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credo sociologicus opus 2020/1

lemuel guerra

1 . a sociologia é inseparável de um certo mal estar com a época, de um gegenzeitgeist,


mas também de certo preparo/treinamento/aparelhamento para jogar/viver no olho do
furacão do presente. ela não é uma potência, como são as religiões, as escolas, o
capitalismo,a ciência, o direito, as mídias. suas batalhas são interiores e, como todas as
batalhas, risíveis (positivismo x dialética; construcionismo x realismo, teoria x empiria
etc). na medida em que não é uma potência, a sociologia não pode lutar contra as
potências, mas pode guerrear sem batalhas, pode fazer guerras de guerrilha. não pode
dizer-lhes nada, não pode lhes falar. no máximo mantém, atravessando-nos, cada um
que assim deseja, conversações e guerrilhas. é em cada um, habitado pela sociologia e
habitando a sociologia, que acontecem conversações e guerrilhas: nele, consigo mesmo.

2 . a sociologia não respeita nem pai nem mãe. entra sem pedir licença, sem piedade,
sem complacência! quando ela circula em nossas veias, aprendemos que não temos que
esperar ler isto ou aquilo, e aquilo sobre isto, e isto sobre aquilo para nos atrever a falar
em nossos nomes. nossa relação com autores, teorias, discursos autorizados, com
dogmas, é de assalto, como alguém que invade, que ocupa, que entra e sai sem
permissão, que rouba o beijo, o sexo, o prazer, sem respeito sacralizante, sem prestar
continências, nem seguir scripts. tudo bem que os autores falem pelas nossas bocas de
sociólogos, mas o que lhes fazemos dizer tem algo de monstruoso, porque envolve a
força do fluxo e agenciamento deles, mas potencializa também descentramentos,
deslizes, deformações, usos imprevistos, traições, trocas de fluxos discursivos, que são
apenas fluxos, sem primazia sobre outros fluxos como os de merda, sangue, esperma,
saliva, suor, medos, correntes políticas, ação e contra-ação, de subjetivação, de trabalho
de suspensão de si e do naturalizado, ao sabor da corrente e da contracorrente.

3 . a sociologia permite um gozo em certa medida perverso: o gosto de todo ser dizer as
coisas que quer dizer em nome próprio: não como um sujeito, um eu, uma pessoa que
fala respeitosamente em seu nome, mas quando, através de um rigorosíssimo exercício,
nos despersonalizamos, nos abrimos de ponta a ponta para sermos atravessados pelas
multiplicidades e intensidades que nos percorrem. é quando aprendemos a falar do
fundo do que não sabemos, de dentro da nossa ignorância desejante, interessada, armada
com uma atenção dificultada, como aquela exigida dos que habitam pântanos e se
acostumam com nenhum chão firme nunca. quando nos tornamos uma legião, um
conjunto de singularidades soltas, de nomes, sangue, unhas, respiração dos pequenos
acontecimentos, de estrias do magma dos fenômenos é que somos mesmo sociólogos.
quando somos atravessados, enrabados de assalto por um estilo, um jeito, um modo de
olhar e ser as coisas que queremos ver e entender.

4 . não tenhamos ilusões: o peso e palidez da linguagem universitária, carregamos


como cadáveres inescapáveis. mas sob o peso deles nos sacudimos, nos mexemos,
seguimos linhas de fuga, saímos e voltamos para a corda bamba, nossa casa inabitável –
para a instabilidade do fluxo, do pântano, do corpo sem órgãos, da linguagem acesa que
fica tão mais hermética, quanto mais cultos e lidos são os que nos ouvem ou leem. a
ideia é aprender a escrever e fazer sociologia para os que deixam de lado o que não
entendem sem preocupação, abrindo-se para um não entendimento que não envergonha,
não atrapalha. o que ouvimos ou lemos não será entendido a partir de um livro ou
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discurso que já lemos ou ouvimos, como se tudo fosse igual às bonecas russas, uma
contendo a outra.

