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APOSTILA DE ESGOTOS SANITÁRIOS

CAPÍTULO I

SISTEMAS DE ESGOTOS

1. SISTEMAS DE ESGOTOS

1.1. Generalidades e Definições

É característico de qualquer comunidade humana, o consumo de água como uma necessidade básica
para desempenho das diversas atividades diárias e, consequentemente, a geração de águas
residuárias sem condições de reaproveitamento. A água consumida na comunidade deve ser de
procedência conhecida, requerendo, na maioria das vezes, tratamento prévio para que ao atingir os
pontos de consumo, a mesma esteja qualificada com um grau de pureza que possa ser utilizada de
imediato para o fim a que se destina. As instalações necessárias para que a água seja captada,
tratada, transportada e distribuída nos pontos de consumo constituem o sistema de abastecimento de
água.

Os processos de consumo da água, na sua maioria geram vazões de águas residuárias que, por não
disporem de condições de reutilização, devem ser coletadas e transportadas para locais afastados da
comunidade, de modo mais rápido e seguro, onde, de acordo com as circunstâncias, deverão passar
por processos de depuração adequados antes de serem lançadas nos corpos receptores naturais. Este
condicionamento é necessário para preservar o equilíbrio ecológico no ambiente atingido direta ou
indiretamente pelo lançamento. Este serviço é executado pelo sistema de esgotos sanitários.

A geração de resíduos sólidos, o lixo, também é uma consequência da presença humana. Sendo sua
constituição de teor insalubre e de presença incômoda para a população humana, deve ser coletado
de modo sistemático e seguro e transportado para locais de beneficiamento, incineração, etc., ou
áreas de depósito previamente determinadas e preparadas, isoladas do perímetro habitado a fim de
evitar interferência no desempenho das atividades vitais da comunidade.

Paralelamente à operação dos serviços citados devem também ser drenadas as águas de escoamento
superficial, em geral vazões sazonais de origem pluvial, através de um sistema de galerias e canais,
para os corpos receptores de maior porte da área tais como córregos, rios, lagos, etc. A existência
desse conjunto de condutos artificiais de esgotamento‚ denominado de sistema de drenagem pluvial
ou sistema de esgotos pluviais, é fundamental para preservação da estrutura física da comunidade,
pela redução ou controle dos efeitos adversos provocados pela presença incontrolada dessas vazões.

Entende-se, pois, que a existência dos serviços descritos são essenciais para o bem-estar de toda
uma comunidade humana. Por definição, esse conjunto de serviços compõe o denominado
Saneamento Básico, e tradicionalmente tem sido de responsabilidade, pelo menos no seu
gerenciamento, do poder público imperante na coletividade.

É fundamental, também, observar-se que a boa operação e confiabilidade dos sistemas que
compõem as atividades de Saneamento Básico respondem diretamente por melhores condições de
saúde, conforto e segurança e produtividade em uma comunidade urbana.

1.2. Classificação das Águas de Esgotamento

A expansão demográfica e o desenvolvimento tecnológico trazem como consequência imediata o


aumento de consumo de água e a ampliação constante do volume de águas residuárias não
reaproveitáveis que, quando não condicionadas de modo adequado, acabam poluindo as áreas
receptoras causando desequilíbrios ecológicos e destruindo os recursos naturais da região atingida
ou mesmo dificultando o aproveitamento desses recursos naturais pelo homem. Essas águas,
conjuntamente com as de escoamento superficial e de possíveis drenagens subterrâneas, formarão
as vazões de esgotamento ou simplesmente esgotos.

Sendo assim, de acordo com a sua origem, os esgotos podem ser classificados tecnicamente da
seguinte forma:
- esgoto sanitário ou doméstico ou comum;
- esgoto industrial;
- esgoto pluvial.
Denomina-se de esgoto sanitário toda a vazão esgotável originada do desempenho das atividades
domésticas, tais como lavagem de piso e de roupas, consumo em pias de cozinha e esgotamento de
peças sanitárias, como por exemplo, lavatórios, bacias sanitárias e ralos de chuveiro.

O chamado esgoto industrial é aquele gerado através das atividades industriais, salientando-se que
uma unidade fabril onde seja consumida água no processamento de sua produção, gera um tipo de
esgoto com características inerentes ao tipo de atividade (esgoto industrial) e uma vazão
tipicamente de esgoto doméstico originada nas unidades sanitárias (pias, bacias, lavatórios, etc.).

O esgoto pluvial tem a sua vazão gerada a partir da coleta de águas de escoamento superficial
originada das chuvas e, em alguns casos, lavagem das ruas e de drenos subterrâneos ou de outro
tipo de precipitação atmosférica.

1.3. Sistemas de Esgotos

1.3.1. Definições

Para que sejam esgotadas com rapidez e segurança as águas residuárias indesejáveis, faz-se
necessário a construção de um conjunto estrutural que compreende canalizações coletoras
funcionando por gravidade, unidades de tratamento e de recalque quando imprescindíveis, obras de
transporte e de lançamento final, além de uma série de órgãos acessórios indispensáveis para que o
sistema funcione e seja operado com eficiência. Esse conjunto de obras para coletar, transportar,
tratar e dar o destino final adequado às vazões de esgotos, compõem o que se denomina de Sistema
de Esgotos.

O conjunto de condutos e obras destinados a coletar e transportar as vazões para um


determinado local de convergência dessas vazões é denominado de Rede Coletora de Esgotos.
Portanto, por definição, a rede coletora é apenas uma componente do sistema de esgotamento.

1.3.2. Evolução dos Sistemas de Esgotamento

Os primeiros sistemas de esgotamento executados pelo homem tinham como objetivo protegê-lo
das vazões pluviais, devendo-se isto, principalmente, à inexistência de redes regulares de
distribuição de água potável encanada e de peças sanitárias com descargas hídricas, fazendo com
que não houvesse, a primeira vista, vazões de esgotos tipicamente domésticos. Porém, como as
cidades tendiam a se desenvolver às margens de vias fluviais, por causa da necessidade da água
como substância vital, principalmente para beber, com o passar do tempo os rios se tornavam tão
poluídos com esgoto e o lixo, que os moradores tinham que se mudar para outro lugar. Este padrão
universal foi seguido pelos humanos por muitos e muitos séculos.
Poucas foram as exceções a esse padrão. Sítios escavados em Mohenjo-Daro, no vale da Índia, e em
Harappa, no Punjab, indicam a existência de ruas alinhadas, pavimentadas e drenadas com esgotos
canalizados em galerias subterâneas de tijolos argamassados a, pelo menos 50 centímetros abaixo
do nível da rua. Nas residências constatou-se a existência de banheiros com esgotos canalizados em
manilhas cerâmicas rejuntadas com gesso. Isto a mais de 3000 a. C.

No Egito, no Médio Império (2100-1700 a. C.), em Kahum, uma cidade arquitetonicamente


planejada, construíram-se nas partes centrais, galerias em pedras de mármore para drenagem urbana
de águas superficiais, assim como em Tel-el-Amarma, onde até algumas moradias mais modestas
dispunham de banheiros. Em Tróia regulamentava-se o destino dos dejetos, sendo que a cidade
contava com um desenvolvido sistema de esgotos. E Knossos, em Creta, a mais de 1000 a. C.,
contava com excelentes instalações hidro-sanirtárias, notadamente nos palácios e edifícios reais. Na
América do Sul os incas e vizinhos de língua quíchua, desenvolveram adiantados conhecimentos
em engenharia sanitária como atestam ruínas de sistemas de esgoto e drenagem de áreas
encharcadas, em suas cidades.

Historicamente é observado que as civilizações primitivas não se destacaram por práticas higiênicas
individuais por razões absolutamente sanitárias e sim, muito frequentemente, por religiosidade, de
modo a se apresentarem limpos e puros aos olhos dos deuses de modo a não serem castigados com
doenças. Os primeiros indícios de tratamento científico do assunto, ou seja, de que as doenças não
eram exclusivamente castigos divinos, começaram a aparecer na Grécia, por volta dos anos 500 a.
C., particularmente a partir do trabalho de Empédocles de Agrigenco (492-432 AC), que construiu
obras de drenagem das águas estagnadas de dois rios, em Selenute, na Sicília, visando combater
uma epidemia de malária.

No livro hipocrático Ares, Águas e Lugares (1), um texto médico por excelência, consideravam-se
insalubres planícies encharcadas e regiões pantanosas, sugerindo a construção de casas em áreas
elevadas, ensolaradas e com ventilação saudável. Saliente-se que nas cidades gregas havia os
administradores públicos, os astí-nomos, responsáveis pelos serviços de abastecimento de água e de
esgotamentos urbanos como, por exemplo, a manutenção e a limpeza dos condutos. Nas cidades
romanas do período republicano esta gerência era desempenhada pelos censores e no imperial, a
partir de Augusto (63 AC-14 DC), pelos zeladores e atendentes. A prestação destes serviços, no
entanto, eram prioridade das áreas nobres das cidades gregas e principalmente das romanas, onde os
moradores tinham de pagar pelo uso do serviço.

É importante citar que uma obra como a cloaca máxima, destinada ao esgotamento subterrâneo de
águas estagnadas dos pés da colina do Capitólio até o Tibre, ainda hoje em operação, foi concluída
no governo de Tarquínio Prisco. Em De Arquitetura, Vitrúvio (70-25 a. C) justificava a importância
de se construírem as cidades em áreas livres de águas estagnadas e onde a drenagem das edificações
fossem facilitadas. Relatos de Josefos (37-96 d. C) sobre o Oriente Médio, descrevem elogios ao
sistema de drenagem em Cesaréia, construído por Herodes (73-4 a. C). Já Estrabão surpreendeu-se
negativamente com a construção de galerias a céu aberto em Nova Esmirna.

Sistemas de drenagens construídos em concreto com aglomerantes naturais também existiram nas
cidades antigas como Babilônia, Jerusalém e Bizâncio, porém por sua insuficiência quantitativa,
estas cidades tornaram-se notáveis por seus peculiares e ofensivos odores.

A partir de 476 da era cristã, com a queda do Império Romano, iniciou-se o período medieval, que
duraria cerca de um milênio, e desgraçadamente para o Ocidente, caracterizou-se por uma fusão de
culturas clássicas, bárbaras e ensinamentos cristãos, centralizado em Constantinopla. Grande parte
dos conhecimentos científicos foram deslocados pelos cientistas em fuga, para o mundo árabe,
notadamente a Pérsia, dando início na Europa, a uma substituição deste conhecimento por uma
cultura a base de superstições, gerando a hoje denominada Idade das Trevas (500-1000 d. C.).
Como a ênfase de que as doenças eram castigos divinos às impurezas espirituais humanas e seus
tratamentos eram resolvidos com procedimentos místicos ou orações e penitências, as práticas
sanitárias urbanas sofreram, se não um retrocesso, pelo menos uma estagnação.

Neste período, no Ocidente, como o conhecimento científico restringiu-se ao interior dos mosteiros,
as instalações sanitárias como encanamentos de água e esgotamentos canalizados, ficaram por conta
da iniciativa eclesiástica. Como exemplos desta afirmativa, pode-se citar que enquanto no século
IX, a cidade do Cairo, no Egito, já dispunha de um serviço público de adução de água encanada, só
em 1310 os franciscanos concordaram em que habitantes da cidade de Southampton utilizassem a
água excedente de um convento que tinha um sistema próprio de abastecimento de água desde
1290.

Na Idade Média, nas cidades as pessoas construíram casas permanentes e esgoto, lixo e refugos em
geral eram depositados nas ruas. Quando as pilhas ficaram altas, e o mau odor tornava-se
insuportável, a sujeira era retirada com a utilização de pás e veículos de tração animal. Esta
condição prevaleceu até o final do século XVIII, principalmente nas cidades menores.

A iniciativa de pavimentação das ruas nas cidades europeias, com a finalidade de mantê-las limpas
e alinhadas, a partir do final do século XII, exemplos de Paris (1185), Praga (1331), Nuremberg
(1368) e Basiléia (1387), tornou-se o marco inicial da retomada da construção de sistemas de
drenagem pública das águas de escoamento superficial e o encanamento subterrâneo de águas
servidas, estas inicialmente para fossas domésticas e, posteriormente, para os canais pluviais. As
primeiras leis públicas notáveis de instalação, controle e uso destes serviços têm origem a partir do
século XIV.

Em termos de saneamento o período histórico dos séculos XVI e XVIII é considerado de transição.
A partir do século XVI, já no Renascimento, com a crescente poluição dos mananciais de água o
maior problema era o destino dos esgotos e do lixo urbanos. No século seguinte, o abastecimento de
água urbano teve radical desenvolvimento, pois se passou a empregar bombeamentos com
máquinas movidas a vapor e tubos de ferro fundido para recalques de água, notadamente a partir da
Alemanha, procedimentos que viriam a se generalizar no século seguinte, juntamente com a
formação de empresas fornecedoras de água.

Os estudos de John Snow (1813-1858), o movimento iluminista, a revolução industrial e as


mudanças agrárias provocaram alterações revolucionárias no final do século XVIII, com profundas
alterações na vida das cidades e, consequentemente, nas instalações sanitárias. Ruas estreitas e
sinuosas foram alargadas e alinhadas, pavimentadas, iluminadas e drenadas, tanto na Inglaterra
como no continente.

O aparecimento da água encanada e das peças sanitárias com descarga hídrica, fizeram com que a
água passasse a servir com uma nova finalidade: afastar propositadamente dejetos e outras
impurezas indesejáveis ao ambiente de vivência. A sistemática de carreamento de refugos e dejetos
domésticos com o uso da água, embora fosse conhecido desde o século XVI, quando John
Harrington (1561-1612) instalou a primeira latrina no palácio da Rainha Isabel, sua disseminação só
veio a partir de 1778, quando Joseph Bramah (1748-1814) inventou a bacia sanitária com descarga
hídrica, inicialmente empregada em hospitais e moradias nobres. A generalização dos sistemas de
distribuição de água e as descargas hídricas para evacuar o esgoto, provocaram a saturação do solo,
contaminando as ruas e o lençol freático. A extravasão para os leitos das ruas criou, também,
constrangimentos do ponto de vista estéticos, levando a necessidade de criação de esquemas para
limpeza das vias públicas das cidades grandes.
Muitas cidades como Paris, Londres e Baltimore tentaram o emprego de fossas individuais com
resultados desastrosos, pois as mesmas, com manutenção inadequada, se tornaram fontes de geração
de doenças. Raramente eram limpas e seu conteúdo se infiltrava pelo solo, saturando grandes áreas
do terreno e poluindo fontes e poços usados para o suprimento de água. As fossas, portanto,
tornaram-se um problema de saúde pública.

Além disso, era ilusoriamente fácil eliminar a água de esgoto, permitindo-a alcançar os canais de
esgotamento existentes sob muitas cidades. Como esses canais de esgotamento se destinavam a
carrear água de chuva, a generalização dessa prática levou os rios de cidades maiores
transformarem-se em esgotos a céu aberto, um dos maiores desafios enfrentados pelos reformadores
sanitários do século XIX.

Paralelamente começava a se concretizar a ideia de serem organismos microscópicos como possível


causa das doenças transmissíveis. No início do século XIX havia na Grã-Bretanha várias cidades
consideradas de grande porte, mas elas pareciam tão incapazes como suas predecessoras de evitar as
contrastantes ondas de mortes por doenças e epidemias, que ainda eram o preço inevitável da vida
urbana. Apesar das consideráveis melhorias executadas nos esgotos londrinos no século anterior, as
galerias continuavam despejando seus bacilos no rio Tâmisa, contaminando a principal fonte de
água potável da capital.

Ao mesmo tempo, a melhoria das condições de transporte, provocou um efeito colateral assustador:
as epidemias se espalhavam com muito maior rapidez e produzindo um alcance de vítimas muito
mais devastador, como a de cólera (1831-1832). O governo britânico assustou-se com a intensidade
de mortes e as autoridades perceberam uma clara conexão entre a sujeira e a doença nas cidades.

As décadas de 1830 e 1840 podem ser destacadas como as mais importantes na história científica
da Engenharia Sanitária. A epidemia de cólera de 1831/32 despertou concretamente para os ingleses
a preocupação com o saneamento das cidades, pois evidenciou que a doença era mais intensa em
áreas urbanas carentes de saneamento efetivo, ou seja, em áreas mais poluídas por excrementos e
lixo, além de mostrar que as doenças não se limitavam às classes mais baixas. Em seu famoso
Relatório (1842), Chadwick (1800-1890) já afirmava que as medidas preventivas como drenagem e
limpeza das casas, através de um suprimento de água e de esgotamento efetivos, paralelo a uma
limpeza de todos os refugos nocivos das cidades, eram operações que deveriam ser resolvidas com
os recursos da Engenharia Civil e não no serviço médico.

A evolução dos conhecimentos científicos, principalmente na área de saúde pública, tornaram


imprescindível a necessidade de canalizar as vazões de esgoto de origem doméstica. Os
reformadores e os engenheiros hidráulicos (1842) propuseram, então, a reforma radical do sistema
sanitário, separando rigorosamente a água potável da água servida: os esgotos abertos seriam
substituídos por encanamentos subterrâneos, feitos de cerâmica durável.

Funcionários da prefeitura de Paris já haviam começado a projetar esgotos no começo do século


XIX para proteger seus cidadãos de cólera. A solução indicada foi canalizar obrigatoriamente os
efluentes domésticos e industriais para as galerias de águas pluviais existentes, originando, assim, o
denominado Sistema Unitário de Esgotos, onde todas os esgotos eram reunidos em uma só
canalização e lançados nos rios e lagos receptores.

No início do século XIX, a construção dos sistemas unitários propagou-se pelas principais cidades
do mundo na época, entre elas, Londres, Paris, Amsterdam, Hamburgo, Viena, Chicago, Buenos
Aires, etc. Na realidade métodos de disposição de esgoto não melhoraram até os anos 1840 quando
o primeiro esgoto moderno foi construído em Hamburgo, Alemanha. Era moderno no sentido de
que foram conectadas ligações individuais das casas a um sistema coletor público de esgotos. O
sistema caracterizou-se também porque os trechos coletores iniciais de esgotos sanitários eram
separados das galerias de esgotos pluviais.

Epidemias de cólera que assolaram a Inglaterra e outros países europeus até os anos 1850.
Efetivamente Londres só teve um sistema de esgotos considerado eficiente a partir de 1859. No
entanto, a evolução tecnológica nas nações mais adiantadas, como a Inglaterra por exemplo, e a
necessidade do intercâmbio comercial, forçavam a instalação de medidas sanitárias eficientes por
todos o planeta, pois a proliferação de pestes e doenças contagiosas em cidades desprovidas dessas
iniciativas propiciavam, logicamente, aos seus visitantes os mesmos riscos de contaminação,
gerando insegurança e implicando, portanto, que os navios comerciais da época evitassem a
ancoragem em seus portos, temendo contaminação da tripulação e, consequentemente, causando
prejuízos constantes às nações mais pobres e dependentes do comércio internacional. No Brasil
relacionavam-se nesta situação, notadamente os portos do Rio de Janeiro e Santos.

Porém nas cidades situadas em regiões tropicais e equatoriais, com índice pluviométrico muito
superior (cinco a seis vezes maiores que a média europeia, por exemplo) a adoção de sistemas
unitários tornou-se inviável devido ao elevado custo das obras, pois a construção das avantajadas
galerias transportadoras das vazões máximas contrapunham-se às desfavoráveis condições
econômicas características dos países situados nestas faixas do globo terrestre.

Foram então, contratados os ingleses pelo imperador D. Pedro II (1825-1891), para elaborarem e
implantarem sistemas de esgotamento para o Rio de Janeiro e São Paulo, na época, as principais
cidades brasileiras. Ao estudarem a situação os projetistas depararam-se com situações peculiares e
diferentes das encontradas na Europa, principalmente as condições climáticas (clima tropical) e a
urbanização (lotes grandes e ruas largas).

Após criteriosos estudos e justificativas foi adotado na ocasião, um inédito sistema no qual eram
coletadas e conduzidas às galerias, além das águas residuárias domésticas, apenas as vazões pluviais
provenientes das áreas pavimentadas interiores aos lotes (telhados, pátios, etc.). Criava-se, então, o
Sistema Separador Parcial, cujo objetivo básico era reduzir os custos de implantação e,
consequentemente, as tarifas a serem pagas pelos usuários.

Nos Estados Unidos inicialmente muitos sistemas de esgotos foram construída em cidades pequenas
e financiados por fundos criados pela própria população local. Detalhes destes projetos pioneiros de
sistema de esgoto são geralmente desconhecidos por causa da falta de registros precisos. A
concepção inicial de sistemas de esgoto criados na América é creditada a Julius W. Adams que
projetou os esgotos em Brooklyn, Nova Iorque (1857).

A preocupação com os problemas de saúde pública na América do Norte cresceu com o surgimento
da epidemia de febre amarela em Memphis, Tennessee (1873). Neste ano foram mais de 2.000
mortes causadas pela doença e, cinco anos depois, já se contabilizavam cerca de 5150. Estas
epidemias foram responsáveis pela formação do Departamento de Saúde Nacional, o precursor do
Serviço de Saúde Pública Norte-Americano.

Finalmente o engenheiro George Waring (15) foi contratado para projetar um sistema de esgotos
para a cidade de Memphis, região onde predominava uma economia rural e relativamente pobre,
praticamente incapaz de custear a implantação de um sistema convencional à época. Waring, diante
da situação e contra a opinião dos sanitaristas de então, projetou em sistema exclusivamente para
coleta e remoção das águas residuárias domésticas, excluindo, portanto, as vazões pluviais no
cálculo dos condutos. Depois do controle da epidemia e construção de um sistema de esgoto
sanitário em Memphis (1889), as maiores cidades americanas estavam com linhas de esgoto em
funcionamento.
Com a implantação do projeto de esgoto sanitário de Memphis estava criado então o Sistema
Separador Absoluto (1879), cuja característica principal é ser constituído de uma rede coletora de
esgotos sanitários e uma outra exclusiva para águas pluviais. Rapidamente o sistema separador
absoluto foi difundindo-se pelo resto do mundo a partir das idéias de Waring e de suas publicações
e também de um outro famoso defensor do novo sistema, seu contemporâneo, Engenheiro
Cady Staley.

No Brasil destacou-se na divulgação do novo sistema, Saturnino Brito (1864-1929), cujos estudos,
trabalhos e sistemas reformados pelo mesmo, fizeram com que, a partir de 1912, o separador
absoluto passasse a ser adotado obrigatoriamente no país.

1.3.3. Cronologia dos Sistemas de Esgotos

A seguir está relacionada uma série de datas com registros de acontecimentos marcantes na história
da evolução dos sistemas de esgotamento na civilização ocidental.

4000 AC - Mesopotâmia: início de construções de sistemas de irrigação.


3750 AC - Índia: construção de galerias de esgotos pluviais em Nipur.
3750 AC - Babilônia: construção de galerias de esgotos pluviais.
3100 AC - Vários pontos: surgimento de manilhas cerâmicas.
3000 AC - Harada e Mohenjodaro, Pakistão: muitas casas com banheiros abastecidos através de
tubos cerâmicos e condutos em alvenaria de tijolos para condução de águas superficiais.
2750 AC - Índia: início dos sistemas de drenagem subterrânea no vale dos hindus.
2000 AC - Creta: empregado no Palácio de Minos, em Knossos, manilhas cerâmicas de ponta e
bolsa com cerca de 0,70m de comprimento.
1700 AC - Creta: instalada a primeira banheira no palácio de Knossos, por Dédalus.
514 AC - Roma: construção de uma galeria com 740m de extensão e diâmetro equivalente de até
4,30m, de pedras arrumadas, denominada de cloaca máxima, por Tarquínio Prisco, o Velho (c. 580-
514 AC).
500 AC - Roma: construção de galerias auxiliares a principal, em condutos de barro, por Tarquínio,
o soberbo (540-509).
260 AC - Atenas: criação da bomba parafuso, por Arquimedes (287- 212 AC).
200 AC - Atenas: criação da bomba de pistão, por Ctesibius (20).
32 AC - Roma: Agripa (63-12 AC) ordenou a limpeza das galerias existentes e criou novas de até
3m de largura por 4km de extensão.
1237 DC - Londres: surgimento da água encanada com o emprego de canos de chumbo.
1370 DC - Paris: construída a primeira galeria com cobertura abobadada.
1500 DC - Alemanha: uso obrigatório de fossas nas residências.
1650 DC - Gloucester: instalação de latrinas municipais.
1680 DC - Londres: início do emprego de água para limpeza de privadas.
1689 DC - Paris: Denis Papin (1647-1712) inventa a bomba centrífuga.
1778 DC - Londres: Joseph Bramah (12) inventa a bacia sanitária com descarga hídrica.
1785 DC - Londres: James Simpson introduz no mercado os tubos de ponta e bolsa.
1804 DC - Inglaterra: emprego de tubos de ferro fundido.
1805 DC - Lichfield: substituição de canos de chumbo por de ferro fundido.
1808 DC - Londres: substituição de estruturas de madeira por canos de ferro fundido. Idem
Dublin (1809), Filadélfia (1817), Gloucester (1826), etc.
1815 DC - Inglaterra: autorizado o lançamento de efluentes domésticos nas galerias pluviais.
1827 DC - Londres: uso compulsório de tubos de ferro fundido.
1830 DC - Londres: permissão para lançamento de esgotos domésticos no rio Tâmisa (o que seria
proibido em 1876).
1842 DC - Hamburgo, Alemanha: iniciada a implantação de um sistema projetado de esgotos de
acordo com as teorias modernas.
1847 DC - Londres: lançamento compulsório das águas domésticas nas galerias pluviais.
1848 DC - Londres: promulgação na Inglaterra de leis de saneamento e saúde pública.
1855 DC - Rio de Janeiro: contratação dos ingleses para criar sistemas de esgotamento para as
cidades do Rio e São Paulo.
1857 DC - Rio de Janeiro: inauguração do sistema de esgotos (separador parcial) da cidade,
tornando-se uma das primeiras cidades do mundo dotada de rede coletora de esgotos.
1857 DC - Nova Iorque: inauguração do sistema de esgotos da cidade.
1873 DC - Recife: iniciada a construção da primeira rede coletora de esgotos sanitários desta
capital.
1876 DC - São Paulo: inaugurado o primeiro sistema coletor de esgotos (separador parcial) da
cidade.
1879 DC - Memphis, EUA: criação do Sistema Separador Absoluto por George Waring ( ? -1898).
1889 DC - Irlanda: apresentada pelo autor a expressão de Manning.
1892 DC - Campinas: execução da rede coletora desta cidade.
1897 DC - B. Horizonte: inauguração da cidade com água e esgotos projetados por Saturnino de
Brito.
1900 DC - Áustria: início da produção de tubos de cimento-amianto por Ludwing Hastscher.
1900 DC - São Paulo: Saturnino de Brito inventou o tanque fluxível.
1907 DC - São Paulo: Saturnino de Brito iniciou as obras de esgotos e drenagem da cidade de
Santos.
1912 DC - Brasil: adoção do sistema separador absoluto.
1920 DC - São Paulo: invenção do tubo de ferro fundido centrifugado por De Lavaud.
1928 DC - São Paulo: construção da estação de tratamento de esgotos de Santo Ângelo
1953 DC - Inglaterra: iniciada a fabricação de tubos de PVC.
1962 DC - Campina Grande: fundação da primeira empresa pública nacional de
saneamento (SANE-SA).
1968 DC - Brasília: criação do PLANASA - Plano Nacional de Saneamento (2).
1968 DC - São Paulo: criação da CETESB - Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental
(3).

Observando esta série de acontecimentos conclui-se que na Antiguidade as preocupações voltavam-


se para obras de esgotamento pluvial. Isto justificado pela inexistência de peças sanitárias com
descarga hídrica e pela ignorância dos povos sobre a periculosidade dos resíduos domésticos.

Verifica-se também que durante a Idade Média não há registros da evolução na área de saneamento,
sendo esta situação decorrente dos acontecimentos que caracterizam este período da História.

O surgimento da água encanada e a disseminação do uso de peças sanitárias com descarga hídrica,
aliados ao desenvolvimento científico e tecnológico da humanidade após o Renascimento, fizeram
com que o homem tomasse consciência da necessidade de criar sistemas eficazes de saneamento
onde se garantisse o abastecimento da água potável e recolhimento das águas residuárias e dá-lhe
condições favoráveis de reciclagem na natureza.

1.3.4. Comparação entre os Sistemas

A evolução dos sistemas de esgotamento deu origem a dois tipos com características bem distintas,
principalmente do ponto de vista da quantidade e qualidade das vazões transportadas, o Sistema
Unitário e o Separador Absoluto, sendo este último o mais empregado nos tempos contemporâneos.
Para melhor entender esta preferência pode-se elaborar uma série de comparações como as
relacionadas a seguir:

a) Desvantagens do Sistema Unitário

 1. Dificulta o controle da poluição a jusante onerando o tratamento, em virtude dos grandes


volumes de esgotos coletados e transportados em épocas de cheias e, consequentemente, o
alto grau de diluição em contraste com as pequenas vazões escoadas nos períodos de
estiagem, acarretando problemas hidráulicos nos condutos e encarecendo a manutenção do
sistema;
 Exige altos investimentos iniciais na construção de grandes galerias necessárias ao
transporte das vazões máximas do projeto;
 Tem funcionamento precário em ruas sem pavimentação, principalmente de pequenas
declividades longitudinais, em função da sedimentação interna de material oriundos dos
leitos das vias públicas;
 implicam em construções mais difíceis e demoradas em consequência das suas dimensões,
criando maiores dificuldades físicas e no cotidiano da população da área atingida.

b) Vantagens do Sistema Separador Absoluto

 permite a implantação independente dos sistemas (pluvial e sanitário) possibilitando a


construção por etapas e em separado de ambos, inclusive desobrigando a construção de
galerias pluviais em maior número de ruas;
 permite a instalação de coletores de esgotos sanitários em vias sem pavimentação, pois esta
situação não interfere na qualidade dos esgotos sanitários coletados;
 Permite a utilização de peças pré-moldadas denominadas de tubos, na execução das
canalizações devida à redução nas dimensões necessárias ao escoamento das vazões,
reduzindo custos e prazos na implantação dos sistemas;
 Acarreta maior flexibilidade para a disposição final das águas de origem pluvial, pois estes
efluentes poderão ser lançados nos corpos receptores naturais da área (córrego, rios, lagos,
etc.) sem necessidade prévia de tratamento o que acarreta redução das seções e da extensão
das galerias pluviais;
 Reduz as dimensões das estações de tratamento facilitando, consequentemente, a operação e
manutenção destas em função da constância na qualidade e na quantidade das vazões a
serem tratadas.

Diante destas circunstâncias é quase inconcebível nos dias de hoje, serem projetados sistemas
unitários de esgotamento. Em vários países (entre estes o Brasil) é obrigatório o emprego do sistema
separador absoluto. Um exemplo de sistema unitário moderno é o da Cidade do México, onde
praticamente toda a água residuária gerada na área urbana é canalizada para utilização em áreas
agrícolas irrrigáveis.

1.4. Sistemas de Esgotos Sanitários

1.4.1. Definição

Diante das diversas comparações não há como resistir a afirmação de que a implantação de sistemas
separados para águas residuárias e para vazões pluviais seja mais vantajosa, tanto para pequenas
comunidades como em grandes centros urbanos.

Desse modo torna-se imperativo que o estudo de projetos de esgotamento sanitário levem a
concepções distintas das do esgotamento pluvial e, consequentemente, ao desenvolvimento de
teorias em separado, dentro de um macro-estudo que envolva todas as propostas de saneamento
básico de uma comunidade.

Identificada a separação técnica pode-se afirmar que o conjunto de condutos e obras destinadas a
coletar, transportar e dar destino final adequado as vazões de esgoto sanitário denomina-se de
Sistema de Esgotos Sanitários. Isto é o que será exposto ao longo desta publicação, a partir deste
ponto, com ênfase para o dimensionamento dos componentes das redes coletoras convencionais.

1.4.2. Objetivos

A implantação dos serviços de Saneamento Básico, em função da sua importância, tem de ser
tratada como prioridade sob quaisquer aspectos na infraestrutura pública das comunidades,
considerando-se que o bom funcionamento desses serviços implica em uma existência com mais
dignidade para a população usuária, pois melhora as condições de higiene, segurança e conforto dos
usuários, acarretando assim maior força produtiva em todos os níveis da mesma. Neste contexto,
pode-se assegurar que a implantação de um sistema de esgotos sanitários, bem como sua correta
operação, permite atingir os seguintes objetivos:

a) Objetivos Sanitários

 Coleta e remoção rápida e segura das águas residuárias;


 Eliminação da poluição e contaminação de áreas a jusante do lançamento final;
 Disposição sanitária dos efluentes, devolvendo-os ao ambiente em condições de reuso;
 Redução ou eliminação de doenças de transmissão através da água, aumentando a vida
média dos habitantes.

b) Objetivos Sociais

 Controle da estética do ambiente, evitando lamaçais e surgimento de odores desagradáveis;


 Melhoria das condições de conforto e bem estar da população;
 Utilização das áreas de lazer tais como parques, rios, lagos, etc., facilitando, por exemplo, as
práticas esportivas.

c) Objetivos Econômicos

 Melhoria da produtividade tendo em vista uma vida mais saudável para os cidadãos e menor
número de horas perdidas com recuperação de enfermidades;
 Preservação dos recursos naturais, valorizando as propriedades e promovendo o
desenvolvimento industrial e comercial;

Redução de gastos públicos com campanhas de imunização e/ou erradicação de moléstias


endêmicas ou epidêmicas.
1.4.3. Situação no Brasil

1.4.3.1. Gerenciamento

Nos anos setenta, no Brasil, como no resto na América Latina em geral, o estado seguiu sendo
praticamente a única instância de liberação de recursos e financiamento de programas de saúde e
saneamento, embora não alcançasse a meta de 1% do PNB previsto para o final da década, como
previsto no PLANASA. A despeito da aparente evolução da qualidade de vida dos brasileiros na
época, não havia uma política de promoção de espaços onde se expressassem as variedades de
interesses e perspectivas dos diversos fatores sociais e a definição dos rumos a seguir, ficando na
dependência de ações de políticos nem sempre com conhecimentos adequados no assunto, a
realização dos projetos elaborados.

A partir dos anos oitenta, com a internacionalização do capital, do trabalho e do mercado, somadas
as mudanças no eixo político com a passagem de regimes de natureza autoritária para governos
eleitos pelo voto direto, acelerou-se a deterioração dos modelos de desenvolvimento em voga na
região e, a partir do Governo Figueiredo, os governantes passaram a se limitar a administração da
crise continuamente, desaparecendo o estado como orientador das políticas sociais, sem uma
preocupação clara com as consequências sociais desta mudança, resultando numa conta social
muito pesada e de tristes consequências.

Apesar da ausência de dados mais precisos é possível comprovar as diferentes expectativas de vida
entre as diversas classes sociais no Brasil. O aumento de enfermidades anteriormente em declínio,
tais como malária e tuberculose e o ressurgimento de outras consideradas extintas como, por
exemplo, a cólera e a dengue, têm causado uma superposição de efeitos negativos que resultam em
uma evidente deterioração social.

Urge pois, que o estado, ante o compromisso de igualdade entre cidadãos, possa promover ações
que gerem respostas sociais adequadas às necessidades diversas, superando distorções provocadas
pela atual realidade mundial.

1.4.3.2. Situação Atual

Segundo a Organização Pan-americana de Saúde - OPS, a América Latina (aproximadamente 450


milhões de habitantes) necessita investir cerca de US$ 216 bilhões para resolver seus problemas de
saneamento básico. Somente para disposição dos resíduos domésticos serão necessários recursos da
ordem de US$ 8 bilhões (produção diária de 250 mil toneladas de lixo doméstico sendo que
atualmente, apenas 30% destas são dispostas adequadamente).

A difícil situação econômica que o país vem suportando nos últimos anos, aliada a uma política
governamental de descompromisso pela organização de programas para o setor de saneamento,
fizeram com que os recursos para investimento em sistemas de esgotamento sanitário fossem
insuficientes para acompanhar o crescimento da população.

Enquanto a população crescia o atendimento com os serviços de esgotamento nunca chegou a


crescer o suficiente para diminuir o número de brasileiros sem este benefício no mesmo período,
fazendo com que o déficit aumentasse a cada ano. Hoje se tem menos de um terço da população
brasileira atendida com sistemas de esgotos sanitários e, como complicador, vários
destes sistemas sendo operados inadequadamente.

Outra observação que pode ser feita é o desequilíbrio regional entre os beneficiados com sistemas
de esgotos sanitários. Por exemplo, enquanto no sudeste tem-se 58% da população beneficiada na
Região Norte este índice cai para menos de 2,5% com ligações de esgotos sanitários.

