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Esforço de nomeação1

Pontuações sobre a psicose na adolescência

Mônica Bueno de Camargo – EBP-AMP

Falar em psicose remete, para nós analistas, a um diagnóstico estrutural, o qual, em


determinados casos, não é tarefa simples. No atendimento a adolescentes, muitas vezes,
temos que abdicar de fazer este diagnóstico, sobretudo no início do tratamento.

Na clínica com adolescentes, muitas vezes, nos deparamos com sintomas que não
fazem metáforas, com precária articulação simbólica. Este fato por si só não indica um
diagnóstico estrutural, que muitas vezes fica adiado até que um percurso maior nos traga
mais elementos. Nestas situações, temos que exercitar um manejo orientado pelo gozo e não
apressar um diagnóstico estrutural. É a clínica borromeana que pode nos fornecer
elementos para tal.

Uma primeira questão então se coloca, uma questão já antiga, sobre as duas clínicas:
uma não exclui a outra, mas qual a justa contribuição de cada uma?

A clínica estrutural nos dá orientação na direção do tratamento, se o passo do


diagnóstico estrutural pode ser dado, tanto nos casos de neurose, quanto nos de psicose.
Mas, nas situações em que o diagnóstico estrutural ainda não está esclarecido, a clínica
borromeana nos traz uma orientação, sendo então possível caminhar numa análise.

Mas também podemos indagar se, mesmo com o diagnóstico estrutural firmado,
uma leitura pelo viés do enlaçamento dos três registros não nos forneceria mais elementos
acerca da singularidade de como cada ser falante constituiu um modo de se haver com o
gozo.

Psicose nas crianças e adolescentes – percurso da psiquiatria

O diagnóstico de psicose nas crianças e adolescentes tem uma história recente e se


inicia de fato sob influência da psicanálise.

Até final do século XIX a psiquiatria se ocupava da discussão sobre debilidade, que
era considerada o único distúrbio mental infantil, criada por Esquirol em 1820, que a
denominou idiotia.

1Titulo inspirado em outro titulo, dado por Cristina Drummond, a texto publicado no site do XXI
Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: “Um esforço de enunciação”.
Escolhi este titulo aludindo tanto ao trabalho do psicótico em análise, quanto ao meu esforço
para elaborar algo sobre isto.
No final dos anos 1880 com a publicação de tratados de psiquiatria infantil, constitui-
se então uma clínica psiquiátrica da criança, mas baseada na clínica do adulto.

Em 1906 Saute de Sanctis descreveu um quadro que denominou de dementia


precocíssima distinguindo-o da demência precoce de Kraepelin. Entre as entidades que
Kraepelin reuniu(1889) no quadro que denominou demência precoce, condições até então
descritas por autores diferentes, como quadros distintos, está a hebefrenia, descrita em
1871 por Heckel.

Em 1911 Bleuler publica monografia em que, a partir do estudo da demência


precoce, com influência da psicanálise, propõe um grupo de condições com um núcleo
psicopatológico comum, sob a denominação de esquizofrenias. A esquizofrenia hebefrênica
é uma delas.2 O termo esquizofrenia é utilizado até os dias de hoje, mesmo em tempos de
Cid, DSM.

A psicose em Lacan

Para a psicanálise não é a psicopatologia, localizações neuroanatômicas, ou


neurotransmissores que orientam o diagnóstico. Já estamos familiarizados com a clínica
estrutural, onde a foraclusão da metáfora do nome-do-pai é característica da estrutura
psicótica. A função paterna regula a dimensão do gozo pela simbolização do mesmo,
conectando-o com a lei. É uma crença no pai que resulta no consentimento a uma lei.

Hoje falamos da pluralização dos nomes do pai. Todo ser falante deve inventar um
modo de se haver com a questão do gozo, com a impossibilidade de um gozo todo. Esta
invenção denominamos sintoma e é singular para cada um. A psicanálise, longe de
considerar o sintoma como algo a erradicar, orienta-se por ele, considera-o uma solução de
cada sujeito em relação ao gozo. “É no sintoma que se manifesta a certeza, a segurança e a
estabilidade psíquica do sujeito. Em qualquer sujeito, o sintoma é um modo de reconstruir
uma ordem na qual haja um gozo para si” 3. Pela palavra ou ato do sujeito temos acesso a
como este sustenta sua consistência ao enfrentar o impossível.

