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Competência Emocional
O Caminho da Vitória para Equipes de

Futeb l

Suzy Fleury
Prefácio de Wanderley Luxemburgo

Editora Gente - 1998

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Despertando o campeão que existe em você...

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Sumário
Prefácio
Wanderley Luxemburgo
Introdução
Do Sonho ao Projeto de Vida
-Teoria da Inteligência Emocional
-Teoria Psiconeuroimunológica (PNI)
-Teoria Psiconeuromuscular (PNM)
-Teoria Simbólica do Aprendizado

Capítulo 1
O Negócio Futebol: Um Sistema Dinâmico
-O Negócio Futebol - Cenário e Variáveis
-Mudanças no Futebol - Mega-evento
-Futebol, um Negócio Apaixonante
-“Lei Pelé” marca a Profissionalização

Capítulo 2
Evolução da Psicologia no Esporte
-O Domínio das Emoções no Futebol
-Carta de um Campeão
-Treinamento Mental uma Realidade
-Foco em Resultados, Não em Problemas
-Vitórias do Condicionamento Mental

Capítulo 3
O Caminho da Vitória
-Viver! Nossa maior Conquista
-O Que Significa Ser um Vencedor
-Dimensões da Vitória
-Jogar! Mais do que uma Profissão. Um Projeto de Vida!
-Estratégias Mentais dos Vencedores

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Capítulo 4
Fundamentos da Competência Emocional
-Competências Básicas do Jogador de Futebol
-Método Equipe - Equilíbrio e Perfeição
-Princípios Básicos Mente/Corpo
-A Neurologia da Excelência
-Motivação - Estado Mental de Excelência
-Ansiedade e Preocupação - Estados de Baixa Qualidade
-Inteligências Multiplas
-Competência Emocional

Capítulo 5
Treinamento da Competência Emocional
-Ações de Treinamento
-Projeto de Desenvolvimento da Competência Emocional
-Palestras - Metodologia: A Alma do Negócio
-Perfil Individual e da Equipe
-Jornais e Minutos de Sabedoria
-Biblioteca e Filmacoteca
-Atendimentos Individuais

Capítulo 6
Antes, Durante, Depois e...Sempre!
-Preparando-se para a Partida
-O Espetáculo
-Lidando com os Resultados
-Mais do que Jogar,Viver!

Bibliografia

Prefácio
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Quando Suzy Fleury me convidou para escrever o Prefácio desse livro, admito que senti
uma ponta de orgulho: afinal, em minha carreira como técnico de futebol, fui o primeiro a
trabalhar com ela, buscando na Psicologia Esportiva, as ferramentas necessárias para
manter os jogadores motivados e prontos para se tornar campeões. Além do treinamento
técnico, tático e físico, atualmente também trabalhamos o aspecto emocional da equipe.

Durante algum tempo, não entendia como a psicologia que já alcançava quase todas as
áreas da vida, inclusive outras modalidades esportivas, ainda não havia chegado
efetivamente ao nosso esporte. Talvez isso tenha acontecido por causa da idéia distorcida
de que “psicólogo é coisa para maluco”.

Comecei a me envolver com essa área lendo e acompanhando atletas de modalidades


esportivas individuais como nadadores, tenistas e corredores. Percebi que na maioria das
vezes, esses profissionais utilizavam o apoio psicológico em seus programas de
treinamento. Mas, ainda não entendia muito bem, como poderíamos adotar tudo isso
dentro de esportes coletivos, como é o caso do futebol. Foi aí que decidi acrescentar essa
disciplina a minha vida profissional.

Conhecendo mais profundamente a psicologia esportiva passei a redirecionar todo o meu


trabalho, entendendo melhor a importância que um psicólogo para o esporte coletivo.
Além de apoiar a preparação de maneira geral, a psicologia esportiva também ajuda a
melhorar a inteligência e qualidade de vida do atleta. Os benefícios são tão visíveis que
passei a utilizar essas informações como parte do meu próprio método de trabalho.

Os conceitos e técnicas da psicologia esportiva vêm numa evolução crescente,


culminando com a proposta da Inteligência Emocional. Digo com toda certeza que essa
teoria é o que há de melhor na área da psicologia atualmente. Então, além de ser um
recurso importante para o grupo, o atleta de alto nível que recebe orientação psicológica,
passa a entender melhor o que faz, o que tem que fazer, incrementando seu crescimento
pessoal e profissional. Isso acontece freqüentemente com alguns atletas que apresentam
grande potencial, mas que, por uma circunstância qualquer, não consegue colocar tudo o
que sabe dentro de campo. É aí que entra o trabalho do psicólogo, como apoio à comissão
técnica, ele ajuda o atleta a compreender melhor seu cérebro e a química das emoções.

Tenho procurado utilizar a psicologia como uma força a mais dentro da comissão técnica
e, Suzy Fleury, uma profissional de qualidade, vem para somar trazendo informações e
experiências para todos na equipe. Com ela nosso trabalho assume um pouco mais o
aspecto multidisciplinar da preparação. Estou tão convencido da importância desse
trabalho que sempre que posso, procuro trazer esse profissional para perto da gente.
Aceitar a psicologia esportiva também é uma demonstração de evolução. Aquela
mentalidade retrógrada e arcaica do treinador que procurava fazer prevalecer apenas as
suas decisões, está dando lugar a uma postura mais profissional, através da visão
ampliada do futebol como um negócio que deve ser melhor estruturado e com
lucratividade para que possa sobreviver.

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Meu trabalho cresceu muito a partir do momento que passei a aceitar uma psicóloga
trabalhando junto comigo. Tanto eu como o grupo, melhoramos em qualidade com essa
contribuição. Então, para você que está começando a ler esse livro e que, de alguma
forma está procurando melhorar seus resultados, não tenha receio, existe aqui uma
contribuição efetiva que refletirá diretamente na qualidade do seu trabalho.

Os resultados práticos desse trabalho aparecem em diversos setores. Já tivemos ganhos


em jogos, campeonatos e só para dar um exemplo, em 1993, quando trabalhava com o
Palmeiras, após perder o primeiro jogo da final que disputávamos contra o Corinthians,
dediquei toda aquela semana ao aspecto psicológico. Desenvolvemos a idéia de:
recuperação, acreditar e poder. Foi um reforço muito grande que mostrou, após a
conquista do título, que estávamos certos adotando aquela estratégia. Outros trabalhos
que fizemos juntos, também ajudou a equipe a conquistar espaços importantes nas
competições.

Mesmo com toda a modernidade que buscamos, a utilização da psicologia no futebol


ainda é muito acanhada. Essa situação deverá mudar significativamente nos próximos
anos, principalmente, porque os treinadores estão começando a perceber: os benefícios
que esse trabalho trás para o negócio que é o futebol e, também, que o técnico ou
qualquer membro da comissão técnica não perde espaço diante do elenco. Com relação a
alguns dirigentes acredito que as resistências que ainda existem, serão diminuídas a partir
do projeto de se trabalhar o aspecto multidisciplinar da equipe.

Em resumo, gostaria de dizer que minha experiência com uma psicóloga dentro do
futebol foi muito importante. Esse trabalho me ajudou a ter mais qualidade e contribuiu
para a performance da equipe. Para aqueles que tiverem a oportunidade de contratar um
profissional dessa área, gostaria que esse fosse considerado um exemplo profissional.

Já existem psicólogos esportivos, mas, são poucos aqueles que realmente conhecem o
sistema futebol e isso é muito importante. Conhecer a essência desse esporte tão
complexo é fundamental. Não é só ser um psicólogo e pronto. Os profissionais que
pretendem trabalhar com o futebol precisam conhecer bem esse sistema, para poder
oferecer uma contribuição séria e competente. É preciso formar profissionais da
psicologia para a pratica do futebol.

E você, Suzy Fleury, foi buscar entender esse sistema, estudando, acompanhando de
perto os treinamentos, se preparando para direcionar todo o seu trabalho para esse
objetivo.
Parabéns ao futebol e a você por mais essa contribuição!

Wanderley Luxemburgo
“Não são apenas músculos fortes, um tônus muscular melhor,
é o poder que você tem. A força física de seu corpo e também da sua mente.
São exercícios que afetam esses dois lados: o corpo e a mente.
Você só aprende fazendo, preste muita atenção nisso.
Quando aprendi que isso era algo muito especial,

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comecei a me conhecer melhor.
Basicamente é isso, você se conhece melhor.
Conhece suas limitações, suas forças e qualidades.
Você tenta criar um conjunto, ser uma pessoa mais estável".
Ayrton Senna da Silva
Tricampeão de “Fórmula 1” em 1988, 90 e 91

Introdução
Do Sonho ao Projeto de Vida
Tornar a preparação emocional respeitada e reconhecida cientificamente no ambiente
esportivo como um todo e, particularmente, no futebol, com o objetivo de dar minha
contribuição efetiva para que a seleção brasileira continue a ser uma das melhores do
mundo. Este é um dos sonhos que tenho na vida e, talvez por ser o mais apaixonante,
acabou se tornando um projeto de vida pessoal e profissional.

Para transformar esse sonho em realidade, como psicóloga e professora de pós-graduação


da Escola Superior de Propaganda e Marketing, venho me dedicando, desde 1990, ao
estudo e pesquisa das mais recentes teorias e descobertas sobre o comportamento humano
e sua aplicação nos esportes, com o objetivo de conseguir resultados cada vez mais
significativos. A receptividade deste trabalho no Brasil e exterior tem sido bastante
positiva, até porque o futebol de alta performance já se define, mundialmente, como
“business” e alguns clubes brasileiros buscam o modelo empresarial, isto é, um modelo
de resultados.

Nesta trajetória, que já dura quase uma década, aprofundei meu conhecimento teórico e
científico, enquanto, em paralelo buscava experiências práticas junto a equipes excelentes
em diversas modalidades esportivas como:

• Automobilismo, representado pela estrela maior e orgulho de todos nós brasileiros,


Ayrton Senna da Silva, que continua ensinando o caminho da vitória para aqueles que
acreditam e trabalham duro em busca da perfeição;
• Basquete, principalmente o trabalho que é realizado pelo Chicago Bulls (EUA);
• Vôlei, com enfoque na experiência olímpica da seleção brasileira masculina de 92;
• Vôlei de praia, que vem apresentando resultados importantes através de nossas
meninas de ouro e prata;
• E também mantive o foco em esportes como Atletismo, Futebol Americano, Natação,
Tênis e Trenó,

Na área da Psicologia, fundamentando meu trabalho no aspecto científico, pesquisei o


que há de mais moderno e eficaz relacionado ao comportamento humano de resultados e
encontrei importantes teorias como:

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• Teoria da Inteligência Emocional
• Teoria Psiconeuroimunológica (PNI)
• Teoria Psiconeuromuscular (PNM) e,
• Teoria Simbólica do Aprendizado

Ao longo de todo esse período, a cada jogo que assistia, cada vez que entrava em um
estádio e via um gol emocionar a torcida, a questão que mais me fazia, era a seguinte: o
que atletas de alta performance estão fazendo para conquistar resultados excelentes?
E, desde então, compreender a estrutura da excelência passou a ser quase que uma
obsessão em minha vida profissional.

Não posso dizer, hoje, que já tenha encontrado todas as respostas e, conscientemente,
esta não é minha pretensão. Mas, não tenho dúvidas, de que já encontrei algumas
respostas e o trabalho já desenvolvido junto às equipes tem me demonstrado que o
caminho é este: além do treinamento físico, é possível desenvolver a mente de um atleta e
o espírito de uma equipe para que ela aumente as chances de se tornar campeã.

Mais do que isso: este novo conhecimento sobre o comportamento humano e sobre as
ferramentas que podem ajudar uma pessoa a se tornar vitoriosa são capazes de auxiliar
cada um de nós a chegar à realização em qualquer área de atuação. Afinal, as emoções
em jogo numa corrida de Fórmula 1, num estádio de futebol ou numa reunião de diretoria
são muito parecidas... Dividir esse aprendizado e despertar o campeão que existe em
você, é a proposta deste livro.

Como ponto de partida lembro a você o princípio de que já nascemos campeões. A


corrida do espermatozóide em direção ao óvulo é uma das maiores competições que a
natureza foi capaz de promover e saímos campeões: você e eu. Isso significa que, antes
de nascer nós já assumimos nossa porção atleta e, como campeões, nascemos para dar
certo, para ser feliz. Somos campeões, embora passemos a maior parte de nossas vidas
esquecendo disso.

Mas, antes de entrarmos juntos em campo, gostaria de apresentar, resumidamente, alguns


pontos fundamentais sobre as teorias científicas que têm norteado meu trabalho. Ao
longo do livro, estarei utilizando alguns destes conceitos para explicar histórias de
sucesso e derrotas e, portanto, é imprescindível que estejamos em sintonia com eles para
que possamos compreendê-los bem e aplicá-los da melhor forma em nosso dia-a-dia.

1.Teoria da Inteligência Emocional

Inteligência Emocional é uma teoria revolucionária, que amplia o conceito do que


significa ser inteligente ao concluir que as nossas emoções desempenham um papel muito
mais importante do que se acreditava anteriormente no sucesso individual e, como
conseqüência, na vitória coletiva. Isso quer dizer que a performance de um atleta também
depende muito de seu equilíbrio emocional e que, em esportes coletivos, a vitória está
diretamente relacionada ao esforço individual e de toda a equipe.

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Lembro de uma frase que Phil Jackson, técnico do Chicago Bulls, costuma usar e que
ilustra muito bem o real significado do espírito de equipe:

“A força do lobo está na matilha e a força da matilha está no lobo”.

Compreender a teoria da Inteligência Emocional irá facilitar nossa percepção das


características de atletas excepcionais como Pelé, Garrincha, Maradona, e mais
recentemente, Ronaldinho, Roberto Carlos, Romário e Edmundo. A partir daí, o mais
importante passa a ser preparar atletas e equipes de futebol para juntamente com a
comissão técnica de seus clubes, poder utilizar as emoções a favor das conquistas e
vitórias.

O conceito de Inteligência Emocional foi consagrado no livro de mesmo título, que foi
escrito por Dr.Daniel Goleman, psicólogo, PhD da Universidade de Harvard (EUA) e,
desde a década de 80, articulista do jornal The New York Times. Dr.Goleman credita a
expressão “Inteligência Emocional” ao Dr. Peter Salovy, da Universidade de Yale, mas
foi a partir da repercussão de seu livro, em 1995, e do movimento de estudos sobre o
cérebro humano que caracteriza a década de 90, que o tema alcançou uma dimensão
muito mais expressiva, sendo estas pesquisas reconhecidas por Harvard, uma das mais
importantes Universidades do mundo.

Em fevereiro de 1997, tive o prazer e a oportunidade profissional de conhecer


pessoalmente Dr. Goleman, a quem sou especialmente grata pela contribuição ao meu
trabalho na área esportiva e - acima de tudo - pela contribuição à evolução do
conhecimento sobre o comportamento humano.
Na abertura da Teleconferência “Inteligência Emocional no Local de Trabalho”,
transmitida junho de 97 para o Brasil e EUA, Dr. Goleman se referiu ao nosso encontro,
fazendo a seguinte observação:
“Fiquei muito impressionado, quando meu livro saiu no Brasil e alguns meses depois
recebi a visita de uma psicóloga de equipes de futebol aqui na Nova Inglaterra e ela me
disse: ‘Viajei até aqui para visitá-lo, porque estou convencida que o ganhador da
próxima Copa do Mundo, em 98, será a equipe que estiver melhor preparada no aspecto
emocional.’ O argumento dela era que, diante do alto nível de desempenho dos times, o
diferencial competitivo poderia estar no gerenciamento das forças emocionais, ou seja,
na forma como os atletas lidam com a raiva, motivação, dedicação, fé, disciplina,
superação de limites e frustrações.’

Baseada na idéia de alfabetização emocional, ou seja, toda pessoa é capaz de aprender a


lidar de forma competente com suas emoções, esta teoria refere-se à mente emocional
como uma estrutura, a sede das “habilidades do coração”, e reconhecê-la é a melhor
maneira de se prever o sucesso de uma pessoa em qualquer área de atuação.

Segundo Dr.Goleman, a inteligência emocional é uma qualidade não mensurável nos


testes de Q.I. (Quociente Intelectual), formando um conjunto de habilidades como

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autoconsciência, administração das emoções, automotivação, empatia e a arte do
relacionamento que inclui a capacidade de trabalhar em equipe.

Como objeto de pesquisa, a Teoria da Inteligência Emocional procura identificar o


padrão de excelência, ou seja, o que pessoas excepcionais fazem para alcançar resultados
tão significativos em diferentes áreas de atuação. E a impressionante conclusão indica
que:
“Na melhor das hipóteses, o Q.I. contribui com cerca de 20% para os fatores que
determinam o sucesso na vida, o que deixa 80% a outras forças”.

2.Teoria Psiconeuroimunológica (PNI)

A teoria psiconeuroimunológica é uma área recente da Medicina, que se dedica ao estudo


da relação existente entre Mente/Corpo,ou seja:
Psico = mente (pensamentos e emoções)
Neuro = sistema nervoso central
Imunológico = sistema de defesa do organismo

De acordo com a PNI (teoria psiconeuroimunológica), mente/corpo estão intrinsecamente


ligados e esta interação exerce uma profunda influência sobre os estados de saúde e
doença em nosso organismo. Isto significa que nossas atitudes, crenças e emoções - como
o amor, compaixão, medo ou raiva - podem desencadear reações que alteram a química
do nosso corpo, influenciando na freqüência cardíaca, no metabolismo como um todo e,
conseqüentemente, na performance de um atleta.

Uma explosão de interesse nessa área originou novas pesquisas sobre os mecanismos
fisiológicos, alguns deles conhecidos durante décadas, por meio dos quais a mente e as
emoções podem afetar nosso bem-estar físico. Hoje, as descobertas estão revelando uma
gama de prováveis caminhos através dos quais nossos estados mentais podem influenciar
na nossa saúde.
O estresse, por exemplo, pode refletir em nosso sistema imunológico, ou seja, em nosso
sistema de defesa. Essa situação foi observada num dos grupos mais bem preparados
física e psicologicamente, os astronautas da missão Apollo 13. Durante a viagem, ocorreu
uma explosão a bordo da aeronave colocando em perigo à volta dos tripulantes a Terra, e
isso fez com que eles ficassem extremamente estressados. Os médicos da Nasa
descobriram que a quantidade de células imunológicas diminuíra bastante, e dois dos três
astronautas estavam com uma resistência tão baixa que ficaram com gripe. Em se
tratando de homens bem condicionados e que partiram para a missão em perfeita saúde,
fica a reflexão: o quanto situações de estresse podem reduzir o número de células
imunológicas?

No esporte, lesões causadas por estresse são, de certa maneira, comuns, transformando-se
em uma preocupação constante das equipes médicas de diferentes modalidades
esportivas.

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No futebol, por exemplo, toda partida é repleta de variáveis que podem causar uma forte
pressão para as equipes, como é o caso das torcidas presentes aos estádios de futebol e a
capacidade de adaptação a essas situações pode gerar atitudes mais naturais, diminuindo
o desgaste tanto físico como emocional.

Em 1996, três atletas olímpicos brasileiros foram afastados por lesões musculares, sendo
que, entre eles, apenas o caso da ginasta Soraya (fratura na tíbia da perna direita) ocorreu
em Atlanta. Os outros - o meia de campo Beto, da equipe de futebol, e Carlão, capitão do
time de vôlei - machucaram-se ainda no Brasil, em função do estresse causado pela
pressão e nervosismo antes de uma competição tão importante.
Na época, em reportagem publicada na Folha de S.Paulo (18/07/96), Arnaldo Santiago,
médico do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) que acompanhava a delegação brasileira,
afirmou que, quando a competição se aproxima o equilíbrio emocional dos atletas é o que
requer mais cuidado: “O atleta não percebe, mas fica ansioso, sensível. Basta uma leve
dor para que fique apavorado”.

Da mesma forma, as situações de depressão também podem refletir diretamente na


performance de um atleta. Ou seja, tanto o estresse e a depressão, como o bem-estar e a
felicidade, são estados psicológicos “percebidos” pelas células imunológicas, fazendo
com que sua ação possa ser diminuída ou aumentada.

O psicólogo americano David McClelland, da Universidade Harvard, realizou a seguinte


pesquisa: assistiu com seus alunos a um filme sobre o trabalho humanitário de madre
Tereza de Calcutá com os pobres e doentes, o que deixou os estudantes profundamente
impressionados. Esta “sensação” forte causada no grupo de alunos ficou comprovada
através de um exame das condições imunológicas de cada um. Nos testes, os
pesquisadores constataram que o nível de globulina de imunidade (IgA), um anticorpo
responsável pela destruição de infecções nas vias respiratórias, havia aumentado e
McClelland denominou o fenômeno de “Efeito madre Tereza”.
Daí a importância de se evitar o estresse, se manter otimista, procurar um sentido maior
para a vida.

Alguns dos indícios mais fortes na área da PNI mostram que relacionamentos pessoais
insatisfatórios e a falta de apoio podem afetar adversamente o sistema imunológico. Além
disso, do ponto de vista médico, já há bastante tempo, existe a suspeita de que a raiva
reprimida pode causar doenças, aumentando os níveis dos hormônios do estresse, o que,
ao longo do tempo, pode provocar diversos efeitos nocivos no sistema cardiovascular.

Para a psiconeuroimunologia, portanto, o que acontece em nossas cabeças acarreta,


inevitavelmente, conseqüências físicas. Sendo assim, todos aqueles que têm como
objetivo melhorar a performance, podem assumir o gerenciamento dos fatores que geram
o estresse, aumentando o otimismo através da busca de um sentido maior para a vida.

3.Teoria Psiconeuromuscular (PNM)

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Diversos estudos científicos e pesquisas comprovam a influência existente entre os
exercícios mentais e a performance de atletas. Cientistas esportivos de todo o mundo têm
dedicado um tempo precioso de suas carreiras, tentando entender a delicada relação entre
mente/corpo. Debra Feltz e Dan Landers, ambos PhD., que pesquisaram como e quando a
prática mental melhor incrementa a performance de um atleta, e encontraram importantes
explicações na Teoria Psiconeuromuscular e na Teoria Simbólica do Aprendizado. Estas
duas linhas de estudos estão intimamente relacionadas e a segunda será mais detalhada
mais à frente neste mesmo capítulo.

Segundo a PNM (teoria psiconeuromuscular), os resultados da prática mental são


percebidos mesmo quando ficamos quietos numa cadeira. Por exemplo, quando
imaginamos participar de uma atividade física, produzimos pequenas contrações
musculares, similares àquelas geradas quando estamos vivendo essa experiência na
realidade.

Isto pode ser comprovado por testes como o seguinte: através do equipamento chamado
eletromiógrafo (IMG), podemos medir a atividade elétrica e as reações no corpo de um
piloto de Fórmula 1, que esteja somente sentado em uma cadeira, imaginando participar
de uma corrida. As alterações observadas em seu corpo são como se o piloto estivesse
realmente na pista, pois suas reações correspondem a uma atividade real e não apenas
imaginária.

Esta importante descoberta demonstra a influência que o treinamento mental exerce na


performance das pessoas, podendo ser usado para melhorar a concentração e o
desempenho dos indivíduos, de atletas a astronautas. Para os esportistas, este treinamento
pode e deve ser praticado antes, durante e depois das competições como um recurso a
mais no condicionamento em direção às vitórias.

Um bom exemplo disso foi registrado no livro: “Pense como um Vencedor”, de Walter
Doyle Stample, que menciona uma pesquisa publicada na revista Research Quarterly
sobre os efeitos da formação de imagens mentais no aumento dos índices de acerto em
lances livres em basquete.
Segundo este estudo, uma classe de estudantes do colegial, com o mesmo nível de
conhecimento e habilidade em basquete, foi dividida em três grupos de teste:
• O Grupo 1 recebeu instruções para praticar lances livres em um ginásio 20 minutos
por dia durante 20 dias.
• O Grupo 2, não deveria praticar lances livres durante vinte dias.
• O Grupo 3 praticou lances livres mentalmente 20 minutos por dia, durante 20 dias,
imaginando estar acertando todos os lances.
Foram realizados testes de avaliação no primeiro e no vigésimo dia:
• O Grupo 1 melhorou seu índice em 24%,
• O Grupo 2 não apresentou nenhuma melhora e,
• O Grupo 3 elevou o índice de acerto em lances livres em 23%, utilizando apenas sua
capacidade mental de se preparar para o sucesso.

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Estes estudos demonstram, portanto, que existe uma relação neurofisiológica
(mente/corpo) direta entre a experiência artificial imaginada e o desempenho real.
Quando uma pessoa se imagina estar desempenhando determinada atividade, como
chutar e fazer gol, pequenas quantidades de atividade neural podem ser medidas por todo
o seu corpo. Em outras palavras, ao imaginar fortemente uma situação específica, pode-se
criar marcas neurológicas, que atuam como se o atleta estivesse vivendo realmente aquela
experiência.

Obviamente, a prática corporal não pode ser substituída no esporte, porém, podemos
utilizar estes recursos como um componente extra na preparação de atletas. Essas
técnicas podem contribuir até para os momentos em que os atletas se recuperam de uma
contusão ou cirurgia.

Outra pesquisa, realizada pelo Dr. Steven Ungerleider, psicólogo PhD da Universidade
do Texas, com 1.200 atletas olímpicos de diferentes modalidades esportivas, em 1987,
concluiu, entre outras pontos, que quanto mais elevada a performance do atleta, mais se
utilizava esse tipo de preparação. Por exemplo, o melhor nadador da Olimpíada de
Atlanta em 1996, Alexander Popov, em entrevista publicada na revista Veja (12/2/97),
comentou:

“O que separa a vitória da derrota é a preparação emocional. Quem quer que esteja
fisicamente bem preparado pode fazer coisas incríveis com seu corpo. Mas quem junta a
um corpo em forma uma cabeça bem cuidada é capaz de feitos excepcionais”

Popov demonstra utilizar a preparação mental como um diferencial competitivo, o que


também aconteceu com Bob Hopper, nadador campeão, na década de 60, na
Universidade de Ohio, o que deixa claro que o treinamento mental é uma característica
usada tanto intuitiva como de maneira programada pelos vencedores, provavelmente,
desde que as competições existem. Sendo assim, Hopper raramente perdia e, uma vez,
perguntado porque ganhava todas as provas, respondeu:
“Por uma série de motivos. Primeiro: desenvolvi bem todos os estilos. Segundo: treino
com afinco, sempre cumprindo as distâncias programadas para cada dia”.
(Observe aqui o nível de disciplina e o sistema de melhoria contínua que caracteriza o
perfil dos vencedores). Terceiro: cuido-me muito bem e me alimento corretamente. Mas
em geral, os meus concorrentes principais também fazem isso tudo. Portanto, a diferença
fundamental entre ‘ser bom’ e ‘ganhar’ é a minha preparação mental antes de cada
competição.
Nos dias que precedem a prova, eu passo um filme na minha cabeça e me vejo entrando
no estádio. Três mil torcedores me aplaudem nas arquibancadas e os refletores iluminam
a água. Vejo-me, indo até a baliza e posicionado com meus concorrentes de cada lado.
Ouço a pistola disparar e posso me ver mergulhando e dando a primeira braçada de
borboleta. Tenho a sensação de avançar, dou outra braçada e mais outra. Chegando à
borda, viro, volto nadando de costas e me vejo já em pequena vantagem. Vou ganhando
distância com a puxada embaixo d’água. Depois, passo para o nado de peito. Este é o
meu melhor estilo e é nele que a vantagem aumenta”.

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(Concentrar-se no que você faz bem é uma grande vantagem para diferentes aspectos da
preparação mental).
“Finalmente, faço a chegada no crawl. E me vejo ganhando! Passo esse filme na cabeça
umas 30 ou 40 vezes antes de cada competição. Quando chega a hora de nadar, eu vou e
ganho.”

Mais uma vez, a preparação mental é apontada como um “algo mais”, um diferencial
competitivo.

No futebol, podemos lembrar de alguns momentos, como no caso de Marcelo, atacante da


equipe do Cruzeiro, campeã da Copa do Brasil 96, que viveu uma experiência parecida
antes de um jogo decisivo contra o Palmeiras.
Em entrevista ao repórter Paulo Peixoto (Folha de S.Paulo, 20/06/96), disse que sonhou
ter marcado dois gols de cabeça contra o Palmeiras e se viu “desfilando num carro do
Corpo de Bombeiros”.

Utilizando intuitivamente esta técnica poderosa, Marcelo praticou a preparação mental e


isso colaborou para que entrasse em campo mais confiante, seguro e com mais vontade
de ganhar, além de lhe ajudar também a superar e vencer as enormes dificuldades que
deve ter vivido naquele jogo decisivo.

Outro exemplo da força da imaginação aconteceu com o goleiro Dida, da Seleção


Brasileira, em 96, quando participava dos Jogos Olímpicos em Atlanta. Dida falhou
contra o Japão e, depois da partida, com o objetivo de rever as falhas e aprimorar o
desempenho para os próximos jogos, o técnico Zagallo assistiu o tape com a equipe.

É claro que os aspectos positivos também foram considerados pelo técnico e os


jogadores, mas, de acordo com as características individuais, este tipo de revisão pode
causar o efeito inverso. Foi o que aconteceu com Dida, que, no jogo seguinte contra a
Hungria, voltou a cometer exatamente a mesma falha. E é importante destacar que
estamos nos referindo a um dos melhores goleiros naquela oportunidade.

Considerando as diferenças individuais, encontramos alguns atletas mais suscetíveis aos


aspectos negativos, ou seja, ficam mais impressionados com os erros do que focados nos
acertos. Por este motivo, torna-se ainda mais importante programas cuidadosamente
voltados à equipe, a partir de estratégias e ações individualizadas.
Segundo a Dra.Dorothy Harris, psicóloga PhD e professora da Universidade Park do
Estado da Pennsylvania (EUA),
“Quando assistimos apenas cenas dos nossos erros, estamos treinando mentalmente essa
situação específica e isso reflete diretamente nos resultados futuros. De outra maneira,
treinar com imagens positivas, é uma prática que estará influenciando positivamente a
nossa performance”.

