Você está na página 1de 192

POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 1

POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 2


POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 3

Fernando Contumélias e Mário Contumélias

POLÍCIA À PORTUGUESA
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 4
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 5

Fernando Contumélias e Mário Contumélias

POLÍCIA À PORTUGUESA
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 6

Livros d’Hoje
Publicações Dom Quixote
[Uma chancela do Grupo LeYa]
Rua Cidade de Córdova, n.º 2
2610-038 Alfragide · Portugal

Reservados todos os direitos


de acordo com a legislação em vigor

© Fernando Contumélias, Mário Contumélias e Publicações Dom Quixote, 2008

Design: Ideias com Peso


Ideia original da capa: FMC – Consultores
Assistente de produção: Anabela Barbosa

Este livro foi composto


com a fonte tipográfica Scala

Revisão: Eulália Pyrrait

1.ª edição: Novembro de 2008


Depósito legal n.º 284 257/08
Paginação: Júlio de Carvalho
Impressão e acabamento: Guide – Artes Gráficas

ISBN: 978-972-20-3716-7

www.livrosdhoje.pt

Por compromisso com os autores a revisão deste livro seguiu o Livro de Estilo do Público. (N. do T.)
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 7

ÍNDICE
11 Prefácio
15 Introdução
19 1. Entregue aos bandidos…
25 2. Duas selvas, lobos e cordeiros…
41 3. Na rua, maltratados e com medo
49 4. Aquilo é só fachada
57 5. Carros, armas, tiros e processos
73 6. Carreira de tiro, pistolas e munições
79 7. Uma profissão filha da mãe
87 8. Da confusão da Quinta da Fonte ao preconceito étnico
97 9. Mulher, polícia e mãe
105 10. Uma esquadra fantasma
109 11. Trabalhar, ouvir e calar
119 12. Em busca da identidade perdida…
129 13. Filhos e enteados
141 14. Sindicatos, lutas e perseguições
159 15. PCP, CDS, o polícia portas e a PSD a Deus dará…
171 16. Um retrato dramático
Mata-te, tens aí uma pistola!
181 Conclusão
Brincar com os polícias…
185 Posfácio
Da Polícia ao V Império…
189 Anexos

.INTRODUÇÃO.
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 8

8 Na onda de um sonho | Mário Ferreira


POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 9

Na onda de um sonho | Mário Ferreira 9

.PREFÁCIO.

Em Portugal temos uma Polícia cujos agentes não dormem


o suficiente para poderem desempenhar a sua missão na ple-
nitude das suas capacidades físicas e mentais, e em condições
de segurança. Em vez disso, são obrigados a fazer gratificados 1,
entre turnos de serviço, se quiserem levar para casa um salá-
rio que fique mais longe do limiar de pobreza. Comem quando
podem, nunca têm hora fixa. A maioria dos agentes ao serviço
da PSP chega do interior do país, para engrossar fileiras nas
esquadras das regiões de Lisboa e Porto. Nem sempre é fácil
manterem-se em contacto com familiares e amigos, porque
dinheiro e tempo são coisas que não abundam, quando se tra-
balha na Polícia de Segurança Pública. Acabam por viver iso-
lados, limitados ao universo da Corporação, que, não raramente,
lhes é madrasta. À entrada, contam com a arma, um distintivo
e a ordem de giro. Pouco mais.
Os meios que equipam a nossa Polícia são fracos. A maio-
ria deles falha nos piores momentos. «Não pode depender-se

1 Serviços de segurança prestados a particulares, por agentes da PSP, fora das


horas de serviço, com cobertura da Corporação e que constituem uma receita extra
que lhes é essencial.
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 10

10 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

muito deles», desabafa um dos agentes entrevistados. Só no


caso dos carros, as avarias em perseguição, por exemplo, são
recorrentes. Os homens que falaram connosco contam vários
exemplos, com um encolher de ombros que não esconde o
embaraço natural que sentem. Dizem que «é a polícia à por-
tuguesa». Mesmo assim, dão o melhor deles próprios à Cor-
poração e ao país. Porque «só deve entrar para a PSP quem
estiver preparado para viver a Polícia, não quem andar à pro-
cura de emprego».
Ao iniciar este trabalho, não tínhamos uma imagem sufi-
cientemente clara das condições em que vivem a generalidade
dos efectivos que formam a PSP. Descobrimos que estão
longe das garantidas – com justiça – ao Grupo de Operações
Especiais [GOE] ou ao Corpo de Intervenção [CI]. Fora des-
tes Corpos de élite não há formação suficiente ao longo da
carreira e os processos [disciplinares e/ou crime] tornam-se
parte integrante da vida de quem desempenha, e quer conti-
nuar a desempenhar, funções. Dizem que a pressão com que
lidam diariamente é intensa, e que são mal apoiados pela Cor-
poração, à qual dedicam grande parte das suas vidas. Por
vezes, sentem-se até perseguidos, como nos deram conta.
Os polícias estão numa profissão de desgaste rápido, mas
a reforma [na PSP] só chega aos 60 anos. Não parece huma-
namente possível, num Estado de Direito que se preze, pedir
a cidadãos com trinta e mais anos de um serviço altamente
desgastante para se manterem no activo até à actual idade
de reforma. Sem dormirem o suficiente, com horários de
refeição irregulares, a aceitarem gratificados apesar do impacte
que tudo isso causa às suas famílias; por vezes com medo de
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 11

Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 11

tudo e todos, como os seus próprios testemunhos deixam


claro neste livro.
Não é desejável que se exija a homens com os problemas
de saúde típicos de quem – como os polícias – passa grande
parte do tempo ao relento, em pé, a lidar com o pior lado da
sociedade, e constantemente sob a pressão psicológica carac-
terística da profissão, para zelarem pela segurança dos cida-
dãos até uma idade tão avançada. No entanto, convém recordar
que parte significativa dos efectivos da PSP tem idades acima
dos 45 anos...
O presente trabalho integra várias histórias de polícias,
contadas pelos próprios. Algumas delas cheias de humor,
apesar do lado inevitavelmente dramático. No seu conjunto,
traçam um retrato cheio de actualidade da PSP que temos,
na ponta final da primeira década do século XXI. Não teria sido
possível levar a cabo este Polícia à Portuguesa sem a cola-
boração de agentes, chefias e oficiais, dos quais – na maior
parte dos casos – se oculta a identidade. Teria sido bem mais
difícil este nosso trabalho sem a estreita cooperação do pró-
prio Sindicato dos Profissionais de Polícia – SPP.
É essa colaboração estreita, e exclusivamente interessada
em melhorar o estado da Polícia que temos, bem como a ami-
zade com que fomos sendo acolhidos por todos, que quere-
mos agradecer especialmente. No fim, resta-nos apenas uma
nota particular: podem existir dúvidas sobre a qualidade e
quantidade dos meios ao serviço da PSP, ou até sobre o apoio
e dignidade que a Corporação está em condições de garantir
aos seus efectivos; mas um dos trunfos mais fortes da Polí-
cia de Segurança Pública permanece a salvo, na qualidade
imensa da matéria humana que lhe dá forma. Pessoalmente,
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 12

12 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

nunca vimos homens tão dedicados ao espírito de corpo


como aqueles que entrevistámos, nem tão capazes de se sacri-
ficarem, e às suas famílias, para desempenharem melhor
uma profissão que abraçaram e cujos contornos reais têm
permanecido desconhecidos para a generalidade de todos
nós, cidadãos. Enquanto for assim, haverá certamente razões
para depositarmos esperança na estruturação de uma Polícia
melhor e, sobretudo, para estreitarmos laços com estes autên-
ticos heróis desconhecidos, que são os polícias da Polícia de
Segurança Pública!
Por isso, a todos aqueles que aceitaram dar – literalmente –
a voz a este trabalho, Obrigado!

Fernando M. Contumélias
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 13

Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 13

.INTRODUÇÃO.

Talvez este livro devesse chamar-se A Polícia Portuguesa,


Vista por Polícias Portugueses, porque é essa, afinal, a natu-
reza do seu conteúdo, resultado de muitas dezenas de horas
de gravação de conversas e entrevistas semidirigidas com
agentes da PSP; quase verdadeiras histórias de vida profis-
sionais.
Com um Verão quente do ponto de vista da criminalidade,
como foi o nosso, muito por responsabilidade do protago-
nismo que os órgãos de comunicação de massa, com desta-
que para as televisões, conferiram a este tipo de incidentes,
face a uma «agenda» pobre em notícias de outras áreas da
sociedade portuguesa, uma questão se nos colocou.
Nas notícias, ouvíamos falar o ministro, os sindicatos, os
comentadores, os especialistas, o simples cidadão. Mas nem
uma voz do terreno. Nem um polícia, capaz de nos dizer o que
sente um homem (ou uma mulher) que, embora anonima-
mente, está no centro da actualidade mediática e, sobretudo, nas
ruas, com bom ou mau tempo, enfrentando situações difíceis.
Sem embarcarmos na ideia de «Onda de Criminalidade»,
preocupante e assustadora, quisemos saber o sentir dos polí-
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 14

14 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

cias. Que meios lhes dão para, na rua, defenderem a segu-


rança dos cidadãos, cada dia que passa considerada um bem
mais desejado? Que apoios sentem, vindos das hierarquias?
Que motivação os move? Que inseguranças atravessam o seu
dia-a-dia? Que representação têm, eles próprios, da Polícia
que servem?
Procurámos as respostas a estas questões e delas aqui
damos conta; o leitor vai encontrá-las nas páginas seguintes.
Mas, mais do que isso, e para lá das histórias quase anedóti-
cas, das dificuldades quotidianas que estes homens e mulhe-
res, ao serviço da segurança pública, têm de enfrentar com
meios em regra limitados ou inexistentes, o que aqui fica são
testemunhos sinceros, pontos de vista de pessoas que, pro-
fissionalmente, são agentes da Polícia.
Talvez que uma parte da solução para as questões de inse-
gurança que as sociedades modernas enfrentam quotidiana-
mente esteja em olharmos para aqueles cuja tarefa é garantir
essa mesma segurança, como seres humanos, antes de os ver-
mos como fardas . Se seguirmos o que aqui dizem, talvez
possamos igualmente, pelo menos, comungar da dúvida do
sociólogo Paquete de Oliveira, no Jornal de Notícias 1, quando
sustentava: «Não tenho a certeza de que o país precise de
mais polícias. Precisa, sim, de polícias técnica e organizacio-
nalmente mais bem preparados e com meios tecnológicos
mais sofisticados. Na prevenção e na investigação. Mas,
sobretudo, polícias mais bem pagos.» Cremos que esta será
uma ideia consensual, partilhada por polícias, sindicatos,

1 Paquete, O., «Violência, substância perigosa», in Jornal de Notícias, edição de


2008-08-28.
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 15

Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 15

hierarquias e pelo próprio Ministério da Administração


Interna – MAI.
Mais uma palavra para esclarecer que o que se segue se
reclama como resultante daquilo a que se vem chamando
hoje «Jornalismo Cívico», ou, dito de outra maneira, «Jorna-
lismo Comunitário». Uma forma de jornalismo que aposta
na informação-conhecimento, como modo de dar à comuni-
dade instrumentos para a acção cívica, e assim contribuir para
a democratização da democracia. Uma maneira de fazer jor-
nalismo que sabe que o real não deve ser visto de forma bipo-
lar, porque contém em si uma pluralidade de entendimentos.
Não é, portanto, este um livro assente no chamado «Jor-
nalismo de Investigação», porque não procurámos factos e a
sua confirmação mas, sobretudo, sentires, emoções, manei-
ras de ver a realidade pelos polícias, e foram cerca de duas
dezenas aqueles que ouvimos. Evidentemente que, assim
sendo, onde nos surgiram acusações não comprovadas, e isso
aconteceu, diga-se em abono da verdade, muito raramente,
passámos adiante, sem tocar no assunto.
Também não é este um livro de Sociologia, embora a curio-
sidade sociológica tenha andado a par com a curiosidade jor-
nalística durante toda a sua gestação e laboração; contudo,
temos a pretensão de que possa vir a ser útil a futuros estu-
dos das Ciências Sociais, nesta área.
Finalmente, queremos deixar claro que, por uma questão
de ética, que envolve a protecção das nossas fontes, aqui blin-
damos todos os nossos interlocutores com um anonimato que
visa evitar-lhes problemas futuros, mesmo que eles pudessem
não surgir; é um problema de cuidado, que sentimos ser nossa
responsabilidade. Só excluímos desta «protecção» os sindica-
POLICIA PORTUGUESA 0 PAG 10/23/08 11:28 AM Página 16

16 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

listas que ouvimos; esses, pela sua própria condição, serão os


únicos aqui identificados, todos os outros são referenciados
com nomes fictícios… A uns e outros agradecemos a colabo-
ração prestada para fazer da PSP uma realidade conhecida
dos leitores/cidadãos que quiserem ler este livro de uma
forma mais próxima do real do que aquela que estava, até
agora, ao seu alcance.

Mário Contumélias
.1.
ENTREGUE AOS BANDIDOS…

«Isto está a bater no fundo. Agora, até os elementos da


Polícia são assaltados, como aconteceu outro dia, com dois
colegas. Ao que chegámos… Só falta mesmo assaltarem as
esquadras…»

S
O desabafo é do «Agente Lopes». Tem 33 anos, está há
nove na PSP, na área metropolitana de Lisboa. É um homem
de estatura média, semelhante à da maioria dos portugueses.
Nem peso a mais, nem peso a menos, e de uma simpatia
desarmante. É discreto e está longe de ser um conversador,
mas a franqueza com que nos confessou as dores que sente
por estar nesta Polícia acabou por tornar-lhe a conversa mais
fluente. E tem uma explicação para a situação que acaba de
definir: «O problema foi criado por sucessivos governos que
deixaram a Polícia praticamente ao abandono. Embora este
ministro1 esteja a fazer um esforço…»

1 Ministro da Administração Interna, Rui Pereira.


18 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

Neste quadro, «claro que as pessoas de bem sentem medo


e os únicos a quem podem pedir apoio são os agentes da Polí-
cia. Cada vez mais, as pessoas acreditam na Polícia, a má ima-
gem que tinham da Polícia está a passar. Também é verdade
que quem vem agora para a Polícia já é mais filtrado e tem
outro tipo de formação, que dantes não tinha, e que a popu-
lação em geral já está mais sensibilizada.»
Contudo, esta crença dos cidadãos na Polícia, de que fala
o «Agente Lopes», tem que se lhe diga. O «Agente Raul»,
23 anos, magro, estatura média, está apenas há pouco mais de
um ano na corporação, mas já sente que a ideia que o levou
à Polícia não tem correspondência com a realidade. Também
ele toma parte na conversa e é claro no que diz: «Sinto-me
um pouco com as mãos atadas. Não podemos fazer pratica-
mente nada, mesmo que seja o correcto; estamos desprote-
gidos pela entidade que deveria proteger-nos. E temos receio...»
O «Agente Lopes» confirma: «Temos sempre de pensar duas
vezes, não só no que vamos fazer, como nas pessoas que nos
rodeiam, como também nas consequências que iremos ter,
mesmo que o nosso procedimento seja o correcto.»
É certo que os agentes da PSP com quem conversámos, e
não apenas estes dois, temem pela sua segurança, pela sua
vida; sabem que estão numa profissão de risco. Mas isso não
é o pior, o pior é que se sentem desapoiados. Com a sua expe-
riência de nove anos de serviço, o «Agente Lopes» queixa-se:
«Se houvesse um apoio da parte da nossa instituição, tudo cor-
reria melhor. É certo que há serviços em que nem sempre agi-
mos correctamente… O problema só surge quando agimos
correctamente e não há ninguém que nos defenda; mas
quando procedemos incorrectamente, aparece logo quem nos
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 19

tente enterrar mais. A maior preocupação deles é meterem-


-nos um processo, quando deviam ser os primeiros a defen-
der quem anda no terreno…»
E o pior é que o «Agente Lopes» sonhava ser polícia «desde
miúdo. Queria defender as pessoas, lutar contra as injusti-
ças. Ajudar aqueles que, com muito esforço, conseguem um
salário pequeno e depois ainda são roubados. É para isso que
a Polícia serve, para ajudar as pessoas», diz convicto. Mas fal-
tam os meios…
Os dois agentes estão na mesma esquadra. O território que
lhes cabe policiar é muito extenso, envolve várias estações e
meios de transporte público, mas os efectivos não chegam
para as encomendas. «Aqui há uns dois anos, a nossa esqua-
dra tinha, mais ou menos, 60 elementos. Neste momento
somos 39/40 homens, incluindo os escriturários, o coman-
dante e o adjunto, ou seja, o pessoal que não sai da esquadra».
Na rua temos, «normalmente, uma patrulha, no máximo
duas». Isto é, «dois agentes, o graduado e o motorista.»
E, volta e meia, à noite, a situação é ainda de maior fragilidade:
«o nosso horário é da uma às sete da manhã, e, por vezes, tem
que entrar um elemento para podermos ter a esquadra
aberta, porque a esquadra é para estar aberta 24 horas. Ficam
lá apenas dois homens, o graduado de serviço para receber
denúncias, e um motorista. Ninguém mais para a linha.»
Portanto, a vasta zona de cobertura desta esquadra da área
metropolitana de Lisboa não está verdadeiramente assegu-
rada, mesmo que situações mais complicadas permitam pedir
ajuda a outras esquadras… «Lógico que não está. Precisáva-
mos de ter, todos os dias, no mínimo, três patrulhas, uma em
cada ponta e outra no meio, especialmente entre as 19 e as
20 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

02 horas. Isto para não falar nos fins-de-semana. É que, de


sexta-feira para sábado, a situação é muito complicada para
uma só patrulha. O resultado é que há situações em que não
temos outra alternativa senão deixarmos para trás algumas
ocorrências de menor gravidade.»
Pode ser, mesmo assim, difícil de perceber que numa
esquadra com 40 agentes apenas uma patrulha ande na rua,
procurando cobrir um território tão extenso. A explicação é
simples: o horário da PSP é de seis horas diárias, o que sig-
nifica que os 40 agentes são divididos por quatro turnos, por-
tanto, dez polícias por turno «fora aqueles que estão de folga
ou de férias e os que metem baixa. Conclusão – no máximo
dos máximos conseguimos arranjar quatro elementos para
andar na rua.» Como é que se resolve o problema?
O «Agente Lopes» pensa por instantes e responde: «Pro-
vavelmente, não é nestas pequenas esquadras que está mal,
o problema são as Direcções Nacionais e o Comando, onde,
provavelmente, estão efectivos a estorvarem-se uns aos outros,
enquanto nós, nas esquadras, temos falta de homens». E é
tudo, não há polícias noutras funções? Por exemplo, na Divi-
são de Segurança? A resposta não se faz esperar. «Se for ver
os efectivos que a Divisão tem em instalações diplomáticas e
a fazer segurança a membros do governo… Por exemplo,
todos os ex-Presidentes da República têm um agente, os
ministros idem, as embaixadas têm de um a quatro elemen-
tos, como no caso da Embaixada dos Estados Unidos. A Divi-
são de Segurança deve ter à volta de 300 efectivos, ou mais,
nesses serviços. Mas há outra questão…»
«Estamos para aqui a falar de Lisboa, onde estão os efecti-
vos quase todos, mas noutros comandos não têm ninguém. Se
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 21

falarmos de Bragança, de Coimbra e de outras cidades, aquilo


está entregue aos bandidos; desde que cá ando não me recordo
de ir um polícia para Castelo Branco ou Bragança. Em Coim-
bra, por exemplo, há alturas em que sai um carro, às vezes dois,
com o condutor e o agente, para patrulhar a cidade toda,
incluindo a periferia. É complicado. Porém, quando acaba
uma escola de 1000 homens, 800 vêm para Lisboa.»
Mesmo assim, «uma das principais desmotivações» exis-
tentes na PSP «é a descentralização. As pessoas deixam de
poder estar com a família, passam a ter dois dias de folga para
irem a casa e torna-se complicado andar de um lado para o
outro. Tanto mais que os custos correm por nossa conta»,
explica o «Agente Lopes.» O «Agente Raul» confirma: «Todas
as semanas vou ao Porto, no Intercidades, e o desconto que
tenho é igual ao que se tem com o Cartão Jovem; nem uti-
lizo o cartão da Polícia, utilizo o Cartão Jovem.»
Mas fala-se também de outro tipo de carências. Diz-se que
há polícias que não têm algemas, ou que andam com a farda
numa desgraça. Há alguma verdade nisto?
O «Agente Lopes» responde sem hesitações: «As algemas,
tenho-as porque fui eu que as comprei, não foi a Polícia que
mas deu. Mas não são só as algemas. Posso dizer-lhe que
ando vestido da cabeça aos pés, mas a única coisa que a Cor-
poração me deu foi a arma e as munições, mais nada. Sai tudo
do meu bolso, desde as botas até ao chapéu. Se vou ao Far-
damento da PSP nunca há nada e se vou usar aquilo que a
Polícia tem, fico sujeito a, um dia, andar todo esfarrapado.
Como não gosto de andar esfarrapado, tenho de gastar dinheiro
do meu bolso e não é barato. Por exemplo, as botas custaram-
-me 80 euros, um blusão de cabedal 160 euros...»
22 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

Mais novo, há pouco tempo na PSP, o «agente Raul» con-


firma: «Não podemos andar mal uniformizados mas eles tam-
bém não nos fornecem material.»
Então não há um subsídio para a farda?
É novamente o «Agente Lopes» quem responde: «Há um
subsídio de fardamento, de 6 euros por mês, mas que depois
nos descontam. São cerca de 72 euros por ano. Ora, eu com-
prei, fora da Polícia, como já disse, um blusão de cabedal, que
me custou 160 euros.» «Fora da Polícia, porque dentro da
Polícia pode custar duzentos e tal euros», reforça o «Agente
Raul».
Crítico em relação à PSP e aos sucessivos Governos, des-
contente com o grau de apoio que a Corporação dá aos seus
efectivos, que são «um pouco desprezados», nem assim o
«Agente Lopes» está arrependido da escolha profissional que
fez. «É uma aventura. Entrei por gosto e, se fosse hoje, con-
corria novamente, porque foi sempre a profissão que quis ter.
Acredito que a maioria de nós não saiu ainda da Polícia pre-
cisamente pelo gosto que temos pela profissão.»
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 23

.2.
DUAS SELVAS, LOBOS E CORDEIROS…

«Podemos dizer que o pessoal, quando entra ao serviço, está


abandonado. Temos uma selva cá dentro, quando os nossos
superiores nos tomam de ponta, e, depois, outra cá fora,
como se não bastassem os problemas familiares. É uma vida
difícil…»

S
«O polícia tem um ordenado semelhante ao do cidadão,
paga os seus impostos de igual forma, não pode aceitar qual-
quer tipo de ajuda, se não, está a ser corrompido. Como tem
de viver do salário, recorre aos gratificados para se ajudar,
mas isso significa fazer horas a mais. Dantes, o horário era
de oito horas, hoje é de seis mas temos de estar uma hora
antes e uma depois, o que vai dar às oito horas; a seguir vai
fazer-se um gratificado, no mínimo quatro horas, com mais
uma hora antes e outra depois. No total, dá cerca de 14 horas;
acrescentemos mais três horas para as refeições, dá dezassete
horas. Sobram sete horas. Nestas sete horas ele terá, também,
os seus assuntos pessoais… não sei quantas horas lhe sobram
24 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

para dormir», é esta a fotografia tipo passe que traça da vida


de um polícia o «Oficial superior Paulo1», há 28 anos na PSP,
para onde entrou após ter deixado as Forças Armadas.
Esteve ao serviço do Grupo de Operações Especiais da PSP
– GOE – e, apesar de estar na casa dos cinquenta, os anos não
lhe tiraram o porte atlético e o ar de quem está permanente-
mente preparado para entrar em acção, em perfeita forma
física. Tem um ar sério, por vezes quebrado pelo sorriso
franco. É um conversador imparável, cuja experiência de
campo e a agenda de contactos, até na área política, acabam
por facilitar a forma transversal como aborda os assuntos.
É metódico e cuidadoso (vem preparado para a entrevista com
dossiers organizados, que suportam a conversa) e tem uma
capacidade de raciocínio que cativa pela imensa facilidade
com que se organiza para responder às perguntas que lhe
colocamos. Explica as duas selvas…
«O nosso pessoal tem muitos problemas, não só na rua,
como dentro da própria instituição. A relação com o cidadão
não é fácil, as leis dificultam cada vez mais a actuação da Polí-
cia; se o polícia actua bem, passa despercebido, é o seu dever;
se alguma coisa corre mal, é chamado à atenção por todos, é
alvo de um processo disciplinar e eventualmente criminal,
tem de arranjar um advogado. Além disto, há ainda a ques-
tão dos vencimentos, que são baixíssimos, e o facto de mui-
tos estarem afastados da família; tudo isto se reflecte na sua
vida pessoal. O polícia não tem ambiente. Ora, quando vai
para um simples serviço de policiamento leva com ele toda

1 Nome fictício.
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 25

essa carga negativa, que pode extravasar a todo o momento,


como qualquer pessoa que às vezes se exalta. Como resposta
tem, normalmente, um processo disciplinar, em vez do apoio
da hierarquia e do apoio psicológico, que deveria estar dispo-
nível no dia-a-dia mas que nunca houve, embora hoje já exista
um ou outro sindicato, que dá esse apoio.»
O «Oficial superior Paulo» dá um exemplo concreto desse
«abandono» a que, segundo diz, são votados os polícias:
«Recordo-me de um Chefe de esquadra, em Queluz, que, a
dada altura, devido a umas detenções que tinha feito, tinha
de dormir no telhado da casa dele, armado com uma G3, para
proteger a família; não podia ter um polícia à porta para pro-
tecção. Em contrapartida, havia comandantes, e não só mili-
tares, que vieram para a Polícia, que chegaram a pôr um
agente à porta da casa da namorada»...
O nosso interlocutor vai mais longe e recorda velhos tem-
pos em que, afirma, muitos militares vinham para a PSP
«porque tinham direito a dois carros e a dois condutores, um
para ir às compras com a mulher e outro para quando ele pre-
cisasse; no Exército, às vezes nem os coronéis tinham carro,
aqui um major era um senhor. Os próprios diziam que era
bom estar na Polícia pelas regalias e privilégios, que ainda
hoje existem. Há oficiais que são suspensos de funções e a
quem dão um carro para se deslocarem».
«Mas quando são necessários automóveis para o serviço,
não há. Ou melhor, há mas com volantes que dão meia volta
em falso, sem inspecção porque não têm condições, com os
turbos que deitam tanto fumo que não se vê nada atrás, com
suspensões avariadas. Depois, se, por exemplo, numa perse-
26 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

guição vão contra um semáforo, o processo é contra o


agente…»

S
Pode dizer-se que a PSP é uma instituição em crise, na
medida em que está ainda a viver uma fase de indefinição do
modelo a encontrar. Por um lado, é a própria Corporação que
deixa de ter cariz militar ou paramilitar, para se transformar
numa instituição cívica. Por outro, é a estrutura hierárquica
superior, que, acompanhando o processo, ao invés de ser asse-
gurada por oficiais vindos das Forças Armadas (FA), desig-
nadamente do Exército, passa a ser ocupada por oficiais com
formação superior em Ciências Policiais. Ora, durante esta
transição convivem todos – oficiais vindos das FA com ofi-
ciais saídos do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segu-
rança Interna, e ainda com oficiais tarimbeiros , digamos
assim. São, no fundo, três «escolas», três maneiras de ver e
representar a PSP, três lógicas de acção. O resultado é pouco
harmónico e excessivamente conflitual.
O «Oficial superior Paulo», ele próprio apanhado no seio
desta transição, é, pela sua própria experiência, elucidativo
sobre as transformações e os conflitos que com elas convi-
vem, no seio da Polícia. «Entrei em 1980 para o curso de
guardas da PSP. Na época, tinha saído da tropa como oficial
miliciano, havia dificuldades de trabalho, e, como tal, pensei
numa perspectiva de emprego garantido. Por outro lado, tive
sempre a ideia de poder ajudar as pessoas e esperava concre-
tizar, na PSP, esses meus anseios.
«Na altura, tínhamos os Comissários de Polícia, que não
eram oficiais; os chefes de esquadra, e os oficiais dos quadros
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 27

das Forças Armadas. Inicialmente, pensei que iria ter uma


certa afinidade com os militares, sempre eram camaradas de
armas; mas fui visto com outros olhos. Os comissários
seriam meus subordinados, se eu estivesse com o meu posto
de oficial das FA; isso notou-se na escola de recrutas. Eu,
como oficial das FA, seria Comandante da Escola de Alista-
dos (o comandante da escola era Major), mas comecei como
recruta. Uns comissários, com habilitações limitadas, viam-
-me com respeito, outros, com alguma inveja; os militares
olhavam-me como um rival. Primeiro, porque eu era, cultu-
ralmente, militarmente e tecnicamente, mais habilitado do
que eles, pois tinha tirado vários cursos nas FA (fui dos pri-
meiros milicianos a tirar cursos, que poderiam servir dentro
da força militar ou policial); sentiam-se incomodados com a
minha presença, pois tinha mais know-how do que eles. Mas
havia alguns comissários que me viam como o futuro da PSP,
o que me incentivou a trabalhar para voltar rapidamente a ser
Oficial.
«Como já disse, a minha perspectiva era entrar numa
Força que me motivasse a ajudar as pessoas, notei que não
era bem assim; antes de poder ajudar alguém, comecei a ter
necessidade de me ajudar a mim próprio. Eles não queriam
homens muito habilitados, para não lhes causarem proble-
mas, o que ainda hoje acontece. Aliás, quando os jovens agen-
tes começaram a licenciar-se, foi complicadíssimo, pois eram
perseguidos pelos Comandantes; bastava dizerem que anda-
vam na Universidade (facto que alguns escondiam) para fica-
rem marcados e debaixo de olho. Tinham imensa dificuldade
em tirar dias para os exames, até que o então Comandante
28 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

da PSP, General Almeida Bruno, determinou a concessão de


dispensas para a preparação de provas e exames.»

