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ÍNDICE:

Índice e Editorial pág 2


Notícias pág 3
Renova oscari pág 4
Microtubifex pág 5
Simpsonichthys magnificus pág 7
Traquitanas úteis pág 12
Parasitologia pág 14
Viagem ao Rio Negro pág 15
Rivulus janeiroensis pág 22
Agradecimentos e Links pág 24

EDITORIAL
O fim do ano se aproxima e com ele a última edição do boletim deste ano. Aproveitamos este espaço para
fazermos um “balanço de final de ano”, afinal é hora de nos preparamos para a chegada de 2006!!
Concluímos que 2005 foi um ano especial para a Killifilia Brasileira. Um ano onde crescemos, conquistamos
mais espaço e, dentre tantas notícias boas, destacamos aqui o nascimento de nosso Fórum, exclusivo e reformulado. O
grande aumento de entusiastas, popularmente chamados por nós como “Killiloucos”! Temos sangue novo! gente dedi-
cada e disposta a trilhar o mesmo caminho dos mais antigos. Além disso, temos mais gente nossa equipe de edição
do boletim: Gilson Gil e Ricardo Fachin, grandes criadores com mais de 20 anos de experiência; contamos também
com Gustavo Grandjean representando a nova geração. Encontros regionais. Visita ao Brasil dos ilustres Alberto Reis,
presidente da APK, e de Didier Pillet, aquarista francês. Descrição de uma nova espécie cujo nome é – Simpsonichthys
nielseni – em homenagem a Dalton Nielsen, grande incentivador da killifilia nacional e, finalmente, o reconhecimento
internacional do nosso boletim.
Enfim, nossa equipe cresceu e continua tendo como único objetivo levar para vocês “Killiloucos” mais infor-
mação sobre nossos amados killis.
Nesta edição, temos algumas matérias imperdíveis, como a Viagem ao Rio Negro do nosso amigo Fábio
Origuela, e uma excelente matéria, muito bem ilustrada, sobre a Simpsonichthys Magnificus, escrita por Rogério Su-
zart.
Se olharmos para trás e perguntarmos: “Valeu a pena ? ”- Parafraseando Fernando Pessoa, poeta português,
a responda é uma só.: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” e, neste grupo, sabemos que todos têm uma alma
imensa e como não poderia deixar de ser diferente, desejamos aos amigos “killiloucos”: Rogério Suzart, Alex Ribeiro,
Márcio Alexandre, Bruno Graffino, Edson Lopes, Fábio Origuela, André Carletto, Dalton Nielsen, Adriano Fêlix, Grande-
jean, Gilson Gil, Ricardo(cachorão), Danilo Fava, Acchile, Fábio Menozzi, João Carlos Wallwit, Bisconsini, Alexandre
Paixão, Carlos Eduardo Kamimura, Marcelo Orrico, Malmeida, Marcos Grijó, Bruna, Zezinho, Motar Solitário, Anne,
Westlynx, Carlos Santos, Fabrício Oliveira, Roberto Tino, Lê Avari, Breno Ângelo, Delgado, Hazorfish, Marcel, Daniel
Fucuoka, Samuel Neto, Frediny, Irineu, Leandro, Walter Sant’ana, LucauM, Edu Simões, Fernando VCCP, Mayler,
Jaime, Guto(UFPE), Carlos Dias, Vinicius Killi, Jon, Rubinho, Paulo Tosador, Henrique Anatole, Ransés II, Rodrigo
Rios, Maiko, Bruno,Adrialgape, Vanessa Santos, Paulo Correa Neto, Henrique Motta, Naysel, José Pedro, Alexandre
Carniele, Super Leo, Isa, Thiago, Neto Fortes, Pedro Santaella, Luís Santos, Guilherme killi, Marcos Zorattini, Jianyang,
Ruben Isidoro, Loumar, Daniel Duarte, Carlos Barreto, Gerardo kid, Rui Polari, Amanda Mendes e a tantos outros killil-
oucos e amigos por este Brasil e mundo afora nosso muito obrigado e nosso desejo de um feliz Natal e um 2006 repleto
de novas conquistas, novas amizades e o desejo de que nossos ideais fraternos e ecológicos se perpetuem Uma boa
leitura e que os bons ventos continuem soprando em nós!

Francisco Falcon, Nilo Mendes e Equipe Killifish Brasil

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NOTÍCIAS
PRESIDENTE DA APK EM VISITA AO BRASIL.
No último mês de agosto tivemos os prazer de receber
em nossa terra a visita do Dr. Alberto Reis, presidente da APK
(Associação Portuguesa de Killifilia), que esteve na residência do
Francisco Falcon (foto ao lado) e visitou com ele alguns biótopos
no Estado do RJ.

Foto: Alberto Reis, Fabiano Leal, Bruno Graffino e Francisco Falcon

NOVA ESPÉCIE DESCRITA: Simpsonichthys nielseni

Recentemente descrita pelo Dr.Wilson Costa, leva o nome em homenagem ao seu descobridor Dalton
Nielsen. Encontrada em Pirapora-MG, pensava-se tratar de uma população de S.rufus, conforme citada
(e aproveitando para fazer a correção) na matéria “Viagem ao Cerrado Mineiro” do boletim nº7, pertence
ao mesmo grupo das S.notatus, S.stellatus, S.trilineatus, S.auratus, S.rufus, S.similis e S.radiosus.

Colaboraram nesta edição:


Rogério Suzart - rrsuzart@yahoo.com.br
Fábio Origuela - maratecoaralacortei@yahoo.com.br
Adriano Félix - felixpacher@ig.com.br
Gustavo Grandjean - grandjean@gmail.com
Francisco Falcon - falcon@killifishbrasil.com.br
Adriano Gonçalves - agon73@yahoo.com.br

Equipe KILLIFISH BRASIL:


Administradores do Fórum Killifish Brasil Colaboradores dos Boletins:
Francisco Falcon
Rogério Suzart Adriano Félix
Alex Ribeiro
Moderadores do Forum Killifish Brasil: Bruno Graffino
Adriano Félix Dalton Nielsen
Alex Ribeiro Edson Marques Lopes
Bruno Graffino Fábio Origuela
Fábio Origuela Francisco Falcon
Francisco Falcon Gilson Gil
Márcio Alexandre Gustavo Grandjean
Nilo Mendes Márcio Alexandre
Rogério Suzart Nilo Mendes
Ricardo Fachin
Biólogos consultores: Rogério Suzart
André Carletto
André De Luca Layout do Site e Boletim
Bruno Graffino
Dalton Nielsen Francisco Falcon

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Renova oscari Família: Rivulidae
Subfamília: Rivulinae
Belo mergulhador Venezuelano. Gênero e espécie: Renova oscari

Trata-se de uma bela espécie, recentemente


introduzida na Killifilia. Foi descoberta por
volta de 1990 - por Oscar Leon Mata e
descrita em 1995 pelo Icthyological Journal
of Freshwater Fishes, embora já estivesse
no hobby há um pouco mais de tempo sob
o nome de Moema sp. “Isla Raton” RDB
92/22, sendo todos os peixes coletados até
por Francisco Falcon hoje provenientes de poças temporárias de
foto: Danilo Fava até 1 metro de profundidade em planícies

de floresta primária em Isla Raton, Ilha localizada no Alto Orinoco, entre a Colômbia e Venezuela, sendo
que nessas mesmas poças se encontram vivendo em simpatria com Micromoema Xiphophora e Terranatos
dolichopterus e, ocasionalmente, encontram-se também Fluviphylax obscurum e alguns Rivulus.

Descrição

São peixes relativamente grandes, chegando os machos a medirem 10cm e apresentando corpo azul
esverdeado, com cinco a sete listras horizontais vermelhas, que se iniciam mais ou menos na altura das
pélvicas - que são bem pequenas nesta espécie - e se prolongam o pedúnculo caudal. A borda inferior da
caudal (que possui os raios mais longos) é de cor laranja intenso, colada com uma das listras vermelhas,
a única que se prolonga até a ponta da cauda. Possui pontos vermelhos (da mesma cor das listras) nas
nadadeiras dorsal, anal, pélvicas e peitorais. As fêmeas se assemelham a um Rivulus – pardacentas com
um ocelo preto na parte superior do pedúnculo caudal (embora já tenham encontrado fêmeas sem o ocelo)

Manutenção

Na natureza vivem em poças de águas ácidas (pH 6,5) com temperatura na faixa dos 26ºC. São peixes
de apetite voraz, que têm preferência por comida viva, (como enquitréias, tubifex, larvas de mosquitos,
artêmias, branchonetas, etc...) embora possam ser habituados a comerem alimento industrializado (como
p.ex. comida granulada), Mas o ideal é que prevaleça a alimentação viva em sua dieta.

