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Adeus previdencia!

Prepare-se para se aposentar por conta própria, com investimentos, ou encare as consequências.

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Sumário
Parte 1 – Finanças Pessoais ................................................................................. 5
Introdução .......................................................................................................... 5
Capítulo 1 – Ativos e Passivos ............................................................................ 7
Capítulo 2 – Orçamento .................................................................................... 10
Capítulo 3 - Juros ............................................................................................. 12
Capítulo 4 – Cartão de Crédito.......................................................................... 14
Capítulo 5 - Dívidas .......................................................................................... 16
Capítulo 6 - Reserva de emergência .................................................................. 22
Capítulo 7 – Seguros......................................................................................... 25
Capítulo 8 - Descontruindo preconceitos........................................................... 27
Falácias ............................................................................................................ 29
Capítulo 9 - Construindo um investidor ............................................................ 32
Ingredientes 1 e 2 – Administrar e fazer dinheiro .......................................... 32
Ingrediente 3 – Poupança ou “savings rate” .................................................. 34
Ingrediente 4 – Disciplina ............................................................................. 36
Ingrediente 5 – Paciência .............................................................................. 37
Capítulo 10 - Por que investir afinal? ................................................................ 38
Parte 2 – Investimentos ..................................................................................... 41
Capítulo 11 – Previdência Privada .................................................................... 45
Capítulo 12 - Renda Fixa .................................................................................. 48
Taxa Selic ......................................................................................................... 48
O CDI e a taxa CDI – o que é e como funciona ................................................. 49
Taxa de juros real e nominal ............................................................................. 49
FGC – Fundo Garantidor de Crédito ................................................................. 50
Títulos Privados................................................................................................ 52
Caderneta de poupança ..................................................................................... 52

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CDB ................................................................................................................. 53
LC .................................................................................................................... 53
LCA ................................................................................................................. 53
LCI ................................................................................................................... 54
CRI e CRA ....................................................................................................... 54
Debêntures ....................................................................................................... 56
Fundos de renda fixa......................................................................................... 57
Come-cotas....................................................................................................... 59
Conclusão sobre títulos privados ....................................................................... 59
Títulos Públicos ................................................................................................ 60
Tesouro Selic .................................................................................................... 61
Tesouro IPCA................................................................................................... 62
Tesouro prefixado ............................................................................................. 63
Cupons ............................................................................................................. 63
Montando uma carteira de renda fixa ................................................................ 65
Razões para montar uma carteira de renda fixa ................................................. 65
Capítulo 13 - Imóveis ....................................................................................... 68
Capítulo 14 - Fundos de Investimento Imobiliários ........................................... 74
Comparando com os imóveis ............................................................................ 75
Como comprar um Fundo de Investimento Imobiliário ..................................... 77
Subdivisões – como estão agrupados os FII’s ................................................... 78
Segmento.......................................................................................................... 78
Mandato ........................................................................................................... 82
Gestão .............................................................................................................. 83
Rendimentos e Tributação ................................................................................ 84
Riscos dos FII’s ................................................................................................ 85
Renda Mínima Garantida – RMG ..................................................................... 87

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Fatores que afetam o valor das cotas ................................................................. 88
Relação de propriedade: FII x Imóvel ............................................................... 88
Contratos de aluguel: típico x atípico ................................................................ 90
Indicadores para investir em FII’s ..................................................................... 92
IFIX ................................................................................................................. 96
Montando uma carteira de FII’s ........................................................................ 96
O Equívoco ...................................................................................................... 99
Estudos de caso .............................................................................................. 100
HGLG ............................................................................................................ 100
KNRI.............................................................................................................. 102
ABCP ............................................................................................................. 104
Resumo – FII’s ............................................................................................... 106
Capítulo 15 - Ações ........................................................................................ 108
Mercado Primário e Secundário ...................................................................... 111
Mercado à Vista e Fracionário ........................................................................ 112
Ordinárias, preferenciais, “Units” e “Tag along” ............................................. 113
As Perguntas................................................................................................... 115
Economia ....................................................................................................... 117
Governança Corporativa ................................................................................. 119
Contabilidade ................................................................................................. 120
Regime de Caixa e Regime de Competência ................................................... 121
Balanço Patrimonial ....................................................................................... 122
DRE – Demonstração de Resultados do Exercício .......................................... 126
Custo x Despesa ............................................................................................. 128
EBIT .............................................................................................................. 130
EBTIDA ......................................................................................................... 130
DFC – Demonstração de Fluxo de Caixa ........................................................ 132

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Análise Vertical e Horizontal das Demonstrações ........................................... 134
Dívidas das empresas ...................................................................................... 135
Produtividade ................................................................................................. 137
Retorno sobre o patrimônio líquido – ROE ou RPL ........................................ 139
Retorno sobre o Capital Investido – ROIC ...................................................... 140
Dividendos ..................................................................................................... 141
Juros sobre Capital Próprio ............................................................................. 143
Aluguel de ações ............................................................................................ 144
Indicadores ligados ao preço ........................................................................... 145
Vantagem Competitiva ................................................................................... 146
Quando vender uma ação ................................................................................ 147
Mãos de alface ................................................................................................ 148
Escolhendo as empresas.................................................................................. 149
Montando a carteira de ações .......................................................................... 149
“Benchmarks” ................................................................................................ 150
Estudos de caso .............................................................................................. 152
WEG .............................................................................................................. 152
Odontoprev..................................................................................................... 157
Eternit ............................................................................................................ 160
ETF ................................................................................................................ 164
Capítulo 16 - Imposto de Renda ...................................................................... 166
Capítulo 17 – Considerações sobre Renda Variável ........................................ 169
Capítulo 18 - Colocando em Prática ................................................................ 170
Resumo Final ................................................................................................. 171
Epílogo ........................................................................................................... 172

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Parte 1 – Finanças Pessoais

Introdução

O livro que você tem agora em mãos começou a nascer há muito tempo,
quando eu tinha por volta de cinco anos de idade e a inflação era o assunto
número um nos jornais e mesas de bares desse país. Naquela época eu recebia
algumas moedas dos meus avós para comprar balas e coisas do tipo. Minha
origem é uma família de agricultores e, por isso, tive uma ideia genial: plantar
uma das moedas no quintal para que ali crescesse uma árvore de dinheiro.
Naturalmente o ambicioso plano fracassou, mas a ideia de criar algo que
gerasse renda para mim não me abandonou ao longo dos mais de 25 anos que
se passaram.
Conforme fui crescendo passei, mesmo sem perceber, a prestar atenção na
relação das pessoas: familiares, amigos, colegas de trabalho e da sociedade em
geral com o dinheiro. Acompanhava animado as reportagens especiais na TV
sobre finanças pessoais.
No ano de 2009, ao ser nomeado para um cargo público em que receberia
quase o dobro do meu salário anterior, percebi um fenômeno estranho: as
pessoas que ganhavam mais, inclusive mais do que eu, muitas vezes tinham
uma condição financeira ruim, possuíam dívidas e acumulavam déficits
enormes em seus orçamentos, quase sempre gastando muito mais do que
ganhavam. Comecei a prestar mais atenção tentando buscar as causas de tal
situação, e invariavelmente a má gestão dos recursos vinha em primeiro lugar.
O pior é que, com o tempo, a gestão dos meus próprios recursos estava cada
vez pior, ou seja, eu estava indo pelo mesmo caminho destes meus colegas.
Quando finalmente parei para olhar o tamanho do estrago, estava com um
financiamento de automóvel e um empréstimo consignado.
Nesta época fui convidado para uma palestra onde o educador financeiro
perguntou-me se eu possuía um carro. Eu disse que sim, então ele perguntou
quanto eu gastava com ele. Fiquei orgulhoso de saber dizer detalhadamente os
custos. Foi então que ele me disse: “se você investir esse valor mensalmente
terá, já descontada a inflação, 1 milhão de reais aos seus 65 anos de idade”.
Aquela informação caiu como uma bomba na minha cabeça. Com isso, decidi

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pesquisar sobre a veracidade das informações e estudar o tema: finanças
pessoais.
A partir de então passei a ler um livro sobre o assunto (finanças ou
investimentos) por semana. Foi neste momento que encontrei a coleção de
livros da “Expomoney” e a Bastter.com, onde desenvolvi mais os meus
conhecimentos e passei a lidar com o dinheiro de maneira mais racional e
eficiente, exatamente o que pretendo ensiná-los com este livro.
Após um longo período de estudos, descobri que era possível plantar a tão
desejada árvore de dinheiro, mas não seria fácil nem tampouco rápido, exigiria
muito estudo, disciplina e paciência. Neste livro tentarei passar os
conhecimentos básicos para que você plante a sua.
É essencial entender que, no início, será difícil enxergar que financiar bens,
via de regra, é jogar dinheiro no lixo ou que consórcios e títulos de capitalização
são produtos bons apenas para quem os emite. Estudo, planejamento e
disciplina são hábitos que mudarão sua percepção em relação ao dinheiro e à
sua administração.
E afinal, por que é tão importante administrar bem os seus recursos? O
princípio básico dos estudos de economia se pauta no fato de vivermos em uma
sociedade onde há escassez, ou seja, não há recursos suficientes para que
possamos ter de tudo em grande quantidade. Sendo assim, precisamos fazer
escolhas, dentre elas escolher entre consumo ou poupança, entre consumir
muito agora ou ter condições de consumir algo depois, futuro e presente
precisam estar em equilíbrio. Quanto mais financeiramente educada é a pessoa,
mais eficientes e racionais tendem a ser as suas escolhas.
Então, vamos começar nossa jornada pelo mundo das finanças pessoais.

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Capítulo 1 – Ativos e Passivos
“A maioria das pessoas está concentrada demais em ganhar dinheiro. O que eles
deveriam realmente focar é na sua educação financeira”.
Robert Kiyosaki

Robert Kiyosaki, autor do “best seller” Pai rico, Pai pobre, criou um conceito
de ativos e passivos bastante interessante para o investidor. Essa definição não
tem nenhuma relação com o conceito contábil de ativo e passivo que será
explicado mais à frente neste livro.
Ativo para o autor é tudo aquilo que você compra e que coloca dinheiro no
seu bolso, por exemplo: ações que distribuem dividendos, imóveis alugados,
fundos de investimento imobiliários, títulos que pagam juros e outros
investimentos que te remunerem.
Passivo por outro lado é tudo aquilo que, após ser comprado, demandará
gastos para manter. Por exemplo: um automóvel que traz gastos com
combustível, IPVA, seguro e manutenção. Uma casa para moradia que traz
despesa com IPTU, condomínio, reparos e seguro. Uma geladeira mais
moderna, um videogame, smartphone. A lista de passivos é quase interminável.
Passivos são necessários para a vida. Em geral são eles que trazem prazer,
alegria e satisfação para o indivíduo. O erro não está em comprá-los e sim na
forma como são adquiridos, sem planejamento. Outro erro é comprar somente
os passivos, ignorando os ativos.
Aquele que compra ativos gera renda passiva: uma renda que não depende
do trabalho diário e sim dos estudos e de uma boa escolha de ativos, colocando
assim o dinheiro para trabalhar.
Por outro lado, aquele que compra apenas passivos vive de contracheque em
contracheque, sempre com medo do desemprego ou de algo que reduza sua
renda, essa situação é chamada de corrida dos ratos, pois a pessoa fica girando
uma rodinha sem chegar a lugar nenhum, exatamente como um hamster na
gaiola.
É preciso equilíbrio, portanto compre ativos e passivos. Por exemplo, tente
fazer o seguinte exercício: se quer adquirir um smartphone, compre primeiro
um lote de ações, cotas de um fundo de investimento imobiliário ou faça um
aporte no Tesouro Direto. Busque comprar ativos sempre que possível.
O aporte é um valor monetário que você destina aos seus investimentos. No
futuro o que vai definir se você terá um patrimônio formado para a sua
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aposentadoria ou ficará “na pindaíba”, dependendo do governo e de parentes,
são os seus aportes em ativos de valor. A definição de valor será analisada mais
à frente nos capítulos referentes a cada classe de ativo.

Resumo:

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Capítulo 2 – Orçamento

A maioria das pessoas não planeja fracassar, fracassa por não planejar.
John L. Beckley

O orçamento é uma poderosa ferramenta de planejamento para pessoas e


empresas. Com ele é possível planejar as receitas, os gastos e os investimentos.
Ele traz previsibilidade. Seu objetivo é antever as receitas e principalmente as
despesas da pessoa ou da organização.
Antes de montar um orçamento, o indivíduo precisa saber para onde vai o
seu dinheiro e para isso, não tem outro jeito, vai precisar anotar as receitas e
despesas em detalhes. Mas não se preocupe, pois hoje existem inúmeros
aplicativos para “smartphone” além de sempre poder recorrer a uma planilha
eletrônica.
A partir do momento que a pessoa sabe o quanto entra de dinheiro para ela e
para onde vão estes recursos ela consegue montar um orçamento.
Neste orçamento precisam constar, além das receitas e despesas, os
investimentos, que devem corresponder, no mínimo, a 10% da renda.
Preferencialmente acima de 20%.
Gastar menos do que você ganha não é fácil, especialmente quando o hábito
de gastar tudo ou mesmo mais do que ganha está enraizado, mas por ser uma
prática salutar e necessária deve ser a primeira meta de todos que buscam uma
vida financeira equilibrada.
Não gaste o dinheiro que você ainda não recebeu. Lembre-se que este
dinheiro ainda não é seu. Não gaste dinheiro com coisas que não gosta para
impressionar alguém. Não diga sim a todos os pedidos das pessoas,
especialmente para os pedidos de dinheiro, pois um sim para os outros
representa um não para você e seus objetivos e sonhos.
Quanto ao hábito da anotação, este é necessário apenas no início, depois de
um tempo você estará apto a tomar decisões racionais sem as anotações.
Busque, ao menos no início, separar um valor para os investimentos assim
que receber sua remuneração, não espere sobrar, pois, antes de você adquirir os
hábitos corretos, dificilmente sobrará.
Com o tempo, a experiência e a formação de bons hábitos financeiros você
aprenderá a gerir seus recursos de uma forma eficiente e adequada ao seu estilo

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de vida. Este livro tentará te ajudar neste caminho e, para tanto, precisaremos
falar sobre os juros.

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Capítulo 3 - Juros

“Os juros compostos são a força mais poderosa do universo e a maior


invenção da humanidade, porque permite uma confiável e sistemática
acumulação de riqueza.”
Albert Einstein

Os Juros Compostos, conforme destacado pelo cientista vencedor do prêmio


Nobel, Albert Einstein, são a força mais poderosa do Universo e essa força pode
ser usada tanto a seu favor quanto contra você.
Veja a diferença entre os juros utilizados a seu favor em relação aos juros
contra você. Por exemplo, em uma dívida de R$ 100.000,00 em um crédito
direto ao consumidor – CDC – os juros pagos serão de 4,54% a.m. (ao mês).
No caso em questão o indivíduo que optou por fazer a dívida em 50 prestações
pagou uma prestação de R$ 5.093,18, totalizando um gasto de R$ 254.659,00.
Por outro lado, vamos usar a taxa de juros 0,5% a.m. na aplicação, percentual
pago por investimentos de baixo risco, para obter os mesmos R$ 100.000,00. O
tempo de investimento ou pagamento da dívida será de 50 meses, assim como
na dívida. Aquele que poupou precisou desembolsar apenas R$ 1.765,38 ao
mês, totalizando uma aplicação de R$ 88.269,00.

Essa é a diferença entre aquele que paga juros e aquele que os recebe. O que
recebe juros poderá consumir mais com o mesmo gasto ou consumir o mesmo
gastando menos.
A fórmula dos juros compostos é a seguinte:

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M = C x (1+i)n,
onde M é o montante, C o capital inicial, i a taxa de juros e n representa o
tempo.
Perceba que o efeito do tempo no resultado da fórmula é muito grande, pois
o tempo é exponencial. O investidor deve focar nos dois fatores que tem
condições de controlar: o capital (C) e o tempo (n). A taxa (i) não é algo que
conseguimos escolher na grande maioria das vezes.
Para ver o poder dos juros compostos, invista o máximo pelo máximo de
tempo que conseguir! Contanto que não deixe sua qualidade de vida em
segundo plano.
Resumindo, os juros compostos permitem uma confiável e sistemática
acumulação de riqueza ou, como dizem: “um ferro bem tomado”. A escolha é
sua.

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Capítulo 4 – Cartão de Crédito

“Cartões de crédito são os junk bonds do mundo das finanças pessoais”


Warren Buffett

Certa vez, ao passear no shopping com um casal de amigos e seu filhinho,


presenciei uma cena curiosa. A criança pediu aos pais que comprassem algo e
quando teve seu pedido negado, pois, segundo os pais, eles não tinham dinheiro
naquele momento, ele soltou: “compra no cartão”!
O cartão de crédito surgiu na década de 20 nos Estados Unidos. Naquela
época o cartão era dado aos clientes mais fiéis das lojas, aqueles em quem o
lojista confiava, acreditando que pagariam em dia.
Contudo, o cartão que conhecemos hoje nasceu em 1950 quando Frank
Macnamara esqueceu o seu dinheiro e talão de cheques quando almoçava em
um restaurante, então teve a ideia: criar um cartão contendo o nome do dono
que permitisse a ele comprar e pagar depois. Surgia assim o “Dinners Club
International”.
Inicialmente o cartão, feito de papel-cartão, era aceito apenas em
restaurantes e portado por pessoas importantes da época.
Hoje em dia o cartão de crédito é bem menos restrito, mas será isso um
benefício? Ou uma armadilha?
Pesquisa divulgada pela Confederação Nacional do Comércio – CNC –
mostra que 77% das famílias endividadas deve ao cartão de crédito. Os juros
médios do cartão em outubro de 2018 eram de 275,7% ao ano de acordo com o
Banco Central.
A título de comparação, o retorno médio anual da Berkshire Hathaway,
empresa cujo CEO é Warren Buffett foi de 21,6% nos últimos 50 anos, o que
permitiu ao seu maior acionista e CEO tornar-se o terceiro homem mais rico do
mundo, chegou a ser o primeiro, por muito tempo. Veja a diferença dos juros
usados contra você e a seu favor.
O cidadão médio acredita que o cartão de crédito serve para permitir que ele
compre objetos sem ter os recursos para isso. Essa função é uma deturpação do
cartão, que deveria ser utilizado para facilitar o seu planejamento e não para te
permitir consumir acima do que os seus recursos permitem.
Comprar, sem ter o dinheiro para pagar, é andar numa corda bamba sem a
rede de proteção. Sendo assim, aprenda a forma correta de utilizar o cartão.

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Inicialmente vem o desejo de comprar algo. A partir daí você precisa fazer
uma análise: você tem o dinheiro? Se não tiver, aguarde juntar os recursos. Se
tem, veja se consegue um desconto para a compra à vista. Tem desconto?
Compre a vista. Não tem desconto? Parcele no maior número de parcelas
possível sem acréscimo.
A única exceção são os casos envolvendo a sua saúde ou de familiares. Neste
caso se o cartão puder ajudá-lo, não importa como, siga em frente.
O cartão de crédito, se bem utilizado, pode ser um grande aliado na
organização das suas finanças, pois permite a você acumular pontos para trocar
por passagens aéreas ou por produtos. Manter o dinheiro investido enquanto
paga as parcelas daquele produto em que durante a compra você não conseguiu
desconto para pagamento a vista também é uma vantagem.
Diferente do meu amiguinho do início do capítulo que ainda terá tempo para
se educar financeiramente, quem sabe até com este livro, você precisa tomar
uma atitude agora! Afinal, se você não souber utilizar o cartão de crédito de
maneira inteligente acabará entrando nas dívidas que são o assunto do próximo
capítulo.

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Capítulo 5 - Dívidas

“Se você é esperto não precisa fazer dívidas, se não é, não deveria fazê-las.”
Warren Buffet

As dívidas são um tema recorrente nas conversas de quase todos os


brasileiros, por isso é inevitável abordá-las. Pesquisa divulgada pela
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo aponta que
em torno de 2/3 dos brasileiros possuem alguma dívida indesejada, e esse
número é alarmante! Contudo, por que as pessoas se endividam tanto?
Alguns podem alegar que os brasileiros se endividam por ter uma renda
baixa, mas aqueles que tem menor renda, em geral, não tem acesso ao crédito.
A maior parte dos endividados pertencem à classe média e média alta.
Os juros altos estão entre as causas, mas estão longe de explicarem a maior
parte do endividamento. Falta de educação financeira e hábitos de consumo
nocivos também estão entre os principais motivos.
A falta de educação financeira faz com que os brasileiros consumam além
de sua capacidade de pagamento utilizando empréstimos e financiamentos, as
dívidas. E assim, sem planejamento, a inadimplência é quase certa.
Nossa análise das causas do endividamento começa com um olhar sobre o
comportamento humano. Você já deve ter ouvido a expressão: “a grama do
vizinho é sempre a mais verde”. As pessoas consomem uma infinidade de coisas
simplesmente porque as outras pessoas de seu convívio social o fazem.
Os americanos têm uma expressão para isso: “keep up with the Joneses”,
acompanhar os Joneses em tradução livre. Ou seja, você quer ter os mesmos
objetos caros e eletrodomésticos modernos dos seus vizinhos e amigos, os
Joneses.
Observar os sonhos e o padrão de vida da classe média brasileira revela muita
coisa:
O primeiro sonho é possuir uma casa, afinal, como diz o ditado: “quem casa
quer casa”, não é mesmo? Ainda que só consiga isso ficando endividado por 30
anos ou mais.
O sonho seguinte é possuir um carro. O maior e melhor que conseguir
comprar, e, de preferência, melhor que o do vizinho. Dividido, naturalmente em
60 prestações ou mais.

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Outro objetivo é viajar ao menos uma ou duas vezes por ano (com pacotes
divididos em 10 ou 12 vezes no cartão), mesmo que não goste dos lugares, mas
todo mundo já foi, você não pode deixar de ir.
Existem, também, aqueles que optam por gastar mais de um mês do seu
suado salário para comprar um smartphone ou outro gadget mais moderno e
tecnológico (mesmo utilizando apenas os recursos básicos).
Este é o pensamento padrão do ser humano. Perceba que não há nada de
errado em possuir um gadget, uma casa, um carro, muito menos em viajar. O
erro está na forma como as pessoas buscam concretizar estes objetivos e sonhos.
Na ânsia por realizá-los, elas não analisam friamente os meios para isso. Não
fazem contas e acabam entrando em consórcios, financiamentos ou outras
linhas de crédito e, consequentemente, comprometem grande parte da sua renda
com o pagamento de dívidas.
Além disso, frequentemente, aposentados contraem dívidas para ajudar
filhos e netos. O mesmo vale para servidores públicos. A facilidade para
obtenção de crédito dessas pessoas atrai familiares e “amigos” da mesma forma
que o açúcar atrai as formigas.
Em consequência, os servidores públicos são os cidadãos mais endividados
do Brasil. Apesar de possuírem renda acima da média do brasileiro, os gastos
excessivos e a facilidade de acesso ao crédito somados a uma confiança em
relação ao emprego culminam em endividamento.
Para se ter uma ideia, em 2018, conforme dados divulgados pelo Banco
Central, o servidor público devia em média R$ 15.700,00 na modalidade de
empréstimo consignado, enquanto o trabalhador da iniciativa privada devia, em
média, R$ 580,00. Empréstimo consignado é a modalidade de crédito pessoal
em que o valor das parcelas é descontado automaticamente do contracheque ou
do benefício pago pelo INSS.
Servidor, autônomo ou empregado do setor privado, a sociedade não deve
ditar a forma como você leva sua vida, ou gasta seu dinheiro, portanto tenha
seus próprios objetivos, pautados nos seus valores e nas suas vontades.
Você adquiriu este livro porque está buscando educação financeira, mas
você precisará trabalhar os seus hábitos de consumo para conseguir poupar e
investir. De nada adianta saber apenas quais são as modalidades de
investimentos se você não desenvolver a mentalidade adequada.
Cabe ressaltar que o motivo para o endividamento é, muitas vezes, a visão
equivocada de que caso você não faça uma dívida não será capaz de comprar

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algo. Esqueça essa mentira! Se você consegue comprar algo financiado, você
consegue comprar à vista, já que à vista sai mais barato, pois, além de não pagar
juros, você ainda recebe os rendimentos enquanto economiza para a compra.
As dívidas só fazem sentido em casos extremos, como por exemplo, para a
compra de medicamentos e outros itens relacionados à saúde ou para a compra
de um bem indispensável à manutenção da sua atividade profissional. Ainda
assim, devem ser contraídas da forma mais racional e responsável possível.
As dívidas estão entre as maiores causadoras de divórcios no Brasil e são
uma das maiores causadoras de depressão e suicídio no mundo. Famílias brigam
e se desfazem por dívidas.
Os grandes investidores e educadores financeiros sempre ressaltam o quanto
as dívidas são negativas, e neste livro não poderia ser diferente. Se você deixar,
as dívidas vão te arruinar.
O conselho mais básico quanto a isso é: jamais faça dívidas, mas, se a dívida
for inevitável, quite o quanto antes. Os juros pagos ao fazer dívidas são uma
ótima forma de enriquecer os acionistas do banco no qual você contratou o
financiamento, mas não você.
Sendo assim, como evitar entrar em dívidas? Existem algumas técnicas que
discutiremos agora.
A primeira delas é planejar suas compras com antecedência. Por exemplo,
se você troca de carro a cada 5 anos, prática da maior parte dos brasileiros que
possuem automóvel, já comece a poupar para a troca com base em uma
estimativa. A desvalorização média de um automóvel é de 10% no primeiro ano
contudo ao longo do tempo essa desvalorização vai reduzindo, em 5 anos, um
veículo que custa 50 mil reais passaria a valer 31,9 mil reais, isso se estiver bem
conservado.

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Sendo assim, seria adequado poupar um valor para a troca do veículo. Já que
você terá os juros trabalhando a seu favor e ao mesmo tempo a inflação
trabalhando contra você, utilizaremos uma taxa real de 3,5% a.a., que é a média
obtida, atualmente, em investimentos conservadores de renda fixa.
Considerando um veículo dos mesmos 50 mil reais, o indivíduo deverá investir,
no mínimo, algo em torno de R$ 277,07 por mês para comprar este automóvel.
Para fazer a compra da casa própria em 20 anos existem duas possibilidades:
contratar um financiamento ou poupar enquanto paga aluguel. Vamos analisar
com números reais: consideraremos um imóvel de 300 mil reais que têm um
custo de aluguel de R$ 900,00, realidade existente no ano de 2019 em Belo
Horizonte, Minas Gerais.
O investidor deveria poupar R$ 852,00, usando uma taxa de juros 3% acima
da inflação durante 20 anos e pagar o aluguel no período para comprar a casa.
Por outro lado, o indivíduo que optasse pelo financiamento pagaria, no mesmo
período, considerando a taxa média de financiamento do Sistema Financeiro da
Habitação, SFH, de 10,36% a.a., realidade de 2018, e o IOF de 0,0041%, uma
parcela de R$ 3.903,00 aproximadamente, sem considerar eventuais seguros e
títulos de capitalização empurrados pelo banco. Considerando a Tabela Price,
esse valor totalizaria R$ 936.720,00, ou seja, 3 vezes o valor do imóvel. Aquele
que optou por investir poupou, aproximadamente 204 mil reais e os juros
fizeram o restante do serviço. Além disso, ele pagou de aluguel algo em torno
de 324 mil, gastando no total 528 mil, 44% a menos.
Faremos uma outra simulação, considerando que o investidor dispusesse dos
R$ 3.903,00 para moradia. Sendo assim ele pagaria R$ 900,00 de aluguel e
pouparia R$ 3.003,00. Desta forma, os 300 mil reais seriam atingidos em 7 anos

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e 6 meses, sendo que estamos considerando taxas reais de 3% a.a. O histórico
no Brasil dos últimos dez anos é de 4,5% a.a., o que tornaria a opção de poupar
ainda mais atraente. Se conseguíssemos manter o histórico de 4,5% o tempo
seria 7 anos e 2 meses.
Lembre-se que no caso do financiamento imobiliário você terá uma dívida e
será obrigado a pagar aquela prestação quer queira quer não. Caso não pague,
poderá perder o imóvel e ficar endividado, pois o leilão do imóvel não
conseguirá, necessariamente, quitar sua dívida. No caso da poupança somada
ao aluguel, você gastará menos, terá flexibilidade em momentos de renda menor
ou imprevistos e após 20 anos poderá comprar sua casa à vista pegando um
imóvel mais novo ou melhor. Caso você consiga juntar o montante num período
inferior aos 20 anos poderá comprá-lo antes.
Outro problema em assumir um financiamento imobiliário é que este,
normalmente, envolve vendas casadas, ou seja, ao adquirir um produto você
leva outro conjuntamente. Sendo assim, ao custo da prestação teremos de
somar, no mínimo, um seguro de vida, muito provavelmente um cartão de
crédito do banco e um título de capitalização.
Se, mesmo assim, você decidir pelo financiamento imobiliário, pague o mais
rápido possível. Mantenha uma reserva para emergências e todo o dinheiro
extra que receber utilize para a quitação do imóvel.
O financiamento imobiliário, apesar de arriscado, pode dar certo, pois
pagando até o final, sem percalços, mesmo sendo a forma mais cara de comprar,
você terá um imóvel. O financiamento de automóvel, por outro lado, devido ao
alto custo e a depreciação do bem, é apenas uma forma de desperdiçar seus
suados recursos ao pagar juros. A única exceção é o profissional que utiliza o
veículo como ferramenta de trabalho. Evite financiamentos, esta é a moral da
história.
Sobre as viagens, planeje-se antecipadamente. Se sabe que vai viajar em
dezembro, compre as passagens antes e junte o dinheiro que gastará nas férias.
Não parcele pacotes de viagem a perder de vista ou pegue empréstimos para
viajar.
As dívidas crescem sozinhas. Se você cuidar, mas não resolver, voltam a
crescer. Acabando com elas, mas não fazendo a prevenção, que é a reserva de
emergência, elas voltam e podem tirar sua paz ou mesmo te arruinar. Algo
muito parecido com uma neoplasia maligna, também conhecida como câncer.
Se já está endividado, siga os seguintes passos:

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1. Faça um orçamento avaliando todas as suas receitas e as despesas.
2. Verifique o quanto pode pagar de parcela das dívidas.
3. Vá ao banco e negocie. Faça parcelas dentro do montante que pode
pagar.
4. Venda o que puder para quitar as dívidas.
5. Corte as despesas supérfluas, sem acabar com todo o lazer.
6. Mantenha apenas a reserva de emergência e utilize todo o dinheiro
que entrar na quitação das dívidas.
Outra “fria” na qual você não deve entrar é emprestar dinheiro para
familiares e amigos. Não peça dinheiro emprestado para ninguém, respeite o
trabalho da pessoa e os esforços dela para conquistar esses recursos.
A única exceção, onde você pode emprestar, são os casos que envolvem
problemas de saúde. Neste caso, avalie o quanto pode doar sem ser prejudicado
e dê para a pessoa. Pode até falar que é um empréstimo, mas, internamente,
conte como se fosse uma doação, ou seja, não espere receber de volta.
Sob nenhuma hipótese empreste seu nome. É uma das poucas coisas piores
que emprestar dinheiro. Pessoas perdem tudo, absolutamente todo o patrimônio:
casa, carro e até valores aplicados por terem emprestado o nome.
Quando vierem te pedir dinheiro emprestado indique o endereço da agência
bancária ou financeira mais próxima. Se vierem pedir seu nome emprestado
negue educadamente.
Se, por qualquer motivo, você fez um empréstimo com amigos, colegas de
trabalho ou familiares: pague. Pague antes do combinado e mais do que o valor
combinado, assim, a pessoa terá certeza da sua honestidade. E, sob hipótese
nenhuma, se chateie com alguém que não te emprestou dinheiro.
A última e mais importante técnica que te auxiliará a não entrar em dívidas
ou se meter em problemas, e a se preparar para imprevistos financeiros, é formar
e manter uma reserva de emergência, conforme veremos no próximo capítulo.

