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LEANDRO GOMES DE BARROS

2
A PRISAO DE
OLIVEIROS

y
COLEQÁO LUZEIRO
LITERATURA DE CORDEL
LEANDRO GOMES DE BARROS

A BATALHA DE OLIVEIROS
COM FEBBABBÁS
A FRISAD DE DLIVEIRDS
E SEUS COMPANHEIBOS
( E X T R A I D A S D O L I V R O DE C A R L O S M A G N O )

D i r e c a o de
A R L I N D O PINTO DE SOUZA

T e x t o r e v i s t o e classif i c a d o p o r
HÉLIO CAVENAGHI

D í r e i t o s a d q u i r i d o s e registrados de a c o r d ó
c o m a lei na B i b l i o t e c a N a c i o n a l

Rúa Almirante Barroso, 730


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nscr. Estadual 109.085.107

l^líáora Luígeiro U m i t m l a
FICHA
N O M E - A B A T A L H A DE O L I V E I R O S C O M F E R R A B R Á S
e A P R I S Á O DE O L I V E I R O S E SEUS C O M P A N H E I R O S
( E x t r a i ' d a s d o L i v r o de C a r l o s M a g n o )

TEMA - Bravura

A U T O R — L e a n d r o G o m e s de B a r r o s

L O C A L - S e m indicaipao - DATA - 1913

E S T R O F E S - A Batalha de Oliveiros c o m Ferrabrás, 101 - A


Prisao d e O l i v e i r o s , 1 3 7 — t o d a s de dez versos de sete
sílabas (martelos)

ESOUEMA DE RIMAS - a b b a a c c d d c

O B S E R V A Q Á O — A s letras r e p e t i d a s i n d i c a m os versos q u e
r l m a r h e n t r e si.

F I N A I S — Estrofes normáis.

B I O G R A F I A DO A U T O R - L E A N D R O GOMES DE B A R R O S
nasceu n o M u n i c i p i o de P o m b a l , E s t a d o da P a r a f b a , e m 1 8 6 8 .
A o s 16 anos, t r a n s f e r i u - s e para P e r n a m b u c o , o n d e m o r o u ñas
cídades d e V i t ó r i a , J a b o a t a o e R e c i t e . C o m e ^ o u a escrever a
p a r t i r d e 1 8 8 9 e s e m p r e v i v e u ú n i c a m e n t e d o q u e Ihe r e n d i a m
suas h i s t o r i a s versadas. C o m pos cerca de m i l f o l h e t o s d e versos
p o p u l a r e s - L I T E R A T U R A D E C O R D E L - d o s quais t i r o u
mais d e dez m i l edigoes. M o r r e u aos 4 de m a r g o d e 1 9 1 8 , mas
suas o b r a s c o n t i n u a r a m até h o j e s e n d o impressas e m u i t o p r o -
curadas. F o í o m a i o r p o e t a p o p u l a r d o g é n e r o e a b o r d o u t o d o s
os t i p o s d e t e m a s — c o n s i d e r a m - n o o primeiro sem segundo.

O n o m e literatura de cordel p r o v é m de P o r t u g a l e d a t a d o
s é c u l o X V I I . Esse n o m e deve-se a o c o r d e l o u b a r b a n t e e m q u e
os f o l h e t o s f i c a v a m p e n d u r a d o s , e m e x p o s i g a o . N o N o r d e s t e bra-
s i l e i r o m a n t i v e r a m - s e o c o s t u m e e o n o m e , e os f o l h e t o s s a o e x -
p o s t o s á v e n d a p e n d u r a d o s e presos p o r pregadores de r o u p a , e m
b a r b a n t e s esticados e n t r e duas estacas f i x a d a s e m c a i x o t e s .
A BATALHA DE OLIVEIROS
COM FERRABRÁS

Eram doze cavaiheiros, O a l m i r a n t e Balao


Homens m u i t o valerosos. T i n h a u m f i l h o , Ferrabrás,
Destemidos e animosos Que, e n t r e os t u r c o s , era mais
E n t r e t o d o s os g u e r r e i r o s . Q u e m tinha disposicao.
C o m o b e m fosse O l i v e i r o s , M e s m o e m n o b r e z a e apao.
U m d o s Pares de f i a n z a . Era o m a i o r q u e havia —
Q u e sua perseveranpa Entáo, em toda a Turquía,
V e n c e u t o d o s os i n f i é i s — O n d e se o u v i a f a l a r ,
E r a m uns leoes c r u é i s T u d o havia respeitar
Os D o z e Pares d e F r a n g e ! F e r r a b r á s de A l e x a n ú r i a !

Todos eram conhecidos Foi Ferrabrás procurar —


Pelos L e o e s da Igreja, Saiu c o m u m a grande t r o p a .
Pois n u n c a f o r a m a peleja V e r se achava na E u r o p a
Q u e neta f o s s e m v e n c i d o s . U m rei para pelejar.
Eram por turcos temidos. Pegou l o g o a e x c l a m a r ,
Pela Igreja e s t i m a d o s , C o m mais precipitagao,
Porque, g u a n d o estavam armados, Fazendo uma exclamagáo.
Suas espadas l u z i a m I n s u l t a n d o os c a v a i h e i r o s ,
E os i n i m i g o s d i z i a m : Falando contra Oliveiros,
— Esses sao e n d i a b r a d o s ! Fazendo acinte a Roldao.

T i n h a o d u q u e de N e m é , Q u a n d o Ferrabrás chegou
Q u e era u m a espada m e d o n h a , N o s c a m p o s de M o r m i o n d a ,
O grande G u y d e B o r g o n h a , Só u m trovao, quando estronda,
G e r a l d o de M o n d e F é — T r o a c o m o ele t r o o u .
Carlos M a g n o t i n h a f é E m altas vozes g r i t o u ,
E m t o d o s os c a v a i h e i r o s , A p o i a d o e m u m a langa.
Pois, e n t r e t o d o s g u e r r e i r o s C o m o u m a f e r a q u e avenga,
De q u e nos t r a t a a H i s t o r i a , Precipitade e m f u r o r .
Vé-se s e m p r e a v i t ó r i a Dizia: — Ó Imperador!
Dé R o l d a o e O l i v e i r o s . Cade t e u s Pares de Frange?
LEANDRO GOMES DE BARROS

Estás p o u p a n d o t e u s g u e r r e i r o s . É u m g r a n d e da T u r q u í a ,
Q u e n e m u m v e m pelejar? T u r c o de m u l t a e n e r g í a !
Para q u e queres guardar I m p e r a s o b r e o seu t r o n o —
Esses d o z e cavalheiros? É o legítimo dono
Ougo dizer que Oliveiros D o reino de A l e x a n d r i a !
T e m t a n t a disposipao —
É p r ó p r i a a ocasiao! Aquele foi quem entrou
Se nao t e m d ó dos g u e r r e i r o s . D e n t r o de Jerusalém,
De urna vez m a n d e O l i v e i r o s , N á o respeitando ninguém —
G u y de B o r g o n h a e R o l d á o ! A t é apostólo m a t o u !
N o t e m p l o sagrado a c h o u
N i n g u é m af respondeu B á l s a m o q u e Deus f o i u n g i d o .
E Ferrabrás se a p e o u , Coisas q u e t i n h a m s e r v i d o
N u m a s o m b r a se s e n t o u , Na paixáo d o Redentor,
E m altas vozes r o m p e u : A coroa do Senhor —
— Carlos M a g n o se e s c o n d e u T u d o ele t e m c o n d u z i d o !
O u está h o j e sem apao?
Os Pares o n d e é q u e estáo? Carlos M a g n o o b s e r v o u
N a o oucpo n e m u m f a l a r ! Q u e n e m u m se o f e r e c e u .
Já n a o posso a c r e d i t a r L o g o ai' e n t r i s t e c e u ,
Ñas fapanhas de R o l d a o ! Chamou Roldáo e o m a n d o u .
Disse R o l d á o : — E u n á o v o u ,
Sairei d a q u i d i z e n d o : N e m e u , n e m meus c o m p a n h e i r o s !
Carlos M a g n o se e s c o n d e u ! Nos combates derradeiros,
R o l d á o nao m e apareceu — N ó s esgotamos os valores —
T a l v e z ficásse t r e m e n d o ! Q u e m f o r a m merecedores,
E s t o u só c o m o estás v e n d o , F o r a m os velhos c a v a l h e i r o s !
Eles sao d o z e g u e r r e i r o s —
C o m o doze cavalheiros Nesta ú l t i m a b a t a l h a ,
N a o d á o b a t a l h a a u m só? Sangüinolenta e tirana,
Por q u e nao v e m u m a m ó , M i n h a espada D u r i n d a n a
Roldáo, Ricarte, Oliveiros? N á o m o s t r o u u m a só f a l h a —
D a q u e l a b r u t a canalha
S o z i n h o nesta c a m p a n h a , Arrebatei a vitória!
Contra u m e x é r c i t o francés. M e f i c a r á o na m e m ó r i a
Se m a t á - l o d e u m a vez. A q u e l e s grandes perigos —
Nao digo q u e isto é fapanha — A o s cavalheiros a n t i g o s ,
U m e x é r c i t o n á o m e ganha, F o i a q u e m destes a g l ó r i a !
Ainda mesmo doente!
C o m o é que existe gente Carlos M a g n o , q u a n d o o u v i u
Q u e se atreve a e x a l t a r A resposta de R o l d á o ,
E p e l o m u n d o espalhar Se e n c h e u de t a n t a p a i x á o .
Q u e Carlos M a g n o é v a l e n t e ? Q u e u m f e r r o lhe s a c u d i u .
Roldáo, quando o l h o u , que viu
Carlos M a g n o p e r g u n t o u O sangue d e l e desear,
Q u e m t a n t o o insultava, N á o p o d e mais se c o n t e r —
Q u e m t á o rebelde f a l a v a . Se a r m o u c o m t a l f u r o r .
R i c a r t e ai' Ihe e x p l i c o u ; Q u e n á o f o i ao i m p e r a d o r
L h e disse: — Esse q u e c h e g o u Por R i c a r t e se i n t e r v i r .
A BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRÁS
Q u e ele n a o estava capaz.
Carlos M a g n o o r d e n o u P o r q u e ja era d e m a i s
Q u e os Pares o pegassem, 0 sangue q u e Ihe sata —
D e p o i s de preso o m a t a s s e m . P o r isso, p o r Deus, pedia
R o l d a o de n o v o se a r m o u , Q u e n a o fosse a F e r r a b r á s .
Pela espada p u x o u
E disse e m a l t a l i n g u a g e m — — G u a r i m , podes descansar!
C o m desmedida coragem, Oliveiros respondeu.
Falou a todos assim: U m s o l d a d o c o m o eu
— Qualquer que tocar em m i m . N a o d e i x a seu rei c h o r a r !
Diga q u e está d e v i a g e m ! O t u r c o há de a c r e d i t a r
Q u e m i l feras n a o m e c o m e m —
T u d o ali f i c o u c a l a d o . M i n h a s fagan has se s o m e m .
Nao falou u m cavalheiro: Mas, e n q u a n t o e u n a o m o r r e r ,
R o l d a o era u m c o m p a n h e i r o F e r r a b r á s há de d i z e r :
O e n t r e t o d o s mais a m a d o . E m Franpa e n c o n t r é ! u m h o m e m !
De mais, era r e s p e i t a d o
Pela n o b r e z a e acáo,
T i n h a u m leal c o r a p a o Q u a n d o d o l e i t o se e r g u e u ,
Para c o m seus c o m p a n h e i r o s Pos u m a p e r n a e s t e n d i d a ;
E mesmo, dos cavalheiros, Logo a i , de uma ferida,
Era ele o cap i t a c . P o r p a o de sangue desceu.
O escudeiro tremeu,
Carlos M a g n o f i c o u A s s i m q u e o sangue e s t a n c o u
C e r t o d e q u e n i n g u é m ía — E ele n a o se i m p o r t o u —
Disse q u e m e s m o quería C o m q u e m estivesse sao,
Ver q u e m o desafiou. F i n c o u a lanca n o c h a o
Quando a noticiachegou E de u m pulo m o n t o u .
A o s ouvídos de Oliveiros,
Q u e s o u b e q u e os c a v a l h e i r o s E f o i ao i m p e r a d o r .
N a o t i n h a m Ihe o b e d e c i d o , C o m a m a i o r reverencia,
Ficou bastante sentido Disse c o m o b e d i e n c i a :
Desta acao d o s c o m p a n h e i r o s . — Esclarecido senhor,
E u nao sou merecedor
O r d e n o u ao escude¡ro Q u e coisa a l g u m a m e d é !
Q c á v a l o Ihe selar Por isso, s e n h o r , b e m vé
E mandou logo aprontar Q u e v a l o r t e m seu c a t i v o —
A r r e i o s de c a v a l h e i r o . Por dez anos q u e Ihe s i r v o ,
E g r i t o u : — A n d e ligeiro! V i m pedir-lhe uma mercé!
Me a j u d e l o g o a r m a r !
Pode o t u r c o se g a b a r : Disse ihe o i m p e r a d o r :
Matei u m d o s cavalheiros! — Pode, Oliveiros, dizer —
P o r é m n a o d i z : Oliveiros E u j u r o o satisfazer,
T e m e u c o m i g o lutar! Seja q u e p e d i d o f o r !
Disse O l i v e i r o s : — S e n h o r ,
Assim que G u a r i m sentiu N a o q u e r o coisa d e m a i s
Seu s e n h o r f a l a r e m g u e r r a . E n a o serei t a o capaz.
Pos os j o e l h o s e m t é r r a . Para t a n t o Ihe p e d i r —
A t é p o r D e u s Ihe p e d i u . P o r é m o q u e q u e r o é ir
Porque imaginou e viu Dar batalha a Ferrabrás!
LEANDRO GOMES DE BARROS
Carlos M a g n o q u i s f a l t a r , Disse o o u t r o c o m f u r o r .
D e v i d o ao seu m a u e s t a d o , Seja p o r q u a l f o r m a f o r .
P o r é m , já t i n h a o r d e n a d o . M e diga agora, c o n f e s s e :
N a o p o d í a revogar. O q u e f o i q u e t u f izesse
V i u Oliveiros montar Contra o teu imperador?
E m u i t o sangue sair —
R o g o u - l h e para n a o i r . Disse O l i v e i r o s , z a n g a d o :
Disse O l i v e i r o s : — I r e i ! — V e n h a pelejar c o m i g o !
Desfeitado meu rei. Perante seu i n i m i g o ,
D o q u e m e serve e x i s t i r ? É ser v i l pór-se d e i t a d o !
D e v i a ser d e l i c a d o
N a o posso a q u i declarar (Lhe refletiu Oliveiros)
O q u e era de m i s t e r — Na O r d e m d o s C a v a l h e i r o s ,
C o m o f i c o u Regener, E n c o n t r a - s e a educapao —
V e n d o Oliveiros m o n t a r ! Pois isso nao é agao
F i c o u a se l a s t i m a r . V i n d a d o s grandes g u e r r e i r o s !
V e n d o os o u t r o s c a v a l h e i r o s .
Ele, c o m m i l desesperos, O t u r c o disse, a f i n a ! :
P r o s t r a d o e m t é r r a se lampa: — O h , c a v a l h e i r o , lhe d i g o :
Perdeu a ú l t i m a esperanza Só pode lutar comigo.
De ver seu f i l h o O l i v e i r o s ! Se f o r d e sangue real —
P o r q u e , se nao f o r igual,
Ferrabrás esteva d e í t a d o , Recusarei a e m p r e s a !
S e n t i u chegar O l i v e i r o s ; Falo c o m toda a franqueza!
F o i ver se e r a m os c a v a l h e i r o s E n t a o , O l i v e i r o s disse:
A q u e m já t i n h a i n s u l t a d o . — Pode crer c o m o q u e visse —
D e p o i s de t e r b e m o l h a d o , M i n h a o r i g e m é de n o b r e z a !
Cresceu-lhe mais o f u r o r —
C o m desprezo aterrador Ferrabrás lhe esclareceu:
E raiva d o s c a v a l h e i r o s , — T e u n o m e hás de d i z e r !
Perguntou a Oliveiros: — P r i m e i r o , eu hei de saber,
— Q u e f izeste a t e u s e n h o r ? Disse O l i v e i r o s , d o t e u !
Disse F e r r a b r á s : — O m e u
— Levante-se, c a v a l h e i r o ! O d i r e i sem mais p o r f í a ,
Prepare a a r m a , se a p r o n t e . Pois m i n h a soberanía
Pegue o c á v a l o , se m o n t e . N a o exige coisas tais —
T r a t e d e ser b o m g u e r r e i r o ! E u m e c h a m o Ferrabrás,
P o n h a seu c o r p o l i g e i r o . S o u o rei de A l e x a n d r í a !
Veja, nao dé uma falha:
A m o r t e e n t r e nós se espalha, — E u sou G u a r i m de L e r e n d a !
A h o r a de u m é c h e g a d a ! Oliveiros respondeu.
Lance m a o d e sua espada — H o j e f o i q u e sucedeu
Vamos entrar em batalha! Dar a p r i m e i r a c o n t e n d a
E lhe d i g o q u e se r e n d a .
— Q u e m és t u , t a o p e q u e n i n o . Q u e o levarei c o m a m o r !
Q u e vens m e desafiar? F i q u e sabendo o senhor
Achas que v o u me ocupar Q u e n a o m e p o d e escapar —
E m dar batalha a m e n i n o ? H o j e t e n h o de o levar
És l o u c o , o u n a o t e n s t i n o ! Para o m e u i m p e r a d o r !
A BATALHA DE OLIVEIROS COM PERRABRÁS

