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Socialismo

e suas histórias peculiares


Experiências de um jovem brasileiro em Cuba

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Maikel Ramthun

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Copyright – Direitos autorais
Essa obra não deverá ser reproduzida ou comercializada, total ou
parcialmente sem a autorização do autor.

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Disclaimer

Antes que comece o mimimi, quero deixar claro que o objetivo desse livro
não é levantar bandeira política nem corroborar ou refutar fatos históricos.
Tampouco tenho como objetivo julgar ou incriminar quem quer que seja. Esta
obra não é um livro de história ou de geografia, sendo as datas e locais exatos
dos acontecimentos pouco importantes neste contexto.
Alguns avisos antes de começar: se você pretende ler este livro pensando em
discutir política, procure outra leitura. Aqui apenas conto algumas
experiências que vivi quando era um adolescente, e as faço de acordo ao meu
ponto de vista da época. Tentar argumentar e discutir ideologias e posições
políticas e partidárias contando “causos”, seria demasiadamente raso. Antes
que interpretem de forma errônea achando que estou sendo ingrato e que
estou cuspindo no prato que comi, deixo claro que ter vivido em Cuba foi
uma das experiências mais enriquecedoras e que me trouxe mais crescimento
em toda a minha vida. Faria tudo de novo.
Aos mais sensíveis, aviso que irei utilizar linguagem extremamente coloquial,
e por vezes chulas. Palavras de baixo calão estarão presentes, assim como
gírias. O objetivo de ter escrito dessa forma, foi incorporar o jovem imaturo
que eu era na época que esses relatos foram vividos. Caso você se incomode
com este tipo de linguajar, posso recomendar meu outro livro: O médico que
fingia ser fotógrafo. Neste eu utilizo um palavreado mais formal.
A primeira parte do livro pode ser um pouco maçante, mas foi necessária para
contextualizar minha ida para Cuba e como cheguei lá. Caso esteja entediado,
não desista da leitura, pule ao capítulo 2 onde começo a contar algumas
histórias. Penso que você irá gostar.
Por último, todas as histórias aqui contadas são reais e vividas por mim nos
cinco anos que morei em Cuba, porém, tomei a liberdade de modificar e
omitir alguns nomes, lugares e situações, já que a exposição exata dos eventos
e das pessoas poderia trazer um grande prejuízo a vários amigos.
Quem já viveu em Cuba, sabe do que estou falando. Segue o jogo.

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Sumário
Disclaimer
Propaganda
Mexendo os pauzinhos
Dá pra voltar
Me deixa ficar aqui
CAPITULO 2 – Histórias diversas
Cozinheiro fora da lei
Pessoas enjoadas para comer são suas melhores amigas
Salão de beleza caseiro
Os bagos de Fidel
Propaganda enganosa já de manhã
Os eufemismos
E-mail bisbilhotado
Velozes e furiosos
Puxando ferro (ou ferrugem)
Minha conversão
A Odebrecht é aqui
Jeitinho brasileiro... ou libanês
Alô, sou eu, tchau
Não vai ter golpe, mas teve
Pablo, o contrabandista
Os eventos de fachada
Amigo é amigo
Cliente inconveniente
O papelzinho
Deixa crescer!
Os leões em cima da carne
Saudade do Brasil?
Nossa vã filosofia
Corra Lola, corra!!
Medicina por amor
A advertência
Hans, o marido da mulher do Pepe
Dá-me uma televisão, e eu te levarei para onde queiras

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A lei foi feita pra se cumprir
Ronc Ronc
Verdades inconvenientes
Voldemort
Melhor matar do que discordar
Salvando vidas
Criatividade
Hello darkness my old friend
Paraíso proibido
Prisão ao ar livre
Complexo de inferioridade
Taxista amigo da família
Não força, vai
Unanimidade
É penta!!
As motos “doadas”
Instrumento de trabalho
Complemento de renda
Nem tudo era ruim
Considerações finais
Sobre o autor
Me segue lá

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Propaganda

Lá estava eu com dezoito anos recém completados, gol bolinha na garagem,


namorada gatinha, festa com os amigos todo final de semana. O que mais eu
poderia querer? Queria começar logo a faculdade de medicina. Acontece que
eu só fui decidir que queria fazer medicina lá nos 48 do segundo tempo. Aí
meu amigo, você pode ser o cara mais gênio do mundo, mas se não sentou a
bunda na cadeira e comeu os livros durante pelo menos um ano, não tem
chances de passar. E foi o que aconteceu no final do terceirão. Decidi tarde, e
tomei nabo nas provas de vestibular. Em alguns fiz média para passar nos
outros cursos. Grande porcaria, todo mundo que não passa em medicina fala a
mesma coisa: “ah, se fosse engenharia de não sei o que eu passava”.
Bom, desde moleque eu tinha o sonho de morar fora do Brasil. Como meus
pais não tinham grana para me bancar um intercâmbio, esse sonho ficou ali
guardado durante um bom tempo. Eis que quando eu ia começar o cursinho
pra valer, dessa vez sabendo o que queria da vida, surge uma reportagem no
globo repórter falando sobre a maravilhosa medicina de Cuba. Cara, que
negócio fenomenal. Um país daquele tamanho, oprimido pelos EUA,
conseguindo encontrar a cura de uma porrada de doenças fodas que
castigavam muita gente. Pensei comigo. Eu quero estudar nesse lugar.

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Mexendo os pauzinhos

Fui conversar com meu velho sobre esse sonho de estudar fora. Na real, só
comentei com ele sobre a reportagem que tinha visto na TV, mas na época
nem imaginava que estudantes estrangeiros podiam estudar lá. Aí sabe
aqueles negócios que parecem que eram pra ser? Aquelas paradas de destino,
sei lá. A filha de um amigo do meu pai já estava no segundo ano de medicina
em Cuba. Na hora implorei pra ele conversar com esse amigo e descobrir
como funcionava toda a burocracia para que eu também pudesse meter o pé
na estrada e vazar do Brasil.
Talvez você me pergunte: por que você resolveu largar uma vida mansa no
Brasil para ir embora para aquela porcaria de país? Bom, primeiramente,
como eu havia dito, era um sonho estudar fora. Segundo, na época do
cursinho, uns dois caras me procuraram na porta daquelas empresas que
organizam viagem para vestibular, me oferecendo vagas em diversas
universidades do país. Cheguei a conversar com um dos malucos, e ele tinha
um baita esquema. Um dos esquemas consistia em escutas eletrônicas
sofisticadas, (os dois filhos desse cara estudavam medicina e passaram no
vestibular desse jeitinho bacana), outro método era através de laranja, que
falsificava uma identidade e se passava por você para fazer a prova. Fiquei
com raiva de tudo aquilo e no final das contas falei que não tinha interesse.
Lembro até hoje de ter dito ao meu pai o seguinte: pai, se eu fizer um negócio
desses, nunca vou me sentir feliz, vou sempre ter a sensação de que sou uma
fraude.
Não tô contando isso pra que vocês pensem que eu era um bastião da ética.
No meio do livro eu até vou mostrar que já fiz um monte de cagadas. Mas
quando se tratava de estudo, eu era cabreiro até na hora de passar cola.
Por essas e outras resolvi que não queria mesmo saber de estudar um ano
inteiro para o vestibular, com aquela sensação de estar sendo trouxa e passado
para trás naqueles esquemas mirabolantes.
Para os burros que já devem estar de mimimi: eu sei que esses esquemas são a
minoria dos casos. Inclusive hoje sou professor de medicina de uma
universidade pública bem-conceituada, e conheço meus alunos e o tanto que
ralaram para passar na prova. Então, larga o mimimi e vamos que vamos.
Voltando ao assunto de mexer os pauzinhos para que eu fosse para Cuba, fui
atrás dos requisitos, curso de espanhol, papelada e todas as demais
burocracias. Tenho uma relativa facilidade para idiomas, aliás, acredito que
isso se deva ao fato de ser tagarela. Preciso falar rápido e falar muito sempre.
Fiz um intensivão no espanhol, fazia aulas duas vezes por dia, cinco dias por

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semana. Nesse meio tempo ia mexendo com a papelada (na época não existia
esse negócio que tem hoje em dia de precisar ser de algum movimento social
ou de algum partido de esquerda). Até que um dia chegou uma carta lá em
casa dizendo que eu havia sido aprovado e que começaria a estudar medicina
no tão sonhado país. Show de “buela”!

Dá pra voltar?

Chegou o dia de ir embora. Meu pai foi até Guarulhos comigo e confesso que
foi bem foda me despedir. O voo da Cubana de Aviación era famoso pelos
aviões velhos, pelo atendimento ruim, pelas comissárias de bordo mal-
educadas e por ostentar o título de segunda companhia aérea mais perigosa do
mundo. Que orgulho. Passei a viagem pensando que eu poderia entrar para a
história como um dos que participou da conquista do título de primeira
companhia aérea mais perigosa. É tetra!!!
Quando cheguei no aeroporto de Havana, o primeiro choque que tomei foi
com o calor infernal que fazia, a despeito do ar condicionado. O segundo
choque foi com o espanhol rápido e difícil de entender dos caras. Na minha
cabeça mandei meu professor de espanhol praquele lugar, já que aquele
dissimulado vivia me elogiando nas aulas, dizendo que meu espanhol era
fantástico.
Ao sair da zona de desembarque, fui abordado por uma penca de cubanos,
cada um me pedindo uma coisa, e outros me oferecendo transporte. Lembro
que um dos caras me pediu um sabonete. Nessa hora eu olhei para trás e tive
vontade de voltar correndo. O que não adiantaria já que os voos da Cubana de
Aviación para o Brasil só aconteciam uma vez por semana. Se um parente
fosse morrer no Brasil, você tinha que avisar o cara pra não fazer isso de
sábado a quarta. Já que só tinha voo de volta na sexta.
Bom, fui devidamente instruído a procurar uma cubana que era meio que
chefona dos estrangeiros que estudavam em Cuba. Seu nome era Carmen
Maria. Não foi muito difícil de encontrá-la, já que se destacava no aeroporto
uma senhora negra, acima do peso, com um batom vermelho bem forte,
rodeada de estrangeiros que lhe entregavam presentes. Desconfiei daquela
galera toda entregando mimos para ela, enquanto o idiota aqui estava de mãos
vazias. Foi ali que percebi que mesmo no país socialista, o esquema de
propina e agrados funciona de forma até mais forte do que no Brasil. Quando
me apresentei sem nenhum presente na mão, ela me olhou com uma cara feia,
procurou meu nome na lista e me deu uma má notícia: o carro que me levaria
para a cidade onde eu iria morar, já tinha saído. Beleza né? Eu lá naquele
calor dos infernos, sem conhecer ninguém, com uma porrada de gente me

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pedindo coisas, descubro que fui abandonado no aeroporto.
Bom, não podiam me deixar ali plantado, então me colocaram em um
“ônibus” e me mandaram para outro estado junto com uma galera de vários
países. Escrevi ônibus entre aspas porque o negócio era feio. Era um ônibus
velho, com um furo no piso que dava pra ver o asfalto, com bancos de
plástico e metal bem piores do que esses ônibus urbanos que temos nas
cidades brasileiras. Pior, o desgraçado não passava de 50km/h e estragou três
vezes durante a viagem. O trecho de 281 quilômetros que percorremos, durou
umas 10 horas.
Enquanto percorríamos a estrada, eu só via outdoors com propaganda
socialista enaltecendo os heróis nacionais e mato, muito mato. As poucas
construções avistadas estavam caindo aos pedaços. Era tudo tão diferente
daquela reportagem do globo repórter que eu só conseguia repetir uma frase
na minha cabeça: o que é que estou fazendo aqui.

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Me deixa ficar aqui

Cheguei na universidade, que não era aquela que eu iria ficar. Dividi o quarto
com dois caras. Um deles se chamava Adolfo, e foi com quem eu me
identifiquei logo de cara. O outro, se chamava Ricardo, era um caipirão
metido a besta daqueles que tem papai fazendeiro e adora meter uma marra.
Não preciso dizer que com ele eu não fiz muita questão de puxar assunto.
O quarto da universidade era parecido com uma cela de presídio. Tinha duas
camas beliches, um chuveiro (melhor dizendo, um cano na parede) e duas
paredes finas que te cobriam até o peito. Privacidade zero. Mas vou confessar
uma coisa, apesar de ser um quarto meio ruim, eu estava numa vibe
revolucionária e no fundo achava tudo maravilhoso. No outro dia conhecemos
um pouco da universidade, então fui falar com uma das chefonas para que
conversasse com a Carmen Maria pedindo uma autorização para poder ficar
por lá mesmo, já que eu havia me enturmado e havia gostado do lugar.
Lembra do único estrangeiro que não levou presente pra ela? Pois é, esse
imbecil sou eu. Óbvio que a Carmen, madrinha de todos os estrangeiros (que
pagavam “pedágio”) cagou para meu pedido, e naquela mesma manhã um
carro russo da década de 70 veio me pegar na faculdade. Lá vou eu para mais
uma viagem interminável.

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CAPITULO 2 – Histórias diversas

Depois de tanto blábláblá introdutório, afinal, eu precisava pelo menos dar


uma pincelada para explicar como fui parar lá, aqui começo com as histórias
que pude viver e presenciar durante os cinco anos que morei em Cuba.
Mais uma vez reforço que alguns nomes serão mudados, assim como os
lugares que ocorreram. Os dados políticos históricos e geográficos oficiais
vocês podem ler na Wikipédia ou em qualquer outro veículo de comunicação.
Aqui começarei a relatar as coisas engraçadas, tristes, vergonhosas e
peculiares que eu pude presenciar, e a narrativa baseia-se no meu ponto de
vista unicamente. Vamos comigo!

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Cozinheiro fora da lei

Quando eu vinha de férias para o Brasil, uma das coisas que eu fazia era
encher duas malas com comida para levar para Cuba. Lá a comida era escassa
mesmo para nós estrangeiros que pagávamos pela nossa estadia e
alimentação. Jantávamos lá por seis da tarde, que era o horário que
voltávamos do hospital ou da faculdade morrendo de fome, e lá pelas dez da
noite, enquanto estávamos estudando, o estômago reclamava. Aí você tinha
algumas opções: pegar a bicicleta e ir até um posto de gasolina, em uma loja
de conveniências, e pagar um valor absurdo em um pão borrachudo
esquentado no micro-ondas (só lembrando que na época essas lojas de
conveniência só vendiam a dólar americano, e nosso real não valia grande
coisa), ou você podia passar fome. O que eu fazia? Além de sonhar com a
maravilha da comida delivery existente nos melhores países capitalistas, eu
cozinhava um dos trocentos pacotes de miojo que eu levava na mala.
Tínhamos um daqueles “rabo quente” para ferver a água, e cozinhávamos no
chão do quarto mesmo. Esse tipo de dispositivo altamente tecnológico era
proibido em Cuba, já que a energia lá era racionada. Mas a fome me
transformou em um gângster, e eu cometia essa ilegalidade com muita
frequência.
Cuba me transformou em criminoso.

