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TOMADA DE POSIÇÃO SOBRE A REORGANIZAÇÃO CURRICULAR E O PROJECTO DE

DESPACHO DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO NAS ESCOLAS

Em nome da contenção da despesa no sector da Educação, a Resolução do Conselho de


Ministros nº 101-A de 2010, de 27 de Dezembro, o Projecto de Despacho sobre a
organização do Trabalho nos agrupamentos ou escolas não agrupadas e o Decreto-Lei
n.º 18/2011, de 2 de Fevereiro, que extingue a Área de Projecto e consagra outras
alterações curriculares no ensino básico, vêm desregular a escola pública e acelerar o
seu depauperamento, bem como ameaçam arruinar qualquer devaneio de qualidade
no ensino aí ministrado.
Depois de, a 26 de Janeiro de 2011, os sindicatos receberem do ME a informação de
que não decorreria qualquer processo negocial do despacho que contém as
orientações para a organização curricular do próximo ano escolar, uma vez que o
projecto de decreto-lei que prevê as alterações curriculares já fora aprovado em
conselho de ministros, dia 27, a crer em notícia do Público, foi a vez do Presidente da
República, Aníbal Cavaco Silva, promulgar o diploma do Governo que altera a matriz
curricular do ensino básico. Ontem o Decreto-Lei n.º 18/2011, de 2 de Fevereiro foi
publicado no Diário da República.
Recorde-se que foi este mesmo diploma mereceu três sucessivos pareceres negativos
do Conselho Nacional da Educação, um órgão consultivo designado pelo próprio
governo.
Entre as alterações – já incorporadas na Lei do Orçamento para 2011 e agora
confirmadas – está a extinção da Área de Projecto, quer no 2º e 3º CEB, bem como o
fim dos pares pedagógicos a EVT, restringindo drasticamente a sua componente
prática e artística, criando condições de insegurança na manipulação de materiais e
ferramentas por parte dos alunos, e prejudicando não apenas o enquadramento e
acompanhamento individualizado de cada aluno, como o enquadramento e
acompanhamento dos alunos com necessidades educativas especiais numa disciplina
que integra o seu currículo. Ora, isto é feito num contexto em que, em matéria de
Avaliação de Desempenho, tanto se fala na necessidade de partilha na prática docente,
de trabalho cooperativo e da troca de experiências.
Finalmente eliminam-se a Oferta de Escola (2 tempos) e 1 tempo a Formação Cívica,
isto no 2º e 3º CEB. O Estudo Acompanhado fica apenas para os alunos que tenham
maiores dificuldades e com efectivas necessidades (ensino especial), sendo alocado à
leccionação de Língua Portuguesa e Matemática, e ficando também limitado a um só

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professor supostamente suficientemente generalista para dominar disciplinas tão
distintas. Com a agravante de que os Apoios Educativos de escpla, tal como se conhecem,
desaparecerão para dar lugar a este Estudo Acompanhado, assim reformulado.