O t u r c o disse-lhe a s s i m : O l i v e i r o s está d o e n t e ,
— T e u rei é m u i t o m a l v a d o , B o n f i m t a m b é m a n d a ausente,
Pois pega u m p o b r e s o l d a d o , G u i de B o r g o n h a f i c o u ,
S e m causa q u e r d a r - l h e u m f i m ! R o i d a o n u n c a se o c u p o u
P o r q u e , e m t u vires a m i m , Brigar c o m u m t u r c o s o m e n t e !
É ser m u i t o l o u c o o u b o b o —
É c o m o fazer u m r o u b o — G u a r i m , t u me tens m e n t i d o !
A q u e m n a o possui d i n h e i r o ! Dizes q u e és n o v o g u e r r e i r o —
É atirar u m cordeiro És a n t i g o c a v a l h e i r o .
D e n t r o da jaula de u m l o b o ! T a n t o q u e estás f e r i d o !
Mas O l i v e i r o s , f i n g i d o ,
Oliveiros, já macado, Disse: — Este sangue é de agora
Disse ao t u r c o : — És u m l o u c o ! E u e s t o u sao, p o r é m e m b o r a
L e v a n t a - t e , se n a o , c o m p o u c o , T e n h a na j u n t a a l g u m c a l o .
H e i de f e r i r - t e d e i t a d o . O sangue é d e m e u c á v a l o .
Q u e t e m p o se t e m passado Que é m u i t o d u r o de espora.
Nessas t u a s discussoes!
E u n a o v i m o u v i r rázoes, D e p o i s de se l e v a n t a r ,
V i m a o c a m p o pelejar — Ferrabrás se p r e p a r o u
T u és f r a n c o n o f a l a r . E a Oliveiros rogou
V a m o s ver as t u a s apoes! Q u e o ajudasse a se a r m a r .
Oliveiros quis faltar.
F e r r a b r á s , sem se a l t e r a r , Por achar q u e era p e r í g o ;
L h e disse: — Espera, G u a r i m ! Disse F e r r a b r á s : — L h e d i g o .
Pepo q u e digas a m i m Confie em minha nobreza —
O que vou te perguntar! E u n a o uso d e vileza
E n t á o , pós-se a indagar Para c o m m e u i n i m i g o !
C o m a f a l a m u i t o mansa.
C o m o q u e m pensa e descansa; O l i v e i r o s se a p e o u ,
Perguntou a Oliveiros: A j u d o u a Ferrabrás;
— C o m o sao os c a v a l h e i r o s C o m cortesías iguais.
Q u e f o r m a m os Pares de Franpa? Ele t a m b é m o t r a t o u .
Q u a n d o F e r r a b r á s se a r m o u ,
O l i v e i r o s disse a s s i m : V e s t i u a saia de m a l h a
— Roldáo t e m boa estatura. Na q u a l n a o t i n h a u m a f a l h a
O l i v e i r o s , na f i g u r a , Feita por outros guerreiros,
É o m e s m o q u e ver a m i m . M o n t a r a m - s e os c a v a l h e i r o s —
G u y de Borgonha, B o n f i m , Deram comeqo á batalha.
P i c a r t e sao quase iguais,
Pegou n u m , e u m v o r a z — Posto e m o r d e m , prosseguiram
Porém, enquanto Roldao, A l u t a e m e s t r e i t o s passos;
E m coragem e corapao, Das grossas langas pedapos
O m u n d o nao t e r á m a i s ! D e a m b o s ao longe c a i ' r a m .
A m b o s l o g o se s e r v i r a m
Disse F e r r a b r á s : — E n t a o D e duas f i n a s espadas.
Por q u e , desses cavalheiros. C o r t a n t e s , grandes, pesadas.
Nao veio a m i m Oliveiros, Q u e era uso d o s g u e r r e i r o s .
G u y de B o r g o n h a o u R o l d á o 1 Das f e r i d a s d e O l i v e i r o s
Disse O l i v e i r o s : — Isso n a o ! F o r a m trés a m a g o a d a s .
10 LEANDRO GOMES DE BARROS

T o d o s d o i s descarregaram —
Disse F e r r a b r á s : — G u a r i m ,
C o m as torgas q u e b o t a r a m .
Pela crenpa dos fiéis,
Os brapos f i c a r a m b a m b o s
Confessa l o g o q u e m és —
E os cávalos de a m b o s
N a o sejas f i n g i d o a s s i m !
E m t é r r a se a j o e l h a r a m .
Creio que mentiste a m i m :
T u és u m d o s cavalheiros
O l i v e i r o s recebeu
Q u e a f a m a está espaihada!
U m golpe tac desmarcado,
Pelo pegar da espada,
És R o l d a o o u O l i v e i r o s ! Oue f i c o u a t o r d o a d o
E m u i t o sangue desceu.
O t u r c o a i c o n hace u
Disse a hoste d o s g u e r r e i r o s :
Dele as torgas a b a t i d a s ;
— T u r c o , tens u m a atragáo
C o m as vozes c o m p a d e c i d a s ,
Para r o u b a r coragao
Disse: — O l i v e i r o s t e i m o s o !
D o s mais d u r o s c a v a l h e i r o s !
Bebe o b á l s a m o m i l a g r o s o .
C o n f e s s o : sou O l i v e i r o s !
Q u e t e c u r a essas f e r i d a s !
Minha f a m a tens o u v i d o !
Ferrabrás f i c o u s e n t i d o
— Ferrabrás, eu n a o a c e i t o ,
D o s seus i n s u l t o s p r i m e i r o s .
A s s i m n a o deves c a n s a r - t e !
Disse: — D e s c u l p e , O l i v e i r o s ,
Confesso, d e m i n h a p a r t e .
Nao té-lo bem recebido!
Que toda a oferta rejeito.
P o r q u e eu n a o m e a p r o v e i t o
A i , tornaram a partir,
D u m a agao a c o b a r d a d a .
E m o r d e m de c a v a l h e i r o s .
Por u m a p r o t e g á o d a d a —
Disse o t u r c o : — O l i v e i r o s ,
Pois q u e p r e f i r o m o r r e r .
N a o posso mais t e f e r i r !
Q u e d o t e u b á l s a m o beber,
V e j o t e u sangue sair.
S e m o t o m a r pela espada!
Por estares e s t r a g a d o !
T e n h o o b á l s a m o sagrado
B e i j o u a c r u z da espada,
C o m q u e Jesús f o i u n g i d o ,
Prosseguiu n u m a o r a g a o :
Bebe-o, p o r q u e estás f e r i d o —
— Ó V i r g e m da Conceigao,
B e b e n d o ficas c u r a d o !
M a r i a Pía e S a g r a d a !
Mae d e Deus, I m a c u l a d a ,
— T u r c o , eu nao hei de aceitar Esposa casta e f i e l !
Coisa a l g u m a q u e me deres. Pelo vinagre e o f e l
S a l v o só se t u quiseres Q u e C r i s t o b e b e u na c r u z ,
Crer e m Deus, t e b a t i z a r ! Rogai p o r m i m a Jesús,
D o c o n t r á r i o é t e cansar. Nesta b a t a l h a c r u e l !
P o r q u e n a o a c e i t o nada —
E s t o u c o m a v i d a arriscada, P a r t i u ao seu c o n t e n d o r
Sei d o p o d e r q u e t e m ele, C o m tanta disposigao.
P o r é m só m e s i r v o dele Q u e só se estivesse sao
T o m a n d o - o pela espada! Teria t a n t o valor.
Deu-lhe u m golpe matador,
A i ' a m b o s , prevenidos. Porém pegou mal pegado,
N a o e s c u t a r a m razoes; F e r i u o t u r c o de u m l a d o .
Pareciam d o i s leoes, Ferrabrás se d e s v i o u .
N u m a jaula, enfurecidos. T i r a n d o o bálsamo, t o m o u ,
D o i s golpes iguais, m e d i d o s . F i c o u de t u d o c u r a d o .
A BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRÁS 11

