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FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO

Curso de Pós-Graduação em Ciência Política

Volmer SiIva do Rêgo

Poder, loucura e razão na obra de Lima Barreto:

crítica e devaneio socioliterário no major Policarpo Quaresma

São Paulo
2015

Volmer Silva do Rêgo

Poder, loucura e razão na obra de Lima Barreto:


crítica e devaneio socioliterário do major Policarpo Quaresma

Artigo científico apresentado para obtenção


de diploma de conclusão do curso de
pós-graduação em Ciência Política da
Fundação Escola de Sociologia e Política de
São Paulo.

Área de concentração: Sociologia e


Literatura

Orientador: Prof. Rodrigo Estramanho de


Almeida

São Paulo
Janeiro 2015

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Nome: RÊGO, Volmer Silva do
Título: Poder, Loucura e Razão na obra de Lima Barreto: crítica e devaneio
socioliterário do major Policarpo Quaresma

BANCA EXAMINADORA

Nomes e titulação

Assinatura: Profº. Ms. Rafael Balseiro Zin (USP) – Parecerista

Assinatura: Profº. Dr. Rodrigo Estramanho de Almeida (PUCSP) – Coordenador do

curso de Estudos Brasileiros

Assinatura: Profº Dr. Humberto Dantas (USP) – Coordenador do curso de Ciência

Política

Data de aprovação
- 16/02/2015
AGRADECIMENTOS

A meu professor orientador Rodrigo Estramanho de Almeida, pelas


inestimáveis críticas e sugestões.
A Gisele C. Batista Rego, pela revisão.

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A literatura é essencialmente uma
reorganização do mundo em termos de
arte; a tarefa do escritor de ficção é
construir um sistema arbitrário de objetos,
atos, ocorrências, sentimentos,
representados ficcionalmente conforme um
princípio de organização adequado à
situação literária dada, que mantém a
estrutura da obra.

Antonio Cândido
Resumo

Este artigo aborda o romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma” de Lima


Barreto, que centra a sua ação na personagem que dá nome ao livro, e na cidade do
Rio de Janeiro, o centro e a periferia da capital da Primeira República, e aborda
aspectos psicossociais das pessoas no contexto histórico da revolta da Armada
(1892). E, em um mesmo recorte temporal e hierárquico, foca as atitudes do homem
central da República, o próprio presidente, enquanto „recua‟ na direção dos
personagens mais periféricos daquela ordem político-administrativa, abrindo espaço
para o leitor atento circular com ampla margem de interpretações, entre os bairros
descritos e as figuras de grandeza política da época: o Marechal Floriano Peixoto,
presidente da República e outras pessoas públicas de menor importância, gravitando
em sua órbita, e cujas envergadura e expressão político-intelectual duvidosas são
ironicamente expostas.

Palavras- chave – Poder, República, nacionalismo, loucura, sociedade.

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Abstract

This paper discusses the novel “Sad End of Policarpo Quaresma” by Lima
Barreto and focuses on the character named in the title of the book and on the city of
Rio de Janeiro, the downtown area and the outskirts of the capital of the First Republic.
The novel also addresses the psychosocial aspects of the people within the historical
context of the Revolt of the Navy (1892). In the same temporal and hierarchical period,
focuses on the actions of the most prominent man of the Republic, the President
himself while its in the direction of the more peripheral characters of that political and
administrative order, he enables the attentive reader to delve into a wide range of
interpretations, amidst the neighborhoods described and the great politicians of the
time: Marshal Floriano Peixoto, President of the Republic and other public figures of
lesser importance, who gravitate around him, and whose questionable, political and
intellectual skills and substance are ironically exposed.

Key words – Power, Republic, nationalism, madness, society.


PODER, LOUCURA E RAZÃO NA OBRA DE LIMA BARRETO:
crítica e devaneio socioliterário do major Policarpo Quaresma

Em um domingo, a 13 de maio de 1888, dia comemorativo do nascimento


de D. João VI, rei de Portugal, foi assinada por sua bisneta Dona Isabel, princesa
imperial do Brasil, e pelo ministro da Agricultura da época, conselheiro Rodrigo
Augusto da Silva, a lei que aboliu a escravatura no Brasil.
Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro sete anos
antes. Sancionada em 13 de maio de 1888, a lei que extinguiu a escravidão no Brasil
foi precedida pela lei n. 2.040 (Lei do Ventre Livre), de 28 de setembro de 1871, e
libertou todas as crianças nascidas de pais escravos, e pela lei n. 3.270 (Lei
Saraiva-Cotegipe), de 28 de setembro de 1885, regulou-se “a extinção gradual do
elemento servil“.
A lei que promulgava extinto o trabalho escravo no Brasil data, assim, de
apenas sete anos após o nascimento de Lima Barreto. Um cenário fica claro: ele
nasceu ainda no calor e ao sabor da escravidão. Outras nuances, porém, haverão de
compor este quadro, que à Peter Brughel (pintor flamengo do século XVI), em um
sucessivo de personagens curiosos, luz e sombras, história e ciência conduzem sua
leitura. Lima Barreto era mulato(1) - um cognato de mula: equídeo da família dos
muares, animal usado atualmente para trabalhos de carga e transporte nas regiões
rurais, e comum à época da Primeira República também nas cidades -, e deve ter
sentido o peso social, à guisa de preconceito, que ainda hoje implica esta designação
étnica. Pobre, morador da periferia da capital imperial, que veio posteriormente a ser
também a capital da República Velha no Rio de Janeiro, Lima Barreto era filho de um
tipógrafo e de uma professora pública, ambos negros, portanto, escravos, ou que,
pelo menos, viveram sob o signo histórico da escravidão. Seu padrinho fora o

1 Mulato: existem na literatura nacional excelentes trabalhos, romances e análises socioliterárias sobre
a situação e a condição psicossocial do que representa ser um mulato, um meio sangue, meio negro,
meio branco, e, por conseguinte, à guisa de puro preconceito, uma indefinição racial ou étnica na
formação do Brasil desde a chegada dos primeiros negros escravos, a miscigenação com o branco
europeu, português ou não e consequentemente o que isto represente até hoje. Recomendam-se as
leituras do romance naturalista O mulato, de Aluísio Azevedo, o romance socioanalítico O mulo, de
Darcy Ribeiro, e o estudo socioliterário realizado pelo professor Rodrigo Estramanho de Almeida, A
realidade da ficção: ambiguidades literárias e sociais em O Mulato de Aluízio Azevedo (2010).