A única medida positiva é a redução de quatro horas, em média, na carga horária


lectiva semanal dos alunos do 2º e 3º ciclos do ensino básico.
Recorde-se novamente que o parecer do Conselho Nacional de Escolas, de 14 de
Dezembro, pronuncia-se expressamente contra a extinção da Área de Projecto nos
moldes em que será concretizada, contra a limitação do Estudo Acompanhado aos
alunos com dificuldades e também se opõe ao fim do par pedagógico na disciplina de
Educação Visual e Tecnológica. Nenhuma destas recomendações foi contemplada pela
tutela.
Como o próprio Conselho Nacional de Escolas sublinha esta nova lei “apenas corporiza,
no plano legislativo, medidas do orçamento de Estado para 2011, e que passam, entre
outras, pela ‘redução de docentes'”.
Ora, com a entrada em vigor em Setembro de 2011 desta estrutura curricular, e a
aprovação, entretanto, do diploma de Reorganização do Ensino Secundário, que como
que já foi anunciado eliminara, pelo menos, a Área de Projecto no 12º ano, e do
Despacho de organização do trabalho nas escolas, que aponta para reduções
substanciais no crédito horário das escolas e a incorporação na componente não
lectiva das horas antes atribuídas a cargos e projectos, admite-se a existência de
milhares de horários zero a partir de Setembro de 2011.
Falta saber se, para além do fim dos pares pedagógicos na disciplina de EVT, o ME
acaba também com o desdobramento das turmas nas aulas de Biologia e Química.
Seja como for, com aprovação do Despacho de organização do trabalho nas escolas, é
certa a redução do já magro orçamento das escolas, o corte substancial nas horas
atribuídas aos planos tecnológicos das escolas, o aumento de alunos por turma, em
nome de uma “gestão mais eficaz na constituição de turmas e distribuição do serviço
de docência”, a eliminação de horas na componente lectiva para cargos e para o
exercício de funções relacionadas com Bibliotecas Escolares e desenvolvimento de
clubes e projectos, e ainda, como acima se referiu, com os apoios educativos e a
generalidade dos planos de combate ao abandono e insucesso escolares, como o Plano
de Acção da Matemática e as Tutorias, destruindo fecundas experiências de educação
e formação dos alunos e comprometendo metas e objectivos definidos pelo próprio
Governo até 2015.
Como se tudo isto não bastasse, depois da efectiva redução de todos os professores a
contratados a termo determinado e a termo indeterminado, falta apenas integrar de
facto os professores no Regime do Contrato de Trabalho em Funções Públicas, acabar
com o quadro e a carreira, sujeitar os professores à mobilidade especial, facilitar o

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desemprego docente e abrir a porta aos despedimentos por ‘racionalização de
efectivos’ e ‘extinção de postos de trabalho’.
No total e incluindo a redução em cerca de 70% do crédito de horas previsto na
reorganização do próximo ano lectivo, as escolas perderão em média cerca de um
quarto dos professores que leccionam actualmente. Note-se que os cálculos, não são
dos Sindicatos, mas da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), que não vê
como vai conseguir manter os alunos a tempo inteiro nas escolas. Como alerta o
presidente da ANDE, Manuel Pereira, "a diminuição da carga horária coloca-nos um
sério problema - os alunos terão mais tempos livres e as escolas menos recursos para
mantê-los ocupados". Resumindo, ou os alunos passam mais tempo nos ATL ou vão
para casa e os pais que se arranjem.
Paralelamente, anuncia-se já a redução do número de funcionários não docentes,
criando problemas ao nível do funcionamento de serviços essenciais, como a
biblioteca, o bufete, a papelaria e outros, agravando inclusivamente as condições de
segurança dos alunos.
A isto junta-se à insistência cega na constituição de mega-agrupamentos, envolvendo
não só escolas afastadas e culturalmente diferenciadas, mas também um número
desmedido de alunos, ao mesmo tempo que se introduzem restrições nos quadros de
gestão escolar – menos gente para um trabalho violentamente acrescido –, isto ao
arrepio do retorno avassalador às pequenas ‘unidades educativas’ na maior parte dos
países do Norte e Centro da Europa, nomeadamente naqueles anteriormente
considerados pela tutela ‘Exemplos a seguir’ e, agora, nos EUA.
Diane Ravitch, citada no parecer 2/2011 do Conselho Nacional de Escolas, órgão
consultivo criado pelo próprio governo, a propósito das políticas de educação da
última década, escreveu: «Hoje, observando os efeitos concretos destas políticas,
mudei de opinião: considero agora que a qualidade do ensino que as crianças
recebem tem prioridade sobre os problemas de gestão, de organização ou de
avaliação dos estabelecimentos de ensino».
A mesma senhora, Subsecretária da Educação e Conselheira do Secretário da
Educação, na Administração de George Bush, pai, liderando o esforço federal para
promover a criação de standards académicos nacionais nos EUA, depois de lembrar os
milhares de milhões de dólares que foram gastos para conceber e realizar as baterias
de testes necessárias a um complexo sistema de avaliação das crianças, como o que
alguns aspiram instalar no nosso sistema de ensino, diz-nos que «muitos especialistas
concluíram que este trabalho não beneficia as crianças», isto no âmbito das Políticas
Curriculares para Desenvolvimento de Competências Básicas.
Ora, se, como diz Diane Ravitch, “a qualidade do ensino que as crianças recebem tem
prioridade sobre os problemas de gestão, de organização ou de avaliação dos
estabelecimentos de ensino”, não seria a altura de parar e de repensar aquilo que, no

