente no sentido longitudinal, du-
rante 15 segundos. Após 15 minutos de repouso, observamos quais os tubos que apresen-
tavam exatamente camada de espuma de 1 cm3 de altura e calculamos assim a quanti-
dade de substância existente no tubo (3).
Quanto a determinação do índice hemolítico, foi feito primeiramente um extrato da
droga (em soro fisiológico na proporção de 1%), com leve aquecimento em banho-maria
por meia hora. Filtramos em papel e completamos o volume do líquido perdido por
evaporação com água destilada. Neutralizamos cuidadosamente a solução obtida com
carbonato de sódio. Ao lado, preparamos uma suspensão de glóbulos vermelhos lavados
(sangue humano), à 1:50 em soro fisiológico. Trabalhamos com 10 tubos de hemólise,
cada um contendo 2,50cm3 de suspensão de hemácias à 1:50. Acrescentamos em cada
tubo quantidades decrescentes da solução fisiológica e completamos o volume com o extra-
to da droga (Tabela VI).
O conteúdo de cada tubo, foi cuidadosarhente homogeneizado e deixado em repouso
por 24 horas à temperatura do laboratório; procedemos em seguida a verificação da
hemólise (2).
— 160 —

Repetimos o processo já descrito por mais uma vez, substituindo apenas a solução
extrativa da droga que passou a ser de 0,05% em soro fisiológico (Tabelas VII).
Na verificação da microhemólise, uma gota da suspensão sangue-soro fisiológico, foi
colocada em uma lâmina e coberta com uma lamínula. Por capilaridade, introduzimos
uma gota da solução fisiológica da droga (folha) à 1% e 0,05% (preparados quando da
determinação do índice hemolítico). A observação microscópica foi feita com auxílio da
ocular 10X e objetiva 6,3X (84).
Para determinação do índice ictio tóxico, preparamos as diluições da saponina bruta
com água potável, (Tabelas VIII e IX). As soluções saponínicas, num volume de 500 cm3
foram colocadas em Becher de 2.000cm3 de capacidade. Os peixes utilizados foram
guaru-guaru Fam. Cyprinodontídeos, sendo selecionados aqueles de tamanho aproxi-
madamente semelhante, variando entre 2,5 à 2,8cm de comprimento. Todas as diluições
receberam ao mesmo tempo, 10 peixes. O tempo de observação foi de uma hora (62, 81).

5.3.1.2 — índice afrosimétricô


Constatada a presença de saponina em toda planta por meio do indice afrosimétrico
procedemos à verificação deste princípio em partes separadas do vegetal, a fim e nos certi-
ficarmos qual dos órgãos apresentava maior percentagem de saponina. Conforme pode-
mos observar na Tabela V, as folhas da Momordica charantia L., são as que apresentam
maior quantidade deste componente.
Trabalhsmos com decocto a 1% de droga e obtivemos lcm3 de espuma no 3.» tubo,
que contém: (8cm3 do decocto mais 2cm3 de água = 10 cm3); sendo que, 8cm3 de decocto
a 1% corresponde em peso a ü,08g de droga (emT0cm3: lg, em 8cm3: 0,08g). Se 0,Ô8g da
droga em 10cm3 de líquido produziu espuma de lcm3 de altura, lg de droga, para o mes-
mo efeito deverá ser diluída em Xcm3 de líquido.
O índice afrosimétrico da droga em exame é de 125.

5.3.1.3 — índice hemolítico


Mediante os resultados do índice afrosimétrico decidimos analisar as folhas do
melão-de-são-caetano com maior cuidado. Inicialmente partimos para a determinação do
indice hemolítico. Após a técnica e ao investigarmos as Tabelas: VI e VII, verificamos
que a capacidade hemolítica do extrato estudado, é de média intensidade pois, apenas
conseguimos hemólise total a partir de 10 tubo do extrato à 1%.

5.3.1.3.1 — Microhemólise
Com a microhemólise, notamos que no extrato a 1 % após 30 minutos de contacto
sangue-soro fisiológico e solução fisiológica da droga (folha), iniciou-se a hemólise dos
glóbulos vermelhos, principalmente daqueles situados mais próximo aos bordos da lamí-
nula. Repetimos o mesmo processo para o extrato a 0,05% e a hemólise teve início após
50 minutos.

5.3.1.4 — índice ictiotóxico


Na determinação do índice ictiotóxico, consideramos como estado de morte, a total
ausência de motilidade após alguns toques com bastão de vidro (62). O resultado deste
teste, consta na Tabela VIII.
Preparamos iguais diluições para a saponina " M e r c k " e observamos que a mortali-
dade foi de 100% nas 4 diluições menores, de 80% na 5.a diluição e 0% nas demais dilui-
ções (Tabela IX).
Quanto à saponina bruta, foi de 40% nas 2 diluições menores, caindo para 20% na
3.» e 4.» diluição e 0% nas restantes.
— 161 —

5.3.2 — Extração e reações de caracterização


5.3.2.1 — Material e Métodos
Na extração da saponina bruta, empregamos os processos de Tschesche *
Forstmann e o de Rosenthaler, assim esquematizados:

TSCHESQUE- ROSENTHALER
100
F O R S T M A N N lOOg S

Extraído com etanol Extraído com metanol


(Soxhlet)

Concentrado
Concentração no vácuo

Resíduo redissolvido
em água Sifonagem

Agitada a solução a Precipitação com


quosa com éter etíli éter etílico
coeclorofórmio.
O precipitado seco
e
Solução aquosa com Pesado-
etanol - éter etílico

Resíduo seco e psado.

Método de Tsdbesche-Forstmann (53)


No processo de Tschesche-Forstmann, foram macerados lOOg de pó das folhas em
um litro de álcool etílico a 99,5 5 C, durante cerca de 18 horas, tendo sido posteriormente
percolados a frio com mais 2,5 litros do mesmo solvente num fluxo aproximado de 10
gotas por minuto. O extrato etanólico (3.300cm3), de coloração verde intensa, foi concen-
trado em banho de vapor até obter resíduo bastante viscoso e em seguida este extrato foi
seco sob pressão reduzida, quando conseguimos um resíduo de 12g. Uma pequena
amostra deste resíduo agitado com água produziu abundante espuma persistente. A puri-
ficação desse resíduo foi levada a efeito pela sua dissolução em água destilada e
precipitação desta solução pelo éter etílico e em seguida pelo clorofórmio. Centrifugamos,
separamos a solução do precipitado por sifonação e o precipitado formado foi seco sobre
sílica gel em dessecador. O resíduo sólido redissolvido em álcool etílico foi reprecipitado
pelo éter etílico. Surgiu um precipitado sob forma de um pó de coloração amarela que foi
separado por centrifugação e seco sobre sílica gel em dessecador, quando pesou 5,8g.

Método de Rosenthaler (53)


Extraímos lOOg da droga (folha), pelo metanol (1000 cm3), em aparelho de Soxhlet.
A operação teve a duração de alguns dias, sendo interrompida durante as noites. O
extrato metanólico, de cor verde-intensa, foi concentrado no vácuo até 1 / 3 de seu volume
— 162 —

e em seguida adicionado de éter etílico, produzindo intensa precipitação de aspecto


gelatinoso (de cor marron e superfície brilhante), que foi separado por sifonagem e
colocado em cápsula já tarada, após seco em dessecador com sílica gel a vácuo, pesou 5g.
A solução aquosa foi concentrada com bastante cuidado, até redução do seu volume a
aproximadamente 1/3 e novamente tratado pelo éter etílico e o precipitado formado,
depois de seco em dessecador sobre sílica gel e à vácuo, pesou 3g, sendo adicionado ao pri-
meiro. Esta mistura foi dissolvida em 200cm3 de metanol a quente a fim de submetê-la a
nova purificação, precipitando as saponinas com um litro de éter etílico. A precipitação foi
imediata, onde observamos já com pequena quantidade de precipitado, turvação da
solução metanólica. Com o aumento do volume de éter etílico, a mistura adquiriu
precipitado amarelo que se depositou no fundo do recipiente. Decantamos o líquido
sifonando-o. O precipitado seco em dessecador com sílica gel à vácuo, pesou 6,5g.
Repetimos o processo de dissolução em 200cm3 de metanol a quente e precipitando as
saponinas com um litro de éter etílico, resultando após filtração e secagem adequada, um
resíduo que constituiu a saponina bruta, pesando 5,2g.
Observação: durante o processo de extração e purificação, empregamos o éter etílico
desperoxidado.
Para as reações de coloração tratamos: 1) A saponina bruta com lcm 3 de clorofór-
mio saturado de tricloreto de antimônio. 2) Aquecemos alguns miligramos de saponina
bruta com ácido sulfúrico concentrado (62).
Quanto às reações de precipitação, adicionamos a 2cm3 de solução aquosa a 1 % de
saponina: 7 — lcm3 de solução aquosa de acetato neutro de chumbo a 5%. 2 — repetimos
o processo anterior, substituindo o acetato neutro de chumbo pelo acetato básico de
chumbo. 3 — 0,5 cm3 de solução saturada de hidróxido de bário (62).

5.3.2.2 — Extração da saponina bruta


Na extração da saponina, tomamos como ponto de partida os 2 métodos mais utiliza-
dos nesta operação, ou seja: Processos de Tschesche & Forstmann e o de Rosenthaler.
Conseguimos após algumas lavagens do precipitado formado, uma saponina que nos
forneceu ensaio positivo de espuma e quando levada ao aparelho de Fischer, fundiu entre
220*C-225eÇ.
Partindo da saponina obtida no processo de Rosenthaler, efetuamos algumas reações
de caracterização (coloração e precipitação).

5.3.2.3 — Reações de coloração


1 — Ao tratarmos a saponina bruta pela solução clorofórmica saturada de tricloreto
de antimônio, observamos o desenvolvimento de coloração vermelho púrpura após aque-
cimento.
2 — No aquecimento da saponina bruta com ácido sulfúrico, notamos a ocorrência
de coloração vermelho tijolo, passando em seguida a vermelho púrpura intensa (62).

5.3.2.4 — Reações de precipitação


1 — Ao adicionarmos a solução aquosa de saponina, acetato neutro de chumbo,
observamos a formação de um precipitado floculoso branco. 2 — Quando substituímos o
acetato neutro pelo básico, notamos a ocorrência de precipitação com aspecto floculoso
branco, de maior volume que no caso anterior. 3 — Ao tratarmos a solução saponinica
com solução saturada de hidróxido de bário, formou-se um precipitado branco, somente
após algumas horas de contacto (62).

5.3.3 — Purificação e cromatografia


5.3.3.1 — Material e Métodos
Na purificação da saponina bruta, (53) dissolvemos a saponina impura obtida no
— 163 —

processo de Tschesche-Forstmann, à quente no etanol, para que obtivessemos uma


solução saturada. Após resfriamento, adicionamos éter etílico à solução, o que ocasionou
a formação de um precipitado; centrifugamos, separamos a solução por sifonação e o pre-
cipitado formado foi seco em dessecador com sílica gel a vácuo, pesando 5,2g. Repetimos a
sua dissolução a quente no etanol e a lavagem com éter etílico (por mais três vezes). A
substância extraída, muito mais clara, depois de seca em dessecador com sílica gel à
vácuo, apresentou-se com um aspecto de pó branco, pesando 4,6g.
Para saponina, empregamos o método cromatográfico em camada fina.
As placas foram preparadas da mesma maneira quando da extração de alcalóides.
Utilizamos vários eluentes e selecionamos aquele que melhor resultado nos forneceu, isto
é:
Clorofórmio — acetona (99:1)
Reveladores: ultravioleta
Ácido sulfúrico à 50% (d-1,84)
Temperatura do laboratório - 23^0.

5.3.3.2 — Purificação da saponina bruta


Na tentativa de conseguir uma saponina mais pura, lançamos mão daquela obtida no
processo de Tschesche-Forstmann, que apesar de apresentar uma coloração amarela bem
forte, após várias lavagens com éter etílico, nos forneceu um pó branco, dando ensaio po-
sitivo de espuma quando agitada com água e este mesmo pó, quando levado ao aparelho
de ponto de fusão (Fischer), fundiu-se à 225 S C.

5.3.3.3 — Pesquisa cromatográfica em camada fina


Após a purificação da saponina e com o resultado do ponto de fusão, ficou constatado
estarmos em presença de uma substância em bom estado de pureza, entretanto, para
melhor nos certificarmos realizamos ensaios cromatográficos em camada fina. Após a
corrida, utilizando os eluentes já mencionados e secas à temperatura ambiente, as placas
mostraram uma mancha em forma de meia lua, com fluorescência amarela quando
expostas à luz ultravioleta. Borrifadas com ácido sulfúrico, houve o aparecimento de uma
mancha amarelo pálido em Rf - 0,51 (Fig. 43). A placa foi colocada em estufa a 100SC por
5 minutos e notamos que a mancha se intensificou. Prosseguimos o aquecimento por mais
tempo (10 a 20 minutos) e a mancha passou a amarelo-pardacento e em seguida a
pardacento.
Aqui, foi feito uma cromatografia bidimensional, para nos certificarmos se esta man-
cha seria capaz de se desdobrar e após a técnica, percebemos que ela permaneceu inalte-
rável.
Como contra-prova, uma lâmina, após a corrida, e seca à temperatura ambiente, foi
borrifada com ácido sulfúrico e depois aquecida em alta temperatura, dando uma única
mancha de cor negra por carbonização, com Rf igual ao já mencionado anteriormente;
deduzimos daí, só existir uma substância nas placas.

6 — USOS E UTILIDADES E C O N Ô M I C A S

Apesar de não ser reconhecida oficialmente, citaremos, de acordo com os órgãos ve-
getais, alguns empregos populares medicinais, encontrados em levantamento bibliográfi-
co, feito recentemente.
A raiz é adstringente, sendo utilizada no tratamento das hemorróidas (49); purgati-
va em pequenas doses (54). Em Cuba é usada para expulsar os cálculos da bexiga e em
algumas regiões da Venezuela, emprega-se a infusão como medicamento contra a
malária (49).
Õs caules e as folhas são aproveitados em alguns países como febrífugo, anti-reumá-
tico, anti-helmíntico (8), estomáquico (51) e nas menstruações difíceis (61); em Porto Ri-
— 164 —

co e Cuba é de grande valia no tratamento do diabete (49). Externamente, as folhas são


aplicadas contra dores reumáticas, sendo o decocto empregado em irrigações vaginais (8)
e internamente de grande valor no combate à lepra, hemorróidas e a icterícia (74).
As flores são empregadas em infusões para asmáticos (49).
A maceração do fruto maduro é usada no combate as hemorróidas, lepra e icterícia
(74); a polpa tem efeito purgativo e em mistura com sabão até desaparecer sua cor, serve
como emplastro contra panarícios, furúnculos, etc. (54). O suco extraído do fruto, mistu-
rado com partes iguais de óleo de rícino, serve ao povo do interior como anti-helmíntico
(54).
As sementes são consideradas eméticas, purgativas e vermífugas. As vezes, são admi-
nistradas para controlar um excesso de bilrs e a icterícia, sendo também de grande valia
como afrodisíaco (49). Das sementes extrai-se um óleo que serve como estíptico e para
aliviar as dores de ouvido (49).
O suco que se extrai de toda planta é muito empregado principalmente pela popula-
ção de Porto Rico em aplicações externas contra a sarna e outras enfermidades da Dele
H
(74).
Podemos acrescentar ainda, que a Momordica charantia L., apresenta algumas uti-
lidades econômicas exploradas em diversos pontos do globo.
Na Alemanha, Ceilão e índia, o fruto quando verde entra na composição das conser-
vas ou "Pickles"; das sementes extrai-se um óleo usado como cosmético; no Viétenam do
Sul a polpa que as envolve é muito procurada por certas aves silvestres, parecendo
também eficaz no combate ao gogó das aves domésticas (9).
As hastes dão fibras macias para a confecção de colchões e mantas para animais (4),
bem como para a indústria de papel (9).
As ramas verdes são comumente utilizadas junto com o sabão para aumentar o ren-
dimento deste na lavagem de roupas e utensílios domésticos. Tem emprego também no
meio rural para afugentar as pulgas (4). Tanto as folhas como os caules são de grande uti-
lidade para revestir cercas e grades (4).

7 — TOXICIDADE

Gilberto Rivera em 1942, faz menção a alguns ensaios preliminares toxicológicos


para a Momordica charantia L., concluindo que a mesma apresenta uma substância sa-
ponínica, tóxica para peixes dourados (goldfisch); uma glucoside cuja infusão não oferece
toxicidade para coelhos e ratos brancos. O extrato alcoólico da droga, entretanto, mostra
acentuada toxicidade para coelhos e ratos brancos. A autópsia dos coelhos indicou lesões
no fígado e vesícula biliar.
O fruto maduro do melão-de-são-caetano em doses elevadas é um catártico de ação
forte provocando abortos e seu uso na medicina caseira é considerado perigoso (49).
Segundo Descourtil, meia colher de suco do fruto amadurecido, é suficiente para
matar um cão de grande porte em 16 horas depois de um estado violento de vômitos e
diarréias (49). Julia Morton (1965), cita que, em agosto de 1963, um cão ingerindo o.
fruto da planta silvestre que crescia em um pátio na parte noroeste de Miami, ficou
intoxicado, conseguindo recuperar-se após lhe ter sido aplicado um tratamento intensivo.
Nas Filipinas, este vegetal é utilizado em algumas tribus como veneno para flechas e
no Haiti é freqüentemente empregado como inseticida (49).

8 — DISCUSSÃO

A espécie botânica, objeto de nosso estudo (Momordica charantia L.), foi obtida no
Estado do Rio de Janeiro nas localidades de Alcântara, Maricá, Itaboraí, Nova Iguaçu,
Itaipú e Rio Bonito. Após coleta e herborização, toda planta foi submetida ao exame de
identificação sistemática, constatando-se após cuidadosa e minuciosa comparação com o
— 165 —
material existente no herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e também
confrontando com a Flora Brasiliensis de Martius, ser a espécie de Linneu (Fig. 1).
A sinonímia vulgar da Momordica charantia L. é muito variada, mas no Brasil,
principalmente no Estado do Rio de Janeiro, ela é mais conhecida por "melão-de-são—
caetano".
O material e os métodos empregados foram mencionados separadamente por item,
tendo como principal finalidade melhorar a explanação didática da matéria.
Utilizamos apenas preparações de lâminas provisórias e semi-permanentes, visando
principalmente economia de tempo.
Na parte anatômica, procuramos dar descrições com maior número de detalhes. Ao
examinarmos a epiderme inferior dissociada, constatamos logo de início a presença de cé-
lulas uni e pluricelulares, grandes, com incrustações em seu interior que a primeira vista
poder-se-ia pensar em glândulas secretoras, entretanto, após os testes microquímicos, fi-
cou evidenciado a presença nessas células de cistólitos (incrustações de carbonato de cál-
cio), de acordo com Metcalfe & Chalk (1950). Ao realizarmos a identificação da lâmina
foliar, tendo como ponto culminante a nervura mediana, verificamos ser esta constituída
por um, dois ou três feixes vasculares com predominância de um único feixe, fato um tan-
to raro, pois na maioria das vezes, vamos encontrar apenas uma disposição para toda
nervura. Queremos também ressaltar a diversificação do contorno da nervura mediana,
acontecimento também pouco comum e aqui a espécie em apreço, apresenta três formas:
bi-convexa, plano-convexa e côncavo-convexa.
Em secção transversal do caule, tanto em estrutura primária como secundária,
observamos ser esta parte do vegetal que apresenta maior número de cristais de oxalato
de cálcio, principalmente sob forma prismática, mostrando também uma estrutura anô-
mala, pouco encontrada nas diversas espécies da Família. Na raiz, fruto e semente, apa-
recem poucos elementos característicos.
O estudo da planta reduzida a pó, é um dos itens que não podemos deixar de ressal-
tar, notadamente a folha onde logo de início, surgiram os pêlos estelares comuns à Famí-
lia Malvaceae e pouco encontrados em outras Famílias. Para tirarmos possíveis dúvidas,
coletamos o material em diversos pontos do Estado do Rio de Janeiro, tendo-se o cuidado
de apanhar justamente as plantas solitárias, isto é, aquelas que se encontravam afastadas
de qualquer outro vegetal, principalmente espécies pertencentes à Família Malvaceae. Ao
prepararmos as lâminas correspondentes a cada localidade e depois de um minucioso
estudo ao microscópio, notamos que a formação dos pêlos estelares era idêntica em todas
elas.
Na determinação do índice de estornas, algumas dificuldades encontramos em virtu-
de da grande quantidade de idioblastos, situados na epiderme inferior, mascarando um
pouco a contagem dos estornas e células epidérmicas; apesar desses obstáculos, consegui-
mos chegar a um resultado satisfatório.
Quanto à parte microquímica, pouco temos que ressaltar a não ser a presença de
amido na lâmina foliar, notadamente na região do mesofilo o que não ocorre tão facil-
mente nas outras espécies, sendo evidenciado apenas após tratamento com a solução de
lugol.
Na bibliografia consultada, encontramos referências apenas para os alcalóides conti-
dos na folha da Momordica charantia L.; quanto aos outros órgãos do vetetal, nenhuma
citação a respeito foi encontrada. Tentamos assim mesmo, identificar esse princípio, em
outras partes do vegetal visando dar maior continuidade a este estudo. Após os processos
de identificação, ficou comprovada a existência de alcalóide em todos os órgãos da planta
analisada (raiz, caule, folha, fruto e semente).
Alguns pesquisadores, evidenciaram a presença de um alcalóide e que Gustavo Peck-
olt (51) denominou de momordicina, mas Gilberto Rivera (60), faz referência a uma
fração alcaloídica, apresentando talvez 2 alcalóides. Baseando-nos nesta dúvida, tenta-
mos o processo cromatográfico para toda planta como um teste inicial. Primeiramente foi
feita uma cromatografia utilizando o extrato bruto, mas em virtude da quantidade de
manchas quando da revelação das placas pela luz ultravioleta e da predominância da cio-
— 166 —

rolila, resolvemos eliminar este teste e partir para o extrato purificado, onde logo de iní-
cio, constatamos a presença de uma mancha.
Esta espécie (Momordica charantia L.), evidenciou a presença de saponina em todos
os órgãos investigados, sendo portanto um representante da Família "Cucurbitaceae", a
mostrar mais um componente em sua composição. Em testes preliminares, notamos què a
lâmina foliar apresentava uma percentagem um pouco maior de saponinaque no pecíolo,
mesmo assim, utilizamos a folha inteira em razão de ser a diferença pequena. Tentamos
também, calcular o seu grau de toxicidade, delimitando o seu índice ictiotóxico e hemolí-
tico. Na determinação do índice ictiotóxico, utilizam-se peixes de pequeno porte e a ação
tóxica da saponina sobre os mesmos, manifesta-se com cessação de atividade branquial
(10). Saito Takano (62), menciona outros animais aquáticos sensíveis às saponinas como
girinos e helmintos anelídeos. Nosso método, baseou-se na técnica introduzida por
Wasicky (81), onde observamos uma pequena toxicidade para guaru-guaru com as folhas
da Momordica charantia L., em relação com a saponina "Merck", de ação ictiotóxica
forte, conforme o exposto em tabelas anexas.
Na determinação do índice hemolítico, utilizamos a técnica fornecida por Edith Bo-
rio (2), onde foram feitas duas soluções afim de observarmos qual a maior diluição capaz
de nos fornecer um índice hemolítico total.
Encontramos uma série de dificuldades ao tentarmos purificar a saponina bruta
ocasionada por diversas substâncias que mascaram esta técnica, destacando-se principal-
mente a clorofila. Depois de diversas lavagens, conseguimos obter uma substância em es-
tado de pureza à primeira vista aceitável, porém para chegarmos a um resultado satisfa-
tório, efetuamos ensaios cromatográficos, onde em todos os testes observamos a formação
Y
de apenas uma mancha.
Em virtude dos frutos e sementes da Momordica charantia L. serem considerados
purgativos por alguns pesquisadores (54,60), resolvemos testar nos mesmos a presença de
princípios antraquinônicos. Ao efetuarmos a reação de Borntrager, obtivemos resultado
negativo pois, ao adicionarmos amônia à fração benzênica, notamos ausência de colora-
ção rósea ou cereja tão característica desta reação.
Para referências bibliográficas de periódicos, adotamos as normas da Associação
Paulista de Bibliotecários (Grupo de Bibliotecários Biomédicos). Quanto às referências
bibliográficas de livros, seguimos as regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas
(ABNT).
Neste trabalho, objetivamos fazer um estudo mais apurado, entretanto, em virtude
do prazo limitado, acreditamos ser pequena nossa contribuição quanto à pesquisa a que
nos propuzemos. Tendo em vista, a importância farmacognóstica da planta em seus vários
campos de aplicação terapêutica, deixamos aqui, nossa intenção de dar continuidade a
tão palpitante assunto.
9 — CONCLUSÃO

1 — No estudo anatômico feito em diversos órgãos da Momordica charantia L.,


observamos e concluímos que todo vegetal tem características que podem auxiliar na iden-
tificação, em especial o caule e a folha.
2 — No processo de microssublimação, os cristais somente foram evidenciados após
tratamento do microssublimado por uma solução ácida diluída.
3 — Em testes preliminares, ficou comprovada a presença de alcalóide na raiz, caule,
folha, fruto e semente da Momordica charantia L.
4 — Notamos a presença de uma única mancha após a corrida, tanto nas placas
cromatografadas com a solução de sulfato de alcalóide como nas tiras de papel de filtro.
5 — A folha do melão-de-são-caetano, é a parte do vegetal que apresenta maior teor
de saponina.
6 — A capacidade hemolítica do extrato da planta em estudo, é de média intensidade.
7 — No teste ictiotóxico, ficou comprovado que a saponina bruta, extraída das fo-
lhas da Momordica charantia L., apresenta uma mortalidade para os peixes denomina-
— 167 —

dos popularmente guaru, bem menor que a saponina "Merck".


8 — Constatamos a presença de apenas uma mancha após a corrida, nas placas cro-
matografadas com a saponina purificada.

10 — R E S U M O

Uma contribuição para o conhecimento farmacognóstico da "Momordica charantia


L-, mais conhecida popularmente por "melão-de-são-caetano", é aqui apresentada.
Depois de uma pequena introdução, damos a diagnose para a família Cucurbitaceae, bem
como para o gênero e espécie em estudo. As sinonímias (científica e vulgar), da espécie
não poderiam ficar esquecidas como também o habitat e distribuição geográfica.
Iniciamos a parte experimental, descrevendo com detalhes a estrutura anatômica da fo-
lha, caule, raiz, fruto e semente, onde o exame microscópico do pó de cada órgão se fez
necessário. Determinamos o índice de estornas (I = 16,16); proporção de paliçada (5,56);
número de ilhotas de nervuras (10,70 - 10,75) e número de pontas de vênulas (17,43 -
18,15). No estudo microquímico de cada órgão do melão-de-são-caetano (raiz, caule,
folha, fruto e semente), testamos amido, substâncias albuminóides, taninos, alcalóides, li-
pídios, açúcares, resinas, saponinas, essências e carbonato de cálcio; em quase todos os
testes, conseguimos resultados positivos com exceção dos açúcares e resinas (ausentes em
todos os órgãos pesquisados); taninos (nas folhas) e essências (nas sementes). Passamos
em seguida à microsublimação, onde só conseguimos resultado satisfatório, após trata-
mento do microssublimado por solução ácida diluída. Efetuamos a pesquisa de alcalóides
com resultado positivo para todos os órgãos da planta analisados; também aqui execu-
tamos o processo cromatográfico sobre papel e em camada fina, constatando-se após vá-
rias corridas a presença de uma única mancha com Rf = 0,63 e esta mesma substância
quando levada ao ponto de fusão, fundiu-se a 165 S C. A pesquisa de saponina foi aqui
efetuada, onde foram abordados vários assuntos como índice afrosimétrico, mostrando
um resultado igual a 125. Com o índice hemolítico conseguimos observar a capacidade
hemolítica do extrato a 1%, que é de média intensidade. Na microhemólise, notamos o
início da hemólise dos glóbulos vermelhos após 30 minutos de contacto das hemácias com
a substância em estudo. No índice ictiotóxico, constatamos que a mortalidade para os
peixes guaru, foi bem menor na saponina bruta extraída das folhas do melão-de-são-
caetano em comparação com a saponina "Merck". Extraímos a saponina bruta utilizan-
do 2 processos: Tschesche & Forstmann e o de Rosenthaler. Realizamos também reações
de coloração e precipitação e em todas conseguimos resultado positivo. Tentamos a puri-
ficação da saponina bruta quando conseguimos após várias lavagens, um pó branco
fundindo-se a 225»C. Terminamos a parte experimental, efetuando a cromatografia em
camada fina, e após várias corridas constatamos a presença de uma única mancha com
um Rf = 0,51. Citamos em seguida alguns empregos populares para o melão-de-são-cae-
tano, bem como algumas utilidades econômicas do mesmo, exploradas em vários pontos
do globo. Finalmente mencionamos alguns efeitos toxicológicos para a planta em estudo.
— 168 —

11 —BIBLIOGRAFIA
1 — BÕRIO, E. B. L. Lobelia langeana Dusén, Contribuição ao seu estudo farmacognóstico. Curitiba, 1959. 86p. (Tese para concurso à Docência
Livre da Cadeira de Farmacognosía, da Faculdade de Farmácia da Universidade do Paraná — mimiografada).
2 & YASSUMOTO, Y. Controle biológico. Curitiba, Dir. Acad. Louis Pasteur, 1970, v.3, p.61-3. (mimiografada).
3 &CECY. C. Farmacognosía. Curitiba. Dir. Acad. Louis Pasteur, 1970, v.l, p. 75-6. (mimiografada).
4 — BRAGA, R. Plantas do nordeste, especialmente do Ceará. 2. ed. Ceará, Imp. oficial, 1960. 540p., p.368.
5 —CARVALHO, A. R. de. A cura petas plantas. 3ed. São Paulo, Ed. Franciscana, 1972. 359p, p.264.
6 — CHAKRAVARTY, H. L. Physiological anatomy ofthe leaves of Cucurbitaceae. Philipp. J. Sei, 63 (4)- 409-31 1937
7 — COGNIAUX, A. Cucurbitaceae M Martn. Flora Brasütensis, Leipzig, Fleischer incomm. 1978. v.6 (2) p 2-126
8 — COIMBRA, R. & SILVA, E. D. da. Notas defitoterapta. 2.ed. Riodejaneiro, Lab. cl. Silva Araújo, 1958. 429p., p.264-5.
9 — CORRÊA, M. P. Dicionário das plantas úteis do Brasil. Riodejaneiro, Inst. Brás de Dcsenv Florestal,1974. v.5, p. 186-9. (No prelo).
10 — COSTA, A. F. Farmacognosía. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1967. v.2, p.311-417.
11 — COSTA, O. de A. Bibliografia sobre plantas medicinais brasileiras. Anais da Fac. Nac. de Farm., 8 (15-17) 275-6 1963-5
12 Contribuição a pesquisa das saponinas. Rev. da Soe. Brás. Chim., 2(10): 476-84, 1931.
13 — CRUZ.J. P. G. da. Farmacognosía. Rev. da Flora Medicinal, 17 (8-9): 207-15, 1950.
14 . Farmacognosía. Rev. da Flora Medicinal, 17 (10-12): 236-50, 1950.
15 . Farmacognosía. Rev. da Flora Medicinal, 18 (1-3): 5-26, 1951.
16 — DEBBERMAN, P. M. Some observations on the anchoring pads of Gymnopetalum cochmchinense Kurtz and some other Cucurbitaceous
plants./. Indian. Bot. Soe, 3: 52-7, 1922.
17 — DENIGÈS, G. et. ai. Précis de chimie analytique. 6. ed. Paris, Médicales Norbert Maloíne, 1930 v 1 p 60
18 — DESCOURTILZ, M. E. Florepittoresque et medicale des Antitles. Paris, Crosnier, 1829. v.8, p. 355-60.
19 — DOP, P. &GAUTIÉ, A. Manuel de techntque Botamque, histologie e mtcrobie végétales. 2. ed. Paris, J. Lamarre, 1928. 594 p.
20 — EAMES, A. J. & MAC DANIELS, L. H. An mlroduction toptantana tomy. 1. ed. New York, M CGraw-Hill Book 1925 364 D
21 — ESAU, K. Anatomia vegetal, trad. de José Pons Roseli, 2. ed. Barcelona, Ed. Omega, 1959. 729 p.
22 — FARMACOPÊIA dos Estados Unidos do Brasil 2. ed. São Paulo, Ind. Graf. Siqueira, 1959. v.2, p. 1106-10.
23 — FERENCS, G. Informações sobre novos métodos de extração de alcalódes. Trib. Farmacêutica 34 (2)- 41-54 1966
2 4 — FONT QUER, P. Dicionário de Botânica. Barcelona, Ed. Labor, 1965. 1244 p.
25 — FREISE, F. W. Plantas medicinais brasileiras. São Paulo, Secr. da Agricult. Ind. eCom. do Estado de São Paulo, 1934. 245 p., p. 162.
26 — GHOSH, E. The microstrueture of the stem of Bengal Cucurbitaceae with reference to its value in taxonomy. /. Indian Bot.Soc, 2: 259-70,
27 — GUNDERSEN, A. Families of Dicotyledons. New York, Frans Verdoorn, 1950. v. 15, p. 84-6.
28 — CUPTA S_ S. & SETH, C. B. Effect of Momordica charantia Linn. (Karela) on glucose tolerance in albino rats. / Indian M. A., 39 (11):
29 — HABÉRLANDT, G. Physiologicalplant anatomy. London, Macmillan, 1928. 777 p.
30 — HALL, J. P. & MELVILLE, C. Veinlet termination number a new character for the differentiation of leaves / of Pharm and Pharmacol
3 (2): 934-41, 1951. J- J •
31 — HENRY, T. A. The plant alkaloids. 4. ed. London.J. & A. Churchill, 1949. 804 p., p. 781.
32 — HOEHNE, F. C. O Jardim Botânico de São Paulo. Secr. da Agric. Ind. e Com. de São Paulo, 1941. 656 p., p. 607-8.
33 . Plantas e substâncias vegetais tóxicas e medicinais. São Paulo, Graphicar, 1939. 365 p., p. 290-92
34 — HUTCHINSON.J. & DALZIEL, J. M. Flora o/west tropical A/nca. London, WhitefriarsPress, 1954. v. 1, p. 204-13.
35 —JOLY, A. B. Botânica; introdução à taxonomia vegetal. São Paulo, Comp. Ed. Nacional, 1966. p. 406-10.
36 —JORGE NETO, J. & MANCINI, B. Desenvolvimento de um método rápido para a pesquisa de alcalóides. Rev. Fac Farm Odont Araraaua- H
ra, 2(1): 29-35, 1968.
37 — KERÀUDREN, M. Thegenus Momordica (Cucurbitaceae) in western equatorial África. Adansonia, 7: 185-98, 1967.
38 — KUHLMANN.J. G. et. ai. Contribuição ao estudo das plantas ruderais do Brasil. Arq. do Jardim Bot. do Rio de janeiro 7 132-3 1947
39 — LANGERON, M. Précis de microscopie. Paris, Masson Ed., 1913.751 p.,p. 279-80.
40 — LEDERER, E. & LEDERER, M. Chromatograph\. Transi, from the original French text by A. T. James. 2. ed London Elsevier Publis-
hingl957.711p.
41 — LEMÊE, A. Flore de Ia Guyane Française. Paris. Ed. Paul Lechevalier, 1956. v. 4, p. 111.
42 — LEVIN, F. A. The taxonomic value ofveinislet áreas. Qyartely Journ. of Pharm. and Pharmacol., 2(1): 17-43, 1929.
43 — LIBERALLl, C. H. & AISIC, C. Sobre a composição alcaloídica da trombeteira branca, Datura suaveolens Humb. et Bompl. Identificação
dos alcalóides. Anais da Fac. de Farm. e Odont.. da Univ. de São Paulo, 8: 67-80, 1955.
44 _ MANSFIELD, W. Mtcroscopic Pharmacognosy. New York, John Wilev, 1929 211 p.
45 — MENEZES, A. I. de. Flora da Bahia. São Paulo, Comp. Ed. Nacional, 1949. 265 p., p. 142.
46 —MERCK Index Of Chemicals and drugs. 7. ed. New Jersey, Merck, 1960. 1642 p., p. 688.
47 — METCALFE, C. R. &CHALK, L. Anatomy of the Dicotyledons. Oxford, Clarendon Press, 1950. v. 1, p. 684-91.
48 — MORAES, E. de C. F. 8t PALMA, E. T. M. A cromatografia em papel aplicada à química toxicológica. Separação e identificação de alcalói-
des e substâncias afins. Anais da Fac. de Far. e Odont. da Unw. de São Paulo, 12: 149-61, 1954.
49 — MORTON, J. F. El Cundeamor (Momordica charantia Linn>; planta comestíble medicinal y tóxica. Rev. de Ia Fac de Farm de Ia Univ
Centralde Venezuela, 6 (14): 63-6,1965.
50 — OSOL, A. & FARRAR, G. E. The dispensatory of the United State of Amenca. 24 ed. Philadelphia, J. B. Líppincott, 1947. 1928 p p 1524
51 — PECKOLT, G. As cucurbitaceas medicinais brasileiras. Rev. da Flora Medicinal. 5(11): 393-421, 1941.
52 . O valor dos antihelminticos brasileiros. Rev. da Flora medicinal, 9 (7): 333-379, 1942.
53 — PECKOLT, O. de L. et. ai. Estudo farmacognóstico da "Dictidanlhera launfolta" Martius. Rev. Brás de Farm 52 (1) 1-13 1971
54 — PECKOLT, T. Momordica charantia L. Rev. da Flora Medicinal, 3 (4): 203-7, 1937.
55 — PELLISIER, F. Sur Ia differenciation vasculairedans lesfeuillesde Cucurbttapepo. Buli. Soe. Bot. Fr., 86 0-4): 187-90, 1939.
56 — POLÔNIA, M. A. & POLÔNIA J. Cromatografia contínua em camada delgada. Anais da Fac. Farm. do Porto., 29: 45-59, 1969.
57 — PORTNOY, E. O Reconhecimento de alcalóides por microcristalización. Rev. Quimtco-Farmacêutica, (35): 21-4 1945
58 — POSSOLO, H. & FERREIRA, C. Saponinas e outros compostos interessantes na Família das Ftacourtiaceoe. Anau da Fac. de Farm. e
Odont. da Unw. de São Paulo., 1: 377-85, 1949.
59 — RIBEIRO, O et. ai. Ocorrência do ácido ortoftálico no melão-de-são-caetano (Momordica charantia L.) Boi do Inst de Outm Apric Í14V
5
7-13,1949. * " '"
60 — RIVERA, G. Preliminary chemical and pharmacological studies on "Cundeamor", Momordica charantia L Amer f Pharm 114 (3pt 2)-
72-87,1942.
61 — RODRIGUES, J. B.Hortusfluminensts. Riodejaneiro, Leuzinger, 1893. 302 p., p. 191.
62 —SAITO, T. Estudo farmacognóstico da folha de "Sciadodendron excelsum" Griseb; pesquisa de princípios ativos Rev Brás de Farm 54
(3): 125-37,1973.
63 SAN MARTIN CASAMADA, R. Farmacognosía con Farmacodmamia. Barcelona. Ed. Cienütico-Medica, ]yó8. 1148 p., JJJ-51,
64 — SCHULTZ, A. R. Introdução ao estudo da Botânica Sistemática. 3. ed. Porto Alegre, Ed. Globo, 1963. v. 2, p. 317-21.
65 — SHARMA, G. C. Relative attractance of spotted cucumber beetle to fruits of fiflcen species of Cucurbitaceae. Environ. Entomol 2' 154-56
1973.
66 — SHARMA, V. N. et. ai. Some observation on hypoglycaemic activity of Momordica charantia L. Ind. Jour. Med. Res., 48 (4):471-7, 1960.
67 — SILVA, R. A. D. da. Pharmacopéia dos Estados Unidos do Brasil. 1. ed. São Paulo, Comp. Ed. Nacional, 1926. 1149 p.
68 — SIQUEIRA-JACCOUD. R. J. de. Contribuição para o estudo farmacognóstico do Ageratum conyzoides L. Rev. Brás. de Farm., 42 (11-12):
177-97,1961.
69 Contribuição ao estudo farmacognóMico do Solanum cernuum Vellozo. São Paulo, 1963. 56 p. ( Tese apresentada à Faculdade Nacional de
Farmácia da Universidade do Brasil para concurso de Livre Docente da Cadeira de Farmacognosía mimiografada].
70 — SOUZA, A. H. de. Sobre a ocorrênica de espumíferos tóxicos (saponinas), em bebidas. Rev. Brás. de Farm., 44 (2): 19-34, 1963.
71 — STAHL, E. Thin-layer chromatngraphy, translated by M. R. F. Ash Wonh. 2. ed. New York, Springer-Verlag, 1969. 1041 p.
— 169 —
'2 — STANT, M. Y. Periearpial diversity in Caesalpima pods used as tanning material. Botanical Journ. oj the Lmnean Society., 65 (3): 313-34,

Jl — TOLEDO, "~* T - -A- N. - de.


