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La psychanalyse

Título
-
original:
Son image et son public
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I
I
i
Traduzido da segunda edição francesa, publicada em 1976 pela PRESSES i
UNIVERSITAIREsDE FRANCE, de Paris, França, na série BIBLI011iEQUE
DE PSYCHANALYSE, dirigi da por JEAN LAPLANCHE

Copyriglu © 1961 by Presses Universitaires de France

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159'. 96l.(,/6 .. ... lNDICE
Cun. 'YQ 31_~.& _
capa d,
ÉRIC
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17

I'I(IMI\IRA I'ARm.
A 9,2-4[-1....19,,--_
Edição para o Brasil
\ III'I'H n;I!N ,.,,<.'AO SO('IAI, DA PSICANÁLISE
N. IIII/"'/PI' "rI l'If,i(//lI,I'// tI/! Ol'll/iflo e Análise Teórica ,-
Não pode circular em outros países
I" II!III I, f U/'II/II.I·II/II/I('{/f/ Soe/fI/: Um Conceito Perdido .ro.... 41
""hilllllllll~ du ClllllpUI'IHIllCnlo, Cópias da Realidade-e-Formas
,li (IIIIII\'\'IIII\llllo ............••.. , .. . . . . . . . . . .. . • . . .. • 41
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{mimeograjia, xerox, datilografia, gravação, reprodução em disco ou em
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, 'A 1'/ 1111,1/ l ll , 11.\' II/tI/Il.I' Quc Se Convertem em Objetos do Senso
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1978 1,llil/ 1 IV • "J/OI1l0 l'sydlanalyticus" •............. _ . 130
Direitos para a edição brasileira adquiridos por ,
f ('IIIN~lfl\l/lr II Denominar •.....•..••.....
1II'OIIleirll Interior cio Normal e do Patológico
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Ollll/ll Precisa da Psicanálise? _..••.•... _ _ . 14l
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NU!'.' J)() EDITOR: A Segunda Parte de A Psicanálise, Sua Imagem
que se reservam' a propriedade desta versão ,\"'" /'IIM/ctJ. que consiste numa análise do conteúdo e dos sistemas de
1IIIIIIIItll'lI~·n(), dedica-se à "difusão dos conceitos e da linguagem psica-
Impresso' no Brasil 1I1I11Ikll" ,III'I\V~Hdos canais de comunicação e possivelmente será objeto
,I•• 11111 ~1'III1IHI\)volume, por autorização expressa do Autor.
Observações Preliminares

Conta-se que, ao desembarcar em Nova York, no co-


IllOÇO deste século, Freud teria confidencíado a Jung:
"Ij~lesnem desconfiam que lhes trazemos a peste." De-
pois disso, a epidemia não mais se deteve. A Psicanálise:
oíêncía, terapia, visão do homem, passou a ocupar, de
uuo, um lugar considerável em nossa cultura. O seu ca-
ntter científico, o valor de sua terapia, a sua interpre-·
1,( ição dos fenômenos psicológicos são contestados por
motívos extremamente diversos, tanto filosóficos como
Inoraís ou políticos. Somente o seu impacto não é cano.
tostado por ninguém. Mas esse impacto só é encarado no ...
plano da literatura, da arte, da filosofia ou das ciências
rio homem. Atitude compreensível, pois tem-se o hábito
(10 considerar uma teoria exclusivamente na' esfera de
uns influências sobre uma outra teoria ou sobre outras
ulvídades intelectuais. Encerrado no círculo estreito' dos
qllo escrevem, assinalado sobretudo pelo diálogo e as con-
lrovérsías entre livros e autores, o advento de um saber
tI,~l'ecedever interessar, em primeiro lugar, ao mundo do
If/~curso, Por conseguinte, o seu destino, as suas evolu-
.,nos, preocupam sobretudo aqueles que sabem: o ensaís-
111, o filósofo ou o historiador das idéias.
Tal atitude, sob o abrigo da tradição, ignora, entre-
'IIIlt,O, os prolongamentos mais vastos de uma ciência, os
tillltls representam uma de suas funções essenciais, a sa-
""r, transformar a existência dos homens.lEla o conse-
1111 à força de fazer gravitar sua experiência ordinária em
1111110 de novos temas, de inculcar signüicados diferentes
I "nus atos e a suas falas, de transportá-los, por assim
11111,01', para um universo de relações e de eventos estra-
IhOIi, até então desconhecidos/Se tiver êxito, eí-la conver-
18 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE
\, OBSERVAÇÕES PRELIMINARES 19

\ tida em material de que cada indivíduo se recombõe e II()~ princípios psicanalíticos. Apesar das advertências de
' recompõe subseqüentemente a história. individual e so- numerosos psicanalistas, a crença na possibilidade de uma
cial, parte integrante de sua vida afetiva e intelectual,!Aí "boa educação", baseada nesses princípios, ensinando
trabalham e são trabalhados os seus elementos, passando ulnramente o que é preciso fazer e o que não se deve fa-
por estases até se fundirem na massa de materiais pas- \'101' com os filhos, persiste de forma tenaz. As conseqüên-
sados e perderem a sua individualidade.ruma ciência do (11\\sdessas condutas parentais inspiradas pela Psicaná-.
real toma-se, assim, uma ciência no real, dimensão IIHO deveriam ser reencontradas na estrutura da persona-
quase física deste. Atingido esse estágio, sua evolução é lidade decorrente de nossa cultura.
assunto da Psicologia Social/ Falar do Hemo psychanalyticus1 é um dito de espí-
Insidiosa ou bruscamente, segundo os países, os re- 1'ltO. Mas poderemos ter a certeza de que se trata apenas
gimes políticos ou as classes sociais, a Psicanálise aban- du um dito de espírito? A linguagem está repleta de ex-
donou a esfera das idéias para ingressar na vida. nos pen- I'cessões ou de vocábulos que têm sua origem na Psíca-
samentos, nas condutas, nos costumes e no universo das uülíse e que todos compreendem. A retórica religiosa, po-
conversações de grande número de indivíduos. Nós a ve- m1ca, até mesmo econômica, não se dispensa de usar e
mos personificada pela fisionomia, os traços supostos da uiusar de tais expressões e vocábulos. A história em qua-]~·
pessoa e os pormenores da biografia de Freud. Para além 1ll'lnhos,o filme, o romance e a anedota não se cansam
da figura desse grande sábio, certas palavras - comple- do difundi-Ios. Por outro lado, basta entrar num consul-
xo, repressão -, certos aspectos particulares da existên- I Mio médico para observar CO)TI que luxo de pormeno-
cia - a infância, a sexualidade - ou da atividade psíqui- I'OM, os pacientes fazem o balanço de seu estado psíquico
ca - o sonho, o ato falho - conquistaram a imaginação 111\ somático, nele incluindo "complexos" e "traumas in-
e afetaram profundamente a maneira de ver dos ho- rnntís" de toda a espécie, e esperam um diagnóstico for-
mensAMunidos dessas palavras ou apoiando-se nessa ma- mulado em termos análogos. Por que, aliás, os sintomas
neira de ver, a maioria das pessoas interpreta o que lhes ullo seriam distribuídos, combinados e decifrados com a
acontece, forma uma opinião sobre a sua própria condu- ujuda das imagens e dos conhecimentos psicanalíticos
ta ou a de familiares e pessoas mais chegadas, e atua um popularizados? Essas imagens e esses conhecímen-
1(114, seja qual for a sua origem, sempre foram tendentes
nessa conformidade.I"Entre as categorias utilizadas na
II colorír o pano de fundo de uma cena clínica. Em seus
descrição das qualidades ou na explicação das intenções
ou dos motivos de uma pessoa ou de um grupo, as ca- primeiros artigos, Freud" estuda a diferença entre a pa-
tegorias derivadas da Psicanálise desempenham, sem dú- IIIIIHla orgânica e a paralisia histérica; esta última insta-

vida, um papellmportante. Elas compõem o âmago des- 111 ,~ono indivíduo segundo os esquemas sociais da físio-

sas teorias implícitas, dessas "teorias profanas" da per- 11IlIht e da anatomia do sistema nervoso. O contraste com
sonalídado de que somos portadores e que, à luz de nu- "" osquemaa científicos tem, portanto, o seu papel a de-
merosas pesquisas, determinam as impressões que forma- iuuponhar no reconhecimento da doença e na terapía. I
mos de outrem, de suas atitudes no trato social. 1'111' oxtrapolaçâo, é fácil imaginar que as noções pSicanavJ
1I111lllH animam, notadamente no domínio das doenças
Os seus efeitos são provavelmente mais extensos. A
acreditar nas análises antropológicas, as práticas educa-o ruuolonaís, essa sintomatologia proliferante que uma so-
Uvas modelam a estrutura da personalidade dos membros Ilndnde reclama e renova desvairadamente.
de uma cultura definida. Um relance sobre a literatura
pedagógica, sobre a mudança nos comportamentos dos. I I li, Pontalis, Aprês Freud, Paris, Julliard, 1965. [Título da edição
pais em face de seus filhos, ciosos, a tal respeito, de evi- ('"ljlllllr'lI: A Psicanálise
Depois de Freud, Editora Vozes, 1972.]
tar os conflitos afetivos e respeitar uma originalidade de , FI"cue!, "Some Points in a Comparative Stue!y of Organic and Hvs-
li ""111 Pnralysis", Collected Papers, Londres, Hogarth Press, VoI. I,
desenvclvímsnto, é testemunho de uma influência difusa 1111 ,j)·59 "
20 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE OBSE~VAÇÕES PRELIMINARES 21'

Essas comprovações semí-empírícas nos são preciosas. 1111 intelectuais.' O ~ue se ..impõe, a longo prazo,...s..0n~
Elas nos autorizam a concluir que, ao nível das relações uudo imediato de nossos sentidos, de nossoentendimen-
ínterpessoaís, depois das linguagens, depois da personali- to, é, ria verdj:Çae, um produt9, secundário, '.reelaboradq,
dade e, enfim, da síntomatología, o conhecimento da Psi I lns pesquisas cietltí!i~~§:.Esse estado de coisas é irre-
canálise refrata-se em graus diversos. No seu terreno se vUl'sível._C_ou..e,s:gonde a um imperativo prático. Por quê?
recorta um. modelo que, assimilado, ensinado, comunica- I'orque deixamos de esperar exercer domínio sobre a
do, repartido, dá forma à nossa realidade ../Enfim, na ca- utuíoría dos c9.Ilhecimentos gJJ.enos af§j;aIp.!,Pr~ssup.õ~-_
mada espessa das permutas correntes, misturado aos u que grupos 9U indivíduos !JQffipetentesdevam optê-Io~
grandes debates, levado pelo" caudal poderoso dos sím- " tomecê-los parac.nós,> Uma quantidade crescente de
bolos, eSS>6modelo retoma regularmente à superfície e toorías e fenômenos torna-se familiar por intermédio de
apodera-se da consciência coletiva. Sua influência confe- outros homens, e seria impossível corroborá-Ia na expe-
re à ciência de que provém as dimensões de um importan- rlôncía pessoal de cada um. O volume ínüacíonado de co-
te fato social e implanta-a na vida cotidiana da sociedade.. uhocímentos e de realidades indiretas sobrepuja de todos
É esse importante fato social que me proponho estu- 1111 lados o volume cada vez mais limitado dos conhecimen-
dar, pelo menos em parte. A Psícanálise está envolvida, !tIH e realidades diretas. Nessas condições, pensamos e ve-
por ser ela que me forneceu a oportunidade e porque ocupa lHOS por procuração, interpretamos fenômenos sociais e
um lugar. central entre as correntes intelectuais da nossa - uuturaís que não observamos e observamos fenômenos que
época. Mais do que isso, o 4eu conteúdo relaciona-se de IH)Hdizem poder ser interpretados. " por outros, entenda-
uma forma tão direta com os problemas que cada indi- 11. O trabalho de elaboração de urna_yisão_cQgJente das ').
víduo ou coletividade deve resolver que podemos alimen- nossas ações e da nossasttuação, a partir de elementos cf)
tar a esperança de compreender, se estudarmos a sua .lurivados e de origem tão diversa, é psicológica e social-
difusão, esses problemas e o seu modo de resolução 1111mte decisivo,;'Reencontramo-nos incessantemente peran-
Cumpre não esquecer, entretanto, que o caso da Psicá- li! o dilema do doente que, depois de ter consultado es-
nálise toca de perto um fenômenomais geral e, diria eu, IIIIo1alistas.que examinaram cada parte de seu corpo e
próprio das sociedades rnodernas.züe que se trata? Até o IIOlltificado um distúrbio local, depois de ter visto as
presente, o vocabulário e as noções indispensáveis para uutlograrías, lido os resultados. abstratos das análises de
descrever e explicar a experiência ordinária, prever o hd)oratório, deve em' definitivo formular sozinho um díag-
comportamento e os acontecimentos, incutir-Ihes um sen- IIC~r1C1co e um prognóstico para saber em 'que pé se encon-
tido, provinham da linguagem e da sabedoria longamen- lrn. No que tange à nossa sociedade, a questão dos meios
te acumuladas por comunidades regionais ou profissio- \1I110S quais se chega a formar uma concepção concreta
nais; As percepções, os procedimentos lógicos, os méto- 111111 processos materiais, psíquicos, culturais, a fim de com-
dos práticos, a polifonia de seres meio pensados meio 11 11 umder , de comunicar ou de agir, é uma decorrência
reais que constituem a evidência dos sentidos ou da razão I mudança descrita. Em outras palavras, a gênese do
tinham a mesma origem e proliferavam em seus limites '11 tVII sonso comum, doravante associado à ciência, íns-
Portanto, o senso comum, com sua inocência, suas téc- t 1!IVO.He entre as suas preocupações teóricas e práticas es-
nicas, suas ilusões, seus arquétipos e' estratagemas, era 1\1·1111:;;.
:primordial.jA ciência e a filosofia dele extraíam seus ma- 11~lil5e
fenômeno de penetração da ciência, a mudan-
teriais mais preciosos e os destilavam no alambique de I1 lIoelal que ele representa revelam a existência de não
sucessivos sistemas ..... IIIIIIIIO/i preconceitos. Quando se trata de analisá-los de
Após vários decênios, essa corrente foi invertida. As )111110, sob a camada desses preconceitos, produz-se a ím-
ciências inventam e propõem a maior parte dos objetos, jjH1rtrlnO de uma degradação do saber que circula de um
conceitos, analogias e formas lógicas a que recorremos ,,,po A. outro, e gera-se a convicção de que a maioria
'para fazer face às nossas tarefas econômicas, políticas 11 111 homens não está apta a receber e utilizar correta-
22 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE OBSERVAÇÕES PRELIMINARES 23

mente esse saber. Recordam-se até mais não poder as dís- Iurnaram-se, por assim dizer, seus próprios médicos, cada
torções e as simplificações de que ela é alvo. E se o lei- 111Iequipado com sua ciência médica.
tor duvida, compare a versão especializada e a versão A Psicanálise obedece ao mesmo processo. Na medida
popular de uma lei ou de uma noção, e chegará por cer- IIltI que os princípios da sua terapia são mais bem conhe-
to a um juízo desfavorável sobre a última. Essa compa- I \( 10/:1, seus coriceitos assimilados e discutidos, muitos ín-

ração tranqüiliza, ao demonstrar - para os que de tal rHvlduos começaram a praticar uma análise selvagem so-
necessitem - que uma ciência repartida é uma ciência 111'0 oles mesmos e sobre os outros.j" Falar de sexualidade,
desacreditada. Ela promana, entretanto, de uma confu- 1111 oonflitos com os pais, desta ou daquela neurose, tornou-
são de objetivos. 11 lícito, até mesmo recomendado. Poucas pessoas entram
Com efeito, se o cientista experimenta, o fez em vir- 1111.10 e no gabinete do psicanalista em estado de inocência

tude da descoberta de um mecanismo, de uma substân- " muítas vezes, à força de leituras, elas sabem quase tan-
cia, de uma lei ou de um fenômeno desconhecido. O indi- II1quanto ele, situação que inquieta não poucos psícana-
víduo comum interessa-se pelas descobertas, seja porque Ilr11.uH. Se o paciente e o terapeuta possuem as mesmas
é para tal solicitado pelos próprios cientistas, seja por- 11I1I;ües, uma visão comum das causas e da finalidade do
I uunmento, quais serão, nesse caso, as suas verdadeiras
f, que o seu meio, os seus hábitos foram por elas afetados,
1'C'llIções, a que se deve o resultado obtido?/A eficácia da
seja, enfim, Porque julga necessário estar a par disso, IQI\o do analista se assentará numa ciência particular ou
~!'P" caso se veja obrigado a recorrer às novas descobertas. 1m crença coletiva que eleencarna e )1a sociedade que
Estão nesse caso o cardíaco que se documenta sobre os 1110 representa, a exemplo do sacerdote ou do xamã?
progressos da cirurgia do coração ou o citadino que se A distância entre uma comunicação determinada pela
inquieta por saber que o ar que respira e os seus alimen-

