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V – Melhores Teses e Dissertações

A ESCRITA OFICIAL: MANUSCRITOS PARAIBANOS DOS


SÉCULOS XVIII E XIX

Maria Cristina de Assis Pinto Fonseca 1

Resumo:
Considerações sobre a estrutura de cartas administrativas paraibanas dos
períodos colonial e imperial, com ênfase nas que divergem das tradições
discursivas da época, em decorrência da inabilidade do escrivão ou do
autor dos textos, em relação à modalidade escrita exemplar. A análise
fundamenta-se nas idéias de Oesterreicher (1996), seguindo a linha de
Coseriu (1982). Trata-se de um recorte de nossa pesquisa de doutorado
realizada na Universidade Federal de Pernambuco em 2003.
Palavras-chave – História da língua; diacronia; cartas coloniais.

INTRODUÇÃO

Nos séculos XVIII e XIX, os documentos oficiais brasileiros baseavam-se nos


modelos produzidos em Portugal, tanto com relação ao aspecto formal quanto ao
lingüístico, buscando manifestar uma linguagem cuidada, elaborada. Entretanto, a
análise de textos oficiais da Paraíba desses séculos, integrantes do corpus de
nossa pesquisa de doutorado, revelou que alguns deles apresenta características
que os distanciam das tradições discursivas da época. São divergências da norma
escrita culta, níveis de língua mais próximos da oralidade, não habituais no gênero
“cartas oficiais”. Considerando, com Aguillar (1996: p.377), que a incorreção é um
dos maiores indícios de mudança2, buscou-se verificar nessas divergências,
elementos que permitissem rastrear possíveis mudanças da língua portuguesa
falada no Brasil, no período em que a escrita passa a trazer marcas das
diferenciações com relação ao português europeu.

O presente trabalho aborda a configuração de tais textos, a partir de uma


perspectiva histórico-textual, com base em conceitos elaborados por Coseriu,
utilizados por Oesterreicher (1996). Interessa verificar em que medida a linguagem
das cartas se separa do escrito, no sentido conceitual, e se aproxima do falado.

1
Melhor tese em Lingüística em 2003.
2
Entretanto, segundo o mesmo autor, não basta a presença de incorreções, nem a ausência de
literariedade para dotar de coloquialidade ou oralidade a língua de um texto. Oral supõe um modo de
enunciação, de produção da linguagem, enquanto coloquial refere-se à interação conversacional,
além da conotação de descuidado, informal, o que nem sempre é o caso da conversação.

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Para isso, é importante esboçar o contexto histórico e social de produção textual,


além de observações teóricas e metodológicas sobre noções e conceitos adotados
neste trabalho.

CARACTERÍSTICAS GERAIS DOS TEXTOS

Nas diferentes comunidades lingüísticas, existem modelos de produção e


recepção textual que são transmitidos historicamente. Nesse sentido, o que se
percebe na análise dos textos em estudo é que, em geral, seus autores
demonstram preocupação em seguir as tradições da época, tanto com relação à
estrutura formal quanto com relação ao estilo e nível de língua.

Do ponto de vista formal, a partir dos aspectos paleográficos verifica-se que


os manuscritos investigados seguem a tradição ibérica, com relação à tinta,
caligrafia e material da escrita. A escrita de alguns, quase em colunas à esquerda
do papel, traz regras de diversas larguras, porém uniformes. Com relação à
organização espacial, destaca-se, por exemplo, o fato de muitas cartas serem
redigidas em um só parágrafo — mesmo quando de grande extensão —, ou de
trazerem a primeira linha com letra maior que as demais.