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Pessoas enjoadas para comer são suas melhores amigas

Saca só como funcionava o esquema de comida lá na casa dos estudantes


estrangeiros: de manhã, serviam um pão minúsculo (e ruim, nada nem perto
do pãozinho francês da potencia capitalista chamada Brasil), com um pouco
de manteiga, e uma xicara de café com leite. O leite utilizado nesse café, era
em pó. Só que eles diluíam muito pouco leite para um caminhão pipa de água.
Com o café era a mesma coisa. Então o que você tinha na verdade era quase
um “café homeopatia”. O bagulho vinha tão diluído que dava pra ver o fundo
da xícara. O café da manhã era esse e ponto final, não dava pra repetir o pão,
nem o café com leite. Dose única por pessoa.
Aí depois desse banquete, pegávamos a bicicleta e pedalávamos uns quatro
quilômetros até o hospital. Lá no hospital evoluíamos os pacientes,
passávamos visita com o professor, tudo normal como manda o figurino de
uma faculdade de medicina. Meio dia, pegávamos a bike outra vez, e
mandávamos mais quatro quilômetros até a casa dos estudantes estrangeiros
para almoçar. O nível de fome era do tipo “se mexer comigo te mato
esfaqueado”. Aí o almoço era mais ou menos assim: Um prato com feijão sem
tempero, arroz duro com pedaços de pedra, um ovo frito. Às vezes o ovo frito
era substituído por um pedaço de presunto. Ou às vezes por um pequeno
pedaço de frango. Cara, aquilo ali para um jovem de dezoito anos que já tinha
pedalado de manhã e já tinha trampado, era só um aperitivo. Saíamos da mesa
com fome. Depois do almoço o esquema se repetia: bike até o hospital, aula a
tarde toda, e às seis da tarde bike de novo até a casa para jantar. A janta?
Igualzinha o almoço. Não à toa no meu primeiro ano de faculdade eu voltei
para o brasil com 13 quilos a menos.
Conforme foi passando o tempo, eu descobri uma coisa importantíssima:
tinha umas gurias lá na casa que eram enjoadas para comer. Então o esquema
era simples, você sentava do lado delas e ficava igual um abutre. Assim que
elas davam umas garfadas na comida, e faziam cara feia, você tinha alguns
centésimos de segundo para perguntar: você não vai comer essa ervilha?
Bingo, era a forma de você ao menos ingerir um pouco mais de calorias. Eu já
tinha até minha fornecedora oficial de comida, uma menina gente finíssima (e
bem magrela) chamada Jane. Minha maior tristeza foi quando a Jane começou
a namorar um dos caras da casa, e aí a comida acabava indo pra ele. Quem
mandou eu ter sido lerdo. Se soubesse que meu esquema de comida iria
acabar de uma hora pra outra, eu tinha pedido ela em casamento já no
primeiro ano. Vacilei.

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Salão de beleza caseiro

Um belo dia eu estava chegando da faculdade um pouco mais cedo do que o


habitual, quando entro no meu quarto e vejo uma das funcionárias da casa dos
estudantes lavando o cabelo na minha pia.
Na hora ela ficou toda sem jeito, e me deu um migué dizendo que estava
lavando o cabelo ali, pois o administrador da casa não permitia que lavassem
o cabelo no banheiro dos funcionários.
Sorri pra ela, falei que não tinha problema nenhum, e que ela podia lavar o
cabelo lá numa boa. Inclusive saí do quarto para que ela ficasse à vontade.
Na minha ingenuidade eu não me toquei do que acabava de presenciar.
Um tempo depois percebi que meu xampu estava bastante “aguado”. Sacou
qual foi? Os coitados dos cubanos não tinham grana para comprar xampu, já
que só eram vendidos em dólar nas lojas. Um adendo: mas qual é a moral
dessas lojas vendendo tudo caro e em dólar, já que os cubanos não podiam
pagar pelos produtos? Bom, Cuba fica pertinho da Flórida, o que fez com que
milhares e milhares de cubanos se arriscassem nas águas perigosas e
infestadas de tubarões para morar em solo americano. Cada um desses
desertores visita a família regularmente, e traz o bolso recheado de dólares
para gastar com eles na ilha. Essas lojas funcionam mais ou menos como uma
forma de trazer dólares (dinheiro sujo ianque capitalista) de volta a Cuba
desses malditos traidores da revolução que foram embora do melhor país do
mundo. Bom, voltando ao assunto do xampu, a pobre funcionária que não
tinha condições de comprar seu próprio xampu, furtava o meu e lavava o
cabelo escondida. Triste, mas o sistema de lá acabou transformando grande
parte da população em contraventores. A única coisa que eu pude fazer depois
dessa, foi dar um xampu de presente para a mulher. Eu nem tinha muito
cabelo mesmo.

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Os bagos de Fidel

Essa para mim é uma das histórias mais icônicas que eu pude vivenciar lá em
Cuba. E olha que vi muita bizarrice por lá. Acontece que essa história que irei
contar, reflete mais ou menos a hipocrisia generalizada que assola o país.
Era uma tarde quente e ensolarada, e lá estávamos os alunos da faculdade em
um dos muitos eventos políticos que éramos obrigados a participar (contarei
mais sobre essa obrigação em outras histórias do livro). O mimimi era sempre
o mesmo. Povo metendo o pau nos Estados Unidos, exaltando a ilha
maravilhosa de Cuba, e falando sobre mil e uma teorias da conspiração, sobre
como Fidel escapava de todas as tentativas de assassinato, e como ele era
fodão.
Naquele dia, uma amiga da minha turma, que era uma menina sempre
envolvida com as coisas do partido e muito socialista e revolucionária, estava
com o microfone no alto do palanque discursando. Seu nome era desses
comuns entre os cubanos de sua idade, nomes começados com “Y”. Para
quem não conhece, fica a dica do blog “Generacion y” da escritora e
blogueira Yoani Sanchez. Voltando ao assunto, lá estava minha amiga “y”
proferindo um monte de baixarias contra os imperialistas estadunidenses, e
exaltando o homem da barba (e não era Papai Noel). Nunca esqueço da frase
que ela soltou aos berros, chamando os americanos pra porrada, que quase se
ouvia em Miami: “pueden venir, pues a nuestro comandante, le roncan los
cojones”. Pra quem não manja muito desse palavreado chulo, ela falou algo
que no Brasil significaria mais ou menos o seguinte: que os americanos
podiam cair pra dentro, porque nosso comandante Fidel era um cara macho
que botava o pinto na mesa. Aplausos se ouviram, gritaria. A menina era um
mito dentre os jovens comunistas de Cuba.
Tá bom, mas porque você disse que essa história era uma das mais icônicas?
Simples, porque hoje em dia essa minha amiga “Y”, mora em Miami com a
família. Se rendeu ao império maldito. Inclusive está no Facebook e adora
postar fotos dos filhos participando das tradições ianques como thanksgiving
e halloween.
Vejam, não estou recriminando a menina. Acho que a melhor coisa que ela
fez na vida foi ter caído fora daquele inferno cubano. O ponto onde quero
chegar aqui, é o da hipocrisia que a grande maioria vivia. Assim como ela,
conheci vários “comunistas” que fugiram de lá na primeira oportunidade.
Saíram debaixo dos cojones de Fidel e correram para as terras do tio Sam.

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Propaganda enganosa já de manhã

Durante a faculdade, ficamos conhecendo um tal de “matutino”, que


basicamente consistia em uma pequena reunião rápida com os alunos daquela
turma, para que um deles comentasse sobre as principais notícias do dia.
Então o negócio funcionava assim: chegávamos ao hospital, nos reuníamos
primeiro com o professor para lista de presença, organizar as tarefas do dia e
discutir inicialmente os casos da enfermaria, antes de irmos examinar, evoluir,
prescrever e fazer as discussões de caso à beira do leito. Assim que
terminávamos essa parte importante, vinha o lazarento do matutino. Ah, mas
por que você está falando mal de uma coisa boa? Afinal, informação é algo
importante. Então, tô falando mal porque aquela droga daquele matutino nada
mais era do que uma lavagem cerebral. Assim como o noticiário na TV
cubana parecia um passeio na Disney, já que tudo o que se falava era das
maravilhas do pais e de como o governo era foda, o matutino seguia a mesma
linha. Noticias distorcidas, falava-se mal dos EUA, e lambia-se as botas de
Fidel Castro.
Aquilo me irritava profundamente, já que eu conseguia acesso à um e-mail
diário com as principais manchetes da CNN, e via que aquela porcaria toda
era a maior balela. E olha que a CNN ainda tem uma fama de ser simpatizante
dos regimes de esquerda.
Bom, um dia foi a minha vez de dar as notícias, e eu fiz questão de mandar
umas três manchetes da CNN que não foram muito bem vistas pelos X9 da
turma (falarei sobre os X9 em outras histórias). Resultado? O X9 principal
encerrou o matutino abruptamente, ficou vermelho de raiva, e me proibiu de
participar novamente desse importantíssimo evento matinal.
Fiquei com raiva do cara, e tive vontade de sair na mão com ele. Mas no final
das contas, depois de muito tempo eu entendi que ele não fez aquilo por amor
à revolução, nem porque ele acreditava naquela baboseira, mas sim porque ele
se cagou nas calças de medo. Lá em Cuba, é melhor matar alguém do que
falar mal do governo. Aí se coloca no lugar do maluco que foi incumbido de
ser o x9 da turma. Chega um estrangeiro engraçadão e começa a cometer uma
das maiores atrocidades que poderiam ser cometidas lá naquele país: usar a
liberdade de expressão. O maluco vai deixar quieto? Claro que não, era o
pescoço dele e não o meu que tava em jogo.
Fiquei sabendo que esse cara também vazou de Cuba. E para minha surpresa
ele não foi para a Venezuela e nem para a Coreia do Norte. Quem diria.

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Os eufemismos

Cuba é um país de eufemismos. Lá palavras como ditadura, liberdade e


capitalismo têm significados bem diferentes do resto do mundo, e muitas
expressões são mudadas para formas mais agradáveis aos “ouvidos da
revolução”.
Uma das vezes que isso mais me deixou com embrulho no estômago, foi no
episódio dos cinco agentes de inteligência cubanos que estavam nos Estados
Unidos tentando se infiltrar em grupos anticastristas e foram descobertos.
Long story short, os caras estavam espionando lá no EUA a mando de Fidel
Castro, e quando foram pegos, os julgamentos acabaram sendo muito duros,
inclusive gerando críticas internacionais. A despeito de tudo isso, os caras
eram espiões e ponto final. Acontece que em Cuba, ficou proibido utilizar a
palavra espião para este caso. “Espia”, que é a palavra em espanhol para esta
situação, transformou-se em “los héroes prisioneros del império”. Só que
convenhamos, é bem mais fácil falar espião do que “os heróis prisioneiros do
império”. Eis que o idiota aqui, que não tem lobo frontal funcionante muitas
vezes, e que costuma perder o amigo mas não a piada, fala um dia na frente
dos X9 da sala: ah, vocês viram as notícias dos espiões... eh... quer dizer... dos
heróis prisioneiros do império ontem? Cara, bastou essa brincadeirinha
sossegada, que não fez mal a ninguém, pra merda tomar proporções maiores
do que eu imaginava.
Na hora eu nem percebi a baita da cagada que eu tinha feito, mas uns dias
depois, voltando pra casa de bicicleta, vejo no sentido contrário também em
sua bicicleta, um dos X9 do grupo (o mais bonzinho deles). O cara atravessou
a pista com a bike e me fez parar. Eu não entendi direito do que se tratava
aquilo, mas o que aconteceu em seguida foi um negócio surreal.
De forma rápida e discreta, ele chegou do meu lado, no meio do canteiro
central da rodovia onde ninguém podia ouvir o que estávamos conversando,
olhou para os dois lados rapidamente e me interrompeu enquanto eu o estava
cumprimentando: cara!!! Eu estou voltando agora de uma reunião na
faculdade que foi convocada para te deportar do país. Por causa do teu bom
histórico acadêmico, resolveram te dar mais uma chance, mas tá todo mundo
de olho. Veja bem, eu entendo tua frustração e vou te dizer uma coisa. Eu
também odeio esse país, e acho esse sistema uma merda, mas eu sei que a
única forma de sair daqui é ficando quieto e obedecendo. Então vou te pedir
uma coisa, CALA A PORRA DA TUA BOCA e para de falar bosta por aí, se
você quiser se formar médico!
Fiquei estarrecido, por dois motivos. Um pela rapidez com que eles
organizaram uma reunião para me banir, devido a uma simples brincadeira

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idiota, e o segundo motivo foi por ver mais um dos caras que eu jurava que
defendiam aquela hipocrisia toda, confessar na minha frente que odiava o
sistema e só se fazia de revolucionário para um dia fugir de lá.
A partir desse dia eu me transformei um pouco mais em cubano. Engoli
minha liberdade de expressão com farinha, e calei a minha boca.

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E-mail bisbilhotado

Logo que cheguei na ilha, uma das coisas que tentei desenrolar foi um e-mail
para falar com a minha família, já que as ligações telefônicas eram caríssimas,
não existia smartphone nem WhatsApp, e mesmo que existisse eu nunca teria
acesso já que em Cuba era proibido ao cidadão comum ter internet em casa.
Lógico que isso era uma coisa muito boa que o governo fazia pensando no
bem-estar de seus cidadãos, já que ao ter acesso a internet, estes poderiam
entrar em sites e veículos de notícias que mostrariam a desgraça do mundo
capitalista, e isso os deixaria triste. Melhor ficar com os dois canais de TV
estatais que passavam só contos de fadas no noticiário.
Bom, conseguimos um e-mail coletivo para todos os estudantes estrangeiros
que viviam lá na época. Para acessá-lo precisávamos pegar a bike e ir até um
tal centro de informações que era possivelmente o único lugar da cidade onde
havia internet. Para que vocês tenham uma ideia, nem na faculdade tínhamos
internet. Aliás, não existia nem máquina de xerox na faculdade. Mas isso é
história pra daqui a pouco.
Então íamos a esse centro de informações sempre que queríamos ver se algum
familiar havia mandado e-mail. Lá, você acessava aquela caixa de e-mail
coletiva, e pulava os que não eram pra você. Se quisesse podia até ler sobre as
juras de amor que seu colega tinha mandado para a namorada lá em outro
pais, mas não fazíamos isso.
Aliás, nós não fazíamos, mas o pessoal do centro de informações sim. Depois
de um tempo morando lá, fomos informados que todos os e-mails que
recebíamos eram lidos pelo pessoal, para ver se não havia nada suspeito ou
antirrevolucionário. Lá a coisa funcionava assim, onde quer que você fosse,
tinha alguém de olho. Hoje penso que deveria ter existido naquela época, uma
versão para e-mail do “gemidão do WhatsApp”. Pelo menos eu ia fazer
aqueles caras passarem vergonha.

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Velozes e furiosos

Teve uma vez que eu me senti meio rico lá na ilha. Foi quando minha tia e
minha irmã foram me visitar. Foi na semana de férias de janeiro. Aluguei um
Fiat Uno azul, mas sem escada no teto, afinal, não queria voar né. A estrada
que corta o país é bem grande, tem três pistas na maior parte do tempo,
segundo os cubanos foi construída dessa forma para que aviões possam
pousar em tempos de guerra. O negócio apesar de largo, é bem esburacado,
mas mesmo assim dava pra usar a potência daquela máquina chamada Uno
Mille.
Foi naquela viagem que eu virei fugitivo da polícia pela primeira vez (sim,
teve mais de uma, vai vendo que lá pra frente eu conto). Estava metendo o
pau no Uno, a uns 145km/h, quando passei por um policial. Só que o esquema
lá é diferente daqui. Os caras não tinham radar, não tinham uma forma de me
parar em um posto de polícia mais pra frente, e a moto que o cara tinha era
velha e possivelmente estava com pouca gasolina. Resultado? Os caras tentam
te parar no apito! Sim, o maluco fica lá escondido, quando você passa a 140
por hora ele fica soprando o apito achando que você vai parar, e voltar lá pra
tomar uma multa. Brother, naquela velocidade da luz que eu tava (entendam
minha empolgação, eu só andava de bike), a única coisa que eu via era o vulto
do policial e ouvia o apito perdendo força. Ali malandro, era pé na tábua e os
caras nunca mais me viam. Me senti um verdadeiro criminoso.
Agora, na real, tirando a parte de ser criminoso de lado, parar para um policial
cubano é ter a certeza do cara te esvaziar a carteira. Ele vai te botar um terror
danado, a hora que souber que é estrangeiro vai fazer de tudo para conseguir
alguns doletas. Até parece um outro lugar que eu conheço bem.

