Você está na página 1de 10

O ENSINO DA POESIA POR MEIO DE JOGOS LÚDICOS E

EXERCÍCIOS TEATRAIS.

Iara Cristina RIBEIRO (PG-CESUMAR)

ISBN: 978-85-99680-05-6

REFERÊNCIA:

RIBEIRO, Iara Cristina. O ensino da poesia por


meio de jogos lúdicos e exercícios teatrais. In:
CELLI – COLÓQUIO DE ESTUDOS
LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. 3, 2007,
Maringá. Anais... Maringá, 2009, p. 475-484.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo do nosso projeto é o de ensinar aspectos básicos da poesia por meio


de exercícios teatrais, tais como: jogos dramáticos, improvisação, técnica vocal,
expressão corporal, concentração, relaxamento, observação, experimentação de
sentimentos - métodos que, cremos, podem facilitar o aprendizado dos alunos.
Este projeto foi realizado no CAIC - Centro de Atenção Integral à Criança e
ao Adolescente da cidade de Sarandi - Paraná, num anfiteatro, com alunos cujas idades
variam de 12 a 16 anos, estudantes da 4.ª , 6.ª , 7.ª e 8.ª ( séries do Ensino
Fundamental) e do 2.º ano do Ensino Médio.
O Projeto é fruto da necessidade de investigar o elo entre o teatro e a educação,
de modo a apontar idéias para inovar as aulas de Literatura ou outras disciplinas,
consideradas muitas vezes monótonas pelos alunos.
O objetivo geral de nosso projeto foi que o aluno aprendesse noções
fundamentais de poesia a partir de uma metodologia diferenciada. Usamos, para tal fim,
os exercícios e técnicas teatrais a fim de realizar no processo de ensino-aprendizagem
tal objetivo e contribuir para o desenvolvimento dos alunos participantes.

2. DOS JOGOS LÚDICOS E EXERCÍCIOS TEATRAIS

Sabemos que a importância do jogo para o desenvolvimento da criança foi


reconhecida há pouco. Em épocas passadas, acreditava-se que a criança era um "adulto
em miniatura", porém os tempos mudaram e a criança é vista, hoje, como um ser em
processo de crescimento no que se refere à personalidade, à psicologia, aos valores, à
identidade.

475
Acreditando que a arte e educação podem crescer com a criança é que
buscamos informações e idéias de pensadores, educadores e artistas que acreditam na
arte como auxílio para o desenvolvimento dos processos de ensino-aprendizagem na
escola.
No livro Do mundo da leitura, para a leitura do mundo, por exemplo, Marisa
Lajolo indica o uso do teatro em sala de aula para integrar o aluno com a matéria, pois,
segundo ela, o interesse é maior quando uma aula é motivada com brincadeiras lúdicas
e jogos, estimulando-o a aprender e contribuindo para a leitura e a interpretação de
textos. Segundo Lajolo, o mais importante é explicar para o aluno que cada texto
admite e propõe um determinado leque de interpretações.
No livro Pré - escola em suas mãos (s/d) a pedagoga Iolanda Muracava
Frederico afirma que os jogos e brincadeiras na pré-escola têm como finalidade o
desenvolvimento do espírito de participação, de competitividade, de respeito ao
próximo, buscando a integração da criança no grupo social a que pertence a escola (p.
46). A autora ressalta, também, que todas as crianças, desde a idade pré-escolar,
demonstram interesse por jogos e brincadeiras, pois, naturalmente, brincam com seu
corpo e sua imaginação.
No livro Atividades Lúdicas na educação da Criança (1994) das pedagogas
Leonor Rizzi e Regina Célia Haydt, observamos que a criação de uma boa atmosfera na
sala de aula é um desejo de muitos professores que pretendem dar uma aula com
sucesso. As autoras enfatizam que “o ato de jogar é tão antigo como o próprio homem,
pois este sempre manifestou uma tendência lúdica, isto é, um impulso para o jogo” (p.
8). Elizabety Nascimento da Silva, no livro Recreação e Jogo e Recreação na sala de
aula de 5. ª à 8.ª séries (l997), destaca a importância que jogos recreativos e infantis
têm na sala de aula, e afirma que pretende ofertar “subsídios aos professores, para dar
continuidade às valências psicomotoras.
Isso, através de brincadeiras no sentido de melhorar a integração e respeito aos
colegas, utilizando recursos criativos para dar início ao processo de socialização e
convivência (1997, contra capa). Através de importantes testemunhos literários,
podemos estabelecer socialmente, a atuação lúdica do homem.
A história da Pedagogia demonstra que educadores se preocupam cada vez
mais com a metodologia usada nas aulas, buscando aprimorá-las. O Teatro além de ser
uma arte específica e fundamental, apresenta em seus jogos teatrais e lúdicos, um valor
essencial e transformador para ser utilizado na área educacional como recurso
pedagógico. Muitos são os motivos que levam os educadores a recorrer aos jogos
teatrais e utilizá-los como recurso no processo ensino-aprendizagem, como: o jogo, a
observação, a percepção, a imaginação, além de fazerem parte de um impulso natural
da criança, trabalham os processos racionais, os afetos e contribuem para a formação de
uma personalidade saudável.
Os exercícios e jogos teatrais não existem somente para divertir ou passar
tempo, como, infelizmente, aqueles que desconhecem a sua contribuição acreditam.
Eis, aqui, uma questão séria: infelizmente a própria ação pedagógica reproduz na escola
o preconceito em relação ao trabalho com jogos lúdicos ou teatro, tratando-os como
algo restrito à infância e abandonando-os nas fases posteriores.
O teor humano e social dos jogos lúdicos e dos exercícios teatrais tem uma
contribuição necessária na formação de um indivíduo, não devendo restringir-se,
cremos, na escola, somente ao ensino infantil.