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Visconde de Ouro Preto(2) um político monarquista, amigo do imperador Dom Pedro II,
uma sorte que ele aproveitou até os 15 anos de idade, quando passou nos exames
para cursar Engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, o que seguramente
lhe garantiria espaço profissional futuro e diferente condição de vida. Curso e
condição perdidos numa inclinação da roda do destino, logo após o golpe que os
militares deram na corte imperial de Dom Pedro II, e que depôs, junto com o imperador
a sua corte e os seus ministros, dentre os quais o seu protetor, Ministro da Marinha
Imperial, a segunda grande força militar do império e que rivalizava em importância
com o Exército Imperial, a força e organização militar mais poderosa de então e que
abrigava dentre outros, em seus quadros e fileiras os Generais tornados em seguida
Marechais (patentes máximas das forças armadas) Deodoro da Fonseca e Floriano
Peixoto, personagens nucleares do episódio histórico-político da proclamação de
nossa república em novembro de 1888. A virada do episódio republicano alterou
significativamente os rumos e a vida política do país, afetando diretamente os
envolvidos e seus próximos, e, seguramente lhe custou caro, promovendo uma
grande transformação em sua rotina, motivo suficiente para se posicionar
contrariamente à nova instituição. Lima teve, portanto, razões pessoais para se
colocar como crítico ao evento e a ele somou conteúdo histórico e social dourado em
sarcasmo e acidez que se depreendem das falas, ações e descrições de seus
personagens, muitas vezes expondo-lhes ao ridículo por serem o que eram, sua
condição social, status e posturas.
Anos depois, em 1902, o escritor teve o seu pai acusado de roubo e
conduzido a um hospício após se tornar dependente de álcool. Como consequência
do encadeamento sequencial destes fatos abandonou definitivamente os estudos e
decidiu trabalhar para ajudar no sustento da família. É desse ano também sua
primeira aparição como colaborador na imprensa carioca pelo jornal A Lanterna.
No ano seguinte, passou em um concurso público e assumiu um posto de
secretário administrativo, uma espécie de arquivista em um departamento da
Secretaria Administrativa do Ministério da Guerra, sedimentando a sua decisão de
abandonar a Escola Politécnica, condição da qual, talvez, advenham seus
conhecimentos, suficientes para descrever com certa riqueza de detalhes, as
minúcias militares que enredam o personagem Policarpo Quaresma em seu livro e o

2 Ministro da Marinha no 2º Reinado – Dom Pedro II – Afonso Celso de Assis Figueiredo foi o Chefe do
seu Triste fim. Nos anos seguintes, em 1905, já como jornalista profissional,
empregado no Correio da Manhã e afastado da Secretaria da Guerra, participa de
atividades políticas pelo Partido Operário Independente (3) e teve um livro publicado
em Portugal – Recordações do escrivão Isaías Caminha (4) que recebe críticas
favoráveis de Monteiro Lobato (5 ).
Em 1911, adentrando o primeiro quartel do século XX, a República já
consolidada, Lima inicia em capítulos publicados no Jornal do Comércio, seu livro
Triste fim de Policarpo Quaresma, objeto deste artigo. A partir de 1916, os efeitos e os
excessos de uma vida boêmia, devido a frequência noturna em bares e cafés, nas
quais participa de debates acalorados com jornalistas e intelectuais de seu meio se
fazem notar, e, em 1917, embora entregue ao alcoolismo e em condições precárias de
saúde, já abalada, ainda exerce intensa atividade política como anarquista libertário,
defendendo a abolição dos governos e o fim das classes sociais que deles derivam.
Em uma luta pela defesa dos trabalhadores chegou a publicar um texto de conteúdo
marxista defendendo estas causas e a Revolução Socialista Russa.
Sua saúde abalada levou-o a internar-se por duas vezes, e o fato de ter
perdido a proteção de um tutor com a importância do ex-ministro da Marinha Imperial
deve tê-lo deixado insatisfeito, possivelmente irritado e estressado com os rumos de
sua vida, as circunstâncias conjunturais e as suas leitura e as interpretações
sociopolíticas de seu tempo, as propostas e a instabilidade da república recém
instaurada, de certa forma alterando as suas relações psicossociais e no trabalho, e
talvez deteriorando ainda mais a sua fé no novo regime político instalado. Em 1914,
no Hospital Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, na Urca, na então capital
federal, aos 33 anos – transtornado e com alucinações supostamente provocadas
pelo abuso do álcool e em camisa de força – é internado e, noutra segunda vez, em
1919, no Hospício Nacional (6) onde veio a falecer em 1922, aos 41 anos por “colapso

Conselho de Ministros da Monarquia, preso e exilado em 1899, logo após a proclamação da República.
3 Partido Operário Independente - Fac-símile – Correio da Manhã, 23 de abril de 1905. Em:
http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=089842_01&pagfis=7959&pesq=&url
=http://memoria.bn.br/docreader#
4 Recordações do escrivão Isaías – o primeiro romance de Lima Barreto, publicado em Portugal, em
março de 1917.
5 Crítica favorável ao livro feita por José Bento Monteiro Lobato em – A barca de Gleyre – Globo livros,
1959 – p. 453
6 Informações contidas em documentos clínicos produzidos no Hospício Nacional e no Pavilhão de
Observação, entre 1900 e 1930. Disponível em: - http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v17s2/31.pdf

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cardíaco e gripe torácica”, dias antes de seu pai, lá também internado pelos mesmos
problemas.
Estes são, fundamental e possivelmente, de forma resumida, os leitmotiven
localizados pela nossa pesquisa, que lhes franquearam as bases e o levaram a
escrever Triste fim de Policarpo Quaresma, assim e aqui condensados, sem esgotar o
conteúdo amplo e tentacular de sua obra, escrita poucos anos antes de sofrer
definitivamente os efeitos da doença que o minava e da internação que terminaram
por matá-lo. Acrescente-se a isto o poder e o sentido-entendimento que dava a ele
(esteve próximo e circulava entre militares pelos corredores do palácio da Guerra
onde redundavam republicanos golpistas e adjuntos ao presidente Floriano) e a
loucura: o conhecimento teórico da vida militar, depreendido de suas experiências no
Ministério da Guerra, e suas duas passagens pelo Hospício Nacional, onde morreu
seu pai, e no qual se internou voluntariamente para tratamento de saúde.(7)