4.Teoria Simbólica do Aprendizado

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Meu trabalho na preparação de atletas e equipes esportivas também é norteado pela Toria
Simbólica do Aprendizado, fortemente vinculada à PNM (teoria Psiconeuromuscular) e
que parte do seguinte princípio:
“A imaginação pertence a um sistema de códigos que pode ajudar atletas a entender e
aperfeiçoar seus movimentos”. Isso significa que os movimentos realizados pelo atleta,
que são influenciados diretamente pela mente, são compostos por uma seqüência de
atividades que pode ser desmembrada, observada e aprimorada”.

Por exemplo, a cobrança de um pênalti tem como fundamento técnico um conjunto de


pequenas ações feitas pelo jogador, que vai desde o posicionamento da bola,
concentração, estratégia da jogada, armazenagem de energia e a explosão do chute, que é
o momento máximo. Este sistema, uma vez desmembrado, permite a observação,
avaliação e possível correção de falhas. Todos os fundamentos práticos do futebol
podem, portanto, ser aperfeiçoados através desta teoria.

Apresentando resumidamente as teorias científicas que utilizo para fundamentar meu


trabalho como psicóloga junto a equipes esportivas, gostaria de finalizar dizendo que este
livro é o resumo das informações e experiências, da paixão e alegria que sinto por esse
esporte fascinante, que consegui reunir ao longo desses anos vivendo intensamente o
momento do Gol. E não importa em que campo você esteja jogando ou decida jogar, o
que espero sinceramente é poder despertar o campeão que existe em você para que ele
continue fazendo outras importantes conquistas, alcançando assim, as mais incríveis
realizações.

Com Carinho,

Suzy Fleury

“O estádio de futebol é um sistema fechado como o


pregão da Bolsa de Valores, em que o que vale é a excitação.
As funções iniciais acabam sumindo.
Os gritos na Bolsa não têm nada a ver com as finanças das empresas.
E os do estádio com as situações dos times”.
Hans-Urich Gumbrecht
Universidade de Stanford

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O Negócio Futebol:
Um Sistema Dinâmico
Objetivo: este capítulo enfatiza a real dimensão do Negócio Futebol no Brasil e no
mundo, tratando o esporte com uma visão mercadológica sistêmica para enfatizar: as
variáveis que compõem este cenário, a forte tendência de profissionalização, os
investimentos e ganhos das organizações, clubes e jogadores. Nós, profissionais
ligados direta e indiretamente ao futebol, precisamos refletir sobre esta perspectiva de
negócio, caso desejemos dar nossa efetiva contribuição ao desenvolvimento desse
esporte no país.

Quando o juiz apita o início do jogo e a bola começa a rolar, um grandioso sistema entra
em movimento. Sem dúvida alguma cada partida apresenta um cenário próprio, uma
combinação específica de variáveis que determina a vitória ou derrota de cada time.
Expandir nosso campo de visão e compreender a real dimensão deste Negócio é
fundamental para que possamos nos posicionar melhor, compreendendo nosso papel
dentro deste sistema.

Esta perspectiva ampliada tem a capacidade de nos transportar para uma dimensão que
vai além do jogo em si, onde o todo é mais do que a soma das partes. Ou seja, quando
observamos o vôo de uma gaivota, o que vemos é muito mais do que: asas batendo forte
num corpo de pássaro que se projeta no céu. O todo tem o movimento, a graça e a leveza
que as partes isoladamente, não são capazes de revelar.

Considerando, portanto, o futebol como um sistema dinâmico maior, um todo composto


por diferentes variáveis que interagem entre si numa combinação única, propomos a
apresentação de um “mapa”, uma estrutura que, certamente, nos ajudará nesta viagem
fascinante. E assim, seja por paixão ou profissão, você poderá se localizar melhor dentro
deste planeta chamado futebol, um dos esportes mais populares do mundo.

O Negócio Futebol - Cenário e Variáveis

Ter a consciência do quadro geral e seu papel nele é o ponto de partida, o lugar para
começar se você quiser fazer parte de um time que se propõe a ser campeão. Isso requer
mais do que talento, habilidade técnica, tática ou mesmo o preparo físico. Esta
consciência passará a lhe exigir uma atuação gerencial e as devidas atividades de
planejamento, organização, controle e, acima de tudo, uma postura indiscutivelmente
profissional. Este exercício favorece uma melhor perspectiva de trabalho e amplia sua
contribuição na direção do que realmente interessa no futebol: os resultados.

Vivemos numa era que se caracteriza por mudanças rápidas e profundas em diferentes
áreas de nossas vidas. Situar este esporte dentro de um sistema dinâmico pode nos ajudar
a compreender melhor as principais mudanças que estão ocorrendo no futebol.

17
Considerando os poucos estudos formais sobre o tema, optei por utilizar alguns trabalhos
de pesquisas divulgados, principalmente, pelas mídias especializadas em esportes e
marketing, que me ajudaram a dimensionar o futebol, enquanto negócio. Por isso, como
por quase uma década atuei em Psicologia Esportiva e Marketing, especialmente focada
em futebol, podendo observar os elementos e variáveis que propõem este universo, sinto-
me em condições de propor um modelo, que reproduza este sistema dinâmico.

O diagrama a seguir procura reproduzir as principais variáveis, que compõem o Universo


do Futebol, a seguir:

Universo Futebol e suas Variáveis

Tecnologia da Investimento em
Mercado Entretenimento
Comunicação
Midia
Patrocinador
Clube
Estádio
Torcida Torcida
à Favor Resultado Contra
Competências
Técnica-Tática-Física-Mental

Equipe
Objetivo
Adversária

Regras e Arbitragem

Comissão Técnica-Imprensa
Condições Campo-Climáticas
Casa-Fora

Antes Jogo Depois


Momento

Numa reflexão precisa e muito feliz, Tostão continua a dar sua contribuição ao futebol
através do livro “Tostão - Lembranças, Opiniões e Reflexões sobre Futebol”:
“Qual a melhor tática: três ou quatro no meio campo? Dois ou três atacantes? Marcar
por pressão na frente ou marcar atrás, jogando de contra ataque? Usar o líbero sobra
fíxa, variável? Dois ou um volante? Futebol arte ou força? Defesa ou ataque? Conjunto
ou craque? Pragmatismo ou romantismo? Espetáculo ou resultado?
Não existe a melhor maneira de jogar, e tudo vai depender das características dos
jogadores, do adversário, do momento e do local da partida. O bom técnico e o que sabe
usar todas as variáveis possíveis no momento certo.
Ninguém forma um grande time sem talento, disciplina, organização tática, preparo
físico, psicológico, etc. Não é uma coisa ou outra. O que seria do ataque sem a defesa,

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do gol sem o passe, da velocidade sem o talento, da técnica sem a emoção, do conjunto
sem o craque, da realidade sem o sonho?”

Este arranjo fantástico e profundamente dinâmico de variáveis compõe uma das mais
fascinantes atividades humana: o jogo. E por mais que nos esforcemos por procurar
dominar as variáveis controláveis, o mundo do incontrolável permanece para dar aquele
toque de mistério, estimulando fortemente nossas emoções.
O fascínio está justamente em se conseguir enxergar esses indicadores, atuar de forma
estratégica nas variáveis controláveis e assim, neutralizar o máximo que pudermos o
incontrolável. Isso exige inteligência, ou melhor, sabedoria, mas acima de tudo, um
trabalho competente que vai nos aproximar da vitória, dos títulos e da história esportiva
mundial.

Mudanças no Futebol - Mega-Evento

Duas variáveis movimentam o mundo em vários setores de nossas vidas e refletem


diretamente no universo futebol:
• A primeira delas, é a rápida evolução da Tecnologia da Comunicação propiciando
imagens e informações transmitidas em tempo real. Isto significa que podemos assistir
em nossos lares, os mais diferentes eventos, ao vivo, ao mesmo tempo em que as
empresas encontram nesse mercado uma oportunidade fantástica de investimentos;
• Segundo, é o crescimento da área do entretenimento e do lazer, no mundo.

As principais mudanças que giram em torno do futebol são, em resumo: Comunicação e


Entretenimento. E podemos compreender a importância da influência dessas variáveis
analisando, por exemplo, a Copa do Mundo de 1998, que marca o fim do século como
um mega-evento. Mais de 37 bilhões de espectadores assistirão pela tevê o torneio e
cerca de 2 bilhões de pessoas estarão torcendo na tarde de domingo do dia 12/07/98,
numa era que consolida o futebol como um grande e rentável negócio. Tendo como
lema: “C’est beau, um monde que joue” (É bonito, um mundo que joga), 32 países: 15
europeus, 8 das américas, 5 africanos e 4 asiáticos, fazem parte do evento mais assistido
de todos os tempos.

Para que se tenha uma idéia dos investimentos financeiros que envolvem um evento deste
porte, o custo de organização gira em torno de US$ 330 milhões, com 2,5 milhões de
ingressos foram colocados a venda. As empresas patrocinadoras deste evento são:
• Oficiais - Adidas, Canon, Coca-Cola, Fuji Films, Gillette, JVC, Mastercard,
McDonald’s, Opel (automóveis), Phillips e Snickers (alimentos);
• Parceiros - Crédit Agridoce (banco), Danone, EDS (Informática), France Télecom,
Hewlett Packard, La Poste (correio), Manpower (serviço temporário) e Sybase (base
de dados).

De maneira geral, os investidores no marketing esportivo são organizações transacionais


de diversos segmentos, que percebendo o potencial desse mercado procuram associar
suas marcas a eventos nessa área. Podem ser destacadas, por ordem de importância, as

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seguintes empresas: Phillips Morris, Anheuser-Bush, Coca-Cola, General Motors,
PepsiCo, Eastman Kodak, RJR Nabisco, AT&T, Chrysler, IBM, Canon, McDonald’s e
Matsushita. De acordo com o ranking divulgado pela IEG (International Events Group),
durante visita ao Brasil de seu vice-presidente, Jim Andrews que veio apresentar uma
palestra sobre o assunto com o apoio da Confederação Brasileira de Vôlei, estão entre os
setores que mais investem:

• mídia (11%)
• industria alimentícia (10%)
• bancos e entidades financeiras (9%)
• empresas de telecomunicações (9%)
• supermercados (8%)
• indústria automobilística (7%)
• bebidas alcóolicas (6%)
• bebidas não alcóolicas (6%)
• serviços de informática (5%)
• turismo (5%)
• cigarro (4%)
• materiais esportivos (3%)
• Outros (17%)

Para que se tenha uma idéia dos investimentos e resultados que as empresas vêm obtendo
nesta área, a Nike, um dos gigantes mundiais em materiais esportivos fatura US$ 8
bilhões/ano, alcançando em 1996 um incremento de 130% nas vendas (EUA), mesmo
concorrendo diretamente com Reebok, Adidas e Umbro, um mercado extremamente
competitivo. Por isso, uma das estratégias da Nike para se destacar no mercado e fixar
sua marca na mente de milhões de consumidores, tem sido justamente o marketing
esportivo.
Essa empresa além de patrocinar a seleção de futebol americana, também através de uma
parceria com a seleção brasileira, investe US$ 220 milhões (US$ 22 milhões/ano, em 10
anos de contrato para que os jogadores usem suas chuteiras).

Ao investir em marketing esportivo, empresas como a Nike ganham em formação e


sustentação de imagem de marca, porém, mais do que isso geram lucro imediato: nos
EUA, as vendas da Nike cresceram 130% em 1996 e segundo The Wall Street Journal,
em 1998, a empresa espera arrecadar US$ 425 milhões, somente com o futebol.
O marketing esportivo de maneira geral movimenta US$ 10 bilhões (1998), segundo
pesquisa realizada pela IEG (International Events Group) e publicada na Folha de
S.Paulo, de 23/09/97. Os EUA lideram o ranking dos maiores investidores com total de
US$ 4 bilhões neste mercado, o que representa um crescimento de 300% nos últimos 10
anos. Segundo Jim Andrew, vice-presidente da IEG, o investimento em marketing
esportivo no Brasil ainda é reduzido. Mesmo considerando outros países da América do
Sul e da América Central, o Brasil é o “lanterninha” no ranking de investimentos e, na
Europa, a Itália, por exemplo, tem investimentos expressivos no futebol.

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Somando-se a esta revolução na comunicação que reflete na realidade esportiva em geral
e, de maneira particular, no futebol, também constatamos uma tendência mundial das
pessoas voltarem-se cada vez mais para a área do entretenimento.

O futebol é um empreendimento, justamente do setor do entretenimento, que disputa


“consumidores” e participação de mercado com todas as demais atividades relacionadas
ao lazer humano. Cinema, televisão, turismo, parques temáticos, restaurantes, shows,
teatro, “games” para microcomputadores ou até, a internet, entre outras possibilidades,
concorrem com o futebol, pois a questão que cada torcedor se coloca é: com o dinheiro
excedente do salário - quando existe essa possibilidade - o que faço?
Visto por este ângulo, o futebol ganha concorrente fortíssimo, mas, em compensação,
passa a integrar um mercado em franco desenvolvimento em todo o mundo.

Em artigo publicado na revista Management - Informação e Conhecimento para a Gestão


Empresarial, o consultor Peter Drucker, considerado um dos fundadores da
administração moderna, reflete sobre isso, destacando o seguinte:

“Antes do início da Primeira Guerra Mundial, trabalhava-se pelo menos 3 mil horas por
ano em todos os países. Hoje, os alemães trabalham, aproximadamente, a metade disso,
isto é, 1.650 horas; nos EUA, trabalha-se um pouco menos e os japoneses chegam a 2
mil horas/ano. Há algum tempo, os gastos com férias e lazer eram mínimos. (...) Agora
as pessoas destinam mais tempo para o lazer e, de maneira geral, todos os produtos e
serviços voltados para o lazer têm sucesso”.

Paralelamente à redução do tempo dedicado ao trabalho, deve-se registrar que a


capacidade humana para produzir riqueza também é crescente, chegando a aumentar 150
vezes nos últimos 150 anos, também de acordo com Drucker no mesmo artigo. Isto quer
dizer que a pessoa, hoje, tem mais tempo livre para ser preenchido por atividades de
entretenimento e mais dinheiro para gastar com seu lazer. Mesmo que não seja percebido
em nossa realidade individual e cotidiana, este já é um fato registrado na história do
desenvolvimento econômico mundial.

Futebol, um Negócio Apaixonante.


Os céticos e descrentes - e por que não? Saudosistas - afirmam, que a visão do futebol
como um amplo e fascinante negócio, põe fim aos tempos áureos em que o esporte era
jogado e assistido com paixão. Eu não acredito e - mais do que isto - posso citar de
memória momentos da história recente do futebol em que a emoção tomou conta dos
estádios e dos corações de milhões e até bilhões de torcedores em todo o mundo. A
emoção, ou seja, a paixão é uma variável importantíssima dentro deste sistema que,
sinceramente, não sobreviveria sem ela. Ou não é nossa paixão, vinculada à marca dos
patrocinadores, que leva as empresas a investir em equipes de futebol? Por acaso, estas
organizações patrocinariam este esporte se não fosse um dos mais amados do mundo?

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A emoção do futebol, a paixão nacional, está viva dentro e fora dos estádios. Vamos
relembrar juntos dois grandes momentos que comprovam isso durante a Copa de 94?
Quem foi capaz de esquecer a partida entre Brasil e Holanda, que terminou em 3x2?

A torcida vibrando, Romário, com a camisa 11 recebe a bola de Bebeto que com precisão
faz o primeiro gol. A bola continua a rolar e agora Bebeto, tomado pela emoção da
partida e pelo fato de ter acabado de saber que seu filho nascera, recebe um passe preciso
de Romário e enche a rede adversária. A torcida explode e se comove com ele, que
comemora o gol mexendo os braços como quem nina um bebê. Juntam-se a ele, Romário
e Mazinho: todos homenageando a chegada de mais uma criança ao mundo em meio ao
turbilhão apaixonante de expectadores em todo o mundo... Quantos não se arrepiaram e
conseguiram conter o nó na garganta?
De volta à emoção em campo, os jogadores brasileiros, talvez muito confiantes na vitória
porque o placar está em 2x0, dão espaço para a Holanda que se recupera e consegue
empatar em 2x2. A tensão volta ao rosto dos torcedores brasileiros e o time sente a
pressão. A equipe, que não seria capaz de esquecer que, em 1974, o Brasil foi eliminado
da Copa pelo famoso “Carrossel Holandês”, busca novamente o equilíbrio. Os holandeses
sentem a reação e, visivelmente, aquele jogo seria decidido pelo time que conseguisse
manter toda esta carga emocional sob controle. A Holanda erra. Comete uma falta, mas
ninguém acredita que haja perigo de gol.
Branco, aproveitando toda aquela energia vibrante dentro e fora de campo, cobrou a falta.
Habilidade técnica, orientação tática, força física e autocontrole permitiram que ele fosse
capaz de arriscar: um bem-sucedido chute de efeito, especialmente num momento de
tanta pressão, foi o diferencial que trouxe de volta a vitória para o Brasil. E é preciso
lembrar também, o desvio do Romário, que com sofisticado nível de percepção
demonstrou um jogo de cintura imprescindível naquela jogada.

Outro momento emocionante: 17 de julho de 94 no estádio Rose Bowl, em Los Angeles


(EUA), final da Copa de 94, Brasil e Itália empatam no tempo regulamentar e, depois da
prorrogação, a decisão vai a pênaltis. Os jogadores erram as duas primeiras cobranças e o
placar continua em 0x0. Tensão no estádio, tensão no mundo: as duas torcidas sofrem,
sabendo que a vitória neste jogo, além da conquista da Copa, garantiria ao Brasil ou à
Itália o título - único - de país tetracampeão do mundo no futebol. A rivalidade é antiga e
a emoção visceral.
As cobranças se sucedem e o placar, finalmente, chega a 1x1 e 2x2. Tudo igual: placar
igual, pressão igual, emoção muito parecida entre brasileiros e italianos. Entretanto, os
brasileiros dão prova de que a emoção bem trabalhada, canalizada e mantida sob
equilíbrio, pode, realmente, decidir uma partida e um título. Mais um pênalti batido pelos
italianos e Tafarel faz a sua mais importante defesa. Na seqüência, com a
responsabilidade de campeão, Dunga emplaca mais um: 3x2 para o Brasil. Chega o
momento de Baggio, vestindo a camisa 10 e, naquela época, no Juventus de Turim como
jogador mais bem pago do mundo, decidiu a vitória do Brasil. Baggio junta-se a tristeza
dos italianos enquanto o Brasil explodia de prazer e realização.

Cada vez que recordo lances como estes, considero as emoções como a energia maior que
impulsiona esse grande sistema. E mais, é essa mesma energia que tira o atleta de campo

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quando numa explosão emocional, comete falta grave e é expulso da partida. Muitas
vezes além do atleta vestir a camisa do time, ele também representa uma marca, um
patrocinador. Portanto, explorar o Planeta Futebol a partir destes indicadores de
desempenho pode ser uma oportunidade de contribuição da psicologia para este esporte.

Lei “Pelé” marca a Profissionalização

O futebol brasileiro apresenta atualmente uma das melhores equipes de jogadores e


profissionais que compõem as comissões técnicas do mundo, além disso, vem recebendo
investimentos de empresas nacionais e estrangeiras, porém, é preciso admitir que em
termos de estrutura ainda temos muito que melhorar.

O processo de profissionalização é inevitável e é uma possibilidade de evolução no


futebol. Com as mudanças neste cenário que envolve diversas variáveis, é indispensável
que novas regras, principalmente comerciais, passem a regularizar o setor e nortear os
diferentes esportes no país, acelerando a profissionalização.

Para acompanhar esse processo de mudança, o congresso brasileiro aprova o projeto de


lei, elaborado pelo ministro extraordinário dos esportes, Edson Arantes do Nascimento: a
Lei “Pelé”, Um projeto que altera a legislação vigente no Brasil a partir de 98,
principalmente em relação aos aspectos ligados ao futebol. Os principais pontos revistos
na lei foram:

• Os clubes têm prazo de dois anos para se transformar em empresas;


• Os jogadores devem fazer, obrigatoriamente, seu primeiro contrato com duração de
dois anos com o clube que o formou. O clube tem a preferência para assinar o segundo
contrato por até três anos. Se o jogador não chegar a um acordo com o clube e não
receber nenhuma outra proposta, não poderá se transferir para outro clube nos
próximos três anos;
• Os contratos de empréstimos não podem ser acordados por menos de três meses, nem
o salário ser inferior ao recebido pelo jogador em seu clube de origem;
• Os contratos dos atletas podem ser anulados quando o clube atrasar os salários por
mais de três meses;
• O atleta pode se recusar a jogar pelo clube se estiver com dois meses de salários
atrasados;
• Os árbitros de futebol podem formar associações e empresas para vender seus
serviços;
• As eleições para a CBF são decididas pelos clubes da Série A e B e pelos presidentes
das Federações;
• Os clubes podem criar ligas independentes e disputar competições sem que sejam
punidos pela CBF;
• Fica criada a categoria de atleta semiprofissional, com idade de 14 a 20 anos. A partir
dos 20 anos, a profissionalização passa a ser obrigatória. Atletas, ex-atletas, e aqueles
em formação terão direitos a um fundo de assistência social e de educação;

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• Os bingos podem funcionar regularmente, mas serão fiscalizados pelo Poder Público e
terão de recolher 7% da arrecadação para os clubes nos quais estiverem vinculados e
19% do preço das cartelas para a Receita Federal;
• Os torcedores passam a ter os mesmos direitos dos consumidores comuns, podendo
fazer qualquer reclamação contra árbitros, jogadores, dirigentes ou clubes, utilizando a
Lei de Proteção ao Consumidor.

Conforme estudos realizados pelo Ministério dos Esportes, no Brasil, a movimentação


anual em torno dos esportes é de US$ 800 milhões. Com a aprovação do projeto da Lei
“Pelé", entretanto, esta cifra pode saltar para US$ 25 bilhões em um período em torno de
5 ou 6 anos. E isso pode representar também a criação de 1 milhão de empregos, devido
ao desenvolvimento da indústria, comércio e setor de serviços como resultado da
profissionalização dos esportes.

Em resumo, com a revolução na comunicação e a demanda crescente no lazer e


entretenimento, um cenário de grandes oportunidades comerciais movimenta o universo
do futebol com as empresas, que percebendo a importância desse setor, passam a investir
pesado. Isso é perfeitamente compatível com outras áreas da atividade econômica,
tornando-se uma realidade também em nosso futebol.

Por isso, acertadamente, entre outros pontos, a Lei “Pelé” propõem a transformação dos
clubes em empresas e o fim do passe, após um período de transição, para que todos
tenham a oportunidade de adaptação a essa nova realidade.

Com todas essas mudanças, a formação de comissões técnica multidisciplinares passa a


ser valorizadas, permitindo assim, a contribuição formal da psicologia esportiva em
projetos regulares e de preferência, mais preventivos.

Como acontece com toda proposta de mudança, há sempre aspectos positivos e


negativos, que podem ser discutidos e sempre aprimorados, mas o inegável é que o
futebol brasileiro para se posicionar como “grande” na era dos investimentos
globalizados, precisa conquistar este sentido de administração de negócio.

Os torcedores, para continuar freqüentando os estádios ou mesmo a acompanhar o


espetáculo pelo rádio ou tevê, precisam ser tratados com a devida consideração de quem
está abrindo mão de outra atividade de lazer para prestigiar o futebol. Isto quer dizer:
jogo de qualidade em campo, competitivo, feito por profissionais competentes em
estádios seguros e bem cuidados, desde a grama até os banheiros.
Afinal, no futebol percebido como um negócio, um cartão vermelho significa muito mais
do que a expulsão de campo. Um cartão vermelho representa prejuízos para o próprio
jogador, para a equipe, o clube, patrocinadores, imprensa, torcedores, para o espetáculo e,
principalmente, para os resultados.

Trabalhar com inteligência na direção dos objetivos, procurando identificar novos pontos
de melhoria pode ser uma oportunidade importante para os profissionais que descobriram
no futebol, mais do que um grande negócio, uma fonte inesgotável de prazer e realização.

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“Quando uma equipe considera a estrutura emocional
algo que influenciará nos resultados,
ela passa a dar maior atenção à psicologia,
porque a parte mais emocional aparece nos
momentos de decisão de um grande time.
Se os jogadores não estiverem em sua melhor
condição emocional, podem perder um jogo decisivo e,
com isso, um campeonato.
Consequentemente, todo investimento efetuado e
a dedicação dos atletas ao longo da temporada
vão por água abaixo.”
José Carlos Brunoro e Antônio Afif
em “Futebol 100% Profissional

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Evolução da Psicologia Esportiva
A partir de uma visão ampliada sobre o futebol, definimos o espaço que este sistema ocupa
no mundo dos negócios, com um cenário que se caracteriza por variáveis intimamente
inteligadas. A proposta deste capítulo é acrescentar ao debate mais um elemento, que é a
dimensão de tempo, principalmente em relação a evolução da Psicologia: sua introdução no
ambiente esportivo, o momento atual e principais tendências. Com esta reflexão, o objetivo é
situar a preparação emocional como um fator decisivo de vantagem competitiva para as
equipes e, estimular sua aplicação efetiva.

Desde a década de 60 existem registros de que atletas de alta performance, em diferentes


modalidades esportivas, vêm praticando estratégias mentais como parte regular de seus
treinamentos e competições, principalmente nos EUA e na antiga União Soviética, como
forma de alcançar resultados sempre melhores. Mas, o que é exatamente treinamento
mental?

O treinamento mental é um trabalho dirigido ao condicionamento tanto da mente que


pensa (mais racional, lógica e estratégica) como da mente que sente (sede das nossas
emoções). É utilizado principalmente, para incrementar a performance de atletas e se
baseia, principalmente, no princípio de que: podemos exercer um domínio maior dos
nossos pensamentos, dos sentimentos e, conseqüentemente, do nosso comportamento.
Com isso, alcançar um melhor nível de motivação, autoconfiança, compromisso para
treinar, limites da dor e sofrimento, cansaço, ansiedade e dos impulsos explosivos da
raiva, passa a ser uma estratégia cuidadosamente administrada em direção aos resultados
previamente estabelecidos.

Atletas que dominam essas habilidades podem recriar emoções em suas mentes e assim,
incrementar as suas performances. Essas práticas são utilizadas até hoje, como um "algo
mais", um diferencial competitivo em diferentes momentos da competição.

Isto vale para diferentes situações em nossas vidas. Por exemplo, se você está dirigindo e,
de repente leva uma fechada brusca de outro motorista que dirige em alta velocidade, a
energia liberada pelo susto e pela adrenalina descarregada em sua corrente sangüínea
pode leva-lo a algumas reações: manter-se sob controle e realizar uma rápida manobra
para escapar da fechada, ou então, deixar que o susto o domine e desviar tão
violentamente a ponto de colidir com outro carro. Em campo, na cobrança de um pênalti,
o jogador está vivendo um estresse parecido com esse.

"O corpo tem os seus limites naturais mas o potencial mental é ilimitado"
Dizia a seus atletas Dr. Gregory Raiport, ex-presidente do Centro de Treinamento do
Método Russo de Preparação Mental. Neste centro, o objetivo estratégico da Psicologia
Esportiva era extrair o melhor desempenho dos atletas e equipes através de exercícios e

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técnicas dirigidos à mente e corpo, estrutura básica da performance humana, despertando
sentimentos e emoções que pudessem ser utilizados como um autocondicionamento e
auto-sugestão. Desta forma, os treinamentos ajudavam os atletas a alcançar estados de
excelência para as competições, como alto nível de concentração - a energia conhecida
como garra - e até o domínio sobre os estados de raiva para utilizá-la como fonte de força
orientada para os objetivos da prova: a vitória.

Portanto, conhecer melhor o 'funcionamento' do corpo e da mente passa a ser quase que
uma obrigação para aqueles que se propõem a alcançar, ou até superar, a barreira dos
limites humanos. Explorar a infinita capacidade do cérebro e o poder das emoções já faz
parte do condicionamento de alguns do melhores atletas e equipes do planeta.

Como registrou o Dr. Raiport, qualquer emoção forte possui energia e atletas e
treinadores podem aproveitar essa fonte inesgotável de poder para transformar a força da
raiva, por exemplo, em energia construtiva, quando bem gerenciada. Isso só é possível
porque, atualmente, conhecemos muito mais sobre o sistema nervoso central: esta
estrutura fascinante, representada principalmente pelo cérebro, aloja a sede das nossas
emoções, que se refletem diretamente na nossa performance e nos resultados que
obtemos na vida..

Um momento de raiva intensa, por exemplo, pode levar o atleta, ou mesmo o técnico, a
impulsos de explosão, que resultem numa agressão física dirigida ao adversário ou ao
juiz da partida. Esta mesma raiva, entretanto, utilizada de maneira mais inteligente, pode
representar uma força incrivelmente poderosa em relação ao objetivo específico - ao gol.

Um exemplo de que a raiva pode ser utilizada de maneira inteligente aconteceu com
Carlão, capitão da equipe masculina de vôlei, campeã Olímpica de 92. Durante as
partidas, em razão de suas características pessoais, Carlão, uma das pessoas que mais se
irritava em quadra, colocava toda sua agressividade e explosão de energia a serviço do
jogo, sacando a bola com tanta força, que se tornava quase impossível para o adversário
segurar os saques.

Por isso, lembre-se, aprender mais sobre as emoções, além de ser uma viagem
maravilhosa, pode ajudar você a trilhar um caminho mais direto rumo a seus sonhos e
objetivos.

Os princípios teóricos e práticos, utilizados por Dr. Raiport, desde a década de 60,
também são apoiados, atualmente, pelos trabalhos de pesquisa realizados pelo dr.Daniel
Goleman sobre inteligência emocional.

