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I

Anna Maria Marques Cintra


Maria de Fátima Gonçalves Moreira Tálamo
Marilda Lopes Ginez de Lara
Nair Yumiko Kobashi

Paraentenderas
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linguagens.
documentárias
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Anna Maria Marques Cintra
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1 2il ediçãorevista e ampliada
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Sumário
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Apresentação 9

Introdução 13

1. Conhecimento, informação e linguagem 19


1.1 Conhecimento e informação 19
1.2 Linguagem: características gerais 26

2. Linguagens documentárias 33
2.1 Natureza, especificidadee funções 33
2.2 Configuração das linguagens documentárias 42

3. Sistema nocional 49
3.1 Relaçõeshierárquicas 55
3.1.1 Relaçãogenérica 5S
3.1.2 Relaçãopartitiva 61
3.2 Relaçõesnão-hierárquicas ou seqüenciais 62

4. Relações lingüísticas e documentação 67


4.1 Polissemia e ambigüidade 70
4.2 Sinonímia 74
4.3 Hiponímia 77

Bibliografia 87

7
Apresentação
.. - ~.-

o homem vive entre os campos semiológicos. No seu


cotidiano, caminha de um para outro, consciente ou incons-
cientemente. Enreda-se nas construções arquitetônicas, pas-
sa por esculturas (às vezes sem ver), ouve "sons" perdidos
de músicas ou de gritos, restos de conversas - agressivas ou
carinhosas. Cada um desses campos pelos quais ele transita
diariamente tem seu código específico. E ele trans-ita no sen-
tido primeiro: vai através de (trans) um caminho (ito) que
as gerações passadas construíram para ele e que sua própria
condição de humano lhe permite "receber" de vários modos:
em um dos pólos, não "percebendo" a extensão do mundo
em que vive; no outro pólo, "percebendo" tal extensão, apro-
priando-se dele e modificando-o, construindo novo mundo,
novos mundos. Re-construindo-se no fazer.
Esses campos semiológicos, com seus códigos próprios,
muitos deles não-verbais, entrelaçam-se e manifestam, na
verdade, a condição da sociedade naquele momento históri-
co. Essa inter-relação entre os campos, essa "costura" é rea-
lizada pelo código verbal, pelo signo verbal, pela palavra. Ou
seja: os campos semiológicos são manifestações sócio-
cuturais de uma dada sociedade. Embora com suas espe-

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cificidades, eles revelam a cultura daquela sociedade, naque- oral da cultura são aspectos fundamentais, mas como, nas
la etapa de desenvolvimento. E a cultura é transmitida, pre- áreas científicas, fazer conhecer o conteúdo de aproximada-
dominantemente, pela palavra. Por isso, só a palavra tem a mente 60.000 revistas científicas e cerca de um milhão de
condição de penetrar todos eles, de "interpenetrá-los". artigos individuais? Esses dados, citados neste livro, revelam
Esse é um dos motivos porque se afirma a importância a estimativa de 1960. Certamente a produção científica é mui-
da palavra. Sua condição de plasticidade permite-lhe ser o to maIor.
suporte do conhecimento. Sem conhecimento, o homem per- Ninguém ousaria pensar que é possível conhecer toda a
manece sempre muito próximo do pólo dos que não perce- produção de uma determinada área do saber. Mas é necessá-
bem a extensão do mundo em que vivem, em que circulam. rio, pelo menos, ter acesso a seus avanços e partir deles na
E aí está um dos aspectos da importância da informação. construção do novo conhecimento. Eis aí, de novo, a lingua-
gem documentária.
Nesse sentido, parece que a informação cumpre papel de-
Os desafios são numerosos. Num mundo em que, ao
cisivo na mudança dos destinos da humanidade, uma vez
que parece, o homem "não diz", apenas "é dito" pelas pala-
que ela está diretamente ligada ao conhecimento e ao de-
vras; em que se tem, predominantemente, "a voz do dono"
senvolvimento de cada uma das áreas do saber, já que todo
e não o homem como "dono da voz"; em que os discursos
conhecimento começa por algum tipo de informação e se
de máscara circulam como mercadorias de maior valor, como
constitui em informação (...) E para que o conhecimento da
trabalhar a linguagem documentária? Afinal, ela pressupõe,
sociedade não se perca e possa ser compartilhado, ele é re-
por um lado, a importância da divulgação da informação
gistrado num dado suporte: livro, imagem, foto, disco etc.
para que o homem assuma sua própria voz; por outro lado,
passando a se constituir num documento.
ela pressupõe o sujeito que vai "passar" o conhecimento
A informação não é um dado. Ela se constrói no encon- científico, elaborado na linguagem polissêmica, para outra-
tro de duas dinâmicas: a dinâmica de quem "emite", de quem a linguagem documentária.
"enuncia" (o enunciador) e a dinâmica de quem "recebe" o A palavra carrega a prática social da sociedade, enfeixa os
enunciado (o enunciatário). Ela ocorre sempre num espaço valores de um determinado momento histórico. É sub-reptícia.
onde as posições de quem "fala" e de quem "ouve" são Atua, sem que tenhamos consciência de seu papel. Este sL0eito
intercambiadas, num jogo de forças permanente. que vai "traduzir" o texto científico para a linguagem docu-
Aí começa a linguagem documentária. Como conseguir mentária carrega consigo essa formação. Também o sL0eito
que o conhecimento acumulado não se perca, que se tenha que elaborou o texto científico. Na condição de sujeito, cada
acesso a ele, de tal modo que não seja necessário "reinventar um terá seu universo de valores, que lhe foi transmitido pela
a roda" a cada geração? A memória coletiva, a transmissão cultura. Como evitar os desvios nessa tradução?

10 11

...
Como dizem as autoras, de um sistema de relações que
se caracteriza pela virtualidade, a LN (Língua Natural), usa- Introdução
da pelo sujeito do texto científico e pelo sujeito que fará a
"tradução" (e ainda pelo sujeito que "receberá" a informação, ...~--
é bom não esquecer) passa-se para um sistema de relações
não-virtual- a LD (Linguagem Documentária)

Mas, diferentemente da LN, o sistema de relações das LDs


não é virtual, bem como seus mecanismos de articulação
são extremamente precários, em face daqueles existentes nas
línguas, em geral. Bem ao contrário, elementos dessa lingua-
Se no passado as diferentes formas de nomear o arco-íris
gem especifica são selecionados de universos determinados
entre povos, ou as relações diversas entre línguas para dizer
e seu sistema de relações é construído, sendo indispensável,
"eu estou com dor de cabeça" eram percebidas como casos par-
para utilizá-la, a existência de regras explícitas. Por esse
ticulares ou idiotismos, hoje, são entendidas como ma-
motivo, as LNs são linguagens construídas.
nifestações naturais, geradas pelas diferenças de significante e
o mundo contemporâneo se desnuda em sua comple- de substância semântica, uma vez que o significado compõe,
xidade: todos os povos lutam para ter vez e voz no concerto indissociavelmente, a unidade numa dada língua.
das nações. A constituição de pólos hegemônicos consolida- Com efeito, enquanto na nossa cultura distinguimos
se a partir do conhecimento. E a linguagem documentária joga sete cores no arco-íris, entre os bretãos e os gauleses esse
papel decisivo nessa realidade. número cai para quatro, por exemplo, na zona onde distin-
O desafio é grande. As palavras, "suspensas no ar", pa- guimos azul e verde, eles identificam apenas o "glas". E, de
ram sua dança. Mas as autoras desse livro, com ciência e forma semelhante à nossa expressão "Eu tenho uma dor de
competência, topam o desafio. E vencem. É ler para crer. cabeça" correspondem em francês ou em italiano outras re-
lações: "J'ai mal à Ia tête" ou "Mi duole il capo".
Maria Aparecida Baccega Evidentemente, em muitos casos pode-se ter a ilusão de
Professora Livre-docente
mera transposição de nomes ou troca de significantes, como
da Escola de Comunicações e Artes
da Universidade de São Paulo em "cão/dog/chien". Entretanto, a esses significantes corres-
pondem significados relacionados a toda experiência cultu-
ral dos falantes de cada língua, o que levará, irremediavel-
mente, a significados diferentes, portanto a signos diferentes.

12 13
Pode-se, pois, dizer que cada língua natural- LN- ana- mesma natureza, como outras peças de alabastro, prove-
lisa os dados da experiência segundo padrões que dependem nientes de outros lugares.
da tradição cultural e do momento social do povo que a fala. Na LN, o elemento de troca é o signo lingÜística, que
Isso faz com que possamos dizer que cada LNé, a rigor, uma associa um significante (imagem acústica) a um significado
análise da sociedade, do homem participante de um grupo e (conceito). Seu poder de troca está ligado ao fato de poder
de sua cultura. servir para designar uma realidade lingüística que lhe é es-
tranha (realidade atingida por intermédio de seu significado,
Martinet (1969) diz: "Uma língua é um instrumento
mas que não é seu significado). Mas este poder significativo
de comunicação segundo o qual de modo variável de comu-
que constitui o signo é estritamente condicionado pelas re-
nidade para comunidade se analisa a experiência humana em
lações que o unem aos outros signos da língua, de sorte que
unidades providas de conteúdo semântico e de expressão
fônica e em unidades distintivas sucessivas". não se pode escolhê-lo sem o recolocar numa rede de relações
intra-lingüísticas.
Mas isso não permite dizer que numa mesma comuni-
Com os limites próprios de uma linguagem construída,
dade as estruturas lingüísticas sejam homogêneas. Facilmente
as linguagens documentárias - LDs - se valem de quase to-
observa-se que as pessoas de uma mesma comunidade lin-
dos os conceitos apresentados para a LN,constituem sistemas
güística não falam do mesmo modo. Entretanto, desde que
onde as unidades se organizam em relações de dependência.
essas diferenças sejam tais que não impeçam a comunicação,
No entanto, não se pode dizer que s~jam signos, uma
dizemos que estamos diante de uma mesma língua.
vez que faltam a suas unidades características básicas de sig-
Seguramente, se fizéssemos uma análise dos sons pro- no: significante e significado articulados segundo padrões
duzidos pelas pessoas de um grupo culturalmente homogê- sócio-culturais com disponibilidades virtuais de significação.
neo e de mesma língua, encontraríamos inúmeras diferen- Também não dependem nem da tradição cultural, nem
ças. No entanto, essas diferenças de timbre, de intensidade, do momento social e sim de convenções estabelecidas no COI1-
de altura etc., não são, freqüentemente, sentidas nem pelo junto do próprio sistema que é, por isso, estático e homogênco.
emissor, nem pelo receptor, nem tampouco como impeditivas Não se processa com essas linguagens uma comunica-
de comunicação. ção no sentido estrito. Processa-se, antes, uma decodificaçi10
A "posição" relativa do signo explicita a noção de valor. pura e simples, à maneira de códigos estáticos.
Quando dizemos que uma peça de alabastro vale x, dizemos Mas, a utilização de unidades retiradas da LN, dá às Lils
que ela pode ser troca da por um outro objeto de natureza um caráter particular que as torna, de certa forma, diferen-
diferente: dinheiro, ouro etc. Portanto seu poder de troca está tes dos sistemas estáticos. Na sua utilização há como que
condicionado a relações fixas existentes entre ele e ol:~jetosda Uma contaminação da mobilidade da LN, passada via esco-

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lhas lexicais que se transformam em unidades docu- das aos diferentes segmentos SOCIaIS.É esse partilhamento
mentárias. Assim, as LDs não se livram completamente de que está na base do caráter público da informação e que não
interferências culturais que acabam por exigir um trabalho pode ser obtido na ausência de uma LD. De fato, durante
quase permanente de atualização. lDuito tempo acreditou-se que a disponibilização dos esto-
O caráter sistêmico fica garantido com a impossibilidade ques seria suficiente para a sua socialização. Mas,atual-
de se ler UIna unidade em separado. De fato, cada unidade só mente, o fundamental é a existência de uma forma de or-
pode ser "lida" na sua relação com as demais unidades com- ganização que garanta o partilhamento. Essa organização é
ponentes do sistema. a LD.
Por serem sistemas construídos, as LDs são econômicas. Coyaud (1972) apontava, na relação entre a Lingüísti-
Só que não se trata da aplicação do princípio de economia da ca e a Documentação, aquilo que considerava ser um gran-
LN e sim de uma racionalização de escolhas e de procedimen- de defeito: por um lado, os teóricos da Lingüística acabavam
tos, que permitam uma utilização eficaz do sistema. trabalhando sobre questões abstratas, ficando inteiramente
As relações paradigmáticas e sintagmáticas tarnbém ausentes informações sobre as línguas concretas. A seu ver
ocorrem, só que de forma bastante restrita, especialmente os lingüistas poderiam ser divididos em dois grupos: os teó-
nas construções dos sintagmas. ricos que pendiam para a lógica, para a busca de universais
No entanto, nas LDs fica evidente o poder de troca das da linguagem, ignorando mesmo as línguas concretas; e os
unidades, numa posição bastante próxima da LN. Cada uni- especialistas numa dada língua que acabam por se fechar
dade documentária designa uma realidade dentro do sistema nela e por força de um terminologia própria chegavam ao
construído, o que torna evidente o valor e a possibilidade de limite da incomunicabilidade, até mesmo com o grupo teó-
troca, de representação. rico. Entre estes dois extremos havia um vazio.
De toda forma, as LDs são tributárias da LN, na medida Evidentemente que esta questão nem é tão simples, nem
em que são construídas a partir dela. Embora haja um esfor- tão clara. De toda forma, parecem faltar trabalhos de cará-
ço de neutralização de traços que fazem da LN um sistema ter extensional que possam fazer de forma produtiva a liga-
aberto, heterogêneo e multiforme, as LDs acabam por assimi- ção de teorias contemporâneas com práticas sociais.
lar algumas particularidades, uma vez que se valem de uni- Conhecer primeiro os meandros da linguagem parece
dades da LN e são manipuladas, freqüentemente por seres que ser pré-requisito, razão pela qual foram introduzidos nesse
têm. na LN algo, naturalmente, incorporado à sua existência. livro conceitos que permitam aprofundar conhecimentos já
A função da LD é tratar o conhecimento dispondo-o acumulados.
como infonn:ação. Em outras palavras, compete às LDs trans- Do ponto de vista da linguagem três aspectos merecem
formar estoques de conhecimentos em informações adequa- destaque: a demarcação, a significação e a comunicação. São