1.5. Exercícios

 Definir

- Saneamento Básico;
- Sistema Unitário de Esgotamento;
- Sistema Separador Absoluto.
- Sistema de Esgotos Sanitários;
- Objetivos Sanitários, Econômicos e Sociais.

 Classificar os tipos de águas esgotáveis de acordo com a origem.


 Descrever as consequências sanitárias do aparecimento da água encanada e dos aparelhos
com descarga hídrica.
 Quais as principais dificuldades para implantação de sistemas unitários de esgotamento?
 Que razões levaram D. Pedro II a contratar os ingleses para projetarem e construírem
sistemas de esgotamento em cidades brasileiras?
 Que razões incentivaram George Waring a criar o Sistema Separador Absoluto?
 Em que situações poder-se-iam projetar sistemas unitários em detrimento do separador
absoluto?
 É possível que efluentes pluviais necessitem de tratamento? Justificar.
 Fazer um "comentário histórico" justificando a lacuna de 1200 anos sem datas notáveis em
Saneamento na "era cristã".
 Pesquisar o significado de:

- conduto, canal e canalização;


- tubo e tubulação;
- cano e manilha.
- moléstias endêmicas e epidêmicas;
- poluição e contaminação;
- águas residuárias;
- recursos naturais;
- ligação de esgotos e economia (em saneamento).

NOTAS:

1. Ares, Águas e Lugares (em grego Aeron Hidron Topon) foi o primeiro esforço sistemático para apresentar as relações
casuais entre fatores do meio físico e doença. Esse livro tornou-se um clássico da medicina por mais de dois mil anos,
até o surgimento da Bacteriologia e da Imunologia. Nele pela primeira vez foram feitas as definições de endemia e
epidemia.

2. Plano Nacional de Saneamento - PLANASA - programa que visava viabilizar soluções adequadas com o objetivo
específico de reduzir o déficit histórico do saneamento básico no país, com recursos financeiros oriundos do BNH e
FAE, a juros de até 8% ao ano.

3. Centro Tecnológico de Saneamento Básico - CETESB, criado pelo Decreto 50.079, de 24 de julho de 1968,
integrado ao FESB (Fundo Estadual de Saneamento Básico), com o objetivo de realizar exames de laboratórios,
estudos, pesquisas, ensaios e treinamento de pessoal no campo da engenharia sanitária. Resolução da Assembleia Geral
Extraordinária dos acionistas da CETESB, de 17 de dezembro de 1976, com alteração da denominação da já então
denominada Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Básico e de Defesa do Meio Ambiente, passando a se
denominar Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental, mantendo a sigla CETESB, com objetivos e atividades
bem mais abrangentes na área de saneamento.
CAPÍTULO II

CARACTERIZAÇÃO DE ESGOTOS SANITÁRIOS

2.1. Tipos de Despejos

O uso da água nas suas mais diversas formas, independente do modo como a mesma tenha sido
adquirida, provoca, na maioria das vezes, a origem de despejos líquidos os quais, pelas mais
diversas razões, tais como higiênicas, estéticas, etc., devem ser retirados do ambiente de consumo
de água, a partir do momento em que os mesmos não possuam mais condições de reutilização. De
um modo geral, esses despejos são originados de atividades domésticas, comerciais ou industriais.

Os despejos procedentes de áreas comerciais e residenciais apresentam-se com características


semelhantes se analisados isoladamente, tendo em vista que, em ambos os setores, o volume de
água consumida deve-se a efetivação de atos de higienização e acondicionamento de alimentos,
resultando em um líquido com resíduos essencialmente orgânicos. Tecnicamente esses despejos são
denominados de águas residuárias domésticas, esgotos domésticos ou esgotos sanitários.

As águas residuárias geradas em atividades industriais têm características próprias em função da


matéria-prima, do processo de industrialização utilizado e do produto industrializado. Espera-se, por
exemplo, que os esgotos de uma indústria de lacticínios tenham predominância acentuada de
matéria orgânica em seu meio, enquanto que os de uma metalúrgica caracterizar-se-ão pela presença
de óleos minerais, cianetos, compostos de cromo e outros metais pesados em sua composição.

Desta forma, estabelecimentos industriais isolados, em geral, têm seus esgotos reunidos aos de
origem doméstica após serem acondicionados tanto biológica como química e fisicamente para que
não sejam afetadas as características básicas das vazões receptoras, e para que não tragam
problemas de escoamento a jusante da rede coletora. Por essas razões os distritos industriais ou
grandes complexos fabris normalmente são dotados de sistemas de esgotamento próprios adequados
a realidade individual ou coletiva dessas unidades de transformação.

Sem a presença de oxigênio livre o esgoto entra em condições anaeróbias de decomposição, ou seja,
a vida microscópica passa a ser desenvolvida consumindo oxigênio procedente da decomposição de
compostos oxigenados presentes na mistura, prevalecendo a presença de hidrocarbonetos simples,
aldeídos parafínicos, ácidos carboxílicos, ésteres, etc. A partir desse ponto o esgoto adquire uma
aparência escura e libera continuamente gases de odor desagradável e ofensivos a saúde humana,
passando a ser denominado de esgoto séptico. É importante mencionar que gases inodoros também
podem ser tóxicos.

2.2. Composição e Classificação dos Esgotos Sanitários

Os esgotos sanitários têm em sua composição cerca de 0,1% de material sólido, compondo-se o
restante essencialmente de água. Essa parcela, numericamente tão pequena, é, no entanto, causadora
dos mais desagradáveis
transtornos, pois a mesma possui em seu meio microrganismos, na maioria unicelulares,
consumidores de matéria orgânica e de oxigênio e, muito provavelmente, a ocorrência de
patogênicos à vida animal em geral.
O esgoto doméstico chega à rede coletora com oxigênio dissolvido, resultante parte da água que lhe
deu origem e parte inserido através de turbulência normalmente ocorrida na sua formação, sólidos
em suspensão bem caracterizados e apresentando odores próprios do material que foi misturado a
água na origem. Com a movimentação turbulenta através dos condutos de transporte a parte sólida
sofre desintegração formando uma “vazão líquida” de coloração cinza-escura, com liberação de
pequenas quantidades de gases mal cheirosos, oriundos da atividade metabólica dos
microrganismos presentes em seu meio. Nestas condições o esgoto passa a ser denominado de
esgoto velho.

O aumento da lâmina líquida nos condutos originado do acréscimo das vazões para jusante e da
redução das declividades, dificulta a entrada do oxigênio atmosférico, enquanto que o oxigênio livre
no meio aquoso é consumido pelos microrganismos aeróbios. Se a capacidade de reaeração da
massa líquida não for suficiente para abastecimento das necessidades das bactérias, a quantidade de
oxigênio livre tende a zero, provocando o desaparecimento de toda a vida aquática aeróbia.

2.3. Presença Bacteriológica

2.3.1. Origem

A parcela da matéria orgânica presente nos esgotos sanitários é composta por um número muito
grande de microrganismos vivos oriundos, principalmente, do intestino dos indivíduos que
contribuíram para a formação das vazões esgotáveis. A quase totalidade desses microrganismos são
essenciais ao metabolismo interno dos alimentos que são ingeridos e são eliminados do interior do
organismo quando se faz uso de bacias sanitárias ou mictórios, por exemplo. A massa líquida
resultante da mistura das excretas humanas com águas de descargas é denominada de águas negras
ou águas imundas. Essas águas misturadas às que procedem das atividades de asseio, chamadas
de águas servidas, formam o esgoto doméstico.

De um modo geral quando outras vazões que não de origem estritamente doméstica são reunidas
propositadamente a estas, são porque se apresentam com composição orgânica de natureza
qualitativa similar, de modo que não alteram prejudicialmente o funcionamento do sistema de
esgotamento para jusante.

2.3.2. Patogênicos

Tem-se uma ideia quantitativa do número de bactérias presentes nos esgotos domésticos
observando-se a concentração de coliformes fecais, (êntero-bactérias comuns aos animais de sangue
quente) que é da ordem de 106 a 107 por cem mililitros (medida aproximada de um copo d'água).
Essas bactérias não são perigosas, mas sua presença em mananciais de água aventa a possibilidade
da presença de microrganismos prejudiciais a saúde do homem, chamados de agentes patogênicos,
provenientes das fezes ou urina de portadores destes sem, no entanto, implicar em alguma
proporcionalidade numérica entre si. A eliminação de coliformes pelos indivíduos é constante,
enquanto que a de patogênicos é função de que os mesmos estejam doentes ou simplesmente sejam
portadoras do agente infeccioso.

No estudo da composição dos esgotos sanitários podem ser encontrados agentes provocadores de
doenças transmissíveis tipo cólera, febres tifóides, disenterias, leptospirose, amebíase,
ancilostomose, shistosomose, etc., que dependendo do padrão de saúde da região, podem ser
configuradas como doenças endêmicas, que são enfermidades comuns aos habitantes de um lugar
ou de certos climas, e/ou epidêmicas, que são males que atacam uma coletividade em uma
determinada época, podendo repetir-se posteriormente ou não, dependendo das providências
sanitárias adotadas durante e após cessada a epidemia.

Na busca de possíveis contaminações os principais indicadores de contaminação fecal comumente


pesquisados é a quantificação dos coliformes totais (CT) e os fecais (CF) e os estreptococos fecais
(EF), sendo que os CT, que são coliformes encontrados normalmente em águas poluídas, em fezes
de seres humanos e de animais de sangue quente. Naturalmente estas bactérias também são
encontradas no solo e já foram mais utilizados como indicadores de contaminação no passado,
embora hoje ainda sejam trabalhadas.

Os CF são um grupo de êntero-bactérias originários do homem de outros animais de sangue quente


e são mais úteis em análises, pois sobrevivem a temperaturas mais altas (44 oC) que os totais (37oC).
A conhecida Escherichia coli é uma componente dos CF. Os EF são variedades êntero-intestinais
do homem (espécie predominante: Streptococus faecalis) e de outros animais. Historicamente a
relação CF/EF, quando menor que a unidade indica que a possível contaminação é devida a outros
animais de sangue quente e quando maior que "4" torna-se um indicador de que a contaminação foi
provocada por despejos de origem doméstica, porém estas relações atualmente estão em desuso.

Uma série de microrganismos patogênicos para o homem normalmente o atingem através dos
despejos fecais oriundos de pessoas infectadas. Esses microrganismos na sua maioria bactérias,
vírus, protozoários e vermes, provocam doenças entéricas infecciosas que podem ser fatais.

Quanto aos esgotos industriais, salvo aqueles originados no beneficiamento de produtos de origem
animal, tais como de indústrias de laticínios, por exemplo, não contém em seu meio número
significativo de microrganismos vivos.

Em casos especiais pode haver necessidade de se corrigir a concentração de outros constituintes


como, por exemplo, a concentração de compostos inorgânicos e/ou a cor antes da reutilização como
água para abastecimento. Esgotos com grandes frações de águas residuárias industriais podem
requerer tratamento especial para remover constituintes particulares, como pesticidas, compostos de
enxofre, metais pesados, etc.

2.3.3. Processos de Decomposição da Matéria Orgânica

Embora uma parte dos microrganismos vivos presentes nos esgotos sejam de natureza virótica, de
larvas, protozoários ou vermes, a grande maioria dessa população é de bactérias. E todas elas,
patogênicas ou não, necessitam para sobrevivência da espécie, de matéria orgânica como alimento e
oxigênio para respiração. A forma como esse oxigênio é adquirido pelas bactérias é o que as
diferenciam entre si do ponto de vista sanitário.

Denominam-se de bactérias aeróbias aquelas que consomem em sua atividade vital o oxigênio livre
presente no interior da massa líquida, originando o processo de decomposição biológica aeróbia do
esgoto também chamado de oxidação. Na ausência do oxigênio livre ou presença em quantidade
insuficiente para a realização do processo citado, desenvolve-se o processo de decomposição
anaeróbia ou putrefação que é realizado pelas bactérias anaeróbias as quais consomem o oxigênio
dos compostos orgânicos e inorgânicos em sua atividade metabólica como, por exemplo, dos
sulfatos (SO4=). Outras bactérias têm a faculdade, dependendo da presença ou não do oxigênio livre,
de comportarem-se como aeróbias ou anaeróbias. São as bactérias facultativas. Essas bactérias têm
o poder de manutenção da atividade biológica mesmo que o esgoto passe de condições aeróbias
para sépticas.
No tratamento dos esgotos, microrganismos aeróbios são encontrados nos processos de lodos
ativados e filtros biológicos e os anaeróbios predominam em digestão anaeróbia de esgotos
(reatores UASB, por exemplo) e digestores de lodo. As facultativas são ativas nas unidades aeróbias
e nas anaeróbias.
O mecanismo biológico de remoção da matéria orgânica nos esgotos chama-se de metabolismo
bacteriano. Quando o material orgânico é consumido para obtenção de energia este processo é
denominado de catabolismo e quando a matéria é usada para transformação em massa molecular, ou
seja, geração de novas bactérias, tem-se o anabolismo. Estes processos são interdependentes e
ocorrem simultaneamente, com relação variável em função do tipo de digestão: aeróbia ou
anaeróbia.

2.3.4. Comparação entre os Processos

De uma maneira ou de outra a matéria orgânica biodegradável presente no esgoto é decomposta


pela ação das bactérias nele presentes transformando-a em matéria estável, ou seja, as substâncias
orgânicas insolúveis dão origem a solúveis mineralizadas. Para efeito de comparação pode-se
afirmar que o processo aeróbio desenvolve-se com maior rapidez e seus produtos, gás carbônico,
nitratos, sulfatos e água, são mais facilmente assimilados pelos organismos superiores,
principalmente os vegetais, enquanto que do anaeróbio resultam metano, amoníaco e gás sulfídrico
entre outros, que são gases nocivos à saúde humana e de odor bastante desagradável, porém a
produção de lodo que vai requerer um tratamento posterior, é muito maior no aeróbio (vinte vezes),
além da bactéria aeróbia ser menos resistente à situações adversas. Muito frequentemente uma
estação de tratamento envolve processos anaeróbios combinados com aeróbios.

Nas cidades maiores, em função das grandes distâncias a serem percorridas pelas vazões de
esgotamento, é possível a ocorrência de septicidade dos esgotos no interior dos condutos, visto que
nestas condições é provável que todo o oxigênio livre presente inicialmente, seja consumido ao
cabo de quatro a seis horas de escoamento.

Portanto, sempre que possível, é vantajoso o fornecimento de oxigênio livre à massa de esgotos,
pois este procedimento acarreta aceleração na mineralização da carga orgânica, além de evitar os
transtornos ambientais provocados pelas substâncias geradas com o processo anaeróbio.

2.3.5. Corrosão Bacteriana

É importante também mencionar que não só o aspecto sanitário da ação bacteriana é motivo de
estudo. A estabilidade das unidades de um sistema de esgotos sanitários, bem como dos condutos e
equipamentos, pode ser significativamente afetada pela atividade de bactérias. Um exemplo
bastante citado na literatura de saneamento a descrição de um fenômeno comum nas regiões de
climas quentes e tropicais (temperaturas acima de 25 oC) nos esgotos em condições sépticas, com
elevado teor de sulfatos e projetados com pequenas declividades (< 0,008m/m). Na decomposição
anaeróbia, principalmente de albuminas, o consumo do oxigênio dos sulfatos (SO 4=) provoca o
aparecimento do gás sulfídrico (H2S), quimicamente um gás fraco e mal cheiroso, podendo ser
mortal para o homem em concentrações superiores a 300mg/L, que se desprende da massa líquida
para o espaço aéreo interno do conduto. O contato com o oxigênio (O 2) presente no ar circulante no
espaço livre do conduto e com as bactérias, favorece a condensação desses gases, originando ácido
sulfúrico, um ácido forte, após a utilização do enxofre por bactérias sulfurosas em seus processos
respiratórios e liberando energia. O ácido formado pela ação bacteriana tem alto poder de reação
sobre materiais ligantes como o cimento, originando sulfatos de cálcio, como esquematizado na
equação simplificada do fenômeno (Eq.2.1) e na Fig. 2.1.

bac. aeróbias
H2S + 2O2 -------------------> H2SO4 + CaCO3 ---------> H2CO3 + CaSO4 Eq.2.1
Thiobacillus

Esses sulfatos são compostos moles e quebradiços, sem condições de resistir às cargas externas,
tendendo, pois, ao desmoronamento das canalizações. A corrosão dos materiais metálicos pelo
ácido sulfúrico pode ser descrita de modo similar aos materiais ligados com cimento, inclusive com
os mesmos processos de aparecimento do ácido sulfúrico.

FIG. 2. 1 - Corrosão bacteriana do concreto nas canalizações de esgotos sanitários

Para evitar danos às canalizações em consequência do aparecimento de ácido sulfúrico devem ser
tomadas providências para sua eliminação ou a limitação de sua produção. Esse procedimento deve
ser efetuado através do controle do pH de descargas que contenham enxofre (mantê-lo entre 5,5 e
9,0), adição de produtos químicos oxidantes (cloro, por exemplo, reage não apenas com o gás
sulfídrico como também com as mercaptanas, reduzindo o mau cheiro característico nas condições
anaeróbias), evitar altas concentrações de DBO, aeração das vazões (oxigênio dissolvido mínimo da
ordem de 1mg/L), ventilação (com ventiladores primários conectados aos poços de visita) e limpeza
periódica dos condutos, tanto mecânica como quimicamente e, antes de tudo, um projeto bem
elaborado e implantado, principalmente no que disser respeito a declividades mínimas de projeto.

Além das providências citadas, nas canalizações construídas com materiais cimentados ou
metálicos, deverão ser empregados revestimentos internos a base de materiais vinílicos, resinas
epoxi ou ceras especiais capazes de resistir ao ataque químico dos ácidos fortes.
É importante lembrar que em qualquer sistema o problema será sazonal e que em cada situação as
soluções serão peculiares às circunstâncias de operação do sistema projetado.
2.4. Características Físicas

2.4.1. Aspectos Físicos

Na formação dos esgotos sanitários o adicionamento de impurezas a água de origem dão-lhe


características bem definidas as quais sofrem variações ao longo do tempo em virtude das
transformações internas decorrentes da desintegração e decomposição contínua da matéria orgânica.
Dentre estas características são de fácil percepção cor, turbidez, odor, presença de sólidos em
suspensão e temperatura.

Também se observa que a diminuição gradativa da quantidade de oxigênio dissolvido intensifica o


escurecimento da mistura esgotável e exalação de odores desagradáveis e ofensivos a saúde
humana. A temperatura é também uma importante determinação física e é função do clima da
região geográfica. O teor de sólidos é bastante variável (300 a 1200 mg/L) com aproximadamente
70% de matéria orgânica.

2.4.2. Tipos de Sólidos

São caracterizados como sólidos dos esgotos todas as partículas nele presentes em suspensão ou em
solução, sedimentáveis ou não, orgânicas ou minerais. A determinação da quantidade total de
sólidos presentes em uma amostra de esgotos sanitários é chamada de sólidos totais.

A separação dos tipos de sólidos presentes na mistura é feita em laboratório e classificada da


seguinte maneira:

 a) Sólidos Totais - massa sólida obtida com a evaporação da parte líquida da amostra a 100 o
a 105o C, em mg/L;
 Sólidos Minerais ou Fixos - resíduos sólidos retidos após calcinação dos sólidos totais a
500o C, em mg/L;
 Sólidos Orgânicos ou Voláteis - parcela dos sólidos totais volatilizada no processo de
calcinação, em mg/L;
 Sólidos em Suspensão - quantidade de sólidos determinada com a secagem do material
retirado por filtração da amostra, através de micromalha, de 0,45 mícron, em mg/L;
 Sólidos Dissolvidos - fração dos sólidos medida após evaporação da parte líquida da
amostra filtrada, em mg/L;
 Sólidos Sedimentáveis - porção das partículas em suspensão sedimentadas por ação da
gravidade quando a amostra é submetida a um período de repouso de uma hora em um cone
padronizado denominado cone de Imhoff, medida em ml/L (K. Imhoff, 1876-1965).

De um modo geral pode-se comentar que dos sólidos totais, 700mg/L em média, parte é de sólidos
suspensos (200mg/L) e o restante sólidos dissolvidos (500mg/L). Nos sólidos suspensos encontram-
se, em proporções mais ou menos iguais, sólidos sedimentáveis e não sedimentáveis, dos quais
75% são voláteis e 25% fixos. Entretanto quanto aos sólidos dissolvidos tem-se 30% de voláteis
contra 70% de fixos.
2.5. Características Químicas

2.5.1. Matéria Orgânica

Nas águas residuárias de origem doméstica, por exemplo, encontram-se presentes uma grande
variedade de compostos orgânicos inanimados e de microrganismos vivos (estes ou alguns destes já
podem estar presentes também no corpo receptor). O material orgânico pode estar na forma
molecular ou em aglomerados ditos particulado, enquanto que os microrganismos em geral são
microseres unicelulares. Estes microseres transformam o material orgânico usando-o como fonte de
energia e para a formação de novas células.

As principais categorias de matéria orgânica encontradas nos esgotos sanitários são proteínas,
carboidratos e lipídios. Proteínas são grandes complexos moleculares compostos de aminoácidos .
Carboidratos são compostos polihidroxilados tais como açúcares, celulose e amidos. Os lipídios são
substâncias orgânicas a base de óleos, graxas e gorduras. O volume de matéria orgânica
biodegradável presente em uma amostra de esgoto doméstico típico deverá apresentar 40% a 60%
de proteínas, 25% a 50% de carboidratos e cerca de 10% de lipídios.

A utilização do material orgânico pelos microrganismos chama-se metabolismo. No metabolismo o


consumo do material orgânico para obtenção de energia é denominado de catabolismo, enquanto
que a síntese de material celular a partir do material orgânico é denominada de anabolismo.
Portanto, da energia liberada nas reações parcela é consumida na respiração e mobilidade das
bactérias, enquanto que outra parcela é usada no crescimento de novas células (processo de
cissiparidade). O restante é perdido na forma de calor. A transformação da matéria orgânica no
interior dos esgotos pode ser descrita como mostrado no esquema da Figura 2.2.

FIG. 2. 2 - Esquema da Depuração Biológica

2.5.2. Quantificação da matéria orgânica

Sabe-se que devido a vasta variedade de compostos orgânicos em esgotos sanitários, é impraticável
(se não impossível!) uma identificação individual de todos eles, ou seja, a determinação quantitativa
dos diversos componentes da matéria orgânica nas águas residuárias seria extremamente difícil ou
mesmo impossível.

Por outro lado, para que se descrevam os processos metabólicos faz-se necessário que se caracterize
quantitativamente a concentração do material orgânico. Portanto é necessário que se utilize de um
parâmetro que use uma propriedade que todos têm em comum para avaliar a concentração de
compostos orgânicos, isto é, a necessidade desta quantificação faz com que se empreguem métodos
alternativos diretos ou indiretos para sua determinação.

Normalmente se parte de uma das duas propriedades que são características das substâncias
orgânicas: a) o material orgânico pode ser oxidado e b) o material orgânico contem carbono
orgânico.

Em laboratório um destes métodos indiretos rotineiramente empregado é a medição do consumo de


oxigênio na oxidação da matéria orgânica, ou seja, determinando-se o consumo de oxigênio na
degradação da amostra, calcula-se o conteúdo equivalente de matéria orgânica presente
originalmente.

Em pesquisas relativas a engenharia sanitária, normalmente são empregados dois testes


padronizados que se baseiam na oxidação do material orgânico: os testes da Demanda Bioquímica
de Oxigênio (DBO) e o teste da Demanda Química de Oxigênio (DQO). Em ambos os testes o
material orgânico e a concentração deste é determinada a partir da consumo de oxidante para a
oxidação. As diferenças essenciais entre as testes estão no oxidante utilizado e nas condições
operacionais prevalecentes em cada teste.

É fundamental salientar que os compostos orgânicos presentes no esgoto são divididos em dois
grupos: os biodegradáveis que são os compostos que podem ser oxidados pelo oxigênio (restos de
alimentos, por exemplo) e os não biodegradáveis (determinados tipos de detergentes e de derivados
de petróleo, por exemplo).

No teste da DBO prevalecem as condições de biodegradabilidade, portanto a matéria orgânica não


biodegradável não é afetada durante a realização do teste. Por outro lado os compostos orgânicos
que não provocam demanda de oxigênio durante o teste da DBO são quantificados no teste
da Demanda Química de Oxigênio (DQO). Assim na DBO determina-se o material orgânico
biodegradável, enquanto que o teste da DQO contabiliza-se todo o material orgânico inicialmente
presente na amostra.

Considerando-se que rotineiramente nos laboratórios trabalha-se com DQO, em função da


simplicidade do teste e com DBO por melhor traduzir o que ocorre na natureza, estes dois testes
serão estudados a seguir. Um terceiro teste pode ser utilizado no caso da necessidade da
quantificação de carbono orgânico como alternativa para quantificar a concentração do material
orgânico: o teste do Carbono Orgânico Total (COT).

2.5.3. Demanda Química de Oxigênio - teste da DQO

Um dos testes mais frequentemente empregados para a determinação do consumo de oxigênio é o


da DQO (demanda química de oxigênio). Este parâmetro mede o oxigênio equivalente ao conteúdo
de matéria orgânica de uma amostra que pode ser oxidada por um forte oxidante químico. Este teste
é baseado no princípio de que a quase totalidade dos compostos orgânicos pode ser oxidada por um
agente oxidante sob condições ácidas. E, então, mede-se o esgoto em termos da quantidade total de
oxigênio requerida na oxidação da matéria orgânica para CO2 e H2O como mostrado na equação
2.2.

CxHyOz + ¼ (4x + y - 2z) O2  x CO2 + (y/2)H2O Eq. 2.2

No teste da DQO, uma amostra de água residuária é adicionada a uma mistura de dicromato de
potássio e ácido sulfúrico, um forte oxidante. Considerando que alguns componentes do esgoto são
de mais lenta oxidação (gorduras, por exemplo) adiciona-se sulfato de prata como catalisador, isto
é, para aceleração da oxidação. A mistura esgoto-oxidante-ácido é aquecida até seu ponto de
ebulição e, após um período de duas horas nesta condição, a oxidação das substâncias orgânicas
estará praticamente completa (mais de 95%). A verificação desta oxidação é feita empregando-se
uma solução de uma substância orgânica com concentração conhecida, em geral fenolftaleína.

Segundo o professor Adrianus van Haandel em Tratamento Anaeróbio de Esgotos (1994), a DQO
teórica da solução é calculada a partir da estequeometria de sua oxidação. O valor teórico pode ser
comparado com o valor experimentalmente obtido. Formulando a matéria orgânica como C xHyOz ,
a reação de oxidação será expressa como:

A partir dos pesos atômicos dos elementos químicos envolvidos na reação, H (1 g/mol), C (12
g/mol) e O (16 g/mol), conclui-se que, teoricamente, 1 mol de material orgânico, ou seja, uma
massa de 12x + 1y + 16z gramas de material orgânico consome ¼ de (4x + y - 2z) moles de
oxigênio ou 8(4x + y - 2z)g de O2 (lembrar que O2 = 2 x 16 g/mol \ 32/4 = 8).

Diante deste raciocínio pode-se, então, calcular a DQO teórica de uma solução de CxHyOz como:

DQOtotal = 8(4x + y - 2z) / (12x + y + 16z) mg de DQO / mg de CxHyOz.

Exemplos:

1. Metano - CH4
DQOtotal = 8(4x1+ 1x4 - 2x0) / (12x1+ 1x4 + 16x0) = 4mg de DQO/mg de CxHyOz ,
ou seja, 1 grama de material orgânico (como DQO) equivale a ¼ = 0,25 g CH 4;

2. Ácido oxálico - (COOH)2


DQOtotal = 8(4x2+ 1x2 - 2x4) / (12x2+ 1x2 + 16x4) = 0,18mg de DQO/mg de C xHyOz ,
ou seja, 1 grama de material orgânico (como DQO) equivale a 1/0,18 = 5,6g (COOH) 2;

3. Dióxido de carbono - CO2


DQOtotal = 8(4x1+ 1x0 - 2x2) / (12x1+ 1x0 + 16x2) = 0mg de DQO/mg de CxHyOz ,
significando que o CO2 já é uma substância totalmente oxidada.

Como dito inicialmente, sendo este teste uma maneira indireta de determinação quantitativa da
matéria orgânica presente na mistura através do consumo de oxigênio, então o que realmente se está
afirmando é que massa de material orgânico significa massa de oxigênio necessária para oxidar o
material orgânico.
Analisando-se os exemplos torna-se elementar entender as afirmações conclusivas em cada um
deles, ou seja, 0,25 g CH4 ou 5,6g (COOH)2 requerem uma massa de 1g O2 para sua completa
oxidação, no caso, 1 grama de material orgânico como DQO. Convencionou-se, então, quando se
usa oxigênio para oxidação de material orgânico, que a massa de oxigênio consumido será, por
definição, exatamente igual à massa de material orgânico oxidada como DQO. Voltando aos
exemplos pode-se afirmar: 0,25 g CH4 ou 5,6g (COOH) completamente oxidados, equivalem a 1
grama de material orgânico como DQO. Logo a massa de material orgânico oxidado em um sistema
de tratamento de esgotos pode ser medida através da determinação da massa de oxidante consumida
para esta oxidação, determinada em laboratório.

2.5.4. Demanda Bioquímica de Oxigênio - teste da DBO

O consumo concomitante de oxigênio nos processos de estabilização biológica da matéria presente


nos volumes de esgotos sanitários, implica na necessidade de quantificar-se esse consumo de
oxigênio tendo em vista que a sua determinação é um indicador do teor da matéria orgânica
biodegradável diluída. Dessa necessidade surgiu o conceito de Demanda Bioquímica de Oxigênio
(DBO) que literalmente pode ser definida como a quantidade de oxigênio livre necessária para
estabilizar bioquimicamente a matéria orgânica através da ação de bactérias aeróbias. Esse
parâmetro normalmente é expresso em miligrama de oxigênio por litro de esgoto (mgO 2/L). É
importante observar que o mesmo exclui degradação em condições sépticas.

No teste da DBO, embora a quantificação do material orgânico também seja feita a partir do
consumo do oxidante usado, neste o oxidante empregado é o oxigênio dissolvido que, através da
ação de estritamente biológica por bactérias, promove uma reação de redox com o material orgânico
biodegradável. Quando não há bactérias em concentração suficiente nas amostras, estas devem ser
adicionadas em um processo chamado em saneamento de semeadura, juntamente com nutrientes,
para que se tenha a noção mais realista possível do teor de material orgânico biodegradável
presente.

Uma diferença significativa de ordem prática entre os testes é que no da DQO a oxidação do
material orgânico quimicamente oxidável é completada em cerca de duas horas, enquanto que a
oxidação biológica de material orgânico leva várias semanas para ser concluído, por ser um
processo natural. Ainda segundo o professor van Haandel, no livro já citado, vários são os motivos
que provocam esta lentidão. No caso das águas residuárias com grande variedade de compostos
orgânicos, a taxa de oxidação do material orgânico depende da natureza e do tamanho de suas
moléculas.

Pequenas moléculas podem ser consumidas de imediato pelas bactérias, mas as macromoléculas do
material coloidal como as proteínas, os carbohidratos e os lipídios, precisam ter suas moléculas
quebradas em unidades menores para que possam ser assimiladas. Da mesma maneira o material
dito particulado somente poderá ser metabolizado após ser "dissolvido" para compostos
moleculares. No caso de esgotos sanitários este processo demora cerca de quarenta dias ou mais.

Como em laboratório torna-se impraticável esperar tanto tempo pelo resultado do teste, por uma
questão até de espaço e de equipamentos e até por razões históricas, os ensaios para a determinação
da DBO, são desenvolvidos com uma incubação da amostra durante 5 dias. Como em condições
normais de diluição toda a matéria orgânica biodegradável deve estar estabilizada após cerca de 30
dias de atividade biológica aeróbia, restando praticamente consumos residuais de oxigênio em
processos de nitrificação, convencionou-se cinco dias para o desenvolvimento do teste, período em
que a reação é mais intensa.

Como a taxa de oxidação seria influenciada pela temperatura e pela atividade fotossintética, durante
o teste as amostras são mantidas a uma temperatura constante de 20 oC (um valor médio para as
condições ambientais normais de temperatura) e fora do alcance da luz. Isto significa que o
parâmetro DBO de uma água residuária representa o consumo biológico de oxigênio durante um
período de incubação de 5 dias a uma temperatura de 20oC (DBO520).

Determinada a DBO520 pode-se empregar a relação empírica de Phelps (1944), citado em


Tratamento Anaeróbio de Esgotos, para esgoto sanitário bruto, a DBO total pode ser estimada pela
expresssão:

DBOt = DBOúltima (1 - e- 0,23 t) Eq. 3.3

onde t é o período de incubação.

2.5.5. Comparação entre os parâmetros

O valor da DBO última (DBOu) será sempre inferior ao da DQO total do material biodegradável
(DQOb), visto que na degradação biológica a oxidação não é completa. Esta diferença resulta de que
ao consumir material orgânico parte deste é convertido em novas bactérias e no final tem-se uma
fração de material celular que não é oxidada, mesmo após um longo período de incubação. Esta
massa orgânica resultante é denominada de resíduo endógeno. Segundo McCarthy e Brodersen
(1962), esta parcela corresponde a cerca de 13% da carga orgânica inicial de modo que a DBO
infinita equivale a 87% da DQO biodegradável.
Sabe-se que na maioria das águas residuárias o material orgânico é uma mistura de material
biodegradável e não biodegradável e que existe uma proporcionalidade entre a DBO u e a DQOb de
cerca de 87% da DQOb (concentração de DQO biodegradável), então:

DBO520 = 0,68.DBOu = 0,68 x 0,87.DQOb = 0,59.DQOb Eq. 2.4

ou

DQOb /DBO520 = 1,70. Eq. 2.5

É lógico que a presença de material não biodegradável elevará a razão DQO/DBO 520 para um valor
maior que 1,70 (no caso de esgoto doméstico, a razão geralmente se situa na faixa de 1,8 a 2,2)

2.5.6. Frequência dos testes da DBO e da DQO

Em um estudo de caracterização da matéria orgânica presente em um determinado esgoto faz-se


necessário que se desenvolva testes consecutivos tanto de DQO como de DBO, ou seja, que se
conheça o valor médio destes dois parâmetros. Como o teste da DBO na prática é mais complicado
pelos motivos já expostos, geralmente realiza-se a DQO com maior frequência, porque esse teste
leva a um resultado de mais abrangente em um menor espaço de tempo.

O teste da DBO é realizado com menor frequência, porém em um número razoável para os
objetivos do estudo e procurando-se estabelecer uma relação empírica entre as concentrações da
DBO e da DQO. Definida esta relação pode-se, então, estimar o valor da DBO a partir do da DQO.
O teste da DQO tem outra vantagem muito significativa que é a possibilidade de se fazer o balanço
de massa. Pelo balanço de massa pode-se verificar se os procedimentos experimentais usados nos
testes foram adequados e se os testes foram realizados corretamente.

Uma das limitações do teste da DBO é que, como foi dito, a transformação do material orgânico
ocorre em um ambiente aeróbio e os resultados não podem ser tomados como indicativos confiáveis
para o caso de uma degradação anaeróbia. No caso de um sistema anaeróbio de tratamento torna-se
necessário que se determine a concentração do material orgânico no afluente que pode ser removido
através da digestão anaeróbia e, depois, a concentração do material orgânico biodegradável presente
no efluente do sistema.
2.5.7. Nitrogênio

Nitrogênio merece especial atenção nas análises químicas das amostras dos esgotos porque sendo
um nutriente indispensável para o crescimento dos microrganismos responsáveis pela depuração
biológica, seus compostos favorecem o desenvolvimento de algas e plantas aquáticas que podem
comprometer a qualidade dos efluentes, caso sua presença seja excessiva, favorecendo o
aparecimento da eutrofização nos corpos receptores. No meio aquático o nitrogênio pode estar
presente nas formas molecular (gasosa), orgânica (dissolvida ou em suspensão), amoniacal como
amônia livre (NH3) ou ionizada (NH4+), de nitritos (NO2- ) e de nitratos (NO3= ).

Sendo um constituinte natural de proteínas, clorofila e muitos outros compostos biológicos é,


portanto, lógico que sua presença seja comum nos esgotos sanitários e sua determinação seja um
parâmetro fundamental para caracterização de águas residuárias brutas e tratadas. Em esgotos
domésticos brutos as formas predominantes são o orgânico e o amoniacal (cerca de 99% do
nitrogênio total). Quanto a esta última forma, de um modo geral, para pH superiores a 11
praticamente só se encontra amônia na forma NH3 e para pH inferiores a 8 a situação inverte-se.
Saliente-se que a presença de amônia livre, mesmo em pequenas concentrações, é prejudicial aos
peixes.