5 . o lance agora é considerar os discursos que produzimos e com que nos deparamos
em termos do que funciona ou do que não funciona; do como funcionam para mim,
para você, para outros. se não funcionam, passemos para outra coisa. nosso encontro
com os discursos escritos, lidos, desenhados, tocados, mostrados, nossa produção de
comentários, descrições, associações, todo nosso exercício da sociologia é regido pela
intensidade, ao modo das correntes elétricas: passa ou não passa. trata-se menos de
explicar, compreender, interpretar e mais de sentir, de se deixar atravessar, de se
permitir afetar. todo discurso será colocado imediatamente com o fora dele, algo como
uma engrenagem menor contida em engrenagens maiores e mais complexas, a serem
entendidas nelas, com elas e contra elas. em que medida os nossos discursos serão
compreendidos e compreendemos os dos outros depende das correntes que ativamos e
que são em nós ativadas, da funcionalidade delas para nós próprios e para os outros.

6 . trata-se de adotar o registro da intensidade, da clandestinidade, da relação com o


fora, da experimentação, dos reflexos dos nanoacontecimentos e megamovimentos em
grupos, indivíduos, cursos de fenômenos, maquinações que incluem o humano e o não-
humano, sem concessão alguma, exceto a de encontrar aliados que queiramos e que nos
queiram.

7. no exercício da sociologia não importam os títulos autorizativos para a produção de


discursos: é quase como falar de algo como se fôssemos um cão com olhos e olfatos
reveladores, sem respeito ao realismo raso dos que exigem que alguém seja drogado,
para falar sobre drogas, que tenha visitado a austrália, para falar sobre os cangurus. para
quem faz sociologia não funciona o argumento do loteamento, da feudalização da
experiência, a reserva de domínio do real, do experimentado. nossas leituras dos
autores e dos fenômenos são corsárias, com base na pirataria e na apropriação, as quais
quanto mais imprevistas e escandalosas, mais valiosas.

8. a aposta da sociologia não é na ontologia dos fenômenos, dos grupos, das identidades,
das instituições, mas nas relações transversais em que esses e outros traços e efeitos da
vida social são produzidos, sem se preocupar em estabelecer com certeza que se
pretende científica o ser e o estar no mundo – nenhuma bicha, nenhum hétero, nenhum
professor, aluno, ou qualquer coisa em que pensemos e pelo que nos definamos, poderá
dizer com certeza: eu sou uma bicha, eu sou hétero/homem, eu sou hétero/mulher, eu
sou hetero/homo-transx/y/z, eu sou professor, eu sou aluno etc. mobilizamos jogos de
linguagem em cujo âmbito e a partir dos quais pinçamos conceitos, categorias, com as
quais antes de querer oferecer fórmulas explicadoras aos moldes das ciências duras,
construímos interpretações de subterrâneos e mecanismos invisíveis em atuação no
estilo figuracional (metonímico, metafórico). a sociologia opera em um regime do
incerto, dos improváveis, do devir universal, pensando como os grupos, indivíduos,
instituições, nações, descobrem, simbolizam, definem os vários, as populações, as
espécies, os materiais, sentimentos, símbolos, discursos, práticas diversos que os
habitam e atravessam.

9. a análise sociológica de discursos, de fenômenos sociais, define-se como a produção


profissional de dissonâncias desestabilizadoras das harmonias pretendidas pelos
conjuntos de atores mobilizados para a produção da vida social. essas dissonâncias se
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produzem quando o sociólogo recua da posição lhe outorgada biograficamente, pela sua
inserção em sistemas de socialização e moldagem de si, no fora e dentro da sua própria
formação de sociólogo, ativando os modos antirreduplicação, antinaturalização do seu
lugar e do lugar dos outros sociais, introduzindo uma espécie de ‘desafinação no coro’,
algo a ser evitado pelos que se interessam em apagar os vestígios dos golpes e
contragolpes, com o objetivo escroto de manter a aparente inescapabilidade das coisas
socioculturais, pela proteção das forças com que se exercem as correntes sociogênicas
que nos arrastam, poderosas.