16 17

~
esses aspectos que, segundo Kristeva (1969: 14), permitem 1
dizer que todas as práticas humanas são tipos de linguagens.
Quanto às linguagens documentárias, é necessário que Conhecimento, informação e
sejam vistas, simultaneamente, como sistemas e como prá-
ticas sociais com todas as suas implicações que vão de seu linguagem
aspecto material, consubstanciado em cadeias de unidades, à
sua natureza comunicativa que pressupõe acordo entre su-
-..~..
jeitos que dela se valem. Nesse sentido, uma LD não se apre-
senta como uma construção universal, segue princípios Úni-
cos, mas reflete práticas sociais distintas relacionadas não só
às necessidades específicas de informação dos vários seg- 1 .1 CONHECIMENTO E INFORMAÇÃO
mentos sociais mas também aos vários consensos que os
caracterizam. Em estado dicionário informação significa "ação ou efei-
O livro organiza-se, além da Introdução, em quatro ca- to de informar", "instrução", "indagação", "investigação",
pítulos. O primeiro traz considerações, como o título sinali- "notícia" .
za, sobre conhecimento, informação e linguagem verbal ou O significado de informação implica a presença de semas
natural - LN. O segundo enfoca aspectos importantes das que envolvem apresentação, representação ou criação de idéia,
linguagens documentárias - LDs. O terceiro discute relações segundo uma forma. Em SUlna, a informação constitui, ela
intervenientes nas linguagens documentárias e o quarto re~ mesma, um conhecimento potencialmente transmissível.
toma conceitos de semântica lingüística que têm papel fun- Sob outro ângulo, pode-se dizer que a informação rela-
damental na construção de LDs. ciona-se à identificação de um "sinal" e supõe uma "forma"
passível de ser interpretada como mensagem.
De outra ótica, ainda, sabe-se que a informação se cons-
titui, na sociedade moderna, em ingrediente indispensável do
dia-a-dia das pessoas, graças, de modo especial, aos veículos
de comunicação de massa.
Entretanto, é em sentido específico de algum tipo de co-
nhecimento produzido no nível do mundo científico e
tecnológico que interessa fazer considerações.
Da mesma forma que a informação acontece nos dois

18 19

.!IiII
extremos do circuito da comunicação, o conhecimento acon- Com efeito, o estoque de conhecimentos é alterado com
tece no extremo do emissor, responsável pela criação em si e o input de novas informações, em virtude de adições, reestru-
no extremo do receptor, onde se dá a recepção da informação turações ou mudanças.
criada. Mas, para que o conhecimento da sociedade não se perca
Neste sentido, parece indiscutível que a informação cum- e possa ser compartilhado, ele é registrado num dado su-
pre papel decisivo na mudança dos destinos da humanidade, porte: livro, imagem, foto, disco etc., passando a se consti-
uma vez que ela está, diretamente, ligada ao conhecimento e tuir um documento.
ao desenvolvimento de cada uma das áreas do saber, já que O desenvolvimento científico e tecnológico tem
todo conhecimento começa por algum tipo de informação e proporcionado à sociedade uma massa enorme de informa-
se constitui em informação. ções geradoras de conhecimentos, portanto de documentos,
A partir da década de 1970, a noção de informação, bem que precisam ser tratados adequadamente para que haja não
como os termos que a representam tomam vulto, seja na . só a sua divulgação, como também a criação de novos co-
constituição dos discursos, seja na criação de disciplinas es- nhecimentos, cumprindo assim a rotina natural da própria
pecíficas. Acredita-se mesmo que a sua expansão represente, ciência.
na sociedade ocidental, Uln dos maiores sucessos de uma pa- Daí o papel fundamental da área de documentação,
lavra no século xx. responsável pela triagem, organização e conservação da in-
A utilização recorrente da palavra gerou, como é natu- formação, bem como pela viabilização a seu acesso.
ral, uma variação conceitual. Assim, fala-se do conceito de Há que se considerar que à massa considerável de docu-
informação em diferentes áreas de conhecimento, podendo a mentos em papel que constitui volume considerável vêm se
relação informação/conhecimento ser observada a partir de juntando, de forma também crescente, documentos em ou-
três aspectos que se complementam: tros suportes como disco, fotografia, fita magnética, vídeo etc.
. enquanto o conhecimento é estruturado, coerente e Segundo Waddington (1975), é praticamente impossível
freqüentemente universal, a informação é atomizada, dar uma imagem do mundo moderno, que chegue próxima
fragmentada e particular; da exatidão, em termos de conhecimentos acumulados. En-

. enquanto o conhecimento é de duração significativa,


tretanto, pode-se chegar a ter uma idéia parcial do proble-
ma, quando se consideram os estudos sobre o crescimento
a informação é temporária, transitória, talvez mes-
da informação científica e técnica nos Últimos dois séculos,
mo efêmera;
. enquanto o conhecimento é um estoque, a informa-
através só das publicações de revistas especializadas desses
dois campos.
ção é um fluxo de mensagens. As duas primeiras revistas inteiramente dedicadas à ciên-

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ela começaram em 1665: The Philosophical Transactions of tese. Sob essa mesma perspectiva, criou-se o Sistema Uni-
the Royal Society of London e Joumal des Sçavants (França). A versal de Informação Científica (UNISIST),com o patrocínio
partir de 1760, houve uma implementação de publicações das Nações Unidas, com a tarefa central de armazenar toda
desta natureza que, pouco a pouco, praticamente duplica- a informação científica em um computador central, dotado
ram a cada quinze anos. de um sistema de busca.
Sabe-se que até meados da segunda metade do século O terceiro desdobramento diz respeito a um fenômeno
XX foram fundadas mais de 100.000 revistas científicas. No muito comum hoje: é mais fácil redescobrir algo que saber
entanto, não se sabe quantas desapareceram e, hoje, é pratica- se alguém já o descobriu antes. Acreditam alguns que este
mente impossível dizer o número delas. Para se ter uma idéia, fenômeno da "redescoberta" possa tornar-se um dos princi-
em 1938, calculou-se em 33.000 o número de revistas cien- pais fatores limitadores da taxa de avanço da ciência na so-
tíficas publicadas, sendo que no final dos anos 1960, ele atin- ciedade contemporânea. Há, por vezes, um dispêndio enor-
gia cerca de 60.000, com um milhão de artigos individuais me de recursos humanos e materiais para descobrir o já
por ano. Estimava-se, em 1996, que havia 200.000 perió- descoberto.
dicos em circulação, número que continua crescendo princi- A tendência à especialidade constituiu uma caracterís-
palmente a partir de sua difusão em formato eletrônico. tica muito presente nas décadas passadas, chegando mesmo
Os dados são, sem dúvida, imprecisos, mas suficientes a motivar filósofos e educadores para discutir a questão da
para demonstrar a dimensão do problema cujo desdobra- interdisciplinaridade. Nos últimos anos, embora ainda per-
mento pode ser observado por meio da criação de revistas sista, com saliência, esta característica, assiste-se a uma for-
secundárias e terciárias, do fenômeno da "redescoberta" cien- te reação à alta especialidade, de modo particular com os
tífica, da tendência à especialização e da rápida obsolescência movimentos denominados pós-modernos.
da informação. A velocidade de produção de informação tem como con-
Com efeito, a primeira revista secundária, cuja função seqüência quase imediata a obsolescência de conhecimentos.
é resumir e sintetizar os artigos publicados nas revistas pri- De Solla Price discutiu isto em termos do que ele chamou de
márias, surgiu na Alemanha em 1714. De lá para cá, esse coeficiente de imediatismo: se a quantidade de informação
tipo de periódico veio aumentando, chegando mesmo a mul- dobra em quinze anos, ela seria A no início deste período e
tiplicar-se com, praticamente, a mesma taxa exponencial das 2A no fim do mesmo período. O acréscimo de A é A e o
revistas primárias. Em 1960, calculou-se em 1.900 o nÚ- coeficiente de imediatismo é A/2A = 112. Isto é, ao cabo de
mero destas revistas secundárias. quinze anos, 50% das informações disponíveis serão fruto
O volume de revistas secundárias levou à criação de re- de descobertas realizadas durante o período em questão (Price,
vistas terciárias que informavam sobre as revistas de sín- 1965).

22 23
Não é difícil perceber que em áreas de avanço muito fissionais atualizados em relação à evolução do conhecimento
veloz, como a computação, o período de duplicação não é e à produção no domínio considerado, o que supõe que a
15 anos, mas muito menor, talvez 4, o que amplia bastante unidade de informação esteja bem integrada no circuito cien-
o índice de obsolescência. tífico nacional e internacional, formal e informal.
Assim, claro está que ninguém pode, nem mesmo numa Quando se trata de publicações disponíveis no merca-
área de especialidade, aventurar-se a "conhecer" tudo o que se do, a coleta apóia-se em fontes identificáveis e acessíveis: de-
publica. Mas também é claro que uma pessoa pode conseguir pósito legal, bibliografias nacionais, catálogos de editores, ou
informações parciais em níveis satisfatórios, graças aos meios catálogos coletivos, índices, repertórios, bibliografias de toda
desenvolvidos para guarda e recuperação da informação. espécie. Mas, quando se trata de localizar uma literatura dita
As necessidades, naturalmente, variam de lim domínio subterrânea, é fundamental que se possa dispor de uma rede
para outro, de um grupo para outro, segundo o estágio de de permuta e de aquisição sistemática, o que implica inte-
desenvolvimento da área, a natureza dos usuários, seus ob- gração no circuito científico da área.
jetivos. Apesar dessas variações, é preciso que as informa- A segunda fase do processo consiste em operações de
ções sejam confiáveis, atuais e imediatamente disponíveis. controle e registro do material. Nesta fase, é feito o trata-
Para se chegar a isso é indispensável um trabalho siste- mento intelectual dos documentos, por meio de descrição bi-
mático que se compõe de um conjunto de operações em ca- bliográfica, descrição do conteúdo, estocagem, busca e difu-
deia, isto é, operações marcadas por íntima relação entre cada são. Todas essas operações visam encontrar, de imediato, a
uma das etapas: as últimas operações estão ligadas às pri- informação necessária para responder à demanda.
meiras e as primeiras vão conduzindo às últimas. A tarefa inicial consiste em proceder à identificação do
Numa extremidade da cadeia estão os documentos que documento, o que é feito por intermédio de uma descrição bi-
serão tratados e, na outra, os resultados desse processo ex- bliográfica ou de catálogo que explicita suas características for-
pressos em produtos documentários do tipo: referências, des- mais: autor, título, fonte, formato, língua, data da edição etc.
crições de documentos, publicações secundárÍas e terciárias. Em seguida, é feita a descrição do conteúdo, denomina-
O processo começa pela operação de coleta de dados que da análise documentária. Esta etapa recobre operações de des-
se constitui num procedimento de alimentação, por meio do crição das informações que trazem o documento, e a tradu-
conjunto de documentos que passam a integrar uma unida- ção dessas informações numa formulação aceitável pelo
de de informação. sistema adotado.
A primeira fase que se decompõe em algumas etapas Daí nasce a relação da ciência da informação com a lin-
sucessivas (localização de documentos, triagem e escolha, guagem natural, relação que precisa ser analisada do ân-
procedimentos de aquisição propriamente ditos) exige pro- gulo da guarda e da recuperação dos documentos, por meio