Oliveiros entristeceu, De t o d a s suas f e r i d a s -


Q u a n d o v i u Ferrabrás sao, Suas torgas a b a t i d a s .
E disse n o coracáío: Mas estava t a o r e n i t e n t e .
— Q u e m p e r d e a l u t a sou e u ! Q u e Ihe parecía u m v í v e n t e
P o r é m n a o esmoreceu — C o m q u i n z e o u dezesseis v i d a s !
S e m d e m o n s t r a p a o de f a l h a .
C o m o h o m e m que trabalha, D e p o i s de t e r a p a n h a d o
Disse sem p o d e r c o n t e r - s e : O b á l s a m o q u e Ihe s e r v i u .
— F a l t a p o u c o para ver-se D e n t r o d o rio sacudiu
O f i m de nossa b a t a l h a ! O que tinha inda f icado.
Ferrabrás f i c o u m a p a d o
Disse o t u r c o : — C a v a l h e i r o , Por O l i v e i r o s b o t a r
T u já estás m u i t o f e r i d o ! O q u e n a o p o d i a achar
Q u e i r a aceitar m e u p e ' d i d o : A i n d a a peso de o u r o —
Rende-te prisioneiro! Do m u n d o t o d o o tesouro
Assim, te farei herdeiro Nao poderla comprar!
D o r e i n o de A l e x a n d r i a
E t e m mais a g a r a n t i a : Oliveiros respondeu:
D e h o j e para a m a n h á . — Ferrabrás, f i q u e s a b e n d o
Casar c o m a m i n h a i r m a , Q u e Deus t u d o está v e n d o ,
A f l o r de t o d a T u r q u í a ! Pois o m u n d o t o d o é s e u !
U m g u e r r e i r o c o m o eu
Disse O l i v e i r o s : — S e n h o r , N a o vai atrás de c i t a d a :
N a o p r e c i s o de r i q u e z a — C o m Deus, nao m e f a l t a nada.
Q u e r o m o r r e r na p o b r e z a . Me basta os p r o d i g i o s seus —
Mas b e m c o m m e u S a l v a d o r , N a o q u e r o mais d o q u e Deus,
Porque f o i meu criador U m a langa e u m a espada!
E por minh'alma trabalha,
U m instante nao empalha. E t o r n o u a investir.
Para s a l v a r o s f i é i s ! Q u e só u m leáo v o r a z !
T u r c o , c u i d a e m teus papéis - E disse: — S e n h o r F e r r a b r á s ,
Vamos dar f i m á batalha! É t e m p o de d e c i d i r !
S ó se o u v i a e r a m t i n i r
C o b r i u - s e c o m seu e s c u d o , A s espadas p e l o ar.
B e i j o u a c r u z da espada R o l d a o , q u e estava a o l h a r .
E deu uma cutelada. De vez e m q u a n d o d i z i a :
Q u e desceu arnés e t u d o . — O l i v e i r o s , só q u e r í a
E, d a n d o o u t r a a m i ú d o , Estar agora e m t e u l u g a r !
A Ferrabrás o f e n d e u .
Q céu o favoreceu: Já t i n h a m se espedagado
U m revés e s c a p u l i u , A r n é s , capacete e t u d o .
O b á l s a m o dele c a i u N a o t i n h a mais u m e s c u d o
E Oliveiros bebeu. Q u e n a o tivesse q u e b r a d o .
A s langas t i n h a m v o a d o ,
Ferrabrás, admirado. S ó as viseiras e x i s t i a m —
Por ver t a n t a ligeireza, Etes j á m a l se c o b r i a m
E ver aqueta destreza Ñas h o r n v e i s c u t i l a d a s !
E m q u e m já estava cansado, S o m e n t e as duas espadas
V i u Oliveiros curado Sem daño algum resistiam.
12 LEANDRO GOMES DE BARROS

O l i v e i r o s se p r e p a r o u Para o l e i t o r se agradar —
E p a r t í u ao i n i m í g o . O u e m sabe, há d e se l e m b r a r .
O t u r c o viu o perigo, Na luta dos cavalheiros,
A pé f i r m e o e s p e r o u — O cávalo d e O l i v e i r o s ,
U m g o l p e nele d e i t o u , Q u a n d o q u i s desembestar.
C o m tanta disposi^áo,
C o m a grande cutelada
S e m ser p r o p ó s i t o o u t r a i p a o ,
Que Oliveiros recebeu,
Nesses golpes t a o ligeiros,
Q u a n d o o cávalo c o r r e u .
O c á v a l o de O l i v e i r o s
N a o o b e d e c e n d o a nada
C a i u sem v i d a n o c h a o .
Saiu n u m a desfilada.
Mas o t u r c o o a t a l h o u .
— T u r c o , estás b e m m o n t a d o
O l i v e i r o s até p e n s o u
E o m e u cávalo m o r r e u !
Q u e fosse a l g u m a t r a g é d i a —
Ferrabrás Ihe r e s p o n d e u :
O t u r c o p e g o u na rédea
— Mas eu n a o f u i o c u l p a d o !
E o cávalo p a r o u .
N a o f icarás d e s m o n t a d o ,
E u sei a o r d e m q u a l é !
N a o desanimes da f é ; O u t r a parte, que dizia,
Eu fui q u e m m a t o u o t e u . Q u a n d o o cávalo d o t u r c o
Agora montas no meu — F o i voá-lo n u m cavuco,
E u v o u pelejar a p é ! F e r r a b r á s quase m o r r i a .
O l i v e i r o s , c o m energía,
Disse O l i v e i r o s : — N a o ! C h e g o u nesta m e s m a h o r a ,
Pico t a m b é m desmontado! A p e o u - s e sem d e m o r a —
T u nao f o s t e o c u l p a d o ! Pegou ele pelas máos.
A s s i m era ser v i l á o ! Q u e só s e n d o d o i s i r m á o s ,
Por c e r t o eu t i n h a razao. E b o t o u Ferrabrás f o r a .
Porque t u mataste o meu —
F o i acaso q u e a c o n t e c e u . E t o r n a r a m a se bater
Era m e f e i o a c e i t á - l o ! Os ferozes c a v a l h e i r o s .
N a o b r i g o só a c á v a l o — O t u r c o c o m Oliveiros,
Podes descansar o t e u ! Ninguém podia entender —
Nada se o u v i a d i z e r
N o j o g o das c u t e l a d a s .
A i Ferrabrás a t o u
A s armas despedazadas
N u m arvoredo o cávalo
C o m esse pesado j o g o .
E disse: — V o u descansá-lo,
De longe via-se o f o g o
Sua ocasiáo c h e g o u !
Q u e safa das espadas!
Para a b a t a l h a m a r c h o u ,
C o m t o d a a disposipáo.
O l i v e i r o s , f o r t e e sao, — Podes gabar-te O l i v e i r o s !
Esperava cara a cara, Disse o t u r c o , a d m i r a d o .
C o m a espada A l t a Clara, Olha que tenho lutado
R u g i n d o q u e só u m leáo. C o m mais d e m i l c a v a l h e i r o s
E n t r e t o d o s os g u e r r e i r o s .
E u agora m e l e m b r e í N a o h o u v e q u e m m e ferisse,
Da f a l t a q u e c o m e t i — N e m q u e m t a n t o resistisse
Mas f o i p o r q u e m e e s q u e c i . Os golpes da m i n h a espada!
Por isso n a o re late i. Ela, p o r o u t r a assinada.
Porém sempre falarei. N u n c a h o u v e q u e m a visse!
A BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRÁS 13

Disse Ó l i v e i r o s e n t a o : Q u e já e s t o u m a l s a t i s f e i t o !
— T u a espada n a o t o r a s t e Respondeu-lhe: - Só aceito.
É p o r q u e nao encontraste Por m i n h a s armas t o m a d a —
C o m a espada de R o l d a o ! T o m á - l a p o r m a o beijada,
Ele, c o m ela na m a o . Isto nao é de d i r e í t o !
Nunca encontrou ferro duro,
N e m arnés de ago p u r o C o m u m pedaco de escudo.
Q u e seus golpes resístisse, Que no chao tinha ficado,
N e m m e t a l q u e nao rangisse, D e p o i s de t e r a p a n h a d o ,
N e m cavalheiro seguro! Disse O l i v e i r o s : — Isso t u d o
N a o f u r a , mas é p o n t u d o —
E cobriu-se c o m uma parte M a t a q u a l q u e r , esiá p r o v a d o !
Do escudo, que f i c o u . Guárim tinha observado;
Com todo o orgulho, gritou: F o i a C a r l o s M a g n o , disse
— V a m o s dar f i m a o c o m b a t e ! Q u e a O l i v e i r o s acudisse.
A nós n a o há q u e m a p a r t e . Q u e j á estáva d e s a r m a d o .
Disto já estou convencido —
Haja o q u e D e u s f o r s e r v i d o . Oliveiros viu entao
O n d e há c a m p o e espadas. Q u e a sela d e F e r r a b r á s
A s razoes sao desusadas. Estava m u n i d a d e m a i s ,
Conversa é t e m p o p e r d i d o ! C o m espadas ao argao.
C o m t o d a a disposigáo,
E partiu, determinado Q u e só q u e m n a o t e m j u i z o ,
A Ferrabrás degolar. P a r t i u ao t u r c o i n d e c i s o —
Mas n a o p o d e a p r o v e i t a r Sem temeridade alguma,
O g o l p e descarregado — Puxou pelo cabo duma.
O t u r c o p u l o u de u m lado, Q u e se c h a m a v a B a t i z o .
U m g o l p e nele m e d i u .
Quando Oliveiros sentiu, — Agora sim, estou a r m a d o !
0 b r a p o Ihe e s t r e m e c e u — Disse ele a F e r r a b r á s .
D o golpe que recebeu, Ñas armas e s t a m o s iguais,
A sua espada c a i u . N e n h u m ficará macado —
Cada q u a l zele seu l a d o .
A s s i m m e s m o , inda pegou-a. Q u e a b a t a l h a vai f i n d a r !
Mas t i n h a o b r a c o d o r m e n t e . É t e m p o de aproveitar
O turco, rápidamente, A forpa, a coragem, o jogo —
Partiu a ela, apanhou-a, A batalha, a ferro e a fogo,
Pegou n e l a , e x a m i n o u - a , Seja f e l i z q u e m g a n h a r !
Ficou muito admirado
E disse, e n t u s i a s m a d o : E haja t e m p o ! O f e r r o t r o a ,
— O l i v e i r o s , estás v e n c i d o ! C o m golpes t a o d e s t e m i d o s !
Isso a i está d e c i d i d o . Das espadas os t i n i d o s ,
P o r q u e já estás d e s a r m a d o ! Só u m t r o v a o q u a n d o zoa.
Que o estampido reboa.
P o r é m pega a t u a espada. Por vaos d e serras e q u e b r a d a s !
Nao q u e r o vencer-te assim! C o m o b o m b a s disparadas,
M e s m o , q u e r o ver o f i m Raíos de f o g o s u b i a m ,
Desta b a t a l h a e n c a n t a d a , Grossas fai'scas c a í a m
Pois está t á o d i l a t a d a . Daquelas duas espadas.
14 LEANDRO GOMES DE BARROS

F e r r a b r á s a resistir E ele e m t u d o m u d a d o .
Estava c o m t a n t a p a i x a o ! Pálido e ensangüentado.
O l i v e i r o s , só u m leao, Oliveiros viu c o m calma
Quando alguém o quer ferir, Q u e o t u r c o só t i n h a a a l m a —
Disse: — V a m o s d e c i d i r O c o r p o estava a c a b a d o !
Esta b a t a l h a c o m p r i d a !
A coisa está c o n h e c i d a — — Jesús, f i l h o d o E t e r n o ,
U m d e nós h o j e a q u i erra E x e m p l o da r e d e n g a o !
E, neste c a m p o d e g u e r r a , L i v r a i a este pagao
U m há de d e i x a r a v i d a ! Do abismo d o inferno!
D a i - l h e u m desejo m o d e r n o ,
O l i v e i r o s a i se e r g u e u , U m i n t u i t o q u e o avise
M a r c o u - l h e a cabega a o m e i o . Nessa miserável crise —
Q u e f o i o g o l p e mais f e i o D a i - l h e isso c o m o p r e n d a :
Que u m cavalheiro deu. Q u e de t u d o se a r r e p e n d a ,
Ferrabrás estremeceu Creia e m V ó s e se b a t i z e !
E quase p e r d e o s e n t i d o ,
Ficando muito abatido. Já estava Ferrabrás
Disse c o n s i g o O l i v e i r o s : M u i t o r e n d i d o a o cansado.
— T u serás u m d o s p r i m e i r o s Já o seu e s q u e r d o b r a c o
A seres h o j e v e n c i d o ! N a o o p o d i a erguer mais.
P o r q u e nao era capaz
E t o r n o u a repetir D e resistir mais p o r o r a .
O u t r o golpe desmarcado. E Oliveiros, por fora,
O t u r c o , m u i t o cansado, Conheceu-lhe a gravidade;
Quase o g o l p e o f e z cair. C o m toda a amabilidade,
N a o p o d a n d o resistir — Disse: — Ferrabrás, agora
O golpe nao respondeu.
Oliveiros conheceu Q u e r o que fiques sabendo
A f a l t a de ligeireza. Q u e e x i s t e u m Deus q u e nos c r i a !
Mas v i u q u e a q u e l a f r a q u e z a Sua t o r c a e energía
N a o era d e f e i t o seu. É c o m o a q u i t u estás v e n d o :
V i m a q u i quase m o r r e n d o .
Disse O l i v e i r o s c o n s i g o : T o d o chagado e f e r i d o ,
— M e u D e u s ! Se V o s concedésseis Pois eu t i n h a c o m b a t i d o
Q u e este t u r c o conhecesse Para Ele d e f e n d e r —
Q u e é f e l i z viver c o n t i g o , S e m t e u b á l s a m o beber.
O livraria d o perigo F u i de Deus f a v o r e c i d o !
D e sua a l m a se p e r d e r !
O c é u havia de c o l h e r Se t u chegasses a crer
U m a a l m a quase p e r d i d a Na Santi'ssima T r i n d a d e ,
Que, depois dearrependida, N o P o d e r o s o Deus Padre,
P o d i a se c o n v e r t e r ! Havias de c o n h e c e r
Q u e ao m u n d o rege u m p o d e r
Já d e F e r r a b r á s a v i d a De grande sabedoria.
Se d i v u l g a v a n u m s o p r o : Que t u d o alimenta e cria.
Cada p a r t e n o seu c o r p o Fez o c é u a t é r r a , o m a r ,
Tinha uma mortal ferida, É mais p u r o d o q u e o ar
A forpa m u i t o abatida E mais c l a r o d o q u e o d í a !
A BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRÁS 15