, I
tos estão poluídos.l~ caminho, cada um apJen~ lt
\ maneira a ~ip~ar
~"ª-
os conheçimentos científicos fora de
liIlIlrOse de transferência e uma comunicação rítua-
II'I,/I.{la em que os membros do grupo celebram - mes-
tllO que seja em torno de um divã e a horas fixas - seus
(2, seu âmbitQ;RrÓRTlO,_ impregna-se do conteúdo e do estilo " 1I0l'escomuns de saúde, felicidade e verdade correria o
, do pensamento que cleSrepresentam.; A bomba atômica, I hoo de encurtar, e os limites entre duas relações, tera-
pelas opções políticas que acarreta e pelos temores que lIélllticas e mágicas, de se esfumarem/ Paradoxalmente, a;
alimenta, foi uma formidável escola de Física para a Irlllctng cure descoberta por Freud para sair do impasse -.
maioria das pessoas. O surgímento de uma ciência ou ,ln sugestão individual iria transformar-se, após a difusão,
de uma técnica desconhecida tem sempre um impacto se- unI sugestão social, e as interpretações do analista em fi-
melhante/ A relação com o real, a hierarquia de valores, 11111'11.:) de retórica da sociedade. J.-B. Pontalis vê essa
1

o peso relativo dos comportamentos" tudo isso é pertur- 111I1<tOncia acentuar-se, "na medida em que mais de uni
bado/ As normas são simultaneamente mudadas: o que "!luLe contemporâneo aprendeu - está aí um dos eteí,
era permitido revela-se agora proibido, o que era írrevo-
tu/! ua difusão do 'saber' - a descrever-se e até mesmo a
gável parece revogável, e vice-versa. A teoria microbiana
das doenças institucionalizou a higiene. Os ritos de lim- ill roeber-se através de uma conceituação analítica mui-
peza, de esterilização, de isolamento, as prescrições de -r-
tnallse selvagem: A expressão alemã original de Freud foi "wilde"
evitação de contato com certas pessoas, -certos animais, I ,\',/W(illa/yse, corretamente traduzida por Wild Psychoanalysis na Stan-
certos objetos, de busca de um ambiente purificado, ori- ,1/,/ Edition inglesa. Mas acontece que "wild" oferece inúmeras opções
ginaram o desfile de medicamentos que previnem os efei- IOulllxlullis de tradução para o nosso idioma. como qualquer dicionário
tos da raiva, da tuberculose, das doenças venéreas, etc, A 111",/,", o a expressão freudiana viu-se traduzida, até em edições teorica-
1IIIIIIu responsáveis, como Psicanálise... Silvestre! 'Ora,- as conotações
vacinação; recebeu força de lei e a desinfecção, a auto- ""l'uloM de "silvestre" eliminam o caráter de "revelação brutal da na-
ridade da regra. E, pouco a pouco todos assimilaram es- 11111111 lias conflitos". Essa brutalidade "traumatizante" está' perfeitarnen-
ses ritos, essas -prescrições, ,impuseram-nos aos outros, e 111,'Alu'cN~a em "analyse sauvage", que adotamos sem 'reservas. (N. do'·T.)
24 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICÚ,ÁUSE OBSERVAÇÕES PRELIMINARES 25

tas vezes digna da dos mais consumados especialistas o ireta a sociedade em seu todo. Observa-se símultanea-
Colhido nessa miragem, como saber de onde vem a su- mente o nascimento de um novo senso comum que não
gestão? Qual éo espelho do outro, do analista ou do anali- pode ser compreendido em termos de vulgarização, de di-
sado?"3I.Ásnovas formas de resistência e de interpreta- fusão ou de distorção da Cíêncía. Para analisar esse even-
ção que são suscetíveis de nascer no decurso do trata- to e esse fenômeno, seria indispensável a contribuição da
mento, não em virtude da ignorância, mas do conheci- Sociologia e da Histórià. Entretanto, a Pslcologia Socíál
mento da Psicanálise, as interferências desse conhecimen- apreendeu os seus aspectos essenciais e o fez mediante o
to e de seu duplo social, não .podem deixar de ter reper- estudo das representações sociais e das comunicações.
cussões sobre a teoria, sobre a técnica e sobre a sua evo- Parcem-me necessários alguns esclarecimentos, neste pon-
lução em geral. . to, sobre esses dois \conceitos.
É evidente que a propagação de uma ciência tem um 'Foi Durkheím o primeiro a propor a expressão "re-
caráter criador. Esse caráter não é reconhecido enquanto presentação' coletiva". Quis assim designar a especificida-
nos limitamos a falar de simplificação, distorção, difusão, de do pensamento social em relação ao pensamento in-
ete. Os qualificativos e as idéias que lhes estão associa- dividual! Assim como, em seu entender, a representação
das deixam escapar o principal do fenômeno próprio de índívídual é um fenômeno puramente psíquico, irredutível
nossa cultur~ que é a (S-OCiali~ação-~. u~a disciplina e~ à atividade cerebral que o permite, também a represen-
seu todo e nao, como S~c0ntmua pretendendo, a vulgarz- tação coletiva não se reduz à soma das representações dos
zação de algumas de suas partes. Adotando-se este ponto indivíduos que compõem uma socíedade.zõom efeito, ela
de vista, transfere-se para segundo plano as diferenças é um dos sinais do primado do social sobre o individual,
entre os modelos científicos e os modelos não-científicos, da superação deste por aquele/Parã Durkheim, competia
o empobrecimento das proposições iniciais e o desloca- à Psicologia Social estudar "de que modo as representa-
mento do sentido, do lugar de aplicação. Vê-se, pois, do ções se atraem e se excluem, se fundem umas com as ou-
que se trata: da formação de um outro tipo de conhecí-. tras ou se dístínguem.v- Ela ainda não efetuou esse estu-
mento adaptado a outras necessidades, obedecendo a ou- do até agora, o que é uma pena.
tros critérios, num contexto social preciso. mão repro- Ao se abordar esse estudo, percebe-se que a noção
duz um saber armazenado na ciência, destinadO a perma- precisa ser circunscrita com maior rigor.lToda represen-
IG) J necer aí, mas reelabora, segund@asuaprópriac,onveniên- tação é composta de figuras e de expressões socializa-
\.?';) { cia e de acordo com os seus meios, os materiais encon- das. Conjuntamente, uma representação social é a orga-
trados. Por conseguinte, participa da homeostase sutil, nização de imagens e linguagem, porque ela realça e sim-
da cadeia de operações pelas quais as descobertas 'cien- boliza atos e situações que nos são o use nos tornam co-
tíficas transformam o seu meio ambiente e se transfor- o muns,,/Encarada de um modo passivo, ela é apreendida a...
mam ao atravessã-lo, e engendram as condições de sua título de reflexo, na consciência índívídual ou COletiva,}
prõpría, realização e renovação. Elas têm por pano de de um objeto, de um feixe de idéias quê lhe são exterio-
fundo uma mudança historicamente decisiva da gênese res. A analogia com uma fotografia captada e aloiada no
do nosso senso comum, que não é o contágio de idéias, cérebro é fascinante; a delicadeza de uma representação
a dífusão de átomos de ciência ou de informação que obser- é, por conseguinte, comparada ao grau de definição e ni-
vamos, mas sim o movimento no decorrer do qual as tidez ótica de uma imagem. É nesse sentido que nos re-
~ descobertas científicas são socializadas] , ferimos, freqüentemente, à representação (imagem) do
Detive-me por muito tempo em duas idéias. A Psi- espaço, da cidade, da mulher, da criança, da ciência. do I ,/
canálise é um evento cultural que, ultrapassando o cír- cientista, e assim por diante{A bem dizer, devemos,
cUlo restrito das Ciências, da Literatura ou da Filosofia,
3 J_~B.,Pontalis, op. cit., p. 34. 4' E. Durkheim, Les rêgles de Ia méthode. sociologique, Paris, P.U.F .•
. ( . 1947, p. XVIII.
~)
28 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA ,PSICANÁLISE OBSERVAÇÕES PRELIMINARES 29

como se delas fôssemos testemunhas. Levando em, conta que componhamuma linguagem definida, a fala da so-
essa função constante do real e do pensado, do científico ciedade. Uma fala bem feita para ser escutada, trocada
e do não-científico, uma conclusão se impõe f.9- represen- Il fixada na prosa do mundo.
tação social é um corpus organizado de conhecimentos e Será oportuno. começar justamente pela Psicanálise
uma das atividades psíquicas graças às quais os homens o estudo das representações sociais e das comunicações
tornam inteligível a realidade física e social, inserem-se 10ciais referentes a uma ciência? Eis a pergunta que me
I num grupo ou numa ligação cotidiana de trocas, e Iíbar- ~iz desde o começo e que depois me tem sido feita com
ram os poderes de sua imaginação.] (reqüência. O título de ciência muitas vezes lhe é recu-
"A opinião", escrevia Diderot a Necker, "esse móbil iado : suas teorias não são verificáveis nem refutáveis,
de que conhecemos toda a força para o bem ou para' o eu método" não é experimental e há poucas esperanças
mal, é apenas, em seu princípio, o efeito exercido por um de que a Psicanálise assuma algum dia uma forma quan-
pequeno número de homens que falam depois de terem titativa. Quem conhece de perto os textos de Freud sabe'
pe.n.sado."A. cJrcula~,ªº de Oj?.!!liões
e.~. ~t~orias produz se. Gomosua doutrina variou e até que ponto é difícil circuns-
. guramente esse 'ef~lto, e nao caôe mSlstlr-em-fâlPõnto. irever a unidade conceptual da Psicanálise, a hierarquia
Em-g-r'ãnâe medida, ela torna sociais as ciências e cien- fi os vínculos entre os seus conceitos. Entretanto, eu não
tíficas as sociedades. '~essa-a -razãOpelâqual era-mdls- Unha motivo algum para me deter em tais considerações. '
~ PênS'áv'éI ligar-se ao estudo das comunicações, a propósi- ,I~lasnunca me pareceram decisivas. A maioria desses de- ~
to da Psicanálise, entenda-se. Contudo, uma observação se eretos epistemológicos é de naturezãIiégativa; elEfsàê="" IV
impõe. Concebeu-se muitas vezes essa difusão dos conhe- t:1ara:rri-p&êriiP.tõFiãfilellfe-Õque- riãõ e sêrn:'
a ciêricia,-
cimentos como uma "disseminação" de cima para baixo 110S enSinar com a .m.esm~rãnçao que elãé.~ser~
ou como "~itação" daelita..cl.os-q.ue--S.ab_em_pela-massa vurmos a coisa um pouco mãislonge7 VerifiCamós que
dos que ignoram. Estamos mais perto da verdade quando uus decretos visaram sempre, de preferência, uma filoso-
i1 enxergamos uma troca, graças à qual experiências e 1'11.\ ou uma' ciência determinada: o veto de Auguste Com-
teorias se modificam qualitativamente, tanto em seu al- to, a teoria atômica, o veto de Karl Popper, do qual, à
cance como em seu conteúdo. Essas modífícações são de- uta de melhor, se faz hoje grande caso, a Psicanálise e
terminadas tanto Jl,elolLmeios de CQill.lUlic,ªç.ão (jornais, () marxismo, e assim por diante. Sem contar que esses
rádio, conversações, etc.) gomº--p.ela org~za窺--sociaI rlccretcs têm-se mostrado, a longo prazo, inaplicáveis.
/'dos que comunicam (Igreja, Partido, etc.). LÃ comuni- t'onte o leitor aplicar o 'veto de Popper à teoria da sele-
cação jamais se reduz à transmissão das mensagens de IJI\O natural ou à Etologia, e verá que elas deveriam antes
Origem ou ao transporte de informações inalteradas.Ela 1'I nnpartílhar da sorte reservada às teorias de Freud do
", diferencia, traduz, interpreta e combina, assim como os li 110 às teorias de Einstein.
~ grupos inventam, diferenciam ou interpretam os objetos Em suma, quando se declara que isto é ciência e ~
sociais ou as representações de outros grupo]. O estilo rí- ujullo não é, recorre-se a critérios de demonstração e
gido e, quanto ao fundo, autoritário das trocas científicas. .lu rigor, e nã§:'ã::c9té!lQ(Eê1Iescolfer~defecúnâiâa-:
sofre os mesmos acasos e varia de um núcleo a outro da' Ilu. Segudo estes últimos, a Psicanálise justificou 'ãmpta-
rede de comunicações. As normas e os símbolos coleti- lHI'nte o lugar que ocupa. Eu não tinha, aliás, motivo al-
vos aí se abastecem para efetuarem, depois, a filtragem UIU para ser tão exigente: a gama das ciências é suficien-
necessária das informações e dos estilos. As palavras mu- Itil i rente vasta, a diversidade suficientemente grande, para
dam de sentido, de uso e de freqüência de uso, as regras 1\ Incluir aí a Psicanálise, socíat .e epistemologícamente.
mudam de gramática e os conteúdos adotam outra forma. III por que não outras ciências e teorias sociais, notadamen-
No processo de comunicação, acompanhamos passo a 11, IL Antropologia, a Economia ouo marxismo? Meu estu-
passo a gênese das imagens e dos vocabulários sociais, seu d•• podería incidir sobre elas, tanto quanto sobre as ciên-
conúbio com as regras e os valores dominantes, antes ,'''u« físicas e biológicas. E sobretudo hoje, quando se dís-
30 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE OBSERVAÇÕES PRELIMINARES 31'

cute com tanta veemência o peso e a estrutura das ciências uionte ausentes. Para atenuar esse inconveniente, formei
e das ideologias. A exploração de mecanismos e de fatos nls grupos:
concretos seria suficientemente corroborativa e teria um -'popUlação representativa (PR), grupo formado pela,
efeito prático. Em vez disso, citando e recitando textos con- uuiostra representativa da população parisiense, tal como,
sagrados, tomando daqui e dali um dedo de Psicanálise, ncontrada em qualquer tipo de sondagem .
uma pitada de Lingüística, apenas o que é preciso para opulação "classe média" (PM), constituída de ín-
refrescar um pouco uma retórica fatigada, dá-se a impres- uustríaís, artesãos, funcionários, assalariados e donas de
são de compreender e de analisar o fenômeno ideológico, "IlHa. Fui levado a dividir este grupo em dois subgrupos.
quando não se faz mais do que repetir a evidência e evitar (liMA e PMB), dada a sua heterogeneidade quanto aos ní-
a análise. vlJlsde instrução e sócio-econômico. No subgrupo A foram
Mas deixo a outros o cuidado de pintar o quadro de- ncluídos os informantes de níveis de instrução e sócio-
veras surpreendente dessa fuga desabalada diante do con- noonõmíco mais elevados, e no subgrupo B os íníormantes
creto e do particular, do cerimonial que lhe é concomítan- c lu níveis de instrução e sócio-econômicomais baixos. A \50-
te, e de explicar as suas causas. Estou persuadido de que Iiroposíção parcial dos dois critérios faz com que esta sub-
a Psicanálise foi, para uma investigação como essa, um dlvlsão não tenha sido sempre das mais rigorosas.
objeto de eleição. Teria sido mais difícil, para começar, - "População Liberal (PL), na qual foram incluídos
estudar a socialização de uma teoria física, por e~emplo, nroressores, médicos, advogados, técnicos de nível superior
olJretudo porque se tratava. de inaugurar um domínio de 11 oclesíãstícos.
pesquisá-:-'Eu"1Irêi proveito dessã vantagem, mas também -'população Operária (ro) , grupo que abrange os
inlpúsdrásticos limites à generalidade dos resultados obti- nuorãríos de todas as categorias, tanto os operários espe-
I
dos. Espero, entretanto, que eles conservem alguma utili- olnllzados como os qualificados, contramestres, etc.
dade, mesmo nessas condições. -'População Estudantil (PE), de estudantes da Uni-
ursldade de Paris.
Apesar de sua importância, enfatizada de todos os - População de Alunos de Escolas Técnicas (PT) , com-
lados, as representações sociais e as ideologias não têm ,lIllundendo alunos de 18 a 22 anos de idade que se prepa-
sido objeto,Cieum modõ geral, de uma aborda~mê"lJlpíri- 111111 para diversos ofícios, como secretariado, cerâmica,
ca freqüente, Enquanto se aguarda o"nasClmentõ de uma ti rtumes. ótica, etc.
metodologia, a pesquisa que diz respeito àpopulaçâo de in- m virtude de uma comparação que me pareceu ne-
divíduos e a análise de conteúdo referente à "população I 111II'l\ria, interroguei igualmente dois pequenos grupos de
de documentos são as técnicas atuais mais adequadas ao "Ielltos residentes na província (Grenoble e Lyon) ,
seu exame científico, Essas técnicas são bastante simples
e flexíveis para propiciar resultªdos válidos sobre os pon- Procedi a uma amostragem percentual, isto é, a es-
plllil das pessoas a entrevistar foi efetuada de acordo
tos particulares que nos interessam~
f - - ., - - ""111 certas proporções, levando ~m conta as con-
IIl'n(l~ de ida~e, ~ex~rofissão-1_tixadas....de_antenlão ..
a. POPULAÇÕES INTERROGADAS:
11\ motivos tecnicos, tanto de execução da pesquisa como
A pesquisa a que procedi baseia-se em amostras de ItI dof:iniçãoexata das populações, nem sempre pudemos
populações. Inicialmente, devia assentar numa amostra- IIlrluHlll'ara representatividade de todas as amostras, o.
gem representativa do conjunto da população parisíense. II11111111'O total de sujeitos interrogados é de 2,265.