- - Estudo - farmacognòstico
- 1948-9.
da Cássia atata L. Anais da Fac. de Farm. e Odont da Uniu. de São Paulo, 7. 105-13, 19'
I OKKfcS U1AZ, L. A preliminary study oi an alkaloid-like material obtained from Cundeamor or Momordica c/iaraníia L í bubl f/>
F
andtrop. Med, 812-22, 1936.
a *ELLEZ-SALAS, F. Algo mas acerca dei cundeamor, planta antimalárica. Rei: Farmacêutica, 57(12): 512-14, 1944.
'° — VELLOSO, J M A. C. Flora fluminensis. Paris, A. Senefelder, 1827.
77 v 1 0 ' I a b ' ' 2 , n A r c n i v o s d o M"seu Nacional. A. de V. & Souza, FlumineJanuário, 1881. 467 p., p. 47.
7„ VOHORA, S. B. Medicinal, uses of common indian vegetables (Momordíca charanlia L.J. Rev. Planta medica. 23 (4), 1973.
79 ~~ w ° N I H E R I N G > R Dicionário dos animais do Brasil. I. ed. São Paulo, Dir. de Publ. agric. 1940. 898 p., p. 378.
8n WALLIS, T. E. Manual de Farmacognosia, Trad. por Maria Teresa Toral. 1. ed. México, Comp. Ed. Continental, 1966. 700 p., p. 138-44.
WASICKY, R, I. et. ai. Um novo método de dosagem das saponinas, utilizando a inibição do seu poder espumante. Anais da Fac. de Farm.
1
e OdonL da Unw. de São Paulo, 4: 230-74. 1944-45.
— & FERREIRA, C. As saponinas da raiz de BredemeyeraflonbundaWilld-, Droga da Medicina popular brasileira, ^wtií da Fac. de Farm.
e Odonl. da Univ. de São Paulo, 7: 341-50, 1948-49.
WASICKY, R. O. Nova aplicação da cromatografia em papel como meio adicional para caracterizar substâncias das farmacopéias e outros
compostos. Anais da Fac. de Farm. e Odonl. da Uniu. de São Paulo. 77. 33-44, 1960.
»3 _ WATT, J. M. & BREYER-BRANDWIJK, G. M. The medicinal and poisonous planls oj southem and eastern África. 2. ed. London.
E. &S Livingstone, 1962. 1457 p., 363-4.
«4 _ WATTIEZ, N. & STERNON, F. Èléments dechimie uegélale. Paris, Masson, 1935. 729 p., p. 396-416.
WEIGERT, E. & SCHORN, P. J. Cromatografia de saponinas e substâncias amargas pelo método de camada fina. Trtb. Farmacêutica. 30
(7-8): 48-9, 1962.
o% yy.KX^M %• el - ai. The ami-erowth Drooerties of extracts from Momordíca charanlia L. West Indian. Med. /.: 20: 25-35. 1971
87 — WINTON, AL. 4 WINTON, K.B. Stnicture and composition ojfoods. New York, John Wiúry, 1935, v. 2, p. 465-6.
88 — YOUNGKEN, H. W. Tratado de Farmacognosia. Trad. por Francisco Girai 1. ed "México. Ed. Atlante. 1951. 1375 p., p. 1288-92.
— 171 —
PRANCHA 1

Pó da folha: 1 — Cristais de oxalato de cálcio. 2 — Idioblastos com cistólitos. 3 — Epi-


derme superior. 4 — Epiderme inferior. 5 — Pêlos tectores em suas diversas formas.
— 173 —
PRANCHA 2

Sof

Pó da folha: 5 — Pêlos tectores estelares. 6 — Pêlos glândulares. 7 — Vasos em espiral. 8


— Fibras. 9 — Traquéia. 10 — Amido. 11 — Células do parênquima contendo cristais.
12 — Células pétreas.
— 175 —

PRANCHA 3

Pó do caule: 1 — Cristais de oxalato de cálcio. 2 — Pêlos tectores. 3 — Pêlos glândulares.


4 — Amido. 5 — Fibras. 6 — Vasos em espiral. 7 — Parênquima longitudinal. 8 — Tra-
quéia. 9 — Células pétreas.
— 177 —

PRANCHA 4

Pó da raiz: 1 — Cristais de oxalato de cálcio. 2 — Grãos de amido. 3 — Traquéia. 4 —


Vasos em espiral. 5 — Fibras liberianas. 6 — Células pétreas. 7 — Fibras. 8 — Parên-
quima longitudinal. 9 — Parênquima transversal.
— 179 —

PRANCHA 5

Pó do fruto: 1 — Cristais de oxalato de cálcio. 2 — Pêlos tectores. 3 — Pêlos glândulares.


4 — Vasos em espiral. 5 — Grãos de amido. 6 — Fibras. 7 — Traquéia. 8 — Epiderme.
9 — Células pétreas. 10 — Células do mesocarpo contendo cristais de oxalato de cálcio.
— 181 —

PRANCHA 6

Pó da semente: 1 — Vasos em espiral. 2 — Grãos de amido. 3 — Cristais de oxalato de


cálcio. 4 — Células em paliçada. 5 — Células do endosperma contendo gràos de aleuro-
na. 6 — Células pétreas.
183 —

TABELA I

|FO11LO,S Ápice Margem Me i o caminho Base

S=14-16-14-13-ll S=ll-16-13-13-ll S=12-10-13-11-10 S=ll-10-ll-12-9


A E=62-60-58-62-65 E=63-65-59-64-68 E=54-60-53-58-64 E=55-62-59-58-59

M: S = 1 3 , 6 0 ; E = 6 1 , 4 0 M: S = 1 2 , 8 0 ; E = 6 3 , 8 0 M: S = l l , 2 0 i E = 5 7 J 8 0 M: S = 1 0 , 6 0 ; E = 5 8 , 6 0

S=ll-13-ll-15-12 S=15-12-17-13-12 S=11-9-12-14-10 S=10-ll-13-ll-10


B E=50-68-65-54-67 E=69-62-55-51-68 E=69-58-55-62-63 E=54-58-59-65-62

M: S = 1 2 , 4 0 ; E = 6 0 , 8 0 M: S = 1 3 , 8 0 j E = 6 1 , 0 0 M: S = 1 1 , 2 0 ; E = 6 1 , 4 0 Ml S=11,00;E=59,60

S=15-12-lí-14-16 S=13-ll-15-12-ll S=13-9-ll-10-14 S=9-ll-13-12-9


C E=59-6,8-67-55-63 E=65-62-67-68-50 E=62-58-57-65-fi0 E=53-58-55-60-64

11:' S = 1 3 , 6 0 ; E = 6 2 , 4 0 M: S = 1 2 , 4 0 j E = 6 2 , 4 0 M: S = 1 1 , 4 0 ; E = 6 0 , 4 0 M: S = 1 0 , 8 0 ; E = 5 8 , 0 0

S=ll-16-13-11-14 S=15-12-10-11-10 S=13-10-ll-9-14 S=ll-10-13-9-10


D E=64-69-67-62-68 E=68-66-54-62-69 E=64-66-59-55-68 E=52-60-65-62-60

M: S = 1 3 , 0 0 ; E = 6 4 , 0 0 M: S = l l , 6 0 i E = 6 3 , 8 0 Ut S = 1 1 , 4 0 ; E = 6 2 , 4 0 M: " S = 1 0 , 6 0 ; E = 5 9 , 8 0

S=12-15-14-U-ll S=13-ll-10-14-12 S=11-13-10-9-11 S=10-9-9-11-10


E E=68-60-56-62-69 E=66-52-63-68-60 E=68-65-58-62-69 E=53-60-65-62-60

Hl S = 1 2 , 6 0 ; E = 6 3 , 0 0 M: S = 1 2 , 0 0 ; E = 6 1 , 8 0 M: S = 1 0 , 8 0 j E = 6 4 , 4 0 M: S = 9 ' , 8 0 i E = 6 0 , 0 0

Ue'dias S = 1 3 , 0 4 ; E = 6 2 , 3 2 S=12,52;E=62,56 S=ll,20jE=61,28 S=10,56;E =59,20

liídia total» S=ll,83 E=61,34


184

TABELA II

Folhas Ápice Margem Meio caminho Base

5,5-5,0-5,75-6,0- 6,75-6,25-8,0-5,5- 6,0-5,5-6,25-6,0- 5,75-5,75-6,0-


A 4,25 5,75 6,75 5,5-4,25
M=5,30 M=6,45 M=6,10 M=5,45

4,25-5,0-5,5-5,0- 6,0-5,8-5,5-5,5- 5,0-5,28-5,75- 5,5-5,75-4,25-


B 4,25 5,75 5,75-6,0 6,0-5,5

1 M=4,80 M=5,71 11=5,55 M=5,40

4,75-5,0-6,25- 5,5-6,0-5,28-5,5- 5,75-6,0-6,75- 5,5-6,0-4,25-6,0-

C 4,5-5,0 4,25 6,0-5,75 5,75


li=5,10 M=5,30 M=6,05 H=5,50

4,25-4,75-6,0- 6,0-5,28-6,75- 5,0-4,25-5,5-6,0- 4,75-6,0-5,5-5,5-

3 5,5-5,5 5,5-6,0 5,75 6,0


U=5,20 M=5,90 M=5,30 M=5,55

4,75-5,28-5,75- 5,28-4,25-6,75- 5,5-6,75-5,28- 6,25-5,5-6,25-

E 6,0-4,75 5,5-6,0 6,0-5,5 6,0-6,0


M=5,30 M=5,55 M=5,80 M=6,00

Mídias 5,14 5,78 5,76 5,58

Media t o t a l = 5,5C
185

TABELA III

Folhai Ápice Margem Liei o caminho Base l / 4 CM


B-10-11-14-15 13-12-10-11-9 9-13-10-9-8 14-12-9-10-8 42
A
11=11,60 M=11,00 M=9,80 M=10,60 M=10,50

9-7-8-12-14 15-12-9-10-9 14-10-9-12-11 12-11-9-10-11 40


a
H=10,00 M=11,00 M=ll,20 M=10,60 M=10,00

7-10-9-10-12 9-10-13-11-9 10-14-9-11-13 11-12-9-10-8 47


c
M=9,60 M=10,40 M=ll,40 M=10,00 M=ll,75

12-8-11-9-11 9-12-11-13-11 12-9-7-14-11 11-9-10-13-11 44


D
M=10,20 H=ll,20 M=10,60 M=10,80 M=11,00

13-12-13-9-10 11-9-13-11-14 10-9-11-13-10 8-9-12-12-11 42


E
11=11,40 M=ll,60 11=10,60 H=10,40 M=10,50

Médias 10,56 11,04 10,72 10,48 10,75

íisdla t o t a l * 1 0 , 7 0
— 186 —

TABELA IV

Tolhas Aploe Margem Meio caminho Base j / 4 CM


21-13-16-20-12 20-16-19-15-14 21-20-18-13-17 12-21-18-24-17 71
A
M=16,40 M=16,80 M=17,80 M=18,40 M=17,75

11-16-10-22-18 8-14-19-22-13 20-14-15-19-11 15-13-17-21-12 76


B
H=15,40 M=15,20 M=15,80 M=15,60 M=19,00

8-20-22-19-15 18-13-15-19-21 15-13-19-23-22 13-12-17-21-24 74


C
M=16,60 M=17,20 M=18,40 M=17,40 M=18,50

16-23-15-19-20 17-12-19-21-24 16-14-21-20-23 14-10-19-18-22 72


D

M=18,60 M=18,60 M=18,80 11=16,60 M=18,00

19-19-16-19-20 16-23-20-17-14 15-18-20-23-19 16-18-22-17-23 70


E
11=18,60 M=18,00 M=19,00 H=19,20 M=17,50

lie d I a s 17,16 17,16 17,96 17,44 18,15

Media t o t a l = 17,43
187

TABELA V

ALTURA DA ESPUMA» 15 min 1

Tubo 8 Folha Caule Haiz Fruto Semente Deoocto Água

3 3 3 3 3 3
1 1 , 0 0 om 0 , 9 0 om 0 , 5 0 cm 0 , 5 0 cm 0 , 3 0 om 1 0 , 0 0 cm

3 3 3 3
0 , 3 0 cm
3 3 31
2 1 , 0 0 om 0 , 9 0 om 0 , 4 0 cm 0 , 5 0 cm 9 , 0 0 cm 1 , 0 0 om 1

3 3 3 3 3 3 3 1
3 1 , 0 0 cm 0 , 9 0 om 0 , 3 0 cm 0 , 4 0 cm 0 , 2 0 cm 8 , 0 0 cm 2,00 0 3

3 3 3 3 3 3
4 0 , 9 0 om 0 , 3 0 cm 0 , 3 0 om 0,20,on 7 , 0 0 cm 3 , 0 0 om
0 , 8 0 om

3 3 3 3 3 3 3
5 0 , 9 0 cm 0 , 3 0 om 0 , 3 0 cm 0 , 2 0 cm 6 , 0 0 cm 4 , 0 0 cm
0 , 8 0 om

3 3 3 3 3 3 3
6 0 , 7 0 om 0 , 6 0 om 0 , 3 0 cm 0 , 2 0 om 0 , 1 0 cm 5 , 0 0 cm 5,00

3 3 3 3 3 3 3
7 0 , 6 0 om 0 , 5 0 cm 0 , 3 0 om 0 , 2 0 cm 0 , 1 0 cm 4 , 0 0 cm 6 , 0 0 cm

3 3 3 3 3 3 3
8 0 , 6 0 om 0 , 4 0 cm 0 , 2 0 cm 0 , 1 0 cm 0 , 1 0 om 3 , 0 0 cm 7 , 0 0 om

3 3 3 3 3 3 3
9 0 , 3 0 om 0 , 3 0 om 0 , 2 0 cm 0 , 0 0 cm 0 , 0 5 om 2 , 0 0 cm 8 , 0 0 om

3 3 3 3 3 3 3
10 0 , 3 0 om 0 , 3 0 om 0 , 1 0 cm 0 , 0 0 cm 0 , 0 0 om 1 , 0 0 cm 9 , 0 0 cm
— 188

TABELA VI

Tubos Suspensão de Sol. fisiológica E x t r a t o de d r o g a L e i t u r a em 2 4 h ,


hemac i a s a 1 : 5 0 a Vf,

3 3 3
1 2 , 5 0 cm 2 , 2 5 cm 0
0 , 2 5 cm

3 3
2 2 , 5 0 cm 2 , 0 0 cm 0 , 5 0 cm 0

3 3 3
3 1 , 7 5 cm 0 , 7 5 om 0
2 , 5 0 cm

3 3 3
4 2 , 5 0 cm 1 , 5 0 cm 1 , 0 0 cm +

3 3 3
5 1 , 2 5 cm +
2 , 5 0 cm 1 , 2 5 cm

3 3 3
6 2 , 5 0 cm 1 , 0 0 cm 1 , 5 0 cm +

3 3
7 2 , 5 0 cm 0 , 7 5 cm 1 , 7 5 cm ++

3 3
8 2 , 5 0 cm 0 , 5 0 cm 2 , 0 0 cm ++

3 3 3
9 2 , 5 0 cm 0 , 2 5 om 2 , 2 5 om ++

3 3 3
10 2 , 5 0 cm 2 , 5 0 om +++
0 , 0 0 cm

3 ~ „ 3 3
*11 2 , 5 0 cm 2 , 5 0 cm 0 , 0 0 cm 0

* Testemunha do comportamento (+++)-hemolise total


dos g l ó b u l o s (++)-hemolise parcial
( + ) - v e s t í g i o s de h e m ó l i s e
— 189 —

TABELA VII

Tubos S u s p e n s ã o de Sol. fisiológica E x t r a t o de droga L e i t u r a em 24h»


hemacias a I j 5 0 a 0,05$

3 3 3
1 2 , 5 0 cm 2 , 2 5 cm 0 , 2 5 cm 0

3 3 3
2 2 , 5 0 om 2 , 0 0 cm 0 , 5 0 cm 0

3 3 3
3 1 , 7 5 cm 0 , 7 5 cm 0
2 , 5 0 cm

3 3 . 3
4 2 , 5 0 om 1 , 5 0 cm 1 , 0 0 om +

3 3 3
5 2,50 cn 1 , 2 5 om 1 , 2 5 om +

3 3 3
6 2 , 5 0 cm 1 , 0 0 om +
1 , 5 0 om

3 3 3
7 0 , 7 5 om 1 , 7 5 cm +
2 , 5 0 om

3 3 3
8 2 , 5 0 om 0 , 5 0 om 2 , 0 0 om +

3 3 3
9 2 , 5 0 cm 0 , 2 5 cm 2 , 2 5 om ++

3 3 3
10 2,50 cn 0 , 0 0 om 2 , 5 0 om ++

3 3 3
*11 2 , 5 0 cm 2 , 5 0 om 0 , 0 0 cm 0

* Testemunha do comportamento (++)-hemolise parcial


dos glóbulos ( + ) - v e s t f g i o s de h e m ó l i s e
190 —

TABELA VIII

Diluições
de saponi 1:100 1:500 1:1500 1:4000 1:8000 1:12000 1:16000
na b r u t a

Ío M o r t a l i
40 40 20 20 0 0 0
dade

TABELA IX

Diluições
de saponi;
1:100 1:500 1:1500 1:4000 1:8000 1:12000 1:16000
na
"Merck"

fe M o r t a l i
100 100 100 100 80 0 0
dade
191

Hg. 1 — Momordica charantia L. — material herborizado com flores e frutos (RB)


193 —

Hg. 2 — Lpidermc superior (4U0X)

~* f

Hg. 3 — Epidcrme superior, mostrando um pêlo leitor (4Ü0X)


— 195

Fig. 4 — Feio estelar (100X)

Fig. 5 — Pêlo glãndular (530X)


197 —

O a

Fig. 6 — Epiderme inferior (400X)

Fig. 7 — Epiderme inferior (400X)


199 —

Fig. 8 — Corte transversal do limbo (1 óüX)

Fig. 9 — Corte transversal do limbo (1ÜÜX)


201

Fig. 1U — Corte transversal do limbo (bòX)

x * *«yy 4

Fig. 11 — Corte transversal da nervura mediana (1D0X)


— 203 —

Hg. 12 — Corte transversal da nervura mediana — lolha jovem (o3X)

Fig. 13 — Corte transversal da nervura mediana (lüOX)


205 —

Fig. 14 — Corte transversal da nervura mediana (1UUX)

Fig. 15 — Corte transversal da nervura mediana (10UX)


207 —

•»

hig. 16 — Corte transversal da nervura mediana (I00X)

••Cf.

Fig. 17 — Corte transversal do pecíolo (63X)


— 209

Fig. 20 — Corte transversal do caule jovem (100X)

Fig. 21 — Corte transversal do caule de estrutura secundária (100X)


— 211 —

<£*=*_>/• -v

Fig. 18 — Corte transversal do pecíolo (100X)

Fig. 19 — Corte transversal do caule jovem (25X)


— 213

t# r

Fig. 22 — Corte transversal do caule de estrutura secundária (100X)

Fig. 23 — Corte transversal do caule de estrutura secundária (100X)


— 215 —

Fig. 24 — Corte transversal da raiz de estrutura primária (100X)

Fig. 25 — Corte transversal da raiz de estrutura secundária (25X)


— 217 —

Fig. 26 — Corte transversal da raiz de estrutura secundária (63X)

Fig. 27 — Epiderme dissociada — fruto (400X)


— 219 —

Fig. 28 — Epiderme dissociada — fruto (400X)

Fig. 29 — Corte transversal do fruto (63X)


221 —

• I

Fig. 30 — Corte transversal do fruto, mostrando um pêlo glândular (160X)

Fig. 31 — Corte transversal do fruto — parte central (63X)


223 —

Fig. 32 — Corte transversal da semente jovem (63X)

Fig. 33 — Corte transversal da semente adulta (63X)


225

Fig. 34 — Corte transversal da semente adulta (63X)


— 227

'g- 3 o — Cristais sob forma de agulhas, após o processo de microssublimacão (160X)

Fig. 36 — Cristais sob forma de prismas, após o processo de microssublimacão (400X)


229

rig. 37 — Cristais sob forma de agulhas, após o processo de extração (400X)

•'? «.«'•'•

1?.
Fig. 38 — Cristais sob forma de prismas, após o processo de extração (400X)
— 231 —

Fig. 39 — Células paliçádicas sob 4 células epidérmicas.

Fig. 40 — Ilhotas de nervuras e pontas de vên lias.


— 233
Fig. 42 Fig. 43

Hg. 41 — Cromatografia (alcalóide). Fig. 42 — Cromatografia (alcalóide). Fig. 43


Cromatografia (saponina)
REVISÃO T A X O N Ô M I C A D O G Ê N E R O
TASSADIA D E C A I S N E (ASCLEPIADACEAE)

Jorge Fontella Pereira


Pesquisador em Botânica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
e
Bolsista do Conselho Nacional de Pesquisas

AGRADECIMENTOS

O autor expressa agradecimentos a todos aqueles que, direta ou indiretamente con-


tribuíram para a realização deste trabalho, sobretudo os relacionados a seguir:
Ao Dr. Ivany Ferraz Marques Válio, Professor de Fisiologia Vegetal da Universi-
dade Estadual de Campinas, pela orientação prestada.
Aos pesquisadores: Dra. Graziela Maciel Barroso do Jardim Botânico do Rio de
Janeiro, Dr. Luiz Emygdio de Mello Filho e Dra. Margareth Emmerich do Museu Na-
cional do Rio de Janeiro, Prof. Jorge Pedro Pereira Carauta do Departamento de Con-
servação Ambiental do Estado do Rio de Janeiro, por suas valiosas sugestões e revisão
cuidadosa dos textos.
Aos Drs. Fernando Romano Milanez e Hermógenes de Freitas Leitão Filho, pro-
fessores de Botânica da Universidade Estadual de Campinas, por suas críticas e sueestões.
As pesquisadoras do Jardim Botânico do Rio de Janeiro: Prof4 Nilda Marquete
ferreira da Silva, Prof» Ariane Luna Peixoto, Prof8 Carmem Lúcia Falcão Ichaso, pelos
desenhos e alguns serviços fotográficos e às Profas Elsie Franklin Guimarães, Francisca
Matilde Magalhães Régis de Alencastro e estagiária Luciana Mautone, pelo auxílio na
confecção dos mapas.
Aos encarregados e curadores de herbários das Instituições, adiante relacionadas,
pelo empréstimo de suas coleções:

Arnold Arboretum, Harvard University, Cambridge, Massachusetts, U. S. A. (A).


Botanical Museum and Herbarium, Copenhagen, Denmark (C).
Botanische Staatssammlung, München, Federal Republic of Germany (M).
Conservatoire et Jardin botaniques, Genève, Switzerland (G).
Gray Herbarium of Harvard University, Cambridge, Massachusetts, U. S. A. (GH).
Herbarium of the Department of Higher Plants, V. L. Komarov Botanical Insti-
tuteof the Academy of Sciences of t h e U . S. S. R. Leningrad, U. S. S. R. (LE).
Herbarium, T h e New York Botanical Garden, New York, U. S. A. (NY).
Institut für Biologie I, Lehrbereich spezielle Botanik, Tübingen, German Democra-
tic Republic (TUB).
Institutefor Systematic Botany, Utrecht, Netherlands (U).
Instituto Botânico, Caracas, Venezuela (VEN).
Instituto de Botânica de São Paulo (SP).
Instituto de Pesquisa e Experimentação Agropecuária do Norte, Belém, Pará (IAN).
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus, Amazonas (INPA).
Jardim Botânico do Rio de Janeiro (RB).
Jardin Botanique National de Belgique, Bruxelles, Belgium (BR).
John G. Searle Herbarium, Field Museum of Natural History, Chicago, Illinois,
U.S.A.(F).
Missouri Botanical Garden, Saint Louis, Missouri, U. S. A. (MO).
Museu Botânico Municipal, Curitiba ( M B M ) .
Museu Nacional do Rio de Janeiro (R).
Museu Paraense Emilio Goeldi, Belém, Pará ( M G ) .
I ese apresentada ao Departamento de Botânica da Universidade Estadual de Campi-
nas para a obtenção do título de Doutor em Ciências, em 1975.

RÍo <ii a r» d " B m (235


> Vol.XXI
MO dt Janeiro 1977
— 236 —

Museum National d' Histoire Naturelle, Laboratoire de Phanèrogamie, Paris —


France (P).
Rijksherbarium, Leiden, Netherlands (L).
Section for Botany, Swedish Museum of Natural History (Naturhistoriska riks-
museet) Stockholm, Sweden (S).
Systematisch-Geobotanisches Institut, Universitüt Goettingen, Goettingen, Federal
Republicof Germany ( G O E T ) .
The Herbarium and Library, Royal Botanic Gardens, Kew, Great Britain (K).
The Herbarium, Institute of Systematic Botany, University of Uppsala, Uppsala,
Sweden (UPS).
U. S. National Herbarium, Department of Botany, Smithsonian Institution, Was-
hington, U. S. A. (US).
E em especial ao Conselho Nacional de Pesquisas.

CONTEÚDO

Pág.:
I — INTRODUÇÃO 237
II — HISTÓRICO 237
III — MATERIAL E MÉTODOS 239
IV — RESULTADOS 239
1 — MORFOLOGIA 239
1.1— Aspecto Geral 239
1.2 — Ramos e Râmulos 239
1.3 — Folhas 239
1.4 — Inflorescência 240
1.5 — Indumento 240
1.6 — Flor 243
1.6.1 — Cálice 243
1.6.2 — Corola 243
1.6.2.1 — Indumento corolino 243
1.6.2.2 — Vascularização 251
1.6.3 — Corona 251
1.6.4 — Ginostégio 263
1.6.5 — Androceu 263
1.6.6 — Gineceu 263
1.7 — Fruto 273
2 — TRATAMENTO TAXONÔMICO 273
2.1 — Posição 273
2.2 — Descrição do Gênero 274
2.3 — Chave para as Espécies 279
2.4 — Descrição das Espécies 281
2.5 — Espécies Excluídas 382
V — DISCUSSÃO E C O N C L U S Õ E S 387
VI — R E S U M O 388
VII — Í N D I C E DOS C O L E T O R E S , SEUS N Ú M E R O S E ESPÉCIES
CORRESPONDENTES 389
VIII — Í N D I C E DAS ESPÉCIES 391
IX — R E F E R Ê N C I A S BIBLIOGRÁFICAS 392
— 237 —

I — INTRODUÇÃO

O gênero Tassadia estabelecido por Decaisne, em 1844, só foi objeto de um estudo


mais serio, em 1940, por Jonker, em seu trabalho sobre as Asclepiadaceae para a Flora do
Suriname, onde redescreveu 4 espécies, apresentando uma chave para as mesmas. Tra-
tando-se de um trabalho de Flora local, Jonker deixou de lado muitas outras espécies, que
por sua complexidade, já haviam dificultado os estudos de outros botânicos, que criaram
incorretamente muitos binômios, deixando confusa a taxonomia do gênero.
A família Asclepiadaceae vem sendo o principal motivo de nossas pesquisas taxonô-
micas desde 1961. Em 1965, quando de nossa visita ao herbário do Laboratoire de Pha-
nerogamie du Muséum National d'Histoire Naturelle de Paris, tivemos oportunidade de
estudar e fotografar muitos " t y p i " dessa família, chamando-nos a atenção o gênero Tas-
sadia Decaisne, que nos fascinou pela beleza e dimensões diminutas de sua corona, trans-
ladores e polínias, cujas características são marcantes para a separação de suas espécies.
De um modo geral, a maioria dos exemplares por nós estudados encontrava-se sem iden-
tificação ou mal determinados nos herbários que consultamos.
Para um estudo completo das espécies desse gênero, consideramos que só com a con-
sulta de todos os typi poderíamos chegar a um resultado satisfatório e, assim, a nossa pri-
meira preocupação foi solicitá-los, por empréstimo às diversas Instituições. Além desse
material típico, revisamos, praticamente, todas as coleções de espécies desse gênero,
depositadas nos herbários nacionais e estrangeiros. Acreditamos, que com esse estudo
metódico e cuidadoso, resolvemos a sistemática de táxon considerado de difícil interpre-
tação pela maioria daqueles que estudam a família Asclepiadaceae.

II — H I S T Ó R I C O

O gênero Tassadia foi criado por Decaisne (1844), na obra clássica " D e Candolle
* r odromus", como uma descrição fidedigna. O valor indiscutível de seu trabalho, deve-se
ao fato de que das 9 espécies encontradas em sua célebre monografia, 5 permaneceram
v
alidas até hoje. O autor teve o mérito, também, de citar após a diagnose de cada táxon, o
nome do coletor ou dos coletores, indicando sempre o herbário em que se encontrava o
material examinado, facilitando, sobremaneira, a tarefa de revisar o gênero.
Naquele mesmo ano, Miquel (1844) descreveu como nova para a ciência, Taisadia
decaisneana, tendo o privilégio de ser o primeiro botânico a fornecer uma estampa desse
gênero e das mais belas.
Bentham et Hooker (1876) redescreveram Tassadia de um modo mais completo, pois
acrescentaram além de outras características, as do fruto e das sementes, que faltavam na
obra de Decaisne. Nas últimas 4 frases, após a redescrição do gênero, os autores salienta-
ram a importância da forma do estigma para a separação de '/'. guianensis das demais
espécies. Na página 1241 {Adenda et Corrigenda) Bentham descreveu um novo gênero,
Madarosperma (sinônimo de tassadia), com uma única espécie: M. traüiana colocando-
o com muita propriedade antes de Stenomeria Turczaninow e evidenciando a afinidade
com Metastelma R. Brown, separando-o deste último pela corola urceolada e sementes
tes desprovidas de coma.
Bentham (1877) foi bem feliz ao fazer uma descrição minuciosa de Madarosperma
trailiana, sem dúvida alguma a melhor feita pelos autores clássicos, pois, além de enri-
quecer os dados fornecidos em sua descrição original, relativos ao " T y p u s " , ilustrou a
espécie com uma magnífica estampa.
Fournier (1885), na Flora Brasiliensis de Martius, redescreveu Tassadia e, na mes-
ma página, criou o gênero Glaziostelma (também um dos sinos de Tassadia) com
uma única espécie: G. ovalifolium. Embora Fournier tivesse organizado uma chave
Para os diferentes grupos de espécies, e apresentado uma estampa de Tassadia martiana
Decaisne não foi feliz com relação ao tratamento dos táxons específicos, pois dos 10 men-
cionados em seu trabalho, 6 dos quais novos, apenas Tassadia burchellii Fournier e T.
— 238 —

martiana não foram postos em sinonímia. Nessa mesma obra, Fournier redescreveu
Madarosperma com sua espécie-typus Aí. trailiana, e criou mais duas espécies novas
(verificamos que uma delas é um novo sinônimo de um dos táxons de Tassadia e a outra
foi relacionada por nós na lista das espécies excluídas, por pertencer ao gênero Ditassa R.
Brown). Esse mesmo autor, na página 211, da Flora Brasiliensis de Martius, descreveu
como nova, Metastelma uncinatum, incluindo-a na Seção Epicion fundada por Grisebach
(1864), por sua vez um sinônimo de sua própria espécie, Tassadia burchellii, descrita na
página 230.
Baillon (1890) forneceu apenas redescrições genéricas de Tassadia, Glaziostelma e
Madarosperma, não mencionando espécies e, nem tão pouco, acrescentando alguma
coisa nova às diagnoses dos referidos gêneros.
Schumann (1895) redescreveu o gênero Tassadia e organizou uma pequena chave
que abrangia somente 4 das 15 espécies assinaladas por ele para o táxon em questão. Na
página 240, desse mesmo trabalho, redescreveu o gênero Madarosperma, mencionando,
das 3 espécies existentes, apenas Aí. trailiana, e na página 259, o gênero Glaziostelma
com sua única espécie: G. ovalifolium.
Moore (1895), Schumann (1898) e Rusby (1898), descreveram respectivamente as
seguintes novas espécies: Madarosperma oblongum, Tassadia pilosula e Tassadia
sprucei (non Fournier, 1885).
Pulle (1906) citou, sem redescrever, várias espécies de Tassadia para o Suriname e
transferiu Tassadia decaisneana, para o gênero Metastelma.
Ule (1908) fez menção apenas a um epíteto novo em seu trabalho: Tassadia
sphaerostigma (nomem nudumj.
Glaziou (1910) publicou, em sua célebre lista, 3 nomes com as respectivas locali-
dades e observações: Glaziostelma ovalifolium, Tassadia sprucei e Tassadia comosa
Rusby (1920) descreveu uma espécie nova, Tassadia recurva e, em 1927, também,
como táxons novos Tassadia rhombifolia e Tassadia hutchisoniana.
Malme (1927) redescreveu pormenorizadamente Tassadia sprucei Fournier, citando
como sinônimo Tassadia sprucei Rusby, declarando no entanto, que não vira o material
original examinado por Fournier.
Tendo em vista a existência de um homônimo anterior de Tassadia sprucei Rusby,
Macbride (1931) agindo em conformidade com as Regras Internacionais de Nomenclatu-
ra Botânica, deu-lhe um novo nome, ou seja, Tassadia rusbyi.
Gleason et Moldenke in Moldenke (1933), forneceram a diagnose de uma nova espé-
cie — Tassadia apocynella.
Malme (1939), além de fazer uma boa redescrição de Madarosperma oblongum S.
Moore e adicionar à diagnose de Tassadia martiana dados morfológicos mais detalhados
com relação aos seus transladores e polínias, descreveu 3 espécies novas de Tassadia a
saber: T angustifolia, T cordata e T. minutiflora. Nesse mesmo trabalho, Malme citou
um novo nome para o gênero aqui discutido, ou seja, T. mmutiflora em substituição a T
sprucei auet. non Fournier, por ele publicada em 1927.
Jonker (1940) acatou a opinião de Pulle (1906) mantendo Tassadia decaisneana
dentro do gênero Metastelma e, na página 353, redescreveu, muito bem, o gênero Tassa-
dia com 4 espécies (T. guianensis, T. propinqua, T. leptobotrys e T. obovata), que inclui
numa chave para a Flora do Suriname.
Woodson (1941) colocou 7"assadia juntamente com mais 22 gêneros na sinonímia de
Cynanchum L., porém não fez nenhuma combinação nova com as espécies de Tassadia.
Woodson (1948) mencionou apenas o nome de 'Tassadia propinqua, dando, de um
modo bem sucinto, algumas características da planta, e reportou-se ao trabalho anterior
no qual defendeu a inclusão de Tassadia no gênero Cynanchum L.
Hoehne (1951) citou somente com algumas observações, os nomes das seguintes es-
pécies: Madarosperma oblongum, Tassadia multiflora e Tassadia minutijlora.
Holm (1953) fez uma nova combinação, ou seja, Cynanchum guianense (Decaisne)
Holm, baseada em Tassadia guianensis Decaisne.
Fontella (1967) mencionou várias espécies de Tassadia e Madarosperma para a
— 239 —

Amazônia Brasileira, sem discussão acerca de sua validade taxonõmica, fornecendo po-
rem fotografias dos "lectotypi" de Tassadia guianensis e Tassadia propinqua por ele esta-
belecidos e até então não publicadas.
Spellman (1973) transferiu Tassadia recurva Rusby e Tassadia apocynella Gleason
et Moldenke para o gênero Cynanchum L., fazendo as seguintes combinações: Cynan-
chum recurvum (Rusby) Spellman e Cynanchum apocynellum (Gleason et Moldenke)
Spellman (1975) redescreveu os 2 táxons anteriormente citados para a Flora do Panamá,
incluindo-os na chave para as espécies de Cynanchum L.
Concluindo, podemos dizer que com exceção dos autores clássicos e Jonker (1940),
quase todos os outros se preocuparam mais em descrever espécies novas do que fazer uma
revisão genérica, disso resultando os inúmeros sinônimos mencionados no presente tra-
balho.