No tocante às suas formas convencionais externas, já apresentam a


estrutura das cartas burocráticas atuais, com cabeçalho, saudação (vocativo,
seguido ou não de fórmula de cortesia), corpo do texto, fecho, assinatura, cargo,
local e data, endereçamento. No entanto, ao longo dos anos, percebe-se uma
modificação na parte inicial. As mais antigas começam diretamente com a narrativa
ou a exposição, sem cabeçalho. A partir do ano de 1800, o vocativo, com pronome
de tratamento, abreviado, passa a ser mais freqüente: Illmo Snr’, Illmo e Exmo Senhor,
Illmo Senro Dr Dezor , Exmo e D.mo Sn. O uso de Senhor era exclusivo para o rei. Para
as demais autoridades, hierarquicamente inferiores, empregava-se Vossa
Excelência ou Vossa Mercê (ACIOLI, 1994), ou ainda Senhor seguido do cargo:
Senhor governador, Senhor ouvidor.

Na maioria das cartas, local e data encontram-se no término do documento,


seguidos de fecho, assinatura do remetente e, por último, nome e cargo do
destinatário. Há casos em que aparece apenas a rubrica ou o sobrenome de quem
assina o documento, muitas vezes de modo abreviado, dificultando a identificação.
Normalmente o endereçamento segue no final da carta, constituído do nome do
destinatário e do cargo exercido por ele. Raramente encontra-se o nome do
destinatário no início da carta. Ainda no tocante à formalidade, um aspecto que
desperta a atenção do leitor são os cumprimentos de despedida e os fechos. Esses
cumprimentos apresentam uma estrutura mais ou menos fixa, podendo ser
abreviados ou não, e são muitas vezes repetitivos. O fecho mais freqüente nessas
cartas é Deos Goarde a Vossa Senhoria, que pode aparecer de maneira abreviada

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e com variações: D.G A V. Sª, D. G. a V. Exa m. a., Deos Guarde a V. Exa mt


an,D. G. aV.Ex.p mtos /annos,que D. ge //m~ an~...

Com relação à textualidade, observa-se que, em geral, os autores buscam


expressar-se de modo claro, expondo sua intenção e apresentando o assunto
objetivamente, sem dificuldade para o leitor. Esse fenômeno é comum a textos
escritos, em que é possível uma elaboração mais prolongada, com correções e
melhorias no redigido, já que a redação não se encontra condicionada pela falta de
tempo e não existe a presença direta do interlocutor.

Pode-se ressaltar também que, com relação à coerência dêitica, as relações


temporais, locais e pessoais estruturam-se coerentemente. Um aspecto que aflora
na leitura é a necessidade de que o leitor contemporâneo, não o destinatário das
cartas, recupere o conhecimento de determinadas situações3 e dos acontecimentos
aludidos pelo autor, para que o sentido da informação seja compreendido
(Oesterreicher, 1999). Nesse sentido, destaca-se a importância do contexto na
definição do sentido do texto e na orientação, tanto da produção quanto da
recepção textual. Nas cartas estudadas, os produtores têm em mente um
destinatário específico e, no momento de produção, compartilham do conhecimento
necessário para identificar os referentes, não sendo preciso explicitar todas as
informações. Entretanto, o texto precisa trazer dados suficientes para ser
compreendido com o sentido pretendido. É necessário que o produtor do texto
saiba com que conhecimentos do recebedor vai poder contar e não precisa
explicitar no seu discurso (COSTA VAL, 1991). Tais conhecimentos podem advir do
contexto imediato ou preexistir ao ato comunicativo. Nesse sentido, são freqüentes
também ocorrências de intertextualidade, em que o sentido de um texto depende do
conhecimento de outro(s). Algumas vezes, a referência a leis, ofícios e a outras
cartas é explícita e o autor retoma o que foi citado no documento.

Do ponto de vista lingüístico, destaca-se inicialmente o aspecto lexical. Por


se tratar de cartas burocráticas oficiais, em que a padronização é maior do que nas
cartas pessoais, verifica-se a repetição de certas expressões e a preocupação em
obedecer aos modelos produzidos pela tradição. Evita-se o uso de variantes
lexicais pouco conhecidas e aceitas apenas na região (no sentido que lhe atribui
Coseriu (1982), isto é, conhecidas apenas em um espaço reduzido, ou de forma
considerada diastrática ou diafásica ‘negativa’). Mesmo porque o uso de uma
dessas variantes pode causar problemas para o entendimento do texto.