Dei-me rapidamente conta de que isso teria sido um erro,


na medida em que somente certas categorias sociais se ea- I i, C') CA OERNO-QUESTION ÁRIO
contrariam representadas em quantidades suficientes, en- If:Mtl~ pesquisa não se propõe somente descrever as,
quanto outras (intelectuais, estudantes) estariam pratica- l.rlbtricões de opiniões a respeito da Psicanálise, mas:
CAPÍTULO I

A Representação Social:
Um Conceito Perdido -?

Miniaturas de Comportamento,
Cópias da Realidade
e Formas de Conhecimento

As representações sociais são entidades quase tangí- :


veís, Elas circulam, cruzam-se e se cristalizam incessante- I
monte através de uma fala, um gesto, um encontro, em.'
IIOSSO universo cotídano.sa maíôría das relações sociais es-
I
tabelecídas, os objetos produzidos ou consumidos, as co-
uumícações trocadas, delas estão impregnados, Sabemos
ruo as representações sociais correspondem, por umlado;
~ substância simbólica que entra na elaboração e, por
/1111:1'0, à prática qÜã'"]>fo-duz -a~dita-Súbstâiicia, tal como a
otõnoíaou os-mitos correspondem a uma prática científica
u mítíca ..
l!::ntretanto, se a realidade das representações sociais,
.\cll de apreender, não o é o conceito. Há muitas razões
IlHI"/\isso. Razões histórias, em grande parte, e é por esse
/lIOUVO que se deve deixar aos historiadores a incumbên-
IIh~ de descobri-Ias. Quanto às razões nã~kistÕl'ieas, redu-
IOltl,-/iO todas a uma únicala sua posiçãif"mista') na en--
clI'I'lv,l1hada de uma série de conceitos SOCi01Qgicos~é de uma .
•',Iu de conceítós psícológícosfE nessa encruzilhada que \
·42 A REpRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 43

'I temos de nos situar. O empreendimento tem, por certo, al- concreta são outras tantas analogias com os fenômenos
go de pedante, mas não vemos outro modo de destacar de próprios da nossa sociedade. Aí se misturaram diversos
seu glorioso passado tal conceito, de reatualizá-lo e com- preconceitos. Quem não fala do "mito. da mulher", do
preender-lhe a específícídade, limito do. progresso", do "mito. da igualdade" e de
Voltemos um pouco atrás, mais precisamente a.~ outros mitos dessa ordem? Apenas se trata, com
""~-:-h-e-:-im-
Em seu espírito, as representações sociais consti- muita freqüência, de uma lorma de rebaixar as opil1Jõ.e.~
tüíãm uma classe muito genérica de fenômenos psíquicos atitudes atribuídas a um determmado grupo ão nível de
e sociais, abrangendo o que designamos por ciência, ideo- massa - à'genje baixã, em suma -~ q1J~ ãão atingiu õ

}<?g~a!_ mito, ele. Elas destrinçavam o aspecto "social" e, pa- rau deJacionalidade e de consciência das elites, as quaís,
. ralelamente, e vertente perceptiva da vertence intelectual osclarecídas, batizam ou criam essas mítologtas - ou e..§-
do funcíonemnto coletivo: "Um homem que não pensasse crevem-So15l'e •••
elall. -- -- - - ,
por meio de conceitos não seria um homem; pois não se" Seméníãnte transposição pouco se impõe, e a dife-
ria um ~r s~ocjal,reduzido apenas aos objetos da percepção rença parece mais tecunda,e Nossa sociedade diversifica-
individual, seria indistinto e animal."! "Pensar conceptual-

A
õ ~~
. mente não é apenas isolar e agrupar os caracteres comuns
\.) a um certo número de objetos; é subordinar o variável ao
\JY ", 1 permanente, .• Q_ individual ao süçJal.:'2 .
/ Se, nesses textos, Durkheim queria simplesmente di-
:1 É preciso insistir na diferença entre mito e representações
muitfssimas razões. Eis, contudo, a mais importante.
(lerado em (e por) nossa sociedade uma f~~
sociais por
O mito é consl-
"arcaica" e "primitiva".
do pensar e de se situar no mundo. Logo, uma forma anormal ou in-
forior, de algum modo. Não se quer reconhecê-lo, é certo, mas isso
",cJ> zer quea vida social é a condição de todo pensamento or- ~I,lria como tapar o rosto para ignorar a realidade. Por extensão, as
Y ganizado - e, de preferência, que a recíproca também é representações sociais vieram a ser consideradas da mesma maneira. Ora,
verdadeira -, sua atitude não suscita objeções. Entretan~ nosso ponto de vista é muito claro: essas representações não são uma
I'nrl1la "arcaica" nem uma forma "primitiva" de pensar ou de se situar
to, na medida em que ele não aborda frontalmente nem 110 mundo; elas são, além disso, normais em nossa sociedade. Seja qual
explica a pluralidade de modos de organização do pensa- ror o futuro das ciências, elas sempre deverão passar por transformações
mento, mesmo que sejam todos sociais, a noção de re- 1"11'11se tornarem parte integrante da vida cotidiana da sociedade hurna-
presentação perde, nesse caso, boa parte de sua nitidez.. 111\, Mas existe uma causa sociológica mais direta, pela qual é irnprescin- -,
rlívcl que as nossas sociedades se interessem particularmente por elas c
Talvez se possa encontrar ai outra das razões de seu aban- 11'1'Sconcedam um lugar à parte. Ê que elas correspondem a necessi-
dono. Os antropólogos debruçando-se sobre o estudo dos IIlIdcs e práticas que poderíamos chamar profissionais, assim como a ciên-
mitos; os sociólogos voltando-se para o estudo das ciências, 1111,11 técnica, a arte, a religião têm uma contrapartida nas necessidades
os lingüistas para o estudo da língua e sua dimensão se- 1i práticas profissionais dos cientistas, engenheiros, artistas e sacerdotes.
mântica, etc. Para lhe atribuir um significado determina- )111,l1'CITIOS falar das profissões cujos membros são "represestantes"
1\ I êm por missão participar na criação de representações. Que outra
do, é indispensável que se lhe retire o seu papel de cate" IUIMIlsão os "divulgadores científicos", os "animadores culturais", os "for-
geria geral, referente ao conjunto de produções simulta- uuulorcs de adultos", etc., se não representantes da ciência, da cultura, da
neamente intelectuais e sociais. Consideramos que, desta li 1111.:11, junto ao público, e representantes do público, na medida do
forma indireta, é possível singularizá-Io, destacá-lo do meio 1I,,~~rvcl, junto aos grupos criadores de ciência, de cultura é de técnica?
da cadeia de termos semelhantes. OIlU outra coisa fazem, lamentavelmente sem que o queiram nem o sai-
l.tllll, na maioria das vezes, se não participar na constituição de repre-
. Trata-se de uma forma do mito, e poderíamos con- ,·111,,\01:5sociais? Na evolução geral da sociedade, essas profissões não
fundir hoje mito e representações sociais? Certo, o exem- Jllllllll1l deixar de multiplicar-se. É forçoso que se reconheça a especifi-
plo dos mitos, das regulações que efetuam do comporta- I Iilndu de sua prática. Veremos então nascer uma ~~edagogia das repre-
l'III/I~'l\cs sociais" Na ausência dessa pedagogia, as conseqüências da di-
mento e das comunicações nas chamadas sociedades pri- .I,nu do trabalho em manual e intelectual, da "produção" e do "consu-
mitivas, seu modo de conceptualizar uma experiência 11111'" dll cultura, serão cada vez mais nefastas. Estas observações foram-
1I1f~/lIIIlCI·itll1spela experiência de vários estudantes que freqüentam nosso
1 E. Durkheim, Les formes élémentaires de Ia vie religieuse, Paris, AI. ,,"d'I~I'I() na Ecole des Hautes Etudes, e pelo belíssimo livro de Philippe
can, 1912, p. 626. HlIlIllllpl() (Le Partage du Savoir, Paris, 1974), com o qual acabamos de
2 Op, cit., p. 627.
"IIYII' conhecimento.
G A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE
UM' CONCEITO PERDIDO 45
da, na qual os indivíduos e as classes desfrutam. por ve-
zes, de grande mobilidade, assiste ao desenvolvimento de nal e, em última instância, errado; nem por isso o mito
sistemas muito heterogêneos, políticos, filosóficos, religio- guindado à sua verdadeira dignídade.: Não merece que I '
sàS;ãrtísticoS:-e de modos de controle do meio ambien- nos fixemos ~e.-Põjanto, temos glliLJlDcarar..a ~pre- : I
~-menos sujeitos a garállÜas ~ por exemplo-;--asexpe- scntação s99ml tanto a medida em que ela-possui uma-
riências científicas. Enquanto que o mito constitui, para contextura<..psicológica utônoma como na medida em que
o chamado homem primitivo, uma ciência total, uma "fi- própria lJ:e-rwf3,sCrSociedadee de nossa cu71úra.;: -
losofia" única em que se reflete sua prática, sua percepção Trata-se de uma dimensão ou de um co-produto da
da natureza das relações sociais, para o chamado homem iíêncía? Durkheim parece acreditar nisso, porquanto viu
nas ciências, como, aliás, nas reliões, apenas casos parti-
- ')
j social cOE!;tituiuma di" vias .de
moderno aCtepres.!'ll!!!çã.f'
apreensão do mundo concreto, eircunscrito em seus ali-
p~r~q,~e em_s!:!~ conseqüênc..!..~sJSeos grupos ou os indi-
víduos a ela recorrem - na condíção de que não se trate '
:ulares. Escreveu ele: "O valor .que atribuímos à ciência
depende, em suma, da idéia que fazemos coletivamente
do. sua natureza e do seu papel na vida; quer dizer, ela
de uma escolha arbitrária - é certamente para tirar pro- xprime um estado de opinião. E que, de fato, tudo na
veito de uma das múltiplas Possibilidades que se oferecem vida social, inclusive a própria ciência, assenta na opi-
a cada um. Assim, a população de origem espanhola do nlão."! Sim, é certo. Mas o papel dessa opinião na estrutu-
Sudoeste dos Estados Unidos possui nada menos de qua- m e no desenvolvimento das teorias científicas é cada vez
tro registros para classificar e interpretar as doenças: Inaís reduzido. Ela dá, por vezes, mais importância, na
(a) a sabedoria popular medieval do sofrimento físico; escala d~ "yalo,fes,a uma ciência do que a outra, mais à
(b) a cultura das tribos ameríndias; (C) a medicina po- Biologia do que à Física, mais à Psicanálise do que à Eto-
pular inglesa nas zonas urbanas e rurais; (d) a ciência Iogia, e decide até sobre investimentos de ordem financeira
médica. De acordo com a gravidade da doença, e com o política; a isso se reduz seu papel, ou quase . .por outro
sua situação econômica, eles empregam um ou outro des- Indo, o resto é decidido com a ajuda de experimentos, de
ses registros para procurar a cura. Observam-se, pois, ('I\lculos, de invenções teóricas. \Q~nto às .representações ~t .--
circunstâncias socialmente definidas em que 'eles se deixam ocíaís, elas atuam por meio de(observaçõesl de (análises
guiar por~t>resentações c~l~t~aS)ou por informações .lossas ?b~_e!vaçõ~ ~e1!l?ç~e§e Iíhguagena de que se ~pro~
científicas: Os grupos, nestes como em outros casos, es- urlam a esqu-eroa e a "dlrelta, .nas ciencias e nas rííoso-
tão conscientes, quando optaram num sentido ou no ou- flJ~H, e tiram as conclusões que se imponham. Muitas ror-
tro, dos motivos a que obedecerarp. '1l111us que encontram sua aplicação na Biologia - a luta
Compreende-se, pois, que os traços, tanJJL..sQci.ais IltJln vida, por exemplo - ou nas Ciências Sociais -
~ -) como intelectuais, de representa9ões formadas_.§m socíe- III'UUem que os exemplos seriam inúmeros - prolongam
y dades onde a ciência, a técnica e a filosofia estão pre- _

I
.r r
oliHn:;; conclusões e lhes dão uma expressão memorável.
. sentes sofram sua influência e se constituam em seu pro- Ilans permanecem, contudo, à margem do núcleo firme de
lõngamento, e em oposição a elas. Veremos em seguida ('Hdn ciência. Observações análogas aplicam-se a outros
quais são esses traços. Eritrernentes, identificar mito e ('(IIl(joitosda série, ideologia, visão-do mundovetc., que ten-:
representação social, transferir as propriedades psíquí- 110m a qualificar globalmente um conjunto de atividades
cas e sociológicas do primeiro para a segunda, sem It lI,oloctuaise práticas. Do ponto de vista que nos ínteres-
mais nem menos, equivale a contentar-se com me- 11 uquí, tal exercício, fastidioso em seu princípio, é ínú-
táforas e aproximações falaciosas, quando .é ímperatí. [:11 O resultado seria idêntico ao obtido pela comparação
. vo, pelo contrário, circunscrever de forma rigorosa um tllI/I representações sociais do mito e da ciêncía, a saber,
aspecto essencial da, realidade. Essa cômoda aproxima- '//1/1 elas constituem uma organização psicológica, uma
ção tem' freqüeritemente por finalidade .Q.epreciar o nosso
"senso comum", mostrando seu caráter interior; irraêlO- -4- / '
UI/, rlt, p, 626.
'r\.
X1~Q \ ~) \

f\:
~t f'\ ~
46 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 47

forma de conhecimento particular de nossa sociedade ~ O conceito de limagem não se afasta muito do de opi-
irredutioel a qualquer outra. • nião, pelos menos no quEf"'serefere aos seus pressupostos
Mas se poderia indagar neste ponto: Por que retoma- de base. Foi utilizado para designar uma organízação mais
mos essa noção já antiga? Uma vez que se lhe recusou a complexa ou mais coerente de juízos de valor ou de ava;
posição dominante, a de traço distintivo do social, de cate- Ilação. NUm pequeno e veemente livro, Boulding reclamou
goria que engloba todas as formas do pensamento, para a criação de uma ciência, a "Eikonics", que lhe seja con-
'\.
rebaixá-Ia à categoria mais modesta de forma específica agrada. * Essa proposta índíca uma lacuna evidente na
entre outras, ela se recobre de numerosas noções psicos- Psicologia Social, em cuja esfera deveria estar o estudo
\ sociológicas equivalentes. IAssim, as noções de opinião essas imagens. Cumpre ver aí o sintoma de uma renova-
(atitude, preconceito, etc.) e de imagem parecem muito ção de interesse pelos tenômenos simbólicos e de uma in-
próximas dela. Talvez isso seja verdade num sentido es- satisfação pelo modo como têm sido abordados. Entretan-
trito, mas é falso num sentido fundamental, Assim, veja to, uma observação minuciosa leva 'forçosamente à con-
mos mais detalhadamente por quê/ clusão de que as idéias a que se recorreu são deveras insa-
\.
Como se sabe, a opinião é, por um lado, uma fórmula tlsfatórías. Tratando-se da imagem, esta é concebida como
socialmente valorizada a que um índviíduo adere; e, por reflexo internQ fie_upIa realidade externa, cópia fiel no es-
outro lado, uma tomada de posição sobre um problema juríto d,.oque se encontra fora do e,sPírito. por" c,onsegUi1
controvertido da sociedade. {J?uando convidamos indiví-
duos a responder à pergunta 'A Psicanálise pode ter uma
influência salutar sobre as condutas criminais?", os 69'%
to, é a~produção...p-ªêSivJ'l.de Y!!l çl~d~irnep.iatQ-f"O índí-
víduo? - foi escrito: - "carrega em sua memória uma
coleção de imagens do mundo sob seus diferentes aspec-
*'
de respostas "sim", os 23% de "não" e os 8% de "sem res- tos. Essas imagens são construções combinatórias, análo-
posta" indicam-nos o que uma coletividade pensa da apli- gns às experiências "visuais. São independentes, em graus
cação mencionada. Nada é dito do seu contexto, nem dos diversos, simultaneamente no sentido de que se pode indu-
critérios de julgamento; -nem=aos conceitos que lhe são v.1 r ou prever a estrutura das imagens-fontes pela estrutura
subjacentes. A maioria dos estudos descreve a opinião !to outras, e no sentido de que a modificação de certas

como sendo pouco estável, incidindo sobre pontos parti- magens cria um desequilíbrio que resulta numa tendên-
curares, e, portanto, específ,ica; finalmente, revela ser um cdlt para modificar outras imagens."