Esse, u m d í a , desceré D e v i d o ao seu m a u e s t a d o —


A o m u n d o das ílusoes Muitas feridas d o lado.
E t o d a s nossas apoes Era e n o r m e a s a n g u e i r a !
C o m o j u i z julgara. Das armas, só a viseira
E c o m o t e salvará. Apenas tinha f icado!
T u , sem lei e c o n f i a n z a ?
S e m t e r n E e l e u m a esperanza. A i n d a se l e v a n t o u ,
V a i s ao D í a d o J u i z o ? Disse: — S e n h o r Q l i v e i r o s ,
E n t á o , perdes o Paraíso, Estes sao os d e r r a d e i r o s
Essa g r a n d e e r i c a heranpa? Golpes que e m guerra d o u !
Qliveiros o esperou.
D e i x a os í d o l o s q u e adoras Mas n a o o q u e r i a m a t a r —
E e r é na V i r g e m M a r i a ! Seu desejo era o salvar.
C r é n u m Deus q u e n o s c r i a , N a o desejava mais n a d a .
Julga t u d o em u m a h o r a ! Pos na b a i n h a a espada.
B o t a estas ilusoes f o r a . A p e n a s para c o n s t a r .
Q u e o d e m o n i o n a o t e pise!
Pede a Jesús q u e t e avise, Assim que Ferrabrás viu
Abraga a religiao. Se u l t i m a n d o sua v i d a .
Pede das c u l p a s p e r d a o , Pos a m a o s o b r e a f e r i d a ,
C r é e m Deus, e se b a t i z e ! A Qliveiros pediu —
Julga-se q u e ele s e n t i u
Disse o t u r c o : — C a v a l h e i r o , Uma emocao t a n t o ou q u a n t o .
Isso n a o hei de f a z e r ! Q u e d i s p a r o u nesse p r a n t o
Eu me sujeito a morrer Ressentido e magoado.
N o c a m p o d o desespero, C o m o se fosse t o c a d o
T e n h o os l o u r o s de u m g u e r r e i r o , Do Divino Espirito Santo.
B r a z á o , h o n r a , assim p o r d i a n t e -
A i n d a q u e vá a v a n t e , — N o b r e e grande cavalheiro!
I s t o assim n u n c a f a r e i ! Disse o t u r c o , a r r e p e n d i d o .
N a o d e i x o a lei q u e a d o t e i Agora estou convencido
Por dez m o n t e s de b r i l h a n t e ! Q u e t e u Deus é v e r d a d e i r o .
Grande, b o m e justiceiro.
Dizendo: — A p o l i m , me valha! . . Ente de grande mistar —
E se l e v a n t a n d o cansado. Faz t u d o q u a n t o Ele q u e r ,
Inda dizia, animado: N E l e n a o ha q u e m Q p i s e ! . .
— V a m o s dar f i m á b a t a l h a ! T e p e p o q u e me b a t i z e —
A m o r t e nao m e empalha, D e p o i s faga o q u e q u i s e r !
A v i d a é c o m o u m segredo,
O m u n d o é u m cruel degredo Qliveiros, quando acabou
O n d e o m i s t é r i o se e n t e r r a — De o u v i r o q u e ele d i z i a ,
G o l p e de espada, na g u e r r a . F i c o u c o m t a n t a alegría.
J a m á i s m e m a t a de m e d o ! Que, de contente, c h o r o u .
A s f e r i d a s Ihe c u r o u ,
O l i v e i r o s p o d e ver, L i v r o u ele d e m o r r e r .
Q u a n d o e s t a v a m descansando. E n t á o , se o u v i u d i z e r
Q u e ele estava d e s m a i a n d o Aquela alma fiel:
E se arriscava a m o r r e r . — B e n d i t o , ó Deus de Israel,
J a m á i s p o d í a viver. Q u e f o i , q u e é, q u e há de ser!
16 LEANDRO GOMES DE BARROS

Estando Oliveiros sentido. Q u e só u m t i g r e o u u m leao —


Por ver assim Ferrabrás, H o m e n s de d i s p o s i p a o ,
L h e disse: — H o j e serás D e s t r o s n o j o g o de langa,
Pelos Pares r e c e b i d o — Pessoas da c o n f i a n z a
N a o p o r eu t e r - t e v e n c i d o . D o almirante Balao!
Mas s i m p o r seres c r i s t á o ,
Porque a religiao E disse: — Hás de m o n t a r
Abraga t o d o rebelde. E m m e u c á v a l o e seguir
Desde a h o r a e m q u e pede E ajudar-me a subir.
De suas c u l p a s p e r d a o ! Para p o d e r m e levar.
E n a o deves d e m o r a r .
Disse o t u r c o : — Hás d e m o n t a r Porque estou m u i t o f e r i d o —
E m m e u c á v a l o e seguir — Ficarei m u i t o s e n t i d o
Se o m e u e x é r c i t o v i r , E m m o r r e r sem b a t i z a r - m e
Há de q u e r e r m e t o m a r ! E al i t e m a esperar-me
E cuida logo e m te armar, U m exército crescido!
C o m a maior brevidade —
T e n h o arma em quantidade. E Oliveiros, andando
De q u a l i d a d e mais b e l a ! Por u m a estrada q u e h a v i a ,
U m a presa c o m o aquela V i u q u e de u m m o n t e safa
V a l e mais q u e u m a c i d a d e ! A f o r p a q u e estava e s p e r a n d o .
0 t u r c o foi-se a p e a n d o
E, p o r trás d a q u e l e o u t e i r o , E O l i v e i r o s se a r m o u ,
T e m dez m i l t u r c o s e s p e r a n d o Sob uma sombra o deixou,
E mais q u e h á o de vir c h e g a n d o . F o i de e n c o n t r ó aos i n i m i g o s -
Cada q u a l mais c a v a l h e i r o ! U m d o s m a i o r e s perigos
O n d e t e m cada g u e r r e i r o . Que Oliveiros e n c o n t r o u !
A PRISÁO DE OLIVEIROS
E SEUS CDMPANHEIROS

Q u e m leu a b a t a l h a h o r r e n d a F e r r a b r á s , c o m o u m leSo,
De O l i v e i r o s e F e r r a b r á s , Afrontava a própria morte,
N a o deve i g n o r a r mais Era a c o l u n a mais f o r t e
O q u e é urna c o n t e n d a ! D o almirante Baláo.
Vé urna luta t r e m e n d a , T i n h a nobre o coragáo
C o m o se ganha v i t ó r i a - E era c i v i l i z a d o .
Pode g u a r d a r na m e m ó r i a , Ñas armas d i s c i p l i n a d o ,
O c o m b a t e mais h o r r í v e l ! T i n h a f o r p a e energía —
Parece até i m p o s s í v e l E m toda a parte a que ia,
O passado desta h i s t ó r l a ! M o s t r a v a ser i l u s t r a d o .

Ferrabrás era u m g i g a n t e C o m o t a m b é m Oliveiros,


De c o r p o descomunal. N o valor e na apao,
C o m o n u n c a t e v e igual G u y de Borgonha e Roldáo
No reino do almirante. E os mais seus c o m p a n h e i r o s
Ele só, era b a s t a n t e Desses d o z e c a v a l h e i r o s
Para c i n c o m i l g u e r r e i r o s U m só nao t o r c i a o b r a p o ,
O i t o , dez m i l cavalheiros U m deles n 3 o dava u m passo.
M o r r e r a m pelas mSos d e l e - Q u e n § o achasse perigos -
E só t i r o u sangue nele Espadas d o s i n i m i g o s
A esoada d e O l i v e i r o s ! Para eles nao t i n h a m a p o !

Oliveiros, aquele brapo Oliveiros e Ferrabrás,


N a o se curváva e m p e r i g o Que aspiravam u m despeíto,
E nunca achou inimigo Pegaram-se p e i t o a p e i t o .
Q u e Ihe fizesse e m b a r a p o - C o m o d o i s leóes b r u t a i s .
A q u e l e p u l o d e age, A l i n i n g u é m chegou mais,
Mao que sempre f o i t e m i d a . F o r a m os d o i s l u t a r a sós:
Para as guerras e s c o l h i d a Ninguém ouvia uma voz,
E p o r Deus abengoada - F o g o das armas safa
N u n c a desceu a espada. E, d o s d o i s , n i n g u é m sabia
Q u e nao tirasse u m a v i d a ! Q u a l seria o mais f e r o z !
II LEANDRO GOMES DE BARROS

Leiam c o m t o d a a atenpao
A v i d a de Ferrabrás, Os tivessem s o c o r r i d o ,
V e j a m c o m o sao iguais C o m boas armas os m u n i d o —
Ele, Oliveiros e R o l d a o . O c o m b a t e iria a v a n t e ,
O a l m i r a n t e Balao O povo do almirante
T i n h a nele t a l f ianpa, Nao o teria p r e n d i d o .
D i z i a q u e t o d a a Franca
Se t o r n a r l a i m p o t e n t e — P o r é m a l u t a era h o r r e n d a
Porque Ferrabrás somente E os c a v a l e i r o s p o u c o s .
Servia de seguranca. Os t u r c o s , c o m o uns l o u c o s ,
Davam batalha tremenda,
Carlos M a g n o t a m b é m Naquela infeliz contenda,
T i n h a doze cavalheiros. Oliveiros tropegou
C o m o o u t r o s iguais g u e r r e i r o s N u m cadáver q u e e n c o n t r o u —
O m u n d o h o j e nao t e m ! Q u a n d o dez t u r c o s c h e g a r a m .
Nunca temeram a ninguém. A s maos a t r á s Ihe a m a r r a r a m .
Segundo diz a Historia — Ele sem agao f i c o u .
T i n h a m as espadas, a g l o r i a .
Nunca torceram perigo. Os t u r c o s , e s f o m e a d o s
N u n c a f o r a m ao i n i m i g o Pelo sangue de O l i v e i r o s ,
Que nao contassem v i t ó r i a ! V e n d o os c i n c o cavaleiros
E m seu p o d e r e s c o l t a d o s ,
N o dia e m q u e O l i v e i r o s Saíram recompensados
D e i x o u Ferrabrás vencido, Por aquela h e r o i c a apáo,
F o i de n o v o a c o m e t i d o J u l g a v a m pagar a p r i s á o
Por dez m i l t u r c o s g u e r r e i r o s . D o h e r o i rei d o s g u e r r e i r o s ,
Ele e q u a t r o cavalheiros. O m a i o r d o s cavaleiros
Q u e c h e g a r a m e m seguida, D o almirante Balao.
A forga turca provida
Qs f e z t o d o s p r i s i o n e i r o s , E seguiram os cavaleiros.
P o r é m , só p o r Q l i v e i r o s , Cruelmente maltratados.
F i c a r a m t r e s m i l sem v i d a . L e v a n d o os o l h o s t a p a d o s ,
O grande e n o b r e O l i v e i r o s
N a o p o d e r a m resistir C o m as m á o s atadas atrás,
Os c a v a l h e i r o s d e Franpa — C o r r e n d o a t u d o e a mais
S e m c á v a l o , espada e langa, A o a l m i r a n t e Balao,
S e m t e r c o m q u e se c o b r i r . Para vingar a prisao
V e l o a n o i t e os c o n f u n d i r De seu f i l h o F e r r a b r á s .
C o m a negra e s c u r i d á o .
P e r d e r a m de t u d o a apao, E, n a q u e l a m u l t i d a o .
F o r a m presos os cavaleiros, L e v a n d o os p r i s i o n e i r o s ,
L e v a r a m os p r i s i o n e i r o s E n t r e g o u os cavaleiros
A o almirante Balao. A o almirante Balao.
Ele lá, c o m o u m leao,
A s s i m m e s m o , se O l i v e i r o s E m desesperos f a t á i s .
N a o estivesse d e s m o n t a d o , I g u a l m e n t e a Satanás
A l é m disso, desarmado. N o dia q u e o céu perdeu,
Ele e t o d o s c o m p a n h e i r o s — Disse: — Desses, q u e m v e n c e u
S e d e i s o u tres cavaleiros O m e u f i l h o Ferrabrás?
A PRISÁO DE OLIVEIROS E SEUS COMPANHEIROS 19

Disse u m d o s e x a l t a d o s , Dava a o m u n d o u m a esperanca:


Examinando primeiro: Conservava na l e m b r a n g a
— É aquele cavaleiro Idéia pura e risonha —
Q u e t r a z os o l h o s v e n d a d o s ! A m a v a a G u y de B o r g o n h a ,
Estes c i n c o celerados, U m c a v a l e i r o de F r a n g a .
É c u s t o s o de os v e n c e r !
É escusado d i z e r A m a v a ela ao vassalo
Da f o r m a q u e eles l u t a r a m Do imperador francés
E dez m i l vidas c u s t a r a m . Q u e , v e n d o a p r i m e i r a vez.
Para p o d e r se p r e n d e r ! Nao pode deixar de amá-lo:
Q u a n d o ele e n t r o u a c á v a l o ,
O rei f e z u m a m u d a n g a : Em Roma, numa corrida,
Perguntou a Oliveiros Deixou-a surpreendida —
Se eles e r a m cavaleiros N o t o q u e de u m a p a i x á o ,
D o s D o z e Pares de F r a n p a . D e u a ele o c o r a g a o .
O l i v e i r o s , sem t a r d a n g a , Arriscando a própria vida!
Disse: — N ó s s o m o s s o l d a d o s
M u i t o pouco exercitados. Floripes nao conhecia
S o m o s t o d o s de L o r e n d a , C o m o o amor t e m poder —
Para a p r i m e i r a c o n t e n d a L o g o a i , p o d e saber
Agora fomos chamados! Q u a n t o ele t e m energía.
S e n d o ela da T u r q u í a ,
Ordenou o almirante Seu paí era u m rei pagao.
Q u e para o c a m p o so levassem N a o t í n h a relígíáo.
E t o d o s c i n c o matassem. Era u m p e r í g o p r o f u n d o —
Por u m m e l ó a g o n i z a n t e . Por t o d o o o u r o d o m u n d o .
A l i Ihe disse B u r l a n t e : N a o dava ela a u m c r í s t á o !
— T e u plano nao é capaz:
C r e i o q u e lucrava mais Oliveiros, recolhido,
M a n d a r p o r d o i s mensageiros Naquele horrível t o r m e n t o ,
T r o c a r esses cavaleiros 0 seu m a i o r s o f r i m e n t o
Por t e u f i l h o F e r r a b r á s ! Era o c o r p o estar f e r i d o .
Ele e x c l a m a v a s e n t i d o :
O a l m i r a n t e Balao — M e u Deus, o l h a para m i m !
A c h o u b o m o parecer. N a o d e v o viver assim —
Deu o r d e m a recolher De lá da e t e r n i d a d e ,
Os cavaleiros á p r i s a o , M a n d a i c o m mais b r e v i d a d e
N u m cárcere de e s c u r i d a o . A m o r t e trazer meu f i m !
O n d e m a t a v a m os t i r a n o s .
Os t u r c o s b á r b a r o s , p r o f a n o s . A n t e s tivesse eu m o r r i d o
Os p u s e r a m e m e n x o v i a , Pelas m á o s de F e r r a b r á s ,
A o n d e o c u r s o de u m d i a O g u e r r e i r o mais capaz
Parecía dez m i l anos. Dos que a T u r q u í a t e m t í d o !
O u t r o igual n a o f o i n a s c i d o .
Esse cárcere a g o n i z a n t e , Se nasceu, n a o f o i c r i a d o ,
Prisao asquerosa e f r í a . Guerreiro nobre e honrado.
Encostada á moradia Espada q u e vale u m p o r t o —
Da f i l h a d o a l m i r a n t e . Se ele m e tivesse m o r t o ,
C u j a a l m a interessante E u estava c o n s o l a d o !
20 LEANDRO GOMES DE BARROS

Floripes entao pode ouvir De sair desta p r i s a o !


Oliveiros exclamar. Ela p e r g u n t o u e n t á o :
Desceu e f o i indagar — De vós, q u e m b a t a l h a d e u
Q u e m estava a se c o n c l u i r . E nessa l u t a v e n c e u
Diz B r u t a m o n t e a sorrir: A Ferrabrás, m e u i r m á o ?
— A q u e l e s sao uns d o s tais
D o p o v o de Satanás, — F u i e u , Ihe disse Q l i v e i r o s ,
Q u e t a n t o nos o f e n d e u . N u m a b a t a l h a leal —
Está até o q u e v e n c e u Q u e , t e n d o sangue real,
0 t e u i r m á o Ferrabrás. F i z c o m o os n o b r e s g u e r r e i r o s .
Q bravo dos cavaleiros^
— A b r e a p o r t a da p r i s a o , Q u i s f a z e r de m i m p a g a o .
Disse ela a o c a r c e r e i r o . E u , sem vileza e t r a i g á o ,
Q u e r o ver o c a v a l e i r o L u t e i , ele f o i v e n c i d o
Q u e f a z essa e x c l a m a g a o . E h o j e está c o n v e r t i d o ,
Disse B r u t a m o n t e : — N a o ! Batizou-se e é cristao.
1 sso eu n a o posso f azer,
S o b pena de m o r r e r ! Floripes entao perguntou.
T e u pai m e r e c o m e n d o u , C o m o q u e m se interessava.
Pessoalmente o r d e n o u Se G u y de B o r g o n h a estava.
N a o deixasse a l g u é m o v e r ! Disse O l i v e i r o s : — F i c o u .
A l i ela c o n f e s s o u
— A b r e esta p o r t a , v i l a o ! A sua g r a n d e p a i x á o .
F l o r i p e s Ihe r e p l i c o u . Disse: — M e u pai é pagao,
Q u a n d o o t u r c o se a b a i x o u . Se s o u b e r vai castigar-me —
Para a b r i r o alcapáo, V o c e s p o d e r a o levar-me
Ela m e t e u - l h e u m bastao, Para a t é r r a d e c r i s t a o ?
Deixando-o m o r t o por térra,
D i z e n d o : — Neste se e n c e r r a , Disse O l i v e i r o s : — S e n h o r a ,
U m de mais p l a n o f o r m a d o — Pelas grapas recebidas,
M a t e i o mais desgranado N ó s a r r i s c a m o s as vidas.
Q u e v i n h a m e fazer g u e r r a ! T e servimos a t o d a h o r a !
M a n d a - n o s s o l t a r agora,
T u d o assustado f i c o u E dá c o m q u e nos a r m a r —
D a q u e l a acao q u e ela f e z Podes nos a c o m p a n h a r .
E ela, p o r sua vez, Descansa o t e u c o r a p a o .
D a q u i l o nao se a l t e r o u — Q u e o a l m i r a n t e Baláo
C o m toda a calma falou T e vé e nao p o d e t o m a r !
A todos prisioneiros.
Perguntou a Qliveiros F l o r i p e s Ihes disse a l i :
Q u e m era q u e estava a l i . — E u os p o n h o e m l i b e r d a d e .
U m deles Ihe disse: - A q u i V e n h o soltá-los mais t a r d e ,
Somos cinco cavaleiros. Esperem por m i m a i .
E u me r e t i r o d a q u i —
E l a , c o m f a l a b e m mansa, Pode a l g u é m m e ver f a l a n d o
Perguntou a Oliveiros: E, a q u i m e d e m o r a n d o .
— Q u e m sao esses cavaleiros? Pode a l g u é m d e s c o n f i a r .
— Somos naturais de Franga, De n o i t e , os v e n h o t i r a r .
Q u e estamos sem esperanza F i q u e m aqui esperando.
A PRISÁO DE OLIVEIROS E SEUS COMPANHEIROS 21

F i c o u e m ansia O l i v e i r o s ; — Voces digam ao Baláo


Mas á n o i t e ela v o l t o u , Q u e t r a t e de ser c r i s t a o
C o m urna c o r d a t i r o u E mande meus cavaleiros —
T o d o s c i n c o cavaleiros. Eu nao q u e r o meus guerreiros
T o d o s os p r i s i o n e i r o s Presos e m p o d e r p a g á o !
F o r a m p o r ela levados,
Cearam e f o r a m curados. Esses q u i n z e reis g u e r r e i r o s ,
De boas armas m u n i d o s . Vassalos d o a l m i r a n t e ,
Todos cinco prevenidos Já ble águas m o r t a s d i s t a n t e ,
Para se f o s s e m a t a c a d o s . E n c o n t r a r a m os c a v a l e i r o s
E i n s u l t a r a m os mensageiros
Floripes comunicou O imperador cristao.
Á sua velha c r i a d a . P e r g u n t a r a m : — A o n d e váo?
A velha f i c o u zangada. Q u e vao ver p o r esta estrada?
Na mesma h o r a j u r o u . Diz Roldáo: — Levo embaixada
Floripes a e m p u r r o u A o almirante Balao.
De u m a a l t a j a n e l a ,
F i c a n d o livre daquela. — Nao podemos acreditar!
Donde o mal podia vir. Disseram o s e m b a i x a d o r e s .
D e p o i s da velha cair, V o c e s sao salteadores
E m b a i x o e n t e r r a r a m ela. E q u e r e m se d i s f a r g a r !
N ó s h a v e m o s de os levar
O a l m i r a n t e Balao A o almirante Balao,
O r d e n o u q u e q u i n z e reis Q u e n u m a escura p r i s á o
Fossem t o d o s d u m a vez H á de m a n d a r e n c e r r a r ! . , .
A o imperador cristao. — E n t a o p o d e m se a p r o n t a r !
E disse: — D i g a m e n t á o Gritou-lhes, alto, Roldáo.
Q u e eu Ihe m a n d o d i z e r :
Q u e ele m a n d e t r a z e r Quando Roldáo proferiu,
M e u f i l h o , q u e ele t é m lá. P u x o u l o g o pela espada,
Q u e eu Ihe m a n d o de cá Deu n u m uma cutelada
Qs q u e t e n h o e m m e u p o d e r . Q u e aos p e i t o s p a r t i u .
Q u t r o rei t u r c o a c u d i u ,
E, se n a o q u i s e r fazer P o r é m ele n a o t o r c e u :
Q q u e Ihe m a n d o p e d i r , T o d o s os golpes q u e d e u
A o seu r e i n o hei de ir Foram bem aproveitados —
C o m meu exército e poder Q u a t o r z e f o r a m lascados,
E ele e n t a o há d e t e r Escapou u m , que c o r r e u .
U m a m o r t e rigorosa.
U m a sentenpa penosa A t r á s desse q u e c o r r e u ,
Ele t e m q u e e x p e r i m e n t a r — Foi Ricarte perseguindo.
O u f a z , a f ¡ m d e escapar, Q t u r c o , se e s c a p u l i n d o .
A f u g a mais v e r g o n h o s a ! Pela m a t a se e s c o n d e u .
Ñas m o n t a n h a s se m e t e u ,
E n t a o , nesse m e s m o d i a , Ganhou a uma solidao.
Carlos Magno c h a m o u Serviu-se d a e s c u r i d á o
Sete Pares e m a n d o u Da n o i t e q u e o p r o t e g í a
C o m uma embaixada á T u r q u i a . Para c o n t a r o q u e havia
Na embaixada dizia: A o almirante Balao.
22 Lt.ANDRO GOMES DE BARROS

Quando Ricarte voltou E u m gesto r e p u g n a n t e .


Disse a u m c o n s e l h e i r o : É musculoso e possante,
- N a o t e m o os a v e n t u r e i r o s Sao b r u t a s as suas m a n e i r a s —
Q u e n o c a m p o se m a t o u — É q u e m d e f e n d e as f r o n t e i r a s
Recelo o que escapou Das t é r r a s d o a l m i r a n t e .
Pela c o l i n a d o m o n t e ,
Q u e vá h o j e m e s m o e c o n t é Disse R o I d S o : - V o u f a l a r .
A o a l m i r a n t e Balao V e r se ele a b r e u m p o u q u i n h o .
E seja essa razao Se eu e n t r a r , f a p o c a m l n h o .
D e passarmos pela p o n t e . Q u e t u d o p o d e passar.
Se ele q u i s e r c o b r a r
Ali respondeu Roldao; A quantia estipulada,
— O r a p o r q u e n a o se passa? Depois de eu t e r a entrada.
V o c é s verao a desgrapa A i eu d i g o : " 0 b r u t o !
Q u e e u f a g o na guarní p a o ! Eu trago aquí t e u t r i b u t o .
Q a l i m i r a n t e Balao Na b a i n h a d a e s p a d a ! "
B o t e os s o l d a d o s q u e t e m .
P o r q u e eu j u r o t a m b é m Disse o d u q u e de N e m é :
P i c a r a t é r r a arrasada — - Paciencia, m e u a m i g o !
Ele d á - m e a e m b a i x a d a Deixe a empresa c o m i g o .
O u sua cabepa v e m ! N a o desespere da f é .
E u sei isso c o m o é
A l i , t o d o s se m o n t a r a m . E devemos nos c o n t e r —
Armados heroicamente. T a m b é m precisa saber
L e v a n d o c o m o presente Q u e a pessoa a l g u m a agrada
A s cabepas q u e t i r a r a m , Dar u m a f o r t e pancada
E m seus alforges b o t a r a m . E o u t r a igual r e c e b a r !
N a o d e r a m satisfapao,
S e g u i u na f r e n t e R o l d a o , D e i x e . E u sigo na f r e n t e .
A pessoa encarregada E n t a o d i r e i ao g i g a n t e
De entregar a embaixada Que vamos ao a l m i r a n t e ,
A o almirante Balao. D e i x a r u m r i c o presente —
E uma embaixada urgente
A l i havia u m a p o n t e , A o a l m i r a n t e Balao.
A de M o n t i b l e c h a m a d a . Ele, v e n d o a razSo,
0 rei nao dava e n t r a d a . T a l v e z nos d e i x e passar —
Por f o r a , e x i s t i a u m m o n t e A s s i m , p o d e m o s chegar
D u m a a l t u r a sem d e s c o n t é . S e m precisar d e questáfo.
C o m o o u t r a n a o havia
E na p o r t a era vigia Bateu o duque e c h a m o u
U m descomunal gigante. Pelo n o m e d o gigante
D e q u e m só o a l m i r a n t e E esse, n o m e s m o i n s t a n t e ,
A ponte confiarla. Na p o r t a se a p r e s e n t o u .
A b r i u u m postigo, o l h o u .
Existe u m portSo enorme, V i u t u d o d e espada e lanpa.
C o m tres arcos d e o u r o p u r o Q d u q u e , c o m a fala mansa,
E q u e m o f a z mais seguro Disse: — Q u e r e m o s e n t r a d a ,
É u m gigante d i s f o r m e , Pois l e v a m o s e m b a i x a d a
D u m aspecto d e s c o n f o r m e D o i m p e r a d o r de F r a n p a !
A PRISÁO DE OLIVEIROS E SEUS COMPANHEIROS 23