476
3. DAS RELAÇÕES ENTRE O TEATRO E EDUCAÇÃO

O Teatro, tal como o conhecemos sob a forma de texto e espetáculo, deu seus
primeiros passos no Ocidente, na Grécia Antiga, onde os cultos rituais em honra ao
Deus Dionísio, deram origem às encenações, à tragédia e à comédia. A cultura grega
valorizava muito o teatro, a música, a dança, reconhecendo a sua importância na
formação do cidadão.
No livro Um caminho do Teatro na Escola (Reverbel, 1989), encontramos
alguns depoimentos dos filósofos gregos sobre o Teatro na Educação. O filósofo Platão,
por exemplo, diz que “o jogo é fundamental” (apud, Reverbel, p.12). Acredita que, sem
a vivência de uma atmosfera lúdica, uma criança jamais será um adulto educado e bom
cidadão, acredita, também, que a educação deveria começar de maneira lúdica para que
as crianças pudessem desenvolver a tendência natural do seu caráter. Aristóteles, por
sua vez, dá grande destaque aos jogos na educação, considerando-os de grande
importância, pois acredita que "educar, é preparar para a vida" (apud, Reverbel, p. 12).
Já na Roma Antiga, a arte de interpretar (teatro) era vista como uma imitação,
mas seria bem aceita se tivesse um propósito educacional e pudesse ensinar lições.
Ainda em Roma, com Carlos Magno coroado rei e com os trabalhos de Aristóteles
estudados, o teatro foi reavaliado, e voltou a vigorar.
Na Idade Média, o teatro foi severamente controlado pela Igreja Católica,
porém autos e mimos eram representados nas Igrejas, muitas vezes, pelos próprios
bispos ou sacerdotes, a fim de cativar e cultivar os fiéis.
Na Renascença, as grandes academias e os estudiosos de obras clássicas
encenavam peças latinas. A partir dessa experiência, os membros das academias
tornaram-se professores, e o uso teatro na escola começou a florescer. Desde a
Renascença até hoje, o Teatro passou por inúmeras mudanças que não cabe aqui citar,
pois, afinal, não pretendemos falar de história do Teatro, mas resgatar brevemente como
essa arte contribuiu e continua contribuindo para a educação.
Outros pensadores, como Montaigne, Leibniz e Locke, acreditavam que o
teatro era uma coisa muito séria, devendo ser praticado e usado de forma instrutiva. A
autora Olga Reverbel dedicou sua vida em favor do teatro como auxílio para a
educação, e provou isso em vários livros que escreveu. No livro Um caminho do teatro
na escola, faz uma discussão excelente sobre o teatro na educação ao longo do tempo e
apresenta inúmeros exercícios para se trabalhar em sala de aula. Olga Reverbel diz que
o jogo dramático na sala de aula é:

[…] indispensável ao desenvolvimento das capacidades de expressão da


criança. Realizando jogos dramáticos, a criança se diverte e libera
espontaneamente suas fantasias e seus fantasmas interiores. Ao contrário
do ator, que finge ser a personagem, a criança é a personagem que
inventa ou imita. (1989, p. 108).

