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Cidadania, Comunicação e Literacia Mediática

João Carlos Correia


Universidade da Beira Interior

Índice que as novas tecnologias da comunicação de-


sempenham na configuração desse modelo
1 Introdução . . . . . . . . . . . . . 1 de sociedade civil. Finalmente, debruça-se
2 A sociedade civil . . . . . . . . . 1 sobre a literacia mediática como uma acti-
3 Sociedade civil como sociedade de vidade que não se restringe à aprendizagem
comunicação . . . . . . . . . . . 2 técnica mas que apela à necessidade de um
4 Novos media e interactividade . . 4 maior dinamismo interpretativo nos proces-
5 Cidadania e literacia mediática . . 6 sos de constituição de sentido.
6 Bibliografia . . . . . . . . . . . . 8

2 A sociedade civil
1 Introdução
A relação entre os mass media e a cidadania
Num contexto de reflexão crítica acerca dos passam por uma figura ressuscitada na teo-
processos de criação de significados e de ria política, a sociedade civil, a qual surge
transmissão de cultura, o qual tem vindo a como um terreno típico das sociedades oci-
proliferar no vasto campo de estudos que se dentais ameaçado pelos mecanismos da ló-
debruçam sobre as relações entre tecnologia, gica administrativa e económica e que se
comunicação e sociedade é difícil ignorar a apresenta como o locus para a expansão po-
mudança qualitativa introduzida pelas novas tencial da democracia nos regimes liberal-
tecnologias de comunicação. A abordagem democráticos efectivamente existentes. (cfr.
desta mudança tem vindo a centrar-se de um Arato e Cohen, 1995, viii). A tentativa de
modo particular no fenómeno da interacti- definição desta instância é devedora da refle-
vidade e suas particulares consequências no xão tocqueviliana e dos esforços teóricos de-
domínio, hoje tão discutido, das relações en- senvolvidos por Gramsci, de certo modo por
tre os novos media e cidadania. Este texto Habermas numa fase posterior à obra “Mu-
debruça-se, em primeiro lugar, sobre a ne- dança Estrutural da Esfera Pública”1 e, mais
cessidade de um conceito de sociedade civil
1
que se traduza na redinamização da cidada- Com efeito, os primeiros trabalhos de Habermas
nia; em segundo lugar, preocupa-se com a sobre o espaço público ainda apontam, em larga me-
dida para a identificação entre sociedade civil e soci-
dimensão simbólica e comunicacional deste edade burguesa, teorizando a esfera pública de certo
conceito, chamando a atenção para o papel modo como ideologia que, todavia, não se limitava a
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recentemente por Charles Taylor (1997, 263) de uma oposição cortante daquela em re-
e por Arato e Cohen no sentido de diluírem lação a estas. As noções que aqui par-
a tradicional identificação hegeliana e mar- tilho de sociedade política e de sociedade
xista entre a sociedade civil e a economia económica incluem esferas mediadoras atra-
burguesa (cfr. Arato e Cohen, 1995, 220 e vés das quais a sociedade civil pode ga-
seguintes). nhar influência sobre os processos político-
O que se defende hoje é um conceito de administrativos e económicos. Existe um pa-
sociedade civil que se ofereça como uma es- pel da sociedade civil que não está directa-
fera de interacção social localizada composta mente relacionado com a conquista do poder
pela esfera íntima, pela esfera das associa- nem com a gestão da economia mas com a
ções voluntárias, pelos movimentos sociais e geração de influência através da vida das as-
pelas formas de comunicação pública. Isto sociações democráticas e da discussão sem
implica distinguir a sociedade civil da soci- constrangimentos na esfera pública .
edade política composta apenas pelos parti- A diferenciação da sociedade política e da
dos, organizações e públicos políticos e de sociedade económica não implica também
uma sociedade económica composta por or- que a sociedade civil se refira a todos os fe-
ganizações de produção e de distribuição. As nómenos da sociedade que não estejam rela-
sociedades económica e política emergem cionados com o Estado e a Economia, mas
geralmente da sociedade civil, partilham al- apenas a modos de relação que incluam as-
gumas das suas formas de organização e de sociação consciente e a comunicação orga-
comunicação e institucionalizam-se através nizada. A sociedade civil não se confunde
de direitos políticos e de propriedade contí- com a totalidade do mundo da vida social.
nuos aos direitos próprios da sociedade civil. Refere-se às estruturas de socialização e as-
Porém, os actores da sociedade económica e sociação que possuam um certo grau de ins-
política estão directamente envolvidos com titucionalização (cfr. Arato e Cohen, 1995:
o poder estatal e com a produção económica, viii, ix e seguintes).
que pretendem controlar e gerir. Não podem
subordinar os critérios estratégicos e instru-
3 Sociedade civil como sociedade
mentais a padrões de integração normativa e
de comunicação aberta característicos da so- de comunicação
ciedade civil. A sociedade civil que aqui se configura pos-
A diferenciação da sociedade civil em re- sui cada vez mais uma conotação simbólica:
lação à sociedade económica e à sociedade a ligação entre a experiência comunicacional
política não significa, todavia, a existência e a experiência cívica ficou particularmente
ser ideologia porque continha uma promessa utópica evidente com o advento da modernidade
de realização da universalidade. É nesta ambiguidade quando se evidenciou a questão da legitimi-
estruturante que deve ser compreendida a afirmação dade, surgindo como elemento integrante do
de Habermas, segundo a qual a sua análise pretende exercício da cidadania, uma instância crítica
demonstrar a impossibilidade de conciliação dos im-
perativos económicos com o ideal de uma formação
independente do Estado que aspira a con-
discursiva da vontade (cfr. Habermas, 1997, 15). formar o poder e a transformá-lo. A socie-