24 25
de sistemas que fazem a representação da informação que Ao longo dos tempos, a concepção de linguagem foi se
veiculam conhecimento. modificando, à mercê do saber constituído e da ideologia rei-
Não só o volume de documentos constituídos em lin- nante. Até o século XVIII,predominou uma concepção teoló-
guagem natural, como também a natureza da linguagem gica que colocava em primeiro plano sua origem e as regras
verbal, justificam uma reflexão específica. universais da sua lógica. O século XIXfoi marcado por uma
concepção historicista que via a linguagem como um pro-
cesso em evolução através dos tempos. Hoje predominam as
1.2 LINGUAGEM: CARACTERÍSTICASGERAIS concepções da linguagem como sistema em funcionamento.
A prática da linguagem é marcada por uma tendência
A linguagem, enquanto objeto de reflexão, perde-se no natural do homem: compreender, governar e modificar o
tempo; entretanto, enquanto objeto de uma ciência, é relati- mundo. Com efeito, o homem busca, incansavelmente, en-
vamente recente. contrar uma ordem para as coisas, já que um mundo caóti-
O caráter científico deu à linguagem uma força tal que, co seria incompreensível, insuportável; por isso ele busca
hoje, pode-se dizer que ela é tomada como chave de acesso encontrar, em meio à aparência caótica, uma ordem mesmo
do homem moderno às leis do funcionamento social que subjacente, uma estrutura capaz de explicar as coisas.
(Kristeva, 1969). Na sua busca reflexiva, o homem trabalha com uma es-
Embora, desde sempre, ela tenha sido considerada na trutura que é, a um só tempo, estática e dinâmica, isto é, que
sua articulação homem/sociedade, hoje, busca-se um isola- permite a fixação de cada aparência dentro do esquema geral
mento metodológico na tentativa de vê-Ia como objeto par- de referência, ao mesmo tempo em que deixa espaço para que
ticular em si mesma. O homem como que se distancia, se essa mesma aparência sUlja num outro ponto do quadro, a
descola da linguagem que o constitui e obriga-se a "dizer o partir de outras relações, repetindo o mesmo processo.
modo como diz". (Kristeva, 1969, p. 14) Assim, situa-se numa ponta a apreensão e, na outra, a
Neste esforço de mais e melhor conhecer a linguagem, compreensão. O primeiro esforço, o de fixação, equivale a
os primeiros aspectos que se sobressaem são a demarcação, uma catalogação do mundo. O segundo, o de coordenação,
a significação e a comunicação. equivale a uma hierarquização do mundo.
Em primeiro lugar, é preciso dizer que todas as práti- E dentre as coisas a conhecer, provavelmente, seja a lin-
cas humanas são tipos de linguagens, já que elas têm a fun- guagem verbal uma das mais intrigantes, já que ela se faz
ção de demarcar, significar e comunicar. Entretanto, como presente no dia-a-dia, de forma inalienável, participando do
assinala Barthes (1964), qualquer sistema semiológico repas- processo e do produto deste conhecer.
sa-se de linguagem verbal. Como é feita de palavras, a grande maioria dos dados

26 27
de que o homem dispõe, daquilo que forma seu intelecto, ser do pensamento, a sua realidade e a sua realização. As-
parece importante pensar a palavra, unidade recoberta por sim, a língua integra o universo mais amplo da linguagem e
inúmeras dificuldades, entre as quais pode-se citar o fato de atua corno elemento fundamental na comunicação social.
nem todas as línguas possuírem escrita e, portanto, a iden- Da mesma forma que não há sociedade sem linguagem,
tificação da palavra com o espaço em branco ser, em alguns não há sociedade sem comunicação. "Tudo o que se produz
casos, inviável. corno linguagem tem lugar na troca social para ser comuni-
Flusser (1963, p. 22) tenta atingir um nível de explica- cado" (Flu5ser, 1963, p. 22).
ção para a palavra, construindo uma imagem- que tenta ex- Na comunicação, observa-se que todo falante assume
pressar a passagem das sensações para a linguagem. Diz ele: o duplo papel de destinador e destinatário de mensagens, pois
"Há, aparentemente, uma instância entre sentido e intelec- ao mesmo tempo em que é capaz de emiti-Ias, sabe decifrá-
to, que transforma dado em palavra. O intelecto sensu stricto Ias. Ou seja, na situação natural de comunicação, o falante
é uma tecelagem que usa palavras como fios. O intelecto não emite mensagem que ele não seja capaz de decifrar.
sensu lato tem uma ante-sala na qual funciona uma fiação Assim se introduz o falante no complexo domínio do
que transforma algodão bruto (dados dos sentidos) em fios sujeito, isto é, no universo da sua constituição e da sua rela-
(palavras). A maioria da matéria-prima, porém, já vem em ção com o outro. Na relação consigo mesmo e com o outro
forma de fios." falante, opera com o ato de nomear que é feito com a língua,
Para ele, ao se definir realidade como conjunto de dados, exterior ao indivíduo e submissa a uma espécie de contrato
se está concebendo que a vida do homem se passa numa du- social firmado, naturalmente, para garantir a comunicação.
pla realidade: por um lado, a realidade das palavras; por ou- A língua é, pois, um sistema de signos e regras com-
tro, a realidade dos dados brutos ou imediatos. Considerando binatórias que, de fato, não se realiza completamente na fala
que os dados brutos atinjam o intelecto na forma de pala- de nenhum sujeito. Ela só existe completamente na massa,
vras, pode-se dizer que a realidade se faz com palavras e pa- no conjunto de uma sociedade. Mas também é um sistema
lavras in statu nascendi. de relações virtuais em permanente disponibilidade para o
Na prática da linguagem natural, sabe-se que as pala- falante.
vras chegam até as pessoas por intermédio dos sentidos de Enquanto realização, pode-se dizer que, quando as pa-
forma organizada, isto é, são agrupadas de acordo com re- lavras são percebidas, percebe-se uma realidade ordenada,
gras preestabelecidas, formando frases. um cosmo, o que permite dizer que a língua é também o
De um lado, então, a língua pode ser vista como um conjunto de frases percebidas e perceptíveis.
sistema cujas unidades se articulam no plano da expressão e Por outro lado, as palavras são apreendidas e compreen-
do conteúdo, planos que se unificam como o único modo de didas como símbolos, isto é, como tendo significado, por-

28 29
que, por meio de um acordo entre vários contratantes, elas
que a classificação absoluta não corresponde à realidade.
substituem algo, apontam para algo, são "procuradoras" de Entretanto, é preciso admitir que a classificação tradicional,
algo. mesmo com possíveis defeitos, oferece vantagens, na medi-
É, pois, a partir de um acordo entre sL~eitos que os sinais da em que ela permite ver a língua como um sistema de
são apreendidos e compreendidos, realizando, em sociedade, o símbolos apontando para algo, ou significando algo. Na
caráter simbólico da língua, condição do pensamento. realidade, a língua não se constitui num conjunto de símbo-
Tradicionalmente, são distinguidas as palavras a partir los equivalentes, mas, antes, num conjunto de símbolos
de seus significados em substantivos, adjetivos, verbos etc. A hierarquicamente diferenciados. O significado de cada sím-
mesma tradição ensina que substantivos significam "subs- bolo só se torna compreensível dentro do conjunto do siste-
tâncias", que adjetivos significam "qualidades"., que verbos ma inteiro.
significam "processos modificando substâncias", que prepo- A língua não é função do sujeito falante nem sucessão
sições e conjunções significam "relações" entre substâncias. de palavras correspondentes a outras equivalentes. É um sis-
Essa classificação, não obstante ser enfatizada, oferece tema-estrutura de valores e formas. Os sistemas de valores
pontos de conflito muito evidentes. Antes de mais nada, ela não são construções particulares de um indivíduo; são, an-
pressupõe uma realidade absoluta, um universo uniforme- tes, o resultado de todo um contexto sociohistórico que de-
mente ordenado, uma estrutura rígida de mundo, espelhada termina as condições de produção do discurso.
na estrutura da língua. É mais ou menos como na concep-
ção platônica em que o fenomenal espelha a estrutura do
mundo das idéias.
Se a realidade lnais ampla mostra línguas como o chinês
e, de resto, as línguas aglutinadas e assilábicas onde esta divi-
são não faz sentido, a presença mais imediata da língua ma-
terna mostra realidades que põem em cheque esta divisão.
Enquanto na frase "Isto é uma caixa grande", "caixa" e
"grande" são expressões autênticas, respectivamente, das sig-
nificações substância e qualidade, na frase "Isto é um cai-
xão" a qualidade como que vem engolida pela substância. Já
na frase "Viver é lutar" observam-se processos assumidos
como substâncias.
Os exemplos poderiam ser multiplicados, para mostrar

30 31
2
Linguagensdocumentárias
-.. ~ ..

2.1 NATUREZA, ESPECIFICIDADEE FUNÇÕES

Um rápido retrospecto sobre a área da documentação


mostra que, nas décadas de 1950 e 1960, com o crescimento
do conhecimento científico e tecnológico, houve dificuldades
para armazenar e recuperar informações. A solução foi en-
contrada com uma mudança do enfoque e da conceituação
da recuperação da informação. Com efeito, foi abandonada
a perspectiva preferencial de recuperação bibliográfica e nor-
malização classificatória e descritiva, buscando-se a cons-
trução de linguagens próprias.
Vem desta época a utilização de Linguagens Docu-
mentárias - LDs, para a recuperação da informação. Essas
linguagens são, pois, construídas para indexação, arma-
zenamento e recuperação da informação e correspondem a
sistemas de símbolos destinados a "traduzir" os conteúdos
dos documentos.
Como decorrência desta mudança de conceituação da
área, houve grande concentração em estudos de Lingüística
e de Estatística, especialmente para viabilizar a auto mação
do tratamento da informação.
Com os estudos de Lingüística esperava-se resolver pro-

33
blemas de vocabulário, tendo em vista a construção de ins- macionais ou conjunto de unidades aptas a integrar sistemas
trumentos mais adequados. Estes estudos levaram a análi- documentários. A formalização das perguntas dos usuários
ses de conteÚdos da Linguagem Natural - LN, a buscas de é feita na linguagem do próprio sistema. É por esta razão
métodos de padronização relativos à passagem da LNpara a que as LOs podem ser concebidas como instrumentos de co-
LO, ao estabelecimento de mecanismos para a estruturação municação docurÍlentária.
de campos semânticos, de campos associativos e de catego- Mas, diferentemente da LN, o sistema de relações das
rias funcionais. LDSnão é virtual, bem como seus mecanismos de articula-
A Estatística, por sua vez, foi tomada como instrumento ção são extremamente precários, em face daqueles existen-
de apoio, tendo em vista determinar freqüências de descri- tes nas línguas em geral. Bem ao contrário, elementos dessa
tores, mapeamento de ocorrências e análise de citações, o que linguagem específica são selecionados de universos determi-
levou ao desenvolvimento da Bibliometria. nados e seu sistema de relações é construído, sendo indis-
No amplo universo da linguagem, as LDs possuem um pensável, para utilizá-Ia, a existência de regras explícitas. Por
status muito particular: por meio delas pode-se representar, esse motivo, as LOs são linguagens construídas.
de maneira sintética, as informações materializadas nos Cada LO específica representa, por outro lado, um pon-
textos. to de vista particular sobre a realidade. Como sistema de
Tal como a LN, as LOs são sistemas simbólicos instituí- relações construído, o significado de cada um de seus ele-
dos que visam facilitar a comunicação. Sua função comuni- mentos vai estar diretamente subordinado às definições cor-
cativa, entretanto, é restrita a contextos documentários, ou respondentes aos elementos colocados nas posições supe-
seja, as LOs devem tornar possível a comunicação usuário- riores do sistema.
sistema. Segundo Gardin, uma LDé um conjunto de termos, pro-
Grande parte das discussões teóricas sobre LDs inserem- vidos ou não de regras sintáticas, utilizadas para represen-
se no âmbito da Análise Documentária que, por sua vez, se tar conteÚdos de documentos técnico-científicos com fins de
define como uma atividade metodológica específica no inte- classificação ou busca retrospectiva de informações (Gardin
rior da Documentação, que trata da análise, síntese e repre- ct al., 1968).
sentação da informação, com o objetivo de recuperá-Ia e Para o autor, uma LD deve integrar três elementos
disseminá-Ia. básicos:
Nesse contexto, as LOs são, pois, instrumentos inter- . um léxico, identificado como uma lista de elementos
mediários, ou instrumentos de comutação, através dos quais descritores, devidamente filtrados e depurados;
se realiza a "tradução" da síntese dos textos e das perguntas . uma rede paradigmática para traduzir certas relações
dos usuários. Esta "tradução" é feita em unidades infor- essenciais e, geralmente estáveis, entre de.scritores. Essa

34 35
rede lógico-semântica, corresponde à organização dos Já vocabulário refere-se ao conjunto de ocorrências que
descritores numa forma que, lato sensu, poder-se-ia integram um determinado corpus discursivo, como uma
chamar classificação; e lista de unidades da fala (Dubois et al., 1973). Assim, pode-
. uma rede sintagmática destinada a expressar as rela- se falar no vocabulário que encontramos no trabalho de
ções contingentes entre os descritores, relações que são cunha, relativamente às ocorrências. registradas nos discur-
válidas no contexto particular onde aparecem. A cons- sos sobre política colonial de Adriano Moreira (Cunha, 1990),
trução de "sintagmas" é feita por meio de regras sin- ou no vocabulário médico, a partir de levantamento em
táticas destinadas a coordenar os termos que dão conta determinadas obras médicas, por exemplo.
do tema. Em termos de LDs, não faz sentido falar nem em léxico,
Embora na LN haja diferença conceitual clara entre lé- nem em vocabulário nas acepções da Lingüística, uma vez
xico, vocabulário, nomenclatura e terminologia, observam- que esses elementos são específicos da LN. As LDs, lingua-
se usos sinonímicos de léxico e vocabulário por um lado, e gens construídas que são, com finalidades específicas de
nomenclatura e terminologia por outro. representação documentária, não são suficientemente arti-
Nas LDs, por sua vez, é bastante freqüente o uso culadas, nem se constituem em unidades geradoras de no-
indiscriminado destas palavras, o que pode comprometer o vos elementos.
próprio conceito de representação documentária, na medida Também não integram vocabulários propriamente di-
em que a cada termo deveria corresponder uma função dife- tos porque são formadas de palavras preferenciais, combi-
rente dentro da linguagem. nando palavras de vocabulários de determinados domínios e
Entretanto, cada uma dessas palavras remete a conceitos palavras utilizadas pelos usuários. Desta forma, englobam
específicos, o que nos permite dizer que cada uma tem vários vocabulários, representativos de vários discursos. As-
características e funções próprias, fator suficiente para im- sim quando a palavra vocabulário refere-se à LD, deve ser
pedir sua utilização indiscriminada. entendida segundo esta última acepção, que privilegia uma
Embora mesmo nos estudos das ciências da linguagem constituição a partir de origens diferentes.
haja, eventualmente, referência a léxico e vocabulário como Uma nomenclatura, por sua vez, como sugere a própria
conjunto de palavras de uma língua ou de um autor, de uma palavra, diz respeito à ação de chamar algo por seu nome.
arte ou de um meio social, a rigor, léxico designa o coqjunto Assim, se constitui em lista de nomes que supõem biuni-
de unidades reais e virtuais que formam a língua de uma vocidade da relação significado-significante (Dubois et al.,
comunidade, algo como um depósito de elementos em esta-. 1973). Talvez se possa melhor caracterizar uma nomencla-
do virtual e de regras que permitem a construção de novas tura como etiquetas que designam coisas ou conceitos pré-
unidades, necessárias para a atividade humana da fala. existentes, como a nomenclatura da Química, por exemplo,