Ao longo do tempo, alguns termos, expressões de polidez, fórmulas de


abertura e de encerramento, já presentes nas cartas dos séculos XVIII e XIX,
incorporaram-se à linguagem burocrática, chegando a constituir chavões ou clichês.
Por serem bastante recorrentes, constituem lugares-comuns e são apontados como
3
Coseriu (1979:228-9) concebe situação como o “espaço-tempo” do discurso, enquanto criado pelo
próprio discurso e ordenado em relação a seu sujeito, em outras palavras, aquilo por que ocorrem o
aqui e o ali, o isto e o aquilo, o agora e o outrora, e por que um indivíduo é eu e outros são tu,
ele, etc. De acordo com o autor, o que efetivamente se diz é menos do que se expressa e se
entende: o termo depende inteiramente desse entorno e apenas em relação a ele adquire sentido;
os pronomes substantivos só podem denotar graças à situação.

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peculiares à língua burocrática. Atualmente, com a tendência de simplificação da


linguagem que ocorre em textos dessa natureza, os manuais de redação oficial e
empresarial condenam o uso de tais elementos, já que soam pomposos e
rebuscados (SILVEIRA, 2002). Entretanto, nas cartas estudadas, não se pode
esquecer das relações de poder por trás dessas expressões e da atitude
subserviente que alguns produtores demonstram, já que, muitas vezes, eles
precisam dizer o que dizem e do modo como dizem, para manutenção de seus
cargos: espera-se dos militares que obedeçam aos seus superiores e acatem suas
ordens; do humilde servo, que esteja sempre preocupado com a sagrada causa,
zeloso no serviço ao seu senhor.

Além de revelar aspectos ligados diretamente à administração das


freguesias, vilas e termos, o léxico dessas cartas pode desvendar a vida do cidadão
comum por trás da autoridade: suas relações, seus interesses e seus problemas
(saúde, educação, segurança pública). Alguns termos referem-se a diversos
aspectos da vida militar (destacamento, infantaria, regimento), ou designam
profissões e cargos, muitos dos quais já não existem (furriel, alferes, ordenança,
capitão-mor). O léxico utilizado revela também um mundo violento, de muita
insegurança, em que as pessoas, autoridades ou não, viviam com medo e
envolvidos com questões relacionadas com a justiça. Pessoas que se escondem
após terem cometido crimes, que escondem criminosos, que se escondem de
criminosos. São freqüentes palavras relacionadas aos mais diferentes crimes
(assassinatos, roubos, assuada, acoitar, contrabandos) e expressões relativas ao
mundo judicial. É possível verificar ainda o sentido peculiar de determinadas
palavras e verbos: inteligência, usada no sentido de combinação, ajuste, conluio;
fascine(o)roso, no sentido de facínora, usado como substantivo e adjetivo e saber,
como conhecer, ser sciente, ficar, tornar-se.

No nível sintático, há uma tendência em observar a integridade da oração e a


correção gramatical. No tocante à sintaxe de concordância, verbal ou nominal,
percebe-se a predominância, em geral, de ocorrências que seguem a língua
exemplar. São ocorrências que continuam o Latim culto escrito, no sentido de
obedecerem à concordância gramatical, em detrimento da ideológica ou da atrativa.
Algumas delas, já registradas em textos portugueses medievais (FONSECA, 1986),
sobrevivem no português contemporâneo e são muitas vezes apontadas como
marcas da língua falada atual, ou como desvios das normas cultas do português
europeu, constituindo características do português brasileiro. Outro aspecto que
chama a atenção é o emprego dos tempos verbais, especialmente a predominância
do uso do mais-que-perfeito simples em detrimento do composto4. Essa
predominância do mais-que-perfeito simples se verifica em todo o corpus, sendo

4
Ambos os tempos verbais são utilizados para indicar uma ação no passado, anterior ou simultânea
a outra também no passado e, de acordo com Cuesta e Luz (1983), não há diferença nítida que
matize o uso de qualquer das formas, indistintamente, apesar de reconhecerem o predomínio, na
linguagem familiar contemporânea, da forma composta sobre a simples. As autoras lembram que as
formas simples ainda continuam utilizadas na linguagem escrita, principalmente quando há
preocupação com a elegância e com a ambigüidade, sobretudo na 3ª pessoa do plural, com o
pretérito perfeito.