O nitrogênio aparece nos esgotos na forma orgânica (5 a 40mg/L) ou de amônia (10 a 50mg/L),
sendo que essa amônia (NH3) pode ser oxidada pela ação de bactérias e o excesso oxidado para
nitritos e, posteriormente, nitratos como mostram as equações seguintes:

Este processo é chamado de nitrificação e sua ocorrência nas estações de tratamento, como mostram
as equações, implica no consumo de oxigênio dissolvido, além de alcalinidade com a redução do
pH, o que se não for controlado pode trazer sérios problemas de eficiência, inclusive na
sedimentabilidade do lodo, através do azedamento do meio. A redução do nitrato para nitrogênio
gasoso é denominado de desnitrificação.

Nos cursos de água a presença de compostos de nitrogênio pode ser um indicador de despejos de
esgotos a montante e da ”idade” destas ocorrências. Por exemplo, a presença excessiva de
nitrogênio amoniacal indicará poluição recente e a predominância de nitratos a possibilidade de
uma descarga mais antiga ou mais distante.

2.5.8. Fósforo

O fósforo assim como o nitrogênio, é um nutriente essencial para o crescimento dos


microrganismos responsáveis pela biodegradabilidade da matéria orgânica e também para o
crescimento de algas, o que pode favorecer o aparecimento da eutrofização nos receptores.
Normalmente sua presença em despejos domésticos é suficiente para promover a crescimento
natural dos microrganismos, porém certos despejos industriais tratáveis biologicamente podem
requerer adição deste elemento como complemento para o desenvolvimento satisfatório da massa
biodegradadora.

O fósforo presente nos esgotos domésticos (5 a 20mg/L) tem procedência, principalmente, da urina
dos contribuintes e do emprego de detergentes usualmente utilizados nas tarefas de limpeza. Este
fósforo apresenta-se principalmente nas formas de ortofosfato, poli ou pirofosfatos e fósforo
orgânico. Cerca de 80% do total é de fósforo inorgânico, 5 a 15mg/L (poli + orto), enquanto que o
orgânico varia de 1 a 5mg/L.

Nos esgotos domésticos de formação recente a forma predominante de ortofosfato é HPO 4= ,


originada em sua maior parte da diluição de detergentes e favorecido pela condição de pH em torno
da neutralidade. Porém sua predominância tende a ser acentuada a medida que o esgoto vá
envelhecendo, uma vez que os polifosfatos (moléculas complexas com mais de um "P" e que
precisam ser hidrolisadas biologicamente) e os fósforos orgânicos (pouco representativos)
transformam-se, embora lentamente, em ortofosfato, o que deve acontecer completamente até o
final do tratamento dos esgotos, visto que é nesta forma que ele pode ser assimilado diretamente
pelos microrganismos.

Assim sendo, a sua determinação é um parâmetro fundamental para caracterização de águas


residuárias brutas e tratadas, embora por si só sua presença não seja um problema sanitário muito
importante no caso de águas de abastecimento.

2.5.9. pH e Alcalinidade

O termo pH expressa a intensidade da condição ácida ou básica de um determinado meio. É


definido como o cologarítmo decimal da concentração efetiva ou atividade dos íons hidrogênio (pH
= - log aH+). Os esgotos sanitários apresentam-se de um modo geral neutros ou ligeiramente
alcalinos (pHde 6,7 a 7,5) devido ao consumo de sal como tempero nos alimentos pela população e
da presença de cloretos (30 a 85mg/L) juntamente com compostos de cálcio (30 a 50mg/L)
procedentes de infiltrações ocorridas ao longo dos condutos ou da própria água de origem (O
padrão de potabilidade em vigor no Brasil, preconiza uma faixa de pH entre 6,5 e 8,5).

A determinação do pH é uma das mais comuns e importantes no contexto do tratamento de água


residuárias por processos químicos ou biológicos. Nestas circunstâncias o pH deve ser mantido em
faixas adequadas ao desenvolvimento das reações químicas ou bioquímicas do processo. No
tratamento de lodos de estações de tratamento de esgotos, especificamente através da digestão
anaeróbia, o pH se constitui num dos principais fatores de controle do processo. Também é
importante a determinação da quantidade de sulfatos (20 a 60mg/L) que têm sua origem na
formação das águas residuárias.
Alcalinidade, que é a medida da capacidade do líquido em neutralizar ácidos, é resultante da
presença de ácidos fracos, bases e seus sais derivados, e seu teor nos esgotos, está ligado a
qualidade da água de abastecimento. Devido a capacidade de atuar como tampão contra a queda do
pH, a alcalinidade é um importante parâmetro na caracterização do esgoto doméstico e,
principalmente no esgoto industrial, tendo em vista que o bom desempenho do tratamento biológico
adotado depende muito da manutenção das condições de neutralidade do pH. No caso particular dos
esgotos de Campina Grande, onde chega a mais de 300mg/L de CaCO3, tratamentos biológicos são
altamente favorecidos.

2.6. Concentrações de Gases nos Esgotos

A presença de gases danosos a saúde do homem nas canalizações de esgoto, especialmente o gás
sulfídrico, torna-se um perigo potencial para os operários da manutenção. Concentrações de 10 a
50ppm de H2S na atmosfera do ambiente provocam irritações nos olhos e nariz e dores de cabeça
para permanência de até duas horas de trabalho em contato com o esgoto. Em tarefas que exijam
mais horas de exposição do trabalho, concentrações em torno de 50ppm podem provocar cegueira
temporária.
Concentrações de cerca de 100ppm não são recomendáveis para permanência de mais de uma hora.
Trabalhar sob taxas de 300ppm podem levar a morte e acima de 3000ppm esta deverá ocorrer de
forma instantânea.

Não é possível estabelecer concentrações típicas de H2S no interior dos condutos de esgotos. Sabe-
se, no entanto, que a quantidade do gás depende das características da rede coletora, principalmente
maiores extensões e menores concentrações de oxigênio livre, e da temperatura que quanto mais
baixa dificulta as atividades dos microrganismos produtores de sulfetos. Pode-se afirmar que
concentrações além de 100ppm seriam consideradas excessivas.

Velocidades de autolimpeza e diâmetro adequados, pontos de aeração estratégicos e manutenção


eficiente do sistema, dificultam a produção dos gases perigosos no meio da massa líquida dos
esgotos.

Um projeto bem elaborado não deve apresentar concentrações de H 2S superiores a 5,0ppm nas
atmosferas dos condutos.

2.7. Conclusão

Foi descrito que as características Físicas, Químicas e Bacteriológicas dos efluentes sanitários
dependem da qualidade da água consumida pela população e dos costumes alimentares desta, bem
como da reunião aos esgotos de despejos de fontes não domésticas e até de possíveis infiltrações ao
longo da rede coletora. É fundamental, pois, a implantação de um projeto bem elaborado de modo a
coletar eficientemente e transportar segura e rapidamente às unidades de tratamento, para que se
tenham menos problemas de operação e manutenção dos sistemas de esgotos sanitários. É
imprescindível também que essa operação seja eficiente, sem a qual não adiantaria a “perfeição” do
projeto executivo. Em um estudo de caracterização física, química e biológica de esgotos sanitários
“in natura” é fundamental o estabelecimento de suas possíveis origens.

2.8. Exercícios

 Definir despejos líquidos e águas residuárias.


 Que se entende por razões estéticas? e higiênicas?
 Que significam:

- microrganismos patogênicos?
- seres unicelulares?
- sólidos em suspensão?
- águas negras ou imundas?
- doenças entéricas e enterobactérias?

 Definir oxigênio dissolvido, esgoto velho e esgoto séptico.


 O que significa o termo “concentração” no estudo da microbiologia?
 Que são bactérias aeróbias, anaeróbias e facultativas?
 Explicar o significado de:

- carga orgânica dos esgotos;


- matéria orgânica biodegradável;
- corrosão bacteriana;
- decomposição anaeróbia e aeróbia;
- demanda bioquímica de oxigênio (DBO);
- características físicas dos esgotos; e químicas; e bacteriológicas;
- teor de sólidos.

 Classificar e definir os diversos tipos de sólidos presentes nos esgotos domésticos. Pesquisar
as origens desses sólidos.
 Que são proteínas? e carboidratos? e lipídios?
 Por que ocorre corrosão na parede superior interna de alguns coletores sanitários? e no
fundo do coletor?
 Comparar:

- processos de oxidação e putrefação;


- poluição e contaminação;
- epidemia e endemia.

 Pesquisar o significado de:

- vírus, rotavirus e enterovirus:


- bactérias, bacilos, leptospiras, espiroquetas e salmonelas;
- protozoários, vermes, micróbios, germes e larvas;
- nematódeos e nematóides;
- nitrossomonas e nitrobacter;
- nitrificação, nitritos e nitratos;
CAPÍTULO III

VAZÕES DE CONTRIBUIÇÃO

3.1. Introdução

O projeto de um sistema de esgotos sanitários depende fundamentalmente dos volumes de


líquido a serem coletados ao longo da rede coletora. Esses volumes irão depender de uma série de
fatores e circunstâncias tais como qualidade do sistema de abastecimento de água, população
usuária e contribuições industriais, entre outros, sendo que a partir das suas definições,
serão dimensionados os órgãos constitutivos do sistema.

As vazões de esgotos sanitários formam-se de três parcelas bem distintas, a saber,


contribuições domésticas, normalmente a maior e a mais importante do ponto de vista sanitário,
vazões concentradas, em geral de origem industrial e a inconveniente, mas sempre presente, parcela
de águas de infiltrações.

O estudo para determinação do valor de cada uma dessas parcelas será desenvolvido nos itens
seguintes deste capítulo.

3.2. Contribuição Doméstica

3.2.1. Origem

O consumo contínuo de água potável no desempenho diário das atividades domésticas,


produz águas residuárias ditas “servidas” quando oriundas de atividades de limpeza e as “negras”
quando contém matéria fecal. Como esses despejos têm normalmente origem na utilização da água
dos sistemas públicos de abastecimento, espera-se que a maior ou menor demanda de água
implicará, proporcionalmente, na maior ou menor contribuição doméstica de vazões a esgotar.

3.2.2. Coeficiente de Retorno “c”

É natural que parcela da água fornecida pelo sistema público de abastecimento de água não seja
transformada em vazão de esgotos como, por exemplo, a água utilizada na rega de jardins, lavagens
de pisos externos e de automóveis, etc. Em compensação na rede coletora poderão chegar vazões
procedentes de outras fontes de abastecimento como do consumo de água de chuva acumulada em
cisternas e de poços particulares.

Essas considerações implicam que, embora haja uma nítida correlação entre o consumo do sistema
público de água e a contribuição de esgotos, alguns fatores poderão tornar esta correlação maior ou
menor conforme a circunstância.

De acordo com a frequência e intensidade da ocorrência desses fatores de desequilíbrio, a relação


entre o volume de esgotos recolhido e o de água consumido pode oscilar entre 0,60 a 1,30, segundo
a literatura conhecida. Esta fração é conhecida como relação esgoto/água ou coeficiente de retorno e
é representada pela letra “c”. De um modo geral estima-se que 70 a 90% da água consumida nas
edificações residenciais retorna a rede coletora pública na forma de despejos domésticos. No Brasil
é usual a adoção de valores na faixa de 0,75 a 0,85, caso não haja informações claras que indiquem
um outro valor para “c”.
3.2.3. Contribuição Per Capita Média “c.q”

Como consequência da correlação das contribuições de esgoto com o consumo de água, torna-
se necessário o conhecimento prévio dos números desta demanda para que se possa calcular com
coerência o volume de despejos produzidos.

Um dos parâmetros mais importante nos projetos de abastecimento de água é a quantidade de água
consumida diariamente por cada usuário do sistema, denominado de consumo per capita médio e
representado pela letra “q”. Esse parâmetro, na maioria das vezes, é um valor estimado pelos
projetistas em função dos aspectos geoeconômicos regionais, desenvolvimento social e dos hábitos
da população a ser beneficiada. Esse procedimento é frequente em virtude do caráter
eminentemente prioritário dos projetos de sistemas de abastecimento de água na infraestrutura
pública sanitária das comunidades.

Partindo-se, pois, da definição do per capita de consumo de água pode-se determinar o per capita
médio de contribuição de esgotos que será igual ao produto “c.q”.

De um modo geral, no Brasil adotam-se per capitas médios diários de consumo de água da ordem
de 150 a 200 l/hab.dia para cidades de até 10000hab e per capitas maiores para cidades com
populações superiores. As normas brasileiras permitem o dimensionamento com um mínimo de 100
l/hab.dia, devidamente justificado, e o mesmo valor para indicar o consumo médio para populações
flutuantes. Em áreas onde a população tem renda média muito pequena e os recursos hídricos são
limitados, como por exemplo em pequenas localidades do interior nordestino, este per capita pode
atingir valores inferiores a 100 l/hab.dia. Em situações contrárias e onde o sistema de abastecimento
de água garante quantidade e qualidade de água potável continuamente, este coeficiente pode
ultrapassar os 500 l/hab.dia.

3.2.4. População de Projeto

3.2.4.1. Generalidades

Denomina-se população de projeto a população total a que o sistema deverá atender e volume diário
médio doméstico o produto entre o número de habitantes beneficiados pelo sistema e o per capita
médio de contribuição produzido pela comunidade.

Com relação a determinação desta população, dois são os problemas que se apresentam como de
maior importância: população futura e densidade populacional. A determinação da população futura
é essencial, pois não se deve projetar um sistema de coleta de esgotos para beneficiar apenas a
população atual de uma cidade com tendência de crescimento contínuo. Esse procedimento, muito
provavelmente, inviabilizaria o sistema logo após sua implantação por problemas de
subdimensionamento.

Além do estudo para determinação do crescimento da população há a necessidade também de que


sejam desenvolvidos estudos sobre a distribuição desta população sobre a área a sanear, pois,
principalmente em cidades maiores, a ocupação das áreas centrais, por exemplo, é
significativamente diferenciada da ocupação nas áreas periféricas.

Assim se torna prioritário que os sistemas de esgotamento devam ser projetados para funcionarem
com eficiência ao longo de um predeterminado número de anos após sua implantação e, por isto, é
necessário que o projetista seja bastante criterioso na previsão da população de projeto.
3.2.4.2. Crescimento de população

A expressão geral que define o crescimento de uma população ao longo dos anos é

P = Po+ ( N - M ) + ( I - E ) , Eq. 3.1

onde:
P = população após “t” anos;
Po= população inicial;
N = nascimento no período “t”;
M = mortes, no período “t”;
I = imigrantes no mesmo período;
E = emigrantes no período.

Esta expressão, embora seja uma função dos números intervenientes no crescimento da população,
não tem aplicação prática para efeito de previsão devido a complexidade do fenômeno, o qual está
na dependência de fatores políticos, econômicos e sociais.

Para que estas dificuldades sejam contornadas, várias hipóteses simplificadoras têm sido expostas
para obtenção de resultados confiáveis e, acima de tudo, justificáveis.

Logicamente não havendo fatores notáveis de perturbações, como longos períodos de estiagem,
guerras, etc., ou pelo contrário, o surgimento de um fator acelerador de crescimento como, por
exemplo, a instalação de um polo industrial, pode-se considerar que o crescimento populacional
apresenta três fases distintas:

 1ª fase - crescimento rápido quando a população é pequena em relação aos recursos


regionais;
 2ª fase - crescimento linear em virtude de uma relação menos favorável entre os recursos
econômicos e a população;
 3ª fase - taxa de crescimento decrescente com o núcleo urbano aproximando-se do limite
de saturação, tendo em vista a redução dos recursos e da área de expansão.
 Na primeira fase ocorre o crescimento geométrico que pode ser expresso da seguinte forma
 P = Po ( 1 + g )t , Eq. 3.2
 onde “P” é a população prevista, “Po” a população inicial do projeto, “t” o intervalo de anos
da previsão e “g” a taxa de crescimento geométrico (ou exponencial) que pode ser obtida
através de pares conhecidos (ano Tii, população Pi), da seguinte forma

 . Eq. 3.3
 Na segunda fase o acréscimo de população deverá ter características lineares ao longo do
tempo e será expresso assim
 P = Po + at , Eq. 3.4
 onde P, Po e “t” tem o mesmo significado e “a” é a taxa de crescimento aritmético (ou
linear) obtida pela razão entre o crescimento da população em um intervalo de tempo
conhecido e este intervalo de tempo, ou seja,

 . Eq. 3.5
 Na terceira fase os acréscimos de população tornam-se decrescentes ao longo do
tempo e proporcionais a diferença entre população efetiva P e e a população máxima de
subsistência na região, Ps (população de saturação). Esta relação é expressa da seguinte
maneira:
 , Eq. 3.6
 que é conhecida como equação da curva logística e cuja representação gráfica encontra-se
representada na Fig.3.1. Esta expressão foi desenvolvida pelo matemático belga Pierre
François Verhulst (1804 - 1849), em 1838.


FIG. 3. 1 - Curva logística de crescimento de população
Deve-se observar, no entanto, que o progresso técnico pode alterar a população máxima prevista
para um determinado conglomerado urbano, sendo um complicador a mais a ser avaliado em um
estudo para determinação do crescimento da população.

Para aplicação da equação Eq.3.5 deve-se dispor de três dados de populações correspondentes a três
censos anteriores recentes e equidistantes, ou seja, três pares (T1, P1), (T2, P2) e (T3, P3) de modo
que

(T3- T1) = 2 (T2 - T1) , P1 < P2 < P3 e P22 > P3 . P1.

Feitas essas verificações calculam-se

Eq. 3.7

Eq. 3.8

Eq. 3.9
e
e = 2,718281828, base neperiana.

Por exemplo, se para uma cidade fictícia os resultados dos últimos três censos registrassem o
seguinte quadro:

Ano do censo População (hab.)


1970 274 403
1980 375 766
1990 491 199

então,
T3 - T1= 2 ( T2 - T1 ), ou seja, 1990 - 1970 = 2 ( 1980 - 1970 ) e P22> P1.P3, isto é,
375 7662 = 1,412. 1011 > 274 403 x 491 199 = 1,348. 1011,
o que permite a aplicação do método da curva logística. Sendo assim, pode-se calcular

De acordo com os parâmetros encontrados pode-se verificar, por exemplo, a população para

 t=0

o que equivale a P1 (mostrando que o estudo de projeção indica a população inicial);

 t = 20 anos

equivalendo pois, a população P3;

 t = 50 anos (30 anos após o último censo)

 t = ilimitado ou infinito

e, como era de se esperar nesta situação, encontrou-se um valor semelhante ao de saturação.

Além desses três métodos de crescimento ditos matemáticos convencionais, o projetista poderá criar
outras expressões que o mesmo achar mais conveniente e justificável como, por exemplo, relacionar
o crescimento da cidade com o crescimento do estado, com o crescimento de empregos, etc.
Também poderá lançar mão de métodos gráficos como o simples traçado de uma curva arbitrária
que se ajuste aos dados já observados sem a preocupação de estabelecimento de uma expressão
matemática para a mesma. Este método é denominado de prolongamento manual ou extrapolação
gráfica.

Outro método frequentemente mencionado na literatura sobre o assunto é o método gráfico


denominado comparativo. O mesmo consiste na utilização de dados censitários de cidades nas
mesmas condições geoeconômicas que a cidade em previsão e que já tenham população superior a
esta. Admite-se, então, que a cidade em análise tenha um crescimento análogo às maiores em
comparação. Colocando-se os dados de população em um sistema de eixos cartesianos tempo x
população e transportando-se para o ponto referente a população atual da cidade em estudo,
paralelas às curvas de crescimento das cidades em comparação, a partir do ponto onde tais cidades
tinham a população atual da cidade em previsão, obtém-se um feixe de curvas cuja resultante média
considera-se como a curva de previsão para a cidade menor (Fig.3.2).

FIG. 3. 2 - Curvas comparativas

OBS: Em termos de normalização, a NB-587/89-ABNT prevê para estimativa de população a


aplicação de modelos matemáticos (mínimos quadrados) aos dados censitários do IBGE.

3.2.4.3. População Flutuante

Em certas cidades, além da população residente, o número de pessoas que a utilizam


temporariamente é‚ também, significativo e tem que ser considerado no cálculo para determinação
das vazões. É o caso de cidades balneárias, estâncias climáticas, estâncias minerais, etc. Esta
população é denominada de população flutuante.

Da mesma maneira que é feito para a população fixa, também estudos deverão ser desenvolvidos
para que a população flutuante seja determinada.

3.2.4.3. Densidade Demográfica

Por definição a intensidade de ocupação de uma área urbana é a densidade demográfica e, em


termos de saneamento, é geralmente expressa em habitantes por hectare (hab/ha) com tendência a
valores crescentes das áreas periféricas para as centrais nas cidades maiores.

Como ilustração para essas afirmações é apresentado a seguir um quadro com valores médios
frequentemente encontrados no estudo de distribuição urbana das populações Área x Densidade:
Tipo de Ocupação Urbana da Área Densidade
(hab/ha)
- áreas periféricas c/casas isolados e grandes lotes 25 a 50
(~800m²)
- casas isoladas com lotes médios e pequenos (250 a 60 a 75
450m²)
- casas geminadas com predominância de um pavimento 75 a 100
- casas geminadas com predominância de dois pavimentos 100 a 150
- prédios pequenos de apartamentos (3 a 4 pavimentos) 150 a 300
- prédios altos de apartamentos (10 a 12 pavimentos) 400 a 600
- áreas comerciais c/ edificações de escritórios 500 a 1000
- áreas industriais 25 a 50

É prioritário nas obras de saneamento analisar como as populações futuras serão distribuídas sobre a
área. Para que estes resultados sejam confiáveis e resultem em um bom desempenho do projeto,
diversos fatores devem ser considerados tais como condições topográficas, expansão urbana, custo
das áreas, planos urbanísticos, facilidades de transporte e comunicação, hábitos e condições
socioeconômicas da população, infraestrutura sanitária, etc.

São importantes nestes estudos, os levantamentos cadastrais da cidade bem como a existência de
um plano diretor associado a uma rígida obediência ao código municipal de obras.

3.2.4.5. Equivalente Populacional

Sabe-se até então que um projeto de um sistema de esgotos sanitários é definido a partir da
determinação da população contribuinte. No caso da reunião de uma vazão industrial à contribuição
doméstica é costume, para fins de dimensionamento, transformar a vazão exemplificada em uma
contribuição resultante de uma população equivalente, ou seja, uma população que corresponderá a
quantidade de contribuintes que produziriam o mesmo volume de esgotos gerados pela unidade
fabril. Esse procedimento é muito importante para o dimensionamento, notadamente de unidades de
tratamento.

Para que a determinação do número equivalente de contribuintes seja confiável deve-se conhecer a
fonte desta vazão bem como o seu nível de produção. No Brasil, quando se trata de determinação de
dados hidráulicos, relaciona-se diretamente com o consumo de água de abastecimento e quando se
trata da carga orgânica toma-se como valor padrão 54g/hab.dia, desde que não haja pesquisas locais
que indiquem outro valor. No quadro abaixo é mostrada uma série de contribuições
tradicionalmente adotadas em diferentes países do nosso globo. Em pesquisas efetuadas na
EXTRABES/UFPB, em Campina Grande, Paraíba, foi obtido 39g/hab.dia.

Contribuição orgânica média per capita


Carga Orgânica
País
(g / hab.dia)
Alemanha 54
E.U.A 80
Holanda 54
Índia 45
Inglaterra 60
Quênia 23
Zâmbia 36
3.2.4.6. Comentários

Com relação às previsões de desenvolvimento populacional de uma cidade deve-se observar que os
fatores que comandam esse crescimento apresentam características de instabilidade que podem ser
questionadas para previsões a longo prazo. Portanto, cabe ao projetista cercar-se de todas as
informações necessárias que o permitam uma previsão no mínimo defensável em quaisquer
circunstâncias, visto que os resultados encontrados não passam, como o próprio termo indica, de
uma “previsão”.

Qualquer que seja o modelo de previsão utilizado deve ser verificado periodicamente e ajustado às
informações mais recentes que fugiram a previsões iniciais. O equacionamento matemático
representa apenas uma hipótese de cálculo com base em dados conhecidos mas sujeitos a novas
situações imprevisíveis inicialmente.

De um modo geral pode-se afirmar que as formulações matemáticas do tipo aritméticas não são
recomendáveis para previsões superiores a trinta (30) anos e as geométricas para períodos de
projeto superiores a vinte (20) anos.

Algumas informações de caráter geral são de suma importância em um estudo de evolução de


população como, por exemplo,

 a potência genética do grupo humano, dos seus costumes, leis civis, religiosidades e
preconceitos;
 as disponibilidades econômicas e suas variações com o crescimento da população;
 a área habitável onde a população está instalada e seus limites de saturação;
 os ciclos de crescimento - cada ciclo corresponde a um conjunto de condições originadas de
acordo com razões econômicas, culturais, tecnológicas, etc.

Deve-se salientar que os valores das populações de projeto têm como objetivo inicial a
determinação das etapas de construção de forma a proporcionar um cronograma de execuções
técnica e financeiramente viável.

É importante, também, citar que para uma mesma cidade pode-se ter contribuições diferentes em
áreas de mesma dimensão. Esse fenômeno torna-se mais significativo quanto maior for a cidade e
mais diversificada for sua estrutura econômico-social.

Também é de esperar que em áreas periféricas o crescimento das cidades tende a ser horizontal
enquanto nas áreas centrais este crescimento, caso ocorra, será na vertical.

É possível também deparar-se com situações onde não haja necessidade de preocupações com
variações de populações ao longo do tempo e do espaço. Por exemplo, o caso da elaboração de um
projeto de um sistema de esgotamento sanitário para um conjunto habitacional com edificações
padrão. Neste caso ter-se-ia, teoricamente, a ocupação imediata e, logicamente, sem previsão de
modificações futuras significativas no citado complexo urbano.

3.2.5. Contribuição Média Doméstica - Qdom

Definida a população de projeto “P” e o per capita médio diário de contribuição “c.q”, então o
volume médio diário de esgotos domésticos produzidos será, em litros/dia com “q” em l/hab.dia,

Qdom = c. q. P Eq. 3.10


3.3. Águas de Infiltração - QI

A vazão que é transportada pelas canalizações de esgoto não tem sua origem somente nos pontos
onde houver consumo de água. Parcela dessa vazão é resultante de infiltrações inevitáveis ao longo
dos condutos, através de juntas mal executadas, fissuras ou rupturas nas tubulações, nas paredes das
edificações acessórias, etc. Este volume torna-se mais acentuado no período chuvoso, pois parte das
estruturas poderá permanecer situada temporariamente submersa no lençol freático, além das
contribuições originadas nas ligações clandestinas de águas pluviais. Também influi no volume
infiltrado o tipo de terreno em que os condutos estão instalados e a pavimentação ou não dos
arruamentos. É lógico que, por exemplo, em terrenos arenosos há maior facilidade da água
subterrânea atingir as canalizações que em terrenos argilosos.

As canalizações internas aos lotes, de responsabilidade do proprietário do imóvel, podem assumir


importância fundamental para a infiltração, considerando-se que a extensão destes condutos é maior
que o total da rede coletora e sua execução e manutenção geralmente não é tão cuidadosa como a da
rede pública implicando, assim, em um acréscimo no volume infiltrado.

Quando da determinação da infiltração deve-se considerar também a confiabilidade das


canalizações de água próximas às de esgotos, pois a frequência de vazamentos naquelas implica na
possibilidade de saturação no subsolo em volta podendo, deste modo, contribuir para o aumento da
infiltração. Pesquisas para determinação de coeficientes de infiltração são raras em nossa literatura e
os resultados mais conhecidos estão mostrados no quadro a seguir, citados no trabalho Infiltração de
Água nos Coletores de Esgotos Sanitários apresentado pelos engenheiros D. P. Bruno e M. T.
Tsutiya no 12º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, em 1983, e publicado na
Revista DAE n.º 133. Na impossibilidade de dados ou argumentos mais precisos pode-se trabalhar
com a sugestão da NBR 9649/86 - ABNT que recomenda a adoção de uma taxa de contribuição de
infiltração - TI, de 0,5 a l,0 l/s.km, sob justificativas.

Exemplos de algumas contribuições de infiltrações estudas e publicadas

AUTORIDADE LOCAL ANO TI - l/s.km


Saturnino de Brito Santos, Recife 1911 0,10
Jesus Netto São Paulo 1940 0,30 a 0,70
T. Merriman USA 1941 0,03
Azevedo Netto São Paulo 1943 0,40
Greeley & Hansen São Paulo 1952 0,50
Fair & Geyer USA 1954 0,10 a 2,70
DES, Sursan Rio de Janeiro 1959 0,20 a 0,40
I.W.Santry lDallas 1964 0,30 a 1,40
Hazen & Sawyer São Paulo 1965 0,30
SANESP São Paulo 1973 0,30
PNB - 567 Brasil 1967 1,00
NBR - 9649 Brasil 1986 0,50

-Fonte: Revista DAE , 134 - 1983

É fundamental considerar que para coletores novos situados acima do lençol freático, a infiltração
deve ser mínima ou mesmo nula, e que a qualidade dos materiais empregados na confecção das
tubulações, bem como o nível de estanqueidade com que as juntas são executadas, são fatores de
redução deste tipo de vazão.

3.4. Contribuições Concentradas - QC

Além das contribuições domésticas coletadas ao longo da rede e das vazões de infiltração,
determinadas edificações podem produzir contribuições de águas residuárias que não podem ser
consideradas como ligações normais ao longo da rede, tendo em vista que, devido ao seu volume,
alteram sensivelmente as condições de escoamento para jusante. São as chamadas contribuições
concentradas, que podem ter origem em estações rodoviárias, grandes edificações residenciais e/ou
comerciais, lavanderias públicas, centros comerciais, grandes hospitais, clubes com piscinas, entre
outros, e, principalmente, de estabelecimentos industriais que usam água no processo de produção
como, por exemplo, uma indústria de bebidas.

3.5. Contribuição Total - QT

Estudado cada uma das parcelas formadoras das vazões de esgotos sanitários pode-se,
portanto, expressar a vazão média coletada na forma

QT = QD + Q C + Q I , Eq. 3.11
onde:
QT = vazão média total diária;
QD = contribuição média diária doméstica;
QC = contribuições concentradas;
QI = águas de infiltrações, que é resultante do produto da taxa de infiltração “TI” com a
extensão “L” das canalizações subterrâneas.

Para o cálculo destas vazões são consideradas população de projeto, contribuição média per capita
doméstica, infiltrações ao longo da rede e vazões concentradas.

Para as situações onde se fizerem necessárias determinações das vazões máxima e mínima de
projeto o procedimento clássico é serem empregadas as mesmas variações definidas para o cálculo
das variações de consumo doméstico de água, justificado em que as infiltrações dependem das
condições dos condutos e que as vazões concentradas são função da estrutura interna do
estabelecimento contribuinte. Logo, apenas a parcela de origem doméstica sofrerá variações diárias
e horárias na grande maioria das situações de projeto, e seus valores serão obtidos das formas
descritas a seguir:

 Contribuição doméstica máxima diária em l/dia

QDmáx,d = c.q.P.K1 , Eq. 3.12

onde K1 (coeficiente do dia de maior contribuição) tem valores usuais no Brasil variando de 1,20 a
1,50;

 Contribuição doméstica máxima horária em l/s

QDmáx,h = c.q.P.K1.K2 / 86400 , Eq. 3.13

onde K2 (coeficiente da hora de maior vazão do dia de maior contribuição) é arbitra do usualmente
em 1,50;
 Contribuição mínima em l/s

QDmín,h = c.q.P.K3 / 86400 , Eq. 3.14

onde K3 (coeficiente de contribuição mínima) é frequentemente adotado como 0,50.

Observe-se que estes valores indicados para os coeficientes são números usuais para situações onde
os projetistas não dispõem de informações mais precisas que indiquem dados mais ajustados a
realidade local.

3.6. Exemplo

Calcular as contribuições média, máxima e mínima, atuais e futuras, de uma comunidade fictícia, a
partir das informações apresentadas a seguir:

- população atual : 12.350 hab,


- população futura: 22.600 hab,
- consumo per capita: 200 l/hab.dia,
- coeficiente de reforço: K1.K2 = 2,0,
- relação esgoto/água: 0,80,
- taxa de infiltração: 0,0005 l/s.m,
- extensão da rede (etapa única): 30,3 km,
- contribuição industrial atual: 260m³/dia e
- contribuição industrial futura: 350m³/dia.

OBS: Descarga industrial regularizada ao longo do dia.

Solução:

1ª - Situação atual

QT,i = (c.q.P./86400) + [(QC./86400) + TI.L].103 =


= (0,80 x 200 x 12.350/86400) + [(260/86400) + 0,0005x30,3]x103 = 22,87 + 3,01 +
15,15 = 41,03 l/s;

QTmáx,i = 22,87 x 2,0 + 3,01 + 15,15 = 63,90l/s;

QTmin,i = 22,87 x 0,5 + 3,01 + 15,15 = 29,60l/s.

2ª - Situação futura

QT,f = 61,05 l/s,

QTmax,f = 102,90 l/s e

QTmín,f = 40,14 l/s.

3.7. Exercícios

 Quais as origens dos resíduos líquidos que formam as vazões da rede coletora de esgotos.
 Como a eficiência do sistema de abastecimento de água afeta a contribuição de esgotos?
 Como o nível de conservação da rede de distribuição de água pode afetar o volume de
esgotos coletados? e da rede coletora? Justificar.
 Citar situações práticas, justificando, onde o coeficiente de retorno seria maior que 1,0. E
quando seria menor?
 Explicar os termos “consumo de água” e “contribuição de esgotos” comparando-os.
 Definir

- consumo per capita de água;


- consumo per capita médio;
- contribuição per capita de esgotos;
- crescimento de população;
- densidade demográfica;
- previsão de população

 Conhecidos os dados censitários de três cidades A, B e C, tabulados a seguir, pede-se


estimar a população futura, no ano 2010

a) de A, B e C pelo método geométrico;


b) de A, B e C pelo método aritmético;
c) de C pelo método comparativo a partir de A e B.

Verificar também para cada uma das cidades a admissibilidade da curva logística e, em caso
afirmativo, fazer uma previsão para o ano 2020 por esse método. Comparar e comentar os
resultados a partir do encontrado através do prolongamento manual dos dados de cada cidade.

CIDADE 1970 1980 1990 2000


A 65060 79600 94260 111560
B 61200 72200 84600 104400
C 39900 46230 53900 67200

 Em uma cidade com população de projeto equivalente a 28600hab, calcular as vazões


média, máxima e mínima dos esgotos sanitários coletados. Extensão total da rede coletora
42,9km. Admitir valores usuais no Brasil.

 Comentar sobre

- fatores que influem no consumo de água e na contribuição de esgotos;


- a relação entre o desenvolvimento das cidades e a contribuição de esgotos sanitários.
CAPÍTULO IV

COMPONENTES DE SISTEMAS DE ESGOTOS SANITÁRIOS

4.1. Introdução

A coleta e o transporte das águas residuárias desde a origem até o lançamento final constituem o
fundamento básico do saneamento de uma população. Os condutos que recolhem e transportam
essas vazões são denominados de coletores e o conjunto dos mesmos compõem a rede coletora. A
rede coletora, os emissários, as unidades de tratamento, etc., compõem o que é denominado de
sistema de esgotos sanitários. O estudo dos sistemas de esgotamento, suas unidades e seus
elementos acessórios envolvem, naturalmente, uma terminologia própria a qual será objeto de
estudo neste capítulo.

4.2. Terminologia Básica

A seguir serão apresentados conceitos e definições de componentes e acessórios diversos dos


sistemas de esgotos sanitários.