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Puxando ferro (ou ferrugem)

Teve uma época que eu decidi deixar de ser frango, e resolvi puxar ferro pra
ver se colocava um pouco de músculo na minha carcaça. Imaginem um cara
nada atlético, com um corpo ridículo, braços finos iguais dois canudos,
pancinha saliente e peitinhos de cadela prenha. Era eu.
Através dos meus contatos, conheci um dos caras que posteriormente se
tornaria um dos meus melhores amigos de toda a vida. Esse cara
empreendedor, tinha conseguido uns pedaços de ferro, algumas anilhas, e
acabou projetando e montando sua própria academia clandestina nos fundos
de casa. Era uma casa extremamente simples, onde viviam ele, a irmã e a
mãe. Os quartos eram divididos por folhas de compensado. Casa bem
pequena, mas tinha a vantagem de possuir um pátio nos fundos.
Bom, na academia, apelidada carinhosamente por nós de “No genetics Gym”,
já que a galera que treinava ali tinha uma péssima genética para fisiculturista,
tínhamos alguns aparelhos rudimentares transmissores de tétano, alguns
pesos, um chiqueiro com uma porquinha preta (sim, dividíamos espaço com
ela) que conseguia feder mais que a gente, e o mais legal é que não tínhamos
teto. Sim, treinávamos sob a luz do sol, ou sob a chuva dependendo do dia.
Pagávamos 2 dólares por mês para treinar lá.
Aquilo sim era dedicação: todo mundo com comida racionada, sem
suplementos, sem telhado na academia, sem espelho nas paredes pra ficar se
olhando, sentindo fedor de bosta de porco no ar. O dono da academia que
também fazia o papel de personal trainer, dizia na época que se o empresário
e fisiculturista Joe Weider nos visse treinando, possivelmente iria nos resgatar
de helicóptero pois ficaria impressionado com nossa garra.
Esse meu amigo, manjava tudo de treinos. Seu maior arrependimento na vida
foi o de ter amarelado quando tinham planejado fugir para os Estados Unidos
de balsa. Os amigos que foram, conseguiram atravessar o mar e chegar na
Flórida. E todos eles, até os de Q.I. menos avantajado, se deram bem por lá. O
que lhe consolava era que os amigos mandavam algumas revistas de
fisiculturismo para que ele pudesse ficar por dentro do esporte.
O grito de guerra mais pronunciado lá no ginásio era: “Vai!! Sem comida!!”
Tínhamos a capacidade de transformar a desgraça em piada e até mesmo
motivação.
Anos depois, já pude treinar em várias academias bacanas, cheias de
equipamentos sofisticados, e sem a Peppa Pig para dividir o espaço. Mas até
hoje nunca me senti tão bem e tão empolgado para treinar como naquele lugar
sem teto. Aqueles dois dólares mensais que eu pagava lá, foram muito bem

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gastos.

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Minha conversão

Lembro-me bem dos fatos que fizeram com que eu me convertesse. Não estou
falando de religião (apesar que para algumas pessoas, política é mais forte que
crença religiosa), Bom, deixa eu me explicar. Fui criado em uma educação de
esquerda. Não à toa escolhi morar em cuba. Nos dois primeiros anos eu era
socialista. Fã do Che Guevara. Amante da esquerda e a porra toda. Fazia parte
inclusive de uma brigada estrangeira que levava o nome do Che. Vai vendo.
O que acontece, é que os caras conseguem esconder bem durante um bom
tempo todo o lixo que rola por lá. Vejam, eu fui me decepcionar com o
socialismo e passar a não acreditar mais nele, no terceiro ano vivendo em
Cuba.
Entre as coisas que me fizeram sentir uma profunda decepção pelo sistema, e
que já descrevi em outras histórias desse livro, teve uma que foi talvez a gota
d’água, e vou tentar descrever.
No terceiro ano de faculdade, passamos todas as manhãs do ano na enfermaria
de medicina interna do hospital, cada um com seus pacientes. Precisávamos
chegar cedo, conversar com os pacientes que cada um tinha ficado
responsável, examinar, revisar a prescrição com o médico residente, escrever
no prontuário, checar os exames, etc. Quando era um paciente novo, era um
Deus nos acuda, pois tínhamos que tirar toda a história, e precisávamos
formular pelo menos uma hipótese diagnostica por escrito com no mínimo
três diagnósticos diferenciais, que tinham que ser detalhados também por
escrito. No meio da manhã, o professor chefe da enfermaria, passava visita e
discutia um a um dos casos na beira do leito do paciente. Foi naquele ano que
eu me inclinei para a área clínica, pois achava aquela arte de fazer diagnóstico
algo muito bacana. Todo esse blábláblá é apenas para apresentar a vocês a
minha colega de turma, Marcela (modifiquei o nome por motivos que já citei
anteriormente). Marcela era uma menina bonitinha, que me chamava a
atenção. Tinha uns traços meio árabes, e umas pernas fantásticas. Pronto, já
voltei ao foco do que estava escrevendo. Marcela era uma menina meio
negligente com a faculdade. Chegava atrasada na enfermaria, fingia que
estava trabalhando (essa era a parte que mais me irritava), correndo pra lá e
pra cá com uma pilha de prontuários debaixo do braço, e sempre na hora das
discussões à beira do leito ela não tinha feito nem metade do trabalho que
precisava. Ela era preguiçosa, só que sempre tinha uma desculpa pra tudo,
nunca assumia a culpa e nunca tentava melhorar. Dentre as minhas colegas
daquele ano, Marcela era a mais comunista e amante do regime, o que era
motivo de riso às vezes, até mesmo entre as amigas cubanas. Lembro da vez
que ela disse que Hugo Chávez era lindo, e uma das amigas falou: lindo? A

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não Marcela, não força a barra.
Lembro dela me falando uma vez de um evento das mulheres comunistas,
com aquelas frases clichês e batidas que a gente costumava ouvir na TV todos
os dias. E numa de nossas conversas, ela me contou que a mãe trabalhava
para o partido comunista (eu não lembro que cargo ela tinha na época). Até aí
beleza. Mas o que foi que a Marcela disse ou fez, que me levou a perder a
crença no socialismo? Bom, na verdade ela não fez nada, mas uma vez eu
precisei ir até sua casa para pegar um livro, e foi aí que eu me converti.
Vejam, eu costumava frequentar a casa de vários amigos cubanos, e o que eu
via, é que a maioria deles morava muito, muito mal. Salvo os que tinham
parente em Miami, ou os que viviam na ilegalidade, a maioria morava em
casebres e tinha uma TV de tubo em preto e branco. A mãe da Marcela não
tinha parente em Miami, mas ela “era do partido”. Cara, a casa da menina
dava de dez a zero em qualquer residência dos meus outros amigos. Geladeira
bacana, TV a cores, móveis legais, e pasmem, carro na garagem. Pode parecer
besteira, mas aquilo me pareceu tão hipócrita, que fiquei com nojo. As
mesmas pessoas que defendiam o comunismo com unhas e dentes, e que
falavam da igualdade, eram as que se beneficiavam por trabalhar para o
partido. E nesse embalo ia Marcela, cagando para a medicina, fazendo a
faculdade só por fazer, cada vez mais envolvida nas coisas do partido
comunista para poder mamar nas tetas do governo e tirar vantagem assim
como a mãe fazia. Uma irresponsável, preguiçosa, que não assumia a culpa
nunca e só tinha um objetivo na vida: continuar recebendo as benesses que
uma pequena elite recebia. Nesse ponto Cuba se parecia bastante à atual
bananolândia em que vivemos.
E esse foi o tiro de misericórdia no último suspiro que eu tinha de admiração
pelo socialismo.

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A Odebrecht é aqui

Com o passar dos anos, fui cada vez mais percebendo que as coisas em Cuba
só funcionavam na base da propina e da ilegalidade. Só que eu era um cara
turrão. No fundo, eu era sim um revolucionário, porque eu não conseguia
compactuar com aquilo e não conseguia ficar calado. Mas deixa eu confessar
um negócio, lá no meu último ano eu entrei no jogo.
Apesar de morarmos na mesma casa, alguns estudantes tinham privilégios que
eu não tinha. Travesseiro nos quartos (passei um ano sem travesseiro,
dormindo em uma blusa enrolada), chuveiro elétrico no banheiro (era
proibido em Cuba, mas os caras tinham) enquanto eu tinha só um cano na
parede que saía um fio de água gelada.
Esses caras que conseguiam as coisas, viviam “emprestando” grana para o
administrador da casa, traziam presentes de seus respectivos países, davam
garrafas de bebida para o cara.
Eu como me recusava a entrar nesse jogo, e era muito orgulhoso, só ficava me
fodendo e dando murro em ponta de faca.
Já no quinto ano que eu estava lá, desisti e resolvi me render ao esquema.
Trouxe alguns presentes para o chefe da casa quando voltei de férias do
Brasil. Tudo coisa simples, mas que já fez todo o jogo mudar. Em menos de
duas semanas depois de levar as propinas, digo, os presentes, eu consegui
chuveiro elétrico no quarto, consegui travesseiro, e algumas outras regalias.
Fora que o cara começou a me tratar super bem (antes ele só me olhava com
cara de bunda).
É duro admitir, mas aquele ano foi bem mais suave para mim. Aí você vê que
não importa qual sistema está implementado, o ser humano é um filho da
puta. A diferença é que uns são filhos da puta de direita e outros filhos da puta
de esquerda. No final todo esgoto vai pro mesmo ralo.

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Jeitinho brasileiro... ou libanês

Tinha uma época que entrar em Cuba virou um tormento lá no aeroporto. Os


caras estavam fazendo marcação cerrada em cima das malas que vinham de
fora, e confiscavam praticamente todos os aparelhos eletrônicos ou elétricos
que os turistas tentavam botar pra dentro. As questões aqui eram duas
principais: não deixar passar equipamentos que consumissem muita energia
elétrica, já que era uma coisa escassa e racionada lá no país, e também não
deixar passar aparelhos de DVD ou de vídeo cassete (sim, tinha disso ainda
na época). Motivo de confiscar os aparelhos de DVD juntamente com os
discos que eram trazidos de fora? Não permitir que a população tivesse acesso
a conteúdo antirrevolucionário. O governo sabia que ao restringir internet, e
ao ter apenas dois canais de TV estatais com toda a programação controlada,
era um pouco mais fácil enganar o povo e fazer lavagem cerebral para se
manter no poder. Se o cara tivesse um aparelho de DVD, poderia ter acesso
àquele conteúdo maldito do capitalismo opressor, e aí já viu né. Bom, lembra
que eu contei que trazia duas malas cheias de comida? Com trocentos pacotes
de miojo e tal? Pois é, minha mãe arrumava minha mala de um jeito que cabia
tipo um universo numa casca de noz. Até os pacotinhos de suco instantâneo
ela dobrava ao meio pra economizar espaço. A mala era praticamente uma
mina terrestre, uma vez que eu encostasse nela pra abrir, explodia aquela
porra toda de coisas lá de dentro, e nunca mais eu colocava de volta. Pois
bem, minha mala recebeu uma marcação na etiqueta para ser inspecionada.
Tudo isso graças a uma sanduicheira elétrica velha que eu estava trazendo.
Meu, eu tava realmente cagando praquela sanduicheira velha. Meu desespero
foi ter visto como os caras inspecionavam a mala da galera. Neguinho pegava
as coisas e ia jogando em cima do balcão, fuçavam até dentro dos sapatos,
iam fazendo aquela montanha de coisas e no final, você tinha que se virar pra
botar tudo de novo na mala e cair fora. Eu tava ferrado
Só que eu não contava com a astúcia de um carinha que morava lá na mesma
casa que eu. O bicho era brasileiro de família Libanesa, que conseguia dar nó
até em pingo d’água. O cara percebeu que conseguia sair do aeroporto só com
uma das malas sem a etiqueta marcada. Assim quando passava pelos guardas,
eles olhavam a etiqueta normal, e deixavam seguir. Acontece que não tinha
uma fiscalização rigorosa para quem voltava ao salão de desembarque. Então
esse cara bolou um esquema que para ele era óbvio, mas que para o burrão
aqui foi uma baita jogada de cinema. Ele saía com a mala de etiqueta sem
marcação. Lá fora deixava a mala com um amigo, arrancava essa etiqueta e
colocava no bolso. Uma vez de volta ao saguão, tirava a etiqueta marcada da
mala que seria inspecionada, e colava aquela limpa para passar com a mala

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suspeita livremente pelos guardas.
E assim dei meu jeitinho brasileiro, ou melhor, libanês, para entrar com a
sanduicheira velha no pais sem que revirassem todas as minhas coisas. Cuba
me transformava cada vez mais em criminoso.

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Alô, sou eu, tchau

Alguns itens básicos de consumo lá em Cuba tinham preços exorbitantes,


assim como alguns serviços. Some-se a isso o fato do preço ser em dólar, em
uma época que o real desvalorizou a ponto de um doleta chegar a custar 4
realitos. Um dos negócios que caia nessa categoria “valor de um rim”, eram
os cartões telefônicos para ligações internacionais. Tínhamos um de dez
dólares que te permitia falar durante a eternidade de dois minutos e quarenta
segundos com o Brasil. Além disso a ligação tinha um delay importante,
então você falava, a pessoa só ouvia depois de alguns segundos, ficava mudo,
e depois de mais uns segundos você ouvia a resposta.
Eu comprava um cartão desses de vez em quando para ligar pra namorada no
Brasil. Vocês devem imaginar que com dois minutos e uns quebrados, não
dava pra entrar em nenhum assunto mais aprofundado, então a ligação era
sempre aquele negócio esquisito: Oi, tudo bem, como está, tô com saudade, tô
aqui fazendo não sei o que, o cartão tá acabando, beijos, te amo, tchau.
Aí uma época lá, um brasileiro (tinha que ser né) descobriu que se você
solicitasse uma ligação internacional, de um telefone fixo a cobrar para um
celular pré-pago no Brasil, a ligação completava e nem você nem a pessoa do
outro lado pagavam a conta. Velho, o passatempo da galera na casa dos
estudantes era ficar falando no telefone o dia inteiro. Fazia fila no negócio. A
qualquer hora do dia que você passasse lá tinha alguém fazendo juras de amor
pra namorada ou pro namorado lá do outro lado do mundo. Teve um sem
noção uma vez que até ficou no telefone tocando violão para a namorada. Me
recuso a contar que esse sem noção fui eu.
Como alegria de pobre dura pouco, o pessoal da companhia telefônica cubana
descobriu o esquema e começaram a recusar as ligações para celulares pré-
pagos. Acabou a brincadeira, e todos voltamos a vender as córneas para poder
comprar um cartão e ter aquele papo cabeça de dois minutos de vez em
quando. Pelo menos até outro brasileiro descobrir um esquema alternativo.
Era só malandragem.

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Não vai ter golpe, mas teve

Falei de um monte de falcatruas que a galera aprontava lá né. Mas quando o


quesito era “dar o golpe” os cubanos também eram criativos. Lembram do
Uno Mille que eu aluguei? Pois é, eu paguei com dólares que havia comprado
no banco do brasil na época, tudo certinho como manda o figurino. Alguns
dias depois de ter devolvido o carro na locadora, dois funcionários de lá
aparecem no portão da casa dos estudantes querendo falar comigo. Um deles
tirou uma folha de papel do bolso, com uma fotocópia de uma nota de cem
dólares, e um carimbo meio migué escrito “falsa”. O cara com todo seu ar
teatral me disse que infelizmente uma das notas que eu havia usado pra pagar
o carro era falsificada, e que caso eu quisesse poderia resolver ali mesmo com
eles. Velho, até hoje não me conformo o quanto fui burro. Engoli a história
dos estelionatários, catei uma nota de cem conto no meu armário, e entreguei
na mão dos caras.
Quando contei pro meu velho sobre o ocorrido, ele falou inconformado: filho,
os caras te passaram a perna.
Mas nada como um dia após o outro né? Uns meses depois fiquei sabendo
que os mesmos caras foram presos em um esquema de estelionato e se
ferraram na cadeia. Mentira, nenhum dos dois se ferrou e cada um aproveitou
a grana que me roubaram. Só achei que os dois na cadeia, seria uma forma
mais legal de terminar essa história com uma baita lição. No fundo a única
lição que ficou, é que eu fui trouxa pra cacete.