Estrategicamente, no entanto, o modelo russo de treinamento mental, visava, basicamente


apoiar a comissão técnica, que, por sua vez trabalhava essas habilidades com os atletas e
equipes. Já nos EUA, que também têm uma antiga tradição em treinamento mental, um
estilo diferente foi adotado. Em primeiro lugar e, às vezes até exclusivamente, está a
orientação direta aos atletas e, depois, podem receber este apoio também os trabalhos da
comissão técnica.

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Esta diferença de abordagem tem suas razões, pois os EUA os esportes estão diretamente
ligados à educação, ou seja, para fazer parte de equipes, os atletas precisam estar ligados
diretamente a escolas e universidades, o que propicia uma melhor formação acadêmica.
Como conseqüência, de um modo geral, verifica-se uma maior aceitação e melhor
assimilação dos princípios e técnicas de condicionamento mental entre os atletas.

Este quadro foi comprovado por uma das maiores pesquisas realizadas nos EUA, em
1988, que contou com a participação de 633 atletas. Com o objetivo de identificar o perfil
dos esportistas que utilizavam treinamento mental, foi aplicado um extenso questionário,
procurando obter informações detalhadas sobre o nível de condicionamento físico, mental
e emocional. Essas perguntas visavam acompanhar as contusões, humor, motivação e
suporte social recebido por cada atleta, sendo que 450 dos 633 atletas responderam ao
questionário logo após as competições. O resultado foi o seguinte:

• quanto maior o nível de formação educacional, mais os atletas utilizavam prática


mental;
• a maioria já tinha ouvido falar em treinamento mental;
• 83% praticavam algum exercício mental;
• os atletas que mais treinavam eram os que mais utilizavam as técnicas mentais;
• atletas mais renomados eram os que mais treinavam tanto física como mentalmente.

O Domínio das Emoções no Futebol

Como psicóloga de equipes de futebol, tenho utilizado, estrategicamente, um modelo que


combina ações dirigidas à comissão técnica e atletas simultaneamente. É um trabalho
que, na medida do possível, procura ser de médio e longo prazo, associando as ações
diretamente ao período de competições, com aprovação do comandante maior desse
espetáculo: o técnico da equipe.

A proposta da Psicologia Esportiva já é reconhecida e utilizada em diferentes


modalidades esportivas, mas encontramos maior número de trabalhos e registros com
relação a preparação mental em esportes individuais como o tênis, natação, atletismo,
automobilismo, mais do que em esportes coletivos. Isto ocorre, principalmente, em
função do fato do trabalho com equipes ser de maior complexidade: é muito mais fácil
um nadador, por exemplo, fazer uma sessão de meditação como parte de seu programa de
preparação mental, visando maior concentração e domínio de diferentes estados
emocionais, do que esta técnica ser aceita e aplicada com naturalmente por uma equipe
inteira de jogadores de futebol.

Para que este trabalho seja realizado como um procedimento comum ao treinamento e
utilizado como uma ferramenta a mais no condicionamento de atletas e equipes, é
necessária uma consciência do benefício destas práticas na performance e na obtenção
dos resultados. Quando isso acontece, é o próprio atleta que passa a solicitar e

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incrementar seus programas de treinamento, buscando incluir exercícios e técnicas
mentais não só no seu dia a dia de trabalho, como em sua vida de uma maneira geral.

Carta de um Campeão

Lembro com muito carinho e com certa saudade da palestra, que realizei com a equipe do
Corinthians, em 22 de maio de 96, no Park Hotel Atibaia. Foram quase duas horas de
trabalho e muita emoção, que terminaram com várias manifestações de aprovação tanto
por parte da comissão técnica, comandada por Valdyr Espinosa, como pelos próprios
jogadores. Fizeram parte deste encontro, além de outros grandes jogadores, o fantástico
Edmundo, o goleiro Ronaldo e Marcelinho Carioca, que se encontrava numa de suas
melhores fases profissionais.

Marcelinho, minutos depois de terminarmos os trabalhos, enquanto nos dirigíamos para o


almoço, veio me entregar uma carta sobre o que a palestra havia representado para ele.
Essa carta, eu guardo com muito carinho e com uma certa dose de orgulho.

Treinamento Mental: Uma Realidade

No Brasil, a inclusão de técnicas e exercícios mentais no treinamento de atletas,


principalmente naqueles de alta performance, vem crescendo ano a ano e a tendência
natural, assim como aconteceu com a preparação física, é que este trabalho faça parte dos
programas de treinamento de diferentes atletas e equipes brasileiras. Isto não é apenas
uma expectativa minha ou o desejo de uma psicóloga sonhadora: essa é uma tendência
natural do condicionamento esportivo mundial.

Além disso, considerando os altos níveis de competitividade que caracterizam os torneios


e competições, atualmente, é fundamental aproveitarmos as incríveis e fantásticas
descobertas sobre o cérebro humano para aumentar nossas janelas de oportunidades em
direção as conquistas e vitórias nos esportes e na vida. Sendo assim, a preparação mental
passa a ter grande importância nessa área, especialmente, em relação ao real significado
de cada vitória conquistada.

No futebol, alguns trabalhos importantes na área da Psicologia Esportiva marcaram a


história de alguns atletas e clubes ao longo dessas últimas décadas. Para tratar desta
questão, é impossível deixar de mencionar nomes de profissionais como:

• Alfredo Soeiro, que trabalhou com a equipe feminina de vôlei de São Caetano/SP,
campeã em 1976;
• Dietman Samulski, que dirigiu a Sociedade Brasileira de Psicologia Esportiva;
• Flávio Giokovate, que ajudou o Corinthians em 82/83, quando a equipe conquistou o
bicampeonato paulista;
• João Carvalhaes, um dos precursores da Psicologia Esportiva, infelizmente,
lembrado somente por submeter Garrincha a testes de Q.I.(quociente intelectual) e não
ter recomendado a escalação do atleta para a Copa de 58;

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• Nuno Cobra, um homem que considero um verdadeiro guru por seu modo de ver o
mundo e de passar seus ensinamentos a atletas como nosso inesquecível Ayrton
Senna, tricampeão mundial de "Fórmula 1"; e
• Victor Matsudo, que estudou o aparecimento dos sinais de estafa, o chamado "over
training", concluindo que estes aparecem antes mesmo que os sinais musculares;

Mais recentemente temos as contribuições, principalmente, de:

Fátima Fracon, que trabalhou com a equipe do Sport Clube Corinthians Paulista;
Felix Pequeno, que apoia equipes como o Mogi Mirim;
João Ricardo Cozac, que além de pesquisas na área esportiva, através de publicações,
divide suas reflexões sobre a Psicologia Esportiva;
Daniela Cury, que trabalhou com a seleção feminina de futebol em 95.
Evandro Motta, que reconhecidamente ministrou palestras motivacionais, dentre outras,
para a seleção brasileira de futebol masculino, tetracampeã mundial;
João Paulo Medina, cujo trabalho com diferentes clubes aqui no Brasil se caracteriza
principalmente pelo aspecto gerencial e multidisciplinar; e,
Regina Brandão, com uma contribuição importante dada principalmente a seleção
masculina de vôlei, campeã Olímpica 92 e a equipe de futebol do Internacional/RS;

Mesmo com todas estas contribuições dadas pela Psicologia ao esporte, a regularidade
dos trabalhos realizados nesta área só agora começa a se tornar uma realidade no dia a dia
das principais equipes de futebol no país como: Palmeiras, Corinthians, Santos, São
Paulo, Mogi Mirim, Internacional, Grêmio, Paraná Clube, Cruzeiro, Vasco da
Gama e Fluminense. Esta situação nos faz crer que, assim como a preparação física foi
consagrada e reconhecida cientificamente somente a partir da década de 60, a preparação
mental começa a ocupar um espaço maior e mais respeitado a partir deste final de
década.

Foi pensando em registrar esse momento tão especial para a Psicologia aplicada
principalmente no treinamento de equipes de futebol, e contribuir para a evolução dos
métodos e técnicas desenvolvidos nestes últimos anos, que decidi escrever esse livro.
Esta é minha proposta para sistematizar uma área de estudos ainda embrionária e que, por
carecer de divulgação e informações consolidadas em volume de livros, ainda enfrenta
algumas resistências que considero, de certa forma, naturais.

Foco em Resultados, Não em Problemas.

De maneira geral, quando se fala em Psicologia ou em psicólogo, a primeira coisa que a


maioria das pessoas pensa é em “problemas”: sejam problemas de comportamento,
emocionais ou intelectuais. Essa associação ainda é tão forte, que é comum me
perguntarem, se não encontro resistências ao trabalho que realizo junto aos atletas e
equipes de futebol. Na realidade, esta situação ocorre porque quase todo o esforço de
pesquisas e contribuições da Psicologia durante mais de um século esteve focado em

30
neuroses, psicoses, depressões e outras situações referentes às desconformidades
psicológicas.

Em função deste conceito e desta imagem criados pela Psicologia, vivo situações muito
particulares e até peculiares.

Um exemplo disso aconteceu, durante o Campeonato Paulista de 97, quando fazia parte
da comissão técnica do Santos, Fomos procurados pela reportagem da Rede Globo, que
desejava fazer uma matéria para o Jornal Nacional (programa jornalístico com a maior
audiência do país) com a pauta sobre o resultado alcançado pela equipe em conseqüência
do trabalho de treinamento mental no que se referia ao aspecto disciplinar. Afinal, até
aquele momento da competição, o elenco não havia recebido nenhuma falta grave, que
justificasse uma expulsão.

Com a autorização do então técnico, Wanderley Luxemburgo, enquanto o time assistia a


uma palestra, a equipe de reportagem realizou algumas tomadas para divulgar este
trabalho. Minha surpresa veio três semanas depois, quando a matéria foi ao ar, somente
depois do jogo em que o jogador Wagner tomou um cartão vermelho e foi expulso.

Naquela noite, a reportagem foi finalmente colocada no ar com a seguinte chamada:


“Nem a psicologia conseguiu ajudar o Santos”. Refletindo sobre o que havia assistido,
compreendi que, só quando o atleta Wagner foi expulso com um cartão vermelho em
função de uma agressão ao juiz, é que a equipe de coordenação jornalística decidiu
veicular a matéria, pois a “má notícia”, ou seja, o problema, gerava mais impacto do que
a performance positiva em diversos jogos do campeonato.

Outro exemplo ainda mais representativo, que ilustra a forte associação da psicologia
com problemas e dificuldades e com a procura de trabalhos corretivos e não preventivos,
ocorreu com a equipe do Corinthians, durante o Campeonato Brasileiro de 97, uma das
competições mais importantes do país. A psicóloga Fátima Fracon foi procurada pela
equipe técnica para realizar um trabalho de curtíssima duração (cerca de 3 dias), somente
num momento de muitas dificuldades em relação aos resultados alcançados pelo time,
que já corria o risco, inclusive de ser rebaixado para à Segunda Divisão.

Numa tentativa bem intencionada de apoiar o aspecto emocional do elenco, alguns


encontros foram realizados exclusivamente com os jogadores, mas, infelizmente, a vitória
não se concretizou. Desta forma, mais uma vez, ressurgiu a polêmica sobre a
contribuição efetiva da Psicologia na área esportiva, principalmente no que se refere à
validade de trabalhos de curto e curtíssimo prazo.

De minha parte, acredito que, embora trabalhos de curta duração possam ajudar e
estimular momentos motivacionais importantes, como, por exemplo, a excelente e
reconhecida contribuição de Evandro Motta à Seleção Brasileira Tetracampeã de Futebol,
é importante perceber que esta é tão somente uma parte da proposta da Psicologia
Esportiva.

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Psicologia Esportiva no Futebol

Os fundamentos teóricos, que utilizo nos treinamentos e condicionamentos mentais


dirigidos às equipes de futebol, estão baseados na neurociência - que leva em
consideração, cientificamente, o papel das emoções em nosso desempenho. Estudos sobre
o sistema nervoso central são a base de argumentação científica que apóiam as pesquisas
que realizo sobre a vida e carreira dos melhores atletas e equipes esportivas do mundo.

Neste trabalho, que combina teoria e resultados concretos, procuro identificar o padrão de
excelência, a essência que se repete nos processos mentais destes profissionais
excepcionais. Essas informações, então, passam a compor um programa de atividades que
tem como objetivo estimular e desenvolver estratégias mentais, que podem ser utilizadas
desde as categorias de base até o futebol profissional.

As palestras motivacionais, a partir deste momento, passam a ocupar uma parte


importante do trabalho, mas não a única contribuição. Como a palma de uma mão, as
palestras representam apenas o dedo polegar em relação as outras ações que podem ser
implementadas.
Outro trabalho fundamental é o desenho do perfil psicológico de atletas, que representa a
palma da mão, ligando e sustentando todas as atividades planejadas. É o ponto de partida
de programas que tenham como prioridade o trabalho de médio e longo prazo. Depois de
conhecer um pouco melhor os membros da equipe, exercícios de simulação podem gerar
momentos de reflexões importantes, apoiando assim, o aprendizado a partir da
experiência concreta.

Este método é um dos mais indicados para se trabalhar temas complexos tais como: a
vantagem de se trabalhar em equipe; como a qualidade e produtividade podem contribuir
para os resultados nas competições e na vida; o que significa a busca da excelência
através de um sistema de melhoria contínua; como superar limites e obstáculos, entre
outros. Todos os temas escolhidos devem estar, em primeiro lugar, diretamente
relacionados ao momento da equipe no que se refere à competição. Isso faz com que
todo o programa esteja vinculado realidade da equipe, ao momento da competição, e vale
aqui lembrar: FUTEBOL É O MOMENTO.

Além do perfil psicológico, de palestras e exercícios simulados, um outro trabalho pode


ajudar muito no condicionamento mental: manter os atletas em contato com pessoas que
são consideradas vencedoras em diferentes setores da vida, para que possam refletir e
aprender os princípios e crenças que norteiam os pensamentos e sentimentos destes
indivíduos vitoriosos.

Em relação a este tipo de ação de treinamento, lembro de uma reunião que realizamos
junto à equipe do Santos, durante o Campeonato Paulista-97. O tema escolhido naquela
ocasião foi a postura que os verdadeiros vencedores assumem diante das mais difíceis
situações que a vida reserva e como superam os limites e dificuldades encontrados ao
longo do caminho. Para isso, passei um filme do grande campeão da vida chamado

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Gonçalo Borges, que superando limitações físicas, leva uma vida normal e se tornou um
artista plástico reconhecido.
As lições de Gonçalo impressionaram tanto a equipe, que decidi entrar em contato com
ele e convidá-lo para um encontro com os atletas e comissão técnica. Além da agradável
surpresa de descobrir que ele torcia pelo Santos, um momento muito especial foi vivido
por todos nós, culminando na vitória do time contra o Corinthians. Esta iniciativa nos
ajudou a criar um momento psicológico importante naquela altura da competição. A
principal conclusão é que as dificuldades existem para todos, mas a grande diferença é a
postura que o verdadeiro vencedor adota para superar as impossibilidades. E nessa lição,
Gonçalo Borges é mestre, um dos melhores.

Vitórias do Condicionamento Mental

O condicionamento mental é uma habilidade que pode e deve ser desenvolvida com
exercícios praticados numa certa freqüência através de programas "sob medida",
elaborados por profissionais especializados e capacitados e, implementados, por todos os
integrantes da comissão técnica. Além de apoiar os momentos difíceis de atletas e
equipes, é preciso compreender que a proposta estratégica principal da Psicologia
Esportiva é contribuir para que cada profissional em sua área de competência (técnicos,
preparadores, e atletas) consiga sua melhor performance e, conseqüentemente, alcance os
objetivos de vitórias e conquistas, tanto individual como coletivamente.

Alguns dos melhores atletas e equipes do Brasil e do mundo, utilizam programas formais
de treinamento mental em sua preparação para as competições. São eles:

Nos esportes Individuais:

• Pete Sampras, número 1o. do tênis, que utiliza diferentes técnicas mentais em seu
programa de treinamento;
• Alexander Popov, um dos melhores nadadores do mundo, que acredita estar em sua
preparação mental o seu diferencial competitivo;
• Ayrton Senna, tri campeão de "Fórmula 1", que dizia que "num dia qualquer, em
quaisquer circunstâncias, você sabe que tem um limite, você chega a esse limite e diz,
certo! Esse é o limite. Quando você chega a esse ponto algo acontece, você descobre
que pode ir mais além. Com o poder da sua mente, sua determinação e instinto, sua
experiência também, você pode voar muito alto";
• Carl Lewis, oito medalhas de ouro e uma de prata em três olimpíadas, ele considera a
sua maior qualidade pessoal o seu alto nível de concentração;
• Dailza Damas, nadadora paranaense que já atravessou duas vezes o Canal da Mancha,
e diz: "eu penso que a gente não tem limites. Nós podemos conseguir tudo aquilo que
quisermos com a alma. A partir do momento, que você quer uma coisa, você tem que
ir à luta e buscar. Você consegue";
• Gustavo Kuerten, tenista ganhador da Roland Garros-96, que encontra apoio mental
através de exercícios e técnicas de neurolingüística aplicadas pelo técnico Larry
Passos;

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• Joaquim Cruz, medalhista de ouro em Los Angeles-84 e prata em Seul-88 nos 800m
rasos, afirma que sua autoconfiança faz com que consiga gerar uma energia muito
forte interna e transformá-la em corrida;
• Waldemar Niclevicz, que foi o alpinista brasileiro a conquistar o topo do Everest.

Esportes Coletivos

As equipes americanas de basquete talvez sejam as que mais utilizam a preparação


mental em seus programas de treinamento. Isto ocorre por dois motivos: o alto nível de
competitividade e profissionalismo que marca esse esporte nos EUA e o fato de o
trabalho dos principais técnicos se caracterizar pela utilização sofisticada das habilidades
motivacionais, marcando um estilo particular de liderança. Essa característica é tão forte
no perfil de determinados técnicos que chega a ser considerada sua marca registrada. Pat
Riley é um ótimo exemplo disso. Durante nove temporadas na NBA (National Basketball
Association), com a equipe dos Los AngelesLakers, ele conseguiu chegar sete vezes às
finais, ganhando quatro campeonatos.
Segundo Magic Johnson "O Lakers teve sucesso porque Riley foi capaz de extrair o
melhor esforço de cada jogador. Tudo que tínhamos para dar, ele conseguia arrancar".
Atualmente na equipe do Miami Hits, Riley é considerado um dos campeões nas práticas
motivacionais.

Outro exemplo de equipe que utiliza com sucesso estrondoso as práticas motivacionais é
o trabalho desenvolvido pelo técnico Phil Jackson, da equipe Chicago Bulls, cinco vezes
campeã da NBA, inclusive no campeonato-97. Jackson inclui no treinamento da equipe,
princípios e técnicas dirigidas ao condicionamento emocional e os resultados são
comprovadamente positivos. Essas técnicas misturam princípios da filosofia oriental, que
inclui exercícios de yoga e experiências vivida por tribos indígenas;

Outras equipes de esportes coletivos que se destacam são:

• Seleção Brasileira de Basquete Feminino, que utiliza a preparação mental em


diferentes competições como no caso da Copa América, onde seções diárias eram
realizadas incluindo técnicas de consciência corporal, com o objetivo de despertar o
guerreiro interior, a força que temos dentro de nós mesmos. Para as Olimpíadas de
Atlanta-94, técnicas de mentalização foram utilizadas, incluindo técnica de
treinamento mental repetitivo através de afirmações positivas, criadas num ambiente
de relaxamento que incluía músicas eruditas, som de flauta ou de pássaros;
• Seleção Brasileira de Vôlei Feminino também é um outro bom exemplo da utilização
da preparação psicológica bem-sucedida. Segundo o técnico Bernardo Resende
(Bernardinho), a yoga foi adotada como uma ferramenta a mais no treinamento da
equipe para a Olimpíada de Atlanta-94;
• Seleção Brasileira de Vôlei de Praia Feminino, medalha de ouro e prata nas
Olimpíadas de Atlanta-94, a equipe também utiliza os princípios e técnicas de
preparação mental como um recurso a mais nos treinamentos;

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Não podem deixar de ser mencionados aqui também alguns técnicos, que encontraram na
preparação mental um apoio a mais no condicionamento de equipes de futebol, como:
Carlos Alberto Parreira, Celso Roth, Eduardo Amorim, João Carlos, Lula Pereira, Mário
Jorge Lobo Zagallo, Valdyr Espinosa e Wanderley Luxemburgo.

Em outras modalidades esportivas, a preparação emocional é utilizada pelos técnicos:


Bernardo Rezende - Bernardino (Seleção Brasileira de Vôlei/95), Carlos Amorim
Barbosa (da Seleção Brasileira Feminina de Basquete), José Roberto Guimarães (Seleção
Brasileira Masculina de Vôlei/95), Larry Passos (Treinador do Tenista Gustavo Kuerten -
Guga), Yannick Noah (Técnico Equipe Francesa de Tênis/Copa Davis-96) e Renan
(Equipe de Vôlei da Sociedade Esportiva Palmeiras).
Gostaria de registrar ainda os nomes de alguns jornalistas importantes no cenário
esportivo do país, que têm acompanhado com profundo senso de profissionalismo a
proposta da Psicologia Esportiva, contribuindo com matérias sérias e informativas:
Armando Nogueira, Flávio Prado, Galvão Bueno, Juca Kfouri, Luís Trajano e Wanderley
Nogueira.

Como vimos até aqui, a preparação mental já é uma realidade em diferentes modalidades
esportivas no Brasil e no mundo. No futebol, no entanto, apesar de alguns trabalhos já
estarem sendo realizados há algumas décadas, só agora notamos o aumento da
regularidade com que vêm sendo utilizados.

Partindo do princípio que estamos na década do cérebro humano, muitas descobertas ainda estão por
acontecer, mas já contamos com importantes e significativas contribuições, que podem nos ajudar a
conquistarmos novas vitórias. Por isso, estou certa que, você, eu e cada um de nós, já temos na proposta da
Psicologia Esportiva mais um forte aliado em direção aos nossos objetivos pessoais e profissionais, Se
você também está confiante nisso, aproveite mais esta oportunidade que a vida lhe oferece.

"Aquele que pode ver o invisível


pode fazer o impossível”
Frank L.Gaines

O Caminho da Vitória
O objetivo desse capítulo é identificar os fatores que influenciam diretamente a vida e carreira de
esportistas vencedores. Para tanto, serão apresentadas as principais estratégias mentais utilizadas por
esses profissionais fantásticos, durante a jornada de conquistas e vitórias, que realizam na vida e, a
partir desta referência, será proposto um programa de apoio ao treinamento mental para pessoas que
procuram a vitória em suas vidas.

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Ser um Vencedor

Viver! Nossa Maior Conquista


Todos nós carregamos dentro dos nossos corações uma enorme vontade de ser uma
pessoa bem sucedida, de Ser um Vencedor. Durante os 15 anos, que me dediquei ao
desenvolvimento de pessoas em empresas e, mais recentemente nos clubes de futebol,
venho pesquisando e observando esse forte desejo nas mais de 40.000 pessoas que já
participaram dos cursos que ministrei. Questionando sobre essa vontade de realização,
pude comprovar que “chegar lá”, “sentir o sabor da vitória”, é uma constante, não
importa a profissão, classe social, raça, nível intelectual ou o sonho que se tenha. Este é
um grande desejo presente no coração de todos os seres humanos.
O que Significa Ser um Vencedor
Ao pesquisar profissionais bem sucedidos nas mais diferentes áreas de atuação como
empresarial, artística e esportiva, pude observar que existem algumas características que
são comuns, ou seja, existe um padrão mental comum, que se repete nas pessoas que
conseguem resultados excepcionais, resultados de sucesso.
Antes de explorar com você essas características, proponho discutir, primeiramente, o
significado de sucesso, o verdadeiro sentido da Vitória.

Parando para refletir por alguns minutos, quem na sua opinião, poderia fazer parte da sua
lista particular de pessoas vencedoras?
Será que, para você, Pelé é um vencedor? Ronaldinho? Paula e Hortência? Ayrton
Senna? Gustavo Kuerten? Wanderley Luxemburgo? Jacqueline? Zagallo? Oscar

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Schmidt? Jô Soares? Juca Kfouri? Flávio Prado? Wanderlei Nogueira? Cid Moreira?
Xuxa? Bill Gates? Madre Teresa de Calcutá? Betinho? Dailza Damas? Gonçalo Borges?

A primeira grande característica comum à idéia de sucesso é que somos conhecidos e


reconhecidos pela qualidade daquilo que FAZEMOS. A imagem de uma pessoa
vencedora passa pelo reconhecimento individual ou público em relação ao que se realiza
na vida. Veja, por exemplo a Dailza Damas e Gonçalo Borges. Você pode ter se
perguntado: quem são essas pessoas?

Contando rapidamente a história de vida de Dailza Damas, acredito que você poderá
lembrar-se com mais facilidade dela.
Esta paranaense, pelo fato de um de seus filhos sofrer de problemas respiratórios, foi
orientada pelos médicos a levá-lo para fazer aulas de natação. Apaixonada por esse
esporte, decidiu aos 28 anos de idade também começar a nadar. Hoje, Dailza é uma
atleta, que já atravessou o Canal da Mancha, deu uma volta completa em volta da ilha de
Fernando de Noronha e continua buscando os seus sonhos onde quer que eles estejam.
Ela diz: “Se você deixar de sonhar, você morre. Tem que sonhar sempre!”
Ah! Você já ouviu falar nela? É bem provável que sim. Muito embora esta mulher
especial ainda não seja tão famosa como Pelé ou a Hortência, sem dúvida alguma, é uma
pessoa que pode ser considerada vitoriosa. Portanto, volto a enfatizar:
Somos conhecidos e reconhecidos pelo que fazemos.

Então, é importante perceber que o conceito de sucesso, de vitória é algo complexo e,


muitas vezes, até polêmico. Ser uma pessoa de sucesso é diferente de ser famosa, ou vice
versa. Conhecemos pessoas famosas que não é, necessariamente, bem sucedida. Um
exemplo disso é a história de vida de Adolf Hitler, Guilherme de Pádua e Paula Tomás e
o conhecido Bandido da “Luz Vermelha”, que acabou sendo assassinado em Joinville,
Santa Catarina. Mesmo fazendo parte do “Hall da Fama”, essas pessoas não foram
capazes de trilhar o verdadeiro caminho da realização, da felicidade.
Há, por outro lado, pessoas de sucesso que são verdadeiros anônimos espalhados por este
planeta, como é o caso de um paulistano muito especial chamado Gonçalo Borges.
Gonçalo é um homem que, mesmo diante de uma grave limitação física, que é ter os
braços totalmente atrofiados e não poder usar as mãos, não faz dessa realidade sua
desculpa para ficar nas esquinas de São Paulo, pedindo esmolas ou coisa parecida. Ele
parte para a luta, impondo-se com coragem e dignidade aos preconceitos, buscando na
criatividade soluções, que até mesmo Deus o reverenciaria com orgulho e satisfação. Este
Ser - com "S" maiúsculo - é um artista plástico, que tem sua obra espalhada pelo mundo
inteiro. Formado em Propaganda e Marketing, é proprietário de uma empresa, que vem
crescendo ano a ano. Como se não bastasse, o impossível parece não existir em seu
vocabulário porque até dirigir um automóvel é uma coisa que faz com competência.

Moral da história: a carreira de qualquer profissional, e em particular de um atleta de


futebol, pode ser recheada de glórias, gols e títulos, porém, será que tudo isso basta para
que este atleta seja considerado um Vencedor?
O verdadeiro significado das conquistas e vitórias está na capacidade que cada um tem de
viver constantemente construindo, ao longo de toda a jornada, uma vida de realizações,

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onde a felicidade pode ser encontrada nos mais diferentes momentos. Um verdadeiro
Vencedor é capaz de escrever a sua história ao longo de toda sua caminhada.

Com esta compreensão, lembrando de alguns jogadores que marcaram a história do


futebol brasileiro e mundial como, por exemplo, Garrincha - chego à conclusão que:
mesmo conseguindo ser um dos melhores jogadores que o mundo teve a honra de
conhecer, viver literalmente não fazia parte dos seus planos. Jogar foi a razão maior de
sua existência. Portanto, enquanto estava encantando o mundo com jogadas
espetaculares, Garrincha conseguiu fazer seu trabalho com superioridade. Porém, Ser um
Vencedor de verdade é muito mais do que conseguir ser um craque de futebol. Ser um
Vencedor é assumir o maior de todos os desafios: a competência para alcançar a
realização na vida, onde quer que ela esteja. E a felicidade pode ser encontrada dentro e
fora dos campos de futebol com coragem, determinação e alegria.

Apesar do carinho, admiração e saudade que sinto por esse atleta que marcou com tantas
alegrias as nossas vidas, não encontro na história de Garrincha o modelo de sucesso, que
possa ser utilizado como exemplo para os que estão se preparando para as conquistas e
vitórias.
Ser um Vencedor tem, então, uma relação direta com o prazer e a sensação de felicidade,
que podemos sentir em nossos corações num período muito maior do que uma partida,
um campeonato ou durante uma carreira esportiva. Ser um Vencedor é buscar durante
toda a nossa existência, a felicidade e realização, onde quer que estejam. Trilhar este
caminho passa a ser, então, uma missão pessoal, que precisa ser descoberta e construída.

Lembro com muita alegria, respeito e também admiração um dos verdadeiros vencedores
que o futebol já conheceu - Tostão. As palavras que ele usou no livro: “Tostão -
Lembranças, Opiniões, Reflexões sobre o Futebol", descrevem com sabedoria sua
experiência de vida e a busca incessante por essa "tal" felicidade, esteja ela onde estiver.
Escreve ele:
“Aos dezoito anos, optei pelo futebol antes de entrar na faculdade, pois percebia que
valia a pena, já que poderia ser um jogador diferenciado. Suspendi, temporariamente, o
sonho juvenil de ter uma profissão liberal, adquirir cultura e salvar o mundo. Via na
carreira de jogador não uma profissão, mas um lazer responsável, lucrativo, temporário,
que eu não podia desperdiçar. Mais tarde, recentemente, fiz a opção inversa: troquei os
estudos, a medicina, pelo futebol. Estamos sempre desejando um mundo novo. Assim é a
vida.”

