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SAMAIN, Etienne. Como pensam as imagens.

Campinas, SP: Editora da Unicamp,


2012.

Problemas complexos das singularidades e das complementariedades que levantam


os diversos suportes da comunicação humana: som, imagens, fala, escrita e outras
operações lógicas oriundas de nossos órgãos sensoriais, de que, até hoje, temos
um conhecimento muito relativo ainda (p. 13)
Anne-Marie Christin, para quem a escrita é uma dupla imagem, a de uma figura
que se oferece a nosso olhar e a de uma tela branca – outra imagem (o suporte) –
sem a qual a “figura” não poderia emergir (p. 13)
A comunicação humana como tanto como um fato cultural quanto uma
orquestração ritual, sensível e sensorial, sempre inserida num contexto, isto é,
e, um circuito de fenômenos conectados (p. 14)
Das sociedades ágrafas, assim, passamos por sociedades domesticadas pela
escrita – e sua burocracia – hoje, reguladas por um sistema informático e digital
abertos, os quais nos desnudam, pelo menos três vezes por dia, nos alertam, nos
localizam e nos vigiam, mas nos permitem, igualmente, operações lógicas e
avanços socioculturais potencialmente imensos (p. 17)
É precisamente esse lado positivo da comunicação visual hodierna que a mim
interessa, na medida em que redimesiona nossas relações com as imagens e com
o pensamento por imagem; no mesmo ritmo que vem configurar outros estilos,
tanto cognitivos, lógicos e estéticos (p. 17)
Conferir vida às imagens, e não apenas ao nosso “eu” (self) sempre indevidamente
considerado na cultura ocidental como o eixo central da compreensão das coisas
deste mundo.
As imagens gostam de caçar na escuridão de nossas memórias (p. 21)
Por natureza, são poços de memórias e focos de emoções, de sensações, isto
é, lugares carregados de humanidade (p. 22)
Toda imagem (um desenho, uma pintura, uma escultura, uma fotografia, um
fotograma de cinema, uma imagem eletrônica ou infográfica) nos oferece algo para
pensar: ora um pedaço de real para roer, ora uma faísca de imaginário para sonhar.
De um lado, o pensamento daquele que produziu a fotografia, a pintura, o desenho;
de outro, o pensamento de todos aqueles que olharam para essas figuras, todos
esses espectadores que, nelas, “incorporaram” seus pensamentos, suas fantasias,
seus delírios e, até, suas intervenções, por vezes, deliberadas (p. 22-23)
Toda imagem é uma memória de memórias, um grande jardim de arquivos
declaradamente vivos. Mais do que isso: uma “sobrevivência”, uma “supervivência”.
Roland Barthes: a imagem é um campo de estudo (Studium) e é tambpem um
momento e um espaço de paixões e emoções, o lugar de múltiplas outras memórias
(Punctum)
Responderia sem hesitar: nada. As fotografias podem fazer pensar, refletir, suscitar
debates, voltas ao real ou, ao contrário, escapadas no imaginário, mas essas
imagens mudas, estritamente falando, não pensam em nada. Os fotógrafos que as
produzem pensam, com certeza, mas disso não dizem nada. Aliás, mais do que
mudas, as fotografias são “múticas” (guardam deliberadamente o silêncio), no
sentido de que não revelam nada daquilo que pensam. Eis uma curiosa postura que
autoriza todos os discursos de interpretação e de reinterpretação. Com poucas
palavras, as fotografias fazem falar (p. 25)