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QUE É OPINIÃO PÚBLICA?


Harwood L. Childs

Até agora já lhes formulei as seguintes proposições: 1) a expressão relações pública concerne
aos aspectos do nosso comportamento institucional e individual que tem conseqüências
sociais; 2) o problema fundamental de Relações Públicas é ajustar essas relações às atuais
tendências culturais, econômicas e políticas, de modo a promover o interesse público; 3) o
melhor modo de saber em que consiste o interesse público é descobrir o que a opinião pública
diz que ele é.

Desejo agora considerar a questão: "Que é a opinião pública?" parece ser evidente que a
opinião pública é o próprio âmago de nosso problema. Sabendo o que é a opinião pública,
estamos de posse de um critério para avaliar o estado de nossas Relações Públicas.

A origem da expressão "opinião pública" está envolta em mistério. Na literatura da Grécia e


Roma antigas, bem como ao longo da Idade Média, os filósofos tinham inteira consciência da
importância da opinião das massas. A frase "voz populi, vox Dei" data da última parte da Idade
Média. Foi só no século XVIII, entretanto, que se submeteu a expressão opinião pública a uma
análise e tratamento sistemáticos. Durante os séculos XVII e XVIII escritores como Voltaire,
Hobbes, Locke e Hume pagaram o seu tributo à força da opinião pública. Mas era esse o
período da Revolução Francesa e devemos voltar-nos mais particularmente para os escritos de
Rousseau para uma primeira e cuidados análise do assunto. Hobbes falou no mundo como
sendo governado pela opinião; Lock considerou a opinião como uma das três categorias do
direito; e Hume deu expressão à clássica afirmação de que "é somente na opinião que o
governo se fundamenta; e esta máxima estende-se aos governos mais despóticos e militaristas,
tanto quanto aos mais livres e populares". Blaise Pascal referiu-se à opinião pública como
"Rainha do Mundo", ao que Voltaire replicou: "se a opinião é Rainha do Mundo, os filósofos
governam a Rainha".

Rousseau, escrevendo no século XVIII, fez uma das mais claras análises do conceito de opinião
pública em sua época. Aplicou sua teoria da infalibilidade popular ao estado, proclamando que
"o desejo mais generalizado é também o mais justo". Este ponto de vista tem sido
freqüentemente repetido desde então. Rousseau acreditava que mesmo o despotismo se
apoia na opinião pública porque dizia ele, "o governo despótico é servil, mesmo quando
fundamentado na opinião; pois você depende do preconceito daqueles a quem você governa
pelo preconceito." Rousseau parece ter sido o primeiro a usar a expressão "l’opinion publique",
e são valiosas suas considerações sobre as relações entre a opinião e o direito. Afirmou que
"quem quer que se dedique à tarefa de legislar para um povo deve saber como manejar as
opiniões, e através delas governar as paixões dos homens."

Um dos primeiros a discutir a importância da opinião pública como fator político, um dos
primeiros que demonstraram sentir os problema de Relações Públicas inerentes à função
pública, foi Jacques Necker, ministro da fazenda da França. Sua experiência levou-o a salientar
as correlações existentes entre opinião pública e crédito público. Descobriu também que os
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salões da França desempenhavam um papel muito importante na formação da opinião pública


de sua época, e que as opiniões da burguesia tinham realmente influência decisiva. Necker foi
o autor da única análise pormenorizada do conceito de opinião pública na época da Revolução
Francesa, embora fazendo inúmeras referências a assuntos tratados nos artigos efêmeros da
época.

A Revolução Francesa, entretanto, estimulou a discussão do assunto da opinião pública em


uma escala até então sem competência das massas para governar. Na Alemanha a Revolução
inspirou o tratamento sistemático do assunto por Wieland Garve, Fries e Hegel. Dessas
discussões surgiram definições mais precisas dos termos, bem como tentativas de determinar
o correto papel da opinião pública nos negócios públicos. Garve, por exemplo, definiu a
opinião pública como "o acordo de muitos ou da maioria dos cidadãos de um país quanto aos
julgamentos a que chegou cada indivíduo de per si como resultado de sua própria reflexão ou
de seu conhecimento prático sobre um determinado assunto". Esta definição chegou a nós
praticamente intacta nos escritos de Lowell e outros cientistas políticos. A maioria dos
escritores alemães da época considerava que a competência da opinião pública para governar
estendia-se apenas aos princípios gerais. Hegel formulou a teoria, percursora do fascismo, de
que a opinião pública só devia ser respeitada quanto aos princípios essenciais nela contidos, e
que cabia ao dirigente descobrir quais esses princípios essenciais.