Preparar-se para viver deve significar muito mais do que estar pronto para uma conquista
isolada. E se sentir um Vencedor, é a conseqüência natural, o resultado do que realmente
buscamos na vida: momentos de realização.

Aprendendo também com um dos maiores técnicos de basquete que o mundo soube a
reverenciar, pude encontrar na experiência de Phil Jackson, treinador do time Chicago
Bulls, uma lição que ilustra parte de seu projeto de vida e que ele registra nas primeiras
páginas do livro “Arcos Sagrados”:

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“Meu sonho não era somente ganhar campeonatos, mas fazer disso um caminho para
juntar minhas duas grandes paixões: basquete e minha evolução espiritual. Isso pode
soar como uma loucura, mas intuitivamente eu sentia que havia uma ligação entre
esporte e espiritualidade.
Negócios à parte, vencer a qualquer custo não me interessa.
Nas minhas experiências como jogador, já tinha aprendido que vencer é uma coisa muito
efêmera. Sim, a vitória é uma coisa doce, mas isso não faz, necessariamente, a vida da
gente mais fácil no dia seguinte ou na próxima temporada. Após ver as torcidas que
gritaram tanto se dispersarem, após a última garrafa de champanhe tomada, você tem
que retornar para o campo de trabalho e começar tudo de novo.
No basquete como na vida a verdade vem justamente em preencher o presente, cada
momento vivido a cada hora. Não somente quando as coisas estão indo do seu jeito. É
claro, não é por acaso, que as coisas vão melhores quando você pára de se preocupar
com elas e foca toda sua atenção no que está acontecendo justamente naquele
momento”.

Pessoas, que partem atrás de seus sonhos, podem encontrar no futebol uma etapa
importante da grande jornada chamada viver. É aqui que eu encontro você.
Em busca do meu sonho particular de contribuir para que a preparação emocional se
torne uma atividade respeitada e reconhecida nas empresas e nos campos de futebol, eu
encontro você. Você, que pode ser um técnico de futebol, um membro da comissão
técnica, um diretor de clube, um jogador, um profissional da equipe de arbitragem ou da
mídia, um torcedor, um estudante de medicina esportiva, um psicólogo, um empresário,
um curioso, um apaixonado. Em busca dos nossos sonhos, trilhando nossa jornada, é aqui
a gente se encontra. Maravilha!

É aqui que a vida marca um encontro e que nos faz unidos neste ponto da caminhada. E
não importa a direção que cada um vai dar à sua vida amanhã, é aqui neste momento
mágico, que nos encontramos. Por acaso? Isso eu, sinceramente, não sei responder, mas...
Por uma questão de crença particular, não acredito em acasos.

Dimensões da Vitória
A vitória pode ser percebida através de, pelo menos, duas dimensões: vencer jogos,
conquistando títulos em diferentes campeonatos ou, a partir destes resultados, a busca
pela conquista maior que é, Viver! E, assim, as vitórias poderão ser encontradas nos mais
simples momentos da jornada.

A preparação passa a ser, então, mais do que um treinamento dirigido a um jogo em


particular, ela assume uma dimensão de aprendizado maior, que poderemos utilizar
mesmo quando sairmos dos campos e trilharmos uma carreira na medicina e
administração, por exemplo.

Viver passa a ser nossa maior motivação e, Vencer, o resultado do trabalho consciente,
responsável, sustentado por uma atitude mental positiva.

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Marcelino Carioca, é um jogador que se preocupa em melhorar tanto suas habilidades
com a bola, como sua proposta empresarial de administrar escolinhas de futebol. Isso faz
com que ele não perca de vista a dimensão maior das conquista e vitórias, se preparando
para a jornada e não apenas para as partidas e títulos. Marcelinho Carioca, diz:
“Preciso ser diferente em tudo o que faço, por isso, quero formar não apenas jogadores
de futebol e sim verdadeiros cidadãos.”

Olhando para as duas perspectivas que a bola pode representar, podemos nos preparar
tanto para adquirir e incrementar nossas habilidades com a bola como, ao mesmo tempo,
rumar para uma vida de realização. E viver é a nossa maior propriedade e talvez, a única
literalmente, propriedade que conquistamos um dia. Fazer da nossa jornada, a
possibilidade de construir nossa história, descobrindo o vencedor que temos dentro de
nós passa a ser o verdadeiro caminho para se viver intensamente as mais fortes emoções.

Vida
Campeonato
Partida

Preparação

Jogar!
Mais do que uma Profissão, um Projeto de Vida.
O programa de preparação de uma equipe de futebol deve merecer, por parte de toda a
equipe técnica, uma atenção especial em relação à dimensão que o trabalho pode e deve
alcançar. Seja visando uma partida em particular ou o campeonato como um todo, a
carreira de cada atleta deve, sempre que possível, ser orientada na direção de um plano de
vida. Muito embora este projeto possa parecer um tanto quanto idealista ou filosófico, é a
partir dessa perspectiva maior, que procuro situar e fundamentar o trabalho de preparação
emocional que realizo com as equipes de futebol.

Um momento muito importante no trabalho de preparação emocional, o ponto de partida,


é estimular o atleta a ter o seu projeto de vida particular.

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Projeto de Vida

Ser um Vencedor

Um projeto é algo que uma pessoa possa "assinar em baixo", não apenas como um
simples autógrafo, mas com orgulho e satisfação, assinar seu nome diante daquilo que foi
capaz de construir. Isso irá se refletir diretamente em seu Estado Mental, ou seja, com um
projeto pessoal ele passa a produzir níveis emocionais tais como:
Motivação - (motivo+ação) é o motivo que alguém tem para fazer alguma coisa;
Persistência - caracteriza-se por ser uma fonte muitas vezes inesgotável de energia;
Disciplina - mais do que o conhecimento das regras e regulamentos, a disciplina é um
nível de consciência sobre a importância de uma atitude positiva;

Estados mentais são processos neurofisiológicos (mente/corpo, por exemplo, se estou


triste minhas atitudes refletem este estado) capazes de gerar sentimentos e emoções, que
tanto podem ajudar na performance, como prejudicar. Por exemplo, um atleta fantástico
motivado pode aumentar significativamente seu desempenho em campo, ao passo que
este mesmo atleta inseguro ou desmotivado pode não conseguir jogar 50% do que é
capaz. Isso é fácil de ser observado e os comentários são, em geral: “Fulano não jogou
nada hoje”. Não que o atleta não esteja preparado técnica, tática ou fisicamente, porém o
estado mental é o que mais oscila na performance de um esportista.

Mais do que fazer parte do elenco de uma grande equipe, quando um atleta, realmente,
tem um projeto de vida pessoal, a contribuição dele passa a ser muito mais significativa.
Ou seja, Ronaldinho é Ronaldinho, na Inter de Milão, no Barcelona, no São Paulo, no
Grêmio ou no Atlético. Independente do vínculo que possa estabelecer com diferentes
clubes no Brasil ou no mundo, ele tem um projeto de vida pessoal e todos ganham com
isso.
Veja o que ele estava pensando ou programando mentalmente em julho de 96, após se
transferir do PSV (Holanda) para o Barcelona (Espanha). Naquela época, com apenas 19
anos, colocou para si algumas metas pessoais. Ele disse em entrevista coletiva:
“Quero ganhar o Campeonato Espanhol, a Recopa, a Copa de 98 e ser eleito o melhor
jogador do mundo”.

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Quando um atleta tem um projeto de vida, ganham os torcedores, ganham os investidores
ou patrocinadores, ganham a imprensa que podem registrar momentos muito especiais
promovidos por profissionais fantásticos, ganha o clube, a equipe e, principalmente, ele
mesmo.

Deixe explorar um pouco melhor o conceito de "projeto de vida". Tomando como


exemplo Jô Soares, um dos profissionais mais competentes da televisão brasileira,
podemos dizer que: o Jô é "o Jô" no SBT, Rede Globo e em qualquer emissora em que
decida trabalhar, porque mais do que um compromisso comercial com determinada
empresa, ele tem um compromisso de qualidade com ele próprio.
O Senna também foi Senna na McLaren, na Williams ou em qualquer outra escuderia.
Wanderley Luxemburgo com seu projeto pessoal de chegar à Seleção Brasileira, também
assina embaixo o que faz como técnico em qualquer equipe de futebol no Brasil e no
mundo.

Observe que a característica principal de alguém que possui um projeto de vida é que esta
pessoa não procura trabalhar com qualidade e responsabilidade para atender apenas às
expectativas de outras pessoas. Elas buscam a qualidade como uma meta pessoal,
visando, primeiramente, um ganho particular. E o que é mais importante. A consciência
que têm de conquista vem do compromisso que assumem com outras pessoas, ou seja, da
compreensão que só ajudando as pessoas e equipes a conquistar o objetivo coletivo, é que
poderá aumentar as chances de conseguir o seu objetivo particular.

Ganhar uma partida, conquistar um campeonato passa a ser, então, muito mais do que
uma conquista isolada. Ganhar um jogo pode representar um degrau a mais na direção do
seu projeto de vida.
Ter um projeto de vida contribui, diretamente, para o estado mental de excelência,
comum na performance de atletas excepcionais.

Acompanhando os melhores jogadores de futebol do Brasil e do mundo, claro que


encontrei o fantástico, Edmundo. Dono de um talento genial e intimidade com a bola
invejável, Edmundo não se destaca, atualmente, por conseguir gerenciar suas emoções
com competência, tanto dentro, como fora dos campos de futebol. Mas, se ele estiver
vivendo uma motivação pessoal - que pode ser a de estar entre os jogadores convocados
para a Copa do Mundo - então, é natural que ele procure compreender melhor seu
cérebro, evitando, por vezes, se tornar refém de suas emoções. Desta maneira, é muito
provável que um nível de amadurecimento emocional seja conquistado numa velocidade
mais acelerada da que ele foi capaz de conseguir nos últimos anos. E a avaliação que faço
é que as chances de sucesso são grandes. Não significa que, de uma hora para outra,
Edmundo conseguirá "domar" o animal que carrega dentro dele. Isso também não seria
muito produtivo, porque a maior parte da força que consegue gerar e utilizar em seu
futebol fantástico, vem justamente dessa energia. Porém, o impulso da raiva, quando
bem gerenciado, pode significar a capacidade do atleta em direcionar toda essa explosão
numa única direção: o gol. E quando ele consegue fazer isso, assistimos cenas

42
inacreditáveis, verdadeiras obras de arte. E quem não gostaria de ver Edmundo, mais
maduro e consciente, jogando na Seleção Brasileira?

O trabalho de preparação emocional procura ajudar apoiar o atleta e equipe no


amadurecimento dessas atitudes que, necessariamente, irão refletir na carreira destes
profissionais. Muito embora o equilíbrio emocional seja alcançado ao longo da vida, com
é o caso de atletas que já alcançaram os 30 anos, podemos desenvolver essa competência
através de métodos cientificamente desenvolvidos.

Com a evolução da psicologia, a educação emocional já pode e deve fazer parte tanto dos
currículos escolares, dos programas de treinamento nas empresas como do
desenvolvimento programado de um atleta ou equipe de futebol.

Bem, resumindo o que vimos até aqui, temos:


Seres humanos, de maneira geral, têm uma enorme vontade de alcançar a realização, de
ter sucesso. Discutimos rapidamente o conceito de sucesso e chegamos muito perto da
idéia de que sucesso é ser feliz durante diferentes momentos na vida. Portanto, mesmo
encerrando a carreira de jogador, o verdadeiro Vencedor vai buscar em outros desafios
novas conquistas e realizações. Além disso, refletimos sobre a diferença que existe em
ser famoso e ser feliz. Coisas que podem estar muito distantes.
Pesquisando entre as pessoas de sucesso, aquelas que conseguem atingir seus sonhos
mesmo quando anônimas, a neurociência (a ciência do cérebro) encontrou um padrão
mental comum, características que se repetem nestas pessoas especiais. O caminho da
vitória é conhecer esses elementos e assim, aumentar nossas chances de alcançar os
nossos objetivos.
Começando a percorrer esse caminho, encontramos algumas características que estão
associadas, ligadas umas nas outras, formando um projeto de vida.

A partir daqui, proponho desenhar um caminho, um programa que nos aproxime ainda
mais das conquistas e vitórias, visando aumentar nossas chances de ser um Vencedor.

Estratégias Mentais dos Vencedores


Um projeto de vida é como um plano, que podemos traçar no momento que desejarmos
ao escolher assumir o comando da nossa única propriedade literalmente: nossa vida.
Comparando com o projeto de uma casa, o primeiro passo é contratar um arquiteto para
que ele projete uma planta, que possa atender detalhadamente às suas necessidades em
particular. É como um ponto de partida da nossa caminhada em direção a realização.

Preparando-se para a Largada

O ponto de partida utilizado pelos os melhores atletas do planeta é comporto basicamente


por três estados mentais que são: O Sonho/Visão, Paixão e Acreditar. Se você fizer uma

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lista de pessoas que considera bem sucedidas, você vai encontrar esses três elementos
como um padrão comum nos Estados Mentais Excelentes.

Sonho
Visão
• Um sonho é o “Ponto de Partida” para quem quer ser um Vencedor.

É o lugar para começar, o ponto de partida para quem quer ser um vencedor.
Mas, qual a diferença entre um sonho e uma visão? Uma pessoa pode sonhar a vida
inteira em ser um músico, mas se não fizer alguma coisa para tornar esse sonho uma
realidade, vai morrer frustrada e triste.
Uma visão é o plano que, estrategicamente, estabelecemos para transformar um sonho
numa realidade. Lembro de uma das cenas mais emocionantes que assisti há alguns anos,
quando a nadadora Dailza Damas atravessou o Canal da Mancha.
Dailza começou a travessia no escuro, ainda de madrugada. Sonhando em encontrar o sol
e fazer dele um companheiro importante durante a travessia, ela nadou com vontade e
derminação, encarando as dificuldades dessas primeiras horas mas, quando o dia
amanheceu, tudo que conseguiu enxergar foi uma neblina forte. Brincar com as ondas de
quatro e cinco metros passou a ser então, sua maior distração. Ela disse: “aquilo parecia
um iô-iô, um tobogã e eu me sentia segura porque tinham pessoas que estavam me
acompanhando”. Depois de mais de 18 horas de travessia, surge na praia a brasileira.
Cansada, com o corpo molhado de uma graxa preta, Dailza ergue os dois braços em
direção ao céu e grita, saboreando a vitória: “Eu consegui! Dinho, Eu consegui!”.

Essa cena me emociona profundamente, me arrepia e faz um nó na minha garganta. E,


acima de tudo, registra um momento de vitória que vai ficar para sempre na história de
vida dessa nadadora maravilhosa.

Tem um ditado que diz que: "Você pode sonhar alto. Mirar para a lua. Porque se você se
perder, no mínimo, vai estar entre as estrelas."

O primeiro padrão mental, encontrado nas pessoas de sucesso, é o Sonho/Visão.


Se você não tiver um sonho seu, algo que valha a pena realizar, é bem provável que você
esteja no sonho de uma outra pessoa. Vou repetir: se você não tiver um sonho seu, você
está no sonho de outra pessoa. E se isso estiver acontecendo você pode ter a sensação de
estar trabalhando, ajudando as pessoas e não ganhar nada por essa contribuição.

Deixe-me explicar melhor o que quero dizer. Ministrando palestras em diferentes


convenções de Vendas de empresas espalhadas por todo nosso país, algumas vezes ouço
o seguinte comentário: “... mas se eu vender mais é a empresa que ganha com isso,
portanto, não vou me sacrificar para fazer os outros ganharem ainda mais".

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Esse é um pensamento de quem está no sonho de outra pessoa. Que não consegue
enxergar o que, efetivamente, está ganhando, porque não tem claro para si, para onde está
indo.

Por exemplo, independente da equipe que esteja representando, Ronaldinho vai procurar
fazer o seu melhor trabalho para conseguir, primeiramente, estar mais próximo do seu
objetivo pessoal. Porém, ao se dedicar a sua jornada pessoal, passa automaticamente a se
comprometer com os objetivos da equipe. E mais uma vez, todos ganham com isso.
É ajudando equipes a conquistar títulos que Wanderley Luxemburgo se aproxima ainda
mais da Seleção Brasileira. É contribuindo com a performance emocional dos atletas
brasileiros que poderei fazer a preparação emocional ficar ainda mais respeitada e
reconhecida no cenário esportivo. Você entende?

Se você puder responder com segurança - o que você ganha oferecendo o seu melhor para
o seu time? Você estará identificando o seu objetivo pessoal, o ponto de partida para um
projeto de vida.

Outro exemplo que ilustra a força que podemos empreender para conseguirmos alcançar
o objetivo do time, a partir do objetivo pessoal, está registrada na história do time
jamaicano de Trenó, que foi contada no filme gravado pelos estúdios Disney, conhecido
como “Jamaica Abaixo de Zero”.
Nessa experiência maravilhosa de conquista, podemos perceber que ganhar uma
Olimpíada de Inverno na cidade de Calgary, no Canadá, era um objetivo coletivo de um
time que se formou sob as mais adversas condições. Porém, individualmente, cada
membro daquele time tinha um objetivo pessoal. Um dos atletas queria participar da
Olimpíada para conseguir sair da Jamaica e conhecer outros lugares. Outro jogador via na
Olimpíada a conquista da independência familiar. Um menos idealista tinha a diversão
como seu motivo particular e o líder do grupo alimentava o sonho Olímpico.

O que aproxima pessoas, o que faz um time ser um time, é o objetivo coletivo, mas uma
parte importante desta força, a motivação que se necessita para superar as adversidades
ao longo do caminho, necessariamente, está no sonho de cada um. E mais uma vez,
lembro a você a frase do Phil Jackson:
“A força do lobo está na matilha e a força da matilha está no lobo”.

Ou seja, você pode encontrar a força que precisa para alcançar seu objetivo no time,
porém, é seu objetivo pessoal, que gera em você uma força especial que será aproveitada
também pelo time.

Pesquisando em outras modalidades esportivas, encontramos na história de Giovani,


jogador que participou da Seleção Masculina de Vôlei, campeã Olímpica de 92, a
seguinte declaração:
“O número 1 saiu das minhas costas e foi parar na minha cabeça. Passou a ser uma
meta. No mundo do esporte, não basta apenas treinar, jogar, ser mais um. É uma luta
sem fim para conquistar um lugar no time, combater os próprios erros, superar limites,

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vencer adversários. Ser o melhor. Por vezes é um processo doloroso. Sofro quando não
jogo bem. Fico com a impressão de que não fiz o meu papel”

Como Giovani, não gosto da idéia de ter conquistado uma vida inteirinha e ser mais uma.
Acredito que fomos feitos para dar certo e, ser feliz, é quase que uma obrigação que
temos diante de nós mesmos e do nosso criador.

Ayrton Senna, campeão de ‘Fórmula 1’, também declarou:


“Meu objetivo não é ganhar uma série de corridas este ano. Meu objetivo é dar o
máximo e o melhor de mim. Minha motivação é a busca da perfeição, a busca de me
aperfeiçoar sempre, de aprender sempre. Talvez nunca se chegue à perfeição absoluta,
mas meu objetivo é chegar lá.”

Tostão, jogador da Seleção Brasileira de Futebol, campeão do mundo em 70, já sonhava


com o futebol desde quando era muito pequeno:
“Aos sete anos, acompanhava o time do bairro e ficava assistindo, sonhando em crescer
e jogar de chuteira, camisa, meia e calção. Já era considerado um dos craques meninos,
pois todos ficavam me assistindo, comentando.”

“Magic” Johnson, um dos mais espetaculares jogadores de basquete diz:


“Por tanto tempo quanto posso me lembra, minha vida se concentrou no basquete. Em
fazer parte de uma equipe. Em vencer campeonatos. Em nunca me sentir satisfeito com o
meu desempenho. Em trabalhar constantemente para melhorar. Assim que percebi que
Deus me dera um talento para jogar basquete, decidi ampliá-lo o máximo que pudesse.

Zico, um dos jogadores de futebol mais importantes nesse últimos tempos e empresário
de sucesso atualmente, afirma:
“Eu queria tanto jogar futebol, vencer na carreira que - juro! - faria tudo de novo. Tinha
meus sonhos para me fazer companhia na sala de musculação, minha vontade de fazer
do futebol meu trabalho e minha vida. Nisso, acho que fui muito favorecido. Tive a
felicidade de unir o trabalho, do qual a gente tira o sustento e dignidade, com a coisa
que eu mais adoro, que mais me dá prazer”.

Nesta declaração, Zico nos dá uma outra dica importante para quem se propõe trilhar o
caminho da vitória. Tendo o sonho como seu ponto de partida, outro estado mental que
ele utiliza nessa caminhada, o que contribui, significativamente, para sua alta
performance é o prazer que ele sente pelo que faz. Pessoas de sucesso têm uma
verdadeira paixão pelo que fazem.

Paixão

• A paixão passa a ser então, o segundo fator indispensável para as conquistas e


vitórias, uma parte também importante da largada em direção às conquistas.

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Você conhece alguém de sucesso, em qualquer área de atuação, que não gosta do que
faz? Esse é um padrão emocional comum, algo que se repete nas estratégias mentais de
pessoas de sucesso.

O navegador Amyr Klink faz da paixão sua força para transformar seu sonho em
realidade. Ele diz:
Rapa Nui, máquina inspiradora, paixão irresistível que me fez acordar. Porque um dia é
preciso parar de sonhar, tirar os planos das gavetas e, de algum modo, começar.

Existe uma explicação química para este fenômeno, ou seja, quando uma pessoa sente
prazer pelo que faz, conseqüentemente, a circulação sangüínea passa a ter uma dinâmica
mais equilibrada. O coração bombeia o sangue de forma mais intensa e compassada. O
sangue circula com maior produtividade, levando oxigênio para órgãos, musculatura e
células. O oxigênio é melhor absorvido e a sensação de bem estar toma conta do corpo,
da mente e da alma. As pessoas ficam mais bonitas, o mundo passa a ser visto de uma
ótica mais positiva e os problemas muitas vezes se transformam em desafios.
Além disso, uma melhor oxigenação das células cerebrais propicia maior nível de
criatividade em relação à percepção e solução de problemas.
Tudo parece funcionar com mais facilidade. Como conseqüência natural, o corpo alcança
um estado neurofisiológico superior, um estado de excelência capaz de ajudar o jogador a
apresentar o que se chama de futebol arte. Aquelas jogadas que superam quaisquer das
habilidades técnicas, táticas e físicas isoladamente. É como se tudo o que o atleta
conhecesse em relação ao futebol fosse pouco para explicar tamanha competência e
habilidade.

Acreditar

• O terceiro elemento comum na vida dos Vencedores é: Acreditar.

Acreditar significa você ter sua própria convicção de que é capaz de conseguir alguma
coisa. Isso significa que, se você estiver dentro do estádio do Maracanã e 100 mil pessoas
gritarem o seu nome dizendo que você é capaz e, ao mesmo tempo, você não acreditar
sinceramente nisto, suas chances são praticamente zero. Ao passo que de outra maneira, o
Maracanã em peso estiver gritando que você não é capaz, mas o seu coração e seus
pensamentos lhe falam justamente o contrário, suas chances de conseguir o que pretende
aumenta significativamente. Além do mais, como é que você quer convencer outras
pessoas da sua capacidade, se nem mesmo você ainda está convencido disto?

Uma história muito bonita que ilustra a força da fé em nossas vidas foi vivida por uma
atleta americana chamada Wilma Rudolph, campeã Olímpica na década de 60.

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Aos quatro anos de idade, ela teve pneumonia aguda e escarlatina (doença infecciosa
aguda). Sua perna ficou inutilizada e ela não pôde andar por dois anos. Somente aos seis
anos, ela conseguiu andar novamente com ajuda de sapatos especiais. Aos onze anos é
que ela pôde andar normalmente e, então, começou a correr. Cinco anos depois, Wilma
Rudolph já era rápida o bastante para entrar nas Olimpíadas.
Depois de mais quatro anos de treinamento intensivo, ela foi parar nas Olimpíadas de
1960, em Roma, conquistando três medalhas de ouro e o mérito de ser a corredora mais
veloz do mundo. Anos depois, um jornalista lhe perguntou como ela conseguiu e Wilma
Rudolph respondeu: "Os médicos me disseram que eu nunca iria andar, mas minha mãe
disse que eu andaria. Acreditei na minha mãe."

Projeto de Vida

Ser um Vencedor

Fazer

Visão/Paixão/Acreditar Ponto de Partida

Fazer alguma coisa na direção de seu sonho, com paixão e fé, irá ajudar você a melhorar
a sua performance e, conseqüentemente, as chances que tem de alcançar resultados
diferenciados na vida. Porém, estes estados mentais favoráveis às conquistas e vitórias
são apenas uma parte importante que, considero a largada. Eles, sozinhos, não garantem
que você consiga ser um Vencedor. É preciso mais. Porém, quando você está diante da
linha de largada, contando com a sua planta de vida como ponto de partida, você
necessariamente já tem uma vantagem competitiva significativa.

Vou ilustrar essa situação com uma experiência que vivi há alguns anos.
Em 1994, decidi participar da Corrida de São Silvestre, em São Paulo, uma das mais
importantes competições do atletismo mundial. Nunca me destaquei nesta modalidade
esportiva, porque, além de preferir a natação como esporte, acreditava que correr
decididamente era uma coisa difícil e que exigia muito de mim.
Foi em 1994 que decidi passar as festas de final de ano, pela primeira vez na minha vida,
em São Paulo. Filha de militar, nasci em Recife e, atualmente, tenho meus pais e irmãos
residindo em Florianópolis e a família do meu marido, em Porto Alegre.
Lembro que passar o Ano Novo em São Paulo, me motivou a fazer parte de um
acontecimento esportivo que, no mínimo, é uma grande festa para quem decide
participar.

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Decidida a participar da largada, mas, principalmente viver a experiência da chegada,
durante quatro meses me preparei com disciplina e dedicação de treinos diários apoiados
por alguns cuidados especiais, quanto às minhas horas de sono e alimentação.
Cervejinha, nem pensar, mas valeu a pena.
Às 15h do dia 31 de dezembro, quanto me posicionava para a largada, por alguns minutos
fiquei observando o grupo de atletas de elite que estavam posicionadas bem na frente das
demais pessoas. Esse grupo ocupava uma posição privilegiada. Foi aí, observando com
curiosidade e com uma certa dose de “inveja”, que pude perceber a relação desta situação
com o nosso projeto de vida.
O grupo de atletas de elite da São Silvestre estava numa condição privilegiada em
relação às demais participantes. Essa situação oferecia uma vantagem competitiva
importante, porém, atravessar a linha de chegada significava fazer o percurso, dar um
passo de cada vez ao longo dos 15 quilômetros.
Só por curiosidade, consegui concluir a prova mesmo não obtendo um tempo tão
expressivo. Mas meu sonho pessoal era estar ali, vencer meus limites e sentir o gostinho
de atravessar a linha de chegada.

Bem, até aqui estávamos trabalhando na nossa planta de vida, nosso ponto de partida,
entã, já é hora de dar a largada.

Depois de saber para onde você está indo, de sentir que seguir nesta direção lhe dá um
enorme prazer e que você acredita que é capaz, você está pronto para dar os primeiros
passos.

Fazer

• A única maneira que você tem de transformar um sonho em realidade é


construindo, começando a colocar tijolo sobre tijolo, ou seja, fazendo alguma
coisa.

Mas quem faz, sabendo a direção, com prazer e acreditando que pode chegar a esta
realização, vai fazer com muito mais qualidade do que quem não conta com estes estados
mentais.

O projeto de vida passa, então, para o momento de execução. Mais uma vez lembre-se:
Nós somos conhecidos pelo que FAZEMOS.
Conhecendo com maior profundidade o que atletas vencedores utilizam para percorrer
cada passo do caminho, a neurociência encontrou outras atitudes mentais positivas que
fazem toda a diferença do mundo. Coisas como dedicação, disciplina, perseverança,
otimismo

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Projeto de Vida
Sonhar/Visão
Ponto de Partida
Paixão
Acreditar
(Antes da Largada)
Construção FAZER
Atitude Mental Positiva
Coragem Superação
Dedicação Ousadia
Persistência Criatividade
Determinação Humildade
Colaboração Entusiasmo
Trab.Equipe Perfeição
(Durante o Percurso)

• Outro estado mental, que observo em atletas de alta performance, é a incessante


busca pela perfeição (melhorar sempre).

Ou seja, eles estabelecem para si, em seu projeto de vida, um sistema de melhoria
contínua, a essência do sistema de buscar a excelência. Mesmo alcançando marcas
diferenciadas em relação a outros competidores, estes atletas de elite não se dão por
satisfeitos e procuram mais.
A perfeição, portanto, não é uma meta, é um processo de procurar melhorar sempre.
Veja o que diz o campeão Olímpico e recordista mundial dos 100m rasos, Donovan
Balley sobre a sua performance:
“Tenho muito a aprender. Ainda não fiz uma volta perfeita”
A busca da excelência é fazer com qualidade e procurar melhorar sempre.

Fazer Fazer Fazer


MELHORAR MELHORAR MELHORAR . . .