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Pablo, o contrabandista

Não, não era o Pablo Escobar. Esse era um gordinho bochechudo com bigode
ruivo que parecia aqueles personagens de desenho animado. Conheci o Pablo
na igreja. Ele era alguma coisa importante lá dentro. Ministro, diácono ou sei
lá como chamava aquilo. No final da missa o cara veio lá puxar papo com a
gente (os cubanos adoravam fazer um networking com os estrangeiros), e
usando de todo aquele ambiente santo, o “irmão” Pablo me ofereceu seus
serviços. O gordinho vendia camarão e lagosta a preços bem acessíveis. A
primeira vez que fui em sua casa comprar a iguaria, estranhei toda a discrição
com a qual ele me atendeu. Inclusive estava preocupado para que os vizinhos
não sentissem cheiro de camarão. Lembro que ele disse sorrindo, daquele
jeito bonachão, para que eu não espalhasse que ele vendia frutos do mar.
Segundo ele, não queria ficar conhecido como “Pablo do camarão”.
Com um tempo morando lá em Cuba, descobri que boa parte dos cubanos
fazia a vida desviando comida dos hotéis. E era o que Pablo fazia. Ele retirava
o “dízimo” do hotel em camarões, e vendia para os estrangeiros.
Aqui eu me tornava um receptador de produtos roubados. Cuba me
transformou em um verdadeiro gângster. Mas o camarão ficou uma delícia.

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Os eventos de fachada
Uma das coisas que descobri sendo um “insider” lá no governo comunista,
foram os eventos de fachada. Tá ligado naqueles discursos de Fidel, que
reúnem caralhadas de milhares de pessoas em uma praça, e todo mundo vai lá
apoiar e balançar a bandeirinha? Tudo fake. Como assim? Na verdade, tinha
mesmo toda aquela galera lá balançando bandeiras, não eram efeitos especiais
de Hollywood. Mas o negócio é que todos que estavam lá, eram obrigados a
estar.
Lembro de uma vez que o próprio Fidel ia até a cidade onde eu morava dar
um discurso. Nas semanas antes do evento, todos os dias éramos lembrados
na faculdade, que tínhamos obrigação de ir. Até lista de chamada tinha, e
aquilo ali contava como atividade curricular obrigatória. Nas empresas era a
mesma coisa. Todos os funcionários eram obrigados a ir, sob pena de
represália e punição.
O esquema que se armava era um negócio gigantesco. Uma porrada de ônibus
e caminhões passava nas escolas, faculdades, empresas e bairros para pegar a
galera e levar para a praça. Vinha gente até das cidades vizinhas. Uma das
queixas dos cubanos na época, é que faltava combustível para alimentar a
rede elétrica e mesmo o transporte público e privado, em consequência disso
passávamos por apagões de 12 a 14 horas. Mas combustível para armar toda
aquela lambança não faltava. Era o governo socialista mais preocupado com a
sua propaganda do que com a população.
Uma coisa curiosa: todo mundo ganhava uma bandeirinha de cuba para ficar
balançando na praça, mas lembro de uma orientação que me deram, que eu
não devia balançar a bandeira de lado como é o normal de se fazer, e sim para
frente e para trás. Motivo? Segundo eles, balançar de lado poderia dar a
impressão de que eu estava fazendo sinal de “negativo” para o discurso do
homem da barba. Balançar de frente por outro lado, dava uma impressão de
que eu estava concordando. Tá bom de lavagem cerebral pra você ou quer
mais?

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Amigo é amigo

Uma coisa muito bacana de Cuba, é que eu fiz alguns dos melhores amigos da
minha vida por lá. Obviamente com toda a escassez que havia, você tinha que
diferenciar quem queria ser seu amigo de verdade, e quem só queria se
aproveitar da sua situação de estrangeiro para descolar algum benefício.
Dentre os bons amigos que fiz posso citar alguns: Evelio, Michel, Salinas,
Abraham, Coello.
Abraham, ou Abe como costumávamos chamá-lo, era um cara peculiar.
Inteligentíssimo, introvertido, de poucas palavras, mas quando abria a boca
pra falar era algo sempre extremamente válido. Coisa pra se anotar
Lembro de um episódio que passamos juntos e que ficou marcado em minha
vida. Eu estava atrás de uns livros com o conteúdo programático da
faculdade. Só que esses livros eram tipo cabeça de bacalhau. Ninguém nunca
viu. Na verdade, eu já tinha conseguido alguns, e precisava de mais dois
ainda. Pegamos nossas bikes e saímos bater nas casas dos professores
tentando encontrar os benditos livros que faltavam. Em cada porta que
batíamos, recebíamos a informação de que poderíamos encontrar os livros
com fulano, ou no lugar tal. Virou quase que uma caça ao tesouro, e
percorremos a cidade inteira de bicicleta naquele dia. Abe que não tinha
obrigação nenhuma de me ajudar com aquilo, fez questão de me acompanhar.
Um dos últimos destinos que nos encaminharam, foi para uma livraria pública
em um recanto da cidade, só que para nosso azar (ou melhor, para meu azar),
ela estava fechada. Subimos na janela para bisbilhotar lá dentro, e para minha
surpresa, lá no fundo das prateleiras, estavam os livros. Só tinha um pequeno
porém: eu não sabia se lá no meio deles realmente estavam aqueles que eu
precisava, já que pela distância, apenas conseguia reconhecer a capa, mas era
impossível identificar quais volumes estavam lá.
Eu já estava desanimado e me programando para voltar outro dia até lá,
quando a livraria estivesse aberta. Mas Abe não era um cara que desistia fácil,
e teve uma ideia genial. Fomos até sua casa, catamos um par de binóculos
velhos que ele tinha guardado, e voltamos até a livraria.
Lá da janela, como se fossemos dois malucos, ficamos olhando de binóculos
para dentro da livraria para tentar ler e identificar se entre aqueles livros que
estavam expostos lá no fundo, encontravam-se os que eu tanto almejava.
Infelizmente não estavam lá.
Mandei um e-mail para meu velho dizendo que não tinha conseguido os livros
(era ele quem estava me cobrando aquele material), e acabei levando uma
baita de uma bronca. Meio triste e desolado, me sobrou apenas ficar

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conformado com toda aquela situação e agradecer ao Abe por ter me
acompanhado.
Com todo o cansaço, ele ainda foi capaz de proferir algumas palavras e
conselhos para me encher de ânimo, e fez questão de dizer que havia curtido
nossa aventura.
No final do dia nos despedimos, e ele foi de volta para sua casa levando os
binóculos. Até hoje considero o cara um dos meus maiores Brothers. Afinal,
amigo é amigo.

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Cliente inconveniente

Se tem uma coisa que o socialismo sabe fazer como ninguém, é acabar com a
cultura de satisfação do cliente e bom atendimento. Era incrível como lá em
Cuba, mesmo nas lojas em que se comprava em dólar, e mesmo você sendo
estrangeiro, o tratamento era semelhante ao das repartições públicas
brasileiras daquelas onde o cara tá lá batendo ponto há 30 anos sem ter tesão
nenhum pelo trabalho. Parecia que estavam fazendo um favor em te atender.
Lembro de uma vez que fomos a uma lanchonete, que era péssima e só servia
porcaria, mas que era o que tinha de melhor por lá, chamada “el rápido”. Não
preciso dizer que o nome não fazia jus ao atendimento. Meu amigo chegou no
balcão e pediu alguma coisa que eu não lembro, e em seguida pediu um
chocolate que estava a uns dois passos de onde estava a moça que atendia. Ela
entregou a comida para ele, e então chegou a minha vez na fila. Eu falei que
queria um chocolate também. O que se passou aí foi algo surreal. Cheguei a
pensar que estava sendo filmado e tratava-se de alguma pegadinha. A moça
do balcão gritou comigo me dando a maior bronca: se você viu que teu amigo
pediu um chocolate, por que não mandou eu pegar dois de uma vez? Vai me
fazer ir até lá pegar outro!! Sério, esse “ir até lá”, era os dois passos que ela
precisava dar para alcançar o outro chocolate. Eu fechei a cara e avisei que
neste caso não iria querer nada.
A moça até se sentiu mal e acabou tentando remediar a situação, mas fui
irredutível e não comprei nada.
No final das contas mantive o orgulho intacto, e também a fome, já que fiquei
sem comer. Como eu era burro.

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O papelzinho

Certa vez, fomos a um restaurante chinês. Assim, lá em Cuba tinham alguns


estabelecimentos estatais que vendiam coisas na moeda local, mas que na
maior parte do tempo estavam fechados por escassez de produtos. Quando por
algum milagre do universo eles abriam, a galera ia em peso lá e em poucos
dias acabava tudo. Aí era mais alguns meses fechado.
Bom, o restaurante chinês abriu. Não que tivesse grande coisa, mas pelo
menos dava pra comer algo diferente. Fomos em seis amigos, e quem nos
atendeu foi uma tiazinha com uma baita cara de ódio. Você podia sentir o
quanto ela estava puta da vida por ter que trabalhar, já que possivelmente nas
últimas semanas como não havia comida no restaurante, ela pode ficar de boa.
Bom, ela chegou com uma caneta e um pedacinho de papel e anotou nossos
pedidos ali. Esse papelzinho cabia na palma da mão dela. Todos nós pedimos
suco de laranja, e assim que tomei meu primeiro copo de suco, chamei a tia
para pedir mais um. Quando ela começou a anotar meu pedido naquele papel,
outro amigo pediu um repeteco do suco, e já na sequência um terceiro amigo
também disse que queria mais um. Nessa hora a tiazinha parou de escrever e
deu uma baita bronca na gente: vocês ficam pedindo muita coisa e agora não
cabe no papel! Não vou trazer nada! Cara, juro pra vocês. A tia simplesmente
virou as costas e deixou todo mundo sem suco.
Acabamos rindo da situação e fomos comer no outro restaurante concorrente
da esquina. Lógico que não né, lá não existia outro restaurante, nem
concorrência, nem papelzinho extra. Saímos de lá com sede.

Deixa crescer!

A primeira vez que fui cortar o cabelo em Cuba foi um desastre. Não há
explicação para tamanha falta de senso estético daquele barbeiro. Parecia que
ele tinha sido contratado como responsável pelo meu trote de vestibular.
Passado esse episódio fatídico, conheci um carinha que mandava muito bem
na tesoura. O salão dele era repleto de caras do gueto, que falavam um
espanhol praticamente ininteligível e que gostavam de desenhar o símbolo da
Nike no cabelo. Lembro que só comecei a entender de verdade as conversas
daqueles malucos depois de mais de um ano morando lá.
Certa vez eu estava na capital, e resolvi que iria cortar o cabelo em um lugar
mais foda. Tinha um hotel chique lá, e eu decidi morrer em uma grana mais
alta para que um dos profissionais do local desse um trato na minha juba.

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Vale lembrar que na época eu tinha mais cabelo e deixava ele mais comprido.
Quando sentei na cadeira do cara, ele olhou meu cabelo, olhou de novo,
analisou, e me disse: por que você não deixa crescer mais? Falei que não
queria, que preferia cortar mais curto. Pois o cara sem a mínima vontade de
trabalhar, deu duas tesouradas no meu cabelo, cortando um milímetro da
ponta dele, olhou pra mim e disse: pronto!
Foi o corte de cabelo mais rápido e mais caro da minha vida. Precisei chegar
em casa e aparar mais umas pontas sozinho com uma tesoura dessas de cortar
papel.
Reclamar? Não. Em Cuba o cliente nunca tem razão.

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Os leões em cima da carne

Logo que cheguei em Cuba, o pessoal de lá me contou que era proibido matar
vacas no país. A justificativa? O leite era muito mais importante do que a
carne. Sendo assim, raramente comíamos carne bovina, e quando comíamos,
era tão dura que certamente não tinham mesmo matado a vaca, ela
provavelmente havia morrido de velha. Uma vez um cubano chegou a me
dizer que se você atropelasse uma vaca, pegaria mais anos de cadeia do que se
atropelasse uma pessoa. Cuba parecia a índia. Lá as vacas eram sagradas.
Mas de vez em quando descolávamos uma carninha, e em raríssimas ocasiões
fizemos algo que lembrava vagamente um churrasco brasileiro.
Cara, lembro que a fome era tanta, que ficávamos como leões em cima da
carne, esperando assar, e assim que ela era tirada da grelha e ia para a mesa,
queimávamos a ponta dos dedos, a boca e o esôfago, já que se você esperasse
esfriar, comia menos. Parecia que havíamos saído da cadeia, ou que tínhamos
ficado em uma ilha deserta sem carne por muito tempo. Quer dizer, essa
última parte, tirando o “deserta”, era verdade.
Uma vez estávamos lá curtindo um desses churrasquinhos, quando um
estudante maconheiro meio maluco que estava começando o primeiro
semestre chegou bêbado onde estávamos. O cara era tão pirado, que a
impressão que eu tinha era de que os pais tinham mandado ele embora do
Brasil para ter uma folga. Bom, voltando ao assunto, o maluco apareceu lá no
churrasco bêbado, viu que o negócio já tinha começado, e não sei porque
cargas d’água se sentiu ofendido, pois não havíamos esperado ele. Velho, o
cara sabia o horário que o negócio ia começar, e foi o único que atrasou.
Além disso, ainda tinha comida o suficiente para que ele pudesse aproveitar.
Mas ele não quis aproveitar, sabe o que ele fez? Virou a mesa de carne no
chão. Existem algumas coisas que você não pode fazer na vida. Por exemplo:
mexer com a namorada do chefe do morro, enfiar o dedo na tomada, pular do
avião sem paraquedas, e, jogar no chão a comida de um grupo de caras
esfomeados.
Nosso amigo mais gordinho tomou aquilo como uma ofensa pessoal, e deu
uma surra no cara, que saiu de lá esbravejando e com o nariz sangrando. Nós
nessa situação fizemos o que era mais prudente, e o que qualquer pessoa faria:
juntamos a carne do chão, demos uma limpada na bermuda, e comemos.
Assim agem os leões.

Saudade do Brasil?

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Uma coisa que notei nos meus anos morando em Cuba, é que o nepotismo é
disseminado. Nas casas de estudante que eu morei e conheci, os funcionários
eram sempre parentes de alguém importante do partido ou da universidade.
Na primeira casa, o administrador era marido da reitora, a cozinheira era
cunhada dela, o motorista era irmão de uma das chefonas lá da faculdade, e
assim caminhava o esquema. Certa vez, numa das inúmeras vezes em que
faltou água no meu quarto, eu saí cedinho, umas 6 da manhã, para escovar os
dentes na pia lá de fora. Quando eu estava escovando os dentes, olhei pelo
canto da parede da casa e enxerguei o administrador enchendo de carne o
porta malas do carro do motorista (aquele que era irmão da chefona da
faculdade). Mas enchendo mesmo! Lembra que eu comentei sobre a escassez
de alimentos na casa dos estudantes, e de como nos serviam mínimas porções
de comida? Ali eu enxergava um dos motivos disso acontecer.
Mas é lógico que eles não estavam roubando né, afinal, ali era todo mundo
socialista. Provavelmente eles só iam levar aquela carne toda para distribuir
entre os mais pobres. Se bem que me disseram que em cuba não tem pobre.
Então pode ser que eu tenha apenas delirado. Sabe como é né, muito estudo
faz a gente ver coisas.