III — M A T E R I A L E M É T O D O S

0 material utilizado foi o obtido das coleções depositadas nos herbários do Jardim
Botânico do Rio de Janeiro e Museu Nacional do Rio de Janeiro, além de outras envia-
das por empréstimo por diversas instituições nacionais e estrangeiras, o que possibilitou
o estudo de todos os " t y p i " das espécies que constam deste trabalho.
Para o estudo do cálice, corola, corona e anteras, partes da inflorescência foram colo-
cadas numa solução de N a O H a 5% durante 12/24 horas, depois foram lavadas em água
corrente durante 5 minutos e montadas provisoriamente em glicerina aquosa a 50%.
Os transladores (retináculo e caudículas) e as polínias foram separados das demais
Partes florais e colocados numa lâmina com N a O H 5% num período de 1/3 horas, lava-
dos em seguida, como no processo acima e montados em glicerina aquosa a 50%, proviso-
riamente.
Para a realização dos desenhos e medidas das estruturas florais, fundamentais na ta-
xonomia do gênero em questão, foram utilizados o microscópio ótico Carl Zeiss e a câ-
mara clara.
Os demais desenhos que ilustram o trabalho, tais como os de botões florais, frutos e
sementes foram obtidos com a câmara-clara de um microscópio binocular estereoscópico
da YVilld.

IV — R E S U L T A D O S

1 — MORFOLOGIA

11 — Aspecto Geral
Todas as espécies do gênero são volúveis e lactescentes. Tassadia castellanosii, Tas-
sadia emygdioi, Tassadia grazielae, Tassadia valioi e alguns espécimes de Tassadia obo-
vata apresentam suas partes vegetativas e florais, com exceção da corola, revestidos de um
mdumento ferrugíneo.

1.2 — Ramos e Râmulos


Os ramos e râmulos são sempre cilíndricos, longitudinalmente estriados e com os
n
° s bem espaçados. Os primeiros podem ser glabros, pubescentes ou tomentosos, en-
quanto que os segundos vão desde levemente pubescentes até tomentosos. Em Tassadia
"urchellü Fournier e Tassadia ovalifolia, os râmulos são unilateralmente pubescentes.

13—Folhas
As folhas são pecioladas e cobertas por pêlos pluricelulares unisseriados; lâminas de
elipticas à ovado-lanceoladas ou lanceoladas, nervação broquidódroma, ápice acumina-
oo ou mucronado, base subcordiforme, subtruncada ou aguda. Os pecíolos são pubescen-
tes ou tomentosos e sulcados na parte superior. As lâminas, também, são pubescentes ou
— 240 —

tomentosas, com exceção das de Tassadia guianensis que apresentam a página superior
glabra e somente a nervura principal pubescente e das de Tassadia ovalifoíia que têm a
página inferior glabra ou glabrescente.
Na página superior, na base da lâmina foliar e junto à inserção do pecíolo, ocorrem
em todas as espécies do gênero, 2-3 emergências glandulares, que medem 233-850 micrô-
metros de comprimento, por 71-374 micrômetros de largura. Essas emergências são
constituídas por um parênquima central, formado por várias camadas celulares, envolvi-
do por uma epiderme secretora, uniestratificada, composta de células em paliçada (PI. 1:
fig. A). Tipos semelhantes de emergências foram observadas por Esau (1965) em folhas
de Nerium oleander L. (Apocynaceae) que as denominou de Shaggy hairs.
A ocorrência dessas emergências glandulares nas folhas de Asclepiadaceae, j á tinha
sido apontada por vários autores, que as chamaram de "glândulas", dentre os quais des-
tacamos: Decaisne (1844) na descrição da família; Fournier (1885) nas descrições dos gê-
neros Husnotia Fournier, Amphidetes Fournier, Cyathostelma Fournier, Coelostelma
Fournier e nas redescrições de Roulinia Decaisne e Gonolobus Michaux, Malme (1927)
na redescrição de Blepharodon lineare (Decaisne) Decaisne e Malme (1939) na redes-
crição de Slenomeria pentalepis Turczaninow; Meyer (1944) no tratamento de todas
as espécies argentinas dos gêneros Marsdenia R. Brown, Araujia Brotero, Roulinia De-
caisne e também em muitas outras espécies de Aslepiadaceae da Argentina, dentre as
quais salientamos Oxypetalum brachystema Malme, Exolobus patens (Decaisne) Four-
nier e Roulinia convolvulacea Decaisne; Occhioni (1956) nas redescrições das seguintes
espécies de Oxypetalum R. Brown: O. appendiculatum Martius, O. regnellii (Malme),
O. banksii Roemer et Shultes subsp. banksii, O. glabrum (Decaisne) Malme, O. insigne
(Decaisne) Malme, O. riparium auct. non Humboldt, Bonpland et Kunth, Hoehne
(-O. subriparium Malme) e O. deltoideum (-O. pilosum Gardner); já com o nome de
pêlos glandulares pelos seguintes autores: Fontella et Marquete (1971) em Oxypetalum
warmingii (Fournier) Fontella et Marquete; Alencastro et ai. (1971) em Ditassa ban-
ksii Roemer et Schultes e Ditassa anômala Martius que apresentaram o esquema e o de-
senho como pêlos glandulares em corte longitudinal. Fontella et Marquete (1974) e
(1975) observaram respectivamente em espécies de sua autoria, ou sejam, Blepharodon
hatschbachii e Astephanus grazielae, a ocorrência de tais emergências, não sobre a base
da lâmina foliar, porém lateralmente na base dos pecíolos.

1.4 — Inflo rescência


As flores são dispostas em pleiotirsos ou tirsos axilares, opostos ou alternos, ocorren-
do, freqüentemente, com estes tipos, cimeiras umbeliformes axilares ou extra-axilares
que podem ainda estar dispostas em râmulos floríferos áfilos. Essas cimeiras são sésseis
ou providas de um pedúnculo curtíssimo, pubescente de 0,5-2,5 mm de comprimento.
Na raque principal ou nas ramificações da inflorescência, ocorre com freqüência
uma bráctea oposta ao ponto de inserção da cimeira umbeliforme. Essa bráctea é lanceo-
lada ou oblonga, aguda no ápice, externamente pubescente, internamente glabra, me-
dindo, 0,76-2,72 mm de comprimento e 0,15-0,85 mm de largura.
1.5 — Indumento
No estudo das inflorescências e flores diafanizadas, encontramos na raque, brácteas,
pedicelos, bractéolas e parte externa das sépalas, pêlos pluricelulares unisseriados sim-
ples ( P l . l : fig. C-D), mas também outros pêlos pluricelulares unisseriados, diferentes
dos primeiros por apresentarem as células terminais (1-8) mais ou menos dilatadas com
paredes abauladas e geralmente mais finas ( P l . l : fig. B-B2, D l ) . Enquanto que os pri-
meiros variam de 3 (75-330 micrômetros de comprimento) a 12 células (387-417 micrô-
metros de comprimento), os outros apresentam de 5 (120-150 micrômetros de compri-
mento) até 12 células (168-288 micrômetros de comprimento). Este segundo tipo de pêlo,
muito peculiar, ocorre juntamente com os primeiros, mas em T. propinqua, encontramos
na raque, no pedicelo e nas bractéolas apenas os do segundo tipo, e nos pedicelos de T.
geniculata, somente os do primeiro tipo.
— 241 —
Figura 1

r 1. | — Indumento observado com o auxílio da diaianização: Fig. A — emergência glan-


dular da base da lâmina foliar de T. ualwi, focalizado num plano mediano; Fig. B — B2-
pêlos pluricelulares unisseriados com as células terminais abauladas do pedicelo de T.
°bouata; Fig. C — pêlo pluricelulár unisseriado encontrado na raque de T. ovalifolia;
rig. D — Dl-dois tipos de pêlos diferentes localizados no pedicelo de T. aristata.
— 243 —

1.6 —Flor

1.6.1—Cálice

A prefloração é quincuncial (PI.2: fig. A-F). Schumann (1895) já havia apontado


uma prefloração quincuncial-imbricada para a família. As sépalas são quase inteiramen-
te livres, soldadas levemente na base, ovadas ou ovado-triangulares, agudas ou obtusas,
externamente pubescentes ou glabras, internamente glabras, com exceção das axilas, na
base, onde são providas de emergências glandulares (PI.2: fig. G - G l ) do mesmo tipo já
descrito para as folhas. A ocorrência dessas emergências glandulares no cálice, já tinha
sido assinalada para as espécies de Asclepiadaceae, por vários autores, com o nome de
u glândulas": Decaisne (1844), Fournier (1885), Schumann (1895), Malme (1900),
Hoehne (1916), Meyer (1944), Occhioni (1956), Fontella (1965), Fontella et Valente
(1969) e Spellman (1975). Geralmente estas emergências glandulares ocorrem nas espé-
cies de Asclepxadaceae em número de 1-4 em cada axila, ou mais raramente podem for-
mar feixes que tomam toda a base da sepala, como em Oxypetalum pedicellatum Decais-
ne, Oxypetalum cordifolium (Ventenat) Schlechter e Oxypetalum. patulum Fournier, se-
gundo Hoehne (1916), ou formar um anel contínuo em toda a base do cálice, como em
Asclepias kuntzei Schlechter e Astephanus fallax (Hicken) Meyer segundo Meyer (1944).
Nas espécies de Tassadia, estas emergências glandulares ocorrem em número de 1-2
em cada axila das sépalas, e variam em suas medidas de 81-215 micrômetros de compri-
mento, por 42-120 micrômetros de largura. Com exceção de T. martiana, T. castellano-
s
", 1. geniculata, T. emygdioi e T. aristata, todas as espécies do gênero seguem o diagra-
ma floral (os pontos representam as emergências glandulares) de T. grazielae (PI.2: fig.
y*Cl), ou seja, as duas sépalas externas são desprovidas de emergências glandulares, as
duas mais internas possuem 1 emergência glandular em cada axila e a 5 a sépala é despro-
vida de emergência glandular na parte que cobre as outras e provida de emergência na
parte recoberta. T. martiana (PI.2: fig. A) e T. anstata (PI.2: fig. F1-F2) são as únicas
que apresentam emergências glandulares numa ou nas duas sépalas externas. T. martia-
na
> T. castellanosü, T. geniculata, T. emygdioi e 7. aristata apresentam geralmente suas
sépalas mais internas providas de 2 emergências glandulares nas duas axilas, ou pelo me-
nos numa das axilas (PI.2: fig. A-A2, B - B 1 , D , E - E l , F-F2). A 5 a sépala ou intermediá-
ria das espécies T. castellanosü, T. geniculata e T. emygdioi segue a característica de T.
grazielae, mas em alguns casos pode apresentar até 2 emergências glandulares em cada
axila, como em T. martiana (PI. 2: fig. A l ) , ou somente numa das axilas como na própria
T. martiana (PI .2: fig. A2) e em T. aristata (PI .2: fig. F), ou ainda apenas 1 emergência
glandular em cada axila, como ocorre em T. aristata. (PI .2: fig. F2).

1.6.2 — Co rola

__ A corola pode ser rotácea, campanulada, subcampanulada ou urceolada, de preflo-


ração valvar, com exceção de T. decaisneana, cuja prefloração é torcida.

1.6.2.1 — Indumento oorolino

Externamente a corola é sempre glabra e de modo geral internamente provida de um


indumento formado de pêlos pluricelulares unisseriados, unicelulares e papilas. O tubo e
a fauce podem se apresentar glabros, puberulentos ou pubescentes. A região axilar dos
lacínios pode ser glabra nas espécies: T. aristata, T. burchellii, T. castellanosü, T. de-
caisneana, T. emygdioi, T. grazielae, T. leptobotrys, T. martiana, T. obovata, T. ovali-
folia e T. trailiana ou pubescente em: T. burchellii, T. cordata, T. geniculata, T. guia-
nensis, T. obovata, T. propinqua.
— 245

V -2 — Fig. A-B 1, C1, U — F2: Diagramas dos cálices, para mostrar a posição e a quan-
tidade de emergências glandulares; Fig. A-A2 — T. martiana; Fig. B-Bl — T, castella-
nosu; Fig. Cl — T. grazielae; Fig. D — T. geniculata; Fig. E-El — T. emygdioi; Fig.
r - F 2 — T. aristata; Fig. C — sépalas diafanizadas e distendidas de T. grazielae, vendo-
se a posição das emergências glandulares correspondentes ao diagrama Cl (não foi dese-
nhada a vascularização). Fig. G-Gl — emergências glandulares das axilas das sépalas
de T. guianensis, diafanizadas e focalizadas num plano mediano.
— 247 —

Os lacínios da corola vistos pela face interna mostram o ápice e submarginalmente o


lado esquerdo e o direito glabros na maioria das espécies, excetuando T. propinqua, T.
rnüanezii, T. anstata e '/'. cordata que apresentam o lado direito provido de pêlos. No
restante dos lacínios encontram-se padrões de distribuição do indumento que se peculi-
arizam em determinadas espécies e grupos de espécies. Assim, aquelas espécies que pos-
suem a região axilar glabra, poderiam ser divididas da seguinte maneira:
T. trailiana (PI.3: fig. D - D l ) distingue-se das demais espécies por apresentar pêlos
predominantemente bicelulares (180-135 micrômetros de comp.) do tipo uncinado.
' • leptobotrys, T. castellanosü (PI.3: fig. H, F-F2) e T. aristata (PI.3: fig. I-I4) apresen-
tam uma maior quantidade de pêlos unicelulares (31 -109 micrômetros de compr.) e papi-
las (12-30 micrômetros de compr.). As duas primeiras evidenciam a distribuição mais ou
menos esparsa dos pêlos e papilas, enquanto que /'. aristata os apresenta dispostos den-
samente na região mediana e subapical.
T. martiana, T. emygdioi e T. decaisneana (PI.3: fig. E, B-Bl, A-A2) apresentam a par-
te central da região basal glabra. A primeira espécie apresenta o restante do lacínio com
pêlos predominantemente bicelulares (74-115 micrômetros de compr.) agrupados den-
samente: a segunda mostra em maioria pêlos pluricelulares (2-4 células, 90-186 micrô-
metros de compr.) agrupados densamente nas regiões mediana e subapical e mais espar-
samente nas partes laterais da base; j á T. decaisneana evidencia a presença de pêlos não
agrupados densamente em todo o lacínio, com os maiores pêlos pluricelulares (2-4 célu-
las, 210-285 micrômetros de compr.) situados nas partes laterais da base.
I• ovahjolia e T. grazielae (PI.3: fig. G - G l , C-Cl) apresentam os pêlos agrupados den-
samente por todo o lacínio; a primeira no entanto apresenta os maiores pêlos (2-5 célu-
las, 122-327 micrômetros de compr.) na região basal e os menores (2-3 células, 109-222
micrômetros de compr.) na região mediana e subapical; a segunda espécie apresenta pê-
los (4-12 células, 67-271 micrômetros de compr.) distribuídos de um modo mais ou menos
uniforme, não se encontrando neste caso diferenças marcantes nas dimensões dos pêlos de
uma região para outra.

As espécies pubescentes na região axilar, poderiam ser feitas as referências abaixo for-
muladas:
T. cordata (PI.4: fig. M - M l ) difere das demais espécies por apresentar pêlos pluri-
celulares (3-7 células 187-450 micrômetros de compr.) na região basal, dispostos espar-
samente; uma região mediana com a parte central glabra ou provida esparsamente de pê-
los unicelulares (31-71 micrômetros de compr.) e papilas (15-29 micrômetros de compr.)
ao longo da nervura principal; e a região subapical formada predominantemente de pê-
los unicelulares alongados (240-420 micrômetros de compr.) agrupados densamente.
T. propinqua (PI .4: fig. N) e T. milanezii (PI .4: fig. K) apresentam os pêlos agru-
pados densamente em todo o lacínio; a primeira com seus pêlos predominantemente bice-
lulares e tricelulares (82-166 micrômetros de compr.) do tipo uncinado é bem distinta da
segunda que apresenta pêlos pluricelulares (2-8 células, 50-300 micrômetros de compr.)
não uncinados.
T. valioi, T. geniculata e T. guianensis têm uma característica em comum, a parte
central da base é glabra; T. valioi (PI.4: fig. L-Ll) possui na região axilar e partes late-
rais da região basal, pêlos em sua maioria pluricelulares (2-3 células- 74-210 micrôme-
tros de compr.) de menores dimensões do que as outras duas espécies; T. gemculata
(Pi.4: fig. J-J2) apresenta na região axilar e partes laterais da base, pêlos pluricelulares
(2-3 células, 120-465 micrômetros de compr.) dispostos mais esparsamente e na região
mediana, pêlos (1-2 células, 47-78 micrômetros de compr.) agrupados densamente; T.
guianensis (PI.4: fig. 0-01) é a que apresenta os maiores pêlos localizados na região axi-
lar e partes laterais da região basal, estes (3-7 células, 280-645 micrômetros de compr.)
constituem nesta região um indumento bem denso, ao passo que na parte central da regi-
ão mediana são representados por unicelulares (36-54 micrômetros de compr.) quando
esta parte não se apresenta glabra.
— 249 —

Figura 3.

r l . 3 — lndumento da lace interna dos lacínios da corola: Fig. A-A2 — 7. decaimeana


(A-Al — pêlos da parte basal; A2 — da parte mediana); Fig. B-B1 — 7. emygdioi (B —
pêlo da parte mediana; BI — pêlo da parte subapical); C-Cl — T. grazielae (C — pêlo
da parte basal; Cl — da parte mediana); Fig. D-Dl — T. trailiana (pêlos uncinados, D
— da parte basal; Dl da parte subapical); Fig. E — T. martiana (pêlo da parte media-
na); hig. t-b2 — '/'. castellanosii (F — pêlo unicelular da parte basal; F-l — papila na
parte subapical; F2 — pêlo unicelular da parte mediana), Fig. G-Gl — T. ovalifolia (G
— pêlo da parte basal; Gl — pêlo da parte mediana); Fig. H — T. leptobotrys (pêlo
unicelular da parte basal); Fig. 1-14 — T. aristata (I — pêlo unicelular da parte basal;
11 — pêlo unicelular da parte mediana, 12 — papila da parte subapical; 13 — papila da
parte mediana; 14 — pêlo unicelular da parte subapical).
— 251 —

T. burchellii ( P I . 5 : fig. P-Pl) por apresentar nas regiões basal e mediana pêlos plu-
ricelulares (2-4 células, 159-350 micrômetros de compr.) agrupados densamente, desta-
ca-se facilmente de todas as outras espécies.
T. obovata (PI.5: fig. Q-Q7) é a espécie que mais apresenta variações de indivíduo
para indivíduo, no que diz respeito aos pêlos. Quando a região axilar se apresenta pubes-
cente, aí encontramos os pêlos com o maior número de células (4-18) e com as maiores di-
mensões (108-850 micrômetros de compr.). Independenetemente da ocorrência ou não do
indumento nesta região, poderão ser observadas as seguintes características: a parte cen-
tral da região basal pode ser glabra ou constituída por papilas (10-27 micrômetros de
compr.) e pêlos unicelulares (33-70 micrômetros de compr.) dispostos esparsamente, po-
dendo ocorrer tembém pêlos pluricelulares (2-3 células, 70-161 micrômetros de compr.)
agrupados densamente; as partes laterais da base podem ser glabras ou apresentar
predominantemente pêlos pluricelulares (2-4 células, 51-138 micrômetros de compr.)
densamente agrupados; a região mediana e subapical mostram um indumento denso,
constituído em maior quantidade por pêlos pluricelulares (2-3 células, 49-144 micrôme-
tros de compr.) e em menor quantidade unicelulares (31-73 micrômetros de compr.) e plu-
ricelulares (4-5 células, 114-162 micrômetros de compr.); mais raramente, são localiza-
das nestas regiões, papilas de 9-27 micrômetros de comprimento.

1.6.2.2 — Vascularização

As pétalas são formadas basicamente por 3 nervuras: uma mediana que, via de re-
gra, apresenta poucas ramificações na parte apical e duas secundárias que partindo do
tubo da corola, ligam-se direta ou indiretamente à nervura principal em sua parte supe-
rior.
T. decmsneana, T. guwnensis, T. leptobotrys (PI.6: fig. F, K; PI.7: fig. P) e alguns
exemplares de T. obovata (PI.7: fig. N4), apresentam as nervuras principal e secundá-
rias sem quaisquer ramificações.
Em 7'. grazielae, T. emygdioi, T. cordata, T. valioi e T. ovalifolia (PI .6: fig. G, H , k
I, J ; PI.7: fig. O) as nervuras secundárias ligam-se indiretamente à nervura principal,
por intermédio de nervuras descendentes (geralmente com ramificações curtas e voltadas
para baixo). Às vezes em T. grazielae e T. ovalifolia, uma das nervuras secundárias liga-
se diretamente à nervura mediana.
T. trailiana, T. martiana, T. burchellii, T. propinqua, T. aristata e T. geniculata
P i . 6 : fig. A, B, D, E, L, L I , M ) apresentam as nervuras secundárias soldando-se, dire-
tamente, à nervura mediana ou, indiretamente, por meio de outras nervuras acessórias. A
característica mais saliente neste tipo de vascularização é a presença de um maior número
de ramificações descendentes ou ascendentes, que se originam das nervuras secundárias e
principal, podendo formar com freqüência pequenas malhas.
T. milanezii (PI.6: fig. C) é a que apresenta o sistema de vascularização mais com-
plexo, com as nervuras secundárias ligando-se indiretamente à nervura mediana por in-
termédio de nervuras descendentes que se mostram muito ramificadas.
Em T. obovata e T. castellanosn (PI.7: fig. N-N6, Q) as nervuras secundárias, na
maioria das vezes, ligam-se diretamente à parte apical da nervura mediana e apresentam
freqüentemente ramificações curtas e descendentes, muito raramente ascendentes ou for-
mando malhas. A nervura principal, também apresenta algumas vezes, pequenas ramifi-
cações.

1.6.3 — Corona

A corona é uma estrutura situada entre a corola e o ginostégio, que ocorre em todos
os gêneros brasileiros de Asclepiadaceae, com exceção de Astephanus R. Brown, Hemi-
pogon Decaisne e Nautonia Decaisne.
— 253

.4 — Indumenlo da face interna dos lacínios da corola: fig. J-J — T. gemculata (J-J 1
pêlos que ocorrem nas partes laterais e axilares; J2 — pêlo da parte mediana); fig. K
~T T. milanezii (pêlo da parte basal); L-Ll — T. valioi (L — pêlo da parte basal; LI —
pêlo da parte subapical); fig. M-Ml — T. cordata (M — pêlo unicelular da parte suba-
pical; Ml — pêlo da parte basal); fig. N — T. propinqua (pêlo uncinado da parte basal);
0-01 — f. guianensis (0 — pêlo da parte subapical; 01 — pêlo das partes laterais da ba-
se e axilas).
— 255 —
Figura 5.

Pi .5 — Indumento da face interna dos lacínios da corola; fig. P-Pl — T. burchellii (pêlos
da parte mediana); Q-Q7 — T. obovata (Q, Q7 — pêlos das partes laterais da base; Ql,
Q3 — pêlos da parte mediana; Q2 — papila da parte subapical; Q4 — pêlo da parte su-
bapical; Q5-Q6 — pêlos das partes axilares).
— 257

Pi.6 — Lacinios da corola diafanizados, mostrando a vascularização. Fig. A — T. trai-


liana; fig. B — T. martiana; fig. C — T. milanezn; fig. D — T. burchellii; fig. E — T.
propinqua; fig. F — 7. decaisneana; fig. G — 7. grazielae; fig. H — T. emygdioi; fig. I
7- T. cordata; fig. J — 7. valun; fig. K — 7. guianensis; fig. L — /'. aristata; fig. LI —
»• aristata; fig. M — 7. geniculata.
— 259

"1.7 — Lacínios da corola diatanizados, mostrando a vascularização: Fig. N- 6— T.


obovata; fig. O — T. ovolifolia; fig. P — T. leptobotrys; fig. Q — T. castellanosii.
— 261 —

"J -8 — Segmentos da corona dialani/ados c isolados de '/'. obovata para mostrar a varia-
ção; fig. A1-A3, A6 — segmentos trilobulados; fig. A2 — segmento de uma corona aneli-
•orme; fig. A4, A5 — segmentos intermediários entre a corona trilobulada e aneliforme.
— 263 —

No gênero Tassadia, cada espécie tem uma corona bem característica, razão pela
qual foi estudada usando-se o processo da diafanização, que evidenciou a união dos seus
segmentos na base e uma estrutura sem vascularização.
A corona se insere internamente no ginostégio, logo abaixo da base das anteras e
externamente na parte mais inferior do tubo da corola. Pode ser simples, constando de 5
segmentos como na maioria das espécies ou pode ser dupla, constituída por 5 segmentos
externos e 5 segmentos internos, como em 7. castellanosii, 7. milanezü, 7. martiana, 7.
ovalifolia e 7. aristata.
Os segmentos coroninos podem sofrer pequenas variações em seu comprimento e lar-
gura, mas muito raramente na forma, como em 7. obnvata onde encontramos, ora uma
corona com 5 segmentos trilobulados (PI .8: fig. A l , A3 e A6), ora uma corona aneliforme
(Pi .8: fig. A2) ou estruturas intermediárias entre estes dois tipos (PI .8: fig. A4 e A5).
A importância da forma da corona na identificação das espécies de Tassadia pode ser
verificada nas descrições e estampas encontradas no texto.

1.6.4 — Ginostégio

A união dos estames entre si e a ligação da parte interna e superior das anteras com a
parte dilatada resultante da fusão dos estiletes, forma a estrutura denominada ginostégio
que compreende também os apêndices membranáceos das anteras. Esta estrutura ocorre
em todas as espécies da subfamília Asclepiadoideae.
A relação da altura do ginostégio em comparação com a corona é muito importante
na identificação das espécies. Citando como exemplos temos T. trailiana (PI.28: fig. F),
T. valioi (PI.24: fig. D) e T. burchellü (PI. 18: fig. C, D) cuja corona oculta totalmente
ou quase o ginostégio; já em T. leptobotrys (PI. 46: fig. C, D) e Tpropinqua ( P I . 40:
fig. B, E), a corona é bem mais baixa que o ginostégio.

1.6.5 — Androceu

Como a terminologia das anteras é pouco conhecida, é apresentado na plancha 9, fig.


L), o esquema de uma antera com todas as suas partes, para melhor compreensão do tex-
to.
Os lóculos corri as respectivas polínias (PI.9: fig. A, C, D) ficam situados no dorso
das anteras. A forma das anteras também representa uma característica importante na
determinação das 'Tassadia como pode ser verificado no texto. Porém, em T. obovata
(Pl .9: fig. B-B3) as anteras sofrem algumas variações quanto à morfologia.
De maior importância que as anteras, para a identificação das espécies, são a forma e
as medidas dos transladores (caudículas e retináculo) e das polínias, como pode ser ob-
servado no texto e pelas planchas (10, 11, 12), cujos desenhos foram feitos dentro de uma
mesma escala, para melhor comparação.
O retináculo varia de oblongo a linear ou lanceolado, mas nunca apresenta a forma
orbicular e é desprovido na parte central de uma membrana reticulada. As caudículas são
constituídas, apenas, de corpo principal, desprovidas portanto de membrana reticulada.
As polínias podem em muitos casos ser destituídas de grãos de pólen na parte superior
como em: T. martiana, T. castellanosii (Pl .10: fig. C. E), T. grazielae, T. valioi, (Pl .11:
fig- H, J , L), T. leptobotrys e T. obovata (P1.12: fig. M, Q), ao contrário das demais
espécies.

1.6.6 — Gineceu

Os ovários e estiletes seguem as características da família e por isso não são


utilizados na diagnoses dos gêneros e espécies. J á o estigma é importante tanto na classifi-
cação dos gêneros, como na das espécies; em Tassadia é mamilado e oculto pelos apêndi-
ces membranáceos das anteras, com exceção de 7. guianensis e T. propinqua.
— 265 —

Pi.9 — Anteras, fig. A — T. leptobotrys, face interna, mostrando a posição das polínias
nos lóculos; fig. B, B3 — T. obovata, face externa, evidenciando a variação das anteras;
fig. C — T. ovahfolia, face interna, mostrando a posição das polínias nos lóculos; fig. D
— 7". propinqua, face externa, com a indicação das partes da antera e a posição das polí-
nias.
— 267 —

P i . K) — Transladores e polínias; lig. A — T. guianensis; fig. B — /'. trailiana; lig. Ç


•— 7". martiana; fig. D — T. decaisneana; fig. E — T. castellanosü; fig. F — T. geni-
culata.
269

V. 11 — Iransladores e polínias; lig. G — / . propmqua; lig. H — /'. ovalijolia; lig. I —


7". emygdioi; fig. J — 7'. grazielae; fig. K — /'. cordata; fig. L — T. valioi.
— 271 —

Pi • 12 — Transladores e polínias; fig. M — 7*. leptobotrys; fig. N — 7. milanezii; fig. ü


— 7'. burchellii; fig. F — 7". arislala; fig. Q — 7*. obovata.
— 273 —

1.7 — Fruto

Os folículos são lisos e pubescentes ou glabros. Na maioria das espécies são line-
ar-lanceolados ou lanceolados e providos de um pedicelo, porém em T. traüiana, T. ovali-
foh&e T. milanezü, apresentam-se obliquamente suborbiculares, sésseis ou subsésseis.

As sementes possuem a parte dorsal geralmente convexa e a parte ventral côncava,


são freqüentemente verrugosas, de margens inteiras ou denteadas e variam de ovadas à
oblongas. Podem possuir, como na maioria das espécies, um tufo de pêlos alongados
(coma) na extremidade superior ou serem desprovidas dos mesmos.

Endosperma escasso, cartilaginoso; embrião reto, com cotilédones planos, foliáceos e


radícula curta, conforme as caractetísticas da família.

2 — TRATAMENTO TAXONÓMICO

2.1 —Posição

Decaisne (1844) incluiu Tassadia na Tribus Asclepiadeae por apresentar principal-


mente entre outros caracteres, políneas pendentes e, por possuir uma corona dupla e flores
diminutas, na Divisio Ditassa Endlicher, juntamente com Ditassa R. Brown.

Bentham et Hooker (1876) incluíram Tassadia na Subordo II. Euasclepiadeae Ben-


tham et Hooker, por possuir polínias e não pólen granuloso e na Tribus III. Cynancheae
Endlicher entre os gêneros Metastelma R. Brown e Blepharodon Decaisne, principal-
mente, pela presença de polínias pendentes e solitárias nos lóculos das anteras.

Fournier (1885) situou Tassadia na Tribus Catophorae Fournier por suas polínias
pendentes e na Subtribus Synthetostephanae Fournier, entre os gêneros Glazinstelma
Fournier e Sattadia Fournier. pela presença de uma corona dupla.

Baillon (1890) levando em consideração principalmente, a ocorrência de polínias


pendentes e solitárias em cada lóculo das anteras do gênero Tassadia colocou-o na Séries
I. Asclepiadeae, entre os gêneros Metastelma e Sattadia.

Schumann (1895) incluiu Tassadia na Subfamília C.ynanchoideae Schumann por


apresentar polínias e retináculo, na Tribus Asclepiadeae por possuir polínias pendentes e
na Subtribus Asclepiadinae entre os gêneros Metastelma e Ditassa, pela prefloração val-
var, caudículas sem cornículos laterais e corona desenvolvida, com os segmentos livres en-
tre si ou somente soldados na base.

Woodson (1941) considerou Tassadia como um sinônimo de Cynanchum L.- inclu-


indo este gênero na Tribus Asclepiadeae devido à presença de polínias pêndulas, com as
faces aplanadas ou arrendondadas e uniformente férteis na inserção com os transladores.

Não concordamos com o ponto de vista de Woodson, acima exposto, porque: l.fi —
Woodson não transferiu nenhuma espécie de Tassadia para o gênero Cynanchum, pois
não chegou a estudar, nem os "typi", nem as coleções de Tassadia; 2.» — não possuía um
profundo conhecimento sobre as espécies de Asclepiadaceae da América do Sul, para in-
cluir na sinonímia de Cynanchum vários gêneros; 3.» — Tassadia foi considerado como
um bom gênero, todos os autores clássicos que estudaram a família Asclepiadaceae e mais
recentemente, por Malme (1927) (1939) e Jonker (1940); 4.» — Tassadia é bem distinto
dos demais gêneros da família, principalmente por apresentar flores dispostas em pleiotir-
— 274 —
f
sos ou tirsos axilares, retináculo oblongo, linear ou lanceolado, desprovido na parte
central de uma membrana reticulada, caudículas providas apenas de corpo principal e
estigma geralmente mamilado.
Analisando os sistemas de classificação da família Asclepiadaceae, verifica-se que a
estrutura de todos eles se fundamenta nos sistemas elaborados por Robert Brown (1810)
eEndlicher(1838).

Tanto o de Decaisne (1844), como os de Bentham et Hooker (1876) Fournier


(1885), Baillon (1890), Schumann (1895), Woodson (1941) e Wagenitz (1964) refletem a
filosofia dos dois primeiros sistemas, modificando-se, apenas, as denominações das cate-
gorias, que ora são grupos- ora subordens, tribos, séries ou subfamílias.

O sistema elaborado por Wagenitz (1964) e publicado na última edição do "Sylla-


bus der Fflanzenfamilien" é o que reúne maior clareza, objetividade e simplicidade em
sua exposição, daí ter sido o escolhido para base de nossos trabalhos.