 Bacia de Drenagem: área delimitada pelos coletores que contribuem para um determinado
ponto de reunião das vazões finais coletadas nessa área.
 Caixa de Passagem (CP): câmara subterrânea sem acesso, localizada em pontos singulares
por necessidade construtiva e econômica do projeto.
 Coletor de Esgoto: tubulação subterrânea da rede coletora que recebe contribuição de
esgotos em qualquer ponto ao longo de seu comprimento, também chamado coletor público.
 Coletor Principal: coletor de esgotos de maior extensão dentro de uma mesma bacia.
 Coletor Tronco: tubulação do sistema coletor que recebe apenas as contribuições de outros
coletores.
 Corpo Receptor: curso ou massa de água onde é lançado o efluente final do sistema de
esgotos.
 Diâmetro Nominal (DN): número que serve para indicar as dimensões da tubulação e
acessórios.
 Emissário: canalização que deve receber esgoto exclusivamente em sua extremidade de
montante, pois se destina apenas ao transporte das vazões reunidas.
 Estação Elevatória de Esgotos (EEE): conjunto de equipamentos, em geral dentro de uma
edificação subterrânea, destinado a promover o recalque das vazões dos esgotos coletados a
montante.
 Estação de Tratamento de Esgotos (ETE): unidade do sistema destinada a propiciar ao
esgoto recolhido de ser devolvido a natureza sem prejuízo ao meio ambiente.
 Interceptor: canalização que recolhe contribuições de uma série de coletores de modo a
evitar que deságuem em uma área a proteger, por exemplo, uma praia, um lago, um rio, etc.
 Ligação Predial: trecho do coletor predial situado entre o limite do lote e o coletor público.
 Órgãos Acessórios: dispositivos fixos sem equipamentos mecânicos (definição da NBR
9649/86 - ABNT).
 Passagem Forçada: trecho com escoamento sob pressão, sem rebaixamento.
 Poço de Visita (PV): câmara visitável destinada a permitir a inspeção e trabalhos de
manutenção preventiva ou corretiva nas canalizações - é um exemplo de órgão acessório.
 Profundidade do Coletor: a diferença de nível entre a superfície do terreno e a geratriz
inferior interna do coletor (Figura 4.1).
 Recobrimento do tubo coletor: diferença de nível entre a superfície do terreno e a geratriz
superior externa do tubo coletor.
 Rede Coletora: conjunto de condutos e órgãos acessórios destinados a coleta e remoção dos
despejos gerados nas edificações, através dos coletores ou ramais prediais.
 Sifão Invertido: trecho de conduto rebaixado e sob pressão, com a finalidade de passar sob
obstáculos que não podem ser transpassados em linha reta.
 Sistema Coletor: Todo o conjunto sanitário, constituído pela rede coletora, emissários,
interceptores, estações elevatórias e órgãos complementares e acessórios.
 Tanque Fluxível: reservatório subterrâneo de água destinados a fornecer descargas
periódicas sob pressão dentro dos trechos de coletores sujeitos a sedimentação de material
sólido, para prevenção contra obstruções por sedimentação progressiva.
 Terminal de Limpeza (TL): dispositivo que permite introdução de equipamentos de
limpeza, localizado na extremidade de montante dos coletores.
 Trecho de coletor: segmento de coletor, interceptor ou emissário limitado por duas
singularidades consecutivas, por exemplo, dois poços de visita.
 Tubo de Inspeção e Limpeza (TIL): dispositivo não visitável que permite a inspeção externa
do trecho e a introdução de equipamentos de limpeza.
 Tubo de Queda (TQ): dispositivo instalado no PV de modo a permitir que o trecho de
coletor a montante deságue no fundo do poço.

Figura 5.1 - Terminologia da vala de assentamento de um coletor

4.3. Comentários

Dependendo da ocorrência de áreas onde os coletores não possam continuar ou mesmo desaguar o
esgoto bruto, deverão ser projetados interceptores, assim como a necessidade de transporte de
vazões finais para pontos distantes da área de coleta forçará a construção de um emissário. O
lançamento subaquático no mar ou sob rios caudalosos normalmente poderá ser realizado através de
emissários com elevatória na extremidade de montante.

As estações de tratamento de esgotos (ETE) ocorrerão quando os corpos receptores das vazões
esgotáveis não possuírem capacidade de absorção da carga orgânica total. A capacidade das ETE
será dimensionada de modo que o efluente contenha em seu meio uma carga orgânica suportável
pelo corpo receptor, ou seja, que não lhe cause alterações danosas ao seu equilíbrio com o ambiente
natural.

A ocorrência de estações elevatórias é frequente em cidades de grande porte, situadas em áreas


planas ou mesmo com declividade superficiais inferiores as mínimas requeridas pelos coletores para
seu funcionamento normal. Nestas ocorre que no desenvolvimento das tubulações coletoras, estas
vão continuamente afastando-se da superfície até atingirem profundidades inaceitáveis em termos
práticos, requerendo assim, que se elevem as cotas dos coletores a profundidades mínimas ou
racionais, sendo isto somente possível através de instalações de recalque de cujo efluente partirá um
novo coletor que poderá, eventualmente, até terminar em outra unidade de recalque. Por uma
situação similar a ocorrência de estações elevatórias é frequente em interceptores extensos,
principalmente aqueles que protegem margens aquáticas, nos emissários e nas entradas das ETE,
visto serem estas normalmente estruturas a céu aberto (lagoas de estabilização, filtros biológicos e
valos de oxidação) ou fechadas, mas apoiadas na superfície (biodigestores).

Os sifões invertidos e as tubulações de recalque das elevatórias são as únicas unidades


convencionais a funcionarem sob pressão nos sistemas de esgotos sanitários. Na impossibilidade da
transposição em linha reta, inclinada corretamente, pela existência no local de obstáculos de
qualquer natureza e que não possam ser removidos ou “atravessados”, a indicação mais viável, em
termos de economia de operação, é o sifão invertido, considerando que o escoamento, embora sob
pressão, dar-se-á por gravidade, evitando assim, o consumo contínuo de energia elétrica e
equipamentos de recalque permanentes, como nas estações elevatórias.

Diversos autores classificam poços de visita e dispositivos substitutos destes, como órgãos
acessórios obrigatórios das redes, enquanto que citam como acessórios eventuais sifões invertidos,
considerando que estes funcionam juntos aos coletores com vazões contínuas e por gravidade,
ocupando como os poços de visita, um espaço natural das tubulações transportadoras, e também os
tanques fluxíveis por estes permitirem o funcionamento ininterrupto dos trechos a jusante.

4.4. Exercícios

 Quais as finalidades das redes coletoras de esgotos sanitários?


 Por definição um coletor tronco é um coletor principal?
 Todo sistema de esgotamento sanitário tem interceptores? E emissários? Justificar.
 Os sifões invertidos funcionam por gravidade? Hidraulicamente são condutos livres ou
forçados?
 Por que as estações elevatórias são ditas "instalações eletromecânicas"?
 Qual a finalidade dos poços de visita? e dos tanques fluxíveis?
 Descrever a ocorrência, nos SES, das estações de tratamento.
 Diagnosticar e opinar sobre o que são órgãos acessórios obrigatórios e eventuais das redes
coletoras?
 Qual a finalidade das estações elevatórias e dos sifões invertidos?
CAPÍTULO V

REVISÃO DE HIDRÁULICA / HIDRÁULICA DOS COLETORES

5.1. Introdução

O esgoto sanitário é um líquido com características essencialmente orgânicas com cerca de 99,9%
de água e 0,1% de sólidos em dissolução ou em suspensão. Esse pequeno teor relativo de sólidos
torna o esgoto um líquido com características hidráulicas similares às da água. Sendo assim, a
utilização das mesmas leis e princípios que regem o escoamento de água em condutos, para solução
de cálculos hidráulicos quando o fluido for esgoto sanitário, não resultará em erros significativos.
Diante desses argumentos este capítulo tratará de apresentar um resumo de hidráulica, onde serão
apresentados conceitos e formulários mais comumente empregados no dimensionamento de
condutos de esgotos.

5.2. Propriedades Físicas

Como muitos dos dados pesquisados sobre esgotos sanitários têm como padrão leituras a 20 oC (1),
serão mostrados a seguir as principais características da água a esta temperatura, para que se tenha
uma ideia do comportamento do líquido em estudo, nestas condições:

 peso específico (peso por unidade de volume) - = 998,23 Kgf/m3 ;


 densidade relativa (relação c/a densidade da água a 4oC) - = 998,23;
 densidade absoluta ( /g - massa por unidade de volume) - = 101,76 Kgf . s2 /m4 ;
 viscosidade dinâmica (ou somente viscosidade) - = 1,029 x 10-4 Kgf.s/m2 (1 Kgf.s/m2 =
98,1 poises (2);
 viscosidade cinemática (  ) - = 1,011.10-6 m2/s (1m²/s = 104 stokes (3);
 tensão superficial (tensão por unidade de comprimento numa linha qualquer de separação) -
s= 0,0074 Kgf/m (1 Kgf = 9,80665N);
 módulo de elasticidade (relação entre aumento de pressão e o de massa específica) - E =
2,18 x 108 Kgf/m² ;
 pressão de vapor (pressão exercida pelo vapor em determinado espaço) - Pv = 0,0239
Kgf/cm² .

5.3. Classificação dos Movimentos

A Hidráulica é o ramo das ciências físicas que tem por objetivo estudar os líquidos em repouso e em
movimento. Se um líquido escoa em contato com a atmosfera diz-se que ele está em escoamento
livre e quando escoa confinado em um conduto de seção fechada com pressão diferente da
atmosférica tem-se um escoamento forçado ou sob pressão.

Quando o movimento desenvolve-se de tal maneira que as partículas traçam trajetórias bem
definidas no sentido do escoamento, define-se um movimento laminar ouviscoso e quando não há
definição das trajetórias das partículas, embora com certeza haja escoamento, tem-se o movimento
turbulento ou hidráulico. A primeira condição é de difícil ocorrência, exceto nos escoamentos
naturais subterrâneos em meios porosos, sendo mais uma condição criada artificialmente em
laboratórios para efeito de desenvolvimento de estudos.
É de fundamental importância teórica também a classificação dos regimes de escoamentos
em regime permanente e não permanente ou variável. O escoamento permanente, o mais comum
em dimensionamentos hidráulicos, ainda pode ser uniforme e variado. No permanente as
características do escoamento não variam ao longo do tempo, na seção em estudo. Se além de não
se modificar ao longo do tempo também permanecer inalterado ao longo da canalização, o regime é
denominado de permanente e uniforme. Esta condição de escoamento será constantemente
considerada no dimensionamento convencional de condutos de esgotamento pluvial como será visto
nos próximos capítulos. Quando as características variarem ponto a ponto, instante a instante, o
escoamento é dito não permanente, ou seja, a vazão varia no tempo e no espaço e, conforme a
variação da velocidade de escoamento ao longo do conduto e com o tempo, pode ainda ser
classificado como acelerado, quando a velocidade aumenta com o tempo, ou retardado, quando em
ritmo contrário.

5.3. Equação da Continuidade

É a equação que mostra a conservação da massa de líquido no conduto, ao longo de todo o


escoamento. Isto quer dizer que em qualquer seção transversal da canalização o produto .A.V será
constante, sendo "" a densidade do líquido. Desprezando-se a compressibilidade da água temos
para as n seções do escoamento

A1.V1 = A2.V2 = ...... = An.Vn = Q , Eq. 5.1

onde,
Q = a vazão em estudo;
Ai= a área da seção molhada em "i";
Vi= a velocidade de escoamento pela mesma seção.

5.4. Equação da Energia

A energia presente em um fluido em escoamento pode ser separada em quatro parcelas, a saber,
energia de pressão (piezocarga), energia cinética (taquicarga), energia de posição (hipsocarga) e
energia térmica. Partindo do princípio da conservação de energia, para duas seções transversais em
dois pontos distintos, 1 e 2 do escoamento (Figura 5.1), estas parcelas podem ser agrupadas da
seguinte forma:

Eq. 5.2

que é conhecida como teorema de Bernoulli ( 4 ) para fluidos reais, onde

p = pressão, Kgf/m²;
 = peso específico, Kgf/m³;
v = velocidade do escoamento, m/s;
g = aceleração da gravidade, m/s²;
Z = altura sobre o plano de referência, m;
hf= perda de energia entre as seções em estudo, devido a turbulência, atritos, etc., denominada de
perda de carga, m;
 = fator de correção de energia cinética devido as variações a de velocidade na seção ou
coeficiente de Coriolis (5) .
A soma das parcelas z + (p/ ) + (. v2/2g) é denominada de energia mecânica do líquido por
unidade de peso. Portanto, a energia mecânica de um líquido sempre estará sob uma ou mais das
três formas citadas.

FIG. 5.1 - Elementos componentes da Equação 5.2.

Seja P o peso de um determinado volume de líquido, situado em uma determinada posição relativa
de altura Z. Então a sua energia potencial será P.Z e, consequentemente, por unidade de peso
será P.Z /P, que é igual a Z. O mesmo raciocínio poderá ser aplicado para a parcela cinética.

Para a parcela p/ vejamos o seguinte raciocínio:


o trabalho realizado por um líquido deslocado através de um
cilindro de seção transversal A, ao longo de sua extensão L,
impulsionado por uma pressão p.A.L (Fig. 5.2), sendo que, por sua
vez, o peso desse líquido é . A.L, logo...!

Figura 5.2 - Cilindro de área A e extensão L (ao lado)


5.6.2. Expressões mais Comuns na Literatura
5.6.2.1. Fórmula Darcy - Weisback (6)

A expressão para cálculo da perda de carga de Darcy, apresentação americana, é frequentemente


representada pela equação

, Eq. 5.4

onde f é um coeficiente que é função do diâmetro, do grau de turbulência, da rugosidade, etc. e


calculado pela expressão de Colebrook, a denominada expressão universal de perda de carga.

Esta expressão, embora comprovadamente apresente resultados mais confiáveis, sua manipulação
implica em certas dificuldades de ordem prática o que leva muitos projetistas a optarem por
expressões empíricas alternativas de melhor trabalhabilidade. Nos raros casos de tubos lisos com
escoamento laminar, NR < 2000 (normalmente só obtidos em laboratório) a rugosidade não interfere
no valor de
f que é calculado pela expressão f = 64/NR , onde NR é conhecido como Número de Reynolds (7).
Para tubos rugosos funcionando na zona de completa turbulência ( 8), NR > 4000 (os coletores de
esgotos, em geral, trabalham com NR >10000) é comum ser utilizada a expressão de Kármán-
Prandtl (9),

, Eq. 5.5

Para escoamentos não laminares situados na zona de transição de NR, aproximadamente entre 2000
e 4000, o valor de f pode ser determinado utilizando-se da expressão de Colebrook-White (10),

, Eq.5.6

onde K significa o tamanho das asperezas internas do conduto e K/D a rugosidade relativa,
grandeza esta de grande significado, numa análise hidráulica, que dá confiabilidade a uma
expressão para cálculo das perdas (11) e que normalmente não é considerada nas expressões
empíricas.

5.6.2.2. Fórmula de Hazen-Williams (12)

É, sem dúvida, a fórmula prática mais empregada pelos calculistas para condutos sob pressão desde
1920, principalmente em pré-dimensionamentos. Com resultados bastante razoáveis para diâmetros
de 50 a 3500mm, é equacionada da seguinte forma:

J = 10,643.C-1,85. D-4,87. Q1,85, Eq. 5.7

onde C é o coeficiente de rugosidade que depende do material e da conservação deste, conforme


exemplos no quadro abaixo.
Tipo de tubo Idade Diâmetro (mm) C
< 100 118
100 - 200 120
Novo
225 - 400 125
450 - 600 130
< 100 107
100 - 200 110
10 anos
- Ferro fundido pichado 225 - 400 113
450 - 600 115
<100 89
- Aço sem revestimento, 100 - 200 93
20 anos
soldado 225 - 400 96
450 - 600 100
< 100 65
100 - 200 74
30 anos 225 - 400 80
450 - 600 85

Nova < 100 107


- Manilha cerâmica ou 100 - 200 110
usada 225 - 400 113

< 100 107


- Aço sem revestimento, 100 - 200 110
rebitado 225 - 400 113
Novo
450 - 600 115
< 100 89
100 - 200 93
usado 225 - 400 96
450 - 600 100

< 100 120


- Ferro fundido cimentado
100 - 200 130
- Cimento amianto - Concreto Novo
225 - 400 136
450 - 600 140

- Aço revestido ou 500 - 1000 135


- Concreto > 1000 140

Até 50 125
usado
- Plástico (PVC) 60 - 100 135
125 - 350 140

Esta expressão tem como grande limitação teórica o fato de não considerar a influência da
rugosidade relativa no escoamento, podendo gerar resultados inferiores à realidade durante o
funcionamento, na perda calculada para pequenos diâmetros e valores muito altos para maiores,
caso não haja uma correção no coeficiente Casualmente tabelado.

5.6.2.3. Fórmula de Chézy (13)


Originalmente definida em 1775, é a mais famosa e tradicional expressão para cálculo hidráulico de
condutos trabalhando em escoamento livre. Normalmente é apresentada da seguinte forma:

, Eq. 5.8

onde V é a velocidade média, R o raio hidráulico, J a declividade da linha de energia (perda


unitária) e C é o fator de resistência denominado de Coeficiente de Chézy, que depende do
acabamento das paredes do conduto.

5.6.2.4. Fórmula de Bazin (14)

Muito mencionada, principalmente em publicações francesas e italianas, esta equação apresenta


bons resultados para cálculos de condutos livres. Bazin criou uma expressão para o coeficiente C de
Chézy sem considerar a influência da inclinação da linha de energia.

Normalmente é apresentada como segue:

, Eq. 5.9

onde m = 0,16 para a maioria dos tipos de canalizações empregadas nos esgotamentos sanitários e R
o raio hidráulico. Abaixo é apresentada uma listagem dos valores de m de Bazin para superfícies
em bom estado de conservação, mais citados na literatura:

1 - CANAIS

 alvenaria de pedras brutas 1,40


 alvenaria de pedras brutas cortadas 0,70
 alvenaria de pedras com faces retangulares 0,28
 alvenaria em tijolos aparentes 0,33
 alvenaria rebocada 0,22
 concreto sem acabamento 0,30
 concreto com revestimento alisado 0,11
 concreto com revestimento “queimado” 0,06
 escavado em rocha 1,70
 terra limpa e estável 0,70
 terra coberta com grama 1,00
 terra coberta com plantas aquáticas 1,40

2 - TUBOS

 aço soldado 0,14


 cerâmicos vitrificados 0,16
 cimento-amianto 0,11
 concreto 0,22
 ferro fundido 0,14
 madeira aparelhada 0,14
 em uso com esgotos sanitários 0,16

5.6.2.5. Fórmula de Manning (15)


A equação de Manning tem a seguinte forma

, Eq. 5.10

onde n é um coeficiente que depende da rugosidade das paredes dos condutos, comumente
denominado de coeficiente de rugosidade de Manning. Em geral n = 0,013 para escoamentos de
esgotos sanitários (Veja lista).

Em um escoamento livre permanente e uniforme

, Eq. 5.11

onde V é a velocidade e I a inclinação da superfície livre da água que, paralela ao fundo do canal
(seria teoricamente a perda unitária média do escoamento no trecho em estudo).

Abaixo uma sequência de valores de n da Expressão de Manning comumente apresentados na


literatura

1 - CANAIS

 alvenaria de pedras brutas argamassadas 0,020


 alvenaria de pedras com faces retangulares 0,017
 alvenaria em tijolos aparentes 0,015
 alvenaria rebocada 0,012
 concreto sem acabamento 0,014
 concreto com revestimento alisado 0,012
 concreto com revestimento “queimado” 0,010
 terra limpa e estável 0,025
 terra coberta com grama 0,030
 terra coberta com plantas aquáticas 0,035

2 - TUBOS

 aço rebitado 0,015


 aço soldado 0,011
 cerâmicos vitrificados 0,013
 cimento-amianto 0,011
 concreto com revestimento 0,012
 concreto sem revestimento 0,015
 ferro fundido com revestimento 0,012
 ferro fundido sem revestimento 0,013
 ferro galvanizado 0,014
 madeira aparelhada 0,011
 PVC 0,013
 em uso com esgotos sanitários 0,013

Embora na prática os valores de n sejam frequentemente tomados como constantes para qualquer
valor de lâmina líquida (altura de água no conduto), sabe-se cientificamente que esta hipótese não é
verdadeira, sendo o procedimento temerário para cálculos rigorosos. A variação de “n” com a
lâmina está representada na Figura 5.6.

5.7. Perdas de Carga Localizadas - hf’

Também denominadas de perdas singulares, locais ou acidentais, no caso de condutos sob pressão,
podem ser determinadas a partir da seguinte expressão geral

, Eq. 5.12

onde V a velocidade na menor seção da singularidade e K um coeficiente de perdas localizadas que


varia de acordo com cada singularidade, como mostram alguns exemplos listados em quaisquer
livros de hidráulica ou de instalação predial.

No caso de escoamento livre não existem fórmulas universalmente aceitas e, na maioria das vezes,
estas perdas são desprezadas exceto em casos particulares de curvas, alargamentos, contrações de
seção, encontros de canais e embocaduras. Alguns projetistas usam o expediente de acrescer ao
valor de “n” tabelado 20% a 30%, como tentativa de justificar e prevenir contra distorções no
funcionamento dos condutos, enquanto que outros simplificam mais ainda tomando quedas de carga
de 3 a 10cm, conforme o tipo de acidente.

5.8. Tensão Trativa - 

Os líquidos esgotáveis possuem em seu meio materiais mais pesados que a água e,
consequentemente, sedimentáveis naturalmente. É, pois, essencial que se evitem estes depósitos
indesejáveis para que, com o tempo não ocorram reduções sucessivas da seção útil ou que se
aglomerem em volumes sólidos maiores provocando abrasão nas paredes internas dos condutos
quando arrastados pelo líquido, prejudicando o escoamento e danificando a canalização. Isto
implica em dimensionamento das tubulações de esgotos em condições de escoamento tais que se
garanta um esforço tangencial mínimo entre o líquido em escoamento e a superfície molhada do
conduto. Deste esforço tangencial origina-se o conceito de tensão trativa - (ou tensão de arraste)
definida como o esforço tangencial unitário transmitido às paredes do conduto pelo líquido em
escoamento. Para melhor entendimento do conceito de tensão trativa, a seguir será apresentada a
obtenção de uma expressão para o seu cálculo.

Imagine-se um trecho de canalização funcionando em escoamento livre conforme esquematizada na


Figura 5.2. Analisando a figura tem-se

P’ =  . A. L e F = P’. sen , onde “ P’ ” é o peso do líquido,


 =  . A. L. sen 

Por definição tensão é força / área, logo

 = F / (P. L) , onde P é o perímetro molhado. Assim


 = ( A.L.g .sen ) / ( P.L ) = R.g .sen , onde “R” é o raio hidráulico.

Como para ângulos de até 5o (a maioria dos condutos livres têm declividades inferiores a esta) sen
@ tg e denominando-se de “I” a inclinação do fundo do conduto, então

 = R. g. I , Eq. 5.13
permitindo, pois, que se possa admitir que a tensão de arraste em um escoamento de esgoto é
função do raio hidráulico, do peso específico e da declividade do conduto.

Como parâmetro para dimensionamento de coletores de esgoto há autores que recomendam, por
exemplo, como tensão de arraste média, 0,60Pa (16) para PVC e 1,50Pa para tubulações de
concreto.

FIG. 5. 2 - Forças de ação em um canal

5.9. Energia Específica - E

Também chamada de “carga específica”, é um conceito muito importante quando se estuda


escoamento livre. Representa a quantidade de energia por unidade de peso do líquido, medida a
partir do fundo do canal. É formulada pela equação:

, Eq. 5.14

onde y é a altura da água no canal.

Colocando-se os valores de E em função de y resulta um diagrama típico mostrado na Figura 5.3,


onde se desenvolve uma curva com duas assíntotas, uma ao eixo EE e outra a bissetriz dos EE e YY,
onde para cada valor de E tem-se dois valores de y, exceto no mínimo da curva, onde se tem o
menor valor para “E” com que a vazão poderá escoar na seção em estudo. É neste ponto onde se
lêem as denominadas condições críticas do fluxo (lâmina crítica, velocidade crítica, etc.).
FIG. 5. 3 - Diagrama de energia específica

É importante lembrar que no ponto crítico o escoamento é bastante instável podendo, a pequenas
alterações na energia específica, provocar sensíveis alterações na lâmina líquida, trazendo
transtornos para o funcionamento da obra projetada.

Conceitualmente é identificado como escoamento superior, lento, fluvial, tranquilo ou subcrítico se


o mesmo é desenvolvido com lâmina maior que a crítica e inferior, rápido, torrencial ou supercrítico
quando a altura for inferior.

Geralmente canalizações com escoamento livre são projetadas para funcionarem no regime
subcrítico. Velocidades elevadas, sobre-elevações, propagação de ondas e áreas de subpressões são
exemplos de ocorrências complicadoras que desaconselham o projetista trabalhar com escoamentos
supercríticos a não ser em situações sem alternativas como, por exemplo, no caso de vertedores
livres. O ressalto hidráulico é, também, um exemplo de mudanças de regime.

5.10. Número de Froude - Fr (17)

Número de Froude é um valor que relaciona forças de inércia com as de gravidade no fluxo, onde,

, Eq. 5.15

Se Fr for menor que a unidade então o regime é subcrítico. Se igual a unidade tem-se a condição
crítica e quando for maior o escoamento desenvolve-se em regime supercrítico. Assim na condição
crítica, tem-se

, Eq. 5.16

onde g é a aceleração de gravidade.


5.11. Escoamento Livre em Seção Circulares - Elementos Geométricos/Trigonométricos

5.11.1. Seção Plena - y / do = 1,0

Se um conduto de seção circular de diâmetro do está completamente cheio por um líquido (esgoto,
por exemplo) escoando hidraulicamente em condições livres, ocupando totalmente cada seção
contínua e sucessivamente, diz-se que este conduto está funcionando a
“seção plena”. Nesta situação suas expressões geométricas são:

 área molhada plena: Ao = . do2/4;


 perímetro molhado pleno : Po = . do ;
 raio hidráulico pleno: Ro = Ao/ Po = do/4 ;
 velocidade a seção plena: Vo = (1/n) . (do/4)2/3. Io0,5 Eqs. 5.17

OBS.: O índice oem do e Io lembra que a seção em estudo é circular e nas demais incógnitas que
além de circular a seção está funcionando cheia. Esta simbologia, no entanto, não é única, ficando a
critério de cada autor.

5.11.2. Seção Parcialmente Cheia - y / do  1,0

Esta situação encontra-se esquematizada na Figura 5.4 onde “b” é a corda, “y” a altura (lâmina
líquida), “do” o diâmetro da seção e “â” o ângulo central molhado. Logo, geometricamente,

 â = 2arccos[ 1 - (2y / do) ] em radianos ou y/do = [ 1 - cos ( â/2 ) ] / 2 ,


 A (área molhada) = (do2/ 8 ) . ( â - sen â ) ,
 P (perímetro molhado) = â . do / 2 ,
 R (raio hidráulico) = (do / 4) [ 1 - (sen â / â ) ] ,
 b (corda) = do . sen (â/2) Eqs. 5.18

e, empregando Manning,

 â = 6,063 . (n.Q / Io0,5)0,5. do -1,5. â0,4 + sen â ,

para 1,60 rad  â  4,40 rad (18). Fora deste intervalo o desenvolvimento do ângulo central torna-se
incompatível com a evolução da curvatura interna da superfície, para a expressão.
FIG. 5. 4 - Seções parcialmente cheias - y/do < 1,0

5.11.3. Relação Entre os Elementos

 A/Ao = (1 / 2) (â - sen â)


 P/Po = â/2
 R/Ro = [ 1 - (sen â / â ) ]
 V/Vo =[ 1 - (sen â / â ) ] 2/3
 Q/Qo = [ (1 / 2) (â - sen â)] . [ 1 - (sen â / â ) ] 2/3. Eqs.5.19

Estas relações estão mostradas na Figura.5.5.

Figura.5.5 - Relações entre elementos das seções circulares

5.12. Exemplos

 1. Um trecho tubulação de seção circular de 0,40m de diâmetro executado em concreto


simples, está assentado sob uma declividade de 0,3%. Pede-se calcular a capacidade do
trecho quando seu funcionamento for (a) à seção plena, escoando livremente e (b) com
lâmina líquida relativa de 75%.

Solução: (admitindo-se “n” constante = 0,013)


a) Qo = Ao .Vo = (.do2/4).[(1/n).(do /4)2/3 . ( Io )1/2]

com do = 0,40m, n = 0,013 e Io = 0,003m/m

 Qo  0,1135m³/s = 113,5 l/s;

b) y = 0,75do

1. Solução analítica

Pelas Eqs. 5.18 tem-se y/do = [ 1 - cos (â/2) ] / 2 = 0,75 onde cos (â/2) = -
0,5 ou
â = 2 cos-¹ (- 0,5) ou â = 2 x 2,0944  4,19 rad,
A (área molhada) = do2 x (â - sen â)/8 = 0,02 x (4,19 - sen 4,19)  0,101m2
e R = (do/4) x [ 1 - (sen â)/â ] = 0,121 m, logo como Q = A.V, então
Q = 0,101 x (1 / 0,013) x (0,121)2/3 x (0,003)1/2  104,1 l/s ;

2. Solução gráfica (utilizando a Fig.5.5, n constante)

Com y/do = 0,75 segue-se na horizontal até encontrar a curva de vazão de


onde, na
vertical, lê-se Q / Qo= 0,913, então, Q = 0,92 x 113,5 104,4 l/s;

OBS.: Caso se deseje encontrar a área, o raio hidráulico e velocidade


parciais o
procedimento é análogo.

 2. Encontrar as expressões equivalentes às Eqs.5.18 quando os ângulos forem medidos em


graus e não em radianos.

Solução :

Os valores de â serão apresentados em graus aoe multiplicados por 2/ 360 quando
estiverem
como parcela da correspondente expressão.

Exemplo: A( = área molhada) = do2 (â - sen â) / 8, então:

A = do2{[(2/ 360)ao] - (sen ao)}/8,

P = â.do/2 = (2/ 360)ao.do/2 e

R = (do/4){[ 1 - (sen ao)/[(2/ 360)ao]}

ou seja, ao = â x 360o/ 2 ou â = ao] x 2/ 360o.

5.13. Exercícios

 1. Definir desnível geométrico, linha piezométrica, perda de carga unitária, conduto livre e
conduto forçado.
 2. Definir regime permanente e uniforme de escoamento.
 3. Estudar o significado de

- peso específico;
- densidade absoluta e relativa;
- viscosidades dinâmica e cinemática;
- tensão superficial e módulo de elasticidade;
- pressão de vapor.

 4. Pesquisar o significado de

- coeficiente de Coriolis;
- conduto liso e conduto rugoso;
- pressão absoluta e pressão relativa.

 5. O que significa tensão trativa ? e energia específica?


 6. Que quer dizer “condições críticas de escoamento”?
 7. Para condutos circulares encontrar em função de “d o” as expressões geométricas para
cálculo da área molhada A, perímetro molhado P e raio hidráulico R no caso de:

a) y = do / 2;
b) y = 3do / 4.

 8. Sabendo-se que um determinado trecho de canalização de 1000mm de diâmetro‚ é capaz


de transportar teoricamente 1,50m³/s de vazão. Para um coeficiente de Hazen-Williams de
130, determinar os coeficientes correspondente de Manning e o da fórmula universal.
 9. Um determinado trecho de galeria de 600mm de diâmetro está assentado sob uma
declividade de 0,003m/m. Sendo n = 0,013 para qualquer lâmina, calcular

a) Qo e Vo;
b) Q e V para y = 0,40m;
c) y e V para Q = 0,70Qo;
d) y, A, R e Q para V = 1,10 Vo.

 10. Resolver o exercício anterior empregando “n” variável.


 11. Um canal triangular com paredes inclinadas de 45°, revestido com cimento alisado a
colher de pedreiro, descarrega uma vazão de 2,5 m³/s. Se sua declividade longitudinal de
0,20% calcular a altura da água nesse canal.
 12. Uma galeria circular de concreto revestida internamente com material betuminoso, com
diâmetro de 1,20m, tem um caimento de 0,85m/Km. Calcular a capacidade e a velocidade de
escoamento quando a mesma trabalhar cheia escoando livremente.
 13. Que diâmetro dever-se-ia indicar para que um emissário de esgotos sanitários fosse
capaz de transportar 282 l/s a 0,005 m/m, para uma lâmina máxima de 1/2 seção ? Admitir n
= 0,013 a seção plena.
 14. Um canal retangular de 3,0 m de largura conduz cerca de 2600 l/s quando a
profundidade molhada é de 1,0m. Pede-se calcular a energia específica da corrente líquida e
a verificação do regime de escoamento.
 15. No exercício anterior verificar as condições críticas de escoamento para n =
0,013. Sugestão: calcular q (vazão unitária = 2,16/3 l/s.m) e empregar as expressões
hc = (q /g) , Vc=(g.hc )1/2 e Ic = (nVc / R2/3)2.
2 1/3

 16. Deduzir a partir do conceito de energia específica e do número de Froude, as expressões


sugeridas no exercício anterior.
 17. Para Q = 50 l/s, Io = 0,002 m/m e uma altura molhada máxima de 0,75do, encontrar o
diâmetro comercial para a situação e verificar as condições de escoamento (V e y) para n =
0,013 (constante).
 18. Calcular a capacidade de uma galeria funcionando a seção plena, sem carga, de diâmetro
de 1500mm sob 0,08% de declividade. Qual seria a vazão, na mesma galeria, quando esta
funcionasse a 2/3 de seção? Utilizar expressão de Bazin.
 19. Quantos trechos paralelos de coletores de esgoto de 200mm de diâmetro com lâmina
máxima de 3/4 de seção, a 0,005 m/m de declividade, poderiam ser substituídos por um
único de 700 mm nas mesmas condições de declividade, trabalhando a 70% de seção, para n
= 0,013 a seção plena, nas seguintes hipóteses: (a) n constante e (b) n variável.
 NOTAS*
 ( 1) De Andreas Celsius (1701-1744), criador da escala termométrica centígrada, publicada
pela Real Sociedade Sueca em 1742, mesmo ano em que era inventado o aço fundido. Usava
o ponto de ebulição da água em uma extremidade (0 grau!) e o de congelamento na outra
(100 graus). A inversão da escala tal como é usada hoje, deve-se a outro sueco, o médico
Carl von Linné (1707-1778) e, assim, tornou-se a escala padrão da física.
 ( 2) De Simeon Denis Poison (1781-1840), engenheiro, físico e matemático francês, amigo
pessoal de Lagrange (1736-1813) e Laplace (1749-1827). Desenvolveu pesquisas sobre
mecânica, elasticidade, calor, som e estudos matemáticos com aplicação na medicina e
produziu escritos sobre movimentos de ondas em geral e coeficientes de contração e a
relação entre estes e a extensão. Na hidrodinâmica seu mais notável trabalho foi Mémoire
sur les équations générales de l'équilibre et du mouvement des corps solides élastiques et des
fluides, relacionando equilíbrio de sólidos elásticos e correntes de fluidos compressíveis, em
1829, e na termodinâmica a Teoria matemática do calor, de 1835.
 ( 3 ) De George Gabriel Stokes (1819-1903), matemático e notável físico teórico britânico,
nascido em Skreen, Irlanda, e educado em Cambridge, vivendo na Inglaterra por toda a vida,
onde foi professor em Cambridge, secretário da Royal Society e, finalmente, seu presidente.
Publicou mais de cem trabalhos científicos sobre variados assuntos, particularmente sobre
hidrodinâmica. Especialista em pesquisas para a determinação de viscosidade de fluidos,
particularmente usando em seus experimentos conjuntos de esferas. Em 1845 com o
paper On the Theories of the Internal Friction of Fluids in Motion, and of the Equilibrium
and Motion of Elastic Solid, publicou a versão definitiva da equação Navier-Stokes (Ver
Louis Marie Henri Navier, 1785-1836) , utilizando o parâmetro (viscosidade dinâmica).
Stoke: unidade de medida de viscosidade cinemática, no c. g. s., igual à de um líquido cuja
viscosidade é um poise e cuja massa volumétrica é um grama por centímetro cúbico (vale
104 unidades MKS de viscosidade cinemática).
 ( 4 ) Daniel Bernoulli (1700-1782), cientista suíço de Gröningen, criador da Física
Matemática juntamente com o alemão Leonard Euler (1707-1783), e os franceses Alexis
Claude Clairaut (1713-1765) e Jean le Rond d’Alembert (1717-1783)
 ( 5 ) Gaspard Gustave de Coriolis (1792-1843), professor e hidráulico francês, nascido em
Paris, formado na Ecole des Ponts et Chaussées e, posteriormente, professor da Politécnica
de Paris e, também, diretor do Corps des Ponts et Chaussées. Introduziu na hidráulica um
fator de correção , denominado de coeficiente de Coriolis, para cálculo da velocidade
média em canais abertos, que, depois, um seu compatriota e contemporâneo, Pierre Vautier
(1784-1847), que também foi diretor do Corps, dirimindo dúvidas do próprio Coriolis,
concluiu que não era uma constante, decrescendo com o crescimento da velocidade média,
sendo igual a 2,0 no fluxo laminar e 1,10 a 1,01 no hidráulico ou turbulento, embora nesta
situação, na prática, possamos trabalhar como igual a 1,00, segundo o mesmo Vautier.
 ( 6 ) Hoje muito conhecida, um tanto erroneamente, como a Fórmula Darcy-Weisback
(Henry Philibert Gaspard Darcy (1803-1858), engenheiro francês, de Dijon) mas na verdade
originalmente divulgada, em 1841, pelo professor de matemática saxônico Julius Weisback
(1806-1871).
 ( 7) Definido em 1883 por Osborne Reynolds (1842-1912), matemático e engenheiro
irlandês de Belfast. Igual, por exemplo, a V.D/n para seções circulares de diâmetro D.
 ( 8) Historicamente o termo “turbulência” (do inglês turbulence) foi introduzido na
Hidráulica pelo contemporâneo de Reynolds, professor William Thomson, o Lorde Kelvin
(1824-1907), para designar o estado do escoamento dos fluidos além do número crítico de
Reynolds. Nascido em Belfast, Irlanda e formado na Universidade de Cambridge, foi
professor da Universidade de Glasgow por 53 anos e o criador da escala absoluta para
medição de temperaturas.
 ( 9) Apresentada em 1935 pelos engenheiros Theodore von Kármán (1881-1963), húngaro
naturalizado americano e o alemão Ludwig Prandtl (1875-1953).
 (10) Cyril F Colebrook e Cedric White, foram dois pesquisadores em hidráulica do Imperial
College de Londres, que construíram, a partir do trabalho de Prandtl e seus estudantes,
a equação de Colebrook-White, também conhecida como equação universal de perda de
carga.
 (11) Divulgada em 1938, a fórmula universal mostra que na situação de turbulência os
valores de "f" tornam-se mais difíceis de ser determinados, sendo que frequentemente,
recorrem-se a diagramas específicos como, por exemplo, o denominado Diagrama
Universal de Moody, publicado em 1939 (Lewis Ferry Moody, 1880-153, engenheiro
americano), baseado nos resultados experimentais de Nikuradse divulgadas em 1933, na
Alemanha (Johann Nikuradse, 1894-1979, notório pesquisador alemão no campo das
resistências a escoamentos de fluidos em tubos), na anáise matemática de Prandtl (1875-
1953) e de Kárman (1881-1963) e nas próprias observações do autor, notadamente em
tubulações industriais. Também são comumente empregados os diagramas de Rouse (Hunter
Rouse, 1906-1996, conceituado professor da State Unisity of Iowa) e o de Stanton (Thomas
Edward Stanton, 1865-1931, engenheiro-físico norteamericano)
 (12) Desenvolvida pelo Engenheiro Civil e Sanitarista Allen Hazen e pelo Professor de
Hidráulica Garden Williams, entre 1902 e 1905, é, sem dúvida, a fórmula prática mais
empregada pelos calculistas para condutos sob pressão desde 1920, principalmente em pré-
dimensionamentos. Com resultados bastante razoáveis para diâmetros de 50 a 3500mm,
 (13) Sua criação é devida ao engenheiro francês natural de Châlons-sur-Marne, Antoine
Chézy (1718-1798) e divulgação científica em 1876, creditada ao engenheiro alemão de
Königsberg, Gotthilf Heinrich Ludwig Hagen (1797-1884).
 (14) Divulgada em 1897, esta equação foi desenvolvida pelo engenheiro francês, nascido em
Nancy, Henri Emile Bazin (1829-1917).
 (15) Apresentada nos E.U.A. em 1889, pelo engenheiro irlandês nascido em Normandy,
Robert Manning (1816-1897) e recomendada para uso internacional desde 1936 pelo
Executive Committee do 3º W. P. Conference, Wash. D.C.‚ é por sua simplicidade e
resultados bastante satisfatórios, a fórmula prática mais difundida na literatura técnica
americana e a mais empregada pelos engenheiros deste lado do planeta para
dimensionamento de condutos livres sendo, inclusive, recomendada pelas normas da ABNT
para escoamento livre ao lado da fórmula universal para cálculos de condutos sob pressão.
 (16) Em homenagem a Blaise Pascal (1623-1662), filósofo e matemático francês, natural de
Clermont-Ferrand que estabeleceu o princípio de que diz: em um líquido em repouso ou
equilíbrio as variações de pressão transmitem-se igualmente e sem perdas para todos os
pontos da massa líquida. Pascal: 1Pa = 1 N/m², 105 N/m² = 1 bar.
 (17) Associado ao nome do matemático e engenheiro civil inglês, William Froude (1810-
1879), nascido em Dartinghan, Devonshire, na realidade teve seus fundamentos teóricos
originais nos estudos do professor de mecânica francês, alsaciano de nascimento, Ferdnand
Reech (1805-1880).
 (18) Conforme cita Sérgio Rolim Mendonça, professor da Universidade Federal da Paraíba,
em Tabelas Adequadas para Aplicação de Métodos Iterativos nos Cálculos Analíticos de
Condutos em Sistemas de Abastecimento de Água e Esgotos Sanitários
CAPÍTULO VI

CRITÉRIOS DE DIMENSIONAMENTO / CONDIÇÕES TÉCNICAS

6.1. Introdução

Os condutos sanitários, exceção os de recalques e sifões invertidos, funcionam como condutos


livres e podem ser aplicados no seu dimensionamento, as mesmas leis que regem o escoamento de
águas, conforme estudo desenvolvido no Capítulo 6. Os trechos iniciais dos coletores têm regimes
de escoamento extremamente variáveis, tendo em vista que dependem diretamente do número de
descargas simultâneas, originárias dos conjuntos ou aparelhos sanitários, conectados às ligações
prediais. A medida que o coletor estende-se para jusante o número de descargas simultâneas vai
aumentando, bem como desaparecendo os intervalos sem descargas nos coletores a montante e,
associando-se a isto, o decorrer de tempo de escoamento do líquido no interior dos condutos,
fazendo com que o escoamento para jusante torne-se contínuo, variando, contudo, de intensidade ao
longo do dia, como ocorre com o consumo de água.