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que, gradativamente, no decorrer do século estudado, começa a ser utilizada a


forma composta.

Nas cartas que buscam seguir os modelos portugueses, há uma clara


preferência por procedimentos verbais neutros, evitando-se expressões dotadas de
carga emocional muito acentuada. É um aspecto está associado ao uso da
linguagem burocrática, caracterizado pela impessoalidade, que é marcada, entre
outros meios, pelo uso da voz passiva. A voz passiva focaliza o objeto, mais do
que a pessoa e, em conseqüência desse enfoque no objeto da ação, ocorre o
apagamento do agente e o distanciamento entre os interactantes. Esse recurso
pode ser usado em textos atuais, segundo Mendonça (1985), para impor
regulamentos e normas, além de denotar preocupação com a eficiência (decorrente
da própria estrutura do sistema burocrático).

Do ponto de vista das estruturas frásicas dos textos, registra-se a ocorrência


de frases labirínticas ou centopéicas (GARCIA, 1982), freqüentes nos séculos XVI e
XVII, divergindo da tendência geral para a simplificação apontada por Pinto (1988),
como característica da língua dos escritores do século XVIII. Nessas passagens, a
presença de períodos cheios de conectivos, inúmeras orações subordinadas umas
às outras, resultam muitas vezes numa frase lenta, cansativa. O excesso de
informações torna necessário que se leia e releia o trecho diversas vezes para lhe
alcançar o sentido. Também são freqüentes os casos de topicalização, apontada
como uma construção peculiar ao português brasileiro. Em suma, são textos que se
aproximam, em maior ou menor grau, dos escritos que seguem as tradições
discursivas, com relação à fonética, ortografia, morfologia, sintaxe e ao vocabulário
dos períodos colonial e imperial brasileiros, sendo, portanto, representativos do que
Coseriu chama língua exemplar. No entanto, como nesse período não existe ainda
uma norma prescritiva fixa, essa orientação para com a norma é sempre bastante
relativa. Vêem-se flutuações e vacilações, mesmo nos textos que correspondem
claramente à concepção escrita.

Então, mesmo tratando-se de textos burocráticos, formais, e obedecendo a


modelos já estabelecidos, é possível encontrar, na organização lingüístico-textual,
diferenças resultantes das condições sócio-históricas em que foram produzidas. Há
uma grande variação no domínio da modalidade escrita por parte dos autores: ao
lado de pessoas que demonstram habilidade em redigir, encontram-se outras que
denotam pouca experiência no manejo da escrita.

Considerando-se que o uso da língua está condicionado por fatores como


grau de familiaridade, de cultura e de proximidade dos interlocutores, acredita-se
que determinados fenômenos lingüísticos dos textos representam influências da
oralidade, motivados pela falta de competência na escrita. É uma idéia que se
justifica pelo fato encontrarem-se textos contemporâneos a esses, mas de outros
autores, sem apresentarem dificuldades para serem entendidos. Essa inabilidade,
por sua vez, decorreria do analfabetismo, ou da pouca escolaridade, predominantes
na sociedade colonial brasileira.

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COMPETÊNCIA ESCRITA DE CUNHO ORAL