Nesse sistema de classificação, as Asclepiadaceae são divididas em duas subfamílias:


Penplocoideae (R. Brown) Schumann e Asclepiadoideae. Na segunda subfamília, foram
incluídas as tribos: Asclepiadeae, Secamoneae (Endlicher) Decaisne, Marsdenieae Ben-
tham et Hooker {Tylophoreae p.p.), Ceropegieae Bentham et Hooker {Tylophoreae p.p.)
e Gonolobeae Endlicher.

Embora Wagenitz não tivesse citado o gênero Tassadia está subtendido que, pelas
suas polínias, filetes curtos soldados ao gineceu, anteras com 1 saco polínico em cada teca,
transladores com 1 retináculo e duas caudículas, cada qual com uma polínia, ele deva ser
incluído na subfamília Asclepiadoideae, e pelas polínias pendentes, na tribo Asclepiadeae,
próximo aos gêneros Ditassa R. Brown, Stenomeria Turczaninow e Metastelma R.
Brown.

Podemos separar esses gêneros pelos seguintes caracteres:

A — Flores dispostas em pleiotirsos ou tirsos axilares.


B — Estigma rostrado e glabro; retináculo orbicular ou quase, possuindo
na parte central uma membrana reticulada Stenomeria
Turczaninow.
BB — Estigma mamilado e, quando rostrado, pubescente; retináculo de
oblongo a linear, desprovido na parte central de membrana reticulada
Tassadia Decaisne.
AA — Flores dispostas em cimeiras umbeliformes extra-axilares e alternas.
C — Corona simples Metastelma R. Brown.
CC — Corona dupla Ditassa R. Brown.

2.2 — Descrição do Gênero

Tassadia Decne.

Decaisne in DC. prodr. 8:579.1844; Bentham et Hooker, Gen. PI.2: 756.1876;


Fournier in Mart. F l . Brás. 6 (4): 227.1885; Baillon, Hist. PI.10: 250.1890; Schumann
in Engler et Prantl, Nat. Pflanzenf. 4 (2): 242.1895; Jonker in Pulle, A. F l . Suriname,
IV (II). Meded. Kol. Inst. Amst. 30 (11): 353.1940.
= Madarnsperma Bentham in Bentham et Hooker, Gen. PI.2:1241.1876; Fournier
in loc. cit. 212; Baillon, loc. cit. 252; Schumann in loc. cit. 240. (Holotypus-Madarosper-
ma trailiana Bentham in loc. cü.) Syn. nov.
— 275 —

= Glazwstelma Fournier in toe. cit. 227'; Baillon, loc. cit. 252; Schumann in loc. cit.
259. (Holotypus-Gtaziostelma ovalijolium Fournier in loc. cit.). Syn nov.

Plantas volúveis. Folhas pecioladas, com as lâminas providas na página superior,


junto à inserção do pecíolo, de 2-3 pêlos glandulares. Flores dispostas em pleiotirsos ou
tirsos axilares, opostos ou alternos, ocorrendo freqüentemente com estes tipos, cimeiras
umbeliformes axilares ou extra-axilares que podem ainda estar dispostas em râmulos flo-
ríferos áfilos. Estas cimeiras são providas na base de 1-2 brácteas lanceoladas ou ovadas,
agudas ou obtusas, externamente pubescentes e internamente glabras. Cálice quincun-
cial, com as sépalas providas geralmente na face interna, junto às axilas, de 1-2 emergên-
cias glandulares. Corola geralmente de prefloração valvar, rotácea, campanulada, subcam-
panulada ou urceolada, externamente glabra, internamente provida de um indumento
muito variável, porém com o tubo freqüentemente glabro; lacínios erectos, patentes ou
reflexos, oblongos ou ovado-oblongos, portadores de uma nervura mediana e duas secun-
dárias. Corona simples ou dupla, inserindo-se internamente no ginostégio e externamen-
te na parte mais inferior do tubo da corola. Ginostégio séssil, oculto pela corona ou niti-
damente visível. Retináculo oblongo, linear ou lanceolado, desprovido na parte central
de uma membrana reticulada. Caudículas providas apenas de corpo principal. Estigma
geralmente mamilado e oculto pelos apêndices membranáceos das anteras. Folículo liso,
linear-lanceolado, lanceolado ou suborbicular. Sementes geralmente ovadas ou oblongas,
freqüentemente verrugosas, providas ou não de coma, com a parte dorsal convexa e a
parte ventral côncava.

Lectotypus-Tassadia obovata Decaisne.


T. obovata foi escolhida como espécie genérica, por apresentar detalhes que constam
na descrição original de Tassadia não apresentados nas descrições de outras espécies por
Decaisne, como "râmulos floríferos numerosos e massas polínicas pêndulas com o ápice
atenuado presas por funículos geniculados".

O gênero Madarosperma foi criado por Bentham (1876) in Bentham et Hooker. que
colocou este gênero na Subordo II. Euasclepiadeae Bentham et Hooker por possuir polí-
nias e não pólen granuloso e na Tribus Cynancheae Endlicher por apresentar polínias
pendentes e solitárias nos lóculos das anteras. Madarosperma, monotípico na época em
que foi descrito, foi incluído por Bentham entre Stenomena e Blepharodon, que o distin-
guiu dos demais gêneros pela corola quase legeniforme, sementes desprovidas de coma,
declarando também que as flores eram dispostas em cimeiras ou fascículos axilares.

Fournier (1885) incluiu Madarosperma na Tribus Catophorae Fournier e na Sub-


tribus Metastelmatae Fournier ao lado do gênero Husnotia Fournier. A Subtribus Me-
tastelmatae Fournier se distingue da Subtribus Synthetostephanae Fournier (da qual faz
parte o gênero Tassadia) por sua corona simples. O referido autor, abaixo da redescrição
de Madarosperma, fez duas observações; na primeira disse que "freqüentemente os botõ-
es florais deste gênero, que são lesados por insetos, aparecem largamente ovóides, e,
quando abertos, ostentam uma corola extravagante, com tubo muito longo. O mesmo já
foi anteriormente observado pelo ilustre Decaisne em Tassadia leptobotrys e também pe-
lo célebre Bentham, no gênero Sphaerocodon\ Na segunda observação, informa "que
descreveu duas espécies, porém, com uma certa dúvida".

"Quanto à primeira observação, podemos dizer que verificamos a ocorrência de tais


botões lesados por insetos em Tassadia traüiana e em Tassadia propinqua, mas não em
Tassadia leptobotrys. Em relação à segunda observação, devemos ressaltar que a dúvida
de Fournier tinha fundamento, pois das duas espécies por ele descritas como novas, uma
(Madarosperma anpecurense) ficou como sinônimo de Tassadia martiana e a outra
(Madarosperma conjusum) foi excluída do gênero Tassadia por pertencer ao gênero Di-
tas sa.
— 276 —

Baillon (1890) redescreveu Madarosperma Bentham, incluindo-o na Series Ascle-


piadeae entre os gêneros Scyphoslelma Baillon e Blepharodon.

Schumann (1895) redescreveu o gênero Madarosperma apontando somente uma es-


pécie, ou seja, Madarosperma Irailiana. Incluiu o referido gênero na Subfamilia Cynan-
choideae Schumann, Tribus Asclepiadeae e Subtribus Asclepiadinae, entre os gêneros
Stenomeria c Metastelma.

O gênero Glaziostetma foi descrito originalmente por Fournier (1883) que o incluiu
na Tribus Catophorae e Subtribus Synthetoslephanae, distinguindo-o de Tassadia por
apresentar caudículas hipocrepiformes. Fournier fez uma boa descrição dos transladores
e polínias de Glaziostelma, porém se enganou ao afirmar que era um subarbusto erecto,
que as flores eram dispostas em cimeiras fasciculadas axilares e que o cálice não tinha
glândulas. Além de ser uma planta volúvel, as sépalas apresentam pêlos glandulares em
suas axilas, fatos aliás já mencionados por Schumann (1895).

Baillon (1890) redescreveu Glaziostelma e o incluiuna Series Asclepiadeae entre os


gêneros Scyphostelma Baillon e Lagoa Durand.
277 —

PI. 13 — Distribuição geográfica do gênero Tassadia Decne


— 279 —

Schumann (1895) incluiu o gênero Glazwstelma Fournier na Subfamilia Cynan-


choideae Schumann, Tribus Asclepiadeae e, por imaginar que o referido gênero tinha
prefloração torcida, colocou-a na Subtribus Cynanchinae (Endlicher) Schumann, ao lado
do gênero Üecanema Decaisne.
Temos observado que, em algumas Asclepiadaceae, o fruto não é caráter bastante
lorte para distinguir um gênero do outro. Assim, temos frutos extremamente semelhantes
entre dois gêneros completamente distintos (inclusive de tribos diferentes) como por exem-
plo em Oxypetalum unghtianum Hooker et Arnott e Matelea marítima (Jacquin) Wo-
odson, cujo epicarpo é coberto em toda extensão por projeções ou gibas tuberculadas.
Quanto à presença de coma, achamos por bem, não dar muita ênfase a essa caracte-
rística, pois recentemente Fontella et Marquete (1975) descreveram Astephanusgrazielae,
uma espécie com sementes desprovidas de coma, num gênero (Astephanus R. BrownJ
cujo fruto era caracterizado pela presença de um tufo de pêlos, numa das extremidades das
sementes.
Após o exame de um maior número de exemplares do que o estudado pelos autores
dos gêneros Madarasperma e Glaziostelma, verificamos que as espécies desses táxons pos-
suem as flores dispostas em tirsos axilares alternos ou opostos, ocorrendo freqüentemente
com este tipo, cimeiras umbeliformes ou corimbiformes, axilares ou extra-axilares, que
podem ainda se encontrar dispostas em râmulos floríferos áfilos. Além dessa característica,
apresentam outras que são comuns ao gênero Tassadia daí a inclusão deles na sua sinoní-
mia.
Etimologia — o nome Tassadia é um anagrama do gênero Ditassa R. BR.
Distribuição geográfica: gênero exclusivo da faixa neotropical, ocorrendo nos seguin-
tes países: COSTA RICA, T R I N I D A D , PANAMÁ, BOLÍVIA, P E R U , E Q U A D O R ,
C O L Ô M B I A , V E N E Z U E L A , GUIANA, S U R I N A M E , GUIANA FRANCESA E
BRASIL nos seguintes Estados: Acre, Amazonas, Pará, Maranhão, Bahia, Minas Gerais,
Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Goiás e nos Territó-
rios de Roraima e Amapá (PI. 13).

2.3 — Chave para as Espécies

A — Estigma rostrado e penicilado no ápice


1-7". guianensis
AA — Estigma mamilado.
B — Corola com prefloração torcida e, geralmente, apresentando na flor
aberta os lacínios levemente espiralados no ápice
2-7". decaisneana
BB — Corola com prefloração valvar e nunca apresentando na flor aberta
os lacínios espiralados no ápice.
C — Lacínios da corola providos densamente de barbelas na base e parte
mediana
3-7". burchellu
CC — Lacínios da corpla com a base glabra, papilosa, pubescente ou pube-
rulenta, nunca providos de barbelas na parte mediana.
D — Segmentos da corona longamente exsertos e geniculados
4-7". geniculata
D D — Segmentos da corona inclusos na corola e não geniculados.
E — Lacínios da corola com as margens reflexas e com pêlos unicelulares
bastante alongados (240-420 micrômetros de compr.) na parte su-
bapical
5-7". cordata.
— 280 —

LE — Lacínios da corola com as margens não reflexas e com pêlos unicelu-


lares (quando ocorrem 31-120 micrômetros de compr.) não chegan-
do às dimensões anteriores.
F — Ginostégio totalmente oculto pelos segmentos da corona ou visíveis
apenas os ápices das asas das anteras e os apêndices membranáceos.
G — Flores dispostas em pleiotirsos axilares; segmentos da corona trilo-
bulados
6-7". valioi.
GG — Flores dispostas em tirsos axilares ou em râmulos floríferos áfilos;
segmentos da corona inteiros.
H — Indumento ferrugíneo; lacínios da corola com a face interna provida
de pêlos de 4-12 células (67-271 micrômetros de compr.) não uncina-
dos; segmentos da corona largo-ovados ou suboblongos, ápice arre-
dondado, obtuso ou truncado, com as margens geralmente inflexas;
retináculo e polínias mais ou menos do mesmo comprimento; caudí-
culas descendentes; fruto linear-lanceolado, 32-35 mm de compri-
mento, 2-2,5 mm de largura na parte mais dilatada
7-7". grazielae
H H — Indumento não ferrugíneo; lacínios da corona com a face interna
provida de pêlos de 1-3 células (31-135 micrômetros de compr.) ge-
ralmente uncinados; segmentos da corona triangular-alongados,
agudos no ápice, com as margens não inflexas; retináculo sempre
bem menor que as polínias; caudículas horizontais; fruto suborbi-
cular, 12-16 mm de compr., 10-12 mm de larg. na parte mais dila-
tada
8-7". trailiana
FF — Ginostégio não oculto pelos segmentos da corona.
I — Dorso das anteras visivelmente mais prolongado que as asas; caudí-
culas levemente denteadas em toda a extensão da margem inferior;
polínias com o comprimento (0,349-0,392 mm) 5-7 vezes maior do
que a largura (0.043-0, 063 mm)
9-7". ovalifolw.
II — Dorso das anteras mais curto ou do mesmo comprimento que as asas;
caudículas não denteadas em toda a extensão da margem inferior,
polínias no máximo com o compr. 2-3 vezes maior do que a largura.
J — Corona dupla.
L — Lacínios da corola com 0,8-1,2 mm de compr.; retináculo com
0,027-0,037 mm de largura
10-7". castellanosii
LL — Lacínios da corola com 1,5-1,8 mm de compr. retináculo com 0,063-
-0,132 mm de largura.
M — Ramos, râmulos e folhas tomcntosos; parte locular das anteras sub-
quadrada; caudículas geniculadas próximo às polínias
11-7". arislata
M M — Ramos, râmulos e folhas levemente pubescentes ou glabrescentes;
parte locular das anteras trapezoidal; caudículas geniculadas próxi-
mo ao retináculo ou na parte mediana.
N — Corola com o tubo, fauce, região axilar, e parte central da base dos
lacínios glabros; segmentos internos da corona da mesma altura que
o ginostégio ou alcançando somente o ápice dos lóculos das anteras;
retináculo menor ou igual em comprimento às polínias
12-T. marúana
NN — Corola com o tubo, fauce, região axilar e parte central da base dos
lacínios pubescentes; segmentos internos da corona ultrapassando
— 281 —

em altura a parte mediana das anteras, mas não alcançando o ápice


dos lóculos das mesmas; retináculo nitidamente superior em compri-
mento às polínias
13-7". müanezii
J J — Corona simples.
O — Estigma exserto. Polínias oblongas ou subelípticas, denteadas na
extremidade inferior
14-7". propinqua
O O — Estigma incluso. Polínias ovadas ou clavadas, não denteadas na ex-
tremidade inferior.
P — Lóbulo mediano dos segmentos da corona lanceolado ou ovado-lan-
ceolado, com o ápice agudo ou obtuso, 0,38-0,43 mm de compr.;
retináculo bem mais alongado que as polínias
15-/'. emxpdioi
P P — Lóbulo mediano dos segmentos da corona (exceto quando anelifor-
me) suborbicular, subovado ou subquadrado, com o ápice arredonda-
do ou truncado; retináculo ligeiramente mais alongado, igual ou me-
nor em comprimento que as polínias.
Q — Órgãos vegetativos e pedicelo pubescentes; parte locular das anteras
trapeziforme, com as asas bem divergentes na parte inferior; caudí-
culas geniculadas próximo ao retináculo
16-7". obovata
Q Q — Órgãos vegetativos aparentemente glabros, porém levemente pu-
bescentes; pedicelo glabro; parte locular das anteras subquadrada ou
sub-retangular, com as asas paralelas ou quase, caudículas genicula-
das próximo às polínias
17-7". leptobotrys.

2.4 — Descrição das Espécies

1. Tassadia guianensis Decne.


(P1.2:fig. G - G 1 ; P 1 . 4 : fig. 0-01; PI. 6: fig. K; PI. 10:fig. A; PI. 14; PI. 1D)
Decaisne in DC. Prodr. 8:579.1844; Bentham et Hooker, Gen. PI. 2:756.1876;
Schumann in Engler u. Prantl, Nat. Pflanzenf. 4 (2): 242.1895; Pulle, Enum. Vasc. PI.
Surinam: 388.1906; Jonker in Pulle, A. Fl. Suriname, IV (II). Meded. Kol. Inst. Amst.
30 (11): 353.1940; Fontella, Atas Simpósio Biota Amazônica 4(Bot.): 102. Fig. 2.1967.

• Cynanchum guianense (Decaisne) R. Holm. Fieldiana28 (3): 507.1953. Syn. nov.


Ramos e râmulos pubescentes ou tumentosos. Pecíolos pubescentes, 3-8 mm de
compr.; lâminas de elípticas ou oblongo-elípticas a ovadas ou ovado-lanceoladas, coriáce-
as, página superior geralmente bulada e glabra, com exceção da nervura principal que é
pubescente, página inferior pubescente, pêlos erectos, base truncada, subtruncada ou
aguda, ápice acuminado, 32-75 mm de compr., 15-35 mm de largura. Tirsos axilares
opostos ou alternos, ocorrendo ainda com este tipo, cimeiras, umbeliformes ou corimbifor-
mes, axilares ou extra-axilares, localizadas com freqüência em râmulos floríferos áfilos.
Raque pubescente ou tomentosa. Cimeiras umbeliformes sésseis ou providas de 1 pedún-
culo pubescente, 1-3 mm de comprimento. Flores alvas ou amareladas; pedicelos pubes-
centes, 0,7-1 mm de compr.; bractéolas ovadas ou ovado-triangulares, agudas no ápice,
externamente pubescentes e internamente glabras, a maior 0,83-98 mm de compr.,
0,86-0,94 mm de largura as duas menores 0,63-0/70 mm de compr., 0,50-0,61 mm de.lar-
gura. Sépalas ovadas, agudas ou obtusas, externamente glabras ou levemente pubescentes,
1-1,2 mm de c o m p r . , 0,8-1 mm de l a r g u r a . C o r o l a campanulada
— 282 —

ou sub-campanulada; tubo internamente glabro ou com pêlos esparsos na parte superior,


0,8-1,2 mm de compr.; fauce pubescente ou glabra; lacínios erectos ou reflexos, ovado-
oblongos,agudos ou obtusos, densamente pubescentes nas axilas e partes laterais da base
lateralmente puberulentos na parte mediana e com pêlos agrupados densamente na
região subapical, 2-2,5 mm de compr., 1-1,3 mm de largura. Corona simples, cornos seg-
mentos trilobulados não ultrapassando em altura os apêndices membranáceos das ante-
ras: lóbúlo mediano subquadrado ou subretangular, provido externamente de uma prega
hialina inteira, denticulada ou crenulada, subtruncado no ápice, 0,43-0,54 mm de
compr., 0,45-0,48 mm de larg. no ápice; lóbulos laterais oblongos ou linear-oblongos,
0,32-0,39 mm de compr., 0,08-0,11 mm de larg. na base. Anteras com a parte locular tra-
peziforme, apresentando as asas mais prolongadas que o dorso e bem divergentes, 0,37-
0,54 mm de compr., 0,54-0,62 mm de larg. na base, 0,36-0,38 mm de larg. no ápice;
apêndices membranáceos 0,39-0,56 mm de compr., com a parte apical triangular ou ova-
do-triangular. Retináculo oblongo, obtuso ou subtruncado no ápice, maior, menor ou
igual em comprimento as polínias, 0,172-0,274 mm de compr., 0,063-0,084 mm de lar.
na parte mediana; caudículas subhorizontais, levemente ascendentes e geniculadas próxi-
mos as polínias, 0,072-0,109 mm de compr., 0,008-0,013 mm de larg. na inserção com o
retináculo, 0,046-0,065 mm de larg. na inserção com as polínias; polínias oblongas,
oblongo-elípticas ou subelípticas, com as extremidades arredondadas ou obtusas, 0,155-
0,210 mm de compr., 0,076-0,086 mm de larg. na parte mediana. Estigma rostrado, niti-
damente exserto, subcilindrico, cônico ou subcônico, penicilado no ápice, 1-1,5 mm de
comprimento. Pedicelo frutífero glabro, 2 mm de compr., fruto lanceolado-alongado, mais
dilatado acima da base, 25-27 mm de compr., 5-7 mm de largura. Sementes ovadas ou
subovadas, 4-7 por fruto, com as margens denteadas ou crenuladas, densamente verru-
gosas, parte dorsal convexa e parte ventral côncava, 10-12 mm de compr., 4-6 mm de
larg. acima da base; coma 10-H mm de comprimento.

Localidade típica: in Guiana galica et in Guiana anglica.


Lectotypus: 1838, leg. Leprieur (P).
Distribuição geográfica: Peru, Guiana, Suriname, Guiana Francesa e Brasil no Es-
tado do Pará.
Planta ocorrente em formações ripárias e, esporadicamente, em Brejo dentro de flo-
resta queimada, em altitudes que vão desde o nível do mar até 125 m s.m. Floresce de
agosto a abril e frutifica no mês de fevereiro. Seu nomegmanensis é derivado das Guianas
onde foi coletada primeiramente por Poiteau. Leprieur, Perrottet (Guiana Francesa) e R.
H. Schomburgk (Guiana).

. Material examinado;

PERU — Ost. Peru, Stromgebiet des Ucayali von 10.» S. bis zur Mündung, 1923, leg. G.
Tessmann 3407 (F, G, S); Dept. Loreto, Gamitanacocha, Rio Mazán, 22-.1.1935, leg.
M. Schunke 99 (F , US); Dept. Loreto, Rio Mazán, Salinas Trail, 11.1935, leg. M.
Schunke 390 (F , US).
GUIANA — 1837, leg. R. H. Schomburgk 374 (G, L, P).
SURINAME — 1862, leg. Kappler 55 (L); Fluv. Saramacca sup.,leg. Pulle 201 (U); ad
vias distr. Para, 1I-1V.1844, leg. Kappler 1410 (G, M O , S, T U B , U); Wilhelminage-
bergte, 1939, Forestry Bureau Suriname 7177, leg. Stahel (U); Boven-Lucierivier,
9.IV.1926, Forestry Bureau Suriname 7130, leg. Stahel (U); Marowijne River,
14.11 1949, Leg. Lanjouw 2061 (IAN, U); Gonini River, 4.III. 1918, Forestry Bureau
Suriname 3793, leg. J. W. Gonggryp 90 (U); Distr. Marowijne, Moengo, 4.X.1961,
leg. W. Hekking 1047 (U); Marowijne Distr., E. of Perika River. 16.VIII.1965, leg. J.
van Donselaar 2551 (U); Fluv. Nickerie Sup., 24.11.1915, Forestry Bureau Suriname
1049 (U); Gonini River, 20-11-1918, Forestry Bureau Suriname 3819, leg. I. W. Gon-
ggryp 29 (U);
— 283

PI. 14 — '/'. guianensu: Fig. A-Flor vista de perfil; Fig. B flor desprovida de cálice e co-
rola, mostrando a corona, os apêndices membranáceos das anteras e parte do estigma;
Fig. C estigma; Fig. D segmento da corona isolado, face externa; Fig. E antera, face ex-
terna; Fig.F frutos; Fig.G semente.
— 285 —
pt. 1 s - T. guianen.m

Fig. B — Distribuição geográfica.


— 287 —

GUIANA FRANCESA — 1838, leg. Leprieur (P); 1839, leg. Leprieur (G); 1840, leg.
Leprieur (G); leg. Perrottet (P); leg. Poiteau (P).

BRASIL
Pará — Serra de Tumucumaque, Alto Cuminá, 13.XII.1928, lee. A. I. Sampaio
5875 (R). ^ . .
Tassadia guianensis descrita originalmente por Decaisne (1844), foi citada por
Bentham et Hooker (1876) no Genera Plantarum, que a distinguiram das demais espé-
cies de Tassadia, pelas flores um pouco maiores e o estigma prolongado num rostro pilo-
so. Aliás, foram estes dois autores, os primeiros a salientar este caráter bastante impor-
tante.
Schumann (1895) fez referência à Tassadia guianensis inserindo-a no item de sua
chave B. "Narbenkopf schnabeljormig".
Pulle (1906), citou T. guianensis, sem no entanto descrevê-la, em sua Enumeração
de Plantas para a Flora do Suriname,
Jonker (1940) foi o único botânico a fazer uma redescrição muito boa de T. guianen-
sis, mencionando porém, em seu trabalho uma corona dupla e polínias ovóides, quando
na realidade, observamos a presença de uma corona simples e polínias oblongas ou oblon-
go-elípticas.
Holm (1953) fez uma combinação nova, transferindo T. guianensis para o gênero
Cynanchum L., citando logo após o material Steyermark n.« 56996 que por nós examina-
do corresponde a Tassadia martiana Decne. e não a T. guianensis. Além disso, Fontella
(1967) já havia considerado muito boa a subordinação dê T. guianensis ao gênero Tassa-
dia, principalmente, pelo tipo característico da inflorescência, relacionando-a pela pri-
meira vez para a Flora do Brasil e fornecendo uma foto de seu "lectotypus" até então não
divulgada.

2. Tassadia decaisneana Miq.


(PI. 3; fie. A-A2; PI. 6: fig. F; PI. 10: fie. D; PI. 16; PI. 17)
• Metastelma decaisneanum (Miquel) Pulle, Enum. Vasc. PI. Surinam: 388.1906
"Metastelma decaisneana (Miquel) Bentham", non Metastelma decaisneanum Schlech-
ter 1899; Jonker in Pulle, A. Fl. Suriname, IV (II). Meded. Kol. Inst. Amst. 30 (11):
352.1940 "Metastelma decaisneana" (Miquel) Bentham et Hooker ex Jackson, Ind.
Kew. 3:220.1894. "Syn. Nov.
Ramos glabros e râmulos pubescentes, pecíolos aparentemente glabros, porém, pu-
bescentes, 3-7 mm de compr.; lâminas lanceoladas ou elíptico-lanceoladas, subcoriáceas,
levemente pubescentes, pêlos adpressos, base aguda ou obtusa, ápice acuminado, 40-55
mm de compr., 11-26 mm de largura. Tirsos ou pleiotirsos axilares, opostos ou alternos.
Raque unilateralmente pubescente. Cimeiras umbeliformes sésseis ou subsésseis. Flores
alvas ou verde-pálidas; pedicelos glabros, 3-4 mm de compr., bractéolas ovadas ou ovado-
triangulares, agudas no ápice, glabras, maior 0,78-1,02 mm de compr., 0,78-0,99 de lar-
gura, as duas menores 0,55-0,71 mm de compr., 0,34-0,63 mm de largura. Sépalas ova-
das, agudas ou obtusas, externamente glabras ou com pêlos esparsos, 0,7-1,2 mm de
compr., 0,8-1 mm de largura. Corola campanulada ou subcampanulada; tubo glabro,
0,8-1,2 mm de compr., fauce glabra; lacínios erectos ou suberectos, retos ou torcidos na
parte superior, lineares ou linear-oblongos, agudos ou obtusos, pubescentes nas partes la-
terais da base e daí em diante puberulento-papilosos, 2-2,5 mm de compr., 0,6-1 mm de
largura. Corona simples mal ultrapassando em altura a parte mediana das anteras; seg-
mentos retangulares ou subretangulares, margens inteiras, crenuladas ou onduladas, ápi-
ce truncado ou sub-truncado, 0,22-0,35mm de compr., 0,60-0,68 mm de largura. Anteras
com a parte locular triangular ou subtriangular, apresentando as asas mais prolongadas
que o dorso e bem divergentes, 0,34-0,42 mm de compr., 0,57-0,59 mm de largura, na ba-
se, 0,22-0,29 mm de larg. no ápice; apêndices membranáceos 0,14-0,17 mm de compr.,
com a parte apical triangular ou subtriangular e incumbente. Retináculo oblongo, obtuso
— 289

nrr

mm

PI. 16-7. decaisneana, Fig. A — botão, Fig. B — flor vista de perfil; Fig C — flor des-
provida de cálice e corola, mostrando a corona e o ginostegio; Fig. D — antera, face ex-
terna, Fig. E — segmento da corona e antera, vistos pela face externa; Fie. F — frutos-
rig. O — semente.
— 291 —

PI. 17 — 7. decaisneana

Fig. A — Fotografia do Hoíotypus

Fig. B — Distribuição geográfica


— 293 —

ou sübtruncado no ápice, 0,102-0,141 mm de compr., 0,035-0,048 mm de larg. na parte


mediana; caudículas ascendentes, geniculadas próximo às polínias 0,031-0,053 mm de
compr., 0,011-0,016 mm de larg. na inserção com o retináculo, 0,018-0,024 mm de larg.
na inserção com as polínias; polínias ovadas ou ovado-olongas, parte superior mais estrei-
tada do que a inferior, mais alongada ou quase do mesmo comprimento que o retináculo,
0,110-0,149 mm de compr., 0,042-0,074 mm de larg. abaixo da parte mediana. Estigma
oculto pelos apêndices membranáceos. Pedicelo frutífero glabro, 4-6 mm de compr., fruto
linear-lanceolado ou lanceolado-alongado, levemente pubescente, ápice geralmente incur-
vado, 18-24 mm de compr., 1-1,5 mm de larg. na parte mais dilatada onde apresenta al-
gumas calosidades. Sementes oblongas ou subelípticas, 1-3 por fruto, longitudinalmente
estriadas, parte dorsal convexa e a ventral côncava, 5-5,5 mm de compr., 1-1,3 mm de
larg. logo abaixo da parte mediana; coma 20-22 mm de comprimento.

Localidade típica: Surinam


Holotypus: leg. H. C. FockeóOl (U).
Distribuição geográfica: Suriname
Planta encontrada perto de rios e de áreas cultivadas. Floresce de abril a julho e fru-
tifica em junho-julho. Miquel deu à esta espécie o nome de decaisneana, em homenagem
ao ilustre botânico belga Joseph Decaisne (1807-1882), um dos maiores especialistas em
Asclepiadaceae.

Material examinado:

SEM P R O C E D Ê N C I A — 1840, leg. H . F . Talbot, Herb. Sims (K).


S U R I N A M E — 1842, leg. H. C. Focke 601 (K,U); Commewijne River, plantation
Slootvvyk, 18.VII.1913, leg. Soeprato 3 1 H (U).
Tassadia decaisneana foi a primeira espécie do gênero apresentada por Miquel
(1844), com uma excelente descrição e ilustrada por uma belíssima estampa. Concorda-
mos com este autor no que se refere à colocação deste binômio do gênero Tassadia, princi-
palmente pelas características das flores, dispostas em tirsos ou pleiotirsos axilares.
Bentham et Hooker (1876) afirmavam que Tassadia decaisneana era uma espécie de
Metastelma R. Brown.
Pulle (1906) fez apenas uma citação simples em seu trabalho de "Metastelma decai-
neanum (Miq.) Bth." e deu como basiônimo Tassadia decaisneana Miquel, considerando
portanto que Bentham et Hooker haviam transferido este último táxon para o gênero
Metastelma.
Jonker (1940) além de apresentar uma boa descrição, considerou esta espécie como
Metastelma decaisneana, aceitando como autores desta combinação Bentham et Hooker,
baseando-se pois no Index Kewensis (1894). Na realidade, Bentham et Hooker não fize-
ram nenhuma combinação nova, como foi descrito nos trabalhos de Pulle e Jonker, mas
apenas declararam após a descrição do gênero Tassadia que Tassadia decaisneana era
uma espécie de Metastelma.
Também uma simples referência ao Index Kewensis, como fez Jonker (1940) não po-
de ser levada em consideração, em virtude da aplicação do Art. 33 do International Code
of Botanical Nomenclature por Stafleu et ai. (1972). Se considerássemos esta espécie
como pertencente ao gênero Metastelma, a combinação dada na obra de Pulle (1906), se-
ria a mais correta, porém escrita da seguinte maneira "Metastelma decaisneanum
(Miquel) Pulle. No entanto, o referido epíteto, não pode ser empregado dentro do gênero
Metastelma, devido a existência de um homônimo anterior, ou seja, Metastelma decais-
neanum Schlechter.

3. Tassadia burchellii Fourn.

(Pl.Sfig. P - P l ; P1.6:fig. D; PI. 12: fig. O; PI. 18; PI. 19)


— 294 —

Fournier m Mart. F l . Brás. 6(4): 230.18.85.


= Metastelma uncinatum Fournier in Inc. cit. 211. (Habitat in Serra de Christaes, leg.
Pohl n.815 in herb. Vindob.: Holntypus-W). Syn.nov.
= Tassadia multiflora Malme, Ark.f.bot.29A (Í3): 4.1939; Hoehne, Ind. Bibliogr. Num.
PI. Coll. Rondon-. 336.1951; Fontella, Atas Simpósio Biota Amazônica 4 (bot.):
104.1967. (Matto Grosso, Cabeceira do Rio Arinos Nov. 1914, Comissão Rondon n.
1259, leg. F. C. Hoehne, Hab. in paludibus: Holotypus-S; Isotypus-K). Syn-nov.

Ramos glabros e râmulos unilateralmente pubescentes. Pecíolos levemente pubescen-


tes, 7-9 mm de compr., lâminas de elípticas ou subelípticas a ovado-lanceoladas ou
lanceoladas, coriáceas, aparentemente glabras, porém suavemente pubescentes, pêlos ad-
pressos, base truncada, subtruncada, obtusa ou aguda, ápice acuminado ou mucronado,
57-70 mm de compr., 23-30 mm de largura. Tirsos axilares opostos, mais raramente al-
ternos, ou ocorrendo com este tipo cimeiras umbeliformes axilares que podem ainda se en-
contrar dispostas em râmulos floríferos áfilos. Raque unilateralmente pubescente. Cimei-
ras umbeliformes providas de um pedúnculo levemente pubescente. 0,5-2,5 mm de com-
primento. Flores alvas; pedicelos glabros ou subglabros, 2,2-5 mm de compr., bractéolas
ovadas ou ovado-triangulares, agudas no ápice, externamente pubescentes, internamente
glabras, a maior 0,54-0,73 mm de compr., 0,49-0,64 mm de larg., as duas menores 0,42-
0,51 mm de compr., 0,22-0,34 mm de largura. Sépalas ovadas, agudas, externamente com
pêlos espersos, 1,7-1,9 mm de compr., 1-1,3 mm de largura. Corola campanulada ou
urceolada; tubo internamente barbado na parte superior, 1-1,5 mm de compr., fauce
barbada; lacínios erectos, ovados ou ovado-oblongos, agudos ou obtusos, internamente
barbados da base até a parte mediana e daí para cima puberulentos, 0,5-1,5 mm de
compr., 0,6-0,7 mm de largura. Corona simples, inclusa, superando o ginostégio ou da
mesma altura; segmentos inteiros, triangulares, subtriangulares ou ovado-triangulares,
geralmente geniculados na parte mediana ou acima desta, ápice reflexo ou erecto, agudo
ou acuminado, 0,56-0,85 mm de compr., 0,54-0,61 mm de largura na base. Anteras com a
parte locular triangular ou subtriangular, apresentando as asas mais prolongadas que o
dorso e bem divergentes, 0,25-0,26 mm de compr., 0,47-0,52 mm de larg. na base, 0,23»
0,25 mm de larg. no ápice; apêndices membranáceos 0,17-0,23 mm de compr., com a
parte apical ovado-triangular ou triangular. Retináculo oblongo ou oblongo-elíptico,
obtuso no ápice, 0,093-0,141 mm de compr., 0,033-0,047 mm de larg. na parte mediana;
caudículas sigmóides ou subhorizontais geniculadas mais próximo das polínias, 0,032-
0,070 mm de compr., 0,011-0,020 mm de larg. na inserção com o retináculo, 0,033-0,038
mm de larg. na inserção com as polínias; polínias obliquamente oblongas, extremidade
superior mais estreitada do que a inferior, mais alongadas do que o retináculo, 0,126-
0,180 mm de compr., 0,043-0,070 mm de larg. na parte mediana. Estigma oculto pelos
apêndices membranáceos das anteras. Pedicelo frutífero glabro, 2,5-3 mm de compr.,
fruto linear-lanceolado ou lanceolado-alongado, pubescente, dilatado acima da base onde
apresenta diversas calosidades e com o ápice geralmente bilobado, 20-24 mm de compr.,
2-2,5 mm de largura. Sementes oblongas, 3-4 mm por fruto, lisas, parte dorsal convexa e
a parte ventral côncava, margens geralmente hialinas, 2,5-4 mm de compr., 1-1,3 mm de
larg.; coma 16-19 mm de comprimento.

Localidade típica: inter Natividade et Porto Real in prov. Goyaz.