6.2. Hipótese de Cálculo

6.2.1. Hipótese Clássica

No dimensionamento clássico utiliza-se a hipótese de que o escoamento dar-se-á em regime


permanente e uniforme em cada trecho, embora se saiba que, principalmente nos coletores, as
vazões crescem para jusante em virtude dos acréscimos oriundos das ligações prediais. Outros
fatores poderiam também ser considerados como contrários a aplicação do conceito citado, tais
como: variação de vazão ao longo do dia, presença variável de sólidos, mudanças de greide ou de
cotas no poço de visita de jusante, etc. No entanto, como o escoamento tem que se dar em
condições de lâmina livre deve-se considerar, para efeito de cálculo, a situação mais desfavorável, a
qual ocorrerá, sem dúvida, no instante de maior vazão, na seção do extremo jusante do trecho em
estudo.

Admitindo-se, pois, a vazão máxima de jusante como permanente e uniforme ao longo do trecho,
estar-se-á simplesmente dimensionando a favor da segurança quanto a sua capacidade, visto que se
espera que para montante ocorra, no máximo, em termos de lâmina livre, uma situação semelhante a
da seção final, visto que não é permitido diâmetros diferentes em um mesmo trecho. Para efeito de
validade do conceito aplicado, desconsidera-se também o rebaixamento da lâmina a jusante, quando
as cotas da calha do extremo jusante no trecho e do montante do seguinte forem diferentes.

No escoamento permanente e uniforme não há variação na velocidade com tempo e na velocidade


com a extensão, implicando em que o escoamento dar-se-á em virtude do desnível geométrico
(igual a perda da carga no trecho), confinado em uma canalização capaz de comportar a vazão
correspondente e nas condições adequadas.

6.2.2. Justificativa

É fácil entender que a vazão de contribuição a cada instante é uma consequência da utilização
simultânea dos aparelhos ou conjuntos sanitários, notadamente nas áreas de contribuição iniciais de
projeto. No método clássico de determinação das vazões de esgotos despreza-se esse conceito, ou
seja, não se considera o modo da distribuição das contribuições na rede, que é uma consequência do
tipo e distribuição do consumo de água e que depende da simultaneidade da utilização dos
aparelhos, visto a complexidade do estudo de hidrogramas de escoamento, em geral construídos a
partir de suposições teóricas carentes de confirmações reais. É importante lembrar que o método
citado fornece bons resultados de funcionamento, principalmente para pequenos projetos como
conjuntos habitacionais, pequenas cidades, etc., melhorando ainda mais no sentido de jusante das
canalizações quanto as condições de escoamento, porém pode implicar em obras
superdimensionadas nos condutos principais, caso não seja considerado o efeito do amortecimento,
principalmente para bacias de drenagem superiores a cinco quilômetros quadrados

O dimensionamento clássico é feito a partir da determinação da vazão máxima de contribuição que,


por sua vez, é calculada a partir do consumo máximo de água. Esse consumo pode ser proveniente
de dois tipos: a) consumo relativo a trabalhos domésticos, abrangendo gastos na lavagem de
utensílios, cozinha, limpeza geral e vazamentos e b) consumo de uso pessoal como banhos,
descargas sanitárias, ablusões e lavagens de roupa. A separação dos consumos conceitualmente é
válida, pois o primeiro é constante, resultante de tarefas coletivas em cada residência, enquanto que
o segundo depende, principalmente, dos hábitos individuais, notadamente os higiênicos.

6.3. Condições Específicas

Para dimensionamento de coletores de esgotos uma série de limitações técnicas deve ser observada
para que o processo de coleta e o rápido e seguro afastamento das águas residuárias seja garantido
de forma contínua e adequada durante toda a vida útil do sistema. Com estes objetivos alcançados,
consegue-se maior vida útil para as tubulações, menores possibilidades de vazamentos (ocorrências
mais frequentes em condutos sob pressão) e condições mais desfavoráveis ao surgimento de
anaerobiose, condição danosa para alguns materiais utilizados na confecção dos tubos

A garantia de funcionamento contínuo obtém-se desde que não haja obstruções ou rupturas nos
condutos por causa de sedimentação de sólidos ou recalques negativos nas fundações de apoio às
tubulações. Para amortizar os possíveis problemas de funcionamento por causa das variações de
vazão ao longo do dia, maiores vazões implicam em maiores velocidades que ajudam a “limpar” o
coletor e, durante a madrugada, quando ocorrem as vazões mínimas o líquido escoado tem muito
menos material em suspensão, ou seja, poucos sólidos a serem transportados.

A NBR 9649/86 - ABNT relaciona uma série de condições específicas para dimensionamento
hidráulico dos coletores de esgoto as quais serão apresentadas a seguir:

 Seção A- Nos sistemas de esgotamento, em geral a seção circular é a mais empregada,


considerando-se que essa é a que apresenta maior rendimento se comparada às demais
seções em condições equivalentes, visto ser a que apresenta maior raio hidráulico, além de
menor consumo de matéria-prima para moldagem dos seguimentos (tubos). Grandes vazões,
no entanto, implicam em grandes diâmetros o que pode inviabilizar sua especificação diante
de várias circunstâncias, conforme será mostrado no Capítulo 15. As normas e
especificações brasileiras indicam, para os diversos tipos de materiais, um diâmetro mínimo
de do= 100mm.
 Vazão Q - Para todos os trechos da rede serão sempre estimadas as vazões de início Q i e
final de plano Qf , para verificação do funcionamento do trecho nas situações extremas de
vida do projeto, sendo que a vazão a considerar para determinação das dimensões de
qualquer trecho não será inferior a 1,50 l/s o que equivale, aproximadamente, a descarga de
uma bacia sanitária.
 Tensão Trativa  - A tensão trativa tem sido reconhecida como um bom critério de projeto e
tem substituído o critério anterior (até os anos 70) que era o da velocidade mínima para
dimensionamento de coletores. Para assegurar a autolimpeza, evitando que os sólidos
pesados sedimentem-se ao longo dos condutos e possam obstruí-los com o tempo, e limitar a
espessura da camada de limo interna nas paredes, reduzindo a produção de sulfetos, a NBR
9649/86 recomenda que para cada trecho seja verificado um valor mínimo de tensão trativa
média igual a 1,0 Pa ( = 1N/m² para a vazão inicial Qi, se n = 0,013. Segundo a mencionada
norma este valor de tensão é suficiente para arrastar grãos de areia de 1,5mm de diâmetro ou
menores e outros materiais sedimentáveis.
 Velocidade V - É lógico que quanto maior a velocidade melhores serão as condições de
arraste, mas por outro lado velocidades excessivas colocariam em risco a estrutura das
tubulações, principalmente nas juntas, além de danificarem as próprias paredes internas pelo
efeito da abrasão, ao longo do tempo. Além disso a turbulência acentuada contribuiria para a
entrada de ar no meio líquido aumentando, assim, a lâmina líquida no interior do trecho. A
NBR 9649 indica como limite máximo a velocidade de 5,0m/s, que logicamente, só
ocorreria em condições finais de projeto. Para que não haja preocupações do ponto de vista
da engenharia é recomendável não se trabalhar em trechos consecutivos, com velocidades
superiores a 3,0m/s. É importante que se verifique a tensão trativa para as condições iniciais
de projeto e as velocidades máxima e crítica esperadas para o fim do plano.
Tradicionalmente são recomendados os seguintes limites de velocidades V:

- ferro fundido V até 6,0 m/s


- PVC, manilhas cerâmicas V até 5,0 m/s
- concreto V até 4,0 m/s
- fibrocimento V até 3,0 m/s

 Rugosidade n - O coeficiente de rugosidade de Manning depende do diâmetro, da forma e


do material da tubulação, da relação y/do e das características do esgoto. Independente desta
gama de influências, é usual empregar-se n = 0,013 para esgotos sanitários tendo em
consideração que o número de singularidades (PV, TIL etc.) independe do material da
tubulação, bem como a formação logo após a entrada em uso, da camada de limo junto as
paredes, uniformiza a resistência ao escoamento. Em climas mais quentes e declividades
acentuadas esta camada de limo pode se tornar menos significativa em relação ao material
das paredes, principalmente na parte inferior da seção molhada.

 Declividade Io- Definidas as vazões de projeto (inicial e final) em cada trecho segue-se a
determinação do diâmetro e da declividade. Esta declividade deverá ser de tal modo que
além de garantir as mínimas condições de arraste, deverá ser aquela que implique em menor
escavação possível, associada a um diâmetro escolhido de tal maneira que transporte a vazão
final de projeto em condições normalizadas, para cálculo de tubulações de esgotamento
sanitário. A declividade mínima que satisfaz a condição de tensão trativa  =1,0 N/m², =10
KN/m³ e n = 0,013, pode ser determinada pela equação

Io,mín = 0,0055 Qi-0,47 Eq. 6.1

OBS: Io,mín em m/m e Qi em l/s, não sendo recomendável declividades inferiores a 0,0005 m/m.
A declividade máxima será aquela para qual se tenha a velocidade máxima. Por exemplo, sendo n
= 0,013 então, Io,mín = 4,26 Qf-0,67para Vfinal = 5,0 m/s (Eq. 6.2) e Io,mín = 2,53 Qf-0,67 para Vfinal = 4,0
m/s (Eq. 6.3), segundo MENDONÇA, S. R., Hidráulica dos Coletores de Esgotos, 2a Edição, 1991,
em Projeto e Construção de Redes de Esgotos, ABES, RJ, 1986.

 Lâmina d'água y (Figura 6.1) - As lâminas d’água devem, no máximo alcançar 75% do
diâmetro do coletor para garantia de condições de escoamento livre e de ventilação. São
determinadas admitindo-se o escoamento em regime permanente e uniforme e para a vazão
final Qf(situação de lâmina máxima de projeto). Quando a velocidade final Vf for superior a
velocidade crítica Vc , a maior lâmina admissível, segundo a NBR 9649/86, será de 50% do
diâmetro. Para tubulação funcionando a 3/4 de seção e do até 300mm (segundo o Professor
MENDONÇA, na publicação já citada), a NBR 9649 recomenda que essa velocidade crítica
pode ser calculada pela seguinte expressão

V = 6. (g . R)1/2 , (onde “g” é a aceleração de gravidade local) Eq. 6.4

Figura 6.1 - Desenhos esquemáticos de lâminas molhadas

OBS: A relação lâmina d‟água/diâmetro ( y/do ) é denominada de lâmina relativa. É importante


verificar o valor da velocidade resultante de modo a verificar se esta é ou não superior a velocidade
crítica, pois velocidades superiores implicam em arraste e mistura de ar com as águas em
escoamento. Evidente que havendo a introdução de ar na mistura ocorrerá aumento do volume do
líquido e, consequentemente, aumento da lâmina líquida, sendo esta a razão básica para a limitação
da lâmina relativa máxima em 50%, quando em funcionamento supercrítico. Embora pelo critério
de tensão trativa média tenham-se teoricamente condições de autolimpeza, não é recomendável
projetar-se encanamentos com lâminas iniciais inferiores a 20% do diâmetro da canalização.

6.4. Soluções Gráficas

6.4.1. Ábaco para o Dimensionamento e Verificação da Tubulação de Esgotos pela Tensão


Trativa - n = 0,013 ( Fig. 6.2 ).

Esta figura, elaborada pelos Engenheiros J. G. O. Machado Neto e M. T. Tsutíya e


publicada como anexo a Revista DAE Nº.140/85, Vol. 45, apresenta uma faixa de
utilização para esgotos, para lâminas relativas de 0,20 a 0,75, em função da vazão em l/s e
declividade em m/m. Por exemplo: para I o = 0,005m/m e do = 200mm a vazão variará de
2,0 l/s (y/do = 0,20) até 21,0 l/s (y/do = 0,75).
Fig. 6.2 - Ábaco para o Dimensionamento e Verificação da Tubulação de
Esgotos pela Tensão Trativa (n = 0,013).
(Fonte:Revista DAE - reduzida e scaneada)

6.4.2. Ábaco para Cálculo de Tubulação pela Fórmula de Manning - n = 0,013 ( Fig. 6.3 ).

Publicado originalmente como Anexo à P-NB-567/75 da ABNT, este ábaco (aqui ampliado em sua
abrangência) simplifica bastante o cálculo de condutos circulares em escoamento livre e apresenta
os diâmetros dos condutos em função da lâmina relativa e do fator de condução K que é
determinado através da expressão

K = Q / Io1/2com Q em m3/s e Io em
m/m, Eq. 6.4

devendo-se trabalhar na faixa de utilização recomendada para esgotos sanitários, de 0,20 a 0,75%
de lâmina. Exemplo: para K = 1,0 então o diâmetro d o indicado será de 350mm (menor diâmetro),
correspondendo a um y/do = 0,61. A Tabela 6.1 substitui, com vantagens na precisão dos resultados
em algumas situações, a utilização deste ábaco. Por exemplo, para um d o= 450mm tem-se: y/do =
0,75 tem-se K= 2,5998 e y/d o = 0,55 tem-se K=1,6698.
Fig. 6.3 - Ábaco para Cálculo de Tubulação pela Fórmula de
Manning (n = 0,013)
(Fonte: Livro Esgotos Sanitárisos do Prof Carlos FErnandes)
Diâmetros
y/do 100mm 150mm 200mm 250mm 300mm 350mm 400mm 450mm 500mm 550mm 600mm 800mm 1000mm 1500mm

Fator de condução K = Q / Io1/2

1,1580
0,20 0,0045 0,0133 0,0287 0,0521 0,0846 0,1277 0,1823 0,2496 0,3306 0,4263 0,5377 2,0995 6,1903
1,8114
0,25 0,0070 0,0208 0,0449 0,0814 0,1325 0,1998 0,2852 0,3905 0,5172 0,6668 0,8411 3,2842 9,6831
2,5895
0,30 0,0101 0,0298 0,0642 0,1164 0,1893 0,2856 0,4078 0,5583 0,7394 0,9534 1,2032 4,6952 13,8431
3,4769
0,35 0,0135 0,0400 0,0862 0,1563 0,2542 0,3835 0,5475 0,7496 0,9928 1,2802 1,6145 6,3042 18,5868
4,4562
0,40 0,0174 0,0513 0,1105 0,2004 0,3258 0,4915 0,7018 0,9608 1,2724 1,6406 2,0691 8,0795 23,8212
5,5079
0,45 0,0215 0,0634 0,1366 0,2477 0,4028 0,6075 0,8674 1,1875 1,5728 2,0279 2,5575 9,9866 29,4439
6,6118
0,50 0,0258 0,0761 0,1639 0,2973 0,4835 0,7293 1,0412 1,4255 1,8879 2,4341 3,0701 11,9879 35,3445
7,7452
0,55 0,0302 0,0892 0,1921 0,3483 0,5664 0,8543 1,2198 1,6698 2,2116 2,8516 3,5963 14,0429 41,4033
8,8841
0,60 0,0347 0,1023 0,2203 0,3995 0,6496 0,9799 1,3992 1,9155 2,5368 3,2709 4,1252 16,1080 47,4917
10,0024
0,65 0,0390 0,1152 0,2481 0,4498 0,7314 1,1033 1,5752 2,1565 2,8562 3,6827 4,6445 18,1355 53,4697
11,0712
0,70 0,0432 0,1275 0,2745 0,4978 0,8096 1,2212 1,7436 2,3870 3,1614 4,0762 5,1407 20,0735 59,1834
12,0582
0,75 0,0471 0,1388 0,2991 0,5422 0,8818 1,3301 1,8990 2,5998 3,4432 4,4396 5,5990 21,8631 64,4596

Tabela 6 - Valores do fator de condução K = Q / Io1/2 em função de y/do e do


(Fonte: Livro Esgotos Sanitárisos do Prof Carlos FErnandes)
6.5. Exemplos

6.5.1. Encontrar um diâmetro capaz de transportar uma vazão de esgotos de 60,0 l/s, sob
uma declividade de 0,007m/m (n = 0,013).

Solução:
P/ Qf = 60 l/s , Io = 0,007m/m e n = 0.013

a) pela Fig VI.1.


do = 300 mm;

b) pela Fig VI.2.


Sendo Qf / Io1/2 = 0,72 e c/ y/do até 0,75 então, do = 300mm e y/do = 0,64;

c) pelas tabelas de Qf / Io1/2


Com Qf / Io1/2 = 0,72, entra-se na linha de y/d o = 0,75 e procura-se um valor que iguale ou
supere 0,72, neste caso Qf / Io1/2 = 0,8818 na coluna correspondente ao do = 0,300m
(observa-se que subindo na mesma coluna, poder-se-ia determinar y/do  0,64, através da
interpolação visual dos valores 0,6496 com 0,7314);

d) analítica
Para y/do= 0,75 (= 3/4) tem-se A = 0,6319.do2 e R = 0,3016.do , então,
Q3/4 = 0,06 = 0,6319.do2 x (0,3016.do)0,67. (0,007)0,5 / 0,013, ou seja, do  0,278m, logo
do = 300mm, pois 278mm não é comercial;

6.5.2. Solucionar empregando as tabelas de Q / Io1/2:


a) Com que lâmina relativa um trecho com diâmetro de 450mm transporta uma vazão de
esgotos de 100,0 l/s, sob uma declividade de 0,0036m/m?
b) Nas mesmas condições de vazão e declividade, qual o diâmetro recomendado? Qual a
lâmina?

Solução (n = 0,013):

a) Pelas tabelas de Q/ Io1/2, na coluna correspondente a 0,450m, para Qf / Io1/2 =1,67


encontra-se que y/do = 0,55;

b) Usando-se a condição de lâmina relativa máxima entra-se na linha de y/do = 0,75 até que
seja localizado o primeiro valor que iguale ou supere Qf / Io1/2 = 1,67, no caso 1,8890, que
corresponde a coluna de do = 0,400m, estimando-se para 1,67 (interpolando 1,5752 e
1,7436 com 0,65 e 0,70, respectivamente) um y/d o = 0,68 (subindo na mesma coluna).

6.6. Exercícios

 Por que os coletores de esgoto sanitários são dimensionados de modo a garantirem o


escoamento livre?
 Encontrar a expressão para cálculo de velocidade de Manning em função da tensão trativa. E
da tensão em função da velocidade.
 Explicar as razões normativas de limitações nos valores de velocidade, lâmina relativa,
declividade, tensão de arraste e diâmetros, quanto a condições de autolimpeza, controle de
sulfetos e aspectos construtivos.
 Resolver os seguintes problemas utilizando soluções gráficas e analíticas (n constante =
0,013):
o um coletor circular tem uma declividade de 0,005m/m e deverá transportar 32 l/s no
final do plano. Qual será seu diâmetro e velocidade do escoamento;
o idem se Qf = 72 l/s e Io = 0,006 m/m;
o calcular a lâmina líquida de um conduto circular com diâmetro de 600mm
transportando 218 l/s (Io = 0,2%); verificar também a velocidade de escoamento.
o um trecho de coletor deve escoar no final do plano uma vazão de 126,3 l/s, sendo
que inicialmente trabalha com apenas 43,6l/s de vazão média. Sabendo-se que a
declividade do trecho é de 0,65% pede-se

- diâmetro do trecho;
- condições de funcionamento (y e V) atuais e futuras.

 Se em uma tubulação de 200mm de diâmetro em manilha cerâmica vitrificada internamente


escoa uma vazão 12,9 l/s com uma lâmina absoluta de 80mm, qual será a declividade e a
velocidade de projeto?
 A lâmina líquida em um coletor de esgotos em concreto armado, 600 mm, é de 387 mm para
uma declividade de 0,3%. Qual a vazão e a velocidade de projeto?
 Qual a altura molhada em uma tubulação de esgotos de 500mm de diâmetro transportando
204,52 l/s sob uma declividade de 0,0045m/m?
 Um coletor de esgotos sanitários de 0,25m de diâmetro, deverá transportar 36,6 l/s quando
funcionar a 3/4 de seção. Determinar a descarga e a velocidade de escoamento quando esta
lâmina for de apenas 0,45do.
 Determinar a área, o perímetro e o raio hidráulico molhados no coletor do exercício anterior,
quando y/do for igual a 0,60.
 Duas galerias circulares encontram-se. Uma tem 1,10m de diâmetro, declividade de
0,0004m/m e apresenta uma vazão máxima de 408,6 l/s. A segunda tem 0,60m de diâmetro,
declividade de 0,001m/m e uma vazão máxima de 122 l/s. Pergunta-se a que altura da maior
deverá entrar a menor para que, na situação de vazões máximas, não apareçam condições de
remanso ou de vertedouro livre? n = 0,013, constante.
 Calcular a capacidade máxima de um coletor de esgotos de 0,20m de diâmetro, n = 0,013,
com 1% de declividade, funcionando a 3/4 de seção? Quais seriam suas condições críticas
de escoamento?
 Foi proposto o seguinte problema: “Calcular um diâmetro comercial capaz de transportar 15
l/s de esgotos sanitários sob uma declividade de 0,45%.” Entre as respostas calculadas foi
dito que o diâmetro seria a) 150mm, b) 200mm e c) 250mm. Qual a resposta correta e o
porquê de cada uma das outras não serem adequadas?.
 Que população de projeto poderia ser beneficiada por um coletor de esgotos de 400mm de
diâmetro, assentado sob 0,35% de declividade. Sabe-se que 12% da vazão recolhida deve-se
a infiltrações ao longo da rede a montante. Sendo n = 0,013, admitir demais parâmetros
necessários ao cálculo, justificando-os.
 Qual a máxima população de projeto contribuinte para um trecho de coletor de esgotos
sanitários de 300mm de diâmetro, assentado com declividade tal que resulte em uma
velocidade média de escoamento da ordem de 0,50m/s? Considerar infiltração máxima da
ordem de 15% da vazão recolhida. Qual seria a capacidade ociosa se o trecho tivesse sido
construído em 350mm? Sendo n = 0,013, admitir demais parâmetros necessários ao cálculo,
justificando-os.
 Pesquisar e comentar as afirmações
o Io é função da autolimpeza, da possibilidade produção de sulfetos e dos aspectos
construtivos para grandes diâmetros;
o quanto as condições de autolimpeza, para uma mesma velocidade, a tensão trativa
decresce com o diâmetro implicando em
- superdimensionamento para pequenos diâmetros e
- subdimensionamento nos diâmetros maiores;

o A redução do limo nas paredes molhadas diminui a produção de sulfetos.


CAPÍTULO VII

DIMENSIONAMENTO HIDRÁULICO DOS COLETORES

7.1. Introdução

Os condutos de esgotos sanitários têm como finalidade a coleta e o afastamento rápido e seguro dos
resíduos líquidos ou liquefeitos das áreas habitadas, devendo possuir capacidade suficiente de
transporte durante todo o projeto, garantias de escoamento livre e funcionamento contínuo e
adequado. Com estes objetivos consegue-se maior vida útil para as tubulações, menores
possibilidades de vazamento (ocorrências frequentes em condutos sob pressão) e condições
desfavoráveis ao surgimento de anaerobiose nas vazões de esgoto, situação bastante perigosa para
determinados tipos de materiais utilizados na confecção de tubos.

A garantia do funcionamento contínuo é obtida desde que se reduza ao menor número possível as
ocorrências de rupturas ou obstruções dos condutos. Para que isto aconteça é necessário muito
critério quando do cálculo da posição e do assentamento das canalizações como medida de
prevenção contra abatimentos nas fundações, bem como dotar os trechos de condições mínimas de
autolimpeza, para que não haja redução progressiva de seção de escoamento por sedimentação.
Atualmente se encontra em evidência no estudo do problema, a utilização do conceito de tensão
trativa, que é a força hidrodinâmica exercida sobre as paredes do conduto, para verificação dessa
condição de autolimpeza.

7.2. Coeficientes de Contribuição

7.2.1. Taxa de Contribuição Domiciliar Homogênea

As canalizações coletoras de esgotos funcionam por gravidade e a determinação de suas dimensões


é feita a partir da identificação das vazões que por elas serão transportadas. Essa identificação
compreende duas parcelas distintas, sendo a primeira delas as vazões concentradas, de fácil
identificação em planta, e a segunda a contribuição originária das ligações domésticas ao longo dos
condutos e dos possíveis pontos de infiltrações nos mesmos.

O cálculo das contribuições domiciliares ao longo dos trechos é feito a partir da determinação
dos coeficientes de contribuição ou taxa de contribuição doméstica “Td”, usualmente determinada
relacionando-se com a unidade de comprimento dos condutos ou a unidade de área esgotada. Essas
taxas traduzem o valor global das contribuições domésticas máximas horárias dividido pela
extensão total da rede coletora da área em estudo e são calculadas pelas seguintes expressões:

1) por unidade de comprimento (taxa de contribuição linear doméstica - l/s.m) -

 Td = (c.q.K1.K2.P) / (86400.L) Eq. 7.1

ou

 Td = (c.q.K1.K2.d.A) / (86400.L) ; Eq. 7.2

2) por unidade de área (taxa de contribuição superficial - l/s.ha) -


 Td = (c.q.K1.K2.P) / (86400.A) Eq. 7.3

ou

 Td = (c.q.K1.K2.d) / 86400 . Eq. 7.4

Nestas expressões A é a área de contribuição, d a densidade populacional e L a extensão total da


rede coletora.

7.2.2. Taxa de Cálculo Linear

A taxa de contribuição linear - Tx , é resultante da reunião da taxa de contribuição doméstica (Td)


com a infiltração (TI), visto que as vazões dos esgotos sanitários são formadas a partir das
contribuições domésticas reunidas às possíveis infiltrações que penetram nas canalizações coletoras,
ou seja :

 Txi = Tdi + TI Eq. 7.5

para o início de plano e

 Txf = Tdf + TI Eq. 7.6

para o final de projeto.

A determinação da vazão de dimensionamento de cada trecho, denominada de contribuição em


marcha, é feita multiplicando-se a extensão do trecho em estudo pela taxa de cálculo linear ou taxa
de contribuição linear.

7.3. Profundidade dos Coletores

A profundidade mínima para os coletores está relacionada com as possibilidades de esgotamentos


das edificações nos lotes, devendo, no entanto, ser limitada pela concessionária de esgotos da
cidade, tendo em vista a responsabilidade do esgotamento de subsolos. Como mostrado na Fig. 7.1
a profundidade mínima - Hmín , pode ser equacionada da seguinte forma:

Hmín = h + 0,50m + 0,02L + 0,30m + (D + e) , Eq. 7.7

onde:
h (m) = desnível do leito da rua com o piso do compartimento mais baixo;
0,50m = profundidade aproximada da caixa de inspeção mais próxima;
0,02 = declividade mínima para ramais prediais - m/m;
L (m) = distância da caixa de inspeção até o eixo do coletor;
0,30m = altura mínima para conexão entre os ramais prediais;
D (m) = diâmetro externo do tubo coletor;
e (m) = espessura da parede do tubo.
FIG. 7. 1 - Posição do coletor em perfil

De um modo geral, nas extremidades iniciais dos coletores estão as menores profundidades,
compatível com os primeiros ramais prediais e coma proteção contra cargas eventuais externas, por
razões essencialmente financeiras. Na falta de informações mais precisas, por exemplo, tipos de
sobrecargas externas ou cotas de lançamento final, a NBR 9649/86 aconselha um recobrimento
mínimo de 0,90m quando a canalização estiver sob leitos carroçáveis e 0,65m sob passeios
exclusivos de pedestres. Este valor decorre da tentativa de proteger a canalização contra esforços
acidentais externos advindos, principalmente, do tráfego sobre a pista de rolamento e a garantia de
esgotamento na ligação predial. Em geral um mínimo de 1,20m de profundidade atende a maioria
das situações para trechos de 100 ou 150mm de diâmetro.

Por outro lado, grandes profundidades podem se tornar antieconômicas, principalmente em termos
de escavação e, por isso, deve-se limitar a profundidade máxima das valas. Usualmente o valor de
6,0m é tido como limite máximo, sendo que para coletores situados a mais de 4,5m de
profundidade, devem ser projetados coletores auxiliares mais rasos, nas laterais das ruas, de modo a
reduzir as ligações apenas aos poços de visita e os custos das ligações prediais. Os
coletores públicos não devem ser aprofundados para atender ao esgotamento de instalações
particulares situadas abaixo do nível da via pública e sempre que a profundidade do coletor tornar-
se excessiva deve-se examinar a possibilidade da recuperação deste para profundidades menores
através de estações elevatórias (Capítulo X).

7.4. Traçados de Rede

Devidamente identificadas as finalidades de um sistema de esgotos sanitários, bem como as


recomendações técnicas que deverão ser obedecidas na elaboração de um projeto, dispõe-se a esta
altura do texto, de conhecimentos suficientes para o desenvolvimento do cálculo de uma rede
coletora de esgotos sanitários. Esse tipo assemelha-se a uma rede hidrográfica, visto que os
condutos componentes crescem de montante para jusante em suas seções transversais, de acordo
com o crescimento das vazões de esgotamento, sempre acompanhando a queda da superfície dos
terrenos e orientados, nos seus diversos seguimentos, pela disposição dos arruamentos, visto que o
escoamento em coletores dar-se-á por gravidade, com as canalizações transportadoras sob o leito
das ruas.

Para a definição do traçado da rede coletora a primeira providência do projetista é o estudo da


planta da cidade, para nela identificar os diversos divisores de água e talvegues. Feito esse estudo
procura-se locar o ponto de lançamento final dos esgotos na planta (pelo menos a direção para esse
ponto) para, a seguir, elaborar o posicionamento dos condutos principais e possíveis canalizações
interceptoras e emissários, dentro de uma concepção que reduza as dimensões às menores possíveis,
em todos os níveis.
Definida uma concepção geral de projeto deve-se, a esta altura, partir para o projeto dos coletores
secundários sem abuso de dimensões, do usuário e da manutenção do sistema. E desde que haja
pontos de esgotamento, todas as ruas poderão possuir coletores de esgotos, de modo que a
apresentação de um traçado de uma rede terá obrigatoriamente uma forma similar ao das vias
públicas, em combinação com a topografia, geologia e hidrologia da área, da posição do lançamento
final e também do sistema adotado (separador ou combinado). Por razões econômicas ruas com
pequeno número de possíveis ligações (até três pontos de contribuições é um número razoável),
ligações individuais poderão ser substituídas por uma ligação coletiva, evitando-se, assim, a
obrigatoriedade de construção de um trecho de coletor (Fig. 7.2.). Diante dos vários aspectos que o
traçado poderá resultar, a maioria dos autores costuma expor a seguinte classificação (Fig. 7.3.):

 perpendicular;
 leque;
 interceptor;
 zonal ou distrital;
 radial.

FIG. 7. 2 - Exemplos de situações de redução de trechos na rede


FIG. 7. 3 - Traçados típicos de redes coletoras

O traçado perpendicular é característico de cidades com desenvolvimento recente e com planos de


expansão definidos. O em leque é frequente em cidades situadas em vales e de formação antiga. O
interceptor predomina em cidades costeiras e o zonal e o radial são característicos das grandes
cidades.

7.5. Localização dos Poços de Visita

Todos os condutos livres da rede (coletores, interceptores e emissários) serão compostos de trechos
limitados por dispositivos de acesso externo, destinados a permitir a inspeção dos trechos a eles
conectados e sua eventual limpeza ou desobstrução (V. Cap. VIII). Esses dispositivos em geral têm
uma concepção padrão e são denominados de poços de visita.

Por norma devem existir poços de visita nos seguintes pontos:

- extremidade inicial dos coletores;


- encontro de canalizações;
- mudanças de direção, declividade, profundidade ou diâmetro;
- nos trechos retos, respeitando-se as distâncias máximas de
a) 100m, para do até 150mm;
b) 120m, para do de 200 a 600mm;
c) 150m, para do superiores a 600mm.

