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LIVRO PARA LER ALGUMA COISA


MENOR...
UM BARULHO VINDO DA RUA FAZ COM
FRED & CLOÉ - UMA
QUE ELA INTERROMPA A LEITURA.
NÃO DIRIA QUE É UM BARULHO
FÁBULA ANORMAL, MAS DIFERENTE...
CARACTERÍSTICO DAQUILO QUE ELA
MELODRAMÁTICA JÁ SE ACOSTUMOU A OUVIR LÁ DE
Texto de Edson Bueno BAIXO.
ELA CORRE PARA A JANELA, AFASTA
Prêmio Sesi de Teatro - 1994 A CORTINA E ASSISTE A CENA SEM
ABRI-LA.
17:00H. QUASE FINAL DE TARDE. CLOÉ - (PARA SI MESMA) - Garoa fina...
CENTRO DA CIDADE. RUA ESTREITA.
O MOVIMENTO É GRANDE. A CIDADE, OUVE-SE UM GRITO HORRÍVEL VINDO
COMO SEMPRE, ESTÁ EM LÁ DE FORA, SEGUIDO POR UM
POLVOROSA. O TRÂNSITO É BURBURINHO DE MULTIDÃO. LOGO
ANÁRQUICO E SEM NENHUM UM ESTARDALHAÇO, ATÉ QUE A
CONTROLE. O CÉU ESTÁ FECHADO E POLÍCIA CHEGA COM SUA SIRENE E
A ILUMINAÇÃO DAS RUAS DEPENDE UMA GRANDE CONFUSÃO SE INICIA.
EXCLUSIVAMENTE DA LUZ ARTIFICIAL. SÃO PAULADAS, VIDROS
CLOÉ, DE UNS 70 ANOS, MORA NESTA QUEBRADOS, GRITOS E TIROS... ELA
VIELA, NUM SEXTO ANDAR DE UM OBSERVA A CENA MAIS UM POUCO,
VELHO EDIFÍCIO ONDE VIVEM DEPOIS VOLTA PARA O SOFÁ E
FAMÍLIAS TRABALHADORAS DE CONTINUA A LER O LIVRO.
PEQUENA RENDA. O SEU AGORA SE PODE VER A CHUVA PELA
APARTAMENTO É DOS PEQUENOS. JANELA, QUE RECOMEÇOU BEM MAIS
CHEIO DE VELHAS QUINQUILHARIAS E FORTE.
MEIO DESORGANIZADO. VAGAROSAMENTE, COMEÇA A
A TEMPERATURA É MORNA. SURGIR NA JANELA, COMO SE SE
ELA ESTÁ SENTADA EM UMA MATERIALIZASSE, UMA FIGURA
CORROÍDA POLTRONA QUASE NO MIÚDA, DE CAPA DE CHUVA, MALA NA
CENTRO DA SALA, ENROLADA NUM MÃO E GUARDA-CHUVA ABERTO.
XALE CARACTERÍSTICO E COM AS BATE NA JANELA.
ROUPAS CAÍDAS AO DESLEIXO PELO
CORPO. ÀS VEZES SENTE FRIO, QUE CLOÉ - (SEM DESLIGAR-SE DO LIVRO)
VEM DE ALGUMA CORRENTE DE - Ahhhhnnn?!
VENTO ENCANADO. OUTRAS VEZES,
PERMANECE LONGO TEMPO PARADA, A FIGURA INSISTE E BATE UM POUCO
NA JANELA, OLHANDO PARA FORA. DE MAIS FORTE.
LÁ, PODE VER A RUA AGITADA: OS
MENDIGOS, OS POLICIAIS, OS FRED - Alguém em casa?
CAMELÔS, OS ASSALTANTES, OS CLOÉ - Evidente que sim...
TRAFICANTES, OS JOVENS QUE FRED - Posso entrar?
PERAMBULAM PELA CIDADE FAZENDO CLOÉ - Não.
ARRUAÇA E BADERNANDO AINDA FRED - Sou da emigração...
MAIS O CENTRO. A RUA É SEMPRE CLOÉ - E eu com isso?
MUITO BARULHENTA. QUANDO A FRED - Meu nome é Fred... sou da
JANELA ESTÁ FECHADA O SOM É emigração!
DISTANTE, MAS QUANDO A JANELA CLOÉ - Não perguntei.
ESTÁ ABERTA O SOM ENTRA COM FRED - Mas, a senhora é obrigada a
VIOLÊNCIA PARA DENTRO DO permitir a minha entrada... pelo menos
APARTAMENTO. para assinar o protocolo.
NESTE MOMENTO CLOÉ ESTÁ
SENTADA EM SUA POLTRONA. LÊ. AS SILÊNCIO.
SUAS MÃOS TRÊMULAS VIRAM AS
PÁGINAS DE UM LIVRO: “UMA NOVA CLOÉ - A janela está só encostada.
VIDA”; SEUS ÓCULOS SÃO DO TIPO
“FUNDO DE GARRAFA” E AINDA ELE ABRE A JANELA E ENTRA TÍMIDO
PRECISA APROXIMAR A VISTA DO E DESAJEITADO. O FRIO E O VENTO
PENETRAM COM FORÇA NO
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APARTAMENTO E CLOÉ CLOÉ - É sempre a mesma coisa
IMEDIATAMENTE COMEÇA A TOSSIR. ...trouxe a caneta ?
ESCARRA NUM LENÇO. FRED - (ESCONDENDO A CANETA QUE
TRAZ CONSIGO).A-acho que perdi lá
FRED - Com licença... (SILÊNCIO)... onde fora...não consigo encontra-la...
posso colocar as minhas coisas? CLOÉ - Não tem problema. Eu apanho a
CLOÉ - Me dá o protocolo que eu assino... minha ...(VAI ATÉ A ESTANTE)
não precisa guardar suas coisas... FRED - Posso sentar um pouco ?
FRED - Mas é que... CLOÉ - Pode.
CLOÉ - O quê? FRED - De certa forma até foi bom ter
FRED - Existem alguns procedimentos perdido a caneta... sempre há uma
burocráticos... que levam algum tempo... esperança de que você...
não posso executá-los com um guarda- CLOÉ - Não perca seu tempo precioso...já
chuva na mão esquerda e uma capa de disse que não vou. E o senhor, se tivesse
chuva molhada... e... um pouco de respeito por uma velha
CLOÉ - Como é mesmo o seu nome? senhora senhora ranzinza, não deveria
FRED - Fred. insistir.
CLOÉ - Coloque suas coisas ali... FRED - desculpe/é a força do hábito...e é
(APONTA O CABIDEIRO NO CANTO DA meu serviço...convencer as pessoas de
SALA) - que precisam emigrar...como todo
FRED - Obrigado. mundo...
CLOÉ - algumas pessoas não são todo
ELE PENDURA A CAPA, O GUARDA- mundo...
CHUVA, O CHAPÉU E A MALA.
SILÊNCIO.
FRED - Vai molhar o chão.
CLOÉ - Quando você for embora eu FRED - Trouxe café e ...
enxugo... não se preocupe. CLOÉ - (DEIXANDO DE PROCURAR A
CANETA) - (PEQUENO RISO DE
SILÊNCIO. SATISFAÇÃO) - Onde foi que você
conseguiu?
FRED - (TENTANDO QUEBRAR O FRED - Promete segredo?
GELO) - Pois é... cá estou eu de volta. CLOÉ - Claro.
CLOÉ - Pois eu não me lembro do senhor FRED - Um funcionário do governo
nos outros anos... sempre tem amigos...não chamo de
FRED - (RINDO, DESAJEITADO) - suborno, mas troca de favores...
Quando digo eu, não estou me referindo à
minha pessoa propriamente, mas ao meu ELE TIRA DA MALA, UM FRASCO COM
cargo: ASSISTENTE ADMINISTRATIVO CAFÉ DENTRO...