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Nossa vã filosofia
Uma das matérias que tínhamos nos primeiros anos de faculdade, era
filosofia. Na época, eu ainda era um ferrenho defensor do sistema socialista e
acreditava em tudo aquilo. As aulas eram basicamente um ensaio para lavar o
cérebro da moçada e fazer com que eles defendessem e acatassem todas as
decisões do governo. Aprendíamos que a criança na barriga da mãe ainda não
era um ser humano pois não havia iniciado seu processo de socialização (para
justificar o aborto livre e indiscriminado em Cuba). Aprendíamos que era sim
possível chegar a um socialismo utópico, onde tudo era de todos, e todos
éramos iguais. Aprendíamos que Cuba era o melhor lugar do mundo para se
viver, e que o império ianque era uma droga.
Sinceramente, apesar de ainda ser socialista nessa época, achava aquelas aulas
um tanto quanto maçantes, e não concordava com tudo o que a professora
dizia. Só que aprendi muito rápido uma coisa: se você não concordasse, era
melhor fingir do que argumentar. Vi amigos cubanos levarem notas baixas
por discordarem de alguns absurdos que eram falados em sala. E veja, quando
eles discordavam, o faziam com argumentos muito inteligentes e bem
fundamentados. Não interessava. Ou você dizia amém cegamente para tudo o
que te enfiavam goela abaixo, ou ia mal na matéria.
Eu era um aluno estrelinha. Tinha notas altas na faculdade, e não queria de
forma alguma manchar minha média com uma nota baixa naquela matéria que
eu nem considerava assim tão fundamental. O que eu fiz? Criei um algoritmo
pessoal que me fazia ir bem em todas as aulas e avaliações de filosofia,
independente do tema, mesmo sem estudar. O algoritmo consistia em
começar elogiando e corroborando tudo o que a professora falou, em seguida
meter o pau no Brasil (que na época tinha um presidente tucano) e nos EUA.
E finalizar exaltando o governo e o país de Cuba, como se fosse a terra dos
sonhos de qualquer pessoa. Era infalível. Funcionava para qualquer tema, e
assim eu não precisava estudar filosofia, e usava o tempo para matérias que
considerava mais interessantes como fisiologia e anatomia.
Ainda bem que essas aulas aconteceram nos primeiros dois anos de faculdade,
enquanto eu ainda não tinha me decepcionado com o socialismo. Se tivesse
sido depois, possivelmente eu teria reprovado.

Corra Lola, corra!!

Uma noite, estava voltando pra casa de bicicleta, junto com meu amigo e
colega de quarto Japa, e íamos batendo papo pelo caminho. A rua que nos
levava até a casa era na verdade uma rodovia bastante escura.

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Logo depois que passamos por uma ponte, em uma curva fechada, dois caras
mal-encarados saíram de trás de uns arbustos e correram em nossa direção.
Em cuba, era extremamente comum os roubos de bicicleta, e nós que
trabalhávamos no hospital e víamos com muita frequência pessoas com
ferimentos graves de facão, já sabíamos até as armas que os bandidos
costumavam usar.
No calor do momento e pensando em salvar a minha vida, pulei da bicicleta
ao mesmo tempo que a joguei em direção ao ladrão. Gritei pro Japa: larga a
bicicleta e corre!!
Quando eu comecei a correr em fuga desesperada, vi que o cara correu atrás
de mim. Eu podia ser péssimo para esportes com bola, mas eu corria rápido
como um demônio na época de faculdade. Meti sebo nas canelas e corri como
se não houvesse amanhã. O Japa era um cara baixinho de pernas curtas e
acabou ficando pra trás. Tive a certeza de que o segundo bandido já o havia
matado. Apesar da profunda tristeza que senti, decidi que eu devia continuar
correndo para salvar minha vida, já que não havia mais nada a ser feito pelo
pobre falecido Japonês. Acontece que o desgraçado do bandido não desistia, e
por mais que eu corresse ele continuava atrás de mim. Já fiquei imaginando
como seria ruim ser esquartejado, ou estuprado, sei lá. Alguns passos a frente,
vejo o quartel da polícia. Não tive dúvidas, comecei a gritar por socorro em
espanhol: auxiliooooooooo policiaaaaaaa!!! Gritava e corria, gritava e corria,
até perceber que a gritaria estava prejudicando meu fôlego, então decidi
apenas correr. Mais um tempinho de corrida, e um carro de policia vem na
direção contrária com a sirene ligada. Pensei: é a minha salvação.
Para minha surpresa o carro parou na minha frente, e dele saiu um policial
brutamontes, que também começou a correr atrás de mim. Só nesse momento
pensei que algo estava estranho e decidi parar. Quando parei, tanto o bandido
quando o policial, me agarraram e me dominaram. Resulta que o tal bandido
não era tão bandido assim. Era um policial a paisana. Quando olho para trás,
vi que o Japa ainda estava vivo. Tomei uma bronca federal do policial, que
me xingou por eu ter corrido. Eu ainda tentei argumentar dizendo que eu corri
pois ele não havia se identificado. Ele de forma muito gentil só pediu para que
eu calasse a boca e não tentasse ensinar como deveria fazer seu trabalho.
Desfeito o mal-entendido, fomos liberados. Minhas pernas quase não
obedeciam. Foi um dos maiores sustos que tomei na vida.
Acredito que hoje, mais de dez anos após o ocorrido, o cara ainda é zoado no
quartel da polícia por ter tomado um baita de um couro na corrida para o
Usain Bolt brasileiro.

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Medicina por amor

Um dos maiores mitos do mundo é o tal do: “medicina por amor”. Ninguém
exerce a medicina ou qualquer outra profissão “por” amor. No máximo o
fazemos “com” amor, já que como todos nós sabemos, amor não paga as
contas.
Cuba é muito famosa por exportar médicos em missões solidárias para
diversos países. Só que o que a maioria não sabe, é que os médicos que topam
ir nessas missões não o fazem por amor à profissão, mas sim porque vão
receber no mínimo dez vezes mais do que receberiam caso ficassem
trabalhando na ilha. Fora isso, havia um programa de incentivo do governo
para os médicos que iam a outros países trabalharem nessas missões, não só
do ponto de vista financeiro. Por exemplo, o médico que fosse a uma missão
internacional, ao retornar teria prioridade para escolher a área em que iria
fazer especialização. Além disso, durante essas missões, muitos recebiam
presentes dos cidadãos locais, e na hora de voltar pra casa era feita uma certa
“vista grossa” no aeroporto para que pudessem entrar com seus gadgets e
presentes. Quem aqui não lembra da seleção brasileira de futebol em 1994,
em seu retorno dos Estados Unidos. Os jogadores vieram carregados de
muamba, e a aduana liberou numa boa pelo simples fato de serem
celebridades. Acontece um pouco parecido nesses casos dos médicos de
Cuba.
Muitos acabam usando essas missões como uma ponte para pular fora de
Cuba para sempre. É só ver que vários dos cubanos que vieram pelo programa
“Mais Médicos”, fugiram do Brasil para os EUA. Outros casaram com
brasileiras para tentar ficar por aqui. Outros pediram asilo político.
Lembro de uma reportagem na TV, de uma médica cubana metendo o pau nos
médicos do Brasil, dizendo que aqui só queriam saber de dinheiro e não
queriam trabalhar por amor. Pois bem, vamos a algumas continhas básicas
para calcular esse “amor”. Os cubanos especialistas na época que eu morava
lá, ganhavam vinte e cinco dólares de salário mensal. Aqui no Brasil, o
programa “mais médicos” pagava dez mil reais de salário, porém, dessa
grana, apenas dois mil reais iam para o médico, enquanto oito mil reais iam
para Cuba (dizem as más línguas que parte desses oito contos aí, voltava para
os nossos queridos políticos, mas são apenas teorias da conspiração e não irei
entrar nesse mérito). Então ao invés de ganhar vinte e cinco dólares por mês,
nossa amiga muito amorosa passava a ganhar dois mil realitos. Convertendo
isso para valores atuais de cotação do dólar, a nossa amiga que só trabalha por
amor e que indiretamente chamou os médicos brasileiros de mercenários,
estava ganhando 20 vezes mais no Brasil. É muito amor né. Some-se a isso

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àqueles benefícios que comentei anteriormente, os presentes, e mesmo a
possibilidade de comprar produtos mais baratos no Brasil para levar de volta a
Cuba, e conseguimos explicar esse amor tão grande. All we need is love.

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A advertência

Certa vez em uma aula de microbiologia, estávamos lá entretidos com


bactérias e afins, quando no meio da classe um dos alunos se levantou, pediu
licença ao professor e foi até a frente. Todo mundo ficou olhando sem
entender muito bem o que acontecia. Lá da frente da sala, esse colega de
turma anuncia que iria fazer um comunicado importante. Em seguida, chama
pelo nome a um dos meus amigos cubanos, e pede: fulano, venha até aqui.
Todos os olhares se dirigiram até o pobre coitado, que atravessou a sala de
cabeça baixa. Quando chegou lá, o outro aluno, que era nosso amigo de
turma, falou em tom agressivo que nosso colega estava sendo advertido na
frente de todos os alunos, por ter cometido uma infração muito grave. Sabem
o que foi que o cara fez? Ele não compareceu em um daqueles comícios fakes
obrigatórios que eu havia mencionado anteriormente aqui no livro.
Aquilo foi um show de humilhação pública. Escracharam o moleque lá na
frente, e ainda exigiam que ele se desculpasse com a turma por não ter ido
(como mero expectador diga-se de passagem) a um ato político. O cara pediu
desculpas morrendo de vergonha. Não bastando, pediram para que ele se
justificasse diante da turma, e contasse a todos o motivo de não ter ido. Cara,
o negócio aconteceu em um final de semana, e o moleque preferiu ficar com a
namorada em casa sem fazer nada do que ir até lá escutar meia dúzia de
baboseiras. Justo não? Pois lá isso não era permitido. O cara com os olhos
marejados (de pura raiva), disse que não tinha justificativa e que
simplesmente não havia conseguido comparecer. Terminaram aquela sessão
de tortura psicológica com um ultimato: caso você falte em mais algum
evento, estará automaticamente expulso da faculdade.
O governo de Cuba era realmente um queridão né.

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Hans, o marido da mulher do Pepe

Título confuso não? Deixa eu tentar explicar. Com aquela crise eterna lá no
país, jovens que sonhavam com bens de consumo, e que não tinham muita
esperança de conquistar os seus sonhos, acabavam terceirizando as
namoradas. Era praticamente uma forma mais refinada de ser cafetão.
Funcionava assim: Pepe, um jovem cubano descolado, que adorava roupas da
moda e novas tecnologias, namorava Maria, uma menina com um rosto lindo
de traços delicados e um corpo escultural. Maria era o sonho de qualquer cara
da cidade. Para conseguir manter suas roupinhas da moda, Pepe fazia um trato
com Maria, que era deveras peculiar. Ele a apresentava a algum turista
estrangeiro, na maioria das vezes um senhor de meia idade de etnia alemã. O
senhorzinho obviamente se encantava por Maria, e os dois se casavam. Maria
ia morar na Alemanha, mas continuava sendo oficialmente a namorada de
Pepe, afinal, os dois se amavam. Durante sua estadia na Alemanha, Maria
usava a grana que o tiozinho lhe fornecia, para comprar roupas novas, tênis e
presentes para Pepe. Normalmente nas férias ela vinha para Cuba uma
semana antes do marido, e naqueles dias ela e Pepe viviam uma verdadeira
lua de mel. Pepe feliz com suas roupas da moda, e com seu novo aparelho CD
player, desfilava pelas ruas da cidade de mãos dadas com Maria. Com todo
esse esquema, vinha aquela frase estranha:” - Ei Juan, vamos chamar o Pepe
e a Maria para tomar uma cerveja hoje? – Puts, Pedro, a Maria não vem.
Falei com o Pepe e ele vem sozinho, porque o marido da mulher dele está
chegando hoje da Alemanha”.
O importante é andar na moda, não é?

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Dá-me uma televisão, e eu te levarei para onde queiras
Lembram do cara libanês que dava nó até em pingo d’água? Pois dessa vez o
cara descolou um esquema forte. Com toda sua lábia e habilidade, conseguiu
ficar amigo da Carmen Maria. Sim, aquela mesma dos presentinhos no
aeroporto. Mas agora, o buraco era mais embaixo. O cara queria porque
queria ser transferido para a capital do país. Normalmente tinha que rolar uma
influência muito grande para conseguir tal façanha, pois as vagas eram
extremamente limitadas e frequentemente reservadas aos caras com influência
politica forte. Pois bem, numa bela tarde de sol do caribe, o rapaz aparece
com um pequeno agrado na casa da dona Carmen Maria. Nada mais nada
menos que uma TV a cores novinha, com controle remoto e tudo. Rapaz, a
partir daí o céu era o limite. Não só ele foi transferido para Havana, como
começou a exercer sua influência por lá para levar mais gente. Só que ele não
levava de graça. Quem quisesse ir tinha que pagar um “pedágio”. Não era
barato, e ainda era em dólar.
Tá aí uma mentalidade empreendedora e com visão de futuro. O cara investiu
em uma TV, e virou um agente de transferências para a capital. Tem meu
respeito.

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A lei foi feita pra se cumprir

Uma coisa que me impressionou uma vez, foi o quão ágil os caras eram para
seguir as ordens do comandante em chefe Fidel Castro. Certa vez, cansado de
tanto carinha vagabundo sem estudar nem trabalhar, que ficavam
perambulando pelas praças pedindo grana ou tentando fazer negócios com os
turistas (negócios = prostituição, venda de charutos roubados, etc.), Fidel
apareceu em rede nacional e avisou, que todos aqueles que estivessem pela
cidade no outro dia sem fazer nada, ou aqueles que estivessem sem
documentos, seriam presos. Cara, no outro dia passei pelo centro de bicicleta
e não tinha nenhum dos malucos que costumavam ficar por lá. Foi um
negócio quase que automático. Paguei pau.
Alguns meses depois encontrei um dos meninos com quem eu costumava
conversar lá na praça. Comentei que ele nunca mais tinha aparecido, e ele me
contou que foi preso por estar em um parque sem fazer nada, na manhã
seguinte ao pronunciamento de Fidel. Havia passado aqueles meses preso no
campo cortando cana.
Percebi que a palavra “cana” se aplicava de forma literal para os presos de
Cuba.
Viva la revolución.

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Ronc Ronc

Sabe quando você tem aquela coceira lá na garganta, que dá vontade de fazer
aquele barulho parecido com o que a Peppa Pig faz no desenho, pra parar de
coçar? Então, coçar a garganta com ruídos suínos estranhos na frente dos
outros não é problema para os cubanos. Eles fazem isso de forma rotineira e
natural. Pode ser dentro da sala de aula, no ônibus, no cinema, qualquer hora
é hora.
Uma vez uma amiga minha começou a fazer esses ruídos nada agradáveis do
meu lado. Eu lancei um olhar torto pra ela e reclamei. Ela estranhou e me deu
de ombros. Fui obrigado a falar que não entendia aquela mania de ficar
fazendo ruídos estranhos com a garganta em público. A resposta da menina
foi simples e direta: a garganta tá coçando, aí eu coço ué.
Não tive argumentos para rebatê-la. Só torci para que o mesmo conceito não
se aplicasse para coceira em outros lugares menos apropriados.