Jeremy Bentham foi o primeiro a tratar minuciosamente do assunto em inglês. Sublinhou a


importância da opinião pública como meio de controle social, discutiu sua relação com a
legislação e foi um dos primeiros a examinar o papel desempenhado pela imprensa na sua
formação. Afirmava que a opinião pública era necessariamente parte integrante de qualquer
teoria democrática do Estado. O problema fundamental da opinião pública, era a seu ver
"salientar a retidão das decisões por ela tomadas".

É, pois, evidente, que desde épocas remotas os estudiosos tem tido contato, com o assunto da
opinião pública. Muitos dos problemas que enfrentamos hoje, foram percebidos e
considerados, pelo menos, nos últimos anos do século XVIII e no início do século XIX. Não teria
utilidade enumeramos aqui as referências à opinião pública contidas no que se escreveu do
século XIX em diante. O número dessas referências é enorme. Deu-se muita atenção ao
problema da competência das massas de exprimir opiniões inteligentes sobre assuntos de
política nacional. A crescente importância da imprensa em sua relação com a formação da
opinião pública atraiu o interesse de muitos. Estudiosos de direito e jurisprudência, analisaram
cuidadosamente as relações entre a opinião pública, o direito e as instituições políticas.
Sociólogos e psicólogos prestaram cada vez mais atenção à questão de como realmente se
forma a opinião pública. Muitos outros salientaram o caráter emocional e irracional do
processo formativo da opinião pública.

Os escritos de A F BENTLEY, em 1908, inspiraram longa lista de estudos relativos à influência


dos grupos de pressão sobre a opinião pública. A Guerra Mundial e as obras de LASSWELL,
STERN-REUBARTH e outros chamaram a atenção para o papel da propaganda. A variedade de
estudos especializados de fatores particulares que influenciam a formação da opinião pública
só teve par na multiplicidade de fatores que podem ser estudados.
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Salientaram os sociólogos a importância da opinião pública como meio de controle social; os


psicólogos, o papel desempenhado por vários fatores hereditários e ambientais na formação
das opiniões individuais; estudiosos do direito, a influência da opinião pública sobre as
diretrizes governamentais; estudiosos da ciência política, sua influência sobre o governo, bem
como a influência das instituições governamentais, oficiais ou não, sobre ela.

A pesquisa e o estudo da opinião pública em nossos dias atravessam a ultrapassam as linhas


que tradicionalmente separam os departamentos das ciências sociais e podem ser encontradas
praticamente em todas as suas disciplinas. Estatísticos, psicólogos, jornalistas, publicitários e
pesquisadores de mercado prestam agora considerável atenção ao problema da determinação
do estado da opinião pública quanto a assuntos específicos. Vários tipos de amostragem e
aplicação de inquéritos estão sendo usados. Observações minuciosas e prudentes tem sido
complementadas por métodos precisos de tomada de opinião. Neste campo são dignas de
nota as atividades do Instituto Americano de Opinião Pública e da revista Fortune.

Estudos sobre atividades de grupos e pressão, sobre propaganda e sobre os instrumentos de


comunicação, bem como pesquisas psicológicas quanto à gênese das opiniões individuais, vão
esclarecendo cada vez mais o processo de formação da opinião. Em virtude de tantos fatores
diferentes influenciarem a opinião pública, este campo atrai um número desusadamente
grande de estudiosos.

A manipulação e o controle da opinião pública sempre interessaram a muita gente. Antes da


Grande Guerra, obteve-se considerável progresso na pesquisa publicitária e desde 1919 o
interesse pela manipulação da opinião pública ampliou-se, passando a compreender o estudo,
não só da propaganda comercial, mas também de qualquer outra espécie de propaganda.
Provavelmente nenhum aspecto desse assunto desperta mais interesse do que o problema de
como obter o apoio da opinião pública.