As divergências encontradas muitas vezes comprometem a textualidade e


alguns traços aqui destacados constituem elementos que os aproximam do falado
concepcional e podem ser compatíveis com os textos dos soldados cronistas do
século XVI estudados por Oesterreicher (1994, 1996): a competência escrita de
impronta oral. O autor, semiculto5, que escreve ou dita o texto, não conhece
suficientemente nem a variedade lingüística exigida pelo gênero respectivo nem as
regras discursivas válidas para a estruturação do texto. Além disso, muitas vezes,
não sabe aproveitar as possibilidades da comunicação escrita. Em conseqüência, o
texto produzido traz construções e elementos só utilizados no âmbito da oralidade,
normalmente não admitidas na escrita. Além disso, a insegurança no manejo das
normas lingüísticas e discursivas provoca ultracorreções. Este tipo de produção do
‘falado em textos’ corresponde ao que se pode denominar competência escrita de
impronta oral. Os autores sentem a necessidade de se expressar de acordo com a
norma culta, mas nem sempre conseguem. Em algumas cartas, por exemplo, as
idéias se sucedem sem muita dificuldade para o leitor; em outras, entretanto, há
trechos muito confusos, com mudança brusca de assunto, digressões, repetições.
Outras vezes, sente-se a ausência de informações que facilitem o entendimento.

Tal distanciamento pode ser explicado pelas próprias circunstâncias de


produção. Muitas cartas aqui investigadas, embora se relacionem com os
governantes, com a elite colonial paraibana, revelam um tipo de produção textual de
semi-oralidade (SCHLIEBEN-LANGE, 1993), já que havia os que mal sabiam ler e
escrever. Trata-se de pessoas com pouca experiência com a escrita que, graças a
circunstâncias históricas, tornaram-se produtores de textos. Considerando-se o
limitado acesso à escrita que havia na época, não é de se estranhar que traços de
oralidade transpareçam na escrita, refletidos na pontuação e na preferência por
determinadas construções, o que também denuncia a já citada inabilidade de seus
autores. Ao se confrontarem os textos produzidos por autores semicultos com os de
autores profissionais, percebem-se importantes diferenças com relação às tradições
e normas discursivas. Oesterreicher (1994) explica que, mesmo que os primeiros já
conheçam a estrutura das cartas oficiais e que estejam sujeitos às condições da
comunicação escrita — como poderem planejar antecipadamente o texto, melhorá-
lo com notas e apontamentos —, muitas vezes seus textos refletem diversos
aspectos e graus da linguagem de proximidade6. E mesmo apresentando
características próprias do gênero e se tratem de cartas escritas por intermediários,
no caso, escrivães, profissionais da escrita, esses textos trazem passagens que os
5
Embora reconheça que a denominação não é satisfatória, Oesterreicher (1994: 158-9) usa o termo
ao tratar de textos produzidos por soldados cronistas na conquista da América, chamando de
“semicultos” autores de escassa cultura e sem prática no ofício de escrever. Neste estudo, segue-se
a terminologia do autor.
6
Partindo da distinção entre meio e concepção, OESTERREICHER (1994, 1996) utiliza as
expressões linguagem de proximidade para a concepção do falado e linguagem de distância para a
concepção do escrito.6 Para esse autor, os textos que utilizam a linguagem de distância
correspondem ao ideal de escrita. São os que servem de referência em relação a outros textos.

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distanciam dos exemplares. Tal distanciamento pode ser explicado pelas próprias
circunstâncias de produção, pelo fato de que, nem todos os níveis da burocracia
eram ocupados por profissionais com habilidade na escrita. Como se viu, acontecia,
muitas vezes, de o escrivão alugar o cargo a um serventuário que fazia o trabalho
por uma parte fixa do salário recebido pelo primeiro. Não surpreende que as
características do tipo ideal de escrita sofram alterações e modificações
significativas nos textos de autores semicultos, diferenciando-os do padrão.

Para demonstrar a variação com relação ao domínio da escrita revelada


nessas cartas, apresentam-se trechos de duas delas. A primeira, que
enquadramos dentro do conceito de exemplaridade de Coseriu (1982), por seguir
os padrões das cartas oficiais da época, e a segunda, que consideramos escrita por
mãos inábeis.

De um lado, a seguinte carta, escrita por religioso em 1834, João Bispo de


Pernambuco, que reclama do abandono em que se encontra a matriz de uma
freguesia e pede providências ao vice-presidente da província, no sentido de fazer
as reformas necessárias, já que considera o governo provincial responsável pela
conservação das igrejas. Trata-se de uma pessoa que demonstra habilidade com a
escrita. É importante ressaltar que a carta, mesmo apresentando características
lingüísticas e textuais do período em que foi redigida — o que pode trazer
dificuldades de entendimento para um leitor moderno — reflete uma linguagem
elegante, com argumentos expressos de maneira coerente, com clareza na
exposição das idéias. O autor divide o assunto em parágrafos e usa as palavras
sem ambigüidade e sem repetições. Do ponto de vista sintático, redige orações
completas, sem truncamentos ou ambigüidades. Na transcrição abaixo, os trechos
em itálico apontam para passagens em que no original se encontra abreviado.