A escolha deste livro se fez com o objetivo de expor não só a fragilidade


estrutural com que se construiu o ideário republicano no país, novamente à revelia da
vontade popular, dada à inconsistência histórico-ideológica que acomodava e movia
seus homens e suas estruturas mentais e psicossociais, mas também com o intuito de
tentar resgatar uma crítica literária como elemento ficcional-artístico-funcional da
análise política da época e seu contínuo temporal extensivo à atualidade: a
“aristocracia suburbana” ou burguesia típica do Brasil e seus reflexos na formação de
uma classe média hierarquicamente abaixo daquelas (tendo, claro, como fator
determinante as diferenças e injunções econômicas), tão ou mais distante dos fatos
importantes que movimentavam o país e, conseqüentemente, deseducada
politicamente. De gestos e moral distinta da aristocracia palaciana ou de corte, a então
dona das terras da periferia, a classe média suburbana subexistia presa aos
modismos importados, e só chegou àquela condição, de um novo patamar social
depois de o país ter sido colônia de extrativismo primário, firmado em uma convenção
econômica e estatutária baseada no escravismo servil por quase trezentos anos
(FERNANDES, 1995). Só então, e a partir daí, dadas as injunções e os arranjos

7 Diário do Hospício é um (de dois) documento escrito por Lima Barreto, um impressionante relato da
internação do escritor, entre o natal de 1919 e fevereiro de 1920, no Hospício Nacional dos Alienados,
no Rio de Janeiro, organizada por Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, prefaciada por Alfredo
Bosi, pela editora Cosac Nayfi, 2010.
econômicos políticos e sociais da época, a sequência histórica, desde a derrocada
napoleônica e a influência dos tratados comerciais então feitos com a Inglaterra, e
além, os fatos particulares da família imperial portuguesa, em que pesem os seus
modos de tratar os personagens da corte, as relações de negócios e a economia
própria do Estado lusitano (FAORO, 2001), consubstanciaram-se nos fatos que
levaram o país a declarar-se politicamente independente da metrópole portuguesa em
1822, para, em seguida, tornar-se Império, antes de se tornar uma República.
Retrocedendo na contramão da história, comparativamente aos outros países do
continente, sem a participação popular tanto quanto no episódio da independência
política de Portugal preconizada por D. Pedro I, o Brasil adentrou à força de golpe
militar no modelo republicano, proclamado e imposto ao país por marechais, generais
e militares à revelia do povo, o que foi visto com desconfiança pela Inglaterra, mas foi
saudado pela Argentina, ao mesmo tempo em que gerava um alinhamento criador de
facilidades econômicas com os Estados Unidos em franca expansão industrial. O
golpe fora dado em certa medida como reação à morosidade da corte que, parece
também não pretendia alterações no status quo, nem na estrutura
burocrático-administrativa, política e socioeconômica do período pré-imperial da qual
remanescia e ainda se mantinha. Não houve consulta ou conclame à população,
desde sempre e então, mais uma vez, alijada das principais convenções e dos rumos
do país (FAUSTO, 1977).
Algumas panorâmicas e outros recortes aproximados de certos
personagens destacáveis no livro nos deixam entrever, erguida a cortina do sarcasmo
barretiano, diversos modos de vida compondo a população em sua diversidade étnica
e social. Desfilando orgulhosa e alheia, pisando no barro das ruas do subúrbio carioca,
e por entre mundanos de toda ordem, agia uma burguesia branca, fatia intermediária
dos substratos sociais ali apresentados, moralmente apequenada por seus interesses
pessoais, cheia de recalques, artificialismos e maneirismos frouxos, também
ancorada no modelo imperial e seu anacronismo, partícipes de um modo de ser
econômico, administrativo e político evocativo de outros e “novos” valores trazidos a
navios mercantes, galope e espada pelos ventos do tempo.
Estes são demonstrados, dentre outros exemplos da “modernidade” que
ganhava vulto e categorização, por exemplo, no aspecto cultural, pela introdução no
gosto daquela gente mediana de um instrumento musical, o violão, que no Brasil só

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adquiriu status de instrumento sério após o Modernismo e Villa-Lobos, assim colocado


e descrito por Lima Barreto no livro:

[...] Não, Ricardo Coração dos Outros era um artista a frequentar


e a honrar as melhores famílias do Méier, Piedade e Riachuelo.
Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na
casa do Tenente Marques [...] papai, disse Dona Ismênia, gosta
muito de modinhas[...]. (BARRETO, 1997, p. 22)