PARA PROCEDIMENTOS DE
EMIGRAÇÃO! Todo ano a senhora recebe CLOÉ - Está quente?
a visita de um, não é mesmo? FRED - Não. Está frio. Demorei muito pra
CLOÉ - Não que eu faça questão... chegar até aqui. Ah! E também a outra
FRED - Constatei em sua ficha... vizinha chamou pra contar da morte do
(SILÊNCIO)... desculpe o incômodo, mas filho dela...atropelado por um caminhão de
é o meu serviço. entrega de azeite...Veja que descuido. E
CLOÉ - (VOLTANDO AO LIVRO) - Desta os caminhões já descem a rua buzinando
vez também não vou. de tão longe...Aconteceu na semana
FRED - Imaginava. passada! Coitado do
CLOÉ - Podiam poupar esta visita menino!(EMOCIONA-SE)
desagradável. CLOÉ - Bobagem chorar!(TOMANDO O
CAFÉ E FAZENDO CARA FEIA DE
SILÊNCIO. QUEM ESTÁ ACHANDO MUITO RUIM!) -
agora pouco, presenciei um assalto !Não
FRED - (RETIRANDO ALGUNS PAPEIS consigo me acostumar com café
DA PASTA) - Cloé...você precisa assinar frio.(TOMA MAIS UM COLE. RI
aqui. SATISFEITA) - Um destes selvagens, ou
CLOÉ - Claro. coisa parecida, roubou a bolsa de uma
ELE LEVA OS PAPÉIS PARA ELA, QUE mulher...(RI, PARA SI MESMA)) - Ela
OS APANHA COM DIFICULDADE. esperneava mais que uma cabrita...tão
CLOÉ - Trouxe a caneta ? engraçado...!
FRED - Não vai ler antes?
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FRED - Não precisa tomar o café se não emigram...(TIRA A GERINGONÇA DE
está gostando! DENTRO DA MALA) - Quer ver?
CLOÉ - (colocando a xícara vazia na CLOÉ - (MEIO CURIOSA) - Coloque em
mesa) - E quem disse que eu não estou cima da mesa...
gostando ? Café frio é melhor que
nenhum café. Tem mais? FRED COLOCA A CAIXA DE MÚSICAS
FRED - Infelizmente não ! EM CIMA DA MESA
CLOÉ - que pena ! Gosto tanto ...Mesmo
frio ou requentado ... FRED - Primeiro abro as cortinas...(ABRE
FRED - Posso conseguir mais ... A CORTINA)...depois...
CLOÉ - (ESTARRECIDA) - No mercado (RI, MALANDRO)...apago a luz..(O
negro? QUARTO FICA SEMI-ESCURO,
FRED - Sim. ILUMINADO APENAS PELA LUZ QUE
CLOÉ - Mas... você é um funcionário do ENTRA PELA JANELA) -Depois...dou
governo...não tem medo? corda...
FRED - Todo mundo pratica. Se não se
ganha um dinheiro extra...Sabe, a SILÊNCIO.
situação econômica não anda nada fácil
...! CLOÉ - E agora?
CLOÉ - Não posso acreditar que um FRED - Espere...já começa...
sujeito com a sua aparência mantenha
transações ilegais...Não é digno...de uma MUITO TIMIDAMENTE A CAIXA
certa forma você pode ser comparável a COMEÇA A TOCAR MÚSICA, QUE
esses ladrões que assaltam aí no meio da COMEÇA MUITO MELANCÓLICA E
rua... PARECE CANÇÃO DE PESCADOR...A
FRED - (COM O DEDO INDICADOR NA MÚSICA VAI MUDANDO DE RITMO E
BOCA) - Shshshshsh !!! Se não quiser, VAI SE TORNANDO CURIOSA E
tudo bem, mas não precisa alardear aos ALEGRE...COMO SE CONVIDASSE
quatro ventos...sou tímido, faço apenas PARA UMA VIAGEM. FRED VAI ATÉ A
um negocinho aqui e outro ali...o que SUA MALA, NA PENUMBRA, E TIRA LÁ
ganho é para garantir a escola das DE DENTRO DIVERSOS CARTÕES
crianças e uma comidinha melhor nos POSTAIS E ENQUANTO A MÚSICA
finais de semana ...não chega a ser crime TOCA, ELE DANÇA EM VOLTA DA
CLOÉ - E você vende o quê? (NT) - Não MESA...CLOÉ NÃO ENTENDE MUITO
vai me cobrar o café, vai? MAS GOSTA DA MÚSICA E DA
FRED - Não! DANÇA...
CLOÉ - Belo gesto para um pequeno
gatuno... FRED - Lembra-se?
FRED - Mas se a senhora quiser CLOÉ - Sim...são as danças da
colaborar com alguma coisa...um de meus chuva...quando queremos avisar que vai
filhos precisa de um par de meias... chover e todo mundo deve esconder-
CLOÉ - Não se faz nada por gentileza se...(FRED CONTINUA
hoje em dia...(NT) - Espere...devo ter DANÇANDO...MUDA O RITMO) -
algumas moedas na carteira...(VAI FRED - E agora ?
VERIFICAR NO ARMÁRIO) - CLOÉ - (RINDO) - São as danças da
FRED - Trouxe também outras coisinhas... colheita...quando queremos avisar a todos
CLOÉ - (ENTREGANDO-LHE UMA que existe muita comida por perto e é só
MOEDA) Tome. Acho que dá pra comprar colher...
um par de meias para o seu filho. (NT) - FRED - (RINDO E DANÇANDO A
Nunca paguei tanto por uma xícara de DANÇA) - E agora...lembra desta?
café gelado... CLOÉ - Que susto ! A dança do perigo,
FRED - Não se interessa em comprar uma quando alguém descobre que algum
caixa de músicas? inimigo se aproxima a todos devem se
CLOÉ - (RINDO) - E o que eu vou fazer esconder e fugir...
com uma caixa de músicas? FRED - (MAROTO - MUDANDO
FRED - Não precisa comprar se não NOVAMENTE A DANÇA) - E agora?
quiser, mas não custa ouvir...(VAI Conhece ainda esta?
APANHAR A CAIXA NA MALA) - São de CLOÉ - (RI MUITO) - Sim embora faça
fabricação caseira e tocam músicas muito tempo...(RI) - a dança do
rudimentares, mas ajudam a alegrar as acasalamento!
intermináveis noites e dias em que você
fica aqui, sozinha...enquanto todos
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A MÚSICA FICA ENTÃO MARAVILHOSA! Lá você poderia ficar deitada, quase
FRED DANÇA FRENETICAMENTE E sem roupas... Sem tossir... tomando sol...
JOGA OS CARTÕES POSTAIS PARA O a sua pele iria adquirindo nova cor.
ALTO . OS CARTÕES CAEM NO CHÃO CLOÉ - Cale-se.
COMO CHUVA... FRED - Po quê você não quer mais
emigrar ?
CLOÉ - Você deve ser um bom marido! CLOÉ - Talvez eu tenha me acostumado
FRED - Acho que sim... amo muito a com a minha rua violenta, esfumaçada.
minha mulher...e nos amamos nossos Talvez eu sinta falta do barulho, dos
filhos... acidentes de trânsito, da algazarra...
CLOÉ - (JUNTANDO UM CARTÃO FRED - Não acredito...
POSTAL DO CHÃO) - O que é isto? CLOÉ - Não peço para você acreditar...
FRED - São cartões postais...das FRED - Estamos emigrando muito tarde,
ilhas...pode olhar se quiser e depois, se O último bando sai amanhã de manhã.
tiver vontade de comprar algum...também CLOÉ - Pra que é que você me compra
vendo... isso? Nunca me interesso pela emigração.
CLOÉ - Não consigo sigo ver direito... FRED – Eu, como ASSISTENTE
FRED - Espere...eu acho a luz...(ACENDE ADMINISTRATIVO PARA
A LUZ) PROCEDIMENTOS DE EMIGRAÇÃO,
CLOÉ - (OLHANDO OS CARTÕES) - A gostaria que pessoas como você,
paisagem...como a areia é branca e tivessem coragem.
fina...e todo mundo de papo pro ar... CLOÉ - E não preciso de coragem, ora...