Holotypus: leg. Burchell 8360; hotypus (BR).
Distribuição geográfica: Brasil, nos Estados de Mato Grosso e Goiás.
Planta semiumbrófila da mata ciliar, em altitudes dclÍ550 m s.m. podendo ocorrer
também na vegetação de pântanos. Floresce de outubro a dezembro, frutificando neste
último mês. Eugenius Fournier deu a esta espécie o nome de burchellii em homenagem à
Williamjohn Burchell (1781-1863) que a coletou em 1828.
295 —

PI. 18-7'. burchellu: Fig. A-botão; Fig. B.Flor vista de perfil; Fig. C-Flor desprovida de
i lacmios de corola para mostrar o indumento e a corona; Fig. D-Flor desprovida de pe-
nanto para mostrar a corona; Fig. E-antera, face externa; Fig. F. Segmento da corona
isolado, face externa; Fig. G-frutos; Fig. H.semente.
— 297 —
PI 19— T. burchellii

Fig. A — Fotografia de um hotypus

'L.

Fig. B — Distribuição geográfica


— 299 —

Material examinado:
BRASIL —
Mato Grosso: Cabeceira do Rio Arinos, XI.1914, Comissão Rondon 1259, leg. J . G .
Kuhimann (R); Ibidem, Comissão Rondon 1260, leg. J . G . Kuhimann (R); Chapada dos
Guimarães, XI.1963, leg. M . Alvarenga (HB); Município de Campo Grande, perto do
Aeroporto, sítio do Dr. Alfredo Neder, 24.XII.1973, leg. D. Sucre 10398 (RB).
Goiás: in Serra de Christaes, leg. Pohl 815 (W); inter Natividadeet Porto Real, leg.
Burchell 8360 (BR); Samambaia, 25.X.1964, leg. E. P. Heringer9916 (RB); Luziania,
13.XI-1964, leg. E. P. Heringer 9932 (RB).
Tassadia burchellii foi o único táxon descrito por Fournier dentro do gênero
Tassadia, considerado como uma boa espécie até hoje. Foi incluído no item B de sua chave
'''Corolla urceolata, lobts tn inferioreparte glabris" e no subgrupo + "Coronae intenoris
phyllis acutis". Possui realmente uma corola urceolada ou campanulada, porém os lobos
não são glabros na parte inferior e sim barbados; os segmentos da corona são agudos ou
acuminados, simples e não duplos como consta em sua chave e descrição.
Matastelma uncinatum considerada atualmente como um sinônimo de Tassadia
burchellii, foi descrita por Fournier na página 211 da Flora Brasiliensis que a incluiu na
Seção B. Epicion Grisebach (1862) do gênero Metastelma R. Brown, ressaltando em sua
diagnose a presença de uma corona simples e com os segmentos trilobulados.
Tassadia multijlora outro sinônimo de T. burchellii, foi descrita por Malme (1939),
com uma diagnose muito mais detalhada, na qual salienta, como Fournier (1885), a exis-
tência de uma corona dupla. Malme colocou como coletor do "kolotypus" de Tassadia
multijlora", o botânico F.C. Hoehne, porém, quem o coletou realmente foi o naturalista
J. G. Kuhimann. Isto, pudemos comprovar, pelo exame do "isotypus" depositado no
Herbário do Museu Nacional do Rio de Janeiro, bem como a referência feita por F. C.
Hoehne (1915) em que afirma na pág. 336, que o material foi herborizado por J. G.
Kuhimann (Comissão Rondon n. s 1259) e que Malme ficou com parte deste número.
Fontella-Pereira (1967) faz referência apenas à ocorrência de Tassadia multijlora na
Amazônia Brasileira, sem entrar no mérito de sua taxonomia.
A descrição dos frutos e sementes dessa espécie, até então desconhecida, é apresenta-
da pela primeira vez neste trabalho.
4. Tassadia geniculata Font. sp. nov.

(PI. 2: fig. D; PI. 4: fig. J-J 2; PI. 6: fig. M : PI. 10: fig. F; PI. 20; PI. 21)
Kami et ramuli tomentosi. Folia tomentosa, pilis erectis. Petioli 3-5 mm longi; lami-
nae ovato-lanceolatae aut subellipticae, submembranaceae, basi truncata vel obtusa, ápice
acuminato, 40-50 mm longae, 19-25 mm latae. Pleiothyrsi axillares et oppsiti. Rachis
tomentosa. Cymae umbeliformes sessiles aut subsessiles. Flores flavidi. Pedicelli pubes-
centes, 1,5-2,5 mm longi; bracteolae ovatae vel ovato-triangulares, ápice acuto, extus pu-
bescentes, intus glabrae, majore 0,61-0,71 mm longa, 0,81-0,88 mm lata, duabus
minoribus, 0,47-0,51 mm longis, 0,44-0,61 mm latis. Sepala ovata, acuta aut obtusa,
extus leviter pubescentia, 1-1,2 mm longa, 0,9-1,2 mm lata. Corolla rotata; tubus glaber
aut pilis sparíis, 0,7-1 mm longus; faux glabra vel puberula; lacimae reflexae, ovato-
oblongae, oblongae, ovato-triangulares, acutae aut obtusae, basis parte centralis glabrae,
partibus lateralibus et axillaribus pubescentes, parte mediana et subapicali puberulae,
2,2-2,5 mm longae, 1,2-1,3 mm latae. Corolla simplex gynostegium longe superans;
segmenta integra, exserta, basi dilatada, cucullata et extrorsus marginibus plicatis, parte
mediana geniculata hinc inde Jiliprmia vel lineana, 1,87-2,40 mm longa, 0,70-0,85 mm
lata in basi. Pars locularis antherarum trapezijormis, alis dorso longioribus et basi satis
dwergentibus, 0,36-0,42 mm longa, basi 0,59-0,68 mm lata et ápice 0,30-0,34 mm lata;
appendices membranaceae 0,22-0,29 mm longae, parte apicali ovata aut subovata.
Retmaculum oblongum vel sub-ellipticum, brevius pollinits, obtusum, subtruncatum aut
leviter emarginatum m ápice, 0,109-0,112 mm longum, 0,042-0,048 mm latum in parte
— 300 —

mediana; caudiculae horizontales, geniculatae. et marginibus mferis denticulatae prope


pollima, 0,060-0,087 mm longae, 0,010-0,013 mm latae in basi, 0,026-0,033 mm latae tn
ápice; Pollinia oblonga vel suboblonga, extremitatibus rotundatis aut obtusis, 0,178-
0,191 mm longa, 0,055-0,066 mm lata supra basim. Stigma appendicibus antherarum
occultum.

Localidade típica: Central Brazilian Plateau, State of Mato Grosso near Suia-Missu
River about 47 km N.W. base-camp.
Holotypus: 25.XI.1967, leg. D. Philcox, A. Pereira et J . Bertoldo 3251 (RB).
Distribuição geográfica: Brasil, Estado de Mato Grosso.
Material examinado:

BRASIL —
Mato Grosso: Central Brazilian Plateau, near Suia-Missu River about 47 km N. W.
base-camp, 25.XI.1967, leg. D. Philcox, A. Pereira et}. Bertoldo 3251 (RB).
Esta espécie foi herborizada num cerradão no Estado de Mato Grosso, pelos coleto-
res anteriormente assinalados, em excursão organizada pela Royal Geographical Society
ot London durante os anos de 1967-1969. Muito afim de Tassadia cordata Malme pelo
habitus e indumento, diferindo desta principalmente, por apresentar flores maiores, lací-
nios da corola reflexos, segmentos da corona inteiros e geniculados, polínias clavadas e
com o comprimento igual 3 vezes à largura. O epíleto geniculata, refere-se aos segmentos
da corona nitidamente geniculados. Floresce no mês de novembro.
301 —

S^C
—mf
PI. 20 — l. gemculata: Fig. A-botão; Fig. B-flor vista de cima; Fig. C-antera, face exter-
na; Fig. D-dois segmentos da corona vistos pela face externa.
Fig. A — Fotografia do Holotypus
— 305

Tassadia cordata Malme


(PI. 4: fig. M - M l ; PI. 6: fig. I; PI. 11: fig. K; PI. 22; PI. 23)
Malme, Ark. f. bot. 29 A (13): 4.1939.
Ramos e râmulos tomentosos. Pecíolos pubescentes ou tomentosos, 10-15 mm de
compr.; lâminas ovadas, cartáceas, tomentosas, pêlos erectos ou suberectos, base cordada
ou subcordada, ápice acuminado, 20-35 mm de compr., 14-25mm de largura. Tirsos
axilares alternos ou opostos, mais raramente ocorrendo com este tipo, cimeiras umbelifor-
mes dispostas em râmulos floríferos áfilos. Raque pubescente. Cimeiras umbeliformes
providas de um pedúnculo pubescente, 0,5-1 mm de comprimento. Flores alvas; pedicelos
pubescentes, 1,5-2,5 mm de compr., bractéolas ovadas ou ovado-triangulares, agudas no
ápice, externamente pubescentes, internamente glabras, a maior, 0,78-0,86 mm de
compr., 0,70-0,86 mm de larg., as duas menores 0,55-0,70 mm de compr., 0,23-0,28 mm
de largura. Sépalas ovadas, agudas ou obtusas, externamente pubescentes, 0,9-1,2 mm
de compr., 0,4-0,6 mm de largura. Corola rotácea; tubo internamente pubescente na
parte superior, 0,3-0,4 mm de compr.; fauce pubescente; lacínios erectos, ovados, ovado—
oblongos ou oblongos, agudos ou obtusos, com as margens reflexas, internamente provi-
dos de pêlos bastante alongados na base e região subapical, puberulento-papilosos na
parte mediana, 1,5-1,7 mm de compr., 0,8-1 mm de largura. Corona simples, com os seg-
mentos trilobulados; lóbulo mediano oblongo ou oblongo-lanceolado, ápice agudo ou
obtuso, superando o ginostégio, 0,86-0,100 mm de compr., 0,23-0,25 mm de larg. na
parte mediana e lóbulos laterais linear-oblongos, não alcançando o ápice dos lóculos das
anteras, 0,27-0,30 mm de compr., 0,05-0,09 mm de largura. Anteras com a parte locular
retangular ou sub-retangular, apresentando as asas do mesmo comprimento que o dorso
ou um pouco menores, 0,24-0,25 mm de compr., 0,43-0,51 mm de larg. na base e 0,36-
0,45 mm de larg. no ápice; apêndices membranáceos 0,31-0,32 mm de compr., com a
parte apical ovada ou ovado-triangular e incumbente. Retináculo ovado-oblongo ou
oblongo, obtuso ou arredondado no ápice, 0,081-0,125 mm de compr., 0,051-0,063 mm
de largura na base; caudículas horizontais ou subhorizontais, 0,041-0,065 mm de compr.,
0,011-0,015 mm de larg. na inserção com o retináculo, 0,031-0,035 mm de larg. na inser-
ção com as polínias; polínias sub-ovadas ou eliptico-alargadas extremidades arredonda-
das e maiores que o retináculo, 0,105-0,146 mm de compr., 0,060-0,091 mm de larg. na
parte mediana. Estigma oculto pelos apêndices membranáceos das anteras.

Localidade típica: Ost-Peru, Stromgebiet des Ucayali von lOsS. bis zur Mündung.
Holory-pus: leg. G. Tessmann n. 3380 (S); hotypus (G).
Distribuição geográfica: Peru.
Ocorrendo nas margens dos rios, altitude de 100-125 m s/m. e florescendo em janei-
ro, esta planta que foi coletada pela primeira vez por G. Tessmann recebeu o nome de
cordata em virtude da forma de suas folhas.
Material examinado:
PERU — Ost-Peru, Stromgebiet des Ucayali von 10=S. bis zur Mündung, 1923, leg.
G. Tessmann 3380 (G,S); Dept. Loreto: Gamitanacocha, Rio Mazán, 18.1.1935, leg. J .
M . Schunke71 (F, M O , US).
Das 4 espécies novas de Tassadia descritas por Malme, esta foi a única que não caiu
em sinonímia.
6. Tassadiavalioi Font. sp. nov.
(PI. 1: fig. A; PI. 4: fig. L - L l ; PI. 6: fig. J ; PI. 11: fig. L; PI. 24; PI. 25).
Planta indumento ferrugineo praeter corollam vestüa. Rami et ramuli tomentosi.
Folia tomentosa, pilis erectis. Petioli 3-7 mm longi; laminae ovatae, subovatae, ellipticae
vel subellipticae, chartaceae, basi truncata vel sub-truncata ápice acuminato aut
mucronato, 30-52 mm longae, 20-31 mm latae. Pleiothyrsi axillares, oppositi vel alterni.
Rachis plerumque tomentosa. Cymae umbelliformes sessiles. Flores flavidi. Pedicelli
glabri, 1-1,5 mm longi; bracteolae ovatae vel ovato-triangulares, ápice acuto, extus pilis
sparsis, intus glabrae, majore 0,51-0,60 mm longa, 0,64-0,76 mm lata, duabus minonbus
— 307 —

PI. 22 — T. cordata Fig. A-flor vista de perfil; Fig. B-botão; Fig. C-segmento da corona
isolado, face interna; Fig. D-antera, face externa.
— 309 —

PI. 23 — 7. cordata

lii;. A-Kntugrafia de M ti í /wi/v/'

Fig. B-Distribuição geográfica


— 311

05'mi

£is§5
J
':'. ••'••-'••v..
PI. 24 — 7*. valioi: Fig. A-botão; Fig. B-flor vista de perfil; Fig. C-flòr com os lacínios da
corola e segmentos da corona rebatidos, para mostrar o indumento e o ginostégio; Fig. D-
flor desprovida de perianto, mostrando a corola que oculta totalmente o ginostégio; Fig.
E-segmento da corona isolado, face interna; Fig. F-ginostégio; Fig. G-antera, face exter-
na.
— 313 —
PI". — 2S T. valiot

t«UM| *
011* w »

> UM* u-sx.iMa*

Fig. A — Fotografia do tlolotypus

Fig. B — Distribuição geográfica.


— 315 —

0,44-0,47 mm longis, 0,42-0,44 mm latis. Sepala ovata vel ovato-triangularia, acuta,


extus glabra, 0,7-1 mm longa, 0,5-0,7 mm lata. Corolla rotacea aut subrotacea; tubus
supra puberulum, 0,7-0,9 mm longus; faux puberula; lacimae erectae vel patentes,
lanceolatae, ovato-lanceolatae, oblongae, acutae aut obtusae* puberulae, 1,2-1,4 mm
longae, 0,7-0,8 mm latae. Corona simplex gynostegium superans, segmentis trilobulatis;
lobulus medianus lanceolatus vel triangulans, ápice acuto aut acuminato, antherarum
appendicibus membranaceis longior, 0,64-0,71 mm longus, 0,30-0,34 mm latus et lobulis
lateralibus linearibus vel oblongis, 0,34-0,51 mm longis, 0,06-0,09 mm latis. Pars
locularis antherarum trapeztformis, alis dorso longioribus, basi divergentibus, 0,28-0,30
mm longa, 0,47-0,55 mm lata in basi, 0,22-0,30 mm lata in ápice; appendices
membranaceae, 0,20-0,22 mm longae, parte apicali trullata vel triangulari. Retinaculum
oblongum, obtusum, vel subtruncatum in ápice, brevius et angustius polliniis, 0,104-
0,114 mm longum, 0,036-0,040 mm latum in parte mediana; caudiculae horizontales,
geniculatae prope pollima, 0,045-0,060 mm longae, 0,09-0,011 mm latae in basi, 0,027-
0,030 mm latae in ápice; pollima subclavata vel subovata, paulo curvata, 0,186-0,204 mm
longa, 0,070-0,084 mm lata infra partem medianam. Stigma mamillatum, appendicibus
membranaceis occultum.

Localidade típica: Peni, Iquitos.

Holotypus: 11.XI. 1945, l e g . J . M . Pires et G.A. Black 1049 (IAN); Isotypus (MG).

Distribuição geográfica: Peru.

Material examinado:

PERU — Iquitos, 11.XI. 1945, l e g . J . M . Pires et G.A. Black 1049 (IAN, M G ) .


Esta espécie é mais afim de Tassadia emygdwi Font. e Tassadia grazielae Font. pelo
habitus e indumento ferrugíneo, diferindo das duas por apresentar pleiotirsos axilares,
lóbulos laterais dos segmentos da corona lineares ou subulados, parte locular das anteras
não emarginada na base, caudículas geniculadas próximo à inserção das polínias e polí-
nias bem mais alongadas. O epíteto valioi é uma justa homenagem ao Dr. Ivany Válio,
professor da Universidade Estadual de Campinas, pela realização de vários trabalhos no
campo da Fisiologia Vegetal e devido a todo o incentivo recebido da parte dele para a ela-
boração desta "tese".

7. Tassadia grazielae Font. sp. nov.

(P1.2:fig. C - C l , P 1 . 3 : f i g . C - C l : P1.6:fig. G; P l . l t : fig.J; P1.26: PI.27)



Planta indumento ferrugíneo praeter corollam ornata. Rami ramulique pubescentes.
Folia pubescentia, pilis erectis vel suberectis; petioli 2-5 mm longi. laminae ovatae, ovato-
lanceolatae, subellipticae, submembranaceae, basi truncata, subtruncata aut obtusa, ápice
mucronato, 25-40 mm longae, 10-20 mm latae. Thyrst axillares alterni interdum oppositi
etiam cymis umbelliformíbus axülanbus saepe ramulis floriferis aphyllis dispositis.
Rhachis pubescens. Cymae umbelliformes sessiles aut subsessiles. Flores albi. Pedicelli
pubescentes, 1,2-2,5 mm longi; bracteolae ovatae vel ovato-triangulares, ápice acuto,
extus pubescentes, intus, glabrae, majore, 0,44-0,47 mm longa, 0,34-0,36 mm lata,
duabus minoribus 0,41-0,44 mm longis, 0,30-0,34 mm latis. Sepala ovata aut ovalo-
triangulares, acuta, extus glabra, 0,8-lmm longa, 0,6-0,7 mm lata. Corolla rotacea vel
subrotacea; tubus glaber, 0,5-0,7 mm longus; faux puberula aut glabra; lacimae patentes
interdum erectae, oblongae, ovato-triangulares, acutae vel obtusae, intus dense
pubescentes, 1,2-1,5 mm longae, 0,8-0,9 mm latae. Corona simplex gynostegium
superans; segmenta integra, rotundata, ápice obtuso vel truncato, marginibus introrsum
plerumque plicatis, 0,34-0,46 mm longa, basi 0,51-0,68 mm lata. Pars locularis
— 316 —

antherarum conico-truncata, alis dorso longwribus, basi satis divergentibus, 0,36-0,52


mm longa, basi 0,48-0,57 mm lata et apice 0,19-0,24 mm lata; appendices
membranaceae, 0,12-0,15 mm longae, parte apicali ovata aut orbiculari. Retinaculum
plerumque pariter longa acpollinium apice obtuso vel truncato, 0,095-0,138 mm longum,
0,031-0,038 mm latum supra partem medianam; caudiculae obliquae, ascendentes et
geniculatae prope retinaculum, 0,063-0,089 mm longae, 0,013-0,021 mm latae in basi,
0,018-0,030 mm latae in apice;pollinia ovata aut oblonga, 0,094-0,123 mm longa, 0,031-
0,045 mm lata. Stigma appendicibus membranaceis occultum. Fructus linear-lanceolatus,
pubescens, düatatus supra basim, 32-35 mm longus 2-2,5 mm latus.

Localidade típica: Peru, Dept. Loreto, Mishuyacu, near Iquitos, 100 m s.m.
Holotypus: X-XI. 1929, leg. G. Klug 488 (US); Isotypus (F).
Paratypi: I. 1930, leg. G. Klug 798 (US); 30.XII.1960, leg. F. Woytkowski 6073
(MO).

Distribuição geográfica: Peru

Material examinado:
PERU — Dept. Loreto, Mishuyacu, near Iquitos, X-XII. 1929, leg. Klug. 488 (F,
US); ibidem, 1.1930, leg. G. Klug 798 (US); Dept. San Martin, Rioja, 30.XII.1960, leg.
F. Woytkowsky — 6073 (MO).
Esta espécie que ocorre em floresta secundária, em altitudes de 100-800 m s.m., flo-
resce de outubro a dezembro e frutifica no mês de dezembro. É muito afim de Tassadia
emygdioi Font. pelo habitus e indumento ferrugíneo, diferindo dela no entanto, por apre-
sentar a corona com as margens geralmente dobradas introrsamente e mais alta que o
ginostégio, encobrindo-o quase que totalmente, retináculo menor em comprimento e
polínias desprovidas de pólen na extremidade superior. O epíteto grazielae é uma singela
homenagem à emérita pesquisadora Dr» Graziela Maciel Barroso, do Jardim Botânico do
Rio de Janeiro, bem conhecida por seus inúmeros trabalhos taxonômicos sobre a família
Compositae e Flora do Município do Rio de Janeiro. Não foram aqui descritas as
sementes, porque os frutos encontrados estavam colados à cartolina de herbário.
— 317

PI. 26 — T. grazielae: Fig. A — botão; Fig. B — Flor vista de perfil; Fig. C — Flor com
os lacínios da corola afastados para mostrar a corona que oculta o ginostégio; Fig. D —
vista interna da corona que oculta o ginostégio; Fig. D — vista interna da corona disten-
dida, mostrando 4 segmentos; Fig. E — antera, vista externa; Fig. F — folhas, uma par-
te da inflorescência e frutos.
— 319 —
PI. 27 — i. grazielae

Kig. A — Fotografia do llnhtypux.

Fig. B — l>istribuição geográfica.


— 321 —

8. Tassadia trailiana (Benth.) Font. nov. comb.

(PI.3: fig. D - D l ; PI.6: fig. A; P I . 10: fig. B; PI. 28; P1.29)

= Madarosperma trailiana Bentham m Benth. et Hook. Gen. PI. 2:1241.1876; Bentham


in Hooker, Ic. PI. 13:12, pi. 1274. 1877; Fournier in Mart. Fl. Brás. 6 (4):212.1885;
Schumann in Engler u. Prantl, Nat. Pflanzenf. 4 (2): 240.1895; Fontella, Atas Simpósio
Biota Amazônica 4 (Bot.): 100. 1967.

= Madarosperma oblongum Spencer Moore, Trans. Linn. Soe. Ser. 2, 4(3): 400.1895;
Malme, Ark. f. bot. 29A (13):2.1939; Hoehne, Bibliogr. Num. PI. Coll. Com. Rondon:
332.1951; Fontella, loc. çit. 102 (Hab. Reperi in ripa fl. dos Bugres, leg. Spencer Moore
N. 431: Holotypus — BM). Syn. nov.

= Tassadia sprucei auet. non Fournier, Glaziou, Mem. Soe. bot. France 1 (3):462.1910
(nomen).

Ramos e râmulos pubescentes ou tomentosos. Pecíolos pubescentes, 2-5 mm de


compr.; lâminas de lanceoladas ou lanceolado-oblongas a elípticas ou subelípticas, subco-
riáceas, pubescentes, pêlos erectos ou semierectos, base obtusa, ápice mucronado, 15-50
mm de compr., 5-15 mm de largura. Tirsos axilares alternos ou ocorrendo com este tipo,
cimeiras umbeliformes ou corimbiformes que podem ainda se encontrar dispostas em
râmulos floríferos áfilos. Raque pubescente ou tomentosa. Cimeiras umbeliformes ou
corimbiformes, sésseis ou com 1 pedúnculo pubescente ou tomentoso, 0,5-2 mm de com-
primento. Flores alvas, amarelo-pálidas ou esverdeadas; pedicelos pubescentes, 0,5-1 mm
de compr.; bractéolas ovadas ou ovado-triangulares, agudas no ápice, externamente
pubescentes, internamente glabras, a maior 0,76-0,80 mm de compr., 0,58-0,62 mm de
larg., as duas menores 0,62-0,68 mm de compr., 0,42-0,49 mm de largura. Sépalas ova-
das, agudas ou obtusas, externamente pubescentes, 0,9-1,3 mm de compr., 0,7-0,8 mm de
largura. Corola urceolada ou campanulada; tubo internamente com pêlos esparsos, 1-1,3
mm de compr.; fauce levemente puberulenta; lacínios reflexos ou patentes, oblongo-lan-
ceolados, lanceolados ou ovado-triangulares, agudos ou obtusos, esparsamente puberu-
lentos na base e densamente na região mediana e subapical, 1,5-1,9 mm de compr., 0,8—
0,9 mm de largura. Corona simples, ultrapassando em altura o ginostégio e ocultando-o;
segmentos de ovados ou ovado-triangulares a oblongos ou oblongo-lanceolados, agudos e
freqüentemente reflexos no ápice, 1,02-1,25 mm de compr., 0,45-0,82 mm de larg. na
base, providos internamente de uma prega carnosa ovado-lanceolada, 0,68-0,76 mm de
compr., 0,34-0,68 mm de larg. na base. Anteras com a parte locular subtriangular, apre-
sentando as asas mais prolongadas que o dorso e bem divergentes, 0,62-0,65 mm de
compr., 0,62-0,78 mm de larg. na base, 0,31-0,34 mm de larg. no ápice; apêndices
membranáceos 0,26-0,46 mm de compr., com parte apical ovado-triangular ou oblongo-
lanceolada. Retináculo ovado ou oblongo, obtuso ou subtruncado no ápice, 0,086-0,120
mm de compr-., 0,044-0,067 mm de larg. na parte mediana; caudículas subhorizontais,
geniculadas ou não próximo às polínias, 0,031-0,047 mm de compr., 0,008-0,010 mm de
larg. na inserção com o retináculo, 0,012-0,016 mm de larg. na inserção com as polínias;
estas oblongas ou subelípticas, com as extremidades arredondadas ou estreitadas na parte
superior, bem mais alongadas que o retináculo, 0,172-0,210 mm de compr., 0,044-0,063
mm de larg. na parte mediana. Estigma mamilado e oculto pelos apêndices membranáce-
os. Fruto obliquamente suborbicular ou subovado, séssil ou subséssil, com o ápice
acuminado, incurvado ou não 12-20 mm de compr., 9-12 mm de larg. acima da base.
Sementes ovadas ou ovado-triangulares, 14-21 por fruto, desprovidas de coma, margens
denteado-laceradas ou denteadas, parte dorsal convexa, parte ventral còncava, diminuta-
mente verrugosas, 8-15 mm de compr. 6-8 mm de larg. na base.
1
1

1 t
<
J
(

; "
/. „- 2

PI. 28 — '/'. traüiana. Fig. A — Botão; Fig. B — Flor vista de perfil, com os lacínios da
corola erectos; Fig. C — Flor vista de perfil, com os lacínios da corola reflexos; Fig. D —
Flor vista de cima, com os lacínios patentes; Fig. E — Flor desprovida de perianto, com os
segmentos da corona afastados para mostrar o ginostegio; Fig. F — Flor desprovida de
perianto, para mostrar a corona ocultando o ginostegio; Fig. G — Segmento da corona
isolado, face interna; Fig. H — Antera, face externa; Fig. I — Frutos, com um deles en-
tre-aberto, mostrando uma parte da semente; Fig. Fig. J — Semente.
— 325 —

Localidade típica: "Prov. Amazonas, in Ygapó, Padawiri river"


Lectotypus: 6.VI.1874, leg. J.YV.H. Traill 531 (K).
Distribuição geográfica: Guiana e Brasil nos seguintes Estados — Amazonas, Pa-
rá, Mato Grosso e Rio de Janeiro.

Esta espécie ocorre em várzeas e igapós, geralmente nas margens dos rios. Floresce
nos meses de junho-julho e de outubro à março, frutificando em março, junho e dezembro.
O epíteto trailiana foi dado por Bentham (1876) em homenagem à James William
Helenus Trail (1851-1919), botânico escocês que excursionou ao Norte do Brasil, no
período de 1873-1875 e um dos coletores da planta no Estado do Amazonas em Igapó,
próximo ao Rio Padauiri.

Material examinado:
GUIANA — Berbyce, 1837, leg. R.H. Schomburgk 374 (UPS).

BRASIL —

Amazonas — on the Rio Negro near Barra, 11.1851, leg. Spruce 1361 (BM, K, P);
prope San Gabriel da Cachoeira, ad Rio Negro, VI. 1852, leg. Spruce 2389 (BM, K, P);
Rio Padawiri, 6.VI.1874, leg. J.VV.R. Trail 531 (K); Manaus 25.VII.1882, leg.
Schwacke 633 (R); Manaus, cacau Pirêra, 20.III.1961, leg. W. Rodrigues et J. Lima
2250 (INPA); Vicinity of Manaus, Mauá Road, 23.III.1971, leg. G.T. Prance 11566,
L.F. Coelho, K. Kubitzki et P.J.M. Maas (INPA, NY, RB); Manacapuru, Estirão do
Mucumiri, 1957, leg. W. Rodrigues 380 (INPA); Rio Negro, between Ilha da Silva et
Tapuruquara, 15.X.1971, leg. G.T. Prance 15253, P.J.M. Maas, D.B. Woolcott, D.F.
Coelho, O.P. Monteiro et J . F . Ramos (INPA, NY, RB).
Pará: Villa Nova, Rio Tapajós, logo abaixo da Cachoeira Chacorão, 12 km abaixo
da Cachoeira Capoeira, 18.XII.1952, leg. J. M . Pires 3534 (IAN); Alto Tapajós, Rio
Cururú, 15.11.1960, leg. W. A. Egler 1339 (RB).
Mato Grosso: Rio dos Bugres, X.1891-92, leg. S. Moore 431 (BM); Rio Arinos,
XI-1914, Comissão Rondon 1254, leg. J . G. Kuhlmann (R, S); ibidem, XI.1914, Comis-
são Rondon 1255 et 1256, leg. J. G. Kuhlmann (R).
Rio de Janeiro: São Fidelis, perto de Campos, 25.1.1876, leg. Glaziou 9924* (R).
Bentham (1876) in Bentham et Hooker fundou o gênero Madarosperma com uma
ótima descrição, citando apenas uma espécie, ou seja, Madarosperma trailiana.
Bentham (1877) redescreveu o binômio acima citado, acrescentando maiores deta-
lhes à diagnose genérico-específica, principalmente com relação aos frutos e sementes,
muito bem representados em sua belíssima estampa.
Fournier (1885) também redescreveu a espécie aludida, mencionando em especial
que as flores eram dispostas em ramos floríferos terminais desprovidos de folhas.
Schumann (1895) citou Madarosperma trailiana para a Região do Rio Amazonas e
deu resumidamente pequenas características da mesma.
Moore (1895) descreveu Madarosperma oblongum como uma espécie nova para o
Estado do Mato Grosso, distinguindo-a de M. trailiana por suas folhas diferentes, pedice-
los e pedúnculos encurtados, lobos do cálice notavelmente maiores, segmentos da corona
diferentes e realmente mais largos, planos na base e não hipocrepiformes, flores verdes e
não amareladas. Além destas diferenças, merecem destaque outros caracteres fornecidos
pelo autor na diagnose de Madarosperma oblongum, tais como: as medidas do cálice, da
corola e da corona, até então assinalados.
Glaziou (1910), em seu trabalho "Plantae Brasiliae centralis a Glaziou lectae. Liste
des plantes du Brésil Central recueillies en 1861-1985", citou apenas Tassadia sprucei
Fourn. e o material por ele coletado, sem nenhuma descrição, que identificamos como
Tassadia trailiana.
Malme (1939) redescreveu Madarosperma oblongum fornecendo maiores caracterís-
— 326 —

ticas do que Moore (1895), principalmente quanto à forma e dimensões do retináculo,


caudículas e polínias, afirmando porém, que não tinha visto o "typus". Neste trabalho,
Malme citou como material examinado e que serviu de base para sua redescrição, o espé-
cime da Comissão Rondon n s 1354, coletado por F. C. Hoehne no Rio Arinos, Mato
Grosso em novembro de 1914. Tivemos oportunidade de examinar este material, recebi-
do por empréstimo de Estolcomo, bem como sua duplicata existente no Museu Nacional
do Rio de Janeiro. Na etiqueta do material estudado por Malme, constava F. C. Hoehne
como coletor e na etiqueta do Museu Nacional do Rio de Janeiro, o botânico J. G.
Kuhlmann; porém o número encontrado nestes dois exemplares foi o de 1254 da Comis-
são Rondon e não 1354, como alegaram Hoehne (1951) e Malme (1939).
Hoehne (1951), logo após a citação bibliográfica de Madarosperma oblongum afir-
mou o seguinte: "N« 1354 A — J . G. K., Rio Arinos, Mato Grosso, 11-1914. Este
material não foi por nós coletado como supôs Malme mas sim por J. G. Kuhlmann, con-
forme aqui o referimos".
Fontella-Pereira (1967) fez referência apenas à ocorrência de Aí. trailiana e Aí.
oblongum na Amazônia Brasileira, sem descrições e sem entrar em maiores detalhes.
Embora considerada pelos autores citados, como Madarosperma trailiana, chegamos
à conclusão, pelo maior número de exemplares examinados, tratar-se de uma espécie de
Tassadia, devido principalmente às características de suas inflorescências.
Madarosperma oblongum foi incluído aqui como um sinônimo, em virtude de termos
recebido o "holotypus" do British Museum de Londres, além de farto material, proveni-
ente de várias Instituições, o que nos permitiu examinar as flores minuciosamente e con-
cluir que as diferenças apontadas por Moore (1895) são bastante variáveis e portanto
insuficientes para conservar este táxon como uma espécie distinta.
— 327 —
PI. 20 - '/'. traitiana

/'// / / . / ,

Kij». A hotografia de um paratxpus

• :: .

Fig. B — Distribuição geográfica.


— 329 —

9. Tassadia ovalifolia (Fourn.) Font. nov. comb.

(PI. 1: fig. C; PI. 3: Re. G-Gl; PI. 7: fig. 0; PI. 9: fig. C; PI. 11: Fig. H; PI. 30; PI. 31).
Glazwstelma ovalijolium Fournier in Mart. Fl. Brás. 6 (4):227. 1885; Schumann in
Engler u. Prantl, Nat. Pflanzenf. 4 (2): 259. 1895; Glaziou, Mém. Soe bot. France 1
(3):462. 1910.
Ramos glabros e râmulos unilateralmente pubescentes. Pecíolos pubescentes, 5-11
mm de compr.; lâminas de lanceoladas ou ovado-lanceoladas a elípticas, subcoríaceas,
levemente pubescentes na página superior e glabras ou subglabras na página inferior, pê-
los erectos, base aguda ou obtusa, ápice longamente acuminado, 50-80 mm de compr., 17-
40 mm de largura. Tirsos axilares opostos ou alternos ocorrendo com este tipo, cimeiras
umbeliformes axilares. Raque unilateralmente pubescente. Cimeiras umbeliformes
sésseis ou com 1 pedúnculo glabro, 0,5-2 mm de comprimento. Flores violáceo-pálidas;
pedicelos levemente pubescentes, 2-2,5 mm de compr., bractéolas ovadas ou ovado-trian-
gulares, agudas no ápice, externamente com pêlos esparsos, internamente glabras, a
maior 0,41-0,62 mm de compr., 0,80-1,02 mm de larg., as duas menores 0,37-0,51 mm
de compr., 0,25-0,61 mm de largura. Sépalas ovadas ou ovado-triangulares., agudas ou
obtusas, externamente com pêlos esparsos, 0,7-0,9 mm de compr., 0,7-0,9 mm de largu-
ra. Corola urceolada; tubo internamente glabro ou com pêlos esparsos, 1-1,3 mm de
compr., fauce pubescente; lacínios reflexos ou patentes, oblongos ou lanceolado-oblongos,
agudos ou obtusos, pubescentes na base e parte mediana, puberulentos na região
subapical, 1-1,2 mm de compr., 0,6-0,7 mm de largura. Corona dupla, mais baixa que o
ginostégio e geralmente superando a parte mediana das anteras; segmentos externos sagi-
tados ou subsagitados, 0,43-0,51 mm de compr., 0,42-0,46 mm de larg. na parte mediana
ou um pouco ainda acima desta; segmentos internos quadrados, subquadrados, obovados
ou subretangulares, 0,42-0,53 mm de compr., 0,39-0,44mm de larg. na parte superior.
Anteras com a parte locular subretangular ou subtriangular, apresentando as asas mais
curtas que o dorso e divergentes, 0,29-0,34 mm de compr. 0,38-0,40 mm de larg. na base,
0,26-0,29 mm de larg. no ápice; apêndices membranáceos 0,23-0,25 mm de compr., com
a parte apical ovada ou subovada. Retináculo linear ou linear-oblongo, obtuso ou sub-
truncado no ápice, 0,156-0,210 mm de compr., 0,021-0,030 mm de larg. na parte
mediana e 0,027-0,030 mm de larg. no ápice; caudículas hipocrepiformes irregularmente
denticuladas na margem inferior, 0,125-0,150 mm de compr. 0,005-0,008 mm de larg. na
inserção com o retináculo, 0,013-0,015 mm de larg. na inserção com as polínias; polínias
clavadas ou subclavadas, acima da parte mediana reta ou encurvada e desprovida de
grãos de pólen, bem mais alongadas que o retináculo, chegando ou não ao dobro do com-
primento deste, 0,349-0,392mm de compr., 0,054-0,063 mm de larg. na parte mais dila-
tada. Estigma mamilado e oculto pelos apêndices membranáceos. Fruto subovado ou
obliquamente suborbicular, séssil ou subséssil, glabro ou levemente pubescente, com o
ápice acuminado e recurvado, 20-25 mm de compr., 16-24 mm de larg. acima da base. Se-
mentes ovado-lanceoladas ou subovadas, 7-9 por fruto, desprovidas de coma, margens
denteadas, crenuladas ou crenulado-denteadas, parte dorsal levemente convexa e mais
verrugosa que a parte ventral um tanto concava, 14-17 mm de compr., 5-7 mm de larg.
acima da base.