Illmo e Exmo Sor

Já mais se pode negar a obrigação, em que está


constituido o Governo Provincial, de reparar as ruínas das
Matrises de Sua Provincia, para serem conservadas, como
convem para Gloria de Deus, mantença de seo culto, e
edificação dos povos.
Infelizmente presenciei, Exmo Sor , oabandono da Matriz
da Fre
guesia de Taipú, a muitos annos em projecto, sem que
tenha havido quem promova a sua edificação. Com Grande magoa
entrei na Igre-
ja de S. Miguel, onde presentemente se administraõ os
Sacra
mentos com tal indecencia, que não admitte ali a
existencia do
Santíssimo Sacramento. Que inconvenientes naõ
experimentaõ o po-
vos pela carencia do Pão Celestial, quando sómente o podem
receber de-
la precaria celebração do incruento sacrificio? Nãoé
deste mo-

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do, Exmo Sos q’ podemos esperar a prosperidade de um


Paiz, on
de naõ floresce a Religiaõ dominante, que o Throno deve
defen-
der, e proteger.
Não posso demorar-me em expor à Consideração de V.
Exa
outras rasões convenientes, nem as julgo necessarias a
um Gover-
no, cujos membros professaõ a Religiaõ de Jesus
Christo, em
consequencia de ser obrigado a continuar o exercicio da
visita,
q’me impelle a discorrer p outras Freguesia, somente
suplico a V. Exa
fl2
que sedigne cooperar, quanto antes, e por todos os meios ao seo
alcance, para que
a Igreja Matriz do Taipu, seja edificada, para cujo fim
existam
segundo me consta, meios, e modos de se aperfeiçoar
este designio.
Asseguro a V.Exca que esta Igreja, está por mim encomendada
ao Reverendo
Geronimo Cavalcante deAlbuquerque, eseo Coadjutos
Antonio Hygi-
no Sacerdotes mui dignos pela sua optima conduta,
segundo
a ql. gosaõ a opiniaõ publica. Confio que os meos rogos
serão
atendidos, quando dirigidos a um objeto digno das mais
serias refle-
xões. Ds Ge. a V. Exas por mt as Villa do Pillar 22 de
Outubro de 1834

João Bispo de Perrnambuco

Illmo e Exmo Senr


Vice Preside da Provincia
da Parahiba do Norte

Considera-se, com Coseriu (1982), que a língua se realiza por indivíduos


particulares, de acordo com tradições históricas, concretizando-se num modo de
falar peculiar de uma comunidade, de acordo com as tradições dessa comunidade.
Entretanto, muitas cartas aqui investigadas, embora se relacionem com os
governantes, com a elite colonial, revelam um tipo de produção textual de semi-
oralidade (SCHLIEBEN-LANGE, 1993), já que havia os que mal dominavam a
escrita7. Freqüentemente, cargos burocráticos eram ocupados por pessoas que não
tinham habilidade ou experiência com a escrita, e, de acordo com Schwartz (1979),
quanto mais distantes do reino, menos domínio da escrita era demonstrado. Para
7
Muitos textos eram ditados e produzidos para serem lidos em voz alta, em virtude do analfabetismo
e da pouca escolaridade da maioria da população da época.

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ser escrivão, nos séculos XVI e seguintes, por exemplo, era necessária pouca
alfabetização. Por isso, nem todos os produtores dos textos conseguiam aproveitar
as possibilidades do texto escrito e suas produções apresentam divergências da
norma escrita culta, o que transparece em passagens cheias de repetições,
interferências da língua falada, registro das palavras escritas como se
pronunciavam e construções de variedades de menor prestígio.