Já no livro Um caminho do Teatro na escola (1989) o escritor Maurice Borges


dá uma contribuição sobre os jogos dramáticos, afirmando: “Os jogos dramáticos são
improvisações a partir de temas dados, improvisações que exercem a imaginação e a
criança artística das crianças” (l989, p. 109). Assim como Reverbel e Borges, outros
autores e estudiosos apontam a importância do jogo dramático e do teatro na escola.
Reverbel é pioneira, no Brasil, a trabalhar com o teatro voltado à educação. Em
seus livros, ela apresenta uma base teórica acessível, oferecendo uma série de exercícios

477
para se trabalhar em sala de aula com os alunos. No seu livro Oficina de Teatro (l993),
ela mostra a educadores e interessados na área vários exercícios teatrais com suas
devidas explicações, depoimentos e opiniões sobre a importância do jogo dramático. A
autora, que há décadas trabalha com teatro voltado à educação, tenta mostrar a
importância dos jogos dramáticos e benefícios que eles trazem às atividades de
expressão dramática, plástica e musical, fundamentais para a formação da personalidade
do aluno.
Olga Reverbel defende a presença do Teatro em todas as escolas e, ainda,
pretende que o Teatro seja adotado como disciplina, mostrando a sua importância.
Numa entrevista dada à REVISTA NOVA ESCOLA, enfatiza:

É através das atividades dramáticas que os alunos desenvolvem suas


capacidades de expressão: espontaneidade, imaginação, relacionamento
social, observação e percepção [...]. O prazer manifestado pelos
estudantes durante as aulas de teatro e atividades de expressão é intenso
chega a emocionar. E os jogos teatrais são os melhores recursos para
auxiliar o crescimento do aluno, não só afetivo e psicomotor, como
também o cognitivo, pois lhe oferecem oportunidade de atuar como
sujeito no mundo, opinando, criticando e sugerindo (l993, p. 38).

No livro Sala de Aula: que espaço é esse? (1994), sob a organização de Regis
de Moraes, vários educadores discutem o espaço da aula, o que se faz, o que não se faz
e não deveria ser feito na sala de aula. Alguns desses autores defendem que os
exercícios e jogos lúdicos e teatrais deveriam ter um espaço privilegiado na sala de aula,
pois acreditam que é importante tentar recuperar o caráter lúdico do ensino-
aprendizagem (1994, p. 5).
Infelizmente o lúdico é banido da escola porque alguns acreditam que o
trabalho com arte é uma diversão desnecessária, argumentando que o tempo é veloz e
que os alunos devem se preparar para o futuro, conformando-se desde cedo à ordem
social utilitarista e burguesa. Assim a escola segundo esta visão conservadora, irá
reduzir-se à produção de somente braços para o mercado de trabalho.
Curiosos são os resultados desse tipo de visão que vão tirando os sonhos, o
prazer do brincar e, principalmente, o prazer da expressão e da espontaneidade dos
alunos, o prazer da descoberta! O que a escola pretende, banindo o lúdico, o teatro, a
dança ou outras artes do horizonte educacional de seus alunos? Educar para a vida ou
apenas conformar o aluno para integrar-se no mercado de trabalho?
Não podemos negar que algumas escolas têm, no seu currículo escolar ou
mesmo extracurricular, o teatro, a dança, as artes visuais e/ou outras artes. No entanto,
quando essas atividades são realizadas e os alunos começam a se soltar e descobrirem
esse mundo, eis que o sinal da escola avisa que é hora de voltar para o "dever de
estudar” , como se o jogo lúdico e os exercícios teatrais e outros não fizessem parte da
formação do indivíduo, reduzindo-se à condição de mero divertimento.
No livro Jogo, Brinquedo, Brincadeira e Educação, organizado por Tizuko
Morchida Kishimoto (1997), discutem-se os efeitos do brincar e do jogo, e comentam-se
as especificidades dos jogos. No jogo do faz-de-conta, por exemplo, que é também
muito usado nos exercícios teatrais, há uma forte presença do imaginário. “Quando
brinca, a criança toma certa distância da vida cotidiana, entra no mundo imaginário”
(1997, p. 24).
A autora Marielise Ferreira (1980), em seu livro A Hora da Escola: O Teatro