I' momento da formação de atitudes e estereótipos. O seu


caráter, parcelar, é admitido por toda a gente. Mais ge-
ralmente, a noção de opinião implica:
-Lüma~dos indivíduos a um objeto que é dado de
Podemos, sUPill7que essas imagens são espécies de
"xonsações méntaisY, de impressões que os objetos e as
IlllHHoas deixam em nosso cérebro. Ao mesmo tempo, elas
mnntêm vivos os traços do passado, ocupam os espaços

I
cio nossa memória para protegê-los contra a barafunda da
fora, aca a o, independentemente do ator social, de sua mudança e reforçam o sentimento de continuidade do
intenção ou de suas propensões; 1l1('!O ambiente e das experiências individuais e coletivas.
- um vínculo direto com o comportamento; o julgamen- I'ode-se, para esse efeito, revocá-Ias, reanimá-Ias no espí-
to recai sobre o objeto ou o estímulo, e constitui, de al- 1'11.0, do mesmo modo que comemoramos um evento, evo-
gum modo, um anúncio, uma réplica interiorizada da ação oumos uma paisagem ou contamos um encontro que teve
,--_a vir.J IIIHaroutrora. Elas efetuam sempre uma filtragem e re-
z: Nesse sentido, uma opinião, tal como uma atitude, é
considerada unicamente do lado da resposta e enquanto
ultam de uma fjltragem de informaçõéspôSsüíff~u
nohldas~pelõsuJeltõ â respeito do prazer que eleõusca",ou
r~
"preparação da ação", comportamento em miniatura. Por Eikonics: palavra inglesa derivada do grego (Eikon = imagem, ícote)
esta razão, nós lhe atribuímos umavírtude predítíva, uma '1"1\ autoriza a tradução por Lconia (por analogia com outras ciências
vez que, segundo 0_ que um indivíduo diz, pode-se dedu- usam o sufixo inglês -ics: Economics, por exemplo). A Iconia ou
e.r o que ele vai faz,!!.r] -
'IIIU
• ""Ida icônica seria; portanto, o estudo das imagens mentais. (N. do T,)
'--
48 A REPRESENTAÇ~O SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 49
da ~~ência que lhe é necessária. Observa-se desse modo negatíva a respeito da Psicanálise - e diz que ela é uma
a que pomo umãimagem+{rdeterminada pelos fins, e que Ideologia -, nós interpretamos sua atitude como uma to-
ela tem por função principal a seleção do que vem do in- uiuda de posição ante uma ciência, uma instituição, etc.
terior, mas sobretudo do exterior:~ ,rAs lmâgens· desem- ll;ntretanto, ao observá-Ia mais de perto, verifica-se que a
péí111am-oc-papelde uma tela "seletiva que serve para re- Il~icanálise está confinada ao domínio da ideologia justa-
ceber novas mensagens, e controlam freqüentemente a monte para POSSib, ilita:: esse )ul~amento negativ~.~ortan-1 l:g -

r~
percepção e a interpretação daquelas mensagens que não (,0,,, se u:na-!,epres,entaçao _s2E1ale ll:IDa"preparaç~o para a ~ ~
forem inteiramente ígnçradas, rejeitadas ..o_~alcadas." uçüo", ela nao o e somente na medídã em que guia o com- ~ .. '~
I Quando falamos de \!:representações sociais partimos iortamento, mas sobretudo na medida em que remodeiã'e , (O
\~ geralmente de outras pr~issaS: Em primeiro ugar, con- roconstítui os elementos do meio ambiente em que o Cõ1'n.- ?
sideramos que não existe um corte dado entre o universo uortamentc deve ter lugar. Ela consegue incutir úm sen- 1\ c) f
exterior e o universo do indivíduo (ou dQ~o L-q:ue Q Lido ao comportamento, íntegrá-lo .numa rede de relações' (..;:::;
sujeito e o objeto não são abSQllliaJIlente heterogêneos em 1lIJ1. que está vinculado ao seu objeto, rornecendo ao mesmo ~
é1:rcaÍllpo comun:/O objeto está inscrito num contexto unnpo as noções, as teorias e os fundos de observação que I O-
ativo, dinâmíco, pois que é parcialmente concebido pela IOrJIIlmessas relações estáveis e eficazes~ -
pessoa ou a coletividade com<tproIOngamento}de seu com- O::; pontos de vista dos indivíduos e grupos são enca-
pórtamento e só existe para eles enquanto função dos 1'llIllI/'I,orn seguída, tanto pelo seu caráter de comunicação
meios e dos métodos que permitem conhecê-lo. Por exem- Ijlllllllo Illllo sou caráter de' expressão. Com efeito, as ima-
~ definição de Psi~lis~ 30 capeI dà psic@ã-
iS:@ depende da atitude em face a sJ.Q.auahseou do I'
OIHi,11/1OpllllõuÍ'l,são comumente apresentadas, estudadas
1I11111mctHH uio-somente na medida em que traduzem a
psicanalista, e c'tãeXperiência pessoal do autõraa-aefi- 111 IM1C.'/LII
I) IL oscuía de valores de Úm indivíduo ou de uma
níção .: Nao reconl1ecerõ podercriãaõrll~el I "IIILlvJduclo. Com efeito, trata-se apenas de uma fatia re-
eventos, de -nõssããtivitta:derepresentativa, equivaJe-a 1ll'IIdniL substância simbólica longamente elaborada pelos ,
acreditar na ínexrstênõia ele relações entre o nosso-"re,- Illcllvldu.ose coletividades que, ao modificarem seu modo
servatório"· de imagens e a nossa êapacidaae decombi- 1111VUl', tendem a influenciar-se e a modelar-se reciproca-
na-Ias, de engendrar novas e surpreendentes cornfifháções. ,trlÜIlLo. Os preconceitos raciais e sociais, por exemplo, ja-
Ora, os autores que vêem nesse reservatório apenas'Eõpias
fiéis do real parecem negar ao gênero humano essa ca-
pacidade, no entanto bem evidente, e da qual a arte, o
folclore e o senso comum são testemunhos cotidianos. Mas
IllIdMostão manifestamente isolados; eles assentam num
1I111c1o de sistemas, de raciocínio de linguagens" no tocante
I Iuuuresa biológica e social do homem, suas relações ~~
I IlIll o mundo. Esses sistemas são constantemente ínterlí-
-
o sujeito constitui-se ao mesmo tempo. Pois, segundo a IIltOS,comunicados entre gerações e classes, e os que são
organização que ele' se dê ou aceite do real, o sujeito si- 1111.101,0 desses preconceitos vêem-se mais ou menos coagi-
tua-se no universo social e material. Há uma comunidade cllII .•• 1 entrar no molde preparado e a adotar uma atitude (/
de gênese e de cumplicidade entre a sua própria definição
e a definição do que não é ele - logo, do que é não-sujei-
to ou um outro sujeito.
1'lIIlformista. De modo que, retomando a fórmula de He- '--,'--/
111, HC tudo o que é racional é real, isso deve-se ao fato
(lI' () "real" ~ !L mulher, o negro, o pobre, etc. - .ter si.flÇ?
J
- / Assim, .quando exprime sua opinião sobre um objeto 1."11~)o.1hado para" torná-lo coníôrme ao "racional~
1fomoslevados a su or ue ele ., entou al~- A própria pesquisa, meio de' observação, opera um ...-.
~ o jeto, que o estímulo e a i'esposta se formam em cçm- Iuvuntamento análogo. ~a pessoa que res:Qonde a um '-
junto. Quer dizer, a resposta não_é uma re~ãl aa.esttmu- IftloHtionário nada mais, faz do que escolher uma catego- .'(
~rto pontoestá na sua ori em O estímulo , III~de respostas; ela transmite-nos uma mensagem parti-
éãe erminado pela resposta O que significa isso, na prá- oulnr. Transmite-nos seu desejo de ver..as coísas ey.9l!ll~,
jíca? De ordinário, se um indivíduo exprime uma atitude \ "1111\ num sentido ou noutro. Ela procura aprovação ou
1'\
50 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 51
~!"-
espera que.sua.resposta lhe acarrete uma satisfação de or- universo povoa-se de seres, .0. comportamento impregna-
-dem intelectual" ou Jl~sê.oal.lEssa .... pessoa esta perfeita- se de significações, os conceitos ganham cor ou se con-
-mente cônscia de que, diante de outro pesquisador, ou cretizam (ou, como é costumedízervobjetívam-se) , enri-
em outras círcunstãncías, sua mensagem serra díterente. quecendo a tessítura do que é, para cada um de nós, a
Tal variação não indica, de sua parte, uma falta deau- realidade. Ao mesmo tempo, são propostas formas em que
tenticidade ou de uma atitude maquíavélica destilJ.ada a as transações comuns da sociedade encontram expressão
ocultar uma opinião "verdadeira". Somente o processo e, reconheçamo-lo, essas transações são regidas por es-
usual de interação está em causa, por ser ele que dá re- sas formas - simbólicas, bem entendido -, ficando as-
levoa tal eu qual aspecto do problema discutido, ou que sim disponíveis as forças que nelas se cristalizaram. Com-
controla o ..emprego do código adaptado à relação fugaz preende-se por quê. Elas determinam o campo das comu-
que se formou nessa ocasião. É esse processo que mobi- nicações possíveis, dos valores ou das idéias presentes nas
liza e confere um sentido às representações no fluxo de re- visões compartilhadas pelos grupos, e regem, subseqüen-
_ lações entre grupos e pessoas. Escreveu Heider: "O pro- temente, as condutas desejáveis ou admitidas. Por esses
blema da conscíêncía, da, abertura para o mundo, ou, se traços - sua especificidadee sua criatividade na vida
preferirem, da representação, recebe um significado par- coletiva -, as representações sociais diferem das noções
ticular se considerarmos as relações e a interação entre sociológicas e psicológicas a que as compramos, e dos fe-
pessoas." Os conceitos de imagem, de opinião e de atitude nômenos que lhes correspondem.]
não levam em conta esses vínculos, a abertura que os
acompanha. Os grupos são encarados a posteriori de ma-
neira estática,nãona-medítla-em-que crfa~se' õomu- 2
'e, nlcám, IlJ,ãs· enquanto utilizalll::e selecionam uma informa-
, ção que circula na sociedade. LEmcontrapartída, as repre- As Filosofias da Experiência Indireta
'~ ; sentações socia~s ~~ 9Q!ljupt9,s_d~~,,-, seu ~tatus ..é o
_ ') de uma produção de comportamentos e ãe relações com o
mêiOanitrienfEf,ãê"umaação-que mõdíftc-a-a;qltete'S~e~'Bstas,. - A SOCJ!EIDADE DOS PENSADORES AMADORES

l
enâblte~umà' reprodução desses comportamentos ou des-
sas relações, de uma reação a um dado estímulo exterior)
,CEm suma, vemos aí sistemas que têm uma lógica e uma
linguagem particulares, uma estrutura de implicações que
Toda ordem de conhecimento, a observação é banal.
nrossupõe uma prática, uma atmosfera que lhe são pró-
nrías e lhe dão corpo. E também, sem dúvida alguma,
IIIU papel particular do indivíduo conhecedor. Cada um
assenta em valores e em conceitos. Um estilo de discurso til) nós preenche de modo diferente esse papel, quando
que lhes é próprio. Não os consideramos como "opiniões HO trata de exercer o seu ofício na arte, na" técnica ou
sobre" ou "imagens de", mas como "teorias", "ciências IIa ciência, ou quando se trata da formaçã 'i} de represen-
coletivas" sui çeneris, destinadas à interpretação e elabo- I.Hçõessociais. Neste último caso, cada pessoa parte de
.. ração do real. Elas vão constantemente além do que é uhservações e, sobretudo, de testemunhos que se acumu-
1 "ímediatamente dado na ciência ou na filosofia, da classi- 11I1U a propósito dos eventos correntes: o lançamento- de
ficação dos fatos e eventos. Pode-se vislumbrar aí um 11111 satélite, o anúncio de uma descoberta médica, o dis-
corpus de temas, de princípios, detentor de uma unidade 11111'80 de um personagem importante, uma experiência vi-
e aplicável a determinadas zonas de existência e de ativida- vlctf1, e contada por um arnigoum livro lido, etc.
de: a Medicina, a Psicologia, a Física, a Política, etc. O A maior parte dessas observações e desses testemunhos
que é recebido, inclusive nessas zonas, é submetido a urovõm, entretanto, daqueles que os ínventaríaram, organi-
um trabalho de transformação, de evolução, para se con-. II,I'nme informaram, no quadro de seus interesses. .jorna-
" verter num conhecimento que a maioria das pessoas uti- 11111,ns,cientistas, técnicos e homens políticos fornecem-nos
liza em sua vida cotidiana. No decurso desse emprego, o
("
52 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 53

continuamente os relatos de decisões políticas ou de ope- em suma, a transformação de um conhecimento indireto


rações militares, de experiências científicas ou de inven- num conhecimento direto - constitui o único meio de
ções técnicas. Esses relatos - artigos, livros, conferên- nos apropriarmos do universo exterior. Exterior num
cias, etc. - estão muito distantes de nós porque nos é duplo sentido: o que não nos pertence - mas se suben-
impossível apreender exatamente a sua linguagem, repro- tende que pertença ao especialista - e o que está fora
duzir o seu conteúdo, cotejá-Ias com informações e ex- de nós, fora dos limites do nosso campo de ação.
periências mais diretas e mais consentâneas com nosso Contudo, ao tornar-se interior, e para que seja ín-
ambiente ímedíatç, Em seu-:,\onjunto, parecem participar teriorizado' o conhecimento penetra no "mundo da con-
de um t,mundo do, discurso") construído a partir de ma- versação";' prosseguindo as permutas verbais depois de,
teríaís ouídadosamente contrôlàdos segundo regras ~plí: certo tempo. Uma frase, um enigma, uma teoria, apanha-
citas de que somos o objeto, com os nossos problemas, dos no ar, aguçam a curiosidade, prendem a atenção.
õ nosso futuro e, em definitivo, tudo o que existe como Fragmentos de diálogo, leituras descontínuas, expressões
Jlós. ,ívras esses relatos estão, ao mesmo tempo, muito- ouvidas algures retomam ao espírito dos interlocutores,
próxímos porque nos dizem respeito, suas observações in- misturam-se às suas impressões; brotam as recordações,
terferem com as nossas próprias observações, e suas lin- as experiências comuns apossam-se delas. Graças a esses,
guagens ou suas noções, elaboradas a partir de fatos que falatórios, não só as informações são transmitidas e os
nos são estranhos e, por vezes, estranhos continuam a ~ hábitos do grupo confirmados, mas cada um adquire uma,
ser-nos, fixam a nossa atenção e dirigem as nossas inter- competência enciclopédica acerca do que é objeto da,
rogações/ O que vemos, o que sentimos, está, de algum discussão,[À medida que a conversa _coletiva progride, a"
modo, sobrecarregado pelo invisível e pelo que é provi- elocução regulariza-se, as expressões ganham em preci-
soriamente inacessível aos nossos sentidosj É o caso dos são. As atitudes ordenam-se, os valores tomam seus lu-
genes ou dos átomos que tanto circulam em nossas ima- ares, a sociedade começa a ser habitada por novas tra- J /?'
gens, nossas falas e nossos raciocínios. ses e visões. E cada um fica ávido por transmitir o seu , G
Certas coisas existem, certos eventos ocorrem, esta- saber e conservar um lugar no círculo de atenção que
mos seguros disso; na maioria das vezes, carecemos dos rodeia aqueles que "estão ao corrente", cad~um do-
critérios necessários para atestar essa existência mate- oumenta-se aqui e ali para continuar "no páreç) Eis co-
rial. O indivíduo que busca um satélite sob a abóbada mo Alexandre Moszkowski, homem de letras e crítico
celeste sabe que aí deve haver um, e o encontra. Entre- herlínense, descreve o ingresso da relatividade nesse
tanto, na falta de indicações precisas, ele toma por um "mundo da conversação", isto é, para além do círculo cíen-
satélite, sem ter consciência disso, uma estrela que cin- l.ffico,no público. "A conversa das pessoas cultas girava
tila, um avião que se desloca a grande altitude, ou outros m torno desse pólo, e dele não podia escapar; ela vol-
"objetos" meteorológicos ou ópticos. Se pensa em outras uiva incessantemente ao mesmo tema sempre que dele
humanidades vivendo em outros planetas, perceberá li afastava, impelída pela necessidade ou o acaso. Era

eventualmente uma nave espacial pousando na Lua. To- ver qual, entre os jornais, publicaria mais artigos, exten-
ma seus desejos por realidades, o que é apenas um modo O/'l ou curtos, técnicos ou não-técnicos, fosse quem fosse
de tomar suas visões por realidades. Analogamente, a pes- 11 autor, desde que tratassem da teoria de Einstein. Em
soa que, em conseqüência da Psicanálise, conhece a im- 1.( Idos os cantos e recantos se organizavam sessões de íní-
portância dos "complexos", passa a constata-res e a eD~ nlnçúo, que tinham lugar à noite; formaram-se uníversí-
.,2,ontrá-Ioscom assiduidade.•JE que,-tàritõ num casõromo III~dosambulantes, onde professores ítínerantes faziam
~~) no outro, parte-se de uma realidade preSJ.l~idà)e, depois, ctMqueccrao público os infortúnios da vida cotidiana em
considera-se indispensável- reconstíjuí-lg, orná-Ia fami- (1'(lA dimensões para conduzi-Ia ao Campos Elíseos das
liar. ~ passagem do testemunho à observação, do fat~ 1j11l~I;l'o
dimensões. As mulheres perdiam de vista suas
-=l~tado a uma hipótese concreta sobre o objeto visado - uruooupações domésticas para discutir os sistemas de
54 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL" DA PSICANÁLISE UM ,CONCEITO !"ERDIDO 55

coordenadas, O princípio de simultaneidade e os eléc- mo e de um sistema único é muito forte. Cada um de