“O que mais me estimula é a vontade de crescer e vencer cada vez mais, cada dia mais,
mais, mais... Eu penso que a gente não tem limites. A gente pode conseguir tudo aquilo
que quer com a alma. A partir do momento que você quer uma coisa, que você tem um
sonho, você tem que ir a luta e buscar. E você consegue”.
Dailza Damas

“Pretendo ser a número um este ano. Sabe, dizem que sou arrogante por pensar assim,
que não respeito as jogadoras mais velhas. Não é isso, nunca disse que as outras são
ruins”. Venus Williams

17 anos, 16a. tenista no ranking mundial


“A princípio parecia um sonho impossível, conquistar uma medalha de ouro Olímpica
em 1992 com uma equipe jovem, que tinha todos os requisitos para conseguir subir ao

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degrau mais alto do pódio apenas na Olimpíada de Atlanta de 1996. Foram cerca de
cinco meses de muita união, trabalho e, sobretudo, disposição para superar limites. Este
livro (“Vitória”) fala desse período, retrata o dia-a-dia de um tempo em que algo que
parecia tão distante tornou-se um sonho realizado. Um tempo também em que a gente
pode perceber que com trabalho, muito trabalho, é possível realizar objetivos, mesmo
que aparentemente sejam até impossíveis”. José Roberto Guimarães

“A gente precisa escrever alguma coisa da nossa história. Mas, para isso, vocês vão ter
que se empenhar muito. Não existe outra forma, outro caminho para chegar à vitória a
não ser remar, remar, remar muito forte”. José Roberto Guimarães

“A gente entrou o ano de 82 respirando Copa do mundo. E tinha todas as razões para
estar esperançoso de conquistar o Caneco.
Mas, primeiro, o Flamengo queria ser novamente campeão brasileiro. Por que?
Quer dizer, por que a gente queria vencer um torneio que já havia vencido antes? E se já
havia inclusive vencido outro, teoricamente mais importante? Por que de novo?
E o mais engraçado era que a gente iria querer vencer quantos campeonatos houvesse
pela frente... Não se conformava em perder e, se agüentasse, ia querer até jogar todo
dia. Acredito que isso faz parte da vida do esporte. É a tal história do não se acomodar,
do não se conformar em já ter sido, mas querer continuar sendo e crescer sempre.
De não aceitar sendo mais-ou-menos, se é possível melhorar. É fome de vitória e o título
consagra um trabalho longo, difícil, em função do qual se abre mão de muitas coisas”.
Zico

Projeto de Vida

Ser um Vencedor
Melhorar
Fazer
Melhorar Durante a Jornada
Fazer
Melhorar Atitude Mental
Fazer Positiva

Visão/Paixão/Acreditar Ponto de Partida

Em resumo, pessoas consideradas Vencedoras partem demonstram ter um Projeto de


Vida pessoal e, antes de trilharem o caminho, têm clara o Sonho ou Visão definida. Mais
do que isto sentem uma Paixão profunda por este Projeto de Vida e Acreditam que serão

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capazes de realizá-lo. Com estes estados mentais indispensáveis às conquistas e vitórias,
põem-se a construir a realidade, tendo consciência de que cada atitude, cada esforço e
cada nova tarefa devem estar impregnados do desejo de melhorar sempre. Fazer e
melhorar, fazer e melhorar, fazer e melhorar... É isto o que faz um verdadeiro Vencedor!
Quem possui estas características pode não se tornar famoso, mas, certamente, sentirá o
gostinho da vitória em seu coração!

"Embora haja pontos que


determinam o temperamento,
muitos dos circuitos cerebrais
da mente humana são maleáveis,
podem ser trabalhados e, portanto,
temperamento não é destino”
Daniel Goleman

Fundamentos da
Competência Emocional
Objetivo: apresentar os fundamentos teóricos e científicos que são utilizados nos programas de
treinamento da Competência Emocional.

Ser um profissional competente é ser capaz de executar com qualidade e inteligência as


atribuições de sua função. Para tanto, é indispensável identificar quais os níveis de
competência, que envolvem a profissão de um jogador de futebol.

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Competências Básicas do Jogador de Futebol

Quando um atleta entra em campo e o juiz apita o início do jogo, sua performance estará
diretamente relacionada a 4 níveis de competências básicas para que possa desempenhar
bem o seu papel.

São elas:
• Competência Técnica - é o resultado da performance do jogador em relação ao
trabalho, que realiza nos fundamentos do futebol. Coisas como: qualidade dos passes,
domínio e controle da bola, drible, desarme, cruzamento, cabeceio, arremate, chute e
finalização. Segundo Oswaldo de Oliveira Filho, um dos mais conscientes e capazes
auxiliares técnicos, que tive a oportunidade de conhecer:
“O Brasil é um país que se destaca pelo alto nível técnico apresentado. Alguns dos
melhores atletas, tecnicamente falando, são: Ronaldinho (duas vezes considerado o
melhor jogador do mundo), Edmundo, Müller, Marcelinho Carioca e Romário”.

• Competência Tática - refere-se à orientação estratégica realizada, principalmente,


pelo técnico que estabelece o plano de jogo para a equipe, comandando a posição que
cada jogador deverá ocupar dentro de campo. Este posicionamento dirigido visa
anular o poder do adversário e incrementar a força tanto ofensiva como defensiva da
equipe.
Segundo um dos maiores estudiosos do esporte no país, Jairo dos Santos:
“O melhor sistema tático é não ter sistema nenhum. Perdem os times com sistemas fixos,
seja o 4-4-2 (quatro defensores, quatro meias e dois atacantes) ou o 3-5-2. No ano
2000, o futebol não vai se sujeitar a um sistema apenas.”

• Competência Física - tem o objetivo de preparar os jogadores para que desempenhem


qualquer das funções táticas que o técnico determinar para a equipe. Compreende,
basicamente, o treinamento aeróbico, de força e o condicionamento anaeróbico. Com a
fisiologia e fisioterapia, a preparação física vem evoluindo significativamente.
O preparador Antônio Mello, que fundamenta seu trabalho em estudos científicos, e,
principalmente, na experiência acumulada, diz:
“Todo trabalho de preparação física é baseado em estudos de fisiologia e levam em
conta três qualidades básicas exigidas dos atletas no futebol: a resistência orgânica,
a potência e a resistência muscular. A importância de cada uma depende da posição e
das funções do jogador em campo”.

• Competência Emocional - é a capacidade de regular os próprios estados emocionais e


inclui habilidades tais como: capacidade de controlar os impulsos (ansiedade, raiva,
medo e estados de euforia, típicos do “já ganhou”), de adiar a gratificação, motivar-se
e lidar com os altos e baixos da vida.
A performance de uma equipe e a carreira de um atleta está diretamente relacionada à
competência emocional. Isso, de certa forma, não é nenhuma novidade. Observa-se que.

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quando um atleta demonstra baixo grau de competência emocional, sua carreira fica
instável, um sobe e desce. Ele pode ser um craque técnica, estar bem orientado
taticamente e se encontrar na sua melhor condição física, mas se entrar em campo e
agredir um atleta ou chutar a perna do juiz e for expulso, além de “pagar” um preço
muito alto por esse momento de descontrole emocional, pode também, desequilibrar o
trabalho de toda a equipe. E é, principalmente, nos jogos mais decisivos, onde a pressão
psicológica está mais presente, que o condicionamento emocional se torna ainda mais
importante.

Considerando que o futebol vem assumindo cada vez mais a dimensão de “business”,
onde o modelo clube/empresa passa a ser adotado como um sistema, visando incrementar
ainda mais os resultados, é indispensável que atleta e equipe assumam uma postura mais
profissional, de maior equilíbrio emocional, diante das partidas e campeonatos.

Assistimos competições de alto nível técnico, sob a orientação tática dos melhores
treinadores do planeta, representadas por atletas com níveis de condicionamento físico
que beiram a excelência, porém, parando para avaliar o preparo emocional destes
profissionais, observamos, em alguns casos em particular, um verdadeiro desnível
emocional.
E o mais grave de tudo isso: essa área de competência fica sob a responsabilidade
particular do jogador, ou seja, a maior parte dos clubes, inclusive a Seleção Brasileira,
responsabiliza o jogador por esses momentos de instabilidade emocional e, na maioria
das vezes, nada fazem para assumir um trabalho sério e competente.

É aqui, que me rendo ao que considero: incompetência da psicologia. Nós, psicólogos,


que nos propomos a fazer parte do grupo conhecido como cientistas do comportamento
humano, ainda não nos dedicamos o suficiente ao futebol para propor um trabalho
voltado exclusivamente a este esporte. E, olha, que fazemos parte do “País do Futebol”.
O que fizemos até agora, mesmo que com a melhor das intenções, foi de forma ainda
muito tímida, adaptar princípios psicológicos aos campos de futebol e a conseqüência
disso é que ainda não conseguimos formar uma imagem de credibilidade frente às
equipes técnicas, jogadores, dirigentes e imprensa. Posiciono-me desta forma crítica para
causar muito mais do que um certo constrangimento pessoal, mas para que possamos
assumir uma parte importante desta realidade e trabalhar para mudar isso.

O mundo reconhece o valor técnico, tático e físico do atleta brasileiro, porém, os maiores
problemas que o jogador e as equipes enfrentam, quando há uma negociação
internacional, vêm justamente desta área de competência e isso, de certa forma, já está
comprometendo a imagem de nossos jogadores. Minha contribuição passa a ser então,
através de um trabalho sério, com dedicação e entusiasmo, ajudar a mudar esta situação.
Ganha o jogador, a equipe, o clube, os torneios e competições, o espetáculo, o torcedor, o
patrocinador, ganha o futebol e ganha a psicologia.

Método Equipe - Equilíbrio e Perfeição

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Partindo deste ponto de referência, considerando as habilidades, que são exigidas do
jogador de futebol, ao longo desses anos, acompanhando e trabalhando com equipes,
desenvolvi um sistema que chamei de Método Equipe, ou seja, um modelo que procura
o equilíbrio das quatro competências: Técnica, Tática, Física a partir de uma melhor
Competência Emocional.
Método Equipe
Equilíbrio das Competências

Técnica Tática

Física Emocional

em busca da Perfeição

O que é ser um jogador competente no aspecto profissional? Procurando ilustrar essa


característica, encontrei no jogador Raí, um bom exemplo. Segundo Joel Bats:
“Trabalho com Raí, primeiro como companheiro de time, depois como membro da
comissão técnica do Paris Saint-Germain e só tenho elogios a fazer a ele. Não só pelo
futebol, mas também pelo que Raí representa como ser humano.
Sua caminhada no futebol francês representa um exemplo a ser seguido. Para os
jogadores sul-americanos, que, muitas vezes, não dominam outros idiomas e têm sérios
problemas de adaptação no exterior, Raí demonstrou que, com a cabeça no lugar, é
possível ser bem-sucedido fora de seu país, sim.
Para os europeus, acho que é mais fácil, pois eles vivem num continente menor e são
acostumados a ir ao exterior desde cedo. Enfim, pela cultura, pela sensibilidade e pelo
equilíbrio, os brasileiros deveriam se espelhar mais nele”.

A competência emocional está diretamente relacionada ao nível de maturidade do atleta.


É natural que o amadurecimento venha com as experiências e, conseqüentemente, com a
idade, porém, existe a possibilidade de se desenvolver essa competência através de
programas cuidadosamente planejados.

Analisando a performance do Vasco, equipe campeã Brasileira de 1997, pude observar


que, com sabedoria, o técnico Antônio Lopes conseguiu mesclar, cuidadosamente,
jogadores experientes e vencedores como: Mauro Galvão, Válber, Evair, Luisinho e
Carlos Germano com a explosão de Edmundo, que mereceu um capítulo à parte, a
juventude de Maricá, Ramón, Felipe, Nasa e Juninho.

Acompanhando a evolução da Preparação Física no futebol, encontrei uma reflexão


interessante de Mário Jorge Lobo Zagallo, eleito o melhor técnico de futebol do mundo,
em 1997:

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“O futebol mundial começou a mudar muito a partir de 1963, quando o Brasil,
bicampeão, sofreu derrotas para equipes consideradas ‘segundas forças’ como:
Portugal, Bélgica e Holanda. Os europeus começaram a cuidar cientificamente do
preparo físico, para ocupar mais e melhor os espaços em campo - o futebol força.
Não vi a Copa de 66, mas sei que, surpreendidos por esse futebol, fomos mal.”

Parando para analisar, o movimento científico da preparação física ocorreu, basicamente


a partir da década de 60, refletindo-se fortemente em nosso país no início da década de
70.

Moracy Sant’Anna, considerado um dos melhores preparadores físicos do Brasil, realizou


trabalhos importantes de: alongamento, em 79 (baseado no trabalho do americano Bob
Anderson e só mais tarde adotado pelos europeus); hidroginástica, em 90; e, mais
recentemente, implantou a informática na preparação física.
“O alongamento consiste, basicamente, em dar uma elasticidade maior ao músculo,
preparando o jogador para a atividade esportiva. Diminui-se o risco de lesões
musculares. A hidroginástica tem dois aspectos. O primeiro é o de relaxamento, em que
você faz uma atividade mais curta dentro da piscina, ativando a circulação para que
haja o efeito de eliminação do ácido, como no alongamento. Isso ajuda na recuperação e
também é mais saudável e relaxante, pelo fato de fugir da rotina de estar sempre dentro
de campo., A atividade no meio líquido diminui o impacto e a sobrecarga do corpo. Tem
também a hidroginástica voltada exclusivamente para o lado físico, que tem como
objetivo aumentar o esforço dentro da área, fazendo uma espécie de circuito, como um
treinamento, mais sem sobrecarga”.

Atualmente, todas as equipes de alta performance têm um preparador físico, trabalhando


com o grupo. É quase que inadmissível não se contratar um.
Neste sentido, acredito este final de século irá marcar a preparação de atletas, em geral,
pelo condicionamento emocional. Isso porque o nível de competitividade vem
aumentando ano a ano, com as equipes investindo pesado nos aspectos: técnico, tático e
físico. Assim como se preparam para ter um condicionamento físico através de
programas cuidadosamente estabelecidos, podem alcançar níveis de preparação
emocional importante a partir de um treinamento mental cientificamente orientado.
Então, estar bem preparado no aspecto emocional, passa a ser um diferencial competitivo,
um “algo a mais” para equipes de alta performance. Além disso, considerando o futebol
como um grande negócio, é provável que cada vez mais, os clubes assumam um trabalho
sério nessa área de competência, como um aspecto também de sua responsabilidade.

A psicologia também vem evoluindo muito nos últimos anos, tanto que os anos 90 já são
considerados a década do cérebro humano. Mas, é importante perceber, que durante mais
de um século, a maior parte dos estudos realizados por essa área esteve voltado, quase
que exclusivamente, a problemas de comportamento e disfunções mentais. Por este
motivo, ainda há uma forte associação do trabalho do psicólogo com a loucura.

Princípios Básicos Mente/Corpo

56
O ser humano é composto por uma estrutura única denominada mente/corpo, ou como é
conhecida cientificamente, Neurobiologia. Estudos e pesquisas nessa área vêm
evoluindo bastante nos últimos anos gerando, assim, um conjunto de informações, que
podem ser utilizadas na área da saúde de maneira geral, e, mais especificamente, para
incrementar a performance de atletas e equipes esportivas. As técnicas mente/corpo
contribuem não só para a melhoria da qualidade de vida como também podem ajudar o
desempenho profissional.

Os cientistas estão trabalhando para desvendar a fisiologia da ligação mente/corpo desde


a década de 40, procurando identificar as formas pelas quais a mente e as emoções
afetam o corpo, a estrutura física. Eles aprofundaram, mais recentemente na década de
70, nosso conhecimento, por exemplo, sobre os efeitos do estresse no organismo. Desde
estão, vêm acumulando provas convincentes de que o sistema imunológico, juntamente
com outros órgãos e sistemas do organismo, podem ser influenciados pela mente. Juntas,
estas pesquisas e experimentos, sugerem que a separação entre mente e corpo, há muito
aceita pela filosofia ocidental é, na verdade, ilusória. Estes estudos fazem parte de um
novo movimento da medicina mente/corpo, uma abordagem que vê como a mente -
pensamentos e emoções - influenciam diretamente nossa estrutura física e refletem
novamente em nossos comportamentos e reações.

Mente

Corpo

Em resumo, a medicina mente/corpo se baseia na saúde global - no equilíbrio das


energias físicas e mentais. Desta maneira, o estado mental, conhecido como “estado de
espírito” passa a ser considerado uma estrutura fundamental no trabalho de melhoria da
performance.

A Neurologia da Excelência

As equipes de futebol vivem hoje mais do que nunca, a busca absoluta do diferencial
competitivo, do ‘detalhe’ que possa fazer uma grande diferença nos torneios,

57
campeonatos nacionais e internacionais. Ao longo de cem anos de futebol, esse parece ser
um exercício comum para aqueles que vivem intensamente o desafio do Gol. Dessa
maneira, todo o trabalho de treinamento que é realizado nos níveis técnico, tático e físico
tem como objetivo maior, fazer com que o atleta e a equipe consigam atingir sua
Performance Máxima no momento do jogo. E futebol é o momento.
Nós podemos perceber essa afirmação quando assistimos o goleiro Hiran fazer um gol
espetacular contra o Palmeiras, aos 46 min do segundo tempo, salvando sua equipe
(Guarani) da derrota.

São momentos como esse que marcam a carreira de um atleta e que contribuem para o
resultado do jogo. Na gíria, poderíamos dizer que Hiran conseguiu alcançar o seu
‘Ponto-Ex’ (Estado de Excelência). É uma experiência que parece ‘mágica’, porque tudo
parece estar na mais perfeita harmonia. Porém, isso só foi possível porque todos
participaram e deram a sua parcela de contribuição para esse resultado.
Observamos nessa atitude coletiva, um intenso compromisso com o resultado, muita
garra e determinação, criatividade, ousadia e coragem, além de autoconfiança e um
controle fantástico da situação.

A capacidade de buscar e alcançar estados de excelências é a aplicação da inteligência


emocional no mais alto grau. A descrição deste estado é semelhante para centenas de
pessoas nas mais diferentes atividades - empresários, artistas e esportistas. Quando
detalhamos os momentos na vida em que fomos capazes de nos superar, necessariamente,
vamos fazer uma descrição muito parecida a das outras pessoas. Coisas como ter um
sonho, ter prazer naquilo que fazemos e a crença de quem se determinou a “chegar lá”:
persistência, disciplina, dedicação e entusiasmo são ingrediente, que vão estar presentes
nos depoimentos dos mais diferentes profissionais.

Ser um vencedor
É descobrir a força interna capaz de gerar hormônios de alta performance e,
consequentemente, alcançar os mais incríveis resultados.
É acreditar, quando a maioria sorri.
É sonhar e trabalhar duro na realização desses sonhos.
É persistir, persistir e persistir,
mesmo quando as chances parecerem impossíveis.
É encontrar-se com as dificuldades transformando-as em desafios.
É preparar-se para o caminho a ser percorrido.
E é também, sentir intensamente o prazer da vitória.

Ser capaz de alcançar o estado de excelência é o ponto mais alto da competência


emocional. Quando alcançamos este estágio, produzimos emoções de alta qualidade, que
nos energizam a tal ponto que, quando nos dirigimos à tarefa, fazemos isso com muito
mais competência. Esta experiência é espetacular. E, se você perguntar a Pelé como ele
fazia para conseguir aquelas jogadas geniais, é bem provável que não encontre
dificuldade em dar a melhor explicação.

58
O estado de excelência é aquele em que as pessoas conseguem ficar absolutamente
concentradas no que estão fazendo. Na verdade, interrompe-se este estado, quando se
pensa demais no que está acontecendo, e até a idéia de que “estou fazendo isso
maravilhosamente bem” pode interromper o processo.
Paradoxalmente, as pessoas em estado de excelência exibem um absoluto controle do que
estão fazendo, as reações perfeitamente sincronizadas com as exigências das jogadas. E,
embora atuem no ponto mais alto, quando alcançam o estado de excelência, não se
preocupam com como estão se saindo, com idéias de sucesso ou fracasso. O que as
motiva é o puro prazer de estar fazendo.

Vou contar resumidamente a história de um rapaz canadense chamado Terry Fox. Com
uma média diária de uma maratona por dia (42 km), Terry, durante cinco meses, correu
5.342 quilômetros através do Canadá, enfrentando calor e frio, sol e chuva. Esta distância
corresponde, aproximadamente a sair de São Paulo correndo, ir até João Pessoa, na
Paraíba, e voltar. Só isso já seria um fato surpreendente, porém, Terry Fox fez esse
percurso com a ajuda de uma perna mecânica, por ter sido vítima do câncer. Sua decisão
de começar a correr, veio do objetivo de levantar dinheiro para as pesquisas sobre
doença. Durante o trajeto, tumores em seus pulmões foram descobertos e ele foi forçado
a desistir de seu objetivo, que era atravessar todo o Canadá e levantar US$ 1 milhão.
Mesmo não conseguindo concluir o trajeto, conseguiu US$ 25 milhões.
Por que ele fez isso? Sua doença dá uma pista importante. Terry, arrasado com o que
estava vendo no hospital, ficou revoltado com aquela doença, que causava tanta dor e
sofrimento àquelas pessoas. Esses sentimentos foram tão fortes, que ele decidiu, sem
qualquer dúvida que, caso sobrevivesse, iria juntar-se à luta para eliminar o câncer. No
meio à tamanha adversidade, numa época em que outras pessoas em circunstâncias
semelhantes compreensivelmente ficariam cheias de autopiedade, Terry Fox descobriu
um propósito, um motivo fundamental para viver. Ele sentia que o que fora revelado era
muito mais importante e urgente do que suas próprias dificuldades.
Este rapaz não conseguiu sobreviver, mas a sua história marcou a vida de outras pessoas
no Canadá e no mundo.

Um momento que ilustra o estado de excelência que as pessoas alcançam, quando


realizam o seu trabalho com amor, é registrado por Zico com emoção:
De fato, futebol é o meu habitat, é com ele que eu consigo dizer melhor quem sou, o que
eu quero, com ele expresso com mais facilidade o que sinto pelas pessoas.

E é assim, que Zico conta como seu pai, Sr.Antunes, praticava a sua profissão:
Quando meu pai abriu a alfaiataria, eu saía da escola e, às vezes, ia para lá, me
encontrar com ele. Voltávamos juntos para casa à noite. Achava sempre que era meio
mágica - coisa bonita mesmo! - a concentração com que ele trabalhava. É como se, a
cada ponto que dava, viesse à cabeça dele que a roupa que estava consertando ou
fazendo fosse importante para a pessoa que iria vesti-la, que poderia ajudá-la a
conseguir um emprego ou a aparecer bem diante de alguém de quem gostasse. Ou então,
era por ele mesmo, por respeito ao ofício que sustentava sua família, respeito até por si

59
próprio, pelas coisas que em que punha a mão, pelo que levava o nome dele. Fazer tudo
com capricho era o orgulho e a dignidade dele.

A excelência é um estado neurofisiológico, que é experimentado por pessoas em


diferentes momentos da vida ou mesmo em diferentes profissões. Fazer com excelência é
fazer de forma superior. O prazer, a graça e a eficácia espontâneos, que caracterizam esse
estado, são incompatíveis com o desequilíbrio emocional, em que o cérebro é tomado de
impulsos e explosões. Alcançar o estado de excelência significa estabelecer um nível de
concentração, que é muito diferente do esforço para prestar a atenção, quando estamos
cansados ou chateados, ou quando nossa concentração é assediada por sentimentos
intrusos como a ansiedade ou a raiva.

Assistir Marcelinho carioca fazer um gol de placa dá a impressão de que o difícil é fácil:
o auge do desempenho parece natural e comum. Esta impressão é paralela ao que se
passa no cérebro, onde um paradoxo semelhante se repete: as mais desafiantes tarefas são
executadas com um dispêndio mínimo de energia mental.

O estado de excelência permite, que as pessoas enfrentem as mais desafiantes tarefas


num determinado campo, seja jogando contra um mestre de xadrez ou solucionando um
complexo problema familiar. Então, alcançar estados de excelência, passa a ser um pré-
requisito para a maestria num ofício, profissão ou arte.
Isto revela o sentido mais amplo em que canalizar emoções para um objetivo produtivo é
uma aptidão importante. Seja para conseguir controlar os nossos impulsos ou para criar
estados de excelência para que facilitem, em vez de impedir, o pensamento, motivando-
nos a persistir, e persistir de novo, diante dos revezes. Seja para encontrar os meios de
entrar em estados de excelência e com isso agir com mais eficiência. Tudo indica o poder
da emoção na orientação do esforço eficaz.

Motivação - Estado Mental de Excelência

Podemos dizer, que motivação é o estado mental, que envolve os seguintes sentimentos:
entusiasmo, zelo e confiança para as conquistas. Estudos com atletas olímpicos, com
músicos famosos e mestres de xadrez constatam que o traço comum, o padrão que se
repete na vida deles, é a capacidade de se motivar para conseguir suportar as implacáveis
rotinas de treinamento. E, com o aumento constante no grau de excelência exigido para
um desempenho de classe mundial, estas rigorosas rotinas de treinamento cada vez mais
devem começar na infância. Nas Olimpíadas de 92, membros de doze anos da equipe de
mergulhadores chineses tinham tantos mergulhos de treinamento, quanto os da equipe
americana na casa dos vinte - os mergulhadores chineses iniciavam seu rigoroso treino
aos quatro anos de idade.

O que parece distinguir os melhores nas competições é o grau em que, começando cedo
na vida, estes seguir uma árdua rotina de exercícios durante anos e anos. E essa
obstinação depende de características emocionais como entusiasmo e persistência durante
as dificuldades - acima de tudo mais. E à medida que somos motivados pelo entusiasmo e
prazer - ou mesmo por um grau ideal de ansiedade -, estes sentimentos nos levam à

60
conquistas. É neste sentido que a competência emocional é uma aptidão mestra, uma
capacidade, que afetam profundamente todas as outras, facilitando ou interferindo na
performance.

Lembro sempre da famosa frase de Oscar Schmidt, que diz:


De uma coisa, eu tenho certeza: alguém pode ter treinado muito, mas ninguém treinou
mais do que eu. Porque as loucuras que fiz em treino são difíceis que alguém tenha feito.
Ah, eu dormia com a bola. Literalmente. Porque muita gente falava, brincando, que eu
precisava treinar tanto que tinha que dormir com a bola. Peguei aquilo como uma
verdade. E dormia com a bola. Ia para a cama com minha bola. Ficava batendo ela ali
do lado, na parede, tal, até que dormia. Fiquei muito tempo dormindo com a bola.
Quando acordava já estava com ela.”

Wanderley Luxemburgo costuma dizer:


“Nada resiste ao trabalho.”

Outra situação, que, me faz lembrar nosso querido cestinha Oscar, é contada pelo
também espetacular Magic Johnson:
“Não importa o que mais estivesse fazendo, eu sempre tinha uma bola de basquete na
mão. Se tinha que fazer uma compra para minha mãe, ia até a loja batendo bola. Só para
tornar mais interessante, alternava a mão direita e a esquerda, de um quarteirão para
outro. Lembro de acordar, quando ainda estava escuro, sentindo a maior vontade de
bater bola, e ficava deitado na cama, olhando pela janela, esperando que o dia
clareasse. Se ainda era muito cedo para ir ao pátio da escola, batia bola na rua.
Contornava os carros estacionados, fingindo que eram jogadores adversários. Ao longo
da rua, as pessoas abriam suas janelas e brigavam comigo, dizendo que eu as acordava.
Mas não podia fazer nada. O jogo estava em meu sangue”.

E Magic Johnson completa:


“George Fox era um bom treinador e um excelente mestre. Fazia-nos treinar com afinco,
e insistia nos fundamentos. Obrigava-nos a repetir as jogadas muitas e muitas vezes, até
se tornarem um hábito. O time não chegava a ter uma porção de grandes talentos, mas
treinávamos intensamente, e começamos a vencer. Embora o talento seja importante, os
fundamentos, em geral, prevalecem. E nada no mundo supera o trabalho árduo”.

Ansiedade e Preocupação - Estados de Baixa Qualidade

A preocupação é a essência prejudicial da ansiedade sobre todo tipo de desempenho


mental. Ela é, num certo sentido, uma resposta de preparação mental para uma ameaça
prevista. Mas, esse ensaio mental pode paralisar uma pessoa, fazendo com que não
consiga fazer o que precisa ser feito. A ansiedade solapa o intelecto e os ansiosos têm
mais probabilidade de errar como comprovam alguns estudos.

Uma experiência vivida por Paulo Roberto Falcão, atleta que compõe o quadro de
jogadores vitoriosos do Brasil e que, de quebra, sustenta o título de “Rei de Roma”, em

61
função da simpatia com que foi acolhido na Itália. Ele conta, no seu livro “Histórias da
Bola”:
“Bruno Conti foi o jogador com o qual melhor me identifiquei, tanto dentro como fora de
campo. Ele tinha a habilidade de um jogador sul-americano, tanto que chegou a receber
dos italianos o exagerado apelido de Marazico (metade Maradona e metade Zico)...
“Na véspera dos jogos importantes, Conti ficava tão tenso, que chegava a passar mal
algumas vezes. Um de seus métodos para aliviar a tensão, era pegar a bola antes do
aquecimento e chutar forte três ou quatro vezes contra uma parede. Aí, recuperava a
calma”.

A maior parte dos atletas sente a pressão das competições, entrando em estados de
tensão, preocupação ou ansiedade. O importante é identificar essa situação e procurar
técnicas para reverter esse processo. Isso pode ser feito, intuitivamente, de forma
programada ou até mesmo de uma forma mais urgente, como aconteceu com o time de
Vôlei masculino, quando disputavam as Olimpíadas de 92, no jogo importante contra o
Japão:
“O jogo começou travado, com todos os jogadores muito nervosos. Apesar de todo esse
clima, o Brasil conseguiu abrir uma vantagem de 8 a 3. Aí, começaram a aparecer os
erros da seleção e o Japão empatou em 9 a 9. Foi um jogo de paciência com bola lá e cá.
Perto de garantir a vaga para a semifinal, o time voltou a dar sinais de ansiedade. Cada
jogador parecia querer decidir sozinho. E as falhas voltaram. Algumas infantis, como
aquela “deixa que eu vou”. Ninguém vai e a bola cai no meio de todo mundo. Pela
primeira vez no jogo, o Japão esteve à frente: 6 a 1. Depois de alguns berros do técnico
e dos reservas, o time acertou o passo. Melhorou a defesa e o saque, virando em 15 a 12
depois de 1h37min de jogo”.