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dade civil está relacionada com um público ção da realidade social deixou de ser consi-
político que lhe é contíguo e que se relaci- derado como unilateral, unívoco e dirigista,
ona como instância mediadora com as so- estanque em relação às dinâmicas sociais em
ciedades política e económica competindo- que se inserem os próprios media. A cul-
lhe amplificar a pressão exercida pelos pro- tura dos meios de comunicação também é,
blemas, isto é, não apenas detectá-los e hoje, um lugar de intensa luta entre os di-
identificá-los mas também tematizá-los de ferentes dinamismos sociais e, por conse-
modo convincente e influente, apresentando- guinte, teoriza-se melhor como um terreno
os juntamente com soluções, de tal forma de disputa, aberto às vicissitudes da história
que sejam tomados em conta e resolvidos pe- do que apenas como um campo de domina-
las instituições representativas (cfr. Haber- ção” (Champagne, 2000:18). Nesta luta, os
mas, 1996, 362). O cerne institucional desta jornalistas e os media desempenham um pa-
instância é, pois, as associações voluntárias pel estratégico. A impossibilidade de pensar
e as redes associativas não dependentes do a história como um curso unitário é, em larga
estado e da economia, através das quais se medida, resultado da espectacular expansão
ancoram as estruturas comunicativas da es- dos mass media, os quais geram uma soci-
fera pública na componente social do mundo edade com diversas sub-culturas que tomam
da vida (cfr. Ibidem, 366). a palavra, gerando um pensamento fragmen-
A esfera pública, adstrita à sociedade ci- tário e arredio às interpretações unívocas e
vil, configura-se hoje, pela sua mediatiza- lineares (Vattimo, 1996, 78-79).
ção, como lugar de confronto entre a plura- Se é verdade, assim, que a influência dos
lidade de definições da realidade social. Por media na construção social da realidade é
um lado, a construção social da realidade de- um dado incontornável, não é menos verdade
corre de um modo em que os media adqui- que cada vez mais é obsoleto e irrealista opor
rem um papel cada vez mais firme. Neste os media aos agentes sociais, como se os pri-
quadro, a actividade dos media pode ser en- meiros ocupassem uma posição a-histórica,
tendida como tendo um “papel socialmente desligada das interacções concretas entre os
legitimado para produzir construções da rea- homens. Pelo contrário, hoje abre-se a possi-
lidade que são publicamente relevantes” (Al- bilidade de que os agentes sociais irem recor-
sina, 1996, 18). Embora esse processo de rendo aos próprios media, através de uma in-
construção social esteja profundamente rela- tervenção cada vez mais directa na descodi-
cionado com os constrangimentos, normas ficação, recepção activa e até na produção de
organizacionais e convenções narrativas de mensagens. De acordo com esta perspectiva,
que dependem os conteúdos e a prática dis- apesar de todas as dúvidas e perplexidades,
cursiva dos media, ele não decorre sem a podermo-nos encontrar, encontrarmo-nos se-
participação activa da audiência, nas diver- guramente, diante de novas transformações
sas interacções em que os indivíduos tomam estruturais nas quais os media poderão de-
parte na realidade da vida quotidiana, no de- sempenhar um papel estruturante acentuada-
curso da qual se organizam como comuni- mente reflexivo. Ao invés do que sucedeu
dade interpretativa. na tradição marxista ortodoxa e, depois, de
Por outro lado, esse processo de constru- um modo peculiar na complexa tradição er-

