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Os cristais de Rapanah

Autor: Daniel Quinn


Tradução: Janos Biro Revisão: Elaine Cristina
Editoração: Claiton Santos

31/Julho/2009

O destino não fez bem ao me escolher como descobridor dos Rapanah, que
viviam num planeta na órbita de uma estrela em Órion. Pelo bem da nossa
própria raça, eles deveriam ter sido encontrados por um lingüista e cientista
competente, e não sou nem um dos dois. Ainda assim, eu vivi com eles e
aprendi o que pude com meus recursos limitados. No começo, naturalmente, eu
não entendi quase nada do que estava vendo entre os Rapanah. Minha primeira
impressão é de que eles deviam ser uma raça muito nova, pois havia poucos
deles, e eles viviam de uma maneira muito simples (apesar de que num tipo
de perfeito conforto que parecia quase elegante). Enquanto eu, dificilmente,
aprendia os rudimentos de sua linguagem, comecei a ver o quão errado estava.
Os Rapanah eram velhos no tempo em que nossos ancestrais primatas ainda
viviam em árvores. Comecei a reconhecer que o que eu estava vendo era uma
civilização. Era uma estrutura tão refinada e delicada que meus olhos, condi-
cionados a ver prédios gigantes e máquinas como sinais de civilização, falharam
em perceber isso no começo. Sua tecnologia era tão sutil e transparente que
fazia a nossa parecer com uma briga de rinocerontes.
Nós terrestres somos criaturas à base de carbono, o que significa que temos
uma afinidade com carvão e diamantes. Os Rapanah não puderam deixar claro
do que eles eram constituı́dos, mas eles não eram à base de carbono. Ainda
assim, eles também tinham uma afinidade com substâncias cristalinas que pare-
ciam para olhos humanos tão inertes quanto carvão e diamantes. Uma dessas,
eles diziam de forma meio brincalhona, era na verdade um primo distante. Eles
me mostraram um exemplo que eu só poderia descrever inadequadamente como
beleza de tirar o fôlego. Um cristal que parecia como se tivesse quebrado um
arco-ı́ris, pulsando com cores evanescentes. Eles a chamavam de Pedra Tava,
que em português ficaria no meio termo entre conselheiro e confortador.
Ao invés de me explicar o uso do cristal em sua própria cultura, eles queriam
ver se eu poderia responder a ele como um ?primo? sem qualquer instrução. Eles
me disseram para guardá-lo comigo pelo resto do dia e para colocá-lo embaixo
da cama à noite. Eu o fiz e na manhã seguinte relatei que tive sonhos muito
comoventes e deliciosos, motivados por uma voz cujas palavras eu não entendi
direito, mas que me deixou num estado de êxtase ampla e oceânica na qual eu
me senti bem seguramente um com o universo.
Já que eu demonstrei uma afinidade com a pedra, eles me explicaram que
toda criança de Rapanah recebia uma e experimentava seu poder na sua ini-
ciação como adulto. A pedra Tava era considerada como um tipo de ?amigo em