De acordo com Schlieben-Lange (1993:28), ao se observarem textos


originados em meios “semi-orais”, quando produzidos por pessoas recém-
alfabetizadas, ou mesmo que tratam de temas ainda não trabalhados por escrito,
verifica-se que, além de demonstrarem insegurança ortográfica, esses autores
continuam a confiar na continuidade do funcionamento das técnicas do falar, nas
quais se esteia a comunicação oral, ou seja, não se preocupam com a pontuação,
nem em estabelecer por escrito um quadro de referência espacial, temporal e
pessoal no meio do qual, segundo a autora, ele pudesse mover-se textualmente. É
o que se percebe em certos trechos, em que o autor não sabe empregar suas
indicações no momento justo e coloca as informações primordiais e acessórias no
mesmo nível, produzindo um emaranhado de fatos e tornando seus comentários
contrários ao que pretendia.

Isso ocorre com a carta seguinte que, mesmo tendo como autor uma
autoridade, revela um indivíduo inábil com a escrita. É assinada por Francisco Leite
da Cruz, juiz ordinário de Pombal, pedindo providências contra uma quadrilha de
assassinos e ladrões que vivem perturbando a ordem pública. Toda a narrativa é
feita de um fôlego só, dificultando a leitura: não faz parágrafo e usa apenas um
ponto em 30 linhas. As idéias vão sendo acrescentadas, agregadas umas às outras,
com mudanças bruscas de assunto. Há flutuação na grafia e a letra da assinatura
diferente do restante da carta, é insegura e trêmula, o que leva a deduzir que foi
copiada/ditada à medida que as idéias fluíam na mente do autor. Outro aspecto que
prejudica o entendimento do texto é a arbitrariedade no uso de maiúsculas
(oRegente, ea Suadas) e na segmentação das palavras (amdematar adeis) Além
disso, há incompletude das orações, como acontece logo com no início da carta: o
autor começa com Oestado infilis..., deixando o leitor na expectativa de que o
pensamento vai ser concluído com o acréscimo da oração principal; mas ele
introduz outras idéias e outras informações, desviando o assunto e causando mais
problemas para a compreensão (Omem fasineroso, tendo já perisido, ejá foraõ
aasacinar, e se conservao). Além disso, pode-se perceber que o autor não domina
a escrita (STOLL, 1996), no sentido de corrigir as falhas sem deixar marcas, de
planejar e de melhorar o texto: é o que se verifica na passagem grifada, em que
transparecem marcas de correções (ou para me /espresar). Alguns traços
aproximam-se de textos escritos por iniciantes em produção textual, apresentando
dificuldades, por não ter consciência e, ao mesmo tempo, competência para
identificar as marcas do processamento do texto escrito no seu produto final
(PESSOA, 1997: p.189).

Em exemplos como este, o desenvolvimento das idéias não é linear, apresenta


digressões e circularidade: dados que se repetem, explicações redundantes,

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fazendo, com que, em alguns casos, a informação só seja entendida com a leitura
oral. Isso leva à suposição de que foram ditados ou produzidos para serem lidos em
voz alta. No relato a seguir, fatos principais e secundários se misturam. O trecho
transcrito é bastante longo, para que possa refletir os aspectos apontados:

Ilmo e Exmo Snr.