O advento das novas formas de autocracia deu origem a novas discussões sobre o correto
papel da opinião pública na vida do país. Formularam-se, cada vez mais, perguntas deste tipo:
a opinião pública, no sentido de opinião das massas, é um guia digno de ser seguido? Sobre
que assuntos se há algum, tem ela competência para exprimir uma opinião? Onde deve ser
traçado o limite entre os assuntos sobre os quais ela é e sobre os quais ela não é competente
para emitir um julgamento? Estas perguntas atingem as raízes da teoria da democracia. A
maioria dos defensores do sistema de visa democrático acentua a importância de uma opinião
pública informada e inteligente. A questão de como melhorar o papel da opinião pública nos
negócios públicos tem sido o ponto de partida de muitos estudos. Os educadores
particularmente, têm-se preocupado com o problema. Na mente de muitos, o problema
fundamental da opinião pública é um problema de educação.

Um dos aspectos mais perturbadores de todo o assunto da opinião pública é a crescente


intensidade dos conflitos de opinião; são as divergências cada vez maiores entre os grupos; é a
ausência de premissas e objetivos de aceitação geral. A guerra, seja ela entre povos, raças ou
classes, é um reflexo deste estado de opinião. O problema da redução das diferenças de
opinião entre as nações e entre as classes é, em grande parte, um problema psicológico, o da
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reconciliação e harmonização das diferenças de opinião. Para consegui-las, é necessário, antes


de tudo, descobrir por que os estados de opinião são o que são, quais as suas verdadeiras
causas. Algumas vezes essas causas são imaginárias, baseadas em concepções erradas e em
incompreensões. Quando quer que isso aconteça, as dificuldades podem ser aprimoramento
educacional dos grupos. Erguem-se, entretanto, muitas dificuldades e obstáculos no caminho
deste processo, e devem-se envidar todos os esforços para removê-los.

Muitas vezes as diferenças e entrechoques de opinião baseiam-se não em um mal-entendido,


mas em interesse e objetivos em conflito. Quantidade alguma de informação ou
esclarecimento puramente intelectual pode, sem auxílio, modificar o coração humano,
remover o egoísmo individual ou de grupo, reconciliar as divergências fundamentais na
apreciação filosófica da vida. É preciso um remédio mais forte. As vontades devem ser
modeladas como as mentes. Um egoísmo esclarecido pode, de fato, ser a pior espécie de
egoísmo, porque ele é o egoísmo posto em prática, como os recentes acontecimentos na
Europa e através do mundo estão demonstrando. Um dos problemas mais difíceis no campo
da opinião pública é reconciliar as vontades dos homens, bem como suas opiniões.

A expressão "opinião pública" tem sido empregada em muitos sentidos diferentes, em verdade
tantos, que alguns estudiosos ficaram em dúvida se seria aconselhável a sua utilização. Foram
feitas muitas tentativas para definir a expressão num sentido que pudesse ser aceito por todos.
Periodicamente aparece alguém que tenta reunir várias definições, classificando-as com o fito
de conciliar suas diferenças de significado. E acaba, inevitavelmente, por acrescentar mais uma
à já longa lista. VIRGINIA SEDMANN, por exemplo, depois de cuidadosa análise das definições
de vários autores concluiu que "opinião pública" é, para nós, uma força ativa ou latente,
derivada de um agregado de pensamentos, sentimentos e impressões pessoais, ponderados
pelos vários graus de influência ou agressividade das opiniões individuais dentro do todo."

FLOYD H. ALLPORT, no primeiro número de Public Opinion Quarterly também tentou trazer
ordem ao caos de conceitos, analisando a literatura especializada e localizando diversas
noções enganadoras que causavam os desentendimentos. Chamou a atenção, especificamente,
para as ilusões e soluções irrefletidas, tais como: 1) a personificação da opinião pública; 2) a
personificação do publico; 3) a ilusão do grupo; 4) a ilusão do uso parcial do termo público; 5)
o que ele chama ficção de uma entidade ideativa; 6) a teoria emergente; 7) a teoria eulogística;
8) a ilusão jornalística. E também acrescentou uma definição como contribuição: "A expressão
opinião pública recebe seu significado com referência à situação pluri-individual na qual os
indivíduos se expressam a si próprios, ou podem ser chamados a faze-lo, como favorecendo
(ou, pelo contrário, desfavorecendo e refutando) alguma situação, pessoa ou afirmação
definida de grande importância, em uma tal condição numérica, de intensidade ou de
constância que possa causar a probabilidade de uma ação que afete, direta ou indiretamente,
o objeto". Se isto é o que queremos dizer por opinião pública, é fácil compreender por que
razão os novatos sentem aversão pelo problema e o evitam.