21
Capítulo 6 - Reserva de emergência

“Você precisa ter um dinheiro para caso alguma coisa aconteça.”


Maria de Lourdes (Minha avó)

Você já passou por algum imprevisto? Precisou comprar remédios que não
estavam nos planos? Teve de socorrer algum familiar ou amigo em uma
enrascada? Precisou fazer um conserto inesperado no automóvel? Bateu o seu
carro e precisou pagar a franquia do seguro? Ficou desempregado? Se passou
por qualquer uma dessas situações, precisou de uma reserva de emergência. Se
não passou, pode ter certeza, algum dia vai passar.
A reserva de emergência é assunto obrigatório em todo e qualquer livro que
se atreva a tratar do tema finanças pessoais e não poderia estar de fora deste. Os
autores dão os mais diversos nomes para a famosa reserva: colchão de liquidez,
capital de giro pessoal, patrimônio de segurança etc. Trataremos dela como
reserva de emergência.
De acordo com dados divulgados pelo Banco Central em 2016, apenas 46%
dos brasileiros declaram ter de onde tirar o dinheiro para cobrir uma emergência
no valor de R$ 1.520,00. Destes, apenas 14% conseguiriam arcar com a despesa
utilizando recursos próprios. Os demais precisariam recorrer a instituições
financeiras. Ou seja, apenas 6,44% da população possui uma reserva de
emergência igual ou superior a R$ 1.520,00.
Antes de falarmos em quantidade, valores, formas de calcular ou mesmo
onde aplicar o dinheiro, vamos falar sobre o significado da reserva. A melhor
descrição que ouvi até hoje foi a da minha avó, Dona Lourdes: “você precisa
ter um dinheiro para caso alguma coisa aconteça”. A definição está perfeita,
contudo poderíamos acrescentar o termo imprevista, já que para situações
previsíveis devemos nos planejar.
O objetivo da reserva de emergência é te dar uma cobertura para caso algo
imprevisível venha a acontecer, como por exemplo desemprego involuntário,
pagamento da franquia do seguro de automóvel, manutenção mais cara na casa
ou carro, doenças, exames ou cirurgias que não são cobertos pelo plano de saúde
etc. Os exemplos são quase infinitos e nem todos são ruins. A oportunidade de
comprar as passagens para a viagem dos seus sonhos ou o ingresso do show que
você tanto deseja ir pela metade do preço são só alguns dos exemplos de

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situações positivas em que a reserva de emergência pode te ajudar a realizar um
objetivo.
Pessoas racionais avaliam os riscos e tentam atenuá-los. A função da reserva
de emergência é atenuar os riscos ligados ao dinheiro, que, convenhamos, não
são poucos. Entendido o objetivo da reserva, fica uma importante pergunta:
quanto? Os livros trazem os mais diversos valores. Alguns autores sugerem 3
vezes as despesas mensais, enquanto outros sugerem 6 ou 12 meses das
despesas mensais da família. Vejam, o valor é baseado nas despesas e não no
salário ou receitas. Suas DESPESAS DEVEM SER MENORES QUE SUAS
RECEITAS, salvo em alguns momentos específicos nos quais a reserva deverá
te ajudar a manter o equilíbrio.
Avalie sua realidade, autônomos, profissionais liberais e pessoas com muitos
dependentes precisam de uma reserva maior, pessoas com apenas uma fonte de
renda precisam de uma reserva maior do que aquelas com múltiplas fontes de
renda. Enquanto jovens solteiros podem se dar ao luxo de ter uma reserva menor
um pai de família que sustenta 3 filhos não. O tamanho da sua reserva de
emergência irá variar de 3 a 12 meses de despesas.
Caso queira uma reserva maior do que os 12 meses, não há problema. O teste
do travesseiro sempre será um bom conselheiro neste caso.
Definido o tamanho da reserva de emergência, vem a próxima pergunta:
onde aplicar o meu dinheiro? Não há uma resposta definitiva para esta pergunta,
mas devemos entender que todos os investimentos são analisados sob 3 óticas:
liquidez, rentabilidade e segurança. Quando tratamos da reserva de emergência
o foco é a liquidez (facilidade de converter um investimento em dinheiro) e a
segurança, portanto devemos, neste caso, desconsiderar a rentabilidade. Sendo
assim, não sobram tantas opções: caderneta de poupança, fundo DI ou
Certificado de Depósito Bancário (CDB), todos em bancos sólidos, com
liquidez imediata e, se possível, resgate automático na conta corrente. Uma
forma de saber se um ativo serve como reserva de emergência ou não é
responder a seguinte pergunta: consigo sacar esse dinheiro no final de semana?
Sim, serve. Não, não serve.
Alguns educadores financeiros te dirão que o Tesouro Selic é um bom
investimento para a reserva de emergência. Isso não é uma verdade, mas
também não é algo totalmente falso. O Tesouro Selic não é adequado para
manter toda a reserva de emergência pois, o Tesouro Direto, fica indisponível
esporadicamente, seja por questões de manutenção, seja por instabilidades

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econômicas, e, além disso, sua liquidez é D+1, trocando em miúdos, resgatou
hoje, recebe o dinheiro amanhã. Porém, caso sua reserva seja maior do que 3
meses de despesas, você pode optar por aplicar o que exceder os 3 meses no
Tesouro Selic. Mas lembre-se que no mínimo 3 meses de despesas deverão estar
em uma renda fixa de altíssima liquidez no seu banco de relacionamento.
Antes de construir a sua reserva não faça nenhum outro tipo de investimento
e não compre imóvel, ou carro (a não ser que precise para trabalhar como taxista
ou motorista de aplicativo, por exemplo).
Concluída a sua reserva de emergência, chegou a hora de ensiná-lo a se
proteger de alguns infortúnios. Por isso, trataremos dos seguros.

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Capítulo 7 – Seguros

“O seguro morreu de velho”


Ditado popular

Os seguros são importantes aliados para os investidores e para os cidadãos


comuns que não investem.
A cultura de contratar seguros é bem enraizada na América do Norte e
Europa, porém ainda engatinha no Brasil.
Existem seguros para os mais variados riscos: vida, propriedade, aí inclusos
o seguro de casa e o do carro, seguro contra erros profissionais, em especial
erros médicos, dentre outros.
Começando pelo seguro do carro, este é essencial para protegê-lo tanto da
criminalidade que assola o país, quanto de você mesmo que pode cometer erros
ao volante e gerar um acidente. Imagine que você está dirigindo distraidamente
e bate em um carro de luxo. Feito o orçamento para o conserto percebe-se que
este superou o valor do seu automóvel. O que fazer? É um problemão, não é
mesmo? Apenas 30% dos automóveis brasileiros estão segurados. De acordo
com pesquisa divulgada pela Confederação Natural das Seguradoras – CNSeg,
são mais de 30 milhões de automóveis não segurados. O seguro de automóvel
pode parecer caro, mas experimente ser roubado ou bater em um carro de luxo
sem o seguro e descubra o que sai mais caro.
Em seguida vem o seguro de casa, que é uma excelente proteção tanto para
o imóvel em que você mora quanto para seus imóveis alugados para terceiros.
O valor do seguro custa algo em torno de 250 reais anuais e a cobertura
normalmente engloba roubo, danos elétricos, vendaval, inundação e
responsabilidade civil familiar.
O seguro de vida é ideal para aqueles que possuem dependentes incapazes
de gerar renda e que ainda não têm um patrimônio formado, capaz de sustentar
seus entes queridos. Enquanto você forma o seu patrimônio, o seguro de vida
pode te dar mais tranquilidade e ajudar a proteger sua família em caso de uma
fatalidade.
Outro seguro que vem se popularizando é o educacional, onde o segurado
tem algumas mensalidades da faculdade pagas em caso de desemprego
involuntário. Este, a princípio, parece fazer sentido apenas para aqueles que

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estão nos períodos finais da faculdade, como o último ano por exemplo, posto
que, no geral, não cobrirão o curso inteiro.
Temos também o seguro contra erros médicos, muito popular no mundo, mas
pouco conhecido no Brasil. Ele se pauta nas seguintes premissas: primeira,
todos estão sujeitos a erros por mais experientes e preparados que sejam e
segunda, ainda que o médico não tenha cometido um erro, o juiz pode não
entender assim, então em algumas especialidades médicas o seguro pode ser um
grande aliado.
No mercado são encontrados até mesmo seguros para atletas. Os clubes
contratam estes seguros para o caso de uma contusão mais séria ou algum
acidente durante os jogos.
Os próprios atletas contratam seguros para o caso de impossibilidade de
seguirem na profissão por problemas de saúde.
Por fim temos o seguro para aparelhos celulares ou “smartphones”, mas estes
não são recomendados pelo Procon, pelo contrário, aconselha o consumidor a
não contratar devido ao elevado preço, além das mais diversas restrições na
hora de indenizar o segurado.
Uma coisa essencial na hora de contratar o seguro é não mentir. Seja honesto,
não diga que é a sua avozinha quem dirige o carro, ou que você não usa o carro
para ir trabalhar sendo que na verdade você é um motorista de aplicativo. A
maioria dos segurados que não recebem a indenização pelo sinistro são aqueles
que mentiram para as seguradoras.
Sinistro é o fato coberto pelo seguro, como por exemplo batida de carro,
falecimento ou incêndio no imóvel. Por outro lado, prêmio é o valor pago pelo
segurado à seguradora em troca da cobertura do risco.
Agora que você entendeu a importância de montar sua reserva de emergência
e de contratar os seguros para se proteger, vamos transformá-lo em um
investidor e para isso, começaremos desconstruindo alguns preconceitos.

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Capítulo 8 - Descontruindo preconceitos

“Riqueza é aquilo que você acumula e não aquilo que você gasta.”
Thomas J. Stanley

Antes de falar das opções de investimento, neste capítulo tentaremos


desconstruir conceitos e crenças erradas que limitam o desenvolvimento do
indivíduo e sua transformação em investidor. Não é possível se tornar um
investidor ou construir patrimônio sem desconstruir tais conceitos.
Uma primeira ideia equivocada é associar a riqueza e os milionários a
ostentação, mansões e carros importados. Uma pesquisa realizada nos Estados
Unidos e divulgada no livro “O Milionário Mora ao Lado”, de Thomas J.
Stanley e William D. Danko, mostra que os hábitos dos milionários são muito
diferentes do que se imagina.
Um dado interessante é que, diferente do que a maioria espera, 80% dos
milionários não recebeu herança dos pais.
Outra curiosidade é que a maioria dos milionários leva uma vida frugal e dão
mais importância à independência financeira do que à ostentação. Ou seja, todos
aqueles indivíduos que você vê em revistas e na televisão com itens de luxo são
exceção entre os mais ricos, e não regra.
Um fator que atrapalha, e muito, a construção de patrimônio pelas pessoas é
o medo, medo de se corromper, medo de ser sequestrado ou de causar inveja
nas pessoas. É preciso entender o porquê de as pessoas negligenciarem tanto a
construção do patrimônio.
O Brasil é um país onde a pobreza e a vida simples são vistas como naturais
e inerentes à realidade do cidadão. Não a vida simples por opção, mas aquela
imposta pela falta de recursos. Isso é uma questão cultural e, sendo assim, fugir
dessa forma de pensar não é fácil.
Possuir patrimônio, para alguns, seria motivo para vergonha, afinal a maioria
das pessoas é pobre, não é mesmo? Por outro lado, se você conseguir superar
este preconceito, perceberá que o patrimônio te traz uma série de possibilidades
e acima de tudo liberdade de escolha para não trabalhar com algo que não goste
ou concorde, não trabalhar todos os dias da semana, para viajar, descansar, levar
uma vida simples por opção ou mesmo consumir mais. A liberdade financeira
proporcionada pelo patrimônio pode te permitir ajudar familiares,

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desconhecidos ou amigos que passam por alguma situação difícil, por exemplo.
Ou simplesmente não fazer nada, se preferir assim.
Vamos tratar de algumas falácias ligadas ao dinheiro. Para quem não sabe,
falácia é uma mentira defendida com argumentos verdadeiros ou, ao menos,
bastante convincentes.

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Falácias

Caixão não tem gavetas – A despeito do que dizem sobre caixões não terem
gavetas, alguns modelos de fato o têm, mas em especial, deixar recursos
financeiros de herança para familiares é uma demonstração de preocupação e
carinho, em especial com o cônjuge e outros dependentes que não tem como se
manter após o seu falecimento. Existem diversas histórias onde heranças
causaram brigas nas famílias, mas tantas outras onde, pela falta dela, com a
morte do provedor da família, veio a miséria e problemas sérios para os
familiares e dependentes. Deixar recursos financeiros é importante, mas de nada
adianta se não deixar educação.
Quem poupa não vive – Se dissessem: quem poupa não vive preocupado com
dinheiro deixaria de ser uma falácia. Poupar é essencial. Aquele que poupa
compra mais, com menos. Por exemplo: o indivíduo que financia um carro de
50 mil reais pagará em média 70 mil por este automóvel enquanto aquele que
poupou para adquirir o veículo gastará não mais do que algo entre 40 e 45 mil
reais, dependendo do tempo. Ou seja, quem poupa consome mais com os
mesmos recursos, ou consome a mesma coisa gastando menos recursos.
É normal ter dívida, todo mundo tem – Assim como é normal fumar. Grande
parte da população fuma ou bebe mais do que deveria e nem por isso estes
hábitos passaram a ser saudáveis.
Vai que eu morro amanhã, melhor gastar hoje – Se você morrer,
tecnicamente não faz diferença nenhuma se gastou ou poupou. O problema é se
não morrer, como acontece com a maioria das pessoas, já que a expectativa de
vida no Brasil ultrapassa os 70 anos. O indivíduo que chega a terceira idade sem
poupança e sem recursos está fadado a depender de familiares, de caridade ou
do Estado. É difícil dizer o que é pior.
Não tenho tempo para estudar sobre investimentos – Existe uma ilusão de
que para investir é necessário estudar muito ou ter muito dinheiro. Sim, é
necessário algum estudo, mas nada que passe de algumas poucas horas
semanais inicialmente, mensais e por fim, até mesmo, anuais.
Conheço um fulano que poupou, poupou e morreu sem aproveitar a vida –
Para cada um destes indivíduos existem alguns milhares que não pouparam e
morreram na miséria ou, pior, morreram por falta de recursos para tratar da
própria saúde.

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Ter muito dinheiro só atrai coisa ruim – Não ter dinheiro nenhum atrai coisas
piores como a miséria e a fome. Dinheiro é um instrumento que pode ser usado
para o bem ou para o mal.
Minha mãe ou pai não me ensinaram – A maioria dos pianistas, médicos,
atletas profissionais e engenheiros não são filhos de pessoas com a mesma
profissão. Se todos esperassem aprender tudo dos pais a humanidade estaria
perdida.
Meu marido ou esposa não colabora na administração – Sente e converse
com seu cônjuge. Entenda os sonhos e objetivos do seu companheiro ou
companheira. Se não conseguirem construir nada juntos é bastante provável que
precisem compartilhar a miséria na terceira idade.
Tenho filhos – Mais um motivo para poupar! Seus filhos precisarão de ajuda
para os estudos, especializações e outras exigências cada vez maiores do
mercado de trabalho.
Não tenho filhos – Aproveite para poupar! Para você é mais fácil nesse
momento, afinal não tem gastos obrigatórios com escola, fraldas e outros custos
ligados aos cuidados com uma criança.
Ganho pouco. Quando meu salário aumentar eu começo – se for esperar seu
salário subir você vai morrer e não vai juntar nada, pois quando a remuneração
aumentar você dirá que seus gastos aumentaram mais ainda.
Ganho demais – Se você ganha muito esse é um motivo maior ainda para
poupar! Indivíduos com salários muito altos tem mais dificuldade em conseguir
uma recolocação similar no mercado de trabalho em caso de demissão
involuntária. Pense nisso. Aproveite seu poder de geração de renda para
aumentar seu poder de poupança.
Sou funcionário público, o meu é garantido, não preciso poupar –
Servidores já ficaram por mais de 8 anos sem reajuste tendo sua renda reduzida
devido a inflação. Recentemente presenciamos os servidores de Minas Gerais
com salários atrasados e parcelados, servidores do Rio de Janeiro sem receber
o décimo terceiro e muitas outras situações não imaginadas antes por tais
profissionais. Portanto, poupe!
Sou estável – Estabilidade pode ser perdida. Mais de uma vez regimes
estatutários foram alterados em nosso país. Além disso, países como a Grécia
tiveram de demitir servidores públicos devido ao déficit público.
Sou autônomo – Um dos maiores motivos para poupar é ser autônomo ou
empresário dada à incerteza de sua renda. Com um dinheiro guardado você

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poderá normalizar sua renda em períodos de queda na demanda pelos produtos
e serviços da empresa e, consequentemente, ficar menos estressado.
Dá trabalho ter que cuidar de dinheiro – Dá mais trabalho administrar a
miséria. Com pouco estudo é possível começar uma carteira de investimentos.
Quem tem dinheiro é infeliz – Experimente passar fome ou não ter onde
morar. O Dinheiro não traz felicidade, mas possibilita que você não passe por
situações que tirariam a sua, como por exemplo a falta de um medicamento para
você e seus filhos.
Descontruídos estes argumentos, talvez você consiga pensar em algum
outro, ou diga: “É fácil falar, o difícil é fazer”, mas toda jornada começa com
um primeiro passo, e no caso de acúmulo de patrimônio e tranquilidade
financeira é aderir ao “mindset” correto, ou seja, à mentalidade adequada.

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Capítulo 9 - Construindo um investidor

Você é o que repetidamente faz. Excelência não é um evento, é um hábito.


Aristóteles

Como construir um investidor do zero? Como transformar um indivíduo que


saiu da situação de endividado ou encontra-se no sistema gasta tudo o que
ganha, há muito tempo, em um investidor? Este capítulo pretende apontar quais
os ingredientes necessários para alcançar este objetivo.

Ingredientes 1 e 2 – Administrar e fazer dinheiro

Existem dois talentos ou habilidades que podem ser desenvolvidos e ajudam


muito o investidor a construir seu patrimônio: administrar e fazer dinheiro.
A habilidade de administrar o dinheiro é aquela que te leva a fazer um uso
ótimo dos seus recursos. Você provavelmente já ouviu falar de um trabalhador
rural, servente, faxineira, secretária ou de algum outro profissional,
normalmente mal remunerado que, mesmo tendo todas as probabilidades contra
ele, comprou a casa própria à vista ou conseguiu construir um bom patrimônio.
Esses indivíduos são dotados de uma habilidade acima da média para
administração. A maioria deles nunca leu um livro de finanças (assim como a
maioria da população em geral), nem usou nenhum investimento mirabolante,
mesmo assim conseguiu grandes feitos financeiros.
Por outro lado, todos temos um conhecido, amigo ou familiar que, apesar de
todas as facilidades, recebendo heranças, negócios da família e com profissões
muito bem remuneradas, não construíram nada, ou pior, perderam o que a
família tinha. Para estes faltaram habilidades mínimas de gestão e educação
financeira.
Então, será que é uma questão genética? Ou seja, alguns são favorecidos e
nascem com a habilidade de administrar e outros não? Naturalmente, não.
Muitos não nascem com a habilidade de administrar seus recursos, mas
aprendem ao longo da vida, estudando e buscando informações. Outros nascem
em alguma família com uma forte tradição de educação financeira e boa gestão
dos recursos. Pode-se dizer que nesse caso a sorte teve um papel essencial. Por
fim, algumas pessoas nascem em situação de extrema dificuldade e pobreza

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onde a preocupação com a sobrevivência é tudo o que resta, ficando a
administração dos recursos em segundo, terceiro, quarto ou quinto plano.
A habilidade de fazer dinheiro é a que te faz ter mais recursos à disposição
para investir ou gastar. Os americanos, quando recebem seus salários, dizem
que estão fazendo dinheiro (making money), enquanto os brasileiros usam o
termo ganhar dinheiro. A diferença pode parecer pouca, mas quando você diz
ganhar dinheiro é como se alguém estivesse te fazendo um favor, seja seu chefe
ou a empresa onde trabalha. Essa visão desconsidera tudo o que você fez para
gerar aqueles recursos para a empresa. Afinal, via de regra, só faz sentido para
alguém te contratar se o retorno que ela obterá com seu trabalho for maior do
que o quanto ela te paga. Caso contrário, seria mais vantajoso ficar sem você.
Fazer dinheiro depende, principalmente, das habilidades profissionais do
indivíduo. Apesar de não podermos desprezar a influência da sorte na carreira
dos profissionais, se você for o melhor em qualquer profissão ou um dos
melhores terá uma remuneração acima da média. Se você tiver algum talento
extra, como por exemplo fazer artesanato, ministrar aulas de inglês, falar em
público, dirigir bem ou preparar bolos, pode obter uma renda extra que, talvez,
se torne sua renda principal em algum momento.
De um jeito ou de outro é importante que você busque desenvolver as duas
habilidades. Alguns terão mais facilidade em fazer dinheiro, outros em
administrar, mas todos precisam aprender essas duas coisas e serem os melhores
administradores e profissionais que conseguirem. O caminho para administrar
melhor é a educação financeira.

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Ingrediente 3 – Poupança ou “savings rate”

“Poupe primeiro e viva com o que sobrar.”


Warren Buffett

O terceiro, porém, mais importante ingrediente da fórmula, é a poupança. O


indivíduo deve poupar algum percentual de sua renda, ou seja, ganhar mais do
que gasta. Não tem como fugir. Especialistas costumam recomendar ao menos
10%, mas aqui não entraremos em percentuais. Basicamente: quanto mais,
melhor, desde que não perca qualidade de vida.
O “savings rate” ou o percentual da renda poupado é o indicador que vai
definir em quanto tempo o investidor terá sua tranquilidade financeira. Quanto
mais você poupar, em relação a sua renda, mais rápido conseguirá se aposentar
por conta própria, sem depender do governo, bancos ou parentes. A fórmula é
a seguinte:

Valor poupado ÷ Renda Total

Especialistas americanos desenvolveram esta fórmula de saque seguro com


base no retorno dos seus investimentos e no seu “savings rate”, quanto você
poupa. Veja a Tabela 1:
TABELA 1

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Nesta simulação utilizamos uma taxa de juros real, ou seja, acima da
inflação, de 3% a.a. (ao ano) e o retorno nominal, aquele que não considera a
inflação, é de 6,5% a.a., taxa Selic de 2019. Sendo assim, um indivíduo que
poupa 10% da renda precisaria poupar 48 anos e um que poupa 90%, 3 anos e
meio.
Não temos controle sobre o retorno nominal ou real dos investimentos. O
controle sobre esses pontos é muito pequeno e o percentual de poupança tende
a variar muito ao longo da vida, sendo, em alguns períodos, altíssimo e em
outros, muito baixo.
A única coisa sobre a qual temos controle de fato é a constância do aporte e
a disciplina para isso, o que torna estas fórmulas pouco válidas para a maioria.
Sem dúvida um indivíduo que ganha 10 mil e poupa 5 mil terá mais
tranquilidade na aposentadoria do que um que, recebendo 50 mil, poupa 5 mil,
pois manter o padrão de vida que tem um custo de 45 mil demandará um
patrimônio muito maior.
Um cálculo atuarial feito por um grande banco brasileiro chegou a seguinte
conclusão: o ideal é que o investidor poupe, no mínimo um percentual da renda
que represente sua idade menos 10, por exemplo:
O indivíduo que decide começar a poupar com 30 anos de idade deve poupar
20% da renda até os 60 anos, por outro lado aquele que começa aos 20 precisaria
poupar apenas 10%.
O recado sobre poupança é simples: poupe o máximo que você puder sem
prejudicar sua qualidade de vida.

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Ingrediente 4 – Disciplina

“Os grilhões do hábito são leves demais para serem sentidos, até que
ficam pesados demais para serem rompidos.”
Warren Buffett

Passado pelos primeiros ingredientes, seguimos para o quarto, disciplina. A


disciplina é sem dúvida um dos maiores diferenciais dos indivíduos bem-
sucedidos em quaisquer áreas.
O investidor deve ter disciplina para não se endividar desnecessariamente e
para aportar independentemente do cenário político, econômico ou dos
momentos pelos quais ele pode passar em sua vida pessoal.
Vamos analisar o resultado de um aporte de 250 reais ao longo de 40 anos.
Neste caso vamos desconsiderar a inflação, pois utilizaremos uma taxa de juros
real, ou seja, já com a inflação descontada, de 3% a.a. Dados:
Tempo: 40 anos, ou 480 meses.
Rentabilidade real (acima da inflação): 3% a.a.
Aporte mensal: R$ 250,00.
Este investidor terá R$ 229.297,48, o valor de um apartamento em algumas
cidades médias brasileiras. Mesmo aqui na região metropolitana de Belo
Horizonte encontramos apartamentos por este preço.
Lembrando que, como este valor já considera a inflação, esse seria o poder
de compra do montante dele no momento do saque. Caso o investidor consiga
um retorno real maior, o valor será maior, mas este é o retorno médio real da
renda fixa.
Indo além, o indivíduo que investiu 250 reais ao mês de janeiro 1995 até
dezembro de 2018 em ações do banco Itaú e reinvestiu os dividendos formou
um patrimônio de mais de 2 milhões e 125 mil reais. E hoje recebe mais de 150
mil reais por ano na forma de dividendos.

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Ingrediente 5 – Paciência

“Não se pode fazer um filho em um mês engravidando 9 mulheres.”


Warren Buffett

Em uma ilha fluvial, localizada na Índia, Majuli, um homem sozinho plantou


uma floresta maior do que o “Central Park” que está localizado em Nova York.
Ele fez isso plantando ao menos uma árvore por dia durante 40 anos.
Por fim, temos o último ingrediente: paciência! Muitos são os investidores
que começam bem, aportam em renda fixa, renda variável, compram títulos
públicos, ações e fundos imobiliários, mas desanimam com o tempo e sacam
tudo para a compra de um carro zero ou uma casa na praia. Existem casos de
investidores que param de investir por preguiça de preencher a declaração anual
do imposto de renda. Não desanime!
Além disso, a pressa por obter resultados leva muitos investidores a se expor
a riscos desnecessários, o que pode ter o efeito oposto ao desejado, como a
queima do patrimônio e o consequente empobrecimento do investidor.
O processo de construção de patrimônio é lento e, por vezes, chato. Em
alguns momentos nada será feito, nenhuma mudança na carteira, nenhuma
compra de ativo mirabolante, absolutamente nada além de aportar todos os
meses, religiosamente.
Conforme já dito por vários grandes investidores, na verdade, investir de
maneira inteligente é mais ou menos como ver a grama crescer, bastante
entediante.
George Soros, bilionário e gestor de fundos, brilhantemente, disse: “se você
está se divertindo ao investir você provavelmente está fazendo algo errado”.

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Capítulo 10 - Por que investir afinal?

“Antigamente o indivíduo aposentava e ia se tornando um indigente, hoje em


dia ele já se aposenta como indigente.”
Luiz Barsi Filho

Um dos meus episódios favoritos do seriado Os Simpsons é o especial de


natal. Ao final das comemorações, Homer pensa em organizar os longos fios de
pisca-pisca, contudo, decide que isso é um problema do Homer do futuro. Em
um piscar de olhos o tempo passa e resta ao Homer apenas se virar com os
problemas que ele mesmo criou. Quando você não investe cria um problema
para o “você do futuro”.
A previdência pública ainda hoje é o que sustenta a maior parte dos
aposentados brasileiros. O benefício médio pago ao aposentado ou pensionista
brasileiro, em agosto do ano de 2018, era de R$ 1.227,85 (um mil duzentos e
vinte e sete reais e oitenta e cinco centavos), sendo que, a grande maioria recebia
1 salário mínimo. Valor insuficiente para que muitos mantenham seu padrão de
vida.
Nos moldes atuais, a previdência social lembra muito um esquema “Ponzi”
ou uma Pirâmide Financeira, onde os trabalhadores “ativos” pagam o benefício
dos aposentados ou “inativos”. Uma das principais características dos esquemas
de pirâmide é que eles não são sustentáveis. Uma hora o número de entrantes
deixa de ser o bastante para arcar com os custos daqueles que recebem o
dinheiro.
A cada dia existem menos trabalhadores “contribuindo” para a previdência
social e mais aposentados. A causa é uma queda nas taxas de natalidade somada
ao crescimento na expectativa de vida. Pessoas vivendo mais e por outro lado
menos receitas para sustentar estas pessoas.
Existe muita polêmica e discussão acerca do déficit da previdência. Qual o
seu tamanho? Como resolvê-lo? Será culpa de má administração do governo?
Dos grandes devedores? Será uma ficção?
Não entraremos nessa discussão, pois não faz diferença alguma para você
que vai construir um patrimônio para sustentá-lo na aposentadoria,
independentemente do governo.
Enquanto investidor você não deve contar com a previdência pública.
Conforme foi dito pelo bilionário, investidor, Luiz Barsi Filho, “antigamente o

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cidadão aposentava e aos poucos ia se tornando um indigente, agora já se
aposenta como indigente”.
Os fundos de pensão, apesar de uma iniciativa louvável, possuem um risco
alto, pois nunca se sabe quais os interesses dos gestores. Recentemente um
grande fundo de pensão responsável pelos recursos dos empregados de uma
empresa pública quase quebrou por investir em títulos de países em situação
complicada, incapazes de honrar seus compromissos. A aposentadoria desses
beneficiários sofreu um duro golpe, uma queda considerável.
Melhor do que atribuir a outros a responsabilidade pela sua aposentadoria é
preparar você mesmo as condições para uma terceira idade mais tranquila.
De acordo com o HSBC, em pesquisa feita sobre a aposentadoria no mundo,
60% dos idosos esperam que seus familiares ajudem a arcar com suas despesas
na terceira idade. No entanto, a mesma pesquisa revela que mais de 50% dos
familiares de idosos “inativos” são auxiliados financeiramente por estes
senhores e senhoras aposentados. A conta não fecha.
Segundo pesquisa do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento,
15% dos idosos com mais de 65 anos no Brasil não possuem nenhuma fonte de
renda.
Na mesma pesquisa, 64% dos brasileiros entrevistados revelam que nunca
pouparam para a aposentadoria. Questionados entre poupar para uma viagem
de férias ou para a aposentadoria, 49% escolheram a viagem, enquanto 43%
escolheram a aposentadoria e 8% não souberam responder.
Ainda mais alarmante, 51% dos jovens brasileiros disseram que nunca
pensaram na aposentadoria. Nunca pensaram nisso!
Outra pesquisa mostra que de cada 100 brasileiros apenas 4 separam parte
dos seus ganhos para os anos finais. O índice é o mais baixo de todo o continente
americano e um dos piores do mundo. Em levantamento de 143 países feito
pelo Banco Mundial, só 11 países estão abaixo do Brasil, como por exemplo
Níger, Somália, Iémen e Sudão.
Infelizmente esta mesma pesquisa mostra que apenas 1% dos idosos
brasileiros conseguem se manter sem depender de familiares ou do Estado.
Por fim temos a pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito – SPC – que
revela que mesmo entre os pertencentes a classe A, composta por pessoas com
renda acima de 20 salários mínimos, apenas 3 em cada 10 pessoas poupam
pensando na aposentadoria, derrubando a ideia de que o brasileiro não poupa
exclusivamente devido à baixa renda.