Rivalizando com o piano em importância, pela facilidade de transporte e


menores custos operacionais e de manutenção, o violão como instrumento musical
agregador foi-se introduzindo nas casas e no seio dessas famílias, junto com as
modinhas ou canções ligeiras que falavam “descomprometidamente“ de amor e
casamentos, variantes socioimputáveis às mulheres que se interpunham castamente
à lógica machista presente desde então, sem lhes oferecer resistência: “Intimamente
ela não se incomodava. Na vida, para ela, só havia uma cousa importante: casar-se
[...]” (BARRETO, 1997, p. 38). Outros eventos da modernidade afloram no livro e os
recolhemos também pelas alusões feitas às escolas livres que principiavam a surgir
como espaços de aprendizado e cultura, rivalizando em importância com os centros
de saber antes mantidos exclusivamente pelo Estado, cujos acessos encontravam-se,
desde então, restritos apenas aos mais próximos e socialmente melhor posicionados.
Pontuando a paisagem social carioca e abaixo desta camada sedimentar
composta de militares, burocratas, subalternos, liberais e comerciantes, malandros,
arrivistas e donzelas de prendas e dotes, giram em torno da figura continental do
major Quaresma, avessos à mestiçagem e zelosos de suas posses materiais,
desvalorizando a educação e os livros com o mesmo furor com que propendiam ao
progresso e aos lucros dos novos tempos, subvivendo como podiam, encontramos
uma profusão de seres: “ex-escravos“, os negros, caboclos, cafuzos, mestiços,
remediados, os “zungas”, diluídos e revirando-se no caldo caótico de uma sociedade
desestruturada, sem equipamentos ou aparatos sociais, à margem, tirando sustento
de pequenos expedientes e serviços pontuais, carregando tralhas, cortando lenha,
costureiras, carreteiros puxando carroças junto com a animália, limpando ruas, jardins,
roçados e bueiros. Pobres que não merecem uma “enxada na mão”, “vadios” como lhe
diz o próprio presidente Floriano em uma noite em que conversaram (BARRETO,
1997).
Lima Barreto vivencia, em seus últimos anos, a condição social do povo
sob um novo golpe: o quinto presidente do Brasil, o civil Rodrigues Alves, milionário
cafeicultor paulista (a terceira fortuna do país) delega poderes ditatoriais ao sanitarista
Oswaldo Cruz, ao engenheiro Lauro Müller e ao urbanista Pereira Passos, a “tripla
ditadura” para uma grande obra de reurbanização, responsáveis pelo que a imprensa
carioca chamou, è época, de “regeneração” do centro do Rio de Janeiro – antes
capital do Império e então capital da República: a expulsão do grosso da população
pobre dos casarões da área central da cidade próxima ao porto. O fato, narrado como
uma modernização necessária à região daquela área da cidade culminou com a
Revolta da Vacina (SEVCENKO, 1984), movimento de reação e resistência popular
que aquela gente comum ofereceu ao programa de limpeza urbana imposto à cidade,
datado de 1904. O Exército, a Marinha, as Forças Armadas voluntárias e guardas
republicanos se abateram fortemente armados e unidos sobre os antigos moradores
da região, e anos depois, após milhares de populares detidos, centenas de feridos e
dezenas de mortos, conseguiram seu intento: expulsá-los, sem indenização, para
longe do centro que, assim limpo, tornava-se um lugar à altura das necessidades e
requintes das exigências da “Belle Époque” e da indústria europeia que procurava
mercado para desovar suas mercadorias (SEVCENKO, 1984, p. 29). Os morros do
entorno, desde então, acomodam aquela população e eis aí, possivelmente, uma das
raízes da formação das favelas e atuais comunidades carentes do Rio de Janeiro.
Ali se reafirmou a nova divisão social do País, mera continuação do que
sempre fora. A capital da República dera o exemplo a ser seguido e ditava o traçado e
as diretivas das novas capitais que surgiriam nos outros estados e que estivessem
interessadas em trilhar o caminho da prosperidade.

A atmosfera cosmopolita que desceu sobre a cidade renovada


era tal que, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, as pessoas
não se cumprimentavam mais à brasileira, mas repetiam uns
aos outros: “vive La France!” como corolário àqueles que não
podiam se trajar decentemente (para os homens: calçados,
meias, calças, camisas, colarinhos, casacos e chapéus) e que,
portanto, tinham acesso proibido à cidade. (SEVCENKO, p. 26)

Lima Barreto já assistira, dois anos antes, outro ataque militar ser
despejado sobre Canudos, na Bahia (MONIZ, 1987), em nome e em defesa do ideal
republicano, episódio sangrento e grotesco, naquela feita sob o comando do marechal
Floriano, ocasião em que morreram massacrados pelos canhões e pela moderna

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artilharia e fogo do Exército e das forças militares unidas, na região do Vaza Barris, no
sertão baiano, de um lado, todos os habitantes do campesinato alternativo: cerca de
30 mil brasileiros entre velhos, homens adultos, mulheres e crianças, orientados por
Antônio Conselheiro - e de outro lado, emboscados e surpreendidos pela capacidade
de resistência daqueles „matutos‟ simples, alguns milhares de soldados. O sistema de
terror e da propaganda aplicados e alardeados nos jornais cariocas seguia as regras e
a bula dos massacres e invasões do período medieval ou colonial realizados contra
perigosos inimigos estrangeiros: decapitação e exposição em praça pública dos
restos dos cadáveres dos insurgentes. Um museu expôs as fotos durante mais de um
mês no centro da capital da República.
Em 1911, surge o livro que coloca o personagem major Policarpo
Quaresma no cerne da segunda revolta da República cujo movimento central atinge a
capital da República, o centro do Rio de Janeiro e partes da periferia da cidade. Mas
aquele personagem curioso vem, a muito tempo já, sendo gestado no imaginário do
autor, fruto da sua leitura e crítica da realidade desde então. Os gestos dos próceres
da república não lhe passam desapercebidos, e o fato determinante de ser jornalista e
trabalhar nas redações, portanto, atualizado com os fatos de seu tempo, e de ter
tomado contato com procedimentos do Ministério da Guerra tornam afiados o espírito
e a sagacidade analítica de Quaresma, que nasce assim crítico, ácido e corroído pelo
azedume da realidade, pois seu criador é observador, partícipe e esperançoso de uma
nova ordem social. Como Lima Barreto, o personagem Policarpo tem consistência
histórica, é culto, erudito, um intelectual, não se julga um qualquer. É de boa índole,
tem bom humor e admite-se doido, vá lá, mas, ignorante de seu país e dos males que
o acometem, jamais! Seu perfil apaixonado é amargo e ingênuo, e ao mesmo tempo,
detém irônica capacidade de corrosão. Este conjunto de qualidades, atributos éticos e
morais singulares, deforma-se no contínuo do romance, e ele inadvertidamente
transpõe o espaço que havia entre funcionário público ousado e inconformado ao
posto de subalterno indisciplinado, quando propõe a adoção do Tupi como língua
oficial do país e distraidamente encaminha ofício ao superior do gabinete no Ministério
da Guerra, onde trabalha, escrito na língua indígena, provocando a ira e a indignação
de seus chefes, para, em seguida ao fato, ser retratado pelos folhetins e imprensa da
época, sequiosa de fofocas e atenta às gafes e detalhes das ações governamentais, à
procura de um bobo na corte. Por fim, no entardecer do romance, isolado e preso
torna-se “criminoso de guerra‟, é condenado à prisão e à morte por traição, ele que,
em seu idealismo apaixonado só pretendeu as mudanças, só quis e procurou imprimir
conceitos e caráter de qualidade e firmeza na condução do país que sabia rico, na
execução de um projeto baseado na justiça e na nobreza da República, regime
recém-inaugurado à força de assalto e golpe militar, e no qual, de fato, como deixa
entrever em seus comentários finais, dadas estas características, com o desenrolar
dos fatos e à mercê destes descrê, deixando entrever pelas suas elocuções o que
verdadeiramente pensava o autor de suas peripécias, que enfim o descreve quase
como um herói sem forças para exercer sua razão, impotente para consubstanciar as
causas que o movem.
Sozinho, e às vezes cercado de sicofantas e inúteis, o major, de certa
forma, parece encarnar a República que é retratada e discutida pelos personagens
como um regime que se instaura à revelia da anuência popular, à maneira dos
conquistadores e invasores imperialistas, sem o contrato firmado com a população
civil sempre relegada durante todo processo colonial a um plano inferiorizado, e mais
uma vez, ignorante na sua maioria, irresponsável e irresponsiva do projeto que lhes é
imposto, desta feita por marechais furiosos e contrários à presença de monarcas
portugueses, contra quem, por militância política e forte inclinação anarquista, Lima
Barreto, a mão que pinta Quaresma, dispensa ataques velados e crítica mordaz.
Estava o regime, de tal sorte, fadado ao fracasso? Tinha de dar naquilo.
Um fim trágico, com os elementos literários necessários para se confirmar como tal,
tratado com nuances de loucuras e pantomimas que lhe conferem, ao mesmo tempo,
suave sabor de comédia. Lima mata Quaresma, mas antes torna-o patético,
ridicularizo-o em diversas ocasiões, juntamente com outros personagens a meio
palmo da mediocridade, coloca-o em um hospício e, noutra feita, a lutar contra
formigas (talvez apontado a sua inglória disposição de lutar contra o que não se pode
nem se deve lutar), ele o mata no final porque o trata como um sonho que mal se tem
e que logo se transforma em pesadelo. Como a república e sua instauração. Era
melhor acordar!
Trazido para o meio de uma luta travada entre grupos rivais, ainda que
baseados na Lei, cada qual com sua interpretação do que fosse esta, o anti-herói
major Policarpo Quaresma, um intelectual nacionalista visionário de boa índole nela
se envolve inocentemente, sofre por seus ideais e suporta o peso e a crueldade do
conflito armado, das traições e da indiferença sórdida de seus próximos, daqueles
com quem convive, misantropos interessados apenas e tão somente em seus próprios