Localidade típica: Rio de Janeiro, Campos prés São Fidélis.


Holotypus: Glaziou n°9924 (P).

Distribuição geográfica: Peru, Venezuela e Brasil nos Estados do Pará e Rio de J a -


neiro.

Planta que ocorre principalmente nas margens dos rios em altitudes de 100-125 m
s.m. Floresce nos meses de outubro a janeiro, abril e maio, frutificando neste último. O
epíteto ovalijolium foi dado por Fournier em virtude das folhas ovadas do espécime-tipo.
— 330 —

Material examinado:

PERU — Dept. Loreto, Gamitanacocha, Rio Mazán, 18.1.1935, leg. J. M. Schunke


72 (F, G H , M O , S, US); ibidem: Myshuyacu, near Iquitos, X-XI. 1929, leg. G. Klug
459 (US).

VENEZUELA — T . Fed. Amazonas, Capinuaro, 17.V. 1942. leg. L. Williams


1,5590 (VEN).

BRASIL —

Pará: Jurity Vello, 19.XII.1926, leg. A. Ducke (RB); Victoria, Rio Tucuruhy aflu-
ente do baixo Xingu, 18.IV.1924, leg. J . G. Kuhlmann 2033 (RB).

Rio de Janeiro: Campos, prés São Fidélis, 24.1.1876, leg. Glaziou 9924 (P).
F O U R N I E R (1885) descreveu essa espécie com as folhas desprovidas de glândulas,
porém verificamos a presença de emergências glandulares na base das lâminas, caracterís-
ticas aliás observadas por Schumann (1895), que também chamou a atenção para o fato de
ser uma planta volúvel e com a flores dispostas em râmulos floríferos áfilos.
Esta espécie so foi coletada em sua localidade típica por Glaziou, em 1876, não sendo
mais encontrada no Estado do Rio de Janeiro até a presente data. No entanto, examina-
mos farto material coletado posteriormente no Peru, Venezuela e Norte do Brasil (Pará)
o que permitiu esta nova combinação e, inclusive, a descrição de seu fruto e sementes, até
então desconhecidas.
331

fgté/tLx*-T/f

PI. 3U — J. ovalijolia: Fig. A-botão; Fig. B-llor vista de perfil; Fig. C-flor desprovida de
perianto, para mostrar a corona e o ginostegio; Fig. D-segmentos externo e interno da
corona isolados, vistos pela face externa; Fig. E-antera, face externa; Fig. F.frutos; Fig.
G-semente.
— 333 —
PI. 31 — T. ovalifolia

Fig. A — Fotografia do Holotypus


- £>-*- # í«t«*

Fig. B — Distribuição geográfica.


— 335 —

10. Tassadia castellanosü Font. sp. nov.

(P1.2:fig.B-Bl; P1.3:fig. F-F2; P1.7:fig.Q; P1.10:fig.E; F1.32; PI.33)


Planta indumento ferrugineo praeter corollam vestita. Rami ramulique plerumque
tomentosi. Folia pubescentia vel tomentosa, pilis erectis; petioli 3-3,5 mm longi; laminae
ovato-lanceolatae, chartaceae, basi cordata vel subcordata, ápice acummato aut mucrona-
to, 30-38 mm longae, 12-15 mm latae. Pleiothyrsi axillares, oppositi vel alterni. Rhachis
tomentosa. Cymae umbelliformes sessiles aut subsessiles. Pedicelli saepe pubescentes 1,5-
1,8 mm longi; bracteolae ovatae vel ovato-triangulares, ápice acuto, extus pubescentes,
intus glabrae, majore 0,30-0,35 mm longa, 0,35-0,40 mm lata, duabus minoribus 0,30-
0,35 mm longis, 0,15-0,20 mm latis. Sepala ovata, acuta aut obtusa, extus pubescentia,
0,6-0,8 mm longa, 0,3-0,5 mm lata. Corolla rotacea; tubus glaber 0,4-0,5 mm longus:
faux glabra vel leviter puberulo-papillosa; lacimae erectae vel patentes, ovatae, ovato-
oblongae acutae aut obtusae, puberulo-papillosae, 0,8-1,2 mm longae, 0,6-0,8 mm latae.
Corona duplex; segmenta externa trilobulata, lobulo mediano oblongo, subrectangulari,
ápice obtuso aut emarginato, 0,17-0,20 mm longo, 0,15-0,25 mm lato, lobulis lateralibus,
ovatis vel oblongis, 0,09-0,17 mm longis, 0,04-0,07 mm latis; segmenta interna integra,
ovata vel subtriangularia, ápice obtuso aut rotundato, 0,20-0,29 mm longa 0,30-0,35 mm
lata. Gynostegium altius corona. Pars locularis antherarum subquadrala, alisplerumque
dorso paulo longioribus et leviter basi divergentibus, 0,20-0,25 mm longa, basi 0,35-0,38
mm lata et ápice 0,24-0,27 mm lata; appendices membranaceae 0,12-0,14 mm longae,
parte apicali ovata vel ovato-lanceolata. Retmaculum lineare aut oblongum, ápice obtuso,
longius polliniis, 0,139-0,180 mm longum, 0,027-0,037 mm latum in parle mediana;
caudiculae horizontales, sigmoideae 0,040-0,063 mm longae, 0,012-0,016 mm latae in
basi, 0,016-0,025 mm latae in ápice; pollinia ovata vel subovata, 0,125-0,144 mm longa,
0,054-0,067mm lata m parte mediana. Stigma mamillatum appendicibus membranaceis
antherarum occultum.

Localidade típica: Venezuela, and ilumina Casiquiari, Nasiva et Pacimoni.


Holotypus: Leg. Spruce 3295 (NY); Isotypt (F, G, P).

Distribuição geográfica: Venezuela


Material examinado:
VENEZUELA — ad ilumina Casiquiari, Nasiva et Pacimoni, 1853-54, leg. Spruce
3295 (F, G, NY, P).
Esta planta coletada por Richard Spruce (1817-1893) na Venezuela, no período de
dezembro de 1853 a 26 de maio de 1854, foi citada por Rusby (1898) com o nome de Tas-
sadia sprucei (non Fournier-1885), recebendo posteriormente o epíteto de Tassadia
rusbyi dado por Macbride (1931).
O "lectotypus" de Tassadia sprucei Rusby " H . H. Rusby 2 5 7 3 " corresponde a Tas-
sadia marliana Decne. (vide comentário desta espécie) e o material " R . Spruce 3295" a
uma espécie distinta, aqui descrita como nova. Tassadia castellanosn é muito próxima de
Tassadia martiana Decne. e Tassadia milanezii Font. pelo habitus e forma das folhas,
distinguindo-se destas no entanto, principalmente por apresentar indumento ferrugíneo,
lacinios da corola internamente puberulento-papilosos e retináculo, caudículas e polínias
visivelmente menores. O epíteto castellanosn é uma homenagem ao eminente professor
Alberto Castellanos, autor de inúmeros trabalhos sobre as famílias Cactaceae, Bromelia-
ceae e Pontederiaceae.

11. Tassadia aristata (Benth. ex Fourn.) Font. nov. comb.

(Pl-l:fig.D-Dl; P1.2:fig.F-F2; P1.3:fig.I-I4; P1.16:fíg.L-LI; P1.12:fig.P; PI.34; PI.35)


• Ditassa aristata Bentham ex Fournier in Mart. Fl. Brás. 6(4):247.1885; Fontella, Atas
Simpósio Biota Amazônica 4(Bot.): 106.1967.
— 3.37

PI. 32 — 7*. castellanoxii; Fig. A-botão; Fig. B-flor com so lacínios da corola afastados
para mostrar a corona dupla e o ginostégio; Fig. C-segmentos externo e interno da coro-
na isolados, vistos pela face externa; Fig. D-antera, face externa.
— 339 —

PI. 33 — T. castellanom

Fig. A — Fotografia de um hotypus

Fig. B — Distribuição geográfica.


— 341 —

Ramos e râmulos tomentosos. Pecíolos tomentosos, 1-5 mm de compr.; lâminas ova-


das, ovado-oblongas, subelípticas ou suborbiculares, submembranáceas, tomentosas, pê-
los erectos, base truncada, subtruncada, obtusa, subcordada ou cordada, ápice mucrona-
do, geralmente quando secas acinzentado-escuras na página superior, 18-45 mm de
compr., 10-20 mm de largura. Tirsos axilares alternos ou ocorrendo juntamente com este
tipo cimeiras umbeliformes extra-axilares, dispostas também em râmulos floríferos
áfilos. Raque tomentosa; cimeiras umbeliformes sésseis ou subsésseis. Flores verde-páli-
das, amareladas ou alvescentes; pedicelos tomentosos 1,5-3 mm de compr.; bractéolas
ovadas ou ovado-triangulares, agudas no ápice, externamente pubescentes, internamente
glabras, a maior 0,76-0,85 mm de compr., 0,51-0,58 mm de largura, as duas menores
0,34-0,51 mm de compr., 0,34-0,39 mm de largura. Sépalas ovadas ou oblongas, agudas,
externamente pubescentes, 1-1,2 mm de compr., 0,5-0,7 mm de largura. Corola rotácea;
tubo glabro, 0,4-0,5 mm de compr. fauce glabra ou levemente puberulenta; lacínios
erectos levemente patentes, ovados, ovado-oblongos ou oblongos, agudos ou obtusos,
internamente puberulento-papilosos, 1,6-1,7 mm compr., 0,8-0,9 mm de largura. Corona
dupla, 1,27-1,36 mm de compr.; segmentos externos lanceolados ou oblongo-lanceolados,
agudos ou obtusos, ultrapassando muito pouco o ginostégio, 0,85-1,02 mm de compr.,
0,27-0,34 mm de larg. na base; segmentos internos lanceolados ou subtriangulares, agu-
dos ou obtusos, um pouco mais baixos ou da mesma altura que o ginostégio, 0,51-0,68
mm de compr., 0,27-0,37 mm de larg. na base. Anteras com a parte locular subquadrada
ou subretangular e apresentando as asas paralelas ou subparalelas, mais prolongadas que
o dorso, 0,41-0,43 mm de compr., 0,47-0,51 mm de larg. na base, 0,41-0,44 mm de larg
no ápice; apêndices membranáceos, 0,27-0,32 mm de compr., com a parte apical ovada
ou suborbicular. Retináculo ovado, ovado-oblongo ou oblongo, obtuso ou subtruncado no
ápice, 0,183-0,270 mm de compr., 0,090-0,132 mm de larg. na parte mediana; caudículas
geniculadas próximo às polínias, 0,105-0,132 mm de compr., 0,015-0,019 mm de larg. na
inserção com o retináculo, 0,075-0,078 de larg. na inserção com as polínias, polínias ova-
das, ovado-oblongas ou oblongas, 0,156-0,183 mm de compr., 0,084-0,099 mm de larg., a-
cima da parte mediana. Estigma oculto pelos apêndices membranáceos das anteras. Pedice-
lo frutífero tomentoso 3-3,5mm de compr., fruto linear-lanceolado ou lanceolado-alonga-
do,tomentoso, 30-34 mm de compr., 1,7-2 mm de largura. Sementes oblongas ou ovado-
oblongas, 3-4 por fruto, lisas, parte dorsal convexa e a parte ventral côncava, 3-4 mm de
compr., 1-1,3 mm de larg., coma 26-28 mm de comprimento.

Localidade típica: prope S. Gabriel da Cachoeira secus flumen Rio Negro in prov.
do Alto Amazonas.

Holotypus: Leg. Spruce 2118 (K); Isotypus (G).

Distribuição geográfica: — Bolívia, Peru, Venezuela e Brasil no Estado do Amazo-


nas.

Planta baixa, geralmente chegando à 4-5 metros de altura, volúvel sobre moitas em
clareiras áridas ou sobre pequenas árvores e arbustos, em altitudes que vão desde 760 até
830 m s.m., ocorrendo também freqüentemente na orla ou margens de savanas. Floresce
nos meses de julho, agosto, novembro, fevereiro e frutifica no mês de maio. O epíteto
latino aristatus que significa aristado foi dado por Fournier em virtude da forma do ápice
foliar.

Material examinado:

BOLÍVIA — Mapiri, V.1886, leg. H. H. Rusby 1046 (G).

PERU — Dept. Loreto, Tarapoto, XI. 1902, leg. E. Ule 6563 (G); Dept. Loreto,
Balsapuerto, 11.1933, leg. G. Klug2891 (G).
— 343

Fl. 34-7'. artstata: Fig. A-botão; Fig. B-flor vista de perfil; Fig. C-flor com os lacínios da
corola afastados para mostrar a corona e o ginostegio; Fig. D-flor com os lacínios da co-
rola dilacerados, para mostrar a corona e o ginostegio em maior aumento; Fig. E-antera,
face interna; Fig. F-segmentos interno e externo da corona isolados, vistos pela face in-
terna; Fig. G-fruto; Fig. H-semente.
— 345 —
PÍ. 35 — T. anstata

Fig. A — Fotografia de um l.mtypm

Fig. B — Uístribuição geográfica.


— 347 —

VENEZUELA — Guanitas, P. N . Aragua, VII. 1938, leg. L. Williams 10247 (F);


T. Fed. Amazonas, Sierra Parima, vecindades de Simarawochi, Rio Matacuni, Lat. 3. s
49' Norte, Long. 64. a 36' Oeste, a unos 6-7 km ai Oeste de Ia frontera Venezolano-Brasi-
lera, altura, 795-830 metros, 18-IV. - 23-V-1973, leg. J . Steyer mark s/n.» (VEN).

BRASIL

Amazonas: prope S. Gabriel da Cachoeira secus flumen Rio Negro, Brasilae


borealis, in prov. do Alto Amazonas, 1.VIII. 1852, leg. Spruce 2118 (G, Kj] Purus, Alto
da Firmeza, 29.XI.1923, leg. J. G. Kuhlmann 900 (RB); Rio Negro Uaupés, 1.V.1947,
leg. J. Murça Pires 505 (IAN).
Embora colocada por Fournier (1885) e Fontella (1967) no gênero Ditassa. R.
Brown, chegamos à conclusão, após o exame de maior número de exemplares, que pela
característica de suas inflorescências, esta espécie deve ser incluída no gênero Tassadia.

12. Tassadia martiana Decne.

(P1.2:fig.A-A2: P1.3:fig.E; P1.6:fig.B; P1.10:fig.C; P1.36; P1.37)

Decaisne in DC. Prodr. 8:580.1844; Fournier in Mart. Fl. Bras.6


(4):230.P1.62.1885; Malme, Ark.f.bot. 29A (13):3.1939; Fontella, Atas Simpósio Biota
Amazônica 4 (Bot.): 104.1967.

= Tassadia colubrina Decaisne in loc.cit. 579; Fournier in loc. cit.; Schumann in Engler u.
Prantl. Nat. Pflanzenf. 4 (2):242. 1895; Fontella, loc. cit. (In Brasília? secus fl. Ama-
zonum? Poeppig n.2846: Holotypus — G; Isotypus — F, P). Syn. nov.

= Madarosperma aripecurense Fournier in loc. cit. 213; Fontella, loc. cit. 102 (Prope cata-
ractas fluminis Aripecuru in Prov. Pará, Spruce n.543: Lectotypus — K). Syn. nov.

= Tassadia sprucet Rusby, Buli. Torrey Club 25:498.1898, non Fournier 1885 (Falls of
Madeira, Brazil, oct., 1886, H. H. Rusby n. 2573: Lectotypus — NY). Syn. nov.

= Tassadia rusbyi Macbride, Field Mus. Nat. Hist. 11 (1):34.1931; Fontella loc. cit. 104
" Tassadia sprucei Rusby". Syn. nov.

Ramos e râmulos esparsamente pubescentes. Pecíolos pubescentes, 4-10 mm de


compr.; lâminas ovadas, elípticas ou subelípticas, mais raramente obovadas, subcoriá-
ceas, levemente pubescentes ou subglabras, pêlos adpressos ou semierectos, base trunca-
da, subtruncada ou subcordada, ápice acuminado ou mucronado, 31-55 mm de compr.,
13-35 mm de largura. Tirsos axilares opostos ou alternos, ocorrendo também cimeiras
umbeliformes extra-axilares que podem ainda estar localizadas em râmulos floríferos áfi-
los. Raque pubescente. Cimeiras umbeliformes sésseis ou com um pedúnculo pubescente,
1-2,5mm de comprimento. Flores alvas; pedicelos pubescentes, 3-3,5 mm de compr.,
bractéolas ovadas ou ovado-triangulares, agudas no ápice, externamente pubescentes e in-
ternamente glabras, a maior 0,64-0,85 mm de compr., 0,64-0,73 mm de larg., as duas me-
nores 0,54-0,64 mm de compr., 0,42-0,51 mm de largura. Sépalas ovadas, agudas, exter-
namente pubescentes, 0,8-1 mm de compr., 0,5-0,7 mm de largura. Corola rotácea; tubo
glabro, 0,4-0,5 mm de compr., fauce glabra; lacínios patentes ou reflexos, ovado-lanceola-
dos ou ovado-oblongos, agudos ou obtusos, puberulentos com exceção da base que é gla-
bra, 1,5-1,7 mm de compr., 0,8-1 mm de largura. Corona dupla; segmentos externos
trilobulados, com o lóbulo mediano triangular ou ovado-triangular, ápice agudo ou obtu-
so, reflexo ou não, geralmente alcançando em altura a parte mediana das anteras, 0,38-
0,41 mm de compr., 0,18-0,22 mm de larg. na base e com os lóbulos laterais denticulifor-
— 348 —

mes, 0,13-0,18 mm de compr., 0,13-0,17 mm de largura; segmentos internos triangulares


ou ovado-triangulares, ápice agudo, freqüentemente reflexo, da mesma altura que o
ginostégio, 0,56-0,63 mm de compr., 0,40-0,44 mm de larg. na base. Anteras com a parte
locular subretangular, apresentando as asas mais prolongadas que o dorso e levemente
divergentes, 0,47-0,51 mm de compr., 0,49-0,54 mm de larg. na base, 0,37-0,38 mm de
larg. no ápice; apêndices membranâceos 0,30-0,37 mm de compr., com a parte apical
ovado-triangular ou triangular. Retináculo linear-lanceolado, obtuso no ápice, e menor
ou mais raramente do mesmo comprimento que as polínias, 0,188-0,235 mm de compr.,
0,070-0,086 mm de larg. acima da base; caudículas ascendentes e geniculadas próximo à
parte mediana, descendentes junto às polinias, 0,141-0,172 mm de compr., 0,015-0,023
mm de larg. na inserção com o retináculo, 0,015-0,032 mm de larg. na inserção com as
polínias; estas dacrióide-ovadas, parte superior mais estreita do que a inferior, 0,251-
0,314 mm de compr., 0,078-0,102 mm de larg. abaixo da parte mediana. Estigma oculto
pelos apêndices membranâceos da anteras.

Localidade típica: Brasília, Amazonas, prov. Rio Negro ad Fluv. Japura.

Lectotypus: leg. Martius n. 2943 (M).

Distribuição geográfica: Venezuela e Brasil nos Estados do Amazonas e Pará.


Planta que ocorre nas margens de rios e igapós, em altitudes que vão desde o nível do
mar até 2130 m s.m. Floresce nos meses de janeiro, junho, outubro e dezembro. Decaisne
deu a esta espécie o nome de marúana em homenagem ao ilustríssimo botânico Carl
Friedrich Philip von Martius (1794-1868) que a coletou no Estado do Amazonas no
p e r i o d o d e l 2 . X I I . 1 8 1 9 a 12.11.1820.

Material examinado:

VENEZUELA — Distrito Federal, east of El Junquito, leg. Steyermark 56996


(MO).

BRASIL — In Brasília? secus fl. Amazonum?, leg. Poeppig 2846 (F, G, P),

Amazonas: Prov. Rio Negro ad fluv. Japura, leg. Martius 2943 (M); ibidem, leg.
Martius 2944 (M); ibidem, leg. Martius (S); Rio j u r u á , Itapoana, XI. 1900, leg. E. UÍe
5183 (G,L); Falls of Madeira, X.1886, leg. H. H. Rusby 2573 (NY); Rio Tefé, Igapó,
8.VI.1950, leg. R. L. Fróes 26134 (IAN, M O ) ; Terra Preta, Rio Negro, 31.XII.1923,
leg. J. G. Kuhlmann 1039 (RB).
Pará: Prope cataractas fluminis Aripecuru, XII. 1849, leg. Spruce 543 (K); ibidem,
leg. Spruce 210 (K); Rio Pixuna, 40 km acima da boca do Cupari, entre Sítio Prainha e
Água Boa 22.XII.1947, leg. G.A. Black 47-1960 (IAN); Rio Cupari, Lago de Caxias,
30.XII.1947, leg. G.A. Black 47-2179 (IAN);

Decaisne (1844) descreveu Tassadia colubnna na página 579 e Tassadia marúana


na página 580. Demos prioridade ao segundo nome tendo em vista que: 1 .Q Decaisne
apresentou uma diagnose mais detalhada de T. martiana, ressaltando por exemplo, o n. 9
de flores e a presença de uma corona dupla, ao contrário da descrição de 7. colubrina
mais sucinta e sem estas características; 2.° T. martiana acha-se ilustrada por uma estam-
pa na Flora Brasiliensis de Martius, loc. cit.

Os dois binômios acima foram redescritos por Fournier (1885) que os incluiu no item
B de sua chave "Corolla urceolata, lobis in mferioreparteglabris" e no subgrupo + "Co-
ronae interiorisphyllis acutis". No entanto pode-se notar que a corola destes é rotácea e não
urceolada. Tanto o autor, como Decaisne, apontaram em T. martiana, uma corona inter-
— 349

PI. 36 — T. martiana: Fig. A-botão; Fig. B-flor vista de perfil; fig. C-flor vista de cima;
Fig. D-flor com os lacínios da corola rebatidos e dilacerados, para mostrar a corona dupla
e o ginostegio; Fig. E-segmentos externo e interno da corona isolados, vistos pela face
externa; Fig. F-antera, face externa.
— 351 —

PI .37 — '/'. martiana

Fis^. A — Fotografia do /.<•< tutyft,

WÊÊÊÊÊBÊmÊÊÊÊÊBÊÊm J
Fig. B — Distribuição geográfica.
— 353 —

na com os segmentos trilobulados e uma corona externa com os segmentos inteiros, mas o
que pode ser observado é justamente o contrário, ou seja, os segmentos coroninos exter-
nos trilobulados e os internos inteiros. Fournier apresentou em seu trabalho, uma estam-
pa de T. martiana, evidenciando o habitus e outros detalhes essenciais ao reconhecimento
da referida espécie, porém, as inflorescências não são tão ramificadas como na figura
mencionada e as polínias encontram-se invertidas e não em suas verdadeiras posições. Na
página 213 desta mesma obra, Fournier descreveu como nova Madarosperma ari-
pecurense, aqui considerada como um sinônimo, tendo em vista o exame dos "sintypi"
• Spruce 543 e 210. Aliás na página 212, abaixo da redescrição do gênero Madarosperma
Benth., Obs. II, o referido autor declarou que incluiu a espécie acima mencionada no gê-
nero em questão, com uma certa dúvida, pelo fato de serem as sementes desconhecidas e a
corona discordante.

Destas espécies discutidas, Schumann (1895) fez referência, apenas, à '/'. colubnna,
incluindo-a nos seguintes itens de sua chave: A. " Narbenkopf gebuckett" e Ab. "Blkr.
krugformig"'.

Tassadia sprucei Rusby (1898) é um binômio baseado em elementos heterogêneos,


ou sejam, leg. H . H . Rusby 2573 e Spruce 3295. O primeiro material corresponde à T.
martiana e o segundo à uma espécie nova aqui descrita como Tassadia castellanosü. Rus-
by 2573 (NY) é o que concorda melhor com o protólogo de Tassadia sprucei Rusby, daí
ter sido escolhido como "lectotypus".

Em virtude de T. sprucei Rusby ser um homônimo posterior ilegítimo de T. sprucei


Fournier (1885), Macbride (1931) agindo em conformidade com as Regras de Nomencla-
tura, deu-lhe um novo nome "tassadia rusbyi". Como este último botânico tomou, ape-
nas, como referência o epíteto fornecido por Rusby, sem levar em consideração o exame
dos "typi", T. rusbyi foi incluída também na sinonímia de 7. martiana.
Malme (1939) forneceu maiores detalhes descritivos sobre os transladores e as polí-
nias da espécie de Decaisne, aqui considerada como prioritária. Sem dúvida alguma, estas
informações são de suma importância, baseando-se o referido autor num dos "isosintypi"
coletado por Martius e depositado no Herbarium of the Naturhistoriska Riksmuseum,
Stockholm.
Fontella (1967) citou na página 104 — T. martiana, T. colubnna, T. rusbyi e na pá-
gina 102 — Madarosperma aripecurense como ocorrentes na Amazônia Brasileira, sem
entrar no mérito de sua taxonomia, pois não possuía naquela ocasião os " t y p i " de tais bi-
nômios para serem estudados.
13. Tassadiamilanezii Font. sp. nov.
(PI. 4: fig. K; PI. 6: fig. C; PI. 12: fig. N; PI. 38; P1.39).
Rami et ramuli glabri vel leviter pubescentes. Folia pubescentia, püis adpressis in-
terdum suberectis. Petioli 4-9 mm longi; lammae ovatae, ovato-lanceotalae et obovatae,
chartaceae, basi truncata, subtruncata vel cordata, ápice mucronato, 25-52 mm longae,
14-25 mm latae. Thyrsi axillares alterni, raro oppositt et cymae umbeltiformes extra-
axülares saepe ramulis flonfens aphyllis dispositae. Rachis pubescens. Cymae umbetli-
Jormes sessiles aut subsessiles. Flores albi, viridi-albi et jlavidi. Pedicelli pubescentes, 2-
2,5 mm logi; bracteolae ovatae vel ovato-triangulares, ápice acuto, extus levüer pubescen-
tes, intus glabrae, majore 0,42-0,51 mm longa, 0,59-0,68 mm lata, duabus minoribus
0,44-0,52mm longis, 0,34-0,42mm latis. Sepalaovata aut ovato-triangularia, acuta vel
obtusa, extus levüer pubescentia, 0,9-1,2mm longa; 0,9-1, Imm lata. Corolla companula-
ta; tubus supra dense pubescens, 1-1,2mm longus; faux dense pubescens; laciniae refle-
xae aut patentes, ovatae, ovato-trtangutares, ovato-oblongae, acutae vel obtusae, basi
dense pubescentes, dense puberulae in parte mediana et subapicali, 1,5-1,8 mm longae, 1-
1,2 mm latae. Corona duplex; segmenta externa trilobulata aut subannuliformia, lobulo
— 354 —

mediano triangulart vel subtriangulari, ápice obtuso aut subtruncato, basi antherarum
vix superante, 0,15-0,25 mm longo, 0,20-0,30 mm lato, lobulis lateralibus dentiformíbus,
0,10-0,14 mm longis; segmenta interna triangularia aut subtriangularia, apue acuto vel
obtuso, partem medianam antherarum solummodo superantia, 0,5-0,6 mm longa, 0,5-0,6
mm lata in basi. Pars locularis antherarum subrectangularis, alis dorso longioribus et
plerumque basi leviter divergentibus, 0,64-0,75 mm longa, basi 0,44-0,52 mm lata et
ápice 0,38-0,44 mm lata; appendices membranaceae 0,38-0,55 mm longae, parte apicali
ovado-triangulari aut triangulari. Retinaculum linear-lanceolatum vel sublanceolatum,
longius pollinüs, ápice obtuso, 0,314-0,338 mm longum, 0,063-0,084 mm latum supra
basim; caudiculae ascendentes ei phcatis prope retinaculum, parte mediana geniculatae,
descendentes versus pollima, 0,187-0,235 mm longae, 0,22-0,45 mm latae m basi, 0,030-
0,042 mm latae in ápice, pollima ovata aut subovata, 0,187-0,235 mm longa, 0,023-
0,033 mm lata infra partem medianam. Stigma appendicibus membranaceis antherarum
occultum. Fructus oblique suborbicularis, sessilis vel suborbicularis, sessilis vel subses-
silis, glaber, abrupte acuminatus, 14-18 mm longus, 10-12 mm latus. Semina ovata, ova-
to-oblonga vel ovato-triangularia, 15-18 per fructum, laevigata, coma destituía, margini-
bus dentatis et parte infera plerumque laceratis, dorso leviter convexa, parte ventrali
concava, 7-9mm longa, 3-4mm lata.

LOCALIDADE TÍPICA: Peru, Dept. Loreto, Margens do Rio Nanay, alt. 150 m
s.m.
HOLOTYPUS: 4.XII. 1958, leg. Woytkoivski 5144 (MO); Isotypi (F,GH,US).

Paratypi: 29.X. 1966, leg. G. T. Prance-2944, B. S. Pena et J. F. Ramos (MG);


1923, leg. G. Tessmann 3355 (G); XI.1901, leg. Ule 5924 (G); 31.X.1946, leg. Schultes
et G. A. Black 46-286 (IAN); 25.X.1923, leg. J. G. Kuhlmann 713 (RB).
Distribuição geográfica: Peru, Colômbia e Brasil nos Estados do Acre e Amazonas.

Material examinado:

PERU — Dept. Loreto, Rio Nanay, 4.XII. 1958, leg. F. Woytkowski 5144 (F, G H ,
M O , US); Ost-Peru, Stromgebiet des Ucayali von 10° S. bis zur Mündung, 1923, leg. G.
Tessmann 3335 (G,S).

COLÔMBIA — Beirado Rio Loreto-Yaco, 31 .X. 1946, leg. Schultes et G. A. Black


46-286 (IAN).

BRASIL —

Acre: Cruzeiro do Sul, Rio J u r u á , Rio Moa, 29.X. 1966, leg. G. T. Prance 2944, B.
S. Pena et J. F. Ramos (MG, US); São Luiz, Abunan, 25.X.1923, leg.J. G. Kuhlmann
713(RB).

Amazonas; Rio J u r u á , IX.1901, leg. Ule 5924 (F, G. L).

Esta espécie que ocorre nas margens dos rios e várzeas^ em altitudes até 150 m s. m..
floresce de outubro a dezembro e frutifica em novembro. É muito próxima de Tassadia
martiana pelo habitus, forma das flores e indumento, distinguindo-se no entanto, princi-
palmente por apresentar a base dos lacínios da corola e tubo densamente pubérulos, seg-
mentos internos da corona mal superando a parte mediana das anteras. retináculo mais
alongado e polínias menores. O nome milanezü é uma justa homenagem ao emérito pes-
quisador Dr. Fernando Romano Milanez, atualmente professor da Universidade Esta-
dual de Campinas, bem conhecido por seus inúmeros trabalhos publicados no campo da
Anatomia Vegetal.
355

/>/. 38 — l. milanezü: Fig. A-botão; Fig. B-llor vista de cima; Fig. C-flor desprovida de
perianto, para mostrar a corona dupla e o ginostégio; Fig. D-antera, face interna; Fig.
E-segmentos externo e interno de corona, vistos pela face externa, para mostrar sua posi-
ção em relação à antera; Fig. F-segmentos externo e interno da corona isolados, vistos
pela face exterior; Fig. G-fruto; Fig. H-semente.
— 357 —

PI. 39 — '/'. müanezü

Fig. A-Fotografia do Hofatypus

Fig. B-Distribuição geográfica


— 359 —

14. Tassadia propinqua Decne.

(P1.4:fig. N; PI. 6: fig. E; PI. 9: fig. D; PI. l l . f i g . G; PI. 40; PI; 41)

Decaisne in DC. Prodr. 8.579.1844; Pulle, Enum. Vasc. Pt. Surinam: 388. 1906;
Jonker in Pulle, A. Flora of Surinam, IV (II). Meded. Kol. Inst. Amst. 30 (11):
354.1940; Woodson, Buli, Torrey Club 75 (5): 561.1948; Fontella, Atas Simpósio Biota
Amazônia 4 (Bot.): 104,fig. 3.1967.

= Tassadia lanceolata Decaisne in loc. cit.; Fournier in Mart. Fl. Brás. 6 (4): 229.1885;
Schumann in Engler u. Prantl, Nat. Pflanzenf. 4(2):242.1895 (In Brasília, prov. Minas
Geraes, leg. Claussen: Holotypus-P; Isotypi-G , L). Syn. nov.

= Tassadia sprucei Fournier in loc. cit.; Jonker in loc. cü. pro syn.; Fontella, loc. cit. pro
syn. (Ad S. José da Laranjeira in Prov. Pará, leg. Burchell 9900: Lectotypus-P; lsolecto-
typi-L, US).

= Tassadia comosa Fournier in loc. cit. (In Brasília, loco speciali non indicato, leg. Mar-
tius: Holotypus-M). Syn. nov.

= 'Tassadia sphaerosligma Ule, Bot. Jahrb. 40:170.1908 (Marmellos, Rio Madeira, Ama-
zonas-Expedition, III. 1902, leg. E. Ule 6104: F, G, L). Nomem nudum.

= Tassadia sprucei aucl. non Fournier, Malme Ark. F. bot. 21 A (12): 9.1927 (Matto
Grosso, Juruema, S. Manoel, Commissão Rondon 5 168, leg. F. G Hoehne: S). Syn. nov.

= Tassadia an^ustifolia Malme, loc. cit. 29A (13): 2.1939 (Amazonas, Rio Negro, Cucu-
hv, circ. 120 m s. m., 4.II.1930, leg. E. Holt et W. Gehriger 367: Holotypus-S; Isotypi:
M O , RB, US, VEN). Syn. nov.

= Tassadia minutijlora Malme, loc. cit. 3; Hoehne, Ind. Bibliogr. Nun. PI. Coll. Com.
Rondon: 336.1951; Fontella, loc. cit. (Matto Grosso, Juruema, S. Manoel, Commissão
Rondon 5168, leg. F. C. Hoehne: Holotypus-S). Syn. nov.

Ramos e râmulos glabros, pubescentes ou tomentosos. Folhas patentes, erectas ou re-


flexas: pecíolos pubescentes, tomentosos ou glabrescentes, 1,5-6 mm de compr.; lâminas
de elípticas ou subelípticas a ovado-lanceoladas ou lanceoladas, coriáceas, de tomentosas a
glabrecentes, com pêlos adpressos ou semi-erectos, base subcordada, subtruncada ou agu-
da, ápice acuminado ou mucronado, 30-95 mm de compr., 8-22 mm de largura. Pleiotir-
sos alternos ou opostos. Raque e demais ramificações pubescentes ou subtomentosas;
cimeiras umbeliformes sésseis ou subsésseis. Flores alvas, amareladas ou verde-pálidas;
pedicelos pubescentes ou subglabros, 1,5-2,5 mm de compr., bractéolas ovadas ou ovado-
triangulares, agudas no ápice, externamente pubescentes, internamente glabras, a maior
0,58-0,64 mm de compr., 0,56-0,60 mm de larg., as duas menores 0,44-0,56 mm de
compr. e 0,34-0,47 mm de largura. Sépalas ovadas ou obtusas, externamente pubescen-
tes, 0,7-0,9 mm de compr., 0,6-0,7 mm de largura. Corola rotácea; tubo internamente
puberulento. 0,2-0,3 mm de compr., lauce puberulenta; lacínios patentes ou erectos, ova-
dos ou ovado-oblongos, agudos ou obtusos, internamente puberulentos, 1,2-1,4 mm de
compr., 0,8-0,9 de largura. Corona simples, mais baixa que o ginostégio e com os
segmentos trilobulados; lóbulo mediano, suborbicular ou subquadrado, um tanto cucula-
do, ápice arredondado, obtuso ou subtruncado, mal ultrapassando em altura a parte
mediana das anteras, 0,12-0,17 mm de compr., 0,23-0,25 mm de larg. na base; Ióbulos
laterais subquadrados, ou arredondados, ápice arredondado ou obtuso, superando leve-
mente ou não a base das anteras, 0,05-0,09 mm de compr., 0,05-0,11 mm de larg. na
— 360 —
base. Anteras com a parte locular subquadrada ou sub-retangular e apresentando as asas
paralelas ou subparalelas das mesmas dimensões ou mais prolongadas que o dorso, 0,17-
0,23 mm de compr., 0,22-0,29 mm de larg. na base, 0,25-0,34 mm de larg. no ápice;
apêndices membranáceos, 0,15-0,24 mm de compr., com a parte apical suborbicular.
Retináculo oblongo ou suboblongo, obtuso, arredondado, subtruncado ou levemente
emarginado no ápice, 0,050-0,094 mm de compr., 0,021-0,045 mm de larg. na parte me-
diana, 0,029-0,044 mm de larg. na base; caudículas horizontais ou subhorizontais, geni-
culadas próximo às polínias, 0,045-0,082 mm de compr., 0,003-0,009 mm de larg. na
inserção com o retináculo, 0,015-0,028 mm de larg. na inserção com as polínias; polínias
oblongas, ou subelípticas, levemente denteadas na extremidade inferior, 0,095-0,141 mm
de compr., 0,033-0,063 mm de largura na parte mediana. Estigma bilobulado ou inteiro,
nitidamente exserto. Pedicelo frutífero levemente pubescente ou glabro, 2-3 mm de
compr., fruto lanceolado alongado, pubescente, dilatado acima da base, 25-40 mm de
compr., 2-3,5mm de largura. Sementes ovado-oblongas, 1-2 por fruto, diminuta-
mente verrugosas, parte dorsal geralmente convexa e a parte ventral côncava, percorri-
das ou não medianamente por cristas longitudinais, margens inteiras com exceção da base
que é denteada ou crenada, 7-8 mm de compr., 2-2,5 mm de larg.; coma 20-30 mm de
comprimento.
Localidade típica: In Guiana Anglica.