Disse G a l a f r e : — Precisa E m cima daquele m o n t e ,


Pagar t r i b u t o d e e n t r a d a . U m gancho, sobre u m a f o n t e ,
Urna s o m a exagerada — Eu mandarei enfiar,
S ó passa g u a n d o í n d e n i z a ! Depois m a n d o pendurar
A n t e s d e e n t r a r , avisa Ñas amelas desta p o n t e .
A o a l m i r a n t e Baláo,
V é se ele c o n s e n t e o u n a o Disse o d u q u e : — S i m , s e n h o r .
Q u e Ihe leve a e m b a i x a d a , E u e os m e u s c o m p a n h e i r o s
O u se possa d a r e n t r a d a S o m o s sete c a v a l e i r o s
A u m embaixador cristao. De m u i t o alto valor
E o nosso i m p e r a d o r
Disse o d u q u e : — T e m r a z a o , Nos m a n d o u a comissao
P o r é m nós s o m o s decentes. A o almirante Balao
L e v a m o s r i c o s presentes U m a e m b a i x a d a levar.
A o almirante Baláo. N o s o r d e n o u a pagar
D e i x e passarmos, e n t á o , O q u e fosse d e r a z a o .
N ó s e t u d o nosso e m p a z .
O c a m b ó l o q u e v e m atrás — N o s s o c o m b ó l o há de v i r .
N ó s v a m o s l o g o na f r e n t e . C h e g a n d o , d e i x e - o passar.
Procurar o n d e aposente D e p o i s , hei d e Ihe pagar
N ó s e nossos a n i m á i s . O que o senhor exigir.
Q u e r e m o s q u e o d e i x e ir
Disse G a l a f r e : — H á de d a r As t e n d a s d o a l m i r a n t e ,
T r e s arcos de o u r o m a c i g o — Pois u m presente i m p o r t a n t e
S e m haver a b a t e nisso, A ele v a m o s levar.
A q u i m e s m o há de e n t r e g a r ! H a v e m o s de Ihe pagar
Disse o d u q u e : — H e i de pagar. D e nós, d e l e , assim p o r d i a n t e .
Inda sendo nove o u dez!
Disse o g i g a n t e : — T u és G a l a f r e os d e i x o u passar
U m d e s t e m i d o vassalo! E t o d o s sete p a r t i r a m .
Por cada pé d e c á v a l o . Pela estrada s e g u i r a m ,
Más d e pagar c e m m i l réis! S e m nada os i n c o m o d a r .
Estava u m a o l h a r .
T o d o c r i s t a o q u e a q u i passa, Mas q u i e t o , a sangue f r í o .
E q u e nao quiser morrer, R o l d á o , sem maís d e s a f i o ,
É obrigado a trazer L a n g a n d o a m a o á espada,
C e m pares d e caes de caga — Partiu-o c o m uma cutelada,
E t u d o de b o a rapa Botou-o morto no rio.
Q u e sejam b e m a m e s t r a d o s —
T r i n t a arcos b e m lavrados. Qs c a v a l h e i r o s c h e g a r a m
D e pedras especiáis: Já d e m e i a - n o i t e p o r d i a n t e ,
T u d o isto, q u e m v e m traz. A hora e m que o almirante
Do contrário é devorado! Já t i n h a se agasalhado.
T i n h a há p o u c o se d e i t a d o .
É a quantia exigida N a o q u i s se l e v a n t a r m a i s ,
De q u e m a q u i q u e r passar — Disse c o n s i g o : — É capaz
É o b r i g a d o a pagar. De Carlos Magno mandar
D o c o n t r á r i o perde a v i d a ! Seus c a v a l h e i r o s buscar
A pessoa é c o n c l u i d a : E me trazer Ferrabrás.
24 LEANDRO GOMES DE BARROS

O a l m i r a n t e Baláo Nos agrediram no c a m i n h o —


T i n h a há p o u c o se d e i t a d o , M o m e n t o ingrato e mesquinho,
Soube que t i n h a chegado T u d o nos f e c h o u os p o r t o s !
Na Corte u m povo cristao. Ficaram quatorze mortos,
Disse o a l m i r a n t e : — E n t a o S ó eu escapei s o z i n h o !
N a o d e v o m e vexar mais —
Sao h o m e n s especiáis. A l i logo o almirante
Q u e v é m c o m o mensageiros. Quase m o r r e d e p a i x á o ,
V e r se eu d o u os cavaleiros Lanpou logo a maidigao
Por m e u f i l h o F e r r a b r á s . E m Mafama e Tarvagante.
A c u d i u no mesmo instante
O r d e n o u q u e agasalhasse Q mestre-sala, f a l o u ,
M u i t o b e m os cavaleiros, Brutamonte o animou
Visse q u e aos mensageiros E Ihe disse: — Sua A l t e z a
Cousa a l g u m a n a o faitasse. E u t e n h o t o d a certeza -
D e p o i s q u e t u d o cessasse Mafama nao te d e i x o u !
Desse-lhes c a m a d e c e n t e ,
Pois e n c a r e c i d a m e n t e A p o l i m e Tarvagante,
O r d e n a v a q u e os tratasse D o i s deuses t e u s p r o t e t o r e s ,
E q u e t u d o ali achasse Qs q u a i s r e c e b e m f a v o r e s
A noite m u i t o excelente. De t i a qualquer instante!
M a f a m a é u m Deus constante.
0 mestre-sala os b o t o u Protege aos reis anclaos.
Cada u m n u m a p o s e n t o T r a t a os reis p o r seus i r m a o s ,
E t o d o aquele a r m a m e n t o Deixou teu povo morrrer,
O mestre-sala g u a r d o u . Porém m a n d o u te dizer:
N e m u m deles se l e m b r o u T e n s i n i m i g o s ñas m a o s !
Q u e o rei p o d i a chegar
E ao a l m i r a n t e c o n t a r V a i descansar lá d e n t r o .
T o d o s os f a t o s passados. A f r o n t a r e ! os perigos —
Mas estavam e n f a d a d o s — Prendere! teus inimigos.
S ó p e n s a r a m e m se d e i t a r . A í n d a q u e fosse u m c e n t o !
Eles já d o r m e m e e u e n t r o .
E n t a o f o r a m agasalhados Amarrare! u m a u m .
T o d o s esses mensageiros, Isso é u m a f a t o c o m u m ,
P o r é m t o d o s cavaleiros N i n g u é m nao deve e s t r a n h a r —
U m d o s o u t r o s separados. E u s o z i n h o posso e n t r a r .
T o d o s esses d e s a r m a d o s , Nao deixo soltó n e n h u m !
N e m u m c o m arma f i c o u .
De madrugada chegou Disse a q u i l o e f o i s a i n d o
Q rei q u e t i n h a escapado. E f o i l o g o aos mensageiros,
C o n t a n d o m u i t o cansado, A m a r r o u os c a v a l h e i r o s
T u d o q u a n t o se p a s s o u . Q u e estavam t o d o s d o r m i n d o .
Q mestre-sala, s o r r i n d o ,
E disse: — Esses desgranados. F o i d i z e n d o ao a l m i r a n t e :
Q u e aos q u a t o r z e reis m a t a r a m , — S e n h o r , nesse m e s m o i n s t a n t e
S a o uns q u e há p o u c o c h e g a r a m , Prendi t o d o s c a v a l h e i r o s ,
Estao a q u i agasalhados. Dexei-os p r i s i o n e i r o s —
V i n h a m o n t e m aglomerados. F i z u m servipo i m p o r t a n t e !
A PRISAO DE OLIVEIROS E SEUS COMPANHEIROS 25

F o r a m os Pares a m a r r a d o s , E Ihe disse: — Se d i s p o n h a !


Q u a n d o n o salao d o r m i a m , Minha aflipao é medonha,
I nocentes nao sabiam S ó vós p o d é i s m e valer —
Q u e ali seriam a l g e m a d p s . Antes me deixe m o r r e r
D e m a n h á f o r a m levados E salve a G u y de B o r g o n h a !
A o almirante Balao,
Que perguntou a Roldáo Para m e u p a l m e entregá-tes,
E aos o u t r o s mensageiros Disse ela, v o u p e d i r .
Se eles e r a m cavaleiros Se nada lá c o n s e g u i r .
D o Imperador crlstao. V o c e s váo d a q u i t o m á - l o s .
T é m boas armas e cávalos.
A l l Roldáo respondeu: Voces f i q u e m prevenidos —
— Se a i n d a n a o c o n h e c i a O l h e m que estamos m e t i d o s
Q carrasco da T u r q u í a , Q n d e q u a l q u e r u m n a o vai
Repare b e m q u e sou e u ! E o p o v o de m e u pai
Brapo que nunca t o r c e u — Sao t u r c o s m u l t o a t r e v i d o s !
Mllhoes de turcos armados,
Grandes guerrelros afamados, N o mesmo instante Qliveiros
Vassalos v e l h o s e s c o l h i d o s . D e u pressa a t u d o se a r m a r
Por m l m já f o r a m a b a t i d o s , E n o c a m p o nao d e i x a r
E s t a o n o L l v r o dos F i n a d o s ! M a t a r e m seus c o m p a n h e i r o s .
F l o r i p e s , e m desesperos.
Eu venho e m comissao Sobre uma cadeira cal,
D o meu t i o Imperador, N u m t e m o p r a n t o se esvai
Q u e m a n d a d i z e r ao s e n h o r E diz ao grande Qliveiros:
Q u e se fizesse c r l s t a o — — Resgatem os p r i s i o n e i r o s .
D o c o n t r á r i o , e m sua m a o Inda que m a t e m meu p a i !
H a v i a d e se acabar.
Ele havia de b o t a r Saiu e f o i ao Balao
S o b r e si e x e m p l o o u m o s t r a : Chorando, porém fingida,
Q s e n h o r d é - m e a resposta M u i t o queixosa e sentida
Q u e é necessário levar. Pelo seu q u e r i d o i r m a o .
E n t r o u pela m u l t i d a o
Eis a i , c a r o s e n h o r ! Falando c o m arrogancia.
Disse a n i m a d o R o l d á o . S e m apresentar m u d a n z a ,
Q a l m i r a n t e Balao I n d a g o u q u e m e r a m aqueles
Ficou ardendo em furor. P e r g u n t o u se e r a m eles
C o m aspecto aterrador, Qs cavaleiros de F r a n p a .
C h a m o u seus s u b o r d i n a d o s ,
M a n d o u que fossem q u e i m a d o s Respondeu o almirante:
T o d o s esses mensageiros, — Estes m a l d i t o s q u e vés
C o m mais c i n c o cavaleiros M a t a r a m q u a t o r z e reis,
Que estavam encarcerados. Q n t e m á tarde, n u m instante!
U m a m o r t e agonizante
Quando a noticia chegou T a m b é m h o j e hei d e Ihes d a r -
A o s o u v i d o s d a princesa, Hei de mandá-los matar
E l a , c o m essa surpresa, No campo, bem cruelmente!
Meia hora nao f a l o u . A m o r t e de m i n h a gente
Por Oliveiros c h a m o u A s s i m há de se v i n g a r !
26 LEANDRO GOMES DE BARROS

Disse a p r i n c e s a : — É v e r d a d e ! N a f r e n t e , ela i n d o atrás,