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Cabe à geração atual mudar esta realidade. A principal ferramenta para essa
mudança, adivinhem só, é a educação financeira.

Resumo

Faça um levantamento das suas receitas e despesas.


Saiba o que realmente importa para você, seja ter tranquilidade financeira,
um carro, uma casa ou viajar.
Gaste menos do que você ganha. Receitas > Despesas.
Evite fazer dívidas, só faça se for inevitável.
Não compre nada com o intuito de impressionar os outros.
Monte uma reserva de emergência. De 3 a 12 vezes as suas despesas mensais
com alta liquidez.
Construa um patrimônio para não depender do governo ou de familiares na
terceira idade.
Proteja seu patrimônio com seguros adequados às suas necessidades. Não
busque apenas o seguro mais barato.
Livre-se dos seus preconceitos em relação ao dinheiro.

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Parte 2 – Investimentos

“Uma operação de investimento é aquela que promete a segurança do


principal com o retorno adequado sobre o capital investido.”
Benjamin Graham

Para Benjamin Graham, pai do “value investing” – investimento em ativos


de valor – tudo o que foge da definição a seguir não é investimento:
“Uma operação de investimento é aquela que promete a segurança do
principal com o retorno adequado sobre o capital investido.”
Todo o resto pode ser algum tipo de especulação ou aposta, mas não
investimento.
Uma outra famosa explanação sobre o que é investir é a de Warren Buffett
– maior investidor da história e um dos homens mais ricos do mundo:
“Investir é postergar o consumo presente para poder consumir mais no futuro
e só existem duas perguntas, quando e quanto (a mais)”.
A definição de Buffett, apesar de mais simples, ainda não nos traz um
conceito muito prático.
Deixarei minha própria definição e em seguida vou explicá-la para que
compreendam a minha visão sobre o que é investimento. Longe de tentar
superar as definições dos dois grandes mestres dos investimentos, pretendo
complementá-las e deixar os leitores mais aptos a entender o que é e o que não
é investimento.
Investimento é uma operação onde o indivíduo, denominado investidor, se
abstém de consumir no presente fazendo poupança para o futuro e busca
remunerar seu capital poupado comprando ativos de valor sobre os quais
estudou e, consequentemente, tem conhecimento. Este investidor espera um
retorno sobre o investimento e está consciente dos riscos envolvidos na
operação.
Nada muito diferente do que o Graham falou, correto? Sim, mas é importante
ter atenção em relação aos riscos. O verdadeiro investidor sempre sabe dos
riscos que está incorrendo ao investir em seja lá o que for. Aqueles que olham
apenas os retornos não são investidores, são apostadores.
Os investimentos são subdivididos em 2 classes: os ativos de renda fixa e os
de renda variável. Na renda fixa a remuneração é previamente definida, sendo
um valor específico ou algum indexador, como a Selic ou o CDI. Por outro lado,

41
a renda variável, representada pelas ações, imóveis e fundos de investimento
imobiliários, dentre outros ativos, depende da economia e de condições
intrínsecas aos negócios e mercados dos quais fazem parte para remunerar o
investidor.
Outra subdivisão é em relação ao objetivo do investimento. Neste caso temos
os ativos de reserva financeira, de crescimento e de geração de renda.
Reserva financeira é a categoria dos ativos de maior liquidez, normalmente
utilizados como reserva de emergência ou para cumprir objetivos específicos,
como, por exemplo, a troca do carro ou da casa.
Crescimento é a categoria dos ativos que tendem a crescer acima da inflação
com o passar dos anos, de preferência com ganhos expressivos. As ações, os
títulos atrelados à inflação e até mesmo imóveis e terrenos bem localizados são
os ativos de crescimento mais conhecidos.
Por fim temos os ativos geradores de renda. Estes ativos pagam uma renda
mensal, semestral ou mesmo anual para o investidor. Os mais conhecidos são
os imóveis alugados, os fundos de investimento imobiliários e as ações.
Uma boa carteira de investimentos tem ativos com os três objetivos
informados, porém sempre focando em ativos de valor.
E o que seriam ativos de valor? São aqueles que possuem valor intrínseco:
um imóvel bem localizado, um título de renda fixa emitido por uma instituição
sólida, seja pública ou privada, fundos de investimento imobiliários com bons
imóveis e uma boa gestão, ou a ação de uma empresa que gere lucros e fluxos
de caixa.
A grande habilidade que deve ser desenvolvida pelo investidor é enxergar o
valor nos ativos. É esse talento que, em última instância, separa os bons
investidores dos demais.
Como dizem: é essencial saber separar o joio do trigo, por isso observaremos
alguns falsos investimentos que são sempre oferecidos pelas mais diversas
instituições, começando por um velho conhecido de todos nós:
O automóvel. Veículos não são investimentos, servem para te levar de um
lugar para o outro, em alguns casos te ajudam a ter mais dinheiro já que você
pode transformá-los em ferramentas de trabalho, mas não são investimentos.
Você não espera um retorno financeiro quando compra o automóvel, espera
desvalorização e gastos com combustível, seguros e manutenção. Automóveis
são bens de consumo e só faz sentido ter um carro se ele couber no seu
orçamento.

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Casa própria. A casa própria não é um investimento, pois você não a
comprou com o intuito de vender mais caro ou obter ganhos com o aluguel deste
imóvel. Portanto a sua moradia é um bem de consumo também.
Consórcio. Este é um dos piores falsos investimentos, pois ao contratar um
consorcio você está pagando alguém para guardar o dinheiro para você. Você
deixa seus recursos na mão de uma gestora e, além de não receber juros, paga
uma taxa de administração. O consórcio pode ser, inteligentemente, substituído
por um porquinho ou algum investimento simples de renda fixa, como a
poupança.
Título de capitalização. Quase tão ruim quanto o consórcio. Nele alguém
guarda o dinheiro para você e, em troca, você concorre a prêmios. Costuma ser
um ótimo negócio para a instituição financeira que vende o produto, mas não
para você.
COE. Este investimento, também conhecido como “COmecei Errado”, se
assemelha as antigas “bucket shops” misturadas com títulos pré-fixados, onde
você “aposta” no desempenho de certas ações sem ter a ação e com capital
“garantido”. O COE é uma combinação de ativos de renda fixa com renda
variável. Contudo o investidor não é titular nem direta nem indiretamente dos
ativos de renda variável. A parte referente a renda fixa fica em títulos pré-
fixados de modo que caso as premissas do COE não se realizem o investidor
receba o valor que investiu ou algo perto disso de volta. Por exemplo o COE
pode envolver as empresas Amazon e Google fica determinado que, se as ações
dessas empresas tiverem uma valorização de X% o investidor recebe um
determinado retorno no momento em que isso acontecer e caso não aconteça o
investidor recebe apenas a parte alocada na renda fixa, disso vem a ideia de
valores garantidos. É um ativo tipicamente de curto prazo pautado na sorte.
Péssima combinação. Melhor comprar um bilhete de loteria.
Financiamentos. Os financiamentos não são investimentos e sim o seu
oposto, pois ao invés de receber juros, ao fazer um financiamento, você paga.
Os únicos para os quais o financiamento pode ser considerado, em algum
momento, investimento são as empresas onde os financiamentos são utilizados
para comprar máquinas, equipamentos ou serviços que irão incrementar os
lucros e a geração e caixa da companhia.
Seguros resgatáveis. Outro falso investimento, os seguros resgatáveis geram
muita confusão entre os corretores e segurados, pois a promessa é de devolução
dos recursos corrigidos, porém, apenas da parte capitalizável dos recursos, o

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restante fica para a seguradora na forma de prêmio. Esse modelo foi criado pois
a maior parte dos segurados não gosta de pensar na própria morte, então ter a
expectativa receber algo no longo prazo, caso sobreviva, deixa o segurado mais
tranquilo.
E como encontrar o valor nos ativos sem ser enganado? Vamos tratar disso
no capítulo específico de cada classe de ativos. Começando pela previdência
privada.

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Resumo

Investimento bem-sucedido = Estudo + risco calculado + ação


O retorno do investimento não deve ser o foco e sim o risco.
Os ativos estão divididos em: reserva financeira, geração de renda e
crescimento.

Nem tudo o que reluz é ouro. Cuidado com os falsos investimentos.

Capítulo 11 – Previdência Privada


Previdência privada é a denominação dos fundos, geridos por instituições
financeiras, com benefícios tributários, que tem como objetivo a formação de
patrimônio para complementação da aposentadoria.
Esses fundos são divididos em PGBL – Plano Gerador de Benefício Livre –
e VGBL – Vida Gerador de Benefício Livre. Ambos não entram em inventário
e são pagos diretamente ao beneficiário informado pelo titular da previdência.
A contribuição para o PGBL pode ser deduzida da base de cálculo do
imposto de renda até o limite de 12% da renda bruta anual tributável. Já o VGBL
pode utilizar a alíquota regressiva de imposto de renda pago somente sobre os
rendimentos, diferentemente do PGBL onde o imposto de renda é cobrado sobre
o valor total.

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Se o investidor investir R$ 1.200,00 em um VGBL e ao final sacar R$
1.500,00 ele pagará I.R. sobre a diferença entre os R$ 1.500,00 e os R$
1.200,00, ou seja, sobre R$ 300,00. Por outro lado, se investir R$ 1.200,00 e
sacar R$ 1.500 no PGBL pagará imposto de renda sobre o total. Portanto, não
faz sentido investir em PGBL nenhum valor que exceda os 12% da renda
tributável que podem ser abatidos do I.R.

Fique atento à taxa de administração – que é um percentual cobrado sobre o


saldo dos investimentos – e carregamento – que é um percentual sobre o valor
investido no ato do investimento. A primeira não deve passar de 1%, enquanto
a segunda não deve nem existir. Nesse momento os grandes bancos brasileiros
já aboliram a taxa de carregamento. Talvez no momento em que você estiver
lendo esse livro a taxa de carregamento seja apenas história.
Além do VGBL e PGBL existem os fundos de pensão geridos por
instituições públicas e privadas que pretendem complementar a aposentadoria
de seus funcionários. A vantagem desses fundos é o aporte feito pela empresa
normalmente na proporção de 1 para 1, ou seja, para cada 1 real aportado pelo
funcionário a empresa ou o Estado aportam 1 real também. Infelizmente em
anos recentes acompanhamos alguns fundos de pensão exibindo grandes
déficits em razão de decisões políticas que prezaram pelos recursos dos
investidores.
O grande problema por trás da terceirização dos seus investimentos por meio
de PGBL, VGBL, fundos de pensão ou outros fundos é o risco de o gestor
cometer algum grande erro com os seus recursos.

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Quando se investe em um fundo investe-se, na verdade, na mente por trás da
gestão do fundo, seja VGBL, PGBL ou um fundo de ações. Via de regra os
gestores de fundo são remunerados por resultados de curto prazo, sendo assim,
não montarão uma carteira pensando no longo prazo.
A dica é simples, ainda que vá investir em algum desses produtos por
qualquer motivo, não deixe de investir em outros dos investimentos que
estudaremos a seguir, afinal ninguém cuidará melhor do seu dinheiro do que
você.
E a próxima classe de investimentos a ser estudada é a dos ativos de renda
fixa.

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Capítulo 12 - Renda Fixa
“Dinheiro é apenas uma ferramenta. Ele irá levá-lo onde quiser, mas não vai
substituí-lo como motorista.”
Ayn Rand

Renda fixa é uma forma de investimento onde o investidor concede um


empréstimo para uma instituição pública ou privada em troca de uma
remuneração.
A remuneração paga ao investidor em renda fixa é conhecida como juros. Os
juros são o preço do dinheiro no tempo. Ao antecipar o consumo, pegando
dinheiro emprestado, paga-se juros. Ao postergar, aplicando recursos em renda
fixa, recebe-se os juros.
“Investir em Renda Fixa significa emprestar dinheiro para alguém, como
banco, empresa ou para o governo. Na contrapartida, você recebe uma
remuneração. Quem ganha com isso não é só o investidor. Para quem emite esse
título, é uma forma de captar recursos e financiar seus projetos ou negócios,
gerando mais oportunidades para nosso País.” Cetip – Depositária de títulos
privados.
A Cetip, que pertence à bolsa de valores brasileira, B3, registra os ativos e
os vincula aos investidores. Por exemplo, caso o investidor compre um CDB do
banco X ele ficará registrado no nome do investidor na Cetip.
De forma clara, o investidor em renda fixa é um emprestador de dinheiros.

Taxa Selic

Criada em 1979 com o objetivo de tornar mais transparentes e seguras as


transações envolvendo títulos públicos, a Taxa Selic Over, que é apurada
diariamente, mas normalmente expressa em termos anuais, é a taxa média
ponderada das negociações apuradas no Sistema Especial de Liquidação e de
Custódia para títulos federais.
Existe também a Taxa Selic Meta, definida nas reuniões do Comitê de
Política Monetária (COPOM), é dela que você ouve falar no Jornal a noite.
Este sistema informatizado é destinado ao registro, custódia e liquidação das
transações efetuadas com títulos públicos.

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A Selic é a taxa básica da economia que baliza todas as demais transações
de crédito. Via de regra, quanto maior a Selic, mais caros ficam os empréstimos
e mais interessante fica o investimento em renda fixa, consequentemente menos
consumo e menos investimentos em ativos reais, imóveis e maquinários.

O CDI e a taxa CDI – o que é e como funciona

Certificado de Depósito Interbancário ou CDI é um título, de 1 (um) dia,


emitido pelas instituições financeiras que lastreia as operações do mercado
interbancário, ou seja, transações entre bancos que emprestam entre si para
sanarem seus caixas. Bancos não podem fechar o dia com caixa negativo.
Os bancos que têm excesso de dinheiro em caixa ao fim de suas transações
do dia emprestam este dinheiro para bancos que fecharam o dia com falta de
dinheiro, para isso eles cobram a taxa DI.
O CDI só é disponibilizado para negociação entre as instituições financeiras,
não sendo possível a compra destes certificados por pessoas físicas, porém a
taxa média diária do CDI é utilizada como parâmetro para balizar a
rentabilidade de fundos DI, CDB’s, LCA’s, LCI’s, dentre outros. Discutiremos
a frente estes ativos.
Quando o gerente do banco te diz que tem a disposição um CDB 85% não
significa que o CDB vai te trazer uma rentabilidade de 85% ao mês ou ao ano
e sim que pagará 85% da taxa média do CDI.
O CDI é utilizado para avaliar o custo do dinheiro negociado entre os bancos
no setor privado e essa modalidade de aplicação pode render taxa prefixada ou
pós-fixada.
Para investir é necessário analisar a taxa real e não só a nominal – presente
no rótulo – conforme será visto a seguir.

Taxa de juros real e nominal


As taxas de juros oferecidas em investimentos e empréstimos são,
geralmente, taxas nominais, aquelas que podemos ver e calcular diretamente
mesmo sem nenhuma outra informação. Porém, a taxa que realmente interessa

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aos investidores é a taxa real, que representa a diferença entre a taxa nominal e
a inflação.
Para saber a taxa real precisamos de alguns dados: a taxa nominal, a inflação
e o imposto de renda. Assim teremos a taxa real líquida.
Exemplo:
CDB pagando 110% do CDI. Quanto receberei?
Primeiro vamos consultar o CDI no sítio eletrônico da Cetip na internet: a
resposta em 02 de abril de 2019 é 6,40%.
6,40% x 110% = 7,04% a.a. – taxa nominal bruta.
Temos uma taxa nominal bruta de 7,04%, o que não quer dizer muita coisa,
dado que o que nos interessa é a taxa real líquida.
Próximo passo é deduzir o imposto de renda. Vamos considerar uma alíquota
(i) de 20% para uma aplicação de até um ano (181 a 360 dias).
Taxa nominal líquida = 7,04% x (1-i) = 7,04% x (1-0,2) = 5,63%

Agora vamos calcular a taxa real. Para isso precisamos consultar a inflação
medida pelo IPCA que, de acordo com o IBGE, era de 3,89% em fevereiro de
2019.

1 + Taxa real = (1+taxa nominal)


(1+taxa de inflação)

1 + Taxa real = (1+0,0563)


(1+0,0389)

Taxa real = 1,0167 -1

Taxa real = 1,67%

A taxa real representa o verdadeiro ganho do investidor, ou seja, se antes


conseguia com aquele capital comprar 10.000 kg de açúcar hoje consegue
comprar 10.167 kg.

FGC – Fundo Garantidor de Crédito

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Criado para evitar o pânico bancário. Cobre 250 mil reais por CPF em cada
instituição financeira, limitado a 1 milhão por investidor a cada quatro anos (4
acionamentos). Na prática, o FGC paga ao investidor estes valores em caso de
falência da instituição a qual o investidor alocou seus recursos.
A limitação de 4 acionamentos a cada 4 anos surgiu devido a busca de altas
rentabilidades por parte do investidor que passou a não considerar os riscos
envolvidos. Ainda que o investidor esteja protegido pelo FGC ele não deve
renunciar ao controle de risco.
As modalidades cobertas são as seguintes:
 Depósitos à vista ou sacáveis mediante aviso prévio;
 Depósitos de poupança;
 Letras de Câmbio (LC);
 Letras Imobiliárias (LI);
 Letras Hipotecárias (LH);
 Letras de Crédito Imobiliário (LCI);
 Letras de Crédito do Agronegócio (LCA);
 Depósitos a prazo, com ou sem emissão de certificado RDB (Recibo de
Depósito Bancário) e CDB (Certificado de Depósito Bancário);
 Depósitos mantidos em contas não movimentáveis por cheques
destinadas ao registro e controle do fluxo de recursos referentes à prestação de
serviços de pagamento de salários, vencimentos, aposentadorias, pensões e
similares;
 Operações compromissadas que têm como objeto títulos emitidos após
8 de março de 2012 por empresa ligada.
Em que prazo o FGC paga a garantia ao credor?
Não há como o FGC estipular um prazo porque depende de informações que
são passadas pelo Interventor ou Liquidante, conforme for o caso. “Uma vez
recebidas as informações e documentos o pagamento se inicia entre 10 a 15
dias” – conforme informação do FGC.
O FGC cobria em 2016 algo em torno de 1,9 trilhões de reais, contudo seu
saldo é de 2% desse valor. Aproximadamente 33,8 bilhões e reais. Em caso de
quebra de muitos bancos seria inviável a cobertura. Um banco grande
quebrando e, provavelmente, adeus FGC.

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Títulos Privados

Caderneta de poupança

Investimento mais tradicional do Brasil, a poupança foi criada em 1861 pelo


imperador Dom Pedro II no decreto que instituiu a criação da Caixa Econômica
Federal. A caderneta paga uma remuneração mensal, possui liquidez diária e o
seu saldo é coberto até o valor de 250 mil reais por CPF, por instituição
financeira, pelo FGC – Fundo Garantidor de Crédito.
A remuneração da caderneta de poupança ocorre no dia do aniversário
mensal do depósito e se dá da seguinte forma: caso o depósito tenha sido
realizado até 3 de maio de 2012 – poupança antiga – a remuneração será de
0,5% ao mês mais a T.R. (Taxa Referencial) – taxa usada como um fator de
correção monetária de empréstimos, do FGTS e de investimentos. Contudo, se
o depósito foi realizado a partir de 4 de maio de 2012 – nova poupança – a
remuneração passa a depender da meta anual da Taxa Selic (Selic meta).
Na hipótese de a meta anual da Taxa Selic ser superior a 8,5%, permanece a
regra anterior de 0,5% ao mês mais a T.R.
Por outro lado, se meta anual for 8,5% ou inferior, a remuneração será a T.R.
mais 70% do valor estabelecido como meta anual para a Taxa Selic, ajustado
para o período de um mês. Sendo assim, a remuneração adicional pode variar
de zero até 0,483% ao mês – 70% de 8,5% a.a. numa base mensal.
Este investimento, a despeito do baixo rendimento, pode ser utilizado como
reserva de emergência devido à sua elevada liquidez. É possível realizar saques
da poupança até mesmo nos finais de semana.
O investidor somente deve se atentar para não deixar grandes volumes de
recursos na poupança, pois mesmo que esta modalidade de investimento seja
garantida pelo FGC e tenha liquidez imediata, há modalidades de investimentos
mais rentáveis e tão seguras quanto a poupança.

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CDB

O CDB – Certificado de Depósito Bancário – é um investimento onde o


aplicador empresta recursos ao banco em troca de uma taxa de juros prefixada
ou pós-fixada. Esta taxa, normalmente pós-fixada, costuma ser um percentual
do CDI, que varia entre 70% e 120%.
O investimento é tributado, pagando imposto de renda na tabela regressiva e
IOF nos primeiros 30 dias. Assim, caso você aplique seu dinheiro em um CDB
hoje e resgatar qualquer valor deste título em até 30 dias será recolhido o
Imposto sobre Operações Financeiras sobre os rendimentos auferidos com o
montante resgatado. Porém, após os 30 primeiros dias de investimento este
imposto não é mais devido, passando a incidir apenas o IR Além disso, os
CDB’s são cobertos pelo FGC até o limite de 250 mil reais por CPF em cada
instituição financeira.
Essa modalidade de investimento pode representar uma opção como reserva
de emergência quando sua liquidez é imediata ou o resgate é automático na
conta. Lembre-se, só serve para reserva de emergência se você puder sacar ao
menos parte no fim de semana.

LC

A LC – Letra de Câmbio – tem as mesmas características de um CDB, porém


são emitidas pelas financeiras ao invés dos bancos. Normalmente, devido ao
risco maior, pagam um retorno mais alto.
As LC’s, assim como os CDB’s, são cobertas pelo FGC até o limite de 250
mil reais por CPF em cada instituição financeira.

LCA
A LCA – Letra de Crédito do Agronegócio – investimento lastreado em
operações de crédito do agronegócio, disponibilizada por bancos, financeiras e
cooperativas de crédito autorizadas.

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As letras são isentas de imposto de renda e cobertas pelo FGC até o limite
de 250 mil reais por CPF em cada instituição financeira.

LCI

A LCI – Letra de Crédito Imobiliária – investimento lastreado em operações


de crédito imobiliário, disponibilizada por bancos, financeiras e cooperativas
de crédito autorizadas.
LCI’s são isentas de imposto de renda e cobertas pelo FGC até o limite de
250 mil reais por CPF em cada instituição financeira.
As Letras – LCI e LCA – tem liquidez mais restrita, variando de acordo com
a instituição, mas não inferior a 90 dias. Elas podem ser emitidas com ou sem
liquidez após o prazo mínimo. Naquelas com liquidez, o investidor pode sacar
a qualquer momento passados os 90 dias. Por outro lado, nas sem liquidez, o
investidor só pode sacar o valor investido mais os juros na data de vencimento.
As letras são reguladas pela lei 10.931/2004.

CRI e CRA
Os CRI’s – Certificado de Depósito Imobiliário – e os CRA’s – Certificados
de Depósito do Agronegócio – são ativos securitizados, criados com lastro
imobiliário ou de operações do agronegócio.
Securitizar é transformar algo em “securities” ou títulos e valores
mobiliários. O termo deriva do inglês “securitization”.
A securitizadora transforma os créditos do mercado imobiliário em ativos
negociáveis.
Exemplo: Um grande investidor aluga seu imóvel por 100 mil reais ao mês
durante 3 anos, porém ele precisa de 2,5 milhões imediatamente. Esse
investidor vai até uma companhia securitizadora que oferece a ele 2,6 milhões
– valor obtido por cálculos atuariais – por aqueles 3,6 milhões de aluguel que
ele terá direito ao longo do tempo. Securitizados, os aluguéis futuros se tornam
um CRI, e a securitizadora irá vendê-lo no mercado.

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Existem outras modalidades de securitização de CRI como para a construção
civil, por exemplo.
Os CRI’s podem ser pulverizados, um único CRI com centenas de
financiamentos imobiliários, por exemplo, ou possuir uma única empresa
devedora. Neste último caso dizemos que é um CRI corporativo.
O investidor é remunerado através de juros que serão pagos conforme
determinado no certificado.
A maneira de avaliar a qualidade do CRI é pelo risco de crédito.
Normalmente o CRI recebe uma classificação feito por uma agência de rating.
Normalmente estas modalidades de investimento exigem um aporte inicial
maior, acima de 100 mil reais, sendo que muitos CRI’s e CRA’s são
direcionados para investidores qualificados (com patrimônio acima de 1 milhão
de reais) se tornando um investimento inviável para o pequeno investidor. O
risco é mais alto, pois pode ocorrer calote do locatário ou adquirente do imóvel
e esses títulos não são cobertos pelo FGC.
Tanto os CRI’s quanto os CRA’s pagam imposto de renda conforme tabela
regressiva.
A forma viável, para que o pequeno investidor acesse o mercado de CRI’s e
CRA’s, é a compra de fundos de investimento imobiliários do segmento TVM
que terá um capítulo próprio neste livro.

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Debêntures

Debêntures são títulos da dívida das Sociedades Anônimas não bancárias.


Empresas podem captar recursos através de empréstimos bancários, emissão de
ações, dentre outras opções. Uma delas é a emissão de debêntures.
A grande vantagem para as empresas em emitir debêntures ao invés de
solicitar um empréstimo bancário é o fato de que, quando emite uma debênture,
a empresa é quem define como, quando e o quanto vai pagar, cabendo ao
investidor aceitar ou recusar as condições propostas.
Quando os recursos captados pelas debêntures serão utilizados em algum
projeto de infraestrutura o Estado dá um benefício, a isenção de imposto de
renda. Tal debênture é denominada debênture incentivada.
Existem três tipos de debêntures. São elas:
a) Debêntures conversíveis – podem ser convertidas em ações da
companhia.
b) Debêntures simples ou não conversíveis – não podem ser convertidas
em ações da companhia. São as mais comuns.
c) Debêntures permutáveis – podem ser convertidas em ações de outras
companhias.
Ao investir em debêntures, dois documentos devem ser analisados:
a) O prospecto da emissão, onde é apresentada a companhia aos
investidores e ao mercado em geral.
b) Escritura de emissão, documento que contém as cláusulas contratuais da
emissão.
A companhia que emite a debênture normalmente oferece algum tipo de
garantia ao investidor. Atualmente estas garantias estão divididas em:
a) Real – garantida por bens da companhia.
b) Flutuante – possui privilégio sobre o ativo da companhia.
c) Quirografária – concorre em igualdade com outros credores.
d) Subordinada – está acima apenas do acionista.
e) Outras garantias acessórias.
Debêntures não são garantidas pelo FGC – Fundo Garantidor de Crédito.
Sendo assim, o cuidado ao investir nestes ativos deve ser redobrado. Este
investimento é adequado para investidores mais experientes e com grande
familiaridade com a análise da companhia emitente.

56
Fundos de renda fixa

Os fundos de renda fixa tiveram sua nomenclatura alterada a partir de 2015.


A nova classificação da ANBIMA – Associação Brasileira das Entidades dos
Mercados Financeiro e de Capitais – divide os fundos em três níveis:
1º Nível: Classe de ativo
2º Nível: Riscos
3º Nível: Estratégias de investimento

Dentro do primeiro nível os fundos estão agrupados em 4 classes:


1. Fundos de renda fixa
2. Fundos de ações
3. Fundos multimercados
4. Fundos cambiais

Os fundos de renda fixa serão nosso objeto de estudo aqui.


O segundo nível divide os fundos conforme a gestão (ativa ou passiva). Na
gestão ativa o gestor tem mais liberdade para a compra e venda de ativos,
enquanto na passiva existem regras mais rígidas previstas no regimento do
fundo.
Por fim, no terceiro nível, temos a classificação quanto à estratégia do fundo.

Inicialmente é analisada a classe do fundo, no caso Renda Fixa. Isso significa


que estão excluídos do fundo quaisquer investimentos em renda variável. O
fundo pode investir em ativos de renda fixa no Brasil ou exterior.

57
Dentro do segundo nível, os fundos de renda fixa simples são compostos, de
acordo com a instrução CVM 555/2014, da seguinte forma: 95%, no mínimo,
de seu patrimônio líquido representados por:
a) títulos da dívida pública federal;
b) títulos de renda fixa de emissão ou coobrigação de instituições financeiras
que possuam classificação de risco atribuída pelo gestor, no mínimo,
equivalente àqueles atribuídos aos títulos da dívida pública federal;
c) operações compromissadas lastreadas em títulos da dívida pública federal
ou em títulos de responsabilidade, emissão ou coobrigação de instituições
autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil, desde que, na hipótese de
lastro em títulos de responsabilidade de pessoas de direito privado, a instituição
financeira contraparte do fundo na operação possua classificação de risco
atribuída pelo gestor, no mínimo, equivalente àquela atribuída aos títulos da
dívida pública federal;
Os fundos indexados têm como objetivo seguir indicadores do mercado de
renda fixa, na maior parte dos casos a Selic e a taxa DI ou CDI.
Os fundos ativos são divididos conforme o “duration” médio dos títulos, ou
seja, o vencimento médio dos ativos:
a) Duração baixa – títulos com “duration” média ponderada de vencimento
abaixo de 21 dias, buscando assim minimizar a oscilação dos juros futuros.
b) Duração média – títulos com “duration” média ponderada próxima a
IRF-M – carteira fictícia composta de títulos prefixados – medida no último dia
útil de junho de cada ano.
c) Duração Longa – títulos com “duration” média ponderada igual ou
superior à apurada no IMA-geral – Carteira fictícia de títulos indexados à
inflação que exclui títulos indexados ao IGP-M (NTN-C) – por conta da não
emissão de novos títulos e baixa liquidez observada no segmento no último dia
útil de junho.
d) Duração Livre – o gestor pode escolher os vencimentos que achar mais
convenientes.
No terceiro nível temos:
Os fundos soberanos, que investem 100% dos recursos em títulos públicos
federais notadamente são fundos com risco de crédito menor.
Já os fundos categorizados como grau de investimento investem 80% ou
mais dos recursos em títulos públicos federais ou ativos com classificação de
risco igual ou superior à dos referidos títulos.

58
Quando o investidor opta por um fundo denominado como renda fixa
simples, no terceiro nível, a única opção disponível será renda fixa simples. Já
se o investidor optar pela renda fixa de gestão indexada, o comportamento do
fundo passa a ser atrelado ao índice de referência.
Quando escolhe um fundo denominado investimento no exterior, as opções
para o terceiro nível são:
i) Investimento no Exterior: Fundos que investem em ativos financeiros
no exterior em parcela superior a 40% do patrimônio líquido.
ii) Dívida Externa: Fundos que investem no mínimo 80% de seu
patrimônio líquido em títulos representativos da dívida externa de res-
ponsabilidade da União.
Para maior aprofundamento sobre fundos, ler a instrução 555 de 2014 da
CVM e a cartilha da nova classificação disponibilizada pela ANBIMA.
É importante frisar que fundos de renda fixa não contam com a proteção do
FGC – Fundo Garantidor de Crédito.