Lectotypus: leg. R. H. Schomburgk 232 (P); ísoleclotypi (F, G, L, UPS).

Distribuição geográfica: Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Brasil nos Ter-


ritórios de Roraima, Amapá e seguintes Estados — Amazonas, Pará, Maranhão, Bahia,
Minas Geraes e Mato Grosso.

Esta espécie, cujo "lectotypus", foi coletado na Guiana, em 1837, por Robert Her-
mann Schomburgk (1804-1865), ocorre principalmente em matas de galeria e mais rara-
mente em locais brejosos ou capões nas zonas de cerrado, em altitudes que variam de 100-
1200 m s. m. Floresce durante todo o ano e frutifica nos meses de fevereiro, abril e maio.
Seu nome proptnqua é derivado do latim propinquus ( = próximo, vizinho), dando-nos
a interpretação de que talvez Decaisne quizesse indicar com este epíteto, a afinidade com
Tassadia leptobotrys Decne., espécie descrita em posição imediatamente anterior e muito
semelhante.

Material examinado:

COLÔMBIA — Camisaría El Vichada, 15 km N. W. of San José de Ocume, 5 V.


1939, leg. O. H a u g h t 2 8 1 5 ( M O , US).

VENEZUELA — Território Federal Amazonas, en Ias margens dei rio Yatua, su-
biendo ei rio desde ei Cerro Arauicaua; Lat. 1 .* 30'N. Long. 66^ 5'W., 13.IV. 1970, leg.
J. A. Steyermark et G. Bunting 83551 (VEN); Território Federal Amazonas, La Esme-
ralda, 11.1969, leg. M. Farinas, J. Velazquez et E. Medina 642 (VEN).

GUIANA — 1837, leg. R. H. Schomburgk 232 (F, G, L, P, UPS); leg. Hostmann


70 (F, P); Potaro River George above Kaieteur Falls, 10.V.1944, leg. B. Maguire et I).
B Fanshawe 23350 ( M O , RB, US); vicinitv of Bartica, on the Esseauibo River, lat. 6y
25'N., 3-12.IX.1922, leg. J. S. de Ia Cruz 1945 (F, M O , US); Pomeroon District, Moru-
ka River, VII. 1927, leg. J. S. de Ia Cruz 4586 (F, G H , M O , US); Pomeroon District,
Cart Market, Moruka River, 20.IX. 1921. leg. J. S. de Ia Cruz 1164 (US); Mazaruni
Station, Forest Dept., 13.VIII. 1960, leg. D. B. Fanshawe 29512 (S,U); Pomeroon Dis-
trict, Pomeroon River, 14 — 20.1.1923, leg. J. S. de Ia Cruz 2937 (F, G H , M O , US);
Koriabo River, 20-22. VII. 1934, leg. W. A. Archer 2386 (US); Waini River, Northwest
— 361 —

District, Lat. 8.» 20'N., Long. 59.fi 40'W, 3-18.IV.1923, leg. J. S. de Ia Cruz 3657 (GH,
US); Pomeroon District, Moruka River, Santa Rosa, 16. VIII. 1921, leg. J. S. de Ia Cruz
1001 (GH, US); Wanama River, northwest District, Lat. 7.» 45'N., Long. 60.» 15'W.,
10-23. V. 1923, leg. J. S. de Ia Cruz 3928 (F, G H , M O , US); East Coast Water Conser-
vancy, southeast of Georgetown, Hoorubia Creek, 26.XI.1919, leg. A. S. Hitchcock
16905 (GH, US); Membaru Creek, upper Mazaruni River, 14.11.1939, leg. A. S. Pin-
kus 214 (F, G, G H , M O , S, US); Comaka, Demerara River, V. 1923, leg. A. C! Persaud
236 (F); Riverside, Simiri, VIII. 1924, leg. A. C. Persaud 124 (F).

SURINAME — III. 1842, leg. Hostmann (G); Oude schelpenrits met afgraving ten
Zuiden van Cupido en langs de Maratakka, ongeveer 12,5 km ten Z. van Wageningen en
de monding vande Maratakka in de Nickerie-rivier, District Nickerie, leg. Th. W. Rei-
jenda 797 (U); Natuurreservaat Brinkheuvel, 23.X.1967, leg. P. A. Teunissen et J. T .
Wildschut 11915 (U); Fluv. Maratakka sup., 4.II. 1915, leg. Forestry Bureau Suriname
929 (U); Seckie O. - Forest Reserve, 29.IV. 1915. BW — Forestry Bureau Suriname
929, leg. G. Stahel et J. W. Gonggryp (U); In districtu Surinamensis Para, II-IV. 1844,
leg. A. Kappler 1474 (C, G, M O , S, T U B , U); Kaboeri, Corantyne River, 25.X.1916.
BW — Forestry Bureau Suriname 3012, leg. G. Stahel et J . W. Gonggryp 216 (U); Co-
roupina-Kreek pr. Zandevij, 30.VIL 1920, leg. A. Pulle 101 ( M O , Ú); Upper Maratak-
ka R., 4 km SVV of camp on west-bank, 24.V.1965, leg. Maas 10874 (U); Brownsweg,
7/IV.1970, leg.? 149 (U); Wajombo R., Omose, 4.XI.1916, BW-Forestry Bureau Suri-
name 3153, leg. Gonggryp 252 (IAN, U); Zwamp Barra, Kaboeri, Corantyne River,
26.VI.1916, BW — Forestry Suriname 2264, leg. Gonggryp 114 (U); Via secta ab Wia
wia-bank ad Grote Zwiebelzwamp, 26.IX. 1948, leg. J . Lanjouvv et J . C. Lindeman 1309
(U).

BRASIL — leg. M. Newman (G); leg. Burchell 9900 (GH, K, US).

Roraima; Boa Vista, VII.1913, leg. J . G. Kuhlmann 610 (RB).

Amapá: Porto Platon, Rio Araguarí, 3.11.1955, leg. J . M. Fries et N. T. Silva 4781
(IAN, M G ) .

Amazonas: Fosberg 29329 (IAN); Rio Negro, Piranga, 20.IV.1947, leg.J. M . Pires
496 (IAN); Upper Rio Negro basin, Rio Dimití 12-19.V. 1948, leg. R. E. Schultes et F.
López 9915 (MO); Manaus, Rio Cuieiras, Rio Branquinho, 12.XII.1961, leg. W. Ro-
drigues et D. Coelho 4025 (INPA); Cucuhy, Rio Negro, 11.1930, leg. E. G. Holt et W.
Gehriger 367 ( M O , RB, S, US, VEN); Rio Negro, leg. Spruce (F); In prov. Alto Ama-
zonas prope Manaos et ad ripas fluminis Uaupés, leg. Spruce 1230 (C, M); ibidem, leg.
Spruce 1303, 1851, 2089 (C).
Pará: Belém, Utinga, Água Preta, 10.IV.1947, leg. J . M . Pires et J . G . Black 1481
(IAN); Belém, IAN, Estrada do Cafezal, 10.XII.1950, leg. J . M . Pires 2670 (IAN, US).

Maranhão: Ilha de São Luiz, Reservatório Sacaven, 15.1.1951, leg. R.L. Fróes
26828 (IAN).

Bahia: Rod. Una. Olivença, 28.X.1971, leg. R.S. Pinheiro 1665 (HCPC).

Minas Gerais: III. 1839, leg. P. Claussen (G, L, P); leg. Claussen 361 (F- pro
parte); Município Diamantina, C. Mata, 1973, leg. G. Hatschbach 31714 et Z. Ahuma-
da ( M B M , RB).

Mato Grosso: S. Manoel, Rio Juruena, 1.1912, leg. F.C. Hoehne 5168 (R, S); Xa-
vantina, Rio dos Mortos, 3.XI.1946, leg. H. Sick 3139 (RB); c. 1-3 km W. of km 261
363

35p

PI. 40 — T. propinqua: Fig. A-botão; Fig. B-flor vista de perfil, com os lacínios da corola
rebatidos e dilatados para mostrar a corona, e o ginostégio; Fig. C-antera, face externa;
Fig. D-flor vista de perfil; Fig. E-flor vista de cima, com os lacínios da corola rebatidos e
cortados para mostrar a corola e o ginostégio de um outro ângulo; Fig. F-parte da corona
distendida, face externa, mostrando 2 segmentos; Fig. G-frutos; Fig. H-semente.
— 365 —

PI. 41 — T. propinqua

Fig. A-Fotograiia do Lu. tutyf>u\

Fig. B-Distribuição geográfica


— 367 —

Xavantina—Cachimbo road, 19.1.1968, leg. D. Philcox et A. Ferreira 4123 (RB); Base


da Expedição inglesa a 15 km ao sul na estrada Xavantina—S. Félix. 6.X.1968, leg. Sid-
ney 1159 et Onishi 380 (RB); Município Rio Verde, Sete Quedas, 12.XI.1973, leg. G.
Hatschbach 33103 et C. Koczicki ( M B M , RB).

Decaisne (1844) descreveu na mesma página, T. lanceolata e T. propinqua de uma


forma sucinta, fornecendo apenas características básicas para a separação das duas espé-
cies, ou seja, o estigma um tanto plano da primeira em contraste com o estigma levemente
proeminente da segunda. Demos prioridade ao segundo binômio, pelo caráter anterior-
mente assinalado e por sua maior freqüência na literatura botânica.

Fournier (1885), na página 229, acrescentou outro dados à diagnose original de T.


lanceolata, tais como o estigma apiculado e a incluiu no item A de sua chave "Corolla ro-
tata, lobis a basi ad apicem barbatis" e no subgrupo + + "Corona interiore truncata".
Nesta mesma página o referido autor descreveu como novas T. sprucei e T. comosa, inse-
rindo-as no item A acima mencionado e no subgrupo + "Corona interiore distincte
Io bata".
Destas espécies discutidas, Schumann (1895), fez referência apenas à T. lanceolata
incluindo-a nos seguintes itens de sua chave A. "Narkenkopjgebuckelt", Aa. KBlkr. rad-
formig, bis zum Grunde behaart", Aa. beta. "Innere Coronazipjel verbunden .

Pulle (1906), citou T. propinqua, sem no entanto descrevê-la, em sua Enumeração


de Plantas para a Flora do Suriname.

Ule (1908), mencionou Tassadia sphaerostigma, porém não forneceu nenhuma des-
crição. Examinando-se material da referida espécie, coletado por Ule, identificamo-lo
como T. propinqua.

Malme (1927) redescreveu T. sprucei Fourn. e incluiu em sua sinonímia — T. spru-


cei Rusby, declarando entretanto, que não vira os " t y p i " da espécie de Fournier (quanto
à T. sprucei Rusby, vide comentário de T. martiana). Doze anos mais tarde, o próprio
Malme (1939) reconheceu que a espécie redescrita por êle em 1927, não era a mesma de
Fournier e lhe deu um novo nome — Tassadia minutiflora. Neste trabalho de 1939, o re-
ferido botânico descreveu Tassadia angustijolia como nova. As descrições destes táxons
são ricas em detalhes e por isto consideradas como ótimas.

Jonker (1940) em seu trabalho sobre as Asclepiadaceae do Suriname, fez uma boa
redescrição de T. propinqua, sendo o primeiro a assilanar T. spruceiFourn. como um si-
nônimo da mesma.

Woodson (1948) mencionou '/'. propinqua para a Guiana, fornecendo alguns deta-
lhes descritivos.

Hoehne (1951) mencionou em seu trabalho " 'Tassadia minutiflora Malme", fazendo
apenas algumas observações.

Fontella (1967) sem fornecer descrições, apontou T. propinqua e T. minutijlora


para a Amazônia Brasileira, confirmando 7. sprucei Fourn. como um sinônimo do pri-
meiro binômio. Em seu trabalho, Fontella apresentou pela primeira vez o fotografia do
"lectotypus" de /'. propinqua.

Fournier (1885), Schumann (1895), Jonker (1940), Malme (1927) e (1939) fizeram
referências à T. propinqua ou a seus sinônimos, como tendo uma corona dupla. Ao exa-
minarmos, porém, numerosas flores diafanizadas (inclusive dos "typi"), resolvemos con-
— 368 —

cordar com Decaisne (1844), que já naquela época, afirmava a existência de uma corona
simples. Muitas espécies também foram criadas por seu autores com base na forma das
folhas, caráter bastante variável, como verificamos, daí a inclusão destes táxons na sino-
nímia de T. propinqua.
15. Tassadiaemygdioi Font. sp. nov.

(P1.2:fig.E-El; P1.3:fig.B-Bl: P1.6:fig.H; Pl.ll:fig.I; P1.42; P1.43)

Planta mdumento Jerrugineo praeter corollam vestita. Rami et ramuli leviterpubes-


centes. Folia subtiliter pubescentia, pilis adpressis; petioli 1-5 mm longi; laminae ovatae,
ovato-lanceolatae, subellípticae, chartaceae, basi truncata aut subcordata, ápice acumma-
to et mucronato, 35-50 mm longae, 15-21 mm latae. Thyrsi axillares alterni etiam flo-
ribus in cymis umbelliformibus extraxillaribus dispositis. Rachis pubescens. Cymae um-
belhformes sessiles aut subsessiles. Flores viriduli. Pedicellipubescentes 1,5-2mm longis;
bracleolae ovatae vel ovato-triangulares, ápice acuto, extus pubescentes et intús glabrae,
majore 0,54-0,63mm longa, 0,41-0,46mm lata duabus minoribus 0,37-0,47mm longis,
0,24-0,28mm latis. Sepala ovata, extus pubescentia, 0,7-0,9mm longa, 0,5-0,6mm lata.
Corolla rotacea; tubus glaber, 0,4-0,5mm longus, faux glabra; laciniae erectae, ovatae
vel oblongae, acutae aut obtusae, puberuli, 1,3-1 fimm longae, 0,8-0,9mm latae. Corona
simplex, segmentis trilobulatis raro integris; lobulus medianus lanceolatus aut ovato-
lanceolatus, ápice acuto vel obtuso, antherarum partem medianam superans, 0,38-
0,43mm longus, 0,30-0,32mm latus, lobulis lateralibus dentiformibus, antherarum ba-
sim vix superantibus, 0,07-0,08mm longis. Gynostegium altius corona. Pars locularis
antherarum conico-truncata, basiprofunde emarginala, alis dorso longioribus et basi sa-
tis divergentibus, 0,39-0,4 Imm longa, basi 0,48-0,65mm lata et ápice 0,26-0,27mm lata;
appendices membranaceae, 0,14-0,17mm longae, parte apicali orbiculari vel suborbicu-
lari. Retinaculum lineari aut linear-oblongum, longius polliniis, 0,144-0,210mm lon-
gum, 0,033-0,045mm latum; caudiculae sigmoideae, geniculatae prope retinaculum,
0,069-0,08õmm longae, 0,009-0,015mm latae in basi, 0,020-0,023mm latae in ápice;
pollinia ovata vel subovata, 0,105-0,120mm longa, 0,043-0,057mm lata infra partem
medianam. Stigma mamilatum plerumque appendiabus membranaceis occultum.

Localidade típica: Venezuela, Aragua, Colônia Tovar, 1700 m s.m.

Holotypus: V. 1934, leg. H. Pittier 13510 (US); Isotypi (F, G, M O , VEN).

Paratypi: 1856-7, leg.A.Fendler 1758 (GH); VI.1944,leg. T. Lasser 1118 (VEN).

Distribuição geográfica: Venezuela.

Material examinado:

VENEZUELA — Aragua, Colônia Tovar, V.1934, leg. H. Pittier 13510 (F, G,


M O , US, VEN); Colônia Tovar, 1856-7, leg. A. Fendler 1758 (GH, M O ) ; Caracas,
VI. 1944, leg. T. Lasser 1118 (VEN).
Esta espécie cujo "holotypus" foi coletado por H. Pittier (1857-1950) na Venezuela,
em maio de 1934, ocorre em florestas de 1700 a 1900 m s.m., onde floresce de maio a ju-
nho. É muito afim de Tassadia castellanosn Font. pelo habitus e indumento ferrugíneo,
diferindo desta principalmente, por apresentar lacínios da corola maiores e puberulentos,
corona simples e parte locular das anteras cônico-truncada, profundamente emarginada
na base. O epíteto emygdioi é uma justa homenagem ao Dr. Luiz Emygdio de Mello Fi-
lho* botânico do Museu Nacional do Rio de Janeiro, muito bem conhecido por seus inú-
meros trabalhos taxonômicos, principalmente sobre os gêneros Ficus Linnaeus, Heli-
conia Linnaeus e Rauvoljia Linnaeus.
369

pi 42 T. emygdwi: Fig. A-botão; Fig. B-flor com os lacínios da corola afastados, para
mostrar a corona e o ginostégio; Fig. C-fior vista de perfil; Fig. D-antera, face externa;
Fie. E-flor quase que totalmente desprovida dos lacínios da corola, para mostrar a corona
e o ginostégio em maior aumento; Fig. F-corona distendida, face interna, mostrando 3
segmentos.
— 371 —
PI. 43 — T. emygdioi

Fia. A — Fotografia do Hulotypus

Fig. B — Distribuição geográfica.


— 373 —

16. Tassadia obovata Decne.

(Pl.l:fig-B-B2; P1.5:fig.Q-Q7; P1.7:N-N6; P1.8; P1.9:fig.B-B3; P1.12:fig.Q; P1.44


P1.45).

Decaisne in DC. Prodr. 8:579.1844; Pulle, Enum. Vasc. PI. Surinam: 388.1906
Jonker in Pulle, A. Flora of Surinam, IV (II). Meded. Kol. Inst. Amst. 30(11):356.1940.

= Tassadia poeppigiana Decaisne in loc. cit. 580 (In Brasília Maynas alto. Cynanchum
myrtifolium? Poep. mss. n. 2007; Holotypus-P; Isotypi-GH, L). Syn. nov.

= Tassadia flonbunda Decaisne in loc. cit.; Fournier in Mart. Fl. Brás. 6(4):228.1885
Schumann in Engler u. Prantl, Natl. Pflanzenf. 4(2):242.1895 (In Bra"siliae palustribus
super arbores scandens ad Tacasara, prov. Sancti Pauli, cl. Martius, h. reg, monac. n.
395,: Holotypus-M). Syn. nov.

= Tassadia neovidensis Fournier in loc. cit. 229 (In fruticetis paludosis Brasiiiae austro-
orientalis, Princeps Neovidensis: Lectotypus-BR). Syn. nov.

= Tassadia selloana Fournier in loc. cit. 231 (In prov. Bahiensi prope Victoria, Sellow n
40: Lectotypus-\J$>; Isolectotypus-GH). Syn. nov.

= Tassadia turriformis Fournier in loc. cit.; Fontella, Atas Simpósio Biota Amazônica 4
(Bot.): 104.1967 (In prov. Alto Amazonas prope Panuré ad flumen Uaupés, m.
Deccembri, Spruce n.2694: Holotypus-P; Isotypi-F, G, G H ) . Syn. nov.

= Tassadia pitosuta Schumann, Bot. J a h r b . 25:726.1898 (Prope Niebly in declivibus


montis Pululahua, S.N.107/1, flor. Júlio 1873: Lectotypus-F). Syn. nov.

= Tassadia comosa auct. non Fournier, Glaziou, Mém Soe. Bot. France 1(3):463.1910
(nomen).

= Tassadia recurva Rusby, New Sp. South Am. PI:: 97.1920 (twining to 20 feet. Rare in
mountain forest, 1.500 to 3.500 feêt. Collected at Las Partidas, 3.500 feet, March 15, and
Minca, 2.000 feet, J u n e 1, Herbert H. Smith, Colômbia, n» 1621: Lectotypus-NY;
Isolectotypi F, G, L, M O , P, S, U, US). Syn nov.

- Tassadia apocynella Gleason et Moldenke in Moldenke, Phytologia 1:151933 (Type,


Lawrence 584, collected November 13 in forest fringes along a brookside, altitude about
1100 m. in the El Umbo region: Holotypus-NY; Isotypt-F,G, M O , S, U , US). Syn nov.

= Cynanchum recurvum (Rusby) Spellman, Phytologia 25(7):438. 1933; Spellman in


Woodson, R. E. J r . , Schery, R. W. et ai. Flora of Panamá. Ann. Miss. Bot. Gard.
62(1): 117. Í975. Syn.nov.

= Cynanchum apocynellum (Gleason et Moldenke) Spellman, loc. cit.; Spellman, loc.


cit. Syn. nov.

Ramos e râmulos densamente pubescentes, mais raramente com indumento ferru-


gíneo. Pecíolos levemente pubescentes, 3-12 mm de compr.; lâminas elípticas, ovadas,
ovado-lanceoladas, oblongas, oblongo-lanceoladas ou obovadas, subcoriáceas, densamen-
te pubescentes na página superior e levemente na página inferior, pêlos adpressos, mais
raramente semi-erectos, base obtusa, cuneada, subtruncada, cordada ou subcordada, ápi-
ce acuminado ou mucronado, 12-82mm de compr., 7-38 mm de larg. Pleiotirsos ou tirsos
— 374 -

axilares, opostos ou alternos. Raque principal e demais ramificações pubescentes.


Cimeiras umbeliformes sésseis. Flores pálido-amareladas ou esverdeadas; pedicelos
pubescentes, 1-bmm de compr.; bractéòlas ôvaclo-triangulares, agudas no ápice, externa-
mente pubescentes, internamente glabras, a maior 0,42-0,61 mm de compr., 0,42-0,51
mm de larg., as duas menores 0,34-0,40 mm de compr., 0,25-0,34 mm de largura. Sépa-
las ovadas, agudas ou obtusas, externamente pubescentes ou glabras, 0,5-0,8 mm de
compr., 0,6-0,7 mm de largura. Corola rotácea, subcampanulada ou campanulada; tubo
glabro, pubescente ou papiloso na parte interna, 0,5-0,10 mm de compr.; fauce glabra,
levemente pubescente ou provida de um tufo de pêlos alongados nas axilas dos lacínios;
lacínios erectos, patentes ou reflexos, oblongos, ovado-oblongos ou ovados, agudos
ou obtusos, internamente pubescentes ou mais raramente puberulentos, com a base gla-
bra, papilosa, puberulenta ou pubescente, 1-1,5mm de compr., 0,7-lmm de largura. Co-
rona simples, trilobulada ou aneliforme, geralmente ultrapassando a parte mediana das
anteras ou mal superando a base destas; quando trilobulada apresenta um lóbulo media-
no suborbicular, subquadrado ou subretangular que mede 0,20-0,34mm de compr., 0,41-
0,51 mm de larg. na base geralmente provido externamente de uma prega carnosa e 2 ló-
bulos laterais denticuliformes com 0,05-0,09mm de comprimento. Anteras com a parte
locular trapeziforme ou subtrapeziforme, apresentando as asas muito mais longas que o
dorso e bem divergentes na parte inferior, 0,27-0,42mm de compr.,0,40-0,68mm de larg.,
na base, 0,22-0,28mm de larg. no ápice; apêndices membranáceos 0,13-0,22mm de
compr., com a parte apical ovada ou ovado-triangular. Retináculo oblongo ou linear
oblongo, obtuso ou arredondado no ápice, 0,070-0,142mm de compr., 0,016-0,036mm de
larg. na parte mediana, 0,015-0,047mm de larg. na base; caudículas geniculadas ou cur-
vadas próximo ao retináculo, 0,038-0,093mm de compr., 0,006-0,014mm de larg. na in-
serção com o retináculo, 0,008-0,023mm de larg. na inserção com as polínias; polínias
ovadas ou subovadas, 0,103-0,150mm de compr., 0,030-0,053mm de larg. abaixo da par-
te mediana. Estigma mamilado, oculto pelos apêndices membranáceos das anteras. Pedi-
celo frutífero pubescente, 3-4mm de compr.; fruto linear-lanceolado, pubescente, dilata-
do acima da base onde apresenta diversas calosidades, 20-43mm de compr., 2-5mm de
largura. Sementes oblongas, 4 por fruto, verrugosas, com a parte dorsal convexa e a parte
ventral côncava, 5-9,5mm de compr., l,2-7mm de larg.; coma 21-32mm de comprimento.

Localidade típica: In Guiana Batava, Surinam.


Holotypus: Leg. Leschenault (P); Isotypus (L).

Distribuição geográfica: Costa Rica, Trinidad, Panamá, Bolívia, Peru, Equador, Co-
lômbia, Venezuela, Suriname e Brasil nos seguintes estados — Amazonas, Pará, Bahia,
Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
Planta que ocorre em floresta secundária, principalmente em sua orla e ao longo de
rios, em altitudes que vão desde o nível do mar até 1200 m s.m. Encontrada muito espo-
radicamente em restinga. Floresce durante todo o ano e frutifica nos meses de maio e
agosto. Seu nome, obovata, deriva-se do latim obovatus, referindo-se, naturalmente, à
forma tipicamente obovada das folhas do "holotypus" coletado por Luis Théodore
Leschenault de Ia Tour (botânico francês), em 1824.
Material examinado:

COSTA RICA — Prov. San José, vicinity of El General, VI. 1939, leg. A. F. Skutch
4354 (A, F, M O , NY, S).

TRINIDAD — Cumuto woods, 1-2 miles from railway south, 7.VIII.1925, leg. W.
E. Broadway5738(MO).

P A N A M Á — Barro Colorado Island, Canal Zone, 200 m north of Zetek Trail 200
above the escarpment, 16.VI.1971, leg. Thomas B. Croat 15000 (MO); Prov. Panamá,
375

33«sfa%f
PI. 44 — i. obovala: Fig. A-llor vista de perfil; Fig. B-llor vista de perfil, com os lacinios
da corola afastados, para mostrar a corona e o ginostégio; Fig. C-flor vista de cimea, para
mostrar de um outro ângulo, a corona e o ginostégio; Fig. D-F-flores desprovidas de
penanto, para mostrar a variação da corona; Fig. G-antera, face externa; Fig. H-2 seg-
mentos da corona distendidos, vistos pela face externa; Fig. I-frutos; Fig. J-semente.
— 377 —
una milla después de Ia Eneida cerca de Cerro Jefe, 8.VIII.1968, leg. M . D. Corrêa et R.
I.Dressler969(MO).

BOLÍVIA — Depto. Santa Cruz, Buena Vista, Prov. Sara, 10-29.XI.1920, leg. J.
Steinbach 5132 (F, M O ) ; Mapiri Region, San Carlos, 28.1.1927, leg. Dr. O. Buchtien
1204 ( M O , US); ibidem, bei Sarampini, 18.XII.1926, leg. Dr. O. Buchtien 1205 (US);
Mapiri Region, San Carlos, 26.XI. 1926, leg. O. Buchtien 1203 ( M O , US); Department
of Ia Paz, Province of Larecaja, Copacabana, about 10 km south of Mapiri, 8.X.-
15.XI.1939, leg. B. A. Krukoff 11145 (A, F, G, M O , S, U).

PERU — Dept. Junin. Sanibeni ad Satipo, 5.IX. 1960, leg. F. Woytkowski 5958
(MO); Dept. of San Martin, Zepelacio, near Moyobamba, X-XI. 1933, leg. G. Klug.
3296 (A, F, G, G H , M O , S, US); Depto. Ayacucho, Rio Apurimac Valley, near Kimpi-
tiriki, 10-11, V.1929, leg. E. P. Killip et A. C. Smith 22889 (US); Ost-Peru, stromgebiet,
des Maranon von Iquitos aufwarts bis zur Santiago-Mündung am Pongo de Maseriche,
ca. 77» 30' West," 1924, leg. G. Tessmann 3540 (S); Dept. Loreto, Gamitanacocha, Rio
Mazán, 22.1.1935, leg. J. M. Schunke 99 (A); Ganso Azul, Rio Pachietea, X.1942. leg.
C. Sandeman 3384 (F); Rio Acu, leg. Ule 9531 (F).

EQUADOR — Niebly, leg. Sodiro 107/1 (F).

COLÔMBIA — Camisaria dei Putumayo, Umbría, 0«54'N, 76»10' W, X.XI.1930-


leg. G. Klug 1732 (F, NY, S, US); Depto. dei Valles, Costa dei Pacífico, Rio Naya, Puer-
to Merizalde, 23.11.1943, leg. J . Cuatrecasas 14095 (F, NY); Region of Mt. Chapon, El
Umbo region, extreme western part of Dept. Boyaca, north-west of Bogotá, 13.XI.1932,
leg. A. E. Lawrance 584 (G, G H , M O , NY, S, U, US); Santa Marta, Las Partidas,
III.1898-1899, leg. H. H. Smith 1621 (A, F, G, G H , L, M O , NY, P, S, U, US); Santa
Marta, damp forest, between Calavasa and Cacagualito, 1898-1899, leg. H. F nith
1620(F,GH,NY, P.US).

VENEZUELA — Território Delta Amacuro, bosque pluvial Este de Rio Grande 37


km Este Noroeste de El Palmar, cerca de los limites dei Estado Bolívar, 10.11.1964, leg.
J . A. Steyermark 93142 ( M O , US); Ter. Fed. Amazonas, Capihuara, Alto Casiquiare,
1.VI.1942, leg. L. Williams 15718 ( M O , VEN).

SURINAME — 1823-24, leg. Leschenault (L, P); in fruticetis Paraensis, VI.1838,


leg. Splitgerber 1127 (L); ad viam inter Paranam et Aiobaka, distr. "Brokoponào,
5.II.1961, leg. K. U. Kramer et W. H. A. Hekking 2839 (U).

BRASIL — In Brasília, Maynas alto, leg. Poeppig 2007 ( G H , L, P); in fruticetis


paludosis Brasiliae austro-orientalis, Princeps Neovidensis (BR).

Amazonas: prope Panuré ad Rio Uaupés, X.1852-1.1853, leg. Spruce 2694 (F, G,
G H , P); 1930, leg. E. G. Holt et W. Gehringer (S); São Gabriel, Rio Negro, X.1930-
1.1931, leg. E. G. Holt et E. R. Blake 619 ( M O , US); Rio Solimões, Igarapé, 22.X.1948,
leg. R. L. Froes 23800 (IAN, M O ) .

Pariu Serra do Cachimbo, 12.XII.1956, leg. J. M . Pires, G. A. Black, J. J . Wurdack


et J . N . T . Silva 6151 (IAN, M G , S); Bragança, 7.II.1923, leg. A. Ducke (RB); Belém,
I. A. N., 15.1.1951, leg. J. M . Pires 3113 (IAN).
Bahia: Porto Seguro, Estrada a Eunápolis, 21.V.1971, leg. Talmon 1681 (HCPC);
In prov. Bahiensis prope Victoria, leg. Sello 40 (GH, US).

Rio de Janeiro: Mauá, XI.1890, leg. Schwacke (R); ibidem, leg. Schwacke 2014
— 378 —

(RB); Restinga de Mauá, leg.? 4754 (L); ibidem, 3.XI.1890, leg. Glaziou 18367 (C, R);
Estrada de Magé, 11.XII. 1947, leg. A. P. Duarte 998 (RB); Cidade do Rio de Janeiro,
Restinga de Sernambetiba, 6.XII.1938, leg. Markgraf 3778 et Brade (RB).

São Paulo: habitat in palustribus super arbores scandens ad Tacasara, prov. Sancti
Pauli, leg. Martius 395 (M); Ribeira de Iguape, Praça Preto II.XII.1910,leg. A. C. Bra-
de 6122 (S, SP); São José dos Campos, 24.XII.1909, leg. a Loefgren 511 (S); S. Carlos,
m. Januário, leg. Riedel 1893 (LE, S); prope Ypanema, m. Decembri, leg. Riedel 150
(LE); Mun. de Campinas, leg. Campos Novaes 5823 (SP).
Paraná: Mun. Morretes, Ilha do Malha, 13.XII.1974, leg. G. Hatschbach 35624
(MBM).

Santa Catarina: 1907, leg. K. Grossmann 156 ( G O E T ) .

Da mesma forma como ocorreu com Tassadia propinqua Decne., Tassadia lanceola-
ta Decne e outras, Decaisne (1844) descreveu 'Tassadia obovata, na página 579 e Tassa-
dia poeppigiana e Tassadia floribunda na página 580, espécies que são idênticas sob o
ponto de vista taxonômico. Demos prioridade a T. obovata, por ser o único binômio a
que Decaisne fez referências descritivas às polínias e caudículas.
Em 1885, Fournier redescreveu '/'. floribunda com muitos outros detalhes e a incluiu
no item A de sua chave "Corolla rotata, lobis a basi ad apicem barbatis" e no subgrupo
"Corona interiore distmcte Io bata". Na pág. 229, ele deu a diagnose de uma espécie nova
Tassadia neovidensis, incluindo-a nos mesmos itens e subgrupos dados acima. Na pág.
231, o referido autor descreveu dois outros novos táxons, ou sejam, Tassadia selloana e
Tassadia turriformis, colocando-os no item B de sua chave "Corolla urceolata, lobis in
inferioreparteglabris" e no subgrupo + + "Coronae interiorisphyllis quadrato-obtusis"
Schumann (1895) não mencionou em seu trabalho T. obovata e dos sinônimos desta
espécie, citou apenas T. floribunda, inserindo-a nos seguintes itens de sua chave: A
"Narbenkopf gebuckelt", A. a. "Blkr. radformig, bis Grunde behaart", A. a. alfa.
"lnnere Coronazipfel frei". Esse mesmo autor (1898), descreveu Tassadia pilosula como
uma espécie nova para o Equador.
Pulle (1906), entre outras espécies de Tassadia, citou também sem descrição T.
obovata em sua Enumeração de Plantas para a Flora do Suriname.
Glaziou (1910), mencionou Tassadia comosa Fourn, para Restinga de Mauá, Rio
de Janeiro, aqui identificada como T. obovata.
Tassadia recurva foi descrita por Rusby (1920) como sendo uma espécie nova para a
Colômbia.
Tassadia apocynella considerada como um novo binômio para a Flora Colombiana,
foi descrita por Gleason et Moldenke w Moldenke (1933). Cumpre ressaltar que embora
seja um sinônimo de T obovata, apresenta uma ótima descrição.
Jonker (1940) fez uma bela redescrição de T. obovata, acrescentando à diagnose ori-
ginal de Decaisne outras características importantes.
Fontella-Pereira (1967), fez referência apenas à ocorrência de I. turriformis Fourn.
na Amazônia Brasileira, sem entrar no mérito de sua taxonomia.
Spellmàn (1973) fez novas combinações, ou sejam, Cynanchum recurvum (Rusby)
Spellman e Cynanchum apocynellum (Gleason et Moldenke) Spellmàn, baseados respec-
tivamente em Tassadia recurva e Tassadia apocynella. Este mesmo autor no tratamento
das Asclepiadaceae para a Flora do Panamá (1975) redescreveu estes táxons, fazendo as
seguintes distinções em sua chave para as espécies de Cynanchum L.: "d. Sepals equaling
or exceeding lhe corolla tube in length....]. C. recurvum, dd. Sepals shorter than the
corolla tube.... 2. C. apocynellum". Vale a pena também, transcrever o que Spellman de-
clarou neste mesmo trabalho na página 119, após a descrição destes dois táxons: "Both
this species and the preceding one belong to a small tightly kmt complex of 6 or 8 species.
The group is difficult primarily because of the small flowers. Criticai study may reveal
— 379 —

PI. 45 — 7. nbovata

Fig. A — Fotografia do Holotypus

Fig. B — Distribuição geográfica.