10. a sociologia se coloca diante de discursos, de fenômenos sociais de quaisquer das


ordens, transcendendo o objetivo de registro, da mera descrição, da apresentação neutra
dos fatos; através das chaves analíticas da sociologia executamos tarefas definidas pelo
olhar sociológico – recortar, questionar, focalizar de modo suspeitativo, suspendendo e
nos esforçando para iluminar os agenciamentos de subjetividades, os silêncios, as
metáforas, as encenações, a eloquência e plausibilidade dos discursos, dos cursos de
ação performatizados, instaurando uma certa capacidade e perspicácia irônicas e
iconoclastas, exercitando, ao modo de um psicanalista ou detetive do social, uma
atenção difícil ao que se lhe apresenta como a realidade dos fatos, a arrumação
convincente das aparências e essências intervinculadas, praticando a análise dos
raccords, das continuidades e descontinuidades e seus paradoxos.

11. o/a sociólogo/a faz seu trabalho de revolver os jogos de tensões, as tensões dos
jogos, montando, através de sua paixão antidocumental, aquela que desconfia de sua
potência de ‘registro do verdadeiro’, maquinações antimaquínicas, assumidas em seu
caráter pluriperspectivístico, parcial, contaminado, resultante do deixar-se
atravessamento pela legião de autores, de sujeitos que falam pela sua boca e são por
ele/ela falados, gaguejados, silenciados, distorcidos, empoderados, desentendidos,
estendidos, traídos, usados, parafraseados, negados, atravessados – os léxicos em cujos
fluxos e contrafluxos somos forjados, constroem-nos como falantes, constroem nossos
lugares de fala e não o contrário.

12. depois que passa pelas mãos, pelos olhos, pelo nariz, pelo desejo do sociólogo, tudo
parece seu. depois que passa pelas suas mãos, olhos, desejo, nariz, nada parece seu! a
tarefa do sociólogo: dar aos fenômenos uma voz, uma imagem, uma fantasmagoria
elaborada, sem medo de perdê-los, traí-los! ao contrário, só interessa ao sociólogo o
que teve força, caráter, para se perder dele. o sociólogo não trancafia afetos, cheiros,
memórias, paisagens, funcionamentos, fluxos e contrafluxos, imagens que ele criou. o
sociólogo é parteiro desanestesiador do mundo, que o marca e que é por ele
ousadamente reconstruído.

13. a análise sociológica nunca é um simples resultado da aplicação de modelos teóricos


que se conhecem a si mesmos com toda a clareza. a interpretação sociológica de um
fenômeno é menos construída a partir de teorias, conceitos, categorias externas a ele do
e mais o resultado do encontro sistemático com o funcionamento insólito de
mecanismos objetivos que afetam modos de agir, de sentir, jogos de linguagens e
subjetividades narrativas interproducentes dos sujeitos em suas interações, cenários em
que atuam os indivíduos em seus agenciamentos, contra-genciamentos, fluxos e
contrafluxos ativados.
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14. o olhar/o ouvir/o sentir/o imaginar/o adivinhar sociológico serão tão mais
interessantes e flamejantes quanto mais capazes de perceber modulações, consonâncias,
dissonâncias, cadências, pausas, silêncios, vagarosidades, acelerações, variações nas
espessuras fenomênicas e epifenomênicas, o contraponto espesso dos sentidos e dos
não-sentidos da complexa rede de acontecimentos que formam a vida social, oferecendo
para os indivíduos interessados modos de tradução do que vivem e deixam de viver, aos
quais eles eventualmente sejam indiferentes ou mesmo resistentes.

15. a sociologia tem como objetivo compreender/interpretar/explicar os sentidos das


ações sociais, mas ainda mais os não-sentidos observados no nível dos fenômenos e no
nível dos epifenômenos – o não senso na profundidade e o não senso na superfície.
superfície e profundidade têm não-sentidos diferentes: na superfície os fenômenos se
oferecem como cintilâncias dos não-sentidos dos ‘acontecimentos puros’, esses que
nunca terminam de chegar nem de se retirar. os não-sentidos dos ‘acontecimentos
puros’, ao modos de vapores magmáticos, sopram sobre as superfícies seus sinais,
oferecendo-se apenas de modo oblíquo, ao modo da luz que, à medida que tem suas
partículas ou ondas alteradas, revela a existência, a densidade, a extensão dos corpos
celestes, suas forças de atratividade e repulsão, seus modos de existência nos pontos das
malhas dos espaços-tempos considerados.

