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DIPLOMACIA 360º | HERA

DIREITO INTERNACIONAL

Prof. Guilherme Bystronski

03/02/2020

Aula 03

Direito Internacional Público (DIP) e Direito Internacional Privado (Lei de Introdução às


Normas do Direito Brasileiro).

Objetivo da Aula: Ressaltar as diferenças existentes entre o DI Público e o DI Privado. Apresentar


as principais características e conflitos disciplinados pelo DI Privado, com enfoque nas regras de
conexão encontradas atualmente na LINDB.

Pontos do edital abordados: 3

Leituras Obrigatórias
Celso – Capítulo II (parágrafo 14)
Guido – Não aborda
Accioly – Não aborda
Rezek – Não aborda

Leituras Avançadas
Dolinger – Capítulos I e X (recomendado)
Amaral Júnior – Parágrafo 1.4
Mazzuoli – Não aborda
Portela – Parágrafo 7 do Capítulo 1 da Parte I, e Capítulos I e II da Parte II

Direito Internacional Privado

Finalidade principal das normas de Direito Internacional Privado. As normas desse ramo do
direito se preocupam com equacionar controvérsias que envolvem interesses particulares
quando presente um elemento de estraneidade.

Elemento de estraneidade. Elemento estranho à legislação doméstica usada como referência


para a solução de um litígio. Havendo elemento de estraneidade, a situação que envolve o litígio
passa a ser considerada como sendo multiconectada.
Situação multiconectada. Situações ligadas simultaneamente a dois ou mais ordenamentos
jurídicos internos. Exemplo: um contrato que envolva Brasil, Argentina e Chile. Em uma tal
situação, o que se quer saber, na prática, é qual direito interno deve ser usado para dirimir o
conflito; é para isso que existem as normas de Direito Internacional Privado.
Elementos de estraneidade suscitam dúvidas tanto acerca da lei aplicável quanto acerca
também dos tribunais competentes para solucionar a controvérsia em questão.

Nesse contexto, as normas de Direito Internacional Privado procuram sempre encontrar o


centro de gravidade da relação jurídica; ou seja, qual é o direito interno, entre as possibilidades
existentes, que melhor regula a situação jurídica em questão. É nesse sentido que se fala em
centro de gravidade na relação jurídica.

Cuidado: se uma das partes na controvérsia for um ente público, se a controvérsia envolve
interesse público, então não será aplicado o DI Privado, será caso para a legislação doméstica
do país em questão.

Existem dois grandes conflitos que podem ser solucionados mediante recurso às normas de
Direito Internacional Privado, quais sejam:

1) Conflito de jurisdições. Significa determinar qual tribunal doméstico possui jurisdição


para resolver a querela (disputa). Havendo uma situação multiconectada, havendo um
elemento de estraneidade, qual tribunal doméstico pode primeiramente ser utilizado
para resolver a controvérsia em questão?

2) Conflito de leis. DI Privado aponta, entre os direitos domésticos envolvidos, qual poderá
ser utilizado. VIP à nunca se pode começar a trabalhar com DI Privado pelo conflito de
leis, e sim pelo de jurisdições. A ordem deve ser estritamente respeitada. Na prática:
quando surge um conflito de DI Privado, a 1ª coisa a ser feita é resolver o conflito de
jurisdições; apenas após resolver isso, deve-se passar à resolução do conflito de leis.

A maioria das normas que se encontram no contexto de DI Privado é produzida no âmbito


interno dos Estados – Direito Interno. Houve, nas últimas décadas (isso continua, não acabou),
um esforço de uniformização, em diversos países, de suas normas de DI Privado. Isso ocorre
mediante a celebração de tratados, os quais são exemplos de fonte do DI Público.