FRED - São postais das ilhas... FRED - Existem alguns, bem mais
CLOÉ - O céu não é tão azul ,nem a água velhos... eles partiram para as ilhas e
é tão verde...é retoque...os fotógrafos nunca mais voltaram. Preferiam viver
reforçam as cores para ficar mais seus últimos dias tranqüilos, debaixo do
bonito...e vender mais... sol.
FRED - Mas é muito parecido... CLOÉ - Eles não tinham coragem, tinham
força. Ninguém precisa de coragem
DE REPENTE, ELA LARGA OS quando está encurralado.
CARTÕES SOBRE A MESA E VAI ATÉ A FRED - Mas eles estão felizes AGORA...
JANELA...FRED A SEGUE... CLOÉ - Ah! Melhor pra eles !
FRED - A senhora vai ficar com a caixa de
FRED - Está chorando? músicas?
CLOÉ - (MELANCÓLICA) - Não. Está CLOÉ - Não.
chovendo de novo. FRED - São só algumas moedas... tenho
FRED - Lembra-se bem da ilha? dois filhos que precisam de sapatos
CLOÉ - Era uma ilha qualquer. novos...
FRED - E das pedras? Da areia? Dos CLOÉ - O que é que fizeram com os
coqueiros?... velhos?
CLOÉ - (CHORANDO EM SILÊNCIO) - FRED - Não compreendi.
Por favor... CLOÉ - perguntei porque não via viajam
com os velhos?
ELA VOLTA PARA O SOFÁ, SENTA-SE FRED - Ah! sim... é uma forma delicada
E CHORA MUITO. ESTÁ MUITO TRISTE. de dizer que não vai comprar mesmo...
SENTE UMA PROFUNDA SAUDADE. CLOÉ - (INDO ATÉ O ARMÁRIO,
FRED ABRE A JANELA ... PEGANDO MAIS ALGUMAS MOEDAS E
ENTREGANDO PARA ELE) - Tome.
FRED - Está chovendo tanto agora. Compre sapatos novos e jogue os velhos
no lixo ...(RI)...
CLOÉ COMEÇA A TOSSIR E TEM FRED - Meus filhos vão ficar eternamente
SUBITAMENTE UM GRANDE ACESSO agradecidos... (NT)... Se importa se eu lhe
DE TOSSE. FRED FECHA A JANELA mostrar outra coisa?
RAPIDAMENTE. FICA ASSUSTADO, CLOÉ - Você deveria abrir uma casa de
VENDO ELA RECUPERAR-SE. ELA comércio.
PUXA O LENÇO E ESCARRA. DEPOIS FRED - Se importa ? Tenho mais alguns
GUARDA. minutos...
CLOÉ - Pois eu tenho a vida toda. O que
FRED - Você está bem? é que você tem para me mostrar?
CLOÉ - Já. FRED - (INDO ATÉ A MALA E
FRED - Nas ilhas o ar é outro, não chove, RETIRANDO LÁ DE DENTRO UMA
não venta tanto nem tão gelado... COISA MUITO GRANDE, ENROLADA
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NUM PANO) - Uma coisa FRED - Não posso.
verdadeiramente maravilhosa! Quem faz é CLOÉ - Por quê?
um amigo meu... evidente que a venda FRED - Se algum fiscal do governo me
também é clandestina, porque ele não pega voando com a Máquina de Voar. vai
paga imposto sobre o produto! Mas, se intuir que eu estou vendendo em horário
tivesse que pagar, morreria de fome com de trabalho ! Me autua , multa e me
sua família e não compensaria tanto despedem! Meus filhinhos morrem de
trabalho... (ABRE O PACOTE ) - Olha! fome e ficam sem casa para morar! É
uma questão de confiança , Cloé... e você
O QUE SE VÊ É UMA GERINGONÇA pode raciocinar por lógica... Se a caixa de
ALADA, COMPLETAMENTE músicas funciona, eu sou um sujeito
ARTICULADA MECANICAMENTE E honesto! Logo, a asa mecânica também
CHEIA DE ARTELHOS, CORDAS , funciona e eu continuo honesto! É pegar
ROLDANAS E PONTAS... ou largar! Vai ficar com elas ?
CLOÉ - Dependure-as na parede ...
CLOÉ - O que é isto? preciso de um tempo para pensar. Acho
que vou presentear meu genro com este
ELE RI SATISFEITO COM A mecanismo. Ele tem fortes dores
CURIOSIDADE DELA... reumáticas e dificuldades para se
locomover... e depois, se cair, não se
CLOÉ - Para que serve esta maquina? perde grande coisa...
FRED - (COMO UM MÁGICO) - A FRED - Mas não é para você?
maquina de voar! (SEUS OLHOS CLOÉ - Claro que não. Já disse e repito:
BRILHAM) - Veja ! (VESTE A MAQUINA) - não vou emigrar. Vou permanecer aqui
Posso subir na mesa (SOBE) - No caso durante todo o inverno, como tem sido nos
de não se ter forças para voar... Veste-se últimos anos...!!!
esta máquina e voa pelos céus FRED -E não tem medo de solidão?
tranqüilamente. Quando o sujeito sente CLOÉ - (GARGALHADA) - A Solidão não
que suas forças se esvaem, aperta aqui, existe. A velhice existe. A fraqueza existe.
aqui, aqui, aqui e aqui... depois A impossibilidade existe. O abandono
movimenta os braços, existe. A morte existe - embora esteja tão
primeiro devagar e depois aumentando a longe... Mas a solidão... Ah! esta não
velocidade... os artelhos servem para que existe...!
não precise colocar forças... aí, FRED - Sua família não faz visitas?
provavelmente voará com muita facilidade CLOÉ - Claro.
e a longas distâncias... Não é FRED - Seu genro também é funcionário
interessante? do governo?
CLOÉ - e esta geringonça já foi testada? CLOÉ - Trabalha na divisão de
FRED - Não. Mas não há a menor controle...computadores...
possibilidade de erro... Veja, Cloé, de FRED - Já emigraram?
princípio o sujeito já está voando, depois CLOÉ - Acho que na semana passada...
a máquina só vai auxiliá-lo e final mente, FRED - Como...acho...
se alguma coisa falhar...o que é CLOÉ - Porque não tenho certeza, ora...
improvável! Os assistentes de vôo, que FRED - Não vieram despedir-se?
são pagos regiamente pelo governo, CLOÉ - Nunca vêm...minha filha começa a
estarão prontos para impedir o sujeito de chorar, quer me levar junto... então, já faz
cair e se esborrachar no chão! Sob esta muitos anos que não se despedem.
prisma, esta máquina tem até garantia, Depois me mandam uma carta das
embora seja de fabricação caseira...! (RI ilhas...um postal sempre muito bonito e
MUITO E MOVIMENTA OS BRAÇOS...) retocado...
CLOÉ - Sinto muito, mas isto eu não vou FRED - Seus netos já devem estar
comprar... Passo os dias olhando pela crescidos...
janela e nunca vi, uma pessoa sequer, CLOÉ - Já faz algum tempo que não
voando com essa parafernália! Isto me aparecem por aqui. Às vezes mandam
cheira a desastre! uma fotografia deles. Nós, que ficamos
FRED - Tem medo ? esperando a primavera, temos alguma
CLOÉ - Tenho uma idéia. Por quê você coisa em comum... ninguém se despede
não pula pela janela com estas asas da gente.(UM PEQUENO E SINGELO
mecânicas? Dá um vôo pelo quarteirão, SORRISO) - E até com isso a gente se
prova a sua eficiência e então me acostuma: com a ausência da despedida!
convence que é o melhor negócio do
mundo...!? SILÊNCIO.
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FRED - Só uns trinta... no máximo. Me
FRED - Ninguém se despede de você?] torturo pensando em quais ficarão
CLOÉ - Só os assistentes administrativos pelo caminho. O Edu ? O Manuel ?
da emigração... (QUANTO MAIS FALA, MAIS SE
EMOCIONA E CHORA) - A Mirta ? O
SILÊNCIO. Paulo ?
CLOÉ - Os mais fracos...