trons de carga negativa. Todas as questões contemporâ- nós, enquanto "homem comum" - fora de sua profissão
neas tinham adquirido um centro fixo, a partir do qual - comporta-se da mesma maneira diante de touos esses
podiam estender-se. fios na direção de cada uma delas. "documentos" que são para nós os artigos de um jornal,
A relatividade tornara-se a palavra de passe suprema." um acidente na rua, úma discussão, num café ou num ~
r Com um pouco de exagero, cada um de nós pode clube, um livro lido, uma reportagem televisada, etc. Nós ).
afttmar que foi testemunha direta, numa geração, de vá- os resumimos, recortamos, classificamos e. sofremos a -
rias ocasíões em que a fala e o interesse públicos mani- mesma tentação do documentalista que os funde num
( festaram-se em escala e intensidade semelhantes. Volta-
remos ao significado dessa conversação no funcionamen-
mesmo universo. Nada nos impõe a prudência do espe-
iíalísta, ou nos proíbe de retinir os elementos mais dís- }
. to da sociedade. Mas era necessário indicar esse lugar do pares que nos são transmitidos, de íncluí-los ou excluí- .
qual uma pessoa ou um grupo aborda e ínteríoríza os te- 10s de uma classe "lógica", 'de acordo com as regras so-
~ mas e os objetos do seu mundo, e age como um clínico iíaís, científicas e práticas de que dispomos. A finalida-
que acumula sintomas muito numerosos, comunica-os e do não é ampliar o conhecimento, é "estar ao corrente",
~ verrfíca-os com o 'seu doente para formular um juízo a "não ser ignorante" nem ficar fora d.0' circuito COletiVO.)
J I respeito de sua doença. Só secundariamente procede a esse trabalho mil vezes começado, repetido e, desloca- .
análises. Confia no que o doente lhe diz, apóia-se em casos do de um ponto para outro da esfera, lê. acontecimen-
que Já viu e estudou, naqueles que outros médicos lhe tos e as surpresas que captam a atenção dão origem às", '"
contaram, e de tudo isso tira as conclusões que lhe pa- nossas representações sociai~ O espírito que aí está em
recem válidas. Por uma espécie de hábito, que é uma se- ução transforma os membros da sociedade numa espé-
gunda natureza, ele desvenda através dos sintomas e das lic de "sábios amadores". Como os "curiosos" e os "vir-
, descrições uma ordem que ele não tem meios de repro- tuosos" que, em séculos passados, povoaram academias,
duzir por experimentos nem desejo de demontrar por socledades filosóficas e universidades populares, .cada
L fórmulas ou estatístícas.] 11m procura manter contato com as idéias que pairam no
Mais ainda que ao clínico, é ao especialista em do- ~r e responder às interrogações que nos atormentam.
cumentação que compete essa prática do conhecimento de N onhuma noção é servida com o seu modo de empre-
organizar as relações entre as regiões dispares do pensa- HO,nenhum experimento se apresenta com o seu método,'
mento do real. O documentalista trabalha na base dos tex-
tos acabados que ele reúne, recorta e combina em função
de um código de análise e de classificação materializa-
tl no tomar conhecimento de tais noções e experimentos o
ndívíduo usa-os como melhor entende. O importante
poder integrá-Ias num quadro coerente do real ou adotar
é I
~'"')

do numa seqüência de fichários. Não lhe cumpre julgar lima lingua~m que permita falar daquilo de que todo
nem deixar de julgar sobre a verdade e a qualidade dos mundo fala.lJBsse duplo movimento de familiarização com (
textos a que aplica o seu código e dá entrada em suas () real, pela extração de um sentido ou de uma ordem
fichas. Por conseguinte, não experimenta qualquer das
restrições do especialista que registra ou desbasta o que
lê para saber se o conteúdo tem um valor, corresponde
às normas da ciência, da técnica ou da arte, e se pode,
por sua vez, utílízá-lo. Com liberdade de construção, o
uruvés da que é relatado e pela manipulação dos ato-
.,IOS de conhecimento dissociados de seu contexto lógico
normal, desempenha um papel capital. Corresponde
1I1.11i constante preocupação: preencher lacunas, suprimir
~ utstâncía entre o que se sabe, por um lado, e o que se L
j'
a.
f__
documentalista pode igualmente associar a seu bel-prazer nhNürva, por outro, completar as "divisórias vazias" de
as noções, os dados e os artigos pertinentes aos domí- 11111 saber pelas "divisórias cheias" de um outro saber, o
nios e às escolas mais diversas. As únicas barreiras em III~ clôncía pela religião, o de uma disciplina pelos pre-
que esbarra são as do custo e poder de suas técnicas de I'lIl1coitos daqueles que a exercenjj] Ao mesmo tempo,
manipulação de informações. A tentação do encíclopedís- dp~lll/:radosde seus vínculos, conceitos e modelos, ramifi-
56 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 57

cam-se e proliferam com surpreendente fecundidade e suas dimensões, formas, etc. Representar-se alguma QQj,. I.

\:r grande liberdade, tendo por único limite o fascínio que


exercem e a ansiedade qUe provocãm quando cftiestiooa
. >-dêmaisaquilo que se quer manter fora de toda a questão.
sa e ter consci~~1ci~de~lgu.ma coisa dá no mesmo - ou
quase.
Escreveu Heider: "Até aqui, o processo perceptivo
i\::'"Ssim
como num jogo, quando se ensaiam e experímen- aciona estímulos distais e uma mediação que culmina
tam os fenômenos materiais e coletivos, antes de se veri- em estímulos proxímaís. No interior do organismo ocorre,
ficar a sua existência real e de pô-los em prática "para portanto, um processo dec_c>ns~~-çãO "da percepção que
valer", aceita-se o risco de fazer esboços e rascunhos, fa- leva a algum evento correspondente à tomada de cons-
zem-se manobras intelectuais e repetições que' apresen- ciência do objeto, da realidade enquanto percebida. Os
tam o espetáculo do mundo com(}::...~mundo do espe- .ermos representação do objeto em imagem foram em-
táculo. Por certo, esses ~ amadores? - e todos nós pregados para descrever essa t-~,ada de conscíêncía."
o somos num domínio ou em-out~ habitam o mun- A transferência do exterior para o interior, o trans-
do da conversação, com seus hábitos de documentalistas porte de um espaço distante para um espaço próximo
- um pouco autodidatas, um pouco enciclopédicos-, são operações essenciais desse trabalho cognitivo parti-
permanecem freqüentemente prisioneiros de preconceitos, cular. Mas nada nos obriga a ficar limitados a esse modo
de visões acabadas, dialetos tomados ao mundo do dis- de ver. JA representação não é, em minha opinião, uma~/.
curso - o famoso jargão tão detestado 'e tão necessário instânciã1ntermediária, mas sim, um processo que torna ~ .((
-_e só nos resta Úlclinar-nos.1Entretantoc;eles revelamo' o conceito e a percepção de certo modo íntercambíáveís, .,
nos que os indivíduos, em sua vida cotidiana, não são ) uma vez que se engendram reciprocamente ..,ftssim,\o ob-
apenas essas máquinas passivas para obedecer a apare- jeto do conceito pode ser tomado para objeto de uma
lhos, registrar mensagens e reagir às estimulações exte- ercepção, o conteúdo do conceito ser "percebido". Por
riores, em que os quis transformar uma Psicologia Social xemplo, "vê-se" o inconsciente, situado lá no fundo, co-
sumária, reduzida a recolher opiniões e imagens. Pelo mo parte integrante do aparelho psíquico; ou então vê.
contrário, eles possuem o frescor da imaginação e o de- H8 que uma pessoa "sofre de um complexo". Certos com-
sejo de dar um sentido à sociedade e ao universo a que portamentos, em vez de serem descritos como condutas
. pertencem. \ ,.-/ do timidez a partir do que se vê, são encarados como ma-
\.:.. ~,}q A~~ ~.L\;'?y~ •• nifestações evidentes de um "complexo de timidez", que
ooncebemos sem o ver e localizamos no indivíduo.
II - O CONHECIMEN'l10 DO AUSENTE E DO ESTRANHO
Verifica-se que a repres.e,n.
t.ação exprime, em primei- ")
1'0 lugar, uma relação com o objeto e que preenche um '
o ~ Desta maneira se constituem, poderíamos dizer, papel na -gênese dessa relação, Um de seus aspectos, o ,--_
~_ <,.,(;:> "ciências" ou "filosofias" da experiência indireta ou da llorceptivo7'"implicaaPresença 110 objeto; o outro, o es-
~ l{ observação. Qual é a especificidade do modo de pensa- ntríto conceptual, a sua ausência. Do ponto de vista do
mento em ação?.....A psicologia clássica, que deu muita oonceito, a presença do objeto, inclusive a sua própria
# atenção aos fenômenos de r_epresentação, forneceu-nos
) úteis indicações de partida:( Concebeu-os c~mo processos
uxlstêncía, é inútil; do ponto de vista da percepção, a
I UL ausência ou a sua inexistência são uma ímposstbílí-
de mediação entr~ conceit~e(:perceR.ção~A par dessas rlnrlo. A representação mantém essa oposição e desen-
'\ !:(iuas instâncias psKIutcas;-Um:f'·ü.e:;õrdefupuramente in- volve-se a partir dela; .ela re-presenta um ser; uma qua-
-. telectual e, a outra predominantemente sensorial, as re- \ lkfude, à consciência, quer dizer, presente uma vez mais,
c esentaç0~s')c0!1stituem u~a @rceIra instân?i~,..§sta de lI,tlnliza)esseser ou essa qualidade, apesar de sua ausên-
pro 1'-IedadesmIstas, Propríedádeê que permitem a pas- • ht ou até de sua eventual inexistência. 40 mesmo tempo,'
"sagEill:1da esfera sensorial-motora à esfera cognítiva, do dhlt.nncia-ossuficientemente de seu contexto material pa-
objeto percebido a distância a uma conscientização de tlt que o conceito possa intervir e modelá-los a seu jeito.
,;

58 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE


UM CONCEITO PERDIDO 59
Portanto, de um lado, ri representação segue a esteira de
domínio que, muito além do círculo de cientistas pro-

-:---7
um pensamento concepiual, pois que a condição de seu
apare"Ci1i1eíitõêÜriia~up-'-fessão do objeto ou da entidade priamente dito, o ponto de vista das pessoas cultas é ín-
teíramente governado por essas idéias particulares. As
concreta; mas, por outro lado, essa supressão não pode falas e as ações dos pais inculcam nas crianças de nossa
ser total e, a exemplo da atividade perceptíva, a repre-
civilização uma atitude' sóbria em relação ao mundo real.
sentação .deve nre'l1fl~llfl.r
esse objeto ou essa entidade, e
torná-Ioi "tangívJ?is't.:J)o conceito, ela retém o poder de Há muito tempo que as convicções em que se baseia a
\ -organizai;-de-unír--e- de filtrar o que vai ser reíntroduzído cultura científica perderam o caráter de enunciados teo-
\ . f e reapreendido no domínio sensorial. Da percepção, ela ricamente formulados. Pouco a pouco, elas tornaram-se I
aspectos do mundo tal como o percebemos; hoje, Q...Dlun~
-) 1 conserva a aptidão para percorrer e registrar o ínorganí-
s; L zado, o não-formado, o descontínuo:' A variedade de dili-
/' 7 gências e a defasagem que elas supõem entre o que é
do parece idêntico ao que os nossos ancestrais aprende- A ........•.
raro a dizer dele."5 . _ -...
"tom
idO" e o que é "devolvido" ao real deixa entrever As representações individllai~_ou sociai,s !~zeE'-=-;:o2~o~L_
que o mundo sela.-5.?que P~E!.~s .:..queele e .ou-a.eve~se!:: <r:
ª,__
que . .l~:e..:reseAtação
de um objet~ é mnaJea:Q:re§~e.!l~® Mostram-nõê que, a todo instante, alguma coisa ausen- t:-.,
). ) dife· te do obje_to/Apercepçãõ' éngendrada pelo conceito
-- Y "irá distinguir-se, necessariamente, da percepção que su- to se lhe adiciona e alguma coisa presente se modifica. Y"-
Mas essa díalética, o seu jogo revestem-se de um signí-
bentendeu inicialmente o conceito. O "complexo de timi-
meado maior. Se algo de ausente nos impressiona e de-
dez" de que se diz sofrer uma pessoa compreende os in- Iíagra todo um trabalho do pensamento e do grupo, não
dícios psicológicos habituais - rubor, voz baixa, tremo-
nessa condição, mas porque, em primeiro lugar, é algo
res etc. -, mas a eles são somados certos indícios de or- (~Oestranho e, depois, está fora do nosso universo habí-
dem afetiva - medo, hesitação, condutas de evítação _
tuai. Com efeito, e... g*tªncia tem para nós a surpresa de
que se pensa traduzirem experiências da infância e provi-
(t110 somos tomados e a tensão que a caracteriza. A Psi-
rem de uma repressão de desejos de natureza sexual.
ounálíse, ao falar da infância, do sonho e do inconsciente,
í)· '-.ne-fato,_rep:cesentar_uma coísa.ium estado, não CQil1-
., _ siste simplesmente em desdobrá-Ia, repetí-lo 0.!l~produ- uno só nos introduz num domínio distanciado da vida
Iunnana adulta, mãs projeta igualmente uma luz que es-
zi-Io; ~ reconstituí-lo;J.retocá-ld, lrpodificflJ"-lhe.0 textõb AP' iuuita e que choca. As descobertas científicas ou técnicas
.... ~ comunicação que se est-abele'ceentre conceito ê percep-
~. ção, um penetrando no outro, transformando a substãn-
.upressíonam. A tensão a que fizemos alusão trai cons-
,-( cia concreta comum, cria a impressão de "realismo", de uuitemente a sua origem, a saber, a existência de uma
ucongruêncía, de urna, in,com..patibi~!.dª~_entrg -ª1L.possi-
" >ümaterialidade das abstrações, visto que podemos agir,
/ com elas, e de abstração das materíalidades, porquanto hlllclades_ling1ií9il2a~~~t~IE;Lct~âl.~,
..~Ia domínar -ª&" .~ar-
1,0/1 do real a que o conteúdo, estranho porque distante,
-' exprimem uma ordem precisa. Essas constelações inte-
lectuais, uma vez fixadas, fazem-nos esquecer que são cllAtnnte porque estranho, se refere. De hábito, carece- \
IIlqli necessariamente de informações, de palavras, de no- )
obra nossa, que têm um começo e que terão um fim, que
IjllllH, para compreender ou descrever os fenômenos que
a sua existência no exterior ostenta a marca de uma
passagem pelo interior do psiquismo individual e social. 11J1I1'ocem em certos setores do nosso meio ambiente. Dis- '
"A que é que se chama" - pergunta Kõhler - "fatos IHIIIIO!:l de outras que é proibido empregar, levar em con- I'
objetivos da natureza"? Qual é a melhor maneira de se 1.11., para definir ou indicar a presença de fenômenos ou
chegar ao conhecimento objetivo, nesse sentido? Por ou- 1I01llportamentos que estão recobertos, escondidos, em
I II II4MO meio ambiente. Em contrapartida, há setores sobre \
tro lado, que influências são suscetíveis de sustar o nosso
1111 IIIIn.ts dispomos de informações e palavras em excesso,
progresso nesse domínio? A partir do século XVII, tais
. interrogações introduziram pouco a pouco uma série de- . --
W, Kóhlcr, "Psychological Remarks On Some Questions of Anthropo-
finida de valores, a qual, atualmente, adquire tal pre- 1,1flV", Amcrican Journal of Psvchology, 1937, 50, p. 279.
60 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 6:t