36 37
na qual, independentemente de um sistema nocional parti- dades do sistema - e da representação desses conteÚdos -
cular, algo se chama ouro, nitrogênio ou potássio. numa forma sintética, padronizada e unívoca.
Diferentemente de uma nomenclatura, uma terminologia A síntese e a representação documentárias advindas do
refere-se ao conjunto de termos de uma área, termos relacio- processo de análise podem apresentar-se, geralmente, sob
nados e definidos l'igorosamente para designar as noções que duas formas: o resumo, que é feito sem a intermediação de
lhe são Úteis (idem, ibidem). Assim, por exemplo, a termino- uma LD e o índice,' que, para maior qualidade, deve ser ela-
logia da educação brasileira pode ser encontrada no Glossá- borado a partir de uma LD.
rio de termos em educação (Brasil, Ministério da Educação e A operação de tradução de textos em LN para uma LD
Cultura, 1980). Trata-se de um sistema de termos organiza- denomina-se indexação. Inerente ao processo de indexação
dos a partir de noções particulares. estão operações de classificação.
É bom lembrar que todo conhecimento técnico-cientí- As várias fases do processo analítico apresentam uma
fico desdobra-se num universo de linguagem. A lingua- complexidade considerável, pois não se trata de adquirir os
gem condiciona o conhecimento objetivo, determina os li- documentos e armazená-Ios numa ordem lógica. A docu-
mites e sua formulação (Granger, 1974). As linguagens mentação é memória, seleção de idéias, reagrupamento de
construídas exigem formulações rigorosas de sentido à me- noções e de conceitos, síntese de dados. Trata-se de triar, de
dida que a própria atividade se encontra subordinada à avaliar, de analisar, de "traduzir", de encontrar respostas para
articulação da linguagem. Desse modo, a atividade tenni- necessidades específicas.
nológica é parte constitutiva da atividade técnico-científica A utilização da LN neste processo leva, seguramente, à
e diz respeito, diretamente, a um conjunto de termos incompreensão e à confusão, devido a fenômenos naturais
organizados. como a redundância, a ambigüidade, a polissemia e as va-
Todas as definições analisadas anteriormente levam- riações idioletais.
nos a concluir que as LDs não se confundem com léxicos, A condição para se obter resultados positivos na busca
vocabulários, nomenclaturas e terminologias, embora in- de informação é que a pergunta e a resposta sejam formula-
corporem elementos de todos eles. É importante que essa das no rnesmo sistema. Assim, é necessário converter uma
diferenciação seja feita, para melhor delimitar suas caracte- pergunta feita em LN para o sistema em que foi traduzido o
rísticas em face da função que devem desempenhar na re- conteÚdo do documento, isto é, para uma LD.
presentação da informação documentária. Dito de outro modo, uma LD é utilizada na entrada do
A representação documentária é obtida por meio de um sistema, quando o documento é analisado para registro. Seu
processo que se inicia pela análise do texto, com o objetivo conteÚdo é identificado e "traduzido", de acordo com os ter-
de identificar conteÚdos pertinentes em função das finali- IllOS da LD utilizada e segundo a política de indexação

38 39
estabelecida. É da mesma forma utilizado à saída do sistema, Decimal Classification, a CDU - Classificação Decimal Univer-
quando, a partir da solicitação da informação pelo usuário, sal e a LC - Library of Congress, e visam cobrir todo o espectro
é feita a representação para busca. Assim, seu pedido é ana- do conhecimento. Sistemas posteriores como as classificações
lisado, seu conteúdo identificado e devidamente "traduzido" facetadas desenvolvidas a partir do CRG - Classification
nos termos da LD utilizada.
Research Group, com base na Colon Classification, de Ran-
Para realizar tais funções de intermediação, as LDs de- oaanathan, visam a domínios particulares. Os tesauros, por
vem ser construídas de tal forma que seja possível o contro- seu lado, originaram-se de classificações facetadas com uma
le sobre o vocabulário. Tal controle é necessário para que, a preocupação adicional: a do controle do vocabulário.
cada unidade preferencial integrada numa LD, corresponda Historicamente, verifica-se contínua progressão das LDs
um conceito ou noção. Essa correspondência s'ó é assegura- a caminho da especialização. Conseqüentemente, abandona-
da por intermédio das terminologias de especialidade. se a pretensão de cobrir todo o universo do conhecimento
Vale lembrar que, isoladas, as palavras não têm signifi- para voltar-se a domínios cada vez mais específicos.
cado ou têm todos os significados possíveis. É só no discur- Todas as LDs, entretanto, são utilizadas para represen-
so, ou seja, no uso, que as palavras assumem significados tar o conteúdo dos textos, mas não os textos eles mesmos.
particulares. Como, via de regra, os elementos das LDs são A função de representação deve ser entendida, neste contex-
desvinculados dos contextos onde aparecem, pode-se correr to, como sendo de natureza eminentemente referencial: as
o risco de que as palavras que as integram assumam todos unidades de uma LDdevem ser utilizadas como índices rela-
ou nenhum significado. Por meio das terminologias de espe- tivos a assuntos tratados nos textos, não tendo, portanto, a
cialidade, as palavras passam a ser termos, assumindo sig- função de substituí-Ios.
nificados vinculados a sistemas de conceitos determinados.
Os produtos obtidos por meio da intermediação das LDs
Confere-se, desse modo, referência às palavras, que passam são, desse rnodo, generalizantes. Não se representa o texto
a significar segundo determinados sistemas nocionais, as- individual, mas a classe de assunto à qual ele se refere. A
segurando interpretações pertinentes. maior ou menor especificidade do assunto a ser representado
As LDs mais conhecidas são os tesauros e os sistemas
depende da maior ou menor correspondência da LD com o
de classificação bibliográfica (Gomes, 1990). As diferenças sistema nocional dos domínios de especialidade. Assim, por
entre esses dois tipos de LDs residem no maior ou menor intermédio de um sistema de classificação enciclopédico, tex-
grau de reprodução das relações presentes na LN e no uni- tos muito específicos são classificados em classes de assunto
verso de conhecimento que pretendem cobrir. mais gerais; a representação da especificidade dos assuntos
Os primeiros sistemas de classificação bibliográfica co- de tais textos é mais viável com o uso de uma LD voltada,
nhecidos são de natureza enciclopédica, como a CDD- Dewey especificamente, para o domínio correspondente.

40 41
Os estudos das LDstêm avançado progressivamente, na o vocabulário documentário tem por objetivo reunir
direção da definição dos constituintes e de suas interrelações, unidades depuradas de tudo aquilo que possa obscurecer o
gerando várias linguagens, de acordo com o domínio de sentido: ambigüidade de vocábulo ou de construção,
especialidade. Isto, por um lado, permite que a área se libere sinonímia, pobreza informativa, redundância etc. Além dis-
do monopólio das classificações universais; por outro, tem so, ele é fixado de tal forma que seu uso, bem como suas
mostrado inúmeros problemas ligados à falta de rigor na relações estruturais são codificados e não podem mudar ao
construção de LDs. Tais problemas referem-se à definição sabor dos usuários. Assim, chega-se a um instrumento re-
do conjunto de termos que comporão a lista de descritores; lativamente estável.
à organização dos descritores numa rede paradigmática (ter- Toda LD tem, também, uma sintaxe. Ela é bastante ru-
mos organizados em hierarquias - árvores classificatórias -, dimentar nos sistemas de classificaçãobibliográfica (AclGino-
e termos organizados por relações associativas não-hierár- tes, na CDD; uso de + / , : na CDU, por exemplo) e mais
quicas); ao estabelecimento de mecanismos sintáticos que desenvolvida nos tesauros, com a utilização de operadores
permitam combinar descritores no momento da busca, ga- booleanos. O esquema sintático de uma LD permite a deli-
rantindo maior possibilidade de representação de novos con- mitação mais precisa de um assunto, por meio da combina-
ceitos e a agilização na recuperação dos assuntos; à defini- ção de seus elementos.
ção das chaves de acesso ao sistema (compatibilização de Nos sistemas de classificação convencionais, não há gran-
linguagem usuário/sistema). de preocupação com o controle do vocabulário. É freqüente a
utilização de frases, como ocorre, por exemplo, na CDU. Já
nos tesauros, a função de controle do vocabulário está mais
2.2 CONFIGURAÇÃO DAS LINGUAGENS DOCUMENTÁRIAS presente. Para este fim, as LDsincorporam procedimentos de
normalização gramatical e semântica. A normalização gra-
As LDs mais consistentes dispõem de um vocabulário matical refere-se à forma de apresentação dos seus elemen-
que integra elementos, de um lado, da linguagem de especia- tos quanto ao gênero (geralmente masculino), ao número
lidade e, de outro, da LN, que é a linguagem dos usuários, (uso de singular ou plural) e ao grau. (Para mais informa-
como também da linguagem dos autores, tal como encon- ções, ver Gomes, 1990) A normalização semântica procura
trada nos textos da especialidade. Essas unidades, acompa- garantir a univocidade na representação dos conceitos de áreas
nhadas ou não de uma notação, constituem o "léxico" das de especialidade, por meio das relações lógico-semânticas.
LDs, denominadas, diferentemente, conforme o sistema e O conjunto nocional básico é apresentado em hierar-
a época, como: palavras-chave, descritores, cabeçalhos de quias (na vertical), em torno das quais se agregam as unida-
assunto etc. des informacionais que se relacionam horizontalmente. Ne-

42 43
nhuma unidade pode figurar numa LD sem que esteja rela- A organização básica dos tesauros também é hierárqui-
cionada a uma outra unidade da mesma linguagem. ca, existindo tantos vértices, que equivalem a classes, quantos
As variações na forma de apresentação das LDs devem- forelll os aspectos escolhidos para organizar o dOlnínio de
se a maior ou menor incorporação dos diferentes tipos de especialidade. Nos tesauros mais modernos, tais vértices são
relações existentes entre as palavras na LN e entre os termos denominados Top Terms e não constituem descritores, mas
de especialidade. Tais variações exprimem, também, o maior identificam as classes escolhidas para reunir os descritores.
ou menor aprimoramento , da função de representação Via de regra, são utilizadas notações numéricas apenas para
documentária. apresentar as hierarquias básicas e suas principais subdivi-
Algumas LDsforam construídas visando, principalmen- sões. Tais notações, entretanto, raramente são utilizadas para
te, à organização dos documentos nas estantes, sendo que descrever o conteúdo dos textos. A ligação lógico-hierárqui-
sua função de representação deve ser diferenciada: a repre- ca entre descritores é, no caso dos tesauros, mais clara, uma
sentação nesse caso deve ser entendida como a identificação vez que é identifica da pelos códigos TG (Termo Genérico ou
de documentos com classes genéricas de assuntos tradicio- Termo Geral), TE (Termo Específico). Alguns tesauros utili-
nalmente reconhecidos. zam, também, os códigos TGP (Termo Genérico Partitivo) e
A estrutura básica de uma LD é dada por relações hierár- TEP (Termo Específico Partitivo) para apresentar as relações
quicas, que podem ser genéricas ou partitivas. (Relações hierárquicas do tipo todo/parte.
genéricas e relações partitivas serão tratadas no capítulo 3). As LDs apresentam, ainda, unidades que são relaciona-
O vértice de cada hierarquia é o gênero ou o todo. As subdi- das de forma não-hierárquica. As relações não-hierárquicas
visões sucessivas na hierarquia constituem as espécies e/ou são, normalmente, denominadas associativas, muito embo-
as partes, que podem, novamente, se subdividir. As relações ra não se possa afirrn...arque as relações hierárq uicas também
hierárquicas provêem as unidades superordenadas e as uni- não o sejam. É preciso lembrar, entretanto, que as relações
dades subordinadas. Unidades subordinadas ao mesmo vér- hierárquicas representam associações mais estáveis entre ter-
tice, quando no mesmo nível da cadeia, denominam-se mos, enquanto que as relações não-hierárquicas expressam
coordenadas. outro gênero de proximidade entre os termos. Os relaciona-
Nos sistemas de classificação bibliográfica, a estrutura mentos não-hierárquicos indicam a ligação entre termos que
hierárquica é dada pela notação (decimal, no caso da CDD e estão em campos semânticos distintos, porém próximos. Cada
da CDU). O vértice das cadeias hierárquicas é constituído por termo relacionado pode se constituir no ponto de partida para
disciplinas convencionais que se subdividem sucessivamen- uma família de termos aparentados.
te. A indicação dos assuntos é feita por meio da notação nu- Nos sistemas de classificação bibliográfica, os relacio-
mérica ou alfa-numérica, conforme o tipo de sistema. namentos não-hierárquicos, quando ocorrem, são erronea-