Comportamento e Reprodução

Os machos são agressivos entre si e devem sempre estar em aquários espaçosos, pois costumam perseguir
muito as fêmeas durante a corte, quando o macho exibe suas nadadeiras estendidas e nada ao lado da
fêmea como que a convidando. A fêmea geralmente então toma iniciativa e mergulha no substrato, sendo
seguida pelo macho que, às vezes, ainda fica de fora olhando a fêmea mergulhada de ponta-cabeça
no substrato, até que ele mergulha ao lado dela, quando ocorre a desova/fecundação que dura alguns
segundos. A fêmea então emerge primeiro, indo em direção à superfície, sendo seguida pelo macho e o
ritual então se repete. Por causa disso, é necessário utilizarmos uma camada bem alta de substrato - de
maneira que o peixe possa se enterrar por completo na vertical,

Os ovos são pequenos, de cor âmbar, medindo cerca de 1,25mm e, portanto, difíceis de serem vistos no
substrato. O período de diapausa varia entre 4 a 6 meses sob uma temperatura média de 25ºC, embora já
tenham ocorrido casos em que a diapausa durou menos ou (na maioria das vezes) bem mais. Segundo
o Dr. Roger Brousseau, já lhe ocorreu de ovos ficarem “claros” por 10 meses sob temperatura de 20ºC e
só terem embrionado após serem submetidos à temperatura de 28ºC, ficando “prontos” em 4 semanas
– Recomenda-se fazer uma checagem mensal dos ovos para sabermos a hora certa de molhar.

Os alevinos nascem relativamente grandes e já podem se alimentar de microvermes e náuplios de


artêmia recém eclodidos. Crescem rapidamente e, no máximo, dois meses já estão reproduzindo

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MICROTUBIFEX
Mais um alimento vivo para a Aquariofilia
por Adriano S. Felix
Há alguns anos, acidentalmente, encontrei anelídeos muito peculiares em uma cultura de daphnias.
Pareciam minúsculos tubifex e se localizavam nas bordas do recipiente na superfície da água em pequenos
aglomerados. De coloração vermelha e tamanho em média de 1,5 cm, pareciam ser interessante opção
alimentar para peixes ornamentais. Após coletá-los do recipiente das daphnias, forneci para os peixes
de um aquário comunitário, os quais rapidamente atacaram os anelídeos. Para a minha surpresa, um
outro comportamento típico foi notado no momento em que introduzi o novo petisco no aquário: tendem
a se soltar do “novelo” que formam e nadam freneticamente agitando o corpo na água. Apelidei-os de
microtubifex em razão de seu tamanho diminuto e de serem coletados de maneira parecida com a utilizada
na cultura de microvermes - passando o dedo ou palito de sorvete nas bordas do recipiente da cultura.

Recentemente, visitando a homepage www.aquabid.com , descobri que os “microtubifex” não são


novidade, tal qual achava. Existe um anúncio, pelo menos até o momento em que estou escrevendo estas
linhas, vendendo uma cultura denominada “microfex worms”:

http://www.aquabid.com/cgi-bin/auction/auction.cgi?foodl&1131837901

E pela foto ampliada no anúncio, são muito semelhantes aos anelídeos que encontrei em meus
tanques. Lá fui eu fuçar nas ferramentas de busca na net. Encontrei poucas informações, devido ao escasso
número de pessoas que criam este anelídeo. As informações mais interessantes encontrei nos links:

http://fins.actwin.com/killietalk/month.200507/msg00466.html

http://fins.actwin.com/killietalk/month.200507/msg00484.html

http://www.micrographia.com/specbiol/helmint/annelhom/olig0100.htm

http://fins.actwin.com/killietalk/month.200503/msg00117.html

http://fishjunkies.com/forum/viewtopic.php?t=264&sid=0d7bdae82a07924615061ce6f7fb434a

http://www.guppylog.com/story/2005/8/4/143836/6167

No primeiro link, uma das mais conhecidas listas de discussão dos EUA sobre killifishes (Killietalk),
um criador chamado Harry Faustmann responde sobre métodos de criação deste anelídeo e diz que também
já criou as “microfex worms” (que também são conhecidos como “Dero worms” ou “Naiad worms”) junto com
culturas de daphnias, o que corrobora o fato de que comecei a observar a proliferação destes anelídeos em
um recipiente preparado para criar daphnias (tanque plástico; um punhado de esterco de galinha misturado
na água e deixando bater algumas horas de sol por dia). No segundo link da Killietalk, há a informação de
que o primeiro a introduzir este alimento vivo na Aquariofilia
foi Jim Langhammer, há décadas. Por que este alimento vivo
não se tornou então tão popular quanto os outros? Talvez
pela dificuldade de criação que alguns hobbystas citam nas
mensagens destes links. Poucos são os que relatam obter
sucesso. Creio que isto se deve a encontrar os fatores ideais,
os quais irei tentar relatar em pormenores neste artigo, já que
estou obtendo sucesso com a criação destes anelídeos.
Outro dado interessante está no terceiro link referido acima,
o Micrographia, com a descrição científica do que seria este
anelídeo. A “Dero worm” pertence à Classe Oligochaeta. No
último link mencionado, um criador de nick “Unclescott”, informa

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que a “Encyclopedia of Live Foods” menciona que as “Dero worms” são excelentes alimentos vivos para peixes.

Voltando ao método da criação dos anelídeos, tentei repetir as condições de criação na qual se
multiplicaram acidentalmente e, após alguns anos, anotei experiências e dicas para a sua criação, as quais
relatarei neste artigo. Inicialmente, após adquirir matrizes para iniciar a cultura, introduza-os em um pequeno
recipiente - eu utilizo aquários velhos de seis litros - com água sem cloro e tampe para evitar mosquitos.
Forneça a primeira dose de alimento dissolvendo uma pitada de ração para peixes com os dedos e deixe
afundar na água. No dia seguinte, pegue um pouco de ração para peixe e dissolva com os dedos dentro de
um coador de café com tecido sintético. Faça este processo dentro da água, deixando apenas minúsculas
partículas de ração passarem pelo coador. Vai se formar uma nuvem de nutrientes no aquário. Repita este
procedimento em dias alternados por três vezes e aguarde. Os microtubifex começarão a se reproduzir
e com o tempo irá notar o aumento pela sua concentração nas bordas da superfície da água. Continue a
alimentação e vá deixando a cultura aumentar em número. Nas minhas experiências, em um aquário de seis
litros, alimentando-os com ração para peixes dissolvida, mantendo-os em uma temperatura de 30°C, consegui
multiplicar um aglomerado inicial do tamanho exposto na foto deste artigo, para o número de oito, visíveis
nas bordas do aquário, após 26 dias de início da cultura. Podem também ser usadas rodelas bem finas de
rolhas de cortiça espalhadas sobre a superfície, nas quais os microtubifex também se concentrarão.
Para coletá-los, passo um palito de sorvete nos aglomerados e coloco dentro de um copo com água
mineral. Esse procedimento é para a limpeza. Após colocar a quantidade de microtubifex desejada no
copo, desfaço o aglomerado sacudindo-o com um palito grande e espero os microtubifex se concentrarem
na superfície. Alguns ainda ficarão no fundo, mas a maioria tende a ficar nas bordas da coluna d’água.
Restará um pouco de detrito no fundo do copo. Você pode fazer esse processo em quantas vezes achar
necessário, podendo usar dois copos de água para ajudar. Após a limpeza, é só oferecer aos peixes na
quantidade adequada. Pelo seu tamanho diminuto e sua espessura - em torno de 0,5 mm - prefiro utilizar
o microtubifex para alimentação de alevinos, no entanto, são grandes para os primeiros dias de vida,
devendo o aquarista esperar os filhotes crescerem mais um pouco, ou oferecê-lo a killifishes de menor porte.

