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3º Curso Virtual de Teologia do Corpo – 2010 ____________________________________________________ 1

Conclusão
começado a fazer isso, na compreensão da
Os parágrafos a seguir são trechos do livro sexualidade humana expressa no livro “Amor e
“Testemunho da Esperança”, uma biografia do Papa Responsabilidade”, e no trabalho com as famílias
João Paulo II escrita por George Weigel. na arquidiocese sob sua liderança. Agora tinha
chegado o tempo de aprofundar essa análise
bíblica e levá-la para uma audiência global. O
Eleito Papa com a resultado foram as catequeses proferidas durante
Teologia do Corpo em suas Mãos as audiências gerais por um período de quatro
anos, que se tornaram a Teologia do Corpo, de
1. Quando foi eleito para o papado, Karol Wojtyla João Paulo II.
sabia que a última tentativa da Igreja de abordar a
questão da revolução sexual e suas relações com a
vida moral, a Encíclica Humanae vitae, do Papa
Paulo VI, tinha sido um “fracasso” no âmbito
pastoral – por mais que esteja correta quanto à
questão específica dos meios moralmente
apropriados para regulação da natalidade. A
doutrina da Humanae vitae sobre essa questão
tinha sido rejeitada por um grande número de
católicos ao redor do mundo. Muitos que a
rejeitaram sentiam que suas experiências de amor
sexual tinham sido ignoradas ou diminuídas pelos
líderes religiosos. Esse sentimento de rejeição
levou à conclusão de que a Igreja não tinha nada 4. O Cardeal Wojtyla já tinha concebido em
de importante a dizer sobre qualquer aspecto da Cracóvia o projeto que depois de tornaria a
sexualidade humana. primeira parte da Teologia do Corpo. Ele mesmo
lembrou anos depois que levou esse material
2. Paulo VI, um homem profundamente pastoral, consigo para o conclave que elegeu o Papa João
não teve a intenção de diminuir a vocação do Paulo I em agosto de 1978, e disse que trabalhava
matrimônio. Mas tinha sido criada uma situação nesses escritos ali. O filósofo Wojtyla continuava
na qual todas as coisas que a Igreja tinha a dizer achando um quebra-cabeças intelectual fascinante
sobre a sexualidade humana depois da “encíclica o fato de que Deus criou a humanidade como
do controle de natalidade” eram vistas com homem e mulher. Dizia ele que era um “problema
suspeita, e em alguns casos com ativa hostilidade. interessante”. O que nos diz sobre a condição
Esse abismo criado foi uma crise de grandes humana em geral, e sobre o homem e a mulher em
proporções na Igreja, já que a revolução sexual particular, uma humanidade que se expressa
modelou as questões em torno das quais a através da masculinidade e da feminilidade? E
definição de “liberdade” era discutida no mundo havia também a confusão na Igreja depois da
desenvolvido. João Paulo II acreditava que havia Humanae vitae. Alguma coisa tinha que ser feita
chegado a hora de colocar essa discussão em para explicar a ética sexual da Igreja de um modo
novos patamares. mais persuasivo. Wojtila decidira escrever um
livro sobre tudo isso. O livro que ele estava
3. A Igreja não tinha encontrado ainda uma voz escrevendo durante o conclave inesperadamente
que pudesse enfrentar o desafio da revolução se tornou o material de suas audiências gerais
sexual. João Paulo II pensava que ele e seus como Papa.
colegas em Lublin e em Cracóvia tinham

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do Criador) que o amor sexual era no “princípio”