Na clínica estrutural a primazia é do simbólico, do significante, da cadeia, dos efeitos


de sentido, da existência do Outro. Na clínica borromeana nos orientamos a partir dos
efeitos de gozo do Um sozinho, da inexistência do Outro, do efeito significante de gozo fora
do sentido. Os três registros são heterogêneos, não há primazia de nenhum sobre os outros.

No enquadre borromeano a psicose é o modelo, o Nome-do-Pai é um dos modos


possíveis de amarração. Já que não há enlaçamento satisfatório entre os três registros, há
um quarto anel que faz esta função. A nomeação edípica estabelece um enlaçamento

2 Costa Pereira, M. E. Bleuler e a invenção da esquizofrenia. http://www.scielo.br/pdf/rlpf/v3n1/1415-


4714-rlpf-3-1-0158.pdf . Acessado em 04/10/2016.
3 Velásquez, J. F. (2010). Las psicosis en niños y adolescentes – Una mirada desde la clínica
borromea, pgs. 19, 20. Publicação da NEL.
borromeano pelo Nome-do-Pai, o quarto nó. A suplência pelo Nome-do-pai é somente uma
das possibilidades, por isso Lacan propôs a pluralização dos nomes-do-pai.

Segundo Pierre Skriabine “Para se manter no discurso e sustentar um laço social


com seus congêneres, o sujeito precisa manter juntos esses três registros, e fazer consistir
uma ‘realidade’ sem existência intrínseca, véu tecido com o imaginário e o simbólico que o
protege do real insuportável que escapa ao significante e à imagem.” 4

Na psicose, não havendo ciframento do gozo pelo inconsciente, temos um modelo de


sintoma desabonado do inconsciente, sintoma-gozo-letra. Se, por um lado, este modelo nos
traz elementos para pensar o final da análise, por outro, nos coloca a questão de como
enlaçar o gozo sem o recurso do inconsciente.

Velásquez, citando Laurent, nos traz um questionamento sobre a função do analista:


“Em psicanálise há que saber quando funcionamos como despertador e quando como
canção de ninar”5. O que desperta é a irrupção de um real, o que coloca, para cada sujeito, o
desafio de se haver com ele. Sem despertar, não há transformação do sintoma. Por outro
lado, este é o momento em que pode haver um desencadeamento. O que faz despertar, o que
faz dormir em cada caso? Na clínica encontramos efeitos de descontinuidade, soldaduras,
dispersão, errâncias. Os fenômenos de desencadeamento e estabilização podem ser
tomados na via do enlaçamento, suplência, enganche e desenganche.

Assim, a leitura do sintoma como invenção de cada falasser, leva em conta o


enlaçamento singular de cada um.

A psicose se produz na experiência humana ao tornar-se sujeito.6

Sobre a adolescência

A adolescência é uma construção à qual o sujeito é convocado quando se defronta


com o real do sexo, na puberdade. Este real surge como um enigma, ligado ao encontro com
o corpo do Outro, no tocante à sexualidade, já que o que se havia constituído na sua posição
infantil frente ao Outro não responde a este novo desafio. Há uma separação em jogo, uma
ruptura, uma transição: a saída da infância segundo Miller. 7

O que dá suporte a esta construção?

A questão que Domenico Cosenza coloca é “como se posicionar como sujeito

4 Skriabine, P. (2014). Nó. Em Scilicet Um real para o século XXI, pg 257. Publicação da AMP.
5 Velásquez, J.F. ibidem, pg23.
6 Velásquez, J. F. Ibidem, pg 25.

7 Miller, J.-A. Em direção à adolescência. Site do XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.
http://www.encontrobrasileiro2016.org/jacquesalainmiller
desejante, no que diz respeito ao despertar da pulsão que afeta o corpo na puberdade?” 8

Lacan, em Prefácio ao despertar da primavera” 9 se refere à sexualidade na


adolescência como momento de despertar dos sonhos, aludindo à dimensão do inconsciente
que o situa numa cena imaginária, dando suporte à iniciação sexual. “Num primeiro
momento há a emergência da relação sexual no nível do inconsciente, o que permite existir,
para o sujeito, uma representação imaginária e singular, como um enigma, dentro de uma
fantasmática, ou de um enquadre fantasmatizável”. 10 Num segundo tempo, o levantamento
do véu não mostra nada,11 o adolescente se defronta com a não-relação sexual. “É
precisamente nesta tensão dialética entre a pressão para fazer existir a relação sexual (T1) e
o encontro traumático com a sua inexistência (T2), entre o tempo do véu e o tempo do
trauma, que a iniciação sexual de o adolescente se estrutura.”12