44 45
r

mente "encaixados" nas hierarquias, É só nos tesauros que Uma vez elaboradas e postas em uso, aSLDs mais
estas relações são explicitamente identifica das pelo código TR desenvolvidas como os tesauros, devem ser pcrmanente-
(Termo Relacionado),
mente atualizadas, mediante operações de supressàode ter-
Adicionalmente, as LDs apresentam relações de equiva- mos em desuso, reagrupamento de descritores cmfunção
lência. Este tipo de relacionamento entre os termos permite da existência de palavras raramente utilizadas clou adição
a compatibilidade entre a linguagem do sistema e a do usuá- de termos novos, Só assim as LDs se mantêm cOlllO instru-
rio, operando no nível da sinonímia, Desse modo, criam-se
mentos
'
dinâmicos
' -
capazes de incorporar os avallÇOS
do co-
as remissivas, indicadas nos tesauros pelas expressões USE n h eClmento e as mo dIf Icaçoes d e slgm f Icado determos .já
' ' ' '

(Use) e UP (Usado Para), quase inexistentes nos sistemas de existentes,


classificação bibliográfica. As relações de equivalência reme-
tem o conjunto dos não-termos ou não-descritores para o
conjunto dos termos ou descritores. A finalidade dessas re-
missivas é encaminhar o usuário para os termos preferidos
pelo sistema. Constitui-se, desse modo, uma chave de aces-
-----
so ao sistema,
O conjunto de relações que constitui a estrutura do
tesauro é "um elemento importante para que ele possa cum-
prir sua função: ela permite ao usuário (indexador ou
consulente) encontrar o(s) termo(s) mais adequado(s), mes-
mo sem saber, de início, o nome específico para representar
a idéia ou o conceito que ele procura. A partir de um termo
que o usuário conhece, o tesauro, através de sua estrutura,
mostra diversos outros que podem ser tão oportunos ou
mais do que aquele que lhe veio à mente" (Gomes,1990,
p,16),
Vale ressaltar, ainda, que no uso das LDs, podem ser
construídas novas relações entre os termos a partir do con-
junto de operadores sintáticos disponíveis, como, por exem-
plo, as add notes, na CDD; + / : ::, no caso da CDU; opera-
dores booleanos, no caso dos tesauros.

46 47
~

3
Sistema nacional *
..- ..

A todo e qualquer campo de conhecimento corresponde


um conjunto de noções que lhe é próprio. As áreas espe-
cializadas da experiência humana devem ter seu universo
nacional devidamente identificado a partir de um dado pon-
to de vista, para que seja possível organizá-Ia de forma sis-
temática, ou seja, inter-relacionada. Só a organização na-
cional de uma área permite a utilização de instrumentos
eficazes para o tratamento e recuperação da informação.
A ausência de um sistema de noções devidamente siste-
matizado, inviabiliza o empreendimento de dar forma a um
conjunto de palavras, na medida em que esbarra, necessaria-
mente, em dificuldades advindas da falta de compreensão ou
da compreensão incorreta das possibilidades de relacionamen-
to entre termos.
Considerando que as LDs, normalmente, funcionam a
partir do controle do "vocabulário" da área, pode-se facil-
mente depreender que o sistema nacional de uma área cons-
titui-se em um parâmetro básico, ou em uma viga-mestra
de sustentação das LDs.

* Também denominado sistema conceitual.

49

lÃ....
.......

Assim, na prática, a ausência de um sistema nocional na medida em que possibilitam um ponto de vista materia-
compromete não só a indexação, mas também, a economia lizado no sistema de noções, para o trabalho documentário.
da própria atividade documentária, fragmentando-a com As relações entre as noções materializam o sistema de
questões relativas ao significado e à compreensão dos ter- noções, que se expressam, documentariamente, em relações
mos. Além disso, não raro, as respostas às questões formu- hierárquicas e relações não-hierárquicas.
ladas submetem-se a variações, segundo o entendimento As relações hierárquicas são aquelas que se definem en-
que cada indexador tem da área, ou segundo o humor no tre noções subordinadas em um ou vários níveis (ISO 1087).
momento daquele que opera com a informação, o que, fa- Dito de outra forma, as relações hierárquicas são aquelas
talmente, introduz deformações, descaracterizando os ins- que acontecem entre termos de um conjunto, onde cada ter-
trumentos documentários. mo é superior ao termo seguinte, por uma característica de
Desta maneira, faz-se necessário estabelecer, a priori, natureza normativa.
que a utilização de qualquer LDsupõe a explicitação nocional No conjunto das relações hierárquicas, há que se levar
da área a que se refere e a sua organização na forma de um em conta o conceito de ordem e de subordinação. A ordem
sistema. deve ser observada como uma superordenação que consiste
Segundo a norma ISO 1087, um sistema nocional defi- na possibilidade de subdivisão de uma noção hierárquica
ne-se como um "conjunto estruturado de noções que reflete mais alta em um certo número de noções de nível inferior,
as relações estabelecidas entre as noções que o compõem e chamadas noções subordinadas. É este processo de subdivi-
no qual cada noção é determinada pela sua posição no siste- são que se denomina subordinação. Inversamente, a noção
ma". Não basta, portanto, recuperar as noções, enumeran- subordinada é a noção que, num "sistema hierárquico", pode
do-as. É preciso ir além e estabelecer suas posições relativas, ser agrupadas com uma ou mais noções do mesmo nível
o que se obtém por meio da determinação das relações que
as aSSOClam.

f~
A noção ou o conceito, por sua vez, define-se como
"unidade de pensamento constituído por propriedades co- Superordenação

muns a uma classe de objetos"(ISO 1087). Embora não este-


1 S "bood '" ""'"
jam ligadas a línguas específicas, as noções são éxpressas b f g
..-----------.
por termos e símbolos, sendo influenciadas pelo contexto
sócio-cultural. Coordenação

As noções, devidamente relacionadas, constituem, pois,


o arcabouço fundamental para a organização de uma área, Fig. 1 - Esquema de relaçõeshierárquicas.

50 51
,....

(noções coordenadas entre si), para formar uma noção de

r~
A (mamífero) Noção genérica
nível superior (ISO 1087), ou seja, uma superordenação.
A partir das noções de geral/particular e de todo/parte, Superordenação Subordinação
(semelhança) (diferenças)
a análise das relações hierárquicas mostra dois grandes
grupos característicos: as relações genéricas e as relações par- c
1
b
(irracional) Noções específicas
titivas que, como os nomes indicam, marcam relações de (racional)
~---------..
gênero/espécie, portanto entre noções globais ou gerais e Coordenação
suas espécies particulares, e relações entre um todo e suas
partes. Fig. 2 - Esquema de relação genérica.
As relações genéricas definem-se como relações hierár-
quicas baseadas na identidade parcial do cOl1iunto de caracte- Na relação genérica, a superordenação caminha das di-
rísticas das noções superordenadas e subordinadas envolvidas. ferenças para as semelhanças, ou seja, da espécie para o gê-
O gênero, nesse sentido, é entendido como noção superordenada nero e, inversamente, a subordinação caminha das semelhan-
que comporta as mesmas características das noções subordi- ças para as diferenças, a partir das primeiras, isto é, do gênero
nadas a partir dela. As espécies, por sua vez, são noções su- para as espécies.
bordinadas que, além de compartilhar das mesmas caracterís- Exemplificando: a noção de "embarcação" subdivide-se,
ticas da noção que lhes é superordenada, apresentam pelo segundo o "tipo", em noções mais específicas como a de iate,
menos uma característica a mais que as diferencia. jangada, canoa, navio, chata etc. Em relação a essas últimas,
A noção genérica impõe-se, portanto, como conjunção a noção específica "embarcação" é a noção superordenada. É
de características comuns, enquanto que a noção específica a partir dessas relações que se pode afirmar que iate é uma
estabelece uma disjunção, a partir da conjunção dada. espécie de "embarcação; que "embarcação" é um gênero; e
A noção específica é, portanto, uma noção subordinada que iate e canoa são noções coordenadas.
que indica a existência de uma diferença, em face de um Já a relação partitiva é um tipo de relação hierárquica,
conjunto de características comuns. Ao mesmo tempo, apre- na qual a noção superordenada refere-se a um objeto consi-
senta as características comuns e, pelo menos, uma caracte- derado como um todo e as noções subordinadas a objetos
rística que a diferencia da noção genérica. considerados como suas partes. Em relação a "navio", a no-
Assim, por exemplo, ao subdividir o conjunto dos ma- ção de "casco" é uma noção específica partitiva, denotando
míferos em racionais e irracionais, afirma-se, simultanea- que navio é uma noção referente ao todo (superordenada) e
mente, a existência de uma diferença (racional f irracional) que "casco" é uma noção referente à parte (subordinada).
sobre um plano comum ou semelhante (mamíferos). Do mesmo modo, a noção "convés" denota uma subdivisão

52 53

~
'T'

por partes da noção "navio". Relacionadas por coordenação, produto e produtor, instrumento e processo. É importante
as noções "convés" e "quilha" são denominadas noções salientar que tais relações não podem ser definidas em toda
coordenadas. sua extensão.
De certo modo, a dificuldade de definir as relações não-
hierárquicas encontra-se enunciada na sua denominação

r~
Navio Noção genérica partitiva
(todo) usual: relações associativas. A impropriedade do termo "as-
sociação" deve-se, neste caso, ao fato de que qualquer que
Sll perordenação S"boodi"",,o seja a natureza da relação, ela é, em certo grau, associativa.
I O problema então continuaria: haveria relações associativas
convés mas tro hierárquicas e relações associativas não-hierárquicas.
q lli lha Noção partitiva
h ~ (pi1rtes) Por isso é preciso restabelecer o contexto que a valide,
Coordenação
ou seja, indagar a sua natureza. O exemplo transcrito abai-
Fig. 3 - Esquema de relaçãopartitiva. xo, da Norma ISO 1087, ilustra este aspecto.

RELAÇÃO ASSOCIATIVA
As relações não-hierárquicas, por sua vez, definem-se
DOENÇA TRANSMITIDA SEXUALMENTE ALIENAÇÃO MENTAL INCURÁVEL
pela negativa. Elas recobrem o conjunto de relações que não
Gonorréia Demência
são passíveis de serem descritas como hierárquicas.
Sífilis Esquizofrenia
É evidente a insuficiência dessa abordagem. No entan-
Cancro Psicose maníaco depressiva
to, concretamente, pouco se pode a ela acrescentar. Se as re-
Linfogranulomatose inguinal
lações hierárquicas supõem ordem e subordinação lógicas,
as não-hierárquicas não podem supor, exatamente, essas ca- Fig. 4 - Motivos médicos juridicamente aceitos para o divÓrcio.
racterísticas.
As relações que não se submetem a uma hierarquia são
aquelas que apresentam entre si contigÜidade espacial ou 3.1 RELAÇÕES HIERÁRQUICAS
temporal. Por esta razão, tais relações também são chama-
das de relações seqÜenciais. A macro-organização da maior parte das LDs funda-se
Consideram-se relações seqÜenciais as de oposição, as na organização lógico-hierárquica de suas unidades. A deli-
de causa-efeito, as de contradição e outras menos evidentes mitação de classes de assunto é feita a partir de pontos de
como aquelas estabelecidas entre as etapas de um processo, vista determinados. Tais pontos de vista, por sua vez, estão

54 55

~
T

baseados em postulados de significado ou convenções cultu- ul1lverso global de conhecimento, tendo-se curvado, para
rais e ideológicas. tanto, às referências postuladas por Bacon para a organiza-
Esse é o caso, por exemplo, dos sistemas de classifica- ção do conhecimento; já os tesauros voltam-se para domí-
ção bibliográfica como a DEWEYDECIMALCLASSIFICATION, nios cada vez mais particulares, sendo construídos em fun-
CDD e a CLASSIFICAÇAO DECIMALUNIVERSAL,CDU. Esses sis- ção de universos muito determinados. São, por essa razão,
temas seculares são atualizados por edições periódicas que mais flexíveis quanto à estruturação do esquema classi-
buscam acompanhar o surgimento de novos temas. Em sua ficatório básico e mais adequados ao atendimento das neces-
organização original, as 10 classes principais correspondiam sidades informativas de domínios especializados.
A flexibilidade dos tesauros vincula-se a um princípio
à forma de divisão consensual do conhecimento à época.
A organização lógico-hierárquica é tambÚn a base da de utilidade. Desse modo, pode-se construir, para um cam-
organização dos tesauros. Comojá mencionado, os tesauros po particular do conhecimento, tantos tesauros quantos fo-
rem necessários. Cada um deles procurará organizar um dado
têm sua origem na ColonClassification de Ranganathan e nas
universo nacional, de acordo com o ponto de vista que se
experiências posteriores desenvolvidas pelo Classification
Research Group, referentes à estruturaçãodo conhecimento, imprime ao domínio, para responder a diferentes necessida-
des. Para a ISO 704, "um objeto específico pode ser visto de
a partir da noção de "faceta", ou seja, da noção que privile-
diferentes pontos de vista por disciplinas diferentes".
gia determinados pontos de vista no arrar1io dos domínios e
Assim, por exemplo, "em termodinâmica as caracterís-
subdomínios particulares, em função de objetivos específicos
ticas essenciais do conceito 'líquido' são aquelas que indicam
do sistema documentário em questão. A fonte de referência
que ele é 'uma substância em estado condensado, intermediário
para a cDnstrução das hierarquias, neste caso, é a estrutura
entre sólido e gasoso'" (idem, ibidem). "Em hidromecânica, as
teórico-conceitual de domínios específicos, determinando-se
características essenciais do conceito 'líquido' são que ele é
conjuntos de termos do domínio nuclear - a área de especia-
uma substância que é 'incompressívcl', 'densa e capaz defluir'"
lização propriamente dita -, e domínios periféricos, ou áreas
(idem, ibidem).
complementares, conforme necessidades objetivas do siste-
No exemplo da ISO,as características (propriedades) pri-
ma em questão.
vilegiadas na definição de "líquido" em termodinâmica ou
No caso dos sistemas de classificação e dos tesauros, a em hidromecânica, determinam a definição, implicando, por-
organização da macro-hierarquia e das hierarquias subse- tanto, modos específicos de abordagem do assunto e, conse-
qüentes depende, portanto, dos princípios ou características qüentemente, construção das hierarquias.
de divisão adotados a cada passo, variando conforme oQjeti- Desta forma, é possível construir tantas hierarquias
vos determinados: a CDD e a CDU pretendem referir-se ao quantas diferentes conjunções realizarmos entre as palavras.