Algumas respostas que estou tentando encontrar são para solucionar o porquê destes anelídeos
se concentrarem nas bordas da superfície da água. Pelas minhas experiências, notei o seguinte fato: após
diminuir o alimento, eles tendem a sumir das bordas da superfície, dando a impressão de terem desaparecido.
Mas percebi que eles se concentram no fundo, e quando forneço nova dose de ração dissolvida suficiente
para a água ficar turva e com mau cheiro, reaparecem novamente nas bordas do recipiente, principalmente
quando a água está com um cheiro forte. Será que vão para a superfície por falta de oxigênio, pela oferta
alimentar em excesso, ou por preferirem se alimentar próximos da superfície? São perguntas que serão
respondidas só mesmo com o aumento das experiências com a criação destes anelídeos por um número
maior de hobbystas. Outro detalhe que pode ser importante para a criação, é que em todas as culturas que
mantive, pela localização, sempre estavam sujeitas a incidência de luz solar em curto período do dia. Ainda
não testei se a falta de luminosidade afetaria o crescimento e desenvolvimento desses anelídeos.
Outras experiências que venho fazendo é em relação a variar o tipo de alimentação fornecida aos microtubifex.
Já utilizei rações em flocos dissolvidas, rações em tabletes, também dissolvidas e até farinhada para pássaro
com bons resultados.
No tocante aos problemas com a cultura, destaco o mau cheiro e o crescimento lento. Para um número
grande de filhotes, serão necessários vários recipientes de cultura. Já as vantagens são a facilidade maior
de cultura do que os tubifex comuns; a limpeza do meio de cultura, evitando introdução de possíveis doenças
por tubifex coletado e introdução de detritos no aquário; o fato de que quando não são consumidos, tendem
a se espalhar pelo aquário, sobrevivendo e não poluindo o aquário; a sua atração para os peixes devido aos
movimentos frenéticos quando soltos na água.
Espero que em breve este alimento vivo se espalhe pelo hobby, trazendo mais uma opção alimentar para
filhotes e peixes que exigem alimentação viva, facilitando a vida também de quem tem dificuldade de
encontrar alimentos vivos nas lojas

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HISTÓRICO E MANUTENÇÃO”

Simpsonichthys magnificus (Costa & Brasil)


Foto: Macho jovem de Simpsonichthys magnificus com cerca de 3,5 cm

Texto e fotos – Rogério Suzart

Família: Rivulidae
Subfamília: Cynolebiatinae
Gênero e espécie: Simpsonichthys magnificus

Histórico e Origem:

O Simpsonichthys magnificus foi descoberto em 1990 por Gilberto Campello Brasil, nos arredores de Manga,
pequena cidade do oeste de Minas Gerais, próximo à divisa com o estado da Bahia, porém, sua descrição
foi publicada somente em 1991.
Em ocasiões posteriores, foram encontradas diferentes populações tanto no estado de Minas Gerais, na
cidade de Gado Bravo, quanto no estado da Bahia, na cidade de Malhada.
O Simpsonichthys magnificus foi assim nomeado por conta do seu lindo conjunto de cores e hoje é
considerado, em todo o mundo, como um dos mais belos peixes de água doce.

Habitat:

Poças sazonais (Figura 1) com água de aspecto levemente leitoso e, por vezes, translúcidas com um tom
levemente amarronzado. A temperatura da água varia entre 21 a 33ºC, aquecendo ainda mais à medida que
a poça vai secando. O pH é neutro tendendo para ácido e apresenta dureza razoável. Em função do substrato
argiloso local (apresenta também bastante matéria orgânica), além do fato de estas poças funcionarem como
“corpos receptores” de todo o escoamento superficial das proximidades do biótopo, recebendo diversos sais
minerais levados pelas águas que literalmente “lavam” o chão do sertão durante as poucas semanas em que
acontecem as chuvas anuais, período que normalmente ocorre entre novembro e janeiro em toda região.

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Fig. 1: biótopo de Simpsonichthys magnificus, em Malhada-Bahia

A vegetação aquática da poça é abundante e nas suas margens ocorrem arbustos de médio porte e pequenas
árvores. Estas árvores proporcionam sombra em grande parte da poça, que se encontra num barranco entre
a estrada e uma das fazendas da região (biótopo de Malhada-BA).
Na maioria das poças onde ocorrem os Simpsonichthys magnificus, são abundantemente encontrados
em simpatria com os Simpsonichthys flagelatus e Cynolebias perforatus, os quais são encontrados em
quantidades muito menores.
As Cynolebias perforatus, habitante menos numeroso destes biótopos, são prováveis predadoras das outras
duas espécies de Simpsonicthys que ocorrem na mesma poça. Nestas poças, também são encontradas
diversas espécies de insetos aquáticos, além de Branchonetta sp. e girinos, muito comuns em poças de
peixes anuais e que fazem parte da dieta destes.

Alimentação e Manutenção:

Animal pacífico, por vezes, territorial com outros machos. O Simpsonichthys magnificus é um peixe fácil de
manter e reproduzir, pois é resistente e aceita bem alimentos congelados e até industrializados em flocos,
desde que previamente adaptados. Mas a alimentação ideal para reprodução é composta de uma dieta
variada de alimentos vivos.

A água ideal para sua manutenção é neutra, porém estão adaptados a diferentes parâmetros e até mesmo a
mudanças rápidas destes parâmetros. Esta adaptação se deve às fortes chuvas as quais estão expostos em
poças muitas vezes pequenas e que comportam pouca água, onde as chuvas bruscas provocam grandes
mudanças de parâmetros físico-químicos em pouquíssimo espaço de tempo.

Dimorfismo sexual

Machos:

A espécie realmente recebeu um nome que condiz com as cores presentes nos machos, com cerca de 3,0 a
6,5 cm - em aquários dificilmente ultrapassam 4,0 cm. O corpo, em sua grande maioria, composto por uma
cor rosa vívida, tendendo para o vinho ou vermelho escuro em alguns pontos como no dorso e nadadeiras.
Todo o corpo está coberto por escamas que formam fileiras definidas da cabeça à nadadeira caudal,
apresentando reflexo azul celeste intenso, variando para um verde cintilante e, por vezes, dourado.
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Ainda no corpo dos machos deste majestoso peixe, cerca de 6 a 10 barras verticais de cor azul celeste se
repetem do opérculo até a nadadeira caudal, porém, muito mais intenso na porção anterior do corpo. As
barras azuis vão verticalmente do dorso até a porção abdominal do peixe, da altura da nadadeira dorsal até
a anal. Este barramento vertical apresenta ainda uma ou duas manchas negras nas suas primeiras barras,
mais presentes quando os peixes são jovens.

Suas nadadeiras dorsal, anal e caudal apresentam o mesmo padrão de colorido que o corpo, porém, com
cores mais fortes, com suas extremidades sendo marcadas por uma borda negra, mais presente em alguns
machos que em outros, principalmente quando os machos estão se exibindo em corte ou para os machos
rivais. O pontilhamento iridescente que ocorre nas escamas de todo o corpo do animal se transforma em
faixas horizontais nas nadadeiras, de forma muito mais organizada do que sua configuração no corpo,
formando normalmente 3 linhas ou faixas horizontais distintas e bem definidas na nadadeira dorsal e 4 linhas
na nadadeira anal. As nadadeiras peitorais são rosadas e as pélvicas são vermelhas com base amarela.
Os olhos são cortados por uma faixa vertical avermelhada e a região do opérculo é amarela, com reflexo
esverdeado.

Ao descrever esta matéria, diante da necessidade de descrever o padrão de colorido


deste lindo animal, verificando as fotos tiradas das diferentes populações de Gado Bravo-
MG e Malhada-BA tiradas ao longo de anos de criação da espécie, observei algumas sutis
diferenças no padrão de colorido e formato de nadadeiras entre as populações (Figura 2).

Segue, na tabela abaixo, uma discreta análise das sutis, porém, visualmente identificáveis variações:

ASPECTO OBSERVADO POPULAÇÃO “A” POPULAÇÃO “B”


Formato de nadadeiras Dorsal Extremidades posteriores afilada e com Extremidades arredondadas
e Anal prolongamento dos últimos raios, formando um
ângulo de 90º (similar ao do Simpsonichthys
carlettoi)

Coloração das extremidades Extremidades com reflexos de azul, verde e/ Extremidades de bordas negras
das nadadeiras ou amarelo

Traçados iridescentes das Primeira metade na horizontal e segunda Horizontal do extremo anterior ao
nadadeiras dorsal e anal metade na transversal até a extremidade posterior
posterior

Coloração geral do corpo Colorido tendendo ao leitoso (similar ao do Cores vivas e mais acentuadas
Simpsonichthys carlettoi)

Fêmeas:

As fêmeas (Figura 3) são pouco menores que os machos, com cerca de 2,0 a 4,0 cm, como em todos os
representantes do gênero Simpsonichthys, não apresentam cores destacadas. Elas apresentam apenas
um padrão castanho-amarelado com um fraco reflexo azulado somente visível quando o animal é exposto
a uma forte iluminação.
Apresentam ainda uma ou mais manchas irregulares, na forma de ocelos negros na porção abdominal.
As nadadeiras são completamente transparentes e os olhos apresentam a mesma faixa vertical avermelhada
que ocorre nos machos, porém, com colorido esmaecido.