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Verdades inconvenientes

Lembra lá no começo do livro, que eu comentei sobre a reportagem na TV


que contava das maravilhas da medicina cubana, e de como eles haviam
achado a cura para várias doenças. Além disso, as taxas de mortalidade
infantil são baixíssimas. Pois bem, muita propaganda.
A realidade era bem mais nua e crua. Nos hospitais faltava de tudo.
Reaproveitávamos luvas que deveriam ser descartáveis, utilizávamos seringas
e agulhas também reaproveitáveis que eram esterilizadas inúmeras vezes, nos
virávamos com o que tínhamos na mão. Com muita frequência nas visitas e
discussões de caso a beira de leito, ouvíamos coisas como: o tratamento dessa
doença é feito com tal medicamento, mas nós não temos, então damos esse
outro que não tem tanta eficácia.
Sobre o milagre das “curas” das doenças diversas com os medicamentos
exclusivos de Cuba, novamente uma falácia. Tratavam-se de doenças
autoimunes que com muita frequência têm remissões espontâneas. Tudo o que
se falava era baseado em “experiência”. Infelizmente quando falamos de uma
intervenção terapêutica, experiência é o pior nível de evidência possível.
Qualquer um que saiba um pouquinho sobre medicina baseada em evidências,
descobre que não há nenhum trabalho de qualidade que confirme a tal cura
que eles tanto propagam. Ao procurar nos periódicos científicos
internacionais, nada se encontra. E os poucos estudos disponíveis, que foram
feitos e publicados em Cuba mesmo, têm um desenho e metodologia
completamente falhos (estudos sem grupo controle, sem randomização, não
cegos). Conversa pra boi dormir.
Sobre a mortalidade infantil, não querendo tirar o mérito dos caras, mas o que
eu via lá pessoalmente, eram muitas indicações de abortamento. Qualquer
intercorrência na gestação, lá vinham eles recomendando que se
interrompesse. Parece óbvio né, que se você só levar até o fim as gestações
selecionadas e sem nenhum risco ou intercorrência, a sua estatística de
mortalidade infantil ficará excelente, já que os fetos abortados não entram
nela. Em pouco tempo de estágio na obstetrícia, presenciei dezenas de
abortamentos provocados, muitos deles em meninas menores de 14 anos. E
aos burros de plantão, não emiti qualquer opinião aqui contra ou a favor do
aborto, estou apenas relatando o que vivenciei.
Nos plantões de ortopedia, lembro que tínhamos exames de raio-X “pré-
fixados”. Que diabos isso significava? Tínhamos direito a fazer um número
limitado de radiografias no plantão, por isso tínhamos que decidir muito bem
em quem iríamos utilizar. A vantagem disso, é que os médicos examinavam
de forma mais detalhada antes de pedir um exame. A desvantagem, é que

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todos sabemos que mesmo um exame físico bem feito, quando não aliado a
um exame de imagem, pode deixar passar batido várias fraturas. Mas não se
preocupem, não se tratava de crise. Era apenas o governo protegendo a
população da radiação.

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Voldemort
Quem já leu algum livro do pequeno bruxo chamado Harry Potter, ou já
assistiu a pelo menos algum de seus filmes, já pode ver que as pessoas tinham
medo de pronunciar o nome do vilão da história. Muitos personagens durante
a trama, se referiam ao bruxo do mal como “aquele que não deve ser
nomeado”.
Pois bem, Cuba tinha um verdadeiro Voldemort, só que ao invés de careca e
de cara chata, ele tinha barba e fumava charuto.
Os cubanos aparentemente já nasciam com o medo impregnado na alma.
Cada vez que iriam mencionar o nome de Fidel, em um reflexo inconsciente,
olhavam para ambos os lados. Boa parte das vezes não tinham coragem de
proferir o nome Fidel em voz alta, e apenas faziam um gesto com a mão sobre
o queixo imitando uma longa barba.
Pra piorar esse medo todo, as casas tinham paredes finas, que eram fáceis de
se bisbilhotar e ouvir do outro lado. Além disso, como já contei aqui outras
vezes, haviam X9 espalhados por todos os lugares.
Lá em 2003, lembro do dia em que o governo prendeu 75 pessoas que eram
dissidentes do regime. Qual crime eles cometeram? Reuniam-se em suas
casas para criticar o governo, e estavam coletando assinaturas para pedir mais
democracia na ilha. Esses caras foram condenados até a 28 anos de prisão.
Nessa época, até José Saramago, comunista de carteirinha, repudiou a atitude
do governo cubano. Agora, sabem como esses grupos foram descobertos?
Sim, os X9. Em cada grupo desses, havia um infiltrado do governo
acompanhando cada movimentação. Não era à toa que as pessoas tinham
medo de falar o nome do homem em voz alta.

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Melhor matar do que discordar

Me contava um dia um grande amigo cubano, sobre a vez que seu sobrinho
havia sido preso. Era um moleque de menos de vinte anos de idade, que
frustrado com todos os perrengues que passava lá na ilha, resolveu protestar.
O que ele fez? Colou uma cartolina com os dizeres: “Abajo Fidel” em um
poste. Se você não manja de espanhol e não sabe o que isso significa (toma
vergonha na sua cara e vai estudar), é “Abaixo Fidel”. Tendo em vista que
Cuba é o maior produtor de X9 da face da terra, alguém dedurou o menino e
ele foi pra cadeia. Passou um inferno lá dentro, contraiu varicela, quase
morreu. Tudo por causa da porra de um cartaz inofensivo. Esse meu amigo,
que era tio do menino, disse que nessas situações o advogado sempre fala ao
juiz que o réu estava fora de si, ou bêbado, ou em um momento de insanidade,
qualquer coisa do tipo. Caso ao advogado de defesa resolva argumentar que o
réu estava apenas exercendo sua liberdade de expressão, e que não deveria ser
punido por isso, ele acaba indo preso junto, só que pega um tempo maior de
cadeia.
Foi assim que eu aprendi que Cuba Libre só existia no nome da bebida.

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Salvando vidas

Minha flora intestinal em Cuba tornou-se mutante com superpoderes. Lá nós


comíamos em cada buraco sem higiene que só vendo para crer. Tinha uma
pizzaria que funcionava da seguinte maneira: ficávamos em uma fila na
calçada esperando nossa vez de entrar no estabelecimento. Quando chegava a
hora, sentávamos umas 12 pessoas em um balcão de madeira velho, e a
atendente passava perguntando: Pizza? Pizza? Pizza? a cada uma das doze
pessoas sentadas. As opções de pizza eram apenas duas: Sim ou não. Afinal,
em Cuba pizza era pizza, sabor único, não existia essa confusão de
ingredientes que você vê em outros países. A iguaria era composta por massa,
molho de tomate, e um negócio estranho que segundo eles era queijo. Aliás,
os cubanos contam que durante o período especial (falarei sobre ele mais pra
frente), como faltava queijo, os vendedores de pizza costumavam colocar
pedaços de camisinha nas pizzas para que desse aquele efeito “esticadinho”
após ter sido levada ao forno. Quando todos confirmavam que queriam pizza,
a moça gritava para a cozinha: doze pizzas!!!
Já na sequência, ela passava com uma jarra de plástico toda manchada, com
um líquido de aspecto estranho, perguntando novamente a cada um dos
indivíduos: Suco? Suco? Suco? E ia despejando nos nossos copos de plástico
(iguais àqueles que servem merenda em escola pública). Poucos minutos
depois, o cara da cozinha colocava sobre o balcão, doze pizzas, dispostas em
uns pratos de metal oxidado, uma sobre a outra. Entenda o detalhe, o fundo do
prato da pizza de cima, ficava encostado na pizza debaixo, e esses mesmos
pratos estavam até poucos segundos atrás, com o fundo encostado naquele
balcão de madeira sujo. Aí a moça pegava aquela pilha de pratos e ia jogando
um a um na frente de cada cliente, sempre com o cuidado de pegar com a mão
e com as unhas compridas em cada uma das pizzas. Para comer, você dobrava
a pizza no meio (sem ter lavado as mãos já que não havia pia nem banheiro
para os clientes no local), e comia com a mão como se fosse um pastel.
Quando você estava com as duas mãos engorduradas segurando a pizza, a
moça passava cobrando. Então você pegava a carteira com a mão cheia de
gordura, pegava no dinheiro, entregava, pegava o troco, e metia a mão ainda
mais suja na pizza e seguia comendo. Era como se estivéssemos na Itália né?
Outra coisa meio anti-higiênica que ingeríamos lá, eram umas vitaminas na
frente do hospital. Ali o esquema de lavagem dos copos plásticos era do tipo
“mergulhão”. Você tomava a vitamina, entregava o copo ao carinha que
vendia, e ele mergulhava esse copo em uma bacia de água extremamente suja
que ficava lá apodrecendo o dia todo. Após um ou dos mergulhos, o copo
estava novinho em folha para servir o próximo cliente.

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A água que bebíamos era de torneira mesmo. Aliás, esqueci de contar aqui,
mas uma das coisas que me deu desespero nos primeiros dias na ilha, foi o
sabor da água. Esqueçam aquele negócio de que água é insípida, lá a água
tinha um sabor terrível, salobra, descia meio quadrada pela garganta, e parecia
que nunca matava a sede. Mas depois de um tempo a gente acostumava. Bom,
costumávamos tomar bastante água na torneira do banheiro do quarto, já que
o calor era infernal. Uma vez, ficamos sem água, e aparentemente o problema
era no reservatório que ficava na laje em cima do nosso quarto. Os caras
responsáveis pela manutenção da casa subiram na laje para ver o que estava
acontecendo. Na hora que eles abriram a tampa do reservatório, uma dezena
de sapos pulou lá de dentro. O carinha então entrou no reservatório (sim, ele
mergulhou lá dentro) e voltou com um sapo morto na mão, que segundo ele
tinha entrado no cano que levava água até nosso quarto, e por isso havíamos
ficado sem. Problema resolvido, já podíamos voltar a tomar água
normalmente, e agora já sabíamos que estávamos de certa forma engolindo
sapos, quase que literalmente.
Todas essas coisas fizeram meu trato gastrointestinal criar uma resistência
absurda. Eu podia comer pedras que ficava de boa. Certa vez, já morando no
Brasil, comi um salgado na barraquinha da frente do hospital. Logo que comi
vi que não tinha me caído bem. Em menos de meia hora, eu estava no
banheiro com fortes dores abdominais, diarreia e vômito (tudo ao mesmo
tempo). Depois que melhorei fiquei pensando, que se fosse qualquer outro ser
humano sem a minha flora intestinal mutante, teria morrido ao ter comido
aquele salgado. Fiquei feliz, pois certamente eu havia salvo uma vida.

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Criatividade

Se tinha uma coisa que dava para elogiar nos cubanos, era a criatividade. A
escassez fazia os caras se virarem nos trinta.
Quebrou uma peça do Lada velho? Os caras faziam uma peça nova. Queriam
fugir do país pelo mar até a Flórida? Carcaças de carros, pedaços de madeira e
latão faziam excelentes balsas.
Já vi cubano montar um aquário e fazer o sistema de oxigenação da água com
equipo de soro usado retirado do lixo hospitalar.
Já vi brinquedos feitos com pedaços de radiografia e seringas.
Dizem que na época do período especial, não havia mais rum para beber (era
a bebida preferida dos cubanos). Aí começaram a desviar álcool dos hospitais,
misturar com mel e outras cositas más, e tomar. Esse esquema de desvio de
álcool ficou tão crítico, que começaram a colocar iodo no álcool hospitalar
para evitar que usassem como bebida. Não adiantou, algum maluco descobriu
que se colocasse uma ampola de vitamina C naquela solução, o iodo
precipitava. Aí era só mandar pra dentro. Essa bebida era tão forte, que era
conhecida por dois nomes: osso de tigre, ou warfarina. Olha só que curioso,
warfarina é um medicamento anticoagulante. Não consegui descobrir o
motivo de terem apelidado a bebida com o nome do remédio, mas sei que o
nome era tão consagrado, que até os alcoólatras eram chamados de
“warfarineros” pelos cubanos.
Já comentei também das academias clandestinas, com aparelhos construídos
pelos próprios caras.
Toda essa criatividade e empreendedorismo forçado, me faz entender o
motivo dos cubanos se darem tão bem nos Estados Unidos. Veja bem, um
cara que resolve desafiar o governo, a polícia, se mete no mar em condições
precárias, navega sobre tubarões, e arrisca a vida para seguir um sonho,
mostra que tem garra, disposição, coragem e atitude. Uma pessoa assim tem
tudo para deslanchar em um país que te dá liberdade e oportunidade.

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Hello darkness my old friend

Uma das coisas que davam no saco lá em Cuba, eram os apagões. Você
estava lá numa boa estudando, com o ventilador ligado, e de repente
“buummm”, a luz ia embora. Às vezes em pleno verão, com um calor dos
infernos, ficávamos até 14 horas sem luz. Uma das primeiras experiências que
tive com isso, foi no dia anterior a uma das primeiras provas de anatomia.
Tivemos que nos juntar em volta de alguns lampiões e ficamos estudando até
madrugada naquela luz fraquinha. Dizem que na época do período especial
era piora ainda. Mas que droga é essa de período especial que toda hora eu
falo? Bom, houve uma época que devido ao posicionamento militar
estratégico de Cuba, bem do ladinho dos EUA, a antiga União Soviética
“adotou” Cuba. Os cubanos costumavam dizer que Cuba virou o filho bobo
da Rússia. Nessa época, havia uma fartura absurda na ilha. As relações
comerciais eram extremamente favoráveis, a ponto da União Soviética trocar
petróleo por açúcar molhado. Diziam meus amigos, que a geladeira estava
sempre cheia, a ilha era repleta de carros Lada novinhos, tudo era festa. Nesse
período, quando algum cidadão decidia desertar para os EUA, os cubanos iam
até a casa da família e tacavam ovos nas paredes. Mal sabiam que algum
tempo depois, aqueles ovos fariam falta, pois a escassez se instalaria de forma
rápida.
Da noite para o dia, acabou o milho, acabou a pipoca. Foi decretado o
“período especial”. Ao invés de jogarem ovos nas casas, agora os cubanos
tinham que enfrentar filas, que começavam na madrugada, para poder
comprar um pão com pepino e tentar matar a fome. Não havia mais luz, não
havia mais combustível, o apocalipse zumbi estava instalado. No fundo essa é
a história natural de qualquer economia que se baseie nesse assistencialismo e
não no crescimento e aumento da produtividade. Havia um saudosismo
enorme da época da mãe Rússia alimentando todo mundo. Me lembra um
pouco uma época de ouro no Brasil, onde o preço das commodities estava nas
alturas, a economia estava estável, e o crédito rolava solto. Era muito bom,
porém, insustentável.

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Paraíso proibido
Cuba era um paraíso natural. As praias do Caribe eram simplesmente
sensacionais, e os resorts lá instalados eram de cair o queixo. Mas todo esse
luxo e beleza, era proibido aos moradores da ilha. Quando você viajava até os
Cayos, onde se encontravam os melhores resorts das províncias centrais,
havia um ponto da estrada que funcionava quase como uma área de fronteira.
Ali, você só podia seguir viagem caso comprovasse a nacionalidade
estrangeira, ou se estivesse especificamente a trabalho devidamente
registrado. Se fosse cubano, e quisesse passar uns dias lá no hotel, você era
barrado. Aquilo era um turismo extremamente elitizado. Aquela história de
que no socialismo tudo é de todos, e de que somos iguais, não valia naquele
lugar.
Lá nos resorts você só encontrava cubanos trabalhando. O mais curioso, é que
possivelmente tínhamos ali os funcionários de hotel mais intelectuais do
mundo. O carinha que cuidava dos passeios de catamarã era bioquímico. A
moça que servia as bebidas no bar da piscina, tinha largado a faculdade de
medicina no quarto ano para ser bartender. Perguntei a ela o que sua família
achava daquilo. Me disse que no começo foram contra e ficaram
escandalizados, mas que hoje, ela ganhava em um dia, só de gorjetas, mais do
que o salário mensal de um médico especialista, então a família agradecia
pela decisão que havia tomado.
Havia uma única forma de um cubano conseguir viajar a passeio para esses
hotéis, que era um esquema de lua de mel. Mas adivinha quem conseguia
isso? Sim, a galera que ou trabalhava no partido, ou tinha um parente
influente lá dentro.
Viva o socialismo!