A expressão "opinião pública" é, evidentemente, uma expressão geral e bastante lata, como
muitas outras expressões úteis do nosso idioma, tais como"partido político","tempo"
e"democracia". Só quando se refere a um público específico e a opiniões específicas sobre
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assuntos definidos é que ela adquire um significado no sentido de poder ser estudada. Neste
ponto, é semelhante à palavra "tempo", definida por um dicionário, no sentido que nos
interessa, como"um estado da atmosfera". Os estudiosos da metereologia não costumam
preocupar-se com o tempo em geral, mas sim com o estado da atmosfera em um determinado
período e num determinado lugar. Definida nestes termos, a palavra "tempo" torna-se
significativa e pode ser estudada. Da mesma forma, a expressão "opinião pública" deve ser
relacionada com um público específico e com opiniões definidas sobre alguma coisa. Então é
possível estudá-la, descobrir qual o seu estado, por que razão ela é o que é, que mudanças
tem ocorrido e continuam a ocorrer, e o que deve ser feito, se alguma coisa precisar ser feita.

É evidente que há muitas espécies de públicos. Em alguns casos, um público pode ser
considerado como um grupo de indivíduos com interesses comuns e, provavelmente, com uma
organização formal. Mas o público em que estamos interessados pode consistir numa coleção
de indivíduos bastante heterogênea e desorganizada, e sem quaisquer símbolos e atributos
identificadores. A utilização e definição da palavra "público" não implica na "seleção de um
atributo comum a um grupo e a sua aplicação como característica que dá a essa massa de
indivíduos uma individualidade distinta". Público é, simplesmente, qualquer coleção de
indivíduos. A falta de especificação da coleção de indivíduos que constituem o público a que os
referimos tem conduzido a infindáveis dificuldades.

O número de diferentes públicos em uma comunidade é, teoricamente, o número de possíveis


diferentes combinações de indivíduos nessa comunidade. Entre os públicos mais importantes,
via de regra, figuram os grupos organizados, tais como os cidadãos de um Estado e os
membros de partidos políticos, sindicatos, organizações comerciais, confrarias e associações
políticas e profissionais. Mas públicos são também grupos não organizados, tais como
multidões, fregueses, leitores de jornais e clientelas de diferentes tipos. Para fins de ilustração,
um público pode significar simplesmente um grupo formado por todas as pessoas que, em um
determinado dia, passam junto a uma certa caixa de correio. Além disso, os mesmos indivíduos
podem fazer parte, simultaneamente, de vários públicos. Isto quer dizer que eles podem, ao
mesmo tempo, fazer parte de uma torcida de futebol, da clientela de um médico, de uma
associação, de uma igreja e de um partido político. Estudiosos do assunto, bem como líderes e
manipuladores da opinião pública, mostram interesse por públicos diferentes e por diferentes
aspectos destes públicos.

Nada existe que possa ser chamado "o público", exceto num sentido, que é o de um grupo
particular de pessoas sobre as quais estamos falando. Como estudiosos de Relações Públicas
podemos e devemos, naturalmente, estar interessados em um grande número de diferentes
públicos, especialmente aqueles que tem e exercem influência sobre as diretrizes
governamentais. Neste aspecto, público importante é o conjunto de todos os possíveis
eleitores dos Estados Unidos. Este é, na verdade, um público muito importante, mas difícil de
lidar, em virtude do seu tamanho. Dentro deste público mais amplo há inúmeros públicos de
menor dimensão, mas que exercem considerável influência sobre aquele.