Reprodução:

A reprodução ocorre como para todos os Simpsonichthys da bacia do São Francisco, com o macho se exibindo
em movimentos rápidos e frenéticos na frente da fêmea (Figura 4), abrindo ao máximo suas nadadeiras e

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Fig. 2: exemplares de Simpsonichthys magnificus de populações distintas (Gado Bravo-MG e Malhada-BA,
respectivamente)
mostrando suas cores fortes e destacadas, indicando com a cabeça o local no substrato onde pretende se
enterrar juntamente com a Fêmea para desovar. A fêmea então cola o seu corpo no corpo do macho e os
dois realizam um esforço conjunto nadando contra o substrato, até que se enterram completamente nele,
efetuando a desova somente quando os corpos estão completamente envolvidos pelo substrato.
Passados alguns segundos, o macho retorna do fundo do substrato. Após cerca de 10 a 20 segundos, a
fêmea também emerge do substrato, sendo novamente cortejada pelo macho. O ritual se repete por todo o
dia, enquanto houver claridade no local.

Em minhas experiências, percebi que é um dos animais com mais fácil controle do período de embrionamento/
diapausa, pois eles são muito bem definidos, variando sob os parâmetros de Salvador-BA (altura no nível do
mar, temperatura entre 23 e 30ºC e substrato de fibra de coco ou xaxim levemente umedecido) entre quatro
meses a quatro meses e meio.

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Fig. 3: fêmeas de Simpsonichthys magnificus

Seguindo esses padrões, o índice de alevinos arrastadores é muito baixo, ou praticamente nulo.

Assim, a índole pacífica e sua diapausa bem definida fazem do Simpsonichthys magnificus um dos killifishes
brasileiros de mais fácil criação

ESTADO DE CONSERVAÇÃO:

Infelizmente, não há histórico de ocorrência da


espécie em áreas protegidas, porém, devido à
relativa distância entre as diferentes populações
conhecidas atualmente, acredita-se que estejam
distribuídos em outros biótopos ainda não
conhecidos, numa área muito mais abrangente,
o que diminui o risco de extinção.
Mas a baixa do nível da água em toda a bacia
do Rio São Francisco decorrente das grandes e
crescentes área irrigadas, a transposição do Rio
São Francisco, além da adição de fertilizantes e
de agrotóxicos nas grandes plantações de soja
da região, proporcionam um grande e potencial
risco a esta e a todas as espécies de peixes
anuais endêmicos da região do São Francisco.

Fig. 4: macho de Simpsonichthys magnificus cortejando a fêmea.

Bibliografia:

Costa, W.J.E.M.. Peixes anuais Brasileiros – Diversidade e conservação.Editora UFPR, 2002

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TRAQUITANAS
TRAQUITANAS DE
DE R$1,99
R$1,99 E
E KINDER-OVO
KINDER-OVO NA
NA BRUXINHA!
BRUXINHA!
-- Tudo
Tudo oo que
que você
você poderia
poderia fazer
fazer com
com objetos
objetos inúteis,
inúteis,
mas
mas teve
teve medo
medo de
de experimentar.
experimentar. --

Por Gustavo Grandjean (texto e fotos)

Organizador de parafusos. Tupperware. Peneira, coador de café e pegador de gelo. Tubinho de


filme fotográfico, cápsula de kinder-ovo, seringa, conta-gotas, pinça, garrafa pet. Objetos aleatórios e sem
nenhuma conexão? Não. Algumas dessas simples traquitanas de uso doméstico encontradas em feiras,
supermercados e lojas de 1,99 tornaram-se imprescindíveis no dia-a-dia de qualquer criador de killis.
Algumas utilidades encontradas para esses objetos fazem da manutenção de peixes, alevinos, ovos,
turfas, culturas e alimentos algo muito mais prático. É o caso dos tupperwares, que são encontrados de todos
os tamanhos e formatos imagináveis, de preços e qualidades diferentes. E servem para o maior número de
tarefas possíveis, são “pau-pra-toda-obra”. Servem de berçário, recipiente de culturas de alimentos vivos,
bandejas para tubifex e até de aquário. Algumas tupperwares de acrílico têm uma ótima transparência,
garantindo uma vizibilidade excelente dos peixes. Tamanhos grandes com tampas de presilhas são muito
eficientes como aquários de engorda para alevinos ou peixes grandes, como Cynolebias, Megalebias -
sem dizer que custam muito menos que aquários de vidro e são infinitamente mais fáceis de limpar e
transportar.
Ainda no quesito tupperware, os organizadores de acrílico também são uma ótima pedida para
otimizar o plantel. Porta-trecos com divisórias são perfeitos para acondicionar ovos de não-anuais ao gosto
do criador e de uma maneira inteligente. Com espaço para etiquetas adesivas, também são ótimos para
separar alevinos em pares nos primeiros estágios de vida. Um conta-gotas comum e uma seringa com
agulha são ferramentas perfeitas para a tarefa de limpeza-fina, onde retiramos ovos não-fecundados e
restos de comida que se acumulam nas divisórias. O conta-gotas também é ideal para manipular os alevinos
recém-nascidos ou ovos.
Secar a turfa. O que seria dessa tarefa sem um simples coador de café? Claro que existem outras
maneiras de se fazer, até mesmo se buscarmos imitar a natureza. Mas assim é muito mais simples. Peneiras
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de nylon de malha não muito grossa também são ótimas para secar, desde que os ovos não passem pela
malha, claro. Observei que usando uma peneira no lugar do coador a tarefa é mais rápida e apenas a turfa
de maior granulação fica retida, o que, ao meu ver, facilita bastante na hora de procurar por ovos. Mas o
coador de café também tem lá as suas vantagens.
Alimentação. Tubifex e náuplio de artêmia são quase unanimidade entre os alimentos mais usados,
salvas as situações onde não há condições de se optar por eles. E não há nada melhor para manter tubifex
do que bandejas plásticas. Pinças, garfos e pegadores de gelo são as melhores ferramentas para manipular
os bichos. Já os náuplios de artêmia são a melhor opção de alimento para alevinos, dado o enorme valor
protéico quando recém-eclodidos. Para eclodir cistos de artêmia é necessário um recipiente onde possamos
oferecer as condições ideais para uma maior taxa de eclosão. É o artemilheiro.
Garrafas pet se mostraram, depois de experimentar uma dezena de recipientes, a solução mais
próxima do ideal para um artemilheiro profissional, quando somadas a uma mangueirinha de ar com registro
de plástico e um aquecedor de 2,5W (apenas em dias frios). Com o fundo da garrafa cortado, faz-se um furo
na lateral para pendurar em um prego com o bico para baixo. Outro furo pequeno na tampa servirá para
encaixar o registro plástico. Uma vedação de silicone ou cola-quente completa o serviço e o artemilheiro
pode ser ligado ao compressor e ser usado. Voilá!
Para transportar ovos na água, nada mais prático que um tubinho de filme, não? Outra idéia é usar
aquelas cápsulas plásticas que vêm no chocolate Kinder-Ovo, e, de quebra, você ainda enche a barriga de
chocolate e fica com a surpresa!. A cápsula de Kinder-Ovo foi outra solução que encontrei para um problema.
Eu queria arrumar uma alternativa para os pedaços de isopor usados como flutuador para as bruxinhas, que
acabavam por juntar muito limo e sujeira e esfarelavam depois de um tempo. As tais cápsulas caíram como
uma luva e conferiram às novas bruxinhas um ar moderno e clean, despojado, dentro das tendências da
última Casa-cor. Vale a pena conferir o resultado, meus Jos Plateu adoraram…