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negócios, como vai apontando nas passagens da narrativa: o médico sociopata que
se casa com sua afilhada Olga, um individualista e egoísta que só quer ficar rico, as
conversas com os militares reformados que nunca foram à guerra, mas vivem nas
repartições, dando movimento aos trâmites burocráticos que podem melhorar as suas
aposentadorias etc. Quaresma é preso e encarcerado em uma ilha por aqueles que
um dia ajudou em combate e morre abandonado – executado? - pelos mesmos que
viviam em sua casa, mas no final o negam e lhes viram as costas. A revolta na qual se
joga como defensor do marechal Floriano Peixoto é uma luta para a qual se procurou
dar feições de conturbação e convulsão social, mas sem a participação popular –
deseducada e mais uma vez alheia –, conduzida pelas mãos de uma elite mesquinha
e dissociada do resto e das verdades profundas do país, é mera continuação do golpe,
e é neste subterrâneo de intenções, neste vazio moral que Lima coloca o major. Entre
a tibiez moral daquela gente que fala de país, de honra e dos grandes fatos políticos
que determinam a vida das pessoas, mas que sob a luz de um olhar mais perspicaz
desnuda a falsidade e o rasteiro de suas intenções.
Treze generais decidem que o presidente marechal Floriano Peixoto
deveria seguir a Constituição e chamar nova eleição para o cargo que ocupara após a
saída de marechal Deodoro da Fonseca. A Constituição de 1891 garantia que, se a
presidência ou a vice-presidência ficassem vagas antes de se completarem dois anos
de mandato, deveria ocorrer uma nova eleição, o que fez com que a oposição
começasse a acusar Floriano por manter-se ilegalmente à frente da nação. Ocorre a
Segunda Revolta da Armada, em 1893 (MARTINS, 1997).
Mas como fazer uma revolução se aquela era uma população distante, sem
a menor vontade de participar do processo “revolucionário republicano”, porquanto
ignorante do que vinha ser este ou aquele modelo político? “[...] Eu sei lá[...] Urubu
pelado não se mete no meio dos coroados. Isso é bom pro „sinhô‟” (BARRETO, p. 141)
parecem dizer em uníssono, Felizardo, Anastácio e Mané Candieiro, os negros
roceiros que cuidam do sítio do major em Curuzu, e que tão logo ouvem falar da
insurgência se metem no mato e desaparecem para não serem convocados para lutar.
Nisso reside a ironia de Lima Barreto que expõe a mixórdia, a algaravia da sociedade
brasileira, presa dos pequenos grandes planos e interesses grupais, desconectada da
realidade maior e social, enlouquecendo e adoentando aqueles que a querem
entender e sanar-lhe os problemas, mas tendo de ao mesmo tempo de debater-se
com saúvas que invadem a plantação e a põem a perder de uma noite para o dia, cem,
mil, milhões... Simbolismo profundo!
Lima Barreto fatia a realidade, e a disseca em gestos, esmiúça-lhe as
situações, circunstâncias, causas e efeitos, e assume o olhar e a fala de quem a
descreve ficcionalmente.