DI Privado Brasileiro

Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB)

Para nós, o que interessa é o DI Privado Brasileiro. É nesse contexto que o estudo de nossa lei
de introdução às normas do direito brasileiro faz sentido.
Surgindo uma situação multiconectada no Brasil, a primeira pergunta que precisa ser respondida
é a seguinte: um tribunal brasileiro pode julgar o litígio? No conflito de jurisdições,
originalmente, quando foi criada a LINDB, recorria-se ao seu art. 12. Hoje, essa discussão está
no atual Código de Processo Civil Brasileiro.

Exige o edital do CACD conhecimentos específicos de CPC? Não, exige conhecimentos de LINDB.
Mas vale a pena conhecer o que o CPC indica a respeito do tema.

arts. 21 a 25 do CPC [ver lei anexa ao final do documento]

à arts. 21 e 22 descrevem as hipóteses de jurisdição concorrente dos tribunais brasileiros. O


que significa isso? Aqui, o DI Privado brasileiro não é “fominha”, ele “passa a bola” para outros
DI Privados em matéria de jurisdição. Ou seja, o fato de os tribunais brasileiros possuírem
jurisdição não impede que tribunais estrangeiros também possam possuir jurisdição, de acordo
com seus próprios DI Privados. As partes não estão obrigadas a resolver a controvérsia no Brasil,
podem resolvê-la nos tribunais internos de outros países. No entanto, há hipóteses de jurisdição
exclusiva, aí o DI Privado brasileiro é “fominha”.

Exemplos (de situações no Brasil de jurisdição concorrente)

• art. 21, I. Se o réu tiver domicílio no Brasil, independentemente de sua nacionalidade.


• art. 21, II. Se a obrigação tiver que ser cumprida no Brasil e houver algum problema em
relação a ela, tribunais no Brasil podem julgar a controvérsia.
• art. 21, III. Se a obrigação decorre de ato praticado ou fato ocorrido no Brasil.
• art. 22, II. Se a situação envolve relações de consumo e o consumidor tiver domicílio ou
residência no Brasil, também nossos tribunais podem julgar a controvérsia em questão.

Nas hipóteses de jurisdição concorrente de nossos tribunais, nada impede que o processo seja
movido no estrangeiro. Estrangeiro não é sinônimo de internacional. Quando se fala em
estrangeiro, fala-se em algo interno a outro Estado que não seja o Brasil.

A pergunta aqui é: se uma ação idêntica for promovida aqui no Brasil e alhures
simultaneamente?

Dois processos idênticos no Brasil não podem ocorrer simultaneamente. Nossa legislação proíbe
a litispendência. Mas nosso CPC (Código de Processo Civil) permite, em casos de jurisdição
concorrente, a litispendência internacional. Isso significa que é possível mover ações idênticas
tanto no Brasil quanto no estrangeiro ao mesmo tempo, desde que os requisitos jurídicos para
a questão sejam preenchidos.

Se a sentença estrangeira transitar primeiramente em julgado, pode ser homologada junto ao


STJ no Brasil, se preencher os requisitos jurídicos para o caso em questão. Nesse sentido,
ocorrendo a homologação, é extinto o processo que corre no Brasil.
art. 23, CPC. Descreve as situações em que a jurisdição dos nossos tribunais é exclusiva. Nesses
casos, o Brasil é “fominha”. O Brasil afirma que o centro de gravidade da relação jurídica é o
território nacional. Se o processo tramitar em tribunais estrangeiros, jamais o Brasil aceitará
sentença estrangeira em tais hipóteses.

Exemplo: art. 23, II à abertura de testamento particular e o inventário e a partilha de bens que
se encontram no Brasil precisam tramitar perante tribunais brasileiros. Afirma-se: se os bens
estão no Brasil, há interesse direto de nosso ordenamento jurídico para que esses bens sejam
distribuídos por tribunais brasileiros, até porque se paga imposto causa mortis para isso. Se
houver bens no estrangeiro ao mesmo tempo, dois processos então são abertos: um no Brasil,
para os bens daqui; um no estrangeiro, para os bens do estrangeiro.