Acima: a incrível sorte de objetos e utensílios úteis na killifilia: bruxinha de Kinder-Ovo,


organizadores acrílicos e artemilheiro de garrafa pet

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INTRODUÇÃO À PARASITOLOGIA DE PEIXES
Nos seres vivos, podemos observar que tanto animais e vegetais apresentam um inter-relacionamento
muito grande, onde pode variar muito entre reinos, filos, ordens, gêneros e espécies. As relações entre os
seres vivos não são estáticas, pois requerem uma adaptação de cada um, tendendo ao equilíbrio, cuja
estabilidade jamais é alcançada, salvo como etapas sucessivas em demandas de novos e contínuos
equilíbrios, caracterizando a evolução. Dessa forma, meio ambiente e seres vivos estão em permanente e
contínuo processo de adaptação.
O parasitismo ocorreu quando, na evolução de umas das associações, um organismo menor se
sentiu beneficiado, quer pela proteção ou obtenção de alimento. Essa associação provavelmente cometida
ao acaso, mas com o decorrer de milhares de anos houve uma evolução para o melhor relacionamento com
o hospedeiro. Essa evolução feita através de adaptações tornou o invasor (parasito) mais dependente do
outro ser vivo (hospedeiro).
Nos peixes, em seu habitat natural, é possível encontrar parasitos e geralmente em menor intensidade.
No Parasitismo ocorre uma associação entre os seres vivos, onde existe unilateralidade de benefícios, ou
seja, o hospedeiro é espoliado pelo parasito e esta associação tende para o equilíbrio, pois a morte do
hospedeiro seria prejudicial para o parasito. Assim, essa associação que vem sendo mantida há milhares de
anos nos ambientes naturais, raramente o parasito leva o hospedeiro à morte.
Nas pisciculturas ocorrem grandes densidades populacionais e aumento de produtividade quando
comparadas com as populações naturais. Todas as grandes concentrações de animais constituem um fator
que favorece o aparecimento de doenças que podem constituir-se em surtos epizoóticos, devido à presença
do organismo patogênico, que em condições naturais, teriam expressão mínima. Na maioria das vezes, a
progressão da enfermidade pode estar associada também a outros processos estressantes como: captura,
transporte, excesso de alimentação, baixa qualidade da água e variações ambientais bruscas, podendo
eventualmente provocar a morte

Referências Bibliográficas

Andrews, C.; Exell, A. e Carrington, N. 1996. Como Prevenir Y Curar Las Enfermedades De Los Peces De
Acuario. Ed. Ceac S.A – Libros Cúpula, 208 p.
Neves, D. P. 1998. Parasitologia Humana. Ed. Atheneu, São Paulo, 524 p.
Pavanelli, G. C.; Eiras, J. C. e Takemoto, R. M. 1999. Doenças de Peixes – Profilaxia, Diagnóstico e
Tratamento. Ed. UEM: Nupélia, Maringá, 264 p.

Bio. Adriano Gonçalves, M.Sc.


Ictiopatologista
CRB – 40309/01-D
Agon73@yahoo.com.br

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Além do Horizonte – Uma Viagem Pelo Rio Negro

Texto: Fábio Origuela de Lira


Fotos: Aline Rodrigues Pedro e Fábio Origuela de Lira
No último trimestre de 2004, recebi uma proposta fascinante e ao mesmo tempo desafiadora:
Trabalhar na região do médio rio Negro junto às comunidades indígenas. O projeto tinha por objetivo fazer
um diagnóstico participativo junto a duas associações indígenas, professores, alunos e 8 comunidades no rio
Negro e afluentes. Trabalharíamos com revitalização indígena em comunidades que vêm sofrendo, há pelo
menos três séculos, um crescente processo de destruição cultural, em conjunto com altas taxas de população,
com seus habitantes mudando-se para as sedes municipais onde enfrentam problemas relativos à pobreza,
como o alcoolismo, prostituição (inclusive a infantil) e criminalidade. A partir da produção artesanal, além de
fomentá-la como uma alternativa econômica, com suas devidas discussões sobre a problemática envolvida
nesses processos, tínhamos como objetivo documentar seus grafismos e trançados, história oral, mitologia,
músicas, festas e tudo quanto mais pudéssemos contribuir para o complexo processo de revitalização. Em
conjunto com tudo isso, iniciaríamos também a documentação do manejo de espécies botânicas utilizadas
na confecção do artesanato, valorizando os saberes indígenas e cosmologia inerentes a esses processos.
Minha vida mudou por completo. Abandonei meu trabalho como pesquisador num laboratório de
antropologia e arqueologia, minha então namorada e agora esposa, Aline, família, amigos, a segunda
faculdade que fazia – Biologia - além da killifilia carioca. Desfiz-me de todos aquários e recipientes plásticos,
além de peixes e turfas, distribuído a dois grandes amigos (Graffino e Falcon). Despedi-me de todos e vim
para o Amazonas com uma vontade imensa de conhecer esse novo mundo. Quando aqui cheguei, a pessoa
que mais conhecia era meu coordenador de projeto, com quem havia falado algumas vezes via telefone
e só. Com o tempo, acostumei-me com todo esse ar “baré” e conhecendo outros “brasis”. Após uma fase
inicial de adaptação, voltei ao Rio de Janeiro, casei-me e retornei para bem pertinho da linha do Equador.
Mas no mundo dos killifishes, a grande viagem, estava para começar.
Minha terceira viagem até as comunidades estava marcada para o dia 3 de junho, e estava estimada
em 1 mês percorrendo os rios e as aldeias. A semana anterior foi toda de preparativos teóricos e compra de
materiais(papelaria, equipamentos para câmera digital, passagens entre outras coisas). Íamos eu e minha
esposa nesta louca e fascinante empreitada rumo ao coração da Amazônia.
Daqui a diante, meu texto será narrado como um diário de campo, com apenas alguns trechos deste
com a finalidade de que não me estenda muito e não o torne chato.

03 de Junho – Sexta-Feira

Dia corrido. Passei o dia inteiro comprando materiais e finalizando a confecção de questionários.
Nesta viagem, tenho a presença de minha esposa, Aline. Aqui ainda é um mundo novo para nós dois e creio
que surpresas nos aguardam, não há viagem similar à outra. Como pedagoga que é, a levo não só para
estar ao meu lado, mas também para que faça um panorama da educação existente no interior amazônico.
Na hora do almoço, passo no pseudoporto de São Raimundo para compra de passagens de barco, mas por
que pseudo? O local, na periferia, é uma balsa improvisada onde barcos (ou recreio como chamam aqui)
ficam atracados para o embarque e desembarque de mercadorias e passageiros.

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Nesse local ficam todos os recreios que
fazem linhas regulares entre a cidade de Manaus
e os municípios ao longo do rio Negro (Novo
Airão, Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e
São Gabriel da Cachoeira). Devido à cheia
dos rios, as embarcações estão praticamente
na beira das ruas. Impera a informalidade.
Enquanto compramos passagens de camarote,
o entra e sai de mercadorias nos fazem desviar a
todo o momento dos carregadores. O camarote
nos custa R$ 200,00 até Barcelos (2 dias de
viagem) e nos dá direito, além da privacidade, a
camas, a banheiro próprio, a ar condicionado e
a lanches diferenciados. Viajar de rede já é outra
coisa, até Barcelos fica entre R$ 60,00 a R$
70,00 reais, banheiros coletivos, café, almoço e
jantar, além de dormir em meio a muitas redes,
mas já viajei assim e até gosto, mas como era a
primeira viagem com Aline, além de carregar muito material, o ideal seria ficar no camarote. Embarcamos
no final da tarde com todos equipamentos, próximo a hora de saída, às 18:00 horas. Ao sair do táxi, somos
rodeados por carregadores de bagagens. Após o deslumbramento inicial que todo aquele formigueiro
humano provoca ao embarcar, ficamos vendo a cidade de Manaus tornar-se apenas luzes ao longe, em
meio a enebriante escuridão e sobre nossas cabeças o Cruzeiro do Sul.

04 de Junho – Sábado

Acordo cedo pelo som do barco rasgando as águas pretas. Belo nascer do sol, mas o resto do dia foi
marcado com temporais que anuviavam nossa visão. Chegamos a Barcelos às 02:50 da madrugada de
domingo. Nos dirigimos até o albergue e tivemos que acordar o padre Francisco para que pudéssemos nos
alojar. São quartos para duas pessoas com banheiro, 2 camas de solteiro, ar condicionado e geladeira. Para
duas pessoas o quarto custa R$15,00, mas se for apenas uma pessoa, o valor cai para R$10,00.