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guida em torno da Escola de Frankfurt, de- quisa e a possibilidade de seleccionar notí-


vemos analisar os media não apenas como cias em função de interesses distintos e siste-
suportes ideológicos dos sistemas hegemó- mas de relevância plurais, as possibilidades
nicos de pensamento ou estruturas de do- de navegação abertas pelo hipertexto; às al-
minação oculta que viam o triunfo de uma terações estéticas e narrativas induzidas por
unívoca e linear racionalidade instrumental uma relação diferente entre a imagem e a es-
(Adorno e Horkheimer, 1985) mas também crita juntam-se as possibilidades políticas e
como lugares de produção de estratégias que éticas acrescentadas pela interactividade, de-
visam reformular o processo social. Sem signadamente no que respeita ao direito de
deixar de reconhecer a persistente afirmação resposta, à relação com as fontes e à inves-
dos discursos dominantes nos media, temos tigação jornalística. No que toca aos efeitos
de considerar que debates, polémicas e con- dos media, a interactividade traz consequên-
tradiscursos se manifestam nos conteúdos in- cias seja no que diz respeito ao paradigma
formativos, ainda que numa intensidade me- que analisa esses efeitos sob o ponto de vista
nor do que a desejada, mas em proporção da produção noticiosa (newsmaking) seja sob
bem maior do que a de décadas atrás. Os o ponto de vista do paradigma que analisa os
aparatos mediáticos não operam em full time efeitos pela fixação da agenda (agenda set-
para mascarar factos ou distorcê-los. Nem ting). Desde uma eventual menor dependên-
tudo o que se divulga está contaminado pelas cia das fontes institucionais até uma maior
injunções de uma malha ideológica rígida a intervenção dos públicos, através do prolon-
ponto de defraudar a vida — afinal complexa gamento da discussão nos fóruns disponíveis
e diversificada. abrem-se um conjunto de possibilidades que,
eventualmente, poderão alterar rotinas e mo-
dos de tipificar próprios de cada medium. No
4 Novos media e interactividade
que toca ao efeito de agenda, não é irrea-
De acordo com este raciocínio, importa estar lista supor-se que a sua fixação seja objecto
particularmente atento às possibilidades es- de uma luta no qual intervêm outros agen-
tratégicas que as novas tecnologias da comu- tes para além daqueles a quem, tradicional-
nicação evidenciam em termos de dinamiza- mente, compete a redacção e edição final.
ção da sociedade civil. Acredito que estamos Em suma, os espaços de comunicação pú-
diante de uma significativa transformação do blica tornar-se-ão mais dinâmicos, não es-
modelo de comunicação de massas graças ao tando, de forma tão rígida como é tradicio-
uso dos computadores como meio de difu- nal na cultura de massas, sujeitos ao modo
são de um novo tipo de mensagens. Atra- de agendamento e de tipificação que lhe são
vés da observação do World Wide Web, pode- típicas.
se verificar uma evolução importante do jor- Neste domínio, haverá que reconhecer que
nalismo on–line (também chamado por ve- um dos mais importantes elementos da co-
zes de jornalismo electrónico ou, ainda, por municação mediada por computador é a sua
webjornalismo) que passa por uma autono- habilidade para permitir o diálogo de muitos
mia crescente em relação aos media tradicio- com muitos e a sua capacidade para facilitar
nais. A adição de hiperlinks, motores de pes- a comunicação entre grupos e indivíduos ge-