Come-cotas

O come-cotas é uma forma de antecipação do imposto de renda feita pelos


fundos nos meses de maio e novembro, essa antecipação é feita através da
redução das cotas de propriedade do investidor. O problema do come-cotas é
que ele interrompe a ação dos juros compostos sobre parte dos recursos, levando
a uma diminuição do patrimônio.

Conclusão sobre títulos privados

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Os títulos privados, apesar de terem um risco de crédito mais alto do que os
públicos, tem seu lugar em uma carteira bem montada.
Devemos destacar que a reserva de emergência deve ser alocada
prioritariamente em títulos privados com liquidez imediata, em especial a
caderneta de poupança ou CDB, que, desde que emitidos pela mesma
instituição, tem o mesmo risco e são cobertos pelo FGC.
Entender os riscos inerentes aos títulos privados, não se expondo a estes
investimentos sem uma análise de risco e uma diversificação adequada, é o
melhor caminho para evitar surpresas desagradáveis.

Títulos Públicos

Títulos públicos são papéis emitidos pela Secretaria do Tesouro Nacional


(STN), a fim de financiar os gastos do governo ou reduzir a liquidez do
mercado, fazendo política monetária contracionista.
Os indivíduos, ao receberem recursos, seja um salário, renda ou
aposentadoria, se veem diante de um dilema: consumir ou poupar. Quanto
maiores são as taxas de juros, de acordo com a teoria econômica, mais os
indivíduos tendem a poupar e menos a consumir, e vice e versa. Sendo assim o
governo tende a usar a taxa de juros para estimular ou frear a economia e a
inflação. Quanto maior o consumo, sem um correspondente aumento na
produção, maior a inflação. Sendo assim, aumentar os juros reduz o consumo
diminuindo a pressão inflacionária.
A inflação é a variação dos preços de produtos e serviços no mercado
segundo diversas variáveis, como aumento ou redução dos custos de produção,
transporte etc. Esta variação é medida por instituições oficiais, como o IBGE –
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e a FGV – Fundação Getúlio
Vargas. Há diversos índices de inflação focados em cestas de produtos e
serviços, como por exemplo o IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo
e o IGP – Índice Geral de Preços.
Tais títulos podem, ou não, pagar cupons de juros, que são valores pagos aos
investidores, regularmente, entre a emissão e o vencimento dos títulos. No caso
dos títulos públicos federais, estes cupons são semestrais.
Atualmente são disponibilizadas diretamente aos investidores pessoa física,
por meio do programa do Tesouro Direto, as seguintes categorias de títulos:

60
Tesouro Selic

Começando pelo Tesouro Selic, título mais simples, tem sua remuneração
definida pela Taxa Selic, acrescida de um pequeno ágio ou deságio. Em abril
de 2019, estava disponível para o investidor o seguinte título:

A primeira informação que encontramos é a descrição. Nela temos o nome


do título, Tesouro Selic, bem como o ano de vencimento, 2025. Em seguida
temos a informação do vencimento propriamente dito, 01 de março de 2025, no
caso.
O ágio ou deságio trata-se de uma diferença entre o valor do título e o seu
preço. Quando este valor é negativo, significa que estamos comprando com ágio
e receberemos um valor um pouco menor do que a Selic. Quando o valor é
positivo, estamos comprando o título com deságio e receberemos um pouco
mais do que a Selic. No exemplo em questão 0,02% a mais ao ano.
O valor mínimo que se pode comprar do título é a fração de 1%. No caso do
Tesouro Selic, 1% são R$ 100,25, uma vez que o título inteiro em abril de 2019
estava custando R$ 10.025,53.
O Tesouro Selic é recomendado para todos aqueles que precisam de liquidez.
Como ele não sofre marcação a mercado – é a atualização diária do preço dos
títulos pelo valor a que são negociados no mercado, independente do seu valor
intrínseco – e pode ser sacado no dia seguinte, isto é, D+1, é uma boa opção
para quem pode precisar do dinheiro antes do vencimento do título.
Não se deve deixar toda a sua reserva de emergência neste título, pois, caso
precise de recursos aos sábados ou domingos, não poderá sacar. Além disso
também não é possível sacar quando acontece a reunião do COPOM ou quando,
devido à instabilidade da economia, o mercado de títulos é fechado. Sendo

61
assim, pelo menos uma parte da sua reserva de emergência deve estar em
caderneta de poupança ou outro produto de renda fixa que possa ser sacado aos
sábados e domingos.

Tesouro IPCA
Título que garante uma rentabilidade real, ou seja, acima da inflação medida
pelo IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo – que mede o aumento
geral de preços com base no consumo médio de famílias que recebem de 1 até
40 salários mínimos. É preciso atenção com a marcação a mercado, pois se
vender antes do vencimento poderá haver perdas caso o preço unitário do título
esteja abaixo do VNA – Valor Nominal Atualizado.
O VNA representa o valor atual do título, corrigido pelo seu indexador, no
caso a inflação medida pelo IPCA, considerando que ele tivesse sido emitido
em 15 de julho de 2000 – data fictícia estabelecida arbitrariamente pelo Tesouro
– pelo valor de 1.000 reais.
Este título normalmente tem prazos mais longos. Sendo assim, é
recomendado para objetivos de longo prazo ou sem prazo definido, mas nunca
para objetivos de curto prazo que não coincidem com o vencimento do título.
Exemplos de uso do título: compra de carro ou imóvel na data de
vencimento, acúmulo de patrimônio para aposentadoria ou tranquilidade
financeira.
Atualmente estão disponíveis os seguintes títulos:

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O nome do título, Tesouro IPCA+, faz referência ao fato de o título pagar a
inflação medida pelo IPCA mais uma taxa de rendimento percentual ao ano.

Tesouro prefixado
Título com caráter mais especulativo, ele paga uma taxa combinada no ato
da contratação, ou seja, o investidor sabe exatamente quanto receberá em
termos nominais no vencimento.
O investidor perde caso a inflação suba para níveis acima da rentabilidade
líquida contratada ou incorre em custo de oportunidade, ou seja, ganha-se
menos no período do que ganharia aplicando em outros títulos caso a Taxa Selic
suba para níveis acima do valor contratado.
Em uma economia bastante estável este título faz sentido, porém em um país
onde a taxa básica de juros passa mais tempo se movendo do que parada os
riscos são altos.
Atualmente estão disponíveis os seguintes títulos prefixados:

Cupons
O cupom de juros é uma forma de o emissor do título ir pagando ao
investidor juros antes do vencimento do título. Ocorrem semestralmente no caso
dos títulos públicos federais, sendo em fevereiro e agosto para títulos IPCA com
vencimento em anos pares e maio e novembro para os com vencimento em anos
ímpares. Os cupons dos títulos prefixados são pagos em janeiro e julho.
A escolha por comprar títulos que pagam ou não cupons depende de vários
fatores. A primeira coisa que o investidor precisa saber é que antecipará o

63
pagamento de imposto de renda ao receber os cupons. Sendo assim somente
compensará comprar títulos para o recebimento dos cupons para aqueles que
pretendem utilizá-los, ou seja, precisam de uma renda previsível, frequente
(semestral ou trimestral) e que seja corrigida pelo IPCA.
Normalmente estes títulos são indicados para idosos ou outras pessoas que
querem uma complementação de renda e não pretendem vender partes dos
títulos quando precisarem, seja por medo de sofrerem perdas com a marcação a
mercado, seja por preferirem a comodidade de uma renda frequente e corrigida.
O cupom do Tesouro IPCA é pago semestralmente em um valor de 6% ao
ano ou 2,956% ao semestre sobre o VNA – Valor Nominal Atualizado – do
título. Este valor é corrigido pela inflação medida pelo IPCA e com isso o
cupom também será corrigido pela inflação. Do cupom são deduzidos os
impostos e taxas de custódia e administração proporcionais.
O cupom do Tesouro Prefixado é de 10% ao ano ou 4,88% ao semestre sobre
R$ 1.000,00. Este título é recomendado, no máximo, para o pagamento das
taxas do Tesouro, dado que a data de pagamento do cupom coincide com a data
de cobrança destas taxas. Diferente do Tesouro IPCA+, este título não é
corrigido pela inflação, ou seja, o valor a ser recebido por unidade do título, no
vencimento, é de R$ 1.000,00, independentemente da inflação, além de todos
os cupons recebidos no período. Os cupons vão perdendo valor ao longo do
tempo, pois não são corrigidos pelo IPCA, mesmo tendo sempre o mesmo valor
nominal o poder de compra do cupom será cada vez menor.
Caso decida utilizar este título para o pagamento das taxas, basta alocar 5%
da sua carteira de títulos públicos neste ativo.

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Montando uma carteira de renda fixa

Na hora de escolher o seu investimento em renda fixa algumas informações


são necessárias:
1. Quando precisará do dinheiro? Precisa de liquidez?
2. Existe um valor para seu objetivo? Qual?
3. Suporta ver o investimento ter variações ao longo do tempo?
A primeira pergunta é bem simples. Tente casar o vencimento dos títulos
com seus objetivos e, caso precise do recurso a qualquer momento, ou seja,
liquidez imediata, não compre nada sujeito a marcação a mercado, como títulos
pré-fixados ou mistos (Tesouro IPCA).
Se existir um valor e um prazo para seu investimento, é recomendável que
compre um título adequado e planeje-se quanto aos aportes. Por exemplo, a
compra de um carro dentro de 5 anos precisa de um título que vença em 5 anos
ou então um título que não sofra marcação a mercado.
Em relação aos cupons, os títulos IPCA com cupom são recomendados para
aqueles que precisam de uma renda frequente, pois os cupons, pagos
semestralmente, são corrigidos pelo IPCA. Aposentados e herdeiros de grandes
valores, com baixo conhecimento sobre investimentos ou grande aversão ao
risco, podem se beneficiar ao utilizar esse título em seu planejamento.
Por fim é preciso avaliar se o investidor suporta ou não ver seu investimento
valorizar e desvalorizar ao longo do tempo. Caso ele não suporte, títulos que
sofrem com a marcação a mercado não são adequados para sua carteira.

Razões para montar uma carteira de renda fixa

Ao montar uma carteira de renda fixa, assim como ao montar qualquer


carteira de investimentos, é necessário analisar liquidez, rentabilidade e
segurança.
O investidor monta uma carteira de renda fixa basicamente por quatro
motivos: montar uma reserva de emergência, se proteger das grandes flutuações
da renda variável, fazer uma economia para a compra de alguma coisa, proteger
seus recursos da inflação ou planejar sua aposentadoria.

65
A reserva de emergência, conforme já explorado, é um valor que vai de três
até vinte e quatro vezes as suas despesas mensais, em uma renda fixa de liquidez
imediata. A condição para que um ativo sirva para a função de reserva é a
possibilidade do saque de ao menos parte no fim de semana. Normalmente
recomenda-se a caderneta de poupança ou equivalente no banco de
relacionamento do investidor.
Sobre a proteção contra flutuações do mercado, a renda fixa serve como uma
segurança a mais para o estado emocional do investidor quando o mercado está
em baixa. Tendo como recorrer à renda fixa, as chances de o investidor vender
suas ações em pânico, são menores.
Quando a pessoa decide comprar algo, ela tem duas opções, pagar à vista ou
a prazo. Ao pagar à vista o indivíduo pode conseguir um desconto, mas para
fazê-lo ele precisa do dinheiro em mãos e, até lá, tem de juntar este valor em
algum lugar. A renda fixa é este lugar, em parte devido a sua previsibilidade
que facilita o planejamento, em parte pela segurança.
Por exemplo, se pretender comprar um carro, faz muito mais sentido colocar
os recursos em renda fixa do que em ações, pois, na data planejada para a
compra do veículo, essas ações podem estar em queda e o valor ser insuficiente
para a compra do automóvel.
A regra para a compra de quaisquer bens é simples: priorizar o Tesouro IPCA
com vencimento na data da compra e, caso este não exista, utilizar o Tesouro
Selic, pois o último não sofre marcação a mercado.
Por fim, a renda fixa, apesar de não proporcionar um crescimento expressivo
do patrimônio, traz, geralmente, uma remuneração acima da inflação, ou seja,
seus recursos valerão mais no futuro do que valem hoje em termos de poder de
compra. Tal proteção é essencial, especialmente em um país com um histórico
inflacionário tão terrível como é o caso do Brasil.
Outros motivos podem ser encontrados para montar uma carteira com ativos
de renda fixa. Espero que você comece a sua agora mesmo!

Resumo Renda Fixa


Compre títulos cujo vencimento coincida com os seus objetivos:
Exemplo: Carro em 2024, comprar título com vencimento em 2023 ou 2024.
Casa em 2035, compre um título com vencimento em 2035.

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Cuidado com títulos pré-fixados, as grandes variações da economia afetam
mais esta categoria. Se quiser comprar tenha um percentual pequeno da carteira.
Somente compre títulos que pagam cupons de juros caso pretenda utilizá-
los, pois antecipará o pagamento de impostos.
Não tenha um percentual grande do seu patrimônio em títulos privados e não
concentre esse percentual em poucas instituições (bancos, financeiras etc.).
Lembre-se do limite de cobertura do FGC e, ainda assim não confie cegamente
nesta garantia.
Não despreze a renda fixa, pois ela será seu porto seguro nos momentos de
turbulência do mercado e consequentemente dos ativos de renda variável.

67
Capítulo 13 - Imóveis

“Se você comprar um imóvel ele será seu, se financiar você será dele”
Fernando Almeida Mizobuti

A compra da casa própria é, na maioria das vezes, a decisão financeira mais


séria tomada por famílias e indivíduos. É assustador notar o quão pouco estudo
é feito antes de tal decisão. Normalmente o cidadão estuda e analisa mais antes
de comprar um carro do que uma casa.
Inicialmente deve-se verificar as duas finalidades da compra de um imóvel.
A primeira delas, e mais comum, é a aquisição do imóvel para moradia. Outra
opção é a compra do imóvel para investimento, que se divide em duas formas
diferentes: compra do imóvel para posterior venda auferindo ganho de capital
ou a compra de um imóvel com o intuito de alugar para receber um fluxo de
caixa gerado pela renda paga na forma dos aluguéis.
Começamos analisando a compra do imóvel para moradia, que é o sonho de
grande parte da população. Neste caso, o imóvel comprado deve se adequar às
necessidades da família não só no curto prazo, mas também no médio e longo
prazo. Um casal que pensa em ter dois filhos não deve comprar um apartamento
de um ou dois quartos. Um indivíduo que trabalha na região norte de uma
grande cidade deve evitar comprar um imóvel na região sul, ainda que seja mais
barato. Na hora de comprar o imóvel para moradia é essencial que seja
verificada a qualidade de vida que aquele imóvel trará para a pessoa e sua
família. Viver em um imóvel alugado, muitas vezes, será a escolha mais
racional.
Em grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte, o
tempo de deslocamento entre a casa e o trabalho impacta fortemente na
qualidade de vida das pessoas. Uma forma de reduzir esse tempo é, sempre que
possível, morar próximo ao trabalho. Algumas vezes isso é impossível, pois o
trabalho está localizado em uma região ruim da cidade, em uma muito cara ou
porque o casal trabalha em locais distantes um do outro. Fazendo com que a
opção por morar perto do trabalho de um, resulte em morar longe do trabalho
do outro.
O que se vê com frequência são pessoas comprando apartamentos em regiões
muito distantes de onde trabalham ou de onde gostariam de estar simplesmente

68
para saciar o sonho da casa própria e, consequentemente, perdendo tempo e
qualidade de vida.
Existe no Brasil uma visão equivocada de que pagar aluguel é “jogar
dinheiro fora”. Nada mais ingênuo, pois o aluguel dá flexibilidade ao indivíduo
permitindo que se mude sempre que necessário, especialmente enquanto não
está estabilizado profissionalmente. Imagine o indivíduo que financie um
imóvel em Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, e mude de
trabalho indo trabalhar em Sabará ou Vespasiano, cidades diametralmente
opostas na região metropolitana. Caso ele esteja alugando um imóvel fica fácil
entregá-lo e se mudar, mas se tiver comprado, especialmente via financiamento,
ficará preso tendo de enfrentar horas de trânsito diário para chegar ao trabalho.
A qualidade de vida do indivíduo será comprometida e ele talvez passe a viver
em meio ao trânsito durante, até mesmo, 30% do seu tempo.
A opção entre alugar ou comprar (para aqueles que tem condições de
comprar sem contrair uma dívida) é uma escolha que envolve fatores
emocionais e financeiros. Algumas pessoas não conseguem ser felizes pagando
aluguel e, se terapia não resolver, a compra será a opção mais sensata, o que
não dispensa um planejamento. Por outro lado, aqueles que forem pesar mais
os fatores financeiros, na maioria das vezes, decidirão pelo aluguel, que é, em
geral, mais barato.
De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Fazenda sobre o
percentual de imóveis alugados em relação aos imóveis ocupados, o Brasil está
na 18ª posição entre 20 países, com 16,56% (9,5 milhões de unidades) à frente
somente da Grécia (16%) e Espanha (15%). No lado oposto, a Alemanha tem
57% dos imóveis ocupados, alugados, a Holanda 47% e a Áustria 46%. Ou seja,
de maneira geral, em países com economias mais sólidas, mais pessoas optam
por viver em imóveis alugados.
O ideal é que a compra do imóvel para moradia seja precedida de muito
planejamento e análise. Algumas perguntas-chave devem ser respondidas
durante a análise:
1. Você pretende morar neste imóvel por muito tempo?
2. Se tiver que viver neste local pelo resto da vida, será feliz?
3. São de fácil acesso os comércios e serviços que você considera
essenciais, como por exemplo academias, lojas, restaurantes, supermercados e
farmácias?
4. O acesso ao seu trabalho é fácil?

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5. Você está estabilizado no trabalho e pretende permanecer nele?
6. O tamanho do imóvel é adequado ao tamanho atual ou pretendido da
família?
Um não a qualquer uma dessas respostas já é motivo para reavaliar a opção
pela compra do imóvel. Caso a resposta para a maioria das perguntas seja não,
o imóvel deverá ser descartado. Em caso de negativa para as perguntas 1 ou 2,
provavelmente você ficará melhor se desistir da compra deste imóvel para
moradia.
Escolhido o imóvel, chegou a hora de planejar a compra. Existem 3 formas
mais conhecidas: o consórcio, o financiamento ou o acúmulo do valor do
imóvel.
O consórcio é a primeira forma, nela você paga uma parcela mensal
juntamente com outros consorciados e todo mês um ou mais consorciados são
contemplados. Seja pelo sorteio ou por terem dado um lance – montante abatido
antecipadamente do consórcio. Esta forma depende de sorte e outros fatores
incontroláveis. Pode dar muito certo, assim como pode dar muito errado. Como
não devemos contar com a sorte na hora de uma decisão tão séria quanto a
compra de um imóvel, iremos ignorar tal opção.
A opção seguinte é o financiamento imobiliário. Esta faz sentido apenas para
alguns indivíduos, optantes pelo regime de FGTS, que podem dar uma entrada
suficiente de modo que a prestação não comprometa um percentual muito alto
da renda e seja possível montar um planejamento para quitação do imóvel
dentro de 10 a 12 anos, no máximo.
Existem dois sistemas distintos de financiamento imobiliário: o SAC, ou
Sistema de Amortização Constante, e o PRICE ou SAF – Sistema de
Amortização Francês – com parcelas iguais e a amortização crescente. Evite ao
máximo fazer o financiamento pelo sistema PRICE, pois nos dois casos as
parcelas são corrigidas por algum índice como a TR – Taxa Referencial, porém,
no sistema SAC a parcela vai caindo com o tempo e, ao menos, compensando
esse reajuste.
Destaca-se que, apesar de você começar pagando mais no sistema SAC,
termina pagando menos, facilitando assim a organização do orçamento ao longo
do tempo.
Além disso ao financiar você terá de pagar IOF –Imposto sobre Operações
Financeiras –, e talvez uma TAC – Taxa de abertura de crédito – além de o
banco exigir de você um seguro da dívida para o caso de falecimento que irá

70
variar conforme o valor do imóvel e a sua idade. Em alguns casos sob o pretexto
de reciprocidade o banco exige que o cliente contrate um título de capitalização
e até mesmo um cartão de crédito.
A cada ano o indivíduo pode utilizar o FGTS para reduzir o valor da
prestação paga, porém, esta atitude não é inteligente, afinal não reduz sua dívida
ou os juros pagos. O ideal é utilizar o saldo do FGTS a cada dois anos para
abater do saldo devedor, pagando as últimas parcelas. Não financie sem um
projeto para quitação do imóvel. Aliás, de preferência, não financie de jeito
nenhum!
Perceba também que em alguns casos de financiamentos antigos pelo SFH –
Sistema Financeiro de Habitação, após o pagamento do financiamento sobra
um saldo residual para o tomador pagar. Este valor corresponde algumas vezes
a 40% do valor do imóvel. Tenha muito cuidado com os financiamentos.
Por fim vamos abordar a última e mais racional forma de aquisição do
imóvel: a poupança e consequente acúmulo do valor para a compra da casa.
Vamos começar analisando a forma como a simulação deve ser feita. As
taxas de juros reais no Brasil nos últimos 10 anos têm sido em média 4,5%.
Portanto, para uma projeção conservadora, o ideal é que seja utilizada, no
máximo, uma taxa de 4,0% a.a. em sua simulação, pois o preço dos imóveis
tende a acompanhar a inflação e o poder de compra da população com o tempo.
Primeiro é preciso escolher o imóvel e a região, vamos supor um apartamento
com dois quartos na Região Central de Belo Horizonte que custa, em média,
300 mil reais. Além deste valor, serão gastos 15% em taxas e impostos,
totalizando 345 mil reais. Vamos supor que o indivíduo planeja comprar este
imóvel em 10 anos, considerando uma taxa real, conservadora, de 3,5% a.a.
Como estamos considerando a taxa real, não precisamos corrigir o valor do
imóvel. Sendo assim, o indivíduo deverá poupar R$ 2.412,23 por mês em um
investimento atrelado ao CDI ou à Selic. Se o seu prazo for 20 anos esse valor
cairá para R$ 1.000,68 reais.
Considerando questões relacionadas ao mercado imobiliário e à taxa de
juros, é possível que você alcance o montante em um prazo maior ou menor,
mas não muito diferente. Então não fique muito preso ao prazo e estabeleça
aquele valor de aporte calculado como um piso. Quando puder, aporte mais.
Outra vantagem em juntar o valor é que, com o dinheiro, o comprador ganha
poder de negociação, podendo pedir descontos e condições diferenciadas, além
de escolher entre diversos imóveis, mesmo aqueles não abrangidos pelo SFH.

71
Quando você financia o imóvel contrai uma dívida e consequentemente uma
obrigação a cumprir. Por outro lado, quando investe, recebe juros e em caso de
imprevistos tem um recurso financeiro para te ajudar e não uma obrigação. A
pessoa que paga aluguel pode se mudar para outro imóvel mais barato, caso
necessário, ou para um imóvel mais próximo do seu novo trabalho.
A poupança visando a aquisição do imóvel, apesar de exigir muita disciplina
e planejamento, é, sem dúvida, a forma mais racional de adquirir a casa própria.
A próxima finalidade de compra do imóvel estudada é a aquisição para
investir almejando ganho de capital. Quem nunca ouviu a história de um tio ou
colega de trabalho que comprou um terreno e depois vendeu por duas ou três
vezes o valor? Para investir almejando ganho de capital o indivíduo precisa
estudar a localização do imóvel, em especial os projetos de infraestrutura para
a região como linhas de metrô, hospitais, shopping centers dentre outros. Além
disso, deve pesquisar outros dados como vacância na região e linhas de
financiamento, pois aquele que comprar o imóvel do investidor dificilmente
comprará a vista. Outra dica importante é que você pode procurar a Prefeitura
da cidade escolhida e pedir para visualizar os mapas das obras dos seus locais
de interesse. Dessa maneira é possível saber se vão construir um viaduto ou
alguma outra grande obra próxima à região.
Durante o chamado “boom” dos imóveis ocorrido no final da primeira
década do milênio, os imóveis subiram muito de preço no Brasil e quase
ininterruptamente, por isso mesmo investidores inexperientes e com
pouquíssimo conhecimento conseguiram ganhar bastante dinheiro utilizando
esta estratégia de compra e posterior venda dos imóveis, mas em circunstâncias
normais este procedimento é mais difícil e com elevadas chances de perdas,
portanto tome cuidado.
Entre os seus amigos, ou mesmo na sua família, deve haver alguém que
possui imóveis alugados. Você deve ter ouvido alguma história sobre um
senhorzinho que possuía uma dúzia de apartamentos e, com isso, garantiu uma
aposentadoria tranquila. Essa forma de investir em imóveis consiste em
comprá-los com o intuito de obter renda por meio da locação. Neste caso existe
um fator que deve ser analisado e se sobrepõe a todos os demais: localização.
Analisar a localização envolve alguns pontos importantes, em especial a
vacância e a infraestrutura da região.
Começando pela vacância, quanto mais imóveis vagos houver na região mais
difícil será para você alugar. Terá de colocar valores menores e terá pouca

72
possibilidade de escolha de inquilinos, ou seja, precisará aceitar o que vier. Por
outro lado, se a vacância for baixa e, consequentemente, for difícil encontrar
imóveis vagos para aluguel na região, será mais fácil alugar e você poderá ser
mais exigente, cobrando um valor maior de aluguel, por exemplo.
Prefira imóveis menores. É bem mais fácil alugar um apartamento nos
moldes quarto e sala do que um apartamento com 3 ou 4 quartos.
Sobre a infraestrutura, verifique a presença de transporte público, pois
facilita a locação para pessoas que trabalham em regiões distantes. A
disponibilidade de internet, luz e água são essenciais. Relógio individual para
luz, água e gás também ajudam na locação e reduzem seus custos em períodos
de vacância.
Ao comprar um imóvel com a finalidade de investir, não é adequado o uso
de consórcio ou financiamento. Financiar investimentos é operar alavancado –
usando dinheiro de terceiros e consequentemente tendo de remunerá-los –, o
que aumenta exponencialmente os seus riscos, pois se não tiver renda do
investimento ainda assim precisará pagar a dívida. Imagine a seguinte situação:
você financia um imóvel com o intuito de locá-lo, porém não consegue. Agora
terá de pagar condomínio, IPTU e outros custos de um imóvel vago, além de
pagar uma prestação mensal. As chances de você se enrolar e ficar endividado
e sem sobra de caixa são muito altas. Você pode até perder o imóvel!
Para administrar seus imóveis, contrate uma boa imobiliária ou bom
escritório de advocacia e evite, assim, administrar diretamente e ter trabalho. O
custo de uma boa administração é irrisório em face da grande quantidade de dor
de cabeça que pode ser evitada. A administradora, geralmente, cobrará de você
algo entre 6% e 8% do valor dos aluguéis.
Não se esqueça do imposto de renda. Quem recebe rendimentos sem
retenção na fonte acima de R$ 1.998,00 em 2018 precisa pagar Carnê Leão.
Consulte estes valores atualizados na página da internet da Receita Federal.
Se o seu inquilino tiver interesse em fazer melhorias nos imóveis, ajude com
os custos, dando desconto no aluguel, e não crie empecilhos, pois um bom
inquilino que cuide do seu patrimônio é difícil de encontrar.
Por fim, não gaste todo o aluguel que receber. Faça uma reserva para
eventuais manutenções e reformas nos imóveis que serão necessárias quando
ocorrer a saída de um inquilino.

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Capítulo 14 - Fundos de Investimento Imobiliários

Você já foi passear em um shopping e ficou imaginando o quanto ganha


o proprietário, ou os proprietários, daquele imóvel alugado para diversas
lojas e redes de entretenimento? Já trabalhou em alguma empresa que estava
localizada em uma laje corporativa e, após saber o quanto a empresa paga de
aluguel, ficou sonhando em como deveria ser bom ser o proprietário do
imóvel?
Os Fundos de Investimento Imobiliários, ou simplesmente FII’s, te
possibilitam comprar participações nestes imóveis que antes permaneciam
apenas no imaginário da grande maioria dos investidores. Agências
bancárias, shoppings, galpões logísticos, plantas industriais e lajes
corporativas são apenas alguns dos exemplos de imóveis que normalmente
compõe o portfólio dos FII’s.
Criados pela lei 8.668/93, os FII’s são fundos constituídos sob a forma de
condomínio fechado (não podem ser resgatados, apenas negociados) que
podem ter prazo de duração determinado ou indeterminado e que investem
em empreendimentos imobiliários, que podem ser imóveis ou ativos
financeiros ligados ao mercado imobiliário (LCI’s, LIG e CRI’s).
Os fundos imobiliários, como são popularmente conhecidos, vem se
tornando uma fonte cada vez mais importante de financiamento para o
mercado imobiliário.
Quando o investidor busca investir em fundos imobiliários o retorno do
capital investido se dá de duas maneiras: por meio da distribuição de
resultados do Fundo (o aluguel pago por um shopping center, ou juros de um
CRI por exemplo) ou pela venda das cotas do Fundo após uma valorização.
O patrimônio de um Fundo de Investimento Imobiliário, composto por
imóveis, CRI’s, LCI’s ou outros ativos admitidos não se confunde com o do
Administrador. São patrimônios separados. Sendo assim, ainda que ocorra a
falência do Administrador seu fundo não poderá ser executado para pagar as
obrigações contraídas pela Administradora. Quando isso acontece é

74
convocada uma reunião de cotistas onde é eleito um novo administrador ou
decidida a liquidação do fundo (venda de todos os ativos com pagamento aos
cotistas).
Não existe um valor mínimo para este tipo de investimento, variando de
acordo com o preço das cotas no mercado secundário – mercado em que os
investidores compram e vendem as cotas de fundos e ações negociando entre
si. Atualmente existem cotas vendidas a menos de 4 reais e cotas por mais de
3.000 reais. O valor mais comum é o de 100 reais, sendo que, os FII’s mais
líquidos costumam ser os negociados nessa faixa de preço. Isso torna o
investimento em fundos imobiliários um dos mais democráticos e acessíveis
do mercado financeiro, pois o investidor não precisa ter um alto valor para o
aporte.
Os FII’s são uma excelente porta de entrada para a renda variável, pois
apresentam uma volatilidade – variação dos preços – menor do que as ações.
A maioria dos fundos não tem prazo de duração, ou seja, tem por objetivo
explorar o imóvel ou os imóveis alvo por tempo indefinido, mas alguns tem
prazo definido. Neste último caso o fundo pretende construir ou comprar
alguns imóveis e posteriormente vendê-los obtendo lucro e devolvendo o
valor aos cotistas. O maior risco nesses fundos é comprar no momento errado
e receber de volta menos do que investiu.

Comparando com os imóveis

Frequentemente os FII’s são comparados aos imóveis devido a sua relação


com o mercado imobiliário. Aqui listaremos as principais diferenças.
A principal vantagem dos FII’s em relação à compra de imóveis físicos é
a possibilidade de fracionamento, pois se o investidor possui um imóvel de
300 mil reais e precisa de 30 mil para um tratamento de saúde, o proprietário
não pode simplesmente vender a sala de estar. Por outro lado, se possui 300
mil reais investidos em cotas de FII’s, ele pode fracionar sua venda em
múltiplos dos valores da cota, lembrando que temos cotas negociadas a 2
reais.