05 a 07 de Junho – Domingo a Terça-Feira

Nestes dias, apenas reuniões com os bolsistas indígenas, compra de alimentação e combustível, além
de alugarmos um barco para nossa viagem que conseguimos pela bagatela de R$70,00 a diária. Ele tem
cozinha, banheiro e um grande espaço para atarmos nossas redes.

08 de Junho – Quarta-Feira

Após embarcarmos nossas bagagens, partimos às 08:15 da manhã em direção às comunidades indígenas -
Santa Isabel e Barcelos - no rio Negro e seus afluentes. A nossa previsão era que chegaríamos à comunidade
mais distante na madrugada do dia seguinte, mas somos pegos no meio do rio por uma tempestade. Por
segurança, paramos numa ilha para o pernoite.

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09 de Junho – Quinta-Feira

Após a tempestade da noite anterior, saímos por volta das 05:30 da manhã. O dia amanheceu em nossas
costas, ilusório equador. Durante a viagem, a todo o momento, visualizamos botos, papagaios, araras e
andorinhas. Pelas 11 da manhã, chegamos à primeira comunidade, num afluente da margem esquerda do
rio Negro (sua localização exata não será fornecida por motivos técnico-científicos). Após a conversa inicial
com seus líderes, fui até a praia me banhar ao lado de nosso barco. Muitas crianças correm para junto de nós.
Proponho que brinquemos de pegar “piabas” (todos pequenos peixes aqui recebem 4 denominações “piaba”
serve para caracídeos, “bodó” para siluriformes, “cará” para ciclídeos e “jeju” para rivulídeos e alguns tipos de
Hoplias sp.). Rapidamente surge uma pequena rede. Uma infinidade de peixes é pega, todas estavam subindo
o rio pelas praias. Pela tarde, vou à região atrás da comunidade andar um pouco. Seu ambiente é muito diferente
do que entendemos por floresta amazônica, que na verdade é constituída por um mosaico de vegetações.
Estou num solo arenoso, de mata baixa e bem espaçada, conhecida localmente como campinarana, que
durante o período de chuvas formam-se pequenos lagos. Encontro muitos ambientes palustres que me fazem
lembrar os locais que visitei por inúmeras vezes em coletas nas restigas do Rio de Janeiro e onde por algumas
vezes coligi Kryptolebias brasiliensis “Marambaia”, na ilha da Marambaia. O solo tem uma fina camada de
detritos sobre a areia. Muitos tipos de mini gramíneas aquáticas abundavam neste local e outras que me
lembravam microvitórias-régia. Nas suas áreas marginais, a temperatura era muito elevada, mas conforme
andava até sua porção central, esta caía. Não me detive muito, pois estava sozinho e uma das regras básicas
seja no mar seja na floresta é de nunca permanecer sozinho. Fico pensando na possibilidade de existência

de killifishes, mas minhas


obrigações me tomam de assalto
e os esqueço temporariamente.

11 de Junho – Sábado

Por volta da 10 horas da manhã,


saio em direção à mata junto
com o chefe da comunidade,
para que me leve até o local
onde são coletadas algumas
plantas utilizadas na confecção
do artesanato. Após mais de
uma hora de caminhada em meio
aos areais e matas espaçada,
chegamos ao local de coleta. Ele me diz ainda que existe outro lugar onde pegam fibras de caranã e onde
se coleta também “piabas” para a venda, peço então para irmos lá, pois naquele momento precisava de
boas fotos de caranã para ilustrar meus relatórios. Após mais uma hora de caminhada, atravessando lagos
temporários que batiam nas partes mais rasas em nossos joelhos e igarapés (riachos), chegamos até um
grande alagado entre a mata e o areal.

Logo que chegamos, percebo que, diferente dos cardumes de Neon (Paracheirodon innesi), Copella sp.,
Pyrrhulina semifasciata, Nannostomus marginatus e de Poecilocharax weitzmani, alguns peixes rapidamente
se escondem no foliço do substrato...killifishes!!!!!! Não havia dúvidas, aquela forma de defesa é muito
comum em killifishes!!!! Sem redes ou sacos plásticos, com apenas minha camisa e um boné, tento coletá-
los com as mãos. Após mais de uma hora, consigo coligir apenas 2 machos. Acondiciono-os em meu boné
cheio d’água e voltamos em penosa caminhada até a aldeia. Com medo de perder os exemplares, refaço o
tortuoso caminho em metade do tempo. Ao chegar ao barco, percebo que apenas um exemplar sobrevivera
ao esvaziamento rápido do boné. Coloco-o num pequeno recipiente e, ao olhar pelo vidro, percebo que
estava diante a um rivulideo que eu não conhecia. Tinha chegado muito perto, não podia voltar atrás agora,
precisaria voltar e recolher mais exemplares para poder observá-los melhor.

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12 de Junho – Domingo

Após uma noite inteira de chuvas, com goteiras sobre minha rede, descubro que transformei meus óculos
num monte de fibra e metal retorcido. Logo depois de me conscientizar que o sono havia partido, sou tomado
por uma euforia que me faz querer voltar à localidade, sozinho, e apenas depois de muito a minha esposa
argumentar com a minha teimosia sobre o perigo de onças e cobras, convenço-me de que ela tinha razão.
Pelo meio da manhã, após presenciar o abate de “cabeçudos” (denominação popular de uma espécie de
quelônio do qual muito apreciam sua carne) para o almoço da comunidade, encho o saco de Casemiro para
que me leve novamente ao biótopo dos peixes do dia anterior. Após algum tempo e algumas partidas de
futebol, vamos eu e mais dois indígenas, mas agora com um rapixé (espécie de puçá), já que o chefe da
comunidade o possui, pois no verão vive da pesca de “piabas” (pescador legalizado pelo órgão do governo),
que vende para exportadores de peixes ornamentais. Após mais de uma hora de coleta, são pegos 14
exemplares. Muito ariscos, basta chegar próximo para que mergulhem rapidamente no substrato. O biótopo
possui 2 tipos de ambientes distintos. ¼ dele encontra-se sob a copa das árvores, num local que permanece
protegido dos raios solares, além de aparentemente ficar seco a maior parte do ano, pois é a sua parte
marginal. O solo é arenoso-argiloso, com uma camada de folhas mortas de aproximadamente 10 cm. A
vegetação aquática é constituída por um tipo de planta semelhante a mini-samambaias, mas suas folhas têm
aspecto plástico, como se fossem feitas por este produto sintético. A coluna d’água tinha 40 cm, cor de chá,
mas clara suficiente para ver seu fundo com nitidez. Os outros ¾ do biótopo possuem uma profundidade
de pelo menos 1 metro, em área aberta e vegetação de gramíneas. Não me ative neste segundo ambiente,
em parte provocado pelo avistamento de uma sucuri em suas redondezas, o que me fez paralisar a coleta
por razões de segurança. É provável, e nisto acredito, que pudéssemos encontrar uma segunda espécie
de killie neste ambiente, mas infelizmente não houve outra oportunidade. Os peixes foram acondicionados
em pequenos potes de alimento e alimentados com girinos, que eram consumidos vorazmente. Atualmente
estes exemplares encontram-se em identificação por pesquisadores responsáveis.