FRED - É... de mim também ninguém se FRED - Os mais fortes só dormem voando
despede... (SUSPIRO)... baixo e baterem em alguma antena de
CLOÉ - (ESPERANDO A PIADA) - Por teletransmissão. Isto ficou tão comum
quê ? depois que mudaram o sistema de
FRED - (RINDO, CONTANDO A PIADA) - televisão! O céu virou um labirinto. Os que
Eu é que me despeço dos outros... voam baixo inadvertidamente, tem
encontrado a morte por besteira. Um
RIEM OS DOIS, CÚMPLICES... amigo meu... que trabalha comigo, outro
SILÊNCIO. assistente - teve um filho que morreu de
maneira horrível...
CLOÉ - E a sua família? CLOÉ - Como?
FRED - (RINDO AINDA MAIS) - Nunca FRED - Entrou dentro de uma turbina de
ninguém pergunta pela minha família. avião em pleno vôo! Quase provoca um
CLOÉ - Pois hoje eu estou perguntando... desastre de avião... Que horror !!!
FRED - (EMBARAÇADO) - Como sempre, (CHORA) -
emigram comigo. Partem amanhã cedo. CLOÉ - Vou pegar um copo d’água para
(ALEGRE) Alguns emigram pela primeira você...
vez. Os menores. Ainda não aprenderam FRED - E o pior é que não temos tempo
a se proteger-se dos obstáculos da nem de nos despedir de um filho morto...
viagem...que não são poucos... Mas já
estão tão bonitos, precisa ver! (FALA CLOÉ VEM COM A ÁGUA. ELE TOMA E
COM ORGULHO) - Já adquiriram até FALA.
personalidade! Sabe que ontem, o
Arnolfo, o mais velho, bateu mais de FRED - De repente, você olha para trás e
quinhentos concorrentes no curso de não vê mais o filho que voava a poucos
saúde pública ? É...tão longe retornemos minutos... significa que morreu... Você
e ele assume a chefia do combate ás olha para baixo mas não vê mais nada...
pestes e pragas ! Estou tão feliz e O filho é arrancado de você como um
satisfeito. Temos esperanças de com os passe de mágica! (NT)
outros aconteça o mesmo ! É por isso que os velhos deveriam voar...
CLOÉ - Salário bom ? Arriscando-se representam a sabedoria no
FRED - O melhor de que muitos... e o espaço... orientam os novos... e menos os
mais importante é que não me dará mais jovens morrem...
despesas. CLOÉ - Você quer disser que eu seria de
CLOÉ - Você também já anda casado, alguma utilidade para seus filhos, por
não é ? exemplo?
FRED - Nããããooo !!! Absolutamente ! FRED - (RECUPERANDO-SE) - Muita,
Com a minha idade, ainda sou dos mais Cloé. Porque você não viaja comigo e
produtivos no trabalho e dos mais férteis com os meus filhos? talvez cheguem uns
em casa... (RI MEIO TÍMIDO COM A trinta e três às ilhas! Quem sabe todos os
ASNEIRA QUE FALOU) - trinta e nove? (CHORA) -
CLOÉ - E no ano que vem já serão mais CLOÉ - (OFERECENDO SEU LENÇO
filhos... PARA ELE) - Tome o lenço enxugue as
FRED - Gostaria tanto que não passasse lágrimas...
de uns seis. Desta vez, foram nove. FRED - (VENDO O LENÇO SUJO QUE
Sabe se lá o que é aumentar o prole em ELA ESCARRA O TEMPO TODO) - Não,
nove filhos por ano? obrigado. (ENXUGA AS LÁGRIMAS NA
CLOÉ - E quantos são hoje? CAMISA) - Com essas coisas a gente
FRED - Trinta e nove ! Mas os nove nunca se acostuma. Eu mesmo, cada vez
menores emigram pela primeira vez. que me despeço de alguém que não quer
(EMOCIONA - SE MUITO !) - emigrar, tenho a impressão de que é
CLOÉ - Sofre pelos nove ? sempre a última vez. (CHORA
FRED - Não chegaremos todos às ilhas. COPIOSAMENTE) - E se eu morro, Cloé?
CLOÉ - Nunca chegam Fred... O que será dos meus filhos?
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CLOÉ - Eu... (ASSOA O NARIZ COM FRED - Tenho alguns aqui na minha
LENÇO) - mala, para vender também...(VAI ATÉ A
MALA) -
SILÊNCIO. LÁGRIMAS. CLOÉ - Não me interesso por espelhos...
FRED - (MOSTRANDO) - Tenho de
FRED - Maldição! Não pára nunca de diversos tamanhos...
chover...! CLOÉ - Não quero comprar espelhos, já
CLOÉ - (OLHANDO PARA A JANELA) - disse.
Eu não alcançaria três metros... FRED - ((MOSTRANDO UM ESPELHO
FRED - Todos dizem isso, Cloé, mas DE MÃO, MUITO GRANDE) - Mas olhar é
quando menos esperam, estão de graça! Não cobro nada... quem sabe
fortalecidos pelo ar. Você precisa ver uma moeda apenas...
como é bonito. Eles sobem até o ultimo CLOÉ - (ESCONDENDO O ROSTO
andar dos edifícios e se atiram no ar. SOBRE A XALE E FUGINDO DELE) -
Parecem meninos. São jovens Não quero olhar o espelho!
sorridentes, entende? É o seu espírito que FRED - (INDO ATÉ ELA) - Olhe!
é. Já vi bandos de até vinte se atirando no CLOÉ - Não, já disse!
ar. FRED - Então eu digo o que o espelho ia
CLOÉ - E todos voam? Nenhum cai? mostrar: você é seca e enrugada... já
FRED - Como assim? tinham me dito que você era assim e que
CLOÉ - Perguntei se nenhum se espatifa ficava pior a cada ano... mas, nunca
no chão. imaginei que era tanto!
FRED - Bem... Claro, o êxito nunca é de CLOÉ - (DESDENHANDO) - Pode falar,
cem por cento. eu não me ofendo!
CLOÉ - Quanto por cento é ? FRED - Cloé, francamente... o seu
FRED - O quê ? aspecto é horrível!
CLOÉ - De cada dez, quantos se
espatifam? SILÊNCIO
FRED - Acho que... que bobagem, o que
isso importa? CLOÉ - É ?
CLOÉ - Sei lá... quem falou foi você, que
eles voam como bebês. SILÊNCIO
FRED - Meninos.
CLOÉ - Pra minha idade, meninos são CLOÉ - Muito feia? (NT) - Me venda o
bebês! espelho!!!
FRED - Não tenho a estatística correta e FRED - (ESCONDENDO) - É caro!
não vou fazer declarações CLOÉ - Quanto?
irresponsáveis... mas o que não resolve é FRED - Dez moedas. Não agora são
ficar aqui dentro... fechada... doze!!!
CLOÉ - Eu pago! quer pagamento
CLOÉ VOLTA À JANELA. AGORA adiantado?
CHOVE TORRENCIALMENTE. FRED - Sim.

CLOÉ - Significa a primavera! Daqui a três ELA CORRE ATÉ A CARTEIRA E TRÁS
meses chega uma nova primavera e eu AS MOEDAS...
posso vê-la da minha janela... (UM
BARULHO DE FREIO DE CAMINHÃO, CLOÉ - (ENTREGANDO AS MOEDAS) -
VEM LÁ DE FORA) - Veja, os Tome. Agora o espelho... (PEGA O
caminhões... Viram a esquina com ESPELHO. OLHA-SE! SOLTA UM GRITO
velocidade surpreendente... E ATIRA O ESPELHO LONGE. VAI
FRED - Cloé...pode ter certeza...aqui CHORAR NO SOFÁ...) -
dentro é pior! FRED - (INDO ATÉ ELA) - Cloé...
CLOÉ - Se pelo menos parasse de CLOÉ - Sim...?
chover. FRED - Você se enganou e me deu só
FRED - Já se olhou no espelho? onze moedas...
CLOÉ - Como?
FRED - Espelhos... ELA VAI APANHAR A DÉCIMA
SEGUNDA MOEDA. ESTÁ MUITO
SILÊNCIO. EMBURRADA.