75
Outra vantagem é a liquidez. Vender um imóvel é trabalhoso e demorado,
além da papelada. Algumas vezes a pessoa leva meses ou até mesmo anos
para conseguir vender um imóvel, com corretagens, comissões e taxas
bastante altas. Vender uma cota de FII leva em torno de 3 minutos, e se paga,
geralmente, uma corretagem fixa que vai de 0 (zero) até 30 reais e o dinheiro
estará na sua conta em 3 dias úteis.
A facilidade de diversificação é outro atrativo. Com 10 mil reais o
investidor acessa 15 fundos imobiliários ou mais, com algumas centenas de
inquilinos e imóveis, sendo que com 200 mil reais o investidor acessará
apenas um imóvel.
Os fundos imobiliários têm isenção no pagamento do imposto de renda,
ao menos por enquanto, os imóveis, por outro lado, não têm essa isenção,
sendo que a alíquota de imposto paga pelo investidor em imóveis pode chegar
27,5% dos ganhos com aluguel.
Por outro lado, os imóveis físicos têm a vantagem do direito de posse, ou
seja, se você possui um imóvel físico pode ir morar nele, reformá-lo, mantê-
lo vazio ou alugar para quem quiser, pelo preço que quiser. No FII essa
decisão é tomada pelo gestor e em última instância pela assembleia de
cotistas.
Um bom exemplo para ilustrar essa vantagem de comprar o imóvel foi o
episódio ocorrido com um fundo de investimento imobiliário que alugava um
grande imóvel para o Banco do Brasil. O administrador do fundo chamou
uma assembleia de cotistas para decidir sobre a retenção de aluguéis para
uma obra no edifício ou mesmo uma nova emissão de cotas visando a tal
reforma. No entanto os cotistas, que têm o poder de decisão nestes casos em
fundos de gestão passiva, foram contra a emissão e contra a retenção e o
resultado foi simples. O inquilino saiu do imóvel devido a falta da reforma e
os aluguéis que antes seriam reduzidos por tempo determinado, com o intuito
de reformar o imóvel, desapareceram. E a saída de um inquilino é, quase
sempre, negativa para o fundo e neste caso específico o impacto não foi nada
positivo.
Se o imóvel fosse seu você poderia decidir sozinho entre reformar ou não
e arcar com as consequências da sua escolha.

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É importante destacar a diferença entre a tipologia imobiliária dos imóveis
alvo do investidor individual e daqueles detidos por FII’s. Quando se investe
em imóveis físicos normalmente são comprados apartamentos compostos por
um ou dois quartos, sala, cozinha e banheiro para aluguel ou então pequenas
salas comerciais. Por outro lado, quem investe em fundos imobiliários
compra frações de shoppings, galpões industriais e logísticos, lajes
comerciais, agências bancárias, faculdades e hospitais. Esses imóveis têm
características distintas.
Imóveis e FII’s não são investimentos excludentes e sim complementares.
Você pode investir em um, nos dois, ou mesmo em nenhum deles, caso não
goste das características dos investimentos.

Como comprar um Fundo de Investimento Imobiliário


Você pode comprar um fundo participando de uma oferta pública inicial
– IPO – ou negociar no mercado secundário, comprando de outros
investidores.
A maneira adequada para que o investidor iniciante efetue a compra de
uma cota do fundo de investimento imobiliário é através do home broker de
uma corretora de valores.

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A maioria dos bancos possui uma corretora vinculada, mas você pode
também utilizar uma corretora independente. A decisão é sua.
Avalie a praticidade e a qualidade do home broker, o atendimento da
corretora e deixe os custos em segundo plano na sua análise.

Subdivisões – como estão agrupados os FII’s


A primeira subdivisão é a que divide os fundos entre fundos de papel e
fundos de tijolo.
Fundo de papel é aquele que investe em ativos de renda fixa ou em outros
fundos imobiliários ao menos 2/3 dos seus recursos. São os FII’s TVM –
Títulos e Valores Mobiliários.
Fundos de tijolo são todos os demais, ou seja, fundos que investem em
imóveis, palpáveis.
Os FII’s são subdivididos por três critérios: Segmento, Mandato e Gestão.

Segmento

O segmento diz respeito à destinação do imóvel e seu uso. São segmentos:


lajes corporativas, shoppings, hospitais, agências bancárias, educacional,
logística, residencial, títulos e valores mobiliários – TVM, híbrido e outros.
Para um fundo se enquadrar em algum dos segmentos ele precisa investir, ao
menos, 2/3 dos seus recursos no segmento em questão, com exceção dos
híbridos.
Lajes corporativas são andares inteiros, ou grande parte de um andar de
um prédio. Normalmente as salas não são previamente subdivididas, dando
assim ao locatário a liberdade para organizar o layout da forma mais
conveniente.
O segmento Shoppings engloba fundos que detém shoppings centers
como o Shopping Pátio Higienópolis em São Paulo, o Grand Plaza em São
Bernardo do Campo, o Parque Dom Pedro em Campinas ou o Maceió

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Shopping, situado na cidade homônima. Os fundos adquirem os shoppings,
integral ou parcialmente, recebem os aluguéis e receitas de estacionamento,
pagam as despesas e distribuem, no mínimo, 95% do resultado líquido
semestralmente aos cotistas. Algo interessante em relação aos fundos de
Shopping é que o cotista ganha parte das vendas. Como assim? Simples,
quando uma loja é alugada, o shopping e consequentemente o FII recebe um
aluguel mínimo e um percentual sobre as vendas. Por isso, as vendas de
dezembro, apuradas em janeiro, levam a um aumento da renda, que é paga
em fevereiro.
Apesar da crise pela qual o país passa, as vendas do setor shoppings
cresceram 6,2% em 2017. Ao final de 2017 o Brasil contava com 571
shoppings situados em 212 cidades e com um faturamento anual de 167,7
bilhões de reais, conforme dados da Associação Brasileira de Shoppings
Centers – ABRASCE.
Atualmente estão listados apenas poucos fundos que locam imóvel para
hospital. Destacam-se pela liquidez o Hospital da Criança e o Hospital Nossa
Senhora de Lourdes. Os dois estão localizados em São Paulo. São inquilinos
que têm uma tendência menor de se mudar devido a estrutura por trás de um
hospital. Atenção, pois a lei do inquilinato traz proteção especial a inquilinos
como faculdades, creches, hospitais e asilos. Em uma disputa judicial o fundo
sai em desvantagem.
Agências bancárias. Com longos contratos, estes FII’s se destacam por ter
inquilinos muito sólidos e que dificilmente se mudam. Talvez nesse aspecto
só percam para os hospitais e shoppings. Os mais famosos alugam para
Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal ou Santander. Uma curiosidade
é que o fundo com maior número de imóveis é o BB Progressivo II, ou
BBPO, que possui agências e prédios administrativos locados para o BB em
todo o país.
Fundos de agências normalmente possuem contratos atípicos, que serão
detalhados adiante, e longos, o que impede que o inquilino saia
antecipadamente sem pagar uma pesada multa, normalmente correspondente
a totalidade do aluguel restante. Porém, após o fim destes contratos, o valor
do aluguel pode estar descolado do preço do m² na região e o cotista pode ter

79
a surpresa infeliz de ver os seus rendimentos caírem por uma renegociação
do valor dos aluguéis.
Educacional. São FII’s que alugam o imóvel para instituições de ensino,
segmento que conta com poucos fundos, todos alugando imóveis para
universidades. A vantagem é a dificuldade e alto custo para uma escola ou
faculdade se mudar. A desvantagem é a dificuldade em arrumar um inquilino
caso a desocupação ocorra e a proteção que a lei do inquilinato traz para esses
locatários. Com prazos maiores para a desocupação do imóvel e maior
burocracia para o despejo do inquilino devido a função social que este exerce.
Logística. O segmento é composto por fundos que alugam grandes
galpões, algumas vezes industriais, outras para armazenamento de produtos.
Atualmente este segmento conta com o maior número de FII’s depois do
segmento de lajes corporativas. É um setor com ciclos mais acentuados e que
frequentemente passa por períodos de maior vacância. Por outro tem, com
maior frequência, contratos atípicos com longa duração.
FII’s do segmento residencial constroem imóveis para vender ou alugar.
Atualmente não existe nenhum fundo que construa imóveis residenciais para
locação sendo negociado na bolsa. Como exemplo de fundos que constroem
imóveis para venda temos o Kinea II Real Estate Equity (KNRE) e o RB
Capital Desenvolvimento Residencial II (RBDS). Tais fundos costumam ter
distribuições mais irregulares, pois precisam construir os imóveis e vendê-
los.
TVM, ou Títulos e Valores Mobiliários, também conhecidos como fundos
de papel, são fundos que investem em ativos mobiliários ligados ao mercado
imobiliário, renda fixa, notadamente LCI’s e CRI’s. Dentro desses temos
também os fundos de fundos, que são uma forma de o investidor pagar
alguém para que selecione e compre os fundos para ele. Nesse caso compra-
se a mente do investidor e a sua capacidade de escolha. Mesmo dentro dos
FII’s de papel existem aqueles que concentram seus investimentos em títulos
prefixados, outros em pós fixados atrelados a algum índice de inflação ou ao
CDI. O risco destes fundos é basicamente o risco de crédito, ou seja, o risco
do emissor do CRI ou LCI não pagar a dívida. Podem ser uma opção para
diversificar e se proteger dos momentos de crise e alta vacância do mercado

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imobiliário, pois seus rendimentos tendem a ter uma variação menor, mas
também uma tendência de estagnação e não crescimento, como os demais
fundos (de “tijolos”). O fundo de papel, como é popularmente conhecido,
dificilmente será o FII com o melhor desempenho da sua carteira ou o com o
pior desempenho.
Híbridos possuem imóveis e/ou aplicações em mais de um tipo de
segmento. Por exemplo, temos o Kinea Renda Imobiliária, cujo código de
negociação é KNRI11, que possui imóveis logísticos e lajes corporativas em
São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Qualquer coisa, desde que seguindo as regras para que seja considerado
um FII, pode entrar no segmento denominado “Outros”. O ideal é ficar longe
ou estudar muito antes de entrar e entender bem o FII classificado como
outro, o que ele faz, de onde vem as receitas etc.

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Mandato

O mandato é, de maneira simples, o objetivo do fundo. Existem 5


mandatos diferentes: Renda, Desenvolvimento para Renda,
Desenvolvimento para Venda, Títulos e Valores Mobiliários e Híbrido.
Renda, o primeiro, é autoexplicativo, refere-se aos FII’s que têm como
objetivo gerar renda através de aluguéis para os seus cotistas.
Desenvolvimento para Renda é onde estão os FII’s que têm como objetivo
comprar terrenos e construir imóveis para posteriormente alugar e gerar
renda aos cotistas.
Desenvolvimento para Venda é o FII que tem por objetivo construir um
imóvel, vendê-lo e distribuir o resultado (venda – custos) para os cotistas.
TVM ou Títulos e Valores Mobiliários são fundos de investimento
imobiliário que investem em papéis de renda fixa, em especial LCI’s e CRI’s
ou em fundos imobiliários.
Os Fundo de Investimento Imobiliários Híbridos são aqueles que possuem
mais de um tipo de mandato sem ter nenhum com dominância absoluta.

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Gestão

O Gestor do Fundo de Investimento Imobiliário não é uma figura


obrigatória, mas, existindo, é o responsável pela escolha dos ativos que irão
compor o FII, sejam papéis ou imóveis. Caso o fundo não tenha um gestor
quem toma as decisões de gestão é o administrador. Em todos os casos, quem
responde perante a CVM é a administradora.
Ele irá decidir o que comprar e o que vender, respeitando a política de
investimento do fundo. Se o fundo tem como política investir em
universidades o gestor não poderá comprar um shopping, por exemplo.
A gestão do fundo pode ser ativa ou passiva. Fundos de gestão ativa dão
mais liberdade aos gestores para tomar decisões, como, por exemplo, a venda
de imóveis, enquanto os de gestão passiva exigem que mais decisões passem
pela assembleia de cotistas.
Em geral fundos de gestão ativa costumam comprar e vender mais imóveis
com uma reavaliação mais frequente do portfólio. Por outro lado, os de
gestão passiva costumam manter um ou poucos imóveis fixos na carteira.
Para um fundo de gestão passiva tomar uma decisão, essa decisão precisa
ser aprovada pela maioria de, no mínimo, 25% das cotas, ou seja, cotistas
que representam ¼ das cotas precisam votar. Em um fundo de gestão passiva
com 1.000 cotas e 1.000 cotistas, cada um com uma cota, para o gestor tomar
alguma decisão precisará que compareçam em assembleia, ou votem por
outros meios, ao menos 250 cotistas e destes ao menos 126 votem
favoravelmente ao pleito do gestor.
Atualmente muitos fundos de investimento imobiliário estão convocando
assembleias para mudar sua gestão de passiva para ativa, buscando ter mais
flexibilidade nas decisões. A gestão passiva, antes regra, tem se tornado
exceção.

83
Rendimentos e Tributação

Existe disposição legal obrigando o Administrador do Fundo a distribuir


a seus quotistas, no mínimo, 95% do lucro líquido eventualmente auferido
pelo Fundo.
A tributação é de 20% sobre os ganhos com vendas das cotas,
independentemente do valor. A obrigação de recolher o imposto é do
investidor que obteve ganho de capital e o código do DARF é 6015.
Os rendimentos são isentos de I.R. para pessoas físicas que detêm menos
de 10% do total de cotas de fundos com mais de 50 cotistas e que são
negociados em bolsa.
Resumindo: os rendimentos dos FIIs são isentos se cumprirem quatro
condições, duas do fundo e duas do cotista:
1. O fundo imobiliário seja negociado exclusivamente em bolsa ou no
mercado de balcão organizado;
2. O fundo como um todo tenha 50 cotistas ou mais;
3. O cotista em particular não detenha mais de 10% dos direitos do
fundo;
4. O titular (dono) das cotas seja pessoa física (pessoa jurídica não tem
direito à isenção de I.R.).

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Riscos dos FII’s

Risco de mercado. O investidor deve ser alertado que os Fundos de


Investimento Imobiliário podem ser afetados pelos mesmos riscos que
atingem o mercado de capitais como um todo. Por exemplo, o desemprego
que gera uma redução no consumo, prejudicial ao setor de shoppings,
especialmente. A regulação pode dificultar o setor de universidades e
hospitais. Uma crise prolongada tende a aumentar a vacância em lajes
corporativas e galpões logísticos reduzindo os aluguéis e aumentando a
vacância.
Além disso, o preço das cotas varia. Renda variável varia PARA CIMA E
PARA BAIXO. No mercado de valores, tanto ações quanto FII’s têm seus
ativos cotados em bolsa e a negociação desses ativos ocorre pelos mais
variados preços. Não tente buscar as causas da variação dos preços dos ativos
na bolsa. O máximo que você conseguirá serão mentiras sinceras, ilusões e
talvez uma bela dor de cabeça.
Taxa de ocupação imobiliária. A retração da atividade econômica pode
ocasionar redução na ocupação dos imóveis. A redução da taxa de ocupação
pode reduzir a receita de um fundo de investimento pela vacância de seus
imóveis, como ocorreu recentemente com os fundos de lajes corporativas, e
gerar redução nos valores dos aluguéis devido ao maior poder de negociação
dos inquilinos, conforme já aconteceu em diversas renovações de contratos
em vários FII’s.
Risco de crédito. O risco de crédito é, sendo direto, o risco de tomar um
calote. Estão sujeitos a este risco os FII’s que investem em CRI’s e LCI’s na
medida em que um devedor pode não pagar sua dívida. Fundos de tijolos
também podem tomar calote dos inquilinos em razão de dificuldades
financeiras, falência ou outras causas.
Liquidez. Os Fundos de Investimento Imobiliário surgiram com a Lei
8.668, promulgada em 1993. Embora ainda não possuam tanta liquidez e
número de negócios quanto as ações, a sua popularidade vem aumentando de

85
maneira explosiva, em especial a partir de 2016. Já existem alguns FII’s com
liquidez superior a ações negociadas em bolsa. Só nos primeiros meses de
2019 a base de cotistas em fundos imobiliários aumentou mais de 10%.
Por isso e pelos fundos sempre serem constituídos na forma de
condomínios fechados, ou seja, não admitirem resgate de suas quotas, os
investidores em Fundos de Investimento Imobiliário podem ter dificuldade
em realizar a venda de suas quotas na bolsa de valores. Para reduzir esse
risco, dê preferência aos FII’s com maior liquidez.
Hoje os FII’s mais líquidos possuem liquidez maior do que muitas
empresas de capital aberto.
Despesas podem ser cobradas. Diferentemente das ações, alguns autores
acreditam que os Fundos de Investimento Imobiliários podem cobrar dos
cotistas suas despesas caso o fundo apresente prejuízos. Ex.: um edifício
vazio pertencente a um fundo mono imóvel e cujo caixa já acabou e que,
portanto, precise arcar com os custos de condomínio, luz e água. Existe muita
controvérsia sobre o assunto. Na prática isso nunca aconteceu e este autor
acredita que não vá acontecer. O que os gestores fazem na prática é: lançar
uma nova emissão de cotas para levantar recursos com o intuito pagar as
despesas. Vejamos o que diz o art. 13 Lei 8.668/93:

“Lei 8.668/93
Art. 13. O titular das quotas do Fundo de Investimento Imobiliário:
...
II - não responde pessoalmente por qualquer obrigação legal ou contratual,
relativamente aos imóveis e empreendimentos integrantes do fundo ou da
administradora, salvo quanto à obrigação de pagamento do valor integral das
quotas subscritas.”

Tal comando é encontrado, também, na Instrução CVM 472:

“Art. 8º O titular de cotas do FII:


I – não poderá exercer qualquer direito real sobre os imóveis e empreendimentos
integrantes do patrimônio do fundo; e

86
II – não responde pessoalmente por qualquer obrigação legal ou contratual,
relativa aos imóveis e empreendimentos integrantes do fundo ou do administrador,
salvo quanto à obrigação de pagamento das cotas que subscrever.”
Dívidas e alavancagem. Os Fundos de Investimento Imobiliários não
podem se endividar para a aquisição de novos ativos, pois, de acordo com o
Art 35. II Da Instrução CVM 472, é vedado aos FII’s:
“Art. 35. É vedada à instituição administradora, no exercício das funções de
gestora do patrimônio do Fundo e utilizando os recursos do Fundo:
II - conceder empréstimos, adiantar rendas futuras ou abrir créditos aos
quotistas sob qualquer modalidade;
III – contrair ou efetuar o empréstimo”
O que se viu ocorrer foi a securitização de CRI’s – Certificados de
Recebíveis Imobiliários – por parte dos Fundos de Investimento Imobiliários,
visando a captação de recursos para a aquisição de ativos imobiliários. Como
por exemplo o fundo Vinci Shopping Centers (VISC11) que fez tal captação
para adquirir participação em shopping center.

Renda Mínima Garantida – RMG


A Renda Mínima Garantida foi um dispositivo criado para atrair cotistas
aos fundos em fase de desenvolvimento ou com imóveis novos, ainda
imaturos, enquanto esses eram construídos ou buscavam inquilinos.
Basicamente funcionava assim: o fundo abria capital e informava que
durante um período garantiria uma renda ao cotista, independente do
resultado operacional do fundo, por exemplo: abria o capital por 100 reais
garantindo uma renda de 70 centavos ao mês por 3 anos corrigida pelo IGP-
M, conforme já aconteceu.
O risco é: terminada a RMG, a renda do fundo cair, pois a geração e
receitas não conseguiu sustentar os patamares do rendimento. O investidor
precisa estar ciente de que a existência de uma renda mínima garantida não
garante aos quotistas o recebimento de tal renda após o fim do período de
validade da RMG.

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A prática de garantir a renda por um período era comum na bolsa.
Atualmente essa prática é mais rara e mais “mal vista” pelo mercado.
Ao comprar um FII é fundamental saber a data final da RMG e a eventual
renda real a ser recebida ao fim da garantia. Existiram casos onde a renda
caiu drasticamente após o fim da RMG ou simplesmente desapareceu. Via
de regra os relatórios gerenciais do FII informarão qual a renda real e o
quanto falta para alcançar a RMG.

Fatores que afetam o valor das cotas

Seria impossível enumerar todas as causas para a variação do preço das


cotas. De maneira simples, a oferta e a demanda é que regulam os preços,
assim como nos demais mercados organizados de frutas, imóveis ou ações.
Crises sistêmicas, turbulências no mercado imobiliário, desconfianças
sobre a gestão, administração dos fundos ou sobre a qualidade do imóvel, o
final de um contrato de locação, sua renovação por um valor superior ou
inferior ao atual ou mesmo a variação da Taxa Selic e do preço unitário das
NTN-B’s – títulos do tipo: Tesouro IPCA+ com juros semestrais – podem
levar a variações na cotação dos fundos de investimento imobiliários.
O ideal é não buscar a causa da queda ou alta na cotação dos FII’s e sim
entender os fundamentos daquele fundo.

Relação de propriedade: FII x Imóvel


Se eu ficar sem teto posso ir morar no meu FII? Não. Em hipótese alguma
se deve confundir os direitos de proprietário com os direitos de quotista do
Fundo. Conforme prevê a legislação, o titular das quotas do Fundo não
poderá exercer qualquer direito real sobre os imóveis. Caso um investidor
pretenda utilizar algum imóvel pertencente ao Fundo, deverá alugar o imóvel
e remunerar o fundo.
“Lei 8668/93

88
...
Art. 13. O titular das quotas do Fundo de Investimento Imobiliário:
I - não poderá exercer qualquer direito real sobre os imóveis e empreendimentos
integrantes do patrimônio do fundo;”

Por outro lado, se eu tiver uma laje corporativa e quiser montar meu
escritório de venda de bolinhas de gude lá, posso fazê-lo. Se eu tiver um
prédio de apartamentos e quiser morar em uma das unidades, nada me
impede de fazê-lo.
São situações distintas a do investidor imobiliário e a do investidor em
fundos imobiliários.

89
Contratos de aluguel: típico x atípico

O contrato típico, regido pela lei do inquilinato, possui prazos menores e


multas mais brandas para um caso de rompimento do contrato. A multa
costuma não passar de poucos aluguéis, 3 a 6, similar a um contrato
residencial.
Por outro lado, os contratos atípicos possuem um prazo maior,
normalmente 10 anos ou mais, e pesadas multas em caso de rescisão,
geralmente todo o aluguel devido caso o contrato seguisse normalmente.
Contratos atípicos só podem ser formalizados em algumas circunstâncias.
Normalmente quando o senhorio, proprietário do imóvel, teve grandes gastos
para adaptar ou melhorar o imóvel para o inquilino é formalizado um contrato
atípico. Os casos de contrato atípico são: “built to suit”(BTS), “buy to
lease”(BTL) e “Sale and Lease Back”
Você já deve ter encomendado um bolo ou até mesmo comprado um
vestido ou terno sob medida. O contrato “buit to suit” é a mesma coisa, mas
com imóveis. O inquilino passa as especificações do imóvel que ele gostaria
de alugar, negocia o preço com o locador e então o imóvel é construído.
Devido aos riscos envolvidos, o locador faz jus a um contrato mais longo e
com mais garantias, ou seja, atípico.
Outro caso, onde a lei permite a formalização de contratos atípicos, é
quando é feita uma operação “buy to lease” na qual o fundo compra um
imóvel escolhido pela empresa que formalizará um contrato e se tornará
inquilina do fundo no imóvel.
Por fim temos o modelo “Sale and Lease Back” onde o fundo compra o
imóvel da própria empresa que será a locatária. As empresas formalizam esse
tipo de contrato pois precisam de liquidez (dinheiro) para os seus negócios.
Os riscos por trás dos contratos atípicos para o cotista do FII são: uma
desconexão do preço cobrado de aluguel com o mercado imobiliário para
mais ou para menos e alto poder de negociação do inquilino resultante das
condições do mercado no momento do vencimento do contrato e de
especificidades do imóvel.

90
No primeiro caso, com os imóveis similares na região sendo alugados por
preços menores, ocorrerá uma pressão para redução do aluguel quando da
renovação do contrato devido ao maior poder de barganha do inquilino. Isso
levaria a uma redução do rendimento recebido pelo cotista. No caso da
desconexão para menos, o risco seria o custo de oportunidade, pois o fundo
pode estar alugando por um determinado valor um imóvel que no mercado
está sendo alugado por um valor maior devido à grande demanda por imóveis
na região.

91
Indicadores para investir em FII’s

Ao escolher um FII alguns indicadores podem te ajudar. Discutiremos


estes indicadores e a utilidade de cada um deles.
O primeiro indicador é o “current yield” que, no caso, é o valor dos
rendimentos distribuídos dividido pelo valor da cotação do fundo. Não são
poucos os investidores que compram FII’s pautados exclusivamente no
“current yield”. Esse indicador é o mais perigoso de todos, pois, algumas
vezes, induz o investidor a erros grotescos. Isso ocorre porque alguns fundos
fazem amortizações por venda de imóveis, ou tem seu preço reduzido por
expectativa do final de um contrato muito bom de aluguel que não será
renovado e nem terá um substituto equivalente. Alguns fundos também
possuem “yields” mais altos devido a um risco maior no tipo de investimento
realizado, ou por algum problema interno que leva o preço a patamares
menores. Sendo assim, cuidado com este indicador. Ele é usualmente
comparado com outros dois dados.
Inicialmente análise feita recorrentemente por analistas e por gestores de
fundos em suas comunicações é a comparação entre o cupom pago pelo
Tesouro IPCA+ com juros semestrais, de vencimento mais curto, atualmente
2026, ou de vencimento mais longo, aqui será utilizada uma média, e os
rendimentos pagos pelos fundos imobiliários.
Essa comparação é feita através do “Current yield”. O “Current yield” da
NTN-B é obtido calculando-se o valor dos cupons anuais dividido pelo preço
unitário (PU) do título. Este valor varia devido a mudanças no P.U. e no VNA
do título. Sendo assim, a média é de 3,75% a.a. (março de 2019) já líquido
de I.R. Este cupom é corrigido pelo IPCA de maneira similar ao rendimento
dos FII’s, portanto, seguindo essa lógica, não faz sentido comprar um FII
com um “current yield” igual ou inferior a 3,75%, afinal esse seria o cupom
livre de risco. O ideal, para quem pretende utilizar esta métrica, é que receba
um prêmio de risco. É preciso reforçar que nenhum indicador isolado serve
como base para a tomada de decisão do investidor.
Outra comparação usual é a feita com o retorno obtido pela locação de
imóveis. Imagine que você tenha um apartamento cujo valor de mercado seja

92
300 mil reais e receba por sua locação um aluguel de 1.500 reais. O “current
yield” seria 1.500 x 12 / 300.000 = 6% a.a., no entanto seria necessário
descontar alíquota de imposto de renda. Será utilizada a média simples das
alíquotas que vão de 0% até 27,5% que resulta em 14,5%. Neste caso o
“current yield” líquido de I.R. seria 5,1% a.a.
Atualmente o “current yield” dos FII’s varia entre 0% a.a. e mais de 12%
a.a. em média algo em torno de 6% a.a. É preciso ressaltar que não existe
uma relação direta do tipo: quanto maior o “yield” melhor o FII.
O segundo indicador é o FFO (“funds from operation”) que pega o
rendimento líquido e subtrai ganhos com venda de imóveis, ou FFO ajustado
onde são considerados outras receitas não recorrentes. Distribuições acima
do FFO não são sustentáveis no longo prazo.
O terceiro indicador a ser estudado é o P/VPA – Preço sobre Valor
Patrimonial – que analisa o preço do fundo negociado em bolsa em relação
ao seu patrimônio. Ele pode ser um sinalizador de problema no caso de
fundos que estão cotados muito abaixo de seu valor patrimonial. Esse
indicador, apesar de melhor que o anterior, tem alguns problemas.
O primeiro problema é que o valor de avaliação dos imóveis é feito, via
de regra, uma vez ao ano, enquanto o mercado de imóveis não fica estável
durante todo o período, fazendo com que esse valor possa se distorcer em
função do tempo. Outra forma de calcular é utilizando o fluxo de caixa
descontado, mas este depende das condições do mercado imobiliário e da
economia, que, especificamente no Brasil, mudam muito.
Outro problema com o P/VPA é a falta de liquidez dos imóveis. Imagine
a dificuldade que é vender um hospital. De maneira geral, lajes corporativas
tem mais liquidez do que estruturas logísticas, hospitais ou universidades,
então, se for utilizar esse indicador, evite aplicá-lo na análise de fundos que
detém imóveis de menor liquidez. Se não entende muito bem quando utilizar,
ignore o P/VPA.
Outra crítica ao indicador é que no valor patrimonial – VPA – não estão
incluídos o “know how” e a qualidade da administradora e gestora que vem
se mostrando um diferencial cada vez maior no mercado de fundos
imobiliários.

93
O terceiro dado importante é a vacância, que está dividida em vacância
física e vacância financeira. A vacância física refere-se ao quanto da ABL –
Área Bruta Locável – do fundo que está vazia. Por exemplo: um fundo com
5000 m² de ABL e 2000 m² vagos tem uma vacância física de 40% =
2.000/5.000. Por outro lado, a vacância financeira é quanto o fundo está
recebendo em função do quanto poderia receber caso estivesse plenamente
locado. Normalmente as duas vacâncias não são correspondentes, pois, ao
alugar um imóvel vago, além de entrar uma nova receita, para-se de pagar
despesas como, por exemplo, o condomínio.
Veja que o fundo pode ser dono do imóvel inteiro, de fração ideal do
imóvel ou de parte do imóvel. O imóvel todo dispensa explicação. Pode se
dizer que o fundo possui uma fração ideal quando o fundo possui um
percentual do imóvel que não pode ser dividido, ou seja, ele é proprietário de
40% do imóvel como um todo (receitas e despesas) e não quatro andares do
prédio ou 40% das lojas e vagas de estacionamento do shopping. Por outro
lado, o fundo pode também ter alguns andares de um edifício de lajes
corporativas, como por exemplo o FII The One, código de negociação
ONEF11, que é proprietário de 4 lajes corporativas do edifício The One,
localizado no Itaim Bibi, São Paulo. O que acontece nos andares que não
pertencem ao ONEF não interessam aos cotistas, como a saída e entrada de
inquilinos nos demais andares.
A localização dos imóveis é outro dado muito importante e que deve ser
avaliado sempre que possível. Para os moradores de São Paulo e Rio de
Janeiro, locais onde estão a maioria dos imóveis dos fundos, existe a
possibilidade de ir aos edifícios. No caso dos shoppings centers é fácil
conhecer, pois você poderá entrar e ver o movimento. Lembrando que uma
parte considerável da receita dos shoppings vem do estacionamento e de
parte das vendas das lojas. De todo jeito, ainda que você more no interior do
país, poderá pesquisar sobre a localização dos imóveis na internet com base
nos relatórios gerenciais.
Outro dado interessante é o NOI que é o “Net Operational Income”, ou
Receita Líquida Operacional. Normalmente este indicador é apresentado nos
relatórios dos FII’s de Shopping Center. O indicador representa o resultado

94
do shopping após receber os aluguéis e pagar as despesas. O NOI do fundo
imobiliário é a parte do shopping correspondente a ele.
Por fim é importante destacarmos o cap rate. Este número representa o
valor da renda gerada pelo imóvel no ano em relação ao seu valor. Por
exemplo: um imóvel de 1 milhão com aluguel de 10 mil gera um “cap rate”
de 12% = 12x10.000/1.000.000. Quando o fundo faz a aquisição e um novo
imóvel ele avalia o “cap rate” além de outros dados como qualidade do
imóvel e do inquilino, se o caso, necessidade de reformas e adaptações etc.
O rendimento que o cotista recebe não é o “cap rate”/número de cotas, pois
antes da distribuição é preciso subtrair as taxas. Normalmente o fundo vai
demandar “cap rates” mais altos de imóveis de menor qualidade e vai tolerar
“cap rates” menores em ativos de altíssima qualidade, mas é preciso analisar
caso a caso.
Os relatórios gerenciais são, sem dúvida, a principal ferramenta do
investidor na hora de analisar os FII’s. É recomendado que o investidor leia,
ao menos, algo entre 6 e 12 últimos relatórios antes de comprar as cotas do
fundo. Porém não se assuste caso os dois primeiros pareçam áridos, pois a
partir do terceiro relatório do mesmo FII você saberá separar o que é
relevante do que é simplesmente uma cópia (Ctrl C + Ctrl V) dos relatórios
anteriores.
A clareza e qualidade dos relatórios são pontos importantes a serem
analisados. Alguns gestores produzem relatórios mensais, outros trimestrais
ou semestrais e alguns poucos usam o sistema QDNT – Quando Dá Na Telha.
Esse último normalmente não representa uma opção tão boa de investimento.
O fundo também é obrigado pela CVM – Comissão de Valores
Mobiliários – a apresentar demonstrações financeiras que podem colaborar
para a análise a ser feita pelo investidor, mas, normalmente, o relatório
gerencial conterá todas as informações importantes.
Um bom complemento para os seus estudos são o quadro e os murais de
discussão da Bastter.com. onde são feitas as análises e estudos de diversos
fundos de investimento imobiliário.