VIP à É muito importante que se leia a legislação mencionada na aula de hoje (arts. 21, 22 e 23,
CPC).

Uma vez resolvido o conflito de jurisdições e verificada a competência de tribunais brasileiros,


pode ser resolvido o conflito de leis no Brasil com base na LINDB.

É o DI Privado do país do tribunal que vai julgar a controvérsia, quando houver competência
para isso. Se for o tribunal brasileiro, por exemplo, ele usará as normas de DI Privado brasileiro.
Se for tribunal chileno, serão utilizadas normas de DI Privado chileno, e por aí vai, cada país
aplicando seu próprio DI Privado.

A LINDB contém, em seu art. 7º em diante, várias regras de conexão ou de sobredireito que
indicam a lei interna aplicável a cada situação.

Regra de conexão ou de sobredireito. Regra indireta/conflitual. Não resolve per se a


controvérsia jurídica; resolve apenas que lei deve ser aplicada no caso concreto – se a lei interna
brasileira (lex fori à lei do foro) ou a lei estrangeira (lex causae à lei estrangeira) –, para
solucionar a controvérsia.

Exemplos:

• art. 7º, caput, LINDB. Para controvérsias que envolvem capacidade civil, nome, início e
fim da personalidade jurídica e direito de família, a lei aplicável é a Lei do Domicílio.
• art. 8º. BENS. Se a situação envolve bens, deve-se levar em consideração a lei do local
onde o bem se encontra.
• art. 9º. CONTRATOS/OBRIGAÇÕES. A regra básica aqui é aplicação da lei do local do
contrato/obrigação. Para contratos à distância, art. 9º, parágrafo II: leva-se em
consideração a lei do local do proponente. Parágrafo 1º: se a obrigação decorrente do
contrato for executada no Brasil, deve ser aplicada a lei brasileira.
• art. 10º, caput. (VIP caiu no TPS 2019; do jeito que a prova pediu a temática de DI
Privado, tinha que decorar esses artigos, era decoreba; essa é uma das aulas mais
difíceis do semestre, trata-se de uma aula que, em faculdade, dura 1 semestre).
Retomando: art. 10º, CAPUT. INVENTÁRIO e PARTILHA. A lei a ser aplicada é a lei do
domicílio de quem faleceu, para questões de inventário e partilha.
• art. 10º, I. (também caiu no TPS 2019) Se o falecido tiver cônjuge ou herdeiros
brasileiros, aplica-se a lei brasileira sempre que ela for mais favorável.
• art. 11º. EMPRESAS. Para regular seu funcionamento, aplica-se a lei do local da sua
constituição, mas, no Brasil, uma empresa precisa também respeitar, em suas
atividades, a legislação brasileira.

DECRETO-LEI Nº 4.657, DE 4 DE SETEMBRO DE 1942.

Lei de Introdução às normas do Direito


Brasileiro.

[...]

Art. 7o A lei do país em que domiciliada a pessoa determina as regras sobre o começo e o fim da
personalidade, o nome, a capacidade e os direitos de família.

Art. 8o Para qualificar os bens e regular as relações a eles concernentes, aplicar-se-á a lei do país em
que estiverem situados.

§ 1o Aplicar-se-á a lei do país em que for domiciliado o proprietário, quanto aos bens moveis que ele
trouxer ou se destinarem a transporte para outros lugares.

§ 2o O penhor regula-se pela lei do domicílio que tiver a pessoa, em cuja posse se encontre a coisa
apenhada.

Art. 9o Para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se constituirem.

§ 1o Destinando-se a obrigação a ser executada no Brasil e dependendo de forma essencial, será esta
observada, admitidas as peculiaridades da lei estrangeira quanto aos requisitos extrínsecos do ato.

§ 2o A obrigação resultante do contrato reputa-se constituida no lugar em que residir o proponente.


ANEXOS
Art. 10. A sucessão por morte ou por ausência obedece à lei do país em que domiciliado o defunto ou
o desaparecido, qualquer que seja a natureza e a situação dos bens.