Revendo o Caminho Percorrido se quebra. A luxúria, sugere o Papa, é o oposto da
verdadeira atração. Esta verdadeira atração deseja
O “Princípio” o bem da outra pessoa, através da doação ou
entrega de si mesmo; ao contrário, a luxúria
5. Na primeira parte da Teologia do Corpo, João deseja apenas meu prazer passageiro através do
Paulo II deseja nos explicar uma “antropologia uso (e até do abuso) da outra pessoa.
adequada”. Inicia com a reflexão onde “Cristo se
refere ao princípio”. Nela, havia a polêmica entre 7. A mulher que se torna alvo desse olhar
Jesus e os fariseus sobre a questão do divórcio. luxurioso do homem se torna um objeto, não uma
João Paulo II se pergunta porque Jesus, ao rejeitar pessoa; e o sexo é reduzido a um meio utilitário de
a prática mosaica do divórcio, coloca tanta ênfase “satisfazer” uma “necessidade”. Esse “adultério
no fato de que Deus criou os seres humanos no coração” pode ocorrer mesmo dentro do
homem e mulher “desde o princípio”. Isso leva o matrimônio – não porque o objeto da luxúria do
Papa a voltar aos relatos da criação no Gênesis, homem seja outra mulher, mas porque esse olhar
que ele vê como profundas reflexões acerca de luxurioso transforma a própria esposa em um
verdades duradouras da condição humana. objeto, e distorce a verdadeira comunhão de
Partindo de diferentes ponto de vista, os relatos da pessoas. Essa sugestão da possibilidade de um
Criação testificam a dignidade do ser humano, no “adultério dentro do casamento” causou um
qual a sexualidade, a procriação e as decisões verdadeiro furor na mídia mundial. Se João Paulo
morais estão intimamente ligadas. II fosse visto como um maniqueísta que achava a
sexualidade suja e nojenta, ficava fácil achar sua
reflexão sobre “adultério no casamento” apenas
uma expressão particularmente bizarra de sua
“neurose”. Mas para aqueles que conhecem os
escritos do Papa, e levam a sério seu argumento
de que o amor sexual dentro do matrimônio é um
ícone da vida interior de Deus por expressar uma
comunhão de pessoas, então a afirmação do Papa
sobre o “adultério dentro do matrimônio” passa a
fazer todo sentido.

8. A ética sexual cristã, de acordo com João Paulo


II, redime a sexualidade das armadilhas da
concupiscência. Longe de proibir o Eros, a ética
cristã libera o Eros para uma “espontaneidade
madura”, na qual a “perene atração” entre os
sexos encontra sua plenitude em uma mútua
O “Homem Histórico” “doação-de-si”, uma mútua reafirmação da
dignidade de cada pessoa no amor. A “nova ética”
6. João Paulo II inicia o segundo ciclo de do Sermão da Montanha e da doutrina de Cristo
audiências da sua revolucionária Teologia do sobre os “puros de coração” é uma ética da
Corpo com outra cena bíblica. No Sermão da “redenção do corpo”, uma redescoberta, na
Montanha, Jesus está definindo as implicações história, da verdade da “doação-de-si” como
morais das bem-aventuranças – uma vida que sendo a verdade sobre a condição humana desde o
inclui a “pureza de coração”. E Jesus diz: “Aquele “princípio”.
que olhar para uma mulher com desejo
[desordenado] já cometeu adultério com ela em
seu coração” (Mt 5, 27-28). Por séculos essa A Ressurreição e o Celibato
passagem foi vista como uma exigência muito
difícil, quase impossível. Entretanto, para João 9. No Evangelho de Marcos, os Saduceus, que
Paulo II, esta passagem é nada menos que uma negavam a ressurreição dos mortos, tentavam
“chave” para a compreensão da Teologia do reduzir a noção de ressurreição a um absurdo,
Corpo. O pecado, explica o Papa, entra no mundo colocando a questão de uma mulher que havia se
como uma corrupção do genuíno “dom-de-si”, casado em seqüência com sete irmãos, todos
que é motivado pelo amor. O amor degenera em mortos sem deixar filhos. A resposta de Jesus é
concupiscência, e a imagem da bondade criada (e que no Reino dos Céus “não se casarão (Mc 12,

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23). No terceiro ciclo da Teologia do Corpo, João amor conjugal feita por João Paulo II. O amor
Paulo II argumenta que isso não desvaloriza o sexual, ele conclui, é um ato de liturgia. A vida
matrimônio. O “doar-se”, o “dom”, no Reino dos conjugal se torna “litúrgica”, quando a
Céus, é uma perfeita “doação-de-si”, e o receber “linguagem do corpo” se torna o meio para o
perfeito do “doar-se”, do “dom” de Deus para encontro, através de uma experiência do sagrado,
homem e mulher em seus corpos ressuscitados. com o que Deus desejou para o mundo e para a
Essa “divinização” dos seres humanos é a humanidade “desde o princípio”. O “dom-de-si”
plenitude do significado esponsal do corpo sexual, livremente oferecido e livremente recebido
humano, um ícone da “Lei do Dom”, colocado dentro da aliança matrimonial, se torna um meio
desde a criação como reflexo do dinamismo de santificar o mundo.
intrínseco da própria vida de Deus.