D e v e os levar a m a r r a d o s , E disse aos o f i c i á i s :
Matá-los t o d o s queimados, — Faz f a v o r t u d o v o l t a r !
C o m a maior crueldade. M a n d o u aos presos t r a n c a r
Porém, já é m u i t o tarde, Na c á m a r a de F e r r a b r á s .
M e u pai precisa c o m e r —
Primeiro mande dizer C o m o f i c o u Oliveiros,
A t o d o s nossos p a r e n t e s . Q u a n d o c h e g o u ao salao.
P o r q u e f icaráo c o n t e n t e s V e n d o algemado Roldao
Vendo-os no campo morrer! E os o u t r o s c a v a l e i r o s !
Disse e l e : — C o m p a n h é i r o s ,
M e e n t r e g u e os p r i s i o n e i r o s — Nao fapam por ter d e m o r a !
E u levo estes c o n d e n a d o s . O l h e m q u e e s t a m o s na h o r a .
Oestes a m a l d i q o a d o s S o l t e m o s nossos i r m a o s !
Serei u m d o s c a r c e r e i r o s ! Q u e b r a r a m os f e r r o s das máos,
Estes sete c a r n i c e i r o s D e i x a n d o os pedacos f o r a .
H e i de a j u d a r a m a t á - l o s
E c o m minhas máos queimá-los Foi entrando Lucrafé,
Para v i n g a r m e u i r m a o ! P r i m o e n o i v o da p r i n c e s a .
O a l m i r a n t e Balao C o m o f o i sua surpresa
L h e disse: — Pode levá-los! V e n d o o c o n d e de N e m é ,
Q u e , se f i r m a n d o n u m pé,
Disse-lhe ali S o r t i b a o : A p r o v e i t o u bem a hora —
— O senhor adverte b e m . O t u r c o q u i s ir e m b o r a ,
P o r q u e na m u l h e r c o n t é m Deu-lhe o d u q u e tal pancada,
U m a r m a z é m de t r a i p á o — C o m o g u m e da espada,
E deve t e r p r e c a u c a o , T i r o u - l h e a cabeca f o r a .
A n d a r seguro e d i r e i t o .
Multas mulheres t é m feito Floripes, admirada,
Os h o m e n s se a r r e p e n d e r e m Disse: — Por t e u E v a n g e l h o !
E só c h e g a m a c o n h e c e r e m Nunca julguei que u m velho
Q u a n d o n a o p o d e m dar j e i t o ' Desse t á o g r a n d e p a n c a d a ! . . .
0 d u q u e disse: — I s t o é n a d a !
Floripes estremeceu, M u i t o mais j á t e n h o f e i t o —
Disse ali a S o r t i b a o : Eu, pegando u m t u r c o a j e i t o .
— Por t e u f a l s o c o r a g a o N a o m e f a l t a n d o espada.
Vens t u calcular o meu? Lasco d u m a c u t e l a d a
F a l s o p o d e ser o t e u . Da cabepa a t é ao p e i t o !
O n d e n a o há s e n t i m e n t o !
Porém, marca o m o m e n t o — Disse F l o r i p e s : — V o u ver
U m d i a hei de m e v i n g a r Pela C o r t e o q u e é q u e h á .
E t u hás d e m e pagar V e n d o a l g u m a coisa lá,
Este t e u a t r e v i m e n t o ! Eu v o l t o e venho dizer.
V o c e s n a o d e i x e m de t e r
E o r d e n o u aos s o l d a d o s M u l t o grande precaugáo.
L e v a r e m os p r i s i o n e i r o s . D i r e i a m e u pai e n t á o
Disse ali aos c a v a l h e i r o s : Que almoce, estou indisposta,
— L e v a n t e m - s e , desgraagdos! D e v i d o á q u e l a resposta
E lá s e g u i r a m a l g e m a d o s Que sofri de Sortibao.
A PRISAO DE OLIVEIROS E SEUS COMPANHEIROS 27

D e i x o de m e n c i o n a r G u y de B o r g o n h a e G e r a l d o ,
Caso p o u c o i n t e r e s s a n t e : Cada q u a l mais s e p a r a d o .
Torna-se m u i t o magante. D i z i a m aos c o m p a n h e i r o s :
N a o c o n v é m o relatar, — Para d o z e c a v a l e i r o s .
T a n t o , o espapo n a o d á . Nao vemos exército armado!
Para t u d o q u e passou-se,
Contarei c o m o tomou-se U m dia, f a l t o u comida
A p o n t e de meio a meio. As damas e aos c a v a l e i r o s .
C o m o Carlos M a g n o v e i o R o l d a o disse a O l i v e i r o s :
E c o m o F l o r i p e s casou-se. — Perdi o a m o r da v i d a —
T e m uma dama caída
Na h o r a da r e f e i p a o , E o u t r a já desmelada!
T u d o ali se d e s c u i d o u , L a n c a r e i m a o da espada
Oliveiros enfrentou E sairei nesse i n s t a n t e —
O a l m i r a n t e Balao. A tenda d o almirante
Esse, g u a n d o v i u R o l d á o , Hoje é por m i m atacada!
V i u q u e a v i d a esteva cara,
A salvagáo era rara — E s a í r a m os c a v a l e i r o s ,
S a l t o u d u m a das verandas, F i c o u na t o r r e u m s o m e n t e .
Chegaria e m duas bandas. E n t á o , s e g u i r a m na f r e n t e
Se u m t u r c o nao apara. Tietre e Oliveiros.
V i e r a m os t u r c o s ligeiros,
V e i o u m rei d o s mais valentes Já c o r r i a m m u i t o a d i a n t e —
A R o l d á o c o m a espada. Era u m c o m b ó l o distante
Roldao, numa cutelada, Que vinha c o m mantenimento,
O p a r t i u até os d e n tes. V i n h a trazer a l i m e n t o
V i e r a m mais d o i s parentes, A o povo do almirante.
P a r t i r a m na m e s m a h o r a .
R o l d á o , a l i , sem d e m o r a , Os Pares ali a v a n p a r a m ,
Disse a u m t u r c o : — C o n h e p a ! S e r v i n d o - s e das espadas.
D e u - l h e u m g o l p e na cabeca, D o z e a z é m o l a s carregadas
T i r o u - l h e o pescopo f o r a . Dos inimigos t o m a r a m ,
Mais d e m i l t u r c o s m a t a r a m
I n v e s t i r a m os cavaleiros N u m a batalha medonha.
As forpas d o a l m i r a n t e , C o m o n a o há q u e m s u p o n h a
Roldao, Ricarte adiante. O u e houvesse t a l m o r t a n d a d e !
Na r e t a g u a r d a O l i v e i r o s . " Por u m a c a s u a l i d a d e ,
G e r a l d o e os c o m p a n h e i r o s P r e n d e r a m G u y de B o r g o n h a .
M a t a v a m sem p i e d a d e .
Os t u r c o s , e m q u a n t i d a d e . O almirante Baláo
P a r t i r a m aos Pares de F r a n p a - M a n d o u q u e o algemassem.
Já n a o restava esperanpa. De manha^o enforcassem
T o d o e s f o r p o era d e b a l d e ! Perante a p o p u l a p a o .
Traspassava o c o r a p a o
V o l t a r a m os c a v a l e i r o s . Ver Floripes tao formóse
Da t o r r e c o n t a t o m a r a m . A o s pés d o s Pares, c h o r ó s e ,
Os t u r c o s ali os c e r c a r a m , Dizer: — Roldáo valoroso!
Julgando-os prisioneiros. V a i resgatar m e u esposo
Roldao, Ricarte, Oliveiros D u m a m o r t e táo penosa!
28 LEANDRO GOMES DE BARROS

F o r a m o i t o cavaleiros: E t o m o u - l h e logo a frente.


R o i d á o f o i na d i a n t e i r a , Mas o g u e r r e i r o v a l e n t e
Posim numa costaneira. A l i n a o t e ve recelo
Na r e t a g u a r d a , O l i v e i r o s . E, d o r e f o r p o q u e v e i o ,
C o m dezoito m i l guerreiros, Quase q u e n a o f i c a g e n t e .
0 preso v i n h a e s c o l t a d o ,
Porém Roidáo e Ricardo, A n t e s d a n o i t e chegar.
E n t r e os m a i o r e s perigos, Desceu R i c a r t e a u m b a i x i o
T o m a r a m - n o dos inimigos. E v i u , ñas aguas d o r i o ,
A n t e s de ser e n f o r c a d o . U m v e a d i n h o passar.
Ele ali pós-se a pensar
Os Pares nessa a g o n i a , Q u e o veado fosse a l g u é m .
Já quase sem esperanza, Disse c o n s i g o : — N a o t e m ,
E C a r l o s M a g n o na Franga S e m ser Deus, q u e m t a n t o fapa
De nada disso sabia. E, c o m o u m veado passa,
Disse O l i v e i r o s q u e ia E u v o u e passo t a m b é m !
A C a r l o s M a g n o avisar.
Para v i r a u x i l i a r E ali se p r e p a r o u ,
Naquele grande perigo. A Deus e n t r e g a n d o a a l m a .
Disse o d u q u e : — M e u a m i g o , Entrando c o m toda a calma,
E u irei e m seu l u g a r ! O r i o ele a t r a v e s s o u .
Galafre de f o r a o l h o u ,
Ricarte, por derradeiro, Disse m u i t o a d m i r a d o :
Disse aos o u t r o s : — V o u s o z i n h o ! — C r e i o q u e aquele d a ñ a d o
Se e u m o r r e r , d e i x o u m f i l h i n h o , Nao é francés e nem m o u r o
O u e há de ser b o m c a v a l e i r o . T e m o diabo no couro,
Se eu m o r r e r , m o r r e u m g u e r r e i r o , O u é u m ente encantado!
Nao t e m o que admirar —
N a o m o r r e n d o , hei d e chegar, Ricarte entao avangou.
O a l m i r a n t e se a p r o n t e ! Quando m u i t o tinha andado,
Disse R o i d á o : — Mas a p o n t e . V i u o cávalo suado,
C o m o t u hás de passar? N u m a s o m b r a se a p e o u .
O rei C l a r i á o c h e g o u
Disse R i c a r t e : — Parece E Ihe disse: — C a v a l e i r o ,
Q u e , n o h o r r o r mais p r o f u n d o , V o c é está p r i s i o n e i r o !
A o homem no meio do mundo, Foi logo o ameagando.
D e u s e m pessoa aparece. R i c a r t e disse, se a r m a n d o :
S o b e a M o r t e , a v i d a desee — H a v e m o s de ver p r i m e i r o !
E ali nao há q u e m v a .
F i q u e m descansados cá — E, m e t e n d o - l h e a espada
Embora perigo encontré, Por sobre o o m b r o d í r e i t o .
P o r é m passo pela p o n t e , Q u e lascou a t é ao p e i t o ,
O u f i c a o cadáver l á ! C o m u m a só c u t e l a d a
A f o r g a estava arrasada.
D e m a d r u g a d a saiu R icarte p o d e se a r m a r
E m b o m cávalo m o n t a d o . E t r a t o u de se m o n t a r
De langa e espada a r m a d o . N o c á v a l o q u e o rei v i n h a .
D o s o u t r o s se d e s p e d i u . Q u e t o d o s sinais b o n s t i n h a
U m exército turco o viu E c o r r i a sem cansar.
A PR1SA0 DE OLIVEIROS E SEUS COMPANHEIROS 29

V i n t e e tres léguas t i r o u , C o m tres o u q u a t r o na f r e n t e .


Nessa j o r n a d a q u e ia, Iremos fingidamente.
Quando foi no o u t r o dia, Se o gigante a b r i r a p o r t a ,
A Carlos Magno chegou. A m i n h a espada o c o r t a
Esse de alegre c h o r o u , E passará t o d a a g e n t e .
Pois estava e m desesperos
Pensando q u e os cavaleiros R icante f o i e bateu.
Q u e d u m a só vez p e r d e u , C h a m a n d o pelo gigante
Q u a n d o R i c a r t e Ihe d e u E esse, n o m e s m o i n s t a n t e .
N o t i c i a dos c o m p a n h e i r o s . A r m a d o Ihe a p a r e c e u .
O l h o u , mas n a o c o n h e c e u ,
Carlos M a g n o r e u n i u Perguntou-lhe o que quería.
Os grandes d e sua C o r t e , Disse R i c a r t e q u e ia
Para ver a sua s o r t e . A o almirante Balao,
O p l a n o se d e c i d i u , Fazer-lhe u m a transacao
A l i logo o preveniu C o m as jólas q u e t r a z í a .
Q u e segulsse o b a t a l h a o .
T i n h a g r a n d e precisao — Pode e n t r a r , m o s t r é o q u e t e m ,
De pela m a n h á p a r t i r — Disse a R i c a r t e o g i g a n t e .
Precisava d e s t r u i r O d u q u e Rígner e Nante
O almirante Balao. D e lado e n t r a r a m t a m b é m .
Disse G a l a f r e : — C o n v é m
Disse R i c a r t e : — C o n v é m Sua capa ser t i r a d a —
De m a d r u g a d a p a r t i r . Há d e ser e x a m i n a d a
Para a m a n h a ir d o r m i r A sua m e r c a d o r i a !
P e r t o de u m p o n t o q u e t e m . R i c a r t e a l i , sem p o r f i a ,
O n d e n a o chega n i n g u é m B o t o u a m a o na espada.
Q u e n a o seja d e v o r a d o —
Ele p o r ali é t r a n c a d o O g i g a n t e ali e r g u e u
O reino d o almirante. O a r c o p o r sua p a r t e ,
O vigia é u m g i g a n t e Deitando u m golpe em Ricarte,
Q u e parece e n d i a b r a d o ! Mas esse ,o c o r p o t o r c e u .
T a n t o que o arco bateu
Disse Carlos M a g n o : — E n t á o N u m a p e d r a e nela e n t r o u .
N a o achaste o u t r o lugar. Carlos Magno a i ' c h e g o u .
O n d e se possa passar? Antes o portao abriu,
Ricarte respondeu: - Nao. O exército o investiu,
O rio é c o m o u m vulcao. A p o n t e e n t á o se t o m o u .
Reto como o horizonte.
Está d o l a d o o p o s t o u m m o n t e D e p o i s da p o n t e i n v a d i d a ,
Q u e f o r m a u m a serranía — M o r t o Galafre, o gigante
S ó se p o d e ir á T u r q u í a , D e r a m p a r t e ao a l m i r a n t e
Se f o r p o r a q u e l a p o n t e . Da desgrana s u c e d i d a .
Praguejando a própria vida,
Carlos M a g n o p e r g u n t o u : M a n d o u a t o r g a atacar,
— O q u e h a v e m o s de fazer. E a torre derrubar,
Para p o d e r o b t e r ? E m a t a r os c a v a l e i r o s .
R i c a r t e ali e x p l i c o u , A n t e s q u e seus c o m p a n h e i r o s
Disse: — C a r l o s M a g n o , eu v o u Fossem aos Pares se j u n t a r .
30 LEANDRO GOMES DE BARROS