7.6. Localização dos Coletores

A recomendação clássica é que a canalização de água localize-se a um terço (1/3) da largura da rua
a partir de uma margem, enquanto que os condutos públicos para esgotamento devem ficar situadas,
aproximadamente, a mesma distância, mas da margem oposta visando, principalmente,
compatibilizar o afastamento preventivo das duas canalizações, bem como o não distanciamento
demasiado das edificações da margem mais afastada (Fig. 7.4).

A maior ou menor largura da pista de rolamento fará com que a recomendação anterior sofra
adaptações. Em vias públicas muito largas, de modo a evitar ligações prediais muito longas, pode-se
projetar coletores auxiliares instalados sob a calçada do lado mais distante da linha do coletor ou de
ambos os lados quando a distância for excessiva para os dois lados da rua. Especialistas
recomendam este expediente quando o alinhamento lateral do passeio chegar a nove metros de
distância. Esta recomendação também é válida para o caso de avenidas de tráfego rápido e
volumoso, onde se recomenda a construção de dois coletores paralelos, um em cada lado da pista e,
se possível, sob o passeio para pedestres, a profundidades adequadas ao esgotamento das
edificações. Diante destes argumentos os coletores auxiliares pode ser um recurso a se dar muita
atenção, pois podem se tornar um recurso muito vantajoso e economicamente mais víavel, em
determinadas circunstâncias.

Nas ruas com seção transversal inclinada os condutos de esgotamento tendem a ser instalados
próximos a margem mais baixa, tendo em vista o esgotamento das edificações que, logicamente,
estarão sobre cotas inferiores.
FIG. 7. 4 - Exemplos de perfis transversais de arruamentos e posicionamento dos coletores

A existência de outras canalizações subterrâneas anteriores a implantação da rede de esgotos, como


de água potável, galerias pluviais, cabos telefônicos, etc., determinará o deslocamento adequado da
canalização de esgotos sanitários. Outro fator que poderá provocar o deslocamento para posições
mais convenientes será a geologia do subsolo e o tipo de edificações predominantes na área, como
por exemplo, a opção por um novo posicionamento em função da existência de faixas de terrenos
menos rochosos, acarretando maior facilidade de escavação das valas e menor risco para os
estabelecimentos que ladeiam o arruamento.

Em regra geral, a apresentação em planta do projeto da rede dentro do traçado urbano, no Projeto
Hidráulico, pouco traz de definitivo no posicionamento das canalizações devido, principalmente, a
problemas de escala, ficando a definição exata condicionada ao serviço de implantação (Projeto
Executivo). Para as posições em que o projetista tem condições de determinar com precisão a
passagem definitiva da canalização, o mesmo encarrega-se de apresentá-la com desenhos e detalhes
a parte, em escalas convenientes.

7.7. Sequência de Cálculo

7.7.1. Estudo Preliminar

Para lançamento dos coletores, normalmente, utilizam-se plantas em escala 1:2000 com curvas de
nível separadas de um (1,0) metro. Para pequenas áreas são frequentes apresentações em plantas,
em escala de até 1:500, isto em função do tamanho da prancha final representativa do levantamento
da localidade. De posse da planta topográfica, com os respectivos arruamentos e pontos notáveis,
elabora-se um traçado para a rede dentro de uma concepção mais adequada a situação.

A seguir procura-se identificar a declividade natural do terreno, pois esta será a referência inicial
para o posicionamento em perfil dos trechos. Isto poderá ser feito com o desenho de pequenas setas
a critério do projetista. Feito isto, são localizadas todas as ruas onde a existência ou passagem de
coletores for indispensável para, em sequência, lançarem-se os poços de visita necessários.
Todos os coletores devem ser, então, identificados com algarismos arábicos de modo que um
coletor de número menor só possa receber efluentes de números maiores, quando da ocorrência de
encontros. Por exemplo, um coletor de número 16 só poderá receber vazões do coletor 17 ou 18 ou
19, etc., e no caso do 16 reunir-se com o 13 os trechos seguintes serão do coletor 13. Também se
deve optar por esta numeração tendo em vista que os coletores mais extensos serão os de menor
número reduzindo o número de algarismos nas plantas baixas da rede, facilitando, assim, tanto o
desenho como a leitura das mesmas.

Deve-se também observar uma proximidade lógica e prática nesta numeração, para o conjunto de
coletores. Numeram-se todos os trechos, no sentido crescente das vazões em cada coletor, e
identificam-se as cotas do terreno sobre os poços de visita, determinando-se, a seguir, a declividade
média do terreno em cada trecho.

Por último localizam-se os pontos de contribuições concentradas, bem como o volume de cada uma
dessas contribuições, calculam-se as populações de projeto e, em seguida, as contribuições lineares
dos diversos setores da área edificada e de expansão prevista, para início e fim de plano.

7.7.2. Planilhas de Cálculo

Uma planilha de um projeto hidráulico de rede coletora deve apresentar o resumo dos resultados
calculados na elaboração do projeto, de modo a se poder identificar todos os dados técnicos de cada
trecho de coletor. Os modelos de planilha encontradas na literatura sobre o assunto são inumeráveis
e variam inclusive entre projetistas, de acordo com o tipo e o número de informações que cada um
entenda como conveniente e necessário. Diante desses argumentos, aqui é proposto um modelo de
planilha baseado em apresentações convencionais que poderá ser modificado pelo leitor de acordo
com sua interpretação (Ver na Solução do Exemplo 7.8.3).

Neste modelo a planilha é dividida em cinco partes onde na primeira parte são identificados os
coletores, os trechos e a extensão de cada um destes, conforme proposto em 7.7.1, na ordem
crescente da numeração por coletor e seus trechos. Nesta parte poderá ser adicionada uma coluna
onde se identificariam os logradouros públicos nos quais se situariam cada um dos trechos. Na
segunda parte encontram-se os dados de vazão trecho a trecho, montante, em marcha e jusante e a
vazão de dimensionamento baseada na qual se definirá o diâmetro de cada trecho. A seguir
aparecem os dados topográficos de cada trecho de coletor, as cotas de montante e jusante e a
declividade média do perfil do terreno sobre o trecho em estudo, a qual será muito importante na
definição da declividade desse trecho de coletor.

Até este ponto a planilha está composta apenas de dados colhidos como informações da área do
projeto. A partir destes dados iniciam-se os cálculos propriamente ditos, quando se inicia o
dimensionamento de cada trecho de coletor, trecho a trecho. Nesta parte da planilha tem-se as cotas
de montante e de jusante do trecho, sua declividadeIo, caimento h, diâmetrodo, lâmina
relativa y/doe tensão trativa . Esta ordem pode ser mudada a critério do calculista. Por exemplo,
as colunas correspondentes à declividade Io e ao caimento h poderiam vir antes das cotas de
montante e jusante do trecho. Ainda poderiam ser acrescidos nesta etapa dados sobre lâmina
absoluta, velocidade de projeto e velocidade crítica e plena etc.

Na última parte da planilha são mencionados os dados sobre os poços de visita de jusante de cada
trecho: cota do fundo do poço e sua profundidade. Naturalmente os poços de visita de jusante
tornam-se de montante para os trechos seguintes, mas o projetista poderá criar colunas com dados
exclusivos do poço de montante do trecho em estudo.
A planilha ainda possui uma coluna complementar de “observações” onde poderão ser assinalados,
por exemplo, os desníveis de entrada de cada trecho no poço. Quando esse desnível for vencido por
um tubo de queda anota-se TQ = ... m e se não, então, h =... m.

7.7.3. Metodologia de Cálculo

Após identificadas as cotas do terreno, CTm e CTj , nos pontos extremos dos trechos e sua
extensão, L, calcula-se a declividade média do terreno, It , para cada trecho. Definida a vazão de
dimensionamento, Qf, para o trecho, identificam-se os limites de declividade Io, mín e Io, máx, para
esta vazão, através das expressões correspondentes às Eq. 6.1. e Eq. 6.2. Exemplo: para Q f = 2,20 l/s
têm-se Io, mín = 0,0038m/m e
Io, máx = 2,51m/m. Se a declividade do terreno for inferior a declividade mínima calculada, então o
trecho será dimensionado com Io = Io, mín. Se It estiver contida no intervalo calculado, então o
trecho deverá ser implantado com Io = It e a canalização repousará paralelamente ao perfil da
superfície do terreno, no trecho. Caso It seja superior a Io, máx então Io = Io, máx. No primeiro caso a
extremidade de jusante do trecho será mais profunda que a de montante (hj > hm). No segundo terão
iguais profundidades (hj = hm) e no terceiro a de montante é que será mais profunda (hj < hm). No
caso da vazão de dimensionamento ser a mínima, 1,50 l/s, a declividade mínima é de 0,0045 m/m,
ou seja, essa é a maior das mínimas possíveis. A Fig. 7.5 mostra um perfil hipotético de um trecho,
indicando as diversas incógnitas aqui mencionadas.

Ainda poderão ocorrer situações que por condições impostas em trechos a montante, tem-se como
opção a redução da profundidade dos trechos seguintes. Desde que o poço de montante do trecho
em dimensionamento tenha profundidade superior a mínima, este novo trecho e os seguintes
poderão ser calculados com declividades inferiores à do terreno, ou seja, com Io < It e no
intervalo Io, mín a Io, máx, desde que a profundidade de jusante não atinja valor inferior a mínima
normalizada. Sempre que houver encontro de trechos essa reunião dar-se-á através de uma unidade
de acesso para inspeção e limpeza, um poço de visita por exemplo, e caso esta reunião ocorra com
uma diferença de cotas superior a 0,50m, serão instalados tubos de queda (V. Capítulo VIII).

FIG. 7. 5 - Perfil hipotético de um trecho de coletor

Determinada a declividade do trecho segue-se a determinação do diâmetro adequado. Essa escolha


poderá ser feita a partir das expressões analíticas de geometria plana mostradas no Capítulo 6 ou
através da Fig.7.2., com o seguinte procedimento: calcula-se o fator de condução K = Q / Io1/2, Q -
m³/s e Io - m/m, e leva-se este valor ao ábaco da P-NB-567/75, onde se procura identificar o menor
diâmetro (nunca inferior ao de qualquer trecho a montante!) que forneça uma relação y/do nas
condições previstas em 6.3. Exemplo: K = 0,4 então do= 230mm, que é um diâmetro em desuso,
preferindo-se indicar 250mm. Pelas Tabelas 7.1  do = 250mm com y/do 0,60. No caso de vazões
variáveis, Qf > Qi, torna-se mais prático elaborar o dimensionamento para a vazão maior e testar o
diâmetro encontrado para a condição inicial do projeto.

Particularmente quanto ao emprego do diâmetro mínimo é pelo menos questionável o uso de


100mm para drenagem sanitária de áreas urbanas faveladas ou ocupadas com população de baixa
renda. Primeiro pelo fator socioeconômico, pois no Brasil, comunidades com estas características,
normalmente não possuem condições de adquirir materiais higiênicos e sanitários adequados, como
por exemplo papel higiênico, que é um material próprio para sofrer desintegração ao longo do
esgotamento tubulado. Segundo pelo falta de educação sanitária o que resulta na má utilização do
sistema em consequência da colocação imprópria de objetos que provocam entupimentos nos
coletores (frascos, garrafas, panos, papéis grosseiros ou resistentes, etc.), tendo como agravante o
fato de que, em geral, as instalações hidráulico-sanitárias internas aos lotes nestas áreas urbanas, são
precárias ou até inexistem. Nestas situações é preferível que os coletores públicos tenham diâmetro
mínimo de 150mm.

Por estas razões o projetista deve ser bastante cauteloso para optar pelos chamados sistemas
condominiais que é um sistema frequentemente projetado para esgotamento sanitário de pequenas
vilas e conjuntos de edifícios, onde a manutenção é feita pelos próprios usuários. Sem dúvida é um
sistema mais econômico do ponto de vista de aquisição do material e de implantação, considerando-
se que neles, em geral, o diâmetro mínimo é de 100mm e predomina profundidades médias
menores, porém seus objetivos poderão ficar muito aquém dos pretendidos, caso a população
usuária não esteja educadamente preparada para o seu uso, encarecendo excessivamente a
manutenção ou mesmo tornando o sistema inoperável.

A determinação da tensão trativa deverá ser efetuada a partir da Eq. 5.13 (verificar as unidades
empregadas no cálculo de modo a expressar os resultados em pascal) e a velocidade de projeto a
partir do uso da equação da continuidade (Eq. 5.1) ou através da Fig. 5.5.

7.8. Exemplos

Exemplo 7.8.1.

Um trecho de coletor de esgotos de 72m de extensão deverá escoar no fim do plano uma vazão
máxima de 6,0 l/s. Pede-se traçar o perfil do trecho, sabendo-se que a profundidade de montante é
de 1,72m e que a declividade média do terreno no trecho é de 0,4%, para uma cota de montante de
506,29m. ( n = 0,013 ).

Solução:

a) São conhecidos
L = 72m; Qf = 6,0 l/s = 0,006m³/s; hm = 1,72m;
It = 0,4% = 0,004m/m; CTm = 506,29m;

b) Cálculos auxiliares
- cota do terreno a jusante - CTj
CTj = CTm - L x It = 506,29 - 72,00 x 0,004  506,00m,
- cota do coletor a montante - CCm
CCm = CTm - hm = 506,29 - 1,72 = 504,57m;
c) Declividade do trecho - Io
- calcula-se a declividade mínima para a vazão máxima no trecho
Io,mín = 0,0055 x 6,0-0,47  0,0024m/m,
- compara-se com a declividade do terreno
Io,mín = 0,0024m/m e It = 0,004m/m, então Io,min < It,
- escolhe-se a declividade Io do trecho igual à do terreno, ou seja, se I t> Io,min, então,
Io = It = 0,0040m/m;

d) Desnível Dh do coletor e cota de jusante CCj


Dh = L x Io = 72,00 x 0,0040  0,288m
CCj = 504,570 - 0,288 = 504,282m;

e) Diâmetro do
1. pelo ábaco da ABNT
- calcula-se o fator de condução
Qf / Io1/2 = 0,006 / 0,0040,5 0,095,
- pela Fig.7.2 o menor diâmetro antes da faixa limite de y/d o é de do = 0,15m para
uma
relação (lida no eixo horizontal) y/do= 0,57;

2. Pelas Tabelas 7.1, de K = Q/Io1/2


Com Qf / Io1/2 = 0,095, entra-se na linha de y/do = 0,75, então,
procura-se um valor que iguale ou supere 0,095 do = 0,150m (Qf / Io1/2 =
0,1388);

3. Pelo ábaco da tensão trativa mínima


Com Io = 0,004m/m e Qf = 6,0 l/s tem-se do = 150mm, > 1,0 Pa;

f ) Perfil - com todas as cotas determinadas e baseando-se na Fig. 7.5 traça-se o perfil
(fica como exercício).

Exemplo 7.8.2.

Encontrar a taxa de dimensionamento para cálculo de uma rede coletora de aproximadamente


12,67Km de extensão, onde se espera uma infiltração máxima de 8.10 -4 l/s.m, sabendo-se que a
população usuária de 8555 habitantes consome, em média, 200 litros de água potável por
pessoa.dia.

Solução:

( K1.K2 = 2,0 e c = 0,80)


Tx =[(0,80.200.8555.2,0) / (86400.12670)]+ 0,0008  0,00331 l/s.m.
Exemplo 7.8.3.

Calcular os coletores indicados na FIG. 7.6 para Tx= 0,0035 l/s.m e n = 0,013.

FIG. 7. 6 - Rede em planta para o exemplo 7.8.3

Solução: Ver planilha abaixo e o resultado em planta (FIG. 7.7)


Cota
L Qmont. Qmarc Qjus. Qdimens. h do  de Profundidade
Coletor Trecho CTmont. CTjus. It Io CCmont. CCjus. y/do OBS
(m) (l/s) (l/s) (l/s) (1,5l/s) (m) (mm) (Pa) fundo (m)
(m)
A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T
1 1 100 3,000 0,350 3,350 3,350 345,00 344,20 0,0080 0,0080 0,80 343,50 342,70 100 0,62 2,23 342,70 1,50
2 50 3,350 0,175 3,525 3,525 344,20 344,00 0,0040 0,0040 0,20 342,70 342,50 150 0,42 1,30 342,50 1,50
3 100 5,805 0,350 6,155 6,155 344,00 343,40 0,0060 0,0060 0,60 342,50 341,90 150 0,51 2,24 341,74 1,66 h=0,16m
4 50 12,205 0,175 12,380 12,380 343,40 343,00 0,0080 0,0080 0,40 341,74 341,34 150 0,74 3,55 341,34 1,66

2 1 80 1,000 0,280 1,500 1,500 344,00 343,80 0,0025 0,0045 0,36 342,50 342,14 100 0,45 1,04 342,14 1,66
2 90 1,490 0,315 1,805 1,805 343,80 343,40 0,0044 0,0044 0,40 342,14 341,74 100 0,52 1,10 341,74 1,66

3 1 60 - 0,210 1,500 1,500 344,00 343,80 0,0033 0,0045 0,27 342,50 342,20 100 0,45 1,04 342,14 1,66 h=0,09m

4 1 80 2,000 0,280 2,280 2,280 344,50 344,00 0,0063 0,0063 0,50 343,00 342,50 100 0,53 1,61 342,50 1,50

5 1 70 4,000 0,245 4,245 4,245 343,70 343,40 0,0043 0,0043 0,30 342,20 341,90 150 0,46 1,48 341,74 1,66 h=0,16m

A, B e C : Dados do traçado (lidos na planta após definido o traçado da rede de coletores)


D, E, F e G : Dados de vazão (calculados a partir da determinação da taxa de dimensionamento)
H, I e J : Dados topográficos do terreno (cotas do terreno lidas na planta)
K, L, M, N, O, P e Q : Dados calculados para cada trecho de coletor com profundidade mínima de 1,50m)
R e S: Dados do PV de jusante
T : Observações sobre o trecho e desnível de entrada no PV quando acimo do fundo do PV de jusante).
FIG. 7. 7 - Rede calculada, em planta, para o exemplo 8.8.3

A figura mostra como deve ser apresentado todo o resultado do dimensionamento em planta. Além
das plantas os projetos também devem conter os perfis completos dos coletores com suas devidas
dimensões e informações, suficientes para não deixarem dúvidas sobre o que se vai construir.

OBS: Nesta planta P significa tubo de PVC

7.8. Exercícios

 Por que a taxa de cálculo linear é calculada para a hora de contribuição máxima?
 Justificar as limitações para recobrimento dos coletores.
 Comentar a importância dos divisores de águas e dos talvegues na definição do traçado da
rede coletora.
 Apresentar exemplos de sistemas de traçados combinados, possíveis de ocorrência.
 Qual a finalidade dos poços de visita? Quando se usam poços de visita?
 Qual a distância máxima entre PVs consecutivos quando o diâmetro da canalização for
150mm? 200mm ? 300mm? 600mm? 800mm?
 Comentar a recomendação de construção de dois coletores laterais em ruas de muito
movimento. E em avenidas muito largas.
 Como a geologia do subsolo pode influir no posicionamento dos coletores?
 Por que não se deve projetar trechos de coletores com declividades “excessivas” ? e “muito
pequenas”?
 Como se deve projetar coletores sob terreno com declividades naturais superiores a valores
limites recomendados por normas?
 Lançar a rede e desenvolver o cálculo hidráulico-sanitário do arruamento fictício mostrado
na Fig. 7.8.

São conhecidos:
- população por lote: 5 pessoas;
- consumo médio de água: q = 150 l/hab.dia;
- coeficiente de retorno: c = 0,80;
- coeficiente de reforço: K1 x K2 = 2,00;
- coeficiente de infiltração: 0,0008 l/s.m.
Escala: 1: 2500

FIG. 7.8 - Figura com a planta baixa do arruamento

 Desenhar arruamentos fictícios e lançar traçados de redes coletoras. Fazer o


dimensionamento hidráulico-sanitário dos coletores.
CAPÍTULO VIII

POÇOS DE VISITAS

8.1. Definição

Poço de visita é uma câmara visitável através de uma abertura existente na sua parte superior, ao
nível do terreno, destinado a permitir a reunião de dois ou mais trechos consecutivos e a execução
dos trabalhos de manutenção nos trechos a ele ligados (Figura 8.1).

FIG. 8. 1 - Modelo convencional de PV

8.2. Disposição Construtiva

Um poço de visita convencional possui dois compartimentos distintos que são a chaminé e o balão,
construídos de tal forma a permitir fácil entrada e saída do operador e espaço suficiente para este
operador executar as manobras necessárias ao desempenho das funções para as quais a câmara foi
projetada.

O balão ou câmara de trabalho é o compartimento principal da estrutura, de seção circular, quadrada


ou retangular, onde se realizam todas as manobras internas, manuais ou mecânicas, por ocasião dos
serviços de manutenção nos trechos conectados. Em seu piso encontram-se moldadas as calhas de
concordância entre as seções de entrada dos trechos a montante e da saída para jusante. Estas calhas
são dispostas de modo a guiar as correntes líquidas, desde as entradas no poço, até o início do
trecho de jusante do coletor principal que atravessa o poço. Desta maneira, assegura-se um mínimo
de turbilhonamento e retenção do material em suspensão, devendo suas arestas superiores serem
niveladas, no mínimo, com a geratriz superior do trecho de saída.
A chaminé, pescoço ou tubo de descida, consiste em um conduto de ligação entre o balão e a
superfície, ou seja, o exterior. Convencionalmente é iniciada num furo excêntrico feito na laje de
cobertura do balão e indo até a superfície do terreno, onde é fechada por um tampão de ferro
fundido (Fig.8.2). A partir da chaminé, o movimento de entrada e saída dos operadores é
possibilitado através de uma escada de ligas metálicas inoxidáveis, tipo marinheiro, afixada de
degrau em degrau na parede do poço ou, opcionalmente, através de escadas móveis para poços de
pequenas profundidades.

FIG. 8. 2 - Modelo de tampão de fºfº para poço de visita

No caso de um ou mais trechos de coletores chegarem ao PV acima do nível do fundo são


necessários cuidados especiais nesta ligação, a fim de que haja operacionalidade do poço sem
constrangimento do operário encarregado de trabalhar no interior do balão. Para desníveis abaixo de
0,50m não são obrigatórias instalações de dispositivos de proteção, considerando-se a quantidade
mínima de respingos e a inexistência de erosão provocados pela queda do líquido sobre a calha
coletora. Para desníveis a partir de 0,50m faz-se necessária a instalação dos chamados tubos de
queda, os quais consistem numa derivação do trecho de montante por um “Tê” ou um conjunto
formado por “uma junção 45° invertida associada a um joelho 45°”, ao qual será conectado um
“toco de tubo” vertical, com comprimento adequado e apoiado em uma curva 90°, que direcionará o
fluxo para o interior do PV. Em quaisquer dos dois casos, o bocal livre da junção repousará ligado a
face interior da parede do PV, para facilitar o trabalho de eventuais desobstruções no trecho
correspondente (Fig.8.3). Para diâmetros de trechos afluentes superiores a 375mm é preferível o
emprego de poços de queda como esquematizado na Fig.8.4.
FIG. 8. 3 - Poço de visita com tubo de queda

FIG. 8. 4 - Poço de visita com poço de queda

8.3. Localização

Convencionalmente são empregados poços de visita:

 nas cabeceiras das redes;


 nas mudanças de direção dos coletores (todo trecho tem que ser reto);
 nas alterações de diâmetro;
 nas alterações de posição e/ou direção da geratriz inferior da tubulação;
 nos desníveis nas calhas;
 nas mudanças de material;
 nos encontros de coletores;
 e em posições intermediárias em coletores com grandes extensões em linha reta, de modo
que a distância entre dois PV consecutivos não exceda:
o 100m p/ tubulações de até 150mm de diâmetro do;
o 120m p/ tubulações com do de 200 a 600mm;
o 150m p/ tubulações com do superiores a 600mm.

Quanto às extensões retas as limitações decorrem do alcance dos equipamentos de desobstrução. As


demais recomendações visam a manutenção da continuidade das seções, o que facilita a introdução
de equipamentos no interior da tubulação, bem como elimina zonas de remanso ou turbulência no
interior das mesmas.

8.4. Dimensões

A fim de permitir o movimento vertical de um operador, a chaminé, bem como o tampão, terão um
diâmetro mínimo útil de 0,60m. O balão, sempre que possível, deve ter uma altura útil mínima de
2,0 metros, para que o operador maneje, com liberdade de movimentos, os equipamentos de
limpeza e desobstrução no interior do mesmo. A chaminé, não deverá ter altura superior a 1,0 m,
por recomendações funcionais, operacionais e psicológicas para o operador.

A Tabela 8.1 mostra as dimensões mínimas recomendáveis para chaminé e balão em função da
profundidade e do diâmetro do da tubulação de jusante, ou seja, a que sai do poço de visita.

Tabela 8.1 - Dimensões Mínimas para Chaminé e Balão de PV (*)

Profundidade Diâmetro "db"


Diâmetro "do" da tubulação de Diâmetro "dc" e altura "hc"da
"h" do
jusante (m) chaminé (m)
do PV (m) balão (m)
h 1,50 qualquer do dc = 0,60 e hc = h db = dc
do 0,30 db = 1,00
dc = 0,60 e hc = 0,30
1,50  h  2,50 0,30 do 0,60 db = 1,50
para quaisquer do
do0,60 db = do+ 1,00
do 0,30 dc = 0,60 e db = 1,00
h 2,50 0,30 do 0,60 0,30 hc 1,00 db = 1,50
do0,60 para quaisquer do db = do+ 1,00

(*) Considerar que a passagem pela laje de transição e o espaço para assentamento do
tampão fazem parte da altura da chaminé, como se pode observar na figura 8.12.

Observar que pela tabela recomenda-se


para do0,30 db= 1,00m,
para 0,30mdo0,60m db=1,50m
e para do0,60m db= do+ 1,00m.

8.5. Elementos para Especificações

8.5.1. Pré-moldados (Figura 8.5)

Os poços de visita executados com anéis pré-moldados de concreto armado são os mais comuns,
principalmente para tubulações de saída com até 400mm de diâmetro. São construídos com a
superposição vertical dos anéis de altura 0,30m ou 0,40m, sendo que, para o balão, estas peças têm
1,00m de diâmetro e, para a chaminé 0,60m, como dimensões úteis mínimas. A redução do balão
para a chaminé é feita por uma laje pré-moldada denominada de peça de transição, servindo
também como suporte para a chaminé, com uma abertura excêntrica de 0,60m, que deve ser
colocada de maneira tal que o centro de abertura projete-se sobre o eixo do coletor principal que
passa pelo poço, para montante (Fig.8.6.).

FIG. 8. 5 - Poço de visita em anéis pré-moldados


(extensões em metros)

A construção de um PV com anéis pré-moldados inicia-se com o nivelamento da fundação com


brita compactada. A seguir é colocada uma camada de concreto simples 1:3:5, denominada de laje
de fundo, com uma espessura mínima de 0,20m, sob a calha de saída do trecho de jusante, que será
a base de sustentação para toda a estrutura do poço. O primeiro anel ficará apoiado numa parede de
concreto ou de alvenaria, numa altura mínima de 0,10m acima da geratriz superior externa de
quaisquer dos trechos afluentes, para evitar a quebra desse anel quando da ligação das tubulações ao
poço, o que provocaria infiltrações futuras de água e possíveis instabilidades estruturais. O
acabamento do piso, no fundo do PV, é dado de modo a resultar numa declividade de 2% em
direção a borda das calhas, sendo este enchimento do fundo executado em concreto 1:4:8,
para moldagem das calhas.
FIG. 8. 6 - Peça de transição em concreto armado

O acesso ao fundo do poço é feito por uma escada tipo marinheiro, vertical, com degraus
equiespaçados de 0,30m ou 0,40m e um mínimo útil de 0,15m de largura por 0,08m de altura
(Fig.8.7), os quais vão sendo instalados à medida que se vão assentando os anéis, repousando cada
degrau entre dois anéis consecutivos. Esses degraus podem ser de ferro galvanizado, mas como este
material sofre desgaste corrosivo com o tempo, é preferível degraus em ligas de alumínio ou mesmo
o emprego de escadas portáteis, estas mais viáveis para poços de visita com profundidades
inferiores a 3,00 metros, em substituição à escada fixa.

FIG. 8. 7 - Detalhes dos degraus

A chaminé deve ser executada obedecendo a sistemática similar recomendada para o balão, sendo
encimada por um tampão em ferro fundido, padronizado no seu modelo pela concessionária
exploradora dos serviços de esgoto da localidade. Na construção da chaminé normalmente são
empregados anéis pré-moldados com altura de 0,30m por 0,60m de diâmetro e também anéis de
menor altura, 0,15 ou 0,08m, para sua complementação. É recomendada a construção de uma
chaminé com altura mínima de 0,30m para facilitar a construção ou reposição da pavimentação do
leito viário.
Todas as peças terão obrigatoriamente que se assentarem sobre argamassa de cimento e areia a 1:3
em volume, sendo o excesso retirado e a junta alisada a colher de pedreiro e, para melhor
acabamento, suas paredes cimentadas com nata de cimento dosada com impermeabilizante (1:12 na
água).

8.5.2. Concreto Armado no Local

De ocorrência mais frequente para canalizações com diâmetro superior a 400mm ou em situações
onde não haja condições para obtenção de pré-moldados. Normalmente apenas o balão é armado no
local, em concreto com dosagem mínima de cimento de 300Kg/m³, podendo ter seção horizontal
circular ou prismática, sendo a chaminé construída com anéis pré-
moldados, como citado no item anterior. Quanto ao acabamento, piso, base, calhas e outros
serviços, segue a mesma orientação recomendada para os PVs pré-moldados (Fig.8.8).

FIG. 8. 8 - Poço de visita em concreto armado no local

8.5.3. Alvenaria (Figura 8.9)

A ocorrência de poços desta natureza decorre, na maioria das vezes, da dificuldade da obtenção de
peças pré-moldadas no local da obra, principalmente para confecção de balão, ou mesmo de
cimento, implicando, de alguma forma, em estruturas mais viáveis economicamente, em função das
circunstâncias. As paredes terão espessura mínima de 0,20m, em tijolos maciços de uma vez,
rejuntados e rebocadas com argamassa de cimento e areia de 1:3 em volume, dosada com
impermeabilizante, alisadas com colher de pedreiro. Externamente as paredes deverão receber uma
camada de chapisco e, se necessário, reboco impermeabilizante.

O balão terá seção circular ou prismática, e será encimado por uma laje com abertura excêntrica, em
concreto armado pré-moldada ou fundida no local, com espessura mínima de 0,10m, a 300kg de
cimento por metro cúbico de concreto.

A chaminé poderá ser executada em anéis pré-moldados, ou também, em alvenaria como o balão,
porém com a dimensão mínima de 0,60m de diâmetro por um máximo de 1,00m de altura.
FIG. 8. 9 - Poço de visita em alvenaria de tijolos

8.5.4. Outros Materiais

Além dos materiais citados para confecção das paredes da câmara de trabalho, poderá ainda ser
utilizada alvenaria de blocos curvos de concreto, tubo de concreto, tubo de fibrocimento, PVC
rígido ou poliéster armado com fios de vidro.

8.6. Tubulações de Inspeção e Limpeza - TIL

8.6.1. Definição e estrutura

Até 50% dos custos de implantação de uma rede coletora de esgotos sanitários podem ser
consumidos na construção de Poços de Visita - PV. Logo a redução destes ou sua substituição por
dispositivos alternativos de menores custos de instalação e que permitam as operações de
manutenção e inspeção previstas, serão sempre objeto de estudos pelos projetistas. Um destes
dispositivos é o denominado Tubulação de Inspeção e Limpeza - TIL.

Os TILs são dispositivos destinados a permitir a inspeção e a limpeza dos trechos a partir da
superfície sem que haja contato físico do operador com o coletor de esgotos, ou seja, têm as
finalidades principais dos PVs sem que o operador penetre no interior do dispositivo (Fig.8.10).
FIG. 8. 10 - Corte esquemático de um TIL

São empregados em trechos retos de pequenos diâmetros (do até 200mm) em substituição aos PVs,
constituindo-se, na sua forma mais simples, de uma tubulação inclinada no sentido do escoamento
das vazões, no diâmetro de 100mm para trechos de do = 100mm e 150mm para trechos com do
superiores, conectada à tubulação subterrânea através de uma junção 45° ou com junções mais
suavizadas com auxílio de curvas 22°30', principalmente para coletores mais profundos
(recobrimentos superiores a 2,0m). O acesso do TIL é feito através de uma caixa de proteção,
geralmente de ferro fundido, fechada com um tampão móvel padronizado de 36Kg. A extremidade
superior da tubulação, no fundo da caixa de acesso, deve ser provida de uma tampa para evitar
queda de objetos, penetração de animais ou entrada de águas superficiais, quando da retirada
inoportuna do tampão.

Os TILs devem estar situados a uma distância máxima de 75m de outro dispositivo similar ou 90m
do PV mais próximo. Alguns práticos não recomendam distâncias superiores 35m entre TILs
consecutivos ou 45m para o PV mais próximo, no mesmo coletor. Em hipótese alguma um TIL
deverá ser empregado em substituição ao PV no encontro de coletores.

Quando um TIL é apenas um prolongamento da extremidade de montante do coletor tem a


denominação de Terminal de Limpeza - TL (Fig.8.11).
FIG. 8. 11 - Corte esquemático de um TL

8.6.2. TIL pré-fabricado

Alguns fabricantes de tubos já disponibilizam no mercado TIL pré-moldados para esgotos de


especial interesse para sistemas
condominiais, coletores sob passeio ou mesmo na via
pública, em trechos de pequena profundidade com
vantagens econômicas consideráveis em relação aos PV
convencionais. Um dos modelos que é apresentado a seguir
, como exemplo, é o fabricado pela tradicional empresa
TIGRE S.A Tubos e Conecções, denominado
comercialmente como TIL Radial Tigre (Figura ao lado).

É uma peça totalmente autoportante, dimensionada para


suportar os esforços de tráfego para diferentes
profundidades de instalação, 100% em Plástico para
Esgoto, sem necessidade de revestimento de concreto para
estabilidade de sua estrutura. Produzido com materiais
plásticos em processo contínuo de rotomoldagem,
caracteriza-se construtivamente pela leveza, facilitando o
manuseio, transporte e estocagem, e rápida instalação, e
funcionalmente pela eficiência do escoamento do esgoto
sem interferências e pontos de acúmulo de limo ou
sedimentos e com formas e dimensões que facilitam as
operações de limpeza, especialmente por hidro-jateamento.
Com posições de entrada pré-definidas, porém fechadas
originalmente, possibilita abertura somente das bolsas que
receberão contribuições, permanecendo as demais totalmente fechadas após sua instalação. É
produzido nas versões DN150 e DN300, cujas principais dimensões estão indicadas na tabela a
seguir.

Uma variação do produto da citada empresa é o TIL de ligação predial, fabricado apenas no DN
100, indicado para ligações de ramais prediais aos coletores primários ou auxiliares de um sistema
convencional, ou entre trechos de um sistema condominial. Na realidade estas peças têm uma
função similar à dos Tê Sanitários numa instalação hidráulica predial, ou seja, melhor direcionar o
fluxo de esgotamento, além de facilitar a manutenção e operações de limpeza.

Tabela das dimensões dos TIL Radial Tigre

DN/DL C (mm) h (mm) Massa (kg)

150/200 800 610 16

300/250 1000 980 45

8.7. Exemplos

8.7.1. Encontrar as dimensões úteis para PVs, com base na Tabela 8.1, nas seguintes condições:

a) profundidade de 0,90m:
Neste caso para quaisquer que sejam os diâmetros, o PV não terá um balão configurado e sim uma
seção constante de 0,60m de diâmetro;

b) profundidade de 1,60m e diâmetro de saída de 0,25m:


Com 1,00  h 2,50 e do 0,30m, logo a chaminé terá 0,60m de diâmetro por 0,30m de altura
mínimos, , incluindo passagem pela laje de transição e espaço para assentamento do tampão,
enquanto que o balão terá diâmetro de 1,00m por uma altura de 1,30m;

c) h = 1,80m e do = 0,70m:
Aqui se tem 1,00  h  2,50, mas diâmetro maior que 0,50m, logo a chaminé terá 0,60m de
diâmetro por 0,30m de altura mínimos, incluindo passagem pela laje de transição e espaço para
assentamento do tampão, enquanto que o balão terá diâmetro de 1,70m por uma altura útil de
1,20m;

d) h = 2,80m e do = 0,50m
Como h 2,50 e o diâmetro de 0,50m, logo o balão terá diâmetro de 1,50m por uma altura útil de
2,00m, enquanto que a chaminé terá 0,60m de diâmetro por 0,80m de altura, incluindo a passagem
pela laje de transição e o espaço para assentamento do tampão;

e) h = 3,80m e do = 0,20m
Se h 2,50 e o do = 0,20m logo o balão terá diâmetro de 1,00m por uma altura útil de 2,80m para
uma chaminé de 0,60m de diâmetro por 1,0m de altura (altura máxima) incluindo as espessuras da
laje de transição e do tampão.