10. O celibato vivido “pelo Reino” antecipa, na A Lei da Vida Como Herança
história, a vida que há de vir, na qual haverá um
“doar-se” perfeito sem matrimônio. No mundo e 13. Ao lidar com a difícil questão do amor
na história, o matrimônio é uma escola na qual conjugal, a encíclica Humanae vitae tinha
nos preparamos para o Reino dos Céus, proposto o desafio moral da castidade conjugal
aprendendo a nos tornarmos “dom”, a fazermos dentro de um contexto negativo de “luta”, de
completa “doação-de-nós-mesmos” para os “persistência”. A Teologia do Corpo, de João
outros. O celibatário também se prepara para o Paulo II, reposiciona totalmente a questão, se
Reino aprendendo a fazer sua “doação-de-si”, a perguntando de que modo a vida de amor sexual
fazer-se um dom para os outros. O celibato deve se encaixa dentro da iconografia do matrimônio.
ser fecundo, e levar à maternidade ou paternidade O desafio é viver externamente nossa
espiritual, assim como o matrimônio leva à corporeidade masculina ou feminina – viver o
maternidade/paternidade através da procriação e amor sexual – de modo que este amor sexual, no
da educação dos filhos. O matrimônio e o celibato matrimônio, se torne um ícone o mais luminoso
são dois modos complementares e conjugados de possível do amor que é “doação-de-si”.
viver a vida cristã.

O Matrimônio

11. O matrimônio é, em certo sentido, o “mais


antigo sacramento”, o “sacramento primordial”,
pois desde o “princípio” foi a realidade comum
que revelava a realidade extraordinária da criação
como um ato de amor-doação, de amor-dom. No
sacramento do matrimônio, marido e mulher são
os ministros da graça de Deus, e a “linguagem do
corpo” no amor conjugal é o caminho no qual o
casal se expressa. Para os cristãos, o amor 14. Crescer na maturidade do auto-domínio não é
conjugal é também um ícone da redenção, pois o fácil. Viver a castidade conjugal significa pensar o
amor entre marido e mulher é visto desde o Novo matrimônio como um vocação a ser amadurecida,
Testamento como uma imagem do amor de Cristo na medida em que os esposos crescem no “amor
pela sua Esposa, a Igreja. O matrimônio ganha derramado nos corações como dom do Espírito
uma nova riqueza de significado, ao ser Santo”. A maturidade do casal para viver uma
compreendido como a realidade humana que comunhão de pessoas envolve a expressão sexual
melhor espelha o relacionamento entre o Cristo em certos períodos e a abstinência sexual em
Redentor e o povo que Ele redimiu. E aqui a outros períodos; envolve êxtase sexual e ascese.
questão do divórcio ganha nova luz. Se o Remover essa realidade da vida conjugal é
matrimônio sacramental, um ícone do amor esvaziá-la de um aspecto crucial de sua inerente
redentor de Deus, pode ser dissolvido, do mesmo humanidade. A verdade e o amor nunca podem
modo o seria o amor de Cristo pela Igreja. Mas ser separados na misteriosa “linguagem do
sabemos que não é assim. corpo”, plena de êxtase e ao mesmo tempo de
ascese.
12. As reflexões sobre a teologia do matrimônio
terminam com a celebração mais profunda do

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família passa pela Teologia do Corpo de João