Oestado infilis emque deprezente seacha esta Villa


eseu
termo pelas mortes ea Suadas que diariamente estão
Co-
mitidos huma tropa de Omens armados ou para me
espresar de Cabras fascinerozos vindos do Rio do
Peixe man-
dados pelos Comdes daquela Villa espesialmente oRe
gente Joze Francisco da Silva Capitão Mor Joze
Dantas e Luis
José da Cunha Comandado esta patrulha por. Manu-
el Alves Afonso Omem fasineroso edemuitas culpas
que unido Com Alixandre Xavier de Azevedo perten
dem matar aalguns Sidadoens deste termo tendo já
perisido mizeravelmente João de Antonio Barreto eVi
-
dal Cristalino nas sanguinolentas ma’os de dizaseis
Cabras eSeu xefe Manuel Alves Afonso nestes
dizem
publicamente eseus mandatorios que ainda amdema
tar adeis pesoas deste termo ejá foraõ aasacinar ao
Alferes José de Sá em Sua propria Casa oque teria
acontisido seeste nao’ estivese com bastante gente
em
casa em sua defeza que para isso temerao’ e se
conservao’
nesta opozisao deste termo para odaVilla de Souza
neste azilados pelo sobredito Alexandre Xavier, ena
queles notridos pr aquelas autoridades avista pois
fl 02
Pois da Onrozaquadra que vejome privado de
comprir
com asminhas Obrigasoens pois sou a
miasado amorrer eomeu escrivao por aquela Corja
infernal; eomesmo susede com as mais autoridades
desta Vila etermo que malpode defender suapisoas
dos
asaltos dos malvados e a rezão epor que á ũm
grande par
tido p parte daquele Azevedo afavor dos malvados
episso é fasil que querendo as autoridades deaqui
pu
nirem aestes malfeitores romperá em uma Anar
quia. Emfelismente acabara este Pais nas máos dos
orro
rosos omesidios eSeV. Exa não providenciar
eproteger

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os sidadoens deste termo, ẽ poder nesta


isperansaeqmea
nimei alevar a prezensa de V. Exa pedindo a Jus
tisa do Custume . D. G. a V. Exa m. a. Pombal 9 de
abril de 1826

Francisco Leite da Cruz


Juiz ordinario davila
de Pombal

S. N. J. Ilmo Exmo Snr. Alexandre Francisco de Seixas


Maxado
G. M. Em’. a’.
Digno Prezidente da Paraiba do Norte e Coronel do
Batalhõ deCasadores da mesma Cidade

Conforme já foi posto anteriormente, o sentido de muitos textos depende do


conhecimento prévio do leitor, de outros textos, ou dos entornos (COSERIU: 1987).
Tratando-se de textos de épocas passadas, fica mais difícil reconstituir o contexto
em que foram produzidos, em virtude de serem os fatos, as pessoas, os lugares,
em sua maioria, desconhecidos para outros leitores que não o destinatário. Quando
os fatos não são explicitados, o prejuízo para o entendimento se torna muito maior.
E se o autor da carta não situa, não esclarece, muito do sentido do texto se perde.

Viu-se, com Coseriu (1979a) e Schlieben-Lange (1993), que as comunidades


lingüísticas fornecem modelos para produção e recepção discursiva, principalmente
com relação à escrita, e que o falante busca expressar-se de modo a ser
compreendido pelo outro. Além disso, muitos fatores são determinantes no sentido
de poderem alterar a língua. Os autores semicultos têm conhecimento dessa
tradição discursiva (leram ou escutaram) e buscam utilizar os modelos textuais
oferecidos por ela, porém não dominam as técnicas, não dominam o “saber” e, por
conseguinte, produzem textos inadequados. No caso do corpus em apreço, muitas
autoridades da época conhecem a correspondência vinda da metrópole que serve
de modelo para suas cartas e por isso deve ser “imitada”, querem produzir textos
semelhantes, mas não têm competência textual e lingüística (com relação à
modalidade escrita exemplar) para isso.

CONCLUSÃO

Os documentos selecionados, gerados em sua maioria pela administração


pública, revelaram-se bastante adequados para o estudo sociolingüístico, numa

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V – Melhores Teses e Dissertações

perspectiva histórica. A análise evidenciou como traço mais característico a


variação com relação à habilidade com a escrita por parte dos autores e co-autores,
mesmo considerando-se que foram produzidos por autoridades e profissionais da
escrita. Levando-se em conta que o falante utiliza modelos textuais produzidos pela
comunidade em que se insere, a abordagem textual voltou-se tanto para a questão
da textualidade e quanto para aspectos formais, possibilitando conhecer como a
língua estava sendo usada na época, principalmente no uso de textos relacionados
à burocracia administrativa, o que poderia constituir, no futuro, focos de pesquisas
mais aprofundadas.

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