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ANÁLISE DE GÊNEROS HOJE*

Vijay K. Bhatia
Tradução de Benedito Gomes Bezerra

Resumo de gêneros tem se tornado extremamente popular nos últi-


A análise de gêneros, como estudo do comportamen- mos anos. O interesse pela teoria dos gêneros e suas aplica-
to lingüístico em contextos acadêmicos ou profissionais, tem ções não se restringe mais a um grupo específico de pesqui-
se tornado extremamente popular nos últimos anos, des- sadores de uma área em particular ou de um setor qualquer
pertando amplo interesse entre pesquisadores de diversas do globo terrestre, mas cresceu a ponto de assumir uma re-
áreas teóricas e aplicadas. Este artigo apresenta um pano- levância muito mais ampla do que jamais foi imaginado.
rama da teoria de análise de gêneros, identificando os as- Candlin (1993) indaga com propriedade:
pectos comuns a suas principais vertentes e discutindo algu-
mas das importantes questões levantadas pela literatura O que há com o termo e com a área de estudos que ele
recente. A conclusão trata das implicações dessas questões representa, para que atraia tanta atenção? O que lhe
para o desenvolvimento posterior da teoria e para sua apli- permite agrupar sob o mesmo abrigo terminológico
críticos literários, retóricos, sociólogos, cientistas
cação no ensino.
cognitivistas, especialistas em tradução automática,
lingüistas computacionais e analistas do discurso, es-
Palavras-chave: gênero; análise de gêneros; integridade pecialistas em Inglês para Fins Específicos e profes-
genérica; práticas discursivas. sores de língua? O que é isso que nos permite reunir
sob o mesmo rótulo publicitários, especialistas em
Abstract comunicação empresarial e defensores do Inglês Co-
Genre analysis, as a study of linguistic behavior in mum? (Candlin, 1993).
academic or professional settings, has become extremely
popular in the last few years, causing an increasing interest “Claramente, trata-se de um conceito que encontrou
among researchers in several theoretical and applied areas. seu momento oportuno”, aponta ele. Há atrativos óbvios nos
This paper presents a survey of genre analysis theory, diferentes modos como o termo tem sido utilizado na litera-
identifying aspects in common in its main trends and tura recente. A própria natureza da estruturação genérica é
discussing some important questions raised by the recent multidisciplinar. A teoria dos gêneros leva a análise do dis-
literature. The conclusive section deals with the implications curso da descrição para a explanação da língua, tentando
of these questions to a subsequent development of the theory freqüentemente responder a questão: Por que os membros
and to its application in teaching. de comunidades discursivas específicas usam a língua da
maneira como fazem? A resposta não leva em consideração
Keywords: genre; genre analysis; generic integrity; somente fatores sócio-culturais, mas também fatores
discursive practices. cognitivos, tentando, dessa forma, esclarecer não apenas os
propósitos comunicativos da comunidade discursiva em
I. INTRODUÇÃO questão, mas também as estratégias cognitivas empregadas
por seus membros para atingir esses propósitos. Esse aspec-
Embora seja um desenvolvimento relativamente re- to tático da construção do gênero, sua interpretação e uso,
cente no campo dos estudos aplicados do discurso, a análise provavelmente é um dos fatores mais significativos a con-

· BHATIA, Vijay K. Genre analysis today. Revue Belge de Philologie et d’Histoire, Bruxelles, 75:629-652. 1997. [Tradução: Benedito Gomes
Bezerra]

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correr para sua popularidade atual no campo dos estudos do O primeiro aspecto é mais ou menos relacionado di-
discurso e da comunicação. Uma das desvantagens de tal po- retamente ao contexto sócio-cultural e situado em culturas
pularidade é que quanto mais popular um conceito se torna, disciplinares específicas. A fim de identificar situações re-
mais variações de interpretação, orientação e estruturação são tóricas típicas, pode ser necessário caracterizar os aspectos
encontradas na literatura existente. Os analistas do discurso relevantes do contexto sócio-retórico em que um dado evento
interessados na teoria dos gêneros encontram-se presentemen- comunicativo acontece. Uma boa e adequada compreensão
te numa situação algo similar a essa. da situação retórica típica leva à identificação do(s)
Neste artigo, gostaria de elucidar a teoria da análise propósito(s) comunicativo(s) mutuamente compartilhado(s)
de gêneros, a fim de ver o que é comum em suas várias mani- por participantes tipicamente associados a uma comunida-
festações, identificar algumas das questões importantes le- de discursiva em particular. Os propósitos comunicativos
vantadas na literatura recente e discutir as implicações dessas compartilhados estão, dessa forma, imbricados dentro do
questões para o desenvolvimento posterior da teoria e para contexto retórico relevante. Levando isso um pouco adian-
sua aplicação no ensino e aprendizagem de línguas. te, em direção às formas lingüísticas, é possível identificar
regularidades típicas de formas estruturais e organizacionais
II. ANÁLISE DE GÊNEROS que freqüentemente delineiam um construto genérico. Con-
seqüentemente, para certos propósitos aplicados, especialmen-
Análise de gêneros é o estudo do comportamento te o ensino de línguas, o conceito de situação retórica talvez
lingüístico situado em contextos acadêmicos ou profissio- seja o mais geral, responsável pela necessária estrutura den-
nais, seja qual for o modo como é encarado; quer em termos tro da qual podem ser localizados os propósitos comunicati-
de tipologias de ações retóricas, como em Miller (1984) e vos, que por sua vez se percebem nos usos mais ou menos
Berkenkotter e Huckin (1995); regularidades de processos típicos de formas léxico-gramaticais e discursivas. Para o es-
sociais gradativos e orientados para uma meta, como em tudo dos gêneros, especialmente para os propósitos da lin-
Martin, Christy e Rotery (1987) e Martin (1993); ou consis- güística aplicada, todos os três níveis interrelacionados de
tência de propósitos comunicativos, como em Swales (1990) descrição genérica são importantes. Até esse ponto, não vejo
e Bhatia (1993). A teoria de gêneros, a despeito dessas orien- qualquer tensão entre essas assim chamadas abordagens
tações aparentemente diversas, apresenta uma considerável conflitantes. De fato, elas parecem complementar-se mutua-
base comum. Embora eu quisesse resistir à tentação de de- mente, fornecendo não só um suporte teórico útil, mas tam-
monstrar exaustivamente os pontos comuns nessas diferen- bém a validação necessária à desconstrução dos construtos
tes abordagens, é preciso apontar alguns dos traços mais genéricos. A noção de propósito comunicativo parece ser mais
importantes que as caracterizam. O primeiro é a ênfase no central à teoria de gêneros, por um lado, por estar inserida em
conhecimento convencionado, que confere a cada gênero contextos retóricos específicos e, por outro lado, por deter-
sua integridade. As três abordagens igualmente reputam esse minar, invariavelmente, escolhas específicas de formas estru-
aspecto como central para qualquer forma de descrição ge- turais e léxico-gramaticais.
nérica. O segundo é a versatilidade da descrição dos gêne- Outro ponto importante a notar nas três orientações
ros, e o terceiro, embora possa parecer algo contraditório é a ênfase, comum a todas elas, em certos traços específicos
em relação ao primeiro, é a tendência para a inovação, da descrição de gêneros, seja em termos de recorrência,
advinda da natureza essencialmente dinâmica do gênero. compartilhamento ou regularidades, cada um deles desta-
Deixe-me reforçar esses três aspectos da teoria de gêneros. cando aspectos convencionais da construção e interpreta-
ção de gêneros. Seja qual for o modo de abordagem (veja
II.I. Conhecimento convencionado Jamieson: 1973; Swales: 1990; Miller: 1984; Martin: 1985;
Dudley-Evans: 1986; Bhatia: 1993 e 1994), o denominador
Os gêneros se definem essencialmente em termos do comum têm sido sempre os aspectos convencionalizados,
uso da linguagem em contextos comunicativos institucionalizados e permissíveis (de preferência a aspec-
convencionados, que dá origem a conjuntos específicos de tos criativos, inovadores e exploráveis) da construção dos
propósitos comunicativos para grupos sociais e disciplina- gêneros. Isso também é perfeitamente compreensível. Como
res especializados que, por sua vez, estabelecem formas es- sustenta Swales (1990), gêneros não são criados da noite
truturais relativamente estáveis e, até certo ponto, impõem para o dia. Eles se desenvolvem por um certo período e não
restrições quanto ao emprego de recursos léxico-gramati- são reconhecidos até que se tornem bastante padronizados.
cais. Como indiquei anteriormente, pelo menos três aspec- Nesse contexto, a teoria de gêneros tem posto uma forte
tos convencionais interrelacionados têm se destacado na li- ênfase nos aspectos institucionalizados da construção e in-
teratura sobre gêneros, e todos eles são cruciais para nossa terpretação de gêneros.
discussão: (a) recorrência de situações retóricas, (b) propó- Fairclough (1989, p.59) ilustra a importância das con-
sitos comunicativos compartilhados e (c) regularidades de venções examinando o encontro médico entre um ginecolo-
organização estrutural. gista e sua paciente. Freqüentemente, o ginecologista preci-