A Teologia do Corpo: Paulo II. Aqui o Papa fornece o “antídoto” para a
Momento Decisivo para a Igreja cultura da morte, bem como um fundamento
teológico para a “nova evangelização”.
15. A Igreja e o mundo ainda vão percorrer um
longo caminho neste terceiro milênio antes que a Não haverá renovação na Igreja e no mundo
teologia católica tenha assimilado completamente sem uma renovação do matrimônio e da
o conteúdo dessas catequeses do Papa João Paulo família.
II. Se levadas a sério, essas catequeses poderão ser Não haverá renovação do matrimônio e da
um momento decisivo em afastar elementos
família sem um retorno à plena verdade do
maniqueístas e certa depreciação da sexualidade
humana. Poucas pessoas ousaram propagar com plano de Deus para o corpo e para a
tal clareza para o mundo que a “sexualidade sexualidade.
humana é muito mais do que você imagina”. Não haverá retorno à plena verdade do plano
Pouco sacerdotes pregam sobre esse tema. Uma de Deus para o corpo e a sexualidade sem uma
percentagem muito pequena de católicos seque proposta teológica renovada, que demonstre de
sabe que existe uma “Teologia do Corpo”. Por
forma convincente ao mundo moderno como a
que? A profunda densidade do escrito de João
Paulo II é um fator; precisamos desesperadamente ética sexual cristã – longe de ser uma lista
de uma literatura secundária capaz de “traduzir” o puritana e repressora de proibições, como
pensamento do Papa para um vocabulário mais querem fazê-la parecer – é um ethos redentor e
acessível. Outro fator é a lista de controvérsias libertador que corresponde perfeitamente às
definida pela mídia – controle de natalidade, mais nobres aspirações do coração humano.
aborto, divórcio etc – isso tudo cria um obstáculo
É precisamente isto que a Teologia do Corpo,
para a difusão do pensamento libertador de João
Paulo II. de João Paulo II, nos proporciona. Mas ela é
muito mais do que isso!
16. A Teologia do Corpo poderá ser vista não
apenas como um momento crítico na teologia
católica, mas também em toda a história do 18. O chamado ao amor nupcial e à comunhão,
pensamento moderno. Ao demonstrar que a inscrito em nossos corpos masculinos e femininos
pessoa humana pode ser “lida” a partir de sua é “o elemento fundamental da existência humana
corporeidade, o Papa ajudou a enriquecer a no mundo” (TdC 15), e o “substrato mais
compreensão moderna de liberdade e do amor profundo da ética e da cultura humana” (TdC 45).
sexual, e da relação entre essas duas realidades.

Os parágrafos a seguir formam traduzidos do manual


de estudo “Naked Without Shame”, de Christopher
West (The Gift Foundation, 2002).

Antídoto para a Cultura da Morte e Chave Santa Gianna


para descobrir o Sentido da Vida
19. A vida comum do homem e da mulher
17. Se o futuro da humanidade passa pelo
“constitui o puro e simples tecido da existência.”
matrimônio e pela família (cf. Familiaris
Portanto, “a vida humana, ... sua dignidade e o seu
consortio n. 85), o futuro do matrimônio e da

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equilíbrio dependem, em todo o momento da uma “sociedade doente que gera profundas
história e em todo o ponto de longitude e de alterações no homem. Por que é que se verifica
latitude geográfica, de "quem" será ela para ele e isto? A razão está no fato de a nossa sociedade se
ele para ela.” (TdC 43) ter afastado da verdade plena sobre o homem, da
verdade acerca daquilo que o homem e a mulher
20. A confusão acerca da moralidade sexual são como pessoas. Conseqüentemente, não sabe
“envolve um perigo talvez maior do que compreender de maneira adequada o que sejam
geralmente se pensa: o perigo de confundir as verdadeiramente o dom das pessoas no
tendências humanas básicas e fundamentais, os matrimônio, o amor responsável ao serviço da
caminhos principais da existência humana. Tal paternidade e da maternidade, a autêntica
confusão claramente afeta toda a posição grandeza da geração e da educação.” (Carta às
espiritual do ser humano.” (Amor e Famílias, n. 20)
Responsabilidade pág. 66)
26. O desafio que temos pela frente é árduo:
21. “É uma ilusão pensar que se pode construir somente os esforços cooperados de todos aqueles
uma verdadeira cultura da vida humana, se não se que acreditam no valor da vida, poderá evitar uma
ajudam os jovens a compreender e a viver a derrota da civilização, de conseqüências
sexualidade, o amor e a existência inteira no seu imprevisíveis. (Evangelium vitae, n. 91)
significado verdadeiro e na sua íntima
correlação.” (Evangelium vitae n. 97)

22. O que aprendemos é obviamente “importante


com relação ao matrimônio e à vocação cristã de
esposos e esposas”. Entretanto, é “igualmente
essencial e válido para a hermenêutica do homem
em geral: para o problema fundamental da
compreensão do ser humano e da
autocompreensão do seu ser no mundo.” (TdC
102)