56 57

~
-""""-

Exemplificando: conceito que pertence à categoria do conceito específico (a


ANIMAIS ANIMAIS espécie) é parte da extensão do conceito amplo (o gênero).
Mamíferos Carnívoros Um conceito específico possui todas as características do con-
Aves Herbívoros ceito mais amplo, mais, pelo menos, uma característica dis-
Répteis tintiva adicional que serve para diferenciar conceitos especí-
Batráquios ficos no mesmo nível de abstração" (ISO 704).
Peixes A extensão de uma noção corresponde ao "conjunto de
indivíduos aos quais uma noção pode ser aplicada (Boutin-
Cada uma dessas construções delimita e conforma as Quesnel et al., 1985) e diz respeito à "totalidade de todas as
noções ou conceitos a serem representados, refletindo esco- espécies que pertencem ao mesmo nível de abstração ou à
lhas de determinadas propriedades, tal como numa árvore totalidade dos objetos que têm todas as características do
de Porfírio. "O homem é necessariamente mortal somente conceito" (ISO 704).
numa árvore de Porfírio particularmente focalizada no pro- A noção de extensão vem sempre associada à de intensão
blema da duração da vida" (Eco, 1984, p. 51). ou compreensão. Intensão de uma noção é o coqjunto de ca-
Refletindo tais princípios de organização, a configura- racterísticas que compõem esta noção (Boutin-Quesnel et al.,
ção das LDs é fruto da organização empírica das proprieda- 1985). A intensão de um conceito diz respeito à totalidade
des das palavras (e não das coisas), estando fundamentada das características deste conceito (ISO 704). Portanto, quan-
em postulados sócio-culturais. As classes, assim obtidas, re- to maior a intensão do conceito, menor sua extensão e vice-
presentam, portanto, pontos de vista determinados sobre os versa. Ou seja, quanto maior o número de características
assuntos. que compõem um conceito, menor é o número de objetos
que compartilham destas características (lei da correlação
3.1.1 Relação genérica reversa).
Uma relação genérica supõe uma noção fundamental A validade de uma relação genérica pode ser constatada
que inclui noções específicas que, por sua vez, mantém com por meio de um esquema lógico do tipo "todos/alguns".
ela relações hierárquicas (Boutin-Quesnel et al., 1985). INSETOS
Por exemplo, a noção de árvore agrupa noções mais es-
pecíficas de folhas e de coníferasj por sua vez, as coníferas /
ALGUNS SÃO
~
TODOS SÃO
são, segundo a persistência das folhas, caducas e não-cadu-
cas (idem, ibidem).
Desse modo, "as relações genéricas indicam que todo
~ GAFANHOTOS
/
58 59

........
.........-

o esquema precedente (IBICT,1984, p. 26; ISO 2788- característica. São, portanto, coordenadas as noções obtidas
1986, 1989, p. 605) indica que alguns membros da classe a partir de "máquina", resultante da subdivisão por tipo: má-
"Insetos" são conhecidos como "gafanhotos", enquanto que quina de moer carne, de costura, de fresar, de macarrão etc.
todos os "gafanhotos" são "insetos", por definição e inde-
pendentemente do contexto. Isso porque a classificação tem 3.1.2 Relação partitiva
por base as características que são necessárias e suficientes A relação partitiva expressa a relação entre o todo e suas
para distinguir noções. O conjunto de objetos ao qual se atri- partes. É preciso observar que a relação partitiva não se con-
bui características ou propriedades comuns, ou seja, ao qual funde com a relação genérica, embora geralmente elas sejam
foi aplicada a mesma característica de divisão, forma a classe. representadas do mesmo modo.
Pelo teste de classe, garante-se que o termo "gafanho- Na relação partitiva, o conceito da parte depende do con-
tos" não seja indevidamente subordinado à classe de "pra- ceito do todo e não pode ser definido previamente à definição
gas", conforme o esquema abaixo: do conceito do todo. Não podemos definir "um motor de au-
tomóvel", antes de definirmos "um automóvel" (ISO 704).
As diretrizes para a elaboração de tesauros da UNESCO
/
ALGUMAS SÃO
PRAGAS ~
ALGUNS SÃO
reconhecem quatro tipos principais de classes que represen-
tam relacionamento todo/parte: sistemas e órgãos do cor-

~ GAFANHOTOS
/ po, localidades geográficas, disciplinas ou áreas de estudo e
estruturas sociais hierarquizadas (IBICT,1984).
Os conceitos que estão em uma relação partitiva podem
formar séries horizontais e verticais similares às séries hori-
Podem existir, todavia, casos especiais nos quais o campo zontais e verticais formadas por relações genéricas (ISO 704),
"controle de pragas" determina a subordinação de "gafanho- como no exemplo:
tos" a "pragas", atendendo a objetivos muito específicos (idem!
SISTEMA NERVOSO Noção genérica partitiva
ibidem). SISTEMA NERVOSO CENTRAL Noções partitivas
Conforme já mencionado, uma seqüência de conceitos CÉREBRO

subordinados forma uma seqüência vertical, enquanto que MEDULA ESPINHAL

noções diferenciadas no mesmo nível de abstração formam (Fonte: 1B1CT,1984, p. 27)

uma seqüência horizontal, denominada coordenação.


A coordenação resulta, pois, da associação entre noções Tais relações estão presentes nos sistemas de classifica-
obtidas por intermédio da divisão a partir de uma mesma ção bibliográfica como a CDD e a CDU.

60 61

~
........

Também os relacionamentos enumerativos podem ser podem ser subdivididas em ações partitivas, tomando lugar
considerados como uma modalidade de relação partitiva, na consecutivamente ou simultaneamente (ISO 704).
medida em que indicam "a conexão existente entre uma A grande dificuldade para definir as relações associativas
categoria geral de objetos ou acontecimentos expressos me- não-hierárquicas provém do fato de que todas as palavras,
diante um substantivo comum e um caso individual de tal termos ou conceitos podem se relacionar entre si ern algum
categoria, que constitui um exemplo ou classe de um só momento. Isto porque as associações dependem, em larga
elemento, representado por um nome próprio", como em: medida, do universo de referência considerado.

REGIÕES MONTANHOSAS
As associações entre termos pertencentes a categorias dife-
rentes são dadas a partir do universo de referência indivi-
Andes
dual. Para o controle de vocabulário, entretanto, é essencial
Himalaia
conhecer e explicitar os universos tomados como referência.
Fonte: (ISO 2788) Tais referências só podem estar assentadas em princípi-
os funcionais, como reconhece Dahlberg, para quem um
Neste caso, Andes e Himalaia são subordinados hierar-
relacionamento funcional é "aquele em que um termo que
quicamente, porque, mesmo que não sejam tipos nem par- denote atividade ou operação se liga, conceitualmente, a
tes de "regiões montanhosas", representam exernplos ou uma entidade ou propriedade" (apud IBICT, 1984, p. 31).
casos específicos do termo genérico (idem, ibidem). Assim sendo, a delimitação das associações entre os termos
deve se ligar à estrutura conceitual de domínios específicos,
operacionalizada pela terminologia, na qual os conceitos de-
3.2 RELAÇÕES NÃO-HIERÁRQUICAS OU SEQÜENCIAIS
verão estar mapeados e definidos. Escapa-se, desta maneira,
da virtualidade associativa passível de ser desencadeada em
As relações seqüencrars são relações que apresentam, LN; confere-se, por outro lado, consistência aos procedi-
como vimos, uma dependência resultante de uma conti- mentos para a determinação das associações em domínios
güidade espacial ou temporal (Boutin-Quesnel et al., 1985), específicos.
do tipo causa/efeito, antes/depois, esquerda/direita, acima/ Como ressalta o documento do IBICT, "não existe pes-
abaixo, produtor/produto, material/produto. quisa suficiente para determinar as bases teóricas das re-
Tais relações podem, também, representar estágios de lações associativas" (IBICT, 1984, p. 31). Em face desse pro-
um processo de desenvolvimento ou de produção, procedi- blema, a maior parte das recomendações existentes nos
mentos legais, procedimentos administrativos. Conceitos manuais e normas para construção de LDs são resultantes
deste tipo, com alguma freqüência, representam ações que da prática (idem, ibidem).

62 63

~
T

A experiência na elaboração de LDs permitiu enumerar g) Ação/resultado da ação


vários tipos de associação, segundo a sua natureza. Entre- TECELAGEM TECIDOS
tanto, a ocorrência e utilidade de uma determinada associa- PINTURA (Arte) MURAIS
ção depende da finalidade do sistema de informação. CRESCIMENTO ECONÔMICO DESENVOLVIMENTO

Confrontando-se as recomendações do IBICTe aquelas ECONÔMICO

apresentadas por Lancaster (1987) e por Motta (1987), ob- h) Causalidade ou causa/conseqüência:
serva-se grande variedade de relações marcadas por diferen- CRESCIMENTO ECONÔMICO DESENVOLVIMENTO
tes pontos de vista. Abaixo estão reunidos exemplos desti- ECONÔMICO

nados a esclarecer as complexas relações entre termos, cuja i) Efeito/causa:


associação resulta de contigüidade temporal ou espacial: FEBRE INFECÇÃO

a) Relação de Atribuição: j) Dependência causal:


ECONOMIA NÍVEL DE ATIVIDADE ECONÔMICA
DOENÇAS PATOGÊNICAS AGENTES PATOGÊNICOS

b) Disciplina ou campo de estud%bjetos ou fenômenos es- k) Atividade/agente:


tudados: TABAGISMO FUMO
ENTOMOLOGIA INSETOS
ESTÉTICA BELEZA 1) Atividade/propriedade:
CORTE USINABILIDADE
PACIFISMO PAZ

c) Processo ou operação/seu agente ou instrumento: m) Atividades complementares:


CONTROLEDATEMPERATURA TERMOSTATOS COMPRA VENDA

ILUMINAÇÃO LÂMPADAS n) Opostos:


AUTOMAÇÃO COMPUTADORES VIDA MORTE

AC1UECIMENTO COMBUSTÍVEIS EMPREGO DESEMPREGO"

POLÍTICA MONETÁRIA TAXAS DE JUROS


o) Ação/seu paciente:
d) Relação de Influência: EXTRADIÇÃO CRIMINOSOS
POLÍTICA MONETÁRIA INFLAÇÃO PESCA PESCADO

e) Matéria-prima/produto:
p) Coisa ou atividade/suas propriedades ou agentes
BAUXITA ALUMÍNIO
VENENOS TOXIDADE
f) Coisa/aplicação: CORTE USINABILIDADE
ABASTECIMENTO DE ÁGUA IRRIGAÇÃO CRIANÇA SUPERDOTADA INTELIGÊNCIA

64 I

65

1
~

q) Coisa/seu contra-agente:
INSETOS INSETICIDAS
4
r) Atividade/produto:
TEAR TECIDO
Relaçõeslingüísticas e
s) Pessoas ou coisas/suas origens: documentação
BRASILEIROS BRASIL
AUTOMÓVEL INDÚSTRIA ...~...
AUTOMOBILÍSTICA

t) Associação implícita:
BALANÇO DE PAGAMENTO COMÉRCIO INTERNACIONAL
Uma vez estabelecido um sistema nacional, existem
Obs.: Esta associação inclui, segundo Motta, todas aquelas que não se
conformaram aos exemplos anteriormente referidos (idem, ibidem). condições para estabelecer relações entre termos. O rigor
u) Expressões sincategoremáticas/substantivos nelas incluídos: com que tais relações se propõem determina o grau de con-
PEIXESFÓSSEIS PEIXES trole de uma linguagem construída. Dito de outro modo,
FLORESDE PAPEL FLORES uma linguagem construída é produto de uma operação nas
v) Interfaceta:
palavras que as transforma em termos. De fato, a lingua-
NÍVEL DE ATIVIDADE ECONÔMICA POLÍTICA MONETÁRIA
gem construída neutraliza as diferenças existentes na re-
lação entre a palavra e seus significados em LN. Nela não
Obs: Política Monetária (B) é associado a Nível de Atividade Econômica
(A) "porque Ajá havia sido associado a B, previamentc, pelo fato elcA scr podem coexistir, por exemplo, duas ou mais palavras que
uma das características dc B, e sem quc B scja, ncccssariamcnte uma elas se refiram a um mesmo conceito, ou uma palavra para
características de A:' (Motta, 1987, p. 49).
designar vários (onceitos, sem que o fato seja suficiente-
mente registrado, e seja devidamente controlado. Por essa
razão as linguagens documentáriasintegram vocabulários
controlados.
Para caracterizar o que vem a ser o controle do voca-
bulário, é preciso entender como se comporta a significação.
Bakhtin (1981) observa que, no plano ideológico, a palavra
é uma unidade "neutra", isto é, apta a se adequar a dife-
rentes padrões culturais. E isso ocorre, porque ela é por-
tadora de uma gama de significação que a torna capaz de

66 67

I
~
..........