(Ver figura abaixo)


Figura 8.12 - Visualização das icógnitas dos Exemplos 8.7

8.8. Exercícios
Em termos de poço de visita definir: chaminé, câmara de trabalho, calhas de concordância e trechos
de montante e de jusante.

 Explicar o emprego de tubos de queda nos PV.


 Definir poço de queda para PV.
 Explicar os diversos posicionamentos obrigatórios dos PVs nas redes de esgoto.
 Explicar a recomendação “o balão sempre que possível, terá uma altura útil de 2,0 metros”.
 Expor razões que obrigam a existência das chaminés. Por que a altura das mesmas deve ficar
entre 0,30 e 1,00 metro?
 Qual a razão principal da abertura da peça de transição ser excêntrica? E porque esta mesma
abertura deve ser posicionada sobre o principal coletor que passa pelo poço?
 Quais as vantagens e desvantagens das escadas fixas em relação às portáteis?
 Por que os PV em concreto armado no local são mais utilizados para canalizações com
diâmetros superiores a 400mm ?
 Por que as chaminés são mais frequentemente construídas com anéis pré-moldados?
 Definir TIL e TL. Qual a diferença conceptual entre eles?
 Desenvolver um estudo comparativo técnico econômico entre “terminal de limpeza” e
“poço de visita”.

Encontrar as dimensões úteis para PVs nas seguintes condições:


Nº do PV Profundidade (m) Diâmetro do efluente (mm)
1 1,50 200
2 3.20 150
3 1,90 300
4 3,70 400
5 2,00 500
6 4,15 600
7 2,18 250
8 5,10 300
9 1,50 700
CAPÍTULO IX

SIFÃO INVERTIDO

9.1. Definição

Os coletores de esgotos são projetados para trabalharem com escoamento livre, a profundidades
economicamente viáveis e suficientes para não serem afetados estruturalmente por esforços
externos e de modo a permitirem o esgotamento das descargas procedentes das ligações prediais.
Conforme a condição de escoamento livre, cada trecho de coletor terá que ser projetado para
instalação em linha reta.

Eventualmente a sequência de trechos consecutivos em linha reta continuamente, poderá não ser
possível em virtude do surgimento de obstáculos intransponíveis nessas condições, embora haja
uma necessidade da continuidade da canalização para jusante.

Diante da impossibilidade da travessia em linha reta da canalização através de um obstáculo


qualquer, o escoamento só teria continuidade por meio de um bombeamento por sobre a seção de
impedimento ou por sob a mesma seção tendo em vista que a passagem através de sifonamento
normal torna-se inviável por vários motivos, principalmente, hidráulicos. Essa canalização
rebaixada, passando por baixo do obstáculo a ser vencido, é denominada de sifão invertido tendo
em vista o perfil inverso desta ao de uma tubulação de sifonamento normal (Fig.9.1). Portanto, por
definição, em sistemas de esgotos, sifões invertidos são canalizações rebaixadas, sob pressão,
destinadas a travessia sob obstáculos que impeçam a passagem da canalização em linha reta. Sua
principal vantagem sobre instalações elevatórias é que os mesmos não requerem equipamentos
eletromecânicos, o que implicaria em consumo contínuo de energia mecânica.

Figura 9.1 - Corte esquemático (perfil) de um sifão invertido


9.2. Tipos de Obstáculos

Nas comunidades urbanas, principalmente nas grandes cidades, são frequentes a ocorrência de
canais e galerias subterrâneas, linhas férreas, metrôs, etc., os quais não poderiam ser deslocados ou
alterados em suas cotas. Esses, portanto, são exemplos de obstáculos que em virtude das suas
estruturas físicas e funcionais, não podem ser transpassados em sua seção útil. No caso de encontro
de condutos de esgoto escoando livremente, com tipos de obstáculos como os citados e diante da
necessidade de continuação do escoamento para jusante, a opção frequentemente mais viável, será
fazer com que a linha de esgotamento seja rebaixada para passagem sob a seção impedida, voltando
a profundidade normal após vencida horizontalmente a largura do acidente a ser transposto.

9.3. Funcionamento Hidráulico

O escoamento do esgoto através do sifão invertido é proporcionado, como na maioria das


canalizações de esgotamento, por força da energia gravitacional, porém ao longo do trecho
rebaixado o escoamento é forçado, sob pressão maior que a atmosférica local, como se pode
observar na Fig. 9.1, exigindo projeto cuidadoso para que sejam reduzidas ao mínimo as
possibilidades de sedimentações e obstruções nas seções mais baixas do sifão.

9.4. Informações para Projetos Hidráulicos

Deve-se evitar sempre que possível, projetos de sifões invertidos nos sistemas de esgotamento,
considerando-se que, além de ser uma obra de encarecimento de implantação do sistema, sua
manutenção também onera a operação do mesmo, pois as operações de limpeza e de possíveis
desobstruções dos sifões são bem mais complicadas que as comumente realizadas nos coletores.
Quando a utilização de sifões invertidos for inevitável, no caso de pequenas variações de vazão, a
estrutura completa será composta de, pelo menos, dois condutos paralelos de iguais dimensões,
obviamente, para que operem alternadamente, de modo que seja garantida a continuidade de fluxo
de vazão. Quando a previsão for de grandes variações de vazão ao longo do plano de projeto
(Qmáx/Qmín > 5) o sifão deverá ser projetado com três ou mais condutos para funcionamento
simultâneo no fim do plano, nos períodos de vazão máxima.

Um sifão invertido deve ser projetado com duas câmaras visitáveis, uma na entrada e outra na saída,
servindo como poços de visita da canalização e como plataformas subterrâneas de manobras para o
encaminhamento das vazões, além de evitar refluxos nos diversos ramos do escoamento, através de
um sistema composto de vertedouros e comportas. Os condutos normalmente deverão ser
executados em concreto armado, aço ou em ferro fundido, confinado por uma proteção de concreto
para melhor estabilidade estrutural, evitando-se as curvas acentuadas nas suas trajetórias, sendo seu
dimensionamento bastante criterioso no que diz respeito a determinação das perdas de carga, tanto
localizadas (entradas, junções, curvas e saídas) como ao longo dos condutos.

Para facilitar as operações de limpeza, os sifões invertidos deverão ser dotados de câmaras de
limpeza, que são compartimentos visitáveis conectados aos trechos “horizontais” do sifão através
do prolongamento destes trechos, controlados por registros ou comportas. Na maioria das vezes
projeta-se apenas uma câmara com este fim, localizada sob a câmara de entrada com acesso pela
lateral desta (Fig. 9.2).

Todo dimensionamento hidráulico é realizado considerando-se as velocidades de escoamento e as


perdas de cargas localizadas e ao longo das canalizações, com n = 0,015 no caso do emprego da
expressão de Manning.
9.5. Exemplo Esquemático

A Fig. 9.2 mostra, esquematicamente, um sifão invertido convencional com três condutos paralelos.
Observe-se que o piso da câmara nº.1 (de entrada) está disposto de modo a encaminhar o fluxo
mínimo para o conduto central. Quando a vazão aumenta o líquido começará a extravasar por um
dos vertedores laterais para ser transportado pelo trecho vizinho e quando a entrada deste também
se afogar, pelo aumento progressivo da vazão, o segundo vertedor começará a extravasar
alimentando o terceiro conduto. As saídas na câmara nº.2 deverão estar na mesma cota, no mínimo
igual a correspondente ao nível máximo do líquido na entrada da canalização de saída desta câmara,
acrescida da altura correspondente às perdas de carga hidráulicas internas ocorridas ao longo das
calhas, no seu piso. Esse piso será projetado de modo a permitir a reunião das vazões parciais e
encaminhá-las a entrada do trecho de jusante.

A limpeza de cada conduto é executada com a abertura da comporta na extremidade do trecho de


esgotamento, no poço de limpeza e, se necessário, “lavando-se” a canalização com jatos de água
limpa no sentido inverso, através da abertura de saída da mesma, na câmara nº.2.

Figura 9.2 - Desenho esquemático de um sifão invertido

OBS.: As perdas de carga entre soleiras de entrada e de saída ao longo do trajeto,


no interior das câmaras de entrada ou de saída (desnível da linha piezométrica),
poderá ser estimada em torno de 0,006m/m e a velocidade mínima de
escoamento nos condutos igual a 0,90m/s

9.6. Exemplo
Pré-dimensionar as seções hidráulicas de um sifão invertido para escoar vazões de esgotos com as
seguintes variações: Qmín = 90 l/s, Qméd = 330 l/s e Qmáx = 700 l/s.

Solução:

 Número de condutos

Qmáx / Qmín = 7,8 > 5  n = 3;

 Primeiro conduto

(Este conduto deverá ser calculado para a vazão mínima de 0,09m³/s e Vmín = 0,90m/s)
A = Qmín / Vmín = 0,09 / 0,90 = 0,10 m² D = 0,356 m. Adota-se D1 = 350 mm
(arredondamento para menor em virtude das condições de velocidade mínima);

 Perda de carga

(Esta perda deverá ser a mesma para todos os ramos do sifão para que as cotas das
soleiras
de jusante sejam idênticas)
Adotando-se Hazen-Williams, C = 100, Q1= 90 l/s e D1= 350mm tem-se J  0,004m/m;

 Segundo conduto

(Este conduto deve atingir o pleno funcionamento quando a vazão de esgotos for igual a
média)
Vazão de dimensionamento: Q = 330 - 90 = 240l/s
Para J = 0,004m/m, C=100 e Q = 240 l/s tem-se D2 = 500mm e Q2  230l/s;

 Terceiro conduto

(Dimensionado para vazão excedente dos dois primeiros)


Q = 700 - 230 - 90 = 380 l/s
Q3 = 380 l/s, J = 0,004m/m e C = 100 tem-se
D3 = 600mm (por excesso, pois não haverá um quarto conduto);

 Detalhes: Figura 9.3.


FIG. 9.3 - Resultado esquematizado do exemplo 9.6.

9.7. Exercícios

 Com respeito a sifões invertidos em esgoto, do ponto de vista hidráulico:


o - definir;
o - por que devem ser evitados?
o - por que a velocidade de escoamento deve ser “alta”?
o - por que são ditos condutos sob pressão?
o - explicar seu funcionamento.

 Citar situações onde os sifões invertidos são inevitáveis.

 Que alternativas poderiam ser analisadas à indicação de um sifão invertido?

 Por que os sifões normais não têm emprego em sistemas de esgotamento?

 Por que um número mínimo de dois condutos paralelos?

 Como seria executada a limpeza com auxílio de jatos de água?

 Explicar a preferência por tubos de concreto, ferro ou aço para sifões invertidos. Tubos de
PVC poderiam ser especificados? Justificar.

 Dimensionar (cálculo hidráulico) o sifão esquematizado na Fig. 9.2 sabendo-se


o - escala aproximada: 1:200;
o - cota de chegada na câmara 252,00;
o - diâmetro de chegada e de saída: 900mm (lâmina máxima 0,72m);
o - vazões de projeto: mín = 102 l/s, méd = 259 l/s e máx = 580 l/s.
 Uma tubulação de esgotos sanitários de 1500mm de diâmetro está assentada sob uma
declividade de 0,001m/m (n = 0,013). Para uma vazão mínima de 0,40m³/s e uma média de
1,10m³/s, projetar um sifão invertido para a capacidade máxima da tubulação, sabendo-se
que a perda hidráulica é de 0,007m/m (n = 0,015).

 Calcular um sifão invertido para as seguintes condições:


o - extensão do sifão = 50,00m;
o - depressão máxima = 3,00m;
o - desnível disponível = 0,65m;
o - vazões de projeto (n = 0,013): Qmín = 35 l/s, Qméd = 115 l/s e Qmáx = 240 l/s.

 Uma galeria de águas pluviais de 1,20m de diâmetro e I o = 0,0015m/m, transporta em tempo


seco uma vazão máxima de 0,3 m³/s. Projetar um sifão invertido que conste de três ramos,
sabendo-se que a declividade disponível é de 0,005m/m e o rebaixamento mínimo possível é
de 6,0m.
CAPÍTULO X

ESTAÇÕES ELEVATÓRIAS

10.1. Introdução

Em algumas situações nos sistemas de esgotos sanitários pode ser que haja necessidade de elevação
de vazões de esgotamento. Isto ocorre com relativa frequência em condutos longos exclusivos de
transporte dessas vazões. O impulsionamento forçado das vazões torna-se possível através de
instalações denominadas de Estações Elevatórias de Esgotos - EEE, as quais se podem definir como
“instalações eletromecânicas projetadas, construídas e equipadas de forma a transportar o esgoto de
um nível de sucção ou de chegada até o nível de recalque ou de saída, acompanhando as variações
afluentes”. Este capítulo tratará de um estudo relativo a elevatórias empregadas nos sistemas de
esgotos sanitários sendo que, como o tema é muito amplo, seu conteúdo limitar-se-á a descrição de
informações compatíveis, com o nível desta publicação e de modo a permitir ao estudante
familiarizar-se com o assunto.

10.2. Ocorrências

Como as canalizações coletoras e transportadoras de esgoto funcionam como condutos livres, elas
devem ser projetadas com uma certa declividade, o que implica em um acréscimo contínuo no
caimento, ao longo de cada trecho de canalização, de montante para jusante. Tendo em vista a
manutenção de velocidades de escoamento tais que consigam garantir condições de autolimpeza no
interior dos condutos, cada trecho será projetado em função de uma declividade mínima. Para que
os custos das escavações, para instalação das canalizações, sejam viáveis é necessário que haja uma
sintonia entre o sentido do escoamento nos condutos e a declividade natural do terreno, desde que
esta seja igual ou superior a mínima exigida para cada trecho projetado, resultando em volumes
mínimos a escavar quando da execução das valas.

Porém, nem sempre se tem áreas a esgotar onde a superfície do terreno apresente essas condições e,
assim sendo, para que haja condições mínimas de escoamento, a profundidade dos condutos
subterrâneos crescerá para jusante, podendo atingir níveis impraticáveis, caso a área de projeto ao
longo do desenvolvimento da canalização continue em condições desfavoráveis. Se os condutos
atingirem profundidades excessivas, teoricamente acima de 6,0m (na prática, 4,5m), então, devem
ser empregadas instalações que transportem as vazões até então recolhidas, para uma cota que
permita a construção e operação dos trechos a jusante daquele ponto novamente em condições
viáveis tecnicamente. Esta recuperação de cotas é conseguida através de uma elevatória de esgotos.
Além da situação descrita pode-se projetar elevatórias para recalques de esgotos produzidos em
áreas baixas, para reunião de vazões de bacias diferentes (sistemas distritais), quando da
ultrapassagem de divisores de água, na necessidade de lançamentos submersos, nos recalques de
lodos nas estações de tratamento e, eventualmente, nas entradas ou entre unidades destas.

Uma elevatória por ser uma instalação eletromecânica consumidora contínua de energia,
acondicionada em edifício próprio, constitui-se em uma obra que irá onerar a implantação e a
operação do sistema, devendo ser objeto de minuciosos estudos comparativos, para que seu projeto
só seja definido quando não houver mais opções técnicas viáveis com a utilização de
escoamento por gravidade.
10.3. Classificação

As EEE podem ser classificadas de várias maneiras, porém nenhuma delas é satisfatória, como
citado por Metcalf e Eddy. Esta classificação pode ser feita em função de sua capacidade ou de sua
altura de recalque ou da extensão deste, segundo a fonte de energia, pelo tipo de construção, etc. A
PNB-569/75 da ABNT classifica-as da seguinte maneira:

a) quanto as vazões de recalque - Qr

- pequena: Qr 50 l/s,


- média: 50 < Qr< 500 l/s,
- grande: Qr500 l/s;

b) quanto a altura monométrica - H

- baixa: H  10 m.c.a,
- média: 10 < H < 20 m.c.a.,
- alta: H  20 m.c.a.

Define ainda como tubulação curta a tubulação de recalque com comprimento de até 10 metros e
longa aquela com extensão superior.

10.4. Características Gerais

A Fig.10.1. mostra o corte esquemático de uma pequena elevatória convencional com bombas de
eixo horizontal, moldada no local. Vale salientar que as EEE têm suas características definidas a
partir da determinação das vazões a elevar, dos equipamentos e seus modelos a serem instalados e
do método construtivo.

Tipicamente quando são moldadas no local, são estruturas em concreto armado nas construções
subterrâneas e em alvenaria nas externas. Constituem-se de uma câmara de recepção denominada de
poço úmido, de detenção ou de coleta, no qual se instalam grades de retenção de material grosseiro
(d > 2,5cm) e dispositivos para retirada desse material retido, escadas fixas de acesso, entradas de
sucção e extravasores. Também possuem uma câmara de operação denominada de poço seco ou
câmara de trabalho, onde estão instalados os equipamentos de impulsão (conjuntos motor-bombas),
geradores, válvulas de controle e antigolpe, conexões de continuidade do recalque, exaustores, etc.,
além de estruturas de circulação de operadores e transporte de máquinas.

Normalmente sobre o poço seco estão as dependências de acomodação dos operadores (instalações
sanitárias e escritório) e equipamentos e dispositivos necessários a operação e manutenção das
instalações (talhas, ganchos e chaves, quadros elétricos, alarmes e painéis de controle automáticos e
manuais), sistemas de ventilação e calefação, drenagem, etc.).
FIG. 10. 1 - Corte esquemático de uma elevatória convencional
com bombas de eixo horizontal

10.5. Localização

Para escolha definitiva da localização de uma EEE deverão ser observados e analisados os
seguintes aspectos:

 menor desnível geométrico entre a captação e o fim do recalque e menor extensão deste;
 facilidade de obtenção do terreno;
 proteção natural contra possíveis inundações;
 possibilidades de ampliações futuras;
 facilidades de acesso;
 possibilidades de eventuais descargas de esgotos em galerias ou canais próximos quando de
paralisações do sistema elevatório;
 distância das habitações;
 facilidade de obtenção de energia elétrica;
 harmonização da edificação com o ambiente vizinho.

Independente dos pontos citados, o posicionamento das EEE, em geral, decorre do traçado das redes
coletoras e canalizações de maior diâmetro equivalente, situando-se nos pontos mais baixos de uma
bacia, ou de um distrito de coleta, ou nas proximidades de rios, córregos, praias, etc. 10.6. Bombas
para Esgotos

10.6.1. Conceitos

Nas elevatórias de esgotos o tipo de bomba mais frequente é a centrífuga, com velocidade fixa ou
variável, podendo ser de eixo horizontal ou vertical. As verticais podem ser com motor acoplado ou
de eixo longo, estas de uso menos frequente. Também são muito empregados os conjuntos motor-
bombas submersíveis (de eixo vertical). Além das bombas centrífugas também são empregadas as
bombas helicoidais e os ejetores pneumáticos, com relativa constância. A descrição das principais
características e a aplicabilidade desses equipamentos é o que será desenvolvido a seguir.

10.6.2. Bombas Centrífugas


Nas EEE convencionais, as bombas mais empregadas são do tipo de eixo horizontal ou vertical
afogadas, de aspiração única instaladas em um poço seco com motores acoplados sobre o piso no
caso de eixo horizontal (Fig.10.2) ou sobre a própria bomba quando o eixo é vertical.

As bombas centrífugas são compostas de uma carcaça que molda em seu interior um canal de
secção gradualmente crescente para direcionar o líquido bombeado para a saída da bomba com
energia de pressão. Este canal é chamado de voluta. Dentro da voluta encontra-se um elemento
girante denominado de rotor que recebe energia mecânica através do seu eixo e, pelo princípio da
força centrífuga, remete o líquido aspirado através da sucção, do seu centro para a periferia, na
voluta. Diferentemente dos rotores empregados no bombeamento da água limpa, que são do tipo
fechado, os de bombas centrífugas para esgotos são do tipo aberto, que permitem o bombeamento
de sólidos em suspensão no esgoto, com diâmetros equivalentes a até cinco centímetros. As bombas
de eixo vertical com apenas a bomba submersa ou afogada (Fig.10.3) têm especificação bastante
restrita, pois o eixo muito extenso poderá acarretar excentricidades quando do seu funcionamento
podendo gerar danos significativos ou até irreparáveis ao conjunto.

Também é frequente o emprego de conjuntos motor-bombas submersíveis. Esses conjuntos têm a


vantagem imediata, do ponto de vista construtivo, de não requererem a construção de um poço seco
(Fig.10.4). Nestes conjuntos a bomba e o motor formam um monobloco que opera dentro da massa
líquida a ser elevada. O conjunto pode ser movimentado verticalmente através de uma haste-guia
(ou conjunto de hastes) em aço inoxidável que permite o acoplamento automático entre o flange de
saída da bomba e o da entrada da tubulação de recalque, apenas pelo seu peso próprio, sem
necessidade de aparafusamentos, tornando igualmente singela as operações inversas com emprego
de uma talha quando de previsíveis inspeções ou reparos.

Os adeptos deste tipo de equipamento, embora de maior custo de aquisição, alegam as seguintes
vantagens sobre os conjuntos tradicionais:

 dimensões reduzidas, manutenção simplificada e fácil inspeção;


 dispensa poço e casa de máquinas, pois o conjunto funciona dentro do líquido;
 não requer precaução contra inundações ou preocupações com refrigeração pelo mesmo
motivo;
 volume de escavação reduzido e não necessitando de compartimentos para acomodação de
operadores.

Com estas características o conjunto de maior tradição comercialmente é o de origem sueca, da


marca FLYGT, que historicamente está no mercado desde 1948, prometendo as seguintes
vantagens:

 componentes padronizados;
 permitem passagem de sólidos de até doze centímetros de comprimento;
 podem funcionar a seco;
 manutenção preventiva apenas semestral e garantia de três anos sem necessidade de
lubrificação dos rolamentos de esfera;
 não necessita de vigilância, pois dispõem de comandos automáticos de partida e de parada
de acordo com os níveis do líquido e alarme detectante de avarias.
FIG. 10. 2 - Elevatória com bombas de eixo horizontal

FIG. 10. 3 - Elevatórias com bombas de eixo vertical


FIG. 10. 4 - Instalação típica para bombas FLYGT
(Conjunto motor-bomba submerso)

10.6.3. Bombas Helicoidais

Também chamadas de bombas parafuso, têm sido tradicionalmente empregadas para recalques de
baixa altura e curta extensão (típica para recuperação de cotas ou em projetos de estações de
tratamento). Seu princípio de funcionamento mantém-se inalterado desde os tempos de Arquimedes
(287-212 a.C.), natural de Siracuse, na Sicília, a quem esta invenção é atribuída, embora o
mecanismo já deva ter existido no antigo Egito em formas mais primitivas. O conceito hidráulico
básico permanece inalterado ao longo desses dois milênios, embora o desenho mecânico e o método
de construção das atuais bombas, evidentemente, sejam bastante diferentes.

Comparando-se com as bombas centrífugas, as helicoidais apresentam uma série de vantagens, a


saber:

 baixa velocidade de rotação (até 100rpm) reduzindo problemas de abrasão e custo de


manutenção e de fácil operação;
 dispensa utilização de válvulas de gaveta, de retenção, tubulação de sucção e recalque;
 dispensa dispositivo de proteção de montante como caixas de areia e grades;
 apresenta menores ruídos durante o funcionamento e maior durabilidade;
 é praticamente imune às imperícias dos operadores e a danos e paralisações decorrentes de
materiais fibrosos tais como trapos, buchas de fiapos, etc.;
 trabalha com qualquer vazão, sem necessidade de refrigeração e sem riscos de cavitação;
 apresenta bom rendimento (até 85%) para vazões máximas de dimensionamento de 10 a
3200 l/s.

Por outro lado estas bombas apresentam algumas desvantagens em relação às bombas centrífugas
como:

 maior custo das instalações mecânicas;


 maiores espaços horizontais, principalmente em relação as submersíveis;
 pequenas alturas manométricas (2 a 9 metros) em virtude da possibilidade de formação de
catenária ao longo do parafuso;
 maior corrente elétrica, principalmente nas partidas;
 necessita de redutor de velocidade.

Essas bombas são constituídas de um parafuso montado dentro de uma calha anti-retorno em aço
carbono ou concreto, acoplado a uma unidade motriz externa conectada na extremidade superior e
completada com mancais de apoio inferior e superior, bomba de graxa e accessórios (Fig.10.5). O
parafuso constitui-se de um eixo tubular em aço carbono ao qual estão soldadas as hélices do
mesmo material com diâmetro de 0,3 até 3,0m, resistentes a corrosão, que permitirão a elevação do
esgoto, assentado com uma inclinação de 30o a 38o. O mancal superior é constituído de um
rolamento axial e um de escora, devidamente dimensionados para suportarem as cargas axiais e
radiais que atuam sobre o mesmo, proporcionando-lhe maior vida útil. A lubrificação é feita por
meio de graxa fluida. A unidade motriz constitui-se de um motor elétrico, montado sobre uma base
metálica, que aciona um redutor de velocidade de rotação através de polias e correias. Por sua vez
esse redutor é acoplado ao mancal superior. O mancal inferior é dotado de rolamento
autocompressor, vedado hermeticamente contra infiltrações de líquidos, recebendo graxa de forma
automática de um lubrificador acionado independentemente.

FIG. 10. 5 - Corte esquemático de uma bomba parafuso simples

No Brasil, o mais tradicional fabricante de bombas helicoidais é a Fábrica de Aço Paulista S.A. -
FAÇO, cujo diagrama de seleção de seus produtos, apresentado em folheto comercial de 1980, está
copiado na Fig.10.6. Deve-se observar que, quanto maior o diâmetro do parafuso menor o número
de rotações e maior a vazão bombeada.
FIG. 10. 6 - Gráfico para seleção de parafusos FAÇO

10.6.4. Ejetores Pneumáticos

Os ejetores pneumáticos são bombas de pequena capacidade (2 a 20 l/s) para emprego em unidades
independentes, principalmente para esgotamento de subsolos de edificações que se situam abaixo
do nível da rede coletora externa de esgotos. Para melhor entendimento do mecanismo de
funcionamento de um ejetor pneumático deve-se observar o corte esquemático mostrado na
Fig.10.7. O esgoto líquido penetra através da “válvula V3”, enchendo a câmara de recepção T.
Quando a água residuária alcança o nível máximo (Nmáx) a “válvula V 2” é aberta através do
acionamento provocado pela “bóia C”, impulsionando ar comprimido fornecido por um compressor
acoplado, forçando o líquido acumulado através da “válvula V 4” visto que neste movimento a
V3 ficará fechada. Quando o nível mínimo (Nmín) é atingido a posição da válvula V2 inverte-se dando
início a um novo ciclo. Cada ciclo dura em média um minuto quando o ejetor trabalha com sua
capacidade máxima.

FIG. 10. 7 - Corte esquemático de um ejetor pneumático


Ejetores pneumáticos são viáveis para esgotamento de vazões de até 20 l/s (vazões maiores
consumem muita energia com baixos rendimentos, inferiores a 15%) e para alturas manométricas de
3 a 15 metros. Compõem-se de câmaras metálicas com entrada e saída em 100mm ou mais, que
dispensam poço seco e grades, requerem pouca lubrificação, não expelem maus cheiros (desde que
bem ventilados), ocupam pouco espaço e quando da instalação de múltiplas unidades podem ser
alimentados por uma única central de ar comprimido.

10.6.5. Seleção de Bombas

Para a definição do conjunto de bombeamento a ser empregado em uma elevatória devem-se ter
informações precisas sobre as vazões de projeto e suas variações diárias e ao longo do alcance do
plano (em geral 20 anos, com etapas a cada 10), localização da estação, definição das tubulações e
as curvas características das bombas e do sistema. Esses dados são essenciais para que sejam
definidos os tipos de conjuntos, dimensões e quantidades a serem instalados, bem como as possíveis
etapas para ampliação das instalações iniciais do projeto.

Exemplos: grande crescimento das vazões de projeto ao longo do plano implicam em instalações
dos conjuntos por etapas; no caso de simples recuperação de cotas ao longo de um coletor
possivelmente utilizar-se-ão bombas parafuso; grandes vazões e pequenas alturas deverão requerer
bombas de eixo axial; grandes flutuações da vazão indicam bombas com descarga variável; etc.

10.7. Noções sobre Motores

10.7.1. Tipos de motores

Nas instalações hidráulicas motores são máquinas que vão receber uma modalidade de energia, de
alguma fonte ou processo, e transformar esta energia de modo a fornecer energia mecânica às
bombas. O próprio gás produzido nas estações de tratamento poderá ser uma fonte alternativa de
energia. Em sua maioria as bombas para impulsionamento de esgotos sanitários são acionadas por
motores movidos a eletricidade, por vários motivos, tais como, baixo custo de operação,
manutenção e investimento, além da sua grande versatilidade de adaptação às mais variadas cargas.
Não é raro, porém, o emprego de motores alimentados por outras fontes de energia, como por
exemplo, conjuntos de reserva com motores de combustão interna (movidos a gasolina, álcool, gás
ou diesel) para que haja garantia de continuidade de funcionamento nos períodos em que ocorram
falhas no fornecimento de energia elétrica.

Motores a gasolina, álcool ou gás (ignição por centelha) são menos empregados porque seu
princípio de funcionamento é suscetível a maior número de falhas tanto na partida como em
funcionamento, além desses tipos de combustíveis implicarem em maiores custos operacionais
(mais caros) e, também, em maiores riscos no armazenamento. Motores a diesel (ignição por
compressão) são mais frequentemente utilizados para funcionamento nestas situações
emergenciais.

OBS: Ignição é um termo originado do latim ignire, „incendiar‟, que significa estado dos corpos em
combustão, enquanto que Cilindrada é um termo derivado do latim cylindru, e que define a
capacidade máxima de admissão de gás pelo conjunto de cilindros, que são órgãos fixos em um
motor de explosão, no interior dos quais se desloca um êmbolo e onde se realiza a combustão da
mistura e a subsequente expansão dos gases, produzindo o funcionamento dos motores a explosão.

A ignição espontânea utilizada pelos motores a diesel, que proporciona menores riscos de falhas e
gastos mais reduzidos com combustível, a maior durabilidade, a resistência e a grande capacidade à
média e baixa rotações, são vantagens significativas do motor diesel sobre o a gasolina. Por outro
lado os motores a diesel são mais caros e bem mais pesados que os a gasolina de cilindradas
equivalentes, pois aqueles funcionam com pressões consideravelmente maiores necessitando,
portanto, estruturas próprias mais reforçadas. Comparativamente os motores diesel são mais
vantajosos.

10.7.2. Motores elétricos

Um estudo básico dos motores elétricos envolve além de bons conhecimentos sobre eletricidade
(energia e potência, fatores de potência e de serviço, corrente nominal, etc.) informações de tipos,
características construtivas e partes componentes de tais máquinas comerciais existentes e
conhecimentos fundamentais sobre velocidade síncrona, escorregamento, conjugados (na Física é a
denominação dada a um sistema de duas forças paralelas de suportes distintos, com sentidos
opostos, e que atuam sobre um corpo; torque), rendimentos mecânicos, etc. Em razão da
complexidade do assunto não é objetivo deste texto um estudo detalhado sobre motores elétricos e
sim descrever apenas conhecimentos elementares sobre os mesmos, principalmente sobre
terminologia, conceitos, funcionamento e empregos.

Os motores elétricos podem ser de dois tipos: de corrente contínua e de corrente alternada. Os de
corrente contínua são raramente utilizados, pois inicialmente necessitariam de um dispositivo de
retificação de corrente, visto que normalmente a energia elétrica é fornecida em corrente alternada.
Além disso são de custo mais elevado. Seu uso fica restrito a situações muitos especiais, como por
exemplo, em casos de funcionamentos com velocidades constantes ou variáveis apenas entre
intervalos de bombeamentos com o controle rigoroso destas flutuações executado através de um
reostato (resistor variável, utilizado, em geral para limitar corrente em circuitos ou dissipar energia).
Têm conjugado de partida (torque) elevado, sendo os tipo Shunt os empregados nestas condições.

Os motores de corrente alternada são usualmente utilizados para o acionamento de bombas


hidráulicas. Pertencem a uma das seguintes categorias:

 motor síncrono polifásico;


 motor assíncrono (ou de indução) polifásico nas especificações com rotor de gaiola e
com rotor bobinado.

Corrente elétrica polifásica é a corrente composta, produzida por um gerador onde se formam,
simultaneamente, “n” tensões alternadas senoidais que guardam entre si uma diferença de fase
constante e igual a 360º/n.
10.7.3. Motores síncronos

O motor síncrono tem a velocidade de rotação do eixo (em geral expressa em número de rotações
por minuto - rpm) denominada de velocidade de sincronismo “Ns”, rigorosamente constante, tanto
no vazio como em carga, desde que seja constante a frequência da alimentação, e definida em
função dos valores de frequência da corrente e da quantidade de pólos do motor, de conformidade
com a seguinte expressão:

Ns = ( 120 f / p ) Eq. 10.1

sendo:
Ns - número de rotações por minuto (normalmente de 500 a 1200rpm);
f - frequência da corrente em Hertz (Heinrich Hertz, físico alemão, 1857-1894): no Brasil =
60Hz;
p - número de pólos (em geral 6 a 14).
O princípio básico de funcionamento consiste na interação de dois campos magnéticos, um girante
produzido no estator pela corrente alternada e um outro fixo gerado no rotor que, no seu
funcionamento, é atraído continuamente pelo campo do estator.

A estrutura e o mecanismo de operação dos motores síncronos são relativamente complicados e


para o seu funcionamento há necessidade de uma fonte suplementar de energia em corrente
contínua, destinada à alimentação dos enrolamentos do rotor. Isto é obtido através de uma excitatriz
(pequena máquina elétrica destinada a produzir a corrente necessária à alimentação dos
enrolamentos indutores de uma máquina principal) acionada, frequentemente, pelo mesmo eixo do
motor. Sua potência deve ser tal que possa vencer as perdas a vazio (perdas mecânicas, por
excitação e no ferro). Normalmente tem um valor entre 5 e 10% da potência do motor síncrono.
Esta é a principal e suficiente condição para que os motores síncronos tenham sua utilização muito
restrita.

Motores síncronos só são viáveis para grandes instalações, geralmente quando a potência das
bombas ultrapassa de 500HP e as velocidades necessitam ser baixas (até 1800rpm). Nestes casos,
em razão de sua maior eficiência, o dispêndio com a energia elétrica passa a ser significativo na
economia global do sistema, considerando que os assíncronos têm fator de potência muito baixo. O
custo inicial, entretanto, é elevado e a fabricação ainda restrita em nosso país. Não são motores
adequados para elevatórias comuns de esgotos sanitários.

De um modo geral pode-se relacionar que este tipo de motor tem as seguintes desvantagens:

 necessita instalação de chaves especiais (compensadoras) para sua partida;


 não tem arranque próprio necessitando, pois, de equipamentos especiais, normalmente
 um motor de indução tipo gaiola, para alcançar a rotação síncrona;
 pode sair de sincronismo (a condição básica de sua opção) por perturbações no sistema
(excesso de carga, por exemplo);
 para proteção de sua integridade precisa de dispositivos especiais que o pare
automaticamente no caso de saída de sincronismo;
 tem conjugado (= medida do esforço para giro do eixo; torque) de partida baixo;
 criteriosa e difícil operação.

10.7.4. Motores assíncronos

Nos motores assíncronos, também denominados de indução, a velocidade de rotação é ligeiramente


variável, não coincidindo exatamente com a velocidade de sincronismo já referida. Em função da
carga mecânica aplicada, há uma ligeira redução na rotação, da ordem de 3 a 5%, que é conhecida
por escorregamento. Exemplo: 1200rpm síncrono corresponde 1170rpm de indução. A preferência
por estes motores deve-se ao fato de os mesmos possuírem várias vantagens, tais como, construção
simples, vida útil longa, flexibilidade de manobras e manutenção, partida sozinho mesmo em carga,
etc.

Basicamente são motores trifásicos compostos de um estator ou indutor fixo e um rotor ou


induzido. O estator compõe-se de um núcleo de chapas magnéticas tratadas termicamente para
redução das perdas, das bobinas e da estrutura de suporte denominada de carcaça, em geral
construída em ferro laminado, resistente a corrosão, com ranhuras na superfície interna onde estão
alojadas as bobinas (do francês bobine que significa agrupamento de espiras) normalmente
constituídas de fios de cobre esmaltado revestidos com verniz à base de poliester em forma de
espiras (do grego speira, parte elementar de um enrolamento), enquanto que o rotor é composto de
um eixo para transmissão da potência mecânica desenvolvida, do enrolamento e também de um
núcleo de chapas magnéticas de baixa perda. Nestes motores o enrolamento do rotor não possui
ligação elétrica direta com a linha de alimentação. As correntes internas são geradas por indução
eletromagnética, daí o nome de motor de indução.