15 de Junho – Quarta-Feira

Estamos em outra comunidade a pelo menos


dois dias próximo à foz do rio Ereré no rio Negro.
Como sempre, somos muito bem recebidos. A
noite anterior foi de muita chuva e como se não
bastasse uma de nossas bolsistas foi mordida
por um morcego hematófogo. Mesmo usando o
mosquiteiro para proteger-se, o pequeno mamífero
o rasgou e mordeu os dedos do pé. Por possuir na
saliva compostos anticoagulantes e anestesiantes,
a vítima não sentiu a dor da mordida e depois o
sangue escorreu e manchou parte de sua rede. Por
volta das 6 horas da manhã, vou junto com um de
nossos bolsistas colocar a “malhadeira” (rede) no
igapó (mata alagada). Não agüento mais comer
como proteína animal o charque. Duas piranhas
acabam pagando o pato. Diferente de algumas
espécies encontradas em outras regiões do país,
estas possuem deliciosa carne, que se transformou
numa bela caldeirada. Aline foi junto com algumas
indígenas até a roça e aproveitou para fazer um
levantamento sobre variedades de mandioca
cultivadas. Pela parte da tarde, fomos até uma
outra comunidade, dentro do rio Ereré, chamada
Cemitério, onde ao fotografar a mandioca que
era preparada numa canoa, para a produção de
farinha d’água, percebi que um pequeno cardume
de peixes passava em volta de meus pés. Olhando

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de forma mais apurada, suspeitei que aqueles fossem Fluviphyllax. Não tendo como pegá-los, fui até o
barco onde achei um pequeno copo plástico. Após meia hora de insistente perseguição, consegui coligir 4
fêmeas e 1 macho. A distinção se deu pelos olhos brilhantes que possuem, que são a primeira coisa que
chamam atenção, que me lembraram o brilho de olhos de Leptolebias. Conversando com alguns indígenas,
eles disseram que se tratavam de “Olhos de Lanterna” ou também conhecidos como “Piolhos de Cobra”.
Como não tinha nada para preservá-los acabei sacrificando minha garrafa de água. Algumas crianças ao
verem o que fazia resolveram fazer o mesmo, coletando uma série de Apistogramas que se encontravam em
meio aos troncos em meio aquela pequena baía rasa. Dentre as espécies pegas uma me chamou especial
atenção. Ela me foi mostrada por um dos indígenas. Tinha nadadeira dorsal alongada e terminando em
ponta, extremamente colorida de azul, vermelho e dourado, com complexos desenhos azuis na cabeça,
mas foi seu comportamento e não suas cores que mais me chamaram atenção. Uma estratégia de fuga que
se utiliza este pequeno ciclídeo é nadar sempre a superfície por saltos, independente de aproximação ou
não de predadores, pois, a todo o momento, víamos, quando não em repouso, em meio às pedras, pulando
sobre a superfície. Devido a seu comportamento, recebe localmente o nome de “cará-doido”.

17 de Junho – Sexta-Feira

Já estabelecido na comunidade, neste dia


fomos até as casas que ficavam do outro
lado do igarapé que corta povoamento. No
retorno, ao passar sobre um olho d’água, pude
perceber a presença de Rivulus no local. Sem
material para coleta, recolhi 3 exemplares com
as mãos, que se mostraram bem resistentes
durante a viagem, apesar da agressividade
da fêmea para com os 2 machos. Não tendo
onde colocá-los, sacrifiquei mais uma garrafa
de água que tinha.

À noite, alimentei-os com pequenos girinos, já que não dispunha de outros tipos de alimentos. A primeira
espécie devorava-os vorazmente, alguns os engolindo por inteiro, mas esta dava apenas pequenas
beliscadas, arrancando alguns nacos de carne da cauda, deixando os pequenos anfíbios vivos. Fluviphyllax
eram alimentados com farelos de biscoitos, aceitando apenas os pedaços menores, devido ao pequeno
tamanho de suas bocas. Resolvi não mais me preocupar com eles e fui até a comunidade conversar
um pouco com os indígenas. Andando em meio à capoeira, mergulhado na escuridão, as únicas luzes a
iluminar o meu caminho eram minha pequena lanterna, o luar e o fraco lampião da casa do senhor indígena
mais antigo deste aldeamento. Lá, pudemos escutar algumas histórias, todas elas que a maioria de nós
considerariam fantásticas, mas nas quais começo a acreditar, não por toda carga emotiva que os contadores
as colocam, mas por saber que este mundo ainda é mágico. Não contarei estas aqui, pois se tornariam
maiores que a própria matéria e sem contar que fugiriam em muito de nosso objetivo, mas falando por alto,
elas falavam da “Cobra Grande”, boídeo (da família das sucuris e jibóias) descomunal, mas diferente da
sucuri na coloração e tamanho, que costuma ter como habitat poços em meio as matas de igapó e baías ao

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longo do rio Negro. Há também as “Maquiritari”, onças
musculosas e que andam em bandos que, segundo
eles, são homens da mata transformados; essas
seriam os mais fortes e perigosos felinos; “Curupira”,
no que a maioria das pessoas divide em 3 tipos: O
primeiro corresponderia a um espírito da mata,
podendo ser tanto masculino como feminino, que não
só capturaria caçadores que desrespeitam a natureza,
como também aqueles que duvidam de seus poderes.
O segundo tipo seria de estatura baixa e muito escuro,
mas não com aparência humana, mas um animal que
andaria sobre 2 ou 4 patas, dependendo da ocasião,
e viveria em áreas abertas nas cabeceiras dos rios.
O terceiro tipo seria algo mais, por que não dizer,
pré-histórico, pois sua descrição corresponde a um
representante da megafauna brasileira, extinto no
período de transição do pleistoceno para o holoceno,
as preguiças gigantes. Eles descrevem um animal de
mais ou menos 4 metros de altura, quando apoiado
na cauda, sentado, que costuma comer folhas e tem
um odor fétido característico. Segundo eles, esse tipo
de “curupira” só habitaria as matas próximos às serras
que se encontram em direção à Venezuela, raramente
se aventurado nos campos baixos e castanhais. Estes

seriam os animais fantásticos principais, mas há


outros que prefiro, momentaneamente, guardar nas
folhas de meu diário de campo.
Ainda ficamos mais 15 dias navegando
pelo rio Negro e realizando nossos trabalhos, mas
não encontramos killies no restante do trajeto, não
que não houvesse, mas o tempo e o cansaço não
permitiram que voltasse a me dedicar, nas horas
vagas a esta empreitada. Procurei sintetizar ao
máximo neste texto um pouco da minha experiência
e espero que possa estar informando de tão bela
aventura a todos. Esta viagem ficará para sempre
em minha memória, não pelas paisagens ou killies encontrados, mas pela prestatividade e solidariedade
encontrada em todos os cantos por onde passamos, onde, a todo o momento, éramos recebidos com
sorrisos e olhares de esperança. Deixo-vos com um pequeno trecho de meu diário de campo, de uma
viagem anterior, onde apenas enxergava poesia.

“ Olho em minha volta agora antes de dormir, vejo a profusão de redes e cores, de todos os modos, todas as
cores, de todos os preços. Todos dormem... redes quadriculadas, lisas de uma só cor, estampadas, bordadas, rasgadas
ou inteiras, embalando os sonhos de muitos e a espera de todos. Aqui embaixo, minhas bagagens, misturadas às
caixas de encomendas e outras bagagens de mais alguém...e lá fora tudo negro, de um negro azulado que esconde
matas verdes, verdes de todos os verdes, verdes de árvores que nem sei os nomes, verdes claro, escuros, nem tão
claros, nem tão escuros, nem tão verdes, mas verdes.....e pendente nestes galhos estão bromélias, troncos soltos nos
rios, palmeiras beijando suas águas, numa profusão de verde e vida que animaria o mais insosso dos homens...e em
minha rede verde, verde de muitas cores, eu me embale e que meu sono me leve ao amor que há de vir...Aline...”

Agradecimentos: A todos os amigos killiófilos que de uma forma ou de outra me apoiaram nesta nova empreitada,
mas principalmente a Francisco Falcon, Bruno Graffino e Dalton Nielsen pela ajuda e comunicação via e-mail sobre os
resultados desta viagem. A Drausio Belote pela preliminar identificação dos exemplares. Aos pescadores profissionais
de peixe ornamental, J. Lourenço e M. Casemiro pela coleta dos exemplares de forma legal. A todos os amigos aqui
de Manaus que fizeram esta viagem ser possível. A Aline Pedro, minha esposa, pelo auxílio, companhia nesta viagem
e as belas fotos, a ela meu eterno amor e carinho.