CLOÉ - (ENTREGANDO A MOEDA) -


Muito feia...!
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FRED - Não exatamente isso... protocolo se você for capaz!... Me
CLOÉ - Sabe que há muito tempo eu não obrigue! Seu... seu... seu... seu
pensava nisso... em beleza. Houve uma funcionariozinho incompetente! Seu
época que era tão fácil encontrar o bonito funcionariozinho medíocre! Seu
por aí. Era só olhar para cima, para os funcionariozinho muito pequeno! Você
lados...(VAI ATÉ A JANELA) - nos deveria permanecer aqui! Não deveria
momentos, como este agora, em que emigrar! Deveria ficar limpando o lixo da
chove tanto... não é possível ver os rostos cidade para que quando chegar a
das pessoas... são vultos correndo da primavera, seus chefes, patões,
chuva, vultos se abrigando nas marquises, governantes e não sei mais o quê,
vultos dirigindo caminhões... vultos caindo encontrem tudo limpo ao voltarem... e que
dos edifícios... morram todos os seus filhos batendo as
FRED - Vultos... asas em antenas de televisão! Fora daqui!
CLOÉ - Vultos olhando pela Fora daqui! Fora! Odeio funcionários!
janela...(NT)... Onde está o protocolo? Odeio! Odeio funcionários! Odeio! Fora!
FRED - (MEIO DESPREPARADO) - Que Fora! Fora daqui!!!
protocolo? FRED - Infantil!
CLOÉ - Para eu assinar. CLOÉ - Eu não estou sendo infantil!
FRED - Ah, sim! Sobre a mesa, onde você
deixou... ELE APANHA SUAS COISAS: A PASTA,
CLOÉ - Tínhamos parado para conversar A CAPA, O CHAPÉU E O GUARDA-
quando eu procurava a caneta... Agora CHUVA...
lembrei-me... está dentro do livro...
sempre deixo a caneta dentro do livro FRED - (APANHANDO O PROTOCOLO E
para grifar alguma coisa importante... A CANETA) - Veja! (ASSINA) - Falsifico
(ENCONTRANDO A CANETA) - Aqui sua assinatura! Ninguém vai perceber...
está! não precisa assinar coisíssima nenhuma,
FRED - Que livro você está lendo? sua velha inútil! E depois... eu ainda tenho
(PEGANDO O PROTOCOLO) - outras pessoas a convencer... ajudar
CLOÉ - Pode me passar o protocolo, por pessoas que não querem morrer à
favor? míngua!
FRED - Não me disse o nome do livro...
CLOÉ - Isto não tem nada a ver com o CLOÉ ESTÁ SENTADA E DE CARA
protocolo, Fred... quer me passar o AMARRADA. FRED TEM DIFICULDADES
protocolo, por favor? PARA COLOCAR A CAPA. ESTÁ MUITO
FRED - (DESESPERADO, TOMANDO O NERVOSO! AO MESMO TEMPO QUE
LIVRO DAS MÃOS DELA E DEIXANDO A DERRUBA DESAJEITADAMENTE O
CANETA CAIR NO CHÃO) - “Uma nova GUARDA-CHUVA...
vida’’ bastante irônico!
CLOÉ - Mal educado!!! Me dê o meu livro FRED - Pois adeus, dona Cloé!
e o protocolo para eu assinar!!!
FRED - Só existe uma nova vida, Cloé... e ABRE A JANELA E ABRE TAMBÉM O
está muito longe daqui... durante todo o GUARDA-CHUVA!
inverno o nosso lugar é nas ilhas...
recuperando forças para voltar na FRED - E até a primavera! Se eu ainda
primavera e esperar o próximo inverno... por ASSISTENTE ADMINISTRATIVO
CLOÉ - Não me interessa o que você tem PARA PROCEDIMENTOS DE
para me dizer... me devolva o livro e o EMIGRAÇÃO!
protocolo... Onde foi que a caneta caiu?
CLOÉ - (CHUTANDO A CANETA PARA CLOÉ SENTE UM ARREPIO DE FRIO E
LONGE, ANTES QUE ELA ALCANCE) - UM COMEÇO DE TOSSE. ELE A
Longe, como as ilhas... se você quiser OBSERVA AINDA POR UM INSTANTE.
pegá-la, tanto a caneta quanto as ilhas, OS SONS DA RUA, AGORA, COM A
tem que ir onde estão! JANELA ABERTA, ENTRAM COM MAIS
CLOÉ - Estúpido! Grosseiro! Mal educado! FORÇA. SÃO BUZINAS, APITOS DE
Não me interesso por seu protocolo, nem GUARDA, CORRERIAS DE CRIANÇAS,
por sua caneta e muito menos por este SIRENES... ELE MUITO NERVOSO,
livro de ficção imbecil! Não me levanto, TENTA SAIR MUITO
nem falo mais com você! Se quiser ficar DESAJEITADAMENTE PELA JANELA
aí, parado, que fique! Não sou eu mesma COM O GUARDA-CHUVA ABERTO.
quem vai ter que dar explicações ao PRIMEIRO COLOCA UMA PERNA PARA
patrão!... Me obrigue a assinar este
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FORA, DEPOIS TENTA POR A OUTRA. CLOÉ - Pare de pensar neste guarda-
DESISTE... chuva!
DEPOIS, TENTA COLOCAR O GUARDA- FRED - Ele é muito importante para mim.
CHUVA, DEPOIS A PERNA, MAS AINDA CLOÉ - Fred, tire esta capa de chuva!
ASSIM NÃO CONSEGUE. FICA AINDA FRED - Tem razão... a capa!
MAIS NERVOSO E IRRITADO! AGORA,
CLOÉ JÁ TOSSE MUITO E ESCARRA TIRA A CAPA.
NO LENÇO. OS BARULHOS DA RUA
SÃO IRRITANTES E PODE-SE OUVIR FRED - Está bem assim?
DE LONGE UMA ESPÉCIE DE ALTO- CLOÉ - Eu acho que tenho um guarda-
FALANTE QUE FAZ PROPAGANDA DE chuva em algum lugar...
ALGUM PRODUTO, POR TRÁS DA FRED - Será?’
FALA, UMA MÚSICA. QUANDO O ALTO- CLOÉ - Espere um pouco...
FALANTE APROXIMA-SE DA JANELA,
OUVE-SE CLARAMENTE A MÚSICA DO VAI PROCURAR O GUARDA-CHUVA NO
FUNDO: UMA CANÇÃO ANTIGA, ARMÁRIO...
PROVAVELMENTE DE ALGUM FILME
CLÁSSICO... CLOÉ TOSSE CLOÉ - Acho que era do meu genro... ela
ININTERRUPTAMENTE! O CAMINHÃO esqueceu por aqui da última vez em que
JÁ VAI LONGE. O GUARDA-CHUVA vieram me visitar...
ESCAPA DAS MÃOS DE FRED E CAI LÁ FRED - Sabe Cloé ... o maior perigo é
FORA... ELE AINDA TENTA ALCANÇÁ- você pegar uma gripe. E sem guarda-
LO, MAS JÁ É TARDE DEMAIS. chuva, é gripe certa! Já contei?
DESISTE... CLOÉ- (PROCURANDO) -
FRED - Que não pagam mais as horas em
FRED - (DESISTINDO) - (APROXIMA-SE que você não trabalha. Se você fica
CLOÉ, QUE VIVE UMA TERRÍVEL doente, não recebe. Isto é porque alguns
CRISE DE TOSSE) - Precisa de alguma ficam gripados de propósito... ganhavam
coisa? Cloé, você precisa de mim para com isto, alguns dias...
alguma coisa? CLOÉ - (Ri) - Estes são inteligentes...
FRED - Mas agora, não... Agora ou você
ELA APONTA, NERVOSÍSSIMA, A trabalha gripado ou...
JANELA ABERTA. CLOÉ - Encontrei! (Ri) - Hei-lo!
(MOSTRANDO O GUARDA-CHUVA E
FRED - Ah, sim!... A janela! IMEDIATAMENTE FRED O APANHA DE
SUA MÃO. LOGO O ABRE E
VAI ATÉ A JANELA... AINDA DÁ UMA EXPERIMENTA) - Serve?