S
«Quando acabei o curso de formação de guardas, fui colo-
cado em zona de serviço a Embaixadas. Era um pouco dife-
rente do policiamento de rua, não podíamos sequer dizer
bom dia às pessoas, se não tínhamos um processo disciplinar.
Se o subchefe de ronda nos encontrasse a falar com um cida-
dão, não nos perguntava o motivo, tínhamos era um processo
disciplinar de imediato, por estarmos distraídos. Digo isto
para se perceber a mentalidade que existia nessa altura, na
PSP. A formação desses superiores também era pouca; os
cursos eram dados por pessoas praticamente autodidactas,
algumas vindas do Ultramar e que, quando chegaram, para
serem chefes ou subchefes, fizeram um simples teste escrito
e foram promovidos.
«Os militares que estavam na PSP, na sua maior parte,
eram os que o Exército não queria e dispensava-os para a Polí-
cia. Ao longo dos anos, vários militares voltaram para o Exér-
cito, chegaram até a generais; seriam os melhores, os outros
ficaram na Polícia. A PSP nunca foi buscar os bons profis-
sionais ao Exército. Os militares que passaram para a PSP
continuaram a ser militares; “não basta vestir a pele de cor-
deiro a um lobo para haver só cordeiros”. Vestiram a farda
da PSP e os jornalistas passaram a dizer que já não havia mili-
tares na Polícia. Mentira, o cunho militar não está na farda
mas no interior da pessoa. Talvez por isso, ainda hoje, esta-
mos um pouco atrasados civicamente. Um pequeno exemplo
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 29

desse ‘militarismo’? A continência, que já não é obrigatória,


mas que alguns superiores ainda exigem.
«Esses militares não se actualizaram. Ainda que alguns
tenham ido tirar um curso de oficial superior ao Exército, à
Academia Militar, para serem promovidos nos postos mili-
tares, não tiraram qualquer curso de Polícia. No entanto,
foram promovidos a Oficiais de Polícia. Neste momento,
temos Superintendentes e Superintendentes-chefes, sem
nenhuma formação específica ou especializada em Polícia.
Em contrapartida, polícias como eu e outros, habilitados até
com formação feita no estrangeiro e cursos superiores, temos
de fazer vários cursos internos para conseguir chegar ao
mesmo posto a que os outros chegaram. Isso trai as expec-
tativas. Os polícias entram com a ideia de fazer o melhor pos-
sível, de ter a sua vida cá dentro, procurando cumprir a sua
missão, e acabam por se ver completamente bloqueados e
ultrapassados, quando querem ascender aos postos superio-
res. Para isso são seleccionados, muitas vezes, pela cor da
pele, pelo sexo, pelos padrinhos, pelos tios…
«Tudo isto contribui, também, para a desmotivação dos
efectivos. O nosso pessoal tira uma licenciatura, pensa que
com isso pode ser promovido e até assumir cargos superio-
res e concorrer em igualdade de circunstâncias com os que
concorrem ao Instituto Superior de Ciências Policiais e Segu-
rança Interna (antiga ESP). Não é assim. Há um curso supe-
rior para Intendentes, mas os de carreira base, que são
licenciados, às vezes com mais do que uma licenciatura, não
podem concorrer, porque o posto deles, da tal “carreira base”,
só lhes permite subir até subintendente. Não lhes dão a pos-
sibilidade de se prepararem para concorrer, de participar num
30 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

concurso aberto a todos os Subintendentes. Temos o Subin-


tendente licenciado do Instituto Superior de Polícia e temos
o Subintendente de carreira base; este último, independen-
temente de ter uma licenciatura, não pode concorrer a cur-
sos superiores. É uma luta antiga…»

S
O quadro que o «Oficial superior Paulo» traça da Corpo-
ração policial não é tranquilizador, muito pelo contrário. Fica-
mos a saber que o filme não se resume à luta entre bons e
maus, polícias e bandidos, e que, no mínimo, ela decorre num
quadro de conflitualidade interna entre os bons, que prejudica
o seu desempenho de maneira, por vezes, até eventualmente
perversa, na luta contra os maus. Podemos, até, pensar que,
para além dos meios e dos treinos, falta uma ética reguladora
das relações internas no seio da Corporação, que faça dela um
todo coeso, capaz de enfrentar os desafios e os perigos do pre-
sente, que serão, inevitavelmente, maiores no futuro. E o mais
inquietante é que este quadro é confirmado, ao longo deste
livro, pelos depoimentos de outros actores, referidos nos capí-
tulos seguintes. É uma visão demasiado partilhada para ser
fruto das circunstâncias ou de qualquer tipo de preconceito.
Mas voltemos a ouvir o «Oficial superior Paulo», que, com
o seu relato, escurece ainda mais o quadro, já de si um tanto
negro, da situação na PSP…
«Neste momento, as relações entre oficiais, na Polícia, tra-
duzem-se no “salve-se quem puder”. O espírito de corpo é
exíguo, há uma luta desenfreada para ocupar cargos superio-
res e posições de privilégio. Os ‘militares’ estão de saída, vão
saindo aos poucos; os jovens, que já são Intendentes, lutam
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 31

entre si para caírem nas boas graças, para ascenderem aos


cargos superiores. Lembro-me que, há uns seis anos, um
Subintendente já queria ser Director Nacional da PSP; era
filho de um Coronel, tinha estado nos Pupilos do Exército,
entendia que tinha bagagem para o cargo, mas, entretanto,
saiu e foi para uma empresa privada.
«Hoje há uma disputa entre os três primeiros cursos que
fizeram a formação de promoção a Intendentes. Do primeiro
e do segundo, já foram afastados uma boa parte; os outros
fazem uso dos trunfos que têm para conseguirem melhores
colocações, lugares de comando, para se prepararem para os
cargos superiores. Não me espanta que, daqui por quatro anos,
um desses jovens, que agora é Intendente, passe a Superin-
tendente e ascenda a Director Nacional da PSP… Falo dos ofi-
ciais vindos do Instituto, mas temos também os da carreira
base, que gostariam ser mais do que Subintendentes. Con-
sidero que têm toda a legitimidade; são licenciados, têm for-
mação própria e específica. Deviam criar um concurso a que,
também, pudessem concorrer com as suas habilitações, já
que têm licenciaturas como os outros, embora em áreas dife-
rentes da policial. Temos bons oficiais de carreira base, que
tiraram cursos à sua custa mas que a instituição não valoriza,
salvo se precisar deles para outra situação; por isso, acabaram
por reclassificar alguns. A maioria que tira licenciaturas sabe
que apenas pode utilizá-las fora da Polícia; cá dentro só quem
tiver um padrinho, caso contrário, até são vistos com maus
olhos.»
E as perseguições dentro da Polícia, que temos ouvido refe-
rir, existem ou não? «Ninguém admite que há perseguição,
mas existe e muita. Como já disse, quando a pessoa é muito
32 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

competente, às vezes é perseguida porque faz sombra. Como


tem reconhecimento por parte de alguns, tentam desacreditá-
-la através dos mais variados métodos… Há uma série de pro-
cessos que são arquivados sem qualquer procedimento, mas
não há nenhuma atitude contra uma chefia que demonstre,
realmente, uma atitude persecutória. O espírito de descon-
fiança é, muitas vezes, fomentado superiormente; utilizam
“bufos” para recolher e manipular informação. O problema é
que, quando as chefias se portam mal e são investigadas,
embora as notícias apareçam nos jornais, os inquéritos e pro-
cessos são, regra geral, arquivados. Dou um exemplo que saiu
nos jornais. Um superintendente usou, como muitos outros,
abusivamente, o carro da Polícia. Afirmou, em defesa própria,
que só o tinha feito para transportar o filho, que era deficiente
(por acaso nem era filho dele mas sim da companheira,
conhecida por “comandanta”, pois fiscalizava o polícia que
mantinha à porta). Só não mencionou que também utilizava
o automóvel para outras situações. Um dia, em frente à Divi-
são, com vários chefes e subcomissários presentes, mandou
sair um subcomissário, comandante de esquadra, de dentro
do carro da Polícia, porque aquele era o lugar do cão dele.
Ninguém denunciou isto, porque tinham medo das represá-
lias. Mais tarde começaram a contar a história. Mas o Director
da PSP não mandou avançar com o processo correspondente…»

S
E no GOE, onde já esteve, as coisas também se passam
assim? «Não! O GOE tem características completamente
diferentes. É uma unidade especial. Tem de haver confiança,
entreajuda e espírito de equipa entre todos; têm de ser muito
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 33

amigos, não pode haver qualquer tipo de problema entre eles,


se não os objectivos não são atingidos, e estamos a falar em
situações de alto risco. No GOE há um espírito de corpo; as
condições dadas são diferentes; não a nível de descanso, o
pessoal faz muitas horas, mas a alimentação é mais cuidada,
o equipamento é mais bem preparado, a formação é diária.
Além da instrução contínua, têm um relacionamento fomen-
tado, e o desporto é feito individualmente e em conjunto. Era
bom que este espírito de corpo, esta formação, fosse esten-
dido ao resto da PSP.»
E por que razão não é? «Os custos é uma das razões. A nível
da formação do tiro, por exemplo, que é uma das mais impor-
tantes, não pela necessidade de dar tiros mas para evitar aci-
dentes, para saber usar as armas adequadamente e até para
não as utilizar indevidamente. Não se pode, obviamente, dar
formação de tiro a toda a Polícia, como no GOE, face aos altos
custos; são centenas de tiros por dia.» Mas a alternativa não
pode ser a quase total ausência de formação. Para já, o certo
(e muitos o reconhecem dentro da PSP, como neste livro se
mostra) é que «a instrução de tiro é péssima, fraquíssima,
deixa muito a desejar... A instrução de tiro não pode ser dizer
a um homem para pegar numa pistola e dar uns tiros para o
alvo, isso não é tiro. A instrução de tiro básica deveria ser
semelhante à que é dada no GOE».
«Para já, começa-se por uma situação, saber explicar o que
é uma pistola; para se ser professor nesta área é preciso estar
muito sensibilizado para a actividade, o ensinar e saber dar
tiros começa antes de se ter a pistola na mão, incide nas nor-
mas e procedimentos de segurança, que falham muitas vezes.
Havia uns livros antigos que ensinavam qualquer coisa, mas
34 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

os instrutores não sabiam para eles, quanto mais para ensi-


nar; a Polícia comum tinha uns chefes de esquadra, com pou-
cas habilitações, que tentavam desenrascar-se a dar formação
de tiro – cada agente teria que dar, obrigatoriamente, dezas-
seis a vinte e oito tiros por ano, na época, isto era a instru-
ção. Quando se chegava à Polícia, eram entregues dezasseis
munições, não se podia ter mais, qualquer munição que se
comprasse à parte dava direito a um processo disciplinar.
Quando se fazia a instrução, uma vez por ano, os polícias
punham-se em frente ao alvo, a uma determinada distância,
era dada ordem de fogo pelo instrutor e eles disparavam os
dezasseis tiros, depois limpavam as armas e ficavam assim
o resto do ano.
A realidade é que «não se pode disparar muito, porque a
arma pode avariar e não há dinheiro para a substituir, além
disso, as munições são caras; logo, não se podem dar muitos
tiros. Mas não há grande preocupação de falar nos procedimen-
tos de segurança, não só na carreira de tiro, como relativamente
à arma, às munições, à forma como a pistola devia de andar
no coldre. Há coisas que são perigosíssimas – as armas de fogo
matam –, por isso é que as normas de utilização e procedimen-
tos de segurança têm de ser repetidas constantemente, é para
isso que servem as acções de formação. Conto-lhe a história
da shotgun… Andei vários anos a alertar para o facto de que a
formação em shotgun devia ser implementada urgentemente,
devido à possibilidade de acidentes, mas só depois de a arma
ter morto é que se convenceram que a bala de borracha podia
matar. Contudo, ainda hoje não há, obrigatoriamente, um
programa de instrução de shotgun implementado, a menos
que tenha surgido recentemente sem eu saber.»
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 35

E há acidentes? Quais são os mais comuns? «Por exemplo,


dentro de um carro de Polícia; de repente sai um tiro para
o tejadilho, e é mais um processo disciplinar para o agente. No
início aconteceu várias vezes, e até houve ferimentos de pes-
soas. A shotgun tem dois tipos de munições, uma de borracha,
que é para usar contra pessoas, mas é preciso cuidado, não se
pode disparar muito próximo, e uma metálica, para visar o pneu
de um carro, ou para o imobilizar, embora não tivéssemos
essas munições. E ainda bem! Perante a falta de preparação,
em vez de acertarem na roda, ainda acertavam em alguém.
«Quando há acidentes com armas o problema é esse. Acu-
sam sempre o polícia de homicídio voluntário ou tentativa
dele; dizem que o polícia quis matar, mas, na verdade, quando
quer matar não acerta. Cada vez que mata é sempre por azar.
Os próprios juízes e o Ministério Público acusam o polícia
de querer matar, mas o que acontece é que ele não tem pre-
paração necessária para acertar. O pessoal do antiterrorismo,
do GOE, dispara todos os dias, e está altamente preparado,
mas mesmo esses têm dificuldade em acertar onde querem.
Têm de treinar diariamente, verificar as armas, as próprias
munições.»
E as armas de que a PSP dispõe oferecem garantias, não
falham igualmente? «Falham. Por isso é que compraram pis-
tolas Glock, de 9 mm; matam menos porque têm um poder
derrubante, basta neutralizar o adversário. As munições de
9 mm são mais baratas do que as de 7.65 mm e dão para
vários tipos de armas; assim, já se podem gastar mais muni-
ções na formação. As armas talvez sejam um pouco mais
caras, mas duram mais; as Walter 7.65 que andam aí, já com
quarenta anos, são impensáveis.
36 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

«Recordo-me de um assalto, na Rua da Creche, a uma casa


de penhores. Um jovem polícia, acabado de chegar da escola
de Torres Novas, foi avisado de que três indivíduos, com caça-
deiras de canos serrados, tinham assaltado a casa de penho-
res, e foi a correr; os três indivíduos, entretanto, tinham
mandado parar um carro, feito sair o condutor e a criança que
ia com ele. O polícia, quando os vê, puxa da Walter 7.65; então,
o assaltante aponta-lhe a caçadeira, mas nesse momento o cão
da pistola do polícia parte-se e o assaltante, quando vê aquilo,
não dispara, mete-se no carro e vai embora.»

S
E como devemos nós, cidadãos, olhar actualmente para
a PSP? Como uma instituição de cariz militar, ou cívico?
O «Oficial superior Paulo» responde sem hesitações… – «Já
não se pode dizer que temos um modelo militar. Antes, dizia-
-se que a Polícia era militarizada, à semelhança da GNR,
embora esta fosse uma força paramilitar. A razão era muito
simples; inicialmente, não havia regulamentos próprios na
PSP, todos os regulamentos eram uma cópia dos do Exército,
adaptados à Polícia. Por exemplo, em 1996, na escola de Tor-
res Novas, ainda se obrigavam os alunos a fazer continência
na formação e, apesar de não haver legitimidade para tal obri-
gatoriedade, quem não o fizesse arriscava-se a uma punição
disciplinar. É a tal transição do militar para o cívico. Actual-
mente já somos cívicos, embora ainda haja alguma pressão
dentro do regulamento.
«Anteriormente, no estilo militar, o comandante dava uma
ordem e ela tinha de ser cumprida, mesmo que sem razão.
Ora isso, na PSP, já não pode acontecer; as chefias já não
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 37

podem simplesmente dar ordens para os outros cumprirem.


Dantes, os comandantes mandavam e cumpria-se, indepen-
dentemente de a ordem ser mal dada ou não; hoje já somos
obrigados a usar de discernimento, não cumprindo as ordens
que possam levar à prática de crimes, sob pena de procedi-
mento disciplinar e/ou criminal. Isto é assim, apesar de ainda
hoje se questionar quando alguém chama à atenção um supe-
rior hierárquico.»
E o que diria ao modelo de uma só Polícia, unificando as
duas instituições, como alguns preconizam? O nosso inter-
locutor é categórico: «Não defendo essa solução. Cada Polí-
cia tem uma cultura e esfera de acção próprias. Em 2006
havia um estudo sobre a possível unificação da GNR e PSP.
Uma das pessoas que estava nesse projecto, alguém que con-
tinua a ocupar cargos de grande responsabilidade, falou em
unir as duas Polícias, por ambas terem uma acção de serviço
semelhante. Esqueceu-se que a GNR existe para defender a
República e a PSP, para defender os cidadãos. Se a PSP se
portar mal, é a GNR que intervém, como braço armado das
Forças Armadas; se a GNR se portar mal, intervém a PSP.
A GNR é uma espécie de guarda do reino e não vai acabar tão
depressa; os cavalos, as bandas, fazem parte da tradição da
imponência.
«Nessa reunião, de que estava a falar, muitos dos presen-
tes concordaram com o projecto, mas eu ri-me e disse-lhe que
bastava olhar para uma esquadra para perceber que cada uma
das duas Forças de Segurança tem missões diferenciadas.
A GNR tem algumas actividades iguais às da PSP, mas tem
outras diferentes; neste momento até já anda nos rios… Jun-
tar estas duas Forças não funcionaria, não só pelas várias que-
38 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

zílias existentes em cada uma das duas Unidades, como pelo


grau de ensino – o mínimo exigido à GNR é o 9.º ano, enquanto
que para a PSP é o 11.º ano. Se unissem as duas, talvez daqui
por duzentos anos houvesse resultados… Mas unificar o
comando das forças e serviços de Segurança, como já acon-
tece, é fundamental.
«Provavelmente não existe uma visão global da Polícia;
precisamos de pessoas com a mesma formação, o mesmo tipo
de objectivos e, por fim, de uma selecção justa e cuidada.
Temos de criar uma Polícia, independentemente dos encar-
gos. Se pensarmos só nos custos financeiros (a nível de muni-
ções, armas, cassetetes e outros) e não pensarmos nos custos
em vidas humanas…»
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 39

.3.
NA RUA, MALTRATADOS E COM MEDO

«Os polícias que hoje andam na rua não têm incentivos


nenhuns, não são ajudados. O polícia, na rua, anda com medo,
com receio de desempenhar a sua missão. Presentemente, a
Polícia não tem qualidade, a qualidade foi desaparecendo.
Falta-lhe o apoio, o incentivo dos oficiais. E o cidadão não res-
peita a PSP; as leis foram alteradas, mas com poucas vanta-
gens para o polícia.»

S
«Somos maltratados pelo Estado e pelos governantes, que
não nos dão os meios para trabalharmos. A própria classe de
oficiais, que manda na Corporação, também devia exigir mais
aos governos, mas acomoda-se. Há muita desmotivação na
Polícia!», esta é, pelo menos, a visão do «Agente Pedro1», há
30 anos na PSP e dirigente do SPP. É um homem pragmá-
tico, com um ar sério. A expressão do rosto, por vezes grave,
altera-se quase constantemente para acompanhar as palavras,

1 Nome fictício.
40 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

entre um acentuado franzir de sobrancelhas e um ar perfei-


tamente tranquilo, quase irónico. Fisicamente, conseguiu
escapar aos quilos a mais, que parecem apanágio de quem,
como ele, está há muitos anos na profissão. Mas sente-se desi-
ludido…
«Entrei para a Polícia em 1978 e estou triste com esta nova
Polícia que temos. Somos atirados para a rua mas tiraram-nos
muitas regalias. O Estado português gasta muitos milhões de
Euros com a Segurança deste país, só que está, na minha opi-
nião, mal organizado. Com os milhões que se gastam em
Segurança, podíamos ter uma Polícia melhor. Talvez não pre-
cisássemos de tantos polícias e pagava-se melhor aos agentes.»
O desencanto do «Agente Pedro» vai mais longe: «Não
acredito que um país tão pequeno como o nosso não pudesse
ser uma Suíça, onde a Polícia é bem paga. Não podemos é
ter uma Polícia como a do Brasil, que é mal paga, tem que ir
a “nota para dentro da carteira”, segundo dizem, quando
fazem Operações Stop . Nós não podemos ser assim. Mas
somos um país pequeno e tiraram-nos tudo. E olhe que sei
do que falo, fiz trinta anos nas ruas, na cidade…
«Quando entrei, havia cerca de quinze a vinte elementos
a sair da esquadra, só para patrulhar as ruas; chegava a haver
dois elementos a patrulhar a mesma rua, a pé, mais dois car-
ros, portanto, duas equipas. Eram à volta de 22 homens em
cada turno. Hoje, não sai nenhum; só saem as duas equipas
de carro e mais nada. Há um aumento de efectivos, só que
estão ao serviço dos tribunais, dos ministros, das casas dos
senhores secretários de Estado…»
Para o «Agente Pedro» outras modificações aconteceram
na PSP – «Na Polícia formaram-se muitas hierarquias, mui-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 41

tos oficiais. Em 1978, ainda me recordo, havia um oficial a


comandar uma Divisão; hoje está um oficial a comandar em
cada secção. Cada cabeça sua sentença; as coisas não correm
bem. Tínhamos um Comandante de Divisão, tínhamos um
Chefe de Esquadra, trabalhava tudo em consonância e corria
bem. Hoje, cada secção tem o seu oficial, na Investigação, no
Trânsito; há uma enchente de oficiais, com cada um a pen-
sar à sua maneira porque o Comandante dá essa liberdade.
«Destabilizaram a própria segurança dos polícias que
andam na rua; a Polícia ficou mais desmotivada porque cada
oficial fala à sua maneira, e não se entendem. Dantes havia
uma família policial, hoje isso não existe, é mais o salve-se
quem puder. Há menos segurança, porque há o sentimento
de que vai haver mais um processo disciplinar. Antigamente
quase não havia processos disciplinares, havia sim para coi-
sas graves, como o caso de mortes; fora isso, existiam proces-
sos de averiguações e os polícias sentiam-se mais à vontade
para trabalhar nas ruas.
«Hoje, temos de fazer uma subscrição para um condutor
que bata com o carro, não há um incentivo da própria popu-
lação para que ele não tenha de pagar o dano que causou, por-
que o dano não foi propositado, aconteceu porque lhe faltaram
os travões ou porque houve uma negligência mas não da
parte dele. É preciso fazer uma subscrição para pagar esses
danos porque o Estado, a Corporação, processam o agente.»
O «Agente Pedro» não se cala, tem muito para dizer da sua
desilusão, após 30 anos nas ruas de Lisboa. E continua a tomar
os seus primeiros anos na PSP como referência: «Quando
entrei, a Polícia tinha um crédito grande que tem vindo a desa-
parecer. Hoje há uma Polícia mais experiente, mais jovem e
42 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

com mais estudos, mas tiraram-lhes muitas regalias, não têm


meios para trabalhar, os meios são escassos, porque não são
bem organizados. Os portugueses gastam muito dinheiro
em Segurança, mas o dinheiro está muito mal organizado»,
insiste.
«Os polícias estão muito encostados; amontoam-se polí-
cias nas esquadras, mas estão ao serviço dos tribunais. Há
cerca de 500 000 desempregados, há serviço na Polícia que
podia ser desempenhado por esses desempregados; o caso
das notificações, por exemplo. Outro caso, o das messes, um
polícia não pode estar a vender bebidas num bar; tirou um
curso para desempenhar as suas funções na rua ou no inte-
rior das esquadras mas com uma missão específica, não pode
estar a cortar batatas, isso era antigamente…
«Hoje, fazem esses mesmos serviços mas não há polícias
na rua. E não são só os polícias que estão ao serviço dos tri-
bunais, das cozinhas, das messes, dos bares, etc., que deviam
ser retirados desses trabalhos. Mesmo os condutores, ao ser-
viço dos comandantes… deviam ser desempregados a ocupar
esses lugares, assim haveria mais polícias nas ruas.»
Três décadas de serviço deram ao «Agente Pedro» convic-
ções firmes: «É preciso uma maior capacidade de organizar
as Polícias; gasta-se muito dinheiro, mas faz-se uma má ges-
tão das Polícias. A GNR não quer estar ligada à PSP. Na minha
opinião, devia de haver uma só Polícia, provavelmente sería-
mos mais bem tratados. Se houvesse uma só Polícia, até o
cidadão era mais bem servido. Já houve quem quisesse fazer
isso, mas não deu, os interesses são muitos…
«Ainda há pouco tempo, tudo o que era referente às cida-
des era da competência da PSP. Agora, isso não está a acon-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 43

tecer. A zona de Sintra era da Polícia e agora está lá a GNR.


Uma zona turística, com imensa gente, está entregue à GNR,
que está mais virada para a parte rural. Quem é que deu o
aval para a Polícia sair dali?
«As Polícias não trabalham em consonância umas com as
outras, nem a PJ, nem a GNR, nem nós; não há uma arti-
culação entre as Polícias… Talvez daqui por dez anos seja pos-
sível ter uma Polícia melhor. Nós nem precisamos de mais
polícias, precisamos, sim, é que eles não estejam em funções
que não pertencem à Polícia.»
O «Agente Pedro» tem mais para dizer: «Temos um regime
muito forte. O nosso regulamento disciplinar está caduco,
não tem fundamento. Obriga os polícias a cumprir muito,
mas dá-lhes pouca razão quando eles precisam de se defen-
der. O regulamento disciplinar devia ser alterado, ser mais
aberto, ter em conta os jovens que estão na Polícia. Se isto já
está mau, com um regulamento disciplinar que permite ao
próprio chefe, quando não gosta de um elemento, fazer uma
informação a dizer mal dele, como se verifica, então não sei
onde vamos parar.
«No meu caso, por exemplo, fui avaliado e tenho um Bom
na avaliação (a avaliação vai de 1 a 10, eu tenho um 8). Logo
a seguir, chega um novo oficial que, passado um mês de me
conhecer, diz que eu sou pouco humilde, que sou quase um
terrorista. O antigo comandante de esquadra dá-me um
Bom, diz que eu sou um bom elemento, numa avaliação fun-
dada em anos de observação do meu trabalho. Este oficial,
com base num mês de convivência (ele próprio diz que não
me conhece), faz-me uma avaliação que até impressiona, por-
que não gostou de mim. Por eu pertencer ao sindicato e por-
44 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

que o acusei de algumas coisas, crimes de peculato, por exem-


plo; acusei-o numa informação que fiz. Ele não foi correcto
comigo. É triste…
«Querem ver, outra coisa que me aconteceu?», pergunta o
«Agente Pedro», visivelmente consternado. Dizemos-lhe que
sim e ele conta…
«Às vezes, há pessoas que deixam animais dentro dos veí-
culos. E há quem se queixe de estarem cães dentro de um
automóvel, a ladrar e a cheirar mal; os cães não são para estar
dentro de um carro. Eu e a Polícia Municipal fizemos um ser-
viço desses, apreendi o carro e entreguei os cães ao canil.
Levei com um processo disciplinar e uma queixa-crime por
abuso de poder. Durante dois anos estive com uma acção no
tribunal, sem poder sair do país, até que o Ministério Público
arquivou o caso. A queixa nem devia de ter sido recebida, mas
foi e isso afectou-me; durante dois anos quase não fui capaz
de fazer serviço relevante porque estava com receio de fazer
alguma coisa que me desse mais problemas.
«São estas coisas que afectam os polícias. Talvez estivés-
semos melhor se tivéssemos advogados nas Divisões, para se
perceber que queixas deste tipo não têm fundamento, e que
são situações que entravam o desempenham das nossas fun-
ções, porque estamos subjugados a uma notificação do Tribu-
nal, enquanto o Tribunal analisa se a queixa tem fundamento
ou não. Neste caso, eu actuei de acordo com a lei, mas o Minis-
tério Público demorou dois longos anos a repor a verdade.
«Hoje, um jornalista, ou um médico, fazem uma queixa
de um polícia porque lhe rebocaram o carro, por exemplo.
Essa queixa obedece a um processo disciplinar para averigua-
ções que pode demorar dois anos. Imagine, um carro esta-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 45

cionado à frente de uma garagem dá direito a reboque, mas


se o proprietário entender apresentar queixa por abuso de
poder, pode levar a um processo que dure dois anos. Quando
um polícia é confrontado com esta possibilidade, fica desmo-
tivado. Como é que um polícia tem um processo durante
dois anos por um serviço bem feito? Devia era ser louvado.
Enquanto acontecerem essas injustiças dentro da Polícia,
enquanto não existir um regulamento disciplinar que digni-
fique as forças de Segurança, não vamos a lado nenhum.»
E o lamento do «Agente Pedro» estende-se à situação dos
colegas que pertencem a sindicatos. «Quando um polícia
desempenha um bom trabalho, não é compensado com os tais
louvores, que não afectam muito mas ajudam. E se os polí-
cias que andam na rua forem delegados sindicais, então têm
muitos obstáculos pela frente. Os sindicatos não são bem vis-
tos pela instituição, e como denunciam, inclusive, situações
que se passam no interior das esquadras, também não estão
bem vistos pelos oficiais.»
46 Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 47

.4.
AQUILO É SÓ FACHADA

«Para se inaugurar uma esquadra, vão-se buscar os carros


patrulha e os agentes a outras esquadras. Só para a pompa e
circunstância, para quando vem o primeiro-ministro ou o
ministro do MAI, mas, mal termina a cerimónia, a esquadra
fica vazia, sem computadores, sem carros, sem nada. Aquilo
é só fachada. Temos várias esquadras aí, e não é preciso enu-
merá-las, nessa situação. Na zona de Sintra, umas das esqua-
dras, depois da inauguração, ficou só com um agente de
serviço.»

S
Quem afirma o que acima se escreveu é o «Agente San-
tos», com 35 anos de serviço na PSP. Transparece nele o tra-
quejo da velha escola, de quem conhece a Polícia por dentro
e por fora. Alto, forte, de voz grave e ar sério, a sua franqueza
é patente na conversa, ao ponto de deixar perceber as dores
que sente por servir uma Polícia cansada, sem meios adequa-
dos e que tem vindo a perder autoridade. Do alto da sua expe-
riência profissional, confirma o que disseram outros colegas,
48 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

quer ao nível do policiamento das ruas, quer no que refere


ao serviço cometido a algumas dezenas de agentes.
Por exemplo, «a nível de carros de patrulha, há zonas em
que circula só um carro. A zona da 4.ª Divisão, uma zona bas-
tante grande, com bairros muito problemáticos como o Casa-
linho da Ajuda e o Dois de Maio, tem um só carro patrulha
a circular. Se houver uma situação complicada num desses
bairros, não faço ideia do que pode acontecer… Não sei se isto
é assim por falta de efectivos ou por falta de carros. Mas não
deve ser por falta de carros porque, em Alcântara, estão uns
20 ou 30 carros parados, e, debaixo da Ponte sobre o Tejo,
há um parqueamento da Polícia, também com uma série de
carros parados.» Portanto, os carros estão parados por avaria
ou por falta de homens que andem com eles…
«Quando o Governo faz uma escola de formação de agen-
tes, supõe-se que ela servirá para formar agentes da Polícia.
Mas se formos ao Comando Distrital ou à Direcção Nacional,
encontramos pedreiros, carpinteiro, electricistas, padeiros,
barbeiros e o pessoal das messes. No Comando da Distrital
de Lisboa há três messes: a de Oficiais, a de Subchefes e a de
Agentes. Ora, para essas messes é preciso pessoal, são cerca
de 24 elementos, divididos em duas equipas; cada uma entra
pelas oito horas e sai às sete da tarde e no dia seguinte está
de folga…»
«Isto para não falar dos motoristas que estão nos Minis-
térios e no Governo Civil, basta vermos as ordens de serviço…
Ainda recentemente, um ministro deu um louvor a três moto-
ristas do Gabinete dele, todos polícias. Depois há ainda o
chefe de Gabinete, a adjunta do chefe de Gabinete, etc., etc.
Se reunissem todos os polícias que fazem de motoristas, e
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 49

não deviam, ao pessoal que está nas messes e noutros servi-


ços, poderíamos ter cerca de mais três a quatro mil homens
nas ruas; ou até mais, isto a nível geral. Com tudo isto, a situa-
ção está cada vez mais degradada, cada vez há menos moti-
vação para os jovens virem para a Polícia.
«E o pessoal que já cá está sente-se desmotivado, eu sou
um deles. Enquanto cá andar tenho que cumprir com as
minhas obrigações, é assim mesmo, mas talvez não as cum-
pra da forma como gostaria. Todas essas situações, que ouvi-
mos no dia-a-dia, de colegas a serem alvejados, a serem
abatidos, provocam uma desmotivação geral. Não tenho
nenhuma apetência para continuar, estou desejoso de me ir
embora. Estou saturado, estou farto da Polícia.
«Leio nos jornais que o Governo vai fazer carreiras de tiro,
que os polícias têm de ir mais vezes à carreira de tiro… Para
quê? Ainda há pouco disseram que a Polícia não pode dispa-
rar, nem para os pneus. Vão fazer carreiras de tiro para quê?
Vamos lá fazer o quê? Só se for para gastar munições. Um
agente hoje, se tiver o azar de ter de disparar para salvaguar-
dar a sua integridade física, tem problemas, está desgraçado
da vida, com processos a cair em cima dele.
«Na Polícia não há processos de averiguações, são logo pro-
cessos disciplinares; não se procura saber primeiro o motivo
porque o agente cometeu aquela falta, se é que foi falta. Devia
haver primeiro um processo de averiguações e só depois
um processo disciplinar, se fosse o caso. Actualmente, já
tenho visto na rua colegas meus que evitam meter-se em cer-
tas situações porque já sabem o que lhes pode suceder. Como
têm família para sustentar, pensam na vida e então evitam
problemas. Isso revolta-me porque não tenho espírito para
50 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

isto, nunca virei a cara às situações e agora custa-me ver cer-


tas coisas. Alguém é cúmplice nisto. Quando, um dia, os cida-
dãos se juntarem e disserem que precisam da Polícia para os
proteger e aos seus bens, talvez isto mude.
«Veja, veio no jornal que assaltaram um indivíduo, a cinco
metros da esquadra do Calvário; em frente à esquadra… Onde
é que isto já chegou? Dantes, alguma vez isso sucedia?!
Agora, um agente se faz uma captura e leva o indivíduo ao Tri-
bunal. Quando regressa à esquadra já lá está o detido a pedir
os bens ou a pedir a identificação do polícia, para fazer queixa
de quem o deteve; ainda sai primeiro que o polícia do tribu-
nal, onde este último pode até ser criticado pelo senhor dou-
tor Juiz, porque a captura foi mal feita, ou isto ou aquilo…
«Mas isto é só para alguns… Para outros, com faltas bem
graves e que são do conhecimento de toda a gente, como o
que se passou na Escola Superior de Polícia com as praxes,
ou o que aconteceu em Torres Novas com os computadores,
corre tudo bem. Veja-se o que se tem passado por aí com car-
ros batidos por oficiais, casos em que toda a gente se cala e
ninguém diz nada. Mas se for um agente…
«Imagine que dizem para nos deslocarmos com urgência
a determinado sítio porque está um colega em apuros; se eu
for motorista de um carro, vou tentar chegar lá o mais rápido
possível. Mas se, por infelicidade minha, durante o trajecto,
bater numa viatura ou uma viatura embater em mim, tenho
logo um processo disciplinar e, às tantas, ainda tenho de pagar
o arranjo da viatura, porque os carros da Polícia não têm
seguro. Nem seguro, nem inspecções; andam aí carros que,
se eu mandasse, eram logo abatidos… Uma pessoa de bem,
como é o caso da Polícia, devia dar o exemplo. Já viu o que é
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 51

um agente, num carro todo podre, a deitar fumo por todo o


lado, mandar parar um cidadão para lhe inspeccionar o auto-
móvel?»
E há outras coisas, histórias ridículas, como uma que lhe
aconteceu. O «Agente Santos» conta: «A dada altura, tínhamos
uns Peugeot 204, umas carrinhas, íamos a perseguir uns
gatunos na Rua das Pretas, o carro em primeira, a subir; mas
não deu. Tivemos de descer em marcha-atrás porque o carro
não subiu e os gatunos foram-se embora. Começámo-nos a
rir, porque o carro dos gatunos andou e o da Polícia ficou a
meio do caminho.»1
E, ainda pior, uma quase anedota, não fora o relato de algo
que realmente aconteceu ao «Agente Santos»; mesmo assim,
se vista à distância, uma história saborosa, até pela própria
narrativa, bem-humorada. Conta ele: «A Polícia tinha, há
6/7 anos, em Oeiras, uma enfermaria; não parecia mas era uma
enfermaria. E havia uma ordem de serviço que determinava que
todo o agente que desse parte de doente baixava à enfermaria…
Então a minha história é esta: um dia fui para a praia, adormeci
e apanhei um escaldão; tinha de ir trabalhar à uma da manhã,
mas não conseguia, estava aflito. Disse à minha mulher para
chamar o médico da Polícia. Antigamente tínhamos um
médico 24 horas por dia, que se deslocava a casa dos agentes
doentes, num carro da Polícia, com um motorista que ia mas
buscá-lo. Era meia-noite e meia e do posto médico pergunta-
ram se eu não podia lá ir, no dia seguinte. Eu disse que não,
que não podia. Então, ao fim de uma hora lá apareceu o médico,
viu-me e disse logo que eu tinha de baixar à enfermaria.