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sa tranqüilizar a paciente, com uma voz gentil e suave, no to comunicativo como um bem detalhado conjunto de pro-
momento do exame interno: “relaxe o máximo possível, se- pósitos comunicativos. Dependendo do nível de generaliza-
rei o mais delicado que puder”. Com muita razão, Fairclough ção e detalhamento em que o propósito comunicativo é es-
pergunta: “o que, neste breve encontro, permite à paciente pecificado, pode-se chegar à condição de identificar o status
interpretá-lo como um encontro médico e não um encontro de um gênero em particular, bem como o uso que ele faz das
sexual?” Como resposta, ele aponta: convenções genéricas. Vou fundamentar melhor isso toman-
do como exemplo o que é comumente chamado de discurso
... as limitações próprias do promocional (veja o diagrama).
contexto das consultas gine-
cológicas são da maior rele-
vância para garantir que o
Gêneros
encontro seja realmente um identificados em termos de
encontro médico... tais con- propósitos comunicativos
sultas somente podem ser le-
gitimamente realizadas em
um “espaço médico” – um construídos pelos processos retóricos de
hospital ou consultório – que ... narração descrição avaliação explanação instrução...
implica a presença de uma
parafernália médica comple-
ta, que ajuda a legitimar o en-
dando forma a produtos como
contro.
gêneros promocionais

Qualquer tentativa de negli-


genciar, ignorar ou solapar o poder sinopses de livros resenhas de livros anúncios malas diretas inscrições para empregos
das convenções próprias de tais en-
contros pode ocasionar conseqüên-
cias desastrosas. Obviamente, as con- comerciais de TV anúncios impressos anúncios radiofônicos
venções genéricas são de grande
utilidade em manter a atmosfera co-
anúncios anúncios anúncios anúncios anúncios
municativa e a ordem social desejá- de computadores de livros de companhias aéreas de automóveis de cosméticos
veis nas comunidades profissionais
civilizadas.
anúncios anúncios
II.II. Versatilidade genérica de de
pacotes de férias viagens comerciais
O segundo aspecto mais im- Níveis de Descrição Genérica
portante da teoria de gêneros é sua
versatilidade, que opera em vários ní-
veis. Trata-se de um modelo teórico para detalhar o relaciona- Embora os gêneros sejam identificados essencialmen-
mento entre (a) texto e contexto em sentido estrito; (b) o uso te em termos dos propósitos comunicativos aos quais ten-
que as pessoas fazem da linguagem e o que torna isso pos- dem a servir, esses propósitos comunicativos podem ser
sível, especialmente no contexto de culturas disciplinares es- caracterizados em diferentes níveis de generalização. Eles
pecíficas; e (c) língua e cultura, em sentido amplo. podem ser vistos em termos de uma combinação de proces-
Pode-se ver a versatilidade da descrição lingüística sos retóricos, que também podem ser considerados como
baseada em gêneros em vários níveis da descrição de gêne- valores genéricos primários. Halliday e seus seguidores, tra-
ros. Usando como critério privilegiado o propósito comuni- balhando dentro de uma orientação sistêmica da descrição
cativo ligado a uma situação retórica específica, a teoria de de gêneros, têm aplicado essa noção, com bastante sucesso,
gêneros combina as vantagens de uma visão mais geral dos ao ensino de gêneros no nível escolar (ver Reid: 1987). No
usos da língua, por um lado, com sua realização bem espe- caso dos gêneros profissionais, sempre é possível postular
cífica, por outro (Swales: 1990, p. 58; Bhatia: 1993). Nesse diversos níveis de generalização. Considerando o caso dos
sentido, a análise de gêneros é realmente estreita em seu gêneros promocionais, encontramos, no nível mais alto de
foco e ampla em sua visão. O próprio conceito de propósito generalização, o “discurso promocional na forma de uma
comunicativo é muito versátil. Por um lado, ele pode ser constelação de gêneros intimamente relacionados, dotados
identificado em um nível realmente alto de generalização, do mesmo propósito comunicativo de promover um produ-
enquanto, por outro lado, pode ser limitado a um nível bem to ou serviço para um cliente potencial. Como exemplos
específico. Igualmente, tanto pode haver um único propósi- comuns de gêneros promocionais podem-se incluir anún-

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cios, cartas promocionais, inscrições para empregos (no sen- À medida em que nos movemos do nível mais alto para os
tido de que seu propósito também é vender os serviços do níveis mais baixos de generalização, precisamos definir o
candidato a um empregador potencial, cf. Bhatia: 1993), si- propósito comunicativo em uma crescente ordem de
nopses de livros, panfletos comerciais, panfletos turísticos especificidade e detalhamento, se desejamos realmente dis-
e vários outros. Todos esses e muitos outros exemplos des- tingui-los como gêneros ou subgêneros. Em outras palavras,
se tipo apresentam um alto grau de superposição no propó- o analista de gêneros pode enfocar tantos as semelhanças
sito comunicativo a que procuram atender e essa é a princi- como as diferenças entre vários membros de uma colônia
pal razão por que são vistos como parte de uma colônia de gêneros. Se o interesse é enfocar as sutilezas do gênero,
discursiva intimamente relacionada, servindo mais ou me- ele ou ela terá que definir os propósitos comunicativos em
nos a um propósito promocional comum, a despeito do fato um nível propriamente mais baixo de especificidade; se o
de que alguns podem também apresentar diferenças sutis interesse é distinguir uma variedade de realizações especí-
em sua realização. É ainda possível ver cada um desses gê- ficas de gêneros de certo modo similarmente relacionados,
neros, e.g., os anúncios, em um nível mais baixo de genera- ele ou ela precisará especificar os propósitos comunicati-
lização e fazer distinções entre suas realizações mais espe- vos em um nível mais alto de generalidade.
cíficas. Exemplos óbvios incluirão anúncios impressos,
comerciais de TV, anúncios radiofônicos e outros. As dife- II.III. Integridade genérica x tendência para a
renças entre esses gêneros são pouco discerníveis em ter- inovação
mos de propósitos comunicativos e mais em termos do meio
de discurso e portanto pertencem, como gêneros, à mesma Nas seções anteriores, tentei enfatizar que os gêne-
categoria geral popularmente conhecida como anúncios. Indo ros podem ser vistos como o resultado das práticas
um passo adiante, considerando agora somente os anúncios discursivas convencionadas e institucionalizadas de comu-
impressos, ainda é possível encará-los em termos de cate- nidades discursivas específicas. É esse conhecimento
gorias como anúncios diretos, anúncios com associação de convencionado do modo como os gêneros são construídos,
figuras e legendas, anúncios baseados na imagem, homena- interpretados e usados dentro das comunidades discursivas
gens, falsos gêneros, etc. (Kathpalia: 1992). Seja qual for a específicas que confere a seus membros reconhecidos uma
subcategoria, todos esses anúncios servem ao mesmo con- vantagem sobre outros que são estranhos. Em outras pala-
junto de propósitos comunicativos, embora a maioria deles vras, é esses conhecimento das convenções genéricas que
utilize estratégias diferentes para promover o produto ou ajuda os profissionais experientes a identificá-las (Bhatia:
serviço. Anúncios diretos geralmente usam a “avaliação do 1993). Contudo, é interessante notar que, embora os gêne-
produto” como principal estratégia persuasiva, enquanto ros sejam tipicamente associados a contextos retóricos re-
anúncios baseados em imagem apoiam-se mais especifica- correntes e sejam identificados com base em propósitos co-
mente no estabelecimento de credenciais como fonte prin- municativos compartilhados, com restrições a possíveis
cipal de convencimento. Outra diferença encontrada no uso contribuições no uso de formas discursivas e léxico-grama-
dos recursos lingüísticos é que alguns tipos apoiam-se em ticais, eles são construtos dinâmicos. Berkenkotter e Huckin
estratégias verbais (anúncios diretos utilizando a avaliação (1995) ressaltam que
do produto), enquanto outros, e.g., os anúncios do tipo figu-
... gêneros são estruturas retóricas inerentemente di-
ra-mais-legenda, concentram-se mais em estímulos visuais.
nâmicas que podem ser manipuladas de acordo com
Mais uma vez, é possível tomar os anúncios diretos e as condições de uso, e que o conhecimento de gêne-
diferenciá-los em termos do uso de recursos lingüísticos para ros é, por conseguinte, melhor conceituado como uma
avaliação do produto, ou talvez em termos do tipo de pro- forma de cognição situada e imbricada em culturas
duto que anunciam, ou mesmo em termos do público a que disciplinares.
se dirigem. Em cada caso, estamos certos de que encontra-
remos diferenças sutis no uso de estratégias para descrição, Ênfase no aspecto convencional e na tendência à
avaliação ou diferenciação do produto e que essas diferen- inovação: esses dois traços da teoria de gêneros parecem
ças eventualmente ocasionarão usos específicos dos recur- ter um caráter contraditório. Uns tendem a ver o gênero como
sos lingüísticos. Mas o interessante é que todas essas varia- um evento textual retoricamente situado, altamente
ções somente se tornam gêneros diferentes no momento em institucionalizado, possuindo aquilo que chamei em outro
que começam a indicar uma diferença substancial nos pro- lugar de “integridade genérica” (Bhatia: 1993); por outro
pósitos comunicativos. lado, também se atribui aos gêneros uma tendência natural
O interessante na teoria de gêneros é que, caso se à inovação e à mudança, que freqüentemente é explorada
utilize a situação retórica ou o propósito comunicativo como pelos membros experientes da comunidade especializada na
critério privilegiado, isso implica que, enquanto o propósi- criação de novas formas para responder a contextos retóricos
to comunicativo permanece o mesmo, os textos em questão familiares ou nem tão familiares assim. Isso confere à maio-
são identificados como gêneros intimamente relacionados. ria dos gêneros um tipo de complexidade dinâmica que