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ograficamente dispersos. Entre as múltiplas contra o trabalho infantil e no enfrentamento


opções que surgem na Internet como alter- de multinacionais poderosas como sucedeu
nativa aos meios de comunicação de massa com a McDonalds (denunciada na NET atra-
o jornalismo peer-to- peer (entre nós, desig- vés de um site colocado por dois agricultores
nado, muitas vezes como jornalismo coope- que punham em causa os métodos e a higiene
rativo) e o slashdot oferecem-se como opor- da cadeia de restauração americana) pode ser
tunidades de ultrapassar a relação rígida e um elemento indutor e catalizador impor-
piramidal que alegadamente tem sido a re- tante para dar origem a uma nova forma de
lação dos media de massa com os seus lei- jornalismo, ligado aos movimentos sociais,
tores. Situado entre a webzine e o fórum, à democratização e à afirmação cívica das
o Slashdot surge como uma forma de difu- comunidades, que alguns chamam de jorna-
são de informação na NET, onde são cober- lismo cívico, ou ainda de jornalismo público
tas histórias e ensaios inseridos pelos leito- ou jornalismo comunitário.
res. A equipa do slashdot introduz as histó- Movimentos como os do public journa-
rias que serão editadas no site e é aberto um lism poderão encontrar aqui uma nova arena
fórum de discussão onde os leitores podem para incentivar o desejo que os motiva de
participar em tempo real debatendo tema ligar os jornalistas às comunidades no in-
em análise. Assim, a participação do pú- terior das quais operam, colocando a con-
blico na construção da notícia, seja atra- tribuição dos cidadãos no centro das preo-
vés da sugestão de temas de reportagem, cupações jornalísticas (Esterowick, Roberts
ou de informações sobre determinado as- e Clarck, 2000, 151). Nesta perspectiva, o
sunto que o público faz chegar aos jornalis- jornalismo on–line, sem ser a panaceia mi-
tas, é cada vez mais fácil e também mais fre- raculosa que responde às numerosas decep-
quente. Logo que a notícia é publicada, o lei- ções que o jornalismo de massas têm vindo
tor pode apresentar os seus comentários seja a impor à democracia, pode contribuir para
sobre o assunto alvo de notícia, ou o pró- o eventual fortalecimento de um “jornalismo
prio trabalho dos jornalistas (cfr. Barbosa, conversacional”, com o recurso a fontes não
2001). O Slashdot http://www.slashdot.org elitistas, e propondo um equilíbrio entre diá-
e outras páginas similares como Kuro5hin logo e deliberação, entre participação e de-
http://www.kuro5hin.org, são hoje alguns liberação. Poder-se-á deste modo, proce-
exemplos que apesar das diferentes aborda- der de modo equilibrado a uma investiga-
gens no que respeita ao controlo editorial, ção acerca de quais são os temas que, efec-
têm traços em comum. Qualquer pessoa tivamente, fazem parte da agenda dos públi-
pode escrever ou comentar um artigo sendo o cos, à comparação com a agenda dos políti-
gatekeeping exercido através de critérios em cos e à tentativa de estabelecimento de uma
que são tidos em conta as taxas de leitura. sintonia que leve as pessoas a afastarem-
Este tipo de novas manifestações jorna- se mais do abstencionismo. Poderão obter-
lísticas que já teve exemplos concretos em se elementos novos que ajudem a contribuir
torno da globalização, da luta pelas liber- para a generalização da ideia de que o pú-
dades cívicas em regimes ditatoriais, na in- blico deve tomar conhecimento das notícias
ternacionalização de movimentos sindicais de uma forma que promova a discussão e o