e em que é legítimo usar e abusar de tudo, não importa apreender o que é um ou outro. Em contrapartida, a re-
o quê. Tanto os grupos como os indivíduos sentem si- Jação entre o psicanalista e o psicanalisado - o dívã, a
multaneamente a abundância e a penúria de saberes t- livre associação aí se situam de maneira importante -,
de linguagens que eles não lêlfi"""Iíleías-pâraassociar a rea- o moaus operandí próprio dessa relação, a transferência
lidades, e de realidades a que não podem ou não devem seus efeitos não dispõem, na opíníao pública, de uma
associar saberes e linguagens. A elipse, de um lado, e o strutura intelectual de acolhimento, pOIS um "m~co
verbalismo, de outro, exprimem esse estado de desecuí- .om medicina" é coisa paradoxal/~QJ;ranaiho~derep:r:esen-
Iíbrio. Quando um objeto proveniente de fora penetra, tação consiste em atenuar essas estranhezas, íntrouuzí-ias I /
em nosso campo de atenção, quer se trate de mísseis 110 espaço comum, provocando o encontro de visões, de-
ou de relatividade, esse desequílíbrío aumenta, pois o' xpressões separadas e dispares que; num certo~entidoc-
contraste entre a abundância de elipses e a carência de o procuram';
verbalismo recrudesce. Para reduzir conjuntamente a Esse trabalho é duplo. Por um lado, a representação
tensão e o desequilíbrio, vreciso que o conteúdo estra- separa conceitos e percepções habitualmente associados, J
nho se desloque para o interior ere um conteúdo corren- torna insólito o ramuar. Assim, por intermédio da idéia
te, e que o que está fora do nosso universo penetre no do líbído, a sexualidade desdobra-se numa atividade fi-
interior do nosso universo. Mais éxatamenteLé necessário íologíca localizada e num desejo geral: de necessidades
tornar familiar o insólito e insólíto o familiar, mudar ionungentes entre outras necessidades, ela ascende ao
universo sem que ele deixe de ser o nosso univers2t ~sso iuvoí de necessidade primordial e quase metafísica. No
só é possível se fizermos passar, como que através de va- nto "d.!:}fazer amor" concentra-se e exprime-se quase a
sos comunicantes, linguagens e saberes de regiões onde pursonalidade em sua Inteireza. Pelo menos, alguns che-
I,existe abundância para regiões onde predomina a escas- um a pensá-Io, Ou ainda, para dar um sentido ao que se
sez, e vice-versa. Ou seja, tornando a elipse faladora e 11ILHsa entre o' psicanalista e o psicanalisado, evoca-se a
o palavreado elíptico.(:rada há de surpreendente nisso. oounssão. A relação entre o "confessor" e o "confessa-
porquanto, como nos quadros surrealistas em que os do" destaca-se do contexto religioso que a funde e do ri-
membros buscam um corpo e em que um corpo procura 11111' a que o crente é sensível. Depois, substitui-se essa
órgãos, os conceitos seIlL~el?ções,-ªê..p~ellÇões_ ~ l'UIH!.iUO pela idéia que se tem da transferência, e assimi-
conceitos: as palavras sem conteúdo e os conteúdos sem 111111-::;0 as regras da confissão à regra da "livre associa-
palavras buscam-se, deslocam-se e trocam-se nas socie- 10". Por conseguinte, o que era ínalcançável tornou-se
dades diferençadas e dínâmícas.] É para isso que se em- IIt'lIl1çável,inteligível e concreto. A Psicanálise é uma con-
~-ªW_as-Tepresentações e é daí que elas resl!ltartr. IIMIIHO, como se costuma dizer. Inversamente, a confissão
Vejamos um êxêmplo. As noções deinconsciente~de uu'uu-se um caso particular do tratamento pstcanaiítíco.
complexo, de libido, no momento do ingresso na esfera '1',tI como o psicanalista, o padre dá a uma pessoa a pos-
de um indivíduo ou de um grupo, surpreendem ou cho- IllllitbJ.dede se exprimir, de discorrer sobre o que a preo-
cam. Elas surpreendam na medida em que designam en- tjllllHo, por esse meio, libertar-se de suas preocupações.
tidades à parte, sem relação com a experiência imedia- 1\:' 1'l\l.llo-se a dimensão sagrada, que cede o lugar à di-
ta; e elas chocam porque se referem a uma região de in- ,111 J HI/L() profana. Ao dissociar a técnica psicanalítica de
terdiçõe do pensar e do falar :-ãv1dlie~ual?A rigor, é pos- OU I(l1l\clroteórico, a confissão do seu quadro religioso,
sível fazer corresponder uma estrutura intelectual de aco- I. r.llxlmlidade do seu quadro de necessidade física, uma
lhimento- a dualidade alma-corpo, racional-irracional,. pIJW\lIl~ está convencida da validade da separação realiza-
etc. assim o permite - ne mundo próprio de cada um, .IIi. 1':1 urotanto, ela não esquece o seu caráter de apro-
mas não um suporte material, como aquele de que dispõe ialllll)ILO. Em todo caso, a terapêutica mostra-se com-
uma noção física, psicológica ou química. Entende-se' o I!I I "lllllf,vol,a libido é articulada a um substrato concreto,
que é inconsciente, o complexo, a libido, sem poder 1IIIIon HO um olhar concreto ao que era rotineiro, nota-
62 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 63·,

damente, a confissão e a sexualidade." Aí reside o poder tem por tanto tempo quanto se faça sentir a sua necessí-
eri.wor.- da atividade representativa: partírido de Um re- dndo. Ela desaparece no labirinto da nossa memória ou
pertórío de saberes e- exPeriências, ela é suscetível de. uurinca-se num conceito quando perde em necessidade ou
deslocá-los e combíná-Ios, para integrá-Ios aqui ou fazer vlgor. ~ssa estampagem - ou figura - místurada a cada'
_com que se desintegrem acolá{ oporaçao mental," como,um pmrtõ-do· qua"%/S?Parfe-e-~2-__
Por outro lado, uma representação faz circular e reú- Itual ::;e retoma, confere sua especificídade à forma de,
ne experiências, yoCabulários, conceitos e condiitas-q.Uª-.. couhecrmento que aí at';la,e din~tingue-a de toda e q'lfalque!:.l::::
provêm de origens muito diversas. Assim fazendo, ela re- outra rorma de conhecunento íntetectual ou sensorial. Por
, ') duz a variabilidade dos sistemas intelectuais e pratíctrs;: osta razao, foi fre_qüentemente dit~od~ g~presentação é
- os aspectos....desconexos-º-.CLreat.D_LnsólitQínsinua-se no , tuua representaçao de alguma coisii:
costumeiro, o extraordinárjo tgrna-s_ef!"e_qü~te. Por con- hlrn seguida, essa noção nos foi apresentada mais cla-.
seguinte, os elementos que pertencem a regiões distintas rume.ue ao ser constatado que, li fim de penetrar no uni-
de atívídade -e ct..e·
..·discur-si>-so~-aistranspõem-se de umas VOl'I:>O de um indivíduo ou de um grupo, o objeto entra
)
para outras, ser",eIT1-ele-s:JgííÕse (ou) de meios de in- numa série de relacionamentos e de articulações com ou-
terpretação dos demais. Os esquemas e o vocabulário po- 1.1'01:> obJetoLque aUª-.,.s8-eneDutxam, dos quaís toma as
.lítícos ocupam-se de classificar ou de analisar fenômenos, propriedades e aos quaís acrescenta as dele. Ao tornar-se
.!2É'íqüicos:"concepçôes~pu linguagens psicológicas descre- uróprío e familiar, o objeto é transformado e transfonn~ .r>
mano se mostrou com o exemplo da terapêutica analítica
vem ou explicam p'roçessos políticos, e assim por diante.
XSteorias e as significações particular-es respectivas con:- u da confissão religiosa. A bem dizer, ele deixa de existir )
jugam-se e passam de um domínio ao outro., No começo, oomo tal para se converter num equivalente dos objetos I
essas associações pareciam arbitrárias, convencionais. Mas (ou das noções) a que se sujeitou pelas relações e os.
vtnculos estabelecidos. Ou, o que vem a dar no mesmo, é
I
logo se tornam orgânicas, motivadas. Quem não conhece
as duplas: Psicanálise-Estados Unidos, Psícanélíse-con-" ruprosentado na medida exata em que ele mesmo se tor-
servadorismo ou Psicanálise-subversão etc., pelo menos .•IOU um representante, por sua vez, e passou a manifestar-

I
em nossa sociedade? A redundância que resulta dessas IJ oxclusivamente nesse papel. A fumaça que traduz a exis-
associações exprime a reduplicação incansável dos mes- I,tlllciu de fogo, o ruído trepidante que assinala o trabalho
mos objetos, dos mesmos sinais, onde quer que seja pos- do um martelo-pneumático são repr·esentantes desse tipo,
sível realizar uma combinação feliz e entendê-Ia. Criatí- !10tH não os "percebemos" como fumaça ou "ruído", mas
vidade e redundância das representações esclarecem uma l'wtlO equivalentes ou substitutos na série "fogo" ou "mar-
grande plastícídade e sua não menor inércia, proprie- I.nlo" em que se inseriram. Do mesmo modo, para certas
dades con radítórías, por certo, mas _t:lma contradição IHJHHoaS, a terapêutica analítica parece quase íntercambiá-
inevitável. ,É somente nessa condição que-O mundo men-:-): vIII, em suas práticas e em seus efeitos, com a confissão
" tãí e real se torna sempre um outro e continua sendo um fjrtíprla da religião católica. \}tIas a constituição da série,
)( ~ouco o mesmo: o estranho penetra na brecha do famí- 11'\ vrnculos que se tecem em torno do objeto traduzem
~ar, e este abre fissuras no estranho. __ IIhl'lgntoriamente uma escolha, experiências e valore~ Se
• I'~iennálise, aos olhos de muitos, constitui um "índice"
A noção de representação ainda nos escapa. Contu- 111 1/1 Jl.::stadosUnidos - daí a expressão "Psicanálise ame-
~ do, avizinhamo-nos dela de duas maneiras. Em primeiro 1111111\1\" - do conservadorismo político - daí a expressão
., lugar, quando precisamos sua natur~de processo psí- "pll'lllda reacionária" - é porque um valor nacional e po-
<, quico, capaz de tornar familiar, situar e tornar presente liI\1'0 lt vincula a uma noção ou a um grupo social. IEmt .....,
-, .ernnosso universo interior o que se encontra a uma certa 1111111., observa-se que representar um objeto é, ao mesmo'
"distância de nós, o que está, de certo modo, ausente. É . 111111110, conferir-lh~o~at~ de um s(gnõf'é conhecê-Io, tor-;t
i uma "estampagem" do objeto que daí resulta e se mano 1IIIIHlo.O sígnirícantê.yfre íim modo Tafticular, dominamo-
64 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE
UM CONCEiTO PERDIDO 65
10 e interiorizamo-Io, fazemo-Io nosso. É verdadeiramente
um modo particular, porque culmina em que todas as lIçao de algo ou de alguma coisa Por outras palavras. é I'
coisas são representações de alguma coisa.(J umn forma de conhecimento por meio da qual aquele que.
<C"Restaagora acrescentar um último elo/'a corrente, a oonhece se substitui .no que ele conhece. Daí decorre à ~
saber, ..g~o do sujeitq.,.da9E~e~.9.ues~representa~ Pois, ullcmação que a caracteriza: ora representar, ora repre-
em definitivo, o que está freqüentemente ausente jío obje- untar-se, Também se origina aí a tensão no âmago de
\} to - e torna o objeto ausente -, o que determina seu ca-
ráter estranho - e torna o objeto estranho - é o indi-
l'lt(iu.representação entre o pólo passivo da estampagem
110 objeto - a Iigura? - e o pólo ativo da escolha do
víduo ou o grupo. Se a ciência, a natureza ou a política uloíto - a significação que lhe dá e de que ele está ín-
faltam em nosso universo ou nos parecem tão isotéricas vllHtido.No passado, insistiu-se muito no papel de inter-
é porque, como se sabe, elas desenvolvem grandes esfor- rucdíáríos entre o percebido e o conceito. Nesta base, foi
ços para nos excluir, para apagar o menor vestígio que dll/:lcritauma espécie de desenvolvimento genético que vai
1111 percebido ao concebido, passando pelo representado,
nos permita reconhecer-nos nelas. Um povo, uma institui-
-ção, uma descoberta, etc. parecem-nos distantes, bizarros, 't'ruta-se de uma construção lógica. No real, a estrutura
110 cada representação apresenta-se-nos desdobrada, tem
porque não estamos neles, porque se formaram e evoluí-
ram "como se não existíssemos", sem relação alguma co- 10llsfaces tão pouco díssocíáveís quanto a página da fren-
Ifl o o verso de uma folha de papel: a face figurativa e a fa-
nosco, Representá-Ios conduz a repensá-Ias, a reexperí- símbólíca, Escrevemos que: ~---
mentá-los, a refazê-Ias à nossa maneira, em nosso contexto, (lY»<-\:J .o f.,1ei IVr. I•••
"como se aí estivéssemos"; em suma, introduzir-nos nu- figura ,\,}'
.ma região do pensamento ou do .real de que fomos elímí- Representação -n"" O P(lJ~' "
minados e, de fato, a investir-nos nela e a tomá-Ia como ~ " significação ~'J .•" , U'\ \'
própria. É profunda a propensão para dar uma existên-
cia conoso àquilo que tinha uma existência sem nós, para ruorondo com isso dizer que ela faz compreender a toda
nos fazer presentes onde estamos ausentes, familiares em lil\lIr'u. um sentido e a todo o sentido uma figura. O ín-
face do que nos é estranh.Q)Narciso quis certamente ver- IIIIMelente, no espírito da maioria das pessoas, um signo
c'l1L JlHicanálisecarregado, por outro lado, de valores -
se refletido na água de uma fonte, enamorado que estava
de si mesmo e de sua imagem. Mas, talvez mais secreta- !III'lmdido,involuntário, etc. - e visualizado no cérebro
,1111110 uma camada mais profunda e envelopada; a libido,
'mente, teria ele tentado também apossar-se pela imagem
1.1\ ussocíada, de modo sumamente concreto, ao ato se-
dessa água, entrar nessa corrente que aí estava, fora dele,
sem el~? Ele quis não só encontrár um) espelho no uni- 11111, i\ genitalidade, mas, ao mesmo tempo, cercamo-Ia
verso aquático, mas reencontrar-se, no universo, como 1111 lima série de' 'conotações religiosas, políticas, que lhe
11 1111 uma posição mais ou menos elevada na hierarquia
centro do espelho. É ocioso insistir neste ponto. Os filóso-
fos já compreenderam há muito tempo que toda represen- .111'1 rutores explicativos dos atos característicos de um ho-
1111'111 ou de uma mulher, etc. Os processos postos em

6 Na vida social, deparamo-nos freqüentemente com situações em que


,1,11'11,corno se -yerá adianteJêm por f~ç~<? desta~ar U?l~]
"cada pessoa é uma representação de uma pessoa". Assim, os filhos de I1UIlI'll 0, ao mesmo tempo, carrega-Ia de um sentido, ms-
uma pessoa de família rica ou conhecida são sempre percebidos pelos (111'VOI' o objeto em nosso ufiívérso.Tsfo é, naturalízá-loe
outros não como indivíduos singulares" mas como o filho ou a filha de flllll(j('ol'-lheum contexto inteligível; isto~, ínterpretá-lo,
tal ou qual pessoa e portadores de determinado nome, e reage-se pri- I 1 I l.(\m sobretudo por função duplicar um sentido por
meiro à posição que ocupam ou ao nome que têm. O mesmo ocorre
-quando se trata de um indivíduo ou de um grupo estranhos não são !"rul finura, 10gO,~Objetiva~ por um lado - tal complexo
julgados por si mesmos, mas como pertencentes a uma classe ou a uma Hijhlllllltlf1;ico torna-se um 'órgão psicofísico do indivíduo
nação. O racismo é o caso extremo em que cada pessoa é julgada, per-1 :;;; +-- i' J ,'!
'cebida, vivida, coom representante de uma seqüência de outras pessoa,?' " figura exprime, melhor que a palavra imagem, o fato de
1'11111"1'11
ou de uma coletividade. , Irntnr somente de um reflexo, de uma reprodução, mas também
""111 oxnrcssão e de uma produção do sujeito.
66 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 67

humano - e uma figura por um sentido, logo, consolidar unlversos isolados e separados. São "arcaicos" ou "prímí-
por outro lado - o psicanalista definido como mágico ou I I vos", sem dúvida. Justamente por causa disso, permitem
sacerdote - os materiais que entram na composição de H ultrapassagem e uma retomada de mecanismos que, sen-
determinada representação. Aí se situa uma fonte de ín- do muito "recentes" ou muito "refinados", perdem o con-
' certeza rundamentaí.Zao re-presentar algu.m,a coisa, nUI'I'f I,HLO com o vivido do sujeito e o fluxo do real. Na origem
' ca &esabe se o que se mobiliza é um índice do real ou um (Iossa ultrapassagem vamos encontrar o hiato entre o que
~i • índice convencional, social ou êfetivamente s"ignifiêãnt sabe e o que existe, a diferença que separa a prolifera-
80uma evoluçao- ulte?ior ;-llffitrabalho- consciente dirigi- ono do imaginário e o rigor do simbólico. . . ;)J I