Afirma-se, freqüentemente, que para uma empresa comercial existem quatro públicos
principais com ela relacionados: 1) o grupo interno compreendendo a administração e os
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empregados; 2) os fregueses; 3) os acionistas, os competidores e o comércio em geral; 4) o


público em geral. Isto é uma superesquematização do panorama geral. Para analisar
satisfatoriamente o efeito do comportamento institucional sobre os empregados, por exemplo,
pode ser importante distinguir subpúblicos, tais, como os membros dos sindicatos e das
associações de empregados, e os não organizados; ou, utilizando outros critérios de
classificação, os diferentes grupos de idade, ou de salário, os casados e solteiros, e mesmo
aqueles que vão para o trabalho a pé, de automóvel ou em outra condução. Para qualquer
indivíduo ou instituição há sempre uma grande quantidade de públicos importantes.

Pergunta-se, com freqüência, se o significado da expressão "opinião pública" deve ou não


restringir-se a coleções de opiniões individuais que formam os grande públicos, as"massas". As
opiniões de grande número de indivíduos são geralmente mais interessantes e significativas
que as dos pequenos públicos. Mas nem sempre é assim. Nas democracias, a opinião daqueles
que constituem o eleitorado é indubitavelmente de grande importância. Na Itália, na
Alemanha, na Rússia e em outras autocracias, entretanto, a opinião de públicos pequeníssimos
compostos às vezes de dois ou três homens-chave, pode ter importância capital. Talvez a
palavra "opinião" possa ser definida como "a expressão verbal de uma atitude".

Há, naturalmente, muitas outras expressões de atitude, tais como o riso, o movimento da
cabeça e a expressão de um olhar. Pode-se perguntar se as opiniões expressas em palavras são
indicações exatas das atitudes, e a resposta tem de ser freqüentemente negativa. Mas aquilo
que uma atitude, mas também uma indicação do que se pode esperar que seja feito. Quer
essas expressões de atitude sejam exatas, quer sejam inexatas, elas são objetivas e tem
importância em si mesmas. São tão importantes que centenas de milhares de dólares são
gastos anualmente para descobrir o que elas são. As opiniões expressas nas urnas são fatores
determinantes da vida social e política.

Alguns exigirão uma definição de atitude, mas não precisamos buscar indefinidamente o
significado último das coisas.

Para os nossos fins, é bastante aceitar a definição de atitude dada por um psicólogo, que a
considera "a soma total das inclinações e sentimentos, dos preconceitos ou pendores, das
noções preconcebidas, idéias, receios e ameaças e convicções que um homem tem sobre
qualquer assunto específico. Em outras palavras é uma tendência para agir de um modo
particular, uma tendência que se libera cada vez que surge o estímulo adequado. Assim como
as atitudes são subjetivas, as opiniões são objetivas, e tomam a forma de palavras escritas ou
faladas.

O termo "atitude" como está sendo usado em discussões acadêmicas, apresenta algumas
dificuldades. Dizer que uma pessoa tem uma atitude favorável para com um determinado
assunto suscita a dúvida sobre se isso implica em algo mais que na afirmação de que ela é
favorável a esse assunto. Dizer que ela é favorável a esse assunto por ter uma atitude
favorável a ele, não nos conduz, realmente muito longe. Existe alguma coisa chamada atitude,
com individualidade, distinta e vida própria? Podem as atitudes ter algum sentido real,
enquanto não sabemos a que situações e a que objetos se aplicam? Talvez seja melhor
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considerar a palavra "atitude" como o termo usado para descrever uma série de respostas
típicas e habituais para com certos estímulos, em vez de considerá-la uma força preexistente e
determinante de certas expressões de opinião.

As opiniões diferem uma das outras em muitos aspectos, tais como conteúdo, forma em que
são expressam, qualidade estabilidade, intensidade, e maneira como se formam ou se
adquirem. Qualquer um destes aspectos, sozinho ou em conjunto, pode assumir importância,
dependendo do interesse do observador ou pesquisador. Uma cientista pode interessar-se
principalmente pela veracidade da opinião, ou pela maneira como ela se formou; um novelista,
pela forma com que ela se expressa. Um publicitário ou político pode prestar atenção,
principalmente, para os tipos de pessoas, que tem uma determinada opinião, para seu nível
econômico, sua posição social e sua influência.