1 Situações como as aqui narradas são recorrentes na PSP.


52 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

– Agora?, perguntei eu
– Sim! O seu serviço tem ambulâncias, portanto, tem de
chamar uma ambulância e baixar à enfermaria, disse o médico.
A Divisão tinha uma ambulância e lá chamo eu a ambulân-
cia; os meus colegas vieram, já eram duas e tal da manhã e
levaram-me para a enfermaria de Oeiras. Chegámos lá e o
portão estava fechado; os meus colegas da ambulância esti-
veram para aí meia hora a bater. O meu colega de serviço na
enfermaria estava a dormir mas lá acordou e veio ver o que
se passava. Nessa altura já eram três da manhã. Entrei e per-
guntei como era? O meu colega disse-me que tinha de dor-
mir no sofá, porque o armário onde estavam os lençóis estava
fechado e quem tinha a chave era o subchefe, que só chegava
de manhã; portanto, não havia lençóis para pôr na cama. Lá
fiquei no sofá. Eram nove e meia da manhã do dia seguinte
quando o subchefe chegou; deu-me os lençóis e disse-me que
para comer eu tinha de ir ao comando de Oeiras.
– Como? – perguntei. – Eu estou internado na enfermaria…
– Mas nós não trazemos cá a comida, disse o subchefe.
– Então eu que estou internado tenho de andar a pé uma
hora, para ir comer?
– Sim. E quando o doutor cá vier, se lhe receitar alguma
coisa, tem de arranjar alguém que lhe traga os medicamen-
tos de fora, respondeu o subchefe.
Felizmente, tinha o fato de treino vestido e, dez minutos
depois de ele me ter dito aquilo, cheguei à rua, apanhei o pri-
meiro táxi que passou e fui para casa.»
Compreensivelmente, o «Agente Santos» não lamenta o
facto de a «enfermaria» ter acabado. Mas não se sente feliz
por terem desaparecido, igualmente, outras coisas. Concre-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 53

tamente uma, que tem a ver com a dignidade da morte. Diz


ele: «A Polícia tinha, no cemitério dos Prazeres, um talhão,
onde estava um colega que tratava daquilo. O colega refor-
mou-se mas pediu à Direcção Nacional da Polícia para con-
tinuar. Não aceitaram; mesmo antes de ele se reformar, a
Polícia já tinha dito que não punha lá mais ninguém. Agora,
quem trata daquilo é o pessoal da Câmara. Não custava nada
ter um homem para tratar convenientemente do talhão. Se
fosse um sapateiro para tratar dos sapatos a alguém, talvez
se arranjasse. Como se arranja quando muitos oficiais que
saíram do serviço continuam a pedir um electricista ou cana-
lizador, sempre que precisam. Mas para o cemitério… Estão
a escrever um livro? Há milhares e milhares de situações…
Um livro não chega, tinha que ser uma enciclopédia com mui-
tos livros.»
Mudando de assunto, se a PSP tem carência de meios e
de efectivos, dedicados a outras tarefas, as empresas de segu-
rança não podiam ser um apoio para a Polícia?, perguntamos.
«Sim! Sou de opinião que devem existir empresas de segu-
rança, são postos de trabalho; concordo com isso. Agora, devia-
-se tentar perceber quem são as pessoas que estão à frente
dessas empresas, se são ex-comandantes da PSP, da GNR, da
Polícia Judiciária. Muitos, como foram oficiais da Polícia, con-
seguiram montar as suas próprias empresas ou ir trabalhar
para as já existentes.»
Com o que o «Agente Santos» não concorda mesmo é com
os gratificados. «Sou contra a situação em que um agente da
Polícia está à porta de um supermercado, por exemplo, a fazer
um gratificado. Já acabaram com as boîtes e ainda bem, mui-
tas delas não tinham licença e aproveitavam-se do polícia gra-
54 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

tificado para manter a porta aberta… E há instituições que


andam três e quatro meses para pagar os gratificados, a Direc-
ção Nacional da Polícia diz que não tem nada a ver com o
assunto, porque isso é pago à parte. Mas se o agente faltar ao
gratificado (imagine que ia ganhar 40 euros), é punido com
uma multa que pode ir até aos 150 euros. Porém, infeliz-
mente, o ordenado é escasso. Há colegas que vêm para cá e
estão cinco/seis anos para regressar à terra deles, têm que
estar a pagar quartos, é difícil. Dantes existiam as camaratas,
em que o pessoal pagava uma ninharia, mas acabaram com
elas, não sei porquê.
«Se isto continuar assim, tenho muito medo do que pode vir
a suceder, não por mim, mas pela população mais jovem. Esta-
mos numa situação muito grave. Isto está a saque. Eu, por mim,
não tenho problemas. Estou farto de dizer que antes quero que
a minha mulher tenha de me levar um maço de cigarros à
prisão ou um ramo de flores ao cemitério do que faltar ao meu
dever. Enquanto eu cá andar, podem vir os processos, isso
a mim não me interessa nada. Preocupa-me é a geração dos
meus netos e dos filhos deles, se isto continuar como está…»
E o «Agente Santos» desabafa ainda, desalentado: «É assim
a Polícia, o descontentamento geral desta malta antiga que
anda cá há muito tempo, como é o meu caso, que vou fazer 31
anos disto. Podia estar sossegado a tomar conta dos meus netos
e obrigam-me a andar aqui mais quatro ou cinco anos, com que
eu não estava a contar, porque eu não devo nada ao Estado nem
à Corporação. Cumpri a minha tropa; mais, paguei a minha
tropa na Polícia, estou cá há mais de trinta anos, já devia estar
lá fora mas não me deixam sair, tenho que aguardar. Acha que
sinto vontade de andar aqui?» A resposta é óbvia – não sente.
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 55

.5.
CARROS, ARMAS, TIROS E PROCESSOS

Quando falam das suas experiências profissionais, os


agentes concordam, via de regra, em três coisas – os meios
de que dispõem são, em boa parte, deficientes; uma acção
mais empenhada da parte deles acaba por conduzir a uma
carga de trabalhos, com processos disciplinares, intervenção
de tribunais e prejuízos remuneratórios e a nível psicológico
significativos; e é melhor não pensarem em disparar a arma,
a menos que seja em defesa da própria vida, mas mesmo
nesse caso não se livram de um processo.

S
Nada do que acima se afirma parece, no entendimento dos
polícias que ouvimos, preocupar as hierarquias. Mas tudo isto
provoca uma crescente desmotivação entre os agentes da PSP
e põe em causa, ao menos parcialmente, a qualidade do apoio
que prestam aos cidadãos. Mas vamos por partes.
56 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

Carros…

Episódios como o já aqui narrado1 são frequentes. O «Agente


Melo2», 41 anos, 17 dos quais vividos como polícia, lembra um
assalto à mão armada, feito por quatro homens, em S. Domin-
gos de Rana, utilizando um carro roubado. Recorda que os
assaltantes foram, depois, localizados e perseguidos na área
do Concelho de Oeiras, sem sucesso – «Nós estávamos pres-
tes a interceptar os indivíduos, mas o carro-patrulha estava
num tal estado que avariou e teve de ser rebocado. A opera-
ção de intercepção foi abortada à força, porque a viatura estoi-
rou. E já não é a primeira vez que isto acontece. Ainda
recentemente, uma viatura das brigadas, numa situação de
carjacking, também rebentou…»3
O «Agente Melo» transpira e inspira confiança e tem
razões para isso, possui um curriculum impressionante.
Apesar de ser relativamente jovem, já leva 17 anos ao serviço
da PSP, cumpridos em Portugal e no estrangeiro, em mis-
sões humanitárias que chegou a comandar, em países onde
era preciso ter nervos de aço. Além da formação académica,
é licenciado. Em perfeita condição física, é, actualmente, um
dos homens mais bem preparados da PSP, como nos dão
conta os próprios colegas. Ele aceita os elogios, sem conse-

1 Ver capítulo 4.
2 Nome fictício.
3 O «Agente Cartaxo», cujas afirmações aqui registamos no capítulo 13, contou-nos
um incidente, igualmente saboroso: «Numa ocorrência, íamos numa carrinha de nove
lugares e, de repente, saltou-nos a porta corrediça para a via pública. Foi uma sorte
não ter apanhado ninguém. Mas houve uma risada geral por parte da população, as
pessoas riem-se até por indignação; não entendem como é que podem acontecer estas
coisas à Polícia.»
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 57

guir esconder uma ponta de orgulho. Bem pode. Acumulou


cursos especiais de formação nas mais diversas áreas, feitos
cá e no estrangeiro, por exemplo na norte-americana SWOT.
Gosta da Polícia, mas, embora não troque a camisola da
PSP por nada, sente-se desalentado com a forma como a Cor-
poração o tem tratado e trata os polícias em geral. Não é fácil
imaginar que cumprirá mal a sua missão, mesmo se os meios
forem poucos. Já esteve debaixo de fogo e escapou ileso. Con-
nosco, fala numa roda de conversa em que participam tam-
bém o «Agente Pereira», o «Agente Mata» e o subchefe
Augusto, vice-presidente do Sindicato dos Profissionais de
Polícia – SPP. Queixa-se de que, face a situações deste tipo,
a hierarquia da Polícia não reage. «O que é triste, no meio
disto tudo, é que não há, por parte da hierarquia, uma preo-
cupação para que realmente se chegue a bom porto, neste tipo
de ocorrências. Ou seja, não se conseguiu, naquela hora, pro-
ceder à captura dos indivíduos, e depois, a partir daí, foi como
se nada tivesse acontecido. A reacção é sempre como se nada
se tivesse passado, e a coisa acaba por morrer por ali. Isto
torna-se um bocado frustrante…
«Há uns três ou quatro anos», lembra o “Agente Mata”,
«houve um acidente na segunda circular. Foi chamado um
carro da esquadra de Telheiras para ir sinalizar o acidente.
Depois de chegar ao local, ao fim de cinco minutos, o carro
ficou sem luzes e foi abaixo. Chamaram então um carro da
esquadra do Campo Grande; o carro da Polícia chegou, mas,
cinco minutos depois, ouviu-se um estrondo, o motor do
carro tinha caído. Foi necessário chamar um terceiro carro,
para sinalizar o acidente; os outros dois carros tinham ava-
riado.» Isto diz bem do estado dos carros da Polícia.
58 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

Outro caso. «Há um carro patrulha que, sempre que pára,


só volta a pegar de empurrão, porque a bateria já está muito
desgastada. A Secção tem conhecimento do caso, mas diz que
o carro pode andar na mesma, portanto, os polícias empur-
ram. Esta situação já aconteceu na esquadra da Musgueira,
na esquadra de Telheiras e noutras. É habitual.
«Pois, não mandam reparar as viaturas; temos o caso dos
Skodas que estão a encostar todos, estão na fase da revisão e
não há dinheiro para a fazer. O painel de instrumentos parece
um pinheiro de natal, com luzes de todas as cores a acender»,
acrescenta o «Agente Pereira», desolado. «Mas o problema
não é só esse», lembra o «Agente Mata», actualmente a Polí-
cia até tem bons carros, mas a verdade é que certas Divisões
põem os carros novos ao serviço dos operacionais, outras não.
Por exemplo, a 3.ª Divisão recebeu oito Skodas num ano e
mais dois passados seis meses. Distribuiu um veículo ao
Comandante de operações, dois ao oficial de dia, que só pre-
cisa de um; mais quatro distribuídos aos satélites, que são os
chefes de zona; só os que sobraram foram para os operacio-
nais. O que quer dizer que os agentes no terreno continuam
a andar com carros avariados. Há casos em que encostam três
carros, em cada dois dias, por falta de condições. Numa inspec-
ção séria, retirando os Skodas e alguns Méganes, 80-90% dos
veículos da Polícia não passavam.
«Mas isso não é um fenómeno recente, já tem muitos
anos», esclarece o «Agente Melo». E continua: «Por falta de via-
turas, cheguei a utilizar o meu carro particular, quase diaria-
mente, não só para fazer vigilância como também para fazer
intercepção de indivíduos, para fazer perseguições; punha em
risco a minha própria segurança, porque o carro podia ser
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 59

identificado, mas não havia outra forma, porque a Corpora-


ção não dava os meios, nem sequer me pagava a gasolina.»
Neste quadro, como diz o «Agente Melo», «o que ainda vai
valendo é a confiança que temos uns nos outros, mas sabe-
mos à partida que a maior parte das viaturas não estão capa-
zes. Não só não estão em condições mecânicas, como não
estão preparadas para este tipo de operações, nem para o tipo
de crime com que lidamos agora. A cilindrada das viaturas
não está adaptada às actuais ocorrências criminais. Eram
necessárias cilindradas mais potentes. Claro que isso também
obrigaria à formação dos elementos que vão operar com elas»,
sustenta o agente.
Essa formação existe, ou, pelo menos, já existiu e terá sido
interrompida. O «Agente Pereira» lembra: «Tirei esse curso
em Agosto do ano passado; era uma formação em três fases.
Fiz a primeira; três meses depois ia ter a segunda fase e, pas-
sados outros três meses, teria a terceira fase do curso, mas
isso não se verificou; ainda hoje estou à espera. Na primeira
fase estivemos quinze dias na base da OTA, que foi onde tirá-
mos o curso; 15 dias a pegar em carros e a bater com carros.
O objectivo era tirar o máximo rendimento dos carros e evi-
tar acidentes. O curso devia ter sido feito com equipamento
adequado, mas não foi. Os formadores tiveram de andar pelas
esquadras a pedir carros podres; depois, os mecânicos viram-
-se forçados a tirar peças de uns carros para outros, para os
pôr a funcionar. A maior parte dos carros só davam 120 qui-
lómetros/hora; mais rápidos só havia dois. Tínhamos um
Dedra para os elementos todos, era o único que chegava aos
270 quilómetros/hora. Mas nunca o pudemos usar a essa
velocidade porque gastava muito gasóleo. E os pneus também
60 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

não eram bons, eram pneus de carros abatidos… Em Alfra-


gide pode ver-se a sucata da Polícia, mas nunca se lá vê pneus;
os pneus foram todos lá para cima, para a OTA.»
O «Agente Melo» tem mais para dizer sobre o curso em
condução avançada, a que o colega se acaba de referir. «Essa
formação foi dada para preparar condutores para a cimeira
da União Europeia, que houve cá, em Dezembro. Eram pre-
cisos motoristas capazes de conduzir o tipo de viaturas usa-
das para a cimeira. A partir daí, acabou…»
Pouco falador até ao momento, o «Agente Mata» é um
homem com vários processos disciplinares (todos arquivados)
na Polícia, justamente por «cumprir as funções» para as quais
foi designado. Conhece bem a PSP e diz que «não há quem
resista às agruras» a que estão submetidos; por exemplo,
serem obrigados a policiar a pé, por falta de viaturas, áreas
impossíveis de bater com a sola das botas.» Tem um ar simpá-
tico, mas um olhar simultaneamente distante e triste, e acaba
por nos deixar a ideia de alguém que desistiu dos sonhos. Diz-
-nos ele que esses sonhos, já se foram há muito...
«Sonhava com uma Polícia digna, com meios adequados,
uma Corporação capaz de tratar os seus efectivos com a
mesma lealdade com que é tratada por eles.» O sonho não se
tornou realidade. Mesmo assim, não se imagina a fazer mais
nada. Gosta de ser polícia e sente-se bem com a camarada-
gem dos colegas e de cada vez que sente ser útil aos cidadãos,
que quer servir. A propósito da questão da formação em con-
dução avançada, ele, que também a frequentou, acrescenta:
«O mais engraçado disto tudo é que, pertencentes ao Comando
Distrital de Lisboa, só foram chamados para a Cimeira
13 homens com formação em condução avançada. E o mais
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 61

caricato é que chamaram trinta e tal agentes do Corpo de Inter-


venção que nem sequer tinham o curso; a maioria nem con-
dutores eram. Depois havia problemas, nós passávamos por
eles e eles ficavam para trás, porque estavam ao volante de
carros com cilindradas altíssimas e não tinham capacidade
para os conduzir.»
Mesmo que o curso possa não ter acabado, tenha apenas
sido adiado sem se dizer água vai, o certo é que, no mínimo,
a comunicação no seio da PSP não funciona como deve. Os
agentes que participam nesta conversa pensam que a forma-
ção foi integralmente subsidiada pela União Europeia, se des-
tinava a 3 500 agentes, dos quais apenas pouco mais de seis
centenas a terão feito, mas só o módulo 1, precisamente o de
«condução avançada». Eles próprios continuam à espera de
fazer os módulos 2 e 3, «condução defensiva» e «condução
invasiva», mas sem muita esperança – «pois se nem há dinheiro
para mandar reparar os carros….» Queixam-se também de
nunca terem recebido o certificado da formação, embora ela
esteja averbada nos seus registos pessoais, na Corporação.
O «Agente Pereira» lamenta-se: «Se eu quiser sair da Polícia,
não posso socorrer-me do curso de condução avançada cá fora,
porque não tenho o certificado, não tenho nenhum documento
comprovativo…»

Sono e álcool

O «Agente Melo», um dos mais bem preparados da PSP.


Como ele diz, «se calhar não haverá neste país alguém que
tenha investido tanto dinheiro como eu em formação na área
62 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

policial, na parte táctica, e na académica, independentemente


de alguns cursos oficiais tirados na Corporação. Gastei milha-
res de contos, do meu bolso, sempre por amor à camisola.»
Lembra-se da situação que encontrou, quando começou, há
17 anos – «a zona de Carnaxide e de Linda-a-Velha era uma
terra sem lei, isto entre 1991 e 1993. A zona pertencia à GNR,
que tinha cerca de 23/26 efectivos para aquela área toda.
Aquilo era o caos total. Quando a PSP foi para lá, foi-nos exi-
gido que puséssemos ordem na situação; trabalhávamos
uma média de 22 horas por dia, quando não era mais, sem
folgar. Era um inferno, eu nem dormia…»
Como reconhece a psicóloga do SPP1, as perturbações de
sono são vulgares entre os polícias. Por vários motivos – o
horário por turnos, a prestação de serviços gratificados, o pró-
prio stress profissional, prejudicam gravemente o sono e a
vigília. Evidentemente que um quadro destes diminui acen-
tuadamente a capacidade, o tempo de reacção dos agentes.
Não há volta a dar-lhe.
O «Agente Melo» continua a sua história… «O crime estava
a ser combatido e começavam a aparecer resultados, mas
esses resultados eram graças, também, à falta de descanso,
ao empenhamento total, ao desprezo involuntário pela famí-
lia e à utilização de meios próprios dos agentes. Houve uma
altura que cheguei a propor ao próprio comando, se queriam
que trabalhássemos tanto (e os resultados eram visíveis), que
nos dessem alguma compensação, nem que fosse para o com-
bustível. Tudo foi negado. Mas aguentámos, até que chegá-
mos a um ponto e dissemos – já chega!

1 Ver capítulo 1.
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 63

«Na altura morava em Linda-a-Velha, e também me inte-


ressava combater o crime naquela área, onde, a partir do
momento em que o Sol se punha, as pessoas tinham medo
de sair à rua. Por isso, quando terminava o serviço, parava o
carro à porta de casa, mas não entrava logo; ia dar duas, três
voltas ao quarteirão, para ver se havia alguém nas redonde-
zas, porque a Pedreira dos Húngaros e o Vale de Santa Cata-
rina eram ali ao pé… Só depois é que ia para casa. Mas a
hierarquia nunca quis saber destas coisas.
«A situação era tão grave naquela zona que a dita Super
Esquadra de Carnaxide, quando foi inaugurada, contava com
elementos que inicialmente eram válidos psicologicamente
e estavam fisicamente bem preparados, que tinham passado
pela tropa e que estavam ali para dar o seu melhor e com
alguma garra. Era pessoal duro, para trabalhar. Mas cerca de
80% transformaram-se em alcoólicos crónicos. E é fácil
explicar porquê.
«Naquela zona entrou-se num ritmo de tiroteios diários;
o pessoal estava debaixo de fogo todos os dias. A maioria dos
elementos vinha de outras zonas do país, estavam ali aloja-
dos, saíam de serviço e continuavam dentro da esquadra.
Havia uma situação de emergência, nem dormiam. Tocava
o alarme e “toca a sair da cama, porque há colegas em difi-
culdades”. Passavam a vida nisto. A situação era tão grave, o
grau de stress e de risco eram tão elevados, que deram em
alcoólicos. Coitados. As próprias circunstâncias os levaram a
isso», explica o «Agente Melo». E continua: «A situação de
alcoolismo não acontece quando as ocorrências se estão a dar,
é a posteriori. Os homens, depois de saírem de uma situação
em que estiveram debaixo de fogo, não conseguiam ir para
64 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

a cama dormir. O pessoal juntava-se e ia beber uns copos,


desabafar, falar sobre o que tinha corrido mal ou bem. Entra-
ram neste ritmo. Além disso, como o pessoal vinha quase
todo de outras zonas do país, e os ordenados na altura eram
maus, havia pessoas com graves problemas financeiros.
Havia quem passasse fome, quem não tivesse nada para
comer. É triste mas é verdade. Tudo isto junto faz uma bola
de neve que leva a este tipo de situações…»
Lembrando esses tempos de combate ao crime, em que o
alarme soava frequentemente na esquadra, o «Agente Pereira»
garante: «Hoje, se o alarme tocar ninguém sai da cama, mas
naquela altura todos se levantavam. Se estivessem em calções,
vinham em calções. Agora, ninguém se mexe. A Polícia hoje
é um infantário. A semana passada avariou o alarme dentro
da esquadra de Oeiras, que é sede da Divisão. O alarme dis-
parou. Antes que encontrassem o botão do alarme, levantou-
-se um colega, pegou na pistola e veio ver o que se passava;
o agente Moura, um da velha guarda. Foi o único. Os outros,
nem sabiam que era o alarme que estava a tocar. E aquilo faz
um barulho…»

Armas, tiros e processos

Com 17 anos de PSP, o «Agente Melo» tem muitas histó-


rias para contar… «Dramático foi levar um tiro à porta de casa,
às seis da manhã, quando ia a sair para ir entrar de serviço.
Naquele preciso momento estava a decorrer um assalto, com
sequestro, no prédio em frente. Um casal de idosos, seques-
trado por três indivíduos negros; o idoso era corretor da
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 65

Bolsa e alguém terá dado a dica que ele devia ter dinheiro em
casa. Entraram-lhe no apartamento, amarraram-no a uma
cadeira, bateram-lhe para o forçar a dizer-lhes onde estava
o dinheiro, mas o homem não tinha dinheiro nenhum.
A mulher conseguiu fugir para uma casa de banho, barricou-
-se lá dentro e pela janela pediu ajuda. Eu ia a sair, dei com
aquela situação, liguei para a esquadra para mandar um carro
com urgência. Foi só isto que tive tempo de fazer.
«Logo de seguida, por causa dos gritos da senhora, os
assaltantes devem ter pensado que a Polícia não tardaria a
aparecer e resolveram sair do prédio. Eu estava à civil, tinha
o telefone na mão esquerda, estava a falar para a esquadra.
O primeiro a sair, assim que me vê com o telemóvel na mão,
dá-me dois tiros; não sei como não me acertou a sério, estava
à distância de um metro e era um revólver calibre 38. Só não
me mataram porque o assaltante estava a segurar o revólver na
ponta, ou seja, a arma não estava selada na mão, e os tiros
saíram desalinhados e apontaram para o chão; por isso, só
levei um tiro no pé direito, de outra forma tinha morrido. Eu
reajo ao fogo e atinjo o indivíduo no abdómen. Depois tive
de me atirar para o chão, porque os outros dois abriram fogo
contra mim. Aquilo foi um tiroteio desgraçado, e eu ainda fiz
mais dois disparos, já no chão. Quando tudo acabou, verifi-
quei que queria levantar-me e não conseguia…
«Entretanto, o indivíduo que eu tinha atingido foi arras-
tado pelos companheiros para dentro de um carro e puseram-
-se em fuga. Eu fiquei ali, no chão, até ser levado para o
hospital… Pergunta, o que é que ganhei com o meu acto?
Nada! Nem uma palmadinha nas costas. Tive foi um pro-
cesso-crime, que só foi arquivado em Abril de 2005 e o caso
66 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

aconteceu em Setembro de 2000. O processo-crime foi orga-


nizado pelo próprio Tribunal, mas também tive um processo
disciplinar por parte da PSP. E isto porque houve tiros, e por
ter havido indicações de várias testemunhas de que o indiví-
duo sobre o qual disparei foi realmente atingido. Seja como
for, é o procedimento habitual. Há uso de armas de fogo,
alguém é atingido, são abertos os processos…
«Fui ouvido imensas vezes pelos agentes da PJ. Numa
situação destas é normal. Não tenho nada a dizer deles, foram
profissionais. Não vi nenhuma tendência para me quererem
“entalar”, perceberam a situação que ocorreu, recolheram
depoimentos das pessoas que assistiram e que confirmaram
o que eu disse. Agora cinco anos de processo por parte da
PSP? É evidente que me senti injustiçado e revoltado. Na prá-
tica, evitei que fossem cometidos crimes maiores naquela
casa; se não fosse a minha intervenção, as pessoas poderiam
ter sido mortas lá dentro, fui forçado a reagir perante uma
ameaça, vi a minha vida a andar para trás. Não houve dispa-
ros para indivíduos a fugir, nem para as costas. Foi um con-
fronto frente a frente, em campo aberto. Imagine, já viu o
filme Wyatt Earp, é um confronto em campo aberto, ou seja,
não há protecções, não há paredes, não há muros, não há
nada. Foi uma situação assim… Mas levei com dois proces-
sos, fiquei uns meses de baixa, por causa do tiro no pé, e
enquanto estive de baixa perdi os subsídios todos, quando,
no mínimo, devia era ter tido um louvor por aquilo que pas-
sei. Era o mínimo dos mínimos», conclui o «Agente Melo».
O «Agente Pereira» também tem uma palavra a dizer
sobre o assunto e há que ouvi-lo. É impossível não prestar
atenção à voz grave e profunda com que fala. É um dos agen-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 67

tes mais antigos da esquadra em que está; de Polícia, leva quase


30 anos. Mas ainda não se sente capaz de pensar em aban-
donar a PSP. A convivência com os colegas impõe-se às dores
do ofício, apesar das injustiças que diz sentir, na forma como
a Corporação trata, frequentemente, os seus homens mais
dedicados. De estatura mediana, os anos não o engordaram.
Quem o vir na rua, de roupa casual, não dirá que é polícia.
Mas é! E, embora tenha apenas a categoria de Agente, tem
habilitações que lhe permitiriam ser Subintendente, se os
problemas dentro da Polícia não o tivessem impedido de con-
correr ao curso. Ouçamos, então, o que o «Agente Pereira»
tem para dizer:
«O processo para averiguar a utilização de arma de fogo
justifica-se, porque não se pode usar uma arma sem mais
nem menos. O que não se justifica é demorar cinco anos a
chegar-se a uma conclusão e fazê-lo através de um processo
disciplinar. Estamos a falar do averiguar, portanto, devia ser
um processo de averiguações. Foi usada uma arma de fogo,
tem de se saber em que circunstâncias; faça-se um processo
de averiguações, não um processo disciplinar.
«Mas, querem ver», continua o «Agente Pereira», “tive um
processo disciplinar, que é uma vergonha na PSP. Consegui
ser constituído arguido duas vezes pelo mesmo facto, dentro
da Polícia (é uma situação que viola o artigo 29.º n.º 4, da
Constituição da República Portuguesa), por causa de uma cita-
ção por uma agressão a um genro de um Comissário da Polí-
cia, o Comissário Roncon, indiano, de Goa, que passou pelo
Corpo de Intervenção. Dois processos, um em 1997 e outro em
1999, exactamente pelos mesmos factos. E respondi sempre às
notas de acusação. E quer saber o que realmente se passou?
68 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

«Eu ia para casa, cansado, eram seis da manhã; há 24 horas


que estava a trabalhar, e não tinha tabaco, então passei nas
bombas de gasolina em Oeiras, junto ao Carrefour. Pedi um
café; um amigo que ia comigo, aliás eu ia no carro dele, quis
uma imperial e eu dei uma nota, na altura, de quinhentos
escudos para pagar a conta e para ter moedas para a máquina
do tabaco. Disse à senhora, antes de me tirar o café, para me
dar as moedas, pois já estava há duas horas sem fumar e ela
deu-me as moedas. De repente, há três indivíduos que se
levantam de uma mesa e que se viram para nós e dizem:
“Ó filhos da puta! Quando vocês quiserem qualquer coisa,
falam connosco.”
«Eu olhei para o meu amigo, pensei que ele os conhecia
e ele olhou para mim a pensar o mesmo. É possível que eles
nos tenham confundido com alguém parecido. Como não os
conhecíamos, perguntámos-lhes se era connosco que estavam
a falar. Eles levantaram-se, dirigiram-se a nós e já não fala-
ram mais… Um deles esteve duas horas a ser operado para
lhe fazerem um esmalte novo, era o genro do Comissário.
Depois disso, fomos embora. O meu problema foi não os ter
detido. Só que eu já não tinha discernimento, já estava há
24 horas sem descansar, fui-me embora para casa e não liguei
mais àquilo.
«O Comandante que lá estava na altura era um indivíduo
que veio corrido da Divisão de Trânsito e com quem eu tive
uma pega, porque entalei, em Oeiras, o camião da “Diarla”,
uma empresa que esteve a fazer as obras na Divisão de Oei-
ras, para restaurar aquilo tudo… O comandante, quando
soube o que se tinha passado (nas bombas), desconfiou de
quem tinha sido. Quando se confirmou que tinha sido eu, ele
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 69

organizou-me de imediato um processo disciplinar, sem fun-


damento, sem nada. Foi o primeiro processo que eu tive em
que a nota de acusação propunha uma repreensão escrita.
«Depois, quando em Tribunal se veio a apurar que tinha
sido eu que tinha “partido” o genro do Comissário, orga-
nizaram-me outro processo disciplinar, exactamente pelos
mesmos factos. E é esse que está ainda a decorrer, volvidos
doze anos dessa situação. Eu fui obrigado a meter uma pro-
vidência cautelar porque, e isto é o mais caricato, ao fim de
doze anos de processo propuseram-me 183 dias de suspen-
são, na Polícia. E o problema ainda não está resolvido; conti-
nuo a aguardar as decisões, que agora dependem do Tribunal.»
70 Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 71

.6.
CARREIRA DE TIRO, PISTOLAS E MUNIÇÕES

Boa parte dos polícias que andam no patrulhamento das


ruas, em Portugal, lida mal com armas, só será um bom ati-
rador por acaso. Por isso, ver um polícia, na rua, com a pis-
tola na mão é um susto. Se ele disparar, nunca se sabe em
quem a bala acertará.

S
Claro que não acontece assim por razão de uma qualquer
congénita inabilidade comum à generalidade dos agentes.
O problema é que faltam as carreiras de tiro e o treino é quase
inexistente; o pouco que é feito decorre em moldes errados,
pelo menos na opinião de alguns agentes referidos neste
livro. O «Agente Melo» explica como as coisas se passam…
«Um elemento policial normal, segundo o novo plano
anual de tiro, dá 52 tiros num ano, antes de ir à prova de cer-
tificação, onde dá mais 26. O GOE dá 3000 por semana e
isso não é nada; os outros dão 78 num ano!»
Parece impossível que andem na rua, de arma à cintura,
agentes policiais cujo treino total em carreira de tiro, num
72 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

ano inteirinho, consiste em disparar 78 balas. E para agravar


as coisas, esse treino não é feito nos moldes correctos. É ainda
o «Agente Melo» quem explica porquê – «Nós, em Portugal,
vamos para a carreira de tiro e pomos os homens a fazer tiro
a cinco metros de distância do alvo, que é a distância mínima
estabelecida. Se os homens não conseguem acertar a cinco
metros de distância do alvo, como é que se resolve o pro-
blema? Em outros países, principalmente nos Estados Uni-
dos, em que a formação de tiro é levada a sério, qualquer
elemento militar ou policial começa o treino de tiro encos-
tado ao alvo, depois afasta-se um pouco e começa a fazer tiro
àquela distância, e enquanto o tiro não estiver todo concen-
trado no alvo, a distância mantém-se; só aumenta depois do
tiro estar todo no alvo e após várias sessões, em diferentes
posições de tiro, sempre àquela distância.
«Cá, começa logo a cinco metros e, se tiver maus resulta-
dos, não faz mais sessões para corrigir; o próprio plano anual
impede-o de o fazer. Ou seja, tirou negativa e assim fica.
E continua na rua. Isto é surrealista».
O Subchefe Augusto, 43 anos, mais de 23 deles ao serviço
da PSP, confirma a situação e conta o seu caso pessoal. «Foi
preciso ir fazer o curso de Subchefes para ficar a saber que,
embora seja destro, o meu olho director é o esquerdo. Sem-
pre fiz um tiro razoável mas havia uma ou outra gatilhada que
me saía mal, porque estava a apontar com o olho errado.
Durante o curso, na segunda ou terceira sessão de tiro, diz-
-me o instrutor: “isto não é normal, então tu metes-me aqui
quatro tiros que são um espectáculo e depois metes dois aqui
que… isto não pode ser! Tu sabes qual é o teu olho director?”
É fácil ver-se qual é o olho director, é um teste simples, mas
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 73

só passados estes anos todos é que descobri que tinha andado


a usar o olho director errado. O resultado foi que, no tiro de
pistola, passei de razoável para muito bom. Foi preciso ir ao
curso de Subchefes para saber, mais de 21 anos depois, que
sou melhor atirador de pistola do que pensava.»
O «Agente Melo», o «Agente Pereira» e o Subchefe
Augusto, todos reunidos à mesa da conversa, concordam num
outro ponto – são precisas mais carreiras de tiro1; Lisboa tem
uma só carreira de tiro, para cerca de 7000 agentes. É mani-
festamente pouco, tanto mais que a perícia neste campo faz
parte da avaliação individual dos agentes. Por isso, reclamam
que «haja formação adequada e igual para todos os polícias,
a nível nacional». O Subchefe Augusto, vice-presidente do
SPP, lembra que essa é uma exigência do seu sindicato:
«Quando se soube que o pessoal ia ser avaliado e podia sair
da rua por causa dessa avaliação – e sair da rua significa per-
der muito dinheiro –, exigimos formação igual para todos.»
Mas, para lá da formação em tiro, prestada pela PSP, os
nossos interlocutores estão firmes noutra ideia: «Todos os
polícias devem ter acesso a uma carreira de tiro para, nas suas
horas de lazer, nem que seja a expensas suas, poderem ir
melhorar as suas capacidades; e devem lá ter um instrutor
disponível para os corrigir.» A este propósito, diz o Subchefe
Augusto: «Visita-se uma Polícia qualquer, noutro país, e per-
cebe-se que uma coisa é a formação planificada, outra é o que
acontece fora dos horários da formação; as carreiras não
fecham. Aqui não fecham porque nem existem.»