LD LN
assumir sentidos ou valores diferentes, dependendo do con-
texto. Significante- Significado Significante -
- Significado 1
Assim, a despeito de seus semas básicos que constituem
o que se poderia chamar de núcleo "duro" de significação da
palavra, ela como que se amolda a cada realidade contextual,
permitindo diferentes focalizações.
- Significado2

Significado 3

Desta forma, é impróprio dizer que uma dada palavra


É preciso entender, portanto, que é intrínseco à palavra
tem o significado y, embora seja viável, a partir de um sig-
significar de maneira própria a cada ocorrência. Esse não e
nificado básico, afirmar que ela assume vários sentidos ou
um defeito. É antes uma característica importantíssima para
valores, dependendo de contextos. Não é por acaso, pois, que
a interpretação do mundo. Não se pode exigir que a LN de-
a LN se propõe como espaço para o exercício da liberdade. O
cline da sua função também interpretativa e criadora para
sujeito falante não é apenas um reprodutor de sentido. Ao se
exercitar apenas a função informativa. As LDs, ao contrário,
apossar da linguagem, ele exercita o ato de significar, que
porque são elaboradas para o exercício estrito da função in-
supõe liberdade de escolha.
formativa, compreendem unidades capazes de representar
Esta é uma das razões pelas quais a LN se define, inva-
informação. Não é suficiente que tais unidades signifiquem.
riavelmente, pela sua dinamicidade, já que, a cada momen-
É necessário que elas signifiquem de maneira determinada.
to, ela se transforma, evolui. É o instrumento de represen-
Portanto, quando se afirma que as linguagens docu-
tação da realidade que deve ser caracterizado como múltiplo
mentárias supõem o controle do vocabulário, afirma-se, si-
e plurissignificativo. multaneamente:
As unidades constitutivas das linguagens construídas,
a) a existência de mecanismos interpretativos próprios,
ao contrário, significam de maneira precisa. Contrapõem-se
uma vez que não se pode utilizar o mecanismo
às unidades da LN,justamente por imporem significados fi-
xos, de maneira coercitiva. Ao contrário da palavra polis- interpretativo da LNpara determinar significados das
sêmica do vocabulário geral da LN, o termo do vocabulário unidades destinadas à representação da informação;
especializado das linguagens construídas tende a se compor- b) a possibilidade de se produzir linguagens de natureza
tar de maneira uniforme, com pequenas variações, isto é, monossêmica que participam da elaboração de LDs.
nele as relações entre forma significante e significado ten- Em face da natureza plurissêmica da LN, a elabora-
dem a ser unívocas. Diz-se, nesse caso, que o termo, ao con- ção de LDs supõe alterar a fonte de significação, isto
trário da palavra polissêmica, é de natureza monossêmica. éj alterar a possibilidade de significar, orientando-a
Em diagrama: para a necessidade de fixar significados. Este processo

68 69

~
~

permite a transformação da unidade de significação balhou em aparelhos de ar-condicionado, quanto em am-


em unidade de informação; biente refrigerado ou aquecido por ar-condicionado. Ou na
c) a existência de um vocabulário próprio de uma LD frase "O cachorro do meu vizinho uivou a noite toda", onde
que comporta, preferencialmente, unidades de lingua- ele pode estar dizendo que o cachorro pertence ao vizinho,
gens de especialidade, isto é, termos, também deno- ou que o vizinho é um cachorro.
minados "vocabulários especializa dos". O vocabulá- Também a homonímia, que consiste em uma mesma
rio geral que se compõe de palavras, se, por um lado, forma significante remeter a duas realidades vocabulares di-
é mais rico que o primeiro, por outro, do ponto de versas, sejam unidades com identidade fônica (homofonia)
vista do tratamento da informação, é mais limitado. ou identidade gráfica (homografia), pode gerar ambigüida-
de. Por exemplo, numa frase como "O mestre entregou a Cd-
dcira ao colega", o significante "cadeira" tanto pode remeter
4.1 POLISSEMIAE AMBIGÜIDADE à palavra cadeira = objeto para sentar, quanto a cadeira =
cátedra de um docente.
Para a Lingüística, a palavra é sempre fonte de signifi- Pelas deficiências no uso de padrões sintáticos, eviden-
cação. Mas há que se distinguir a plurissignificação como ciam-se talnbém ambigüidades, geralmente, resolvidas em
fenômeno geral, decorrente da organização sintático-semân- LN com modificações de colocação, como em "Os juízes en-
tica de enunciados, e a polissemia, fenômeno específico da caravam os réus enigmáticos", onde tanto a significação pode
área vocabular.
ser relativa à atitude dos juízes, quanto ao estado dos réus.
A ambigüidade, por sua vez, é entendida como a possi- A colocação dos sintagmas, ou a seleção de padrões sintáti-
bilidade de uma comunicação lingüística prestar-se a mais cos pode, entretanto, desambigüizar a frase: "Osjuízes enig-
de uma interpretação e ocorre em função, tanto da pluris- máticos encaravam os réus" ou "Os juízes encaravam os réus
significação como da polissemia. que eram (estavam) enigmáticos.
De fato, a ambigüidade pode ser conseqüência, na área Numa linguagem documentária, tanto a polissemia,
vocabular, da polissemia ou da homonímia e, no plano mais quanto a ambigüidade devem ser neutralizadas, para que
geral, de deficiências na utilização de padrões sintático- seja garantida a monossemia entre a forma do significante e
semânticos.
a do significado.
Pela polissemia, como foi mencionado anteriormente, A ambigüidade evidencia, de maneira inequívoca, a di-
observa-se que uma palavra pode comportar mais de um vergência entre a aparência e a realidade do sistema e nos
significado, como em "Hoje trabalhei muito com ar-condicio- permite dizer que a aparência não é sempre a pista inter-
nado", onde o enunciador tanto pode estar dizendo que tra- pretativa mais segura. Levados pela aparência, operamos,

70 71

~
..........

normalmente, com os mecanismos interpretativos habituais Assim, ao operar com LDs, devemos analisá-Ias, tendo
e nos acostumamos com significados repetitivos. Isso diz em vista desvendar o modo pelo qual nelas as significações
respeito aos nossos hábitos e não ao sistema lingÜístico. são organizadas.
Por estarem num sistema relacional, as palavras de- A rigor, não se deseja que um termo se enriqueça. Exi-
vem ser observadas em oposição umas às outras. Em si ge-se que ele expresse conceitos determinados. A definição
mesma, por exemplo, a palavra "alta" pode ser incorreta- deve propor uma expressão (sintagma ou palavra) semanti-
mente interpretada como ambígua, já que pode estar asso- camente equivalente à unidade a ser definida. Não se deve
ciada a significações diferentes, como: criança alta e mulher descrever, por exemplo, o objeto concreto ferro ou água, mas
alta. O mesmo pode-se afirmar em relação à palavra "bai- o funcionamento lingÜístico do termo num sistema nocional
xo", uma vez que "criança baixa" e "mulher baixa" apre- em questão, tal como Fe e H2O, respectivamente, para o vo-
sentam igualmente significações diversas. A ambigÜidade cabulário da Química.
das palavras inexiste se as observamos como oposição. Fica O termo, também, define-se por suas relações com ou-
evidente, desse modo, que "criança baixa" /"criança alta" é tros termos. Extraindo o termo do lugar que ocupa, o qual
uma oposição análoga à oposição "mulher baixa" /"mulher lhe confere seu valor, privamo-nos do único meio possível para
alta". A significação, nesse caso, denomina-se oposicional e definir sua existência lingÜística, rigorosa o suficiente para ga-
possibilita determinar o sentido, propondo limites para a rantir seu funcionamento como unidade de informação.
indeterminação original. Sendo assim, Fe e H20 passam a ter significados fixa-
Estamos diante, então, de dois fenômenos que devem dos e determinados. Integram um vocabulário especializado
ser objeto das operações de elaboração de linguagens docu- (técnico ou científico). Seus correlatos ferro e água integram
mentárias: a polissemia e a monossemia. A polissemia é res- o vocabulário geral da LN, no qual podem assumir signifi-
ponsável pela passagem de uma significação a outra, de modo cações diversas. Por exemplo, ferro, em relação ao objeto, a
que as unidades sejam capazes de representar a informação. conceito etc.
A informação, ao contrário da .significação geral, deve ser Por vezes, observa-se confusão entre ambigÜidade e
determinada. Para que ela o seja, a significação que a repre- polissemia. A ambigÜidade lexical impõe-se por meio da
senta não pode ser de natureza polissêmica. A monossemia, polissemia e da homonímia. Na linguagem documentária, a
por sua vez, desejável nas LDs, é obtida por meio de redes ambigÜidade é tratada com o auxílio de modificadores que
relacionais e definições dos termos. Isto quer dizer que, ao contextualizam o sentido. Ex.: planta (botânica), planta (ar-
contrário da LN, onde a riqueza vincula-se à polissemia, a quitetura); companhia (empresa), companhia (pessoa).
fixação de relações e definições precisas é seu princípio Em princípio, em LN, a ambigÜidade é facilmente resol-
organizador elementar e básico. vida pelo contexto. O mesmo não ocorre com a polissemia.

72 73

..-.
~

A visão ingênua que identifica ambigüidade e polissemia, permite compatibilizar a linguagem dos usuários com a lin-
acaba por acreditar que apenas a ambigüidade leva à inde- guagem do sistema, funcionando, assim, como operador de
sentido.
terminação do sentido. Ela é, de fato, o fenômeno mais apa-
rente e o menos grave. A armadilha é acreditar que a pa- É importante entendê-Ia sempre como conseqüência do
lavra tenha um único significado. Nega-se a polissemia como contexto. Este fator caracteriza a equivalência como uma ope-
fenômeno global e estabelecem-se operadores de sentido que ração relativamente arbitrária, mas isso é pouco importan-
pouco têm a ver com o carnpo nocional, isto é, substitui-se te, uma vez que a arbitrariedade esteja registrada.
o conceito ou a noção própria dos vocabulários especializados De fato, a transformação da unidade de significação em
pelas indeterminações do vocabulário geral. unidade de informação é a característica fundamental do con-
Para neutralizar a polissemia, é preciso lançar mão de trole de vocabulário, já que numa linguagem construída, a
dois recursos: elaboração de redes relacionais e estabeleci- cada unidade de informação deve corresponder UIn único
mento de definições e notas de escopo, sempre que as redes sentido referencial.
se mostrarem insuficientes para a interpretação unívoca da No entanto, a existência de sinônimos ou quase sinôni-
significação. Tais recursos impõem operadores de sentido, mos nos leva a considerar relações de equivalência para o
isto é, elementos que conduzem o indexador a interpretar trabalho documentário.
adequadamente, em conformidade com o sisterna nocional A grande importância das relações de equivalência
em questão. advém do fato que elas intensificam o processo de controle
sobre a variação de significado, permitindo maior rigor no
tratamento da informação e eficácia na sua recuperação.
4.2 SINONÍMIA
Como os outros gêneros de relações mencionadas anterior-
mente, as relações de equivalência introduzem parâmetros
A sinonímia é uma relação de equivalência entre, ao me- para o uso da linguagem determinadas por um grupo.
nos, duas palavras. Por meio dela não se afirma a identidade No sentido estrito, a sinonímia pode ser definida como
entre os elementos envolvidos na relação. Isto é, x equivale a identidade de significação entre elementos lexicais, porém, a
y indica que x pode, em determinadas circunstâncias, subs- existência de sinonímia absoluta é controversa, sendo causa
tituir y. A equivalência é um recurso normalizador impor- de debates entre lexicólogos. Alguns autores admitem sua
tante para a compreensão de uma linguagem documentária. existência para o caso da equivalência entre duas línguas fun-
De um lado, permite normalizar a polissemia, indicando que cionais, como em gaivotas - nome popular/Larus - nome
várias palavras, uma vez que compartilham significados pró- científico; outros, ao contrário, tratam tais equivalências
ximos, expressam-se por um mesmo descritor. De outro, como quase-sinonímia.