95
IFIX

O IFIX – Índice de Fundos de Investimentos Imobiliários da B3 – bolsa


de valores brasileira. Criado em 2012, este índice tem por objetivo ser um
indicador do desempenho médio das cotações das cotas dos fundos de
investimento imobiliários listados para negociação na B3. Ele é o resultado
de uma carteira teórica montada com critérios de liquidez e volume, dentre
outros. Em síntese, o IFIX é um termômetro do mercado de FII’s que mostra
a valorização, desvalorização e distribuição de rendimento dos fundos.
Historicamente o retorno do IFIX foi maior do que o do Ibovespa – índice
que tenta ilustrar o desempenho das ações – e sua volatilidade menor.

Montando uma carteira de FII’s


Antes de começar a montar a sua carteira de fundos imobiliários você deve
ler alguns documentos, dentre eles o prospecto do fundo, o regulamento e,
especialmente, os relatórios gerenciais.
Leia, antes de comprar um fundo de investimento imobiliário no mercado
secundário, no mínimo, os seis últimos relatórios gerenciais. Não se
preocupe, é um documento pequeno e de leitura fácil, ele resume o objetivo,
as políticas, os resultados e a distribuição de rendimentos do fundo. Além de
reportar a ocupação do fundo, saída e entrada de inquilinos e eventuais
processos ou problemas.
O princípio básico utilizado para montar uma carteira de investimentos é
o controle dos riscos. Aqui vale a máxima: nunca colocar todos os ovos no
mesmo cesto. Seja esse cesto o de um ativo ou de uma classe de ativos.
Não tenha somente FII’s, ações ou renda fixa. Faça a diversificação
extraclasse de ativos. Defina as proporções conforme a sua familiaridade,
conhecimento e afinidade com as diferentes classes de ativos.
Uma carteira de FII’s equilibrada terá fundos de boas gestoras ou
administradoras (quando não houver gestor) com imóveis nos mais diferentes
segmentos: shoppings, galpões, lajes corporativas dentre outros, para se

96
proteger dos ciclos das mais diversas atividades econômicas. Em alguns
momentos a situação será boa para as lajes corporativas, mas o movimento
nos shoppings cairá. Já em outros quem sofre são os galpões industriais, mas
nada muda para o setor de universidades e assim por diante.
Não há um número mágico de FII’s para se ter na carteira, mas o
investidor deve estar confortável com os ativos que possui e com o percentual
alocado em cada um deles.
Estudos acadêmicos, como o publicado pelo Professor Arthur Vieira de
Moraes indicam que uma carteira formada por 7 a 13 fundos reduz o risco
diversificável a níveis mínimos.
Por outro lado, este autor avalia que o ideal é fazer a si mesmo a seguinte
pergunta: se um dos seus FII’s desaparecer da noite para o dia (situação
bastante improvável) o quanto isso te abalará? Se a resposta for muito, talvez
seja melhor ampliar a diversificação. Por outro lado, se a resposta for nada
ou um pouco, então a diversificação provavelmente estará adequada ao seu
perfil.
Inicialmente tenha um percentual pequeno em cada fundo de investimento
imobiliário, 1% ou 2% da sua carteira total. Depois, com o tempo e a
experiência adquiridas você analisa como se sente em relação a estes
percentuais e decide se quer modificá-los.
O conselho é: faça o teste do travesseiro. Se conseguir dormir tranquilo
com o modo como estão alocados os seus investimentos, você estará no
caminho certo.
Comece estudando os FII’s mais líquidos, àqueles onde há mais facilidade
para comprar e vender as cotas. Dê preferência aos fundos com vários
imóveis e inquilinos e nos quais nenhum imóvel ou inquilino represente um
alto percentual da renda do fundo. São os multi-imóveis e multi-inquilinos.
Os fundos imobiliários monoimóveis (que possuem apenas um imóvel),
por vezes, apresentam um retorno maior, mas aí vale a máxima, quanto maior
o risco, maior o retorno. Normalmente o fundo que possui um imóvel vive
uma dualidade, ou está ocupado e pagando aluguéis reajustados ano após ano
ou está vazio sem render nada e queimando caixa ou precisando de novas

97
emissões para se manter. Portanto deixe os monoimóveis para quando você
tiver mais experiência.
Em seguida, após separar os fundos mais líquidos multi-imóveis e multi-
inquilinos, separe os fundos que te interessarem. Primeiro separe pelo
mandato, em seguida pelo segmento e, depois, leia os relatórios gerenciais
de cada um. No mínimo, os 6 últimos relatórios gerenciais divulgados. Vá
escolhendo aos poucos, compre 1 ou 2 fundos ao mês, afinal a carteira não
precisa ser montada de uma vez. “Roma não foi construída em um dia”.
Evite fundos problemáticos que passam por processos revisionais
contrários aos interesses do fundo, fundos com inquilinos problemáticos ou
que tem uma vacância muito elevada em relação à região onde os imóveis se
encontram.
Deixe os fundos de desenvolvimento e aqueles com prazo de duração
limitado para quando você tiver mais experiência. Estes fundos envolvem um
risco maior e, por isso, exigem mais conhecimento e experiência do
investidor.
Verifique também se os rendimentos são sustentáveis, ou seja, a relação
entre o que o fundo gera de caixa (dinheiro), seja pelos juros dos CRI’s e
LCI’s ou pelos aluguéis dos imóveis, já subtraído das despesas
administrativas e o que paga, na forma de rendimentos, aos cotistas. Um erro
comum é investir em um fundo olhando apenas os rendimentos que, muitas
vezes, estão inflados, e, quando esses rendimentos são reduzidos, se
desesperar e vender as cotas do fundo, muitas vezes com bom gestor e
composto por bons ativos imobiliários, em pânico.
Sob nenhuma hipótese faça uma lista crescente usando o “current yield”
e compre os com valor maior. A maior parte dos erros será cometida por este
tipo de escolha.

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O Equívoco

Imagine que você é um investidor do mercado imobiliário, aquele que


compra imóveis para alugar e usufruir da renda gerada pelo aluguel. Você
possui 5 imóveis, cada um locado por 2 mil reais, já descontado o Imposto
de Renda, totalizando uma receita líquida de 10 mil reais. Cada um desses
imóveis tem um custo de IPTU e condomínio de 1 mil reais.
Um dos seus 5 inquilinos resolveu devolver o imóvel, sua receita caiu de
10 mil reais para 8 mil e suas despesas com os imóveis, antes inexistentes,
passaram para 1 mil reais. Sendo assim sua receita líquida caiu para 7 mil
reais. Em razão da saída do inquilino você terá que fazer ajustes no imóvel
que ficou vago para locá-lo novamente, reduzindo a receita para 6 mil por
alguns meses.
Você venderia o seu imóvel vago por isso? Ou então venderia todos os
seus imóveis por isso? Não? Parece loucura não é mesmo? Uma medida
desproporcional. Contudo, é exatamente isso o que fazem alguns dos cotistas
de fundos imobiliários quando a vacância em seus FII’s aumenta ou o aluguel
diminui. Se desesperam e vendem.
Entenda que inquilinos e os seus negócios vão e vem, bons imóveis ficam.
Pense muito bem antes de comprar um fundo e mais ainda antes de vender.
A vacância se torna um problema para o fundo se estiver acima da
vacância média da região por muito tempo, ou se chegar ao ponto de os
recursos próprios do fundo não serem suficientes para arcar com as despesas.
Fique de olho na vacância, mas não se desespere. Diversifique.

99
Estudos de caso

Nenhum dos Estudos de caso a seguir pretende influenciá-lo a comprar,


manter ou vender qualquer fundo imobiliário citado. O objetivo é meramente
educacional, para que o investidor compreenda o que é um FII e iniciar os
seus estudos antes de comprar ou mesmo antes de descartar a compra. Leia,
no mínimo, os 6 últimos relatórios gerenciais divulgados pelo fundo antes de
investir.

HGLG
CSHG Logística

O segmento de logística é composto por galpões logísticos e industriais.


Toda indústria precisa de um local, galpão, onde serão montadas as suas
máquinas e equipamentos ou onde serão armazenados os insumos
necessários a fabricação dos seus produtos.
Da mesma forma, o varejo precisa de galpões para armazenar seus
produtos que serão distribuídos para as lojas ou entregues após a compra via
internet. Um bom exemplo é o principal imóvel do HGLG locado para as
lojas Americanas em Uberlândia.
A seguir as principais características do CSHG Logística:
Mandato: Renda.
Segmento: Logística.
Gestão: Ativa.
Taxa e administração: 0,6% a.a. sobre o valor de mercado.
As empresas optam por locar galpões ao invés de comprá-los para
disponibilizar capital para o investimento no objeto da companhia e ao
mesmo tempo poder deduzir os custos com aluguel do Imposto de Renda.
Além disso, é mais barato desativar uma unidade em um imóvel locado do
que em um próprio.
O Fundo CSHG Logística, código de negociação HGLG11 é administrado
e gerido pela Credit Suísse Hedging Griffo. Este fundo, constituído em 8 de

100
junho de 2010, já passou por 4 emissões de cota, estando ainda em período
de alocação dos recursos da última emissão.
O HGLG foi o primeiro FII de logística com gestão ativa. Atualmente o
fundo conta com 50.452 cotistas. A liquidez diária do fundo é em torno de
3,2 milhões de reais por dia, o que o torna um dos FII’s mais líquidos da
bolsa (fácil de comprar ou vender).
A ABL do fundo em março de 2019 é de 270.428 m², com uma vacância
física atual de 4% e uma vacância financeira de 7,1%.
As distribuições do fundo ano a ano, por cota, ajustadas ao
desdobramento, foram as seguintes nos últimos 5 anos:
2014 – R$ 12,39
2015 – R$ 14,69
2016 – R$ 10,44
2017 – R$ 10,44
2018 – R$ 9,72

101
O fundo HGLG dispõe de 11 imóveis e 23 locatários. Imóveis localizados
em 4 estados brasileiros sendo 8 em São Paulo, 1 em Minas Gerais, 1 no Rio
de Janeiro e 1 em Santa Catarina. Os principais locatários, por área locada,
do fundo são: Lojas Americanas, Cramer, Tetra Pak, Master Offices e Gerdau
(março de 2019).
Em razão da última emissão de cotas, 25% dos recursos do fundo
atualmente estão alocados em renda fixa, buscando oportunidades no
mercado de galpões logísticos.
O fundo tem uma predominância de contratos atípicos, 78,8%. O IPCA é
o principal índice de reajuste do fundo respondendo por 90,3% dos contratos
contra 9,7% dos contratos sendo reajustados pelo IGP-M.
Nos últimos 12 meses o fundo gerou um resultado de R$ 69.204.316,00,
em linha com as distribuições.
Em relação à alocação, o fundo informou via fato relevante que assinou
compromisso de compra e venda de um imóvel em Guarulhos, locado para
empresa de logística. “Cap rate” de aproximadamente 11,7%. Maiores
detalhes serão fornecidos no futuro. Acompanhe os relatórios gerenciais para
se inteirar mais sobre a conclusão do negócio. Na Bastter.com são postados
todos os relatórios gerenciais dos FII’s.
A participação do CSHG Logística no Ifix é de 3,2% a maior de um fundo
de logística no momento da publicação deste livro.

KNRI
Kinea Renda Imobiliária

Fundo Kinea Renda Imobiliária, código de negociação KNRI11 é um


fundo híbrido, que investe tanto em lajes corporativas quanto em galpões
industriais e logísticos, com mandato renda e gestão ativa.
O segmento de lajes corporativas vem para atender às mais diferentes
demandas empresariais, pois permitem um “ajuste” do imóvel às
necessidades do locatário. O segmento de galpões vem crescendo por duas

102
razões: maior necessidade de espaço para armazenagem e necessidade de
desmobilização de capital das empresas que vem optando pela venda e
locação dos galpões.
Mandato: Renda.
Segmento: Híbrido.
Gestão: Ativa.
Taxa de administração e gestão: 1,25% sobre o valor de mercado.
O Patrimônio do fundo ultrapassou 2 bilhões de reais após a 5ª emissão
de cotas.
Administrado pela Intrag DTVM Ltda e gerido pela Kinea Investimentos
Ltda, o fundo iniciou suas atividades em 11 de agosto de 2010.
O fundo possui 16 imóveis, sendo 8 edifícios comerciais e 8 centros
logísticos, com um total de 74 contratos de locação e mais de 50 inquilinos.
A vacância física é de 5,26%, enquanto a vacância financeira é de 9,35%
e 11,93% de vacância financeira ajustada pelas carências previstas nos novos
contratos de locação.
O fundo vem sendo negociado em todos os pregões com volume diário de
3,2 milhões de reais.
Em relação aos contratos de locação, 58,44% são típicos contra 41,56%
de contratos atípicos. 43,9% dos contratos são reajustados pelo IGP-M e
56,1% pelo IPCA.
A receita do fundo é proveniente da seguinte distribuição por Estado:
52,82% SP, 20,86% MG e 26,32 RJ. Os escritórios são responsáveis por
37,5% das receitas do fundo enquanto a logística responde por 62,5% das
receitas.
A distribuição em 2018 foi de R$ 10,48 contra um resultado R$ 10,14 por
cota, sendo que os R$ 0,34 distribuídos acima do resultado saíram do caixa
do fundo. O fundo distribuiu nos últimos 5 anos os seguintes valores:
2014 – R$ 10,97
2015 – R$ 11,04
2016 – R$ 11,04
2017 – R$ 11,24
2018 – R$ 10,48

103
A despeito do momento desafiador do mercado, o fundo conseguiu manter
as suas distribuições estáveis.
Ele tem a segunda maior participação no ifix (6,11%) ficando atrás apenas
do fundo de recebíveis imobiliários da própria Kinea, o KNCR.

ABCP
Grand Plaza Shopping

O fundo de investimento imobiliário Grand Plaza Shopping, código de


negociação ABCP11, é um fundo mono imóvel e multi inquilino, que conta
com mais de 340 operações no shopping center, dentre elas parque, pistas de
boliche e salas de cinema Cinemark, com mandato renda do segmento de
shoppings e com gestão passiva.

104
Mandato: Renda.
Segmento: Shoppings.
Gestão: Passiva.
O segmento de shoppings centers é bastante peculiar. Diferente dos
demais segmentos de FII’s, ele participa do resultado dos inquilinos, pois
parte do aluguel recebido vem dos resultados das lojas. A sinergia entre
locador e locatário tende a ser maior.
Além disso, pelo Brasil ser um país extremamente violento, as pessoas
buscam opções de lazer mais seguras como, por exemplo, um cinema no
shopping.
O ABCP conta com 21.188 cotistas e é administrado pela Rio Bravo
Investimentos DTVM Ltda. A taxa de administração e gestão cobrada pela
Rio Bravo é de 0,1% a.a. O shopping foi inaugurado em 1997 com a oferta
de cotas no mercado – IPO – em 2003.
O fundo é dono de 98,6% do Grand Plaza Shopping que está situado na
cidade de Santo André e é considerado um dos mais importantes shoppings
centers do ABC Paulista. O fundo também possui participação no edifício
comercial anexo. A ABL do fundo é de 69.503 m².
Em termos de liquidez, a média de negociação diária do fundo é de 500
milhões de reais com participação em 95% dos pregões. Um FII com menos
liquidez do que os dois analisados anteriormente, mas ainda assim com uma
liquidez adequada para que o pequeno investidor possa vender e comprar
cotas.
A vacância atual do fundo é de 0,8% colocando-o como um dos fundos
com menor vacância do segmento. Nos últimos 5 anos a desocupação do
fundo nunca passou de 2,6% mesmo com a crise que afetou o varejo
brasileiro.
A distribuição de rendimentos por cota, nos últimos 5 anos, ajustada ao
grupamento – situação onde diversas cotas são transformadas em uma, no
caso em questão cada 5 cotas se tornaram uma – das cotas, foi a seguinte:
2014: R$ 4,08
2015: R$ 4,30
2016: R$ 4,49

105
2017: R$ 4,88
2018: R$ 5,25

Os rendimentos foram crescentes nos últimos 5 anos, apesar do momento


desafiador da economia, o que não garante que serão para sempre. A
participação do fundo no ifix é de 3,38%, sétima maior participação e maior
de um fundo que é, praticamente, mono imóvel.
Nos últimos 5 anos o desempenho do Grand Plaza é digno de elogios, o
que não garante que continuará assim. Antes de investir, estude e entenda os
riscos.

Resumo – FII’s
Ativos Geradores de renda;
Investem em ativos imobiliários (principalmente: imóveis, LCI, CRI);
Distribuem rendimentos, geralmente, mensais;

106
Investimento a partir de 4 reais, sendo que a maioria dos fundos tem suas
cotas negociadas na casa dos 100 reais;
Ler, no mínimo, os 6 últimos relatórios gerenciais antes de investir no
fundo.
Não comprar o fundo exclusivamente pelo alto “current yield”.
Avaliar: a diversificação (em inquilinos e imóveis), os imóveis
(principalmente a localização) e a gestão.

107
Capítulo 15 - Ações

“Você deveria investir como um católico se casa: para o resto da vida.”


Warren Buffett

Você já parou para pensar, alguma vez, na quantidade de contas que você
paga? Conta de luz, conta de água, conta de telefone, assinatura da TV a
cabo, conta do bar, combustível para o automóvel, exames médicos, contas,
contas e mais contas. Já ficou imaginando para onde vai todo aquele
dinheiro? Saiba que grande parte destes recursos vão para empresas de
capital aberto e, em última instância, para o bolso dos acionistas destas
companhias.
O investidor tem a possibilidade de receber dinheiro dessas empresas ao
invés de apenas pagar contas para elas. Imagine as companhias elétricas te
pagando mais dinheiro na forma de dividendos do que você paga de conta de
luz. Interessante, não é mesmo?
O mercado de ações remonta ao período da Grécia e Roma antigas, porém
ganhou expressividade durante as grandes navegações. A Companhia das
Índias Orientais, em 1.610, dividiu seu capital em cotas iguais e transferíveis
(muito similar às nossas ações atuais).
Naquela época, quando um investidor colocava dinheiro na empresa dizia-
se que ele estava adquirindo partes de uma ação. No caso, a ação era a
navegação e o comércio de especiarias com a Índia, a África e outras regiões.
Esses direitos eram negociados no mercado, similar àquele de frutas que você
vai aos domingos, e depois de concluída a ação, os lucros obtidos eram
divididos entre os acionistas.
Hoje em dia o mercado cresceu, surgiram mais ativos e formas diferentes
de negociar. Além dos investidores, que são aqueles que desejam parte dos
resultados obtidos pelas companhias com suas operações, existem também
os especuladores, que almejam ter lucros com a compra e venda de ativos,
de maneira geral comprando e vendendo posteriormente por um preço maior.
Não há certo ou errado, são formas diferentes de abordar o mercado.

108
Aqueles que especulam no mercado tem baixa probabilidade de ter
sucesso. Nos Estados Unidos, pesquisas revelaram que em torno de 1% dos
“traders” tem resultados consistentes e sucesso no longo prazo. Os demais
99% tem perdas e desistem dentro de até 5 anos. Outras pesquisas foram
realizadas, inclusive no Brasil, com conclusões iguais.
Ser “trader” é participar de um jogo de soma zero, onde uns ganham e
outros perdem. Por outro lado, investir é ser sócio de companhias
participando dos seus resultados. Quando a Fleury, empresa de medicina de
diagnóstico, faz um exame de imagem e descobre uma doença, possibilitando
assim o tratamento de uma pessoa enferma, a pessoa ganha com o
diagnóstico, a empresa ganha com o pagamento pelo exame realizado e você
ganha como acionista na medida em que a empresa aumenta seu faturamento.
Neste livro não trataremos do viés especulativo do mercado. O foco será
na estratégia da compra de partes das empresas para se tornar sócio e se
beneficiar com os resultados. Estes benefícios, via de regra, provêm da
geração de caixa da empresa. A partir da geração de caixa a empresa pode:
pagar proventos, seja na forma de dividendos ou juros sobre capital próprio,
reinvestir o dinheiro na empresa para que ela cresça ou recomprar as ações,
aumentando a participação que cada ação representa na companhia.
Normalmente as companhias fazem as 3 coisas, só que a proporção de cada
uma delas varia conforme o momento da empresa.
Tal estratégia é conhecida como “Buy and Hold”, isto é, comprar e
segurar. O objetivo do investidor é ter a maior participação possível em boas
empresas e manter tais participações enquanto as organizações continuarem
com valor. E a definição de valor não é trivial.
O investidor que segue a filosofia do “Buy and Hold”, também conhecido
como “Holder” deve estudar e compreender as companhias antes de comprá-
las e, de preferência, jamais vendê-las.
O Brasil possui, aproximadamente, 340 empresas listadas em bolsa.
Dentre elas: Ambev, Arezzo, Banco do Brasil, Bombril, Bradesco, Camil,
Carrefour, Cemig, Copasa, CVC, Eletropaulo, Fleury, Grendene, Hermes
Pardini, Itaú, Lojas Renner, Magazine Luiza, MRV, Natura, Riachuelo,

109
Petrobrás, Vale, Sabesp, Santander, TIM, Vivo etc. Você provavelmente já
comprou algum produto ou utilizou os serviços de alguma dessas empresas.
Uma empresa de valor é, de maneira muito resumida, aquela que obtém
lucros, gera caixa e tem boa governança. Enfim, tem bons fundamentos.
Nesta parte do livro nos aprofundaremos no que são estes fundamentos.
Existe um preconceito entre os não investidores que faz com que eles
acreditem que, para investir, é necessário ser economista, contador ou
administrador. Nada mais equivocado, pois todo o conhecimento que você
precisa para começar a investir é aprendido no ensino fundamental: regra de
três simples e juros compostos.
Peter Lynch foi gestor do “Magellan Fund” com um histórico de
rentabilidade 29,2%, durante os 13 anos em que geriu o fundo. Esse retorno
fez com que ele fosse conhecido como o melhor gestor de fundos de todos
os tempos. Formado em história, filosofia e psicologia, o famoso gestor
destaca que qualquer um pode aprender a investir.
Fique tranquilo, pois traremos os conceitos básicos sobre o mercado de
ações e aquilo que você precisa aprender de administração, contabilidade e
economia. Serão abordados apenas os assuntos essenciais para que o
investidor faça sua análise.

110
Mercado Primário e Secundário

As ações são negociadas em dois mercados: o primário e o secundário.


No mercado primário você compra ações diretamente da empresa e esse
dinheiro vai para o caixa da companhia ou para o bolso dos controladores,
normalmente, em um IPO, parte dos recursos vai para cada uma dessas
coisas.
O IPO (lê-se: ai, pi, ô) ou “Initial Public Offering” é a oferta inicial de
ações promovida pela companhia. E por que uma empresa abre capital?
Existem diversos motivos, dentre eles:
1. Os controladores querem diversificar os negócios investindo em áreas
diferentes.
2. Um grande investidor, como por exemplo um “Private Equity”,
precisa de uma porta de saída da empresa.
3. O negócio está buscando uma grande expansão e não é viável pegar
um empréstimo no banco.
4. A companhia pretende ter uma gestão profissional dado que a família
dos controladores não está apta para administrá-la.
5. O governo decidiu vender parte do capital de uma empresa pública
tornando-a uma Sociedade de Economia Mista.
Quando o Banco do Brasil abriu o capital da BB Seguridade, código de
negociação BBSE3, ele vendeu um terço da companhia. Hoje, os outros dois
terços que o banco possui valem, pela cotação a mercado, mais do dobro do
que valia a companhia inteira na época.
Independentemente do motivo que levou a companhia a vender suas ações
na bolsa, a abertura do capital das empresas permite ao cidadão comum ter
parte de grandes negócios, se tornando sócio de indústrias, bancos e redes
varejistas. Algo que, sem o mercado de ações, seria improvável ou mesmo
impossível.
Quando você compra ações diretamente da companhia, seja pela “IPO”
ou por uma emissão de ações posterior, dizemos que a compra foi realizada
no Mercado Primário.

111
Por outro lado, quando você negocia as ações na bolsa – durante o pregão
– que é a sessão diária de negociação de ativos e, no momento em que este
livro é escrito, ocorre entre as 10 e as 17 horas, você está no mercado
secundário. Nele os investidores compram e vendem as ações negociando
entre si, a empresa não participa necessariamente deste processo. A maioria
dos negócios ocorre no mercado secundário.
Quanto maior o número de negócios diários de um ativo no mercado
secundário, maior é a sua liquidez. E, quanto maior a liquidez das ações da
empresa melhor para o investidor, pois é mais fácil para ele comprar ou
vender ações da companhia.

Mercado à Vista e Fracionário

O mercado de capitais brasileiro é, de maneira diferente da maior parte


dos mercados, dividido em mercado à vista e fracionário.
A diferença entre estes dois mercados é a forma de negociar os ativos.
Enquanto no Mercado à Vista o investidor negocia lotes de 100 ativos, no
Mercado Fracionário ele pode comprar as ações unitárias.
Para acessar o mercado fracionário é incluir a letra “f” após o código de
negociação da empresa. Por exemplo: para comprar ações do Banco do Brasil
no Mercado a vista você acessará o “home broker” – sistema para negociação
de ações das corretoras de valores – e digitará o código BBAS3, já para
comprar no mercado fracionário, digitará BBAS3F.
No final das contas, para aquele que investe pensando no longo prazo,
tanto faz comprar no mercado à vista ou fracionário.

112
Ordinárias, preferenciais, “Units” e “Tag along”

Ordinária, preferencial, “Unit” e “Tag along” são alguns dos termos que
todo o investidor em ações precisa saber.
As ações são subdivididas em ordinárias e preferenciais. As ações
ordinárias dão direito a voto. O controlador da companhia é aquele que detém
o maior número de ações ordinárias, não necessariamente 50%+1
(majoritário). O preferencialista por outro lado não possui voto ativo na
empresa, mas tem preferência no recebimento de dividendos.
“Units” funcionam como pacotes que contém ações ordinárias e
preferenciais. Algumas vezes a “Unit” possui outros ativos como opções,
mas na maior parte dos casos é apenas uma certa quantidade de ações
ordinárias e uma de ações preferenciais.
Algumas empresas formam “Units” para depois trocarem-nas por ações
ordinárias e migrar para o novo mercado. As motivações por traz da criação
de “Units” pelas companhias são as mais variadas possíveis.
O “Tag along” é o direito de o minoritário receber um percentual (80%)
ou mesmo a totalidade (100%) do que recebe o majoritário no caso da venda
do controle da companhia. Por exemplo: se a Coca Cola resolver comprar a
Ambev você terá o direito de receber, no mínimo, 80% do valor pago ao
controlador por ação. Vender ou não é opção sua.
Voltando à Ambev, quando a Brahma comprou a Antartica os
preferencialistas não tinham direito à “Tag Along” por isso tiveram perdas.
Outro caso é o da Vale, que converteu as suas ações preferenciais em
ordinárias, migrando para o Novo Mercado. O preferencialista recebeu
0,9342 ação ordinária por cada ação preferencial. Dias antes do anúncio da
conversão as ações preferenciais estavam cotadas acima das ordinárias.
As ações ordinárias, obrigatoriamente, dão direito ao menos a um “Tag
Along” de 80%, mas a grande vantagem de ter ações ordinárias é, na verdade,
estar no “mesmo barco” do controlador. O controlador – que pode ser um
acionista majoritário ou um grupo controlador – a princípio quer o melhor
para si mesmo, consequentemente ele quer o melhor para os detentores de
ações ordinárias. É possível que em algum momento aconteça conflito de

113
interesses entre os controladores e minoritários, mas não é algo comum. A
dica é simples. Desde que as ações ordinárias tenham liquidez, comprar
ordinárias traz uma segurança a mais.
Algumas empresas estão no nível de governança chamado de Novo
Mercado. Nesse segmento, além de outras regras, a empresa só pode ter ações
ordinárias, deve oferecer 100% de “Tag Along” e ter um “free float” (ações
em circulação) de no mínimo 25% das ações da companhia.

114
As Perguntas

Antes de comprar ações de qualquer empresa é essencial que algumas


perguntas sejam respondidas. Entender o modelo de negócios por trás da sopa
de letrinhas que representa a ação é essencial.
1 – Qual o modelo de negócios da companhia? O que ela vende ou que
serviços presta e como ganha dinheiro com isso?
Algumas empresas apresentam um modelo de negócios de fácil
entendimento como a fabricante de calçados Grendene, outras não são tão
simples de entender como a Cielo ou uma distribuidora de energia elétrica
como a Eletropaulo.
2 – A empresa possui alguma vantagem competitiva em relação aos seus
concorrentes?
Uma logística mais eficiente para entregas, um produto diferenciado ou
uma estrutura de capital mais robusta para passar por momentos de crise e
consequente queda na demanda são alguns exemplos de vantagens
competitivas. As páginas do R.I. – Relação com Investidores – das
companhias costumam enumerar as vantagens competitivas.
3 – O setor em que a empresa está é um setor muito competitivo,
“comoditizado”, de modo que a única diferenciação entre as empresas é o
preço?
O setor de eletrônicos é um bom exemplo de setor onde os consumidores
buscam não apenas preços, mas qualidade e diferenciação. Muitas vezes o
consumidor se identifica com a marca. Os consumidores costumam ter
preferências também no setor de vestuário, como é o caso da Zara, e
alimentação, como o Burger King. Por outro lado, os setores de metalurgia,
seguros, petróleo e agrícola são setores onde o consumidor busca,
basicamente, preços. Tanto faz comprar o petróleo Exxon Mobil ou o da
Petrobrás para produzir os derivados. Você vai onde o preço estiver melhor.
Alguns produtos e serviços vêm sofrendo a chamada “comoditização”.
Produtos antes únicos e diferenciados hoje concorrem apenas por preço. O
maior exemplo disso são as máquinas de cartão, que antes eram
exclusividade de um pequeno oligopólio – grupo de empresas que controla

115
um serviço ou tecnologia – contudo, hoje os consumidores têm muitas opções
e, via de regra, optam pelo menor preço. Outro exemplo é o caso dos serviços
de transporte privado, como o “taxi”, antes exclusividade daqueles que
possuíam a autorização, hoje enfrentam a concorrência de diversos
aplicativos, onde, novamente, o que o consumidor busca é o menor preço e
não uma experiência especial de transporte.
4 – Os produtos da empresa precisam ser atualizados constantemente?
A Coca Cola mantém sua fórmula inalterada há quase 100 anos, os
calçados da Nike pouco mudam de uma coleção para a outra, o mesmo vale
para as cervejas da Ambev ou o macarrão vendido pela M Dias Branco.
Contudo, os “smartphones” produzidos pela Apple, Samsung ou Motorolla
precisam de constantes aprimoramentos para não ficarem obsoletos.
5 – Caso esses produtos precisem de constante atualização, como a
empresa se sai ao atualizar seus produtos em comparação aos concorrentes?
A Apple, a despeito da concorrência com outras fabricantes de
“Smartphones”, se destaca pela sua tecnologia, assim como a Samsung.
Outras empresas têm dificuldades em concorrer, pois, além de tudo, as
marcas ganharam lugar no imaginário do consumidor que se identifica com
os seus produtos.