1 Os polícias lembram que o actual ministro da Administração Interna, Doutor


Rui Pereira, já anunciou a criação de mais carreiras de tiro. Estão à espera que a pro-
messa se transforme em realidade.
74 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

O «Agente Melo» confirma com a sua própria experiên-


cia: «Dou um exemplo. Quando estive nos Estados Unidos,
nós dávamos milhares de tiros, milhares… No entanto,
quando terminava o horário de instrução, quem queria ficar
mais tempo a melhorar, pagava as munições. Eles têm as car-
reiras de tiro devidamente preparadas e com pessoal instru-
tor. E a caixa de 50 munições custava apenas três dólares, isto
em 2006.» Nos EUA, porque em Portugal, há dois anos,
cada munição custava 50 cêntimos. O Subchefe Augusto
exemplifica: «Tenho uma arma minha, uma CZ Browning
7.65, e posso comprar 100 munições por ano. Há dois anos
paguei por 100 munições 50 euros.»
Outro ponto em que há discordância é acerca do calibre
das munições usadas pela Polícia portuguesa. Em Portugal,
usa-se a 7.65 mm, uma «munição cara, porque é uma muni-
ção especial, feita só para Forças de Segurança. A munição
de 9 mm é mais barata porque é uma munição mais univer-
sal e, no entanto, mais eficaz. A 7.65, quer em ricochete, quer
em tudo, é uma munição filha da puta», desabafa um dos nos-
sos interlocutores. O Subchefe Augusto confirma…
«A 7.65 , em ricochete, faz mais danos que a 9 mm ; a
9 mm bate e o ricochete é diminuto. Se eu falhar com a 9 mm,
tenho menos hipóteses de ela bater na parede e atingir
alguém do que se estiver a usar a munição 7.65. É isso que
não entendo. Como é que se escolhe uma coisa que é mais
cara, que é pior do que a outra, que já existia. Os polícias nos
Estados Unidos já estão na 45 mm, a maioria deles.» «E, aten-
ção, nos EUA utilizam projécteis anti-ricochete, que são pro-
jécteis frangíveis, com cabeça de chumbo», lembra o «Agente
Melo».
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 75

Ou seja, por enquanto, a PSP utiliza uma munição de cali-


bre mais baixo, mas que é mais cara e mais perigosa, para
quem estiver por perto de uma intervenção policial em que
se usem pistolas. Porquê é coisa que os nossos interlocuto-
res não sabem. Entretanto, foi aberto um concurso para a
aquisição de armas novas. O «Agente Melo» critica a escolha
feita – «Este concurso, que foi aberto para a aquisição das
armas para as forças de segurança, PSP e GNR, peca por uma
asneira, feita na escolha do calibre. É que noutros países,
como, por exemplo, o Brasil, o Canadá e os Estados Unidos,
o 9mm já foi retirado do serviço há muitos anos e foi adop-
tada uma munição dos 40 mm para cima, porque tem um
poder derrubante muito mais eficaz e os danos de ricochete
são mínimos, ou até nulos.»
Seja como for, a verdade é que a nova Glock vem aí, para
substituir as velhas armas dos polícias portugueses. «A Glock
é, sem dúvida, uma arma excepcional, isso não é discutível.
Portanto, há um melhoramento a nível da arma, mas podiam
ter optado pelo calibre de 40 mm», sublinha o «Agente Melo».
É certo que na Europa se continua a usar o calibre 9 mm.
Porém, os polícias sentados à roda da mesa pensam que a
«Europa vai fazer uma evolução para os calibres de 40 mm.
Nós podíamos dar um passo em frente. A Europa já usa, há
muitos anos, o 9 mm e nós não. Vamos passar a usar agora.
Só que na Europa estão a trocar os 9 mm pelos 40 mm .
E nós vamos adoptar aquilo que a Europa está a deixar? Por-
que não vamos já para o calibre 40 mm?»
E há mais: «Durante anos a Glock gabou-se de que a arma
era tão segura que não precisava de cavilha de segurança.
A PSP lançou um concurso e uma das características obriga-
76 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

tórias é que a arma tenha a patilha de segurança. A Glock fez


uma série especial para Portugal, para ganhar o concurso,
porque a 9 mm está em crise! Senão, a Glock mandava-nos
f.., porque uma das características da marca, usada até ao
nível do marketing, era não ter patilha de segurança. A Glock
sujeitou-se a ir contra a sua própria filosofia, de anos e anos,
porque está em crise e precisa de vender uma arma que está
ultrapassada, já que as polícias e os militares de todo o mundo
estão a deixar os 9 mm para ir para os calibres 40 mm. Nós
é que não!»
Esta questão dos calibres não é de pormenor. Quem já viu
os filmes do polícia americano, Dirty Harry, protagonizados
por Clint Eastwood, não terá dificuldade em lembrar-se de que
ele usa uma pistola Magnum, calibre 45 mm . É uma bala
imparável. Por exemplo, os coletes antibala, Kevlar, que a
Polícia portuguesa utiliza, absorvem bem uma bala de 9 mm,
mas serão pura seda face a um projéctil do calibre usado pelo
conhecido Dirty Harry. Ora, sabemos bem que a globaliza-
ção do crime vai a par da globalização das Polícias e que na
criminalidade mundial, voltemos aos EUA, já se começam a
usar balas desse calibre. «Essas munições foram inventadas
nos Estados Unidos para furar coletes à prova de bala, para
matar polícias», esclarece o Subchefe Augusto, indignado.
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 77

.7.
UMA PROFISSÃO FILHA DA MÃE

Ser-se polícia é um modo de vida nada fácil, não é um


emprego. Quem quiser um emprego, é melhor escolher
outra coisa. Os polícias recebem muito pouco em troca do
muito de que são forçados a abdicar. O que os cidadãos pen-
sam do que é ser polícia anda longe da realidade. E os jor-
nalistas «também não ajudam muito, às vezes, querem é
sangue».

S
Mas o que é, afinal, ser polícia? O Subchefe Augusto, que
já ouvimos no capítulo anterior, sobre outras situações, tenta
explicar… «Só depois de passarmos pelas situações por que
passamos, fazemos um rewind e percebemos naquilo em que
nos metemos. Ser polícia é uma profissão filha da mãe. Isto
é assim: quem não tem amor à camisola, há muito tempo que
não anda na rua, já arranjou um posto. Os que andam na rua,
na maioria, têm amor à camisola. Depois há os castigados…
E o pessoal que vem à procura de emprego, ou com aquela
ideia romântica dos filmes de que vai apanhar os maus, ou
78 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

vai embora, ou arranja um encosto e passa a ser escriturário


da Polícia.
«Mas ser-se polícia é um modo de vida, não é um emprego.
Quem quiser um emprego, não venha para a Polícia. Temos
de ter uma série de hábitos que o cidadão normal não tem;
é preciso abdicar de muitas coisas. Mesmo que se ande à civil,
se souberem que somos da Polícia, deixamos logo de ser anó-
nimos; os actos de um agente são sempre fiscalizados pela
opinião pública. Mas ser polícia também tem um lado bom.
Quando se anda atrás de um gang, durante meses seguidos,
e se consegue apanhá-los, há uma alegria indescritível,
embora depois nos caia tudo aos pés, quando o Juiz os manda
embora. Porém, isso é outra história; nós fazemos o nosso
papel, o resto é com as outras entidades.
«O que as pessoas pensam que a Polícia é nunca é sufi-
cientemente esclarecedor da realidade, isso é que é preo-
cupante. Os jornalistas também não ajudam muito, às vezes,
querem é sangue. É importante que a sociedade tenha cada
vez maior consciência do pilar que nós somos, um dos pila-
res mais fortes da democracia. A Polícia existe para que os
cidadãos possam exercer os seus direitos, no respeito pelos
direitos dos outros. A Polícia portuguesa tem a sorte de ter
homens e mulheres muito bons… Se compararmos com o
que se passa na Europa, as condições de trabalho, os índices
de criminalidade, as detenções feitas, nós somos mesmo
muito bons, mas também somos muito maltratados.»
O Subchefe Augusto é um homem afável e franco, de sor-
riso fácil e olhar tranquilo. É também um conversador nato
– de voz forte e firme – que não vacila num raciocínio e com
quem facilmente se cria empatia. Está a caminho dos 50 anos
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 79

e leva cerca de vinte e quatro ao serviço da Corporação. Tem


estudos superiores e compreende bem as problemáticas da
Polícia, como as lógicas em que se move o próprio país. Está
desiludido com a PSP, mas acredita que dias melhores virão,
até por ser «um homem de fé» e um «sentimentalão», como
ele próprio confessa. Mas também porque tem «a profissão
que sempre quis, desde os 14 anos…»
«Tinha uma visão romântica da Polícia, e quando entrei
percebi logo que era mesmo romântica. Tinha duas opções,
ou ficava e tentava fazer alguma coisa, ou saía e arranjava
outra profissão. Fiquei. Na minha vida, fui estudante, mili-
tar e polícia. Em 1985 pedia-se a quarta classe e eu já tinha
o ensino complementar, o equivalente ao 11.º ano; já trazia o
background do movimento associativo estudantil, uma com-
ponente reivindicativa, característica da minha geração, pró-
pria dos estudantes. Fui parar à 8.ª esquadra, no Rossio, onde
estava o Subchefe José Carreira1; depressa nos identificámos
um com o outro, e foi ele que me inscreveu no movimento
e começou a levar-me às reuniões», lembra, recordando
velhos tempos. E diz como vê hoje o movimento sindical –
“defendo que o sindicalismo, dentro da Polícia, deve ser um
grilo falante, como o do Pinóquio ; mas interventivo. Temos
de ser uma consciência activa”.»
O Subchefe Augusto afirma que se é polícia sem interrup-
ção; que, numa situação de crime, estatutariamente, um agente
é obrigado a agir, «porque nós somos polícias 24 horas por
dia. Mesmo de férias, se um agente testemunha um crime,

1 José Carreira, pioneiro na luta pelo associativismo policial na Policia de Segu-


rança Pública, dirigente histórico da ASSP/PSP, de que era presidente da mesa da
Assembleia Geral, quando morreu, em 2004.
80 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

tem de tomar providências para avisar a Polícia local, caso não


tenha condições para agir. Não pode é fazer de conta que não
vê, como pode um cidadão normal. Temos um compromisso
de honra, porque nós somos os únicos na Função Pública que
juramos o cumprimento do dever, mesmo com o custo da
própria vida. E muitas vezes perdêmo-la.»
Portanto, o risco de um processo disciplinar espreita o polí-
cia a cada esquina, na exacta medida em que está directamente
associado com a acção, a que o agente não pode fugir. É uma
situação paradoxal. E há outros paradoxos incompreensíveis.
Referindo-se à intervenção que o «Agente Melo» teve num
assalto, que percebeu estar a acontecer quando saía de casa
de manhã, e que lhe valeu uma baixa e um processo discipli-
nar1, o Subchefe Augusto pergunta – «Querem ver um para-
doxo? Se forem consultar as ordens de serviço da altura em
que isto aconteceu, ficam a saber que houve um agente prin-
cipal, que era motorista de um comandante, e que era um
bêbado que andava às putas no Barreiro, que se reformou e
levou um louvor por várias coisas e por ser bom chefe de
família. O “Agente Melo” fez o seu dever, cumpriu a missão
dele, levou um tiro, teve sorte em não ter morrido, mas apa-
nhou com um processo disciplinar (que deveria ser de averi-
guações) e foi constituído arguido durante cinco anos. O outro,
o motorista, um bêbado incorrigível, várias vezes identificado
pela polícia do Barreiro, que batia na mulher e andava metido
com putas, apanhou um louvor.
«E há outras coisas… Por exemplo, na gestão liberal são
os números que contam e nós, na Polícia, estamos, cada vez

1 Este caso é narrado no capítulo anterior.


Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 81

mais, no modelo de gestão liberal. Esquecem-se que por


detrás de cada número está um polícia, com o seu relaciona-
mento familiar, com o seu envolvimento cultural e social…
Porque o polícia tem direito a ter família, tem direito a ter
amigos, tem direito a ter momentos de qualidade com quem
ele entender; tem direito a cultivar-se, a ir a um cinema, a um
teatro, a ir beber um café, e eles esquecem-se disso. Precisam
de números, têm objectivos definidos. Há muito que a hie-
rarquia superior da Polícia, os quatro primeiros graus da hie-
rarquia, é constituída por políticos; há muito que os cargos
superiores, o Director Nacional e os três Directores Nacionais
Adjuntos, são cargos políticos e, portanto, cada vez há mais
objectivos a cumprir. Esse tipo de gestão vem de cima para
baixo. O pessoal que anda na rua é que vai, depois, conseguir
esses objectivos. Quem é que leva com a pressão, quem é que
está no terreno? Não são os chefes que estão no terreno…»
E como não estão no terreno, há oficiais que não deixam
os subordinados fazer trocas, «para juntar uns dias para irem
visitar a família; depois disparam as taxas de suicídios, por
exemplo. As pessoas não são apoiadas, esse é um dos prin-
cipais problemas que sentimos. É necessário os serviços sociais
da PSP arranjarem condições para que os polícias, que estão
aqui largados, sejam acompanhados durante o tempo neces-
sário para serem integrados e terem condições. Eles fizeram
um curso de polícia mas não fizeram um curso para andarem
em Lisboa ou no Porto. São jovens desenraizados, cujo porto
de abrigo era a família, e subitamente estão num ambiente
estranho, com hábitos diferentes. Nós temos mesmo muito
bons polícias, a componente humana é muito boa. Fazemos
tanto com tão pouco e não nos dão o devido valor.»
82 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

Quando lhe perguntamos se os oficiais de Polícia não serão,


muitos deles, jovens e inexperientes, o Subchefe Augusto
explica: «Os nossos oficiais são licenciados, mas são, de facto,
também muito novos. Pusemos jovens com 22/23 anos a
comandar esquadras. Pelo menos, que houvesse a consciên-
cia, quando eles saem do Instituto Superior de Polícia, de os
mandar para o interior, para ganharem experiência de vida
e aprenderem a liderar, para se fazerem homens, quando eles
saem do Instituto Superior de Polícia. Mas não. Eles ou
fazem-se ou nunca mais se endireitam, e começam as tais
perseguições aos agentes, porque não percebem o que se
passa na rua. Há oficiais que não percebem, muitas vezes, um
agente que chega à esquadra “perdido” da cabeça; porque nós
não somos de ferro… Esta malta nova é rápida de mais a puxar
da caneta e, à mínima coisa, participa do agente…»
Mas «os agentes e os graduados são sempre os mesmos,
estão lá anos e anos; são homens de “barba rija”, que já andam
nisto há muito tempo… E põem ali catraios a comandá-los…
Estou-me “borrifando” se os meus oficiais têm ou não licen-
ciaturas, quero é que sejam, todos sem excepção, competen-
tes na profissão deles.»
Quanto ao crime organizado, o Subchefe Augusto tem uma
opinião curiosa. «A nossa sorte é sermos um país pequeno,
com um fraco desenvolvimento económico. Aos grupos da
Máfia nem sequer lhes interessa ter aqui uma grande orga-
nização. Basta vermos, quando as Máfias de Leste querem,
aquilo que eles fazem. Estão mais bem armados, têm uma
logística muito superior à nossa, uma logística internacional.
«Porque se nós tivéssemos maior interesse económico, se
estivéssemos mais desenvolvidos, punham aqui Máfias orga-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 83

nizadas e, das duas uma, ou nós nos equipávamos, ou está-


vamos tramados. Os nossos políticos tinham de deixar de ver
a Segurança como uma despesa, que não é. A Polícia paga-
-se a ela própria. Porque as multas que a Polícia levanta, se
não fossem 20% para os Socorros a Náufragos, 20% para os
Bombeiros, e por aí fora… O dinheiro que a Polícia faz chegava
para nos apetrecharmos; não precisávamos de nenhum Orça-
mento do Estado… Nós vamos conseguindo aguentar o barco
porque não há investimento das grandes organizações crimi-
nosas internacionais em Portugal e porque devemos ter dos
melhores polícias do mundo. Porque esta gente com pouco,
faz muito.
«Por isso é que nós, no sindicato (SPP), defendemos, há
muitos anos, a formação. Porque a formação dá-lhes atitudes
instintivas, passam a agir sem pensar, porque foram treinados
para aquilo, reagem como devem reagir. Porque quem se põe
a medir os perigos, ou não reage ou leva um tiro.»
84 Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 85

.8.
DA CONFUSÃO DA QUINTA DA FONTE
AO PRECONCEITO ÉTNICO

Num bairro problemático urbano, pretos, brancos, ciga-


nos, são todos minorias. São todos marginalizados ou
excluídos. Explicações etnocêntricas ou até racistas são
insuficientes para a compreensão das tensões sociais. Em
Portugal, temos uma comunidade multicultural e é necessá-
rio conhecer as suas diferentes expressões para que a Polí-
cia os possa ajudar sem ser vista como agressora aos seus
hábitos e costumes. Alguns, cada vez mais, polícias começam
a perceber isto mesmo. Veja-se o caso da Quinta da Fonte…

S
«A situação, na Quinta da Fonte 1, surgiu porque um
cigano ia no carro a bater na mulher e alguns negros foram
perguntar-lhe porque estava a fazer aquilo. Ele respondeu que
a mulher tinha vendido droga a um fulano, fiado. Gerou-se

1 Recorda-se que, em meados de Julho passado (2008), membros das comunida-


des africana e cigana do bairro da Quinta da Fonte (concelho de Loures) envolveram-
-se em confrontos armados, que levaram algumas famílias ciganas a abandonar as
suas casas.
86 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

uma pequena confusão e, mais tarde, gerou-se a grande con-


fusão. Os negros tentaram ajudar a mulher, porque aquilo
que ele estava a fazer era um crime, mas agora são os maus
da fita. Os ciganos fizeram finca-pé com a Câmara e aos
negros ninguém ligou nenhuma, ninguém disse nada. Eles
não queriam voltar para lá, porque os pretos são os maus. Não
é verdade!
«No bairro, pretos, brancos, ciganos, são todos minoria.
Mas os negros começam a ver a diferença de tratamento entre
minorias. As mães, as tias, os pais dos negros, saem todos
os dias para ir trabalhar; ninguém se lembra que eles tam-
bém têm filhos a estudar e não recebem nada mais para além
do seu salário.
«Os ciganos acordam de manhã para ir tomar o pequeno-
-almoço, não pagam água nem electricidade; se um negro não
pagar a água ou luz, a Câmara corta-lhe, de imediato, o for-
necimento, aos ciganos não. Têm filhos na escola, recebem
um apoio; um negro tem filhos na escola e não recebe nada
por isso. Como é que querem que se consiga viver dentro
desta comunidade, sabendo que os ciganos têm tudo e são
uma minoria e os negros não têm nada? Não é possível. Se
todos são considerados como uma minoria, todos devem ser
respeitados e ter os mesmos direitos.
«Os ciganos não querem fazer absolutamente nada;
quando se fala em pagar, é um Deus nos acuda. A situação
na Quinta da Fonte rebentou precisamente devido a estas
pequenas diferenças, a uns terem tudo e outros não terem
nada. Há um excesso de protecção em relação aos ciganos,
porque são nómadas, etc., etc. Mas são eles que vendem as
drogas.»
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 87

Esta é, seguramente, uma explicação simplista para os inci-


dentes do bairro da Quinta da Fonte1. Mesmo assim, é parte
do todo explicativo, na medida em que revela a representa-
ção que os negros têm dos ciganos, e que é sustentadora do
conflito. Quem assim explica o que se passou é o «Graduado
Madeira», um negro na PSP. É um homem bem constituído,
reservado e muito discreto, que defende uma actuação da
Polícia mais próxima do cidadão, mais interessada no papel
social que pode ter, designadamente na mediação dos con-
flitos nos bairros problemáticos. Embora seja extremamente
afável e tenha um ar bonacheirão, não é fácil arrancar-lhe um
sorriso. Não é um falador, antes pelo contrário, procura as
palavras com cautela, medindo cada afirmação que faz. É extre-
mamente calmo e é difícil imaginá-lo fora desse registo. Está
na Polícia desde 1983, portanto, há cerca de vinte e cinco anos.
Conta…
«Sou um português de gema, apesar de ter nascido em
Moçambique. Fui sempre português, embora só cá esteja
desde os 17 anos. Quando entrei na PSP, em 1983, havia pou-
cos negros na Polícia… Em 1985/86 entrei para o Corpo de
Intervenção, onde fazíamos aquelas saídas para o Algarve, em
patrulhamento, que ainda hoje se fazem. O Comandante
ordenou a dois polícias que se vestissem à civil, para fazerem

1 Recorda-se, a propósito, que, na altura, o ex-ministro do Trabalho e da Segurança


Social e deputado do PS, Paulo Pedroso, sustentou, na Comunicação Social, que o que
estava em causa, na Quinta da Fonte, não era um problema étnico, mas sim «a con-
centração de pessoas com grandes níveis de pobreza e com uma vida urbana separada
da geral», ingredientes estes «construídos pela política de habitação social, que gera
este tipo de bairros».
O Subchefe Augusto, já aqui anteriormente referido, tem uma visão semelhante:
«o problema dos bairros sociais é a exclusão. Os excluídos não têm cor, reagem todos
da mesma forma», sustenta ele.
88 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

uma patrulha por causa da droga; um deles fui eu. Vesti umas
calças de ganga e uma camisa, pus um boné ao contrário e
fomos “passear” pelas ruas de Lagos, para combater o pessoal
da droga. Encontrámos uns jovens. Um deles era o filho do
presidente da Câmara, ou da Junta de Freguesia da altura, já
não me lembro bem, que tinha uma caixa de fósforos cheia
de haxixe. Agarrámos nos moços, levámo-los para a esqua-
dra e comunicámos ao graduado de serviço, que fazia o expe-
diente. Eu fiquei no hall da esquadra, com os moços, em pé,
de frente para eles, com o chapéu virado ao contrário. De
repente, entram dois polícias, um subiu as escadas da esqua-
dra e o outro ficou na conversa com a sentinela, deve ter per-
guntado o que se estava a passar e o sentinela, não se referindo
a ninguém, disse só que os gajos tinham sido apanhados com
droga. Então, o tal polícia dirige-se a mim e manda-me sentar,
eu olhei para ele e disse-lhe que se sentasse ele, mandou-me
novamente sentar e agarrou no cassetete. Quando ele tirou
o cassetete, eu agarrei-o e disse-lhe que se ele fizesse alguma
coisa, eu é que o punha sentado. A sentinela ouviu o que se
passava e esclareceu que eu era o colega que tinha apanhado
os indivíduos, que estavam sentados. O polícia pediu-me des-
culpa; tinha-se enganado. Eu era negro e os detidos eram
brancos, percebem? É uma questão de mentalidade.»
E o «Graduado Madeira» avança outra história, outra expe-
riência vivida. «Um dia, estava eu a trabalhar, começo a ouvir
as comunicações e oiço uma em que se dizia que um grupo
de negros ia ser transportado para a esquadra onde eu estava.
Quando chegam à esquadra, eram três brancos e dois negros.
Eu questionei o arvorado do carro de patrulha sobre o “tal”
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 89

conjunto de negros. Se os brancos até eram três, podia ser um


conjunto de brancos ou simplesmente um conjunto de pes-
soas. Ele ficou perplexo, “pois, pois”… É o hábito que as pessoas
criam. Eu, às vezes, tento explicar que as pessoas podem ser
tratadas por indivíduos.»
Em Portugal era uso entendermo-nos, ao nível do senso
comum, como um país de brandos costumes, sem precon-
ceitos nem atitudes racistas; são três mentiras, desmentidas
pelos factos e já suficientemente comprovadas pela investi-
gação em Ciências Sociais. A última delas, o nosso não racismo,
encontra na prática do quotidiano, sobretudo depois do início
dos fluxos migratórios, desmentidos recorrentes. Ao menos,
seremos tão etnocêntricos como outras culturas. Se há uma
imagem associada à cor da pele, então o negro é visto como,
no mínimo, um potencial criminoso; não como alguém que
luta contra o crime, não como um polícia. E se for mesmo
polícia, como interage com ele a Corporação?
O «Graduado Madeira» fala da sua experiência: «No que
me diz respeito, não falo pelos outros, sinto que estou sem-
pre a ser avaliado, que a avaliação que fazem de mim é con-
tínua, ao contrário do que sucede com os meus colegas. É o
que sinto. Não me chateio com isso, dou provas cabais de que
podem continuar a avaliar-me, que estou sempre bem. Mas
sinto que tenho de fazer mais e melhor, sou mais corrigido
por coisinhas às vezes sem importância, embora nem todos
os superiores façam isso.»
E em relação à actuação policial, essa diferenciação moti-
vada pela cor da pele também ocorre? O «Graduado Madeira»
não hesita…
90 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

«Quando recebemos uma chamada, para uma interven-


ção num bairro social só de brancos, a preparação de saída é
uma, se for para um bairro de negros, a preparação é outra.
Num bairro de brancos, o carro-patrulha vai ao local, normal-
mente, com um ou dois elementos para resolver a situação.
Se for para um bairro de negros, por exemplo a Cova da Moura,
possivelmente já vai o carro-patrulha e o piquete, porque há
a sensação de que o risco é maior. Eu não me arriscava, como
graduado de serviço, numa chamada para um bairro que
fosse complicado, enviar só uma patrulha…»
Contudo, o nosso interlocutor reconhece que, para além
dos receios ditados pela cor da pele, em alguns bairros a Polí-
cia tem, realmente, dificuldades acrescidas. «Os nossos meios
não são suficientes, e eles estão armados até aos dentes,
enquanto a Polícia continua com a Walter 65…»

Medidas securitárias não resolvem

O Subchefe Augusto1 tem um ponto de vista diferente da


visão do «Graduado Madeira» sobre os bairros problemá-
ticos, a questão étnica e a maneira correcta de actuar nestes
casos. Diz ele…
«Se for uma operação montada, para um bairro proble-
mático, os procedimentos são iguais, haja brancos ou negros.
Sabemos que é um bairro que tem pessoas excluídas, chame-
mos-lhe assim, porque muitas são mesmo excluídas, enquanto
que outras se auto-excluem porque não querem trabalhar,

1 Polícia já aqui citado nos dois capítulos anteriores.


Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 91

apenas pretendem receber subsídios. Em bairros desses, são


raros os prédios que têm uma só etnia; encontramos uma
grande diversidade. A questão é outra. É que, seja qual for a
etnia, a maioria deles têm um problema com a autoridade;
pelo menos, quase todos têm na família casos desses, por-
tanto, há, à partida, um ódio, contra a Polícia.
«Por exemplo, o bairro da Cova da Moura não é um bairro
de negros, é predominantemente de negros, sim, mas é,
sobretudo, um bairro que nos traz muitos problemas, com
negros mas não só. Independentemente da etnia, o bairro
funciona como uma comunidade no ódio contra a Polícia. Na
Cova da Moura, se der uma chapada a um branco, a reacção
é a mesma do que se der uma bofetada num preto… A pior
coisa que se pode fazer, a mais estúpida, é ter escolas no inte-
rior desses bairro; assim, aquelas crianças não vão ter outra
vida senão a do bairro, vão para a escola do bairro, vivem no
bairro. E só saem do bairro para fazer asneiras. Por outro lado,
ninguém que não more no bairro vai pôr os filhos naquela
escola. O pior que se pode fazer é criar guetos.
«Criminalidade há-de sempre existir, mais ou menos vio-
lenta, maior ou menor, consoante os problemas das pessoas.
Veja-se o exemplo dos Estados Unidos. Em alguns Estados
têm a pena de morte, mas são os campeões da criminalidade;
em cada dez mil cidadãos, há 700 presos. Em Portugal, em
cada dez mil não chega a haver 100 presos. Os números falam
por si. As medidas securitárias não resolvem, é necessário
resolver o problema das pessoas», diz o subchefe Augusto.
E revela uma compreensão antropológica do que se passa nes-
tes bairros, talvez inesperada num polícia, ao mesmo tempo
que sugere um procedimento – «Até que alguém apresente
92 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

outras medidas, tão ou mais eficazes, estou convencido de


que é a mediação que funciona; é preciso lidar com os líde-
res da comunidade. Mesmo os africanos, apesar de terem
todos a pele escura, têm hábitos culturais diferentes, e só há
pouco tempo é que se “descobriu” isso. Tal e qual como nós,
europeus, temos hábitos diferentes, de país para país, na
África acontece o mesmo. Em Portugal temos uma comuni-
dade multicultural e é necessário conhecer os seus usos para
que a Polícia os possa ajudar, sem ser vista como agressora
aos seus hábitos e costumes.
«Da mesma forma que existe o programa de Policiamento
de Proximidade e o de Comércio Seguro, deviam fazer-se
mediações sérias; não entendo porque não se aposta nessa
via. Por exemplo, nós, sindicato (SPP), assinámos um con-
trato de cooperação com uma associação sindical de polícias
de Cabo Verde, no sentido de haver um intercâmbio. O inter-
câmbio tinha como objectivo trazer cá polícias de Cabo Verde
e levar polícias nossos, mediadores, a Cabo Verde, para verem
in loco como é que a Polícia de lá lida com os cabo-verdianos
e com os problemas de conflitos étnicos para, depois, nós
podermos aplicar cá esses métodos, sem sermos ofensivos.
O Governo de Cabo Verde deu luz verde a esse intercâmbio,
mas o Governo português não aceitou1.»
E o subchefe Augusto fala de outras iniciativas do SPP –
«Nós, polícias do sindicato, fomos distribuir brinquedos à
Bela Vista e ao Moinho da Juventude, porque os miúdos não
têm maldade, essa é-lhes transmitida depois. A ideia de rea-

1 «Não estou a falar do actual Executivo, estou a falar de pessoas que por lá pas-
saram», esclarece o subchefe Augusto.
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 93

lizar jogos de futebol entre polícias e jovens da Cova da Moura


foi inicialmente muito criticada. Apesar das críticas, insisti-
mos e organizámos o primeiro jogo; felizmente, a iniciativa
continua e já vai no terceiro ano. E é uma forma das pessoas
se habituarem a lidar com a Polícia, têm que ver a Polícia
como alguém que está ali para ajudar mas, também, para os
responsabilizar, quando necessário. As pessoas não podem
sentir-se desresponsabilizadas, mas também não podem
sentir todos os olhares sobre elas. Este caminho só se faz com
um contacto diário, com envolvência. Não adianta colocar a
Polícia nos locais, se não houver um trabalho de continuidade
com a comunidade local. Os problemas têm de ser resolvi-
dos antes...
«Por exemplo, no bairro da Quinta da Fonte há sérios
problemas. A comunidade africana sente-se discriminada
negativamente em relação aos ciganos, que pensam ser dis-
criminados pela positiva relativamente a eles. Isso cria ódios.
Só trabalhando diariamente com as pessoas é que as soluções
aparecem; nada se resolve com visitas pontuais em actos de
repressão, com mandados de buscas, etc. Estes últimos devem
fazer-se mas não resolvem tudo; fica a faltar o trabalho diá-
rio nos bairros.»
94 Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 95

.9.
MULHER, POLÍCIA E MÃE

Para uma mulher, ser polícia traz problemas ainda mais


complicados do que para um homem. Por um lado, no plano
familiar, sobretudo se é mãe, já que a lógica de funciona-
mento da Corporação não lhe permite planear a sua vida de
uma forma consolidada. Por outro lado, na rua, a sua condi-
ção feminina, apesar da farda, facilita a abordagem dos cida-
dãos, que lhe põem no colo toda a espécie de problemas,
sobretudo alguns idosos e idosas que não sabem o que fazer
à vida...

S
«Uma vez, chegou ao pé de mim uma senhora, à volta dos
70 anos, lavada em lágrimas, desesperadíssima. Era mãe de
um filho deficiente, com perturbações mentais gravíssimas,
que, anos atrás, tinha sido convencido a assinar um contrato
de compra de uns dias de férias por uns fulanos que quase
forçavam as pessoas assinar contratos de Time Sharing. O rapaz
nem sabia o que estava a assinar, mas o certo é que a senhora
começou a receber cartas dos advogados da empresa que
96 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

financiava o crédito, a informá-la de que iam accionar os meca-


nismos legais, por falta de pagamento das prestações. Até já
havia penhoras para lhe tirarem os bens. A senhora veio-me
pedir ajuda e eu dei o devido seguimento ao assunto. Passado
um mês, a senhora veio outra vez ter comigo, muito aflita,
porque tinha recebido uma carta do tribunal e pensava que
lhe iam tirar tudo. Descansei-a, pois tratava-se do arquiva-
mento do processo, e a senhora ficou num pranto inexplicável,
chorando de alegria. Ver a cara da senhora como se lhe tivesse
dado vida nova foi, para mim, extremamente gratificante. É só
um exemplo das experiências por que passo…»
Quem conta esta história é a «Graduada Fátima1», há 25
anos na PSP – «Eu cresci na Polícia», diz ela, e, embora não
esconda alguma desilusão, não pensa abandonar a profissão
com que sempre sonhou. É uma mulher bonita, elegante,
feminina, embora os músculos – perfeitamente delineados –
deixem transparecer que é também uma mulher de acção,
cheia de energia, que facilmente imaginamos no terreno.
É também uma mulher simpática, com quem foi fácil e agra-
dável conversar.
«Há situações em que fico com pessoas nos braços, a cho-
rar, às vezes, com malas e bagagens, porque são agredidas em
casa. Sem saber muito bem o que lhes hei-de fazer, recorro
aos serviços competentes, que supostamente deveriam dar
seguimento à situação, mas não dão, ou então estão fechados.
Há velhotes que vêm ter comigo, pedir ajuda; há quem me
beije as mãos – até me arrepia – em agradecimento. Chegam
a querer fazer-me ofertas pela ajuda prestada.