§ 1º A sucessão de bens de estrangeiros, situados no País, será regulada pela lei brasileira em
benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, ou de quem os represente, sempre que não lhes seja mais
favorável a lei pessoal do de cujus. (Redação dada pela Lei nº 9.047, de 1995)

§ 2o A lei do domicílio do herdeiro ou legatário regula a capacidade para suceder.

Art. 11. As organizações destinadas a fins de interesse coletivo, como as sociedades e as fundações,
obedecem à lei do Estado em que se constituirem.

§ 1o Não poderão, entretanto ter no Brasil filiais, agências ou estabelecimentos antes de serem os atos
constitutivos aprovados pelo Governo brasileiro, ficando sujeitas à lei brasileira.

§ 2o Os Governos estrangeiros, bem como as organizações de qualquer natureza, que eles tenham
constituido, dirijam ou hajam investido de funções públicas, não poderão adquirir no Brasil bens imóveis ou
susceptiveis de desapropriação.

§ 3o Os Governos estrangeiros podem adquirir a propriedade dos prédios necessários à sede dos
representantes diplomáticos ou dos agentes consulares.
ANEXO | CPC – arts. 21 a 25

TÍTULO II

DOS LIMITES DA JURISDIÇÃO NACIONAL E DA COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

CAPÍTULO I

DOS LIMITES DA JURISDIÇÃO NACIONAL

Art. 21. Compete à autoridade judiciária brasileira processar e julgar as ações em que:

I - o réu, qualquer que seja a sua nacionalidade, estiver domiciliado no Brasil;

II - no Brasil tiver de ser cumprida a obrigação;

III - o fundamento seja fato ocorrido ou ato praticado no Brasil.

Parágrafo único. Para o fim do disposto no inciso I, considera-se domiciliada no Brasil a pessoa jurídica
estrangeira que nele tiver agência, filial ou sucursal.

Art. 22. Compete, ainda, à autoridade judiciária brasileira processar e julgar as ações:

I - de alimentos, quando:

a) o credor tiver domicílio ou residência no Brasil;

b) o réu mantiver vínculos no Brasil, tais como posse ou propriedade de bens, recebimento de renda ou obtenção
de benefícios econômicos;

II - decorrentes de relações de consumo, quando o consumidor tiver domicílio ou residência no Brasil;

III - em que as partes, expressa ou tacitamente, se submeterem à jurisdição nacional.

Art. 23. Compete à autoridade judiciária brasileira, com exclusão de qualquer outra:

I - conhecer de ações relativas a imóveis situados no Brasil;

II - em matéria de sucessão hereditária, proceder à confirmação de testamento particular e ao inventário e à


partilha de bens situados no Brasil, ainda que o autor da herança seja de nacionalidade estrangeira ou tenha domicílio
fora do território nacional;

III - em divórcio, separação judicial ou dissolução de união estável, proceder à partilha de bens situados no Brasil,
ainda que o titular seja de nacionalidade estrangeira ou tenha domicílio fora do território nacional.

Art. 24. A ação proposta perante tribunal estrangeiro não induz litispendência e não obsta a que a autoridade
judiciária brasileira conheça da mesma causa e das que lhe são conexas, ressalvadas as disposições em contrário de
tratados internacionais e acordos bilaterais em vigor no Brasil.

Parágrafo único. A pendência de causa perante a jurisdição brasileira não impede a homologação de sentença
judicial estrangeira quando exigida para produzir efeitos no Brasil.

Art. 25. Não compete à autoridade judiciária brasileira o processamento e o julgamento da ação quando houver
cláusula de eleição de foro exclusivo estrangeiro em contrato internacional, arguida pelo réu na contestação.

§ 1º Não se aplica o disposto no caput às hipóteses de competência internacional exclusiva previstas neste
Capítulo.

§ 2º Aplica-se à hipótese do caput o art. 63, §§ 1º a 4º .