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freqüentemente se atribui ao uso de recursos multimídia, à o presente mundo dos negócios seja cada vez mais identifi-
explosão de tecnologia informacional, aos contextos cado com uma “cultura consumista” (Featherstone: 1991).
multidisciplinares no mundo do trabalho, ao ambiente pro- O resultado inevitável é que muitos dos gêneros
fissional crescentemente competitivo (tanto acadêmico como institucionalizados, quer sejam sociais, profissionais ou aca-
empresarial) e, acima de tudo, à necessidade de criatividade dêmicos, têm incorporado elementos promocionais.
e inovação na comunicação profissional. Fairclough (1993, p. 141), referindo-se a tais mudanças nas
Os gêneros se situam tipicamente em contextos só- práticas discursivas, aponta:
cio-retóricos específicos e, dessa forma, modelam futuras
respostas retóricas a situações similares; eles sempre foram ... há uma completa reestruturação de fronteiras entre
vistos como “lugar de contenda entre a estabilidade e a as ordens do discurso e as práticas discursivas; por
mudança” (Berkenkotter e Huckin: 1995, p. 6). Pode acon- exemplo, o gênero do anúncio ao consumidor tem co-
tecer que alguém seja chamado a responder a uma necessi- lonizado muitas ordens do discurso profissional e do
dade sócio-cognitiva em transformação, o que exigirá dele serviço público em larga escala, gerando uma diversi-
dade de novos gêneros híbridos parcialmente
a negociação da resposta à luz das convenções reconheci-
promocionais...
das e estabelecidas, uma vez que os gêneros de fato mudam
através dos tempos, em resposta a necessidades sócio-
Como exemplo de tais gêneros híbridos, Fairclough
cognitivas cambiantes. Essa habilidade em responder a no-
(1993) discute o caso dos prospectos universitários contem-
vos contextos retóricos com base no conhecimento genéri-
porâneos, em que ele destaca uma crescente tendência ao uso
co estabelecido também confere considerável liberdade tática
do marketing nas práticas discursivas das universidades bri-
aos membros especializados da comunidade discursiva em
questão, podendo manipular recursos e convenções genéri- tânicas. Martin (1985, p.250) afirma corretamente que “...gê-
cas “para expressar intenções particulares dentro da estru- nero diz respeito a como as coisas são feitas quando a lingua-
tura dos propósitos comunicativos socialmente reconheci- gem é usada para executá-las”. Como as demandas por práticas
dos” (Bhatia: 1993). Contudo, como ressalta Bhatia (1995), comunicativas se tornam cada vez mais complexas, os profis-
sionais experientes começam a responder às novas situações
As convenções de gênero são freqüentemente explo- retóricas utilizando estratégias estabelecidas e, mais
radas pelos membros experientes das comunidades freqüentemente, muitas estratégias inovadoras para atingir uma
discursivas para criar novas formas; contudo, tal li- variedade de objetivos complexos.
berdade, inovação, criatividade e exploração, seja Esse processo de exploração dos valores genéricos
como for que a chamemos, invariavelmente se realiza
estabelecidos para criar construtos genéricos mistos ou im-
antes dentro do que fora das fronteiras do gênero, seja
como for que estas sejam estabelecidas, em termos de bricados é sempre visto pelos membros das comunidades
recorrência de situações retóricas (Miller, 1984), con- profissionais como taticamente superior e eficiente. A ex-
sistência de propósitos comunicativos (Swales, 1990 ploração de recursos genéricos para criar formas mistas ou
e Bhatia, 1993) ou combinação de elementos estrutu- imbricadas sempre se baseia no já estabelecido dentro da
rais obrigatórios (Halliday e Hasan, 1985). A inova- comunidade profissional. É quase como a exploração pu-
ção nunca é uma atividade completamente livre. A na- blicitária do clichê the shape of things to come na frase de
tureza da manipulação do gênero é realizar-se
abertura do seguinte comercial de automóvel:
invariavelmente dentro dos limites amplos dos gêne-
ros específicos e ser, freqüentemente, muito sutil. A
“The shape of cars to come: Mitsubishi Cordia.”
negligência explícita a essas convenções genéricas
implicará o abandono do gênero e será vista como es-
tranha pela comunidade especializada. Ou o uso da famosa afirmação sobre o império colo-
nial britânico no comercial da Lufthansa, the sun never sets
Tal é o poder do gênero, ao qual voltaremos nas últi- on Lufthansa territory, ou no seguinte slogan pela econo-
mas seções deste artigo. Contudo, neste estágio, gostaria de mia de energia, don’t be fuelish, em que a idéia de desperdí-
tratar das complexidades do mundo profissional e discutir cio de energia se perde completamente se não for associada
como a teoria de gêneros pode lidar com essa realidade. a “don´t be foolish”. O aspecto decisivo em tais associações
é que elas comunicam melhor no contexto do que já é fami-
III. MISTURA E IMBRICAÇÃO DE GÊNEROS liar. Em tais contextos, as palavras por si só não portam
significados; é a experiência que lhes confere o efeito dese-
No clima acadêmico e profissional competitivo de jado. Por conseguinte, no momento em que há um desvio
hoje, os gêneros raramente mantêm valores estáticos. Esses radical da experiência original, o efeito pode se perder. Mais
valores são cada vez mais explorados pelos profissionais uma vez, se não houver familiaridade com o original, o va-
experientes para criar gêneros mais híbridos, especialmente lor da inovação se enfraquece. Assim como o publicitário
como resultado da natureza fortemente compulsiva das ati- faz uso do já sabido e familiar no conhecimento existente, o
vidades promocionais e publicitárias. Não surpreende que escritor de gêneros hábil utiliza o que é convencionalmente