Inteligências Múltiplas

O programa de desenvolvimento da Competência Emocional utiliza, como


fundamentação teórica, o conceito de Inteligências Múltiplas, proposto por Dr. Howard
Gardner e complementado pelo trabalho do Dr. Daniel Goleman, ambos psicólogos de
Harvard

Gardner que há uma variedade de inteligências e que não há um número único para a
multiplicidade de talentos humanos. O empresário e apresentador de TV Silvio Santos,
por exemplo, tem uma habilidade em comunicação superior. Portanto, Silvio, é uma
pessoa que se destaca no centro de inteligência conhecido como lingüístico ou verbal. Já
Bill Gates, um dos maiores empresários dessa década, destaca-se pela habilidade lógica e
espacial. Daniela Mércuri é excepcional, apresenta competência musical. O sinestésico é
característico de atletas e profissionais que exibem habilidades físicas, como Pelé e
Ronaldinho, Michael Jordan e Magic Johnson, Paula e Hortência.

Nenhuma inteligência é mais importante que a inteligência Intra e Interpessoal, que são
os dois centros de competência emocional.

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Inteligência
Lingüística Intrapessoal

Lógica Interpessoal

Espacial Natureza

Musical Cinestésica

Competência Intrapessoal - capacidade de gerenciar as emoções para conseguir


resultados de qualidade na vida. Aqui é quando conseguimos passar de pardal para águia
e dar o melhor de nós mesmos.
Competência Interpessoal - capacidade de relaciona-se com outras pessoas e
principalmente de trabalhar em equipe.
Consciência da Natureza - refere-se a consciência da natureza e preservação como um
todo (da natureza humana ao meio ambiente).
Competência Sinestésica - capacidade ou inteligência física, altamente desenvolvida por
atletas e outras profissões que exigem habilidades motoras.
Competência Musical - capacidade que orienta não só o talento para a música mas
também um ritmo que pode refletir a dinâmica do jogo.
Competência Espacial - capacidade de se posicionar no tempo e espaço e pode ser
aproveitada durante o jogo para utilizar melhor a orientação técnica e tática.
Competência Lógica/Matemática - capacidade de raciocinar logicamente e que pode
ser utilizada para tomar decisões mais racionais. A estratégia do jogo tem relação com
esse tipo de inteligência
Competência Lingüística/Verbal - capacidade que temos de nos comunicar através da
linguagem escrita e falada. Um atleta utiliza essa capacidade, por exemplo, quando está
dando uma entrevista para a imprensa.

A maior parte das pessoas consideradas inteligentes destaca-se em uma das


competências, porém, quando procuramos estimular todos os centros de inteligência
contamos com um recurso importante que certamente irá trabalhar a nosso favor.

Por exemplo, Pelé, mestre dos mestres é um verdadeiro gênio quando avaliamos sua
inteligência sinestésica, típica de atletas excelentes. Porém, além de se destacar nessa
habilidade, também demonstra facilidade nos outros centros: lingüístico, lógico, espacial,
musical, natureza, intra e interpessoal - um exemplo do conjunto que leva a perfeição.

Hoje em dia, um atleta que procura usar com sabedoria os centros de inteligência que
Deus lhe deu, acaba tendo um diferencial competitivo que aparece nos momentos mais

63
importantes de sua vida. Coisas como: qualidade do trabalho em equipe (interpessoal), do
domínio de suas emoções (intrapessoal), facilidade ao se expressar ou dar uma entrevista
(lingüístico/verbal), na maneira de administrar sua carreira a curto, médio e longo prazo,
além de participar mais ativamente das negociações e contratos (lógico e espacial), na
habilidade musical que pode contribuir para diferentes aspectos de sua vida (musical), na
postura consciente de sua contribuição com a preservação do meio ambiente
(consciência) são situações que apontam para a inteligência no conceito mais amplo.

Competência Emocional

A Competência Emocional, como é formada pelos centros da Inteligência Emocional:


intra e interpessoal.

Como o futebol é um esporte coletivo, os trabalhos de treinamento são desenvolvidos a


partir do aspecto interpessoal, ou seja, buscamos a força que a equipe pode conseguir
com a contribuição de cada jogador, ao mesmo tempo em que, cada jogador se torna mais
importante quando o time se torna forte. Lembra? “A força da matilha está no lobo ao
mesmo tempo que a força do lobo está na matilha.”

Durante os treinamentos da competência emocional, agrupamos os fundamentos em dois


grupos:

Qualidade do Trabalho em Equipe - que busca exercícios e técnicas voltadas ao


desenvolvimento do espírito de equipe, tanto dentro como fora de campo;
Fundamentos: compromisso com o objetivo do grupo; disciplina; trabalho de qualidade
e dedicação; entrosamento e união; superação dos limites; garra e determinação;
confiança; cooperação e colaboração; atitude positiva; busca de soluções;
responsabilidade; criatividade; adaptação às mudanças; liderança; empatia; comunicação;
entusiasmo; flexibilidade; valores éticos e morais; saber escutar e compreender o poder
da força e sinergia da equipe.

Qualidade Pessoal - que se resume na capacidade de gerenciar as próprias emoções para


conseguir os melhores resultados através de maior competência Intrapessoal.
Fundamentos: motivação; autoconfiaça; auto-estima; vontade; criatividade; dedicação;
responsabilidade; persistência; busca da excelência através do sistema de melhoria
contínua; superação dos limites; concentração; controle da raiva, negativismo e
ansiedade; Respeito; Adaptação; Ousadia; Coragem; Segurança; Paciência; Iniciativa;
Alegria; valores éticos; otimismo e bom humor; entusiasmo; cuidado e zêlo; aprender
com erros e críticas e compreender o poder das emoções.

Esses fundamentos são praticados através de exercícios e simulações, por acompanhar


atletas excelentes de outras modalidades esportivas, através das reflexões que podemos
fazer quando assistimos a entrevistas, jogos e filmes, explorando as experiências e
histórias de cada componente da equipe. Ações como palestras, exercícios, filmes,
encontros, jornais e atendimentos individuais podem ser utilizados como método de

64
trabalho para o treinamento desses fundamentos, como vamos destacar no próximo
capítulo.

"A incapacidade de lidar com as


próprias emoções pode destruir vidas e
acabar com carreiras promissoras.”
Daniel Goleman

Treinamento da
Competência Emocional
Objetivo: apresentar as principais ações de treinamento utilizadas no desenvolvimento da
competência emocional.

Desenvolver a competência emocional da equipe como um todo e, do atleta em


particular, envolve um conjunto de ações cuidadosamente planejadas.

A seguir, apresento algumas destas ações para que você possa ter uma idéia prática deste
projeto.

Proposta do Projeto de Desenvolvimento da Competência Emocional

O primeiro passo para se implementar um programa voltado ao desenvolvimento da


competência emocional de uma equipe de futebol, é estabelecer um projeto, uma
proposta de trabalho dirigido ao clube e, mais especificamente, à equipe técnica
representada pelo comandante do time: o técnico. Este documento poderá definir o
objetivo e as principais estratégias de implantação, formalizando assim, a relação
profissional com o clube.

65
Você terá acesso, a seguir, ao documento apresentado a Wanderley Luxemburgo, equipe
técnica e dirigentes do Santos Futebol Clube, em março de 1997, quando iniciei minhas
atividades com essa equipe:

Projeto de
Preparação Emocional
Santos Futebol Clube
Plano de Trabalho - Março/97

“O atleta de alto nível tem que buscar o equilíbrio emocional. Fica claro a importância
do quociente emocional no desempenho dos atletas de alto nível.
Quem tiver mais competência emocional terá vantagem.”
Wanderley Luxemburgo

Considerações Iniciais
Desde 1990 venho pesquisando, estudando e acompanhando equipes de diferentes
modalidades esportivas, particularmente equipes de futebol, no Brasil e no mundo, para
conhecer o que leva uma equipe a conseguir RESULTADOS diferenciados de alta
performance.
A base de fundamentação dessa pesquisa é:

• Identificar o que essas equipes de alta performance estão fazendo para alcançar
resultados excelentes; e a partir daí:
• Analisar o padrão de excelência ou seja, o que há em comum nelas; então:
• Desenvolver e implementar um Programa de Preparação Emocional para o Santos
Futebol Clube - voltado para as equipes de base até a equipe profissional - como
apoio a preparação técnica, tática e física.

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Método Equipe
Equilíbrio das Competências

Técnica Tática

Física Emocional

em busca da Perfeição

Meu interesse particular é descobrir:


• O que está sendo desenvolvido no Brasil e no mundo nas mais diferentes
modalidades esportivas com relação a preparação emocional e mental de atletas?
• Qual o grau em que as emoções influenciam e interferem nos resultados de uma
equipe?
• Que equipes estão utilizando trabalhos de preparação emocional?
• Quem são os profissionais que realizam esses trabalhos?
• O que acontece com o futebol? Que trabalhos estão sendo realizados? Por quem?
Como? Qual o nível de aceitação dos atletas e comissão técnica?
Quais as teorias psicológicas mais importantes
• em relação a competência emocional?

A conclusão que venho obtendo apontam para:


“as equipes que apresentam maior preparo emocional e mental, conseguem atingir o
seu melhor desempenho técnico, tático e físico. Esse fator acaba se tornando um
diferencial competitivo (o “algo mais”).
De outra maneira, quando não estão bem emocionalmente, não conseguem jogar tudo o
que sabem. Onde isso se revela? No momento do jogo, dentro de campo.
Principalmente em jogos mais decisivos

Observamos que profissionais excepcionais conseguem alcançar estados emocionais e


mentais de excelência. Alguns o fazem intuitivamente e outros, mais recentemente,
utilizam programas específicos para este propósito. Isso significa dizer que já existem
exercícios e técnicas para se conseguir alcançar o equilíbrio das energias psíquicas
como:
• controle da raiva e nervosismo;
• superação de limites, ansiedade e medo;
• Melhor nível de concentração para diferentes momentos da partida;
• Maior espírito de equipe, confiança, respeito, coragem, determinação, persistência,
paciência, etc.
Esses elementos podem influenciar num lance, contribuir para o clima do jogo, decidir
uma partida e até um campeonato e influenciar na jornada de vida de um profissional. E
é em busca dessa área de competência que voltamos todas as nossas atenções e
esforços.

Por outro lado, estados emocionais de baixa qualidade, podem influenciar


negativamente os resultados de uma equipe, como aconteceu no último Campeonato

67
Brasileiro. Assistimos atletas de alta performance, jogadores da seleção brasileira bem
preparados técnica, tática e fisicamente sendo expulsos de campo.
Esses momentos de “descontrole emocional” que muitas vezes levam o atleta a
expulsão, contribuem para desestabilizar a equipe e, muitas vezes, comprometer o
trabalho de preparação realizado durante meses. Além de “custar” muito para o time, o
atleta também acaba “pagando um preço” alto por esses momentos.
Portanto, a partir dessa realidade e necessidade, proponho o Programa de Preparação
Emocional, a seguir:

Programa de Preparação Emocional


Objetivo:
Apoiar a comissão técnica - informando e atualizando sobre o que existe de mais
moderno em relação a preparação emocional e mental de equipes esportivas no Brasil e
no mundo; e
Realizar programas de preparação emocional - desde as equipes de base até o
futebol profissional, através de exercícios e técnicas baseados em métodos científicos.

Conteúdo:
Palestras;
Mapa do Perfil Emocional Individual e da Equipe como apoio as decisões da comissão
técnica;
Atendimentos individuais;
Integração dos atletas novos e apoio ao atleta que está sendo transferido;
Programas especiais solicitados pela comissão técnica.
Recursos Instrucionais:
Previamente programados em função das atividades planejadas.

Acredito poder contribuir para esse novo momento do Santos Futebol Clube e me sinto
entusiasmada, com muita vontade de fazer deste trabalho pioneiro, um diferencial
competitivo, um “algo mais” em direção ao GOL e, principalmente em direção à
VIDA!!

Obrigado mais uma vez pela confiança.

Com carinho,

Suzy Fleury

Depois da aprovação da proposta frente a comissão técnica e dirigentes do clube, é


imprescindível apresentar os objetivos deste projeto ao elenco, os jogadores. Desta
maneira, solicito ao técnico, o primeiro encontro com o time completo para que possa
fazer uma Palestra de apresentação.

Palestra de Apresentação

68
Competência Emocional
para Equipes de Futebol

Suzy Fleury

A primeira ação efetiva, que costumo promover, quando assumo o Programa de


Desenvolvimento da Competência Emocional numa equipe de futebol, é reunir a
comissão técnica e o elenco numa palestra que tem como objetivo:
• Apresentação pessoal e
• Apresentação do trabalho, que estarei realizando a partir daquele momento.

Nesta primeira oportunidade de contato com todos os profissionais da equipe, é


indispensável estabelecer uma boa integração e procurar criar um clima de confiança e
expectativa positiva em relação aos trabalhos que serão realizados a partir daquele
momento.

Segundo o empresário Jan Carlson, em seu famoso livro: “A Hora da Verdade”:


“Você nunca terá uma segunda chance de causar uma primeira boa impressão”.

Inicio, dizendo com muito carinho, que, todos nós temos um sonho, uma “vontade
danada de chegar lá”, de ser uma pessoa “bem-sucedida”. E é, justamente, procurando
tornar este sonho realidade, que nos encontramos. É como se, num determinado ponto da
jornada que estamos fazendo, num determinado ponto do caminho, nos encontrássemos
para acrescentar às nossas vidas, uma maior possibilidade de realização. Isso dá um
significado maior aquele objetivo, o fato de estarmos, ali, juntos, em busca de nossos
sonhos. O meu objetivo particular é:

Preparação Emocional
Respeitada e Reconhecida
Cientificamente

Visão

Acompanhando as mudanças, que estão ocorrendo no mundo, procuro mostrar, num


contexto mais amplo, que o futebol também está mudando. Hoje, mais do que nunca, o
futebol está sendo encarado como um negócio em ascensão. Com esta perspectiva
ampliada, passo a apontar as variáveis, que compõem esse sistema e analisar com o grupo

69
algumas mudanças que ocorreram como, por exemplo, a evolução da preparação física
nesse esporte em particular.
Futebol - Variáveis

Tecnologia da Investimento em
Mercado Entretenimento
Comunicação
Midia
Patrocinador
Clube
Estádio
Torcida Torcida
à Favor Resultado Contra
Competências
Técnica-Tática-Física-Mental

Equipe
Objetivo
Adversária

Regras e Arbitragem

Comissão Técnica-Imprensa
Condições Campo-Climáticas
Casa-Fora

Antes Jogo Depois


Momento

Mesmo com uma formação fortemente orientada para o trabalho clínico, ou seja,
terapêutico, voltei minha especialização para a psicologia empresarial, procurando
principalmente na neurociência (ciência que estuda o cérebro humano) explicações para a
estrutura da excelência. Ou seja, a partir dos estudos e pesquisas que realizo, procuro
conhecer as estratégias mentais utilizadas pelos melhores atletas do mundo e, assim,
compreender o padrão mental e fisiológico comum às essas pessoas.

Psicologia
Excelência
(Neurociência)

________________________________________
Problemas

Encontrei explicações científicas importantes, por exemplo:


Pessoas bem sucedidas têm verdadeira paixão pelo que fazem

Apresentando e explorando o conteúdo da Palestra de apresentação que, de certa maneira,


repete conceitos já citados anteriormente, procuro transmitir a você uma dimensão prática
das ações de treinamento. Gostaria de ressaltar o aspecto que considero mais importante
numa palestra ou curso: a metodologia, ou seja, a forma ou maneira de se transmitir os
conceitos princípios e informações.

Metodologia - A Alma do Negócio

Assim como os profissionais de vendas, o jogador de futebol também não tem muita
paciência de ficar escutando argumentos e teorias a respeito da influência das emoções na
nossa performance e, conseqüentemente, nos resultados que obtemos na vida. Portanto,

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um dos aspectos mais importantes a ser considerado no trabalho com esportistas é a
metodologia utilizada, a maneira de transmitir essas informações para a equipe. Quanto
mais concreto, ou seja, quanto mais exercícios e experiências práticas puder adotar nas
palestras e treinamentos, maior será o interesse e a compreensão do grupo em relação ao
tema.
É importante usar como base de argumentação teórica, trabalhos científicos
comprovados, porém, tanto com empresários como com atletas, tento passar estas
informações da forma mais agradável e vivencial possível. Dessa maneira, a esta altura
realizo um exercício simples, geralmente bastante apreciado nas empresas e nos clubes de
futebol.

EMOÇÕES

A Magia da Vida

Exercício:
Com a música “Emoções”, tocando, cantada por Maria Betânia, passeio entre os
participantes e pergunto: “Quem dança comigo?”
Nesse momento, um clima novo é estabelecido. Enquanto algumas pessoas se encolhem
nas cadeiras com certo constrangimento, outros me olham com um ponto de interrogação:
“Será que ela está falando sério?”. Outras demonstram que: “Se ninguém for eu vou”, até
uma pessoa se levantar e, sem saber muito bem como começar, se oferece e para aquela
experiência.
Dançamos, sob os olhos curiosos da platéia por um minuto aproximadamente e, é aí que
reúno todos os argumentos que preciso para demonstrar concretamente a relação
Mente/Corpo e a influência das emoções em nossa performance e comportamento.

Pergunto para os participantes:


-Como está as mão do “dançarino”?
Quase que em coro, escuto respostas como:
-Gelada! Fria! Suada!
E continuo.
-Como está a respiração?
-Ofegante! Acelerada!
- O Coração?
-Batendo forte!
-As Pernas?
-Bambas! Trêmulas!

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-Por que?
-(por alguns segundos, todos ficam em silêncio)

Na realidade, experimentamos diferentes reações emocionais ao longo de toda a nossa


vida, mas poucas vezes temos a oportunidade de nos perguntar: “Por que?”

A primeira conclusão, que tiramos dessa experiência, portanto, é:


As emoções não são coisas subjetivas, como se pensava antigamente. Coisas que “só
Freud explica”. Elas continuam a inspirar poetas e compositores, mas, mais do que isso,
elas mexem literalmente com a química do nosso corpo, alterando significativamente
nossa fisiologia. E, se pudermos conhecer mais sobre elas, evitaremos algumas vezes nos
tornar reféns de nós mesmos ou reféns de nossas próprias emoções.

E continuo o exercício perguntando:


-O que ele sentiu foi raiva?
E mais uma vez, com a segurança de quem é mestre no assunto, vem a resposta:
-Não!
-Como é que vocês sabem?
-Eu também estaria sentindo isso se tivesse dançado com você! Tá na cara que não é
raiva!

Outra conclusão importante, que envolve dois aspectos em particular nesse momento do
exercício, é que:
O grupo está praticando um dos mais fantásticos sentimentos que um ser humano pode
experimentar - a empatia, que é a capacidade maravilhosa que temos de nos colocar no
lugar do outro. Todo o trabalho em equipe de qualidade deve estar sustentado por alguns
sentimentos e a empatia é a base, um fator indispensável aos relacionamentos humanos
de qualidade.
Outro aspecto a ser observado é que cada emoção tem uma fisiologia própria, ou seja, as
reações corporais, que aparecem em alguém, que está com raiva são diferentes da reação
de quem está com medo, por exemplo.

A primeira lição que podemos utilizar para assumir com maior propriedade os estados
emocionais que nos envolvem, é identificar claramente a fisiologia das emoções e assim,
entender o que a raiva, o medo ou o amor fazem com a nossa química interna e,
consequentemente, com as nossas reações.

Embora todos os sentimentos e desejos sejam aceitáveis, nem todos os comportamentos o


são. Portanto, quando um profissional age de forma, que possa prejudicar a si e ao grupo,
esta atitude deve ser revista e, de preferência, evitada, quando temos uma perspectiva de
trabalho mais preventiva.

Praticar o treinamento da emoção, porém, não garantem o fim das brigas dentro e fora de
campo, das agressões verbais, dos sentimentos de tristeza, ansiedade e tensão. O conflito
faz parte da vida de maneira geral. No entanto, quando adotamos o treinamento da

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emoção, nos aproximamos mais dos nossos objetivos e, conseqüentemente, conseguimos
lidar com maior competência com os problemas e dificuldades que, certamente,
encontraremos ao longo do caminho.

Fisiologia das Emoções

Continuando a explorar um pouco mais o exercício anterior, prossigo o trabalho com o


grupo, dizendo que temos sete emoções básicas e primárias, que combinadas, irão gerar
uma infinidade de outras emoções. Muito embora os estudos sobre estas emoções
consideradas básicas, ainda não tenham sido totalmente concluídos, a que iremos
trabalhar a seguir poderá nos ajudar significativamente.

Sobre o MEDO, pergunto:


-Como fica o rosto de uma pessoa que está com medo?
-Fica branco, pálido!
-Batimentos cardíacos?
-Acelerado!
-Respiração?
-Ofegante!
-Pernas?
-Trêmulas!
-Por que?

Quando sentimos medo, o sangue flui para as pernas, preparando o organismo para a
fuga.

Diferente da RAIVA, que traz o sangue para os membros superiores como: cabeça e
mãos. Um ponto de intensa concentração da raiva é a mandíbula. Observamos,
principalmente em animais irracionais, ou no comportamento de crianças através das
famosas, e muitas vezes temidas, mordidas. Como adultos, emocionalmente mais
amadurecidos, deveríamos gerenciar melhor essa energia, mas observamos reações de
agressividade inadmissíveis para seres humanos tidos como racionais. Além de Mike
Tyson, em 97, tivemos um dirigente do Bragantino mordido no nariz de forma
literalmente canibal.

Bem, vimos que o medo prepara o corpo para a fuga, a raiva nos prepara para o ataque e
quanto ao amor?
-Para onde vai o sangue de uma pessoa apaixonada? Olha lá, hem! Veja bem onde é que
vaõ os seus pensamentos.
Nesse momento, o grupo dá uma risada geral e isso é uma parte importante, uma forma
de descontração, que me aproxima mais deles.

O AMOR é uma experiência maravilhosa. Até a química do corpo reage de forma


especial. Quando estamos apaixonados, seja por uma pessoa ou por algo que fazemos, o
sangue circula com harmonia, levando com maior produtividade o oxigênio para todas as

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partes do corpo (células, órgãos e músculos). Quando vivemos essa experiência, temos a
real sensação de bem-estar, de paz e prazer. Geralmente ficamos em “estado de graça”,
muitas vezes com “cara de bobo” e dizendo aquela expressão tão conhecida “eu estou nas
nuvens”. Literalmente, somos invadidos por um bem-estar generalizado. Com isso, nossa
musculatura responde melhor, a capacidade criativa é mais estimulada, uma vez que há
um equilíbrio maior na distribuição de oxigênio para nosso cérebro.
As emoções podem ser classificadas em graus diferentes de intensidade. Nas paixões
desvairadas, por exemplo, podemos encontrar reações tão desequilibradas como os
comportamentos gerados pelo ódio ou ira. Por isso, não consideraremos os estados
emocionais extremos nesse momento do trabalho.

Entendendo um pouco melhor a fisiologia das emoções, podemos compreender, porque


uma pessoa que gosta do que faz, tem maior probabilidade de realizar um trabalho de
qualidade.

A TRISTEZA gera um comportamento típico, que se caracteriza pelo olhar para baixo,
ombros caídos, baixo nível de energia e que pode ser observado até no caminhar de uma
pessoa. Costumo dizer que estes estados de tristeza ou pessimismo não são típicos de
pessoas vitoriosas. É impressionante o que uma mente pessimista pode fazer com o corpo
humano.

Quando uma pessoa vive a experiência da SURPRESA, os órgãos dos sentidos tendem a
se abrir para o meio ambiente, na tentativa de obter melhores informações sobre o que
está ocorrendo. Expressões como: “olhos arregalados” e “queixo caído”, são reações
típicas de quem está passando por essa situação.

Exercício: com o objetivo de fazer com que os atletas e comissão técnica experimentem
uma situação máxima de surpresa, o SUSTO, faz uma experiência que é: mostro um
pequeno objeto, com o formato de um cone e pergunto: o que vocês estão vendo?
A resposta é óbvia: um cone.
Sem que o grupo espere, num leve movimento, puxo um cordãozinho preso ao cone e ele
explode, literalmente. O estouro é, de certa maneira, forte e as pessoas se assustam de
verdade.

Quantos segundos levamos para escutar o barulho e nos assustar? É praticamente


instantâneo. Talvez possamos falar em milésimos de segundos.

A seguir, apresentarei as emoções primárias, que combinadas, vão gerar centena de


outras emoções.

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Fisiologia das Emoções
Medo - sangue flui para as pernas, rosto lívido, sensação de “gelar”,
corpo alerta ou imobilizado, torrente de hormônios;
Ira - sangue flui para os membros superiores aceleração dos batimentos
cardíacos, adrenalina, energia vigorosa;
Felicidade - maior atividade no centro cerebral, inibe sentimentos
negativos, favorece aumento da energia, oferece ao corpo repouso geral,
disposição e entusiasmo;
Amor - conjunto de reações que gera estado geral de calma, satisfação,
facilitando a cooperação;
Surpresa - maior quantidade de luz atinge a retina, mais informa-
ção sobre o fato inesperado. Mais fácil perceber o que está acontecendo
assim, conceber um plano de ação.
Tristeza - queda na energia e entusiasmo, reduzindo a velocidade me-
tabólica do corpo.
Repugnância - alguma coisa desagrada ao gosto ou olfato, real ou
metaforicamente. Expressão facial de nojo - lábio superior se retorce e
o nariz se enruga

Num certo sentido, temos dois cérebros, duas mentes - e dois tipos diferentes de
inteligência: racional e emocional. Nosso desempenho na vida é determinado pelas duas.

Nossas Duas Mentes “Na melhor das hipóteses,


o QI contribui com cerca de 20%
para os fatores que determinam o
Pensa Sente
Racional Emocional sucesso na vida, o que deixa 80% a
Q.I. Q.E. outras forças”
Daniel Goleman
A Teoria que redefine o que é Ser Inteligente

Semi-dependentes

Em momentos de surpresa, susto ou pressão emocional, a tendência natural é a mente


emocional reagir primeiro. Ou seja, primeiro nos assustamos: “Ah!”, para depois a mente
racional encontrar uma resposta para o que está acontecendo: “Ih, ela estourou uma
“bombinha”, o que será que está acontecendo?” Portanto, a conclusão é: a mente
emocional exerce uma influência forte sobre a mente racional em diferentes momentos da
nossa vida, influenciando significativamente em nossas reações e comportamentos.

Durante a palestra, além dos exercícios e “efeitos especiais” como a “bombinha” que
estouro para criar uma situação de surpresa e susto, costumo passar também, alguns
filmes. Procuro com esse recurso apresentar algumas experiências vividas por pessoas
que considero Vencedores com “V” maiúsculo.

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Filme: um desses vídeos é um Clip com a música “Amigos para Sempre” cantada por
José Carreiras e Sarah Britman. Durante o show dessa dupla simplesmente fantástica,
cenas de diversos esportistas são apresentadas, causando momentos arrepiantes. Além de
serem dois tenores reconhecidos, José Carreiras tem na sua história de vida uma das mais
importantes conquistas - venceu a luta contra o câncer.

Depois de assistir a fita, solicito aos participantes que me ajudem a fazer uma lista dos
elementos que são indispensáveis às conquistas e vitórias.

Exercício: enquanto vão falando sobre essas características, vou anotando todas as
contribuições. Coisas como: dedicação, persistência, disciplina, coragem, objetivo,
superação, trabalho em equipe, humildade, criatividade, ousadia e responsabilidade,
aparecem em 100% das vezes.

Parando para analisar cada um desses elementos, chegamos a conclusão que: pelo menos
80% desses elementos são elementos emocionais. E mais, não dá para comprar nem
emprestar com outras pessoas. Ou conseguimos essas emoções dentro de nós mesmos ou
ficaremos sem as principais emoções e sentimentos, que são indispensáveis às conquistas
e vitórias.

Quando olhamos para um vencedor, muitas vezes desconhecemos o caminho que ele teve
para percorrer até chegar aquele patamar. A diferença entre quem consegue a realização e
os outros é que diante das dificuldades, eles encontram forças em seus corações para
superar e continuar a caminhada. Por esse motivo que durante nossa jornada de vida
precisamos usar uma atitude mental positiva. Isso faz com que a gente assuma uma
postura de um vencedor. Isso significa que, mesmo nos momentos mais difíceis, diante de
situações que parecem impossíveis, respiramos profundamente, reagimos e continuamos
nossa jornada.
Filme: A Siamar, empresa de vídeo e treinamento, tem um filme chamado “A Escolha é
Sua”, que conta em dez minutos a história de pessoas vencedoras como: Steve Wonder,
Thomas Edson, Hay Kroc (Fundador do McDonald’s) e Steven Spelberg.

Trabalho em Equipe

O futebol é um esporte coletivo. Essa característica exige que todo o trabalho seja
dirigido para essa realidade. Entender exatamente o que significa “espírito de equipe” é
um passo importante no desenvolvimento da competência emocional.

Um dos melhores técnicos de basquete, Pat Riley, em seu livro “The Winner Within”
(livro que Carlos Alberto Parreira me indicou), escreve:

“O Trabalho em equipe é a essência da vida.


Se existe uma coisa com a qual sinto ter autoridade, esta coisa é como misturar e
potencializar grandes talentos e forças individuais em direção àquela força maior que se
estabelece mais do que a soma das partes.

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Minha crença é:
Um trabalho de equipe superior é o único caminho para se alcançar momentos máximos
e especiais, criar a superação dos limites que definirá nossas carreiras e construir
nossas vidas com senso mais profundo e duradouro de significado.
Todos nós somos jogadores de um time, tenhamos consciência disso ou não.
Nossa importância chega através de nossas conecções vitais com outras pessoas, através
de todos os times dos quais participamos em nossas vidas.
A vida em família é o time central de experiências.
Você pode ser um dos que participa disso, quem joga, aquele que está no palco,
realizando. Isto é o que fará de você o melhor.
Todo o time é um palco para se colocar, um lugar para representar o drama das nossas
vidas.
Quando nossos times alcançam a excelência, nós vencemos.
Nossos melhores esforços, combinados aos dos nossos companheiros crescem para algo
muito maior e para um nível de satisfação maior do que qualquer coisa que nós
tenhamos alcançado e realizado por nós mesmos. Times fazem parte de nós, fazem parte
de algo que realmente importa. Eles são a fonte da qual todos somos recompensados no
final da corrida.
No entanto, trabalho em equipe não é simples. De fato, isto pode ser uma frustração, um
investimento sem retorno. É por isso que existem muitos “maus” times por aí, sem
expressão ou descendo ladeira abaixo. Trabalho em equipe não é fazer aparições
mágicas, justamente porque está presente, tem talento ou ambição. Isto não faz crescer
ou florescer apenas pelo fato do time ter provado sucesso.