É claro que uma opinião é sempre a opinião de uma pessoa, não de um grupo considerado
como tal. A opinião pública, refere-se sempre a um grupo de opiniões individuais, e não a uma
coletividade mística que paira no ar por sobre as nossas cabeças. Para descobrir qual é um
determinado estado da opinião pública, portanto, temos de colecionar opiniões de indivíduos.
Este ponto não mereceria destaque especial, a não ser por terem alguns escritores pensando
em termos de uma "mente de grupo", completamente separada e distinta das mentes das
pessoas tangíveis.

Por opinião pública considero, pois, simplesmente uma determinada coleção de opiniões
individuais. O estudo das opiniões da assistência a uma reunião é tão especificamente um
estudo de opinião pública quanto o das opiniões dos eleitores dos Estados Unidos. Estamos,
geralmente, interessados naquelas coleções de opiniões cuja influência sobre nossos negócios
é considerável.

Admito ser esta definição bastante ampla. Pode-se perguntar: que vantagem há em tentar
definir opinião pública com tanta latitude? Não há uma diferença de grau, que corresponde a
uma diferença de qualidade, entre as opiniões de um pequeno grupo e as dos grupos maiores?

Talvez a melhor maneira de responder a estas perguntas seja fazer outra. O que se ganha
definindo "tempo", como fazem os dicionários, simplesmente como um estado da atmosfera?
Não há uma diferença de grau, que corresponde a uma diferença de qualidade, entre o estado
da atmosfera em um salão de conferências e o seu estado em geral, através dos Estados
Unidos? Não penso assim, a menos que estejamos preparados para admitir que a palavra
"tempo" não se aplica a todos os estados da atmosfera.

A fonte de dificuldade parece ser esta. Estudiosos, de per si, buscam continuamente restringir
o significado da expressão "opinião pública" para designar coleções particulares de opiniões
individuais ou aspectos destas coleções, pelos quais ele se interessam. Mantendo o termo em
seu sentido amplo, proporciona-se um campo comum para aqueles que se interessam
realmente pelos mesmos problemas fundamentais, embora a primeira vista, suas atividades
possam parecer não ter correlação. O problema de centro de interesse varia conforme o
pesquisador. Seria um erro insistirem os estudiosos da opinião pública que os aspectos
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particulares, em que acontece estarem interessados, são os únicos importantes, e maior ainda
acharem que o próprio significado de opinião pública se limita ao seu campo de interesse.

A pesquisa social tem sido mais prejudicada do que auxiliada pelo esforço em dar aos
interesses individuais o prestígio adicional da exclusividade de definição. Que é ciência política?
Demasiado freqüentemente o seu âmbito, como um todo, fica aprisionado entre os muros do
interesse daquele que define o termo. O mesmo se aplica a expressões tais como "interesse
público", "democracia", "justiça" e muitos e muitos outros. O interesse público é, com
demasiada freqüência, definido em termos de interesse individual ou de grupo. Democracia
refere-se aquilo que gostaríamos que ela fosse. Cientistas sociais não têm mais razões para
definir opinião pública em termos de seus próprios interesses especiais, creio eu, do que o
autor de um dicionário teria para definir a palavra "cão" para demonstrar que o seu próprio
cão é o único exemplar que ele concebe.

Os estudiosos da opinião pública podem todos se encontrar em um terreno comum: o


interesse geral por coleções de opiniões individuais. Alguns focalizarão a atenção em algumas
coleções outros em outras. Uns estarão interessados nos assuntos sobre os quais versam as
opiniões, outros no grau de uniformidade existente, na maneira como as opiniões se formaram,
naqueles que as tem e na intensidade com que as tem. A multiplicidade das definições de
"opinião pública" deve-se, realmente, ao esforço dos estudiosos do assuntos para restringir o
significado do termo a algum aspecto da opinião pública no qual estão especialmente
interessado.

