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Penhane BOLETIM OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO DE APOIO E ASSISTÊNCIA JURÍDICA AS COMUNIDADES

Director Executivo: Rui de Vasconcelos* Sede: AAAJC* Telefone: 20030252*Cidade de Tete *Chingodzi* Editado em Português e Inglês

Quando a Responsabilidade Social Corporativa estimula o desenvolvimento local

Por conta de um gigante investimento implantado pela Vale Mo-


çambique em Cateme, distrito de Moatize em Tete, o da Fazenda vés dos quais os litígios, entre a Comunidade Abrangida e a empresa
modelo que incorpora uma unidade de processamento de vegetais serão resolvidos, onde se estabelece o mecanismo de reclamação a
e frutas, ressalta da Politica de Responsabilidade Social Empresarial ser usado no âmbito do desempenho de RSE da empresa. Mais adi-
na Indústria Extractiva que se deve estabelecer planos e acordos ante, como escreve o IESE, a PRSEIE menciona que se deve assegurar
sobre investimento social local, os chamados Acordos de Desenvol- que a monitoria e avaliação do investimento social e, especificamente
vimento Local em que esteja patente a participação das partes inte- dos acordos de desenvolvimento local, são executadas por terceiros
ressadas, enquanto partes envolvidas, designadamente o Governo e independentes.
a empresa, bem como as comunidades como testemunhas. Em jeito
de subsídio, recorrendo a um trabalho realizado pelo IESE, para a Se os acordos de desenvolvimento local devem ser assinados entre o
Fazenda modelo erguido em Cateme, embora transparece a ideia de Governo e a empresa e se é o Governo o representante das aspira-
que o Governo é signatário, sendo os verdadeiros negociadores dos ções e expectativas da comunidade, não será óbvio que o mesmo se
acordos de desenvolvimento local, as comunidades abrangidas. responsabilize pela negociação, monitoria e resolução dos litígios
que possam surgir? Questiona dando a conhecer que parece ser base-
Na Politica de Responsabilidade Social Empresarial, no capítulo ada na ideia de dotar as autoridades e comunidades locais de auto-
referente ao desenvolvimento de capacidades para a negociação de nomia para tomada de decisão, ignorando as diferenças de capacida-
investimentos sociais como é o caso da fazenda modelo de Cateme, de, poder e influência entre as partes. Entretanto, as empresas multi-
fica desde logo claro que deve assegurar a existência de capacidade nacionais exploradoras de recursos naturais, a exemplo da Vale Mo-
a nível local que permita às comunidades abrangidas negociar efi- çambique possuem um maior acesso à informação e possuem as
cazmente com a indústria, neste caso a Vale e as autoridades locais habilidades e competências necessárias para influenciar as decisões
o investimento social a realizar. sobre como as suas acções de RSE devem ser conduzidas nas comu-
nidades, para além de possuírem vasta experiência em vários países.
Revistando a PRSEIE, há aspectos em que se nota uma minimização
do papel do Estado, onde tarefas tradicionalmente realizadas por E as comunidades locais à volta de mega ‑projectos de mineração em
órgãos do Estado são transferidas para as comunidades ou para Moçambique necessitam de capacidade técnica e de recursos para
entidades independentes. Aliás, neste caso, a política menciona que enfrentar processos complexos, demorados e onerosos como a nego-
os acordos de desenvolvimento local devem definir “os meios atra- ciação de um acordo de desenvolvimento local.

Comunidade e Fazenda modelo de Cateme

Sendo que a fazenda modelo de Cateme nas- Ademais, as “comunidades” não existem na divi-
ceu na sequência dos processos de reassenta- são administrativa de Moçambique, por isso não é
mentos e compensações de famílias desloca- possível assegurar que uma “comunidade” tenha
das pelo projecto de exploração de carvão uma opinião consensual acerca de um determinado
mineral em Moatize, este pode servir como assunto.
“proxy” do grau de preparação das comuni-
dades e do governo. No entanto, há um tra-
balho de base a ser desenvolvido para evitar
Parceiros:
a probabilidade de falta de interesse, de dis-
ponibilidade ou indiferença que pela sua na-
tureza, pode gerar impacto negativo de pro-
cessos de auscultação pública ser dominado
por pessoas com forte poder de influência,
mas não necessariamente defensoras de posi-
ções de consenso comum.