Estamos em um momento em que o social impõe um gozo sem limites, havendo uma
declínio da função de regulação e véu da metáfora paterna, dificultando a separação, o que
leva a um impasse no processo de sintomatização da puberdade – resgatando a proposição
de Steves sobre a adolescência como sintoma da puberdade. Com isso não há construção
fantasmática que dê suporte a esta construção. 13

Há uma especificidade da psicose na adolescência?

Tomo aqui o texto de Ana Lydia Santiago: “Psicose e surto na adolescência: Por que
os adolescentes surtam tanto?” O trabalho é baseado na atividade de apresentação de
pacientes que pratica há 8 anos em alguns serviços.

O primeiro item do texto tem como titulo: “a psicose na infância não é diferente da
psicose que se manifesta na idade adulta”. Apesar de que Lacan faz, no início de seu ensino,
uma afirmação de que a psicose na criança se estrutura de modo diferente da de um adulto,
todo o seu desenvolvimento posterior não vai na mesma direção desta afirmação inicial, que
tinha um contexto. Os referenciais para a psicose são os mesmos, seja para a criança ou para
o adulto, tanto no que concerne à proposição da clínica estrutural, da forclusão do nome-do-
pai, ou a do último ensino. A singularidade se apresenta em cada caso, atravessada tanto
pela contingência quanto pelas questões relativas ao período da infância ou da adolescência
de cada sujeito. Isso se observa principalmente nos desencadeamentos.14 Mas, quanto mais

8 Cosenza, D. A iniciação na adolescência: entre mito e estrutura. Em Agente Digital n.09.


http://www.institutopsicanalisebahia.com.br/agente/download/009/003_agente09_domenico_
cosenza.pdf
9 Lacan, J. (2001). Prefácio a O despertar da primavera. Em Outros escritos, pg 557. Rio de Janeiro,
Zahar.
10 Cosenza, D. Ibidem.

11 Lacan, J. Ibidem, pg. 558.


12 Cosenza, D. Ibidem.
13 Idem, ibidem.
14 Laurent, E. (2006). La psicosis ordinaria, pg 226. Buenos Aires: Paidós.
precoce o desencadeamento, mais pode afetar o desenvolvimento da criança ou
adolescente.

Ana Lydia ressalta uma questão delicada nesta construção que é a adolescência: a
mudança de objeto a que são convocados.

Para Freud a sexualidade já está presente no infans, não surge somente na


adolescência, há emergência das pulsões sexuais também na infância. A questão, portanto,
não é tanto em relação a um excesso de gozo, mas de como se resolver com o fato de que há
uma mudança de objeto em questão. Na infância o objeto é parental, o que na adolescência
está barrado. O adolescente vai dirigir-se a um parceiro no encontro com o Outro corpo
sexuado. As pulsões deverão seguir uma ordenação genital.

Esta mudança de objeto é problemática na psicose, pois o sujeito mantém uma


relação de dependência especular com o outro. A criança, numa relação dual com a mãe,
satura um modo de falta, condensação de um modo de gozo. E, por outro lado, a via
sublimatória também é limitada.

É comum, portanto desencadeamentos no encontro com o Outro sexo, questão


particularmente concernida à adolescência.

Outra questão delicada na adolescência, sobretudo na psicose, é “fazer-se um corpo”.


O corpo da criança, no momento da adolescência, deve se transformar em um corpo
sexuado. Todas as complicações em enlaçar este corpo que goza e que se tem (ou não), são
multiplicadas na psicose.

“O amor próprio é o princípio da imaginação. O falasser adora seu corpo,


porque crê que o tem. Na realidade ele não o tem, mas seu corpo é sua única
consistência, consistência mental, é claro, pois seu corpo sai fora a todo
instante.”15

O corpo sai fora a todo instante, mas este corpo, tecido entre os três registros, que o
falasser adora porque crê que o tem, é sua única consistência mental. Esta afirmação de
Lacan no seminário 23 ressalta a relevância da sustentação do corpo como construção entre
os três registros, evocando o amor próprio, a adoração.16

Com a suplência borromeana do Nome-do-pai, contamos com uma função simbólica


sustentando a construção do corpo, fazendo mediação com o corpo imaginário e o corpo
simbólico. Nas psicoses, os arranjos possíveis, marcam as tentativas bem sucedidas ou nem
tanto, de se fazer um corpo.