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Prisão ao ar livre

Cuba era a maior prisão ao ar livre que eu já havia conhecido. O cidadão


cubano não tinha direito de viajar para o exterior quando bem entendesse.
Havia um monte de entraves e proibições, que tornava uma viagem
internacional algo muito difícil de ser consumado. Não é à toa que os caras se
lançavam no mar em busca de liberdade.
Um grande amigo meu, médico cubano, casou com uma médica panamenha.
Eles casaram enquanto ainda eram estudantes de medicina, depois de alguns
anos namorando. Algum tempo depois do casamento, tiveram uma filha.
O tempo passou, e a esposa desse amigo terminou a faculdade. Decidiu voltar
para seu país natal, juntamente com seu marido. Tranquilo né? De forma
alguma. O governo não permitiu que esse amigo saísse do país. Obrigaram a
que renunciasse o título de médico, e o mantiveram durante dois anos em
Cuba, sem poder trabalhar, sem fazer absolutamente nada, apenas esperando
seu castigo terminar para ir embora. Vejam a sinuca de bico: a esposa não
podia ficar em Cuba pois seu período de estudos havia acabado, e o marido
não podia sair do país. Acompanhei a angústia dele, ex-médico, sem poder
ver a filha e a esposa, vivendo em um lugar onde a comunicação era
extremamente difícil (nada de internet, WhatsApp, Skype).
Essas coisas sempre me fizeram pensar que o homem pode ter tudo, mas se
lhe tirarem a liberdade, nada mais faz sentido.

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Complexo de inferioridade

(Atenção. Antes de começar a ler este capítulo, saiba que eu fiquei em um


tremendo dilema aqui. Cheguei a apagar o capítulo e a escrever novamente
umas duas vezes. Fiquei com muito medo de parecer arrogante, ou metido.
Não é essa a intenção. Apenas tento aqui quebrar um mito bastante difundido
de que todos que estudam fora do Brasil são profissionais ruins. Já estava
pronto para excluir mais uma vez essa parte do livro, mas pensei comigo: tô
na chuva, então vou me molhar. Segue o jogo!)
Uma coisa que sempre me perseguiu, foi um sentimento de inferioridade por
ter ido estudar medicina em Cuba. Há um consenso entre os brasileiros, de
que, o cara que vai estudar fora do país, é burro e incompetente. Durante a
faculdade sempre estudei igual um filho da puta, justamente por carregar
comigo a necessidade de quebrar esse paradigma. Lá, as notas seguem mais
ou menos o padrão dos EUA, mas ao invés de letras (A, B, C, F) eles usam
números. A comparação com as notas no Brasil não segue um padrão
estritamente linear, mas digamos que era mais ou menos assim: nota 5 era
máxima, equivalia a uma nota 9 ou 10 no Brasil. Nota 4 era algo entre 8 e 9,
nota 3 (6 a 7, passou raspando), e nota 2 (abaixo de 6, reprovado). Na época
tínhamos muitas dificuldades. Não havia internet, a faculdade não possuía
uma máquina de xerox, e quando precisávamos de resumos de livros,
capítulos etc., tínhamos que ir até a biblioteca e copiar tudo à mão. Quando
faltava luz, estudávamos ou em alguma lanchonete no centro, ou usávamos
lampião. Até na praça já fui estudar à noite por falta de energia elétrica em
casa. Algumas coisas contribuíam para que fôssemos estimulados a estudar.
Provas todas as semanas eram uma delas. O fato de que um estrangeiro era
automaticamente desligado do curso caso reprovasse era outra. Tive um
colega que reprovou em inglês, e foi simplesmente chutado da faculdade de
volta a seu país de origem.
Lá tinha um negócio chamado exame de prêmio. Se você tivesse tirado nota
máxima em uma matéria, e no mínimo nota quatro em todas as demais, podia
candidatar-se a tal exame. Esse exame consistia em preparar uma
apresentação sobre algum tema da matéria. Normalmente eram selecionados
dois ou três temas, que você deveria estudar, e no dia do exame era sorteado
qual deles iria apresentar. Caso você qualificasse nesse exame, ganhava uns
pontinhos extras na média global. O primeiro lugar ganhava 0,3 pontos,
segundo lugar 0,2 e o terceiro 0,1. No terceiro ano de faculdade, tirei nota
máxima em todas as matérias, e me candidatei a exame de prémio em
farmacologia. Fiquei em primeiro lugar, e minha média global daquele ano foi
de 5,3. Acima da nota máxima. Foi a melhor média da faculdade entre os

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estrangeiros do meu ano. Outra coisa bacana, era que os alunos com média
global acima de 4,78 eram considerados alunos de excepcional rendimento
discente. Vulgarmente conhecido como “aluno talento” (nomezinho
pretensioso né?). Os estudantes que faziam parte desse grupo (“é nozes!”),
recebiam aulas especiais, com professores renomados, e normalmente eram
esses caras que depois abocanhavam as melhores vagas de especialidade e os
melhores cargos na medicina. Conversei recentemente com um dos meus
amigos de turma que fazia também parte desse grupo. Ele foi embora de Cuba
e está dando aula em uma faculdade de medicina em outro país.
Ainda assim, mesmo me esforçando e conseguindo bons resultados, sempre
achava que ao chegar no Brasil me depararia apenas com gênios superdotados
fora da curva, e que teria que ralar muito para conseguir me equiparar a eles.
Acredito que isso me ajudou bastante, pois era sempre um combustível para
seguir em frente e tentar melhorar.
Já de volta ao Brasil, percebi que eu tinha uma visão distorcida da realidade.
O burrão aqui, incompetente, que tinha ido estudar em Cuba por pura falta de
capacidade (opinião de muita gente no Brasil) ficou em primeiro lugar da
faculdade na prova do ENADE (o que era antigamente chamado de provão do
MEC) e entre as 25% melhores notas do Brasil. Passei nas provas de
residência em vários serviços, sempre entre os primeiros lugares. Fiquei em
primeiro lugar em um concurso público para médico nefrologista quando
ainda estava no meu primeiro ano de residência de nefrologia. Passei em
primeiro lugar em três testes seletivos para professor colaborador da
faculdade de medicina, e também em primeiro lugar para professor efetivo em
medicina intensiva. Tenho hoje três títulos de especialista, todos devidamente
registrados, tendo ficado entre as primeiras colocações tanto na prova de
título de nefrologia quanto na de medicina intensiva. Tá bom, tá bom, que
metido né? Você deve estar achando que sou um baita de um prepotente né,
por falar todas essas coisas. Na verdade, isso só reflete o quanto eu sou
inseguro e me sinto inferior em relação ao fato de ter estudado em Cuba,
percebe? E para que você não ache que isso é paranoia da minha parte, só
para ter uma ideia, em duas bancas de entrevista para residência, mesmo
tendo passado entre os primeiros lugares, mesmo tendo tirado uma nota boa,
mesmo tendo ido muito bem na prova prática, fui humilhado e o carinha da
banca afirmou sem papas na língua, que se eu fui estudar em Cuba, era
porque não tinha capacidade para fazer medicina no Brasil. É mole?
Acho que hoje não devo mais nada a ninguém e nem preciso provar nada.
Mesmo assim, esse fantasma vai me perseguir durante muito tempo.

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Taxista amigo da família

Lá em Cuba, havia muito serviço informal, assim como existe no Brasil. A


diferença é que aqui, no máximo o cara vai ter as coisas confiscadas e levar
uma multa. Em Cuba, se o cara era pego, ia preso e passaria alguns meses no
campo cortando cana (e a cana aqui é no sentido literal mesmo).
Uma vez, eu e uma amiga contratamos um cubano para que nos levasse até o
aeroporto de Havana. Ele tinha um carro Lada bordô, e fazia uns bicos de
taxista ilegal. Se esses caras são pegos transportando estrangeiros e cobrando
por isso, é uma treta que vocês não fazem ideia. Por isso, antes de nos levar
foi combinado todo um roteiro. Caso a polícia nos parasse, diríamos que
éramos amigos dele, e que estava nos levando de favor. Até pagamos o cara
adiantado para não ter que mexer com dinheiro lá no aeroporto.
A viagem foi tranquila, a 70 quilômetros por hora, com o carro russo soltando
os parafusos, e com aquele aroma delicioso de gasolina nas nossas roupas e
cabelos. Para azar nosso, assim que chegamos ao aeroporto, tinha um
guardinha ali perto da área de estacionamento, onde iríamos descer. A forma
como saímos do carro foi cômica. O cara tirou nossas malas do porta-malas, e
em seguida me deu um abraço bem apertado, como se fosse meu brother.
Falou em voz alta que ia sentir saudade, pediu para eu entregar um abraço
para meus pais e para meu irmão (detalhe, eu não tenho irmão, só irmã), e eu
também entrei no jogo: falei pra ele se cuidar, pra dar um beijão na mãe dele e
dizer que logo eu voltava.
O guardinha ali do lado, só olhou, mas não deu muita moral.
Assim conseguimos chegar ao destino, ninguém foi preso nem questionado.
O único detalhe é que eu nunca mais na vida vi aquele taxista. Sacanagem né,
a gente era tão amigo.

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Não força, vai

Tinha umas coisas bem forçadas lá em Cuba. Muitas vezes, para poder enfiar
goela abaixo a ideologia socialista, os caras inventavam cada uma que
chegava a dar vergonha alheia.
Lembro de quando o menino Elian foi encontrado boiando agarrado a uma
câmara de pneu, e resgatado nos Estados Unidos. A mãe do menino tinha
tentado fugir para a Flórida, mas sua embarcação afundou e ela acabou
morrendo. O garoto quase que por um milagre conseguiu se salvar.
O que veio depois disso foi uma verdadeira guerra política. A família
americana do moleque queria que ele ficasse nos EUA, enquanto o governo
cubano fazia uma baita propaganda emotiva para que Elian voltasse aos
braços de seu pai. Engraçado que o mesmo governo que não permitia que os
cubanos saíssem do país, e que por conta disso mantinha famílias separadas
(assim como na história do meu amigo que contei lá atrás), agora era um
ferrenho defensor da união familiar. Tudo política.
Agora, a parte onde eles forçavam a barra, era na hora de comparar Cuba com
os Estados Unidos, para dizer que o menino teria um futuro muito melhor na
ilha do que no império ianque. Sei que só essa parte já é uma piada pronta,
mas mesmo assim, o negócio ficava ainda mais vergonhoso.
Na TV, imagens de crianças felizes brincando em Cuba, seguida de crianças
nas ruas, sujas e malvestidas nos EUA. Imagens de um desenho animado
fofinho, que segundo a TV, era o herói nacional cubano, seguida de imagens
de Silvester Stallone no filme Rambo sentando o dedo no gatilho e matando
uma penca de gente. Aí o repórter falava horrorizado: vejam o herói nacional
dos Estados Unidos, e comparem com o de Cuba. Não era fácil. Outra coisa
que eles falavam, é que o animal símbolo dos EUA era uma águia, e aí
metiam o pau na águia, dizendo que é uma ave de rapina, traiçoeira, assassina,
e por aí vai.
A única coisa que eu não entendia muito bem, era a seguinte: se Cuba era tão
boa, e os EUA tão ruim, por que o governo cubano não deixava a população
viajar livremente para lá, com medo de que não voltassem? Outra coisa: por
que tanta gente se arriscava no mar para fugir da ilha?
Vai entender né?

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Unanimidade

Em 2002, houve um plebiscito para que a população escolhesse se gostaria de


manter o socialismo e o atual governo e regime, ou se gostariam de mudanças
na constituição. Esse plebiscito foi meio que uma resposta aos Estados
Unidos, para mostrar que lá não existia ditadura, e era o povo quem mandava.
Até hoje, em veículos de imprensa de esquerda, cita-se essa votação como
argumento para defender a hipótese de que Cuba é um regime livre, e não
uma ditadura.
Acontece amiguinho, que quando esse plebiscito aconteceu, eu morava lá.
Sabe como era o esquema?
Cada bairro tinha um CDR. O que era isso? Um comitê de defesa da
revolução. Os CDRs basicamente eram compostos de X9 que monitoravam a
vida das pessoas em troca de benesses que já comentei anteriormente nesse
livro. Nos dias do plebiscito, cada CDR ficou responsável por comandar a
votação de suas respectivas áreas. Quando eles percebiam que determinada
família ainda não tinha ido votar, mandavam um dos X9 bater à porta e
convocar os cidadãos de forma gentil e voluntária, para que comparecessem à
votação.
Lembro de um amigo meu, que estava puto de raiva com tudo isso. Ele me
contou que os caras do CDR foram até a casa dele, e o fizeram ir votar. Lá na
mesa de votação havia uma ficha. Nessa ficha o cidadão colocava o nome, o
número da carteira de identidade, e do lado colocava seu voto. Tudo isso
diante dos olhos de dois X9 do comitê (não, o voto não era secreto). Agora
me diz aí, quem em sã consciência, sabendo que em Cuba você era preso
simplesmente por tentar debater suas ideias, iria votar contra o governo?
Ninguém obviamente. Tanto é que diziam por lá, que se alcançou a
unanimidade na votação.
Muitos, mas muitos amigos mesmo, que eram completamente contra o regime
cubano, haviam votado a favor.
Para a imprensa mundial de esquerda, aquilo tudo foi um deleite. Para quem
morava lá e pode ver tudo de perto como funcionava, foi só mais uma das
manipulações tão comuns na ilha.
Agora, tenta falar para algum religioso fanático de esquerda sobre esses fatos,
sabe o que ele te responde? Diz que você não sabe nada, e quem tem razão é
ele.
Essa talvez seja uma das coisas que mais me irrita quando se trata desse
assunto. Pessoas que nunca viveram e conheceram de fato o regime, que só
foram passear alguns dias por lá, naquele tour maravilhoso promovido e

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manipulado pelo próprio governo, no qual só mostram coisas boas e
escondem todo o resto, adoram bater de frente e falar asneiras.
Mas, quem sou eu pra falar né?

É penta!!
Uma experiência muito legal que eu tive foi a de poder assistir aos jogos da
copa do mundo pela TV, em outro país, especificamente em uma casa de
estudantes estrangeiros onde morava gente de uma porrada de nacionalidades.
Por que isso foi tão legal? Porque você tinha um monte de gente pra zoar, e
porque a maioria dos caras das outras nacionalidades torcia contra o Brasil.
Lá na casa onde morávamos, que era composta unicamente por estudantes de
medicina, tínhamos gente do Brasil, México, Argentina, Paraguai, Peru,
Colômbia, Equador, Estados Unidos, Uruguai, Noruega, Suíça, Suécia,
Portugal, Bahamas, Cabo verde, Jordânia, Espanha, e alguns outros países do
oriente médio que agora eu não lembro. Bom, com toda essa diversidade, era
divertidíssimo assistir aos jogos, fazer baderna, gritaria, bater na porta do cara
que tava torcendo contra. Uma festa.
Eis que o Brasil vai para a final contra a Alemanha. Eu e meu amigo
Fernando (mais conhecido como Nego), estávamos passando na enfermaria
da pediatria. Enquanto vários outros professores liberaram o povo do Brasil
aquele dia para assistir à final da copa, o chefe da pediatria não nos liberou.
Mas cara, a gente é brasileiro né. Combinamos com a residente da pediatria
que ela ficaria responsável pelos casos, e que nós só apareceríamos lá no
intervalo do jogo para dar as caras. Termina o primeiro tempo, metemos um
jaleco por cima da camisa canarinho, e corremos pro hospital. Fizemos
questão de aparecer onde o chefe estava, e ele, cheio de orgulho nos elogiou
um monte, já que mesmo na final da copa, estávamos lá trabalhando (mal
sabia ele que éramos duas fraudes). Fizemos aquela poker face clássica, e
falamos: bom chefe, vamos dar uma volta aí pela enfermaria pra ver se tudo
continua bem. Falamos novamente com a residente que nos liberou, e
voltamos correndo pro segundo tempo. Cara, que emoção, Brasil campeão,
aquela festa absurda, e nós tínhamos que voltar pro hospital. Para nossa
alegria, a diretora da faculdade que estava na casa acompanhando o jogo,
ligou pessoalmente para o chefe da pediatria e solicitou nossa liberação.
Obrigado diretora!!
Depois disso só festa, fizemos uma carreata (sem carro) pelas ruas da cidade,
gritando e balançando bandeiras do Brasil, cantando gritos de torcida. Nas
janelas das casas todo mundo assustado olhando, sem saber o que estava
acontecendo. Lembro de uma canadense que estava hospedada na casa de um
amigo, que ao ver aquela nossa festa, chorou de emoção (canadenses são

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educados e discretos e não estão acostumados com toda essa emoção e
baderna). É penta!!