do seja para além do convencional, no sentido do intelecto,


seja para além do figurado, no sentido do real, permite
eliminar. essa incerteza.
_ Por esta razão/essas
_f..... formas
,<-,..-
de
...;.."'11 .••..•
3 r:f Jjly.~
conhecímento que sao as representações, de que acaba-
J:llOSde ver a função e a estrutura, são, pelo menos no que E Que Sentido uma Representaçã'o É Social?
se refere ao homem, primordiais/Os conceitos e as per-
cepções são elaborações e estílízações secundárias, uma a
partir do sujeito e outras a partir do Objeto/Quem conhe- - - comoI D'
A Represen t açao - dostsrupos-
.amensao
J.-~__
\~.
__ -
l
~/.eociais
.
ça a história das Ciências sabe que a maior parte das teo- As idéias que acabam de ser expostas têm um funda-
rias e noções muito abstratas acudiu primeiro ao espí- monto psicológico bastante sólido. Elas fixam, assim es-
rito de cientistas ou surgiu numa ciência sob um modo fi- noramos, o sentido da noção de representação e distín-
gurativo, prenhe de valores simbólicos, religiosos, políti- nem-no entre os sistemas cognitivos usuais._Qual Ç, a SU3_
cos ou sexuais. Assim ocorreu no tocante aos fenômenos roíação com a coletividade que a produz? Como se.reflete _
de evolução da Biologia, da Química ou da Eletricidade. 110 sujeito social que é portador' do seu-conteudo e~como
Somente por meio de uma série de destilações sucessivas 11 prevalece dele? Para responder a estas interrogações,
é que eles receberam uma tradução abstrata e formal. viunos, numa primeira etapa, deter-nos num nível relatí,
Essa destilação jamais está completa nem acabada. Mui- vrunonte superficial. No nível em que a representação s~-
to pesquisador e muita teoria descrevem os átomos como 1,llHl se mostra como um conjunto- de proposições, reações U
bolas coloridas de dimensões variadas e nenhum físico 11 nvalíações que dizem respeito a determinados pontos,
- apesar de esforços seculares - seria capaz de discor- 1111 ti Lidas aqui e ali, no decurso de uma pesquisa de opí-
rer sobre força sem se referir à imagem original de um .rlflc)ou de uma conversação, pelo "coro" coletivo de que
esforço exercido por alguém sobre alguma coisa que re- PII(lltum faz parte, queira ou não. Eses coro é, muito sim. '
siste. De sorte queyquando um indivíduo ou um.zgrupo plOHmente,a opinião pública, nome que lhe ora dado ou-
formúla uma representação de uma teoria ou de um, fe- 11'01'1\ o em que muitos viam a rainha do mundo e o tribu-
"\ "nômeno científico, está reatando, na verdade, com um 11111 ela História. Mas essas proposições, reações ou "avalía-
lliõaode :trensar e de "ver que- existe e -subsiste, retoma e .'I'lClH ostão organizadas de maneira muito diversa segundo
:recria o que foi encoberto ou eliminado. Numa palavra, /1'1 ctasses, as culturas ou os grupos, e constituem tantos
volta uma vez mais a produzi-Ia, percorrendo um cami- uutoorso« de opinião quantas classes, culturas ou grupos
nho inverso ao que ela percorreu. Isso, que é muito conhe- 1M fHI,om.Formulamos a hipótese de que cada universo ve+-
cido, não tem sido suficientemente apreciado nem do pon- 111111 três dimensões: "a atitude; a -infOl'-maça~ o campo--
to de vista psicológico nem do ponto de vista sociológico. ffl1 ropresentação ou a imagem.
Se o fosse, seria compreendido que, ao tornar assim o !\. informação - dimensão ou conceito - relacioll[t-.
~ ) l' .!!!s~nte~p~ente!. o !!!,a12.itualhabitual, os mecanismos re- 11 ClOID a organização dos conhecimentos que um grupo
presentativos desmantelam o que é imediatamente eviden- 1I1I/41mt a respeito de um objeto social; nó nosso cãsõ a .
te e refazem no universo a unid~de entre os vestígios de 1".fl'lllll11ise. Em certos grupos, os operários, por exemplo,
t\ "
68 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 69

não existe informação coerente a respeito da Psicanálise Os informantes que deram as respostas (a) conhecem
e, por conseguinte, não se pode absolutamente falar da uiolhor a Psicanálise do que os que deram as respostas
existência dessa dimensão. Em contrapartida, entre os es- ( I) ). Os primeiros consideram que a duração de um tra-
tudantes ou nas classes médias, encontramos um saber uunento psicanalítico ultrapassa um ano, consideram a
mais consistente e que permite realizar uma discrimina- J'Hicanálise uma teoria científica e uma técnica, conhe-
ção precisa entre níveis de conhecimento. Cada nível CGI'- eern a data de seu aparecimento, consideram que ela se
responde a certa quantidade de informação, a qual pode uplíca, em geral, nos casos de inadaptação (ou neurose),
ser estabelecida com a ajuda de escalas (nós emprega- nttmentam certo interesse pela Psicanálise e sabem que
mos as escalas de Guttman), mas esse aspecto, bastante J"J'oudfoi o seu criador. As pessoas menos bem informadas
técnico, não nos deterá aqui," nonsam que o tratamento analítico é relativamente breve,
Para ilustrar o que acabamos de dizer, vamos expor upõem vagamente que a Psicanálise é algo que está "em
por ordem as questões que definem a dimensão "infor- vln de se fazer", não sabem em que momento apareceu,
mação" num dos subgrupos (A) das classes médias; Iioham que o seu domínio está circunscrito aos fracassos
ontímentaís ou aos problemas infantis; têm escasso ín-
- Qual é, em sua opinião, a duração de um tratamento psicanalitico?
torosse pela Psicanálise e ignoram o nome de Freud. Con-
lderando-se a ordem das questões, vê-se que a que se re-
a) 1 a 2 anos, ou mais de 2 anos; lncíona com a duração do tratamento é a mais ímportan-
b) Até alguns meses, ou sem opinião.
1.0, já que muito poucas pessoas podem responder-lhe cor-
- Considera a Psicanálise: retamente, ao passo que o nome do criador da Psicanálise,
a) uma teoria científica bem estabelecida, uma técnica terapêutica;
ndo relativamente popular, só é ignorado pelos que têm
b) uma ciência em processo de elaboração, ou sem resposta. rnnlmente muito poucos conhecimentos sobre a Psica-
rutlíse.
- Pode situar no tempo o aparecimento da Psicanálise? A dimensão ue designamos pela expressão ta campo
,Ji)''' data verdadeira;' 110 representação" remete-nos à idéia de imagem;'-delI1o-
b) data falsa, ou sem respost'a. 11010 social, ao conteúdo concreto e limitado das proposí-
)OS atinentes a um aspecto preciso do' objeto da repre- .
- Em que situação acha que a Psicanálise seria empregada?
nntação. 4,s opiniões podem englobar o conjunto repre- (
a) inadaptação "(neurose);
b) os casos tomados separadamen.te: fracassos sentimentais, distúrbios
untado, mas isso não quer dizer que esse conjunto seja"
infantis, conflitos conjugais. ordenado e estruturado. A noção de dimensão obriga-nos
H julgar que existe um campo de representação, uma íma-
- Lembra-se
,3.)
de quem
S. Freud;
é o criador da Psicanálise? 1111\, onde houver uma unidade hierarquizada de elemen-
~
I(I~. A amplitude desse campo e os pontos que lhe dão
.
b) resposta falsa, ou sem resposta. urlontação variam e englobam tantos [uízos formulados
-- Interessa-se pela Psicanálise?
uhro a Psicanálise quanto as asserções sobre ia Psicanálise
111 I IL típología das pessoas que se supõe recorrerem a
/a) muito, bastante, moderadamente;
fllIIlIL teoria particular.
b) pouco, nada, sem resposta.
No mesmo subgrupo de classes médias, a representa-
I 'o11 nravita em torno das seguintes questões:

• As escalas de Guttman, também chamadas escalas cumulativas, são


1':/11 sua opinião, para se recorrer à Psicanálise, é preciso ter uma
escalas de atitude em que os itens foram dispostos de modo que uma
/11"wOI,alidade:
resposta a qualquer item dado pode seI') interpretada como indicação de
.concordância com todos os itens de ordem inferior. (N. do T.) ) forte:
70 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 71

/b) isso não tem importância; rvcorrcriam elas mesmas à análise, se fosse necessário;
c) fraca.
Hflo favoráveis à sua utilização para orientação profissional;
r ouscntiriam que seus filhos fossem analisados, se porventura se fi-
- A imagem do psicanalista é:
:r.CRSC sentir essa necessidade;
a) completa e positiva; jlUJlSUI11 que, para se fazer analisar, é preciso ter uma personalidade
b) banal e negativa; l'ortc, ou que isso não tem importância;
c) sem imagem. ncrcditarn que um tratamento analítico melhora o estado daquele que
NO lhe submete.
- Acredita que a Psicanálise possa contribuir para a educação dos filhos?
a) sim; . As pessoas desfavoráveis responderam:
b) não, sem opinião.
Il Psicanálise é aplicável somente em casos bem circunscritos;
- De qual das práticas seguintes a Psicanálise se aproximará mais, em IlN pessoas ricas é que são psicanalisadas;
seu ponto de vista? Ias mesmas não se deixariam psicanalisar;
(

/I utilização da Psicanálise na orientação profissional deve ser encara-


a) conversação, confissão;
tlu com circunspeção;
°bj hipnotismo, sugestão, ocultismo, narcoanálise.
não consentiriam que seus filhos fossem psicanalisados;
IIH pessoas que se submetem à Psicanálise são pessoas fracas;
- Atitude do psicanalista em relação àquele que se faz analisar pode
ser comparada a de um: 1\ Psicanálise não traz ajuda alguma.
, ~c,,:,::.. I
_ a) médico, amigo; Entre esse dois extremos há, bem entendido, atitu-
b) observador, parente.
IIUM intermediárias.
- Acha que a Psicanálise prejudica ou ajuda a personalidade do indivl- As três dimensões - informação, campo de represen;~
duo que a ela se submete? IHQÚO ou imagem, atitude - da representação social da (~
a) ajuda; 1'~I!canálise:fornece~n-nos'. uma pano.râmica ~~o seu con- -
b) prejudica, isso depende, sem opmião. _
l.oúdo e do seu sentido; 'Pede-se formular legítímamente a
11uostão de utilidade dessa análise dímensíonal. O argu-
<, -)
monto da precisão, que devemos à abordagem quantítatí-
Observa-se que o domínio~a representação' que pude- VH, não é decisivo. Pareceu-nos que o estudo comparativo
mos deslindar nessa população engíoba.sobretudo a ima- c 111,/, representações sociais, estudo absolutamente necessá-
gem ..do analista, a do ~nalisaçlo, a ação da Psícanálíse,a a do a uma disciplina como a nossa, dependia da possibili-
prática de que ela mais se ap~Q.xirrla.As questões padro- c hL(le de destacar conteúdos suscetíveis de um relaciona-
nizadas não exprimem todo o conteúdo da represen- t Iltmto sístemátíco. Alguns exemplos nos farão ver que
tação que se encontra" nas entrevistas e através de ques- IImw objetivo foi atingido.
tões mais abertas. Elas autorizam-nos simplesmente a cons- loquemos em paralelo o conteúdo das escalas per-
tatar a existência de uma organização subjacente ao con- 1.11llcentes a duas frações da amostra "profissões Iíberaís":
teúdo. 1111 "comunistas-esquerda" e. o "centro-direita".
-w
~çl~
atitude logra destacar a orientação global em rela-
O.1.;pjéto da representação social.
As questões comuns, nas escalas dos dois grupos, são
1111 seguintes:
, As pessoas favoráveis à Psicanálise, nesse mesmo gru-
po, além de uma tomada direta de posição: S" lhe parece que a importância da Psicanálise está aumentando, a
dentre os fatores seguintes atribui esse tato?
I/II(t/,I'

- acham que a Psicanálise é aplicável em geral;


- dizem que os artistas e os intelectuais (grupos percebidos positivamen- s valores positivos (necessidades sociais, valor cien-
te) são os que se fazem analisar em maior número; 1,II'ltlO, conseqüências da guerra) e os valores negativos
72 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 73

(influência americana, publicidade) são os mesmo para as florem a um mesmo universo faz parte da concepção que
duas frações.
nlos têm da sociedade. Para os intelectuais de "esquerda",
UM problemas sociais são de uma outra ordem - econômica
- De qual das práticas seguintes a Psicanálise lhe parece avizinhar-se mais?
política - e, neste caso, essa questão não pode estar liga-
(/,(t ãs outras, o que explica a sua ausência. Quanto à ques-
As associações relativamente positivas (conversação,
confissão) ou negativas (narcoanálise, sugestão) são as I,no "A Psicanálise pode ser utilizada para fins políticos?",
mesmas nos dois grupos. o.ln não divide este grupo, como divide o de centro-direita.
O estereótipo da resposta "sim" torna-a pouco discrimina,
- Você aproxima o psicanalista do médico, do capelão, do psicólogo, do í.lva ou específica.
cientista? Pode-se perguntar qual é o sentido da questão "polítí-
ou" incluída na escala do subgrupo "comunista-esquerda".
As pessoas da esquerda aproximam o psicanalista do InRtaquestão não se refere à aplicação da Psicanálise para
médico e do psicólogo. h tS políticos, mas à relação possível entre a participação
Além destas três questões comuns, cada subgrupo (10 uma pessoa na vida política e o fato de ser analisada ou
ampliou o conteúdo exprimindo a sua visão através de elo adotar um ponto de vista psicanalítico. Nada mais é se-
questões específicas. IULO a nova forma de uma a asserção corrente: a Psícaná-
A fração de esquerda concede grande espaço aos pro- IIRefecha o indivíduo, separa-o do seu grupo e, ao ísolã-lo,
blemas referentes à aplicação, notadamente política, da torna-o incapaz de levar uma vida política ativa. Sobre esse
Psicanálise:
ponto, as opiniões divergem: certos ínlectuaís não admitem
- Acredita que a Psicanálise possa ter influência salutar sobre as con-
uni absoluto a hipótese de tal ruptura, que para outros tem
dutas criminais e delinqüentes? vníor de axioma. Mas a questão é importante para uma ídeo-
- Entre a Psicanálise e o fato de se ter uma vida política ativa exiete IC)I~la da esquerda; por isso, deu origem a numerosos de,
compatibilidade ou incompatibilidade? 11I~t,es.
A comparação a que nos dedicamos pode ser retoma-
A fração "centro-direita" diferencia-se nas respostas às cIILpara cada dimensão e para o conjunto de grupos estu-
questões sobre problemas mais "téonicos": Ilnc{os.4dmitindo-seque uma representação social possui
11M três dimensões, podemos desde logo -determinar seu
A Psicanálise pode renovar a personalidade de alguém?
r-
ruu de estruturaÇ"ao em cada grupO./A tridimensionalidade
- A posição do analista em relação à do analisado é a de um médico,
amigo. observador ou parente? umcnte se manifesta em quatro populações: estudantes ..
- A Psicanálise pode ser utilizada para fins políticos? uroüssíonaís liberais, classes médias (A) e alunos de esco-
111M técnicas. Efll compensação, os operários e as classes
,
As duas primeiras questões mostram que essa fração Illtldias (B) têm uma atitude estruturada, mas uma íníor-
da nossa amostra é mais sensível ao efeito da Psicanálise IIl1tCJIlO e um campo de representação algo difusos. Estas
e às repercussões transferenciais da relação analítica. O IIhliorvações harmonizam-se com o que era lícito esperar
significado das duas últimas questões exige considerações lU)I' htpótesej' A confirmação empíríca, mesmo que não nos,
mais detalhadas. O caráter unidimensional das escalas su- li. nroonda, aumenta a certeza e justifica a iniciativa se}
põe a existência de uma comunidade de critérios ou de qua- 1111 I nto.
dros de- referência para todas as questões entre as qúaís A situação que acabamos de descrever autoriza-nos a.
existe uma conexão. Os intelectuais de centro-direita con- Ilf/fl.nhar o [ato de que a Psicanálise suscita em todos os
sideram que os problemas sociais, tanto quanto a ação tuuure« tomadas de posição (atitudes) determinadas, e so- 'r
política, podem situar-se num plano psicológico. A~ orienta- IIlJIlle em parte representações sociais coerentes. Até ai ,
ções podem divergir, mas o fato de essas questões perten- IIl1llbóm nada há de surpreendente. Entretanto, ressalta .J
74 A REPRESENTAÇ.:\O SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 75

que a atitude é mais freqüente das três dimensões e, tal- dnl:lclasses médias a respeito dessa ciência, mas não de
. vez, geneticamente primordial. Por conseguinte, é razoá-' uma representação comum. Entre os intelectuais, a sepa-
\ vel concluir que uma pessoa se informa e se ~mes~ta \ ruçao é ideológica; mais precisamente, política. As tentati-
alguma coisa unicamente depois de ter adotado, uma.põsí- ) vns realizadas para identificar outros fatores - sexo, re-
ç].o~-e-em função da posição tomada. Pesquisas recentes I 11/{1ilo, profissão - não permitiram distinguir subgrupos.
sobre a percepção e a capacidade de julgamentos concor-) Iqntretanto, quando separamos os intelectuais em "esquer-
dam plenamente com essa conclusão. ' d,~" e "centro-direita", encontramos duas representações
A comparação do conteúdo e do grau de coerência da f/ociais coerentes. Nas classes médias, a linha divisória é,
__ informação, do campo de representação e da atitude leva- rumo já vimos, sócio-cultural; para as profissões liberais,
t: -
-"). n.. s a.abordar o último ponto que n.ospropusemos estudar: tulcialmente concebidas como um grupo, a linha divisória

'1l
0.