Sua estética, por meio do viés do jornalismo, se distinguiria


principalmente pela simplicidade, pelo despojamento, contenção
e espírito de síntese, aplicados à linguagem narrativa, enquanto
que o tratamento temático se voltaria para o cotidiano, os tipos
comuns, as cenas de rua, os fatos banais e a linguagem usual.
(SEVCENKO, p. 168)

Este uso da linguagem mais popular valeu-lhe críticas, é ignorado mas,

O intelectual brasileiro, procurando identificar-se a esta


civilização, se encontra, todavia, ante particularidades do meio,
raça e história, nem sempre correspondentes aos padrões
europeus que a educação lhe propõe e que por vezes se elevam
em face deles como elementos divergentes, aberrantes.
(CANDIDO, 1991, p. 102)

A vida do major, que usa uma patente militar não desejada, comprou-a de
ocasião por 400 contos durante a passagem em que assume a resistência
pró-Floriano Peixoto – de quem traça perfil definitivo: cruel e ao mesmo tempo patético
– é, contudo, de uma riqueza impressionante, de uma abundância de informações e
conhecimento sobre seu país, capazes de colocá-lo acima dos generais, almirantes e
demais postos que o circundavam, metidos que viviam no dia a dia de seus afazeres
mesquinhos e nos escaninhos daquela burocracia empesteada de provincianismos,
distante da racionalidade weberiana, ainda estruturada e alimentada pela seiva
viscosa das raízes do feudalismo imperial português. (JURT, 2012). Eis porque, talvez,
da escolha de seu nome Policarpo.
Em sua busca quixotesca com um violeiro como escudeiro não oficial (a
característica impressa pelo escritor Miguel de Cervantes, espanhol do século XV e
autor de Dom Quixote de La Mancha configura-se intrínseca aos heróis sonhadores),
uma ironia fina parece perpassar os arroubos nacionalistas do major Quaresma pela
construção de uma República fortemente embasada em ideias de nobreza de caráter,
honra revitalizada e pura, fato que por si, graças à analogia, deixa entrever a

18
5

descrença e a falta de seriedade que permeia a crítica barretiana à instauração


daquele regime de governo - poder.
Quaresma busca na exuberância das terras brasileiras, na riqueza já
declinada pelos versos do escrivão Pero Vaz de Caminha em sua primeira missiva ao
Rei de Portugal (“em se plantando aqui, tudo dá!”), as respostas para todos os males
que nos fustigam. “Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por
esta ou aquela parte do país, [...] era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira
estrelada do Cruzeiro” (BARRETO, 1997, p. 27). Reflete em si o caldeirão das
eficácias e necessidades do país heterogêneo, de diversas cores e etnias. Como
crítico ferrenho da sociedade de sua época e da baixa aristocracia, dos modos
burgueses, frívolos, sem nexo e sem fundamento, Lima Barreto, através do major,
vasculha a intimidade dos lares, os corredores das repartições públicas, os hospícios
e os quartéis, os palácios e os cortiços da cidade. Fala, recorta e reúne em sua prosa
ricos, pobres, remediados, militares, políticos, comerciantes e burocratas, de centro e
da periferia em uma costura rígida, bem amarrada em que prende todos firmemente, e
de longe parece apreciá-los sem piedade, sem amor, às vezes exasperado, curioso
espectador a olhar aquela tragédia a esgarçar-se. E empresta a voz a seu
personagem Policarpo, por sua vez um apaixonado (todo herói é vítima das paixões,
desde Hércules (8) confere-lhe uma patente, mesmo artificial, para afirmar de modo
irônico, e ácido às vezes, em todo o romance, a desmesurada incompetência dos
militares e das elites sem norte que mal têm o país nas mãos, e, ao mesmo tempo,
afirma a necessidade de valorizar este país e seu povo mais simples, de moralizá-lo e
de cobrar inteligência e firmeza na condução da “coisa pública”. Ele que nada quer a
não ser ver o país progredir e não desafinar no concerto das nações.

Nada de ambições pessoais, políticas ou administrativas; o que


Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar,
foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações
sobre seus recursos, para depois então apontar os remédios, as
medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.
(BARRETO, 1997, p. 25)

8 O mais célebre dos heróis da mitologia grega, um semideus (meio homem meio deus), o símbolo do
homem em luta contra as forças da Natureza. Era filho de Zeus (pai dos deuses) e Alcmena (uma
mortal), a virtuosa esposa de Anfitrião, que foi ludibriada pelo pai dos deuses e por ele fecundada.
Morreu, segundo a lenda, abrasado por paixões, após vingar-se da morte da amada e por matar Quíron
sagrado, um centauro que fora seu mestre nas artes da luta e da defesa.
Macunaímico (9), suas saúvas podem muito bem ter servido de inspiração
para modernistas como Mario de Andrade (também mulato e interessado pelas
“coisas” do País), seu nacionalismo utópico personifica crítica mordaz, ironia e malícia
a uma patriotada emergente e/ou resistente, desde a Canção do Exílio (10 ) ilustração
acadêmica das belezas que apenas olhos e sentimentos étnicos e socialmente
adestrados pelo caldo cultural europeu e branco – o olhar de fora – podiam refletir. Ao
ridicularizar os militares de gabinete, aqueles almirantes sem esquadras ou navios,
generais que jamais deram um tiro em guerra, desertores interessados apenas e tão
somente em suas próprias patentes e promoções, Policarpo Quaresma revela-nos
Lima Barreto, e ironiza sua crença na ordem e no progresso positivista defendido
pelos militares republicanos cujo lema encima o auriverde pendão nacional. “O
general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse.
Durante toda a sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando,
nada fizera que tivesse relação com sua profissão!” (BARRETO, 1997, p. 36). E
coloca os mequetrefes e os pândegos em fila “[...] O Contra-almirante era
interessantíssimo. Na Marinha por pouco que não fazia pendant com Albernaz no
Exército. Nunca embarcara, a não ser uma vez [...]” (BARRETO, 1997, p. 52),
descrevendo-os, inclusive como descrentes da educação, da ilustração pelos livros,
nacionais e estrangeiros, estudos sérios sobre os quais, ele, Quaresma, erguera todo
o seu conhecimento. Mesmo sua crítica em relação ao marechal-presidente Floriano
Peixoto, ao traçar-lhe o perfil, é definitiva, demolidora, e nela inclui subliminarmente
crítica à mestiçagem, à mistura das raças que desgraçadamente também nos
conforma como país:

Figura vulgar e desolada, bigode caído, lábio inferior pendente e


mole; traços flácidos e grosseiros, sem o desenho do queixo ou
olhar próprio que revelasse dote superior [...] a tristeza nativa, da
raça [...] parecia não ter nervos! [...] Preguiça [...] tibieza de
ânimos [...] esse “homem-talvez” [...] – sua concepção de

9 Macunaíma, do escritor paulista Mário de Andrade é tido como um dos principais romances
brasileiros do modernismo literário e artístico cultural de 1922. O livro surge em 1928, seis anos após a
morte de Lima Barreto que foi considerado um dos grandes renovadores da linguagem romanceada
pelos intelectuais que fazem o Movimento de 22. Mário também era mestiço.
10 Canção do Exílio - poema escrito em Coimbra – Portugal, em Julho de 1843 por Antônio Gonçalves
Dias, poeta, advogado, jornalista e, curiosamente mestiço, nascido em agosto de 1823, no sítio Bom
Vista, em terras de Jatobá, município de Caxias – MA. Morreu aos 41 anos em um naufrágio do
navio Ville Bologna, também no litoral maranhense.
Disponível em: <http://www.ufrgs.br/proin/versao_1/exilio/index01.html>. Acesso em: nov. 2014.