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disponível em uma comunidade discursiva para promover 1995). O seguinte exemplo de anúncio de emprego (ver abai-
seus próprios e sutis objetivos. A inovação, a criatividade e xo), por exemplo, apresenta dois valores genéricos diferen-
a exploração somente se tornam efetivas no contexto do já tes mas complementares.
disponível e familiar. Como Fowler diz, O trecho de abertura, de “A Scitex Corporation Ltda
é líder mundial...” até o fim do primeiro parágrafo, termi-
O escritor é convidado a combinar experiência e for- nando em “...pela comercialização e assistência ao cliente”,
ma em um modo específico mas indeterminado. Acei- representa uma introdução promocional (descrição e avalia-
tar o convite não resolve seus problemas de expres-
ção positiva) muito típica da literatura promocional. A grande
são... Mas lhe dá acesso a idéias formais sobre como
um conjunto de constituintes pode ser apropriadamen- maioria das cartas promocionais começa com tais abertu-
te combinado. (Fowler: 1982, p.31) ras, tentando estabelecer as credenciais da empresa. É ver-
dade que tais frases de abertura não são incomuns em anún-
De fato, a noção de criatividade é a própria essência cios de empregos; contudo, a questão nesse caso é mais o
da definição dos gêneros. Essa noção está claramente tamanho do movimento e não sua presença ou ausência.
implicada na definição de gênero de Swales (1990, p.58), Além disso, compare-se o espaço dedicado à descrição do
quando ele diz que “um gênero consiste em uma classe de emprego, que é o principal propósito comunicativo do anún-
eventos comunicativos, cujos membros compartilham um cio. Pode haver muitas explicações para a mistura desses
conjunto de propósitos comunicativos”. Bhatia (1993, p.13) dois valores genéricos tão intimamente relacionados. Uma
associa esse aspecto tático da construção do gênero a “uma boa razão para se enfatizar mais as credenciais da empresa
exploração inteligente das convenções genéricas pelos mem- do que a descrição do emprego pode ser que a empresa de-
bros experientes da comunidade profissional”, os quais com- seje atrair os candidatos capitalizando sobre sua própria re-
binam os propósitos comunicativos socialmente reconheci- putação. Outra razão pode ser que a empresa não queira
dos com suas intenções particulares. Seja qual for a revelar exigências específicas do emprego em questão, man-
explicação, os gêneros muito dificilmente servem a propó- tendo dessa forma todas as iniciativas sob seu inteiro con-
sitos únicos; eles apresentam um conjunto de propósitos, trole. Uma terceira razão poderia ser que a empresa, não
mas esse conjunto muito freqüentemente torna-se um misto tendo em mente uma especificação detalhada do emprego,
de propósitos complementares. Não será errado alegar que também não desejasse fazer um anúncio de apenas umas
esses mesmos propósitos apresentam “valores genéricos”, quatro linhas, o que poderia refletir negativamente sobre as
caso se possa identificá-los separadamente. Em um gênero credenciais da empresa. Seja qual for a razão, o caso é que
promocional, por exemplo, os valores genéricos “descrição” está havendo uma mistura de valores genéricos. Essa mistu-
e “avaliação” são usados como uma parte das muitas estraté- ra é feita de modo que o valor genérico promocional reforça
gias persuasivas para se alcançar o efeito promocional dese- o propósito comunicativo do anúncio de emprego.
jado. O uso da descrição em um gênero promocional
é um pouco diferente daquele que é central em uma ENGENHEIROS ELETRÔNICOS
resenha de livro. Em uma resenha, freqüentemente (4 VAGAS)
encontramos uma descrição mais equilibrada do li- A Scitex Corporation Ltda é líder mundial em sistemas de pré-impressos eletrônicos
vro (incorporando tanto os aspectos positivos como coloridos para os mercados de editoração gráfica, impressão e publicação. A Empresa
os negativos), enquanto no caso das sinopses possui uma ampla série de produtos que inclui leiautes criativos e sistemas de desenho,
digitalização de imagens, plataformas de trabalho para montagem e edição, provadores
promocionais de um livro, invariavelmente a descri-
digitais, editores de imagens e dispositivos de comunicação. As filiais regionais nos
ção e avaliação positiva do livro será utilizada para EUA, Europa, Japão e Hong Kong são responsáveis pela comercialização e assistência ao
se atingir o efeito persuasivo desejado. cliente.
Na publicidade, a descrição parcial e a ava-
Nossa filial em Hong Kong abriu 4 novas vagas para engenheiros de suporte eletrônico.
liação positiva do produto são sempre preferidas, Os candidatos desejados devem ser graduados em Engenharia Eletrônica ou Mecânica,
mesmo quando a lei exige do anunciante uma des- com a experiência mínima de 3 anos em Sistemas Eletrônicos de Alta Tecnologia.
crição equilibrada, como no caso da propaganda
de cigarros ou, mais recentemente, nos anúncios de Oferecemos ótima remuneração. Favor enviar curriculum vitae até o dia 15 de janeiro
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temente se encontram em letras pequenas advertên- Scitex Asia Pacific (H.K.) Ltd.
cias como “fumar cigarros é prejudicial à saúde” 8/F Park Avenue Tower, 5 Moroton Terrace
ou “os preços e rendimentos das ações podem tanto Causeway Bay, Hong Kong
descer como subir; o desempenho passado não é
garantia de retorno no futuro”. Kathpalia (1992), em detalhado estudo sobre os gê-
Os gêneros, nesse sentido, possuem uma tendência neros promocionais, resume bem a variação dos propósitos
natural à imbricação e à mistura, pelo fato de que a maioria comunicativos na publicidade e defende com ênfase o po-
dos gêneros apresenta mais de um valor genérico (ver Bhatia: der gerativo dos gêneros.

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... os variáveis propósitos comunicativos dos gêneros tro do gênero convencional da conversação. Depois, outro
promocionais, como aqueles em que o objetivo é pro- gênero convencional, a carta, é usada para solicitar mais
mover a empresa por trás do item anunciado, desper- informações. Esses dois gêneros estão imbricados dentro
tar a atenção de uma clientela potencial para o nome
do gênero convencional do anúncio publicitário, contendo
da empresa ou do produto... têm feito surgir
subcategorias como.. os falsos gêneros, que imitam o a identificação padronizada da empresa, seu logotipo e de-
formato de outros gêneros... esse procedimento mais detalhes. O objetivo é atrair a atenção do potencial
gerativo da criação ou desenvolvimento de gêneros é cliente através de estratégias diferentes do anúncios con-
mais popular em... publicidade, uma vez que os pu- vencionais.
blicitários estão constantemente competindo entre si Algumas vezes, os publicitários podem recorrer, em
por originalidade e inovação em um mercado inun- um anúncio, ao uso muito sutil e inteligente de chamadas
dado de marcas concorrentes de produtos e serviços
e de um número igualmente grande de anúncios pu- sugestivas a fim de “conduzir objetivos particulares” dentro
blicitários... (Kathpalia: 1992, p.394) do propósito comunicativo socialmente reconhecido de pro-
mover um produto ou serviço, como encontramos na seguinte
À semelhança da mistura de gêneros, como no exem- chamada para financiamentos habitacionais:
plo anterior, encontramos também, na publicidade, exem-
plos de imbricação de gêneros, fenômeno que tem sido re- “Flexibilidade incomum. Gerenciamento habitacional
ferido como falsos gêneros (Kathpalia: 1992), em que internacional do...”
encontramos dois ou mais padrões genéricos imbricados um
dentro do outro. Ilustro isso com o seguinte exemplo. A chamada pode parecer perfeitamente normal em
uma situação não marcada. Contudo, no
CONVERSA EM UM CAMPO DE GOLFE contexto local imediato, ela não é nem ino-
cente nem direta. O anúncio apareceu um
1º JOGADOR: Como foi sua viagem à Indonésia? dia após o governo de Hong Kong impor
2º JOGADOR: Ótima. Resolvi tudo... e joguei um pouco de golfe.
1º JOGADOR: Ouvi dizer que os negócios estão em alta, lá. controles mais rígidos sobre as instituições
2º JOGADOR: É, estamos muito otimistas sobre o futuro. Abriremos um escritório em financeiras hipotecárias, reduzindo os li-
Jacarta mês que vem. mites de financiamento de propriedades
1º JOGADOR: Então você está investindo muito lá?
2º JOGADOR: Bom, a empresa está. Minhas aplicações são mais líquidas. Prefiro particulares de 60 para 50 por cento no
aplicar em fundos de investimento. caso de apartamentos avaliados em mais
1º JOGADOR: Pensei que você tinha gostado da Indonésia. de 5 milhões. Em face disso, é perfeita-
2º JOGADOR: E gostei. Eu apl iquei no Fundo Barclays da Indonésia. Rendeu mais de
60% nos últimos três anos*. mente aceitável a estratégia convencional
1º JOGADOR: Muito bom. Você conhece alguém lá? de oferecer serviços que se adequassem
2º JOGADOR: Ligue para meu contato no Barclays, Sarah Robbins, pelo fone 826- às exigências individuais dos clientes;
1988, ou peça ajuda a seu consultor financeiro.
1º JOGADOR: Obrigado. Farei isso. A propósito, você acabou de bater na minha bola. contudo, a intenção oculta é dar aos clien-
tes inteligentes a pista sutil de que o ban-
* Fonte: Micropal, de 01/01/91 a 17/10/94
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -- - - - - -- - - -- - - - - ------------------ co em questão é de uma “flexibilidade
incomum”.
Prezada Sarah, Embora seja verdade que, de to-
Recentemente, ouvi falar do grande desempenho do Fundo Barclays da Indonésia. Por
favor, envie -me informações sobre como também posso beneficiar-me da experiência
dos os gêneros profissionais, os gêneros
da Barclays asiática, com a pequena importância de US$ 1,500. O número de meu promocionais, em particular os publicitá-
cartão de crédito segue anexo. Obrigado. rios, são os que exibem maior criatividade
HK na construção e no uso dos recursos ge-
IFA néricos, os demais gêneros podem ser
BARCLAYS
igualmente manipulados. Às vezes, esse
tipo de criatividade e variabilidade resul-
BARCLAYS
BARCLAYS INTERNATIONAL FUND MANAGERS
ta na inviabilização de tentativas de iden-
tificação do gênero. O caso dos gêneros
Level 16, Two Pacific Place, 88 Queensway, Hong Kong
Tel. 826 1988 Fax: 523 5128
introdutórios que freqüentemente se en-
contram nas páginas iniciais dos livros é
Lembre-se de que o valor das cotas e dos rendimentos pode tanto aumentar como diminuir. O desempenho
passado não indica necessariamente o desempenho futuro . interessante. Os termos “introdução”,
“prefácio”, “apresentação” e “agradeci-
mentos” são todos usados na indústria edi-
Pelo menos dois outros gêneros estão imbricados torial com um grau notável de flexibilidade, de modo que
dentro do gênero anúncio publicitário. A informação princi- até o melhor dos dicionários desistirá de distinguir precisa-
pal, sobre oportunidades de investimento, é conduzida den- mente entre os três primeiros, isto é, “introdução”, prefá-