16. a interpretação sociológica não apela a um a priori teórico/lógico. ela emerge de


uma ação oblíqua e em aprendizados frequentemente baseados na ‘alteração’ dos
fenômenos a serem explicados bem como dos seus intérpretes. ela é forjada através de
uma atuação não claramente raciocinada/intencionada, na qual os analistas são sujeitos e
objetos simultaneamente. trata-se de uma abordagem que implica uma atenção
especializada à linguagem indireta e às vozes dos silêncios dos (epi)fenômenos
socioculturais focalizados. o exercício do olhar sociológico implica em uma espécie de
produção de deformações com tanto mais potencial revelador dos fenômenos, quanto
mais conscientes desse modus operandi.

17. nos que fazem sociologia, o pensamento/razão e as emoções não dirigem ‘de fora’ a
interpretação exercitada: sociólogos são eles mesmos, enquanto analistas, fenômenos e
devires a serem analisados. eles sujeitos se constroem à medida que reconstroem os
seus objetos, criando meios de expressão, idiomas analíticos que se moldam de acordo
com sentidos e não-sentidos fenomênicos e epifenomênicos, tomados como pontos a
serem iluminados, dobrados, redobrados.

18. toda análise sociológica é também uma fonte de recriação dos instrumentos teórico-
metodológicos através dos quais se exercita e passam a ser manejados segundo sintaxes
novas, despertadas pelas relações sujeito-objeto ativadas. o senso comum limita-se a
abordar por signos convencionais as significações dos fenômenos já instaladas na
sociedade/cultura. a sociologia é a arte de captar sentidos e não-sentidos não dantes
objetivados, tornando-os acessíveis aos sujeitos que os ativam/experimentam, como se
fosse a produção em prosa de uma poética das relações humanas – em suas implicações
com o não-humano – através da qual emerge o apelo arriscado de liberdades e
aprisionamentos particulares a conjuntos de outras liberdades e aprisionamentos –
referidos a outras espacialidades e temporalidades – em cuja presença o ‘a ser
explicado/descrito/interpretado’ é colocado.
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19. a maneira mais interessante de entender uma época e seus fenômenos não é se
concentrando nas características explícitas que definem seus edifícios sociais e
ideológicos, mas sim nos seus fantasmas renegados, que assombram das profundezas,
que habitam uma região misteriosa de entes cuja visibilidade nos é negada, os quais, no
entanto, persistem e continuam a ser eficazes na afetação das dinâmicas da vida social.
fazer sociologia é intercruzar imagens especulares do simbólico/imaginário (mitos,
narrativas, atos fundacionais reconhecidos e disseminados pelas sociodiceias
dissseminadas pelas instâncias socializadoras legítimas) com o material que compõe a
história secreta dos grupos, instituições sociais, aquela referida à ordem do substrato
obsceno do tecido social, a zona fantasmática, ‘espectral’, que sustenta efetivamente o
caráter explícito do que dizemos, fazemos e dizemos fazer, tão mais poderosos quanto
permanecerem implícitos, habitando o espaço tateante das entrelinhas, do segredo que
não ousa sequer se pensar, das fantasias traumáticas que se transmitem nas lacunas, nas
fraturas, naqueles momentos nos quais se olha sem saber para onde ou o quê.

20. é quando somos tomados pelo não entendimento, atravessados pelas falhas dos
jogos de linguagem, pela gagueira que nos desconcerta e embaraça, quando criamos
uma língua estrangeira a partir da matéria-prima do léxico da nossa língua materna, nas
suas veias e artérias e no meio dela, para falar, sentir, ouvir e ler os fenômenos do
mundo, que podemos ser mais radicalmente sociólogos.