23. Mesmo lidando com um foco determinado, as


catequeses do Papa sobre o corpo permitem a
“redescoberta do significado de toda a existência, 27. “Se se olha superficialmente o mundo
do significado da vida” (TdC 46). Portanto, “é moderno, fica-se impressionado pela abundância
esta teologia do corpo que é a base para o mais de fatos negativos, podendo-se ser levado ao
apropriado método da pedagogia do corpo, isto é, pessimismo. Mas este sentimento é injustificado:
da educação (melhor, da auto-educação) do nós temos fé em Deus Pai e Senhor, na Sua
homem” (TdC 59) bondade e misericórdia... Deus está a preparar
uma grande primavera cristã, cuja aurora já se
24. “A teologia do corpo não é meramente uma entrevê.” (Redemptoris missio n. 86)
teoria, mas sim uma pedagogia do corpo
específica, evangélica e cristã” (TdC 122).
“Quando falamos do significado do corpo, O que é a Nova Evangelização?
referimo-nos em primeiro lugar `consciência
plena do ser humano” (TdC 31) 28. João Paulo II usou a expressão “Nova
Evangelização” pela primeira vez em uma visita
pastoral à América Latina em 1983. O que há de
Lendo os “Sinais dos Tempos” “novo” é que esta evangelização não é dirigida
somente a não batizados, mas também ao
25. “Encontramo-nos defronte a uma enorme fenômeno moderno de “batizados não
ameaça contra a vida: não apenas dos simples convertidos”.
indivíduos, mas também de toda a civilização. A
afirmação de que esta civilização se tornou, sob 29. A Nova Evangelização “não se trata de
alguns aspectos, «civilização da morte», recebe inventar um « programa novo ». O programa já
assim uma inquietante confirmação.” (Carta às existe: é o mesmo de sempre, expresso no
Famílias n. 21) Apesar dos grandes progressos Evangelho e na Tradição viva.” (Novo Millenio
científicos e tecnológicos, estamos vivendo em Ineunte, n.29)

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ou seja, o nosso contexto quotidiano, fora do qual


30. “Ne evacuetur Crux! (cf. 1 Cor 1, 17). Não se não conseguiríamos entender-nos.” (Fides et ratio
esvazie a Cruz de Cristo [de seu poder], porque, n. 12)
se se esvazia [desvirtua] a Cruz de Cristo, o
homem perde as raízes, já não tem perspectivas: 35. “É necessário fazer chegar o Evangelho da
destrói-se! Este é o grito no final do século XX. É vida ao coração de todo o homem e mulher, e
o brado de toda a cristandade: das Américas, da fazê-lo penetrar em cada parte da sociedade.
África, da Ásia, de todos. É o grito da nova Trata-se em primeiro lugar de anunciar o núcleo
evangelização.” (Orientale lumen n. 3) deste Evangelho: é o anúncio de um Deus vivo e
solidário, que nos chama a uma profunda
31. A “nova evangelização envolve um esforço comunhão Consigo e nos abre à esperança segura
vital para se chegar a uma compreensão mais da vida eterna; é a afirmação do laço indivisível
profunda dos mistérios da fé e para encontrar uma que existe entre a pessoa, a sua vida e a própria
linguagem significativa com a qual se possa corporeidade; é a apresentação da vida humana
convencer nossos contemporâneos que eles são como vida de relação, dom de Deus, fruto e sinal
chamados à uma nova vida através do amor de do seu amor; é a proclamação da extraordinária
Deus”. É a tarefa de compartilhar com homens e relação de Jesus com todo o homem, que permite
mulheres modernos “as riquezas insondáveis de reconhecer o rosto de Cristo em cada rosto
Cristo, e de tornar conhecido o plano do mistério humano; é a indicação do « dom sincero de si »
escondido desde a eternidade em Deus, que criou como tarefa e lugar de plena realização da própria
todas as coisas.” (Discurso aos Bispos americanos liberdade. Como consequência, a vida encontra o
em visita ad limina – 1998) seu sentido no amor recebido e dado, e à luz dessa
realidade a sexualidade humana e a procriação
alcançam seu significado verdadeiro e pleno.
A Teologia do Corpo e o Evangelho (Evangelium vitae, ns. 80-81)