20
5

governo não era o despotismo, nem a democracia, nem


aristocracia, era de uma tirania doméstica [...] ! (BARRETO,
1997, p. 188-92)

Àquela afeição desmedida à família burguesa historicamente assentada no


falo patriarcal e na necessidade da manutenção das posses e propriedades,
apresentada e discutida por Engels e Marx no livro A origem da família,da propriedade
privada e do Estado, publicado em Zurich, em 1884 (11).
A atuação do major Quaresma, ele mesmo sem família, sem esposa e
filhos, tal qual Lima Barreto, pela construção de um ideário republicano brasileiro, livre
das incongruências originadas na Europa, o tornam uma triste figura, um tolo,
insignificante, ridículo, às vezes, e nada tinha a ver com nossas características
especiais. Suas tentativas de argumentar a favor da valorização da cultura nacional,
da nossa música, das nossas danças, a vegetação, a hidrografia e a geografia da terra,
os produtos da indústria nacional, do vinho ao tecido das roupas que usava, a sua luta
e busca pela justiça e inserção social dos que estavam abandonados pelo poder, força
que se corretamente aplicada, como propôs ao marechal Floriano em memorial, “[...]
desde que se corrijam os erros de uma legislação defeituosa e inadaptável às
condições do país[...]” (BARRETO, 1997, p. 218), enfim, aquilo que haveria de nos
tornar uma nação de verdade, deveria passar antes por uma necessária
reestruturação, pela busca de uma autonomia e uma abrangente emancipação dos
modelos aqui implantados e vigentes desde a época da coroa.
A partir da língua, inicialmente (... “no princípio era o verbo”...). Sua
proposta era o uso do tupi-guarani – Tupi or not Tupi – (ANDRADE, 1928), como
sendo a verdadeira língua nacional, apresentada em requerimento em sessão da
Câmara: “Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a
língua portuguesa é emprestada ao Brasil [...]” (BARRETO, p. 61) provocou enorme
celeuma entre superiores e demais empregados do Ministério onde trabalhava; o
major foi achincalhado, espinafrado por todos os colegas de sua repartição, do
superior imediato que se viu ameaçado com tamanha desfaçatez e até pelos amigos.
Embora chateado resignou-se à punição.

11 A origem da família, da propriedade privada e do Estado é uma obra de Friedrich Engels, e analisa
pelo viés do materialismo científico dialético, desde o início dos tempos, o desenvolvimento da
civilização. Foi publicado pela primeira vez em 1884.
[...] ele que há trinta anos estudava o Brasil minuciosamente; ele
que em virtude destes estudos, fora obrigado a aprender o
rebarbativo alemão, não saber tupi, a língua brasileira, a única
que o era – que suspeita miserável! Que o julgassem doido -
vá![...] (BARRETO, 1997, p. 68)

Não era doido o major, ingenuamente apaixonado por seu país, sim. Mas, o
tratamento a ele dispensado por todos, à exceção de Coração dos Outros, o amigo
violeiro, era este mesmo: “Você, Quaresma, é um visionário[...]” (BARRETO, 1997, p.
219).
Suspenso de suas funções de subsecretario de onde trabalhava,
Quaresma é tido como louco e vai-se para o Hospício. Lugar comum aos que afinam
diferentemente do diapasão consensual e têm ideias próprias. Não se revolta, e de
fato, aproveita o tempo ocioso para fazer breve análise da condição da loucura (o
próprio Lima Barreto redigiu textos sobre sua passagem pelo “sanatório”), e em
seguida principia a estudar, arquiteta e se lança num plano ambicioso – o de cultivar
as terras que possuía, um sítio chamado Curuzu, com o fito de provar-lhe as
qualidades e pujança. “O Brasil é o país mais fértil do mundo, é o mais bem dotado, e
suas terras não precisam de „empréstimos‟ para dar sustento ao homem. Fique certo!”
(BARRETO, 1997, p. 151).
Lima Barreto é esteticamente apaixonado pelo Império, e deixa entrever
este amor àquela sensação de estabilidade ao descrever em poucas linhas “a
simplicidade do antigo palácio do imperador as palmeiras imperiais, a beleza daquele
monumento etc.[...]” (BARRETO, 1997, p. 167) ou pelo menos via nisso alguns
valores a serem mantidos. Evolutivamente todas as formas de governo carregam
genes umas das outras, todas se parecem e se balizam pela conquista e manutenção
do poder. Mas, é revolucionário, apoia os ideais libertários da revolução russa que
aboliu as antigas castas aristocráticas e feudais que ainda vê funcionando no Brasil.
Critica o Positivismo (12) de uma facção militar que tentava se impor como corrente
filosófica dentro das Forças Armadas e implementado na política pelos militares de
nossa primeira República e da ditadura de Floriano a partir de 1920.

12 Positivismo – doutrina sociofilosófica de Augusto Comte, cujas principais características se


introduzem no seio do Exército Brasileiro como doutrina militar. O Exército Brasileiro até 1920 é
sustentado por esse embasamento doutrinário de inspiração comtiana: o objetivo dos integrantes da
Escola Militar, neste período, é aprender os ensinamentos de engenharia e matemática, deixando de
lado os conhecimentos referentes à representação e função de um militar. Disponível em:
<http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.0315.pdf>. Acesso em: nov. 2014.