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debate, rejeitando-se de forma enfática e ca- e a exponenciação de uma certa irrelevância


tegórica qualquer interpretação da objectivi- eufórica.
dade jornalística que defenda o afastamento Em segundo lugar, este risco só pode ser
das redacções em relação aos assuntos da co- ultrapassado através de uma compreensão de
munidade. Poder-se-á, enfim, experimentar que a interactividade não substitui a interac-
as intuições presentemente existentes acerca ção e que a ideia de comunidade pressupõe
da possibilidade e da efectiva necessidade sempre um enraizamento social que contri-
de um modo de jornalismo que tenda a fa- bui para que a mediação prossiga à luz de
vorecer as “estórias” esquecidas, as fontes valores e de critérios que poderão e deverão
marginalizadas e o retorno à sociedade ci- continuar a existir no plano do plano do pró-
vil e às suas dinâmicas informais em prejuízo prio jornalismo on –line.
da informação pré–fabricada e seleccionada,
concentrada nos mecanismos institucionais.
5 Cidadania e literacia mediática
Esta abordagem também implica a insistên-
cia em modelos de jornalismo predominan- Apesar de as novas condições de interacti-
temente investigativos, que permitam retirar vidade poderem facilitar a dimensão conver-
os jornalistas da dependência das instituições sacional e comunitária do jornalismo, a ver-
ocultas sob o manto diáfano das relações pri- dade é que a sua concretização só será even-
vilegiadas com as fontes. tualmente possível, se houver uma forma-
Estas possibilidades não devem porém ção e educação que permita aos praticantes
deixar de ser objecto de um alerta que passa terem sensibilidade e conhecimento para as
por duas observações: relações entre a comunicação e as institui-
-em primeiro lugar a interactividade, a ve- ções democráticas. A educação para os me-
locidade no acesso e na disseminação da in- dia para ser compatível com a ideia de recep-
formação, a introdução do hipertexto, a per- ção activa e de participação cívica inerente
sonalização podem originar crises de medi- ao conceito de sociedade civil como socie-
ação onde a multiplicação generalizada de dade de comunicação deve incluir-se numa
um universo de “turbonotícias” (cfr. Bastos, concepção de auto-educação pelo facto de
2000, 60) pode conduzir a uma generaliza- implicar ousar a utilização da própria inte-
ção da entropia, à crise da deliberação raci- ligência e da própria capacidade de adquirir
onal e à ausência de reflexividade paralisada conhecimento (Misgeld, 1987, 83). Eviden-
pelo novo valor fetiche que constitui “a velo- temente que, no que respeita à recepção, im-
cidade em tempo real” (Sylvia Moretzsohn, porta tornar as novas tecnologias acessíveis a
2002). Neste caso, estaremos diante da pos- todos, tornando claro que os indivíduos têm
sibilidade de uma implosão do sentido, re- necessidade de desenvolver literacia compu-
sultante de uma avalanche de conteúdos que tacional, em particular, e mediática em ge-
geram a precipitação profissional, a confusão ral., evitando a difusão exponencional de um
entre informação e participação cívica (Mer- “informational gap” de consequências im-
ton e Lazersfeld, 1987), a curtocicuitação da previsíveis. Porém, a educação só poderá ser
acção política através da emergência de for- verdadeiramente considerada como tal ,se o
mas de autismo on-line (Rheingold, 1993) pensamento recusar a sua comodificação e

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consequente transformação em pensamento a dotar os agentes sociais de competências