1 Nome fictício.
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 97

«Actualmente, um polícia tem de ser um psicólogo, um


sociólogo, um psicanalista, um funcionário da segurança
social, um advogado. Dado que os cidadãos não têm resposta
por parte das instituições do Estado, viram-se para a Polícia.
Como a nossa sociedade é deficiente em termos de apoios
sociais, a Polícia serve para tudo. A população pensa que temos
de dar resposta a todas as situações, mas nós não temos meca-
nismos para isso. Além do mais, a Polícia portuguesa está com-
pletamente desmotivada, sem vontade de trabalhar, embora,
às vezes, sobressaia o desejo de fazer. Os polícias com mais
anos de profissão foram-se desmotivando ao longo do tempo;
os mais novos, ao fim de alguns meses já se sentem desmo-
tivados. Trabalho com um grupo que tem seis meses de PSP
e dizem-me que soubessem que era assim não tinham ingres-
sado na Corporação. Eu, com seis meses de Polícia tinha von-
tade de fazer tudo, dava tudo à Polícia…»

S
«Na PSP não nos dão o valor devido, consideram-nos cida-
dãos de terceira; não somos analisados como seres humanos
mas como números. Portanto, é como se não tivéssemos sen-
timentos, dificuldades, família, amigos, vida própria. Somos
movidos como peças de xadrez, somos tratados assim…
«Por exemplo, no meu caso não posso assumir compro-
missos pessoais, pois alteram-me o turno de serviço sem aviso
prévio e com o mínimo de explicações. Somos destacados sem
nos consultarem, é uma grande falta de respeito. Enquanto
profissional e enquanto ser humano, tenho direito à minha
vida pessoal com os meus filhos e a minha família; quantas
vezes tenho de me socorrer da minha mãe para ir buscar a
98 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

minha filha à escola… Mas tudo isto passa ao lado das hie-
rarquias. O factor humano não existe.
«A própria PSP não está sensibilizada para o facto de as
mulheres-polícias serem mães. A Polícia considera o agente
policial como um todo e esquece-se de que mulheres e homens
são diferentes, têm características e necessidades distintas.
Uma criança pequena necessita, por vezes, de mais cuidados
maternos do que de cuidados paternos, mas isso não está pre-
visto, não há sensibilização para isso. Pelo facto de sermos
em menor número, também não são criadas condições nas
esquadras, vestimo-nos num buraco qualquer. Na maioria
das esquadras não se pensa nos bidés, nas sanitas; nalguns
casos só há urinóis. A mulher está integrada na Polícia, mas
não como deveria estar, não em pleno. Vai sendo integrada
aos poucos. Por sermos uma minoria, e por receio de reta-
liações, nem sempre exigimos aquilo a que temos direito, e
alguns direitos até estão consagrados na Constituição. Na
Polícia fala-se nos direitos, liberdades e garantias dos cida-
dãos, mas nós não os temos. Essa parte é esquecida.
«Mesmo assim, é certo que houve uma melhoria em ter-
mos de respeito por nós, enquanto mulheres e profissionais.
Há muitos anos atrás, a mulher veio para a Polícia para os
serviços burocráticos, de atendimento de telefones, nunca
para o serviço operacional. Actualmente, a mulher-polícia faz
quase o mesmo trabalho que os homens, com excepção de
alguns serviços, que são completamente interditos. É o caso
das forças especiais, como o Corpo de Intervenção e o GOE,
em que não há mulheres operacionais. Ninguém aceita a can-
didatura de uma mulher para o CI ou para o GOE. Ora isto
não tem justificação. Conheço mulheres que eram capazes,
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 99

pelas suas capacidades físicas e psicológicas, de aguentar o


mesmo que os homens aguentam, deviam ter o mesmo tipo
de oportunidades, mas não têm.»
Para lá da particularidade da situação das mulheres na
PSP, que não é considerada, a «Graduada Fátima», como
outros seus colegas com mais anos de Polícia, deixa transpa-
recer o que poderia ser entendido como «saudosismo» do pas-
sado, não fora o facto de todos dizerem a mesma coisa – ser
polícia é profissão que já viveu melhores dias, já teve melho-
res condições. Mas ouçamos o que afirma a nossa interlo-
cutora…
«Cresci dentro dos valores, da moral e dos princípios do
que era a PSP antigamente. Éramos uma família, interna-
mente éramos defendidos pela hierarquia e, embora o sis-
tema fosse completamente diferente, mais rígido, sentíamos
que havia protecção. É certo que era uma época muito com-
plicada, em que as mulheres não eram bem aceites na Polí-
cia, mas actualmente sinto-me mais desapoiada e os direitos
adquiridos, alcançados ao longo dos anos, perderam-se com-
pletamente. Daí a falta de camaradagem, a falta daquele senti-
mento com que cresci em que a família é mesmo uma família.
«Se há falta de motivação, e há, isso deve-se ao desrespeito
que todos os sucessivos Governos têm tido por nós; à forma
como a própria hierarquia não nos apoia. Sempre me conside-
rei uma polícia virada para o futuro, uma polícia do século XXI,
uma polícia europeia – conheço bem a Polícia europeia –,
e sei que a nossa Polícia está em retrocesso. Em Portugal,
não temos uma visão de futuro da Polícia, temos uma visão
retrógrada que não se adapta em nada às realidades, quer rela-
tivamente à criminalidade, quer às próprias alterações da
100 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

sociedade. As recentes ocorrências de criminalidade demons-


tram isso mesmo, o que é terrível.»
A «Graduada Fátima» é uma polícia experiente, com várias
missões no estrangeiro que lhe valeram medalhas e condeco-
rações. Lamenta que o papel das mulheres-polícias nessas mis-
sões seja desconhecido dos portugueses e, sobretudo, queixa-se
de que, quando voltam, a hierarquia não aproveita os saberes
que adquiriram – «A experiência que eu, e outros como eu,
adquirimos lá fora; a quantidade de informação que recolhe-
mos, a vivência profissional e humana que temos, nada disso
é aproveitado. Isso revolta-me. É uma mais-valia deitada fora.
Cada polícia tem características próprias e uma história de vida
que o indicam para determinadas tarefas e isso devia ser tido
em conta. Mas não, é tudo medido pela mesma bitola.»
E, como se tudo isto não chegasse, ainda há coisas ridí-
culas, disfuncionalidades. Por exemplo, «temos um coldre
obsoleto. Face à problemática da criminalidade actual, a minha
vida pode depender da rapidez com que saco a arma do col-
dre. Ora, o coldre regulamentar, a que chamamos lancheira,
não é de saque rápido, tem de se abrir a parte de cima para
se poder sacar a arma, que, muitas vezes, fica presa e não sai.
Mas já há coldres de saque rápido. Perante a criminalidade,
que tem meios muito mais avançados do que os nossos, armas
muito mais potentes, seria uma mais-valia poder sacar a arma
em cinco segundos e não em trinta. Ora quem tem um col-
dre de saque rápido, pagou-o do seu bolso. Será somente por
uma questão de uniformidade que nos distribuem lancheiras?
Não entendo porquê, também não nos é explicado. As deci-
sões tomadas pelos responsáveis não têm um fundamento
claro, para que todos nós consigamos percebê-las. E deviam
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 101

ter, como devíamos ter meios de resposta, tanto quanto pos-


sível eficazes, para combater os crimes actuais. Mas também
não temos.
«Outro exemplo? Os últimos rádios que foram adquiridos
para a Polícia parecem uns telemóveis, todos bonitos, mas
não funcionam eficazmente. Um rádio eficaz tem de apanhar
rede em qualquer zona para onde me desloque, não posso
permitir-me ficar sem comunicações. Ora, o rádio que temos,
supostamente um topo de gama, em certas áreas não capta
rede, e se houver rádios muito próximos, abafam-se uns aos
outros. Portanto, temos de andar com dois rádios, quando o
novo não funciona, usamos o rádio do sistema antigo, o que
é, como se calcula, extremamente funcional», diz com bom
humor. E continua – «Porém, quando não temos o rádio antigo,
temos de usar o telemóvel.
«O mais ridículo da questão é que muitos agentes recor-
rem ao telemóvel, por falência dos rádios, para transmitir ou
receber ocorrências, para trocar informações ou esclarecer
dúvidas entre colegas. Mas se formos apanhados por um supe-
rior, temos de justificar a chamada e recorrer aos meios com-
provativos, caso contrário, temos problemas disciplinares.
«Outro exemplo, quando adquiriram coletes balísticos,
esqueceram-se de que as mulheres, são diferentes. Os coletes
balísticos para mulher têm um encaixe para os seios, têm
medidas como para os soutiens, têm de se adaptar ao corpo,
de forma a protegê-lo tanto quanto possível. Mas só compra-
ram coletes para homem. Ora, quando uso um colete de
homem, a zona do tórax fica desprotegida. Mas mesmo no
caso dos homens, os coletes são todos iguais, ninguém se
lembrou de que há tamanhos diferentes.
102 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

«Ainda outro caso, os óculos. O regulamento diz que


devem ter um formato socialmente enquadrado; alguém
consegue explicar-me o que é um formato socialmente enqua-
drado? Nem a Direcção Nacional explica.»
A «Graduada Fátima» entende que, em Portugal, há que ter
consciência de que a PSP é uma Polícia europeia, uma força
civil, fardada e armada. «Não somos militares. O que pressu-
põe regras diferentes, já que algumas das existentes são com-
pletamente absurdas.» Há muito desajustamento, muito
desrespeito, muita desmotivação e «é essa desmotivação e as
condições deficientes em que os próprios polícias se encon-
tram que pode pôr em causa a confiança na PSP». Mas a nossa
interlocutora, olhando para as condições objectivas em que ela
e os seus colegas trabalham, não desarma e diz que tem de con-
fiar na Polícia que temos. «No dia em que deixar de confiar não
estou cá a fazer nada», explica. Mas reconhece, igualmente,
que a Polícia que anda nas ruas não é a que gostava de ter.
O que surpreende, quando ouvimos depoimentos como
este, é o autismo e a cegueira dos políticos, ao longo dos
últimos 25 anos; o triste estado para o qual empurraram
a Polícia, na qual já nem os próprios agentes acreditam, des-
confiados das hierarquias, cansados da forma como os suces-
sivos Governos os tratam, mal pagos, mal equipados, com
formação deficiente, socialmente desinseridos, desampara-
dos. Ao sabermos destas coisas, os polícias como que ganham
um inesperado rosto humano, muito longe do estereotipo.
O pior é que ficamos igualmente a saber que, por melhor que
seja a boa vontade dos agentes, e é, via de regra, os cidadãos
não lhes podem confiar a segurança pública e dormir descan-
sados.
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 103

.10.
UMA ESQUADRA FANTASMA

Em Lisboa, há uma esquadra fantasma. Quer dizer, existe,


mas é como se não existisse. Poucos sabem dela, apesar de
lá morarem 30 polícias, e parece não fazer parte da orgânica
da PSP. Pelo menos, é isso o que sentem os que lá trabalham.
Tudo porque umas eleições autárquicas interromperam o
projectado desenrolar dos acontecimentos e nunca mais nin-
guém pensou, ou parece ter pensado, a sério no assunto.

S
«Há cerca de cinco anos, aquando das eleições para a
Câmara de Lisboa, o Dr. João Soares decidiu deitar abaixo a
Esquadra 41, da Musgueira, e deslocá-la, provisoriamente,
para os prédios do Bairro da Cruz Vermelha. A deslocação fez-
-se, mas João Soares não ganhou as eleições e lá ficámos nós,
nas instalações provisórias. É por isso que estamos numa
esquadra que só existe na teoria. Como já não há Musgueira,
não existe Esquadra da Musgueira. Mas a outra, onde esta-
mos, embora esteja sediada no Bairro da Cruz Vermelha, na
Rua Maria José da Guia, lote 14-B, não faz parte da orgânica
104 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

da Polícia. Oficialmente não existe, porque nunca foi inau-


gurada. Também não tem indicações de Esquadra de Polícia,
não tem sinalização, nem sequer o mastro de bandeira para
colocar o estandarte nacional. Para as pessoas se dirigirem à
esquadra, só adivinhando que ela existe, perguntando por ali,
ou reparando por acaso no carro da Polícia parado à porta.
Só há duas placas que dizem “Parque de Estacionamento da
PSP”, nada mais. Contudo, nessa esquadra somos cerca de
30 agentes.»
Na Esquadra da Musgueira, que não existe propriamente,
estão, então, 30 elementos. Descontando o comandante e dois
impedidos, sobram 27 polícias, que são divididos por cinco
grupos. «Um homem fica à porta, um graduado está de ser-
viço à esquadra, dois polícias asseguram a patrulha, acompa-
nhados por um terceiro, que também vai no carro para
apoio. E é esse todo o pessoal num turno. São três elemen-
tos na rua, num único carro, para cobrir uma área com cerca
de cinquenta mil habitantes. Para além do patrulhamento e
das ocorrências dessa zona, às vezes os agentes ainda têm
de se deslocar para a área de outras esquadras. Quando os
meios locais não são suficientes, chamam-se elementos de
outra esquadra, mas, de uma forma ou de outra, sempre que
há várias ocorrências em simultâneo, algumas ficam por
resolver. E há situações em que a própria Polícia tem de fugir
do local, para proteger a sua integridade física.»
Há cerca de 10 anos, em 1997/98, os polícias foram fazer
uma rusga na Musgueira. Houve disparos por parte de uns
residentes e a PSP foi encurralada, eram oito ou nove polí-
cias. Do outro lado, abriram fogo contra eles e os agentes
ripostaram; a dada altura ficaram sem munições, porque a
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 105

Corporação só distribui 16 munições a cada elemento. A sorte


dos polícias foi que, dois deles, tinham levado as suas «armas
particulares». Eram revólveres 357 mm, e o barulho e o impacte
que aquelas armas fazem permitiram-lhes fugir. Caso con-
trário, tinham ficado lá. É que os disparos das armas da Polí-
cia, de 765 mm, «parecem fulminantes» e não intimidam os
meliantes. Como se vê, Lisboa, em termos de policiamento,
é mesmo uma festa.

S
Quem nos fala da existência desta esquadra fantasma ou,
no melhor dos casos, quase clandestina, é o «Agente Mata»1,
um homem que «sonhava com uma Polícia digna, com meios
adequados; com uma Corporação capaz de tratar os seus efec-
tivos, com a mesma lealdade com que é tratada». Os sonhos
já se foram, trucidados pela experiência do quotidiano, vivido
numa PSP muito diferente do que idealizara. Ajudam a este
desencanto os «cerca de 18 processos-crime e uns 24 proces-
sos disciplinares» que já lhe caíram em cima; nem sabe ao
certo, já lhes perdeu a conta. Mas «foram todos arquivados,
não fui considerado culpado em nenhum». Porém, confessa
que, quando há um processo, «há sempre impacte, porque
temos de nos resguardar mais, o que é complicado. Quando
estamos perante um crime, não paramos para pensar. Se for
uma situação normal, pacata, tentamos resolvê-la da melhor
forma, ainda que se torne violenta. Nunca pensamos no que
pode acontecer, fazemos sempre o serviço e, no fim, logo
vemos. Contudo, os processos disciplinares causam sempre

1 Já aqui citado no capítulo 6.


106 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

entraves; enquanto estiverem a decorrer não somos promo-


vidos, e as férias podem não ser autorizadas.
«A dada altura tive um processo-crime por causa de um
jornalista, um repórter fotográfico, que apresentou queixa,
por alegadamente eu o ter ameaçado fisicamente. Enquanto
decorreu o processo, cerca de ano e meio, não fui promovido
e perdi o aumento salarial que iria ganhar com a promoção,
150 euros por mês. Fui também penalizado nos gratificados,
não mos remuneraram na qualidade de agente principal, que
é a minha categoria profissional. Na altura era o comandante
de uma secção de intervenção, tinha elementos mais novos,
que foram promovidos primeiro do que eu. E, durante esse
ano e meio, estive condicionado.»
Actualmente, o «Agente Mata» já não tem aspirações na
carreira. Cada vez lhe é mais difícil concorrer; o aumento dos
processos-crime e disciplinares impede o acesso aos concur-
sos. «Fica-se com o cadastro policial sujo e já não se pode con-
correr, até a folha ficar de novo limpa, ao fim de cinco anos.»
Para progredir, «só concorrendo ao curso de Subchefes»…
Fora isso, se for aprovada a nova lei orgânica, ainda poderá
subir a Agente Principal Adjunto. Mas nunca chegará a ofi-
cial. «O curso de oficiais de carreira, formado por agentes e
Subchefes, acabou. Agora temos de concorrer directamente
ao Instituto Superior de Ciências Policiais, o que também é
complicado, uma vez que a prioridade no acesso é dada aos
afilhados; no Instituto dão prioridade aos civis, em trinta vagas,
só cinco são para agentes e esses normalmente têm cunhas,
são afilhados de alguém. Por isso, a possibilidade de chegar-
mos a oficiais está-nos vedada; só eventualmente, através de
uma promoção extraordinária, por distinção, por exemplo.»
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 107

.11.
TRABALHAR, OUVIR E CALAR

A ideia de que um polícia é tratado como um cidadão de


segunda, privado de alguns dos seus direitos fundamentais,
foi sentida ao longo dos anos por muitos dos agentes há mais
tempo na Corporação. Essa consciência cívica terá estado na
génese do movimento sindical; os polícias estavam fartos de
«trabalhar, ouvir e calar», queriam uma estrutura própria que
defendesse os seus interesses. E assim começaram o movi-
mento sindical.

S
Algarvio de gema, há 21 anos na PSP, o «Agente Cartaxo» é
um homem bem-humorado, de sorriso constante. Um pouco
pesado, talvez tenha ultrapassado o peso que imaginamos
adequado a um polícia, mas nem assim parece que fosse inca-
paz de cumprir o serviço para o qual diz ter nascido e que o
faz sentir-se absolutamente realizado. Isto apesar de se encon-
trar aposentado compulsivamente e mau grado as mágoas,
próprias de quem não se vê tratado com justiça pela Corpo-
ração, que sempre quis servir. Quando entrou, ia cheio de ilu-
sões, que cedo perdeu.
108 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

«À entrada dos portões da Escola Prática de Polícia, eu era


um cidadão de plenos direitos. Depois de ter feito o curso,
ao sair pelos mesmos portões, tinha deixado lá direitos fun-
damentais, como o direito de reunião, o direito à greve. Esta
perspectiva desiludiu-me bastante. Nos primeiros anos de
actividade como polícia, na Pontinha, percebi que estávamos
desprotegidos, que éramos a única profissão que não tinha
uma estrutura que defendesse os nossos interesses e direi-
tos. Os nossos direitos resumiam-se a trabalhar, ouvir e calar.
Tínhamos só duas folgas por mês e sujeitávamo-nos a traba-
lhar em qualquer horário, sem poder reivindicar fosse o que
fosse…
«Quatro ou cinco anos depois, surgiu um movimento pró-
-sindical na Polícia, que veio revolucionar aquilo que eram as
nossas condições de trabalho e o reconhecimento da impor-
tância da nossa actividade. Até então, a ideia que se tinha do
polícia era que não fazia nada, saía cedo e ganhava bem; não
era e continua a não ser verdade. O desgaste físico e mental
que esta actividade provoca é de tal forma violento que há
polícias que sofrem em silêncio porque o seu orgulho não
deixa transparecer cá para fora o que se passa com eles.»
O «Agente Cartaxo» tem uma história semelhante à de mui-
tos dos seus colegas. Nasceu longe de Lisboa, em Faro, onde
começou por trabalhar na indústria hoteleira. Mais tarde, ins-
creveu-se na Escola Prática de Polícia, de onde saiu, termi-
nado o curso, em Junho de 1986. Deram-lhe três hipóteses
de colocação, à escolha: Algarve, Alentejo e Setúbal; escolheu
o Algarve, mas acabou, como todos os elementos do seu
curso, colocado em Lisboa. Ao princípio, não foi fácil… «A pri-
meira vez que mandei parar uma viatura, uma motorizada
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 109

com dois indivíduos sem capacete, estava sozinho na minha


área de giro, e as minhas pernas tremiam por todo o lado»,
recorda.
Os primeiros seis meses, esteve na esquadra da Pontinha,
só depois foi colocado em Faro. Em Lisboa, viveu sempre na
camarata. «Foi uma época difícil. Fazia remunerados, porque
era casado e tinha um filho, precisava de levar dinheiro para
casa, e para o conseguir tinha de me sujeitar à camarata, por-
que era difícil arranjar uma casa barata. As camaratas são
complicadas porque enquanto dormimos há sempre gente a
entrar e sair, por causa dos turnos. Mas foi muito gratificante
trabalhar em Lisboa; para quem tem objectivos de carreira,
de futuro, Lisboa acaba por ser uma grande escola. Quando
fui para o Algarve, já fui com uma grande bagagem, até a nível
da gíria profissional; a terminologia da criminalidade é muito
própria, aprendêmo-la uns com os outros, no dia-a-dia. Na
escola só nos ensinam a teoria e os termos técnicos.»
Mas, ao contrário de outros colegas, o «Agente Cartaxo»
suportou bem a estada em Lisboa, até porque não foi muito
longa. «Só ia a casa aos fins-de-semana, mas apenas quando
a escala o permitia. Tínhamos um único dia de folga por quin-
zena, perdíamos três a quatro horas na viagem, a deslocação
não compensava. Emocionalmente não foi muito complicado
porque eu e a minha mulher perseguíamos um objectivo
comum, a melhoria das nossas condições de vida; portanto,
havia compreensão de parte a parte. Mas também não foi fácil,
nesta situação vivemos sempre com uma certa ansiedade, que
se reflecte no trabalho, embora precisemos de saber gerir as
nossas emoções, porque não as podemos misturar com a pro-
fissão. É uma fronteira muito complicada, a que existe entre
110 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

o impacte das nossas emoções e a defesa dos interesses do


cidadão que temos de proteger.»
Já no Algarve, o «Agente Cartaxo», entusiasmou-se, como ele
próprio confessa, com o movimento sindical – «Tornei-me
activista, comecei por ser delegado sindical na minha esqua-
dra, porque os meus colegas queriam ter um porta-voz que
levasse às entidades competentes as suas reivindicações. Logo
de início assumi esse papel e, ainda que não se atingissem os
objectivos, tentava, pelo menos, mostrar as nossas insatisfa-
ções; não tinha experiência como sindicalista, mas chamei a
mim essa responsabilidade. Ao aperceberem-se do meu dina-
mismo na área sindical fui submetido a uma eleição distri-
tal, em que fui eleito presidente da Direcção Distrital de Faro,
então da ASPP, o sindicato onde comecei. Fui reeleito várias
vezes. Consegui criar estruturas que não existiam, nomeada-
mente uma sede, um gabinete jurídico, fazer eleger delega-
dos sindicais representativos, em todas as esquadras. Fui
também eleito para vários cargos nas Direcções Nacionais da
ASPP. Mais tarde, por discordar da forma como a ASPP se
estava a deixar partidarizar, acabei por sair. Tive um período
em que não exerci qualquer actividade sindical, até que fui
convidado pelo SPP para organizar a estrutura do distrito de
Faro e aceitei.»

Lágrimas de crocodilo – Uma história exemplar

Por «volta de 2003», o Subchefe Armando Lopes morre,


na ponte sobre o rio Guadiana, em Vila Real de Santo Antó-
nio, no exercício da sua função policial, portanto, no cumpri-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 111

mento do dever. «Uns indivíduos assaltaram uma loja em


Lagos, mas foram interceptados pela PSP, que lhes moveu
uma perseguição. O carro dos assaltantes em fuga era con-
duzido por um alemão, que estava acompanhado por um casal
português. Aceleravam pela Via do Infante, sempre persegui-
dos pelo carro da Polícia. Entretanto, a Polícia apercebeu-se que
eles queriam fugir para Espanha e alertou as outras esqua-
dras posicionadas ao longo do trajecto. A esquadra de Vila
Real de Santo António, juntamente com a GNR local, mon-
tou uma barreira policial, em plena ponte sobre o rio Gua-
diana, no local que faz fronteira com Ayamonte, em Espanha.
Os fugitivos, ao chegarem ali, apontam o veículo contra a bar-
reira policial, aceleram e apanham o subchefe Armando Lopes,
que foi projectado no ar; acabou por falecer, a caminho do
hospital.
«Gerou-se, então, uma indignação enorme porque o
Algarve nunca tinha vivido uma situação dramática deste
género, tendo como protagonista um polícia que morreu com
esta brutalidade toda. Por via disso, instalou-se um clima de
consternação na Polícia e na população. O subchefe Armando
Lopes, que, na altura, exercia funções de investigação crimi-
nal na esquadra de Vila Real de Santo António, tinha sido
bombeiro e era um elemento muito querido pela população.
Tão querido que teve honras de ser velado no salão nobre da
Câmara Municipal.
«Ora eu, como representante sindical, fui ao local para me
informar do que se tinha passado. Mas há uma grande resis-
tência por parte da hierarquia da Polícia em fornecer infor-
mações aos sindicalistas; ainda hoje, os oficiais não conseguem
viver paredes meias com os representantes da classe. Quando
112 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

estou reunido com o meu Comandante, enquanto sindica-


lista, ele não consegue olhar para mim como tal; sou sempre
o seu subordinado. É o Guarda António Cartaxo que está ali
e não o representante da distrital sindical; é uma deforma-
ção carreirista…
«No final do dia, já depois de ter absorvido toda aquela
consternação da própria viúva e de toda a família do falecido
subchefe, acredito que não seria a pessoa mais indicada para
dar entrevistas de uma forma ponderada, mas aceitei um con-
vite da SIC para, nesse dia, às 20 horas, dar uma entrevista
à porta da Câmara, onde o corpo estava a ser velado. Antes
de ir para a entrevista passei pela esquadra e colegas meus
informaram-me que o Director Nacional tinha dito na rádio
que o falecido, provavelmente, não teria tomado as devidas
precauções, culpando-o de certa forma. Isso aumentou ainda
mais a minha indignação.
«Na entrevista em directo, logo na resposta à primeira per-
gunta, comecei a falar, sem pensar no que estava a dizer; des-
pejei. E há uma determinada altura em que digo, de facto, que
o Director Nacional, pelas declarações que tinha proferido,
não interessava nem aos Escuteiros, quanto mais à PSP.
Depois desta frase, o Director Nacional contactou de imediato
a SIC, invocando o direito de resposta. Ainda durante o tele-
jornal, conseguiu entrar em directo e fez-me uma série de
acusações – que eu chorava lágrimas de crocodilo, que era um
indivíduo cheio de processos disciplinares, que iria instaurar-
-me um novo processo disciplinar e um processo-crime por
difamação. Esqueceu-se foi de dizer que todos os processos
disciplinares que eu tinha, cerca de doze, resultavam da acti-
vidade sindical, por andar em manifestações ou por declara-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 113

ções à imprensa. Nunca tive um processo disciplinar por moti-


vos do exercício da minha profissão.
«O Director Nacional instaurou-me, então, dois processos,
como dissera no ar – um processo disciplinar e um processo-
-crime, por difamação. O processo disciplinar teve como des-
pacho a minha aposentação compulsiva, em 2006, assinada
pelo actual presidente da Câmara de Lisboa, António Costa,
que era na altura Ministro da Administração Interna, e pelo
seu Secretário de Estado, José Magalhães. O processo-crime
por difamação foi julgado nos tribunais civis, na Pinheiro
Chagas. Todo o ambiente que se gerou durante as audiências
foi de grande hostilidade. A Juíza, que me condenou a uma
multa de 700 euros, tratou-nos, a mim, aos advogados e às
testemunhas que arranjei, sempre com grande hostilidade.
Percebi, de imediato, que havia um clima condenatório; antes
da sentença já pressentia que ia ser condenado.
«A Delegada do Ministério Público que acompanhou o jul-
gamento, de alguma forma, mostrou-se indignada pelo desen-
rolar daquelas audiências e não concordou com a decisão
da Juíza, nas suas intervenções mostrou-se sempre a favor da
minha absolvição. Na última audiência, das alegações finais,
essa Delegada foi substituída por outro Delegado do MP que,
curiosamente, inverteu a posição e ficou a favor da Juíza.
Achei tudo aquilo muito estranho. Depois da Juíza dar o des-
pacho de condenação, essa Delegada, assumindo a represen-
tação do MP, recorreu para o Tribunal da Relação, mas a
Relação, Tribunal onde, precisamente naquela altura, exer-
cia funções como Inspector o visado no processo, concordou
com o despacho da Juíza.
114 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

«Portanto, estou aposentado compulsivamente, enquanto


aguardo os resultados do recurso que fiz ao Tribunal compe-
tente. Todos dizem que este processo não tem pernas para
andar e que a reintegração na Polícia é a decisão mais certa.
Veremos o que acontece, mas já estou há dois anos à espera
da decisão do Tribunal. E há mais…
«Na mesma altura em que o Director Nacional da PSP me
instaurou um processo-crime por difamação, também eu lhe
movi um processo-crime pelas mesmas razões. O mais
curioso é que esse processo ainda nem sequer teve uma
pequena diligência judicial; a queixa foi aceite mas ainda nin-
guém me chamou para nada...»
Pelo menos para quem, como os autores deste livro, não
é jurista, é difícil entender que alguém possa ser profissio-
nalmente prejudicado por declarações prestadas enquanto
dirigente sindical. Porém, o certo é que, após 21 anos de polí-
cia, o Agente Cartaxo está compulsivamente reformado, com
uma pensão de seiscentos e poucos euros… «Consigo chegar
aos oitocentos e pouco porque, entretanto, solicitei à Caixa
Nacional de Pensões a unificação da minha reforma, inte-
grando os descontos que fiz durante a minha actividade ante-
rior na hotelaria. O sindicato também me ajuda, por imposição
do próprio Estatuto, que, nestas situações, obriga a que seja
pago o valor restante do que seria o vencimento; de outra
forma, a minha vida seria muito complicada.»
O «Agente Cartaxo» interroga-se sobre se o seu caso e o do
presidente do SPP, António Ramos, também na situação de
reforma compulsiva, não terão tido a «intenção de dar um
recado aos outros activistas sindicais, no sentido de se acal-
marem». Seja como for, a sua experiência diz-lhe que «o dele-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 115

gado sindical mais activo, o que exerce, de facto, a sua acti-


vidade como sindicalista com grande determinação e dispo-
nibilidade, é perseguido pela hierarquia superior da Polícia».
E explica: «A PSP é uma instituição de grande melindre, qual-
quer notícia desfavorável sobre as condições de trabalho
mexe muito com os interesses do Governo. Mas isso resolve-
-se pelo diálogo, coisa que este Governo nunca fez com os
representantes da Polícia, pelo menos até determinada altura.
Este Governo começou com uma grande arrogância, com um
grande autismo, mas recentemente percebeu que talvez esse
não seja o melhor processo e já começa a dialogar.»
Como os seus companheiros de profissão que connosco
falaram, o «Agente Cartaxo» entende que ser polícia é uma pro-
fissão de grande desgaste. «O serviço mais penoso da Polí-
cia é o de patrulheiro (dito polícia de giro), porque exige mais
fisicamente. Diz-se que um polícia que tenha feito toda a sua
carreira como operacional de rua, quando atinge a reforma,
morre passada meia dúzia de anos, portanto, se é assim, os
que se reformam nessas condições têm pouco tempo para
gozar a reforma. No meu caso, cheguei a andar dois, três dias
em que passava pelas brasas apenas uma a duas horas. Che-
guei a não dormir durante setenta horas seguidas e a ser
nomeado para ir fazer tiro de seguida; queixei-me de que não
estava em condições, e, como resposta, disseram-me que, dado
que estava escalado, ou ia ou sujeitava-me a procedimento
disciplinar. Mas nunca quis dar parte de doente, sempre me
recusei a usar esse recurso, a não ser em última instância.
«Quando um oficial chega a uma esquadra, no seu dis-
curso de apresentação disponibiliza-se para nos ajudar no que
for necessário, é um lugar-comum. Mas quando vamos ter
116 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

com ele com um problema, saímos com dois ou três; não


resulta», afirma o «Agente Cartaxo», assim se fazendo eco da
opinião de todos os seus colegas com quem falámos acerca
da hierarquia da Corporação.
Já quanto aos gratificados, o nosso interlocutor tem uma
visão interessante… «É uma forma de haver mais polícias na
rua, sem despesas para o erário público. A presença de um
polícia à porta de um grande espaço comercial não sei se cre-
dibiliza realmente a PSP, porque a Polícia não está ao serviço
de um só interesse, mas dos interesses colectivos. Agora, não
há dúvida de que tem um efeito dissuasor, ainda que se
alguém quiser manietar um polícia o possa fazer com toda a
facilidade. Por mim, fiz muitos serviços para o Banco de Por-
tugal, mas tinha a noção de que se alguém fosse realmente
com intenção de assaltar o Banco, eu, praticamente, não pode-
ria fazer nada.»
Claro que, para além disto, também o «Agente Cartaxo» con-
corda que os gratificados são fundamentais para o rendimento
familiar de um agente – «Podem corresponder a cerca de
30/40% do salário, é um valor extra do qual não podemos
abdicar, se quisermos ter uma vida com um mínimo de qua-
lidade.»
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 117

.12.
EM BUSCA DA IDENTIDADE PERDIDA…

O entendimento de que a PSP perdeu a sua identidade


militar, o seu modelo organizativo tradicional e ainda não foi
capaz de encontrar uma identidade nova, sustentada e har-
moniosa que motive a Polícia, lhe dê condições para enfren-
tar a nova realidade em que se insere, parece não levantar
dúvidas entre os polícias1. O «Graduado Oliveira»2, há 30 anos
na Corporação, é o mais claro dos nossos interlocutores na
abordagem deste tema, como se verá a seguir.

S
«Em 1978 fui para a tropa e abracei o espírito militar.
Depois, decidi concorrer à PSP e à GNR; fiquei bem nas duas,
mas optei pela PSP. Na altura, via a PSP como uma Força de
Segurança de topo, relativamente à GNR; quem tinha mais
capacidades ia para a Polícia, quem tinha menos ia para a
Guarda. Hoje, penso que se tivesse ido para a GNR o meu

1 A este propósito, veja-se o que diz o «Oficial Superior Paulo», citado no capí-
tulo 2 deste livro.
2 Nome fictício.
118 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

futuro teria sido melhor; mas não fui, são as circunstâncias


da vida.
«Quando entrei na Polícia, não notei diferença nenhuma
entre o sistema militar e o sistema da PSP; foi sair de um local
e entrar noutro, com as mesmas regras, a mesma forma de
cumprimento, a mesma hierarquia, tudo muito parecido.
Conheci colegas que tinham sido militares nas ex-colónias e
que pensavam como eu, porque tínhamos uma formação
militar que era muito forte e servia de base às nossas Forças
de Segurança, nomeadamente à PSP e à GNR. Os oficiais
superiores (capitães, majores, etc.) eram militares, não tinham
conhecimento policial. Os Comissários, que tinham vindo
para a Polícia com a quarta classe, não eram analfabetos que
estudaram depois, como se chegou a dizer; tinham conheci-
mento policial. Os militares tinham o conhecimento discipli-
nar e aliavam uma situação com a outra. Com a articulação
destas duas competências, a Polícia ia funcionando, ia dando
resposta às necessidades da altura, no período pós “25 de
Abril”, até 1985.»