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Ironiza os procedimentos destes militares através do personagem Major


Policarpo Quaresma, para quem se deve antes organizar o conhecimento, ordená-lo
de tal forma que se possa alcançar o progresso, em que cada coisa esteja em seu
lugar próprio, etiquetada, como em uma grande biblioteca, servida por bacharéis
dedicados, em um âmbito operacional febril, construtivo e a ser coroado com o amor
pela pátria, que assim subiria aos píncaros acantilados do sucesso e se igualaria às
potências mundiais. Mas qual, na acidez barretiana, eram todos mequetrefes, bufos
assemelhados, assanhados pela força que detinham enquanto militares patenteados,
mas cujas patentes sequer importavam, metidos a autoridade. Mentirosos que narram
batalhas das quais nunca participaram; conservadores que defendiam a monarquia
apenas por sentirem saudades de suas regalias; bajuladores do governo apenas para
se locupletarem em novos cargos, comissões e promoções; incapazes de realizar
uma tarefa para a qual fossem designados. No entanto, a revolta produziu seus títeres.
“Em nome do marechal Floriano qualquer oficial, ou mesmo cidadão, sem função
pública alguma, prendia e ai de quem caia na prisão [...] Eram os adeptos deste
nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo tirânico [...]” (BARRETO, 1997, p.
175).
Sequer o povo, que Policarpo sonhava unido em nome do País, pela
construção da República, tinha méritos. Sua despolitização, seu descompromisso ou
até indiferença ante as grandes causas, deixavam-no atordoado, levaram-no à “certa
loucura”, e como o autor, ele é também conduzido ao hospício.
O quadro das miscigenações ganhou muito mais quando aqui também se
introduziram os escravos negros como mão de obra trazida da África, para aumentar a
produção e como forma de substituir a mão de obra indígena local, considerada
preguiçosa e rebelde. Embora os negros (a característica fenotípica induz ao conceito
de “raça” única), fossem, por sua vez, pertencentes a etnias diversas, eram por razões
históricas e civilizatórias, e em relação aos senhores brancos escravagistas,
inferiorizados tecnológica e historicamente. Vieram em seguida também os ingleses,
os espanhóis, os franceses, os holandeses, os árabes e os semitas, por sua vez todos
também miscigenados cada qual com sua sanha (e continuaram chegando cada vez
mais povos e novas culturas), transformando o espaço, e ao mesmo tempo
conformando-se e à nova geografia (SANTOS, 1996).
[...] formado por um conjunto indissociável, solidário e também
contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não
considerados isoladamente, mas como um quadro único na qual
a história se dá. No começo era a natureza selvagem, formada
por objetos naturais, que ao longo da história vão sendo
substituídos por objetos fabricados, objetos técnicos,
mecanizados e, depois cibernéticos fazendo com que a natureza
artificial tenda a funcionar como uma máquina. (SANTOS, 1996)

É sobre esta mistura de povos, culturas, línguas e credos, cada qual com
uma visão de mundo e uma perspectiva diferenciada sobre um torrão rico e
exuberante que se pretendeu construir uma República, depois de os militares
retirarem pela espada os últimos monarcas. E o major Policarpo Quaresma responde
a isso, positivamente: conhecendo o território, suas mazelas e remédios, suas
riquezas e recursos, e pode-se, enfim, domá-lo. Para tanto é preciso educar os
homens, aplicar a justiça social, distribuir a riqueza e partilhar a cultura, fomentá-la e
traduzi-la como a canção universal harmonizando com todas as outras individual e
indistintamente. Sabe, porém, que lhes falta algo.

[...] Quaresma procurou descobrir naquela odiosa catadura que


Darwin achou nos mestiços; mas, sinceramente, não a
encontrou. (BARRETO, 1997, p. 158)

[...] Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um


divertimento da cidade[...] Alugavam-se binóculos e tanto os
velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o
bombardeio [...] (BARRETO, 1997, p. 176)

Será que dali, erigido assim sobre os devaneios, os sonhos ou a loucura de


um personagem, traduzindo em essência a loucura crítica de seu autor, surgiria um
país? Sua indagação trocista, mas triste, ampara-se na questão que se subentende
da leitura do livro: era então naquele povo, que se fiava a construção da República
brasileira, sobre um ideário de honra, força e nobreza de caráter? Com aquela elite na
direção e orientando os rumos da nação? Eram aqueles que olhavam e admiravam
apenas os próprios umbigos, os próceres que ergueriam as estruturas do país do
futuro? O que se construiria com isso? Uma caricatura de nação. “Todo sistema de
dominação, para sobreviver, terá de desenvolver uma base qualquer de legitimidade,
ainda que seja a apatia dos cidadãos [...]” (CARVALHO, 2005, p. 11).
Policarpo, de muitas visões, afazeres e ideais, como uma criança séria,
parece não se aperceber do jogo político, das intrigas e dos interesses dos homens,

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entrega-se de corpo e alma a suas percepções e onde vê defeito procura levar


concerto. Parece não entender a pantomima e as ações dos outros que o cercam, ou
se as entende não lhes dá a mínima. Age como o tolo útil que dissimula a
incompreensão e, assim, imagina-se isento das maldades que o cercam; joga-se de
cabeça e coração num jogo em que mistura fé e razão sem diferenciar uma da outra,
um perigo, em termos políticos, e cujo resultado soma zero. Está, sim, à frente de seu
tempo e acima de seus pares; e, por isso mesmo, como ave de canto fino, não tem
poleiro, não pousa, mas entrega-se à morte e aos que o querem abater, por serem
indiferentes a sua visão, e vai-se com ela, abandonado, sem ver resolvido nenhum de
seus desejos e preocupações. Policarpo sonhou. À exceção de Olga, sua afilhada, a
única mulher do texto que apontava o futuro da emancipação feminina, em uma
possível analogia à República que um dia haveria de vingar a despeito de tudo e de
todos, e Ricardo Coração dos Outros, o violeiro popular, que pela arte inocentemente
galgava espaço entre as faixas médias da população, ninguém mais tentou salvá-lo
ou procurou ajudá-lo.
Mas se sonhar é possível, torná-lo realidade exige um pouco mais de
sacrifícios. Quantos não morreram tentando? Quantos mais virão e enlouquecerão
tentando, submersos em drogas e pesadelos, loucura, insanidade? Vítimas de
preconceitos e da tacanhez de seu tempo material?
Entretanto, hoje, de posse desta consciência, os retratos postos nas
paredes do tempo e o desfile das velhas novidades, parece-nos, abundam recursos,
estudos e saberes sólidos, suficientes e necessários que já podem apontar,
babeliformemente, os rumos para esta e outras investigações...
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