32. As catequeses de João Paulo II demonstram 36. Compreender a revelação de Cristo acerca do
que o Evangelho não é algo que está “lá fora”, em corpo humano e de sua redenção “diz respeito a
algum lugar. Não é abstrato. Uma imagem do toda a Bíblia” (TdC 69). Ela nos coloca “na
mistério de Deus está estampado em nós mesmos perspectiva de todo o Evangelho, de toda a
– em nossas aspirações espirituais mais profundas doutrina, e ainda mais, de toda a missão de
em busca de intimidade e de comunhão, e em Cristo.” (TdC 49)
nossos próprios corpos, enquanto homem e
mulher.

A Resposta da Igreja
ao Racionalismo Moderno

37. A famosa frase do filósofo Renè Descartes,


“Penso, logo existo” marca a mudança que
inaugurou o racionalismo moderno. O homem se
torna uma “mente”, divorciada de seu corpo. A
realidade é reduzida ao que posso “pensar” – não
se tolera mais o mistério. Isso marca o grande
“divórcio” entre o homem e o “mistério esponsal”.

38. “A maravilhosa síntese paulina a propósito do


«grande mistério» apresenta-se como o
33. A nova evangelização não é primeiramente compêndio, a summa, em determinado sentido, do
um apelo a princípios abstratos, mas aos desejos ensinamento sobre Deus e o homem, que Cristo
do coração humano por amor e comunhão – e o levou à perfeição. Infelizmente, com o
testemunho convincente de que Jesus é a resposta desenvolvimento do racionalismo moderno, o
a esse desejo por comunhão. pensamento ocidental foi-se afastando pouco a
pouco de tal ensinamento. O filósofo que
34. “Deus vem ter conosco, servindo-Se daquilo formulou o princípio «cogito, ergo sum » (penso,
que nos é mais familiar e mais fácil de verificar, logo existo), acabou por imprimir à concepção

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moderna do homem o caráter dualista que a Cristo caminhou conosco, e nos abriu o
caracteriza. É típico do racionalismo contrapor entendimento das Escrituras. “Não estava ardendo
radicalmente, no homem, o espírito ao corpo e o o nosso coração quando ele nos falava pelo
corpo ao espírito. O homem, pelo contrário, é caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lucas
pessoa na unidade do corpo e do espírito. O corpo 24, 32) E assim como os discípulos reconheceram
nunca pode ser reduzido a pura matéria: é um Cristo “ao partir o pão” – em Seu Corpo dado a
corpo «espiritualizado», assim como o espírito eles na Eucaristia – assim também nós podemos
está tão profundamente unido ao corpo que se ver Cristo revelado em Seu Corpo: em nossos
pode qualificar como um espírito «corporizado». corpos, porque nós, embora muitos, somos “um só
A fonte mais importante para o conhecimento do corpo” com Ele.
corpo é o Verbo feito carne. Cristo revela o
homem ao próprio homem. Esta afirmação do 41. No início do novo milênio, é hora da Igreja e
Concílio Vaticano II, de certo modo, é a resposta, do mundo “cruzarem o limiar da esperança”, e
longamente esperada, dada pela Igreja ao vivenciar uma nova primavera. É tempo de fazer
racionalismo moderno.” (Carta às Famílias, n. nossa “passagem” (Páscoa) de uma cultura da
19) morte para uma cultura da vida.