108 Rev. de Letras - N0 . 23 - Vol. 1/2 - jan/dez. 2001


cio” e “apresentação”. Consideremos os seguintes exem- freqüentemente manipulados pelos membros experientes da
plos e vejamos como os praticantes os exploram em várias comunidade para refletirem a realidade em transformação
trocas e combinações. no mundo profissional.

INTRODUÇÃO IV. GÊNERO E AUTORIDADE

A análise do discurso investiga como recortes da lín- Nas seções anteriores deste artigo, afirmei que os
gua, considerados em seu contexto textual, social e gêneros derivam sua autoridade das convenções, que se ba-
psicológico integral, se tornam significativos e únicos
para seus usuários... [continua discutindo sobre a área, seiam na crença de que todas as formas discursivas, especial-
indicando sua importância para o ensino da língua] mente aquelas usadas em contextos institucionalizados, são
Este livro objetiva explicar a teoria da análise do socialmente determinadas. Como afirma Bruffee (1986,
discurso e demonstrar sua relevância prática para o p.777), há sempre uma espécie de “consenso ou concordân-
ensino/aprendizagem da língua. A Parte 1 examina... cia” entre os membros das comunidades disciplinares espe-
a Parte 2 explora... [continua descrevendo o conteúdo cíficas em estruturar o conhecimento através de formas
do livro]
discursivas específicas. Goodrich (1987) também explica
Gostaria de agradecer a várias pessoas por sua
amizade e ajuda... [a introdução termina com os agra- essa institucionalização de práticas discursivas em termos
decimentos] (Cook: 1989) de uma “autoria social”, por oposição à tradicional autoria
individual.
PREFÁCIO
O direito a um discurso é organizado e limitado por
Atualmente, pode-se dizer que o maior problema uma ampla variedade de meios, como papéis particu-
que enfrentam os que planejam programas de ensino lares, status, profissões e assim por diante.
de língua estrangeira e, ultimamente, os produtores Semelhantemente, a institucionalização do discurso
de material, no campo de Língua para Fins Específi- é limitada em termos de sua apropriação legítima e
cos, é como definir de forma válida a competência co- das situações restritivas de sua recepção – igreja, tri-
municativa desejada... [a introdução tenta estabele- bunal, escola, campanhas eleitorais, etc.
cer um nicho para o livro]
Na preparação deste livro, fui influenciado, em um
Foucault (1981) também vê a autoria social do dis-
macro-nível, pelos escritos sociolingüísticos de Dell
Hymes e Michael Halliday e, em um micro-nível, par- curso em termos do status institucional do falante e dos lu-
ticularmente, pela obra de Henry Widdowson, David gares institucionais a partir dos quais o falante autorizado
Wilkins... [a introdução termina com agradecimen- faz seu discurso e de onde o discurso recebe sua “fonte
tos] (Munby: 1978) legitimadora e ponto de aplicação”, quando diz:

APRESENTAÇÃO Quem está falando? A quem, dentre a totalidade dos


falantes individuais, é dado o direito de usar esse tipo
Este livro, baseado nas aulas dados no Curso Re- de linguagem? Quem está qualificado para tanto?
gular de Fonética da Universidade de Edimburgo, pre- Quem retira disso sua qualidade especial, seu prestí-
tende introduzir o assunto como tradicionalmente en- gio, e de quem, por outro lado, ele recebe, se não a
tendido na Inglaterra: trata... a fonética como parte da segurança, pelo menos a presunção de que o que diz
lingüística geral... [começa descrevendo positivamente é verdadeiro? Qual é o status dos indivíduos que –
e explicando a orientação teórica do livro] sozinhos – têm o direito, sancionado pela lei ou pela
Minha dívida com os grandes foneticistas da tradi- tradição, juridicamente definido ou espontaneamen-
ção de fala inglesa – Alexander Melville Bell, Alexander te aceito, de proferir tal discurso?
J. Ellis, Henry Sweet, Daniel Jones, Kenneth Lee Pike
– deve revelar-se quase em cada página. Devo agrade- Como outras formas de discurso, os gêneros são so-
cimentos especiais a... [a introdução termina com agra- cialmente construídos e, mais ainda, intimamente controla-
decimentos] (Abercrombie: 1967) dos pelas práticas sociais. Gêneros são o meio através do
qual os membros de comunidades profissionais ou acadê-
Os três exemplos, embora recebam nomes diferen- micas comunicam-se entre si. Os gêneros estão, como afir-
tes, mostram um grau notável de justaposição em conteúdo mam Berkenkotter e Huckin (1995),
e intenção comunicativa, uma vez que todos começam com
uma descrição positiva do livro, seguida dos agradecimen- ... intimamente ligados à metodologia de uma certa
tos do autor. Embora, como Swales (1990) afirma correta- disciplina, e conduzem a informação de modo a se
conformarem às normas, valores e ideologia da dis-
mente, os membros especializados das comunidades profis-
ciplina.
sionais nomeiem certas classes de eventos comunicativos
como gêneros, esses mesmos construtos genéricos são Da mesma forma, Myers (1995) assevera:

Rev. de Letras - N0 . 23 - Vol. 1/2 - jan/dez. 2001 109


As disciplinas são como culturas em que os membros critor “de autoridade” cria uma nova forma genérica
possuem crenças compartilhadas e assumidas como que, aparentemente, somente tem sucesso em estabele-
certas; essas crenças podem ser mutuamente incom- cer uma nova convenção genérica devido à autoridade
preensíveis de uma cultura para outra; são codifica- do escritor. (Kress: 1987, p.42)
das em uma língua; são incorporadas em práticas;
novos membros são admitidos através de rituais. Continua ele:
(Myers: 1995, p.5)
Os gêneros são construtos sociais, eles são como a
O consenso é alcançado e negociado por meio de cultura determina que sejam. Desafiar os gêneros,
práticas e diálogo profissional entre os membros instruídos portanto, é desafiar a cultura... (Dixon) e eu estamos
e praticantes de uma comunidade profissional. A interação numa posição em que podemos arriscar e talvez con-
e o diálogo possibilitam o consenso, por um lado, e têm um seguir isso. Todavia, parece-me inteiramente inade-
quado pedir que outros menos capacitados carreguem
efeito regulador ou limitador quanto ao que pode ou não ser
esse fardo... (Kress: 1987, p.44)
admitido no conjunto do conhecimento de uma comunida-
de, por outro lado. Como essas comunidades disciplinares realmente
Os gêneros, deste modo, são socialmente autoriza- mantêm o que temos chamado de integridade genérica em
dos por meio de convenções e inserem-se nas práticas suas práticas discursivas? Vejamos isso em algumas da co-
discursivas dos membros de culturas disciplinares específi- munidades profissionais mais familiares.
cas. Essas práticas discursivas, em grande parte, refletem
não somente as convenções utilizadas por comunidades dis-
IV.I. Mantendo a integridade genérica
ciplinares específicas, mas também convenções sociais, in-
cluindo mudanças sociais, instituições sociais e conhecimen-
Em algumas formas do discurso acadêmico, especial-
to social, os quais, de certo modo, podem ser vistos como
mente nos artigos de pesquisa, podem-se ver, geralmente,
contribuições significativas para o que a teoria de gêneros
dois tipos de mecanismos em ação para assegurar a integri-
chama de “conhecimento genérico”. Gêneros são produto
dade genérica: o processo de recensão entre pares e a inter-
de uma compreensão ou conhecimento prévio de conven-
venção editorial. Ambos os mecanismos, mesmo operando
ções genéricas. Essas convenções genéricas são responsá-
em diferentes níveis, são ativamente invocados para asse-
veis por regular os construtos genéricos, atribuindo-lhes o
gurar que todos os relatos de conhecimento novo confor-
que temos chamado de integridade genérica. Somente os
mem-se aos padrões de comportamento institucionalizado
membros da comunidade especializada que adquiriram o
que são esperados por uma comunidade de pares estabele-
direito de apropriar-se das formas genéricas têm o poder
cidos em uma disciplina específica. Embora possam variar
tanto de construir, interpretar e usar os recursos genéricos
os julgamentos individuais entre os membros de comunida-
como de explorá-los na criação de novas formas, misturar
des disciplinares específicas, muitas vezes se garante um
padrões genéricos e também controlar as respostas dos de
alto grau de consenso pela seleção, em um quadro bem de-
fora. Não há melhor ilustração do provérbio “conhecer é
finido de fronteiras disciplinares, de especialistas da mes-
poder” que essa do poder genérico. O poder de usar, inter-
ma linha de pensamento. Por exemplo, se examinarmos al-
pretar, explorar e inovar formas genéricas é uma função do
guns periódicos que regularmente publicam artigos sobre
conhecimento genérico a que somente têm acesso os mem-
análise do discurso, descobriremos que, embora todos pu-
bros legitimados das comunidades disciplinares.
bliquem artigos sobre vários aspectos do discurso, eles pos-
Embora a boa compreensão do conhecimento gené-
suem comissões editoriais muito diferentes, que examinam
rico seja pré-requisito para qualquer manipulação dos re-
reivindicações de relatos de conhecimento para inclusão nas
cursos genéricos, ela de modo algum é suficiente para que
respectivas revistas. Caso encontremos nomes como Cazden,
tais inovações e explorações sejam aceitas pela comunida-
Geertz, Goffman, Gumperz, Hymes, Milroy, Saville-Troike,
de disciplinar. Kress (1987) menciona dois importantes cri-
Scollon, Tannen ou Zimmerman no comitê editorial de uma
térios pelos quais as inovações genéricas são aceitas: se elas
são apoiadas ou por uma situação social estável ou por uma revista, podemos seguramente apostar que eles dificilmente
aceitarão artigos sem uma orientação sociolingüística sobre
autoridade.
o discurso. Artigos que tratem de outros aspectos do discur-
A menos... que haja uma mudanças nas estruturas so- so provavelmente serão desencorajados ou mesmo rejeita-
ciais – e no tipo de situações sociais em que os textos dos. Por outro lado, se encontramos nomes como Ackerman,
são produzidos – as novas formas genéricas dificilmente Bazerman, Berkenkotter, Comprone, Doheny-Farina,
terão sucesso. É por isso que inovações infantis falham; Huckin, Linda Flower, Miller ou Odell, podemos esperar
não porque não sejam soluções perfeitamente plausí- que artigos com uma forte orientação retórica serão bem
veis para problemas textuais/cognitivos, mas porque
não são apoiados nem por uma situação social estável vindos. Semelhantemente, diante de nomes como Carter,
nem por uma “autoridade”. Neste último caso, um es- Christie, Halliday, Hasan, Kress, Martin e Rothery, chega-

110 Rev. de Letras - N0 . 23 - Vol. 1/2 - jan/dez. 2001


remos à inevitável conclusão de que a revista favorecerá comum nos contextos legislativos de muitas democracias oci-
uma orientação mais sistêmica para o discurso. dentais é vista como uma imposição de fora e tem sido firme-
Depois da recensão entre pares, a segunda interven- mente rejeitada pela comunidade legislativa profissional. Para
ção mais importante vem dos editores, que desfrutam de tratar do contexto em que as leis são redigidas, interpretadas e
todo o poder imaginável para manter a identidade e a inte- usadas, precisamos adotar uma perspectiva etnometodológica
gridade do gênero artigo de pesquisa. Berkenkotter e Huckin e enfocar o gênero em seus próprios termos.
(1995) registram um estudo profundo e fascinante deste tipo O principal propósito da legislação, como demons-
de controle editorial na manutenção da integridade genéri- tra Bhatia (1993), é reger o comportamento social de indi-
ca. Esses autores afirmam que a “atividade textual” é tão víduos e instituições através do uso de regras e normas. A
importante para a construção e disseminação do conheci- fim de manter firme o controle nas mãos do poder legislativo,
mento quanto a “atividade científica”. e não do judiciário, em uma democracia parlamentar, os atos
A importância da disseminação do conhecimento como constitutivos são escritos não somente de forma clara, pre-
algo distinto de sua criação também recebe destaque pela cisa e sem ambigüidades, mas também de forma toda inclu-
importância dada, em publicações acadêmicas, à descrição siva. Esse rigor e a adequada delimitação do alcance na le-
de pesquisas anteriores. Para se obter aceitação pelos colegas gislação permite à legislatura controlar uma interpretação
pesquisadores da comunidade especializada, deve-se relacio- totalmente subjetiva e idiossincrática dos códigos legais.
nar o conhecimento alegado com o conhecimento acumulado Essa preocupação por parte da comunidade redatora sem-
naquela disciplina, sem o que dificilmente se terá a própria pre foi de grande importância. Todas as demais preocupa-
contribuição à área reconhecida e publicada. Nesse contexto,
ções, especialmente as relacionadas com a facilidade de
não surpreende que a revisão da literatura ocupe um lugar de
compreensão, têm desempenhado um papel secundário na
importância no repertório de habilidades do pesquisador na
construção desse gênero. Conseqüentemente, várias tentati-
maioria das disciplinas acadêmicas. Referindo-se à impor-
vas de reforma da linguagem legal, inclusive por parte da cam-
tância da citação no trabalho de pesquisa científica,
panha pelo inglês comum (veja Thomas: 1985; Eagleson:
Amsterdamska e Leydesdorff (1989) afirmam:
1988; Kelly: 1988), têm alcançado, em sua maior parte, um
No artigo científico “o novo encontra o velho” pela sucesso muito limitado, pelo simples fato de que são vistas
primeira vez. Esse encontro tem um duplo significa- como transgressões da integridade genérica de toda a tradi-
do, uma vez que os artigos não só justificam o novo ção do processo legislativo. Embora o movimento pelo in-
demonstrando que o resultado é assegurado por ex- glês claro tenha sido bem sucedido em influenciar a reescritura
perimentação, observação ou teorização prévia, mas de documentos administrativos e comerciais em geral (inclu-
também situam e integram as inovações no contexto
do conhecimento “velho” e aceito... As referências indo apólices de seguro, contratos de aluguel residencial, de-
que aparecem no texto são a maneira mais explícita clarações do imposto de renda, solicitações de benefícios so-
de retratar os argumentos apresentados no artigo em ciais e outros, possibilitando maior acessibilidade e
relação com outros textos e também, por conseqüên- praticidade a uma ampla parcela da sociedade), no que diz
cia, com um tipo específico de conhecimento. respeito às cláusulas legais, tem sido incapaz de flexibilizar
(Amsterdamska e Leydesdorff: 1989, p.451) significativamente a atitude dos legisladores em muitos paí-
ses da comunidade britânica. O argumento para a preserva-
IV.II. Mantendo a solidariedade dentro de uma ção das características genéricas do discurso legal é que o
comunidade profissional verdadeiro poder legislativo, em todas as democracias parla-
mentares, deve permanecer com os legisladores, e não com o
Uma das características mais notáveis de qualquer judiciário. Essa é uma das importantes razões por que clare-
comunidade discursiva acadêmica ou profissional é a dis- za, precisão, não-ambigüidade e caráter inclusivo são valores
ponibilidade e o uso típico de uma série de gêneros apropria- tão altamente cultivados no discurso legislativo britânico, o
dos, que os membros pensam servir aos objetivos daquela que confere aos propósitos legislativos um grau relativamen-
comunidade. O uso recorrente de tais formas discursivas cria te elevado de transparência.
solidariedade entre os membros, conferindo-lhes sua arma Embora, como Fairclough (1992, p.221) ressalta, a cres-
mais poderosa para manter os estranhos a uma distância se- cente pressão pela “democratização” das práticas
gura. Hudson (1979) corretamente argumenta:
discursivas em diversos outros contextos profissionais este-
ja intensificando e levando a uma “fragmentação das nor-
Se alguém quisesse matar uma profissão, destruir
sua união e sua força, a maneira mais eficaz seria mas e convenções discursivas”, uma pressão semelhante para
proibir o uso de sua linguagem característica. que se redijam leis em inglês comum tem sido consistente-
(Hudson: 1979, p.1) mente, e com muito sucesso, rejeitada pela comunidade
legislativa de forma quase global. Os lobbies reformistas
Diante disso, não surpreende que a maioria das tentati- em muitos países, especialmente nos Estados Unidos, estão
vas, por poderosos lobbies reformistas, de introduzir o inglês se tornando extremamente agressivos, mas é pouco prová-