478
na Sala de Aula, também faz considerações importantes sobre o jogo na sala de aula: “o
jogo é uma necessidade vital para a criança, que desde as primeiras brincadeiras usa o
faz de conta. Assim pode transformar-se em seus super-heróis favoritos” (l980, p. 9).
Quando um professor revolve fazer uso do jogo ou do teatro para ensinar
matemática ou português, por exemplo, em vez de a Direção ou a Supervisão da escola
apoiarem essa iniciativa, preferem, em geral, que os professores continuem com aulas
convencionais, descartando, assim, a possibilidade do uso dos jogos dramáticos como
auxílio didático-pedagógico. Esta realidade precisa mudar. Embora os professores que
trabalham com Arte na sala de aula, devem ter conhecimentos enriquecidos e
fundamentados e não aleatórios, pois assim o objetivo não seria atingido e não a arte
seria usada erroneamente ou superficialmente.

4. A EXPERIÊNCIA: CRIAÇÃO DA OFICINA DE POESIA

Uma oficina teatral deve ter objetivos bem definidos para que, ao final do processo
possamos avaliar se a mesma atingiu ou não as suas metas. Nossa proposta de aulas de
Poesia, baseada em exercícios e jogos teatrais pautou-se pelos seguintes objetivos gerais
e específicos:

OBJETIVOS GERAIS:
- Estudar Poesia, por meio de exercícios e técnicas teatrais, poemas quanto a: rima,
metro, estrofe, ritmo, figuras de linguagem, forma poética, interpretação;
- Montar um mini-espetáculo, cujos textos a serem encenados serão poemas
escolhidos pelos alunos;
- Fomentação das Artes Cênicas.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
- Investigar as possíveis contribuições do teatro para o ensino-aprendizagem de
Poesia;
- Desenvolver, no aluno, a capacidade de expressão, a observação, a socialização e
o conhecimento de si mesmo;
- Estimular a sensibilidade, a criatividade e a capacidade de leitura e de
interpretação do aluno;
- Desenvolver no aluno o gosto pela poesia e pelo teatro.

5. CONSIDERAÇÕES BREVES SOBRE O DESENVOLVIMENTO DO


PROJETO

EXEMPLO DE EXERCÍCIO APLICADO

AULA V – RITMO

OBSERVAÇÕES INICIAIS
Após as explicações de como seria este projeto, a aula começou com os alunos sentados
no chão em círculo. (Obs. Este exemplo é da quinta aula).
O professor fez perguntas cotidianas com o tema: “O que fariam se...”
* O que fariam se uma frigideira pegasse fogo? Uns responderam que sairiam correndo,
outros que tentariam resolver sozinhos, outros ainda que chamariam a mãe e assim por

479
diante. Após várias perguntas sobre este tema, o professor explica que todos tem um
ritmo diferente de ser e de resolver os obstáculos que aparecem e passou então para os
exercícios.

DESENVOLVIMENTO DO EXERCÍCIO
Nesta segunda etapa, inicia-se o exercício de expressão corporal, realizado de olhos
fechados, tendo como tema uma música clássica. O professor explica aos alunos, que
não trataria de um exercício para mostrar habilidade, mas sim que os mesmos buscar
através do ritmo da música, mostrar por meio da linguagem corporal os sentimentos que
a música transmitia. A princípio, sentiram-se desconfortáveis por ficarem dançando de
olhos fechados, mais após um tempo, se adaptaram bem. Sendo um exercício de
expressão corporal, que visa levar o indivíduo a descobrir as possibilidades de ritmo do
corpo e a ocupação do espaço, foi possível para o professor fazer um paralelo para
explicar o que são ritmos em um poema. Nesta mesma aula também foi realizado com
os alunos, exercícios de técnica vocal (alongamento, vocalises e respiração). Os alunos
após os exercícios, voltaram a ficar em círculo e na terceira etapa com a leitura de um
poema, o professor fez com que os alunos percebessem numa leitura em voz alta, como
as sílabas fazem com que o poema fique sonoro e tenha seu próprio ritmo, assim como
nosso corpo, e os fez perceber que cada poema tem seu ritmo, independente de rima.