A o r d e m assim c u m p r i d a , Disse: — ó v e l h o i m p e r a d o r ,
A t o r r e f o i atacada — H o j e estás quase s e n h o r
N a o f o i u m t u r c o á escada, De m i n h a f o r p a e p o d e r —
Q u e lá n a o deixasse a v i d a . V e m c o m i g o t e bater,
Parte d a t o r r e c a í d a , V e r q u e m será v e n c e d o r !
U m o i t a o já c o m o u m f a c h o .
Mas pedras, t i j o l o s e t a c h o — O sangue o c a m p o t o m a v a .
T u d o q u e as d a m a s a c h a v a m — Provocando piedade.
S o b r e os t u r c o s a t i r a v a m , F o r p a e m grande q u a n t i d a d e
M a t a v a m os q u e e s t a v a m e m b a i x o . De t o d a a p a r t e chegava.
Q almirante animava
Os t u r c o s i a m s u b i n d o . A o s t u r c o s q u e resistissem,
Mas as damas, preparadas, C o m t o d a a f o r p a investissem,
A t i r a v a m - l h e s pedradas — Mostrassem q u e e r a m g u e r r e i r o s .
I a m dez, doze c a i n d o . Para q u e os cavaleiros
Por mais q u e viesse v i n d o , C o m os o u t r o s nao se u n i s s e m .
Cheaava ali e m o r r i a .
A s s i m , n i n g u é m resistia — Qs cavaleiros cercados
R e s o l v e r a m se afastar. V i r a m o u t r a forpa que vinha.
Para n a o ver se acabar Carlos M a g n o já t i n h a
O e x é r c i t o da T u r q u i a . Perdido muitos soldados.
Saíram dez b e m armados.
A l i disse ao a l m i r a n t e E n t r e os t u r c o s se m e t e r á m —
U m s o l d a d o q u e chegava Parte dos t u r c o s c o r r e r a m ,
Q u e C a r l o s M a g n o j á estava C o m a presenpa d o s Pares
M e n o s d e légua d i s t a n t e . T o d o s aqueles lugares
Disse a prapa: — Nesse i n s t a n t e , De cadáveres se e n c h e r a m .
D e i x e i a víla v e n c i d a .
Cruelmente destruida, Q a l m i r a n t e Balao
Pois os franceses o n d e váo, Desesperado i n v e s t i u .
S ó c o m a s o m b r a da m a o , C o m o u m a fera p a r t i u
Arrancam a alma e a vida. A u m cavaleiro cristao.
C o m tanta disposipáo,
Nisso saiu S o r t i b a o Peito a peito o e n f r e n t o u ,
C o m dez m i l homens armados. Q c r i s t a o se d e s v i o u
A o chegar, f o r a m atacados, E se l i v r o u da espada.
T o d o o esforpo f o i e m vao. Mas a q u e l a c u t e l a d a
Q almirante Balao O c á v a l o Ihe m a t o u .
M a n d o u o reí A r g o l a n t e ,
D e p o i s m a n d o u mais B u r l a n t e , S e m a t e n d e r mais a l g u é m ,
Mas nada se a p r o v e i t o u — O cavaleiro em flagrante
Carlos M a g n o a t a c o u , Investiu ao almirante,
Foi-se t u d o n u m i n s t a n t e . M a t o u o dele t a m b é m .
C o m orgulhoso desdém,
O almirante Balao, Q rei t u r c o c o n h e c e u .
C o m o uma fera bravia, U m c r i s t a o se e n f u r e c e u
Quis mostrar a covardia E disse: — É o a l m i r a n t e ! . . .
D o imperador cristao. E naquele mesmo instante,
R u q i n d o c o m o u m leáo. O cavalheiro o prendeu
A PRISÁO DE OLIVEIROS E SEUS COMPANHEIROS 31

O a l m i r a n t e Balao, N a o q u i s d e i x á - l a p o r nada —
V e n d o - s e ali i n d e f e s o , U m m u r r o de m a o f e c h a d a
F o i o b r i g a d o a ir preso N o a r c e b i s p o ele d e u .
A o imperador cristao. Ñas p o n t a s d o s pés se e r g u e u ,
Esse, c o m b o m c o r a c a o , C u s p i u na pia sagrada.
C o m o amigo o recebeu;
P e d i n d o - l h e , esclareceu Q f i l h o i n d a q u i s salvá-lo.
Q u e aos í d o l o s nao adorasse, Mas o pai era u m h o r r o r .
Disse q u e se batizasse. T a n t o que o imperador
Q u e entregava o q u e era seu. Mandou no campo matá-lo.
Depois m a n d o u sepultá-lo,
A l i c h e q o u Ferrabrás, C o m h o n r a s de s o b e r a n o :
A o s seus pés se a j o e l h o u , Ele era u m i m p l o p r o f a n o .
Banhado em pranto, rogou Mas Deus q u e o castigasse,
Nao adorar ídolos mais. P o r é m devia enterrar-se.
D i z e n d o : — É Satanás P o r q u e t a m b é m era h u m a n o .
Q u e o vive p e r s e g u i n d o —
M e u p a i , q u e está se i l u d i n d o ! Agora vamos tratar
Q u a n d o o Eterno o chamar, Floripes c o m o f i c o u ,
Q s e n h o r há de c h o r a r , Q u a n d o da t o r r e avistou
Q demonio entra sorrindo! Carlos M a g n o m a r c h a r ,
Q u a n d o f o i a visitar
Se m e u pai fosse c r i s t a o . E dar-I he agradecí m e n t ó ,
C o m o Carlos M a g n o é. Com grandecontentamento —
Se lutasse pela f é , Floripes o abragou,
Tivesse r e l i g i a o . Carlos M a g n o m a r c o u
N a o i n d o c o n t r a a raza o Q dia d o casamento.
C o m o u m rei c r i s t a o nao v a i ,
Pois da lei de Deus nao sai, Carlos M a g n o m a n d o u
Se e m Deus tivesse esperanza - Q u e o a r c e b i s p o aprontasse
N e m dez m i l Pares de Franga T u d o q u a n t o precisasse.
Nao venceriam meu pai! Q arcebispo a p r o n t o u ,
F l o r i p e s se b a t i z o u .
ó m e u pai, o senhor t e n d o Como tinha projetado.
U m grande exército valente — F i c o u t u d o descansado
E doze homens somente, De uma luta agonizante.
Resisti-lo, c o m b a t e n d o ? N o reino d o almirante,
G a l a f r e , u m gigante h o r r e n d o C o m t o d o o p o v o ao seu l a d o .
Q u e e m g u e r r a t i n h a arte?
T o d o m u n d o viu Ricarte, F i c o u a T u r q u í a e m paz,
E n i n g u é m p o d e pegá-io, A g u e r r a se c o n c l u i u .
E atravessou a c á v a l o Carlos M a g n o d i v i d i u
O r i o de parte a parte? O r e i n o e m partes iguais.
Deu metade a Ferrabrás,
Por rogos d e Ferrabrás, C o m t o d a a legalidade.
Q a l m i r a n t e Baláo E l e , de b o a v o n t a d e ,
P r o m e t e u ser u m c r i s t a o , C o m isso se c o n f o r m o u .
P o r é m d e p o i s nao q u i s m a i s . G u y de B o r g o n h a f i c o u
Era crenpa d e seus pais. C o m a mesma quantidade.
32 LEANDRO GOMES DE BARROS

Disse a G u y e a F e r r a b r á s : N u m a tristeza m e d o n h a .
— Q u a l q u e r de voces é d o n o - C o m o a esposa q u e sonha
F iquem regendo o t r o n o . Q u e está d o e n t e , m o r r e n d o ,
N a o f a g a m coisas d e m a i s , E r a m os s o l d a d o s , d i z e n d o
F a g a m g o v e r n o s léais. A d e u s a G u y de B o r g o n h a !
H o j e t e n h o de p a r t i r .
G ü i d o u e m se d e s p e d i r , F o i penosa a d e s p e d i d a
Levantou o estandarte — Do imperador cristáo.
Via-se ali de p a r t e a p a r t e G u y de B o r g o n h a e R o l d a o
Gente gemer e cair. S o l u g a v a m na p a r t i d a .
Floripes, triste e sentida,
E Floripes solupando A b r a p o u os cavaleiros.
A Carlos M a g n o a b r a p o u , P r i n c i p a l m e n t e os p r i m e i r o s
Urna dama desmaiou Q u e á t o r r e f o r a m chegados.
E c a i u - l h e aos pés, c h o r a n d o . S o l u p a v a m , abrapados,
Carlos M a g n o as c o n s o l a n d o , Ferrabrás e Oliveiros.
P o r é m d e nada sabia.
P o r q u e t o d a s da T u r q u í a G u y de B o r g o n h a c h e g o u ,
B o t a r a r t i nos corapoes S e m a m í n i m a expressáo, '
D e Carlos M a g n o as acoes, G u a n d o seu p r i m o R o l d a o
A t o d o o m u n d o prendía. Banhado em pranto abrapou.
Q u i s f a l a r mas n a o f a l o u
Que hora penalizada. C o m o d u q u e de Nemé,
G u a n d o a b a n d e i r a se i g o u Geraldo de Mondefé
E a corneta tocou E T i e t r e de D a r d a n h a —
A m a r c h a da r e t i r a d a ! Teve tristeza tamanha.
A f o r c a , e m m a r c h a avancada. Q u e f i c o u suspenso e m p é !

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Briga de Sáo Pedro com Jesús por Causa do Invernó Monstro sem Alma
Capitáo do Navio Morte, Testamento e Enterro de JoSo Grilo
Cabras de LampiSo Mulher que Enganou o Diabo
Cachorro dos Morios Mulher que se Casou 18 Vezes
Cangaceiro Isaías Mulher Roubada
Carta de Satanás a Roberto Carlos NegrSo do Paraná
Chegada de Lampiáo no Céu Nequinho e Jandira
Chegada de LampiSo no Inferno Novas Proezas de Bocage
Chegada de LampiSo no Purgatdrio Olhos de Dois Amantes por Cima da Sepultura
Cidrao e Helena Padre Cicero, o Santo do Juazeiro
Coco Verde e Melancia Pal que For^ou a Filha Sexta-Feira da PaixSo
Comprador de Barulho Papagaio Misterioso
Conselhos do Destino PavSo Misterioso
Contador de Mentiras Pedrinho e Julinha
Coragem de Juquinha pelo Amor de Ivonete Releja de Severino Borges com Patativa do Norte
Coragem de um Vaqueiro em Delesa do Amor Pele|a de JoSo Alaíde com Pelado do Sul
Debate de Camftes com um Sábio Pele|a de Manoel RiachSo com o Diabo
Disputa de Bocage com um Padre Releja de Zé Pretinho com Manoel RiachSo
Dois Amigos Leáis Releja do Cegó Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum
Donzela Teodora Piadas do Bocage
Encontró de CancSo de Fogo com Pedro Malazarte Pistoleiro Invencível
Encontró de LampiSo com AdSo no Paraíso Prantos de Cacilda e a Vinganga de Raúl
Encontró de LampiSo com Dioguinho Tancredo, Esperanca que NSo Morre
Encontró de LampiSo com Saturnino no Inferno Princesa da F'edra Fina
Ene. do Pres. Tancredo com o Pres. Getúlic Vargas no Céu Princesa do Reino do Mar-sem-Fim
Escrava do Destino Princesa Rosamunda
Fera de Petrolina Princesa Rosinha na Cova dos LadrSes
Ferreiro das Trés Idades Príncipe Formoso
Festa da Bicharada Príncipe JoSo-sem-Medo
Filho de Evangelista do PavSo Misterioso Proezas de JoSo Grilo
Filho do Herói JoSo de Calais Promessa da Vmganga
Filho de Juvenal e a berpente de Fogo Quatro Sábios do Reino
Getúlio Vargas, Vida, Tragédia e Morte do Presidente Quenqo de Pedro Malazarte no Fazendeiro
Gigante Quebra-Osso e o Caslelo Mal Assombrado Rosinha e SebastiSo
Grande Combale de Nevé Branca com JoSo Cabeleira Rufino, o Reí do Barulho
Helena, a Virgem dos Sonhos Segunda Vida de CancSo de Fogo
Herói JoSo Cangu^u Sofrimenlos de Alzira
História do Boi LeitSo Sofrimentos de Célia
Horácio e Enedina Sorte do Amor
Intriga do Cachorro com o Gato Touro Prelo que Engoliu o Fazendeiro
JoSo Acaba Mundo Trai?So de Dalila e a For?a de SansSo
JoSo da Cruz Trés Cávalos Encantados e os Trés IrmSos Camponeses
JoSo de Calais Trés Conselhos da Sorte
JoSo Soldado Triste Sorle de Jovelina
JoSo Terrfvel e o DragSo Vermelho Tubiba, o Desordeiro
JoSo Valente e a Montanha Maldita Vaca Misteriosa
Jogador na Igreja Valdemar e Irene
JosafS e Marieta Valente Zé García
José de Souza LeSo Vaqueiro DamiSo
Juvenal e o DragSo Vicente, o Rei dos LadrSes
Lagoa Misteriosa e o Cávalo Encantado Vida e Testamento de CancSo de Fogo
Lágrimas de Amor, ou A Vinganfa de um Condenado Vida, Vingan?a e Morte de Coriseo
LampiSo e María Bonita no Paraíso Vitória de Floriano e a Negra Feiticeira
LampiSo, o Rei do Cangapo Volta de LampiSo ao Inferno
Lobisomem Encantado Zé Bico Doce
Louca do Jardim Zezinho e Mariquinha

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