OBS: estou apresentando os principais conceitos que utilizo no trabalho de treinamento


emocional. Aqui, contando um pouco do conteúdo da palestra que realizo para os
profissionais, procuro dar uma idéia dos princípios científicos que fundamentam o
trabalho, ao mesmo tempo que busco exemplificar a maneira como passo isso para eles,
ou seja, a metodologia utilizada. Um dos recursos metodológicos mais fortes que utilizo
nos trabalhos em campo ou nas palestras é metáforas, que tanto podem ser verbais como
não verbais. (Segundo o dicionário Aurélio, Metáfora consiste na transferência de uma
palavra para um âmbito semântico que não é o do objeto que ele designa, e que se
fundamenta numa relação de semelhança subentendida entre o sentido próprio e o
figurado. Trocando em miúdos, é o uso da linguagem simbólica ou figurada). Utilizar a
linguagem metafórica representa alcançar uma comunicação que chega aos dois
hemisférios cerebrais, tanto o direito como o esquerdo. Uso e abuso desse recurso
poderoso de comunicação e, inclusive, procuro aprofundar essa habilidade em diferentes
momentos da minha vida. Essa forma de comunicação pode ser utilizada pelos técnicos,
comissão, imprensa e qualquer pessoa que tenha como objetivo uma comunicação mais
poderosa Vou utilizar essa linguagem, nas próximas páginas, para explorar o conceito de
Trabalho em Equipe.

O melhor exemplo que tenho para ilustrar o verdadeiro significado do trabalho em equipe
campeão, está dentro do corpo humano (esse exemplo é uma metáfora). Qual, na sua
opinião é o órgão mais importante no corpo humano? O cérebro? Coração?

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Na realidade não existe apenas um órgão importante para a vida do ser humano. TODOS
são indispensáveis para o equilíbrio e para a saúde. Cada um tem que fazer bem feito a
sua parte. Talvez o intestino não tenha o mesmo status do cérebro ou o romantismo do
coração, mas se ele resolver “fazer greve”, todas as outras partes do corpo irão sofrer
com isso. Outra coisa importante é perceber que não adianta o coração querer se meter a
fazer o trabalho do cérebro ou vice-versa. Cada um tem que fazer bem feito a sua parte.
Uma equipe é um sistema vivo que deve procurar trabalhar em equilíbrio e sintonia. E
como os órgãos do corpo humano, cada um tem que fazer com qualidade o seu trabalho,
entendendo que o objetivo coletivo só vai ser alcançado se cada um fizer a sua parte.

Outro filme que utilizo para trabalhar o conceito de trabalho em equipe é:


“Um Time de Águias” - Distribuído no Brasil pela Siamar
Mike Singetare, jogador de futebol americano que consegue ganhar o torneio mais
importante nos EUA - NFL e nos ensina que: “de todas as criaturas que há no mundo a
que eu mais admiro é a águia. Seu poder, sua graça e sua independência são magníficas.

“...Aí está ela voando alto, em paz total consigo mesma, controle absoluto...
As vezes gosto de me imaginar como uma Águia: o indivíduo completo, alguém com
total confiança em sua capacidade de sobreviver e de ter sucesso.
Meus amigos me vêem com olhar engraçado quando me escutam dizer isso:
-“Mike”, dizem eles, o cara que prega o trabalho em equipe dia e noite? O capitão da
defesa do time por 10 anos seguidos? Mike uma Águia solitária?
É sim. Mas eles não me entenderam.
Percebem?
Tornar-se uma Águia é o primeiro passo para o trabalho em equipe
É o ponto de partida
É o lugar para começar se você quiser se tornar o melhor jogador
do time que quer ser campeão

Essa parte do filme demonstra que um trabalho em equipe campeão começa com o atleta,
individualmente. Uma pessoa confiante, motivada, que faz seu trabalho com inteligência
e qualidade, procurando dar o máximo de si e, se superar. Aqui podemos perceber
claramente que o trabalho em equipe começa com o desenvolvimento da Competência
Intrapessoal (aspectos internos, individuais)

Mike conta que começou a vida mais para um pardal do que para uma Águia e fala sobre
a infância pobre e do lar desequilibrado que teve. Mas, acredita que, diante dessa
realidade, conseguiu aprender duas grandes lições. Uma, com seu treinador, e outra com
a professora da escola. As lições foram: Precisamos nos comunicar e Sempre dar o
melhor de nós naquilo que a gente faz.

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São as habilidades básicas e essenciais que você precisa para ser uma Águia. São
habilidades que você precisa se quiser voar.

O que significa ser uma Águia?


As Águias são pessoas equilibradas.
As Águias sabem quem elas são, conhecem seus pontos fortes e fracos.
Se você for uma Águia estará bem a vontade consigo mesmo para entender o quadro
geral e o seu papel nele.
Não precisa de subterfúgios. Você é direto e transparente com todo mundo.
Uma Águia é uma só.
Uma Águia é tudo.
É o componente fundamental de um time vencedor. Porque um time vencedor é
composto por grandes realizadores individuais contribuindo com talentos individuais,
conhecimentos, sabedoria e acima de tudo dedicação.

Então percebe, o membro eficaz de um time é uma Águia - um realizador com um alto
grau de auto consciência, amor próprio construtivo.
Mas é preciso muito mais do que a contribuição individual da águia para
perseverar, para vencer. É preciso coragem e maturidade para pegar todos esses
talentos que você possui e compartilhar sem egoísmo com os outros do seu time para
que sejam grandes: JUNTOS.

Nesse momento ele apresenta os elementos para um trabalho em equipe campeão.

Os Bears de Chicago
Quando entrei no time, cada um de nós era uma Águia, cada jogador trazia algo de
especial para o time: bloqueio, drible, passe, corrida, ataque, defesas especiais, tínhamos
todo o talento que precisávamos mas não tínhamos aprendidos a juntar as peças, não
éramos maduros o bastante para sermos um time, tínhamos de aprender alguma coisa
nova, tínhamos de aprender a trabalhar juntos, tínhamos de aprender a apreciar as
diferenças que cada um de nós trazia para o time, tínhamos de aprender como vencer.

A primeira coisa que tínhamos de aprender era:


1)Ter uma meta comum - para nós era a parte mais fácil. Nós queríamos ganhar o
Superball, não só o próximo jogo nem o próximo campeonato regional, mas ganhar o
prêmio máximo, sermos reconhecidos como o melhor time de futebol americano do
mundo. Tínhamos uma meta clara, uma meta comum. Sabíamos para onde estávamos
indo, todos dançávamos a mesma música.

2)Aprender as habilidades dos outros jogadores do time - isso foi um pouco mais
difícil, porque para fazê-lo você precisa prestar atenção nas necessidades de seus colegas

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e não só nas suas. Você precisa perguntar: “Os seus valores podem equilibrar as minhas
fraquezas?”, “Meus valores podem equilibrar as suas fraquezas?”, “Podemos compensar
um pelo outro, pelo bem do time e como um todo?”.

3)Nossa terceira lição foi Aprender a se comunicar um com o outro no time - isso
pode ser brutal porque você precisa achar o equilíbrio entre o feedback positivo e o
negativo, ou poderá ser devastador. Você precisa dizer as coisas boas sem sarcasmos nem
egoísmos. Precisa dizer as coisas ruins, sem ser cruel nem tampouco destrutivo. E precisa
saber escutar as críticas, ficar com raiva e saber superar isto. É uma experiência dolorosa,
que faz um time se fortalecer.

4)O número quatro precisou de muita concentração para ser realizado: Aperfeiçoar sua
Arte - você nunca será o melhor apenas com boas intenções. Você precisa saber o que
está jogando, e continuar melhorando sempre.
Você precisa fazer mais uma pergunta.
Você precisa trocar mais uma idéia.
Você precisa saber que nunca aprendeu tudo.
Você precisa reconhecer que sempre há muito mais para aprender.
Você precisa ainda reconhecer a verdade brutal de que, se seu conhecimento e habilidade
pararem de crescer você e sua equipe irão parar de crescer, e no final, você perde.
5)Havia mais uma lição para aprender e foi muito dura: Precisávamos aprender a
executar.

Se você for mesmo uma Águia e conhecer a sua arte, deve saber como fazer a sua parte e
como encaixar perfeitamente as suas habilidades com as de todos os outros de seu time.
Isto exige prática, golpes duros, experiências, fracassos e sucessos, até que todo mundo
no time pense igual, tenha as mesmas idéias e sua execução seja absolutamente perfeita.
Se quiser jogar em um time vencedor, não pode esquecer pequenos detalhes, não pode se
dedicar menos do que um envolvimento completo.
Cinco lições simples, porém difíceis, era o que era preciso fazer para que um bando de
Águias virasse um time. Um time que estava pronto para vencer.
Aprendemos a confiar uns nos outros.
Aprendemos a discutir problemas e chegar a decisões.
Aprendemos a superar barreiras.
Aprendemos a compartilhar perigos e sofrimentos.

E no final de um dos melhores torneios da NFL (National Football League), nós


conseguimos. Ganhamos o Superball. Éramos os melhores. Estávamos voando alto.
Éramos um time de Águias”.

“Um time de Águias comprometidas umas com as outras é que nos leva a vitória”

Essa é uma lição importante sobre o trabalho em equipe campeão

Perfil Individual e da Equipe

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A personalidade de um atleta tem uma relação direta com sua performance. Cada posição
em campo possui características específicas, exigindo competências específicas.
O Treinamento da Competência Emocional, programado para atuar com a equipe e os
atletas mais especificamente, é cuidadosamente elaborado a partir de dois pontos
importantes:

1.Perfil ideal da equipe para aquela temporada de trabalho. A partir de informações


levantadas com todos os membros da equipe técnica e com especial contribuição do
“comandante” que é o técnico, é traçado um perfil considerado o ideal;
2.Perfil real que representa as principais características do elenco naquele momento,
tanto no aspecto coletivo como individual.

Perfil Programa de
Competência
Perfil
Real Emocional Ideal

Uma das maneiras que temos de desenhar o perfil ideal é, estudar as melhores equipes de
futebol daquele campeonato em particular. Por exemplo, identificar as equipes campeãs
dos Campeonatos Estadual ou Brasileiro e, junto com a comissão técnica identificar as
principais características que contribuíram para esses resultados. Utilizo um questionário
para orientar a reflexão dessas informações e, de certa forma, padronizar os principais
pontos de discussão. Claro que uso esse questionário muito mais como um orientador do
que limitador de opiniões.
Essa pesquisa me mostra a visão da comissão técnica em relação as principais
características de um time vencedor. Ela me ajuda também a identificar e mapear a
estratégia mental que esses profissionais excepcionais usam quando preparam os
jogadores. Fazendo isso, obtenho dois benefícios : 1.além de conhecer a visão que têm do
time vencedor, 2.passo a me integrar melhor com a linguagem do futebol, fundamental
para quem quer trabalhar e contribuir com esse esporte.

Uma vez identificado o perfil ideal do time com os membros da comissão técnica,
partimos para um outro levantamento - identificar o perfil real, as principais
características dos atletas até aquele momento.
Para esse trabalho pesquisei no mercado o que havia de mais moderno e eficaz em
relação aos instrumentos de avaliação do perfil profissional. Essa pesquisa me levou a
três importantes sistemas:
• Mapeamento Cerebral - é um programa de computador que, a partir de um
questionário, oferece informações sobre a personalidade e vocação do profissional,
criado pelo reconhecido consultor de empresas, Simon Franco;
• Hicon - também utiliza um sistema que caracteriza o perfil profissional a partir do
comportamento humano;

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• Predictive Index (Indice de Previsibilidade)- sistema de software americano, também
utilizados nas empresas com o objetivo de procurar as melhores soluções a partir das
aptidões profissionais.

Ao pesquisar esses sistemas percebi que os três poderiam me trazer informações


preciosas sobre as características de personalidade do elenco e equipe técnica, não para
ser usado como o único indicador, mas como um sistema que permite avaliar o potencial
de cada atleta de maneira mais precisa, isenta observações de cunho mais pessoal e
diminui a subjetividade no processo de avaliação.
Além dessa conclusão, refleti criticamente sobre a validade desse tipo de instrumento no
futebol e minha percepção é - por que não?, uma vez que parto do argumento inicial de
que o futebol é um negócio que precisa ser gerenciado com competência Por que não
utilizar o que há de mais moderno na área empresarial? Considerando as características
desse esporte, podemos nos beneficiar muito dos novos recursos que a tecnologia coloca
a nossa disposição.
Pensando um pouco sobre os instrumentos disponíveis na medicina atualmente, é
inadmissível se fazer uma avaliação cardíaca sem realizar um eletrocardiograma, não é
verdade?

Optamos pelo sistema P.I. que significa dizer, metaforicamente, que é como um “eletro”
da personalidade humana.
A história do P.I. surgiu com Arnold Daniels, em 1942, quando se alistou na Força Aérea
dos Estados Unidos. Depois de completar as missões de combate, foi convocado para
trabalhar num projeto especial, dirigido por psicólogos, com o objetivo de estudar o
comportamento da tripulação que participaram dos bombardeios para identificar as
razões do sucesso ou fracasso das missões aéreas sobre a Europa. Três motivos
justificavam esse trabalho:
1.Custavam a vida dos tripulantes;
2.A perda de aeronaves;
3.Exigia muito tempo de treinamento.

Após o término desse projeto, que lhe proporcionou muita experiência no uso de testes e
mensuração psicológica, a Força Aérea o encaminhou para a Harvard Graduate School of
Business Administration” para que pudesse se especializar em “Gerenciamento e
Estatística”, com cursos adicionais de psicologia, ampliando seu conhecimento sobre a
matéria. Ao retornar para a vida civil em 1953, iniciou o desenvolvimento do P.I. para ser
implementado na empresas de negócios. Atualmente, é representado no Brasil pela
Empresa Prindex, atraves dos consultores Neusa Miguel e Elmano Nigri.

A implantação deste sistema é rápida e fácil: em primeiro lugar, um questionário com


apenas uma folha de resposta frente e verso é preenchida pelos profissionais; depois essas
informações são colocadas num softwere que analisa e projeta o perfil tanto coletivo
como individual dos participantes. As análises que esse instrumento científico oferece
apresenta aspectos da personalidade.

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Resumidamente essa técnica descreve a personalidade básica da pessoa para as funções
que cada profissional ocupa. Além disso, indica os ajustes que podem ser orientados
quanto ao comportamento e como está o desempenho da pessoa naquele momento.
Ele mede quatro impulsos:
1. Fator de Dominância - que é a capacidade de dominar a situação, assumindo riscos,
sem se sentir inibida ou com medo do fracasso;
Alto nível de dominância - significa uma pessoa que gosta de desafios e assumir
riscos.
Baixo nível de dominância - pessoas que preferem atividades mais seguras, que
possam
ter mais certezas quanto aos resultados.
2. Fator de Extroversão - refere-se a facilidade de relacionamento humano que é base
para o trabalho em equipe;
Alto nível de extroversão - aparece nas pessoa capazes de persuadir e influenciar
outros. Essa é uma característica típicas de líderes.
Baixo nível de dominância - pessoas que se apoiam em sua capacidade técnica,
analisando as situações de forma concreta.
3. Fator de Paciência - é observado quando uma pessoa demonstra ser sistemática e
mais previsível no trabalho;
Alto nível de paciência - pessoas que preferem ambientes de trabalho mais
estável e previsível.
Baixo nível de paciência - pessoas que preferem ambientes mais variados e
conseguem
manter a qualidade trabalhando sob pressão
4. Fator de Formalidade - mede o impulso que demonstra a necessidade de regras e
políticas claramente definidas.
Alto nível de formalidade - aparece nas pessoas que preferem ambientes de trabalho
mais estável e previsível.
Baixo nível de paciência - pessoas do tipo “deixa comigo” que são as que preferem
maior liberdade para agir.

O Sistema P.I. é o resultado da combinação dos seis fatores acima descritos. Para que
você possa ter uma idéia do que representa esse trabalho, vou contar nossa experiência no
Santos Futebol Clube. Numa apresentação realizada por Alexandre Ribas, consultor da
Prindex no Brasil (curiosamente campeão Brasileiro de Remo) os atletas e comissão
técnica tiveram uma visão geral dos resultados desse trabalho, durante aproximadamente
três horas.
Ao final dessa exposição que durou três horas aproximadamente, um relatório completo
nos foi entregue com as seguintes informações:
-Perfil individual dos atletas e equipe técnica (relatório que continha em média 11
páginas de descrição, por profissional),
-Perfil da equipe quanto ao: estilo, moral, nível de energia, nível de perda de potencial,
aproveitamento, dominância, comunicação, ritmo, mudanças e motivadores. (pasta com
gráficos e relatórios com grande número de informações e um pequeno manual de
procedimentos para ser utilizado diariamente)

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Esse trabalho teve uma grande receptividade por parte da comissão técnica do Santos
Futebol Clube, criando uma discussão coletiva das características individuais do elenco.
O ganho maior foi consegui observar com maior profundidade as características e o
momento vivido pela equipe e identificar essas informações no aspecto mais
individualizado.

Jornaizinhos e Momentos de Sabedoria

O jornalzinho é um canal de comunicação que encontrei para registrar algumas


informações importantes: pesquisas, dados dos adversários, histórias e mensagens. São
distribuídos após uma palestra, nas viagens, no centro de treinamento ou durante as
concentrações. É um instrumento bem aceito pela equipe e separei 4 exemplares para dar
uma idéia do formato e conteúdo abordado.

Jornalzinhos - 4 modelos

Preparação Emocional
Suzy Fleury 1997

Minuto de Sabedoria

TODX PESSOX É IMPORTXNTE

Emborx minhx m’xquinx de escrever sejx xntigx,


elx funcionx bem com exceç~xo de umx teclx.

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Você pode pensxr que, com todxs xs outrxs teclxs funcionxndo xdequxdxmente, umx que
n~xo funcione dificilmente ser’x notxdx;
mxs umx simples teclx desregulxdx
pxrece xrruinxr todo o esforço.
Você pode dizer pxrx si mesmo:
Bem, sou xpenxs umx pessox.
Ninguém perceber’x se eu n~xo me esforçxr xo m’xximo. Mxs fxz diferençxa, porque
um time, pxrx ser cxmpe~xo, necessitx dx pxrticipxç~xo de cxdx um,
dxndo o m’xximo de sux cxpxcidxde.
Xssim, dx próximx vez que pensxr que n~xo é importxnte, lembre-se dx minhx velhx
m’xquina de escrever.
Você é umx pessox chxve.

Retirado do livro: “Qualidade Começa em Mim”


Autor: Tom Chung

Suzy Fleury
Preparação Emocional 1997

Minuto de Sabedoria

Águias Podem Voar

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Um rapaz foi um dia as montanhas, encontrou um filhote de águia e resolveu trazê-la
para a cidade. Como não tinha como criá-la, pediu a um amigo que morava nos arredores
da cidade, numa pequena granja. O amigo relutou, mas acabou concordando e deixou a
águia junto com as galinhas e frangos. A águia passou a comer da mesma ração e cresceu
rapidamente.
Passado algum tempo, o rapaz voltou curioso para ver a águia. Para sua decepção, aquilo
não era uma águia. Era grande mas tinha hábitos de galinha, voava como galinha e se
comportava como uma galinha mesmo com aquelas enormes asas. Inconformado o rapaz
pegou a águia, apoiou-a nos braços e disse:
“Águia, você foi criada em galinheiro, mas você não é um frango ou galinha. Veja o
tamanho de suas asas. Você é uma águia. Voe águia!
E soltou-a. A águia fez um vôo de galinha e foi correndo juntar-se ao bando. Correndo
para não perder a ração.
O rapaz apanhou novamente a águia, levou-a para o alto de um rancho e repetiu a lição.
Soltou a águia que mais uma vez foi correndo juntar-se ao bando para comer a ração.
Pela terceira vez, o rapaz buscou a águia, levou-a para o alto das montanhas de onde
viera e disse:
“Águia, todo esse horizonte é seu. Todo esse espaço infinito é seu. Veja lá longe o
cantinho onde você foi criada e olhe o espaço imenso à sua volta. Tudo isso é seu.
Voe Águia!” E soltou-a.
Do alto da montanha a águia desprendeu suas asas e voou... Voou como Águia pela
primeira vez... E os horizontes se abriram... Os limites sumiram...

Autor Desconhecido

Suzy Fleury
Preparação Emocional 1997

Minuto de Sabedoria

Sobre Gansos e Equipes

Você sabe por que gansos quando voam, sempre estabelecem uma formação em “V”?
Vamos a algumas descobertas científicas:

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1.À medida em que cada ave bate suas asas, ela cria uma área de sustentação para a
ave seguinte. Voando em formação de “V”, o grupo inteiro consegue voar, pelo menos
71% a mais do que se cada ave voasse isoladamente.
Pessoas que compartilham uma direção comum e um senso de equipe atingem resultados
muito mais rápidos e facilmente.

2.Quando o ganso líder se cansa, ele vai para a parte de trás do “V”, enquanto um
outro ganso assume a ponta.
O revezamento de esforços permite avançarmos mais facilmente nas tarefas árduas.

3.Os gansos de trás grasnam para encorajar os da frente a manterem o ritmo e a


velocidade.
Incentivo e estímulo são fundamentais quando queremos manter ou melhorar o ritmo e a
velocidade em nossas empreitadas.

4.Quando um ganso adoece ou se fere e deixa o grupo, dois outros gansos saem da
formação e seguem-no para ajudá-lo e protegê-lo. Eles o acompanham até que suas
condições melhorem e, então, os três iniciam a jornada, juntando-se à outra formação,
até encontrar o grupo original.
Gansos, uma metáfora onde a solidariedade nas dificuldades é fundamental para o
sucesso da jornada.

Autor Desconhecido

Biblioteca e Filmacoteca

Uma das ações que apóiam o trabalho, principalmente, junto à comissão técnica é a
implantação da biblioteca e filmacoteca, dirigida a equipe como um todo.
Os atletas sempre que assistem aos filmes, demonstram muito interesse por assistir outras
vezes e até, apresentar para os amigos e familiares. Acredito que esse recurso poderia ser
utilizado em diferentes momentos. Por exemplo, quando o atleta está se recuperando de
uma contusão ou cirurgia, durante as concentrações e em programas individualizados.

Por incrível que pareça, os atletas demonstram interesse por livros, principalmente,
quando se refere a bibliografia na área esportiva e de treinamento mental. Esta é uma
solicitação comum que parte, principalmente, dos próprios atletas. Além de estimular a
leitura, propicia uma troca de experiência como aconteceu com o jogador Anderson.
Quando estava lendo o livro: “A Luta de um Campeão”, de Evander Holyfield, Anderson
comentou sobre alguns trechos do livro, o que favoreceu a reflexão de temas importantes
na vida de um atleta campeão.

Esta é uma ação que requer uma certa logística e investimento, mas que deve ser
incentivada e implementada.

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Atendimento Individual

O atendimento individual é oferecido ao atleta como apoio aos trabalhos realizados pela
comissão técnica. Essa etapa do trabalho deve respeitar alguns princípios básicos: a
necessidade e o desejo do atleta e, a solicitação da comissão técnica.

Com base num programa personalizado, exercícios e orientações práticas são realizados
com objetivo de ajudar o atleta e a equipe.

É essa etapa do treinamento que tenho maior cuidado em implementar. Embora tenha
consciência que esta ainda é uma limitação no meu trabalho, porque ainda não consegui
um espaço na agenda semanal para entrar mais profundamente, encaro esta situação
como um processo natural, que vai acontecer com mais profundidade ao longo de um
período de trabalho. Se comparar o que fazia há alguns anos atrás, a evolução já é uma
realidade, porém, o mais difícil é lidar com a sensação de que poderia ter realizado mais,
ou o contrário, a sensação de estar contribuindo pouco para a necessidade que existe.
Enfim, acredito que, não importa a velocidade que estamos conseguindo implementar, é a
qualidade e, principalmente, a credibilidade que vai abrir espaços mais representativos.

Mesmo com a impressão de ajudar pouco nesta ação em especial, recebo feedbacks
importantes que diminuem um pouco estes sentimentos. Um comentário do fisiologista
Fábio do Santos marcou muito. Ele me disse: “Você não imagina como esse trabalho está
influenciando e refletindo aqui na equipe”. Estes comentários são muito importantes
porque procuro trabalhar com seriedade e dedicação, mesmo assumindo que ainda dou
uma contribuição muito pequena. Espero poder, cada vez mais, apoiar o trabalho da
comissão técnica e ajudar os atletas a conseguir os resultados e satisfação no trabalho que
escolheram. Sei que é uma “pitada” de sal na comida, mas se bem dosada, pode ajudar a
tornar a comida mais gostosa.

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“Hoje, mais que alguém que enterra de forma espetacular,
ou seja, um atleta grande e criativo, me sinto completo.
Posso olhar no espelho e dizer isso:
sou o melhor jogador de basquete que posso ser.
Estou maduro física e mentalmente.
Melhor do que cinco anos atrás.”
Michael Jordan

Antes, Durante, Depois e... Sempre!


Futebol é Resultados. E tudo que acontece nesse esporte apaixonante gira em torno desse
ponto de referência. O mundo do futebol não gira em torno de uma bola simplesmente,
gira principalmente ao redor do gol, da vitória, das conquistas.

Numa tentativa de identificar algumas etapas que fazem parte do trabalho realizado no
futebol, encontramos quatro situações distintas, tais como:
• Preparação dos atletas e equipes para o jogo e para a vida;

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• O jogo que representa o momento do espetáculo, da comunhão de desejos e
expectativas, da vitória ou derrota;
• Os resultados e todas as lições que podemos tirar dessa experiência e,
• Sempre... buscando uma vida de realização durante toda a jornada.

Além de buscar na ciência a base de compreensão dos fenômenos e situações que


envolvem esse esporte, também utilizo minhas experiências como fonte de reflexão e
sabedoria.
Lembro com carinho e saudade, uma experiência que ficou marcada em minha memória
quando tinha aproximadamente, 10 anos de idade. Eu e minha família: Seu Rubem, Dona
Nilda, Carlinhos e Juninho, morávamos numa vila militar que separa, até hoje, as cidades
de Recife e Olinda. Naquela ocasião, um parque de diversão chegou a nossa cidade
trazendo a sensação da época: o Tobogã. Guardo até hoje em meu coração o
encantamento e excitação que senti ao observar aquele brinquedo que mais parecia um
super escorregador. Nossa! Aquele foi um dia especial para nós. Imagine o que
significava encarar aquele gigante em forma de ondas, a nos convidar para uma aventura
maravilhosa. Considerando as oportunidades que tínhamos de testarmos nossa adrenalina,
aquela era realmente uma grande oportunidade.
A primeira etapa a ser conquistada foi encarar aquela fila imensa que nos afastava e, ao
mesmo tempo, nos desafiava a continuar sonhando. Hipnotizada pelas experiências
daqueles que deslizavam tobogã abaixo, eu e meus irmãos nem percebemos o tempo
passar. Estávamos felizes por estar ali e viver aquela sensação, passou a ser a razão maior
da nossa existência. Coisas que as crianças fazem muito bem: viver intensamente cada
momento, cada situação.
Quando nos aproximamos do portão que nos levaria ao mais alto de nossos objetivos, um
homem alto e suado nos entregou um pequeno pano que serviria de tapete para a nossa
viagem. E começamos a subir. Veio o primeiro degrau, o segundo, o primeiro lance e
assim por diante. Para participar daquela experiência tínhamos que subir como se nos
preparássemos em cada ponto da escalada. Parecia que aqueles degraus não terminavam
nunca. Esperar naquele ponto do caminho já não era assim tão fascinante.
Depois dessa escalada, lá estávamos nós: meus irmãos mais novos e eu. Coloquei-me na
frente e, naquele momento um misto de medo, ansiedade e dúvida tomou conta de mim.
E a questão veio: Vou ou não vou? Sem saber identificar muito bem o que estava
sentindo, muito menos o que desejava sinceramente naquele momento, escutei uma voz
em tom firme: “Vamos lá, é a sua vez. Não está vendo a fila que está lá fora? E se você
está com medo, agora é tarde. Não dá mais para desistir. Então, senta aí que eu te
empurro.”
Meu Deus, como é que eu ia sair dessa?
Não tive muito tempo para pensar no que fazer. Quando percebi, lá estava eu sentada
naquele pedaço de pano, olhando para frente e,... Aaaaaaiiiiiiiiiii!!!! Meeuuu Deeeuuuus!
Soooooccccooooorrrroooo!... E veio a primeira “onda”. Sobrevivi. Segurei aquele pedaço
de pano como se fosse a saia da minha mãe e me preparei para a segunda “onda”. E as
coisas começaram a mudar dentro de mim. Senti que tinha um certo domínio sobre
aquela situação e comecei a gostar. Veio a terceira, a quarta e a quinta onda, até que
deslizei no chão esbarrando numa proteção que segurava quem chegava. Foi nesse

90
momento que olhei para trás e perguntei. Acabou? Levantei e disse para minha mãe:
Quero ir mais uma vez. Posso ir de novo?