OLHADA PARA FORA E VÊ SEU FRED - Obrigado. Serve...
GUARDA-CHUVA ROLANDO PELA RUA CLOÉ - Então... tudo resolvido, não é?
E SENDO APANHADO POR UM FRED - Mais ou menos...
TRANSEUNTE QUALQUER... CLOÉ - Nem tudo é perfeito...
FRED - O outro guarda-chuva. Era
FRED - (GRITANDO PARA FORA) - Hei, fornecimento da empresa. Vou ter que
você! Devolva o meu guarda-chuva! notificar a perda. De qualquer maneira
este vai funcionar temporariamente. Até
CLOÉ TOSSE. FRED FECHA A JANELA, que possa comprar um novo.(NT) - sim,
ATÉ UM POUCO DESILUDIDO PELA porque a reposição você paga! Além da
PERDA DO GUARDA-CHUVA. multa pela perda... Aquele fazia parte do
uniforme...(NT) - Estes procedimentos
FRED - Você nunca toma nada para a fazem com que o funcionário se sinta
tosse? responsável...
CLOÉ - (RECUPERANDO-SE COM CLOÉ - E você é uma pessoa
DIFICULDADE) - A janela sempre fica responsável...
fechada. FRED - Por isso me preocupo tanto com a
perda do guarda-chuva... (SILÊNCIO) ... E
SILÊNCIO. ELA VAI VOLTANDO AO além do mais, tenho mulher, filhos, casa
NORMAL VAGAROSAMENTE... pra sustentar... sonho que os meus filhos,
pelo menos os que sobreviverem,
FRED - Cloé... cresçam, ganhem dinheiro, estudem,
CLOÉ - Ahnnnn ?? constituam família... envelheçam felizes...
FRED - Você não teria, por acaso... Um enfim, que cumpram o ritual da vida...
guarda-chuva para me emprestar? (EMOCIONA-SE NOVAMENTE) - Sei que
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não é fácil, mas eles não pediram para FRED - Não vou conseguir! Cloé ,
nascer... nem eu... Nem ninguém... venha até... me ajude!
(CHORA)... Quando olho para as pessoas CLOÉ - (TOSSINDO
como você, Cloé, que desistiram, que se DESESPERADAMENTE) - Não posso!
trancaram nos quartos e desistiram de Vou morrer sufocada!!!
experimentar a emigração... sinto tanto VELHO - Socorro!!! Me ajude!!! Não me
medo, de que aconteça o mesmo comigo, deixe cair, por favor!!!
com a minha mulher e com os meus MULTIDÃO - Vai cair!!! Vai cair!!! Vai
filhos. Sinto medo de morrer à míngua... cair!!!
sozinho... FRED - Segure firme nas minhas mãos...
CLOÉ - Pelo menos uma vez por ano, um Cloé, me ajude, por favor...
sujeito desconhecido entra na sua casa e VELHO - Não estou suportando... Vou
faz de tudo para convencê-la a emigrar... cair...!!!
FRED - (DESCONSOLADO) - Você não CLOÉ - (TOSSINDO
vai, não é ? ENLOUQUECIDAMENTE) - Não posso...
CLOÉ - Não. Não posso!
FRED - Nada no mundo poderá FRED - (PARA O VELHO) - Segure
convencê-la pelo menos mais uma vez firme... vamos, segure!
tentar... Saltar pela janela e experimentar MULTIDÃO - Vai cair!!! Vai cair!!!
mais um vôo. FRED - Segure! Segure!
CLOÉ - ...Nada...
O VELHO SE SOLTA E NUM GRITO, CAI
OUVE-SE UM GRITO E UM BARULHO LÁ EMBAIXO... OUVE-SE O SUSPIRO
TERRÍVEL VINDO LÁ DE FORA... UMA FELIZ DA MULTIDÃO QUE TORCE E
VOZ DESESPERADA GRITA NA APLAUDE... DEPOIS A SIRENE... CLOÉ
JANELA! TOSSE... FRED DERROTADO, FECHA A
JANELA... SILÊNCIO...
VOZ - Socorro! Socorro! Alguém me
ajude! Socorro!!! CLOÉ - (TOSSINDO) - Feche bem a
CLOÉ - Na janela! janela, por favor... ficou uma fresta...
FRED - (FECHA BEM A JANELA) - As
CORREM ATÉ A JANELA. UM VELHO malditas coincidências que interpõe entre
QUE TENTOU VOAR, SALTOU DO ALTO nós e os nossos objetivos...
DO EDIFÍCIO E CAIU! ESTÁ PRESO AO CLOÉ - Pelo menos este não vai precisar
PARAPEITO DA JANELA E SE SEGURA de sua ajuda... (RI, SEM GRAÇA) -
PELAS MÃOS, TENTANDO SALVAR-
SE... FRED SENTA-SE DERROTADO, NA
POLTRONA. CLOÉ PERMANECE
FRED - Abra a janela! ENCURRALADA NO CANTO DA SALA,
CLOÉ - (LÍVIDA DE TERROR) - Não COMO SE ESTIVESSE IMOBILIZADA,
posso... a tosse... LÍVIDA DE PAVOR E MEDO...
FRED - Vamos! abra!... precisamos ajudá-
lo! FRED - A multidão é selvagem...
CLOÉ - Você quer me ver nas mesmas
CLOÉ ABRE A JANELA E CORRE condições? Espatifada... moída na
TOSSIR, ENCORUJADA NUM CANTO calçada?!
DA SALA. FRED - Quantas moedas você já me deu?
CLOÉ - Chega a ser monstruoso, que um
FRED - (INDO ATÉ O PARAPEITO DA sujeito entre no seu apartamento e
JANELA E TENTANDO SALVAR O convença-a morrer! Eu teria vergonha de
VELHO) - Espere um pouco... vou ajudá- um trabalho destes...
lo... FRED - (CONTANDO AS MOEDAS) -
VELHO- Socorro!!! Vinte e duas... tem mais alguma
FRED - Segure nas minhas mãos... sobrando?
depressa... CLOÉ - (AINDA LÁ NO CANTO,
ENCURRALADA) - Um dia você também
JÁ SE OUVE UNS BARULHINHOS NA vai ficar velho... e vai sentir medo da
MULTIDÃO, LÁ EM BAIXO, TORCENDO morte, medo da violência... medo de não
PARA QUE O VELHO CAIA!!! ver mais a próxima primavera... vai se
sentir impotente diante dos perigos da
MULTIDÃO - Pule!!! Salte!!! Caia!!! Vai vida e vai dar mais valor a ela...
cair!!! Vai cair!!!
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FRED - Quer comprar mais alguma coisa FRED - Olha... o manual de
que eu trouxe? instruções... (LÊ) - Maré mansa... brisa
CLOÉ - Quando eu era moça, tinha tantas leve... relâmpagos... (PARA ELA) - Ouça,
esperanças... sonhava com um mundo Cloé... você não tem nada a perder...
cor-de-rosa... mas o que a gente aprende
na juventude tem muito pouca importância SILÊNCIO.
quando se fica velho... que horror !!!
FRED - Cloé... você não estaria FRED - Nada... e eu posso ganhar mais
interessada em comprar mais uma coisa? alguma moeda para minha família...
Tenho 39 filhos para dar de comer...
CLOÉ - Pelo menos alguma coisa de mim SILÊNCIO.
você leva, não é ?
FRED - Quer comprar uma maravilha do CLOÉ - ... As ondas do mar, quando
mercado negro? violentas... você tem isso aí?