116
Economia

É válido que o investidor aprenda alguns conceitos básicos de economia


que poderão ajudá-lo na hora de investir.
O primeiro desses conceitos é o custo de oportunidade. Todo o dinheiro
gasto, seja com investimentos ou meias, gera um custo de oportunidade esse
custo é aquilo que poderia ser feito com o dinheiro, caso você não tivesse
feito o que você fez.
O custo de oportunidade é o que torna tão importante a busca por valor,
não só nos ativos, mas em tudo o que você compra. Não faz sentido comprar
algo que não agrega valor à sua vida e à vida da sua família. Tampouco
comprar ativos que você não entende ou não encontrou valor porque alguém
sugeriu ou só por diversificar. O dinheiro que você gastou de maneira
displicente poderia ter proporcionado um passeio com sua família ou a
compra de bons ativos: títulos públicos, ações ou fundos imobiliários, por
exemplo.
O segundo conceito importante é o da oferta e da demanda. Oferta é o
quanto daquele produto está sendo oferecido ao mercado, ou seja, a força
vendedora. Demanda é quanto o mercado quer absorver daquele bem, serviço
ou ativo, ou seja, a força compradora daquele produto ou ativo. Quando a
demanda cresce sem um crescimento correspondente na oferta os preços
sobem, o oposto acontece quando há um aumento na oferta ou queda na
demanda, nessa situação os preços caem. A oferta e a demanda são as
responsáveis pela variação dos preços no mercado de ações e também no
mercado de frutas, verduras, imóveis, automóveis etc.
Desse conceito deriva outro, igualmente, importante, a elasticidade da
demanda que demonstra como esta responde à variação dos preços. Por
exemplo, se um medicamento de uso contínuo sobe de preço, dificilmente
aquele que precisa do medicamente poderá parar de tomá-lo sendo assim,
pode-se dizer que a elasticidade da demanda por medicamentos é baixa. Por
outro lado, se o preço da pera subir as pessoas consumirão menos.

117
Isso se deve ao fato de existirem diversos produtos substitutos à pera, você
pode comer maçãs ou morangos no lugar. Por outro lado, um diabético não
pode substituir insulina por um remédio para dor de cabeça.
Empresas cujos produtos não têm substitutos fáceis e não enfrentam uma
grande concorrência, em geral, se revelam um bom negócio, mas de nada
adianta um excelente modelo de negócios mal administrado.
O investidor em ações deve buscar analisar e entender os negócios por trás
daquele código de negociação e não apenas papéis. Nunca esqueça disso.
E um dos mais importantes indicadores de valor é a governança
corporativa.

118
Governança Corporativa

Governança Corporativa é o conjunto de práticas e valores que alinha os


interesses da empresa com o dos acionistas minoritários.
O “Free Float” – percentual de ações em circulação no mercado – elevado,
a liquidez para as ações ordinárias, a adesão ao nível máximo de governança
da B3, o Novo Mercado são alguns indícios de boa governança.
Ter um R.I. – relação com investidores – que responda aos
questionamentos do acionista minoritário com atenção e de forma rápida e
direta é um ponto positivo. Apresentar informações claras no sítio de R.I. da
companhia também é uma boa prática.
Quando algo der errado veja como a empresa se explica. Companhias que
colocam a culpa na economia, nas crises externas e não tem um senso crítico
em relação aos próprios erros normalmente tem problemas com a
governança.
A recompra de ações é outra boa prática ligada à governança da
companhia que aumenta a participação do acionista no capital, pois, com um
número menor de ações, cada ação representará um percentual maior do
capital da organização.
Uma política clara de distribuição de dividendos é outro indicador de boa
governança corporativa.
Avaliar a governança não é algo trivial e exige alguma experiência. No
início erros acontecerão, mas com o tempo e a prática você entenderá melhor.
Não se assuste.

119
Contabilidade

“A contabilidade é o idioma dos negócios.”


Warren Buffett

Antes de entrar na análise do valor de uma companhia e na escolha das


empresas para ser sócio é essencial que o investidor entenda alguns conceitos
básicos de contabilidade.
Esse livro não pretende exaurir o tema ou se aprofundar muito, mas caso
você goste de analisar empresas pode buscar aprender mais sobre o tema. O
objetivo aqui é ensinar o mínimo que você precisa para fazer escolhas
inteligentes.
Explicaremos o Regime de Caixa e o de Competência, o Balanço
Patrimonial, a Demonstração de Resultados do Exercício e a Demonstração
de Fluxo de Caixa. Abordaremos também alguns indicadores
fundamentalistas.

120
Regime de Caixa e Regime de Competência

O que é mais importante: lucros ou geração de caixa? Qual a diferença?


Antes de aprender a analisar uma empresa é essencial entender a diferença
entre estes dois regimes contábeis: regime de caixa e regime de competência.
Imagine que a Ambev S.A feche uma grande venda de cerveja para a
distribuidora Zé Pinguinha LTDA., em novembro de 2018, para atender a
demanda do Natal até o carnaval, no valor de 100 milhões, com um prazo
para pagamento de 90 dias.
No DRE – Demonstração de Resultados do Exercício – será computada a
receita bruta de 100 milhões, serão deduzidos os impostos sobre venda
resultando na receita líquida e depois todos os demais custos e despesas até
chegarmos ao lucro líquido, digamos, de 25 milhões de reais.
Agora imagine o seguinte, Zé Pinguinha LTDA. é uma empresa com
sérios problemas financeiros, e, por uma fatalidade, o galpão onde estava
armazenado todo o estoque de bebidas, e que não possuía seguro contra
incêndio, pegou fogo. Zé Pinguinha LTDA. não conseguiu honrar o
pagamento com Ambev e pediu recuperação judicial. Ou seja, dos 100
milhões vendidos e convertidos em um lucro de 25 milhões, nada virou caixa.
Sendo assim, não houve entrada de recursos no DFC – Demonstração de
Fluxo de Caixa – de 2018 nem de 2019.
Infelizmente não se paga fornecedores, funcionários e impostos com os
lucros, tampouco se remunera o acionista pura e simplesmente com o lucro.
Lucrar é bom, mas sem gerar caixa não agrega valor, pois quem paga as
contas e remunera o acionista, seja na forma de recompra de ações, seja na
forma de pagamento de dividendos ou na forma de reinvestimento na
empresa para crescimento, é a geração de caixa.
No longo prazo a falta de lucros pode matar uma empresa, mas a falta de
geração de caixa já mata no curto prazo.

121
Balanço Patrimonial

O Balanço Patrimonial funciona como uma foto. Ele mostra o que a


empresa tem em forma de direitos e obrigações naquele momento específico.
Basicamente a disposição de um balanço Patrimonial é o seguinte:

Podemos dizer que os Passivos representam as fontes de recursos da


empresa. No caso do nosso exemplo: empréstimos contraídos com bancos e
contas a pagar como Capital de Terceiros.
O Patrimônio Líquido é representado pelo Capital Social, as reservas de
lucros, ações em tesouraria, ou seja, o Capital Próprio, ou seja, a parte que
sobra para os sócios caso a companhia receba tudo o que tem a receber, pague
tudo o que tem a pagar e venda seus bens e direitos.
Já os ativos são as aplicações destes recursos. Aqui temos dinheiro em
caixa, estoques e imóveis.
O balanço nos mostra, por exemplo, a situação de solvência da companhia
através da liquidez corrente, que é o ativo circulante (direitos das empresas
com expectativa de liquidação no curto prazo, ou seja, até 12 meses) dividido
pelo passivo circulante (obrigações para os próximos 12 meses).
Este número deve estar, sempre que possível, acima de um, permitindo à
empresa operar com alguma folga.
Outro índice interessante que pode ser obtido é a dívida sobre o
Patrimônio Líquido – PL. Esse índice mostra quanto a empresa deve para
cada um real de PL. Em nossas análises preferimos que esse número esteja
abaixo de 0,8, ou seja, a empresa consegue pagar todos os seus débitos com
capital próprio caso necessário, com alguma sobra.
122
Caso queira se aprofundar neste assunto leia um bom livro de introdução
à contabilidade.
Segue o balanço de uma empresa real para que você entenda:

123
O balanço mostrado é o da Grendene S.A, código de negociação GRND3
que pode ser encontrado na Bastter.com ou no RI da companhia. Observamos

124
que a empresa possui uma liquidez corrente de 7,98 e não possui
endividamento líquido, pois a posição em caixa somada às aplicações
financeiras (1,5 bilhões) já é maior do que o passivo total da companhia.
A Grendene é uma empresa conservadora que quase não usa capital de
terceiros. Outras empresas têm características distintas e contrairão dívidas,
o que não fará delas melhores ou piores. Você precisa analisar caso a caso,
setor a setor e empresa a empresa.
O setor de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, por
exemplo, costuma ser bastante alavancado. Ou seja, para ser sócio de
empresas deste setor você precisa aceitar uma liquidez menor e um risco um
pouco mais alto. Tais empresas se endividam, pois tem receita “garantida”
pelas concessões das quais são detentoras.
Em um momento futuro iremos nos aprofundar nos indicadores. Não se
preocupe tanto com isso agora.

125
DRE – Demonstração de Resultados do Exercício

A DRE funciona como um filme que mostra os fatos contábeis ocorridos


na empresa ao longo do trimestre ou do ano fiscal: quanto a empresa vendeu,
quanto gastou, quanto pagou de impostos e, finalmente, quanto teve de
resultado: lucro ou prejuízo. Exemplificaremos com uma DRE simples:
Receita Bruta
(-) Deduções (IPI, ICMS, devoluções etc)
Receita Líquida
(-) Custo do Produto Vendido (CPV) ou da Mercadoria (CMV)
Lucro Bruto
(-) Despesas com Vendas, Gerais e Administrativas
(-) Despesas Financeiras
Lucro Operacional
(-) Perdas
Lucro Antes da Imposto de Renda (LAIR)
(-) Provisões (IRPJ e CSLL)
Lucro ou Prejuízo Líquido
Melhor do que simplesmente explicar e demonstrar é ilustrar com a DRE
de uma conhecida empresa do mercado, a Los Renner S.A., código de
negociação LREN3 que pode ser encontrado na Bastter.com ou no RI da
companhia.

126
Repare nas linhas. As Lojas Renner vendem uma peça de roupa, recebem
a receita bruta, pagam os impostos sobre as vendas, sobra a receita líquida.
Pagam o custo das mercadorias e dos serviços, fica o Lucro Bruto e assim
sucessivamente. Essa empresa também tem receitas vindas da sua financeira,
pelo uso do cartão Renner.
A DRE tem uma sequência lógica onde o dinheiro entra e vai saindo aos
poucos. O que sobra no final é o Lucro Líquido ou o Prejuízo.

127
Custo x Despesa

Muito se confunde quando o assunto são custos e despesas. De forma


resumida, o custo está diretamente ligado à atividade produtiva, enquanto a
despesa, não.
Vamos exemplificar utilizando a empresa Mahle – Metal Leve S.A,
código de negociação Leve3. A Mahle fabrica peças automotivas para
diversas montadoras e está presente no mercado OEM (“original equipment
manufacturers”), cujos clientes são as montadoras de automóveis, e no
segmento de peças para reposição, denominado “aftermarket”. Nesse os
clientes são os grandes distribuidores de autopeças e retíficas de motores.
Dentre os produtos fabricados pela empresa destacam-se os pinos de
pistão, camisas de cilindro, bronzinas, anéis e bielas.
No ano de 2018, que compreende os meses de julho até setembro, a
empresa obteve uma receita líquida de vendas de aproximadamente 2,6
bilhões de reais. Destes, os custos representaram 1,9 bilhões. E o que são
esses custos? Os custos envolvem todos os gastos com a fábrica, manutenção,
energia elétrica, funcionários da linha de produção e outros que a empresa
tem para produzir as peças.
Após a dedução dos custos são deduzidas as despesas. Nelas estão os
custos das vendas, como comissões, o pagamento dos funcionários da área
administrativa, como por exemplo os do R.I. – Relações com Investidores, o
pagamento de juros das dívidas e outras despesas como a remuneração dos
executivos.
Em seguida apresentaremos a DRE da Mahle, encontrada no release da
empresa dentro do site do R.I. da companhia ou na Bastter.com.

128
Entender a diferença entre custo e despesas serve para eliminar uma antiga
falácia que diz que as empresas devem sempre reduzir os custos. Errado, os
custos devem aumentar, pois mais custos, via de regra, representam mais
vendas e assim um retorno maior para os acionistas. No entanto, um aumento

129
de custos sem um aumento correspondente na receita pode ser um problema.
Já as despesas devem se manter ou ao menos subir menos do que as receitas
e custos, assim a empresa terá maior lucratividade.

EBIT

EBIT ou Lajir é o lucro antes de juros e imposto de renda. Ele é bastante


utilizado para comparar empresas do setor industrial onde a depreciação e a
amortização normalmente são ou serão no futuro uma despesa real e não
apenas contábil.
O EBIT busca indicar ao analista quanto a empresa gerou de resultado
vindo das suas atividades operacionais, ou seja, excluindo-se as receitas e
despesas com juros, impostos e outras.
Um EBIT crescente, ou, ao menos, acima da média da indústria onde a
empresa se encontra é o que busca o investidor.
Para conseguir o EBTIDA a partir do EBIT some a depreciação e
amortização. EBIT + DA = EBTIDA.

EBTIDA

EBTIDA ou Lajida é o lucro antes de juros, impostos, depreciação e


amortização. EBIT + Depreciação + Amortização.
O EBTIDA é utilizado para avaliar o potencial de geração de caixa da
atividade operacional da empresa. E o que isso quer dizer? Imagine uma
sorveteria. Qual a sua atividade operacional? Venda de sorvetes. O EBTIDA
seria, de maneira simples, quanto a empresa ganhou após vender os sorvetes
e pagar o CMV (custo da mercadoria vendida), os funcionários e os impostos
que incidem diretamente sobre as vendas (não o imposto de renda). Neste
caso o EBTIDA seria quanto a empresa pode ganhar vendendo sorvetes.

130
Quando a companhia faz um grande investimento, muitas vezes devido à
amortização, à depreciação e às despesas financeiras, o lucro não sai do lugar,
mas sempre que o investimento for bem feito o EBTIDA começará a crescer
e com a conclusão da amortização e pagamento das dívidas o lucro deve
seguir o mesmo caminho.

131
DFC – Demonstração de Fluxo de Caixa

A DFC ou Demonstração de Fluxo de Caixa trata do dinheiro que


efetivamente entrou e saiu do caixa da companhia, seja pela contratação de
empréstimos, venda de produtos, pagamento de contas ou investimentos no
operacional da empresa.
Vamos começar pelo Fluxo de Caixa Operacional. O FCO representa os
valores gastos e recebidos na atividade principal da companhia. Em uma
barraquinha de cachorro quente, por exemplo, o FCO seria a venda dos
cachorro-quente subtraindo-se o custo das salsichas, pães e do vendedor.
O Fluxo de Caixa Investimentos representa os valores investidos em
aplicações financeiras e resgatados, imobilizado e intangível. Subtraindo-se
as aplicações financeiras do FCI obtemos o gasto com “Capex” (“capital
expenditure”), definido como o valor investido na aquisição de bens de
capital, que são bens que produzem outros bens. Por exemplo, quando a
Grendene compra uma máquina que confecciona calçados, o gasto com essas
máquinas é gasto com “Capex”.
Um “Capex” equivalente às despesas com Depreciação e Amortização
mostra que a empresa está apenas repondo o desgaste dos seu imobilizado e
intangível, por outro lado, um gasto com “Capex” acima da D&A,
geralmente, indica investimentos para o crescimento da companhia.
Se subtrairmos o “Capex” do FCO teremos o Fluxo de Caixa Livre de
“Capex”, ou seja, quanto sobra de dinheiro para a companhia após pagar suas
despesas e investir no seu negócio principal.
Além destes temos o Fluxo de Caixa Financiamento que representa a
entrada através de empréstimos e saídas devido ao pagamento dessas
obrigações.

132
Acima o Fluxo de Caixa da Empresa Grendene. Vemos que:
1 – A empresa converte praticamente todo o EBTIDA em Fluxo de Caixa
Operacional. O que é um dado positivo.
2 – A empresa vem gerando Fluxo de Caixa Operacional acima do Capex
em todos os anos analisados. Outro ponto positivo.
Você pode encontrar o quadro compilado da DFC e dos dados da DRE e
do Balanço Patrimonial na Bastter.com, tanto para as ações negociadas na
bolsa de valores brasileira e das negociadas na NYSE – New York Stock
Exchange – americana.

133
Análise Vertical e Horizontal das Demonstrações

A análise horizontal pretende apontar ao analista a evolução dos números


da companhia ao longo do tempo, ou seja, como os lucros evoluíram ao longo
dos anos? Como evoluiu a dívida? E os resultados operacionais? A geração
de caixa vem aumentando? Caindo? Ela serve para você entender o que
aconteceu com a organização com o passar dos anos.
Por outro lado, a análise vertical ou análise de estrutura acontece de cima
para baixo ou de baixo para cima. Normalmente avalia-se quanto cada conta
representa em relação a receita líquida. É desta análise que saem as margens
e a produtividade da companhia.
Estas análises são complementares e não excludentes. O ideal é que você
faça as duas antes de investir em qualquer companhia.

134
Dívidas das empresas

Diferente do que dissemos sobre o endividamento para pessoas físicas, as


dívidas podem ser positivas para as pessoas jurídicas. Isso acontece pois, com
o uso de capital de terceiros, a empresa reduz a base de cálculo para o
Imposto de renda ao contrair despesas financeiras.
Aqui não pretendemos explicar em detalhes o custo do capital próprio e o
custo do capital de terceiros. De maneira resumida a empresa avaliará o que
é mais interessante: usar capital próprio ou pegar empréstimos para crescer.
Para avaliar o endividamento das empresas são utilizadas duas métricas
simples: dívida líquida/EBTIDA e dívida bruta/patrimônio líquido.
Quanto dizemos que uma empresa possui endividamento estamos falando
da dívida bruta, que é representada pelos empréstimos financiamentos e
debêntures emitidas pela companhia. É importante avaliar as taxas de juros
desses empréstimos e saber se os compromissos são de curto prazo, até um
ano, ou longo prazo, mais de um ano e se são em moeda nacional ou
estrangeira.
A dívida líquida é a dívida bruta subtraída do caixa da empresa. Por
exemplo, se a empresa deve 100 mil reais e tem em caixa 30 mil reais, a
dívida líquida, portanto será 70 mil reais.
O que o investidor busca é uma empresa com endividamento equilibrado
e isso varia conforme o setor e a atividade da companhia. No entanto,
podemos utilizar como parâmetro a relação dívida líquida/EBTIDA menor
do que 3. E a dívida sobre o patrimônio líquido abaixo de 0,8 o quer dizer
que as dívidas da empresa representam menos de 80% do patrimônio líquido.
Outro indicador, menos utilizado, é a dívida líquida/lucro líquido. Neste
caso é interessante que este número esteja abaixo de 4.
Empresas do setor elétrico tendem a ser mais endividadas devido às longas
concessões, consideradas como “receita garantida”, que a empresa possui e
aos elevados custos de investimento. É uma característica do setor.
Em companhias cíclicas, como as que vendem alguma “commodity”,
empresas de petróleo e metais, as dívidas devem ser olhadas com mais
cuidado, pois um endividamento adequado na alta do ciclo da “commodity”

135
pode virar um pesadelo no período de baixa. O ideal é que estas empresas,
com receitas variáveis, tenham um nível de endividamento menor.

136
Produtividade

A forma de analisar a produtividade da empresa é através das margens.


Elas mostram quanto daquilo que a empresa vendeu vira lucro bruto,
EBITDA, e, mais importante, o lucro líquido. No quadro a seguir
apresentamos as Margens da Natura para o 4º trimestre de 2018.

Quanto maiores as margens, maior a proteção da empresa, pois, em


momentos de crise, ela pode reduzir os preços sem deixar de lucrar. Margens
altas, muitas vezes, denotam a preferência do consumidor, como por exemplo
a Apple, que, independente de produzir os melhores aparelhos, consegue
vendê-los mais caro e obter assim maiores margens.
O consumidor não trocaria um aparelho da Apple vendido por mil dólares
por outro chinês, equivalente, de 200 dólares, pois ele está comprando a
marca Apple e a experiência oferecida pela empresa. O mesmo vale para
marcas como Ferrari, Lamborghini e BMW, que vendem um conceito e uma
experiência junto dos seus produtos.
Não se deve comparar as margens de empresas de setores distintos. Por
exemplo, não faz sentido comparar as margens da varejista Lojas Renner com
as da Ambev, pois são empresas com atividades totalmente diferentes.
É importante entender o setor e qual a margem “normal” naquela
atividade. Margens baixas tem a vantagem de não atrair tanto os
concorrentes, gerando uma barreira de entrada na indústria, afinal ninguém
quer despender tempo e dinheiro montando uma indústria do zero correndo
o risco de ganhar pouco ou pior, ter prejuízo.
Ter uma margem maior não significa que a empresa dará um retorno
maior para o acionista. Usando como exemplo a Toyota e a Ferrari, as
margens da segunda são muito maiores, conforme já foi explicado. Todavia

137
ela “gira” muito menos, ou seja, o número de carros vendidos é bem menor.
Consequentemente, a Toyota é mais lucrativa e tem um retorno maior sobre
o seu patrimônio, agregando mais valor para o acionista.

138
Retorno sobre o patrimônio líquido – ROE ou RPL

O ROE – “Return On Equity” ou RPL é o retorno sobre o patrimônio


líquido. Um valor percentual obtido dividindo-se os lucros pelo patrimônio
da companhia.
Trocando em miúdos, o ROE mostra quanto de lucro a companhia gera
com o dinheiro investido pelos acionistas.
Via de regra, quanto maior o ROE mais interessante é o negócio que você
está analisando. Buscamos empresas com ROE acima da média do setor onde
se encontra, de preferência acima de dois dígitos (10%).
Algumas empresas precisam de um patrimônio muito pequeno para operar
e por isso seu ROE fica distorcido para cima, enquanto outras precisam de
muito patrimônio, o que leva o ROE a níveis mais baixos. Por isso é
importante entender o setor em que a empresa está e não comparar bananas
com laranjas.
Não faz sentido comparar a Hering, código de negociação HGTX3, que é
uma empresa do setor de vestuários, com a M Dias Branco – MDIA3, que
produz alimentos ou com a Vale – VALE3, empresa mineradora.

139
Retorno sobre o Capital Investido – ROIC

O ROIC, ou Retorno sobre o capital investido, mede não só o retorno


sobre o capital próprio, como o ROE, mas também sobre o capital de
terceiros.
Sendo assim, o ROIC mostra quanto a empresa teve de retorno para cada
real captado, seja de sócios ou terceiros. Uma medida mais completa para
análise da empresa do que o ROE.
O ROIC é interessante pois, serve para comparar empresas com estrutura
de capital diferentes, ou seja, proporções diversas entre capital próprio e
capital de terceiros.
O cálculo do ROIC é:
ROIC = NOPAT/Capital Investido
Onde NOPAT = EBIT – I.R.
Capital investido = Dívida Líquida + Patrimônio Líquido
Existem outras formas de calcular, mas não entrarei nos detalhes do
cálculo, pois esta não é a proposta do livro. Caso queiram ver o ROIC das
companhias já calculado, acessem a Bastter.com, lá na página de cada
empresa você encontrará o cálculo pronto.
Se for utilizar o ROIC em suas análises, utilize apenas para comparar
empresas do mesmo setor ou mesmo para acompanhar a evolução do retorno
da companhia ao longo dos anos. Não compare ROIC da Ambev (empresa
de bebidas) com o da Usiminas (siderúrgica), por exemplo.

140
Dividendos

“O segredo do mundo é viver de dividendos. A valorização é só um


plus.”
Lírio Parisotto

Muitos investidores, especialmente os iniciantes, com visão de longo


prazo ambicionam “viver de dividendos”, mas o que são estes tais dividendos
de que tanto se fala?
Os dividendos são a remuneração paga aos acionistas após o pagamento
de todas as obrigações, isto é, a distribuição dos lucros. O DPA – dividendo
por ação – representa quanto em dividendos a empresa pagou para cada ação.
Os dividendos devem ser provenientes da geração de caixa da companhia.
Quando a empresa não gera caixa, mas, mesmo assim, distribui muitos
dividendos é bom ligar o alerta, pois é provável que tenha algo errado.
Esse número, isoladamente, não revela muita coisa, pois em alguns
momentos a empresa pode reter mais lucros para investir e crescer e, em
outros, distribuir mais dividendos e juros sobre capital próprio. Isso não torna
a empresa melhor ou pior.
A consequência natural do crescimento de uma companhia competente é
o pagamento, cada vez maior, de dividendos, pois as oportunidades de
investimento tendem a ficar mais escassas.
O DPA é utilizado também para calcular o “Dividend Yield” da
companhia que é o resultado do DPA dividido pelo preço da ação.
Outro indicador é o “Payout” que é obtido dividindo-se o DPA pelo LPA
– lucro por ação – ou seja, quanto dos lucros foi distribuído na forma de
dividendos. Uma empresa com elevado PY é o que chamamos de empresa
de dividendos. Se o “Payout” da empresa for baixo, então esperaremos mais
crescimento da companhia e se for alto, menos crescimento.
“Payouts” muito elevados podem não ser sustentáveis no longo prazo. É
preciso analisar e entender o modelo de negócios da companhia. Buscar

141
entender o quanto ela precisa, de fato, reinvestir para operar de maneira a
manter suas vantagens competitivas.
Ao analisar uma empresa não se preocupe muito com a categoria,
dividendos ou crescimento, busque qualidade, pois empresas boas vão
crescer ou pagar dividendos a depender do momento em que estão. Algumas
crescerão e pagarão dividendos.
Um erro comum, conforme explicitado anteriormente, cometido pelo
investidor iniciante é comprar empresas olhando exclusivamente o DY sem
saber se existe geração de caixa sustentando aqueles dividendos.
Essa estratégia é tola e leva a desastres, como por exemplo comprar
empresas extremamente endividadas, que pegam recursos emprestados para
pagar os seus dividendos.
Os dividendos irão crescer na medida em que as empresas crescerem e
não tiverem projetos de investimento. Nestes momentos a geração de caixa
será direcionada para remunerar os acionistas na forma de dividendos e juros
sobre capital próprio ao invés de projetos próprios da companhia.

142
Juros sobre Capital Próprio

JCP, ou juros sobre capital próprio, também são proventos pagos aos
acionistas da companhia. O JCP são despesas dedutíveis do lucro para fins
de base de cálculo do Imposto de Renda. Se por um lado a companhia não
paga imposto de renda (IRPJ), por outro é descontado do acionista o
percentual de 15% a título de imposto de renda em relação aos lucros.
Simplificando, juros sobre capital próprio custam menos para as empresas
e acionistas, pois a alíquota média de Imposto de Renda de uma empresa no
Brasil supera os 30%, bem acima dos 15% cobrados no JCP.
Então por que as empresas não distribuem apenas JCP? Simples, o
pagamento dos JCP é limitado por lei à TJLP, taxa de juros de longo prazo,
do período. Por exemplo, em 2019, uma empresa pode pagar até 7,03% do
seu patrimônio líquido na forma de juros sobre capital próprio ao ano.
Os juros sobre capital próprio são somados aos dividendos para o cálculo
do DPA – dividendo por ação e consequentemente do DY – Dividend Yield
e do PY – Payout.

143
Aluguel de ações

O aluguel das ações é uma forma simples de remunerar a carteira do


investidor de longo prazo. O doador aceita alugar suas ações para um
tomador em troca de uma remuneração que é um percentual sobre o valor de
mercado daquelas ações.
Por que alguém aluga ações? O aluguel de ações é um recurso bastante
utilizado por investidores que gostam de operar vendido, ou seja, vender
ações que não possuem. É bem simples, o investidor aluga as ações por um
valor e as vende, pois ele acredita que quando chegar a época de devolver
tais ações elas estarão abaixo do valor recebido por ele e descontado o custo
da locação. Caso tudo dê certo ele recompra as ações e devolve ao doador,
embolsando a diferença. Caso dê errado ele recompra as ações e assume as
perdas.
No caso do aluguel os ganhos são limitados para o tomador, mas as perdas
não. Por isso, evite operar vendido.
O doador terá direito a todos os proventos distribuídos durante o período
de locação, dividendos e juros que serão pagos pelo tomador através da B3.

144
Indicadores ligados ao preço

Os indicadores ligados ao preço das ações são o Dividend Yield (DY), já


explicado, P/VPA (Preços sobre valor patrimonial) e o P/L (Preço Lucro).
O P/VPA informa quanto você paga por cada real de patrimônio da
empresa. A lógica seria simples, quanto menor melhor, mas existem alguns
problemas com esse indicador. O valor patrimonial pode estar distorcido, por
exemplo, patentes e marcas que não tem uma avaliação perfeita, maquinários
de indústria que dificilmente seriam liquidados pelo seu valor patrimonial e
por aí vai.
O setor onde o P/VPA pode ser utilizado com cuidado é o bancário, pois
a maior parte do patrimônio dos bancos é formada por dinheiro.
O P/L é definido como o preço da ação dividido pelos lucros. É conhecido,
tradicionalmente como cemitério de malandro. Isto se deve ao fato de os
investidores analisarem o P/L acreditando em uma distorção nos preços
sendo que P/L baixo normalmente é sinal de uma distorção nos lucros.
Muitas vezes as empresas percebem um lucro em certos períodos acima do
normal por fatores internos ou externos, todavia esse lucro não é sustentável
e nos períodos futuros o lucro regressará ao normal.
No início dos anos 2000 dizia-se que a Ambev possuía um P/L muito
elevado, acima de 23. De lá para cá ela deu um retorno de mais de 1.000%,
porém o P/L continua na casa dos 23.
O ideal é que você deixe os preços de lado na análise, ao menos
inicialmente. Foque na qualidade da empresa, da gestão e na geração de
caixa. Começar com foco em preços te levará ou a deixar à qualidade em
segundo plano ou se estressar com os movimentos do mercado e vender em
momentos indevidos.