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~

Entre lingüistas é mais freqüente a aceitação do concei- ximos e se intersectam, como belo/bonito; casa/resi-
to de quase-sinônimo, ou de para-sinônimo, uma vez que dência; falecimento/morte.
parece muito pouco provável que, em LN, duas palavras Na elaboração de LDs é fundamental um trabalho espe-
portadoras de exatamente o mesmo significado possam so- cífico com sinônimos e quase-sinônimos, uma vez que essas
breviver.
linguagens têm por função compatibilizar pelo menos duas
Entre documentalistas, também, são utilizados os con- outras linguagens: a de especialidade ou da literatura em
ceitos de sinônimo e quase-sinônimo. Enquanto sinônimo questão e a do usuário, por meio de termos preferenciais.
indica cada um dos termos de uma língua dada que desig- Numa acepção mais ampla, como é o caso da sinonímia
nam uma mesma noção, mas que se situam em níveis da utilizada na elaboração de tesauros, dois termos são sinôni-
língua ou de conceptualização diferentes, ou que se empre- mos quando têm a possibilidade funcional de se substituí-
gam em situações de comunicação diferentes; quase-sinôni- rem um ao outro, podendo compreender tanto a sinonímia
mos designam formas que não são intercambiáveis em to- absoluta como a quase-sinonímia. A sinonímia nas LDs é de
dos os enunciados relativos a um mesmo domínio.
caráter eminentemente preferencial e visa remetera usuário
A variada gama de quase-sinônimos, talvez, possa ser de um termo não-preferencial, para um termo selecionado,
resumida em alguns tipos: ou preferencial.
- palavras pertencentes a dialetos diferentes (dialetos
regionais, sociais, etários etc.), como pesquisa (Bra-
sil)/Investigação (Portugal); avião/aeroplano; 4.3 HIPONÍMIA

- palavras pertencentes a diferentes estilos ou regis-


Do ponto de vista da Lingüística, a estruturação hierár-
tros, como dor de cabeça/cefaléia; gaivotas/larídeos;
quica de um vocabulário pode ser dada sob dois modos: por
ácido clorídrico (química)/ácido muriático (constru-
ção civil); uma relação de hiponímia ou por meio da relação parte/todo.
No nível das relações de sentido o problema da signifi-
- palavras que guardam apenas uma diferença emotiva
cação pode ser visto sob diversos ângulos, ou seja, a partir
ou valorativa, como países em vias de desenvolvimen-
de diversas categorias.
to/países subdesenvolvidos;
A categoria denominada hiponímia opera com a noção
- palavras que têm sua ocorrência limitada, na medida de inclusão, a mesma noção que permite reunir unidades
em que só aparecem com outras, como "de barbear" numa classe. Assim, rosa e cravo estão incluídas em flor, ou
que vem com lâminas: giletes/lâminas de barbear; gato e leão estão incluídos em animal, ou escarlate está in-
- palavras cujos significados são, de fato, muito pró- cluído em vermelho.

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~
~

A inclusão tem a ver, pois, com a inserção de um dado podem ser feitos segundo a fórmula 'x é uma espécie (ou
elemento numa classe. Isso dito de outra forma, indica que tipo) de y': o gato é uma espécie de animal.
a hiponímia expressa" a relação existente entre um lexema A relação de hiponímia/hiperonímia (ou subordinação/
mais específico ou subordinado, e um lexema mais geral ou superordenação) permite verificar que um termo pertence,
superordenado, tal como é exemplificada por pares como ou subordina-se a um outro mais geral, o gênero, mas não
'vaca': 'animal', 'rosa': 'flor' etc." (Lyons, 1977, p. 235). permite identificar em que os termos subordinados se dife-
Nesta relação há que se considerar dois termos: o supe- renciam entre si.
rior, denominado por Lyons (1977) Superordenado, e o in- Por outro lado, em virtude da polissemia, uma mesma
ferior, Hipônimo. palavra pode aparecer em vários pontos da hierarquia, Palmer
Os termos constitutivos de uma classe são, pois, co- (1976) menciona como exemplo a palavra animal que pode
hipônimos. Entretanto, é necessário observar que nem toda ser usada em três pontos da cadeia:
classe dispõe de um superordenado. E mais: a existência de
1. em contraste com "vegetal", incluindo, neste caso aves,
um superordenado encabeçando uma classe pode variar de peixes, insetos, mamiferos;
língua para língua.
2. no sentido de "mamífero", contrapondo-se a aves, pei-
Lyons menciona a existência, em grego clássico, de uma xes e insetos, mas incluindo seres humanos e bichos;
forma superordenada para abranger todas as profissões e ofí-
3, no sentido de "bicho", opondo-se a sereshumanos.
cios, desde sapateiro, médico, passando por tocador de flau-
Assim, a palavra animal poderá surgir três vezes na
ta e timoneiro. Em inglês e em português não há palavra
classificação hierárquica da natureza, como mostra Palmer
que possa encabeçar conjunto tão variado. Neste caso, tem-
(p. 92):
se uma lacuna lexical.
Comvida vs Sem vidll
A hiponímia pode ser definida, também, em termos de
implicação unilateral e representa uma relação transitiva, de /~ animal
vegetal
tal modo que, se 'x' é hipônimo de 'y' e 'y' é hipônimo de
'z', então 'x' é hipônimo de 'z'. ~
Exemplo: vaca . mamífero . animal
ave peixe inseto

A
animal

vaca .. animal humano animal

A hiponímia é, ainda, uma propositura analítica, sendo Os exemplos poderiam ser multiplicados. No entanto,
que a leitura e compreensão do significado dos hipônimos parece ser suficiente levar em conta que, em razão da

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..-.
~

polissemia, um termo como cão pode, por ser o genérico da Por exemplo: - "Que espécie de animal era?"
- "Era um elefante."
classe, ser tomado como superordenado e como hipônimo,
respeitadas, naturalmente, as situações contextuais. Dito de outro modo, a resposta a perguntas desse gêne-
ro - e outras similares, do tipo 'como ...?', 'de que maneira
Cão
...?' - se dão a partir da introdução de uma diferença, que
~
cão cadela cachorro
produz as subclasses.
Os co-hipônimos - ou os termos coordenados que for-
mam uma mesma série - contrastam em sentido, sendo que
a natureza do contraste pode ser explicada em termos de di-
Resta observar que além da noção de inclusão, a ferentes modificações adjetivais (Lyons, 1977).
hiponímia contém implícita, também, a relação lógica de con- Pode-se dizer que as modificações adjetivais no léxico
seqüência, já que ao dizer "Isto é uma rosa", tem-se, neces- correspondem, nas LDs, a características ou propriedades
sariamente, o pressuposto "Isto é uma flor". Ou seja, a frase que realizam a individuação de termos. Do ponto do vista
que contém o hipônimo pressupõe, necessariamente, o extensional, os termos que se subordinam a um superor-
superordenado. O inverso, evidentemente, não é verdadeiro. denado contêm todas as características que identificam a
Se os membros de uma classe são especificados com "to- classe, mais uma que os distingue dos demais.
dos", ocorre o inverso: "Todas as flores são belas" inclui A relação de hiponímia colocada pela lingüística permi-
"Todas as rosas são belas", mas o inverso não é verdadeiro. te explicar, nas LDs, vários tipos de relacionamentos toma-
Pode-se dizer que a relação de hiponímia representa uma dos como hierárquicos que não cabem dentro da classifica-
operação de conjunção em face do termo superordenado, bem ção gênero/espécie (e tão pouco nas relações todo/parte,
como de disjunção, tomando-se a série de termos obtidos a parte/parte) .
partir da divisão realizada. Há casos, por exemplo, em que dois ou mais termos
Como na LN, nas LDs a superordenação/subordinação encontram-se em contraste e não existem, no léxico, pala-
representa um caso de implicação unilateral, onde o termo vras (ou termos, no caso das LDs) que lhes sejam superor-
superordenado implica termos subordinados, denominados denados e, a não ser que se utilizem elementos de natureza
hipônimos. diferente, provenientes de outras partes do discurso, não é
Em termos do léxico, o sentido de um hipônimo é pro- possível reuni-Ios.
duto do sentido de um nome superordenado e de um
cidades médias ---;- Tamanho .das cidades
modificador adjetival real ou potencial, que responde a per- cidades pequenas ~
megalópoles
guntas do seguinte tipo: 'que espécie de...?'; 'que tipo de...?'.

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o exemplo anteriormente mencionado:
Este é um caso de relação quase-paradigmátlca (ou uma
INSETOS
quase-hiponímia), uma vez que se utiliza uma expressão
mais geral ("tamanho") para reunir os diferentes tipos de
cidade.
ALGUNS
/ ~
TODOS SÃO
Aqui, entretanto, não é válida a aplicação da fórmula
"x é um gênero de y". A frase obtida da sua aplicação não é
natural ou é inaceitável. A estruturação do vocabulário,
~ GAFANHOTOS
/
neste caso, é feita por outras palavras ou sintagmas que sugere o esquema como meio para a validação de um rela-
desempenham o mesmo papel de "que gênero de ..." (ou que cionamento genérico, indicando que alguns membros da clas-
espécie de ...). se "insetos" são conhecidos como "gafanhotos", enquanto
"Comparáveis às questões Que gênero de animal era?, e que todos os "gafanhotos" são "insetos", por definição e in-
Era uma vaca ou outra espécie de animal?, são Como é que ele dependentemente do contexto (IBICT,1984, p. 26; ISO2788,
obteve isso - comprando-o ou roubando-o? e Ele comprou isso 1986, 1989, p. 605).
ou arranjou-o de algum outro modo?" (Lyons, 1977, p.237) Entretanto, ele não funcionaria no exemplo anterior, re-
... ou ainda, no caso de adjetivos "Quando dizes que o teu lativo a 'cidades'. A língua, na verdade, não é rigidamente
vestido é carmim, queres dizer que é em tons de vermelho ou de estruturada em termos lógicos.
outra cor? Assim como podemos dizer A vaca é um animal As diferentes séries formadas a partir de um mesmo
de um certo gênero, também podemos dizer ...Comprar algu- termo podem ser vistas como o resultado de diferentes mo-
ma coisa é obtê-ia de uma determinada maneira e Um objeto dos de realizar a conjunção, oriunda dos diferentes pontos
carmim é um objeto vermelho de uma certa maneira" (idem, tomados como obgem da subdivisão e/ou das diferentes ca-
ibidem) . racterísticas tomadas para a construção de cada hierarquia.
Em resumo, responde-se, nestes casos, a perguntas do Esse aspecto relaciona-se com a adoção das categorias
tipo "como" e "de que maneira", muito embora elas não aristotélicas de predicação - substância, modo, quantidade,
possam, também, ser amplamente empregadas com suces- qualidade ete. e suas atualizações nos seus desenvolvimen-
so. A hiponímia, na verdade, pode manifestar-se de muitas tos subseqüentes. Em Documentação, por exemplo, Ranga-
maneIras. nathan utilizou cinco categorias para agrupar os assuntos:

Isto explica porque não é possível aplicar, muitas ve- personalidade, matéria, energia, espaço e tempo.
Para a área de Ciência e Tecnologia, o Classification
zes, o esquema lógico "todos/alguns" sugerido pelos ma-
Rcscarch Group - CRG sugeriu que os termos fossem agrupa-
nuais de elaboração de vocabulários documentários.

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...-.
~

dos segundo as seguintes categorias fundamentais: substância são coruuntos de lexemas muito gerais - "'pessoa' (ou 'indi-
(produto), órgão, constituinte, estrutura, forma, propriedade, víduo'), 'animal', 'peixe', 'ave', 'inseto', 'coisa', 'lugar', 'subs-
objeto da ação (materiais brutos, materiais não tratados), tância', 'matéria', 'qualidade', 'estado' etc. - que são
ação, operação, processos, agente, espaço e tempo. Barbara superordenados em relação a subconjuntos maiores ou me-
Kyle, também integrante do CRG,distinguiu as artes, as ati- nores destas subclasses de nomes" (Lyons, 1977).
vidades, os objetivos, os objetos, as idéias, as abstrações. Em resumo, para o autor não existe ordenação hierár-
Ainda na área de Documentação, Shera & Egan (1969) quica a partir de um lexema superordenado único, fato que
propuseram as categorias agente, ação, modo, objeto, objeto se estende a diversas partes do discurso, pois, além dos no-
de ação, tempo, espaço e produto. Grolier (1962), por seu mes, isso se aplica aos verbos e aos adjetivos.
lado, sugeriu categorias constantes de tempo, espaço, ação e Entretanto, se nos casos de hiponímia pode-se afirmar
categorias variáveis: substância, órgão, analítico, sintético, que existe uma relação paradigmática de sentido entre os
propriedade, forma e organização. lexemas, na ausência de superordenados paradigmáticos para
Na área da Lingüística vale ressaltar os "casos concep- a reunião de lexemas pode ocorrer uma relação quase-
tuais" de Pottier (1974): causativo, instrumental, agentivo, paradigmática (idem, ibidem).
nominativo, ergativo, acusativo, associativo, locativo, dativo, Assim, para reunir os adjetivos 'vermelho', 'amarelo',
beneficiativo, finalidade. 'azul' etc., pode-se utilizar: 'cor'; para falar de 'redondo',
De um modo ou outro, todas essas noções ou facetas quadrado', 'oblongo': 'forma'.
remontam às classificações aristotélíca e kantiana. A Mas há casos em que não há, no vocabulário, lexemas
estruturação do vocabulário em áreas distintas definirá as para organizar, hierarquicamente, os termos. Trata-se das
noções funcionais mais generalizantes a serem adotadas. Por "lacunas lexicais", devidas, na maior parte das vezes, a fato-
outro lado, tal estruturação, dada em função de relações de res culturais.
hiponímia e quase-hiponímia, pode ser realizada por meio Uma lacuna lexical pode ser descrita como um "buraco
de um pequeno número de lexemas (noções generalizantes, no modelo", ou seja, a ausência de um lexema num dado
categorias, facetas) com sentido muito geral. lugar da estrutura de um campo lexical" (Lyons, 1977).
Pode-se afirmar, com Lyons, que nem sempre é possí- A relação hiponímia/superordenação corresponde, em
vel estrutural' hierarquicamente os lexemas em termos de lógica, à relação gênero/espécie (ou espécie/gênero). O con-
hiponímia, dada a ausência de lexicalização, em algumas lín- junto desse tipo de relacionamento é denominado, via de re-
guas. Não há, em português, por exemplo, nenhum lexema gra, relacionamento genérico.
que seja superordenado a todos os nomes abstratos, ou a
todos os nomes concretos. O que se encontra, ao contrário,

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