AVALIAÇÃO DO EXERCÍCIO
O exercício foi de grande valia, pois fez com que os alunos descobrissem um pouco
mais sobre o seu universo corporal e descobrissem que cada poema, cada um com sua
particularidade tem seu ritmo, basta saber lê-lo de forma a descobrir os seus sons. O
Poema utilizado no exercício foi Trem de Ferro, de Manuel Bandeira, e o professor
mostrou aos alunos como o ritmo estava presente não só no “ritmo”, mas na história do
poema. Para os alunos o exercício foi uma grande descoberta, a de que o ritmo não
depende só de rimas ou onomatopéias, como pensavam.

6. RESULTADOS

Inicialmente, apresentamos aos alunos como seria o desenvolvimento da Oficina


de Poesia, tendo-se deixado claro que os exercícios lúdicos, jogos e técnicas teatrais
seriam usados sempre que necessário, pois seria por meio deles que as aulas seriam
dadas, pois esses exercícios seriam complementos no processo de aprendizagem de
Poesia.
No decorrer da oficina, os alunos iam, cada dia mais, questionando sobre os
conteúdos dados, pois, com toda certeza, os exercícios teatrais e jogos lúdicos foram
deixando-os desinibidos e mais à vontade para perguntarem e darem suas opiniões.
Esse projeto almejou também elaborar um mini-espetáculo teatral, apresentado
no final da Oficina de Poesia, onde os textos a serem representados seriam os poemas
trabalhados em sala de aula e escolhidos pelos alunos.
No decorrer do projeto, com o início dos ensaios para a montagem do mini-
espetáculo, as cenas foram tomando forma. Falando tecnicamente na montagem do
mini-espetáculos, as cenas começaram a ter suas marcações cênicas, e como os alunos
já estavam participando de oficinas, foram aprendendo e descobrindo uma maneira de
interpretar os poemas que seriam os textos do teatro, ou seja, criarem suas personagens.
Não poderíamos cobrar perfeição dos alunos, afinal o mini-espetáculo, foi encenado por

480
alunos e não por atores. É preciso respeitar o processo de aprendizagem de cada um;
cobrar um desempenho além do necessário seria presunção e falta de respeito para com
os alunos.
Após o resultado da apresentação, os aplausos, os elogios, professor e alunos
sentaram-se para fazer uma análise dessa experiência. Por parte dos alunos, talvez
porque inebriados com o resultado, disseram que nunca imaginaram que poesia poderia
sair dos livros e ter formas, nomes e rostos, como fizeram as “personagens” criados
pelos alunos-atores. Para o professor, esse processo de aprendizagem, onde os alunos
estudaram sobre poesia e montaram um mini-espetáculo, foi gratificante e, com certeza,
servirá de reflexão para analisar os acertos e os erros que poderão, através de pesquisas
ser corrigidos ou, no mínimo, servir para, cada vez mais, aperfeiçoar a maneira de
ensinar.
Dessa experiência, onde os alunos aprenderam a analisar poemas, nasceu a
idéia de um Concurso de Declamação de Poesia, que mobilizou os alunos de toda a
escola. Professores de 1. ª a 4.ª séries, apoiaram a idéia e estimularam seus alunos a
lerem livros de poemas e escolherem um para participarem. O Concurso tinha o objetivo
de incentivar a leitura, bem como oferecer aos alunos uma forma de expressão.
O Concurso de Declamação foi realizado com bastante êxito, e aconteceu no
dia da apresentação do mini-espetáculo, com 57 alunos inscritos, 30 dos alunos
participantes, declamaram poemas de vários poetas, criando figurinos e até maquiagens
para a interpretação. Antes da realização do evento, os alunos que iriam declamar
poesias, tiveram algumas aulas de expressão corporal, vocal, ou seja, uma mini-oficina
de teatro.
No anfiteatro com mais de 200 pessoas presentes, entre alunos e professores,
aconteceu o evento que rendeu muitos aplausos paras as vencedoras do Concurso de
Declamação de Poesia que foram as alunas:
* Vanessa Moreto (3. ª série; com o poema Estrelinha, de Pedro Bandeira).
* Maria Cristina da Silva (4. ª série; com o poema O colar de Carolina, de
Cecília Meireles).
* Franciele dos Santos (4. ª série; com o poema Anabela, de Cecília Meireles).
O objetivo desse projeto foi alertar professores e alunos sobre as várias
possibilidades e métodos de trabalhar em uma sala de aula, utilizando a Arte como
essência para o processo de aprendizagem.
Esperamos com toda humildade que essa proposta, possa ser usada como
reflexão e que contribua para todos os interessados que acreditam que educar é um
caminho árduo, mas digno de poucos, pois ter conhecimento é uma coisa, e saber
ensinar é uma coisa bem diferente.