A experiência que vivi andando de tobogã me faz lembrar cada uma das etapas que o
atleta encontra quando sonha com a carreira de jogador de futebol.
Em primeiro lugar vem a fila. Quando olhamos esse esporte, ele parece estar tão perto
dos sonhos de criança, mas na realidade, poucas são as pessoas que realmente conseguem
viver essa experiência.
Depois da fila vem o portão de entrada um funil que impede a grande maioria de
prosseguir nessa direção.
Para quem consegue chegar a essa etapa do caminho, encarar as escadas é a próxima
etapa. Cada degrau conquistado possibilita a aproximação do espetáculo e do objetivo
maior.
Chegando ao topo, se alcança uma parte importante do processo. É nesse momento que
uma forte sensação envolve cada participante: o juiz apita o início do jogo e é chegada a
hora de fazer acontecer, de realizar, de viver intensamente esse desafio. Voltar atrás, nem
pensar. Jogar com garra e mostrar tudo o que aprendemos é a melhor opção.
E vem a hora de se entregar ao jogo, de se envolver de corpo e alma, dominando a
ansiedade e o medo que surgem naturalmente quando iniciamos alguma coisa.
É como na descida do tobogã quando vem a primeira “onda” e sobrevivemos. Vem a
segunda “onda” e, começamos a dominar a situação até que começamos a assumir o
controle da situação e até passamos a nos divertir, a aproveitar as experiências.
Então, chegamos ao final da partida, ao apito final do juiz. Mas o trabalho continua.

Antes: Preparando-se para a Partida

Uma partida de futebol é um espetáculo com dia, hora e lugar marcados. Durante os
noventa minutos definidos para o jogo, profissionais e investidores, torcedores e
espectadores se reunirão num encontro que irá refletir o desempenho e as paixões
daqueles que vivem intensamente o momento do gol.
Mas o trabalho para o atleta não começa, nem termina ali. Na verdade ele já começou na
preparação e continuará depois do show.

A preparação que antecede uma partida de futebol tem uma característica particular que é
fundamentalmente o trabalho dirigido ao momento da concentração.

Mas, o que é concentração?


Concentração é um procedimento importante na preparação de atletas e que se repete
com freqüência no mundo esportivo. Tem como principal objetivo, fazer com que cada
profissional da equipe, dirija toda a sua atenção para um único ponto - a vitória.

De maneira geral, os programas de concentração não são formalmente planejados, ou


seja, não há uma programação ativa, cuidadosamente preparada. Ao contrário, esse
período é utilizado pelo atleta para uma condição mais passiva como assistir tv, ouvir

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música e dormir. A partir dessa realidade, uma oportunidade de melhoria passa a existir,
ou seja, percebo que se pode incrementar ainda mais esse período com programas
especialmente criados por uma comissão multidisciplinar, visando um plano de trabalho
que contribua para que o atleta alcance o seu nível máximo de desempenho. O principal
fator a ser considerado na implementação do projeto passa a ser, então, a aceitação e
motivação dos atletas. O programa deve procurar ser tão interessante a ponto de fazer
com que o atleta deseje participar e se sinta gratificado por isso.

Ser o Melhor e se Superar

Vencer
Resultado Excelente

Alta Performance
Estado de Excelência

Competências
Técnica
Tática
Física
Emocional

Durante os momentos de concentração, cada profissional deve procurar refletir sobre as


seguintes questões:

-O que é preciso fazer para se alcançar o resultado excelente e vencer?


-O resultado é conseqüência da alta performance, portanto, como alcançar esse nível de
desempenho máximo?
-A alta performance é resultado dos níveis de competências: técnico, tático, físico e
emocional então, como os atletas podem participar dos ajustes e retoques que ainda se
pode fazer nessa etapa?

Principalmente no que se refere as competências Física e Emocional, cada atleta pode e


deve assumir a responsabilidade de gerenciar essas duas estruturas e assim, procurar
alcançar seu melhor estado neurofisiológico (mente e corpo), conhecido como Estado de
Excelência ou “Estado de Graça”.
Na verdade, todas as pessoas poderiam assumir o comando dessa área tão importante em
nossas vidas.
Mas, como podemos fazer esse gerenciamento?
Conhecer os degraus que nos levam a esse ponto de desempenho máximo, pode nos
ajudar.

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Estado de Excelência
“Estado de Graça”

4 Cuidados
Exercícios e
Técnicas

3 Corpo: Mente:
.Sono .Pensamentos
.Alimentação .Sentimentos
.Movimento

2 Perceber
como está
se sentindo

Proponho uma experiência.


1.Degrau
Procure perceber como você está se sentindo nesse exato momento.
Você está sentindo a sensação de bem estar ou não?
Talvez você esteja se sentindo “normal”!?
Quando você pára para prestar atenção no que está acontecendo com você, observando
suas sensações, você está identificando seu estado neurofisiológico (mente e corpo).

Este é um exercício importante para quem quer assumir o comando da própria vida e, é
indispensável no trabalho de preparação de atletas, principalmente durante as
concentrações.
Quando paramos para avaliar o que estamos sentimos em determinados momentos de
nossas vidas, a primeira informação que obtemos é se estamos nos sentindo “bem” ou
“mal”. Essa percepção generalizada nos posiciona e nos faz conscientes de nós mesmos,
porém, pouco podemos fazer para mudar nossos estados se ficarmos apenas nesse nível
de percepção. É importante continuarmos nessa direção, aprofundando ainda mais nossa
pesquisa.

2.Degrau
Para conseguirmos alcançar estados de excelência é fundamental conhecer nossas fontes
de energia, ou seja, de onde vem essa sensação de “bem” ou “mal estar” que estamos
sentindo. Como já discutimos anteriormente, a energia que circula em nosso corpo foi
gerada por um sistema cibernético, ou seja, a mente influencia o corpo ao mesmo tempo
em que o corpo influencia a mente . E como isso ocorre?

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Posso estar me sentindo disposta e feliz por fatores fisiológicos, ou seja, porque estou
ok., com as minhas horas de Sono, Alimentação e com os exercícios físicos -
Movimento. Esses três fatores contribuem para o equilíbrio do corpo e da mente e são a
base do consagrado e reconhecido Método Nuno Cobra.

Cuidados com o Corpo - Sono / Alimentação / Movimento

Podemos estar nos sentindo indispostos porque não tivemos uma noite de sono adequada,
porque abusamos numa churrascada à noite, ou porque não damos a devida atenção ao
nosso condicionamento físico. Essas situações podem refletir tanto no corpo como na
mente. De outra maneira, a indisposição também pode ser gerada a partir de um momento
de desmotivação ou falta de expectativa de vida, deixando nosso organismo com
hormônios de “baixa qualidade”. Outra fonte de energia é nossa imaginação, diálogos
internos e a linguagem mental sinestésica.

Cuidados com a Mente - Imagens / Diálogos Internos / Sinestésica

“No esporte, você experimenta todas as emoções e estados psicológicos possíveis,


enquanto é forçado a reagir a diversos fatores em constante mutação. Como corredor de
maratona há muitos anos, pude experimentar os estados mentais de resistência, paciência,
medo, fracasso e sucesso, de modos aplicáveis a todas as situações da vida. Ao aprender
técnicas e estratégias eficazes para enfrentar os estados mentais variáveis do esporte,
você também estará mais preparado para lidar com situações semelhantes no trabalho e
na vida.
O estado mental de um atleta extraordinário é relaxado, mas concentrado e aberto para
conquistas ainda maiores. O verdadeiro sucesso ou vitória é medido pela qualidade desse
processo de atenção e envolvimento, prática e dedicação conscientes”.

3.Degrau
Existem várias técnicas que podem apoiar programas de treinamento de atletas de alta
performance no que se refere a preparação mental. Essas técnicas alcançam as três
principais linguagens do cérebro: Imagens mentais (imaginação), diálogo interno (nossa
voz interior) e as sensações. Todos os exercícios praticados para incrementar nossa
performance no aspecto psicológico estão dirigidos diretamente para essas três
linguagens.
Uma das técnicas mais utilizadas por atletas das mais diferentes modalidades no mundo é
a Técnica da Visualização.
A Visualização é uma forma ativa de meditação que utiliza o relaxamento e imagens
mentais que irão influenciar suas emoções e energia. Essa técnica parte do princípio de
que nosso sistema nervoso central não distingue entre fatos reais e imaginários; vê e
aceita todas as imagens como reais. Por exemplo, se você imaginar um limão sendo
cortado e o suco derramado em sua boca, é provável que você saia dessa experiência
imaginária, salivando, não é mesmo? (faça esse exercício com amigos e parentes e
observe a reação)

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Essa interligação da mente com as reações do corpo podem e já são utilizadas por atletas
para incrementar suas performances.

Na preparação para a Copa América 97, a equipe de basquete feminina incluiu no


programa de treinamento a mentalização, com técnicas de visualização, como pudemos
acompanhar na matéria escrita por Deborah Giannini (Folha de São Paulo-27/07/97):
“A quatro dias do primeiro jogo amistoso contra o Canadá, a seleção se arma
psicologicamente com sessões diária, de vinte minutos de preparação mental. A técnica
também foi adotada durante os treinos para o Mundial da Austrália, em 94, e a
Olimpíada de Atlanta, em 1996, e, segundo o técnico Antônio Carlos Barbosa,
influenciou os resultados: a medalha de prata em Atlanta e o título de campeã mundial.
‘Um bom condicionamento físico não garante a vitória se a jogadora não estiver
equilibrada’, diz o preparador físico Hermes Ferreira Balbino, responsável também pela
preparação mental da seleção. Depois do treino físico-tático na quadra, as jogadoras vão
para um ambiente silencioso, tiram o tênis, deitam e fecham os olhos. ‘É um trabalho de
consciência corporal. Como estamos próximos ao jogo, digo para elas despertarem o
guerreiro interior’, diz. Depois do relaxamento o preparador descreve situações de jogo
que elas devem imaginar. O estádio lotado e o time perdendo de um ponto a trinta
segundos do final da partida é um exemplo. Cada atleta mentaliza como agiria diante da
situação. O objetivo é melhorar o equilíbrio e o poder de resolução na quadra. Além
disso, tentar diminuir a expectativa e aumentar a confiança das jogadoras. ‘A atleta
começa a se soltar quando não tem autocobrança. Tirar isso dela melhora seu
rendimento’, diz o preparador físico do Polti Vaporetto/Santo André, Gelson Gomes, o
‘Barata’.

O Polti há dois anos faz o trabalho mental com uma psicóloga.


‘O que segurou a equipe foi que cada uma sabia seu valor dentro do time’, afirma Gomes.

O BCN/Osasco contava com duas psicólogas até o ano passado.


A seleção utiliza esse recurso a partir do programa específico para o basquete criado por
Léo Riso de Oliveira, orientador de treinamento mental nos esportes.

A visualização não é mágica, mas uma técnica que se aprende e deve ser exercitada.
Funciona como um ensaio geral. Quando chega a hora de entrar em campo ou na quadra
você terá a sensação de que já viveu aquela experiência e tudo parecerá mais fácil. A
visualização também limpa a mente de interferências e imagens negativas que bloqueiam
todos os esforços, substituindo-as por imagens de sucesso. Mesmo que você seja muito
bom no que faz, imagens negativas podem criar ansiedade e tensão, atrapalhando-o.
Imagens positivas ajudam o atleta a alcançar os níveis de excelência - mente e corpo, que
influenciam na performance e resultados.

Outra técnica muito importante no condicionamento mental de atletas diz respeito ao:
Diálogo interno. Diálogo interno é nossa voz interior. O que conversamos e afirmamos
nos “papos” que estabelecemos em nossas mentes, refletem tudo aquilo que acreditamos
em nossos corações.

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Os Diálogos Internos podem ajudar em nossa autoconfiança, segurança desde que sejam
positivos e energizantes. Como diz Henry Ford: “Se você pensa que pode ou que não
pode, de qualquer maneira você tem razão.”

Imagine as duas situações a seguir:


1.Uma pessoa no centro do Maracanã lotado e, cem mil torcedores gritando em coro:
‘Vai firme que você vai conseguir. Vai que você é forte e tem tudo que precisa para
chegar lá’. Enquanto isso, seus pensamentos expresso por uma voz interior dissesse:
“Não vai dá. Não sou capaz”.
2.Por outro lado, se todas as pessoas no Maracanã gritarem para essa pessoa: “Não vai
dar. Você não vai ser capaz de ‘chegar lá’, ao mesmo tempo que o seu coração lhe
dissesse: “Eu vou conseguir. Sei que tenho essa capacidade dentro de mim”.
Quem, na sua opinião teria mais chances de sucesso?

Nossos diálogos internos podem ser afirmações positivas, planejadas e conscientes que
irão refletir ações mais produtivas, substituindo pensamentos negativos que infiltram na
mente e formam padrões gravados e repetidos interminavelmente. O mundo pode gritar
que “dá” ou que “não dá”, mas a diferença vai estar no que você diz prá você mesmo, no
que você acredita. Portanto, é preciso dirigir o próprio pensamento e não deixar espaço
ao acaso.

Observe a experiência de Zico:


“Por toda a minha carreira, enfrentei diversas tentativas de desacreditar meu futebol. Já
disseram que eu só era bom jogador no Maracanã, que não sabia jogar na seleção, que
não suportava marcação à européia, e mais dezenas de acusações às quais respondia
jogando. Era o que eu sabia fazer: jogar futebol.

As Técnicas que envolve o sistema Cinestésico do cérebro refere-se as experiências e


simulações que pode ser criados para apoiar a preparação. Simplificando, é exercitar o
“faz de conta que”. Como foi utilizado pelo técnico de basquete Jud Heathcote, do Lakers
que, segundo Magic Johnson: “Jud trabalhou com cada um de nós, individualmente, e
nos converteu a todos em jogadores melhores”.
“Muito bem, disse Jud. Viram o que Larry Bird é capaz de fazer. Hoje vocês vão treinar
contra ele. Senhores - conheçam Larry Bird, apontando para Magic Johnson. Dobrem a
marcação assim que ele puser a bola no chão. Quando ele pegar a bola, bloqueiem todos
os caminhos para o passe. Façam qualquer coisa, mas não o deixem livre.
Magic Johnson fez a maior imitação de Larry Bird que se pode imaginar. Deu passes
impossíveis, arremessos de todos os pontos de quadra e acertou bolas de até nove
metros.
Os companheiros enfrentavam Magic como se ele fosse Magic, deixando ele livre para o
arremesso, porque não tinha muita eficiência a distância. Mas Bird era capaz de
encestar de longe, e naquele dia ele era Bird. Deve ter acertado umas oito ou nove bolas
consecutivas. Jud ficou furioso.
-Mas que droga! Esse é Larry Bird! Marquem em cima!

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Jud parecia desesperado naquela manha, e os jogadores ficaram atordoados. Não
podiam acreditar no Magic fazia. Nem ele mesmo acreditava. Ria sem parar, e
provocava a todos embora na ocasião não soubesse que Bird fazia isso.
-Não sabem quem eu sou? Dizia Magic. Sou Larry Bird! Tentem me deter
Segundo Magic, ele teve um dos grandes momentos de sua vida naquele treino. Bird
tinha o sinal verde para fazer qualquer coisa que quisesse, e por isso ele fez tudo que
queria. Quando o treino terminou, uma coisa ficou evidente: Por melhor que fosse o
verdadeiro Larry Bird, não podia ser melhor do que a imitação que eles tinham acabado
de fazer.
Os Lakers ganharam de 75 a 64.

Durante: O Espetáculo

Depois do período de preparação com treinamentos técnicos, táticos, fisicos e mentais, é


hora de entrar em campo, de fazer acontecer e, principalmente, de buscar os resultados.

Na tentativa de identificar os diferentes momentos que caracterizam os 90 minutos de


uma partida de futebol, podemos afirmar que: todo esforço técnico e aplicações táticas
vividas dentro de campo, são apoiados pela condição física e emocional. E, alguns
períodos são marcados por uma solicitação maior do atleta como vemos a seguir:
Equipe
Equilíbrio e Perfeição

Técnica Tática

Física Emocional

Sistema de Melhoria Contínua

Partida de Futebol
Mapa das Competências

Durante os 90 min.Equipe será solicitada Técnica /Tática/Física e Emocionalmente

Emocional Física

No início do espetáculo, os aspectos emocionais deverão exercer maior pressão na


equipe. Isso é um processo natural também experimentado por atores, cantores e
apresentadores em geral, no momento de iniciar suas atividades.

Segundo, José Geraldo Couto, da equipe de articulista da Folha de São Paulo:


“O futebol, como toda manifestação artística ou cultural que se preze, insere-se na
história do aperfeiçoamento corporal e intelectual do homem, na educação de seus cinco
sentidos. O futebol brasileiro, em particular, exerceu e continua exercendo um papel
fundamental nesse processo.”

97
Ser uma pessoa competente ao lidar com as emoções, é ser capaz de usar essa fonte
inesgotável de energia, assumindo o controle dos estados neurofisiológicos (mente e
corpo), buscando o ponto de excelência, aquele “estado de graça” ou “estado da arte” que
irá influenciar no desempenho do atleta e, resultados da equipe.
O nosso corpo expressa nossos estados emocionais através de uma linguagem própria, os
sinais fisiológicos. O nervosismo, estado de baixa qualidade para quem vai entrar em
campo, apresenta alteração na respiração, batimentos cardíacos, tremor muscular,
aumento de sudorese e agitação. Dificilmente um profissional nesse estado poderá jogar
seu melhor futebol: técnica, tática e fisicamente falando.

Lembro a resposta que Romário deu a um repórter durante a Copa do Mundo:


Perguntado: Como você está se sentindo, minutos antes de entrar em campo, onde
milhões de pessoas se preparam para assistir a esse jogo?
Com simplicidade e de forma muito tranqüila (pude fazer essa avaliação através do tom
de voz, expressões faciais e expressões corporais que usou), Romário respondeu: Estou
me sentindo da mesma maneira que me sentiria se tivesse entrando para jogar lá na
várzea com meus amigos.
Apesar de parecer um certo descompromisso de sua parte, essa forma de pensar ajuda
tremendamente nos momentos que antecedem uma partida. Enquanto outros atletas ficam
assustados com o significado daquela experiência, e se fazem reféns de suas próprias
emoções, Romário entra em campo para fazer o que mais gosta na vida: jogar. Com isso,
seu nível de consciência e percepção é muito maior e sua performance, superior.

Quando o juiz apita o início do jogo, o atleta vai viver diferentes momentos emocionais.
Embora todos os sentimentos e desejos sejam aceitáveis, nem todos os comportamentos o
são. Por isso, quando o profissional agir de forma que possa ser prejudicial a ele mesmo,
a equipe ou aos resultados do jogo, essa atitude não poderá ser aceita. O apito do juiz
deve representar para cada um na equipe: que a partir daquele momento, todas atitudes,
estratégias e jogadas deverão estar dirigidas para um único objetivo: ganhar aquela
partida e se possível, apresentando o melhor futebol que for capaz. O espetáculo foi
iniciado e todos precisam oferecer o seu melhor. Gosto de assistir belas jogadas, dribles
de craque, gols de placa. Também aprecio uma aparência bem cuidada seja do jogador,
do técnico ou mesmo dos estádios de futebol. O que não combina com as apresentações
são as pancadarias e palavrões. Fazendo essa observação, sinto um certo tom de
sofisticação, ou seja, tentando cuidar com esses aspectos estamos entrando na área da
educação e dos valores humanos, situações muitas vezes colocadas em segundo plano em
função do alto nível de competitividade que o futebol alcançou. Mas, não custa nada
lembrar, que enquanto os profissionais do futebol procuram a vitória, o negócio futebol
se posiciona no mercado como um produto de entretenimento, sem restrições de horários
ou idade característicos daquela orientação “Proibidos para Menores de...”.

Uma dica para ser utilizada nos momentos que antecedem as explosões emocionais é:
Pare, Respire, Concentre e Decida.

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Fazendo isso, você estará reorganizando suas idéias, evitando assim, ser tomado
completamente pela emoção.

Cientificamente, temos como compreender os momentos de descontrole emocional que


causam as explosões de agressividade que podem terminar com a carreira de um atleta.
Lembrando a luta em que Mike Tyson enfrentou Evander Holefild, pergunto a você:
Quanto tempo Tyson utilizou para dar aquela “mordidinha’? Alguns segundos? Pois bem,
um pequeno momento de descontrole emocional, um atleta pode jogar toda a sua carreira
para o alto, envolvendo e comprometendo toda a equipe. E isso ocorre porque na
evolução do cérebro humano, desenvolvemos três mentes com funções distintas:

Evolução do Cérebro

Neocórtex
Sistema Límbico
Tronco cerebral-Base

Medula Espinhal

Nossas emoções têm uma mente própria (Sistema Límbico), que pode ter reações bastante independentes
de nossa mente racional (Neocórtex). Ou seja, os nossos pensamentos são gerados no Neocórtex e as nossa
emoções, no Sistema Límbico. O Tronco Cerebral ou Base é uma estrutura do cérebro responsável pelas
funções mais automáticas do corpo como, por exemplo, respiração e batimentos cardíacos.
O mais intrigante para entender a força das emoções na vida mental são aqueles momentos de descontrole
que, depois que passam, geram ressentimentos e arrependimentos, assim que a poeira baixa. A questão é
como nos tornamos irracionais tão facilmente?
Nos momentos em que um sentimento impulsivo domina o racional, sofremos um seqüestro da nossa
capacidade de pensar e vem a justificativa comum: “Perdi a cabeça”. Literalmente, a química das emoções
invade nossa capacidade de pensar (Neocórtex) e por fração de segundos ou minutos podemos ficar reféns
de nossas emoções.

Explosões Emocionais

Seqüestro Neural
“Perdi a cabeça”

Conhecer o funcionamento do cérebro é um pré-requisito para conseguirmos comandar


melhor nossas emoções e assim, contribuir mais conscientemente para os resultados que
obtemos nos campos de futebol e na vida.

Depois: Lidando com os Resultados

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Em esportes altamente competitivos como é o caso do futebol, o único resultado que
interessa é a vitória. Esse é o ponto de partida e de chegada para quem se propõe ser um
campeão. E ser um vencedor é descobrir o talento que Deus lhe deu e, trabalhar duro para
aprimorá-lo.
Saber lidar com os diferentes resultados que você vai obter ao longo da sua jornada
pessoal e profissional, pode fazer toda a diferença do mundo.

Resultados são fatos, situações ocorridas num passado recente ou distante. Portanto, se
você não está satisfeito com os resultados que vem obtendo, MUDE! Porque se você
continuar fazendo o que sempre fez, vai continuar obtendo os mesmos resultados.
Então, ser um atleta excelente e bem sucedido, requer um compromisso com o Sistema
de Melhoria Continua:
-Aprimorando os Conhecimentos sobre a sua profissão;
-Treinando, treinando e treinando para desenvolver a Habilidade que você precisa para
ajustar, sintonizar e aperfeiçoar a sua arte; e,
-Assumir uma Atitude e postura de vencedor, encarando as dificuldades com inteligência
e sabedoria.

Conhecimento
Habilidade Sucesso
Atitude

Fazer Resultado

Excelência - Sisstema de Melhoria Contínua

Para ilustrar esse sistema, temos na história de Ayrton Senna, um dos melhores exemplos
de um atleta que buscava a excelência. Ao iniciar a sua carreira, quando corria ainda no
Kart, sua performance deixava muito a desejar quando estava chovendo. Inconformado
com esses resultados buscou no treinamento sua estratégia de aperfeiçoamento, ou seja,
sempre que chovia, Senna entrava nas pistas e procurava aprender e desenvolver essa
habilidade. Ao encarar essa situação, adotou uma postura pró-ativa, ou seja, não parou
de treinar enquanto não superou essa limitação. Muitas foram às horas de treinamento
que ele dedicou para mudar esse resultado. Como conseqüência, conseguiu um nível de
desempenho tão importante, que essa passou a ser a sua marca pessoal como piloto de
Fórmula 1.

Cada resultado que obtemos na vida é uma oportunidade que temos para melhorar. Não
importa se nossa avaliação nos conduzir para a idéia de sucesso ou fracasso. Resultados
são resultados. E só o tempo poderá mostrar o quanto determinado momento pode
influenciar as nossas vidas.

Contam a história de um velho e sábio camponês que morava num pequeno vilarejo com
seus dois filhos e esposa. Num determinado dia de verão, o único cavalo que possuía,

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forçou a cerca e conseguiu fugir. As pessoas da região, informadas sobre aquela situação,
comentavam como pobre camponês: Que azar o seu meu bom homem.
O camponês ao ouvir aquelas lamentações respondeu com serenidade: Talvez!
Passados alguns dias, o cavalo voltou trazendo outros doze animais selvagens. O pessoal
do vilarejo, em tom de surpresa comentou: Oh! Que sorte meu amigo! E mais uma vez o
camponês se manifestou dizendo: Talvez!
Com o desejo de domar os cavalos selvagens recém chegados, o filho mais velho do
camponês, caiu e fraturou uma das pernas. Mais uma vez as pessoas comentaram: Que
azar o que aconteceu com o seu filho. E o camponês tornou a dizer: Talvez!
Dias depois um grupo de soldados chegou a região para recrutar os jovens para a guerra e
como o filho do camponês estava engessado, não foi convocado e o comentário geral foi:
Que sorte tem essa família. E o sábio camponês, mais uma vez respondeu: Talvez!
Moral da história: Você não sabe quando uma coisa é boa sorte ou não; portanto, não
conte com ela para chegar até onde que ir

Um resultado, a princípio negativo, pode estar encobrindo uma grande e importante


oportunidade em nossas vidas. Portanto, qualquer resultado pode ser utilizado como um
momento de aprendizado e a questão passam a ser: o que podemos aprender, a partir
dessa experiência e, como podemos usar essa lição para melhorar quem sou e o que faço?

Sempre: Mais do que Jogar, Viver!

Numa entrevista a Rádio Jovem Pan (12/02/98), o jornalista Flávio Prado perguntou a
Bebeto: “Qual o seu projeto de vida?” E ele respondeu: “quando encerrar minha
carreira vou cursar Administração de Empresas e montar uma escolinha de futebol no
Rio, onde moro atualmente ou em Salvador, minha terra.”

E eu pergunto a você:

Qual o SEU projeto de vida?


Se você não tiver um projeto de vida, algo que possa assinar em baixo o seu nome com
todas as letras, você estará no projeto de vida de outra pessoa. A escolha é sua.

Essa é a questão mais importante que fiz a mim mesma alguns anos atrás e, não foi fácil
responder. Percebi que se não tivesse um motivo muito forte para viver, não teria
assumido efetivamente essa propriedade maravilhosa. E nós fomos feitos para ‘dar certo’.
Somos especialmente projetados e sofisticadamente construídos.
Roberto Shinyashiki, um homem sábio e muito especial, no livro “O sucesso é ser feliz”,
escreveu:
“O valor de uma vitória reside no significado da luta.”

Uma campanha de tv dizia: “O ano de 97 não termina, ele fica para a história”.
Encantada com essa idéia passei a dizer: O próximo ano vai ficar para a minha história.
Me referia ao ano que começava e não para aquele que terminava, porque é aí que posso

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fazer alguma coisa, que posso participar ativamente, procurando dar um significado
maior a essa jornada.

Procurando descobrir o mundo do esporte, acabei descobrindo a mim mesma: do que sou
capaz e os limites que posso superar. Porque você não imagina, quantas horas passei
diante de um papel em branco tentando organizar todas essas experiências para poder
dividir com você os melhores e mais emocionantes momentos de minha vida.
E digo de todo o coração: o melhor de todos os esportes - é viver. Portanto, se quiser
conquistar realmente alguma coisa, vá em frente, arrisque-se, machuque-se, mas faça o
melhor que você puder e seja muito, mas muito feliz!

Encontro você na próxima estrada. Com carinho,

Suzy Fleury

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BIBLIOGRAFIA

Inteligência Emocional:
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“Inteligência Emocional-Arte de Educar Filhos”- John Gottan e Joan DeClair, 1997- Ed.Obj.
“Equilívrio MenteCorpo” - Daniel Goleman - 1997- Ed.Campus

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“Vitória”- Cida Santos e Nicolau R.Creti, 1993 - Ed.Globo
“Zico Conta a Sua História”- 1996 - Ed.FDT
“Histórias da Bola”- Paulo Roberto Falcão e Nilson de Souza,1996 - Ed.L& PM
“Gigio”- Cida Santos e Nicolau R.Creti,1994 - Ed.Globo
“Holyfield - A Luta de um Campeão”- Evander Holifield & Bernard Holifield,1996 - Ed.Nexo
“Parati - Entre Dois Polos”- Amyr Klink,1992 - Cia.das Letras
“Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha”- Ruy Castro,1995 - Cia.das Letras
“Futebol - Histórias e Regras”- Orlando Duarte, 1994 - Ed.Makron Books
“Oscar Schmidt - Biografia”- Odir Cunha, 1996 - Ed.Best Seller
“O Almanaque do Futebol Brasileiro”- Marco Aurélio Klein & Sergio Alfredo Audinino, 96/97
“Minha Vida - Earvin ‘Magic’ Johnson” - William Novak, 1992 - Ediouro
“Sucessful Team Building”- Thomas L.Quick, 1992 - AMA
“Times - Ferramentas Eficazes para a QT”- Marco Goldbarg,1995 - Ed.Makron Books
“A Força e o Poder das Equipes”- Jon R.Katzenbach e Douglas K.Smith, 1993 -Maskron Books
“Sacred Hoops”- Phil Jackson & Hugh Delehanty,1995 - Ed.Hyperion/N.Y.
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“Mental Training for Peak Performance”- Steven Ungerleider, 1996 - Rodale Press, Inc. -
Emmaus, Pennsylvania
“O Tao do Esporte”- Chungliang Al Huang e Jerry Linch, 1992 - Ed.Best Seller
“The Winner Within”- Pat Riley, 1993 - G.P. Putnam’s Sons/ N.Y.
“O Jogo Bruto das Copas do Mundo”- Teixeira Heizer,1997 - Ed.Muauad
“Tostão - Lembranças, Opiniões, Reflexões sobre o Futebol”- Tostão,1997 - Ed. DBA

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“Futebol 100% Profissional” José Carlos Brunoro e Antonio Afif,1997 - Ed. Gente

Programação Neurolingüística:
“Poder Sem Limites”- Anthony Robbins, 1987 - Ed.Best Seller
“Desperte o Gigante Interior”- Anthony Robbins,1993 - Ed.Record
“Pense como um Vencedor”- Walter Doyle Staples,1991 - Ed.Pioneira
“O Refém Emocional”- Leslie Cameron-Bandler e Michael Lebeau, 1986 - Summus Ed.

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