CLOÉ - Quero. Tudo o que você quiser
me vender... mas não me peça para FRED RI CARINHOSAMENTE E DÁ
experimentar um novo vôo... nem ouse. CORDA NA CAIXA. ELES OLHAM
FRED - Aqui... (VAI ATÉ A MALA) - na ATENTAMENTE PARA ELA, COMO SE
mala de trabalho... trouxe mais uma ESTIVESSEM ASSISTINDO UM FILME
maravilha mecânica fabricada por um COM AS ONDAS DO MAR... A CAIXA
amigo meu assistente... batizei de GIRA, FAZ UM BARULHO ESTRANHO,
MÁQUINA DOS VENTOS E SOLTA UM POUCO DE FUMAÇA E UMA
TEMPESTADES ! LUZ MARAVILHOSA SAI DE DENTRO
CLOÉ - (LÁ NO CANTO. SÔFREGA E DELA... JUNTO COM A LUZ, UM SOM
NERVOSA.) - Para que serve isto? (NT) - REPRODUZ O BARULHO DO MAR
Não interessa para que serve... Pode QUANDO REVOLTADO, COM
colocar em cima da mesa... eu compro ! VAGALHÕES, GAIVOTAS,
Pago e depois você pode ir em embora... TROVOADAS... SÃO SONS E LUZES...
Não denuncio que você falsificou minha IMAGENS QUE VÃO TOMANDO CONTA
assinatura no protocolo... DO QUARTO, ATÉ QUE SE TEM A
FRED - Só faço o preço depois que você EXATA IMPRESSÃO DE QUE O MAR
ouvi-la... TRANSPORTOU-SE LÁ PARA DENTRO.
CLOÉ - Não quero! Só quero pagar e me CLOÉ VAI SE DEIXANDO LEVAR PELO
livrar de você... EFEITO... LEVANTA-SE... CAMINHA
FRED - Paga depois... PELO QUARTO... RI... CHORA...; POR
CLOÉ - O que é ...? SUA VEZ, FRED EMOCIONADO
FRED - São paisagens marítimas... TAMBÉM RI E CHORA COMO UMA
CRIANÇA...
SILÊNCIO. A CORDA VAI SE ACABANDO E DE
REPENTE TUDO CESSA... O QUARTO
FRED - O que é que você quer ouvir e ver VOLTA A SER O DE SEMPRE... A CAIXA
? AINDA OFERECE UM ÚLTIMO TIPO DE
CLOÉ - ... Acho que nada ... SOM E A JANELA SE ABRE
FRED - Eu insisto. VAGAROSAMENTE, COMO QUE POR
CLOÉ - Me vêm você com seus truques MILAGRE... CLOÉ VAI, QUASE
baixos... acha que vai me convencer... HIPNOTIZADA, PARA A DIREÇÃO DA
FRED - Juro. Não é o que você está JANELA E PERMANECE IMÓVEL, COM
pensando... O CORPO LEVEMENTE
CLOÉ - Mentiroso... Não quero ouvir IMPULSIONADO PARA A FRENTE,
nada... você quer me ver morta e COMO SE FOSSE PULAR...
espatifada na calçada lá em baixo...
FRED - É apenas uma atitude... CLOÉ - É linda esta sua máquina, Fred...
carinhosa... linda e me emocionou muito... vale bem
mais do que eu posso pagar... e por um
SILÊNCIO. instante, quase que ela me impulsiona
para o vôo suicida... Sabe, Fred... por um
FRED - Posso dar corda? longo tempo eu me recusei a emigrar por
CLOÉ - Você é quem sabe. Não me um sentimento, quem sabe mesquinho, de
interesso. superioridade diante de todos vocês que
FRED - Venha até aqui... ver e ouvir... instintivamente cumprem este ritual
CLOÉ - Estou bem aqui... mecânico de viajar para as ilhas todos os
anos... o vôo para você não significa
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liberdade, nem é felicidade, nem viagem FRED - (QUASE CHORANDO) - Mas a
é... é apenas mais uma parte da rotina questão, Cloé... é que você não pode...
burocrática da existência... não pode. Tem que experimentar... tem
biologicamente... o que é biológico não é que experimentar o vôo e emigrar este
superior... nós nascemos, comemos, ano. Apesar deste ovo, que com certeza
dormimos, acasalamos, emigramos... tudo só serve para fazer omelete...!
por impulsos biológicos! E até nos CLOÉ - Não!
reproduzimos por uma questão de FRED - Tem sim...
sobrevivência da espécie... (NT) - Veja CLOÉ - Não insista, Fred. Não e pronto!
uma coisa: Você viria até aqui por FRED - Por mim!
piedade? Para livrar uma pobre alma CLOÉ - (NÃO ENTENDENDO) - Como?
solitária do abandono? Não viria... Vem FRED - O que eu disse: tem que emigrar
me trazer este ridículo protocolo para por mim... por este Assistente
garantir seu salário no final do mês. É só Administrativo para Procedimentos de
uma questão profissional. À medida que a Emigração, que você nem conhece direito.
gente vai envelhecendo, Fred... vai CLOÉ - Você já fez o seu serviço... tentou
deixando de responder aos impulsos me convencer, o protocolo está assinado
biológicos... Uns chamam de maturidade, e ainda ganhou umas boas moedas
outros de experiência mas... por muito comigo... Pode ir em embora! Seja muito
tempo deixa de emigrar para abandonar feliz sinceramente, espero que morram
este último dos impulsos biológicos... bem pouco dos seus filhos na viagem.
parque achava que todos os outros tinham Torço mesmo para que não morra
sido abandonados no passado... até que... nenhum!
(NT) - Quero te mostrar uma coisa... ( VAI FRED - Se você não emigrar eu estou
ATÉ A GAVETA E TIRA DE LÁ DE perdido! Por um instante, a minha vida
DENTRO UMA CAIXA ) ... (NT) - Abra! ficou intimamente ligada à sua... e por
FRED - O que tem aqui dentro? uma questão de íntima, burocrática, como
CLOÉ - Abra!!! você diz... eu dependo de você, Cloé...!
CLOÉ - Não entendo...
FRED ABRE A CAIXA E NÃO DEIXA DE FRED - (CHORA AJOELHA-SE AOS PÉS
LEVAR UM SUSTO!!! DELA) - Desculpe... desculpe... eu sou um
SILÊNCIO. sujeito mentiroso, falso, canalha... mau
caráter!
FRED - Um ovo!!! CLOÉ - Você é uma boa pessoa, Fred...
CLOÉ - Faz cinco dias... depois de um FRED - Não! não sou ! você não percebe
ano... que eu tentei seduzi-la o tempo todo?
FRED - Cloé, você botou um ovo? CLOÉ - Para que eu compre as suas
CLOÉ - Botei. bugigangas inúteis... mas eu estou
FRED - (OLHANDO E RETIRANDO O acostumada...
OVO DE DENTRO DA CAIXA)- FRED - Não! Para que você emigre de
Meio torto... irregular... (NT) - É por isso uma vez por todas!
que você esta lendo o livro? CLOÉ - Mas deveriam ter dito a você que
CLOÉ - (PATÉTICA) - Tenho que chocar. seria uma empreitada inútil...
FRED - Ainda por cima, bota um ovo fora FRED - (CHORA) - Se você emigra... se
do tempo... pelo menos não salta pela aquela janela
CLOÉ - Paciência. para tentar o vôo... eu perco o meu
FRED - (OLHANDO O OVO NA LUZ DO emprego tão importante!
FOCO) - Mas não deve ter... alguém aqui CLOÉ - Não entendo mais uma vez...
dentro... Deve ser estéril...! FRED - Simples. Não percebeu? Você
CLOÉ - (TOMANDO O OVO DAS MÃOS não pode ficar nem mais um dia neste
DELE E RECOLOCANDO NA CAIXA E apartamento, Cloé! Esta muito velha e não
NA GAVETA) - Não interessa... o mais serve mais para nada...
importante é que este ovo é uma razão CLOÉ - Eu tenho o ovo!
mais do que forte para que eu não FRED - (INDO PARA A GAVETA E
emigre... nem experimente um vôo inútil... PEGANDO O OVO) - Que ovo? Isto é um
Vou ficar por aqui... mais um tempo, lendo objeto de decoração, não é um ovo
este livro de ficção, chocando meu ovo... verdadeiro... é um fóssil! Não tem nada
vendo da minha janela as pessoas se aqui dentro além de gema e clara... e você
debaterem entre si... tentando sabe...
sobreviver... vou ficando, Fred... vou CLOÉ - Não sei!
ficando... FRED - Finge que não sabe.