Bonacheirão, franco, o «Graduado Oliveira» fala com um


sorriso aberto que conserva quase permanentemente e que
acaba por ser contagiante. É calmo e, ao vê-lo, é difícil ima-
ginar uma situação em que perca a cabeça. Gosta de estar na
Polícia, que acredita dever colocar-se do lado do cidadão, e não
se imagina a fazer outra coisa. Estatura média, está em forma,
talvez com uns quilos a mais, mas não muitos, porque man-
tém um ar vigoroso. Passou por movimentos sindicalistas
porque acredita que os sindicatos servem os interesses da
Corporação, no sentido em que, na sua maioria, actuam para
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 119

melhorar a própria Polícia. Continua a lembrar a sua expe-


riência pessoal nos primeiros anos como Agente de uma PSP,
digamos, militarizada.
«Nesse tempo, sentia-me bem na Polícia, apesar de traba-
lhar muitas horas. Quando veio cá o presidente dos Estados
Unidos, Jimmy Carter, fiz trinta horas de trabalho seguidas,
mas não me senti discriminado nem escravizado por causa
disso; era necessário. A contrapartida é que, quando precisava
de apoio, tinha esse apoio. O polícia dava o que era necessá-
rio, mas quando precisava também tinha facilidades, para
resolver coisas da sua vida familiar. Isto era o padrão militar;
o superior tinha o dever de zelar pelo interesse do subordi-
nado e quando isso não acontecia os subordinados deixavam,
militarmente, de o encarar como seu superior e depois ele
já não conseguia fazer nada deles. Desta forma, a Polícia
funcionava.
«Continuávamos a agir como os polícias de antes do “25
de Abril”, mas havia uma Constituição que dizia que devia ser
de outro modo; contudo, ignoravam-se os procedimentos e
as novas formas democráticas que surgiam. Os governantes,
para irem para frente, depois das sucessivas quedas de
Governo, apoiaram-se muitas vezes numa Polícia forte, numa
Polícia de cariz militar. Tive um Comandante que nos punha
descalços, na Calçada da Ajuda, a marchar e a gritar Abaixo
o Comunismo, e quando estive no Corpo de Intervenção, sen-
tíamo-nos capazes de dar a vida pelo nosso comandante, Bar-
bosa Henriques, tal era o espírito militar…
«Contudo, em 1985 apareceram novos desafios, as pessoas
da minha idade e algumas mais velhas, que tinham partici-
pado no “25 de Abril”, exigiram outras condições, mas a PSP
120 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

não tinha capacidade para lhas dar. Nesse ano, quando con-
corri a graduado, houve um Comissário que nos mandou
fazer uma redacção com um tema muito engraçado: o que
pensávamos que seria a Polícia do ano 2000; nós fantasiá-
mos. Eu era um idealista e fiz uma redacção em que via uma
Polícia do futuro que servia o cidadão, honesto e ordeiro, em
tudo o que ele necessitasse. Sempre foi esta a minha concep-
ção da Polícia – a Polícia é para defender os honestos, os tra-
balhadores e os justos, nunca os criminosos. Quando vim
para a PSP, não fazia ideia de que tinha de defender crimino-
sos, pensava que vinha defender pessoas de bem. Logo, a
minha fantasia para a Polícia do ano 2000 era a de uma ins-
tituição dedicada a assegurar os plenos direitos dos cidadãos
que contribuem para o progresso deste país.»
É certo que, nesse modelo militar, a Polícia dispunha de
«um meio, que é controverso, que é problemático e que
actualmente está posto de lado, mas que nos levava a funcio-
nar – a palavra de um polícia fazia fé em Juízo até prova em
contrário. Pode dizer-se que a Polícia cometia “atrocidades”,
com base nesse conceito e, porventura, até cometia; por vezes,
excediam-se os limites e os direitos dos cidadãos e havia abu-
sos de polícias que eram camuflados, mas o sistema não per-
mitia que esses abusos fossem por aí além. Os abusos eram
conhecidos e havia logo quem puxasse as orelhas a quem os
praticava; era o sistema militar. A hierarquia exigia tudo do
subordinado, mas, por sua vez, protegia-o. Tínhamos alguém
em quem confiar. Os superiores tinham a percepção de que
nos esforçávamos, mas que éramos humanos e, às vezes, errá-
vamos e esse erro era avaliado, para se perceber se era perdoá-
vel ou não.
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 121

«Esse modelo terminou e, se a memória não me falha, a


primeira situação nova que apareceu foram as superesqua-
dras. Fiquei admirado e esperançado, era um novo conceito.
Mas falharam logo de seguida, nem duraram um ano. Entre-
tanto, novas situações vieram: Escola Superior de Polícia, for-
mação à distância e muitas outras situações. Por outro lado,
a GNR continuou a trilhar o caminho militar e aperfeiçoou-
-o. A PSP ia num trilho muito fundo, mas a carruagem saiu
dos carris e a PSP quis procurar um novo trilho, mas não o
encontrou. Até agora ainda não conseguiu encontrar esse
novo trilho.»
O nosso interlocutor diz que, nessa busca, foram impor-
tados modelos de várias partes do mundo. Conta que, a dado
momento, participou numa acção de formação em que lhe
deram «uma disquete com o modelo da polícia de Nova Ior-
que; o exemplo de um Mayor que tinha conseguido trans-
formar uma cidade problemática, com muito crime, numa
cidade exemplar. Quando aprofundámos o caso, chegámos à
conclusão de que nos bastidores da Polícia local se cometiam
muitas atrocidades e não se respeitavam os Direitos Huma-
nos. Eles conseguiram, mas escondiam nos bastidores a forma
como tinham produzido a segurança.»
Embora convicto de que a PSP não conseguiu ainda encon-
trar o «novo trilho», como atrás se disse, o «Graduado Oliveira»
admite que se esteja no bom caminho. «Há cinco, seis anos,
não havia um caminho definido. A Polícia ansiava por ser
civil, queria ter um Director Nacional que fosse Juiz, como
na PJ; entendia que só teria a ganhar se tivesse alguém que
também percebesse de Direito. Quando tivemos o primeiro
Juiz como Director Nacional, ele, no primeiro discurso, colo-
122 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

cou a seguinte questão: “O que esperam os polícias de mim?


Que os transforme em funcionários públicos?” Para mim foi
mais uma frustração, ele foi colocado na Polícia mas não se
informou do que a Polícia necessitava, portanto, não nos iria
conduzir ao caminho certo. É evidente que um polícia não
pode ter as condições de um funcionário público, um polícia
não pode entrar às 9 e sair às 17 horas.
«Quando entrei para a Polícia, um polícia fardado fazia
muito serviço porque a própria farda impunha respeito,
actualmente não. Hoje, um polícia tem de se dirigir às pes-
soas e sensibilizá-las, entra no campo social; esse é outro pro-
blema, o polícia não quer ser assistente social e a própria
assistência social não quer ter uma Polícia. Todas as entida-
des de protecção e ajuda social estão interligadas, se não hou-
ver colaboração entre elas, quem sofre é a sociedade. Temos
estado numa sociedade imediatista, mas um problema social
não se resolve de imediato. Dou um exemplo, de três bairros
problemáticos que Lisboa tinha, passámos para sessenta e
dois, pelo menos segundo informação de uma pessoa da
Gebalis 1. Alguém pensou que, se juntassem determinados
moradores, de determinado bairro em determinado local,
iríamos resolver as assimetrias sociais; não aconteceu assim,
pelo contrário, essas assimetrias foram agravadas. Foi uma
má decisão. Eu não questiono a vontade de acertar, mas tal-
vez os estudos feitos e os conhecimentos disponíveis não fos-
sem suficientes para sustentar a decisão.
«Não aprendemos com o passado. Devemos planear o
futuro em função dos erros do passado. Navegámos muito

1 Gebalis, EM – empresa municipal encarregada da gestão dos bairros munici-


pais de Lisboa.
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 123

tempo sem rumo. Houve um período muito problemático


para a Polícia, em que toda a gente lavava as mãos, ninguém
queria tomar o leme do barco da PSP. Os miúdos do Insti-
tuto poderiam lá chegar, mas ainda eram muito jovens, actual-
mente, alguns deles já estão quase a chegar ao leme, mas a luta
em que foram lançados é muito desgastante. Conheço muito
bons elementos que “morreram” nessa luta, teriam dado
excelentes oficiais, mas já não estão na Polícia.»
O «Graduado Oliveira» entende que os oficiais saídos do
Instituto e os oficiais oriundos da carreira militar que estão
na PSP conhecem em pormenor os problemas da Polícia «e
mais, conhecem a solução. O problema é que para chegarem
onde chegaram tiveram de engolir muitos sapos, e a capaci-
dade de decisão é muito pequena, muito limitada. Há agen-
tes, Chefes e Oficiais com conhecimentos, com cursos
superiores, que são bons profissionais, em termos de conhe-
cimento policial; não há uma diferença acentuada entre o
Agente e o Oficial.
«Um Oficial vindo do Instituto é uma pessoa que não tem
problemas na vida, começa por cima, é solteiro (na maioria
dos casos), tem um ambiente pessoal estável, desafogo finan-
ceiro, é jovem, pode dedicar-se a cem por cento à causa poli-
cial. Mas vai comandar homens que têm responsabilidades
familiares, estão deslocados das suas terras, com salários
muito baixos. Na minha esquadra tive quinze homens da
escola de alistados; daquilo que gastavam para vir trabalhar,
não lhes sobrava mais do que trezentos euros do ordenado
para fazerem a sua vida...»
O «Graduado Oliveira» põe o dedo noutra ferida – «Todos
os sectores da nossa sociedade têm inserção social, a Polícia
124 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

não. Um cidadão que venha da Madeira, de Trás-os-Montes,


passa pela escola de Torres Novas, dão-lhe determinados con-
ceitos legais e despejam-no em Lisboa, para ser polícia. Tem
uma camarata com condições exíguas, tem um armário com
vinte centímetros de largura por um metro e meio de altura,
onde mal cabem os seus pertences, e, ao fim de um ano, tem
de largar tudo para ceder a outro; a partir daí, que se desen-
rasque como puder. Na Polícia não conseguem obter o impres-
cindível para terem uma vida minimamente aceitável, o que
os leva a uma série de problemas, inclusivamente ao suicídio.»
Apesar de esta ser a situação, tal como a apontam as nos-
sas diversas fontes, o certo é que os polícias não são acom-
panhados como deviam, para sua e nossa segurança. Diz o
«Graduado Oliveira» – «Quando entrei na Polícia, fui subme-
tido a um exame físico; quando entrei nas Forças Especiais,
fizeram-me um exame psicológico, o único até hoje. Somos
avaliados quando entramos na Polícia e depois nunca mais,
mas os polícias deviam ser periodicamente avaliados, porque
a aptidão inicial é, muitas vezes, alterada pelo próprio stress
do serviço, que se vai acumulando ao longo dos anos.
«Há um problema em Portugal, não só de Polícia mas de
toda a sociedade. Quando um polícia não acerta, faz uma má
intervenção, não comete um crime, mas é julgado como um
criminoso. Entende-se que o polícia não desempenha mal as
suas funções, comete crimes. Não pode ser assim! As circuns-
tâncias têm de ser avaliadas. São muitos os problemas que
levam a desajustes mentais, ao recurso a medicamentos para
se aguentarem; são incompreendidos, não são integrados, são
segregados. Espera-se que um polícia seja uma máquina bem
oleada, a render sempre. E um polícia não é isso.
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 125

«Antes, tínhamos uma hierarquia militar, Oficiais que


defendiam os nossos interesses. Entretanto, houve um des-
fasamento, a situação alterou-se, procurou-se dar à Polícia um
carácter civilista. Esse carácter civilista acentuou o tabelar por
baixo do sistema remuneratório da PSP em relação à Fun-
ção Pública; por exemplo, um sargento da GNR ganha muito
mais do que um da PSP. O movimento sindical começou a
surgir, fomentado e apoiado por Partidos políticos; foi aí que
surgiu o problema. Mas, para mim, até agora, não há sindi-
calismo policial. Para que isso aconteça, os sindicatos têm de
ser vistos como parceiros sociais e isso não acontece. Os sin-
dicalistas são segregados.
«Numa sociedade democrática a aprendizagem social tem
de vir das escolas, e nós não temos um ensino que ajude as
pessoas a defender os seus direitos. O problema é que as pes-
soas não sabem o que é o sindicalismo, nem como fazê-lo.
Por parte da tutela, não compreendem nem querem ensinar
como se deve fazer sindicalismo, mas é fundamental que as
pessoas se unam para defender os seus direitos, que estão pre-
conizados na Constituição.
«Quando a Polícia era essencialmente militar, era neces-
sário efectuar um novo regulamento disciplinar, um estatuto,
uma lei orgânica; circulava um projecto, um manual para
todos darmos opinião. Actualmente, numa sociedade demo-
crática, fazem-se projectos, aprovam-se leis e regulamentos
de que ninguém na Polícia tem conhecimento; agentes ou
oficiais, somos confrontados com as decisões a posteriori .
A Tutela gere como entende, sem ouvir o outro lado. E, no
meio de tudo isto, vivemos num dilema, entre o saudosismo
militar e a busca de uma nova resposta para o caminho policial.»
126 Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 127

.13.
FILHOS E ENTEADOS

Mesmo para aqueles que sonharam ser polícias desde


crianças, como afirmam ter acontecido com eles muitos dos
nossos interlocutores, há uma distância abissal entre a ideia
da Corporação e a realidade que as pessoas encontram, quando
entram. Os primeiros tempos na PSP constituem um período
muito difícil e o neófito não tem qualquer tipo de acompa-
nhamento que facilite a sua integração. É um verdadeiro cho-
que. Mas nem sempre é assim, mesmo a PSP tem agentes
de qualidade, bem equipados e motivados. Precisamente
aqueles que fazem parte do Grupo de Operações Especiais da
PSP – GOE, e do Corpo de Intervenção – CI. Uma espécie de
filhos e enteados…

S
O «Agente Miranda » tem 35 anos, estatura média e evi-
1

dencia plena forma física. Está na PSP há 12, cumprindo um


sonho que tinha desde a infância; «ao longo do meu percurso

1 Nome fictício.
128 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

escolar procurei sempre preparar-me para esta profissão»,


garante. Natural de Trás-os-Montes, quando acabou a escola
de alistados foi colocado em Lisboa. Passou pelo tal choque,
viveu momentos difíceis. Conta como foi... «Entrei para a PSP
em 1996, depois de ter terminado o curso, e, ao fim cinco dias,
fui colocado em Lisboa. Claro que não tinha casa onde ficar
e o meu primeiro salário, de 94 contos, também não dava
para grande coisa.» Por isso, no final do primeiro dia foi para
o alojamento da PSP, na Ajuda… «Quando cheguei à cama-
rata, as escadas que subiam ao primeiro andar estavam cheias
de buracos, os beliches tinham uma distância de meio metro
entre eles, não havia armários para a roupa, o tecto tinha
infiltrações a pingar, havia uma única casa de banho, com um
cheiro nauseabundo; era um ambiente sombrio. Fiquei lá
durante cinco dias e lembro-me da sensação de querer des-
cansar e não conseguir; não pelo impacte do trabalho por tur-
nos, mas pela forma como me senti desamparado; esperava
um mínimo de dignidade, de condições. Estava enganado.»
No início de carreira muitos Agentes entram motivados,
cheios de vontade de trabalhar, querendo servir. Porém, face
às condições objectivas que encontram, caem das nuvens,
sentem desmoronar-se o sonho. Ao «Agente Miranda» valeu
ter um familiar com uma casa desocupada, à distância de
30 quilómetros da esquadra; ao fim dos cinco dias de pesadelo,
mudou-se para lá. Mas a maioria dos Agentes que chegam a
Lisboa, vindos da Província, não têm esta sorte. Mesmo assim,
só ao fim de um mês em Lisboa é que o nosso interlocutor
conseguiu ir a casa, em Trás-os-Montes. Concluiu que a des-
locação não valia a pena. Juntando dois dias de folga, tinha
longas horas de viagem pela frente, ida e volta, e não conse-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 129

guia passar mais do que uma noite em casa, com a família,


gastando para isso mais dinheiro do que podia gastar. Não
compensava. Por isso, a vida familiar passou a ser, via de regra,
vivida à distância, através do telefone, mas «como os telemó-
veis quase não existiam, também essa forma de contacto não
se apresentava fácil».
Sozinho em Lisboa, mesmo assim, para se poder aguen-
tar, tinha de fazer gratificados, pelo que dispunha de pouco
tempo para dormir. «Quando terminava o turno na PSP, às
sete da manhã, tinha o remunerado ao meio-dia; no final,
sobravam-lhe poucas horas livres, até entrar, de novo, ao ser-
viço, e acabava por nunca conseguir repor o sono – com
intervalos de três horas não se dorme convenientemente.»
A sua vida pessoal também não era satisfatória, «resumia-se
a umas saídas com os colegas, no final do turno». O que acon-
tece em casos como este, e são muitos, é que se cria um
círculo de amigos dentro da Polícia, no qual, em vez de des-
contrair, os Agentes acabam por partilhar e discutir os pro-
blemas profissionais comuns.
Contudo, esses maus tempos passaram. Agora, o «Agente
Miranda» está no Corpo de Intervenção – CI e tem vários
louvores, recebidos em serviço. No contacto pessoal, eviden-
cia um raciocínio organizado, que lhe dá uma visão global da
PSP, a vários níveis. Talvez por isso, assume-se como um crí-
tico da Corporação, interessado no melhoramento das con-
dições dadas pela PSP aos polícias, porque percebe que a
realidade do CI nada tem a ver com a dos seus colegas, fora
do GOE ou do Corpo de Intervenção, em que nota uma dife-
rença muito grande a nível operacional, de eficácia, e de
meios. Explica como…
130 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

«O Corpo de Intervenção da PSP é uma Polícia diferente.


Desde logo, há um acréscimo de motivação. Depois, obriga-
-se os polícias a uma preparação, a um esforço, a um aperfei-
çoamento que é compensado. Quando se entra nos grupos
especiais, a diferença é muita, há uma grande confiança entre
os homens; há uma estrutura bem montada, a nível de exer-
cício físico, de defesa pessoal; também há melhor equipa-
mento, mais formação no uso e manejo de armas.
«Numa esquadra, usa-se arma que estiver disponível,
muitas vezes sem se ter formação. Quando andava em patru-
lha, ao fim de três dias descobri uma Beretta no carro, uma
metralhadora; disseram-me que, se precisasse, a podia usar.
Mas só tinha visto uma Beretta a ser desmontada e montada
na escola, nem sabia quais eram os efeitos da sua utilização;
até no que diz respeito aos coletes antibala, a maioria dos
agentes não sabe que munições param. E não temos coletes
que cheguem para toda a gente.
«No CI há coletes para todos os elementos que estejam de
serviço e outros materiais de protecção, dado que é uma uni-
dade direccionada para a manutenção da ordem pública. Somos
motivados diariamente, a própria postura é diferente. As situa-
ções em que somos chamados a intervir são para serem resol-
vidas rápida e eficazmente. Só a presença do CI é, por si,
dissuasora, o que impede, muitas vezes, que as situações se tor-
nem mais complicadas. E há um maior espírito de corpo, as pes-
soas passam mais tempo juntas, viajamos pelo país para reforçar
outros comandos. Há um maior orgulho em pertencer-se a uma
dessas unidades, porque o trabalho é eficaz e é reconhecido.
Também há menos problemas a nível psicológico, há mais
acompanhamento, é uma força mais bem estruturada.»
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 131

E foi precisamente no Corpo de Intervenção, a que con-


correu ao fim de três anos na PSP, que o «Agente Miranda»
se sentiu mais motivado. Até esse momento, passara o
tempo a tentar minimizar os estragos produzidos na sua vida,
pela entrada na Polícia. Na PSP, diz sem hesitações, «não há
apoio; quem trabalha é forçado a deixar de trabalhar. É um
puzzle que abrange várias áreas: as leis, os tribunais, a estru-
tura interna da Polícia, os próprios cidadãos…
«Os cidadãos não compreendem que um polícia que passa
uma multa está a cumprir a sua função; a hierarquia não con-
segue avaliar se o polícia é bom porque fez muitas autuações
ou se, pelo contrário, é bom porque evitou infracções; o chefe
só vê o polícia quando este entra e quando sai de serviço, não
conhece a qualidade do trabalho que ele faz na rua. Esquece
que se, no final do horário normal, as seis horas de turno, o
agente intervier numa ocorrência tem de ficar a trabalhar
para lá do seu horário, para tratar de todo o expediente; em
certos casos, ainda tem de se apresentar ao Tribunal no dia
seguinte, mesmo que coincida com a sua folga ou horário livre.
E todas estas horas extraordinárias não são pagas.»
Claro que isto não é justo, nem faz sentido; parece ser mais
uma das originalidades portuguesas. «Em Portugal, numa
ocorrência num estabelecimento nocturno, o polícia desloca-
-se ao local, tem de acalmar as pessoas, identificá-las, levá-las
para a esquadra, fazer a detenção e acompanhá-las a Tribunal.
Em França, por exemplo, na maioria dos casos, há uma uni-
dade de intervenção que acalma a situação e depois intervém
um elemento que recolhe os depoimentos e dá seguimento
a todo o expediente; a unidade de intervenção fica de ime-
diato disponível para outras ocorrências. Em Inglaterra, que
132 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

será um dos países da Europa mais desenvolvidos em termos


policiais, apostaram na vídeo-vigilância e não têm tantos pre-
conceitos. Mas cá acha-se que a segurança só funciona se
estiverem muitos polícias na rua, é um engano», sustenta o
«Agente Miranda».
É que em Portugal «não existe uma cultura policial, existe
uma cultura política imiscuída na cultura policial. Nos Esta-
dos Unidos, as perseguições (cá isso não é possível porque
não temos meios) são tranquilas, não desatam aos tiros, salvo
em determinadas situações; o que fazem é reunir vários veí-
culos até encurralarem o infractor. Cá, temos a ideia de que,
se o assaltante foge a 200 à hora, a Polícia tem de o acompa-
nhar à mesma velocidade e disparar para os pneus; mas há
orientações superiores para não se perseguir elementos que
estejam em fuga. É muito complicado. Se numa perseguição
dispararem contra nós e prosseguirmos, se acertarem num
pneu do carro-patrulha, somos sujeitos a um processo disci-
plinar e a pagar o arranjo do veículo por não termos parado
a perseguição. Outro caso, se um assaltante que vai a fugir
de súbito se vira e dispara, não podemos ripostar; se dispa-
rarmos, dificilmente é considerado legítima defesa, porque o
assaltante ia a fugir, ia de costas...
«Imagine-se, um indivíduo que faz vários disparos, mata
ou fere pessoas. Do outro lado estão um ou dois agentes,
então esse infractor mete a arma na cintura e vira-se de cos-
tas contra uma parede; a Polícia não pode disparar. Se ele
tiver as mãos no ar, é óbvio que não se deve disparar, mas o
polícia vai ter de se aproximar desse indivíduo que está
armado para o revistar e algemar. Em 99% das situações
trata-se apenas de um polícia ou dois. Quando um agente se
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 133

aproxima, ainda que esteja a apontar a arma ao indivíduo, este


pode desarmá-lo ou sacar da arma naquele momento. Se o
polícia dispara, vai ter uma série de problemas, vai ter de pro-
var que lhe foi apontada uma arma. Em muitos casos, as tes-
temunhas escusam-se, dizem que não viram nada, e o próprio
Juiz dificilmente acreditará no polícia, porque, em Portugal,
não há a cultura de acreditar na Polícia… A vídeo-vigilância,
onde fosse possível instalá-la, seria uma forma de resolver
estas situações e atenuar muitas outras.»
E em relação à insegurança nos comboios, por exemplo
na linha de Cascais, que se diz ser um problema irresolúvel,
porque não pode andar um agente em cada carruagem? «Essa
situação resolvia-se facilmente, bastava que pusessem torni-
quetes, como acontece no Metro; só que não querem inves-
tir. Por outro lado, parece que as pessoas não pretendem estar
seguras, querem apenas sentir-se seguras. Podemos ter uma
zona muito segura em que não vê polícias, porque os Agen-
tes até sabem o que se passa e onde, e trabalham bem; mas
as pessoas são capazes de dizer que querem ali polícias far-
dados. Já noutra zona, onde há mais presença de polícias, mas
em que há assaltos diários, as pessoas não dizem nada. Os
bingos, as ourivesarias, os supermercados pedem serviços
remunerados, quando são zonas de patrulhamento da própria
PSP.»
E como se deve articular a acção das diferentes Polícias,
por exemplo, da GNR e da PSP? «É importante percebermos
que nas zonas urbanas há uma grande diferença entre a
GNR e PSP. Eles fecham o posto e a PSP tem as esquadras
abertas 24 horas. Mas a divisão entre Polícias também divide
a Segurança; numa investigação que esteja a ser feita pela
134 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

PSP, se entrarmos numa zona da GNR, inicia-se outra inves-


tigação. Duplica-se a necessidade de meios e de efectivos.
A GNR quase não tem área de cobertura em Lisboa, mas tem
cerca de 7000 homens aquartelados e, no Porto, mais 5000.
Portugal é dos países que tem mais polícias per capita, mas
esquecem-se que os cozinheiros, os sapateiros e outros não
fazem efectivamente o serviço de policiamento…»

Parecia o Oeste…

No início da carreira, quando chegou a Lisboa, o «Agente


Miranda» foi colocado na 4.ª Divisão. Um ano depois, na
mesma noite, assaltaram-lhe o carro pessoal e levou um tiro
numa perna… «Tinha acabado o meu turno de serviço quando
houve uma chamada; três colegas estavam cercados no Casal
Ventoso, sob fogo. Ficou um elemento na esquadra e fomos,
quatro polícias, socorrer os outros; fomos no meu carro por-
que não havia outro, somente o do oficial de dia. O único equi-
pamento que tínhamos era a nossa arma, não havia sequer
coletes à prova de bala para nossa protecção. Quando chegá-
mos, o bairro parecia o Oeste – tiros e ricochetes por todo o
lado. Numa dada zona, ficámos desprotegidos e, no meio dos
ricochetes, senti a perna molhada e comecei a ficar com falta
de força. Tinha levado um tiro nos gémeos mas não me aper-
cebi logo. Continuámos e lá conseguimos aproximar-nos dos
outros colegas, depois de saltar muros, dispersar grupos de
pessoas, fazer perseguições; era muita gente, havia uma grande
confusão. Só mais tarde tivemos apoio de colegas de outras
Divisões que ouviram as comunicações e foram ajudar-nos.
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 135

Conseguimos deter três indivíduos que estavam a bater num


colega nosso. Entretanto, a ambulância chegou e puseram-
-me uma ligadura, enquanto não ia ao hospital. E fomos para
a esquadra com os detidos.
«Quando estava a ajudar a algemar os detidos ao banco,
ao revistá-los um deles tira uma seringa do bolso e espeta-
-me a agulha, já usada. Fui de imediato fazer um teste, mas,
até saber os resultados, passados uns meses, não imaginam
o que passei. Todos os dias pensava que podia ter sido infec-
tado. Sempre tinha dormido bem, mas comecei a ter dificul-
dades de sono. Isso fez-me sentir-me inseguro em relação ao
que poderia fazer, durante o sono; muitas vezes, confundia
a realidade com a ficção, e sabia de vários colegas que já
tinham passado por essa experiência. Comecei a pensar, dada
a forma como me sentia, que ainda pegava na arma durante
o sono e desatava aos tiros. Como não tinha condições para
deixar a arma no trabalho, cheguei a desmontá-la e a escon-
der uma das peças numa divisão, as munições noutra, para
não correr o risco de, ainda assim, montar a arma durante o
sono. Considero-me uma pessoa equilibrada, mas nessa altura
cheguei a esse ponto…»
Por esta e outras razões, os portugueses não têm a segu-
rança que deviam ter. Esta é uma proposição que os depoi-
mentos recolhidos para este livro demonstram, sem margem
para dúvidas. O «Agente Miranda» vai mais longe… «Sei que
cada queixa que é apresentada numa esquadra da PSP, ou
num posto da GNR, deve-se a uma falha da Polícia. A forma
como a PSP é organizada vem de cima para baixo, quando
devia ser ao contrário. Quem tem experiência no terreno e se
mostrou capaz de boas práticas no dia-a-dia, devia ir subindo
136 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

na hierarquia… A estrutura policial, a nível de Oficiais, pre-


cisa de algumas melhorias. Há um conflito entre Oficiais de
base e Oficiais de carreira. Todos os Oficiais estão à procura
de curriculum para progredirem na carreira; mas o curricu-
lum, na maior parte das vezes, não é compatível com a efi-
cácia e com a estruturação da instituição. Há Oficiais que
preferem agir de forma politicamente correcta e, por isso, dei-
xam de fazer o necessário, e, como ocupam posições destaca-
das, acabam por influenciar toda essa hierarquia.
«Há muito bons oficiais vindos do Instituto Superior de
Polícia, mas são oficiais muito novos. São jovens, com vinte
e poucos anos, que vêm comandar homens de 45/50, com
muito mais experiência. Só há duas hipóteses, ou esse jovem
se torna um líder, porque tem qualidades, ou torna-se pre-
potente. Dou um exemplo…
«Um dia o CI foi destacado para um jogo de futebol, no
Estádio da Luz. Chovia imenso. Os homens passaram cinco
horas a apanhar chuva, a chuva, entretanto, parou mas os
polícias tiveram de continuar com a mesma farda. Contudo,
o Oficial, que apenas esteve meia hora à chuva, numa pausa
do jogo, chamou o condutor e foi à sede, trocar de roupa.
Quando voltou, ainda se pôs com piadas para os seus subor-
dinados, dizendo que ele estava sequinho e eles molhados.
Não percebeu, mas, em dois minutos, perdeu aqueles homens
todos. E teria sido ainda pior caso tivesse acontecido algum
incidente durante o período em que se ausentou…»
Interrogado, como outros dos seus colegas citados neste
livro, sobre se um Agente que anda na rua tem capacidade
para actuar com discernimento, o nosso interlocutor não tem
dúvidas em responder negativamente – «Claro que não!
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 137

Principalmente quando estão em jogo vidas humanas; quer


a nossa, quer a de terceiros. O cansaço, a baixa capacidade de
avaliação, a própria irritabilidade provocada pelo sono, tudo
isso contribui para uma baixa da autoconfiança. Mesmo sem
sono, a confiança que dão a um Agente é uma arma que devem
evitar usar. Quando um Agente intervém numa ocorrência,
muitas vezes está sozinho perante uma série de elementos.
Num turno de seis horas contactamos com as mais diversas
situações e pessoas, temos de aprender a avaliar cada um não
pelo aspecto mas pela forma como fala e gesticula; pela pos-
tura – já estive numa situação em que um homem, de fato e
gravata, sacou de uma arma. São uma série de pormenores
que passam despercebidos ao cidadão médio, mas aos quais
temos de estar atentos. Isso só se adquire com a experiência,
mas óbvio que o cansaço não ajuda.»
E termina num lamento – «Actualmente, um polícia luta
contra a instituição, contra os criminosos; muitas vezes, con-
tra si próprio. Isto leva à desmotivação e há elementos que
não se sentem valorizados pelos sacrifícios que fazem.»
138 Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 139

.14.
SINDICATOS, LUTAS E PERSEGUIÇÕES

«Queremos que aquilo que nos foi retirado seja reposto,


nomeadamente no que diz respeito à aposentação e à saúde.
Essas são as nossas duas bandeiras actuais, a nossa orienta-
ção para a acção. Para além disso, se somos funcionários
públicos têm que nos pagar como tal», quem diz isto, de
modo convicto e firme, é o agente António Ramos, presidente
do Sindicato dos Profissionais de Polícia – SPP, uma das mais
importantes estruturas sindicais da PSP.

S
António Ramos está aposentado compulsivamente, mas
isso não o impede de continuar à frente do SPP, a lutar pelo
que entende serem direitos dos profissionais de Polícia. É um
histórico do movimento sindical. Esteve nos Secos e Molha-
dos1, aquele que foi um dos momentos mais dramáticos da

1 Carga policial sobre os manifestantes da PSP, em 21 de Abril de 1989, que ficou


conhecida como «Secos e Molhados», em que agentes do Corpo de Intervenção, chama-
dos pelo ministro da Administração Interna, atacaram, com mangueiras e jactos de água,
os colegas que se manifestavam à porta do MAI em luta pelos seus direitos laborais.
140 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

história da PSP, que opôs polícias a polícias e marcou a vira-


gem na história da Corporação. Desde então, não mais ces-
sou a sua actividade enquanto sindicalista, embora não alimente
«partidarismos, porque o sindicalismo deve servir os interes-
ses dos polícias e não uma qualquer perspectiva político-par-
tidária».
De estatura mediana, cabelos brancos, um pouco calvo,
António Ramos tem um ar tranquilo, que nunca se altera,
mesmo quando aguça a crítica. Ao longo de mais de vinte
anos de serviço já passou por toda a espécie de agruras, algu-
mas das quais surgidas por causa da sua condição de diri-
gente sindical, sabendo-se, como se sabe, que os sindicatos
são ainda mal recebidos no seio da Corporação.

S
O SPP nasceu, em 1994, de uma cisão no seio da Associa-
ção Sindical dos Profissionais de Polícia – ASPP, por inicia-
tiva de um conjunto de dirigentes desta última, que, na altura,
a acusavam de «subserviência ao Partido Comunista Portu-
guês». Inicialmente, porque a lei apenas permitia a existên-
cia de associações, o SPP começou por se chamar APP/PSP
e todos os seus membros fundadores eram dirigentes nacio-
nais ou distritais da ASPP e membros integrantes da «Lista
B», que concorrera, em Abril desse mesmo ano de 1994, às
eleições para a ASPP e saíra derrotada.
Oito anos mais tarde, em 2002, quando os sindicatos foram
finalmente autorizados na PSP, a APP/PSP passou a desig-
nar-se Sindicato dos Profissionais de Polícia – SPP, nome que
mantém. Propõe-se «defender apenas os interesses dos polí-
cias e da Polícia». António Ramos, seu Presidente, é claro sobre
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 141

isto: «O SPP não é partidarizado, o nosso Partido é a Polícia.