Opinião pública e Relações Públicas são expressões que tem em comum o seu sentido
bastante amplo e o fato de só se tornarem interessantes quando relacionadas com públicos
específicos. As discussões sobre opinião pública em geral e sobre Relações Públicas em geral
são prejudicadas porque há comparativamente pouca coisa convincente a ser dita sobe as
coleções de opiniões individuais em geral e sobre as relações entre todos os tipos de públicos.
Cada um de nós, todavia, está vitalmente interessado em certos públicos e em nossas relações
com públicos específicos. Como empregadores, desejamos conhecer tudo o que pudermos
sobre o público operário. Tenho lido muitos artigos e assistido a muitas conferências sobre
Relações Públicas nas quais está implícito o fato de que, para os homens de negócios, os
empregados são "o público". Na maioria dos casos, Relações Públicas significam relações no
trabalho.

Como professores, estamos especialmente interessados em nosso público estudantil. Como


norte-americanos, estamos interessados em atitudes e opiniões de outras nações a nosso
respeito. Os que me ouvem nesta sala são um público de tremenda importância para mim!
Mas como posso saber os públicos específicos por que se interessam todos os presentes, e se
há um denominador para este interesse? Haverá um público no qual estejam todos
interessados? Haverá um público cujas relações seja de importância capital para cada um de
vocês?

Se este auditório fosse formado apenas por empregadores, ou banqueiros, ou protestantes, ou


professores, a tarefa da análise da opinião pública seria mais fácil. Quais os atributos comuns
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deste grupo? Presumivelmente todos são cidadãos norte-americanos. Todos vivem na costa
ocidental dos Estados Unidos. É difícil ir mais além. Indubitavelmente há consideráveis
diferenças de gostos, hábitos, problemas, esperanças, posses, idades, antecedentes culturais e
muitas coisas mais. Certamente os públicos em que cada um de vocês está individualmente
interessado são muito diferentes.

Mas não haverá afirmações que possam ser feitas sobre opinião pública e Relações Públicas
em geral, que sejam aplicáveis independentemente desta falta de homogeneidade? Não
haverá certas considerações sobre opinião pública que tenham validade, independentemente
da composição específica das coleções particulares de indivíduos, considerações sobre
opiniões que todas as pessoas tem ou pelo menos todas as pessoas que temos probalidade de
encontrar, considerações relativas à maneira como se forma a opinião pública, `a influência de
fatores específicos e às técnicas que podem ser usadas para moldar as opiniões em geral? Em
outras palavras, não haverá certos princípios de opinião pública e Relações Públicas que se
apliquem em todas as circunstâncias?

A respostas é desapontadora. Todos os princípios são verdadeiros apenas sob determinadas


condições. Enquanto perduram as condições, os princípios são válidos. Mas as condições são
indispensáveis. Isto é o que torna o estudo da opinião pública e das Relações Públicas tão
difícil. As condições variam; os públicos são diferentes; as relações entre grupos estão em
constante transformação. As generalizações relativas ao comportamento humano e às
relações humanas são particularmente perigosas. Verificamos que as opiniões de um
determinado público variam. Por que razão? Até sabermos todas as condições que variaram ao
mesmo tempo em que a transformação da opinião, não estaremos capacitados a responder à
questão. Com demasiada freqüência somos enganados por miragens e coincidências fortuitas.
Sabemos, por exemplo, que nos anos de 1918-32 houve uma mudança fundamental nas
atitudes e opiniões dos norte-americanos com relação à proibição alcoólica. Simultaneamente
com esta mudança, descobrimos que muitos grupos estavam realizando uma vigorosa
campanha propagandística neste país. A relação existe, mas até que ponto foi uma relação
causal? Uma empresa adota um novo plano de relações com o empregado. Nota-se,
imediatamente, uma melhora nessas relações. Mas a extensão da relação causal permanece
desconhecida.