CLOÉ - Finjo.
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protege deste mundo miserável, dentro
NUM ATO DE DESESPERO, FRED deste quarto... mas enquanto eu decido a
ABRE A JANELA E ATIRA O OVO LÁ minha vida, você não!!!
FORA... FRED - (MUITO TRISTE) - E eu te odeio,
CLOÉ SOLTA UM GRITO! Cloé, porque tive que me humilhar diante
de você... vendendo quinquilharias,
FRED - Não chore! Você sabe que ele bancando o palhaço desesperado e
não significava nada... Tanto faz... (TN) desfilando a minha vida pequena...
Olha! Existem famílias que precisam deste simples... mas que eu amo muito...e não
lugar para viverem... daí, que eu fui consegui nada!... Te odeio! Te odeio
encarregado da tarefa mais difícil... levá- muito...
la, nem que seja a força, para tentar o vôo CLOÉ - O que você faria se estivesse no
e emigrar... meu lugar?
CLOÉ - Mas se eu tentar o vôo, eu caio e FRED - Eu não estou no seu lugar...
morro...! CLOÉ - Porque não diz que se suicidaria?
FRED - Eu sei... e eles também sabem! Se atiraria no ar numa última tentativa de
Todos morrem um dia, Cloé... morrer é o vôo e num ato corajoso de bondade e
último ato biológico e enterra a emoção e fraternidade...? Já fingiu tanto... o que
o raciocínio... Chegou a sua vez! custa a última tentativa?
CLOÉ - Você não é capaz... eu vi... eu vi o FRED - Porque isto me humilha ainda
esforço que você faz para salvar o velho mais...
que caiu da janela! CLOÉ - Talvez eu fizesse.
FRED - Quem disse que eu fiz esforço? FRED - Não precisa...
CLOÉ - Não?
FRED - Fingi... deixei que ele caísse, na SILÊNCIO.
verdade... FRED VAI PEGAR O PROTOCOLO.
CLOÉ - Eu não acredito. PEGA A CANETA QUE HAVIA
FRED - Se eu não a levo comigo, me ESCONDIDO E OFERECE A ELA.
despedem... se me despedem, meus
filhos não terão mais o que comer, não FRED - Poderia assinar aqui, por favor...
estudarão mais, não terão onde morar... O CLOÉ - Mas já não esta assinado?
que é que eu posso fazer? Trocar a vida FRED - fingi ter assinado por você. Se
de trinta e nove filhotes pela vida de uma descobrissem uma fraude desta, poderia ir
velha estúpida que resolveu brigar com a para a cadeia... seria pior...
vida e não quer voar nem morrer? Uma
velha inútil, egoísta, mesquinha... estéril! ELA PEGA O PROTOCOLO E A
CLOÉ - Você vai me matar? CANETA.
FRED - Não! Mas o que custaria empurrá-
la pela janela abaixo e depois dizer no CLOÉ - Onde assino?
relatório, que consegui convencê-la a FRED - Onde tem um “X” bem grande.
saltar experimentar um vôo? CLOÉ - Ah, sim!... (ASSINA) -
Meu emprego está garantido... Talvez até Engraçado... quando você entrou, era
ganhe uma promoção... Afinal, alguns dos você o carrasco... agora, com esta
meus filhos vão morrer amanhã mesmo, assinatura, sou eu o carrasco!
quando emigrarmos... e são jovens! Se
jovens podem morrer, porque velhos não ELA PEGA O PROTOCOLO ASSINADO,
podem? GUARDA NA PASTA ... VESTE A CAPA,
CLOÉ - Você está dizendo que eu abri a O CHAPÉU E PEGA O GUARDA-
minha janela, conversei e me afeiçoei a CHUVA...
um assassino?
FRED - Não sou assim... não sou assim... FRED - Eu levo o seu guarda-chuva...
mas convenhamos, Cloé... você também CLOÉ - Pode.
deveria pensar nos outros... você não FRED - Mais uma coisa...
serve mais para nada... nem quer servir... CLOÉ - Sim...
CLOÉ - Não emigro porque não quero FRED - Vai comprar a MÁQUINA DOS
morrer antes da hora...! VENTOS E DAS TEMPESTADES?
FRED - Você não interessa mais a CLOÉ - Vou. (NT) - Quanto é?
ninguém... (CHORA...) ... FRED - Até cinco minutos atrás eram 20
CLOÉ - E você está descarregando a sua moedas, agora já são 30! (RI ...)
frustração, seu ódio, sua mágoa de não CLOÉ - (RINDO TAMBÉM,
ser o dono da sua própria vida, em cima COMPLETAMENTE) - Miserável
de mim... uma velha indefesa, que se explorador...
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FRED - (RINDO MAIS) - Acho que trinta e disse que não tenho mais nada para
cinco! vender...
CLOÉ - ( ENTREGANDO AS MOEDAS A CLOÉ - Não... Fique olhando aí de cima...
ELE) - Tome quarenta! tudo pode acontecer quando se pode
FRED - (DEVOLVENDO CINCO) - Não voar...
preciso das suas esmolas... Adeus, Cloé !
CLOÉ - ( PEGANDO AS MOEDAS) - O VENTO AGORA ENTRA COM
Adeus... VIOLÊNCIA PELA JANELA... ELA TOMA
DISTÂNCIA... APERTA OS PARAFUSOS
ELE ABRE A JANELA... PULA NO DA ASA MECÂNICA, AJEITA O
PARAPEITO... ABRE O GUARDA- CAPACETE... COMEÇA A BATER AS
CHUVA... ASAS VAGAROSAMENTE, DEPOIS
MAIS RÁPIDO... VAI ATÉ A JANELA.
CLOÉ - Fred! OLHA PARA BAIXO... TOMA DISTÂNCIA
FRED - Sim?! NOVAMENTE... TOMA MAIS
CLOÉ - Todos temos direito à vida... DISTÂNCIA... BATE AS ASAS ...
(ACENA PARA ELE)... Adeus... PREPARA O VÔO... O VENTO SOPRA
FRED - Uma última coisa... (NT) - Ainda VIOLENTAMENTE PELA JANELA...
está afim de livrar-se daquelas cinco
moedas?
CLOÉ - Por quê ? FIM
FRED - (ABRINDO A MALA) - Tenho aqui Curitiba, 13.10.1993
um apetrecho surpresa aqui, que só
custam cinco moedas .
CLOÉ - (PEGANDO O OBJETO
EMBRULHADO E ENTREGANDO AS
MOEDAS SEM VÊ-LO) - Tome! Obrigado!
Não tem mais nada para me vender?
FRED - Não. Adeus...

FRED LEVANTA VÔO.

CLOÉ - (ACENANDO) - Adeus... Fred...

ELA FECHA A JANELA. VAI ATÉ O


SOFÁ E ABRE O PACOTE QUE
COMPROU. TIRA LÁ DE DENTRO UM
CAPACETE DE PILOTO DE AVIÃO...
LEVANTA-SE, VAI ATÉ A MESA E DÁ
CORDA NA MÁQUINA DE VENTOS E
TEMPESTADES... COMEÇA O SOM DO
MAR, GAIVOTAS E VENTOS... ELA
VESTE O CAPACETE... OLHA-SE NO
ESPELHO, QUE DO CHÃO... DEPOIS,
RETIRA A ASA MECÂNICA DA
PAREDE... OBSERVA O ARTEFATO
COM CUIDADO... VAI ATÉ A JANELA...

CLOÉ - Recomeçou a ventar e chover...

VESTE AS ASAS... ABRE A JANELA... O


VENTO ENTRA COM FÚRIA... ! ELA
SOBE NO PARAPEITO... GRITA A
PLENOS PULMÕES...!

CLOÉ - Fred!!! Fred!!!... Eu sei que você


não foi embora ainda!... Fred! Fred!
responda!
FRED - (RESPONDE LÁ DE CIMA,
VOANDO BAIXO ...) - Ainda estou aqui...
quer comprar mais alguma coisa? Já
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