7. CONCLUSÃO

Cientes de que a Educação ainda não atingiu o ápice, devido às dificuldades que
alunos, professores e envolvidos na área educacional enfrentam, observamos que
inovações devem ser feitas, considerando que, para isso acontecer, devem ser
apresentadas novas metodologias e idéias que reverta esse quadro.
A não preparação de boas aulas reflete um professor talvez não só despreparado
intelectualmente, mas acomodado em realizar seus trabalhos dentro dos padrões
estabelecidos. Acreditamos que, infelizmente, os professores, preferem imaginar o
aluno "ideal", do que enfrentar o aluno "real".

481
Assim, a maneira como o professor ministra suas aulas é um fator muito
importante, e, talvez, o maior na assimilação dos conteúdos pelos alunos.
Sabemos que os jogos lúdicos, exercícios e as técnicas teatrais sempre agradam
os alunos. Mesmo professores desinformados sobre sua a importância e o seu papel na
educação, obtêm importantes resultados em suas aulas quando aplicam essas estratégias,
pois desde a mais tenra idade a criança gosta de jogar, de brincar e de se expressar.
Ressaltamos, também, pela sua importância no papel da humanidade, da história,
da arte e da educação, a idéia de que o Teatro não pode e não deve ser considerada
somente como uma área artística e pronto, pois ele tem sua própria essência e função,
mas pode e deve contribuir com a área educacional, sendo um aliado na preparação de
crianças, jovens e adultos.
Não apresentamos aqui uma solução para os males da educação, somente
apresentamos uma idéia, deixando claro que todo indivíduo precisa de estímulo,
respeito e inovações, para que ele possa ter meios para criar e debater problemas a
serem solucionados.
O professor, ao buscar soluções criativas e diferentes, transporta seus alunos
para uma nova atmosfera de aprendizagem. Claro que essa aprendizagem dinâmica e
eficaz deve contribuir para todos as idades, desde o Ensino Infantil até o Curso
superior, pois o estímulo e a autoconfiança devem estar presentes em todas as etapas da
vida de um ser humano.
Em nossa tentativa de ensinar Poesia por meio de jogos lúdicos e exercícios
teatrais, observamos que os alunos tiveram grande senso de cooperação para participar
da experiência.
Na verdade, acreditamos que a curiosidade foi um dos fatores predominantes da
cooperação dos alunos, pois em vez de trabalharmos em sala de aula, as aulas foram
dadas em um anfiteatro onde os conteúdos seriam explicados através de jogos lúdicos,
exercícios e técnicas teatrais.
Obtivemos, na Oficina de Poesia, um bom resultado, pois conseguimos que a
prática dos jogos lúdicos, exercícios e técnicas teatrais, se juntassem à teoria dos
conteúdos e ajudasse na assimilação dos exercícios propostos.
Infelizmente, entre alguns professores, a pergunta mais freqüente que se faz ao
se propor um trabalho teatral na escola talvez seja: "porque perder tempo com
brincadeiras?" Para nós, a presença dos jogos lúdicos, exercícios teatrais, foi necessária
e teve pelo menos dois objetivos: possibilitar ao aluno o gosto pela poesia;
desempenhar o fundamental papel da Arte, não só na Educação, mas também na vida.
A Oficina de Poesia, quanto à especificidade da linguagem teatral, deixou claro
que estimula muito mais os alunos, por vários fatores, tais como: participação na sala
de aula, opinião sobre assuntos abordados, curiosidades sobre novos projetos. Com essa
Oficina, pensamos realmente naquilo que diferenciaria uma aula convencional e a
buscar, de maneira estratégica e dinâmica, envolver os alunos com a aula, levando-os a
entender com mais facilidade ou, pelo menos com mais prazer cada conteúdo aplicado.
Sabemos, por experiência, que o Teatro é de extrema importância para a
formação global do indivíduo, sendo, portanto, necessária à consciência de
conhecimento artístico do professor que irá desenvolver o projeto, para que o trabalho
seja realizado com eficiência e êxito.
Um fator importante a ressaltar é que os alunos precisam ser mais estimulados
na escola, pois participamos de uma sociedade onde a cultura de massa impera a todo o
momento, somos bombardeados por expressões artísticas limitadas, ficando mais difícil