A nossa intervenção é contra os problemas dos polícias e da
Polícia, pela dignificação da Polícia, por melhores condições
de trabalho. Se tivermos melhores condições de trabalho,
estaremos mais motivados e serviremos melhor a população.»
Instado a isso, não hesita em lembrar os velhos tempos do
combate pelo sindicalismo na PSP. É, simultaneamente, uma
testemunha singular e um actor de primeiro plano de acon-
tecimentos marcantes da história moderna portuguesa. Vale
a pena ouvi-lo e registar as suas memórias do que se passou,
nesses idos dos finais da década de 70, princípio da década
de 80, quase trinta anos depois…
«O movimento sindical na PSP começou em 1979/80.
Inicialmente, foi constituído por meia dúzia de pessoas, e
depois foi-se expandindo. Em 1983 criou-se uma comissão
pró-sindical e esta comissão, até 1989, teve muita adesão a
nível nacional. Lutou pela constituição de um sindicato de
Polícia, porque Portugal era o único país da União Europeia
onde ele não existia. Entendíamos que não podíamos estar a
defender os direitos e garantias dos cidadãos quando nós pró-
prios não os tínhamos.
No período entre 1980 e 1989, travou-se uma luta com
situações muito duras. Começámos na clandestinidade e, a
partir daí, fomos dando a cara, fomos aparecendo na comu-
nicação social. Criou-se uma comissão pró-sindical. Perten-
cer a essa comissão pró-sindical, durante alguns anos, levou
a muitos processos disciplinares, deu origem a muitas trans-
ferências; na época – com governo do PS e o então ministro
Duarte Pereira – o comissário Certines, que esteve também
à frente deste movimento da comissão pró-sindical, foi trans-
142 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

ferido para Bragança; outros colegas foram transferidos para


a Madeira, e outros, ainda, foram movimentados de umas
Divisões da PSP para outras. A muita gente, por ser sindi-
calista, foi limitada a progressão na carreira, e não puderam
concorrer a Subchefes.» Mas a luta continuou…
«No dia 10 de Março de 1989, no pavilhão do Banco Espí-
rito Santo, na Rua D. Luís, realizou-se um encontro nacional,
com cerca de dois mil elementos da Polícia, fardados. Foi
constituída uma delegação, composta por seis elementos, que
se deslocou ao MAI, com uma moção para entregar ao senhor
ministro da Administração Interna, na altura Silveira Godi-
nho, sobre os problemas da Polícia. Pedíamos melhores ven-
cimentos, folga semanal, criação de sindicatos, revisão do
regulamento disciplinar e várias outras coisas. Hoje, a maior
parte desses problemas contra os quais lutávamos na altura
mantêm-se, excepção feita à lei sindical, embora com limita-
ção ao direito à greve e a passagem da folga quinzenal a sema-
nal, isso conseguimos.»
E que aconteceu a essa delegação? «Essa delegação preten-
dia ser recebida pelo senhor ministro, que se mostrou
indisponível e enviou um assessor. Era pouco. Após muita
insistência e muitas horas no MAI, falou connosco o subin-
tendente Reis. Finda a conversa, regressámos às instalações
do Banco onde os nossos colegas nos aguardavam, e marcá-
mos o segundo encontro para o dia 21 de Abril. Foi o dia dos
“Secos e Molhados”, o “25 de Abril da Polícia”.
«Esse encontro, a que me refiro, foi marcado para a Voz
do Operário, reunimos cerca de dois mil elementos fardados,
que acompanharam a delegação que foi ao MAI, na Praça do
Comércio. Enquanto a delegação entrava no MAI, os nossos
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 143

colegas esperavam no Terreiro do Paço; não estavam a impe-


dir o trânsito, não havia palavras de ordem, não havia faixas;
portanto, não era uma manifestação… Entretanto, já no inte-
rior do MAI, confrontámo-nos novamente com a indisponi-
bilidade do senhor ministro para nos receber. Visto que
tínhamos os nossos colegas lá fora, e já era a segunda opor-
tunidade que dávamos ao Governo, entendemos que devia ser
o senhor ministro a receber-nos. Havia alguns colegas da
delegação que aceitavam que se entregasse o documento
novamente ao funcionário, enquanto que outros discorda-
vam, pois não fazia sentido movimentar mais dois mil cole-
gas fardados para a porta do MAI e prolongarmos aquela
situação. Portanto, havia de ser naquele dia; o ministro tinha
mesmo de nos receber. Eu opus-me a isso, a essa exigência…
Ao fim de cinco minutos, foi-nos dada ordem de detenção
pelo segundo Comandante da Polícia de Lisboa, o Superin-
tendente Tapadinhas; foi então que avançaram os canhões
de água – que estavam concentrados na Praça do Município –
contra os nossos colegas. Assistimos a tudo pelas janelas do
rés-do-chão do MAI…
«O que se passou, como toda a sociedade teve ocasião de
ver, foi que houve bom senso... Bastava haver ali um tiro, ou
um colega mais exaltado que sacasse da arma… Houve o bom
senso, de parte a parte, de não haver armas de fogo; não se
disparou um único tiro. Houve colegas, mais exaltados, que
ainda tentaram puxar pela pistola, mas também houve logo
outros que lhes retiraram as armas. Mesmo assim, houve pro-
blemas graves e feridos, socorridos num hospital de campa-
nha, que tinha sido montado, de propósito, já a prever esta
situação de conflito.
144 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

«Entretanto, nós, a delegação, fomos conduzidos numa car-


rinha do CI para a esquadra da Reboleira, que ainda tinha uma
prisão para polícias, embora já estivesse desactivada há cerca
de dois anos. O colega que nos transportou fez o percurso a
chorar, indignado com a situação… Quando chegámos, esta-
vam muitos colegas à entrada da esquadra, o próprio efectivo
da esquadra agiu e não permitiu a nossa entrada nas instala-
ções da prisão. Esperámos ali, cerca de dez minutos, até que
o comandante da Divisão, o subintendente Veríssimo Martins,
deu ordens para que fôssemos encaminhados para a esqua-
dra de Queluz. Ficámos num gabinete da esquadra, onde dor-
mimos e de onde não podíamos sair, até sermos presentes,
no dia seguinte, ao Tribunal de Polícia. Fomos presentes ao
Juiz, mas o Juiz não nos julgou por não ter havido tempo sufi-
ciente para fazer julgamento; o caso foi para inquérito e nós
saímos. Mais tarde ainda fomos sancionados, mas a Assem-
bleia da República fez uma lei, uma amnistia geral para os ele-
mentos que estiveram envolvidos nesse acontecimento.»
Na sequência dos Secos e Molhados , já «em 1990 foi
criada, por consenso dos dois maiores partidos, uma lei asso-
ciativa, a Lei 6/90, de 20 de Fevereiro. Foi essa lei que per-
mitiu a constituição das associações, embora na época fosse
constituída apenas uma, a Associação Sócio-Profissional da
Polícia – ASPP, que já vinha do movimento pró-sindicato. Na
altura, era a única associação existente1, embora com pode-
res muito limitados pela Lei 6/90.» Só em 2002 foi aprovada,
na Assembleia da República, a constituição dos sindicatos,

1 Recorda-se que a APP/PSP só foi constituída em 1994, precisamente com base


numa dissidência ocorrida no seio da ASPP e que mobilizou alguns dos seus dirigen-
tes históricos.
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 145

depois de todos os envolvidos terem aceite que a esses sindi-


catos ficaria vedado o direito à greve. «Na altura analisámos
a questão, e como estávamos há vinte anos nesta luta e a maior
parte dos sindicatos europeus não tem direito à greve, excepto
dois ou três, resolvemos aceitar a restrição do direito à greve
e, no futuro, logo se veria. Se não, ainda ficávamos mais vinte
anos com isto empatado. Portanto, foi este o acordo a que che-
gámos com o PSD e CDS, no sentido de darem o aval à pro-
posta do Governo para a criação de sindicatos da Polícia. Foi
assim que surgiu a lei de 14 Fevereiro de 2002 e foram cons-
tituídos os sindicatos.» Na sequência da lei, a APP e a ASPP
transitaram de associações para sindicatos, como algumas
outras, entretanto, formadas por alguns oficiais de carreira e
oriundos de academia; registaram-se praticamente todas»,
recorda o presidente do SPP.
A PSP tem hoje uma profusão de sindicatos. Porque,
quando a lei saiu, já havia algumas associações de classes;
«não eram representativas, mas existiam e foram-se consti-
tuindo como sindicatos. Neste momento é fácil; qualquer
assembleia geral de vinte pessoas chega para formar um sin-
dicato.» Contudo, só a ASPP e o SPP têm verdadeira repre-
sentatividade. Segundo as contas que António Ramos faz,
«nós (SPP) temos cerca de 5000 sócios, a ASPP cerca de
7000 e os outros sindicatos, no seu conjunto, terão 3000
inscritos; ou seja, há 15 000 polícias sindicalizados. Estamos
a falar num universo de pouco mais de 30% de polícias que
não estão sindicalizados.» Mas o SPP continua a crescer
«estamos a ter uma grande adesão», garante o presidente.
António Ramos é crítico da existência desta multidão de
sindicatos – «Há sindicatos que são constituídos pratica-
146 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

mente só pelas Direcções e a razão é simples. Temos um


efectivo muito grande fora dos seus locais de origem, essas
pessoas têm uma ou duas folgas ao fim de oito dias, para ir
às suas terras. Ora, a lei sindical prevê que um dirigente tenha
direito a quatro dias e um delegado sindical tenha direito a
12 horas de dispensa, portanto é fácil e tem uma vantagem,
só têm de dar conhecimento com uma antecedência de
48 horas à Unidade onde estão de serviço. Portanto, é fácil jun-
tar esses dias às folgas e gerir a situação. Atitudes como estas
tiram credibilidade ao movimento sindical, dão uma imagem
negativa. Daí o nosso interesse na revisão da lei, na questão
da representatividade. Já falámos com todos os grupos par-
lamentares e com o Governo sobre esta nossa proposta, no
sentido de acabar com esta bagunçada. Os sindicatos podem
existir, mas não tendo a percentagem de associados que
venha a ser estabelecida, não devem poder tirar dias. Nós
defendemos que a lei sindical seja alterada, no sentido da
representatividade; não queremos a proibição da constitui-
ção de sindicatos, mas que o seu poder negocial seja estabe-
lecido em função da sua representatividade. Actualmente,
tanto tem poder negocial um sindicato com vinte ou trinta
pessoas, como um com cinco mil. Queremos alterar esta
situação.»
Contudo, apesar da existência de sindicatos com menor
número de associados, a luta sindical tem dado os seus fru-
tos. António Ramos lembra algumas causas ganhas pelo SPP.
A criação de um estabelecimento prisional específico para as
Forças de Segurança, Magistratura e outras profissões, ini-
cialmente em Santarém e que passou agora para Évora, por-
que, até então, «os polícias eram detidos juntamente com os
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 147

presos de delito comum, o que, compreensivelmente, levan-


tava muitos problemas». Igualmente importante foi a altera-
ção do Regulamento Disciplinar – «Até à época de 1984/85
tínhamos um regulamento disciplinar, éramos uma força
militarizada, como a GNR, tínhamos prisão, tínhamos deten-
ção, tínhamos tudo, excepto o direito de defesa. Bastava um
superior não gostar de um agente para participar dele; face
à participação, o comandante da Divisão dava oito dias, o
comandante distrital agravava para quinze dias e o general
agravava para 30 dias de prisão, sem direito a defesa. No caso
da pena ser de detenção, o elemento que fazia o serviço na
rua, quando terminava o horário, regressava à esquadra e dor-
mia durante uma semana, quinze dias, numa cadeira, por-
que a maior parte das esquadras não tinha camas, mas não
lhe era permitido ir dormir a casa.»
Outra questão crucial, resolvida já com o Governo
PSD/CDS, foi a da tributação dos serviços gratificados. «Os
vencimentos e os gratificados eram tributados conjunta-
mente, o que disparava o IRS; mas conseguimos negociar
uma taxa de dez por cento para os gratificados, separando-os
do vencimento.» Também conseguiram que os «muitos pro-
fissionais da Polícia, licenciados nas várias áreas de Direito
e noutras disciplinas, que eram simples agentes, passassem
a ser classificados como Técnicos Superiores de Polícia.
Hoje existe o Quadro dos Técnicos Superiores de Polícia.»
Obtiveram também o subsídio de turno e de piquete; a cria-
ção dos gabinetes de psicologia, «porque a Polícia não tinha
gabinete de psicologia; foi criado um no GOE e um aqui no
SPP». E, anos antes, ainda durante o Governo de Antó-
nio Guterres, negociaram o estatuto da carreira, «o que bene-
148 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

ficiou bastante os Agentes». Um balanço muito positivo,


portanto.

S
Ser sindicalista, na PSP, tem consequências negativas gra-
ves, pelo menos é esse o entendimento do presidente do SPP,
António Ramos. E não está sozinho, muitos daqueles com
quem falámos partilha este entendimento.
Diz Ramos – «O nosso sindicato tem sido um dos mais
sacrificados, a nível de processos. Como somos um sindicato
frontal e aberto e pomos as questões sem qualquer rodeio,
estamos na linha da frente e temos sido alvo de vários pro-
cessos-crimes e disciplinares. Ainda agora me foi arquivado
mais um processo disciplinar. Quando falo, faço-o sempre
como dirigente sindical, é nesta qualidade que faço as inter-
venções. Nós temos uma lei sindical que prevê restrições e
que não podemos infringir. Eu nunca infringi nenhuma das
normas da lei sindical, nunca fui alvo de um processo-crime
ou disciplinar por estar a infringir aquelas normas, os pro-
cessos são sempre instruídos na minha qualidade de Agente
da Polícia. Ora, não faz sentido que eu e os meus colegas fale-
mos, a nível do país, na qualidade de dirigentes sindicais e
que depois nos apliquem um Regulamento Disciplinar de
1956, com alterações de 1990, ambos anteriores à lei que per-
mitiu a constituição dos sindicatos. Temos uma lei sindical
que prevê que eu possa desempenhar a minha função de sin-
dicalista e depois eles vêm com o Regulamento Disciplinar,
dizer o senhor infringiu o dever de aprumo e de zelo; é isto
que tem acontecido, a maioria dos nossos dirigentes a nível
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 149

nacional têm, ou tiveram, processos disciplinares. É um caso


único na Administração Pública…
«Por exemplo, um colega de Aveiro teve um processo dis-
ciplinar e um processo-crime porque informou o sindicato
que as duas viaturas de patrulha de Ovar estavam avariadas,
pelo que não havia patrulhamento automóvel na cidade. Ser-
viu-se do fax da esquadra para nos informar e nós informá-
mos a Direcção Nacional da Polícia, informámos o Ministério
de que aquela cidade não tinha policiamento. Ao fim de dois
dias havia duas viaturas a circular, mas havia igualmente um
processo disciplinar e um processo-crime contra o nosso colega;
o processo-crime acabou por ser arquivado; tinha que ser.»
E um processo tem implicações graves na carreira de um
polícia. Enquanto durar, o Agente deixa de ter acesso à pro-
gressão na carreira. «Temos dois dirigentes há 12/14 anos à
espera de promoção. O mais antigo dos dois, com 14 anos de
Polícia, ainda não foi promovido porque, embora alguns
processos que pendiam contra ele tenham prescrito, organi-
zaram novos processos.» Para o dirigente sindical, estas
«perseguições, principalmente aos dirigentes sindicais, acon-
tecem por parte da Tutela. Da actual não, deste Ministério1
não, desta Direcção-Geral da Polícia2 não, mas com as ante-
riores tutelas, sim. Inclusivamente cheguei a ser acusado
publicamente de xenofobia.» E conta:
«Quando uns colegas foram baleados na Quinta de Santa
Filomena, na Amadora, por um brasileiro, tive ocasião de
prestar declarações em que chamei à atenção para o facto de

1 Ministro da Administração Interna, Doutor Rui Pereira.


2 Superintendente-geral, Oliveira Pereira.
150 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

o nosso país já não ser um país de brandos costumes. E disse


que devia de haver um maior controlo a nível das fronteiras,
de entradas e saídas, por causa do armamento e também pelo
surgimento de alguns sintomas de carjacking. Quando falei
das fronteiras, o senhor ministro de então veio dizer que eu
era xenófobo e mandou instaurar-me um processo-crime e
um processo disciplinar; o processo disciplinar ainda aí está,
agora com uma decisão de seis dias de multa.
«Temos um outro colega, de Vila Real, com um processo
disciplinar, falou à Comunicação Social sobre o mau relacio-
namento do comandante local com a sociedade civil e, ao res-
ponder a um jornalista sobre o que pensava do assunto, disse:
“Estamos à espera que venha um novo Comandante para cá,
que se relacione melhor com os Agentes e com a sociedade
civil e que dê outra imagem da Polícia.” Teve um processo dis-
ciplinar, ao fim de 14 meses… Como já lhe disse, não faz sen-
tido termos uma lei sindical e depois sermos alvos deste
Regulamento Disciplinar.»
A questão das promoções, dado o baixo ordenado de um
agente policial1, é muito sensível para os polícias. António
Ramos lembra: «Na altura do Dr. Jorge Coelho e do Dr. Fer-
nando Gomes, do PS, fomos promovidos, no quadro de Agente,
a Agente Principal; foram promovidos milhares de Agentes
e houve uma melhoria salarial. Ou seja, ao fim de um certo
número de anos éramos promovidos automaticamente de
Agente para Agente Principal, porque a categoria não muda.
Quando se mudava de categoria, de Agente para Subchefe ou

1 O subchefe Augusto, vice-presidente do SPP, dizia-nos, a propósito: «Um jovem


polícia vem para Lisboa com um salário que não chega aos 700 euros; tem de pagar
quarto e de comer, o que ganha não lhe chega para nada, é um escravo.»
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 151

de Subchefe para Oficial, por exemplo, aí já havia um con-


curso. Mas, dentro da mesma categoria, a promoção era auto-
mática, tal como nos escalões da Administração Pública, ao
fim de três anos.
Agora, com a aplicação da nova Lei 12-A, que regulamenta
a Função Pública, fomos excluídos dum estatuto, dum regime
especial que tínhamos; éramos uma Força com uma função
específica, derivada à nossa condição policial, à nossa dispo-
nibilidade total, ao desgaste permanente, aos turnos, às horas
extra; ninguém paga nada disto e é um quadro que nada tem
a ver com a Função Pública. Com esta lei fomos considera-
dos funcionários públicos, como se um polícia entre às nove
da manhã, vá almoçar ao meio-dia e saia às 17 horas. O mais
grave é que nos impuseram uma avaliação de cinco anos e
essa avaliação não é rigorosa…
«Actualmente, para se entrar no concurso de subchefes,
estão a avaliar-se as pessoas pelas avaliações antigas; logo,
bons operacionais, bons profissionais estão a ser discrimina-
dos por esta avaliação sem rigor, sem critérios, sem itens defi-
nidos. O próprio formador, que é o Comandante da esquadra,
não tem formação para avaliar ninguém e nem contacta com
os homens. Nós funcionamos em grupos, quem nos chefia
directamente é o Chefe ou o Subchefe, que, de facto, conhe-
cem os homens. Como é que se pode avaliar a acção de um
polícia na rua? É pelas multas? A função do polícia é preven-
tiva, não é repressiva. Ainda ninguém demonstrou quais são
as vantagens da avaliação e como é que se avalia uma Polí-
cia. E agora vamos levar com esta avaliação, que nem de esca-
lão nos permite mudar? Se não tivermos três Bons, uma certa
pontuação, nem progredimos na carreira. Portanto, a avalia-
152 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

ção só serve para bloquear as carreiras e os escalões que eram


automáticos.»

S
«Ser polícia é ter uma profissão de desgaste permanente.
Quando entramos na instituição, a família entra connosco
porque não podemos programar nada com a família; nós não
temos um fim-de-semana, não ficamos em casa nas pontes
ou nos feriados. O polícia tem um serviço rotativo, por tur-
nos; na melhor das hipóteses, a folga pode coincidir com o
sábado. Mas o polícia também tem família, só que as famí-
lias dos Agentes têm de fazer os seus programas de fim-de-
-semana sem eles, sozinhas, já sabem que é assim… Depois,
esta é uma profissão que lida com todo o tipo de situações,
fazemos de padre, de sacristão, de psicólogo, de psiquiatra,
temos o problema do stress. Quando saímos de casa, nunca
sabemos se voltamos a entrar, é uma profissão de risco. Eu
já propus a alguns responsáveis políticos que fizessem um
turno da noite, da uma às sete da manhã, numa cidade como
a Guarda ou a Covilhã, numa residência ou à porta de uma
embaixada ou da esquadra, para ver como é que eles se sen-
tiam; só uma noite.» Claro que ninguém aceitou o repto.
«Muitas vezes, faz-se serviço com temperaturas negativas,
com equipamentos desadequados, com fardamento desajus-
tado às condições climatéricas. O nosso fardamento tanto dá
para o Inverno como para o Verão, não temos fardamentos
distintos, como os outros polícias da Europa. Bem equipados,
com botas, com luvas, com capacetes, com fatos impermeá-
veis para o frio. Nós não. A dada altura, fiz serviço à beira do
rio Tejo… Muitas vezes, para me isolar do frio, punha esfe-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 153

rovite e jornais dentro das calças. Isso acontece muito no inte-


rior do país, vestir dois e três pares de calças, e cuecas e cerou-
las, para poder resistir ao frio.
«E há a questão dos turnos, não temos horas para comer.
Quem entra à uma da tarde tem que almoçar às onze; se for
apanhado num café, a comer uma sandes ou a beber um
sumo, no horário de serviço, está sujeito a um processo dis-
ciplinar, já tem acontecido. Se entrarem às 19 horas, têm que
comer às 17 horas, portanto, não têm refeições a horas… Depois
dos turnos da noite, quando mudamos para o dia, andamos ali
três ou quatro dias sem conseguir dormir. As pessoas andam
sempre descontroladas, com esta questão dos turnos.
«Um agente, ao fim de cinquenta anos, está cheio de vari-
zes, faz todo o serviço em cima das pernas; e tem problemas
de coluna. As pessoas estão estoiradas, não têm condições,
nem físicas nem psicológicas, para continuar a fazer este tipo
de serviço. Na maioria dos países da União Europeia, aos
45/50 anos os polícias vão-se embora, reformam-se. Cá não.
Agora só aos 60 anos.»
Para António Ramos, sendo certo que a PSP está em reno-
vação etária, talvez com cerca de 60% de polícias jovens,
sobretudo em Lisboa, Porto, Faro e Setúbal, «nos comandos
no interior, os efectivos têm, em média, acima dos 45/50 anos;
é um pessoal já muito envelhecido. Temos muita gente com
28/30 anos de carreira ainda a fazer giro na rua, algumas
estão a aguardar a aposentação pelas regras antigas.» É que,
«dantes, o nosso estatuto de aposentação era diferenciado do
da Função Pública; as aposentações eram aos 55 anos e tínha-
mos 36 anos de serviço, com uma bonificação de 25% para
aquelas situações do frio, das horas, da disponibilidade... Por
154 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

cada quatro anos de serviço efectivo, contavam-se cinco anos


para efeitos de reforma. Com 30 anos de serviço real, saía-
mos, mas agora este Governo acabou com isto e vamos ter
polícias até aos 60 anos.
«E equipararam-nos a funcionários públicos, o Governo
diz que somos funcionários públicos. Então, se somos, que
nos regulamentem os horários de trabalho, que nos paguem
as horas extraordinárias, as horas nocturnas, que nos paguem
os sábados, domingos e feriados, e os Natais e as Páscoas tam-
bém, como pagam na Administração Pública. Só somos fun-
cionários públicos para o que convém, quando não convém,
somos uma Força Policial. Por isso, fazemos o nosso serviço
normal e, depois, ainda temos de ir fazer mais quatro horas
de gratificados, para compensar o salário tão baixo. À porta
de uma discoteca, de um banco, de um supermercado, num
estádio de futebol...
«Se pagassem as horas extraordinárias, se regulamentas-
sem o horário, sairia muito dinheiro dos cofres do Estado. Já
viram o que eles pagariam na investigação criminal aos polí-
cias que fazem milhares de horas para investigar, para apa-
nhar mandados, para andar na rua.» A Polícia portuguesa é,
garante António Ramos, a mais mal paga da Europa.
Além disso, o presidente do SPP não compreende a dife-
rença de estatuto entre a GNR e a PSP, que entende não se
justificar e prejudicar os polícias, designadamente no que diz
respeito às promoções dentro das categorias de «Agente» e
à aposentação. «A GNR continua a ter o regime especial, pro-
moções por antiguidade, não há avaliação de desempenho…
Se a PSP é uma força equiparada à GNR, depende do mesmo
Ministério, tem a mesma missão, por que razão eles têm um
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 155

estatuto e nós outro? Não queremos ser avaliados sem crité-


rios de rigor, defendemos as promoções por antiguidade e
que não haja discriminação em relação à GNR; até no esta-
tuto da aposentação fomos discriminados em relação à GNR.
O nosso regime transitório vai dos 55 para os 60 anos, na
GNR vai dos 50 para os 55; eles são beneficiados em 5 anos.
Digam-me, tem mais stress um GNR nos montes alenteja-
nos?» Pergunta António Ramos, com a resposta implícita.
E desabafa – «O que me parece é que no nosso país é assim:
vem um Governo, tem uma política de Segurança, depois vem
outro Governo, tem outra. Um governo fecha esquadras,
depois vem outro abre esquadras, fazem uma lei de Segurança
Interna, depois vem outro... Não há um Pacto de Segurança,
não há uma linha de rumo, há uma grande interferência do
poder político nas Forças de Segurança. Porque, quando eu
entrei na Corporação, eram generais que estavam à frente da
Polícia, não havia intromissão partidária... o general tanto ser-
via uma política de esquerda como de direita. Agora… A Polí-
cia nunca foi tão partidarizada como agora.»
156 Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 157

.15.
PCP, CDS, O POLÍCIA PORTAS
E A PSD AO DEUS DARÁ…

Na Polícia de Segurança Pública, como em outras profis-


sões, o terreno não é virgem de interesses político-partidários,
traduzidos em influência, ou tentativa de influência, por parte
dos diversos partidos, nos diferentes sindicatos de Polícia.
E tudo começou com a ASPP – Associação Sindical dos
Profissionais de Polícia, nascida em 1982, há precisamente
28 anos. Por outro lado, a PSP é também palco de uma guerra
pelo poder, travada por oficiais nos bastidores.

S
É verdade que a Polícia nunca foi tão partidarizada como
agora? «Isso já vem do início. O PCP apoiou-se nos sindica-
tos, nomeadamente na ASPP; o primeiro sindicato só conse-
guiu fazer-se porque o PCP o apoiou e continua a apoiar em
força. E, embora hoje digam que não, o partido continua por
trás da ASPP.
«Em 1984, só havia uma associação sindical, a ASPP. Já
existia, embora clandestinamente. Entretanto, começou a
guerra das associações, porque havia muitos indivíduos den-
158 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

tro da própria ASPP, com alguma formação sindical ou asso-


ciativa, que não conseguiam singrar, não conseguiam chegar
ao poder e ser presidentes. Então, saíram e criaram outras
associações e, a seguir, os sindicatos. A ASPP é o tronco
comum; o SPP também é um derivado. Essas guerras inter-
nas ocorreram, provavelmente, com auxílios políticos, porque
alguns falavam com os políticos A, B ou C… Porque todos os
Partidos políticos andam de roda dos sindicatos de Polícia.
O CDS é dos que tiveram mais influência, porque ouvem com
frequência o pessoal e apoiam-se nisso. Paulo Portas, quando
apareceu, socorreu-se muito da Polícia. Chamavam-lhe O Polí-
cia, porque ele sabia tanto ou mais de Polícia do que nós;
estava muito bem informado.
«O próprio PCP, que no tempo da outra senhora se quei-
xava muito da Polícia, aparece-nos modernamente a apoiar
a PSP. Hoje não se ouve o PCP a falar contra a Polícia, por-
que, às tantas, se o fizesse, criava um conflito com a ASPP que
o Partido ajudou a formar. O PS? Esses andavam na deriva,
nunca se apresentaram directamente, utilizavam outros
métodos para chegar ao pessoal mas nunca foram muito acu-
tilantes. Os grandes apoios na Polícia eram o PCP e o CDS.»

S
A nossa fonte é um homem com pouco mais de 50 anos, fisi-
camente em forma. É oficial superior de Polícia, veio das For-
ças Armadas e passou pelo GOE, logo nos primeiros tempos
da formação daquele Grupo Especial, era ministro da Admi-
nistração Interna o Engenheiro Ângelo Correia. Quando lhe
falámos na necessidade de compreender de que modo se
reflecte a política partidária na PSP, ponderou o assunto demo-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 159

radamente, e só depois de algum tempo de reflexão aceitou


falar, desde que em condições do mais absoluto sigilo. Um
pouco em tom de graça, sugerimos que podíamos chamar-lhe
«Garganta Funda1 »… Também achou piada e resolvemos man-
ter a designação, tanto mais que aceitou abordar, sem reservas,
os problemas da partidarização da Polícia, bem como as guerras
de bastidores, que se travam na disputa de poder entre oficiais,
e até falar de corrupção. Muito do que nos contou não consta
deste livro, por considerarmos constituir matéria que teria
obrigado a um exercício de jornalismo de investigação para
o qual não dispúnhamos de tempo. Mas, no essencial, sobra
um retrato claro do que, até agora, tem escapado aos cidadãos.

S
«Quando o sentimento de insegurança sentido pelas popu-
lações é muito grande, há um aproveitamento por parte dos
Partidos políticos, nomeadamente os da Oposição, com o
objectivo de apanhar ali mais um trunfo para atacar o Governo.
Nessas ocasiões, os Partidos aparecem a oferecer apoio às Polí-
cias; é um aproveitamento político que fazem. Aproximam-se
de nós, dão-nos palmadinhas nas costas, são nossos amigos,
mas depois vão para o Governo, sobretudo aqueles dois par-
tidos (PS e PSD), e esquecem-se das promessas que fizeram;
fica tudo na mesma. Uns talvez dêem qualquer coisa mas
nunca o que prometeram.

1 Mark Felt, número dois da hierarquia do FBI na década de 70, foi a fonte de
informação dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, do Washington Post, que
lhes permitiu fundamentar o que ficou conhecido como «Caso Watergate» e acabou
por levar à demissão do presidente dos EUA, então Richard Nixon. Jornalistas e
jornal mantiveram a fonte secreta mais de 30 anos, chamando-lhe, simplesmente,
Garganta Funda.
160 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

«São os grandes Partidos, os que alternam no Governo,


quem tem sempre algum poder. O CDS/PP tinha poder,
quando fazia as coligações; o PCP tem alguma posição local
e uma coisa é certa, no início, foi a primeira e única força polí-
tica que defendeu os sindicatos. Por exemplo, no SPP há
quem seja mesmo militante do PS mas esteja zangado com
o Partido. O sindicato esteve em coisas do PS, como obser-
vador, teve conversas com o Jorge Coelho e outros… Também
foi ao PSD, igualmente como observador; foram bem rece-
bidos e disseram-lhes que também os apoiavam, etc. e tal.
A tentativa de aproveitamento do costume.»
Quanto aos Comandantes, diz o nosso Garganta Funda,
«se eles não pertencerem, directamente, a um Partido polí-
tico, são suficientemente espertos para poderem beneficiar
de um ou de outro, fazendo uma aliança de conveniência
quando aparece determinado Governo. Na Polícia sempre
houve cores políticas. O primeiro militar que foi Director
Nacional da Polícia tinha ligação ao PS; dizia-se que a mulher
dele era irmã da mulher de um político socialista importante…
Os Comandantes usam cores políticas, nem que sejam escon-
didas, para ascenderem aos cargos, neste caso, cargos polí-
ticos, inclusivamente; os partidos passam a ter um da sua cor,
da sua confiança, que ajudam a cumprir determinadas polí-
ticas de Segurança. É um bom negócio para as duas partes.
«Esses Comandantes, como têm de estar ligados ao poder
político, porque ocupam cargos de confiança política, muitas
vezes são o que antigamente chamávamos de vira-casacas.
Através de alguém conhecido procuram aproximar-se do cen-
tro do poder, para, depois, darem uma espécie de cheirinho
para serem promovidos…»
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 161

Portanto, estes oficiais de que fala o Garganta Funda não


se comprometem, não arriscam, jogam com um pau de vários
bicos… «Basta recordarmos o Coronel Durão, Comandante
da PSP de Lisboa, que foi dizer que a culpa de haver poucos
carros, de estarem todos avariados, era do Ministério, era do
Governo. Foi demitido; foi corrido para o Comando Geral.
Não se sabe se aquilo foi encomendado por um Partido da
oposição ou se foi simples ingenuidade da parte dele. Qual-
quer Comandante sabe que pode queixar-se da falta de meios,
mas daí a acusar o MAI directamente… não precisa de o fazer,
já sabe que deve ter tento na voz, porque o seu cargo depende
da tutela.
«E depois isto é como calha. O Dr. Dias Loureiro, quando
foi Ministro da Administração Interna, do PSD, queria as
superEsquadras ; o projecto não vingou, foi boicotado.
Quando o PSD saiu, entrou o PS com outro modelo, o Poli-
ciamento de Proximidade, em 1996. Entretanto, o PSD volta
ao Governo e acaba com esse modelo do PS. Deixaram a PSP
ao “Deus dará”. Quando o PS entrou de novo, já não agarrou
o tal policiamento de proximidade da mesma forma, foi mais
soft.»
Mas que Polícia temos nós, então, que, para lá da sua sub-
missão ao poder político, como lhe compete, tem Comandan-
tes a jogar no campo dos partidos? É com Comandantes
destes que a PSP se transforma na Polícia de que precisamos
e que parece querer ser? O nosso interlocutor é claro na res-
posta – «O ideal é que um Comandante nunca esteja ligado,
e muito menos dependente, de uma cor política. Que esteja,
isso sim, sujeito à orientação do Governo, porque ele tem
de cumprir as políticas estabelecidas pelo Executivo, indepen-
162 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

dentemente de qual for ele. Mas isto é difícil de alcançar,


quando as pessoas têm uma formação muito fraca, do ponto
de vista cultural e humano. O Instituto Superior de Polícia
passou a ter as disciplinas de Direitos Fundamentais, de
Direitos Humanos, coisas importantíssimas, que dantes não
eram estudadas. Mas, mesmo com esses estudos, há muitos
oficiais que continuam a ser a mesma porcaria. Alguns tira-
ram 18 valores nessas disciplinas, mas, na prática, nunca apli-
caram o conhecimento adquirido sobre esses direitos
fundamentais do cidadão comum.»

Corrupção, ou nem por isso…

A nossa fonte mostra a Polícia como uma instituição que


tem, também, alguns problemas internos de ordem mais obs-
cura, designadamente, em certos casos, substantivados no
relacionamento de alguns dos seus elementos, «com os cri-
minosos, os que vendem droga, os que cometem infracções
mas que têm dinheiro e tentam comprar o polícia, a nível
local. Havia aqueles que queriam comprar os polícias com
convites para noites de fado, para jantares, para festas. Per-
cebi que era uma espécie de tentativa de suborno, que havia
Comissários que iam a esses jantares, que o adjunto da Divi-
são ia a esses jantares. Também cheguei a ir a um ou dois
desses almoços e jantares e apercebi-me que havia ali inte-
resses escondidos; deixei de ir.
«Lembro-me de um indivíduo, milionário da construção civil,
que eu sabia que era um “chefão”, e a quem ia deitar a mão,
em colaboração com a Judiciária, que me tinha pedido ajuda…
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 163

Mas, de um momento para o outro, afastaram-me do assunto.