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âmbito já da gestão e da organização, já da avaliação, outros países, começando-a
mais cedo, já assumiram como um erro?
A resposta ponderada e não comprometida seria: é evidente que sim. Mas a resposta
que os professores recebem da tutela vai no sentido contrário e desembesta num
delírio avaliativo, organizativo e gestionário inédito mesmo se ineficaz, de contornos
única e exclusivamente economicistas, e incapaz de aprender com o exemplo de
outros países que já viveram a experiência.
Ora, todas estas medidas, as já tomadas e as previstas, são didáctica, pedagógica e
socialmente dramáticas, contraproducentes e indiferentes ao valor humano da escola -
que não é, nem se pode querer que seja, uma máquina de produção de bens a custo
mínimo -, ou às condições de trabalho dos professores, e de consequências
absolutamente negativas para o sucesso escolar.
O mais absurdo, é que nada justifica tais medidas, a não ser, obviamente, o desejo, por
parte do Ministério das Finanças, de contracção inconsequente do número de horários
e do brutal agravamento do desemprego docente, que começará por tocar os
professores contratados, mas que não vai, desde logo, deixar de fora professores
afectos aos quadros, por inexistência forçada de horários nas suas escolas.
Veja-se então o que ganham os alunos com isto, questão fundamental na nossa
profissão. O desvirtuar de uma disciplina como EVT que ameaça tornar-se uma
disciplina teórica. A perda dos Apoios pedagógicos de oferta da escola. O fim dos
Clubes e das tutórias. A aprendizagem do trabalho em grupo e de gestão dos grupos
que era apanágio da Área de Projecto. O fim de quaisquer actividades extra-lectivas.
Professores fatigados pela sobrecarga lectiva e crescentemente desmotivados, sem
tempo para preparar as aulas, ameaçando a qualidade do ensino ministrado.
Finalmente, as intermináveis perversidades da necessidade de organizar mais trabalho
com muito menos docentes, traduzindo-se em alguns Agrupamentos, por exemplo, na
impossibilidade de garantir, de facto, o direito à opção, no 9º ano, entre as três
disciplinas da Área Artístico - tecnológica (e.g. Educação Visual, Oficina de
Artes/Oficina de Música e Educação tecnológica).
Trata-se, em suma, burocraticamente, de salvar a casa hipotecando os filhos – pura
impiedade de uma política educativa desnorteada e incapaz de pensar no médio e no
longo prazo.
Face ao exposto, os professores do Agrupamento Vertical Clara de Resende, em
reunião realizada no dia 3 de Fevereiro de 2011, não podem simplesmente cruzar os
braços e alhearem-se do aniquilamento do propriamente pedagógico e humano na
profissão docente, da rápida transformação dos professores em simples mangas-de-
alpaca, fiéis executores acéfalos de políticas e cartilhas ruinosas, ou consentir em,
impávidos, já na pauperização das escolas já na desconsideração a que a docência tem

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vindo a ser sujeita pela tutela e, em consequência, a autêntica deflação do valor do
professor.
Assim, recusam, também e desde já, qualquer responsabilidade pelos efeitos negativos
que tais decisões venham a ter na qualidade das escolas e, sobretudo, do processo de
ensino/aprendizagem e manifestam veementemente o seu repúdio pelas medidas
implementadas, anunciadas e previstas, e por mais este ataque brutal contra o ensino
público e a escola inclusiva, que só vem agravar as condições de trabalho dos
professores, o insucesso e o abandono escolares e comprometer o desenvolvimento
do processo de ensino/aprendizagem, os direitos e as expectativas de crianças e
jovens, e das suas famílias.
Mais solicitam, ao Director da Escola que se digne dar conhecimento do presente
documento às seguintes entidades:
- Gabinete da Exma. Sr.ª Ministra da Educação
- Comissão Nacional de Avaliação
- Conselho Científico para a Avaliação de Professores
- Exmo. Sr. Director da Direcção Regional do Norte
- Conselho Nacional de Escolas
- Exmo. Sr. Director da Direcção-Geral dos Recursos Humanos da Educação
- Conselho Pedagógico do Agrupamento
- Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento