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Conto | Os Alunos6 min de leitura

PUBLICADO EM 9 de novembro de 2017 por Diego Vieira


O diretor da escola estadual repetiu o ritual de toda sexta-feira e retirou as
cartas dos alunos da caixa de sugestões/reclamações que havia ao lado de seu
escritório. Parte do hábito era utilizar os minutos finais de seu almoço para lê-las, já
que normalmente não haviam muitas. Ele se espantou ao destrancar a urna e ver
que o volume de papel desta vez era o maior com o qual já se deparara.

Começou a ler as cartas de pronto para descobrir se o assunto delas era o


mesmo. Não era estranho receber reclamações, mas estas costumavam acontecer
pessoalmente, de pais preocupados ou de professores, durante as reuniões semanais.

Assim que uma das professoras do ensino fundamental se acomodou na


cadeira a sua frente, o diretor esticou para ela algumas das cartas. Ele respirou
fundo, juntou as mãos e recostou o rosto sobre elas, como se fizesse uma oração.

Aluno 1
Boa tarde, diretor. Sou aluna da oitava série. Do corredor térreo, próximo a
sua sala. Todos da minha turma disseram que as aulas “desnecessárias” vão ser
suspensas.

Então, ontem nossa professora de artes perguntou o que é arte e qual sua
importância pra gente. Foi no fim do dia, aí muitos nem responderam. A verdade é
que arte pra mim é a dança. Antes mesmo de entrar na escola eu costumava fechar
os olhos, abrir meus braços e girar por aí fingindo que dançava. A sensação de
liberdade, de que eu podia fazer tudo o que quisesse fez com que me apaixonasse
cada vez mais pela dança. Meus pais é que não gostaram nada quando disse que
queria ser bailarina. Então, eu mesma não acreditava ser possível até entrar nessa
escola.

Aí é isso. As pessoas estão com medo de que todos os cursos


extracurriculares sejam suspensos, mas eu não acho eles desnecessários. Nenhuma
das nossas aulas são. Queria muito saber o que realmente vai acontecer, já que todos
estão comentando, mas até então ninguém sabe de nada.

Aluno 2
Em primeiro lugar, peço desculpas, pois não sou nem aluno regular da
escola; eu costumo frequentar um curso de vocês três vezes por semana à tarde. Faz
seis meses que tenho aula de bateria no teatro da escola.

A música sempre foi importante para mim. Muitas vezes foi a minha forma
de me comunicar com as pessoas. Minha mãe dizia que eu tinha noção de ritmo, que
poderia ser um artista um dia. Eu achava um exagero dela, mas conseguia mesmo
sentir a música, as notas e a emoção que era passada através da batida.

Minha mãe veio no show que a escola organizou no mês passado e adorou
me ver tocar. Estou me aperfeiçoando cada vez mais na bateria, tanto que eu e uns
caras do curso estamos pensando até em montar uma banda! (Não sei se irá dar
certo, mas uma coisa que vocês me ensinaram foi a nunca desistir).

Os alunos da escola estão organizando um abaixo assinado para impedir o


fechamento das aulas e cursos de artes. E como nem sei se posso participar, estou
mandando esta carta para pedir que as atividades continuem. Assim outros alunos
como eu terão essa mesma oportunidade no futuro.

Aluno 3
Bom dia, diretor. Venho por meio desta tentar esclarecer quais mudanças
teremos em nossa grade curricular. Ando muito por esses corredores e, apesar de
nunca ter te visto, sempre ouvi falar muito bem do senhor.

Hoje, obtive conhecimento de que as aulas extras serão retiradas e, como


faço dança de salão após o horário, queria entender se, de fato, é isso que vai
acontecer. Já tentei aprender fora da escola, mas a professora daqui é a que tem
mais paciência para ensinar. Sou muito tímido, antes nem sequer podia pensar em
tirar alguém para dançar. Hoje eu não vejo a hora de ir a uma festa e dançar sem
parar. Fora que a maioria dos amigos que fiz foram nessas aulas, inclusive pessoas
que nem estudam mais aqui.

Os alunos da oitava série estão coletando assinaturas para um abaixo


assinado, outros estão falando em fazer protestos pela escola. Não vejo porque
chegar a isso, sendo que todos poderíamos dialogar para entender melhor o que está
acontecendo.

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O Diretor abriu os olhos, ergueu as sobrancelhas e encarou a professora.
Ela ensinava artes para a maioria das turmas e algumas das classes de dança e
música após o horário de aula.

—Existem várias outras cartas como essa. — Ele indicou com a mão a pilha
de papéis em cima de sua mesa. — Acho que a maioria são seus alunos…

—Sim, a maioria gosta muito da aula de artes e dos cursos.

— Eu conheço esses três?

A professora devolveu a primeira carta a pilha.

—Essa aqui é a que sempre te cumprimenta no corredor, ela faz dança


clássica no teatro. Disse que achou uma companhia de dança para tetraplégicos na
internet e quer viajar o mundo com eles quando se formar. — A professora não
conseguiu esconder o sorriso orgulhoso que surgiu conforme lembrava da aluna.

—O segundo, — continuou a professora — ele faz o curso de bateria para


deficientes auditivos às terças, quintas e sábados. Eles me surpreendem cada vez
mais. — Ela encarou a terceira folha por alguns segundos, tentando se lembrar do
aluno — Já este último deve ter pedido para um amigo escrever a carta por ele. Eu o
conheci nas aulas de dança de salão.

—Ah, dança de salão! A aula para os deficientes visuais…

—Isso. Eles são muito bons. Muitos não teriam oportunidade de ter esse
tipo de ensino em outro lugar — e acrescentou num tom mais baixo — estão até
organizando um abaixo assinado…

—Imagino de quem foi essa ideia…

A professora levantou as mãos.

—Eu só disse a verdade. Eles merecem saber. Muitos desses alunos contam
com as atividades que nós fornecemos para se sentirem inclusos, para se sentirem
alguém, — a professora apontou o indicador para a pilha de cartas e elevou o tom de
voz. — Aquela banda pode estar rodando o Brasil daqui alguns anos. Assim como a
menina que não tinha perspectiva de vida, a não ser sentada numa cadeira de rodas
num escritório. É com o futuro desse tipo de jovem que nós estamos mexendo. E se
ser honesta com eles tornou cada um deles pelo menos um pouco mais consciente do
papel que nós temos na vida deles, sim, eu não me arrependo de nem uma palavra
do que disse.

O diretor ergueu as sobrancelhas ao encarar a colega.

—Só um boato… — ele respirou fundo e olhou em volta. — Eu vou nas salas
para esclarecer esse mal-entendido.

—Vai ser muito bom os alunos ouvirem isso de você. Esses cursos são
muito importantes para eles.

O diretor começou a arrumar a pilha de papéis em sua mesa e engoliu em


seco.

— Admito que nunca fui a essas aulas desde que assumi, no começo do ano.
Muito obrigado por abrir meus olhos, e pela honestidade.

A professora se levantou e saiu da sala com a sensação de que alguém, além


dos alunos, havia aprendido algo naquele dia.