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De que forma a manifestação popular Nego Fugido de Acupe, reinterpreta e

reescreve a história dos negros escravizados no Recôncavo da Bahia?

Dalila Brito1

Inicialmente, o objetivo desta pesquisa era analisar a manifestação cultural Nego


Fugido de Acupe enquanto forma de comunicação e aspecto importante na
construção da memória coletiva do povo de Acupe, considerando as relações dessa
memória com a construção das identidades dos moradores. A pesquisa partia da
seguinte pergunta: “de que modo uma manifestação cultural e seus significados
resistiram ao tempo e como afetam a comunidade na qual está inserida?”. No
entanto, a partir das primeiras produções acadêmicas percebi uma questão que, ao
que me parece, se faz mais urgente, sem deixar de perpassar pela questão anterior.
De que forma a manifestação popular Nego Fugido de Acupe, reinterpreta e
reescreve a história dos negros em Acupe?

O Nego Fugido de Acupe é uma manifestação cultural nascida em Acupe, distrito do


município de Santo Amaro, no Recôncavo da Bahia. As aparições acontecem todos
os anos, aos domingos do mês de julho, quando os moradores saem às ruas
encenando as lutas pelo fim da escravidão e a conquista pela liberdade através da
carta de alforria. O ato, comumente interpretado como um teatro de rua, tece uma
crítica social ao período escravocrata, reivindicando o papel de negros e negras
como protagonistas dessa luta e abordando a figura da princesa Isabel de forma
irônica. Para além da sua relação com o passado, a manifestação denuncia as
mazelas atuais, uma vez que o território ainda se configura enquanto um espaço de
pobreza, onde as principais formas de sobrevivência estão atreladas à pesca e a
mariscagem.

1
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Mídia e Formatos Narrativos - PPGCOM/UFRB.
Graduada em Comunicação Social - Jornalismo. Email: britodalila.db@gmail.com
A partir da pergunta norteadora, identifico duas variáveis de embate: a cultura
popular e a história. A cultura popular a partir do deslocamento proposto pelos
Estudos Culturais, retirando da condição de variável e passando a considerá-la
enquanto lugar de produção e compartilhamento de sentido. No que diz respeito à
história, questiono a sua construção atrelada à parcela dominante e hegemônica da
sociedade.

A proposta é pesquisar o deslocamento de um produto da cultura popular de um


espaço onde a sua voz não era ouvida, passando questionar a forma como o seu
papel foi posto na sociedade ao longo dos anos e propondo uma outra versão, não
apenas para o passado, mas também para o presente, considerando que este já
está sendo escrito.

Diante das pesquisas prévias, é possível que a investigação deste aspecto perpasse
as questões da construção da memória coletiva e a sua relação com a oralidade e a
formação das identidades, assim como na primeira formatação do problema.