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AUTONOMIA DAS REGIÕES

E MUNICÍPIOS

FUNCHAL
30 de abril de 2015
Vasco Valdez
Instituto Superior de Contabilidade
e Administração de Lisboa
MVGA - Advogados
I. Considerações Gerais
2. O sistema de transferências:

- afetas: em princípio pode diminuir poder autonómico dos


municípios ou das Regiões Autónomas;

- o sistema de transferências não afetas: o município ou a Região são


livres de gastar as receitas de acordo com os seus próprios critérios e
os desígnios políticos dos seus eleitos;

- daí que o sistema que melhor salvaguarda a autonomia financeira


regional e local, no que respeita às transferências, é aquele em que
predominam estas últimas.
3. Vantagens das transferências:

- proveem de níveis supra estaduais;

- contribuem para a chamada finalidade redistributiva ou de


perequação;

- se forem não afetas, não oneram o poder autonómico regional ou


municipal, visto como autonomia de gasto.
4. Inconvenientes das transferências:

- desresponsabilizam os eleitos perante os eleitores, já que


transferem o ónus da discussão na obtenção da receita para o nível
do debate entre as Regiões ou os municípios e o Estado central, ao
contrário do que acontece com os impostos;

- ficam muito sujeitos à contingências próprias e às limitações


orçamentais dos Estados ao contrário dos impostos próprios;

- Podem depender das fórmulas de perequação, que eventualmente


não serão as mais adequadas.
5. Vantagens da tributação municipal e regional:

- reforça a componente autonómica dos municípios e Regiões;

- permite uma maior ligação entre eleitores e eleitos, sendo que cabe
a estes validarem nas eleições as opções tributárias dos políticos
(accountability).
6. Inconvenientes da tributação regional ou municipal:

- os impostos podem ser muito vulneráveis à conjuntura, pelo que se


sugere que os mesmos incidam sobre diversas formas de rendimento
ou património;

- podem ter limitações constitucionais decorrentes do princípio da


legalidade em matéria tributária, que diminuam a autonomia
municipal em matéria de impostos (os casos de Portugal e Espanha);

- são um fraco instrumento de perequação financeira: os impostos só


existem quando existe matéria tributável e riqueza.
II. A experiência portuguesa
1. A Constituição da República Portuguesa (CRP):

- existem três níveis de autarquias locais em Portugal: as freguesias,


os municípios e as regiões administrativas;

- destas três, as regiões administrativas nunca foram criadas (houve


um referendo nacional que terminou com uma votação negativa);

- os municípios, em número de 308, são de longe a mais importante


autarquia local, com uma longa tradição histórica em Portugal,
havendo mesmo municípios que antecederam a criação do Estado
português;

- as freguesias, em número de pouco mais de 3.000, são autarquias


com pouco relevo, em que a maior parte das funções que
desempenham são por delegação dos municípios.
Tipologia dos municípios em Portugal

Fonte: Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses 2013, p. 37.

Município pequeno: igual ou inferior a 20.000 habitantes (184 municípios)


Município médio: entre 20.000 e 100.000 habitantes (100 municípios)
Município grande: superior a 100.000 habitantes (24 municípios)
2. Autonomia financeira na CRP:

- a Constituição estabelece que as autarquias locais têm património e


finanças próprios;

- o regime das finanças locais consta da lei e visa a justa repartição


dos recursos públicos pelo Estado e pelas autarquias e a necessária
correção de desigualdades entre autarquias do mesmo grau;

- as receitas das autarquias incluem obrigatoriamente as provenientes


da gestão do seu património e as cobradas pela utilização dos seus
serviços;

- as autarquias locais podem dispor de poderes tributários nos termos


da lei.
3. A atual lei das finanças locais (Lei nº 73/2013 de 3 de setembro):

- depois do restabelecimento da democracia (25 de abril de 1974),


existiram diversas leis de finanças locais, a primeira das quais em
1979;

- a atual, que vigora desde 1 de janeiro deste ano, estabelece as


formas de financiamento local e os princípios orçamentais a que estão
sujeitas as autarquias.
4. Lei nº 73/2013 de 3 de setembro – autonomia financeira:

- as autarquias têm o poder de elaborar, aprovar e modificar o plano e


os orçamentos, gerir o património próprio, exercer os poderes
tributários que lhes estejam atribuídos, aceder ao crédito;

- também podem liquidar, arrecadar, cobrar as receitas que lhes sejam


destinadas; ordenar e processar as despesas legalmente autorizadas.
5. Lei nº 73/2013 de 3 de setembro – justa repartição de recursos
entre Estado e autarquias:

- este princípio visa o equilíbrio financeiro vertical e horizontal das


autarquias;

- o equilíbrio financeiro vertical visa adequar os recursos às respetivas


atribuições e competências;

- o equilíbrio financeiro horizontal pretende promover a correção de


desigualdades entre autarquias do mesmo grau, resultantes de
diferentes capacidades de arrecadação das receitas ou de diferentes
necessidades de despesa.
6. Lei nº 73/2013 de 3 de setembro – receitas municipais:

A) Tributárias:

- IMI;

- IMT;

- Derramas;

- Parcela do Imposto Único de Circulação;

- Encargos de Mais Valia;

- Taxas e Preços;

- Multas e Coimas.
7. Lei nº 73/2013 de 3 de setembro – receitas municipais:

B) Patrimoniais:

- Rendimentos de Bens Próprios;

- Participação nos lucros das sociedades em que o município


participe;

- Alienação de bens próprios, móveis ou imóveis,


8. Lei nº 73/2013 de 3 de setembro – receitas municipais:

C) Creditícias:

- Produto de empréstimos;

D) Outras Receitas:

- Participação nos recursos públicos;

- Outras receitas estabelecidas por lei ou regulamento.


9. Poderes tributários das Regiões Autónomas:

- Exercer poder tributário próprio, nos termos da lei, bem como


adaptar o sistema fiscal nacional às especificidades regionais, nos
termos de lei quadro da AR (artigo 227º, i) da CRP);

- Nos termos da lei quadro, presentemente, a Lei Orgânica 2/2013, de


2 de setembro, as RA têm direito à receita de impostos cobrados na
RA, designadamente o IRS, IRC, IVA, IEC, Imposto de jogo, Imposto de
selo e impostos extraordinários (artigos 22º a 32º da Lei);

- possibilidade da liquidação e cobrança pelos municípios dos


impostos próprios (artigo 61º);

- possibilidade de adaptar o sistema fiscal nacional às especificidades


das RA (redução até 20% das taxas nacionais de IRS, IRC, IVA e dos
10. Poderes tributários (cont):

- Poder de criar e regular as contribuições de melhoria e criar


adicionais (artigos 57º e 58º);

- Limitações significativas aos poderes de adaptação do sistema de


impostos nacionais à RA (artigo 57º, maxime nºs 1 e 2);

- Limitações existentes na RAM devido ao Programa de Assistência.

- 11. Outras receitas:

- Rendimentos de propriedade dos bens da RA, juros (artigo 33º);


multas e coimas (artigo 34º), taxas e preços públicos (artigo 35º);

- Empréstimos (artigos 37º a 45º);


12. Participação nos recursos públicos:

A) Transferências orçamentais (artigo 48º)

B) Fundo de coesão para as regiões ultraperiféricas (artigo 49º);

C) Comparticipação nacional em sistemas de incentivos (artigo 50º);

D) Projetos de interesse comum (artigo 51º);

E) Protocolos financeiros (artigo 52º)