c-, a de.!!mitação.:-dos_gIllpos-eID-fun~ªode sua re:Rresentação ciIdeológica; os dois subgrupos têm uma representação dís-
--sõCial. A definição de um grupo provém de um feixe dê" uuea da Psicanálise. -- - -
~ -presSupostos que confere peso ~diferencial a certo núme- Díversidade .. de-estruturação, diversidade de conteúdo
ro de critérios. Na presente pesquisa sobre Psicanálise,'
seguimos 'uma prática geral ao empregar tanto critérios
sócio-econômicos (classes médias, classe operária) como'
"" o Inve~so; vemos ser possível definir, por suce~Siva.s
nproximaçoes, os contornos de um grupo em runçao da
vl~lttOque ele tem do mundo ou de uma determinadã cíên-
I
critérios profissionais (estudantes, profissões liberais). olu, Fala-se correntemente de consciência de classe, de
Isolar esses critérios é deveras difícil e sau sobreposíção" IllJllsciêncianacional, etc. Nós observamos que e- r~J?r~-' ..
parcial com o conteúdo cultural próprio de certos grupos uutação também ttaduz; a relação de, um grupo. com um
e comum a outros torna imperfeita sua ordenação. Entre- cdl.latosocialmente válórizàdo;nót"adai:íIenee-pelo número.
tanto, alguns índices permitem-nos distingui-los em rela- do suas dimens-õ-ê's;-mas,sobretudo, na medida em que
ção à Psicanálise. A amostra "classe operária:" separa-se IIln diferencia um grupo de outro, seja por sua orientação',
em dois subgrupos, cujos traços enumeramos: os sujeitos' o.ln pelo~fato"·'"de;··stla""'RTe-s~PÇa'"'
ou de sua ausêncía.IPor
que nunca ouviram falar de Psícanálíse e aqueles que já c\I~IIHa dessa rfc-ir)roCidãde~entre .lIma ooletividade e __
a .pJl:a:
ouviram falar dela. Este último grupo, contudo, não pode "tnoría" (consciência, representação, etc.) , a teoria, como
ser considerado homogêneo em relação à representação 1(lnhUmosde verificar empiricamente, é um de seus atri-
da Psicanálise em geral. Em compensação, os estudantes, tnito« fundamentais. Isto equivale a dizer que ela a delí-
apesar da diversidade de seus interesses, de suas opções 11I1 Ltt e a define, que toda e qualquer outra maneira de
políticas, de suas origens sociais, constituem um grupo re- 1\ rrcondê-Ia será abstrata e artificial. Assim se .,Çoncre-
lativamente bem definido.. As classes médias têm em co- II'ra~ um dos modos que conferem às representações seii
mum uma única dimensão: as as classes médias (A), que ClHI',\líer coletivo. <f-----/
têm uma representação social estruturada da PSicanálise,
e as classes médias (B), que não a têm. O fator de diferen- I r. o SUBSTANTlViO, "REPRESENTAÇÃO" MAIS o
ciação é aqui de ordem sócio-cultural: nível sócio-econô- ADJETIVO "SOCIAL"
mico e grau de instrução superiores no primeiro subgrupo,
inferiores no segundo. Nesta classe, não é a idade, nem uaís são os significados que o adjetivo "social" adi-
a profissão, nem o grau de crença ou de indiferença reli- e tunu ao substantivo "representação"? Já d~s.YLevemos ú:rg
giosa que distingue os dois subgrupos e os situa em rela- dnhlH: o da dimensão dos.grupos sociais. Mas declaramos
ção à Psicanálise. Portanto, pode-se falar de uma atitude d,IIlIlo O começo que se tratava de uma significação super-
rllllll,l. Do um modo ou de outro, corresponde a .um crité-
do do expressão. Vê-se imediatamente surgir uma multi-
8 S. Moscovici, "L'attitude de: Théories et recherches autour d'un con-
cept et d'um phénomêne", Bulletin du C.E.R.P., 1962, 11, 177-191 e 1í\1I (10 interrogações. Quais são os limites precisos do 80-
247-267. lillll'/ Que representação não seria ~9-cjª-l?A que índices se
\~

76 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO í / 77 $..p \J


reconhece o grau de adequação entre uma representação e q\ll) as circunstâncias e as entidades que reflete. Esta lhe~ (
um grupo social? E assim por diante. O campo de batalha ti pf?pria, na medida em que_a2epresen~aç~0 contribui ex- (' ') ,
da Sociologia e da Psicologia Social clássicas está junca- I'ILI~nval!len!~J~ªraOLproc~~so~ ae .f.o!~açaOde condutas ,\1' ,'f ...•
do de livros e de sistemas que tentaram atacar essas ques- I' (to orientaçãc: tias comunzcaçoes soczazsy(/ - ./
tões e destrinçar entre as respostas possíveis. Não as imi- Tal função é específica,-e-é a seu propósito que fala-
taremos, não porque sejamos agora mais prudentes, mas IIIOSde representação social. Ela dífere da função da cíên- ,.'
porque consideramos essas questões estéreis, e a árvore I'lIL ou da ideologia, por exemplo. A primeira visa o con- ~
da ciência onde brotam as respostas está carregada de fru- trole da natureza e tem por finalidade cantar a verdade .
tos secos. 1-' ---,,- __
obre ela; a segunda esforça-se antes por fornecer um síste-,
-1!r0curemos, pois, alhures, do lado do(processo de pro- IIIn geral de metas ou em justificar os atos de um grupo
d~ç4Q\das representações, um ponto de ataque--n:raís" bem numano/ Subseqüentemente, elas propõem condutas e co-
--_"'-.....
ÜGefinidO- E, nessa perspectiva, 3ualiJicar uma representas IIllmicações adequadas. Mas, para razê-ío, cada uma sofre
~ ção de social equivale a optar pela hipótese de que ela é 1,I'nl1sformações em harmonia com os mecanismos represen-
.Ã) produzida, engendrada, coletivamente'.' São conhecidas as uuívos. Sem dúvida, para tanto contribuíram não só a ciên-
(i oposições que essa hipótese suscitou entre psicólogos e so- ('IILe a ideologia, mas também a filosofia e a arte. Iião
ciólogos, os quaís insistiram na importância exclusiva do IIHtt\ aí o objetivo essencial delas. Em contrapartida, a pas-
indivíduo na gênese das concepções adotadas pela socie- I~gomde uma teoria científica à sua representaçãosocial >

dade) A controvérsia entre Durkheim e Tarde ainda está na IIlHpondejustamente à necessidade de suscitar cornporta-,
memória de todos. Hoje, tais controvérsias perderam sua montes ou visões socialmente adaptados ao estado de co-
acuidade e revestem-se de maior sutileza formal. Perguntar nhecímentos do real. As dimensões do espaço, tal como''õ'
hoje~~ produz um~ill'Sls.e~o, uma ciência, umã IIHlcoas concebe, não se harmonizam espontaneamente com
iãeologià';,et'C':' tornou-se moeda corrente e remete, ipso \1'\ sensações da vista ou do tato, com as sensações reconhe-
facto, a um grupo, uma classe social, uma cuTtur~, etc. ,'Itlns da vida cotidiana. O fato de a Terra gravitar em tor-
Entretanto, à força da repetição, -do consenso,eSSeS enca- nu do Sol está bem longe da evidência peroeptual, da ex-
minhamentos, depois de terem sido fonte de elucidação e JlI'r1ênciado nascer ou pôr do Sol que nos induz a pensar
de descoberta, passaram a ser fonte de obscuridade e de II contrãrío. Os raciocínios físicos ou astronômicos - e os
irritantes banalidades. Com efeito, sob o ângulo da pro- ,1'II<:locinios científicos em geral - aplicam-se a casos pu-
dução, da origem - coletiva ou individual -, tanto a ciên- fi IIt, a fenômenos isolados num' meio muito purífícado e
cia como a representação, a técnica como a ideologia, não ,11.ll1lzado. Se esses raciocínios fossem aplicados à solução
se diferenciam em absoluto.t!?igamos antes que elas não .111/1 problemas complicados, indefinidos, que assediam os
foram diferençadas. Contentamo-nos em enumerar o papel Indivíduos ou os grupos num contexto tão pouco depurado
que desempenham a situação histórica ou econômica, as I tlo/'lnido quanto o meio físico ou sociológico concreto,
motivações sociais ou individuais, na edificação de um ,m rosultados poderiam ser, na melhor das hipóteses, bi-
c~meúdo particular e na forma específica que este re08be.:J ',J\ ITOS e, na pior, opostos aos resultados procurados. Gar-
1>-: E é a esse propósito que nos parece necessária uma 1111,ri observou muito corretamente: "Os elementos racío-
\ mudança de perspectiva. Para qualificar uma representa- I\lthl da Ciência não são nem os traços estáveis nem os
\9ffi.~ial não basta ftefinir o agente qüe-ã pmduz. Tam- 11111111:-1 que sancionam os modos de proceder cotidianos; e
'\pouco nos mostra, ficou agora claro, em que 'ela se dís- 1\ 11 h~ tentativa de tornar essas propriedades' estáveis, de
_) \i(tingue de outros sistemas que são igualmente coletivos. 11111'(10 com a Ciência, aumentará o caráter absurdo do
/ Saber "quem" produz esses sistemas é menes instrutivo IIIPloonde se desenrolam os comportamentos do indiví-
---=>do que saber "por que" se produzem ..lEm outras palavras, .1110, o multiplicará os traços desarticulados do sistema de
ara se poderapreêi1der o sentido dQ qualificativo social IIII,III'ltÇtto."A fim de evitar esses efeitos mdesejãveís, uma
,é preferível enfatizar a função a que ele c~rrespon-.fLe-(lé) rnlldlLnçll de nível e de organização dos saberes, dos mé-
-L...-_
r: ,t,4- ~.
\../Ol! c~ rO 9-,,.,, <: ~' '~') C1. QL.;\.
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t I ~ ,

78 "'(;-.:c,G(.4
A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE
UM CONCEITO PERDIDO 79
todos intelectuais, no sentido anteriormente descrito, pa- uma representação social condensa uma reflexão coletiva
rece responder à necessidade de adaptar a ciência à so- bnsrante direta, diversificada e dífusa, sendo cada um dos
ciedade e a sociedade à ciência, e às realidades que ela purticípantes, até certo ponto, um autodidata. que, como
descobre.
LocWautõdídãta; ~tertipor ideal o 'diõíõnário e a enciclopé-
Mas a representação não se limita a evitar esses efei- dm. Daí o vestílo"declamatórío,: 'descritivo, - arborescénte,
tos, uma vez que, graças às transformações de ordem uheío de repetições, de avanços e recuos, dos "textos" pro-
\ cognitiva, também os inscreve nas relações coletivas con- duzidos ao correr "dos pensamentos que servem à comu-
cretas. Assim, a Psicanálise tanto provoca a hostilidade ação imediata". Daí também essa impressão de ínterío-
quando a associam ao modo de vida americano, tornan- rízação de diálogos possíveis~r-ef~erindo-seos in,di.vídUOS,
do-se um sinal negativo desse modo de vida, como assume quando falam, por exemplo, "a ele" - os psic nalistas,
a fisionomia de um conhecimento burguês oposto a um os amezícanos, as pessoas ric sr-et . - a um 'outrem ge-
conhecimento conforme os valores da classe operária .. A, uoralízado'J, segundo a expressão de George Mead, isto
representação, permitindo a tradução de numerosos con- , ~ q~te~..§.ê~ ~e _t9~.§.....oJS
••.
int.erlqcM..tpr;Ets~;prç)~iII).0s-Qu
,-flitos norma tivos, materiais e sociais, implanta os -mãt& d'll::ltantes.parq.~belec~r Q eqllilíbrio, o indivíduo den-
.ríaís científicos no meio ampliado de cada um. Ao mes:-- nu-se como um " \L generalizado5! logo, comoum porta-
mo tempo, elã motiva e facilita a transposição de concei- voz de seu grupo";âe sua ôlasse," aos êristãos ou do "bom
tos e teorias considerados esotéricos para o plano do sa--
~i »er- imedíató e-permutável; e, de fato, tornam-se lns,tm-
11Onsou-;-e-naocomo uma pessoa particular. Mais do que isso,
(LUandase apresenta como particular, o indivíduo, no de-
,mentos de comunicação. Por um lado, a repr~senta_ção curso de uma pesquisa de opinião ou ao falar com outro,
toma o lugar da ciência e, por outro, a constitui (OlJ _ª' . () faz para distanciar-se em face do que declara como
"reconstitui) a partir das relações sociais envolvidas; de "ou generalizado", para se tornar o comentarista do seu
'" um lado, portanto, através da representação, uma ciência próprio discurso, apresentado como o "discurso deles" ou o
II recebe uma duplicação, sombra colocada sobre o corpo da discurso de "todo mundo". No trabalho em cujo decurso
'I sociedade, e, de outro lado, ela se desdobra - na medi- I~ Psicanálise - ou uma ciência qualquer - se transfor-
) I da em que está fora do ciclo e no ciclo das transações ma num substrato de comportamentos e de comunica-
/"! e dos interesses correntes da sociedade. Um exemplo fará ;ües, ela adquire essa duplicação de que falávamos mais
i." compreender melhor o nosso propósito. Os conceitos de ncíma. Mas, a partir do instante em que se tomam dís-
aparelho psíquico, repressão, inconsciente foram utiliza- t.n.neias,em que ela se restabelece em relações valorizadas
dos por Freud para definir certos fenômenos. Sua formação . em que, por isso mesmo, se começa a exercer pressões
científica tinha por finalidade desvendar a verdade, o real,' obre ela, é um outro aspecto que se destaca e se adiciona
descrever os fatos observados, e servir de apoio a uma o de seu desdobramento numa psicanálise, ou numa
terapia. As mesmas noções empregadas por uma pessoa olõncía, da sociedade. De um modo geral, os cientistas de-
interrogada no decurso de nossa pesquisa têm por objeti- Interessam-se por ela, desprezam-na e consideram nulo e
vo determinar sua conduta e, na maioria das vezes, comu- om efeito esse aspecto. Em anos mais recentes, eles pu-
nicar com outrem a propósito de uma teoria socialmente e loram constatar, através dos movimentos de contesta-
importante, qualificar os indivíduos com os quais ela 'Se ;1'\,0 das ciências, a partir do interior ou do exterior, como
relaciona, taxando-os de "reprimidos" ou de "complexados", IIHl'la atitude é falsa e incoerente. --''--_
ou, enfim, dar a essas relações um significado po- Resolver problemas, dar uma forma às ínterações sô---",,,;A/
lítico ou moral. Ainda mais profundamente, pode-se di- Illnis, fornecer um molde à conduta são motivos poderosos ,,\
'\ zer que, de algum modo, a comunicação modela a própria nnra edificar uma representação e transvazar o conteúdo
<, } estrutura das representações. F. Bartlett dizia correta- c10 uma ciência, de uma ideologia, etc. Que existem grada-
- '1 mente 9.118 "os.pensamentos cotidianos são os pensªmen- OR, desvios, próprios desse processo, 1remõs- ver I1üm
\!,~. tos que servem para a comunicação imediata", Com efeitO; nstante. 9 fato de, num grupo, tratar-se, sobretudo, de.atí-
80 A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA PSICANÁLISE UM CONCEITO PERDIDO 81

tudes, de antecipações de comportamento, e em outros se organização específica desse conhecimento I Mas não
tratar de um conjunto de categorias de pensamento e de apenas isso. Os comportamentos e os conhecimentos so-
troca corresponde à situação desses grupos na sociedade e mente são apreendidos, quando o são, sob o limitado ângu-
das normas religiosas ou políticas de que eles comparti- lo instrumental. As recentes pesquisas sobre a atribuição
lham e que os dividem. Apesar de suas variações, essa re- e a percepção de relações entre pessoas não constituem
presentação, a atenção que ela atrai para os fenômenos xceção. Ora, as representações sociais incitam-nos a preo,-. )
psíquicos, físicos ou coletivos, pelo seu funcionamento cupar-nos mais com as condutas imaginárias e simbólicas
como quadro de interpretação dos mesmos fenômenos, na existênêia ordinária das coletividades. Reatar, neste
torna-se um dos fatores constitutivos da realidade e das ponto, o fio perdido da tradição pode ter conseqüências
relações sociais. Pois não se podecteixar de constafâf que muito felizes para a nossa ciência.
essas relações e essa realidade não são, por um lado, "con-
eretas" nem, por outro, "representadas". Sua imbricação
é total, e a análise do que as distingue é fragmentária e
.artíncíaí. ,
No âmbito do estudo da representação social da Psi-
canálise, era indispensável discutir um conceito retirado
há cerca de um' século do horizonte das Ciências Sociais.
E mostrar que se trata, em primeiro lugar, de uma for-
ma de conhecimento autônomo, que obedece a um bom
número de exigências próprias do espírito humano, quan-
do se defronta com os eventos do seu universo imediato.
Seu estilo e a sua lógica, em seguida (mas isto ficará
aínda mais evidente na continuação deste trabalho), os-
tentam o cunho da sua razão de ser, ou seja, consolidar a
estrutura interna de um grupo ou de um indivíduo, atua-
lizá-Ia e comunicá-Ia, estabelecer ligações com outrem. À
socialização que daí resulta oferece um conjunto de ele-
mentos figurativos precisos e um sistema de significações
em estado de funcionamento. "O que é uma represen-
tação?" "Por que se produz umã representação)" são as
duas interrogações a que quisemos dar uma resposta. Se
prestamos menos -atenção às questões "Quem se represen-
ta?" e "Quem produz uma representação?" é porque eles
nos parecem, consideradas per se, simultaneamente super-
ficiais e resolvidas, em grande parte.
Tínhamos um motivo suplementar para insistir, em lu-
gar de nos contentarmos com o que é considerado axioma-
tico: recordar à Psicologia' Social que, se ela quer verda-
deiramente compreender os processos por que supomos
que se interessa, -tería vantagem em incluir no seu cam-
po de estudo.:a par dos comportamentos, os conhecimen-
tos que os in<livíduos e os grupos possuem e ufm~a
respeito da sociedade, dos outros, do mundo, e tambéill

L I - ~