66
As motos “doadas”

Lá pelo quarto ano de faculdade, começaram a vender umas motos em


algumas lojas de Havana. Na verdade, eram tipo umas mobiletes de duas
marchas. Obviamente eu não tinha dinheiro pra comprar uma daquelas, mas
vários amigos compraram. Não lembro exatamente quanto elas custavam, mas
sei que não eram nada baratas, ainda mais considerando o valor do dólar. A
minha sorte é que meu amigo e colega de estágio na faculdade tinha uma
dessas, e eu podia pegar carona.
Cuba era uma ilha pequena, mas com uma enorme capacidade para caber
burocracia. Sair do país era um negócio bem complicado. Lembro de um cara
que tinha desistido da faculdade e voltado para o Brasil. Alguns meses depois,
voltou para a ilha como turista, para visitar a namorada. Quando estava indo
embora de novo, foi barrado no aeroporto, pois precisava de uma carta da
faculdade autorizando sua saída. Não adiantou nada ter explicado que não era
mais aluno, que já tinha ido embora e que estava lá como turista. Teve que
voltar para a cidade onde havia estudado, e pegar a autorização. Problema de
tudo isso? Além da dor de cabeça, lembra que eu comentei que os voos da
Cubana de Aviación para o Brasil só aconteciam uma vez por semana? Pois é.
O cara teve que ficar mais uma semana na ilha, sem grana, sem reserva de
hotel, enfim, ferrado. Ah, mas bastava ele ficar na casa de algum amigo
cubano, diria um inocente. Essa era outra burocracia lá de Cuba. Estrangeiros
eram proibidos de ficar na casa de cubanos, mesmo que fossem melhores
amigos. Para que pudessem ficar, precisavam ir até um escritório do
ministério de turismo, pegar uma autorização do governo, e pagar a bagatela
de 80 dólares por dia só de taxa. Outra burocracia lá de Cuba, quando você ia
embora, precisava pegar um papel na delegacia dizendo que você não era
dono de nenhum veículo automotor. Eu lembro de ter descoberto isso aos 48
do segundo tempo e quase fui barrado também. Na verdade, só consegui
porque dei piti na delegacia e resolveram datilografar o papel na hora (sim,
datilografado, nada de computadores).
Bom, aí o que aconteceu com essa galera que tinha as motos? Primeiro
aconteceu uma situação inusitada. Da noite para o dia alguém decidiu que as
motos dos estrangeiros deveriam ser confiscadas. A policia entrou na casa e
levou todas, sem conversa, sem dó. Foram meses que os caras ficaram com as
motos paradas no pátio da polícia, sem satisfação, e obviamente sem qualquer
tipo de ressarcimento. Passado algum tempo, eles reouveram suas motos. Mas
o pior foi na hora de ir embora. Cada um deles que tinha veículo automotor,
não poderia sair do país, já que não teriam como apresentar aquele papel da
polícia que confirmava isso. Solução? Vender a moto? Não, era proibido. Dar

67
a moto para algum amigo? Não, proibido. Tacar fogo na moto? Tá maluco,
era proibido também. Então o que fazer? O estado socialista muito bondoso se
ofereceu para ficar com as motos, em forma de doação, e assim liberaria os
caras para voltarem a seus países de origem. Todos eles então “doaram” as
motocas, não receberam nem um centavo de ressarcimento, e todos foram
felizes.
Por isso eu amo o estado. São tão bonzinhos.

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Instrumento de trabalho

Me contava seu Oscar, um senhor de idade, que quando Fidel triunfou e os


revolucionários tomaram o poder, muita gente comemorou nas ruas e em suas
casas. Sua mãe nesse clima de comemoração, colou um cartaz na porta de
casa com os dizeres: “Minha casa é sua casa”. Pelo que ele me relatou,
levaram isso ao pé da letra, e confiscaram aquela casa deles.
Nessa época eles eram de família abastada, tinham casas e inclusive terras.
Apesar de terem comemorado a vitória dos revolucionários, aquela alegria
durou até o momento em que suas casas e terras foram tomadas.
Para mim, a parte da história que ele me contou, que mais me marcou, foi
quando no ato do confisco de uma fazenda, com todo o material e bens que
havia lá dentro, já sem ter mais o que surrupiar, o agente do governo aponta
para os pés do pai do seu Oscar e fala: “me dê também essas botas, afinal,
isso é instrumento de trabalho da fazenda e deve ficar conosco”.
Eu adorava me sentar com os cubanos e bater papo. Sempre me contavam
histórias surreais, mas, culturalmente enriquecedoras. Era melhor que
qualquer aula de história dada por um cara que nunca conheceu a fundo
aquele lugar, isso posso garantir.
Lembro que cada vez que me contavam essas histórias, eu dizia que um dia
iria escrever um livro sobre tudo aquilo. Pois é, demorei mas tá aí.

69
Complemento de renda

Sempre que voltava de férias do Brasil, trazia além dos 8 quilos a mais na
carcaça que eu ganhava naqueles 30 dias (comida faz isso), presentes para
meus amigos cubanos.
Vejam só como esses pequenos presentes faziam muita diferença: um sapato
em uma loja de Cuba na época, custava em torno de 60 dólares, um litro de
leite de caixinha dependendo do lugar, chegava a custar 4 dólares. Levando
em conta que um médico ganhava de salário mensal, 25 dólares (se fosse
especialista), já dá pra imaginar como esses presentes eram benvindos.
Não era incomum ver os professores da faculdade de medicina, após saírem
do hospital, andando de bicicleta com dois baldes de lavagem para os porcos
que criavam em casa. Não, não eram esses porquinhos fofos que agora estão
na moda. Eram porcos daqueles fedorentos mesmo, que eles criavam para
poder vender e complementar a renda.
Lembram que eu contei do evento que me fez parar de acreditar no
socialismo? Pois bem, eu pude ver o mesmo acontecer com um professor de
medicina, Doutor Rodriguez, um médico brilhante que tinha na época seus 60
anos de idade. Ele também deixou de acreditar, mas o fato que o fez se
“converter” foi bem mais dramático que o meu.
Seu filho era médico também, cardiologista, e tinha uma viagem programada
para Santiago de Cuba. O professor Rodriguez, lhe deu um endereço, e pediu
para que quando estivesse em Santiago de Cuba fosse até a casa do mais
famoso e respeitado professor de medicina interna do país, Doutor Roca,
autor de um dos principais livros texto que era utilizado em todas as
faculdades de medicina da ilha, para que lhe mandasse saudações de parte do
seu ex-aluno.
Quando seu filho chegou ao endereço, decidiu pedir informações para
confirmar onde era a casa do Doutor Roca. Avistou um senhor muito idoso,
sentado em uma banca na calçada, vendendo cocadas caseiras, e se
aproximou. Perguntou ao pobre senhor, que com a idade tão avançada ainda
trabalhava vendendo cocadas para complementar a renda, se ele sabia onde
morava o Doutor Roca. O velhinho estendeu a mão e disse: Prazer, Doutor
Roca.
E assim, mais uma pessoa deixava de acreditar naquele sistema.

70
Nem tudo era ruim

Talvez eu tenha passado uma impressão de que tudo era péssimo lá em Cuba.
De forma alguma. Existiam sim muitas bizarrices, mas se formos pensar, no
Brasil também tem tanta coisa ruim, que chega a dar náusea. Nos anos que
passei lá, pude conhecer um povo gente boa demais, hospitaleiro, amigo,
criativo, perseverante, que conseguia sorrir mesmo na escassez. Não via
crianças pedindo esmolas na rua, e sempre via no final da tarde toda a
criançada uniformizada voltando da escola, aparentemente felizes (crianças
têm essa capacidade de serem felizes com pouco).
Nunca vi ninguém morrer por falta de atendimento médico (mas já vi
sofrerem por falta de recursos). Não havia gente viciada em crack andando
como zumbis pelas ruas como vemos em algumas cidades. Não havia guerras
civis entre traficantes e policiais. Conheci excelentes profissionais, que
tinham sede de conhecimento, muito dedicados e que poderiam fazer sucesso
em suas carreiras em qualquer lugar do mundo.
Lembro até de um fato altruísta do governo, quando um dos meus veteranos,
por dificuldades financeiras não tinha mais como permanecer no país. Esse
cara mandou uma carta escrita de próprio punho para Fidel Castro. Por ser um
aluno excelente e dedicado, e estar envolvido com as questões políticas,
recebeu uma bolsa integral do governo e pode permanecer até o final de sua
graduação.
Então explico isso para que não pensem que eu odeio o país de Cuba. Na
verdade, eu amo o país e seu povo. Certamente a experiência de ter morado lá
durante tantos anos, me tonou um ser humano muito mais evoluído. O que eu
odiava era apenas toda a hipocrisia e tirania que fazia o povo sofrer. É como
eu disse lá atrás. O ser humano pode ter tudo, mas se lhe tirarem a liberdade,
nada mais faz sentido.

71
Considerações finais

Há 48 horas, eu decidi que iria escrever mais um livro. Pensei em alguns


temas, até que me veio à mente aquele projeto antigo, lá da época da
faculdade, de escrever sobre as experiências que vivi e presenciei enquanto
morei em Cuba. Fiz um brainstorming e comecei a anotar em tópicos todas as
histórias das quais fui lembrando. Consegui anotar aproximadamente 80
tópicos em poucos minutos. Iria escrever sobre todos eles, mas depois,
pensando melhor, achei que muitos acabariam expondo demais algumas
pessoas, e outros eram demasiado pessoais e talvez não despertassem o
interesse do público.
Já tinha escrito outro livro, “O médico que fingia ser fotógrafo”, e aquele
tinha um significado todo especial para mim, já que eram histórias e
fotografias das minhas filhas. Só que o primeiro livro me tomou meses de
trabalho para ser concluído. Este, no entanto, foi tão delicioso de escrever, tão
fluido, tão divertido, que acabei terminando em dois dias. Apesar do pouco
tempo para a conclusão desse projeto, gostaria de deixar claro que escrevi
com bastante dedicação e coloquei a alma nele. Meu objetivo além de mostrar
muitas curiosidades vividas, era que o leitor tivesse uma leitura agradável,
quase como um bate papo.
Como eu disse anteriormente, esse livro era um sonho antigo, mas que até
hoje não tinha sido colocado em prática por um certo medo das repercussões
que poderia trazer. Veja, esse sentimento de medo infelizmente é algo que
você acaba incorporando ao viver em um regime totalitário. Não tem como
escapar.
Como a grande maioria dos meus amigos cubanos foi embora da ilha, me
sinto mais seguro para escrever todas essas histórias. Mas também tenho em
mente que depois de publicar esse livro, dificilmente poderei voltar até a ilha
sem me sentir inseguro.
Se você acha que eu estou sendo paranoico, fica morando lá uns cinco anos, e
depois me conta valeu?

72
Sobre o autor

Maikel Ramthun é médico, finge ser fotógrafo, e sonha ser escritor.


Especialista em Clínica Médica, Nefrologia e Medicina Intensiva é com muito
orgulho professor do curso de medicina da UEPG.
Amante de boas histórias é autor do livro “O médico que fingia ser
fotógrafo”, e criador da página com o mesmo nome.
Define-se como um pai apaixonado.

73
Me segue lá
Caso queira conhecer um pouco mais sobre meu trabalho (ou melhor, sobre
meu hobby), me segue nas redes sociais e dá uma olhada no meu site. Caso
tenha gostado do livro, divulgue para mais pessoas, e se possível deixa um
review lá na Amazon. Isso vai me ajudar muito!
Caso queixa conversar diretamente comigo, pode mandar mensagem lá na
página do médico que fingia ser fotógrafo, ou manda e-mail pra mim:
maikelramthun@gmail.com
Instagram: http://instagram.com/maikelmd/
Facebook: www.facebook.com/medicofotografo/

74
“Um homem pode ter tudo,
mas se tiram sua liberdade,
nada mais fará sentido”
Maikel Ramthun

75
Table of Contents
Disclaimer
Propaganda
Mexendo os pauzinhos
Dá pra voltar
Me deixa ficar aqui
CAPITULO 2 – Histórias diversas
Cozinheiro fora da lei
Pessoas enjoadas para comer são suas melhores amigas
Salão de beleza caseiro
Os bagos de Fidel
Propaganda enganosa já de manhã
Os eufemismos
E-mail bisbilhotado
Velozes e furiosos
Puxando ferro (ou ferrugem)
Minha conversão
A Odebrecht é aqui
Jeitinho brasileiro... ou libanês
Alô, sou eu, tchau
Não vai ter golpe, mas teve
Pablo, o contrabandista
Os eventos de fachada
Amigo é amigo
Cliente inconveniente
O papelzinho
Deixa crescer!
Os leões em cima da carne
Saudade do Brasil?
Nossa vã filosofia
Corra Lola, corra!!
Medicina por amor
A advertência
Hans, o marido da mulher do Pepe
Dá-me uma televisão, e eu te levarei para onde queiras
A lei foi feita pra se cumprir
Ronc Ronc
Verdades inconvenientes
Voldemort
Melhor matar do que discordar

76
Salvando vidas
Criatividade
Hello darkness my old friend
Paraíso proibido
Prisão ao ar livre
Complexo de inferioridade
Taxista amigo da família
Não força, vai
Unanimidade
É penta!!
As motos “doadas”
Instrumento de trabalho
Complemento de renda
Nem tudo era ruim
Considerações finais
Sobre o autor
Me segue lá

77
Table of Contents
Disclaimer
Propaganda
Mexendo os pauzinhos
Dá pra voltar
Me deixa ficar aqui
CAPITULO 2 – Histórias diversas
Cozinheiro fora da lei
Pessoas enjoadas para comer são suas melhores amigas
Salão de beleza caseiro
Os bagos de Fidel
Propaganda enganosa já de manhã
Os eufemismos
E-mail bisbilhotado
Velozes e furiosos
Puxando ferro (ou ferrugem)
Minha conversão
A Odebrecht é aqui
Jeitinho brasileiro... ou libanês
Alô, sou eu, tchau
Não vai ter golpe, mas teve
Pablo, o contrabandista
Os eventos de fachada
Amigo é amigo
Cliente inconveniente
O papelzinho
Deixa crescer!
Os leões em cima da carne
Saudade do Brasil?
Nossa vã filosofia
Corra Lola, corra!!
Medicina por amor
A advertência
Hans, o marido da mulher do Pepe
Dá-me uma televisão, e eu te levarei para onde queiras
A lei foi feita pra se cumprir
Ronc Ronc
Verdades inconvenientes
Voldemort
Melhor matar do que discordar

78
Salvando vidas
Criatividade
Hello darkness my old friend
Paraíso proibido
Prisão ao ar livre
Complexo de inferioridade
Taxista amigo da família
Não força, vai
Unanimidade
É penta!!
As motos “doadas”
Instrumento de trabalho
Complemento de renda
Nem tudo era ruim
Considerações finais
Sobre o autor
Me segue lá

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