Indivíduos como esse davam muitas coisas aos Comandantes…»
Está a dizer que havia na Polícia quem, em posições de
chefia e comando, fechasse os olhos, virasse a cara para o lado
a algumas irregularidades e recebesse, até, subornos? Pergun-
tamos ao nosso interlocutor, para clarificar o que acaba de
dizer. Ele não tem dúvidas na resposta…
«Havia. Sempre houve. Desde Majores do Exército que
trabalharam na área metropolitana de Lisboa até Comissá-
rios e Subintendentes. Esse tal senhor, de quem eu andava
atrás com a PJ, sempre que fazia anos oferecia um almoço a
todos os polícias locais. Fundamentalmente aos polícias de
Trânsito, que, mesmo fardados, iam lá comer; e havia tam-
bém ex-comandantes de Polícia e coronéis. Fui a um almoço
desses porque o meu Comandante me obrigou a ir, porque
o adjunto não queria que eu fosse. Eram cerca de 17 cadei-
ras, todas com pessoas importantes. Da política não havia nin-
guém. O pessoal da política tem um bocado de cuidado nessas
coisas, não vão a qualquer almoço, embora isso não signifi-
que que alguns deles não estejam envolvidos.»
Então e se um Comandante é honesto e não alinha nesses
esquemas, não fecha os olhos, o que acontece? Pode perma-
necer no lugar, apesar da sua atitude? A resposta é clara – «Não!
Se ele, de vez em quando, não facilitar um pouco, corre o
risco de ser deslocado do sítio em que está; é pessoa que não
interessa. É por isso que, para determinadas Divisões, para
determinados Comandos, só vão certas pessoas; são escolhi-
das a dedo. Numa esquadra da área metropolitana de Lisboa,
por exemplo, há uma espécie de passagem de testemunho…
As forças políticas devem saber o que se passa…
164 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

«A dada altura, um colega meu, de quem não vou dizer o


nome, fez uma apreensão de carne no bairro da Liberdade, no
jipe de um rapaz que estava a ser investigado. Havia carne que
era vendida para um grande restaurante da Av. Berna e para
uns outros, na zona de Sintra. Ele apreendeu a carne e dois
cheques da venda. Pediu ao comandante da zona um carro,
porque estava com um jipe da Polícia que andava a 30 hora,
e foi para a esquadra fazer todo o expediente. Na manhã
seguinte, levou a carne a um posto da antiga PVT, no Lumiar,
ao médico especialista, para analisar. O médico atestou que a
carne não estava imprópria para consumo, só estava mal acon-
dicionada, e não podia ser vendida ao público. Portanto, resol-
veu enviá-la, como habitualmente, para o Jardim Zoológico.
«O rapaz ia buscar a carne a 300 quilómetros de Lisboa,
no jipe, e depois acondicionava-a na arca frigorífica do sogro,
um polícia reformado. No dia seguinte, um sábado, depois
de feitas as diligências, o meu colega entrou em contacto com
a fiscalização económica e disseram-lhe para não se preo-
cupar, que o serviço estava bem feito. Só que, entretanto, rece-
beu um telefonema do Comandante da zona, dizendo-lhe para
“largar” a carne… O polícia reformado conhecia o Comandante
e telefonou-lhe…»
E o poder político, também fecha os olhos? «Não podemos
dizer que feche os olhos. Sabe dessas coisas, mas, normalmente,
não actua, é um jogo de interesses. Por exemplo, em várias
Câmaras Municipais onde há conflitos com polícias às vezes é
o Presidente da Câmara que vai ajudar o polícia, que mete uma
cunha. Neste momento temos os comandantes de Polícia,
Comissários, Subcomissários, a comandarem as Polícias Muni-
cipais, ligadas à Câmaras. Este polícia fica directamente depen-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 165

dente de um Presidente de Câmara, não só recebe as ordens


dele, como tem de fazer aquilo que ele lhe diz para fazer.»

Polícia Municipal, uma Polícia à parte

Então, podemos dizer que a Polícia Municipal é uma Polí-


cia à parte, o que, em zonas urbanas com a dimensão de Lis-
boa e Porto, deve conferir-lhe um enorme poder… A nossa
fonte confirma – «Têm um poder muitíssimo grande, inter-
vêm em tudo. Além disso, como são pagos pela Câmara, rece-
bem mais do que os outros polícias, têm mais um subsídio;
por isso há muita gente a querer ir para a Polícia Municipal.
É um serviço diferente e recebem mais dinheiro. Fazem
patrulhas, como a PSP, mas fiscalizam mais obras, por exem-
plo. Nesse caso, aqueles que não forem honestos, têm a pos-
sibilidade de arranjar uns dinheiritos extra, se fecharem os
olhos a algumas irregularidades; todos sabemos que, em
obras, as tentativas de suborno acontecem regularmente.
«A Câmara de Lisboa tem uma Polícia Municipal, que é
uma Polícia efectiva; isto dá um poder muito grande a um
Presidente de Câmara. Há uma dependência, digamos assim,
da Polícia que, além de ter de cumprir as ordens, está sujeita
à orientação política do presidente. O comandante da Polícia
Municipal tem de ser, sempre, leal ao presidente da Câmara,
mas se quiser manter o lugar, quando há eleições, tem de dizer
aos outros concorrentes que está com eles, embora a lealdade
deva ser para com o presidente que ainda ocupa o cargo.
A Polícia Municipal, em Lisboa e no Porto, é como se fosse
uma Polícia privada das Câmaras.»
166 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

E como é que se chegou a essa situação, em que as Polí-


cias não dependem do mesmo comando?, perguntamos. «Até
determinada altura, o tal Comandante da Polícia Municipal,
apesar de fazer o serviço de Câmara, dependia do Coman-
dante da PSP de Lisboa, mas, depois, de forma muito soft, a
Polícia Municipal deixou de “passar cartão” O homem da Polí-
cia Municipal era mais antigo que o Comandante de Lisboa,
e seria uma quebra de disciplina um superior obedecer a um
subordinado. Foi a própria estrutura do Comando Geral que
criou este problema. A partir daí, as duas Polícias começa-
ram a separar-se e a fazer serviço independente.»
Então, vamos lá ver, quais são os cargos mais apetecidos
da Polícia e como é que se lá chega? «Os quatro lugares mais
apetecidos são o cargo de Director Nacional e os três lugares
de Directores Nacionais Adjuntos; estes três últimos cobrem
três áreas – a área de Finanças, a área de Recursos Humanos
e área de Operações; são os quatro lugares de topo. Depois,
temos o Inspector-Geral, também é um lugar de topo, ocu-
pado por um superintendente-chefe. Há um outro cargo,
muito importante, que dá muita visibilidade, que é o cargo
do Comandante de cada uma das quatro Unidades Especiais –
em que se juntam o GOE, o CI, a Unidade Cinotécnica e
o Corpo de Segurança Pessoal. É um lugar quase idêntico ao
dos Directores Nacionais Adjuntos, está dependente do Direc-
tor Nacional, mas é um cargo com visibilidade, com dinheiro,
com poder. A seguir, já são cargos mais baixos, como os
Comandantes de Polícia, os Comandos Metropolitanos de
Lisboa e Porto e os Comandos mais pequenos. Além destes,
temos, sobretudo, o comando da PSP da Madeira, que dá muita
visibilidade, tal como o dos Açores. O da Madeira tem mais
visibilidade, talvez porque temos lá o Alberto João Jardim…»
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 167

Então, são sete cães a um osso… «Claro. Todos eles devem


ser competentes, bons profissionais, é a primeira condição.
Mas, depois, têm de ser, se calhar, subservientes, tipo Tropa,
cumprir imediatamente todas as ordens que lhes sejam dadas,
não só as correctas mas todas… Se não fizerem, já sabem o que
lhes acontece.
Um colega, que está agora a chefiar a segurança do Aero-
porto, contou-me uma história passada com ele. Apesar de ter
sido o primeiro classificado em Inglês, não foi escolhido para
ir para as missões no estrangeiro, porque o então Director
Nacional assim o decidiu. O Director Nacional terá pensado
que a conversa entre os dois, que devia ter sido confidencial,
não o fora porque esse meu colega teria contado parte dela
a pessoas que não tinham de saber. Por causa disso, ficou zan-
gado e não o deixou ir. Mas o Director esqueceu-se que, nesse
dia, durante essa conversa, não estavam sozinhos, estava tam-
bém presente o seu oficial às ordens. Um que, agora, ape-
sar de ser subintendente, está a ganhar, há quatro anos, como
superintendente. Nunca vai passar a Subintendente porque
é de carreira base, mas está a ganhar como superintendente
no GOE; é o assessor do Comandante das Unidades Especiais.
É engraçado, não é? Ele era realmente o “graxa” do Director…»
E quando se chega lá acima, há ajustes de contas? «Há
sempre ajustes de contas, quando se chega lá acima», res-
ponde o nosso interlocutor, sem hesitações.

Rumores…

Desmotivação, descontentamento com salários, com horá-


rios de trabalho, com uma formação deficiente, com a falta
168 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

de apoio aos polícias por parte de Oficiais e da Corporação,


com uma avaliação e estruturação da carreira que não é rigo-
rosa e permite os favorecimentos, com as guerras internas,
com a interferência de Partidos e políticos, de tudo isto se
queixaram, ao longo deste livro, os nossos interlocutores.
E tudo isto gera rumores inquietantes para os homens da PSP.
«Há, entre alguns colegas, a ideia de que a Polícia tem ten-
dência a desaparecer. Sinceramente, não acredito muito. Mas
a PSP está a perder competências, umas que passaram para
a GNR, outras que transitaram para as Finanças, para a Polí-
cia Municipal, para a EMEL, para a ASAE, para empresas pri-
vadas. Ora, menos atribuições, menos poderes.
«Temos efectivos que, aparentemente, bastariam para cum-
prir um conjunto de tarefas que têm vindo a ser-nos retiradas.
Segundo consta, Portugal é o país da Europa com mais polí-
cias per capita; por conseguinte, não há falta de polícias, temos
é polícias a mais. Somos 20 000 polícias. Quando falam de
24 000, estão a esquecer-se de que 3000/4000 não estão no
serviço activo, e também devem estar a contar com os que
estão suspensos, de baixa, na pré-aposentação ou nos servi-
ços burocráticos; dos condutores, barbeiros, pintores, cana-
lizadores, cozinheiros, que são quase todos polícias, só há
alguns civis. Estamos com 20 000 na estatística, mas não pre-
cisamos de números, precisamos efectivamente é de polícias
propriamente ditos, de homens competentes. Precisamos é de
acabar com a animosidade entre polícias e juízes, de que os
políticos percebam de Polícia, antes de avançarem com medi-
das. É fundamental que se tenha consciência que o problema
não se resolve com mais polícias, mas com melhores polícias.»
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 169

.16.
MATA-TE, TENS AÍ UMA PISTOLA!

Pessoas revoltadas com o que sentem como injustiças


cometidas contra si, desmotivadas face à profissão, sem con-
fiança na instituição e nas hierarquias, com medo de agir por
receio de serem alvo de um processo disciplinar, com a vida
familiar desestruturada, desenraizadas das matrizes afectivas
ou porque estão afastadas dos seus locais de origem e, por
isso também, da sua casa, da mulher e dos filhos, ou porque
não conseguem conciliar as exigências da profissão com a vida
familiar; muitos delas cansadas, com problemas de saúde e a
necessitarem de ajuda psicológica – eis, em traços largos, um
retrato de muitos dos polícias portugueses. Vivem uma vida
dura, com fracas recompensas, e, mesmo assim, procuram
cumprir o que entendem como o seu dever.
Mas pagam um preço elevado que, em alguns casos, feliz-
mente pouco frequentes, pode chegar ao suicídio, porque há
aqueles que, incapazes de conciliar a farda com o ser humano
que também são, «acabam por se meter em comprimidos, no
álcool, noutro tipo de vida, para esquecer, para se anestesiarem
170 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

como forma de sobreviver, até que alguém lhes diga – Mata-te,


tens aí uma pistola!»

S
Sandra Coelho é a psicóloga clínica do Sindicato dos Pro-
fissionais de Polícia, SPP, desde há quatro anos. É uma
mulher bonita, cheia de energia, segura de si e de conversa
fácil. Apesar de não estar ao serviço da Corporação, mas de
um dos sindicatos de Polícia mais importantes, percebe-se
que tem uma proximidade com os agentes que acabou por
torná-la numa espécie de membro honorário da instituição,
eleita por eles. Durante a nossa conversa, em sede do sindi-
cato, onde presta apoio pro-bono, isto é, sem cobrar honorá-
rios, não houve quem não viesse cumprimentá-la com uma
atenção invulgar. Sandra confessa a enorme surpresa pela
Polícia que foi encontrar quando aceitou a missão para a qual
o sindicato a desafiou, e que agora conhece tão bem, como
se fosse realmente uma família.

Ao princípio, lembra Sandra Coelho, tinha uma consulta


ou duas, «pontualmente, uma tarde por semana», agora chega
a ter 30 consultas semanais, «porque as pessoas não estão a
conseguir coordenar as exigências da vida laboral com a vida
pessoal. Os pedidos de ajuda surgem devido a circunstân-
cias típicas da Polícia, desde os horários ao tipo de patrulha-
mento em zonas específicas. O Verão é a época em que há
mais pedidos, porque a maioria dos desequilíbrios psíquicos
é sazonal. O sol, o calor, fazem com que cada um compare
muito mais o que os outros têm com o que ele não tem; é um
período em que é maior a tendência para sair e em que cons-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 171

tatam que não têm amigos como as outras pessoas, por exem-
plo.» Mas, passado o Verão, não desaparecem os problemas…
«Depois vem um período em que já não há férias, mas
existem outras envolventes – os livros escolares para os
filhos, a farda que tem de ser paga; toda esta gestão financeira
e laboral acaba por produzir um desajuste social com o civil
que o polícia tem de defender nas ruas. É mais um problema
para ele, enquanto pessoa, não para ele enquanto farda. Como
farda sabe que não tem muito mais para fazer – não dispara,
aguenta o máximo, se não, leva com um processo disciplinar.
É uma luta, uma ginástica mental, uma negociação interior,
que um agente no terreno tem de realizar com ele próprio
para decidir fazer ou dizer alguma coisa, como gritar a alguém
para parar; sacar, ou não, da arma. Anteriormente, tomavam
estas iniciativas, estes actos verbais, gestuais ou sublimina-
res mais facilmente; agora, o tempo de que precisam para
tomarem este tipo de decisões é muito maior e o desgaste
também.»
A psicóloga explica o aumento do número de consultas
igualmente com o facto de elas ocorrerem no sindicato, de
forma sigilosa; ao nível da Corporação as coisas são muito
diferentes. A consulta no sindicato é marcada directamente
com o psicólogo, os agentes «não precisam de vir fardados,
não precisam de se identificar». Mas os pedidos de ajuda ou
de baixa feitos directamente à instituição «são alvo, muitas
vezes, de injustiças, e as pessoas ficam revoltadas com deter-
minadas situações. Com boa vontade, despertaram o tipo de
problema que tinham, a vários níveis, formal, burocrático,
pessoal, físico», e, como consequência, «acaba por lhes ser
vedada uma promoção, um pedido de transferência, uma
172 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

baixa, uma dispensa». A confissão de uma qualquer fra-


queza, física, mental ou mesmo funcional, é vista, com fre-
quência, como «uma baixa de competência», e esse facto
liga-se à avaliação de desempenho e às oportunidades pro-
fissionais. Por isso, os agentes evitam essa via, para não fica-
rem catalogados.
«Uma farda, supostamente, não precisa de ajuda, não tem
estes problemas, porque é treinada nesse sentido, durante um
ano e tal. E tudo o que aprende será para a vida toda; supos-
tamente, são quase como robots, cujas peças não se gastam;
é uma postura estereotipada, já que isso, de facto, não acon-
tece. A pessoa que tenta, quando veste a farda, pôr a máscara
de robot é um ser humano; como tal, tem as suas fragilida-
des, tem um contexto familiar…» Por isso, o sindicato criou
«um espaço mais neutro, em que o próprio agente, e até a
sua família, podem vir à consulta. O agente não está sozinho,
mas inserido numa célula familiar, é tudo articulado; o
agente influencia a família e esta influencia o agente; por isso
tentamos trabalhar em bloco.»
Contudo, apesar da celeridade na marcação da consulta,
da garantia de sigilo que o serviço de Psicologia Clínica do
SPP assegura, Sandra Coelho garante que «os agentes estão,
até às últimas, no seu lugar. Mesmo nos limites, ainda têm
a capacidade e honestidade de cumprirem da melhor forma;
continuam de pé, a fazer o serviço que lhes compete, a cum-
prir o seu dever. Isto é de louvar. Tanto eu como os outros
técnicos que trabalham com a Polícia admiramos este esforço
e damos-lhe o devido valor. E procuramos ajudá-los, porque
eles ainda têm sentido de ética, apesar de tudo o que lhes
fazem, mais ou menos injusto. Muitos poderiam ter desis-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 173

tido, ou andar a meter baixas, mas não há assim tantas bai-


xas, porque eles querem manter-se no seu posto.»
Esta atitude, esta ética de responsabilidade que a psicóloga
do sindicato encontra nos polícias acaba, a longo prazo, por
aumentar o desgaste de cada um, na sua permanente nego-
ciação «entre ser homem, ter família, ser um ser social e ser
polícia». A profissão é, já em si própria, de desgaste rápido,
mas, segundo Sandra Coelho, «basta ver o número de pedi-
dos de consulta da última recruta» para se perceber que este
desgaste ocorre cada vez mais cedo. Ao princípio, procura-
vam-na «pessoas dos quarenta, cinquenta anos para cima,
cansadas e com problemas de saúde sinalizados». Agora, apa-
recem-lhe «pessoas muito novas, desajustadas do local de
patrulha, com horários de sono inadequados. Este desgaste
rápido deve-se às condições que (não) dão à Polícia; as des-
vantagens têm aumentado, tal como os desajustes entre a for-
mação e o que lhes é pedido. E embora ainda permaneça esta
postura ética de continuarem até ao fim, muitos, cada vez
mais, não conseguem.»
A psicóloga garante que tem havido um aumento de desa-
justes. A maioria dos agentes não tem um horário que per-
mita uma continuidade de convivência e apoio social e familiar.
Os turnos, os efeitos na perturbação do sono, porque mui-
tos, de manhã, não vão dormir, porque, para além dos gra-
tificados , «têm obrigações com os filhos, com a mulher».
O que explica, também, que esteja aumentar, segundo San-
dra Coelho, «o número de divórcios, declarados ou não; a sepa-
ração, o afastamento, o divórcio afectivo» entre os polícias,
uma vez que há agentes que não conseguem dar resposta à
situação em que vivem. E «quando a estrutura familiar ou
174 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

social falha, quando a estrutura policial não lhes dá quase


nada em troca do esforço, tentam compensar de outras for-
mas. O que resulta num aumento do consumo de tabaco, de
álcool, de saídas com amigos, de diversão; tudo isto faz cres-
cer o afastamento da família.»
Não admira, pois, que «a motivação, no geral, esteja cada
vez mais baixa. Hoje, dificilmente oiço um jovem polícia, da
última ou da antepenúltima recruta, dizer que se voltasse
atrás escolhia, de novo, ser agente da PSP. Entraram porque
precisavam de um emprego, e vão ficando até surgir outro
concurso para os Sapadores, para a ASAE, etc. E, mal conse-
guem, saem da Polícia.»
«São muitos os que querem sair da Polícia. Uma das situa-
ções que suscita esse desejo é o facto de estarem desenraiza-
dos, afastados das matrizes afectivas. Tenho casos de agentes
que estão em Lisboa e têm a família, os filhos, no Norte. Pra-
ticamente, quem está no distrito de Lisboa não pertence a Lis-
boa, vem de uma matriz familiar muito distante. O ter casa
em Lisboa, sustentar-se, sustentar os filhos e a esposa, que
vivem longe, torna-se incomportável. Portanto, ou desistem
de ser polícias ou desistem de ter uma vida, porque, para ter
uma vida aqui, têm de deixar de sustentar os filhos e até divor-
ciar-se da mulher. A nível mental, é insuportável gerir uma
situação de agonia como esta, em que não há solução à vista.
«Os que se aguentam, os que conseguem gerir a vida ao
tostão, não vivem, sobrevivem. Quase não têm dinheiro para
cigarros, ou para um café; vivem fechados numa casa, com
quatro ou cinco colegas. Tudo isto lhes afecta o sono e faz
com que durmam mal; a nível de raciocínio, a mente está ocu-
pada com este tipo de problemas, logo, a capacidade de res-
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 175

posta perante situações menos próprias, menos contempla-


das na parte civil, é muito mais lenta ou impulsiva. Ou não
reagem de todo, ficam apáticos, deixam andar; ou reagem
muito bruscamente e levam com um processo disciplinar.
«Geralmente, este deixar andar não dura muito, porque
não conseguem; o cérebro humano também tem limites. Nós
necessitamos de coisas básicas: a comida, a água, a parte emo-
cional. Esta parte emocional traduz-se em ter uma companhia,
em ter um suporte emocional, que pode ser um familiar, um
colega, um vizinho; mas tem de haver um. Quando eles come-
çam a desconfiar que a estrutura só os martela com proces-
sos disciplinares, não lhes dá resposta para nada e, quando
dá, é desajustada e enganosa e ainda são lesados com isso…
Quando tudo lhes corre mal, acabam por se meter em com-
primidos, no álcool, noutro tipo de vida para esquecer, para
se anestesiarem como forma de sobreviver, até que alguém
lhes diga – Mata-te, tens aí uma pistola!
E há também, para lá da saúde mental, outros problemas
de saúde geral. Esses são encaminhados, pelo gabinete de psi-
cologia do sindicato, para os médicos de clínica geral da Polí-
cia ou do sindicato. «Basicamente queixam-se das ancas, por
causa do peso da pistola; das costas, devido ao número de
horas em pé, e, consequentemente, de varizes, pelo mesmo
motivo. Há também perturbações da vigília, do sono e do
sonho, substantivadas em períodos de hipervigilância ou em
períodos de grande sonolência, em que há necessidade de
dormir quase um dia inteiro para depois entrarem de novo
em períodos de dormir apenas três a quatro horas.
«Neste quadro, todas as funções cognitivas ficam altera-
das. Os níveis de energia não são bem distribuídos. O nível
176 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

de alerta, que implica terem os órgãos sensoriais no máximo,


começa a falhar. Quem dormiu de mais, está mais sonolento;
a nível cardíaco, não há tanta adrenalina, está-se mais pros-
trado. Isto leva a uma oscilação na reacção deles a uma
mesma situação em períodos diferentes, consoante dormem
mais ou não dormem. Há também a parte familiar, que os
solicita para ir às compras, levar os filhos à escola, ou a mulher
que também quer passar algum tempo com o marido. Tudo
isto faz com que as poucas horas que têm para dormir sejam
perturbadas.»
Para a psicóloga, com base na sua experiência, os novos
agentes da PSP são «estereotipados», «formatados», não ape-
nas pelos ensinamentos que recebem na Escola de Polícia,
mas também por aquilo que vão sabendo que aconteceu aos
colegas. Quem sofre é o espírito da Corporação, que «nem
se chega a formar. As pessoas já vão formatadas para não falar
com ninguém, para não comentar. Se o objectivo é unifor-
mizar e tratar todos como robots , então estamos no bom
caminho. Mas aquele apoio que havia entre colegas, prova-
velmente vai deixar de existir… A desconfiança vai começar
ao nível das hierarquias, o que é mau porque os polícias
deviam poder contar com o apoio e a protecção dos seus supe-
riores; depois, vai estender-se entre colegas e vai aumentar a
deslealdade e o isolamento dos agentes. Esse é o meu maior
receio, será, sempre mais, cada um por si. E aí começam a
olhar para o outro com desconfiança e a despoletar persegui-
ções e ideias paranóicas. Vai dar, na mesma, à tentativa de sui-
cídio, à desistência da profissão, embora por outras formas.»
Por tudo isto, não estão disponíveis para correr o risco de
arranjar problemas ao nível da Corporação. «Só cumprem os
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 177

mínimos, fazem o seu papel mas não ultrapassam o limite


do que lhes é pedido», diz Sandra Coelho. «Muitos jovens,
que tomam conhecimento de várias situações, associam-se
ainda na escola, porque querem ter alguém que os proteja.
Identificam o sindicato como protecção e defesa. Há um
grande descontentamento. Fogem da estrutura, que acaba por
ser uma espécie de observatório. Quando se trata de medir,
com justiça, a relação entre o desempenho, o esforço e a
intenção que houve perante um facto, essa justiça não existe
por parte da hierarquia. Há folhas formatadas. Interessa o
acto, não a intenção.»
Para a psicóloga, a Corporação é, então, representada pelos
agentes como «um pai austero, um pai militar, um pai dita-
dor. Inicialmente, tentam amar o pai, como um filho faz até
à última, até compreender bem esse pai. Quando o compreen-
dem, dão-lhe um tempo de espera, para tentarem ajustar-se
à instituição, e, quando não conseguem, desistem. Desistem
com tristeza, desalentados. Esperam sempre que o «pai» lhes
dê a mão em qualquer altura, que se estabeleça alguma ponte
de relação, o que não acontece. Muitos, já que não conseguem
estabelecer essa relação com o «pai», fazem-no com os irmãos,
e daí surgirem grupos como os sindicatos».
Mas, mesmo conhecendo os polícias, como conhece, admi-
rando neles o esforço feito, com sacrifícios vários, no cum-
primento do dever, a psicóloga do sindicato, Sandra Coelho,
enquanto cidadã, não confia na acção da Polícia na rua.
E explica porquê: «Não é pelo agente, nem pelas suas com-
petências, mas pelos condicionalismos, cada vez maiores, e
pelas retaliações a que estão sujeitos. O polícia não age, não
por não ser capaz, mas porque receia por ele, em termos de
178 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

retaliação. Embora saiba como agir e tenha a devida compe-


tência, sabe igualmente que qualquer acção menos correcta
poderá resultar num processo disciplinar ou em ser deslo-
cado ou, até, levá-lo a perder o emprego. Ou podem enxova-
lhá-lo tanto que ele próprio desiste, porque fica com uma
folha de serviço que fará com que, daí em diante, dificilmente
o levem em consideração. Por si próprio, nota-se que agiria
de outra forma, mas retrai-se cada vez mais porque tem
família para sustentar.
«Quando o comportamento é bom, é entendido como
natural, resume-se à execução das suas funções. Não há moti-
vação nenhuma, a nível da estrutura, de recompensas; nem
verbais, nem materiais, nem de grupo. Não existem!» Os polí-
cias portugueses estão assim abandonados à sua sorte, uma
sorte madrasta, com uma Corporação que só parece saber
penalizar em moldes desproporcionados, mas que não
aprendeu a premiar o esforço, e, assim, a motivar os homens,
que talvez ainda não tenha sido capaz de compreender
enquanto seres humanos.
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 179

.1.
CONCLUSÃO
BRINCAR COM OS POLÍCIAS…

Findo o relatório deste trabalho no terreno (no fundo, este


livro também é isso), em que procurámos ouvir dos polícias
o que eles têm para dizer da sua vida e das condições da sua
profissão, dando voz ao sentir de elementos da PSP com esta-
tutos profissionais diferentes, idades distintas, experiências
diversas, mais ou menos anos passados na Polícia, o que
podemos concluir? Desde logo que, surpreendentemente, as
várias vozes como que foram o eco umas das outras. Há,
entre todos os que francamente nos falaram, em momentos
e circunstâncias diversas, um entendimento partilhado da
Corporação, das circunstâncias em que exercem o seu papel
em prol da Segurança Pública, das emoções que os atraves-
sam, dos meios colocados à sua disposição, da forma pouco
justa como sentem ser tratados pelos diferentes poderes,
desde logo o hierárquico interno, mas também o político, ao
nível do Estado.
Ora esta consonância, esta coincidência de visões da Cor-
poração, das suas limitações, dos seus erros, do que ela devia
ser mas não é, não acontece seguramente por acaso. Abrimos,
180 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

sem querer, uma caixa de Pandora. Ficámos a saber que há


polícias que passam fome; homens e mulheres com uma vida
familiar desestruturada, parte significativa sofrendo de pro-
blemas, mais ou menos graves, de saúde geral ou, até, de foro
psicológico, consequência da dura profissão que escolheram.
Todos eles sujeitos a regras que não compreendem e consi-
deram um impedimento ao correcto cumprimento da sua
missão, e que os torna alvos fáceis de sucessivos processos
disciplinares e/ou criminais, que lhes dificultam a vida e os
convidam a não agir, para evitar problemas.
Ficámos a saber, igualmente, que as perseguições que
vemos nos filmes de Hollywood são uma fita que as cidades
portuguesas não correm o risco de viver, porque os agentes
da PSP, nas perseguições aos bandidos, não só não podem
disparar as armas (nem sequer para os pneus dos carros, usa-
dos pelos marginais) como estão instruídos para cessar a per-
seguição se os malfeitores os alvejarem. Coisa que, de resto,
pode ser entendida como uma prova de pragmatismo por
parte do poder policial, já que os meios de que os polícia dis-
põem são, via de regra, absolutamente inadequados ou obso-
letos. Pistolas velhas e inapropriadas, balas contadas, coldres
de saque lento, coletes muito pouco à prova de bala, carros
que não passariam na inspecção a que as viaturas dos cida-
dãos estão sujeitas e que rebentam no auge de uma tenta-
tiva de perseguição, como na simples gestão de um acidente
de viação.
Mais, que os polícias que têm algemas, coldres de saque
rápido, armas como deve ser, coletes antibala a sério, fardas
em bom estado, luvas, lanternas, e o mais que for necessá-
rio as compram do seu parco bolso. Que, por ser assim, nem
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 181

todas as viaturas policiais dispõem de um par de algemas; que


cada uma delas só tem dois coletes antibala (mesmo que vão
três polícias no carro), coletes esses que são, via de regra,
pouco seguros, de um único tamanho, independentemente
da estatura de cada policial, e que não respeitam as diferen-
ças físicas entre homens e mulheres, ficando estas últimas
ainda mais desprotegidas.
Como ficámos ainda a saber que os polícias se queixam
de perseguições internas, de favoritismos, de serem alvo de
uma avaliação profissional não rigorosa nem transparente, ao
mesmo tempo que não têm a devida formação, a menos que
tomem individualmente a iniciativa de a comprar ou os sin-
dicatos a ofereçam. Que nem sequer sabem disparar em con-
dições e que, salvo uma ou outra excepção, se acertam em
alguém, não é porque quiseram acertar, mas porque calhou
ou porque falharam o alvo.
Ficou também claro que uma instituição com a dignidade
que devia ter a PSP coloca os seus agentes a fazer serviços
gratificados, um mínimo de quatro horas à porta de institui-
ções particulares (pode ser um banco, pode ser um supermer-
cado, pode ser uma papelaria…), de acordo com uma escala
de serviço dito voluntário, mas a que os agentes estão obri-
gados para conseguirem sobreviver. E que fazem fora do
horário da Polícia, o que significa que trabalham de mais e
dormem de menos, com todas as consequências negativas
para a sua boa forma física, o seu equilíbrio emocional, a sua
vida familiar, mas, sobretudo, para as condições em que
andam na rua.
Finalmente, parece uma evidência que muitos agentes e
graduados, até oficiais da PSP estão arrependidos da esco-
182 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

lha profissional feita e, o que é mais importante e significa-


tivo, completamente desmotivados. O resultado de tudo isto
é que os próprios polícias consideram que a segurança que
a PSP oferece à população é deficitária, não é a que eles pró-
prios gostariam que fosse, mas é a que podem dar, face ao
défice de formação, de meios e de condições de que dispõem
e que não lhes permite exercer a tempo inteiro o seu ofício
cívico.
Trata-se de um retrato confrangedor, assustador mesmo,
aquele que aqui traçamos pela voz de homens e mulheres da
PSP. Depois disto, que sentido fazem as discussões que
vamos ouvindo aos políticos sobre mais polícias, menos polí-
cias, muito, pouco ou nada. Está na altura de alguém dizer
claramente que, em Portugal, parece que andam a brincar aos
polícias ou com a Polícia. E que isso é inadmissível. Está na
altura de acabar com a brincadeira e agir com bom senso.
E este é um imperativo para o futuro.

Mário Contumélias
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 183

.1.
POSFÁCIO
DA POLÍCIA AO V IMPÉRIO…

Sempre imaginei um Estado justo. Consolidado em valo-


res humanistas, sem esquerdismos e direitismos, norteado
por políticas sociais eficazes, de que resultassem a protecção
efectiva do direito à vida e à dignidade dos cidadãos. Em vez
disso, o Estado tem sido, aparentemente, incapaz de assumir
o urgente combate às assimetrias profundas que dividem a
sociedade civil portuguesa.
Falta-nos – em Portugal – a igualdade de oportunidades,
capaz de proporcionar a esperança necessária para competir-
mos – motivados – e nos desenvolvermos positivamente,
enquanto sociedade de cidadãos, à imagem do que acontece
noutros países da Europa Comunitária. Falta-nos até uma
sociedade civil mais interessada e participativa, que perca o
hábito de assobiar para o lado, como faz a portuguesa.
A Polícia que temos não é diferente da generalidade dos
sectores nacionais, especialmente daqueles que emanam do
Estado português. Por isso, não encontra uma realidade dife-
rente da que ensombra o país. Faltam-lhe as condições neces-
sárias para exercer a sua função de forma eficaz, com a
184 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

dignidade que devia ser-lhe garantida, e não é. Apesar disso,


vê-se obrigada a lidar com crimes que são maioritariamente
resultantes das assimetrias sociais, e acabam por colocar em
causa a segurança de todos nós. Parece-me claro que enquanto
não tratarmos as origens do mal, teremos de lidar com ele.
É esse papel – ingrato e nem sempre bem compreendido – que
compete à nossa Polícia...
No final deste trabalho, sobrou-me a ideia de que melhor
polícia não é mais polícia. Significa: mais e melhor formação,
acompanhada por meios modernos eficazes e suficientes. Resul-
taria daí uma sentida dignidade, que falta aos homens e mulhe-
res da PSP, e a motivação bastante para cumprirem mais
dedicada e eficazmente a sua profissão, sem polivalências tão
abrangentes como são as actuais, e sem gratificados que os
obrigam a ir, várias vezes, muito além dos limites aconselhá-
veis para a saúde humana...

Parece-me óbvio que um homem bem preparado, alta-


mente motivado e apoiado por meios adequados valerá por
vários. Isso faria, certamente, a diferença num efectivo com
cerca de vinte e quatro mil homens... Não percebo como pode
parecer isto tão claro sem, ainda assim, se registarem as
transformações necessárias na Polícia de Segurança Pública.
Especialmente quando se discute o problema da insegurança
em que vivemos.
Talvez tudo isso se deva aos tempos de crise, ao facto de
sermos um país pequeno, ou à urgência de atender primeiro
as faltas em outros sectores... Mas teremos de saber se, num
Estado de Direito como é o nosso, Saúde e Segurança devem
ter orçamentos ajustados às necessidades dos cidadãos, ou
Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 185

acabar simplesmente constrangidas por faltas orçamentais.


O certo será: enquanto não optarmos claramente por uma das
vias, acabaremos mais longe do mundo e do sonho – utópico –
do V Império Português.

Fernando M. Contumélias
186 Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 187

.1.
.ANEXOS.
BRINCAR COM OS POLÍCIAS…
188 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias
Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 189

ORAGANOGRAMA DA PSP
190 Polícia à Portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias

.1.

BRINCAR COM OS POLÍCIAS…


Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias 191
192 Polícia à portuguesa | Fernando Contumélias • Mário Contumélias