Quem somos? Associação de Apoio e Assistência Jurídica as Comunidades (AAAJC), é uma organização da Sociedade Civil
Moçambicana, não-governamental, sem fins lucrativos, de âmbito nacional, fundada em 2008 e com os seus estatutos legal-
mente publicados em 2010 no Boletim da República nº. 2, III serie, 4º suplemento de 19 de Janeiro. A sede é na cidade de Tete.
Penhane OFICIAL REPORT CARD OF THE ASSOCIATION FOR SUPPORT AND LEGAL ASSISTANCE TO COMMUNITIES

The Executive Director Rui de Vasconcelos* Sede: AAAJC* Telefone: 20030252*City of Tete*Chingodzi* Edited in Portuguese & English
o
Edition n 164
When Corporate Social Responsibility Stimulates Local Development

Due to a giant investment implemented by Vale Moçambique in


Cateme, Moatize district in Tete, the farm model that incorporates a lishing the grievance mechanism to be used in the performance of
vegetable and fruit processing unit, underlines the Corporate Social CSR of the company. Further, as IESE writes, PRSEIE mentions that
Responsibility Policy in the Extractive Industry that plans should be it must be ensured that monitoring and evaluation of social invest-
established and agreements on local social investment, the so-called ment, and specifically of local development agreements, is per-
Local Development Agreements in which the participation of stake- formed by independent third parties.
holders, as stakeholders, namely the Government and the company,
as well as the communities as witnesses, is apparent. By way of sub- If local development agreements are to be signed between the Gov-
sidy, using a work done by IESE, for the model farm erected in ernment and the company and if the Government is the representa-
Cateme, although the idea that the Government is a signatory, being tive of the aspirations and expectations of the community, is it not
the real negotiators of local development agreements, the communi- obvious that it is responsible for negotiating, monitoring and resolv-
ties covered. ing any disputes that may arise? It questions making known that it
appears to be based on the idea of empowering local authorities and
In the Corporate Social Responsibility Policy, in the chapter on ca- communities with decision-making autonomy, ignoring differences
pacity building for the negotiation of social investments, such as the in capacity, power and influence between the parties. However,
Cateme model farm, it is clear from the outset that it must ensure multinational companies that exploit natural resources, such as Vale
local capacity to enable the communities concerned to negotiate Moçambique, have greater access to information and have the skills
effectively with industry, in this case Vale and local authorities the and competences needed to influence decisions about how their CSR
social investment to be realized. actions should be conducted in communities, in addition to having
vast experience in various countries. And local communities around
Looking through PRSEIE, there are aspects where there is a minimi- mega mining projects in Mozambique need the technical capacity
zation of the role of the state, where tasks traditionally performed by and resources to tackle complex, time consuming and costly pro-
state agencies are transferred to communities or independent enti- cesses such as negotiating a local development agreement.
ties. Indeed, in this case, the policy mentions that local development
agreements should define “the means by which disputes between
the Covered Community and the company will be resolved, estab-

Cateme Community and Farm model

Since Cateme's model farm was born as a result of re- Moreover, “communities” do not exist in the admin-
settlement and family compensation processes dis- istrative division of Mozambique, so it is not possi-
placed by the coal mining project in Moatize, it can ble to ensure that a “community” has a consensus
serve as a proxy for the degree of preparedness of opinion on a particular issue.
communities and government. However, there is back-
ground work to be done to avoid the likelihood of lack
Partners:
of interest, availability or indifference which by its
very nature may have a negative impact on public
hearing processes being dominated by people with
strong influence but not necessarily defend common
consensus positions.

Who Are We? The Association for Support and Legal Assistance to Communities (AAAJC) is an mozambican Civil Society Organization (CSO) based in Tete province, non-governmental and non proffit, created in 2008 by
a group of Paralegals in natural resources and development law, formed by the Center for Legal and Judicial Training (CFJJ), now Ministry of Justice, who decided to organize themselves based on their knowledge to promote
social and economic development and respect for human rights based on observance of the principles of social justice, equity and sustainability. Its scope of action was limited to the areas of economic development and poverty
reduction in a participatory manner, legal support to communities and citizens, environmental education, conflict resolution, advocacy of public policies and human rights. In 2010, following the implementation of some initiatives
and completing the process of its constitution, the organization was formally legalized with statutes published in the Bulletin of the Republic no. 2, III series, 4th supplement of January 19, 2010.