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XV ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA ANPUH RS

Construindo um Capitalismo Periférico: os empréstimos externos dos governos


central e paulista destinados às ferrovias, portos e imigração (1889-1930)
Autor(a): Lara Pires dos Santos Feriotto/ Orientador(a): Paulo Cesar Gonçalves
Unesp/Faculdade de Ciências e Letras Campus de Assis

Introdução
A partir da segunda metade do Oitocentos e, principalmente, de Articulados para a agroexportação, no âmbito da economia nacional,
1870, as exportações de café tornaram-se o propulsor da economia consolidaram a posição periférica dos demais estados brasileiros em
brasileira. Através de uma revisão crítica das teorias da CEPAL e da relação ao Estado de São Paulo; e no da economia internacional, a
Dependência, a óptica marxista da segunda metade da década de posição periférica do Brasil em comparação aos países do hemisfério
1970 acerca do desenvolvimento econômico associa o período à Norte.
transição para o sistema capitalista. Para Sérgio Silva (1976), o Outro setor atendido por parte dos empréstimos foi o da
capital estrangeiro foi o condicionante neste processo, quando infraestrutura portuária. Dentre eles, 4 destinaram-se a esse setor e
considerado no âmbito da produção. Pois, é por meio desta visão foram levantados exclusivamente pela União. Acerca dos portos, dentro
que as mudanças estruturais do momento, relacionadas aos meios da concepção de complexos regionais (CANO, 1981, p. 17-23), é
de produção e à força de trabalho, são identificadas. No caso dos importante ressaltar sua forte relação com o desenvolvimento da
empréstimos externos, se considerados apenas no âmbito da economia brasileira. No início do século XX, foram realizadas pequenas
circulação, seus efeitos materiais no território são ignorados: eles, reformas e construções nos portos da República, cujos principais
direta ou indiretamente, foram contraídos para a construção de administrados pelo Governo Central eram os de Recife e Rio de Janeiro.
ferrovias, implantação de serviços públicos e para a própria Diante da responsabilidade do Estado e de seus baixos recursos, o
construção e consolidação do Estado. endividamento externo – realizado em 1903, 1909, 1911 e 1913 – foi
Objetivos recorrido para satisfazer os custos das obras nessas zonas portuárias.
Por fim, o empréstimo paulista de 1904 no valor nominal de £
Com base na perspectiva apontada, o presente trabalho buscou 1.000.000 foi, em partes, realizado a serviço da imigração. Fora ele, o
realizar breve análise dos empréstimos externos contraídos pela contraído em 12 de setembro de 1888, destinado à liquidação da dívida
União e pelo Estado de São Paulo destinados diretamente às interna, também serviu à vinda de estrangeiros, com vista,
ferrovias, portos e imigração durante a Primeira República. especialmente, no fornecimento de braços para a grande lavoura
Material e Métodos cafeeira (GONÇALVES, 2008, p. 204).

A investigação foi fruto da leitura e análise das obras de


Valentim F. Bouças, Dívida Externa: histórico dos empréstimos Conclusões
emitidos pelos Estados (1935) e História da Dívida Externa da União Foi com a ascensão da economia cafeeira que o cenário
(1955), pelas quais foram recolhidas as finalidades de cada operação, socioeconômico brasileiro sofreu alterações e gerou demandas
sintetizadas e organizadas durante a pesquisa. atendidas, sobretudo, pelas importações de capitais. Neste contexto, se
destacam as operações aqui tratadas, por diretamente estarem
Discussão e Resultados associadas ao início do desenvolvimento de um novo modo de
Da totalidade de 27 operações externas realizadas pelo Governo produção.
Central, 16 foram diretamente destinadas a investimentos internos no Houve, porém, ao mesmo tempo, a continuidade do que Caio
Brasil. Já com relação ao Estado de São Paulo, de seus 25 Prado Júnior (1965) denominou de “o sentindo da colonização”, isto é, a
empréstimos externos levantados, 7 possuíram essa finalidade. de uma economia dependente voltada à exportação de produtos
Diante da grande quantidade de informações, foram selecionados os primários aos países centrais. Sendo, portanto, o território brasileiro
empréstimos diretamente destinados às ferrovias, portos e imigração. enquadrado na periferia do capitalismo mundial, onde, ao se situar
A maior parte dos investimentos foi direcionada aos prolongamentos, como principal exportador de café e receptor de capitais estrangeiros,
construções e encampações de ferrovias. Das 23 negociações cumpriu seu papel na chamada Divisão Internacional do Trabalho. E os
investigadas – considerando os empréstimos federais e paulistas –, 12 empréstimos externos, ao financiarem a construção da infraestrutura
destinaram-se às estradas de ferro. Os trilhos, porém, em lugar de para uma economia essencialmente agroexportadora, tiveram papel
contemplarem a comunicação e integração do mercado interno, fundamental neste processo.
voltaram-se, principalmente, à ligação do interior ao litoral portuário.
Bibliografia
Financiamento 1 CANO, Wilson. Raízes da concentração industrial em São Paulo. 2ª ed. São Paulo: T. A. Queiroz,
1981
2 GONÇALVES, Paulo Cesar. Mercadores de braços: riqueza e acumulação na organização da
emigração européia para o novo mundo. 2008. Tese (Doutorado em História Econômica) -
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2008.
3 PRADO JR., C. Formação do Brasil contemporâneo e colônia. São Paulo: Brasiliense, 1965.
4 SILVA, Sérgio. Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976.