Embora seja impossível identificar os públicos em que este auditório está interessado e, por
conseguintes, relacionar a exposição com assuntos de maior importância para ele, há alguns
aspectos da opinião pública, algumas perguntas que são geralmente interessantes. Todos nós
queremos saber o grau de uniformidade da opinião nos assuntos que nos interessam. Numa
democracia, as ações e políticas das autoridades públicas presume-se que sejam o reflexo das
opiniões da maioria dos cidadãos. Isto, porém, nem sempre é verdadeiro, em parte pela
dificuldade em determinar com exatidão qual a opinião pública com relação a uma
determinada política ou candidato. Qualquer estado de opinião pública está em constante
transformação, e o mecanismo eleitoral só pode dar informação periódica e um tanto bruta
com respeito a essas mudanças. É, porém, importante descobrir na medida do possível, o grau
de uniformidade existente num dado tempo, pois os números eleitorais que revelam uma
opinião da maioria são geralmente influenciados.
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Pela importância que tem as coleções de opiniões individuais que revelam um grau substancial
de concordância, muitos estudiosos de ciência política e opinião pública preferem restringir o
significado da expressão, fazendo-a incluir apenas aquelas coleções de opinião que tem um
determinado grau de uniformidade. JAMES BRYCE, por exemplo, definiu opinião pública como
qualquer ponto de vista ou conjunto de pontos de vista "aceitos por uma aparente maioria dos
cidadãos".

E o professor DICEY expressou mais ou menos a mesma opinião, afirmando: Que a opinião
pública compreende "os desejos e idéias relativos à legislação que o povo da Inglaterra, ou,
mais precisamente, a maioria de seus cidadãos, expressa num determinado momento,
tomando parte efetiva na vida pública".

Embora principalmente interessados no grau de uniformidade, alguns autores restringem o


termo ainda mais, só considerando aquelas coleções de opiniões que revelam uma completa
ou substancial unanimidade. O professor GAULT compartilha desse ponto de vista quando
afiram: "Vai surgindo geralmente, como resultado de uma análise lenta, porém mais
espontânea do que deliberada, em certo entendimento sobre os interesses comuns e
fundamentais de parte de todos os membros do grupo. Isto se chama opinião pública". Da
mesma forma, o professor MAXEY interpreta a opinião pública como sendo "a chegada a um
comum acordo sobre uma determinada conclusão ou conjunto de conclusões". É
desnecessário dizer que esse comum acordo é raramente encontrado, especialmente no que
concerne a um público tão grande quanto o dos cidadãos ou do eleitorado dos Estados Unidos.
Nenhum dos resultados dos inquéritos de GALLUP, por exemplo, revelou 100% de
concordância quanto às perguntas feitas.

É claro que qualquer coleção dada de opiniões individuais relativas ao assunto considerado
pode revelar graus de unanimidade variáveis, desde a completa unanimidade até um
considerável grau de diversidade. O grau de unanimidade não é uma condição para existência
da opinião pública, mas um aspecto a ser pesquisado. Se um pesquisador parte à procura de
um estado de opinião pública que represente um determinado grau de concordância tal como
a completa unanimidade, ou o acordo da maioria, ou aspectos vagos, como "os aspectos
normativos da consciência coletiva", "expressões coletivas razoavelmente uniformes das
reações de comportamento mental ou interior", ou "reações mentais uniformes para com os
estímulos", então o centro de ação de sua pesquisa ficará restrita a um único aspecto da
opinião pública, e além disso a pesquisa será infrutífera.

O ponto que desejo salientar é apenas este: opinião pública é qualquer coleção de opiniões
individuais, independentemente do grau de concordância ou uniformidade. O grau de
uniformidade é um assunto a ser investigado, e não algo a ser fixado arbitrariamente, como
condição para a existência da opinião pública.

Embora a expressão opinião pública possa referir-se a qualquer coleção de opiniões individuais,
o fenômeno significativo de nossos tempos é, entretanto, a crescente importância dos grandes
públicos. Por motivos já enumerados anteriormente, a área dos contatos humanos e do
intercâmbio social tem-se expandido tremendamente. É por isso que as Relações Públicas se
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tornaram tão importantes. Nosso comportamento individual e institucional afeta públicos cada
vez maiores. Nossos problemas de Relações Públicas envolvem não só os nossos empregados,
acionistas e fregueses, mas estendem-se muito além, incluindo as massas. O sentido de
opinião pública não se restringe, necessariamente, aos públicos de massas, mas os públicos de
massas dão, realmente, uma nova dimensão ao nosso problema.

______________________
Publicação original: CHILDS, Harwood L. Que é opinião pública. In: _____. Relações
públicas, propaganda e opinião pública. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1967. p. 44-61.
Disponível em < http://www.portal-rp.com.br/bibliotecavirtual/opiniaopublica/0110.htm>