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necessidades?, um conforto para ser procurado em tempos de perda profunda e
stress. Era entendido que usá-la rotineiramente seria banalizar e diminuir seu
efeito. Apesar disso, havia alguns que em cada geração que experimentavam
uma afinidade especial com a pedra e entravam numa vida contemplativa cen-
trada na sua influência. Mas eu não deveria falar muito da pedra Tava. É
apenas uma das dez mil maravilhas que eu encontrei entre os Rapanah.
Enquanto eu ficava mais confortável com sua linguagem, gradualmente me
tornei consciente que estava sendo poupado de um segredo. No inı́cio meus
professores me garantiram que eu estava imaginando coisas, mas enquanto o
tempo passava os sinais se tornavam mais inconfundı́veis para mim. Eu implorei,
exigi, persuadi, ameacei e os aborreci ao ponto em que eles tiveram que falar
a verdade que tanto tentavam esconder de mim. Como eu já sabia, eles não
eram uma espécie populosa. Havia apenas alguns milhares deles em todo o
planeta. Isto, eu aprendi, não foi sempre o caso. Ao contrário, em algum
tempo há apenas alguns séculos atrás, havia centenas de milhões deles. Desde
lá eles se tornaram uma raça decadente. Os poucos milhares que eu via agora
seriam apenas algumas centenas na próxima geração e apenas algumas dúzias
na geração seguinte. A extinção estava a não mais que cinqüenta anos dos
Rapanah.
Nada estava “errado” com eles que eles pudessem encontrar. Eles não es-
tavam doentes. Eles não estavam debilitados ou sofrendo. Por alguma razão,
sua taxa de nascimento estava simplesmente caindo próximo de zero. Como
uma raça, eles estavam acabados. Esta era a maneira que eles viam. Seu tempo
foi glorioso, mas acabou. Não tinham ressentimentos, mas eu tinha. Pois eu
compreendia claramente que eles tinham um segredo de importância vital para
as pessoas da Terra. Os Rapanah sabiam como construir uma civilização que
não vivia de devorar o mundo. E eles usaram este conhecimento e provaram
este conhecimento por literalmente milhões de gerações.
Eu comecei minhas preparações imediatas para retornar para a Terra para
pedir ajuda. Possivelmente ajuda para eles, mas certamente para nós. Você
já sabe o que uma jornada como essa leva, quinze anos em animação suspensa.
Eu não era especial. Na minha chegada, nenhuma multidão iria me receber.
Nenhuma reunião marcada para me interrogar. Ao contrário, eu tive que lutar
pela atenção, com cartas, artigos, palestras, livros. Mesmo à beira da extinção,
as pessoas da minha cultura pareciam raramente se interessar pela possibilidade
de aprender algo vitalmente importante para o futuro da humanidade. Levou
quase três anos para organizar uma nova expedição, com o pessoal certo. Fisi-
camente incapaz de suportar outro congelamento tão próximo quanto este, eu
não poderia ir. Eu tive que me reconciliar com a probabilidade de que eu nunca
saberia os resultados do esforço. A nova expedição gastaria quinze anos para
chegar lá, quinze anos trabalhando lá, e quinze anos voltando. Quarenta e cinco
anos no total, obviamente.
Você pode imaginar minha surpresa, então, quando eu ouvi que a expedição
havia retornado depois de apenas trinta anos. Desta vez ouve um interrogatório,
e eu estava lá, exigindo saber se meus piores medos se realizaram, que os Ra-
panah não sobreviveram o bastante para ser contatados pela expedição. Eu fui
garantido que este não foi o caso.
“Ainda havia cerca de oitocentos Rapanah vivos e bem quando nós cheg-
amos”, o comandante me informou.
“Então porque vocês não ficaram”, eu exigi. “Para chegar lá e voltar em

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trinta anos vocês devem ter ido tão logo chegaram!”
“Acalme-se”, o comandante disse. “Nós temos o que fomos pegar”.
“Que diabos está dizendo?” Ele colocou uma caixa sobre a mesa da con-
ferência. “Há mais cinqüenta dessas”, ele disse, abrindo-a. Um brilho de arco-
ı́ris encheu a sala, e todos correram para pegar um cristal para si.

Sobre “Os Cristais de Rapanah”


Há um sentido em que eu sou o “descobridor” da cultura largadora, o
primeiro a reconhecer que os povos largadores são algo mais que meramente
“primitivos”, que eles possuem um segredo que os manteve vivos por três milhões
de anos e que vai NOS manter vivos; se nós ouvirmos a eles.
Vendedores da Nova Era têm um interesse diferente nos povos largadores.
Eles querem saquear as suas pedras Tava; suas doces residências, sua medicina,
seus rituais xamânicos, e assim por diante. Uma vez que eles tenham isso,
eles jogam fora o resto; têm o que vieram pegar. Há um monte de pessoas
que querem as pedras Tava, como esses vendedores sabem, pessoas que não se
importam com os Rapanah ou sua sabedoria. Elas estão famintas de apetrechos
e especialmente apetrechos “confortantes”, apetrechos que os façam sentir mais
“espirituais” e menos vazios. Que eles vivam e prosperem.
O ponto definitivo desta parábola, eu suponho, é que nem todos os explo-
radores estão procurando pela mesma coisa.

URL: http://www.largue.cjb.net
Email: janosbirozero@gmail.com