482
aproximar os alunos de outras formas de arte. Temos que saber reconhecer as
fraquezas que a escola tem quanto a ensinar com novas linguagens, como a Teatral.
Formar alunos que serão cidadãos pensantes e críticos é um conceito que deve ser
adotado imediatamente pela escola e a Arte muito pode contribuir para isso.
É preciso, a partir dos acontecimentos históricos e juntamente com a realidade
em que os alunos vivem, apresentar metodologias novas, e foi isso que tentamos fazer
na Oficina de Poesia: mostrar que, através dos exercícios teatrais, além de trabalhar a
espontaneidade, a criatividade, a percepção dos alunos, pode-se ensinar os conteúdos
propostos por qualquer disciplina.
Como a Oficina trabalhou as várias formas de expressão como: a palavra, a voz,
o gesto, a mímica, os alunos ficaram atentos ao seu mundo interior, e conscientes de
que tudo pode ser prazeroso e acrescentar não só intelectualmente, mas afetivamente
também.
No decorrer da Oficina de Poesia, observamos que há alunos com um grande
bloqueio em relação à exposição de idéias na sala de aula, pois afirmavam que, a
maneira como um professor ministra suas aulas é que incentiva um aluno a expor suas
idéias, compreender melhor o conteúdo e desenvolver-se como indivíduo.
A Oficina de Poesia teve o objetivo de desenvolver a auto-expressão do aluno,
ou seja, oferece-lhe oportunidades de atuar na escola, como sujeito indagador, crítico,
opinando e sugerindo como o ensino pode ser melhorado.
O nosso projeto visou, também, fornecer ao aluno uma carga de informações
sobre o teatro, estimulando-o para que possam futuramente, ter consciência artística e
entenda a importância da arte na vida de cada indivíduo.
Observamos que alunos que sabem trabalhar a sua expressão corporal são
conscientes da importância do movimento, são mais integrados com o espaço em que
vivem, conseguem assimilar os conteúdos propostos em cada disciplina com mais
desenvoltura.
A oficina não teve a intenção de formar atores ou atrizes, mas tentou, além de
ensinar os conteúdos propostos, desenvolver um ser dinâmico, social e crítico.
Acreditamos que o professor deve ser capaz não só de "alfabetizar", mas dar
condições de o aluno se posicionar, frente aos problemas apresentados na sociedade,
como cidadão crítico, despertando-lhe a observação, a percepção, a imaginação e,
principalmente, sua criatividade.
Assim, o próprio ato de participar da atividade artística na sala de aula
desenvolve várias habilidades que o aluno necessita para sua vida social e humana. O
objetivo do projeto era unir arte e educação para um possível avanço na comunicação
professor-aluno, contribuindo para o ensino-aprendizagem e apresentando formas que
possam mudar os pré-conceitos estabelecidos na educação.

REFERÊNCIAS

FREDERICO, Iolanda Murucava. Pré-Escola em suas mãos. Arco-Íris Ltda. Curitiba,


2001

MACHADO, Maria Clara. Aventura do Teatro. 5. ed., Rio de Janeiro: José Olympio,
l993.

483
MORAIS, Regis (organizadora) Sala de Aula. Que espaço é esse? 8. ed., São Paulo:
Papirus, 1994.

REVERBEL, Olga. Oficina de Teatro. Educação Porto Alegre, série Teatro: Kuarup,
1993.

REVERBEL, Olga. Um caminho do Teatro na Escola: Arte Educação, Pedagogia,


Língua Portuguesa, São Paulo: Scipione, 1989.

REVISTA NOVA ESCOLA, Ano VIII n. 67, Junho de 1993.

RIZZI, Leonor & Haydt, Célia Regina. Atividades Lúdicas na Educação da Criança. 5.
ed., Série Educação, São Paulo: Ática, 1994.

SILVA, Elizabeth Nascimento. Recreação e Jogos na sala de aula de 5ª à 8ª série. Rio


de Janeiro: Sprint, l996.

SILVA, Elizabeth Nascimento. Recreação e Jogos. Rio de Janeiro: Sprint, l997.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. (org.) Jogo, Brinquedo, Brincadeira e a Educação. 2.


ed., São Paulo: Cortez, 1997.

WEISS, Luise. Brinquedos & Engenhocas Atividades Lúdicas com sucata. Arte
Educação, Educação Especial, Pedagogia, Psicologia. São Paulo: Scipione.

484