39. “O racionalismo moderno não suporta o 42. “Certamente não nos move a esperança
mistério. Não aceita o mistério do ser humano, ingênua de que possa haver uma fórmula mágica
homem e mulher, nem quer reconhecer que a para os grandes desafios do nosso tempo; não será
plena verdade do homem foi revelada em Jesus uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a
Cristo. Não tolera, em particular, o «grande certeza que Ela nos infunde: Eu estarei
mistério» anunciado pela Carta aos Efésios, e convosco!” (Novo Millenio Ineunte, n. 29)
combate-o radicalmente. Num contexto de vago
deísmo, reconhece a possibilidade ou mesmo a 43. O chamado de homem e mulher para a
necessidade de um Ser supremo divino, mas comunhão de doação de si, de doação da própria
recusa decididamente a noção de um Deus que se vida, a família, “se encontra no centro do grande
faz homem para salvar o homem. Para o combate entre o bem e o mal, entre a vida e a
racionalismo, é impensável que Deus seja o morte, entre o amor e quanto a este se opõe.”
Redentor, e menos ainda que seja «o Esposo», a (Carta às Famílias, n. 23)
fonte originária e única do amor esponsal humano.
Aquele interpreta a criação e o sentido da
existência humana de maneira radicalmente
diversa. Mas, se faltar ao homem a perspectiva de
um Deus que o ama e, por intermédio de Cristo, o
chama a viver n'Ele e com Ele, se à família não
for aberta a possibilidade de participar no «grande
mistério», o que é que resta senão a mera
dimensão temporal da vida? Resta apenas a vida
temporal como campo de luta pela existência, de
procura ansiosa do lucro, sobretudo do lucro
econômico. O «grande mistério», o sacramento do
amor e da vida, que tem o seu início na criação e
na redenção e cuja garantia é Cristo-Esposo,
perdeu na mentalidade moderna as suas raízes
mais profundas. Está ameaçado em nós e à nossa
volta.” (Carta às Famílias, n. 19)

44. Mas, no meio dessa grande batalha, “a Igreja


acredita firmemente que, da parte de Deus, há
Cruzando o Limiar da Esperança sempre uma auto-doaçãosalvífica.” (Dominum et
vivificantem, n. 56) Os termos ou pólos em
40. Muitos de nós se encontram como os contraposição, aqui são: da parte do homem, as
discípulos no caminho de Emaús – entristecidos suas limitações e pecaminosidade, pontos
pelos trágicos acontecimentos de nossos dias, nevrálgicos da sua realidade psicológica e ética; e,
pensando o que significaria tudo isso, e porque as da parte de Deus, o mistério do Dom, o incessante
coisas chegaram a esse ponto. Mas o Vigário de

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doar-se da vida divina no Espírito Santo. A quem Referências


caberá a vitória? Aquele que souber acolher o
Dom. (Dominum et vivificantem, n. 56)
Familiaris consortio – Exortação Apostólica de João
Paulo II sobre a função da família cristã no mundo de
hoje – 1981
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_
exhortations/documents/hf_jp-
ii_exh_19811122_familiaris-consortio_po.html
Maria, Mãe de Deus...
WOJTYLA, Karol. Amor e Responsabilidade. São
Maria, esposa sem ruga Paulo: Ed. Loyola, 1982.
ou mancha de qualquer espécie...
Evangelium vitae – Encíclica de João Paulo II sobre o
valor e a inviolabilidade da vida humana – 1995
Maria, aquela que acolhe o Dom... http://www.vatican.va/edocs/POR0062/_INDEX.HTM

Rogai por nós, para que possamos WEIGEL, George. Testemunho de Esperança: a
biografia do Papa João Paulo II. Bertrand Editora,
também acolher o Dom, 2000.

Agora e na hora de nossa morte. “Sinal de Contradição” – Retiro quaresmal pregado


Amém. pelo Cardeal Karol Wojtyla à Cúria Romana em 1976

“Carta às Famílias” – Carta do Papa João Paulo II às


famílias – 1994
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/
documents/hf_jp-ii_let_02021994_families_po.html

Redemptoris missio – Encíclica de João Paulo II sobre


a validade permanente do mandato missionário – 1990
http://www.vatican.va/edocs/POR0071/_INDEX.HTM

Novo Millenio Ineunte – Carta Apostólica de João


Paulo II no termo do Grande Jubileu do ano 2000
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_l
etters/documents/hf_jp-ii_apl_20010106_novo-
millennio-ineunte_po.html

Orientale lumen – Carta Apostólica de João Paulo II no


centenário da Orientalium dignitas, do Papa Leão XIII
– 1995
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_l
etters/documents/hf_jp-ii_apl_02051995_orientale-
lumen_po.html

Fides et ratio – Encíclica de João Paulo II sobre as


relações entre fé e razão – 1998
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encycli
cals/documents/hf_jp-ii_enc_15101998_fides-et-
ratio_po.html

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© Texto elaborado pela equipe Teologia do Corpo - Brasil


exclusivamente para fins didáticos. As citações das
catequeses TdC seguem a numeração de Michael Waldstein
(ver quadro de referência em separado).