— 381 —

that the group merits generic status." Estudamos muitas coleções, inclusive os "typi" e
não conseguimos separar estas duas espécies de Tassadia obovata Decne. O caráter utili-
zado por Spellman em sua chave é muito variável e não serve para distinguir uma espécie
da outra, daí considerarmos estes dois táxons como sinônimos de Tassadia obovata.

Em virtude dos "holotypi" de T. selloana e T. pilosula depositados no herbário do


Botanischer Garten und Botanisches Museum, Berlin-Dahlen, terem sido destruídos
durante a Segunda Guerra Mundial, elegemos como "lectotypi" os "isotypi" deposita-
dos respectivamente nos herbários do National Museum of Natural History, Smithso-
nian Institution, Washington (Sellow n.° 40) e do Field Museum of Natural History,
Chicago, Illinois (Sodiro n. 5 107/1).
Fournier (1885), Schumann (1895) ejonker (1940) fizeram referências^ T. obovata
ou a seus sinônimos, como tendo uma corona externa e interna. Porém, verificamos ao
examinar inúmeras flores diafanizadas (inclusive dos "typi"), a existência de uma coro-
na simples, aliás já salientada anteriormente por Gleason et Moldenke in Moldenke
(1933).

Examinando-se os " t y p i " de T. jloribunda, T. poeppigiana e 7". obovata, por exem-


plo, encontramos nos dois primeiros, uma corona aneliforme é um tufo de pêlos alongados
na região axilar da parte interna dos lacínios da corola, enquanto que em T. obovata ob-
servamos uma corona com segmentos trilobulados e a região axilar dos lacínios da corola
glabra. Entretanto, com o estudo de um grande número de espécimes coletados posterior-
mente, localizamos tormas intermediárias entre a corona aneliforme e a corona com seg-
mentos trilobulados, bem como quanto às dimensões dos pêlos, resultando por conse-
guinte nos sinônimos já mencionados.

17. Tassadia leptobotrys Decne.

(P1.3:fig. H ; P 1 . 7 : fig. P; P1.9:fig.A; P1.12: fig. M ; P1.46; P1.47)

Decaisne in DC. Prodr. 8:579.1844; Pulle, Enum. Vasc. P I . Surinam: 388.1906;


Jonker in Pulle, A. F l . Suriname, IV (II). Meded. Kol. Inst. Amst. 30 (11): 355.1940.

Kamos glabros e râmulos levemente pubescentes. Pecíolos suavemente pubescentes,


8-13 mm de compr.; lâminas elípticas ou lanceoladas, submembranáceas, aparente-
mente glabras, porém levemente pubescentes, pêlos adpressos, base aguda, ápice acumi-
nado, 55-76 mm de compr., 22-31 mm de largura. Inflorescências em pleiotirsos axilares
opostos. Kaque glabra ou com pelos esparsos. Cimeiras umbeliformes, providas de 1 pe-
dúnculo glabro, 0,5-2 mm de compr. Flores alvas; pedicelos glabros, 1,5-2 mm de
compr.; bractéolas ovadas ou ovado-triangulares, agudas no ápice, externamente pubes-
centes, internamente glabras, a maior 0,42-0,51 mm de compr., 0,35-0,41 mm de larg.,
as duas menores 0,34-0,44 mm de compr., 0,27-0,32 mm de largura. Sépalas ovadas,
agudas ou obtusas, externamente glabras, 0,6-0,7 mm de compr., 0,5-0,6 mm de largura.
Corola rotácea; tubo internamente glabro, 0,25-0,34 mm de compr.; fauce glabra; lací-
nios patentes, ovados ou ovado-triangulares, agudos ou obtusos, puberulentos na base e
parte mediana, papilosos na região subapicaí, 0,8-0,9 mm de compr., 0,7-0,9 mm de lar-
gura. Corona simples, com os segmentos trilobulados; lóbulo mediano mal ultrapassan-
do a base das anteras ou chegando a superar a parte mediana das mesmas, suborbicular,
obovado ou subovado, ápice subtruncado, arredondado ou obtuso, visto pelo lado interno
geralmente cuculado, 0,13-0,14 mm de compr., 0,24-0,25 mm de larg. na base; lóbulos
laterais denticuliformes, mal superando a base das anteras, 0,12-0,17 mm de compr.,
0,06-0,08 mm de largura. Anteras com a parte locular subquadrada ou subretangular,
apresentando as asas paralelas ou subparalelas mais prolongadas que o dorso, 0,30-0,31
mm de compr., 0,25-0,32 mm da larg. na base, 0,26-0,31 mm de larg. no ápice; apêndices
— 382 —

membranáceos 0,17-0,20 mm de compr., com a parte apical suborbicular ou obovada.


Retináculo oblongo ou suboblongo, obtuso ou subtruncado no ápice, 0,094-0,157 mm de
compr., 0,042-0,066 mm de larg. na parte mediana; caudículas horizontais, geniculadas
mais próximo das polínias, 0,047-0,066 mm de compr., 0,008-0,011 mm de larg. na in-
serção com o retináculo, 0,019-0,031 mm de larg na inserção com as polínias; polínias
clavadas ou subclavadas, mais alargadas na parte inferior e com os grãos de pólen imper-
ceptíveis na parte superior, maiores em comprimento que o retináculo, 0,150-0,180 mm
de compr., 0,063-0,086 mm de larg. acima da base. Estigma oculto pelos apêndices mem-
branáceos das anteras.

Localidade típica: in Guiana batav. Surinam.

Holotypus: 1824, leg. Leschenault (P); Isotypus (L).

Distribuição geográfica: — Suriname e Brasil no Estado do Amazonas.

Esta espécie ocorre perto de rios e plantações, florescendo nos meses de outubro e
novembro. Foi coletada pela primeira vez em 1824 por Louis Théodore Leschenault de Ia
Tour (1773-1826), com diversas obras publicadas sobre botânica. O nome leptobotrys
(lepto-íino, delicado; 6o/rj.ç-rácemo) foi dado pelo autor da espécie que imaginava ser a
inflorescência do tipo racemoso, daí a designação que significa: cacho tênue, delicado.

Material examinado:

SURINAME — leg. Leschenault (L, P); leg. Focke (L); Lustryk, X.1837, leg.
Splitgerber 357 (L).

BRASIL —
Amazonas: Municipality Humayta, near, Livramento, on Rio Livramento, 12.X. -
6.XI.1934, leg. B.A. Krukoff 6642 (MO,RB).

Esta espécie inicialmente apontada apenas para o Suriname por Decaisne (1844),
Pulle (1906) e Jonker (1940) é aqui assinalada pela primeira vez para o Brasil, jonker
redescreveu muito bem este taxon, mas considerou uma corona dupla, quando na reali-
dade ela possui uma corona simples com segmentos trilobulados.

2.5 Espécies Excluídas.

1) Madarosperma confusum Fournier in Mart. F l . Brás. 6 (4): 214.1885. (In Brasí-


lia: Martius in herb. Monac. ubi cum Ditassa anômala confusum: Holotypus — M ) .

Recebemos por empréstimo do Botanische Staatssammlung München, o material


acima referido, coletado por Martius em Minas Gerais, cujo exame permitiu chegar à
conclusão de tratar-se de um novo sinônimo de Ditassa anômala Martius.

2) Tassadia rhombijolia Rusby, Mem. N.Y. Bot. Gard. 7: 331.1927 (Mulford Bio-
logical Exploration of the Amazon Basin n.9 208 A: Holotypus — NY).

3) Tassadia hutchisomana Rusby, loc. cit. (Huachi, head of Beni River, Bolívia,
15.VIII.1921, leg. O.E. White966: Holotypus — NY).

Tivemos também a grata satisfação de estudar os " t y p i " destas duas espécies descri-
tas por Rusby (1927), as quais identificamos como Stenomeria decalepis Turczaninow.
— 383

•mm

'SU^UJI^
•mm
Y1.46 — / . leptobotrys: fig. A — botão; fig. B — flor vista de perfil; fig. C — flor com os
lacínios da corola afastados, para mostrar a corona e o ginostégio; fig. D — flor desprovi-
da dos lacínios da corola, para mostrar de um outro ângulo, a corona e o ginostégio; fig.
E — segmento da corona isolado, face interna; fig. E l , E2 — segmentos da corona isola-
dos, face externa; fig. F — antera, face externa.
— 385 —

PI .47 — T. leptobotrys

Via,. A — Fotografia do Holotypm

Fig. B — Distribuição geográfica.


— 387 —

V. DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Woodson (1941) incluiu o gênero Tassadia Decaisne, na sinonímia de Cynanchum


Linnaeus, com mais 22 gêneros, considerando que a prefioração torcida ou valvar, corona
presente ou ausente, simples, composta e estrutura da inflorescencia eram caracteres
muito variáveis. Esse autor resolveu simplificar a sistemática da família, levando em con-
sideração principalmente as Asclepiadaceae ocorrentes em seu país, fazendo novas com-
binações de algumas espécies pertencentes a gêneros, em sua maioria da América Central
e do Norte, sem ter estudado os inúmeros " t y p i " das espécies daqueles 22 gêneros, em sua
maior parte da América do Sul.

Não poderemos negar, em hipótese alguma, o valor dos trabalhos de Woodson, mas
também cabe-nos o direito de discordar, quanto à sua redução geral do número de gêne-
ros da família, pois para tal, deveria em primeiro lugar, adquirir um conhecimento pro-
fundo e seguro de todas as espécies que compõem cada gênero, com base na tipificação e
outros métodos taxonômicos.

Aceitando-se simplesmente, os conceitos do referido autor, sem uma boa revisão dos
binômios de cada grupo, torna-se possível incorrer em falhas como as cometidas por
Holm (1953) que transferiu Tassadia guianensis Decaisne para o gênero Cynanchum
Linnaeus, citando, após sua nova combinação, como material examinado, um exemplar
de Tassadia martiana Decaisne, e Spellman (1973) (1975) que incluiu Tassadia recurva
Rusby e Tassadia apocynella Rusby no gênero Cynanchum Linnaeus, quando na reali-
dade, estes táxons não passam de sinônimos de Tassadia obovata Decaisne.

Os trabalhos de Malme (1927) (1939), botânico sueco de grande renome, um dos


maiores estudiosos e conhecedores das Asclepiadaceae da América do Sul, tiveram duas
grandes virtudes: a primeira, de dar sempre nas suas descrições ou redescrições, a forma e
as dimensões dos transladores e polínias, e a segunda, de considerar o tipo de inflores-
cencia como um dos elementos básicos para determinação de alguns gêneros.

Com o conhecimento adquirido sobre as inúmeras espécies de diferentes gêneros do


Brasil e da América do Sul, preferimos seguir de um modo geral as linhas traçadas por
Malme e a maioria dos autores, considerando Tassadia Decaisne, como um bom gênero.

Tassadia Decaisne é um gênero pertencente apenas à faixa neotropical, ocorrendo


na América do Sul e Central, principalmente em formações ripárias. Caracteriza-se acima,
de tudo por suas flores dispostas em pleiotirsos ou tirsos axilares, retináculo oblongo, li-
near ou lanceolado, desprovido na parte central de uma membrana reticulada, caudículas
providas apenas de corpo principal e estigma geralmente mamilado.
As dimensões reduzidas de sua estrutura floral, causaram sérias dificuldades na
identificação e descrição de suas espécies, daí os inúmeros binômios descritos e nenhuma
revisão de caráter geral. Suas flores diminutas levaram-nos, por conseguinte, à estudá-
las pelo método de diafanização, sob a luz dos microscópios ótico e estereoscópico, sem os
quais seria impossível, uma revisão minuciosa, que contou também com uma vasta pes-
quisa bibliográfica e o exame dos " t y p i " de todas as espécies.

Graças a todos estes estudos, chegamos às seguintes conclusões:

O gênero Tassadia Decaisne está situado na subfamília Asciepiadoideae, tribo


Asctepiadeae, mais afim ao gênero Stenomeria Turczaninow e próximo também de
Ditassa R. Browne Metastelma R. Brown.

Para identificação de suas espécies, os caracteres mais importantes são: indumento


— 388 —

da lace interna dos lacínios da corola, a forma e as dimensões da corona, das anteras, dos
transladores, das polínias e do estigma.

Das 26 espécies descritas para este gênero, 16 ficaram em sinonímia; Tassadia


rhombifolia e Tassadia hutchisoniana criadas por Rusby e colocadas como sinônimos de
Stenomeria decalepis Turczaninow, foram excluídas do presente trabalho, restando do
total inicial, somente 8 binômios a saber: 'Tassadia propinqua Decaisne, Tassadia corda-
ta Malme, Tassadia burchellu Fournier, Tassadia martiana Decaisne, Tassadia decais-
neana Miquel, Tassadia guianensis Decaisne, Tassadia obovata Decaisne e Tassadia
leptobotrys Decaisne.

Os gêneros Madarosperma Bentham e Glaziostelma Fournier, por não apresenta-


rem diferenças marcantes de Tassadia Decaisne, foram incluídos em sua sinonímia. O
primeiro destes 2 gêneros contava com 3 espécies a saber: Madarosperma trailiana
Bentham, Madarosperma aripecurense Fournier e Madarosperma confusum Fournier.
A primeira espécie foi transferida para o gênero 'Tassadia Decaisne, resultando na nova
combinação aqui apresentada, a segunda entrou na sinonímia de Tassadia martiana De-
caisne e a terceira foi excluída do gênero, por ser um sinônimo de Ditassa anômala Mar-
tius. O único binômio pertencente ao gênero Glaziostelma Fournier, ou seja, Cilaziostel-
ma ovalifolium, também passou para Tassadia Decaisne, constituindo uma nova combi-
nação.

Ditassa aristata Fournier, foi outro binômio também incluído no gênero aqui
revisado.

Metastelma uneinatum, descrito por Fournier (1885), foi incluído como sinônimo de
Tassadia burchellu Fournier, por uma casualidade, pois havíamos pedido o seu " t y p u s "
como empréstimo, para estudos do gênero (ionioanthela Malme e não de Tassadia De-
caisne.

Além dos binômios acima tratados, foram descritas neste trabalho, 6 espécies novas,
a saber: Tassadia castellanosn, Tassadia grazielae, Tassadia emygdioi, Tassadia mila-
nezu, Tassadia valioi e Tassadia geniculata, totalizando assim 17 espécies para o gênero,
todas elas com farta ilustração.

VI — RESUMO

O autor faz neste trabalho uma revisão taxonômica do gênero Tassadia Decaisne
(Asclepiadaceae) pertencente à subfamília Asclepiadoideae, tribo Asclepiadeae e exclu-
sivo da faixa neotropical, onde ocorre principalmente em formações ripárias.

No tratamento do gênero em questão, é apresentada uma chave para identificação


das suas 17 espécies, que são descritas ou redescritas, acompanhadas de comentários ta-
xonômitos e ilustradas com desenhos analíticos, fotografias dos " T y p i " e mapas de dis-
tribuição geográficas.
Foram descritas 6 espécies novas, feitas 3 novas combinações e assinalados inúmeros
sinônimos, dentre os quais destacamos os gêneros Madarosperma Bentham e (Uaziostel-
ma Fournier.
Deste trabalho foram excluídas Madarosperma confusum Fournier, Tassadia
rhombifolia Rusby e Tassadia hutchisoniana Rusby, em virtude de serem sinônimos, a
primeira de Ditassa anômala Martius e as outras duas de Stenomeria decalepis Turcza-
ninow.
— 389 —

ABSTRACT

Taxonomic revision of the genus Tassadia Decaisne (Asclepiadaceae) which belongs


to the subfamilia Asclepiadoideae, tribus Asclepiadeae, is presented. This genus occurs
exclusively in the neotropics, mainly in riparian vegetation.
The 17 species of this genus are described or redescribed and a key for their
identification is included. Taxonomic comments accompany the descriptions as well as
análytic drawings, type photographs and maps indicating geographic distribution.
Six new species and 3 new combinations are described, as well as inumerous
synonyms. VVorthy of mention among the latter are the genera Madarosperma Bentham
and Glaziostelma Fournier.
In this revision Madarosperma confusum Fournier, lassadia rhombifolia Rusby and
lassadia hutchisoniana Rusby were excluded due to their status as synonyms, the first of
Üitassa anômala Martius and the other two of Sterwmeria decalepis Turczaninow.

VII — Í N D I C E S DOS C O L E T O R E S , SEUS N ú M E R O S E E S P é C I E S C O R R E S P O N D E N T E S

A L V A R E N G A , M . , T. burchelhi
A R C H E R , W . A. 2386, T. propmqua
BLACK, G. A. 47-1960, 47-2179, 48-2235, T. marttana
B R A D E , A. C. 6122, T. obovata
B R O A D W A Y , W . E. 5738, T. obovata
B U C H T I E N , 0.1203, 1204, T. obovata
B U R C H E L L , W . J . 8360, T. burchelhi; 9900, T. propmqua
C L A U S S E N , P. 1839, 361, s.n., 7. propmqua
C O R R E I A , M D . et R. I. D R E S S L E R 969, T. obovata
C R O A T , T B . 15000, T. obovata
C U A T R E C A S A S J . 14095, T. obovata
D O N S E L A A R . J . v a n 2 5 5 1 , T. guianensis
D U A R T E , A. P., 998, T. obovata
D U C K E . A., s.n., T. obovata; s.n., T. ovalifolia
EGLER, W . A. 1339, T. trailiana
F A N S H A W E , D . B., 29512, T. propmqua
FARINAS, M . , V E L A S Q U E Z , J . et M E D I N A , E., 642, T. propmqua
F E N D L E R , A., 1758, T. emygdioi
F O C K E , H. C , 6 0 1 , T. decaisneana; s.n., T. leptobotrys
F O S B E R G , F. R. 29329, T. propmqua
F R Ò E S , R. L. 26828, T. propmqua; 26134, 7'. marttana, 23800, T. obovata
G L A Z I O U , A. F. M . 9924", T. trailhana; 9924, T. ovalifolia; 18367, T. obovata
G O N G G R Y P , J . W . 29, (Forestry Bureau Suriname 3819), T. guianensis; 90 (Forestry Bureau Su-
riname 3793), /'. guianensis; 114 Forestry Bureau Suriname 2264), 252 (Forestry Bureau Suriname 3153)
T. propinqua
G R O S S M A N N , K. 156, /'. obovata
H A T S C H B A C H , G. 31714 et Z. A H U M A D A , T. propmqua
H A T S C H B A C H , G. 33103 et C. K O C Z I C K I , T. propmqua
H A T S C H B A C H , G. 35624, T. obovata
H A U G H T , O. 2815, T. propmqua
H E K K I N G . W . 1047, T. guianensis
H I T C H C O C K , A. S. 16905, T. propmqua
H E R I N G H E R , E. P. 9916, 9932, T. burchelhi; 2178, T. obovata
H O E H N E , F. C. 5168, T. propmqua; 4333, T. obovata
H O L T , E. G. et E. R. B L A K E R 619, T. obovata
H O L T , E. G. et W . G E H R I N G E R , T. obovata; 367, T. propmqua
H O S T M A N N , F. W . 70, 7". propmqua
K A P P L E R , A. 1474, T. propmqua; 55,1410, /'. guianensis
KILLIP, E. P. et S M I T H , A. C. 22889; T. obovata
K L U G , G. 3296, 1732, T. obovata; 2891, 7". anstala; 488,798, T. grazielae; 459, T. ovalifolia
K R A M E R , K. U. et H E K K I N G , W . H. A., 2839, 7". obovata
KRUKOFF, B. A. 11145, /'. obovata; 6642, / . leptobotrys
K U H L M A N N , J . G. 900, T. aristala; s.n. (Comissão Rondon 1254), s.n. Comissão Rondon 1255 et
1256), T. trailiana; 7\i, T. milanezn; 1039, T. martiana; s.n. (Comissão Rondon 1259),
s.n. (Comissão Rondon 1260), T. burchelhi; 610, T. propmqua; 2033, 7*. ovalifolia
— 390 —

LA C R U Z , J . S. de, 1001, 1164, 1945, 2957^ 3657, 3928, 4586, T.propinqua; 3292, T. obovata
L A N J O U W J . e t j . C. L I N D E M A N , 2861, T.guianensis; 1309, T.propinqua
LASSER, T . 1118, T. emygdioi
L A W R A N C E , A. E. 584, T. obovata
L E P R I E U R , F. R. s.n., 7". guianensis
L E S C H E N A U L T , L. T . s.n., T. obovata; s.n., T. leptobotrys
L O E F G R E N , A., 509,511, T. obovata
L U S T R Y K , s.n., T. leptobotrys
M A A S , P . J . M . 10874, T.propinqua
M A G U I R E , B. 23350 et D. B. F A N S H A W E , T. propinqua
M A R K G R A F , F. 3778, et A. O B R A D E , 1. obovata
M A R T I U S , C. F. P. von, 2943, 2944, s.n., T. martiana, s.n., 395, T. obovata
M E X I A , YNES, 6514, T obovata
M O O R E , S., 4 3 1 , T trailiana
M U R Ç A P I R E S , J . 3113, T. obovata: 496,2670, T. propinqua; 3534, T trailiana; 505,V T. anstata
M U R Ç A P I R E S J . 3113, T. obovata: 496,2670, '/.propinqua; 3534, /'. traüliana; 505, / . anstata
M U R Ç A P I R E S , J . et G. A. BLACK, 1049, T. valioi; 1481, T.propinqua
M U R Ç A P I R E S , J . et SILVA. N . T . 4781, T. propinqua
M U R Ç A P I R E S , J . , W U R D A C K , J . J., BLACK; G. A. et SILVA, J . N. T . 6151, T. obovata
N E W M A N , M., T.propinqua
N O V A E S , C , 5823, T. obovata
P E R R O T T E T , G. S., T. guianensis
P E R S A U D , A., 124, 236, T.propinqua
P H I L C O X , D . et A. F E R R E I R A , 4123, T propinqua
P H I L C O X , D., P E R E I R A , A. et B E R T O L D O , H. 3251, T. propinqua
P I N H E I R O , R. S. 1665, T.propinqua
P I N K U S , A. S., 214, T propinqua
P I T T I E R , H. 13510, T emygdioi
P O E P P I G , E. F. 2007, T obovata; 2846, T. martiana
P Ò H L , J . B . E . 815, T. burchellii
P O I T E A U , P.A., s.n., T. guianensis
P R A N C E , G. T., 2944, B. S. P E N A , J . F. R A M O S , T milanezú
P R A N C E , G. T . 11566, C O E L H O , L. F., K U B I T Z K I et M A A S , P . J . M . , T trailiana
P R A N C E , G. T . 15253, M A A S , P . J . M . , W O O L C O T T , D. B., C O E L H O , D. F. M O N T E I R O ,
O. P. et R A M O S , J . P., T. trailiana
P U L L E , A., 2 0 1 , T. guianensis; 101, 'T.propinqua
R E I J E N G A , W . , 797, T. propinqua
R I E D E L , L. 150, 1893, T. obovata
R O D R I G U E S , W . et C O E L H O , D., 4025, T. propinqua
R O D R I G U E S , W . , 380, T. trailiana
R O D R I G U E S , W., et L I M A , J . , 2250, T trailiana
RUSBY, H. H., 2573, T. martiana, 1046, T. anstata
S A M P A I O , A. J . 5875, T. guianensis
S A N D E M A N , C. 3384, T. obovata
S C H O M B U R G K , R. H. 374, T. guianensis (G. L. P.); 374, T. trailiana (UPS); 232, T. propinqua
S C H U L T E S , R. E. et BLACK, G. A. 46-286, T. millanezu
S C H U L T E S , R. E. 9915 et L O P E Z , T., T. propinqua
S C H U N K E J . M . , 99 (US-1459009), 390, T. guianensis, 72, T. ovalifolia, 7 1 , T cordata; 99 (A)
T obovata
S C H W A C K E , C. A. W., s.n., 2014, T. obovata; 633, T trailiana
S E L L O W , F., s.n, 40, T. obovota
SICK, H. 3139, T.propinqua
S I D N E Y , F. et E. O N I S H I , 380, T. propinqua
S I M M O N D S , N. W., 14153, T. obovata
S K U T C H , A. F., 4354, T. obovata
S M I T H , H . H , 1620, 1621, T. obovata
S O D I R O , S. J . A . 1 0 7 / 1 , T. obovata
S P L I T G E R B E R , L. 357, T. leptobotrys; 1127, T. obovata
S P E L L M A N , D. L.,s.n., T. obovata
S P R U C E , R., 2694, T. obovata; 1361, 2389, T. trailiana; s.n., 1230, 1303, 1851,2089, T.propinqua;
3295, T. castellanosn; 543,210, T. martiana; 2118, T anstata
S T A H E L , G. (Forestry Bureau Suriname 7130), T. guianensis
S T A H E L . G . et G O N G G R Y P , J . W . (Forestry Bureau Suriname 929); 216 (Forestry Bureau Surina-
me 3012) T. propinqua
S T E I N B A C H , I , 5132, T. obovata
S T E Y E R M A R K , J . A.; 93142, T. obovata; 56996; T. martiana; s.n., T. anstata
S T E Y E R M A R K . J . A. et B U N T I N G , G. 83551, T. propinqua
S U C R E , D., 10398, T. burchellii
— 391 —

T A L B O T , H. F., s.n., 7". decaisneana


T A L M O N , S . S . , 1681, T. obovata
T E S S M A N N , G. 3540, T. obovata; 3407, T. guianensis; 3380, T. cordata; 3335, T. milanezu
T E U N I S S E N , P. A. et W I L D S C H U T , 11915, T.propinqua
T R A I L J . W . H . , 521, 7. traüiana
U L E , E. 5183, T. martiana; 6563, T. aristata; 9531, T. obovata; 5924, T. milanezu
V 1 C E N T , D., 4754, T. obovata
W I L L I A M S , L., 15718, T. obovata; 15590, T. ovalifolia
W O Y T K O W S K I , F. 6073, T. grazielae; 5958, T. obovata; 5144, T. milanezu

VI11 — ÍNDICE DAS ESPÉCIES

Pag.
Cynanchum apocynellum (Gleason et Moldenke) Spell 373
" guianensis (Decne.) R. Holm 281
" . recurvum (Rusby) Spell 373
Ditassa anômala (Mart. 384
" aristata Benth. ex Fourn 335
Glaziostelma ovalifolium Fourn 329
Madarosperma anpecurense Fourn 347
confusum Fourn 384
oblongum S. Moore 321
trailiana Benth 321
Metastelma decaisneanum (Miq.) Pulle 287
" uncinatum Fourn 294
Stenomeria decalepis Turcz 384
Tassadia angustifolia Malme 359
apocynella Gleason et Moldenke 373
aristata (Benth. ex Fourn.) Font , 335
burchellii Fourn 293
castellanosii Font 335
colubrina Decne 347
comosa auct. non Fourn., Glaziou 373
comosa Fourn 359
cordata Malme 305
decaisneana Miq 287
emygdioi Font 368
floribunda Decne 373
geniculata Font 299
grazielae Font 315
guianensis Decne 281
hutchisomana Rusby 384
tanceolata Decne 359
leptobotrys Decne 381
martiana Decne 347
milanezu Font 353
minutiflora Malme 359
multiflora Malme ' 294
neovidensis Fourn 373
obovata Decne 373
ovali/olia (Fourn) Font 329
püosula Sch 373
poeppigiana Decne 373
propmqua Decne 359
recurva Rusby 373
rhombijolia Rusby 384
rusbyi Macbride 347
selloana Fourn 373
sphaerostigma Ule 359
sprucei auct. non Fourn. Glaziou 359
sprucei auct. non Fourn., M a l m e 361
sprucei Fourn 359
sprucei Rusby 347
trailiana (Benth.) Font 321
turnjormis Fourn 373
valioi Font 305
— 392 — •

IX — REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALENCASTRO, FM.M.R. de, FONTELLA-PEREIRA, J , ARAÚJO. D-D. de, FREIRE DE CARVALHO, L. d'A , et VALENTE, M. da
C. 1971. Contribuição ao Estudo das Asdtpvadactat Brasileiras, VIII, Estudos Taxonômieo e Anatômico de Dtíassa banksn Roem. et Schult.
e Diíassa anômala Man. — An. Acad. Brás. Ci. 43 (3-4): 725.746,1-70 fig.
BAILI.ON. H E. 1890 Asclepiadacees in Histoiredes plantes 10 221-304, fig. 157-183
BENTHAM.G. 1877. Madarolperma tradlumum in Hooker.J. D. ícones Plantarum, 13:12-13, pi f214.
BENlHAM.G.cl HOOKER, | I). 1876. Atdepiadeat inGenera Plantarum 2:728-785. 1241-1242.
DECÁISNE, J. 1844. AscUpiad€<u in DC Prodromui 8:490-665.
ESAU. K. 1965 Planl Anatomy. ed. I John Wiley et Sons Ira .New York London Sydney: I + XX 767 pág III
FONTELLA-PEREIRA. J. 1967. Notas preliminares sobre as A\depwdaceai' da Amazônia Brasileira. — Atas fio Simpósio sobre a Biota Amazô-
nica, 4 (Bot.): 99-111,4 fins.
FONTELLA-PEREIRA/J. et MARQUETE. N. F da S 1971 Estudos em .4.depwdaceae, II. Sobre a identidade de Buildma í-armingit Fourn.
— Boi. Mus Bot Mun. Curitiba 1: 1-6.
1974. Estudos em A\depiadactae, V. Uma nova espécie de blephamdon Decne. — Boi. Mus. Bot Mun. Curitiba 18.1-3, fig. 1-4
1975. Estudos em Aulepiadacetie, VI. Uma nova espécie de Astrphanus R. Br. — Bradea 2 (3): 9-12, 1 fot.
HHKNIER, E. 1885. Asclepiadaceae in Martius. Flora Brasiliensisô (4): 189-332, pi 50-98.
GLAZIOU, A. F M. 1910 Asclepiadacees in Plantae Brasiliaecentralisa Glaziou leclae — Mem Soe Bot France 1:459-467.
GRISEBACH, A H R 1862 Asdepiadtae in Flora of the British West Indian Islands: 416-422.
HOEHNE, F. C 1951. A\deptadat:eac in Índice Bibliográfico e Numérico das Plantas colhidas pela Comissão Rondon ou Comissão de Linhas Tele-
ráficas, Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, de 1908 até 1923:328-336
f , R. W. 1953 Asdfpiadateat in Steyermark. J. A. Boianiral Exploration in Venezuela, III. — Fieldiana 28 (3)503-511
IONKER.F. P 1940 A»leptadmrar in Pulle, A. Flora of Suriname, IV (II) — Meded. Kol. Init. Amit. 30 (I l):326-357.
MACBRIDE I F 1931. Axltfiiadactar in Spermatnphvtes. mostly Peruvian. III. — Publ Field Mus. Nat Hist Boi Ser . II (l):4-35.
MALME, G. O. A. 1 9 2 7 . i t a l ^ M M H M M p M M l — Ark. f. boi 21A (12): 1-27, pi I.
1939. Atdepiadacear austroamericanae novae vel minus rognitae —Ark. f. bot. 29A (13): 1-3.
MEYER, T 1944. Aulvpmdacetw in Descolei Genera Species Plantarum Argentinarum 2:1-273, pi 1-121
M1QI KL, F. A. G. 1844. Aidrpiadatrrae in Plantae Surinamenses Novae. — Linnaea 18:23-31, pi 2.
MOLDENKE, H. N. 1913. Studiesofnewand noteworthv tropical american plants, I — Phylologia 1:5-18.
MOORE, S 1895. Asdtpiadauae in The Phanerogamic Botany of the Mato Grosso Expedilion 1891-92 — Trans. Linn Soe. London. serv 2,4
(3):397-4O0.
(XICHIONI. P 1956. Contribuição ao Estudo do gênero llryprlalum. Com especial referência às spp do Itatiaia e Serra dos Órgãos (Tese). —
Arq.Jard. Boi Rio dejaneirn 14:37-210, 62 pi.
PULLE, A. 1906. Asdepuidaceae in An Enumeration of lhe Vascular plants Known from Surínam, logether wilh their distribution and synonymy:
387-389. .
RISHV. H H 1898 Aiclrpiadarrar in An Enumeration of the Plants nillccled by Dr Rusbv in Souih America. 1885-1886. XXIV. — Buli Toirey
Club25(9):497-50O. 542.
RUSI1V. H. II 1920. Ascleptadúctat in New Species of South American Plants: 97.
1927. A sdrpmdattar in Descriptions of New Genera and Species of Plants collei led on the Mulford Bioloimal Exploration of lhe Amazon Val-
ley 1921-1922. — Mem. N Y. Boi. Gard. 7:331-336
St :IU IMANN, K. 1895. Asdtpmdactar in Engler u Pranll Nal. POanzenf 4 (2) 189-306. fig. 62-92
J898. .-! ic/rtíNioVca.'in Sodiro. A S |. Plantae eruailorenses, 1 -Bot. lahrb. 25:725-731.
' SCHLECHTER, R. 1899. Asdepiadactae in Urban, I. Symbolae antillanae seu fundamenta, florae Indiae Occidenlales. 1:237-290
SPELLMAN, D. L. 1973. New combinations in Aidrpiada.ear. — Phylologia 25 (7) 438.
1975. A \depl<idactar in Woodson. R. E.Jr.et. ai. Flora of Panamá. — Ann. Miss. Bot Gard 62(0:103-156, 16 fig.
STAFLEU, F. A. et ai. 1972. International Code of Bouokal Notnenrlature: 1-426.
TURCZANINOW.S. 1852. Aulrpiadrueae quaedam Husiusque inde» riptae —Buli Soe. Nat. Moscou 25 (21 310-325.
ULE, E 1908 Die Püanzeníormalionen dej Amazonas — Gebréles Pflanzengeographie Ergebnisje meiner in den Jahren 1900-1903 in Brasilien
und Peru unlernommenen Reisen — Boi. Jahrb. 40:114-172.
WAGENITZ, G 1964 Asdepiadaciat in Engler, A Syllabus der Pflanzenfamilien 2:414-417, fig 178
WOODSON, R E.Jr. 1941. The North American Asdepiadacrae, I Perspective of lhe Genera —Ann Miss Bot Gard 28 (2): 193-244
1948. Asdtpiadaceae in Maguire, Basset et ai., Planl exploralions in Guiana in 1944, chiefly Io lhe Tafelberg and lhe Kaineur Plaleau V —
Buli TorreyClub75(5):560-561.

i
I N S T R U Ç Õ E S AOS A U T O R E S

1 — Arquivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro publica trabalhos de Botânica


e ciências correlatas, originais, inéditos ou transcritos.
2 — Em casos específicos a Redação da Revista poderá sugerir ou solicitar
modificações aos artigos recebidos.
3 — Informações gerais sobre o trabalho, qualificação e endereço profissional do (s)
autor (res) devem ser colocados no rodapé da página, sob chamada de asteríscos.
4 — Os trabalhos devem obedecer às normas da Revista. Assim, o original será en-
viado dactilografado em uma só face do papel, que não deve ser transparente, em espaço
duplo e com não menos de 2,5 cm de margens (superior, inferior e laterais), e sempre que
possível acompanhado de uma cópia.
5 — As figuras e ilustrações devem apresentar, com clareza, seus textos de legenda,
sendo que gra-ficos, desenhos e mapas devem ser preparados em tamanho adequado para
redução ao tamanho da página impressa (18x11,5) e elaborados com tinta nanquim preta,
de preferência em papel vegetal e não devem conter letras ou números dactilografados.
6 — Os trabalhos devem obedecer à seguinte ordem de elaboração: Título,
Resumo, Introdução, Material e Métodos, Resultados, Conclusões, Agradecimentos,
Referências e Abstract.
7 — Referência: Sobrenome, inicial (ais) do (s) nome (s), título do artigo, nome da
revista (ou Instituição), volume (ou número), páginas, ano da publicação. Exemplo:
Hitchcock, A. S. — The Grasses of Equador, Peru and Bolívia. Contrib. U.S.
Nat. Herbarium, Washington, 24 (8):241-556. 1927.
Até três autores são citados; quando são quatro ou mais usa-se citar o primeiro
completando-se assim, por ex.:
Rizzinietalii(1973)
8 — A lista de referência deve ser ordenada alfabeticamente e com número remis-
sivo. As abreviaturas dos títulos de revista devem ser as utilizadas pelos "abstracting
journals". Em caso de dúvida na abreviação, escrever a referência por extenso, cabendo à
Comissão de Redação fazer a abreviatura.
9 — Quando da entrega dos originais o autor deve indicar o número de separatas
que deseja receber, pagando o que exceder das 25 separatas gratuitas que a* revista lhe
fornece.
10 — Os trabalhos que não estiverem de acordo serão devolvidos aos respectivos
autores para devida correção.