Uma interrogação que surge é como podemos falar em adolescência na psicose, pois
muitos dos referenciais utilizados para discorrer sobre ela pertencem à clínica estrutural da
neurose: fantasia, sexuação, separação. Entendo que podemos construir, caso a caso, como

15 Lacan, J. (1976-2006). O Seminário, livro 23, O sinthoma, pg 64. Rio de Janeiro, Zahar.
16 Stevens, A. (2016). Fazer-se um corpo na adolescência. Em Cien Digital n.20
http://www.institutopsicanalise-mg.com.br/ciendigital/n20/fazer-se-um-corpo-na-
adolescencia.html#prettyPhoto
abordar as questões deste momento lógico, encontrando passagens que foram possíveis,
outras que não foram, de acordo com as suplências e dificuldades de cada falasser.

Desencadeamento/não desencadeamento

O desencadeamento é um momento de desenlace, de encontro com a irrupção de um


real ao qual não foi possível “saber fazer com”, em relação ao qual o arranjo singular não
permitiu uma resposta que sustentasse o enlace constituído. Os sintomas que surgem são
uma forma de tratamento do próprio sujeito.

Há casos em que, mesmo havendo forclusão do Nome-do-pai, há uma suplência, ou


uma compensação que os mantém estabilizados. Ainda assim podemos encontrar pequenos
índices, pequenos desenganches que não os colocam ao lado dos desencadeamentos
propriamente ditos. Estes casos são, muitas vezes, diagnosticados pela psiquiatria como
TDAH ou transtorno de Personalidade, por exemplo.

Tratamento

Um questão fundamental se coloca para o tratamento: como o fenômeno sintomático


sustenta a estrutura do sujeito?

A direção do tratamento no enquadre borromeano se dá pela perspectiva do que


Lacan denominou nomeação. Samuel Basz afirma que “Quando Lacan, no seu último ensino,
coloca o acento na função de nomeação em sua dimensão de ato, dá um lugar secundário à
relação com o Outro como Outro simbólico e sublinha a amarração da nomeação com o
real”.17

No final do ensino de Lacan nomeação e enlaçamento se tornam conceitos


indissolúveis, equivalentes. A nomeação pelo Nome-do Pai dá uma sustentação simbólica
para o corpo. Nas novas nomeações podemos ter mais presente a vertente imaginária ou a
real do corpo, o que traz dificuldades para a intervenção do analista. Podemos encontrar
nomeações rígidas, onde o desafio é encontrar um equívoco que as mobilize. Há também as
lábeis, com dispersão do gozo, que colocam a questão de “como introduzir uma orientação
que possibilite uma tessitura do simbólico que sustente o corpo e faça furo localizado”. 18

O enlaçamento se produz por efeito de linguagem, mas em sua face mais original e
primitiva, sua face, de homofonia, de materialização, de densificação, de som, não pela de

17Basz, S. (2006). Nomeação. Em Scilicet dos nomes do pai, pg. 107. Publicação da AMP
18Soria Dafuncho, N. (2013). As novas nomeações e seus efeitos nos corpos. Em Site do VI
ENAPOL. http://www.enapol.com/pt/template.php?file=Textos/Las-nuevas-
nominaciones_Nieves-Soria-Dafunchio.html
sentido ou verdade. 19

O analista deve respeitar a autonomia do sujeito em sua construção, não cabendo a


ele induzir para uma determinada direção, mas sim propiciar que o sujeito se arrisque nesta
busca de um caminho próprio, que lhe proporcione uma estabilidade sustentada em sua
singularidade. O lugar do analista “supõe prestar-se a ser usado para um modo peculiar de
interação, porque nela se evidencia o inominável do gozo em uma tentativa de tradução,
nomeação, disso que faz enigma como excesso ou como falta”.20

A transferência não passa, então, pela questão do saber, mas pela possibilidade de
encontrar uma função de estabilização do gozo.

Portanto, entre despertar e canção de ninar, o analista orienta sua ação em cada caso,
em cada contingência.

19 Velásquez, J.F. Ibidem, pgs. 33,34.


20 Idem, ibidem, pg