Externamente a carcaça e as tampas em ferro fundido são providas de aletas ou ranhuras as mais
profundas possíveis, para que se obtenha uma maior superfície de dissipação de calor para o
ambiente em volta e proporcionar alta resistência mecânica. Seu princípio básico de funcionamento
está no fato de haver uma indução de um campo girante no estator, gerado pela passagem da
corrente, normalmente trifásica, nas bobinas curto-circuitadas em torno de um eixo, alimentadas por
um sistema de compensadores automáticos. Esta indução gera uma força eletromotriz nas espiras do
rotor, implicando automaticamente no aparecimento de um campo reagente para cada espira, que
tende a anular os efeitos do campo de origem, pois em eletricidade correntes induzidas tendem a se
opor à causa que as originou. Esta reação faz com que o rotor seja atraído pelo campo girante,
tendendo a se igualar em módulo a mesma velocidade do campo do estator para neutralização dos
efeitos do campo do estator.

Logicamente, a medida que o rotor é atraído pelo campo do estator a variação do campo reagente
vai-se reduzindo, diminuindo progressivamente a força de atração, fazendo com que a velocidade
de rotação do rotor também seja amortecida. Com este amortecimento novamente ocorrerá um
aumento da força de atração e o ciclo repete-se. Evidentemente se o rotor alcançasse a velocidade
do campo girante não haveria geração de corrente induzida e, consequentemente, desapareceria o
efeito magnético que faz o motor funcionar.

Observar, também, que da maior ou menor quantidade de espiras dependerá a intensidade da força
de atração gerada.

10.7.5. Rotores

Os rotores dos motores assíncronos são constituídos por conjuntos de condutores colocados em
pacotes de lâminas de ferro com espessura de 0,5mm cada lâmina, isoladas entre si por uma camada
superficial de óxido de ferro e providas de furos que fornecem ranhuras ou canais nos quais os
condutores são colocados. Em geral possuem de 3 a 5 canais por pólo e por fase. Nos motores de
grande potência empregam-se múltiplos pacotes com espessuras de 10cm cada, para melhor
refrigeração interna e redução do aquecimento de todo o equipamento.

O rotor ou induzido pode ser de dois tipos: bobinado ou em anéis e de gaiola ou em curto-circuito.
Quando em cada ranhura são colocadas barras e estas barras são soldadas em suas extremidades a
um anel de cobre, conectando-as em curto entre si, tem-se o rotor de gaiola. Neste caso o rotor não
possui número de pólos próprios, mas o número do estator induzido por este. Estes anéis podem ser
providos de aletas externas que substituem o ventilador, principalmente nos de pequena potência.
Isto é um dos motivos de que os motores com rotor em curto-circuito serem mais compactos e de
operação mais simples. Nos grandes motores a excessiva quantidade de calor gerada fica além da
capacidade de dissipação pelas paredes, havendo necessidade de uma ventilação forçada obtida com
ventiladores internos, implicando em acréscimo nas dimensões da máquina e seu encarecimento.

O motor de indução com rotor de gaiola é o tipo de uso mais corrente nas pequenas e médias
instalações de bombeamento. O rotor não possui nenhum enrolamento, não existindo contato
elétrico do induzido com o exterior. O rendimento (m) é elevado. A partida é feita utilizando-se
chaves elétricas apropriadas, pois há uma necessidade de uma corrente cinco, sete e até dez vezes
superior a de plena carga, o que é um sério inconveniente no momento de partida, exigindo
dispositivos especiais para redução deste problema. As instalações de bombeamento com potências
inferiores a 10HP utilizam quase que exclusivamente motores desse tipo.
O bobinado é composto de um núcleo em ferro laminado onde se fixa o enrolamento semelhante ao
do estator, com mesmo número de pólos. Também denominado de rotor em anéis, visto que as
extremidades (três) do enrolamento são unidas a três anéis fixados no eixo permitindo a introdução
de resistências em série com as três fases do enrolamento na partida e a colocar em curto os
terminais citados quando em funcionamento. Nestes o inconveniente da alta absorção de corrente no
arranque é atenuado com emprego de um reostato de partida, apresentando, por este motivo,
conjugados elevados com corrente reduzida no arranque. Podem ser usados para acionamento de
bombas centrífugas e de êmbolo.

Figura 10. 8 - Esquema de um motor elétrico

Os motores de indução com rotor bobinado têm aplicação recomendada quando se tem um
conjugado de partida elevado durante toda a fase inicial de movimentação. Não há necessidade de
chaves especiais para a partida. Têm sido utilizados com maior frequência, principalmente quando
há necessidade de partidas com carga, em instalações onde as bombas exigem motores acima de
50HP, embora os motores assíncronos com rotor de gaiola sejam também fabricados para potências
maiores, para emprego em situações onde as partidas sejam sem carga ou com carga reduzida. Seu
custo é bem maior que os motores assíncronos com rotor de gaiola, requerem maiores cuidados de
manutenção e têm pior rendimento. São mais indicados para bombeamento com velocidade
variável.

10.7.6. Potências

A potência de placa do motor (potência mecânica que o motor fornece ao seu eixo) deverá ser
suficiente para cobrir o valor da potência absorvida pela bomba. Convém, entretanto, que seja
ligeiramente superior, pois a bomba poderá eventualmente funcionar com vazão maior do que a
prevista, como por exemplo, tubulação nova que admite escoamento maior devido a perda da carga
ser menor que a calculada ou tubulação descarregando em cota inferior a prevista, e exigir uma
potência maior em seu eixo.

Como o motor também consome potência na transformação de energia elétrica em mecânica, alguns
autores classificam como potência nominal ou de saída a potência no eixo do motor e de potência
de entrada a potência absorvida pelo motor. A relação entre a potência nominal e a potência de
entrada é o rendimento do motor, hm. Este rendimento depende das perdas no estator, no rotor e nos
circuitos internos e, também, das perdas mecânicas (Figura 10.9).
A potência P consumida pelo conjunto motor-bomba (potência de entrada) expressa em quilowatt
(KW) é dada pela expressão:

P = 0,736..Qb.H / (75.b . hm ), Eq.10.2

onde “b . m” e é denominado de rendimento “” do conjunto.


Frequentemente a potência nominal é expressa em cavalos-vapor (CV) ou em “horse-power” (HP),
sendo 1CV = 0,986HP = 0,7355KW (Ver Anexo A2).

Figura 10. 9 - Esquema das demandas de energia nos conjuntos

10.7.7. Comentários

As EEE de pequeno porte funcionam com tensão de 380 a 460V com 60Hz de frequência. Nas de
grande porte as voltagens chegam a valores superiores a 4000V (nestes casos com equipamentos
auxiliares de menores voltagens, em geral até 380V). A grande maioria das elevatórias não
requerem voltagens superiores a 760V.

A grande maioria dos motores é fornecida com terminais de enrolamento ditos religáveis, por
exemplo ligações série-paralela, estrela-triângulo ou tripla tensão, possibilitando o funcionamento
em redes com tensões diferentes. Os motores devem ser capazes de funcionar satisfatoriamente
quando alimentados com tensões de até 10% de variação em torno da sua tensão nominal, não
havendo variação de frequência. Também devem funcionar satisfatoriamente com variações de
frequência de até 5% em torno da sua frequência nominal sem variação da tensão. No caso de
variações na tensão e na frequência simultaneamente a soma destas variações não deve ultrapassar
10% do valor nominal da frequência.

Por exemplo, um acréscimo na frequência implicaria em redução no conjugado e na corrente de


partida e aumento na velocidade nominal, enquanto que a potência do motor e a corrente nominal
continuariam inalteradas. No caso de uma variação positiva na tensão implicaria em acréscimos na
potência do motor e na corrente e velocidade nominais, enquanto que não haveria alterações
sensíveis nos conjugados e na corrente de partida. Define-se corrente nominal como a amperagem
que o motor absorve da rede quando em funcionamento na potência, tensão e frequência nominais.

Todo motor deve vir com uma placa onde estão indicados seus dados baseado nos quais poderá ser
feita sua aquisição. Em geral estes dados são os seguintes:

 Fabricante; Tipo; Modelo e número de fabricação;


 Potência nominal; Número de fases; Tensão nominal;
 Tipo de corrente e intensidade nominal; Frequência;
 Velocidade de rotação; Regime de trabalho;
 Classe de isolamento; Código; Fator de serviço.

10.8. Projeto de Elevatórias

10.8.1. Informações Básicas

No estudo para elaboração de um projeto de uma EEE são necessários o conhecimento dos
seguintes parâmetros básicos:

 vazões de projeto (mínimas, médias e máximas, iniciais e finais de projeto);


 hidrogramas de chegada;
 dados geométricos e físicos dos canais afluentes, sucção, dimensões, material, cotas, lâmina
líquida, etc.

De posse destas informações o projetista define o local da construção a partir de inspeção da área,
verifica os níveis de inundação, acesso e a infraestrutura pública existente (ruas, canais, rede de
energia, etc.) e promove os levantamentos topográficos e as sondagens preliminares.

10.8.2. Pré-dimensionamento

O passo seguinte será a definição preliminar das instalações dentro das limitações que seguem:

 pré-dimensionamento do poço de sucção (diferença entre os níveis máximo e mínimo úteis


e com bombas afogadas) com uma submergência mínima para que seja evitada a formação
de vórtices na entrada da sucção;
 pré-seleção dos conjuntos elevatórios (velocidade mínima de 0,60m/s para impedir
sedimentações indesejáveis e velocidades máximas de 1,5m/s na sucção e 2,5m/s no
recalque);
 definição do número de conjuntos elevatórios incluindo os de reserva (rotação de 500 a
1200rpm, ou até 1800rpm para vazões de até 0,05m³/s, devidamente justificada);
 determinação do sistema de medição das vazões afluentes.

10.8.3. Unidades Preliminares

Essencial para o funcionamento efetivo de elevação dos esgotos, principalmente quando se


empregam bombas centrífugas, é o gradeamento e, menos frequentemente, uma outra unidade pode
ser necessária que seria uma caixa de areia logo após ao gradeamento, dependendo do tipo e teor
dos sólidos sedimentáveis no volume a bombear. Sólidos que poderão ser prejudiciais ao
bombeamento deverão ser retirados previamente antes que alcancem a entrada de sucção. Em
pequenas EEE poderá ser utilizado o gradeamento tipo cesta, como mostrado na Fig.10.1, com
retirada manual. Em elevatórias maiores são instaladas grades com remoção e trituração mecânicas.
A velocidade pela grade deverá estar entre 0,6 e 1,0m/s ou até 1,4m/s, devidamente justificada.

No caso da remoção mecânica as grades sempre estarão assentadas com inclinação de 70o a 90o e
na manual 45o a 70o, com espaçamento máximo entre barras de 2,5cm e com perdas mínimas de
0,15m nas manuais e 0,10m nas mecânicas (Fig.10.10). Em algumas situações uma grade
preliminar, com separações entre barras de 10cm, será de efetiva utilidade na retenção de corpos
sólidos de maiores dimensões tais como animais mortos, garrafas, etc.
FIG. 10. 10 - Perfil esquemático das instalações de uma grade

Areia e outros minerais pesados tais como entulhos, seixos, partículas metálicas, carvão, etc.)
deverão ser retidos em unidades posteriores às grades, chamadas de caixas de areia. Estes materiais
devem ser removidos para proteção das bombas, tubulações e peças especiais, contra a abrasão e
também evitar depósitos de materiais inertes em unidades posteriores, principalmente na estação de
tratamento.

O princípio de funcionamento consiste em fazer passar a corrente líquida por sobre um depósito
numa velocidade tal que as partículas pesadas (areia e outros sedimentos) fiquem retidas, enquanto
que as mais leves (material orgânico e flutuantes) sigam junto com o esgoto nadante (Fig.10.11). A
velocidade do escoamento pela caixa deve ser da ordem de 0,30m/s. Velocidades inferiores a
0,15m/s provocam sedimentação indesejada de matéria orgânica e acima de 0,40m/s permitem a
passagem de partículas arenosas. O material retido é retirado periodicamente por processos manuais
em pequenas estações ou mecanicamente nas estações de maior porte. Para melhor embasamento
sobre grades e caixas de areia pesquisar bibliografia sobre estações de tratamento de esgotos.

FIG. 10. 11 - Esquema de instalação de uma caixa de areia

10.8.4. Poço Úmido

10.8.4.1. Considerações para Projetos

Diante da realidade que é a variação das vazões afluentes a uma elevatória de esgotos, não havendo
portanto a possibilidade de bombeamento contínuo a vazão constante, torna-se imprescindível a
construção de um tanque armazenador de esgotos para permitir o funcionamento adequado das
bombas, notadamente nos casos de bombas centrífugas. Esta câmara de detenção do volume
afluente é denominada de poço úmido, poço de sucção ou câmara de aspiração. É conveniente que
essa câmara seja dividida em pelo menos dois compartimentos com entradas independentes, de
modo a tornar a operação da unidade mais flexível, facilitando serviços de limpeza e reparos. Para
efeito de ampliação da capacidade de armazenamento do poço úmido, opcionalmente os
compartimentos poderão ser intercomunicáveis através de comportas.

Quando for previsto instalação de novos conjuntos ao longo do plano dimensiona-se a arquitetura
do poço úmido com base nesta previsão e com a locação exata das futuras unidades de sucção. A
Fig.10.12 mostra um exemplo onde se observa o espaço recomendado para instalação de uma
terceira sucção a qual está prevista em uma posição tal que não crie zonas mortas, que
prejudicariam o funcionamento inicial do projeto. O futuro conjunto deverá estar em uma posição
intermediária entre os dois primeiros (estes para funcionamento alternado) e mais próximo do
afluente.

Para determinação do volume do poço úmido o projetista deverá partir das seguintes considerações:

 não ser tão pequeno que provoque enchimento rápido e consequentemente uma alta
frequência de partidas e paradas no bombeamento, nociva a instalação eletromecânica;
 não ser tão grande que resultem em períodos de detenção muitos longos, gerando condições
sépticas do esgoto acumulados exalando maus odores, bem como sedimentações
problemáticas no fundo do poço;
 impedir a formação de vórtices no líquido para não permitir a entrada de ar nas bombas;
 impedir a acumulação de gases produzidos pelos esgotos o que poderia implicar em riscos
de explosões;
 evitar a formação de volumes parados (zonas mortas) que criariam sedimentações
indesejáveis e geração de maus odores;
 controlar a formação de turbulência que afetaria a altura de sucção e o rendimento das
bombas;
 fixar um nível mínimo do líquido de modo a garantir o afogamento ou submersão das
bombas centrífugas e um máximo tal que não dê retorno prejudicial a canalização afluente.

FIG. 10. 12 - Posicionamento dos conjuntos motor-bombas

10.8.4.2. Cálculo do Volume


A utilização de bombas de velocidade variável requer um volume útil menor tendo em vista a
acomodação do bombeamento às vazões de chegada. Para recalque à vazão constante o volume do
poço úmido será de maiores proporções para evitar partidas muito frequentes de bombeamento. A
despeito disto a segunda hipótese é mais corriqueira em função da simplificação na operação,
principalmente em pequenas EEE. Para motores inferiores a 20HP o tempo entre duas part idas
consecutivas não deve ser inferior a 10 minutos. Entre 20 e 100HP não inferior a 15 minutos e
superiores entre 20 e 30 minutos. Em qualquer situação não se deve prever mais que quatro partidas
por hora para evitar fadiga nas partes elétricas das instalações. Por outro lado, períodos de detenção
superiores a 40 minutos (se possível inferiores a 20 minutos) não são recomendáveis, pois, períodos
assim originariam sedimentações e condições sépticas indesejáveis. De um modo geral no pré-
dimensionamento adota-se 10 minutos como período de parada quando a vazão afluente
corresponder a média de projeto.

Assim, o “volume útil V” do poço úmido é determinado pela expressão

V=q.t Eq. 10.3

onde q é a vazão afluente e t é o período de parada do bombeamento.

Feito este cálculo verifica-se seu valor para as condições de número máximo de partidas por hora e
o maior período de parada (V. Exemplo 10.10.1. b).

10.8.4.3. Dimensões Úteis

Determinado o volume útil, parte-se para a definição de sua forma geométrica, ou seja, altura,
largura e comprimento, observando-se, de um modo geral, as orientações a seguir descritas.

 Altura - É função do nível da extravasão (em torno de 30 centímetros acima) ou do nível


máximo de alarme (aproximadamente 15 centímetros acima) e, dependendo do volume útil
calculado, das dimensões então definidas, da natureza da elevatória, das características das
bombas selecionadas, a faixa de operação deve ficar entre 1,0 e 1,6 metros;
 Largura - Depende do distanciamento das sucções entre si e das paredes ou no caso de
bombas submersas, das condições hidráulicas da sucção e da disposição física em relação as
outras unidades da elevatória;
 Comprimento - Suficiente para instalação adequada dos conjuntos elevatórios com as
folgas necessárias para montagem e inspeção.

10.8.4.4. Detalhes a Serem Obedecidos

No desenho definitivo do poço úmido alguns detalhes são fundamentais para seu bom desempenho
operacional. As recomendações convencionais mais comuns são:

 quanto as paredes do poço - o fundo do poço deverá ter inclinações da ordem de


45o a 60o na direção da sucção, as quais poderão ser obtidas a partir do enchimento com
concreto magro ou com a construção das próprias paredes externas nesta disposição;
 quanto a entrada de sucção - deverá ser iniciada por uma curva de 45o ou 90o, com boca
alargada nas condições mostradas na Fig. 10.13;
 quanto a proteção contra vórtices - para proteção do bombeamento contra prejuízos
advindos de entrada de ar na sucção, o que provocaria o aparecimento de vórtices,
recomenda-se um afogamento mínimo da borda da entrada em função da velocidade de
entrada, conforme o Quadro 10.1. Recomenda-se ainda que a “submergência S” de projeto
não seja inferior a três vezes o diâmetro de entrada da sucção (S3D).

FIG. 10. 13 - Formas de sucção e respectivas submergências

OBS.: “Submergência”, um termo frequentemente empregado em hidráulica, é uma forma


anglicista de “submersão”.

Exemplo: para Vs = 1,0 m/s e

 D = 100 mm  S0,6m, ou seja, o valor da tabela supera 3D;


 D = 300 mm  S0,9m, ou seja, o valor da tabela é inferior a 3D (= 3 x 0,30m).

QUADRO 10.1 - Valores Mínimos de Submergência


Velocidade de Entrada Submergência
Vs (m/s ) Smín (m)
______________________________________________
0,6 0,3
1,0 0,6
1,5 1,0
1,8 1,4
10.8.5. Tubulações

10.8.5.1. Material das Tubulações

Para quaisquer diâmetros as tubulações expostas, em especial as internas às edificações,


preferencialmente serão em ferro fundido com juntas flangeadas, devido a resistência destas a
impactos acidentais após instaladas. Para as tubulações enterradas, em virtude da importância de
suas extensões, a opção por um determinado material poderá implicar em sensíveis diferenças de
investimento tanto na aquisição como no assentamento e até na manutenção das mesmas.

Genericamente, desconsiderando-se problemas de aquisição e transporte, para recalques de


pequenos diâmetros (até 250mm) empregam-se tubos de PVC ou, opcionalmente, fibrocimento.
Para diâmetros maiores (300mm ou mais) a diversidade de materiais é mais notável, passando a
depender principalmente, das condições de pressão na linha. Normalmente, tubos de ferro fundido
são empregados em diâmetros de 300 a 1200mm, aço de 500 a 3000mm, concreto armado de 400 a
3000mm, plástico com fibra de vidro até 1000mm e fibrocimento de 150 a 600mm.

Deve-se também saber que os tubos de plástico enterrados não carecem de revestimentos protetores,
porém os metálicos e os cimentados necessitam tanto de proteção interna, contra os efeitos nocivos
do meio líquido, como externa, frente a agressividade de determinados tipos de solo e de águas
subterrâneas, que podem provocar, inclusive, desgaste eletrolítico.
10.8.5.2. Peças Especiais e Conexões

O diâmetro mínimo para elevatórias de esgotos é de 100 mm e é recomendado hidraulicamente que


quando houver tubulação da sucção esta deve ter diâmetro um pouco superior ao do recalque, por
exemplo, dr = 100 ds = 125mm. Isto acarreta conexões diferentes para as entrada e saída de
cada bomba. O diâmetro de entrada da bomba deve ser da ordem de uma a duas vezes inferior ao da
sucção e esta conexão deve ser executada através de uma redução excêntrica para evitar o
possibilidade de acumulação de ar ou gases do esgoto a montante da bomba, o que provocaria
cavitação e, consequentemente, danos aos equipamentos.

Cada trecho de sucção contém obrigatoriamente um registro de bloqueio de modo a permitir a


inspeção ou até a retirada total dos conjuntos elevatórios sem que haja inundação do poço seco
(caso de bombas afogadas). A saída para o recalque provavelmente será através de um diâmetro
duas vezes inferior ao da tubulação a jusante seguida de uma ampliação gradual concêntrica. No
início do recalque, também, são instalados registros de bloqueio para permitir, além de operações de
manutenção, a alternativa de funcionamento dos conjuntos efetivos e reservas. Além disto válvulas
antigolpe também são instaladas para proteção de toda a estrutura a montante destas e da
canalização em si.

10.8.6. Sala de Bombas

Esta parte do projeto consiste em criar espaços e localizar as bases para os conjuntos motor-bombas.
Recomenda-se uma separação mínima de 1,0m entre cada dois conjuntos sucessivos, além de
espaços próprios para a disposição dos elementos hidráulicos complementares e outros dispositivos
de operação, controle e alarme.

10.8.7. Estrutura Funcional

Uma edificação de uma EEE pode ser composta na sua forma mais simples, de apenas o poço
úmido (bombas submersas) até uma série de compartimentos de acordo com sua necessidade tais
como sanitário, depósitos, sala de comandos e, no caso de estações de grande porte, baterias de
banheiros, vestiários, restaurantes, administração, oficinas, etc., tudo isto com perfeita
funcionalidade interna e em harmonia com o ambiente externo circunvizinho.

Dependendo das exigências para operação e manutenção, sua estrutura interna inclui equipamentos
de movimentação e serviço (pontes rolantes, talhas, aberturas de piso, etc.), acessos e escadas,
ventilação, exaustores e detectores de gases, tubulações e conexões, drenagem de pisos, comportas,
iluminação artificial e natural, calefação, painéis de controle, gerador de emergência e outros que se
fizerem necessários.

10.9. Considerações Finais

Um projeto completo de uma EEE envolve, como visto, projetos arquitetônico, estrutural,
paisagístico, hidráulico-sanitário e antiincêndio, elétrico e eletromecânico. Portanto, é uma unidade
que já nasce cara e permanece dispendiosa devido ao consumo contínuo de energia e outros custos
de operação e manutenção. Logo, deve-se evitar este tipo de estrutura prevendo-se apenas em casos
extremos de falta de opção, como já comentado em 10.2.

Por outro lado, para melhor conhecer e entender as EEE, torna-se muito importante que o estudante
visite unidades desta natureza em operação, observando suas características e comparando com a
teoria exposta neste capítulo, pois o assunto além de muito amplo é razoavelmente complexo. Para
complementar o assunto torna-se indispensável um bom estudo sobre golpes de aríete em linhas de
recalque e suas linhas transientes e equipamentos de amortecimento ou combate ao golpe.

10.10. Exemplos

Exemplo 1. Os esgotos sanitários produzidos em um conjunto habitacional popular formado


por 805 casas com previsão de ocupação imediata, com média de 5 pessoas por residência,
necessitam ser recalcados para lançamento em um poço de visita situado a 408m de distância. Sabe-
se ainda que a rede coletora a montante da elevatória mede 4,30km. Pede-se determinar o volume
do poço úmido e a potência a ser instalada para um desnível geométrico previsto de 6,60m.

Solução:

a) Cálculos preliminares
- População do projeto P = 805 x 5 = 4025 pessoas (conjunto habitacional, logo
população máxima é permanente);
- Per capita de consumo d’água q = 150 l/hab.dia (adotado);
- Volume médio diário de contribuição (p/C = 0,80)  Q = 0,80 x 0,150 x
4025  483m³/dia  5,59 l/s;
- Vazões (para K1 = 1,25, K2 = 1,40 e K3 = 0,6 e TI = 0,0005 l/s.m)
1) doméstica média do dia de maior contribuição  Qd = 1,25 x 483 000 / 86
400  6,99 l/s,
2) doméstica máx. do dia de maior contribuição Qd,máx = 1,40 Qd = 1,40 x
6,99  9,79 l/s,
3) máxima vazão de projeto (tempo de chuva) Qh,máx = 9,79 + 0,0005 x
4300m  11,94 l/s,
4) mínima de projeto (tempo seco)  Qmín = 0,60 x 483000 / 86400  3,35 l/s;

b) Volume do poço úmido (admitindo-se um período de parada de 10min quando a vazão de


chegada corresponder a Qd ).

- Pré-dimensionamento do volume V = tp x Qd = (10 x 60) x 6,99/1000  4,19


m³  4 m³
Testando este valor para
1) parada máx.(vazão de chegada mínima) tp,máx = V/Qmín= 4000/(3,35 x
60)  19,90 min (menor que 20!)
2) funcionamento mínimo (vazão da chegada mínima)

- para um Qmáx = 11,94 l/s e analisando-se as circunstâncias do problema com uma só


bomba funcionando
com uma capacidade Qb = 12 l/s tf,mín = V/(Qb - Qmín) = 4000 / (12,00-
3,35)x60  7,71 min

3) número máximo de partidas por hora (quando a vazão de chegada for mínima
indica máxima parada
com mínimo funcionamento) N = 60 min/(tp,máx+ tf,min) =
60/27,61 2,14 (menor que 4!).

Assim conclui-se que o volume de 4,00m³ satisfaz as condições de impedimento de septicidade e


sedimentação e número máximo de partidas por hora.
c) Potência instalada
- Diâmetro da canalização recalque Dr = 1,3 x Qb1/2 = 1,3 x 0,0121/2  0,142m.
Se Dr = 150mm tem-se Vr = 0,68m/s e se Dr = 125mm tem-se Vr = 0,97m/s, então
indica-se Dr = 125mm,
pois pode-se empregar um diâmetro de 150mm na sucção sem perigo de sedimentação.

- Altura manométrica - H Empregando Hazen-Williams, C = 80 (fofo usado) e com Q


= 12 l/s tem-se
J = 0,0224m/m. Supondo-se um comprimento virtual para as perdas localizadas
equivalente a 26m
encontra-se H = 0,0224 (26 + 408) + 6,60  16,32m;

- Potência instalada PI
1) potência da bomba (Qb = 12 l/s , b = 66%) Pb= 12 x 16,32 /(75 x
0,66)  3,96CV,
2) potência do conjunto ( m = 80% ) Pm = (3,96 / 0,80 = 4,95 ) x
0,986  4,88HP,
3) potência com folga (5 a 10HP toma-se 20%) Pf = 1,20 x 4,88  5,48HP,
4) potência instalada (dois conjuntos - um de reserva) PI = 2 x 6HP.

Exemplo 2. (Adaptado do MetCalf & Eddy) Uma estação elevatória será projetada para receber
esgotos sanitários de uma área parcialmente urbanizada e descarregar em uma tubulação
interceptora. Pede-se selecionar o conjunto de bombas e indicar os níveis de partida e parada para a
EEE que trabalhará no final do plano, 20 anos após, com as seguintes vazões de projeto: Qmín = 40
l/s, Qméd = 80 l/s e Qmáx = 160 l/s. Sabe-se ainda que após 10 anos de operação suas vazões são:
Qmín = 20 l/s, Qméd = 50 l/s e Qmáx= 90 l/s.

De acordo com cálculos preliminares determinou-se que a tubulação de recalque é em ferro


fundido, 300mm, com uma perda de carga total de 15,0m sobre um desnível geométrico de 7,0m,
além de uma perda localizada nos conjuntos de 1,3 metro. A altura do volume útil é de 1,0m.

Solução:

1. Curva do encanamento

Para fofo 20 anos, Hazen-Williams C = 80, tem-se para vazão em l/s,


Ht = 7,0 + 15,0 ( Q / 160 ) 1,85,
sendo que para tubulação nova, C = 130, no início do plano seria
Ht = 7,0 + 15,0 (Q / 160 ) 1,85 x (80 / 130) 1,85).
Assim para área A = 0,7069m² tem-se V = 0,014146.Q, obtém-se o quadro Q(l/s), H(m) e V(m/s) .

Q H V Q H V
_____________________________________________________

0 7,00 0,00 90 12,17 1,27


*20 7,32 0,28 100 13,29 1,41
*40 8,15 0,56 120 15,81 1,70
50 8,74 0,71 140 13,71 1,98
60 9,44 0,85 160 22,00 2,26
80 11,16 1,13 180 25,65 2,55
_____________________________________________________
* menor que 0,60 m/s
Para melhor visualização colocar estes dados
em um gráfico ( Q, V) x H.

2. Analisando-se o enunciado e os resultados do quadro anterior conclui-se que:

 a altura geométrica é pequena em relação às perdas;


 as vazões mínimas, 20 e 40l/s, não podem ser consideradas para vazões de bombeamento,
pois levam a velocidades inferiores a 0,60m/s;
 as vazões média e máxima de 10 anos, em 300mm, escoariam com velocidades superiores a
0,60m/s (0,71 e 1,27m/s respectivamente);
 a indicação de uma única bomba de velocidade constante para a vazão máxima de fim de
plano implicaria em superdimensionamento para o final de 10 anos;
 sabendo-se pelo enunciado que a elevatória é do tipo “distrital” e que a vazão bombeada
não é jogada diretamente em uma depuradora (espera-se que um interceptor recolha outras
vazões) não há necessidade de instalar bombas de velocidade variável;
 pode-se, então, optar por bombas de uma ou duas velocidades procurando-se obter o melhor
rendimento possível no final e no meio do plano.

3. Alternativas

 1ª - Duas bombas de duas velocidades, uma em funcionamento e outra de reserva, com


capacidade para a vazão máxima de projeto;
 2ª - Duas bombas em funcionamento, cada uma com capacidade para recalque da metade da
vazão máxima, podendo ser de uma ou de duas velocidades.

4. Primeira alternativa

 a) Ponto de funcionamento

- vazão máxima = 160 l/s = Qmáx ,


- ponto de funcionamento da bomba = H = 7,0 + 15,0 + 1,3 = 23,3m,
- perdas na bomba = hf = 1,3(Q/160)1,85;

 b) Bomba

A partir de um catálogo, selecionar uma bomba de alta velocidade (1170rpm - motor de


indução );

 c) Verificar ainda as condições de funcionamento da bomba - para tubulação nova,

- para N = 870rpm (equivalente ao síncrono, 8 pólos, 900rpm),


- para N = 705rpm (equiv. síncrono, 10 pólos, 720rpm);

5. Segunda alternativa

 a) Etapas

I - primeira bomba com velocidade baixa,


II - segunda bomba com velocidade baixa,
III - ambas as bombas com velocidade alta;

 b) Níveis d'água
Admitindo-se que a bomba fica completamente afogada a partir da cota 100,00m então o
nível mínimo (Nmín) deverá estar na cota 100,15m onde se desliga a bomba da etapa I e, pelo
enunciado, o nível máximo (Nmáx) a 101,15m, onde partem as bombas na etapa III;

 c) Pontos de partida (onde as bombas começam a funcionar)

Estabelecendo um espaço de 0,15m para cada nível de controle tem-se


- partida de ambas as bombas em alta velocidade: N máx = 101,15m,
- partida de ambas as bombas em baixa na etapa II: 101,15 - 0,15 = 101,00m,
- partida da primeira bomba em baixa, etapa I: 101,00 - 0,15 = 100,85m;

 d) Pontos de parada (onde as bombas deixam de funcionar)

- parada da primeira bomba (N mín) = 100,15m,


- parada de ambas as bombas em baixa = 100,15 + 0,15 = 100,30m;
- parada de ambas as bombas em alta = 100,30 + 0,15 = 100,45m.

 e) Cotas de alarme (para alertar operadores em eventuais falhas no bombeamento e verificar


a partida da bomba de reserva de alta velocidade, 0,15m acima ou abaixo dos níveis
limites)

- alarme do Nmáx = 101,15 + 0,15 = 101,30m,


- alarme do Nmín = 100,15 - 0,15 = 100,00m;

 f ) Parada de emergência (para proteção das bombas e outros equipamentos) = 100,00 - 0,15
= 99,85m;
 g) Bomba de reserva - É uma bomba de alta velocidade e só entra em funcionamento após
alarme de nível máximo = 101,30 + 0,15 = 101,45m e PARA(!) na cota 100,45m, junto com
as bombas da etapa III.

10.11. Exercícios

 Definir Estações Elevatórias de Esgotos.


 Citar situações onde elevatórias de esgotos - EEE, são inevitáveis.
 O que se define como EEE de pequeno porte? de média altura? e de baixa altura com
tubulação curta?
 Explicar a razão de grandes cidades praieiras possuírem várias EEE em seus sistemas de
esgotamento.
 Explicar um a um, os requisitos listados no item 10.5.
 Por que nas EEE as bombas centrífugas são de rotor aberto?
 Quais as vantagens e as desvantagens dos conjuntos motor-bombas submersíveis?
 Quais os riscos operacionais das bombas de eixo vertical longo?
 Por que é vetado o emprego de válvula de pé e crivo nas entradas das sucções das EEE? e
por que o registro a montante da entrada da bomba?
 Comparar motores síncronos com assíncronos (estrutura, consumo, vantagens relativas,
etc.).
 Calcular a potência a ser instalada para funcionamento de conjunto motor-bomba não
submerso, para recalque de 110m³/hora de esgoto sanitário, a uma altura manométrica de
32,6m. Apresentar também a solução comercial.
 Explicar o princípio do “Parafuso de Arquimedes”.
 Por que as bombas helicoidais não são indicadas para alturas de recalques superiores a
9,0m? Citar outras limitações.
 Calcular a potência do motor para acionamento de uma bomba parafuso capaz de elevar
100,0 l/s de esgoto a uma altura de 6,0m.
 Indicar as dimensões de uma bomba parafuso FAÇO para descarga de 0,6m³/s.
 Que são “comandos elétricos” em uma EEE?
 Por que motivos as velocidades de escoamento nos recalques de esgoto devem ser
limitadas? Por que 0,6 e 2,5 m/s?
 Qual a razão do projeto do poço úmido ter uma submergência mínima?
 Por que se limitar períodos de detenção e de funcionamento nas unidades elevatórias de
esgotos?
 Anotar e justificar as singularidades de uma instalação de bombeamento de esgotos com
bombas de eixo horizontal afogadas.
 Citar e justificar as diversas unidades complementares comumente encontradas nas médias e
grandes EEE.
 Fazer um estudo comparativo entre os diversos tipos de condutos empregados nas EEE,
quanto ao material.
 Sabendo-se que a vazão média afluente a uma EEE é o dobro da mínima e que a máxima é
2,2 vezes a média, pede-se calcular
o a) volume do poço úmido;
o b) vazão de bombeamento;
o c) condições de funcionamento;
o d) potência a ser instalada.

São conhecidas ainda vazão mínima de projeto igual a 11,5 l/s e altura manométrica 23,6m.

 Apresentar desenhos esquemáticos dos compartimentos da EEE do exercício anterior


sabendo-se que a cota da calha do coletor afluente é 511,00m e que o terreno, sobre o
mesmo ponto, está na 515,60m.
 Projetar uma EEE para bombear uma vazão afluente que variará ao longo do plano de
0,017m³/s a 0,132m³/s, através de uma tubulação de 400mm de diâmetro (I o = 0,007m/m)
em concreto armado, e cuja soleira inferior encontra-se a 12,2m abaixo da de despejo no
final do recalque, 650m adiante. Admitir outras informações que julgar necessárias e
apresentar um estudo dos níveis de partida e parada das bombas e, também, uma solução
comercial para os conjuntos.
 Repetir o exemplo 10.9.2 para as seguintes condições:
o a) 10 anos - Qmín = 18 l/s, Qméd = 64 l/s e Qmáx = 148 l/s e
o b) 20 anos - Qmín = 31 l/s, Qméd = 118 l/s e Qmáx = 256 l/s.
 Pesquisar:
o controles automáticos de níveis para bombas;
o ancoragem em tubulações de recalque;
o equipamentos antigolpe de aríete;
o bombas de fluxo misto e axial;
o bombas de emulsão de ar e rotativas;
o motores de voltagem variável e de combustão interna.