145
Vantagem Competitiva

A vantagem competitiva é o que impede os concorrentes de acabarem com


sua empresa ou de reduzirem sua rentabilidade, o que diferencia a companhia
das demais e permite que o produto dela não seja apenas mais um, disputando
consumidores apenas pelo preço.
De acordo com Warren Buffett, a vantagem competitiva funciona como
um fosso em torno de um castelo que impede as forças inimigas de invadirem
e, sendo assim, quanto maior esse fosso, melhor.
Descobrir qual a vantagem competitiva de uma companhia nem sempre é
fácil. Vale ler a página e conversar com o R.I. (relação com investidores), ler
os releases e ouvir os webcasts para descobrir. Muitas vezes você encontrará
a explicação no FAQ do mural da empresa na Bastter.com.
Vamos exemplificar. Seria fácil montar uma cervejaria e tomar o lugar da
Ambev, obtendo uma significativa participação no mercado de cervejas?
Com certeza não. Por quê? Seria pela qualidade superior dos produtos?
Também não. A vantagem da Ambev está na sua rede logística. Ela consegue
entregar garrafas de cerveja e refrigerante em pequenas cidades no interior
da região norte, sul, nordeste e centro-oeste. Outras boas cervejarias
surgiram, mas apresentaram dificuldades de levar seus produtos para fora da
região sudeste ou da sua região de origem com preços competitivos.

146
Quando vender uma ação

O primeiro motivo para vender uma ação é quando as premissas que te


levaram a comprá-la se mostram falsas. Por exemplo: você comprou ações
da Cielo entendendo que ela é remunerada pela taxa de juros cobrada pelo
rotativo do cartão de crédito e depois descobriu que o negócio de adquirência
e POS não é nada disso. Comprou Cemig achando que ela era remunerada
pelo consumo de energia elétrica e que detém controle sobre os preços da
energia distribuída e por aí vai. Nestes casos você precisa entender o que de
fato a empresa faz e decidir se isso te deixa confortável.
Outro bom motivo é a deterioração dos fundamentos, perda dos lucros,
margens e geração de caixa. Entenda que um ano ruim não é suficiente para
que você decida vender uma empresa. Muito menos um trimestre difícil.
Todas as companhias passam por momentos ruins.
De toda forma não venda ações antes de ter a certeza de que elas perderam
ou nunca tiveram valor. Deixe em quarentena primeiro (não compre nem
venda). Depois vá vendendo aos poucos, um pouquinho por mês até ter
certeza da perda de valor.
Ah, Fernando! Mas aí a cotação vai cair e eu vou perder dinheiro. Perde-
se menos demorando para sair de uma empresa ruim do que saindo rápido de
uma boa.
O retorno do Itaú nos últimos 24 anos foi de, aproximadamente, 25.615%.
R$ 1.000,00 viraram R$ 256.615,00, no entanto, neste período, os lucros
caíram em alguns momentos e a cotação chegou a cair mais de 60%.
Por fim, o último bom motivo é quando, tendo acumulado patrimônio para
a tranquilidade financeira, você entender que vale a pena vender algumas
ações para realizar aquele seu sonho, como por exemplo uma viagem
específica ou a compra de um sítio para relaxar na aposentadoria.

147
Mãos de alface

Esse termo, vindo do futebol, servia para denominar os goleiros que


deixam a bola escapar por entre os dedos permitindo assim o gol do
adversário. Ouvi do grande João Bosco, o Mille, moderador da Bastter.com
e autor de livros muito interessantes sobre o investimento em ações, outra
definição. Nesta, mãos de alface representa o indivíduo que inicia
corretamente sua vida de investidor em ações, mas desanda vendendo na
primeira alta ou baixa.
Explicando, mãos de alface é aquele que compra ações de boas empresas,
compra fundos imobiliários com bons imóveis, estuda os fundamentos, mas
quando vem um “crash” e as cotações e proventos caem ele se desespera e
vende tudo no momento mais agudo da crise. Ou então realiza lucros quando
vê uma boa valorização na empresa. Enfim, compra, mas não segura.
A razão disso, na maioria das vezes, é o foco errado em preço ao invés de
valor. Aqueles que buscam entender as companhias e encontrar o valor
intrínseco delas tem muito mais preparo para passar por uma crise.
Estude muito para não se tornar um “mãos de alface”.

148
Escolhendo as empresas

Por fim, podemos dizer que o que buscamos ao comprar ações é adquirir
participação em empresas que não se envolvam em confusões ou rolos,
companhias que sejam lucrativas, com lucros crescentes ou ao menos
resilientes em momentos de crise, forte geração de caixa (FCO e FCL
Capex), dívida equilibrada, boas margens, se comparada ao setor de atuação,
e um alto retorno sobre o patrimônio.
Além disso é preciso avaliar as vantagens competitivas da companhia e a
governança. Ler a página do R.I., alguns releases e ouvir webcasts pode te
ajudar a entender melhor a companhia. O FAQ da Bastter.com e os quadros
são ferramentas de enorme valia para os investidores.

Montando a carteira de ações


Caso você tenha tomado a decisão e agora vá montar sua carteira de ações,
não tenha pressa. Estude as empresas com calma. Compre uma ação ou, no
máximo, duas por mês. Não se desfaça dos seus investimentos em renda fixa
ou outros, como por exemplo os imóveis e nem crie grandes expetativas em
relação aos retornos.
Um erro comum cometido pela maioria dos investidores iniciantes é o giro
de carteira. Na ânsia por encontrar o melhor ativo daquele momento o
investidor vende ativos de valor para comprar outros, pagando impostos,
emolumentos – que são taxas cobradas pela bolsa de valores – e taxas de
corretagem – cobradas pela corretora. Como diz o megainvestidor Lírio
Parisotto: “investidor que se mexe muito vira vinagre”.
Não tenha pressa. Você não vai aposentar em 3 anos por estar investindo
na bolsa de valores. Invista aos poucos, aprenda com seus erros, pois a única
certeza é que você vai errar. Mesmo gênios como Peter Lynch e Warren
Buffett erraram. O diferencial daqueles que vão longe é aprender com os
erros, persistir e ter disciplina e paciência.

149
O seu primeiro passo você já deu ao ler este livro.

“Benchmarks”
Você, provavelmente, deve ter sentido falta de gráficos do tipo: CDI vs
Selic ou IBOV (ibovespa) vs IFIX vs CDI dentre outros possíveis
“Benchmarks”.
“Benchmark” ou comparação entre produtos e desempenhos, tradução
livre, são métricas que alguns investidores utilizam para avaliar se a sua
carteira está indo bem ou mal.
Uma típica métrica é o CDI. Quase todos, por algum motivo, gostam de
comparar tudo com o CDI ou a Selic (considerada a taxa livre de risco pela
teoria econômica). A lógica é, se estou correndo riscos deveria ganhar mais
do que a taxa livre de risco.
Outro “benchmark”, muito utilizado no mercado de ações é o ibovespa.
Índice que mede o desempenho das ações mais negociadas e com maior valor
de mercado da bolsa brasileira. Não detalharemos os cálculos de tais índices,
pois para o holder são inúteis.
O objetivo ao construir uma carteira de ativos é ter tranquilidade e gerar
renda. Se você tem um desempenho igual ou acima do CDI, não faz
diferença. O importante é ter confiança na sua carteira e nas suas escolhas
como investidor. Comprar ativos de valor e ter paciência para aportar o
máximo possível.
Anos atrás foi feita uma pesquisa entre aposentados que são investidores
em ações nos Estados Unidos em uma das melhores regiões para se viver
após a aposentadoria. Perguntaram aos senhores e senhoras se haviam batido
o mercado, no caso dos EUA representado pelo S&P 500. Alguns
responderam que sim, outros não, até que um respondeu: não sei e tanto faz,
o importante é que o valor que acumulei até aqui me permitiu viver neste
local.
Invariavelmente acompanhar benchmarks vai deixá-lo mais inseguro e
fazer com que cometa erros. Mesmo os melhores investidores passarão

150
períodos com desempenho abaixo do CDI ou do ibovespa e, nessa hora,
aquele que acompanha o benchmark, tem mais chance de fraquejar.
Foque em valor, o resto é resto.

151
Estudos de caso

Os estudos de caso não pretendem indicar a compra, venda ou manutenção


de ações. Esses são apenas uma forma de mostrar ao investidor como são
feitos os estudos de ativos pelo autor.

WEG

A companhia WEG, lê-se “végue”, é uma sociedade anônima do


segmento de bens industriais que produz, seguindo a ordem de importância
para a receita da companhia, equipamentos eletroeletrônicos industriais,
aparelhos para geração, transmissão e distribuição de energia como turbinas
hidráulicas, motores para uso doméstico, como o do seu liquidificador, e por
fim tintas e vernizes.
Fundada em 1961por um engenheiro, um eletricista e um administrador e
um mecânico a WEG abriu seu capital na bolsa (IPO) em 1971.
A WEG hoje é líder na venda de motores elétricos no Brasil. No entanto,
em 2018, 56% das suas receitas vieram do exterior, sendo 28% produzidos
no Brasil e exportados e outros 28% produzidos fora do país.
A organização está em constante desenvolvimento de tecnologias, criando
novos produtos e atualizando os existentes para que não se tornem obsoletos
frente aos concorrentes.
Em relação a governança alguns dados interessantes da WEG são: está
listada no novo mercado, possuindo apenas ações ordinárias e com um “free
float” de 35%.
A vantagem competitiva da WEG é produzir equipamentos com alto valor
agregado e que necessitam de capital intensivo. Trocando em miúdos, não
fica nada barato, e não é nada fácil, construir uma fábrica de motores
elétricos, transformadores ou turbinas para usinas hidrelétricas. Existem
muitas patentes e outros requisitos para a fabricação de tais bens. Além disso,

152
uma concorrente teria dificuldades em conquistar os consumidores dado que
uma usina hidrelétrica não busca uma turbina avaliando simplesmente preço.
Vamos ver a política de distribuição de resultados da companhia.
A WEG observa aos seguintes fatores para definir a alocação de recursos,
conforme retirado do sítio eletrônico da própria organização:
(i) Consideram-se o comportamento atual e as perspectivas futuras dos
mercados de atuação atuais e potenciais da Companhia para identificar
as oportunidades de investimento existentes para a Companhia;
(ii) Considera-se a necessidade de recursos para manutenção e expansão
da capacidade produtiva e das estruturas de apoio para a exploração
destas oportunidades de investimentos disponíveis para a Companhia;
(iii) Consideram-se os recursos disponíveis para a Companhia para
efetuar os investimentos necessários, sendo tanto recursos próprios
como de terceiros, já disponíveis ou que poderão ser, com razoável
confiança, obtidos no futuro;
(iv) Considera-se a necessidade de flexibilidade e solidez financeira para
manutenção dos negócios e do acesso ao crédito pela Companhia;
(v) Os recursos excedentes são distribuídos aos acionistas como
remuneração do capital, na forma de dividendos, incluídos os Juros
sobre Capital Próprio.

Observe que a empresa tem uma política clara de distribuição de


proventos. Nos últimos dez anos ela vem distribuindo em média 50% dos
seus resultados.
Vamos dar uma olhada nos resultados:

153
O lucro líquido e o EBTIDA mais do que dobraram entre 2011 e 2018. A
empresa mantém margens estáveis de lucro enquanto consegue aumentar
suas receitas. O retorno sobre o capital investido é de 12% contra uma taxa
Selic de 6,5%.
As margens da companhia estão acima de 10% e o ROIC, acima de 12%.
Acima dos dois dígitos que gostamos. Ou seja, a princípio, boa produtividade
e bom retorno sobre o capital investido.

154
A empresa possui uma dívida líquida de pouco mais de 240 milhões contra
um EBTIDA de 1,8 bilhões, formando assim uma relação dívida/EBTIDA
de 0,13, muito abaixo do nosso limite de 3.
A seguir o Fluxo de caixa da empresa:

155
Vemos um forte crescimento na geração de caixa que passou de 300
milhões em 2011 para 1 bilhão e 300 milhões em 2018 com fortes
investimentos em “capex”, algo em torno de 1/3 do caixa gerado. A empresa
busca investir para desenvolver novas tecnologias e fazer aquisições
estratégicas como a dos negócios de armazenamento de energia em baterias
da norte-americana “Northern Power Systems” – NPS.
Apesar dos resultados interessantes a escolha de uma empresa para
investir vai além de números. Você deve estabelecer seus próprios critérios,
fazer suas próprias escolhas. Estude, busque aprender sobre setores,
segmentos e áreas de atuação, não siga quaisquer recomendações às cegas.

156
Odontoprev

A Odontoprev é uma empresa do setor de saúde que comercializa planos


odontológicos para empresas e planos individuais para você e sua família. O
foco da empresa está nos planos odontológicos, ela não vende outros tipos
de planos.
Atualmente a Odontoprev utiliza com exclusividade os canais de
distribuição do Bradesco e Banco do Brasil. Fazendo com que metade dos
correntistas brasileiros estejam ao alcance da companhia.
Fundada em 1987, a companhia detém o maior número de vidas
(indivíduos segurados) em todas as regiões do país. Ela abriu seu capital em
dezembro de 2006.
O Brasil é o país com maior número de dentistas no mundo, mesmo assim
apenas 12% dos brasileiros possui plano dental, contra 77% dos norte-
americanos.
Os planos odontológicos tiveram um crescimento de 232,8% de 2006 a
janeiro de 2019, passando de 7,3 milhões de vidas para 24,3 milhões.
É interessante observar que a organização atua, não somente nos planos
corporativos, como é o caso da maior parte das concorrentes, mas oferece
planos para pequenas e médias empresas e planos individuais, com contratos
mais curtos, mas um ticket médio maior.
A empresa enumera como sendo suas vantagens competitivas:
1. Líder de mercado desde os anos 90.
2. Modelo de negócios único e “asset-light”.
a. Baixa Necessidade de “Capex.”
3. Receitas pré-pagas e recorrentes.
4. Alta previsibilidade do fluxo de caixa.
5. Dívida Zero.

Ela distribui dividendos trimestralmente. Via de regra, em março, junho,


setembro e dezembro.

157
A Odontoprev distribui a maior parte dos seus lucros na forma de
dividendos. Isso se deve a baixa necessidade de capex da companhia.
Os maiores riscos da companhia são os seguintes:
1. Não conseguir estimar ou controlar os custos com sinistro.
2. Conseguir fazer o repasse do aumento dos custos aos clientes.
3. Uma redução do número de clientes teria grande impacto.

Vamos dar uma olhada nos números:

Quadro retirado da Bastter.com

Vamos observar os números. A empresa teve um crescimento de 95% no


período, mantendo as margens, o que mostra uma evolução dos resultados
sem comprometer a produtividade. Em relação a dívida, a empresa não deve
nada, sendo assim não há o que se falar em análise de dívidas.
A seguir o fluxo de caixa:

158
A companhia passou de uma geração e caixa operacional – FCO – de 125
milhões em 2011 para 324 milhões em 2018. E de um FCL “Capex” (dinheiro
que sobra de fato) de 120 milhões para 302 milhões, demonstrando aquela
baixa necessidade de “Capex” da qual falamos anteriormente.
Gostou da Odontoprev? Não vai sair comprando, não. Estude antes, leia a
página da ação na Bastter.com e também a página do R.I. – relação com
investidores – da companhia. Procure entender bem o modelo de negócios
antes de investir.

159
Eternit

Eternit, código de negociação Eter3. A companhia atua na industrialização


e comercialização de produtos de fibrocimento, cimento, concreto, gesso,
produtos de matéria plástica, bem Como Outros Materiais de construção e
respectivos acessórios.
Em 1930, após a consolidação do fibrocimento pela Europa, o uso de tal
material se espalhou pelo mundo. Em 1940 uma parceria entre a Eternit
Belga e a Eternit suíça foi fundada a Eternit do Brasil Cimento e Amianto
S.A.
Você provavelmente já viu algum lugar coberto com telhas de amianto ou
mesmo uma caixa d’água de amianto. A líder na venda de produtos de
amianto, nas últimas décadas, no mercado tem sido a Eternit.
A empresa sofreu um grande revés quando em decisão tomada em 29 de
novembro de 2017 o STF proibiu, em todo o país, a produção,
comercialização e o uso do amianto tipo crisotila, principal matéria prima da
companhia em todo o país.
De lá pra cá os números da empresa seguiram a seguinte trajetória:

160
Os lucros, antes consistentes se converteram em prejuízo, nem mesmo o
lucro operacional pode ser preservado.

161
Retirado da Bastter.com

162
A dívida da empresa cresceu e, por outro lado, a geração de caixa caiu
de 89 milhões em 2011 para 5 em 2018, abaixo da necessidade de
investimento da companhia.
Nem sempre conseguimos ver antecipadamente a deterioração dos
fundamentos da companhia, por isso, a diversificação é essencial para
qualquer investidor. Te protege dos seus erros, e tenha certeza, você vai
errar!

Resumo sobre Ações

Ações são partes das companhias organizadas como Sociedades


Anônimas.
“Buy and Hold” é a estratégia de compra de ações sem prazo para a venda.
Ao comprar uma ação você se torna sócio da empresa.
O investidor é aquele que compra participação em uma empresa sem a
intenção de se desfazer dessa participação com o objetivo de receber parte
dos resultados gerados por ela.
O retorno vem do crescimento da companhia e consequentemente das
cotações ou da distribuição de proventos: dividendos e juros sobre capital
próprio.
Historicamente as ações trazem um retorno maior do que a renda fixa.
Para escolher uma ação é preciso avaliar: o modelo de negócios, a
governança, o endividamento e a geração de caixa da companhia.
Entenda os riscos aos quais a companhia está exposta e quais as
oportunidades para a empresa.
É preciso declarar o investimento em ações na sua declaração de imposto
de renda de pessoa física.

163
ETF

Os ETF – “Exchange Trade Founds” – também conhecidos como fundos


de índices, são fundos fechados, negociados em bolsa de valores, que
replicam a composição de índices da bolsa de valores. Por exemplo, o ETF
Bova11 tem uma carteira que replica a do ibovespa, principal índice da bolsa
de valores de São Paulo.
Esses fundos representam todas as ações que compõem a carteira teórica
do índice usado como referência.
São negociados na B3 até mesmo ETF’s de índices da bolsa americana
como o IVVB11 que replica o S&P 500, índice que é composto pelas 500
principais empresas negociadas em bolsa nos EUA.
Recentemente aconteceu o lançamento do ETF do Tesouro Direto que tem
por base o IMA-B índice que seja uma carteira teórica composta por diversos
títulos NTN-B (Tesouro IPCA+). No mínimo 89,5% dos recursos do ETF
deverão estar aplicados nessa categoria de ativos. Esse ativo é inadequado
para quem tem objetivos específicos com o dinheiro como por exemplo,
comprar uma casa em 2024, mas pode ser uma opção para quem não tem
prazo já que não conta com um vencimento como a renda fixa em geral.
Outro ETF de renda fixa é o da “Mirae Asset Global Investments”, mas
este é lastreado em juros futuros e não tem relação com o IMA-B.
A alíquota de imposto de renda sobre ganho de capital nos ETF’s é de
15%, assim como as ações, porém, sem a isenção para vendas de até 20 mil
mensais.
O código do DARF – Documento de Arrecadação de Receita Federal –
que deve ser pago até o último dia útil do mês seguinte ao da operação em
que foi obtido o lucro, é o 6015.
Os ETF’s não têm o “come cotas” que vimos anteriormente nos fundos de
renda fixa e funcionam, de maneira geral, como um pacote com coisas ruins
e coisas boas. É, mais ou menos, como comprar um pacote de laranjas
fechado na feira sem olhar.
O ideal é que você aprenda a escolher os seus próprios ativos, mas, para
quem não quer escolher, pode ser uma saída. Outra saída é investir apenas no

164
Tesouro Direto, e outros produtos de renda fixa, mas você pecará por falta
de diversificação.

165
Capítulo 16 - Imposto de Renda

É imprescindível que o investidor esteja em dia com o fisco, vamos trazer


aqui as informações essenciais para que ele pague seus impostos e faça a
Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Física.
A regra em relação a declaração dos seus investimentos em renda variável
é simples e clara: mexeu na bolsa, precisa declarar. Não há exceção.
A venda de ações até o valor de R$ 20.000,00 por mês possui isenção de
imposto de renda, contudo vendas acima desse valor pagam imposto de renda
sobre os lucros na alíquota de 15%. No caso de operação “day trade”, onde
há compra e venda no mesmo dia a alíquota é de 20% e não há isenção.
Na hora de pagar o imposto, você precisa preencher o DARF com o código
6015, o valor é: (venda - custos) – (compra + custos) = lucro que deve ser
multiplicado pela alíquota de imposto de renda correspondente. Deste valor
você deve descontar o chamado imposto “dedo-duro” de 0,005% sobre as
vendas comuns e 1% sobre as operações “day trade” e pagar o DARF até o
último dia útil do mês subsequente ao da venda.
O ganho de capital nos fundos imobiliários é tributado na alíquota de 20%,
novamente o DARF é o 6015, já os rendimentos são isentos para investidores
desde que atendidos os 4 critérios:
1 - O fundo imobiliário seja negociado exclusivamente em bolsa ou no
mercado de balcão organizado;
2 - O fundo como um todo tenha 50 cotistas ou mais;
3 - O cotista em particular não detenha mais de 10% dos direitos do fundo;
4 - O titular (dono) das cotas seja pessoa física (pessoa jurídica não goza
da isenção de I.R.);
A declaração de imposto de renda é uma obrigação para contribuintes que
se enquadram nas seguintes situações:
Recebeu rendimentos tributáveis, cujo valor foi superior a R$ 28.559,70
(esse valor é atualizado de tempos em tempos, verifique na página da receita
federal) ou tenha recebido rendimentos isentos ou não tributáveis, cuja soma
foi superior a R$ 40 mil.

166
Obteve, em qualquer mês, ganho de capital na alienação de bens ou
direitos sujeitos à incidência do imposto ou realizou operações em bolsas de
valores, de mercadorias, de futuros e assemelhadas.
Fez jus a isenção do IR incidente sobre o ganho de capital recebido na
venda de imóveis residenciais cujo valor resultante da venda tenha sido
aplicado na aquisição de imóveis residenciais localizados no país no prazo
de 180 dias, contados a partir da data de celebração do contrato de compra e
venda. Independente da isenção, esse tipo de transação deve ser declarado.
Realizou operações em bolsas de valores, de mercadorias, de futuros e
assemelhadas. (Conforme os leitores deste livro eventualmente farão).
Obteve receita bruta em valor superior a R$ 142.798,50 com atividade
rural, ou pretende compensar, no ano-calendário ou posteriores, prejuízos
com atividade rural em anos anteriores ou no próprio ano a que a declaração
se refere.
Tinha, em 31 de dezembro do ano anterior, a posse ou a propriedade de
bens e direitos, inclusive terra nua, de valor total superior a 300 mil reais. (É
o que esperamos para os leitores deste livro).
Estas métricas da obrigatoriedade mudam a cada exercício, portanto fique
atento e se atualize acessando à página da Receita Federal do Brasil.
As ações devem ser declaradas em bens e diretos sob o código 31 (Ações)
já os fundos imobiliários devem ser lançados sob o código 73 (Fundos de
Investimento Imobiliário).
Os dividendos são declarados como rendimentos isentos e não tributáveis
sob o código 09 (Lucros e dividendos recebidos) já os rendimentos dos
fundos imobiliários são declarados sob o código 26 (Outros).
Os juros sobre capital próprio devem ser declarados nos rendimentos
sujeitos à tributação exclusiva/definitiva na fonte sob o código 10 (Juros
sobre capital próprio).
As operações de vendas de ações devem ser registradas em Operações
Comuns/Day-Trade. Já as com Fundos de Investimento Imobiliários devem
ser declaradas nas Operações Fundos Invest. Imobiliários.

167
O investidor pode carregar o prejuízo para ser compensado em anos
posteriores tanto nas negociações com ações quanto com fundos
imobiliários.
Os títulos de renda fixa: Tesouro, CDB, LCI devem ser declarados em
bens e direitos sob o código 45 (Aplicação de renda fixa). Já a caderneta de
poupança deve ser declarada com o código 41(Caderneta de poupança).
Os rendimentos recebidos dos cupons pagos pelo Tesouro ou pelo
vencimento dos títulos públicos e privados como os CDB’s devem ser
declarados em rendimentos sujeitos à tributação exclusiva com o código 06
(rendimentos de aplicações financeiras).

168
Capítulo 17 – Considerações sobre Renda Variável

Historicamente a renda variável vem trazendo um retorno acima da renda


fixa. Contudo, não é possível garantir esse retorno, rendimento passado não
é garantia de rendimento futuro.
Estudos, como o realizado por Jeremy Siegel no livro “Investindo em
ações para o longo prazo”, mostram que as ações não só protegem melhor o
investidor contra a inflação como são mais rentáveis do que o investimento
em títulos, ouro ou moedas.
Não se iluda, acreditando que uma carteira com apenas renda fixa lhe dará
mais segurança, somente a diversificação protege o investidor. Lembre-se
daqueles que deixaram todos os seus recursos na Poupança durante o Plano
Collor. Se o mesmo indivíduo tivesse aportado alguns poucos milhares de
dólares, menos do que o necessário para a compra de um automóvel no início
dos anos 90, em ações da empresa Brahma, Bradesco ou Itaú e reinvestisse
os dividendos seria milionário hoje.
Este livro poderia estar cheio de gráficos com simulações, utilizando as
mais diversas taxas de retorno, porém, para ser honesto, em um país como o
Brasil em que as taxas de juros passaram de 14% em 2014 para 6,5% em
2019, qualquer simulação como esta seria de pouca utilidade.
As poucas simulações que foram feitas utilizaram uma taxa de juros real
– acima da inflação – de 3% a 3,5% ao ano, números conservadores. Nos
últimos anos os fundos imobiliários e ações entregaram um número de mais
do que duas vezes este.
Entretanto, é preciso repetir e reforçar sempre que não há garantias na
renda variável, tampouco as garantias da renda fixa protegem completamente
o investidor. Investir é arriscado, mas não investir é muito mais!
Aquele que não investe está nas mãos do governo e da sorte. Dependerá
sempre do empregador, de algum familiar ou do Estado. É muito difícil dizer
o que é pior.

169
Capítulo 18 - Colocando em Prática

Depois de ler o livro você deve estar pensando: por onde eu começo?
Naturalmente, pelo começo. Quite suas dívidas e monte sua reserva de
emergência, só assim você estará apto a investir. Comece investindo em
renda fixa, crie o hábito de aportar mensalmente uma parte do seu salário ou
pró-labore. Tenha disciplina e paciência.
Preste atenção no que tem mais valor para você, esqueça o que os outros
querem, veja o que realmente te importa.
Compre ativos financeiros, que coloquem dinheiro no seu bolso e não só
passivos, que vão retirar seu dinheiro. Estude antes de comprar suas
primeiras ações ou fundos imobiliários e comece comprando valores
pequenos. Compre um pouco para entender a dinâmica do investimento. Não
tenha pressa.
Sobre o quanto da sua carteira de investimentos deverá ser alocada em
renda fixa e o quanto deverá ser alocada em renda variável, saiba que só você
pode decidir. Faça o teste do travesseiro, se você estiver preocupado demais,
talvez deva reduzir sua exposição à renda variável, se estiver tranquilo pode
manter ou aumentar aos poucos. Diversifique de modo que um problema
sério em algum ativo ou classe de ativos, seja ação, fundo imobiliário, título
ou qualquer outro não faça um grande estrago no seu patrimônio.
Acima de tudo, não volte a gastar mais do que ganha e a fazer dívidas!

170
Resumo Final

Principais pontos abordados no livro:


 Não tente impressionar ninguém com suas posses.
 Tenha um orçamento.
 Não faça dívidas.
o Quite as dívidas o quanto antes, se tiver alguma.
 Monte uma carteira de investimentos diversificada.
 Tenha disciplina para aportar todos os meses nos ativos escolhidos
para compor a carteira. Compre os ativos da carteira aos poucos.
 Tenha paciência, pois os resultados não vêm da noite para o dia. Na
verdade, os resultados levam anos para aparecer.
 Reinvista os dividendos e demais proventos recebidos, em ativos da
carteira, ao menos no início. Não precisa reinvestir no ativo que
pagou o provento.
 Não confie os seus investimentos exclusivamente a terceiros, como o
banco, o fundo de pensão ou o gestor do fundo de previdência.
 Tome a responsabilidade pelo seu futuro.
 Não compre nenhum ativo antes de analisar e estudar os riscos
envolvidos.
 Pague todos os seus impostos em dia e faça a sua Declaração de
Imposto de Renda corretamente.

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Epílogo

Se você sobreviveu até aqui, receba o meu agradecimento. Fico feliz por
ter sido parte da sua jornada como investidor que, espero, não esteja
terminando aqui e sim começando.
O primeiro prêmio que você ganha ao passar a investir, ao invés de se
endividar e consumir de forma descontrolada, é a tranquilidade e a paz de
não ter o dinheiro como uma preocupação constante. Diferente do que muitos
pensam, a pessoa que investe pensa menos em dinheiro e não mais do que
aquela que não investe.
Não há garantia de nada, a única garantia é que, em condições iguais,
aquele que investe estará melhor do que o que não investe. Assim como, via
de regra, aquele que pratica esportes estará com a saúde melhor do que os
sedentários.
Pode ser que você não concorde com grande parte do que leu neste livro.
Talvez realmente acredite que o ideal é que algum parente, instituição ou
quem sabe o governo lhe sustente na terceira idade. Talvez queira fazer
“trades”. Não faz mal.
Siga seus valores e viva da maneira que achar mais adequada. Aceite as
consequências dessas escolhas, seja grato e ao mesmo tempo esqueça a ideia
de que alguém lhe deve algo, seja os seus pais, o patrão ou o governo (talvez
o cunhado deva alguma coisa). Acima de tudo, não tente mudar os outros ou
considere seu jeito de pensar ou estilo de vida como superiores e mais
corretos.
Viva bem e invista de maneira consciente.

172
Agradecimentos

Agradecer a todos aqueles que ajudaram na jornada que foi escrever este
livro é quase impossível, portanto, aqueles que não forem incluídos não se
sintam esquecidos.
A primeira pessoa a quem agradeço é a minha avó Maria de Lourdes que
além de me criar, me ensinou não só os primeiros conceitos básicos de
educação financeira, como também conceitos ligados ao caráter e aos valores
que devem nortear a vida e o comportamento de uma pessoa. Conceitos
essenciais para todo e qualquer ser humano. Agradeço também todos os
outros familiares que de alguma forma me apoiaram, irmãos, pais, tios e
primos.
Seria impossível não agradecer aos meus amigos Kátia, Matheus e
Vinícios pela revisão e importantes conselhos sobre o conteúdo do livro. E à
Verônica minha paciente e incrível companheira que foi a maior leitora deste
livro, lendo e relendo várias vezes para que eu pudesse trazer um material
com qualidade para os estudos de vocês.
Por fim, agradeço ao Bastter que foi quem me proporcionou grande parte
do conhecimento expresso neste livro e me deu a oportunidade de atuar como
educador financeiro pela Bastter.com. Foi lá que descobri minha verdadeira
vocação e a profissão que sonho em seguir.
Dedico este livro aos meus irmãos: Pedro, Caio, Marcus e Cauã, afilhados,
primos e demais crianças que representam o futuro. Afinal, para que esse
futuro brilhante se concretize, precisarão de muita educação, inclusive
financeira.

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