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ATENÇÃO!!!!!!!!
No mais a viagem foi recheada de muitas outras aventuras, mas o que
me deixa ainda preocupado é a falta de visibilidade desta área tão remota do
Brasil. No trabalho que realizo, já identifiquei muitos casos de escravidão, quer
seja na coleta de piaçava, muito usada para fazer vassouras, quer seja na coleta
das “piabas”. Aqui elas são compradas de milheiros, isto é, a cada mil peixes. O
milheiro do cardinal ou neon, dependendo do lugar sai entre R$ 6,00 a R$ 10,00
reais!!!!! (sabemos de todos os custos de transporte e outras despesas inerentes
a este processo, mas que não justificam valor tão irrisório pago aos pescadores)
Mas como se não bastassem os patrões, que são aqueles que compram as piabas,
tem uma forma de “roubar” mais ainda, eles aplicam algo chamado de “tara” que
consiste em receber como parte do “seu trabalho” um percentual gratuitamente dos
pescadores. Por exemplo, de 1000 peixes, duzentos saem de graça para o patrão;
mas isto não é só, quando os “piabeiros” chegam com o carregamento de peixes,
o patrão conta os peixes dos recipientes (e cá entre nós, você acha mesmo que
ele conta de forma correta???), e aquele que tiver menos peixes será considerado
o padrão, por exemplo: se dentro do que teoricamente teria um milheiro houver
apenas 700 peixes, ele retira os 200 da “tara” e só paga os 500 e em todas as outras
caixas considera-se que se tenha o mesmo número, logo numa que houver 1000
peixes, além dos 200 da “tara” o patrão “ganhará” mais 300 e só pagará 500!!!!
Pobre daquele que reclamar!!!!!!!! Vimos casos de patrões, ao saberem que seus
comandados haviam votado em outro político que não os que ele apóia, tomaram
suas redes e só não tomaram seus motores de popa devido à fuga destes.
Vocês sabiam como se coletam os tão bonitos cascudos que compramos
para embelezar nossos aquários??? Eles são pegos em mergulhos em apinéia
por indígenas ou caboclos, que arriscam suas vidas mergulhando em meio
aos pedrais e troncos no fundo de rios, sem nenhuma visibilidade. Rondam
piranhas pretas, localmente conhecidas como “fula” que deixaram inúmeras
marcas em muitos desses pescadores e mutilações em outros mais, inclusive
em crianças. Estas não trabalham, mas ficam nos barcos observando os pais, já
que não há como deixar os filhos sozinhos em casa, e qualquer descuido pode
representar, ao cair na água, a mutilação ou mesmo a morte, como soubemos do
que aconteceu com a filha de um desses pescadores. Sabem o que os patrões
fazem neste caso? Emprestam algum dinheiro e depois cobram em forma de
mercadoria, isto é, peixes!!!! Numa dessas viagens, conhecemos um pescador
de “piabas” que devia descer para Manaus para se tratar de leshmaniose,
mas devido a uma dívida que tinha com patrões não poderia fazê-lo e sim
subir para as cabeceiras para coletar piabas suficientes para pagar tal dívida.
Não podemos deixar de citar a tão destrutiva pesca esportiva. Pudemos
ver pescadores tradicionais pegando peixes para sua alimentação e dentre
eles tucunarés feridos na boca por anzóis, magros, tendo apenas cabeça
e pele, inclusive um deles encontrava-se com um grande anzol utilizado na
pesca esportiva. Como se não bastasse muitos grupos destas atividades vem
fomentando atividades voltadas a prostituição infantil nas áreas em que ocorre.

PENSE DUAS VEZES EM ACHAR QUE PESCA ESPORTIVA É ALGO


QUE BENEFICIA CIDADES, SEUS POVOS E QUE É ALGO ECOLOGICAMENTE
CORRETO. PENSE DUAS VEZES EM COMPRAR PEIXES EM LOJAS DE
AQUÁRIO, POIS QUEIRA OU NÃO, VOCÊ ESTARÁ CONTRIBUINDO PELAS
DESIGUALDADES EXISTENTES EM NOSSO PAÍS.

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Rivulus janeiroensis (Costa, 1991)
Texto: Francisco Falcon
Trata-se de um Rivulidae pertencente ao Fotos: Francisco Falcon e Alberto Reis
mesmo grupo dos Rivulus santensis, simplicis,
luelingi, haraldisioli e nudiventris, sendo endêmico do
Estado do Rio de Janeiro, onde é encontrado desde
Angra dos Reis até Macaé. Habita áreas de floresta
secundária alagadas, com profundidade máxima
de 30cm, sendo que é bem comum encontrá-los
em áreas bem mais rasas, onde praticamente há
mais “lama” do que água propriamente dita, com
bastante materia orgânica, como folhas secas,

Foto: Fêmea de R.janeiroensis “Ponta Negra”

raizes, e outros itens que provavelmente contribuem


não só acidificando a água como também servindo de
esconderijo para estes peixes bastante tímidos. Em
alguns biótopos, vivem em simpatria com Kryptolebias
brasiliensis, sendo que há registros não confirmados de
ocorrerem em áreas de mangue, junto com Kryptolebias
caudomarginatus e K.ocellatus.

Durante a visita do Dr. Alberto Reis (Presidente


da APK) ao Brasil, pudemos visitar, junto com ele,
dois biótopos distintos e distantes de R.janeiroensis.
O primeiro (foto à esquerda), próximo à localidade de
Ponta Negra, aparentava nitidamente ser um biótopo
“não original”, e sim uma pequena vala contruída
pelo homem, onde os peixes se adaptaram. Os
R.janeiroensis encontrados lá possuem uma cor muito
viva (vide foto no topo desta página) bem distinta
da segunda população que veremos a seguir. Vale
destacar o belo tapete de Hydrocotyle leucocephala
Foto: Biótopo do R.janeiroensis “Ponta Negra” nas margens do biótopo.

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O segundo biótopo, na
região entre Vila de Cava e Tinguá,
é um típico biótopo de Mata
Atlântica, bastante sombreado,
com muito mais “lama” do que
água propriamente dita (vide
fotos ao lado). Lá encontramos
R.janeiroensis em simpatria com
K.brasiliensis, embora tenhamos
encontrado uma quantidade muito
maior de R.janeiroensis, já me
ocorreu de, em outra época naquele
mesmo local, ter encontrado
apenas K.brasiliensis. Como podem
observar na foto, os R.janeiroensis
lá encontrados diferem bastante
da população “Ponta Negra”, não
sendo tão coloridos quanto os
anteriores.

Em aquário, adaptam-
se bem, gostam de ficar um
tempo fora d´água, repousando
grudados no vidro ou no isopor da
bruxinha e adaptam-se facilmente,
reproduzindo-se até com relativa
facilidade (algo não muito comum
para os peixes do gênero),
bastando oferecer-lhes uma
alimentação rica (principalmente
alimentos vivos, com enquitréias,
larvas de mosquito, tubifex e
artêmia viva), algumas bruxinhas
flutuantes, coluna d´água baixa -
cerca de 3 ou 4cm - e algumas folhas secas no fundo.
Uma pequena queda da temperatura da água costuma
estimular a desova (um método que costuma funcionar é
adicionar um pouco de água de chuva recém coletada).
Verificando diariamente as bruxinhas é fácil identificar os
ovos, grandes e amarelo-esverdeados, que podem levar
até três semanas para eclodir, sendo que os alevinos se
alimentam imediatamente de nauplios de artêmia e levam
cerca de dois meses para sexarem, atingindo a maturidade
sexual aos sete meses, podendo viver até três anos e
meio em aquário. São grande saltadores, devendo os
aquários permanecerem bem tampados, pois não é raro
“desaparecerem” dos aquários, sendo encontrados ou
vivos em aquários vizinhos ou “secos atrás do armário”.

Os peixes do gênero Rivulus, apesar de tão


discriminados por serem considerados aqueles peixes
“esverdeados e sem cor”, são, na verdade, uma verdadeira
caixa de surpresas, com uma infinidade de cores e sua
reprodução é um verdadeiro desafio para os aquaristas

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AGRADECIMENTOS:

Adriano Félix, Alex Ribeiro, André Carletto, Bruno Graffino, Dalton Nielsen, Edson Lopes, Fábio

Origuela, Francisco Falcon, Gilson Gil, Gustavo Grandjean, Márcio Alexandre, Nilo Mendes, Ricardo Fachin

e Rogério Suzart que mais uma vez tornaram possível a realização deste trabalho. MUITO OBRIGADO!

Nossos agradecimentos também a todos os demais hobbistas que direta ou indiretamente estão

contribuindo para o avanço da killifilia no Brasil.


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Site do André Carletto

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South American Annuals, informações detalhadas e centenas de fotos sobre anuais sul-americanos,
em Inglês.

http://www.killi.com

http://www.killi-data.org/
Como o próprio nome indica, um banco de dados sobre killis, em Inglês, administrado pelo Dr.Jean Huber

http://www.killifish.f9.co.uk/Killifish/Killifish%20Website/Index.htm
Killifishes from West Africa (muito boa página)

http://www.apk.pt/
Site da Associação Portuguesa de Killifilia

http://www.vascogomes.net/
Página do aquarista Vasco Gomes

http://www.cynolebias.org/public/links/index.html
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