Rev. de Letras - N0 . 23 - Vol. 1/2 - jan/dez. 2001 111


vel que consigam reduzir significativamente a chamada inte- estava testemunhando para a promotoria. Agora, ela
gridade dos gêneros legislativos, pelo menos em um futuro está sendo interrogada pela defesa:
próximo. A comunidade legal tem sido bem sucedida em re-
Advogado de defesa: Poderia dizer à corte e aos
sistir a qualquer tentativa por parte de estranhos no sentido
jurados qual era a profis-
de minar a integridade genérica de algumas de suas formas são de seu marido?
discursivas mais prestigiadas. Obviamente, os membros da
comunidade legal valorizam suas práticas discursivas e as Esposa: Ele era um assaltante.
usam para manter a solidariedade dentro da comunidade.
Isso deu suporte à alegação, por parte da defesa, de in-
tenção criminosa e garantiu a absolvição do policial.
IV.I. Acesso privilegiado a práticas discursivas
Se a esposa estivesse pelo menos um pouco mais
Se, por um lado, as convenções genéricas dão ex-
familiarizada com as convenções do depoimento em tribu-
pressão apropriada às intenções comunicativas dos escrito-
nal, o trabalho do advogado de defesa não teria se tornado
res de gêneros (que são membros de uma dada comunidade
tão fácil.
discursiva), por outro lado, estes também adequam suas in-
Outro exemplo do uso de conhecimento interno para
tenções às expectativas dos leitores a que se dirigem. Isso
se ter acesso à informação pode ser ilustrado pela seguinte
somente é possível quando todos os participantes comparti-
chamada publicitária do “Schroder Singapore Trust”:
lham não só o código mas também o conhecimento do gê-
nero, o que inclui conhecer sua construção, interpretação e “O Schroder Singapore Trust cresceu mais de 60%
uso. Uma implicação necessária desse conhecimento com- em 3 anos”
partilhado do gênero é que este normalmente não é acessí-
vel a estranhos, o que cria uma espécie de distância social Essa informação pode ser extremamente enganosa, a
entre os membros legítimos da comunidade discursiva e não ser para quem está bem consciente das práticas
aqueles que são considerados como estranhos. Embora o discursivas da comunidade profissional dos agentes finan-
conhecimento compartilhado crie condições de ceiros. Quem quer que tente entender a afirmação deve sa-
homogeneidade para os de dentro, ao mesmo tempo intensi- ber que esse crescimento de 60% em três anos, em seu valor
fica a distância social entre estes e os de fora, resultando, nominal, pode ser no mínimo enganador. Embora o anúncio
algumas vezes, em conseqüências desastrosas para quem não inclua a costumeira ressalva regulamentar em forma de nota
tem acesso a ele. Esse conhecimento pode residir na forma em letras miúdas dizendo que “o desempenho anterior não
dos recursos lingüísticos utilizados para construir um gêne- indica necessariamente a performance futura, o preço das
ro; ou na percepção das regras de uso da linguagem, algu- cotas tanto pode subir como descer, e não pode ser garanti-
mas das quais são socialmente aprendidas, como aquelas do”, um leigo ainda pode ser levado a pensar que seu inves-
associadas ao discurso de sala de aula ou outros gêneros timento provavelmente lhe dará um retorno de aproximada-
acadêmicos, enquanto outras podem ser legalmente refor- mente 60%. Por outro lado, o fato é que o valor das cotas
çadas, tal como aquelas relacionadas a procedimentos fo- pode ter caído 100% por volta do último ano, e ainda pode
renses. O tribunal é um contexto altamente formal em que a estar, à época do anúncio, indicando uma tendência de que-
aplicação da justiça depende essencialmente da contribui- da. Há várias outras perspectivas possíveis, só acessíveis
ção dada pelas testemunhas; no entanto, todas as formas de àqueles que possuem o conhecimento interior do modo como
comportamento, inclusive quem diz o quê, estratégias de esses gêneros funcionam, e não a estranhos.
perguntas e respostas dos participantes e mesmo o conteúdo Se, por um lado, o poder do gênero pode ser visto
das perguntas e respostas, são estritamente controladas pe- como uma força legítima freqüentemente usada para manter
las regras do jogo, as quais a maioria das testemunhas ordi- a solidariedade dentro de uma comunidade disciplinar, por
nariamente desconhece. Muito poucas testemunhas detêm outro lado, essa força pode ser usada para manter os estra-
qualquer conhecimento sobre como sua contribuição é re- nhos a uma distância respeitável. Por um lado, ela capacita
cebida, interpretada e usada pelos jogadores autorizados. uns, os membros da comunidade, enquanto ao mesmo tem-
Allen e Guy (1989) (citando uma comunicação pessoal de po silencia a outros, especialmente os estranhos.
Worthington: 1984) relatam um excelente exemplo dessa
falta de conhecimento compartilhado em uma audiência de IV.IV. A função censora das comunidades
tribunal:
discursivas
Um policial, em seu dia de folga, baleou e matou um
intruso dentro de uma loja. O inquérito descobriu um
jogo de ferramentas de arrombamento nos fundos da Berkenkotter e Huckin (1995), em seu estudo sobre a
loja. O promotor tentava provar que não havia base admissão em uma congresso acadêmico, apresentam um in-
para presumir intenções criminosas, e que tinha havi- teressante exemplo da força do controle genérico em con-
do um assassinato a sangue frio. A esposa da vítima textos bem definidos. Com base na análise de resumos sub-