automático (cfr. Ibidem). Ou seja, o re- no sentido de acederem, avaliarem e pro-
ceptor só passa a ser sujeito da informação duzirem mensagens mediáticas. A aquisi-
quando dispõe de critérios próprios (Calvo, ção destas competências visa também trans-
1999, 327). É indispensável articular a ques- formar os receptores passivos de mensagens
tão dos media com uma reflexão de natureza mediáticas em conhecedores habilitados das
hermenêutica e de natureza crítica que mo- tecnologias relacionadas com os media, de-
bilize uma maior sensibilidade para os pro- signadamente verificando a sua capacidade
cessos comunitários de constituição do sen- para influenciarem as audiências e introduzi-
tido. Isto implica desafiar o público a exer- rem novos temas. Nesse sentido, começa-se
cer a influência que lhe corresponde, através a acreditar que “a nossa política e a nossa de-
do conhecimento e análise da linguagem dos mocracia não conseguirão alcançar maiores
media. Por isso, no que diz respeito à recep- quotas de dignidade até que as instituições
ção, começam a organizar-se os movimen- de ensino compreendam, não apenas que te-
tos de literacia mediática. Não é exagerado rão que explicar diversas coisas sobre os me-
dizer que estes movimentos confrontam-nos dia, mas também que uma parte importante
com desafios e problemas dos mais delicados das suas disciplinas terão que versar sobre
entre aqueles que, como educadores e cida- os media”(Morató, 1996, 28) Neste movi-
dãos, teremos que enfrentar no século XXI. mento, que se faz sentir um pouco por todo
Trata-se no fundo de promover as competên- o lado, cada vez se enfatiza mais a necessi-
cias que permitam aos estudantes e os cida- dade de saber que tipo de conhecimento, ati-
dãos em geral tornarem-se mais sensíveis aos tudes e competências se tornaram essenciais
mecanismos sociais de representação tantas para se ser cidadão na idade dos media. Tam-
vezes ocultos na linguagem mediática. Influ- bém aqui se exigem reflexões adicionais: o
enciar o modo como se constrói a diferença processo de aprendizagem dos media se é
e a hierarquia no interior dos discurso me- feito a pensar na formação de espaços pú-
diáticos implica saber como ele é construído, blicos e na descodificação exige uma inter-
quais são os seus códigos e convenções e, em venção pedagógica que não se limite ao co-
última instância, ser capaz de produzir arte- nhecimento das técnicas, mas pelo contrário,
factos mediáticos, de forma a usá-los como passa por relacionar as competências adqui-
meios de expressão e de comunicação. Deste ridas com o mundo da vida em que os media
modo, o puro fascínio pelo gadget tecnoló- se inserem. Ou seja, qualquer intervenção
gico tem que ser compensado com uma com- pedagógica deste género deve ter em conta
preensão profunda de uma ideia de media- as conteúdos cognitivos, as crenças, as dis-
ção que implica saber que a educação para posições afectivas e as necessidades existen-
os media é também uma educação que deve ciais que fazem falta a uma comunidade para
responder a estas questões: a quem servem ter uma consciência crítica da sua existên-
os media? A que deuses se sacrificam? cia e das suas capacidades (Misgeld, 1987,
Um pouco por toda a parte, ao lado do re- 107). Todas as transformações que hoje se
conhecimento do poder dos media, surgem fazem sentir no seio dos media – ou sejam, a
movimentos académicos e sociais tendendo centralidade relativa que têm vindo a ganhar

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nos mecanismos simbólicos da sociedade ci- Champagne, Patrick (2000) “Os media, as
vil, a interpelação sobre os mecanismos de sondagens de opinião e a democracia”,
regulação que assegurem o pluralismo e a in AAVV, Os cidadãos e a sociedade de
equidade, o desenvolvimento de uma refle- informação, Lisboa, Imprensa Nacional
xão acerca do modo como o próprio jorna- Casa da Moeda.
lismo pode influenciar positivamente a vida
pública, o desenvolvimento de formas de li- Esterowikz, Anthony e tal (2000), “Jorna-
teracia mediática que impliquem a referên- lismo público e conhecimento público”
cia constante a una ideia de cidadania ac- in Revista de Comunicação e Lingua-
tiva, a emergência de possibilidades tecnoló- gens, no 27, Jornalismos 2000, Lisboa,
gicas que assegurem uma maior interactivi- Cosmos.
dade entre produtores e receptores – só tem Habermas, Jürgen (1996), Between facts and
sentido quando são encaradas como possibi- norms, Cambridge, MIT Press.
lidades de transformação das condições de
deliberação colectiva no sentido do aprofun- Misgeld, Dieter (1987), Education and cul-
damento da cidadania enraizada numa verda- tural invasion: Critical social theory,
deira vivência comunitária education as instruction and the “pe-
dagogy of opressed”, Cambridge, MIT
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Interior, texto acedido através de
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lización e frivolización del discurso
periodístico” in AAVV, Comunicación Moretzsohn, Sylvia (2000), “A velocidade
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