112 Rev. de Letras - N0 . 23 - Vol. 1/2 - jan/dez. 2001


metidos à Conferência sobre Comunicação e Redação Uni- dos na academia, o poder de controlar e manter os padrões
versitária (CCRU), os autores afirmam que “os resumos bem genéricos pode ser, e muitas vezes é, atribuído à comunida-
avaliados... abordavam tópicos de interesse corrente entre de dominante, que sem dúvida trata-se da comunidade oci-
os membros ativos e experientes da comunidade retórica e dental. O que quer que pareça diferente das normas
de produção de textos”, “eram considerados inovadores estabelecidas pela comunidade dominante será visto como
pelos membros experientes” e geralmente “mostravam mui- deficiente e necessitado de correção.
to do ethos de um membro [da comunidade]”. Baseados em Em algumas áreas, os escritores de gêneros têm se
seu estudo dos resumos da CCRU, nos quatro anos entre tornado cada vez mais sensíveis ao conhecimento local e
1988 e 1992, os autores descobriram dois níveis principais têm começado a construir, interpretar e usar os gêneros em
de censura: formas que evidenciam tal sensibilidade, especialmente no
caso da publicidade e de alguns outros gêneros comerciais,
(a) a crítica externa e (b) o diretor do programa. Te- em que tem se tornado uma prática habitual o desenvolvi-
mos observado muitos casos em que os analistas atri- mento de equipes locais para atuar ao lado dos estrangeiros
buíram o conceito Excelente a um resumo e mesmo na maioria da empresas multinacionais de publicidade. Tam-
assim ele não foi incluído no programa.
bém não é difícil de entender a razão de tal sensibilidade.
Presumivelmente, o diretor discordou do julgamento
dos analistas... Em síntese, todo congresso leva a No caso dos gêneros acadêmicos, especialmente na publi-
marca de seu censor principal. (Berkenkotter e cação de pesquisas, as políticas ainda são controladas pelos
Huckin: 1995, p.115) detentores do poder. Boa parte do discurso acadêmico ain-
da não consegue reconhecer as fontes de variedades,
Mais adiante, os mesmos autores afirmam que especialmente aquelas da marginalidade e da exclusão, dando
a impressão de que não há, ou não deveria haver, qualquer
Em um caso particularmente infeliz, um resumo muito variação no modo como os gêneros são construídos, inter-
interessante foi submetido à área de Comunicação Téc- pretados e usados.
nica certo ano, quando recebeu o conceito Excelente
do revisor e do diretor do programa, mas não foi incluí-
do no programa (presumivelmente porque “não se en- VI. IMPLICAÇÕES PARAO ENSINO DALÍNGUA
caixava”). Foi levemente revisado e novamente sub-
metido, no ano seguinte, à área de Análise do Discurso. Quais são as implicações de tudo isso para o ensino
Outra vez recebeu conceito Excelente mas não foi in- da língua? A análise aplicada de gêneros, ao contrário de
cluído no programa. A autora desse resumo prova- muitas outras estruturas analíticas, não é estática nem
velmente nunca soube que tinha produzido um resumo prescritiva. Potencialmente, ela dinâmica e descritiva. Cabe
excepcional. Tudo que ela deve ter ficado sabendo foi
que seu ensaio tinha sido rejeitado pelo programa. ao professor de línguas usá-la do modo que desejar, ou para
(Berkenkotter e Huckin: 1995, p.115). uma exploração inovadora dos recursos genéricos ou para
uma exposição limitada dos contextos genéricos padroniza-
V. HEGEMONIA E INGLÊS MUNDIAL dos. Embora seja essencial para o aluno a familiaridade com
as convenções genéricas especificamente associadas a um
Outro aspecto importante do controle genérico surge contexto profissional particular, não é necessário nem dese-
da questão da atitude hegemônica na manutenção dos pa- jável restringir a experiência do comportamento lingüístico
drões genéricos, que em grande parte do discurso e dos es- apenas aos aspectos convencionais e padronizados da cons-
tudos de gênero contemporâneos são essencialmente domi- trução e uso dos gêneros.
nados e até determinados por convenções ocidentais. Como é possível usar de criatividade no ensino/apren-
Conquanto seja verdade que o inglês é a língua global do- dizagem da língua baseado em gêneros? Uma vez que a aná-
minante e amplamente utilizada tanto para fins acadêmicos lise de gêneros fornece uma descrição sólida do comporta-
como profissionais, ele não é mais propriedade exclusiva mento lingüístico em contextos profissionais, é possível
de qualquer comunidade nacional, seja ela britânica, ameri- introduzir uma boa dose de criatividade no ensino da lín-
cana, australiana ou qualquer outra. À semelhança do gua, adaptando os propósitos comunicativos, a natureza da
críquete, também a língua inglesa se tornou mais universal participação em um dado contexto comunicativo, a relação
não só em seu uso como em seu caráter. Considerando-se a social e profissional entre os participantes de um exercício
atual realidade da variação no inglês, torna-se necessário de construção de gênero qualquer e, acima de tudo, apre-
pensar em termos das línguas inglesas do mundo, e não na sentando a variabilidade no uso de estratégias genéricas para
língua inglesa como uma única variedade monolítica do in- o alcance de propósitos comunicativos similares.
glês. Essa variação no uso do inglês ao redor do mundo tem Devo dizer que há duas escolas de pensamento: os
alcançado um crescente reconhecimento por parte da litera- que crêem no ensino explícito de gêneros, especialmente
tura sociolingüística nos últimos dez anos mais ou menos. regularidades de forma textual e tipificação, e outros que
No entanto, em alguns dos gêneros, em especial aqueles usa- consideram isso muito limitador e defendem a livre expres-

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são. Contudo, a verdade está em algum ponto intermediário. AMSTERDAMSKA O., LEYDESDORFF, L. (1989).
Todos os gêneros, primários ou secundários, envolvem re- Citations: indicators of significance?, Scientometrics, 15:
gularidades e, portanto, essas regularidades devem ser apren- 449-471.
didas por qualquer um que alimente a mínima ambição de BAKHTIN, M. The problem of speech genres. In: EMER-
participar de uma comunidade disciplinar especializada. Como SON, C., HOLQUIST, M., eds. Speech genres and other
afirma Bakhtin (1986, p.80), “os gêneros devem ser perfeita- late essays. Austin: University of Texas Press, 1986, p.
mente dominados, para serem usados criativamente”.1 No 60-102.
entanto, para fazer disso uma realidade, o primeiro pré-re-
BAZERMAN, C. Prefácio a BLYLER, N. R., THRALLS,
quisito é estar consciente do conhecimento convencional
C., eds. Professional comunication: the social
situado dentro de um gênero disciplinar específico ou den- perspective. London: SAGE Publications, 1993, p. VII-
tro de um “sistema de gêneros”. VIII.
Bazerman (1993) tenta resolver essa tensão entre a
expressão institucionalizada e a expressão individual quan- BERKENKOTTER, C., HUCKIN, T. N. (1995). Genre
knowledge in disciplinary communication: cognition,
do afirma:
culture, power. New Jersey: Lawrence Erlbaum
... o indivíduo aprende a expressar a si mesmo em Associates.
face a uma sociedade compulsiva... não somos nós BHATIA, V. K. Applied discourse analysis of English
mesmos porque nos posicionamos separados uns dos legislative writing. A language studies unit research
outros. Tornamo-nos nós mesmos quando nos perce- report. Birmingham: University of Aston, 1983.
bemos na relação com os outros. Social é tudo que
fazemos uns com os outros e o que nos tornamos por _____. Analysing genre: language use in professional
assim fazê-lo. Individualizamo-nos ao nos identificar- settings. London: Longman, 1993.
mos dentro de um panorama social, um panorama que _____. Generic integrity in professional discourse. In:
se dá a conhecer à medida que interagimos com ele.
GUNNARSSON, B. L., LINEL, P., NORDBERG, B.,
Descobrimo-nos e criamo-nos a nós mesmos e aos
outros por meio do que fazemos uns com outros. eds. Text and talk in professional contexts. Uppsala:
(Bazerman: 1993, p.viii) ASLA’s skriftsrie, 6, 1994.
_____. Genre-mixing in professional communication: the
Há pelo menos três coisas que se destacam claramente case of “private intentions” v. “socially recognised
da discussão precedente. Primeiro, os estudantes da língua purposes”. In: BRUTHIAUX, P. BOSWOOD, T,
devem ter consciência dos diálogos na comunidade disci- BERTHA, B., eds. Explorations in English for
plinar da qual aspiram se tornar membros, que podem se professional communication. Hong Kong: City
realizar através de “participação centrípeta no currículo de University of Hong Kong.
aprendizagem da comunidade ambiente” (Lave e Wenger: BRIGHT, W. The view from the editor’s desk: 30 years of
1991, p.100). Segundo, a aquisição do conhecimento de gê- American Linguistics. A talk given at the City University
nero, que leva a uma compreensão da integridade genérica, of Hong Kong, 1996.
é necessária mas não suficiente para qualquer exploração
BRUFFEE, K. A. Social construction, Language and the
ou manipulação subseqüentes das convenções genéricas.
authority of knowledge: a bibliographical essay, College
Finalmente, o conhecimento de gêneros deve ser visto pre-
Composition, 48: 730-790, dez. 1986.
ferencialmente como um recurso para a exploração das con-
venções genéricas, a fim de responder a situações retóricas CANDLIN, C. N. Prefácio a BHATIA, V. K. Analysing
recorrentes, ou nem tão recorrentes, e não como um esque- genre: language use in professional settings. London:
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1 Na versão em português, o texto de Bakhtin diz: “... para usá-los livremente, é preciso um bom domínio dos gêneros” (BAKHTIN, M. M. Estética
da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 303.) [N. do T.]

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