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EBD 07 O CRISTÃO LIVRE DA LEI

TEXTO BÍBLICO: ROMANOS 7 | TEXTO ÁUREO: ROMANOS 7.6


SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA SÁBADO DOMINGO
ROMANOS ROMANOS ROMANOS ROMANOS ROMANOS ROMANOS ROMANOS
7.1-3 7.4-6 7.7,8 7.9-12 7.13-16 7.17-21 7.22-25
á alguns anos, uma igreja batista de Manaus foi tomada por um
movimento em que o pastor da igreja, ao estudar a Bíblia, entendeu que a
comunidade deveria voltar a adotar diversas práticas cúlticas
preconizadas na lei de Moisés. Com isso, elementos como vestimentas
antigas, uso do shofar e adoção das festas do Antigo Testamento passaram
a permear as atividades da igreja, até que a igreja foi forçada a se dividir e
o grupo que buscava restaurar estes elementos veterotestamentários ao
culto cristão teve que fundar outra igreja na mesma cidade.

Qualquer cristão que começa a estudar a Palavra de Deus já deve ter feito
a mesma pergunta: se não vivemos mais no tempo da lei, que aspectos
dela devemos obedecer? Devemos obedecê-Ia por inteiro ou apenas
partes dela? E qual o efeito prático caso venhamos a descumpri-Ia em
algum aspecto? Vamos responder a estas perguntas neste estudo.

O PODER DA LEI MOSAICA SOBRE O JUDEU

A lei judaica tem sua origem três meses após o povo hebreu ter sido
liberto do cativeiro egípcio. Tão logo saíram de Refidim e entraram no
Sinai, Moisés subiu o monte para encontrar-se com Deus e ali recebeu do
Senhor a seguinte promessa: "Vistes o que fiz aos egípcios e como vos
carreguei sobre asas de águias e vos trouxe a mim. Agora, portanto, se
ouvirdes atentamente a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis
minha propriedade exclusiva dentre todos os povos, porque toda a terra é
minha; mas vós sereis para mim reino de sacerdotes e nação santa. Essas
são as palavras que falarás aos israelitas" (Ex 19.4-6).

A partir daquele momento, Deus firmava uma aliança com a descendência


de Abraão, Isaque e Jacó, formando um povo a partir daquele grupo de
fugitivos. Esta nova nação seria diferente das demais, pois seria santa,
separada por Deus para si. A lei, então, serviria para dar a Israel as
orientações do Senhor para sua conduta, diferenciando-se, desta forma,
dos demais povos. Por isso, percebemos o valor dado pelos judeus
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modernos à lei como um orientador de sua cultura, sua individualidade
em relação aos demais povos da terra.

A lei também tinha a função de ser a luz de Deus para os povos ao seu
redor. A intenção do Senhor ao escolher Abraão para gerar um povo para
si foi clara: ''Abençoar e os que te abençoarem e amaldiçoarei quem te
amaldiçoar; e todas as famílias da terra serão abençoadas por meio de ti"
(Gn 12.3). A lei, portanto, deveria ter um valor normativo e positivo na
vida das pessoas. Não era para ser encarada como uma mera relação de
rituais religiosos, mas como orientações para uma vivência agradável com
Deus, com o próximo e com a terra.

A INFLUÊNCIA DA LEI NO MUNDO CRISTÃO

Desde o início, a religião cristã foi formada por uma mescla de pessoas
oriundas da religião judaica. Jesus, nascido de linhagem davídica, escolheu
judeus para seus 12 apóstolos. Seu ministério foi originalmente voltado
apenas para os judeus, sendo aberto para pessoas de outros povos
conforme chegavam a ele (Mc 7.24-30). O próprio Jesus afirmou que veio
para cumprir a lei, não para aboli-Ia (Mt 5.17-18), e validou seus
ensinamentos morais (Mt 19.17,18). No início, os cristãos de Jerusalém
adoravam a Deus nas casas e no templo (At 2.46) e adotaram as Escrituras
judaicas em seus atos religiosos (At 3.18; 8.26-40), por entenderem que
elas revelavam sobre a vinda de Jesus Cristo e sua função como o Messias
prenunciado no Antigo Testamento.

Quando analisamos os textos do Antigo Testamento, porém, percebemos


que a igreja, desde muito cedo, abandonou diversas práticas do Antigo
Testamento, em especial as celebrações. A Páscoa foi mantida por causa
do sacrifício de Jesus, mas as festas dos tabernáculos, da lua nova e outras
foram abolidas. O dia de reunião das comunidades migrou para o domingo
(At 20.7; 1 Co 16.2), apesar de não ter o mesmo caráter restritivo do
sábado judaico, ao qual o próprio Jesus deu um claro sentido (Mc 2.23-28;
Lc 14.1-6). A alimentação foi liberada, mas desde que não fosse sacrificada
a ídolos. Portanto apesar da herança judaica que o cristianismo recebeu,
suas práticas religiosas foram abandonadas porque eram meras sombras
ou indicadores do que viria a acontecer na figura de Jesus Cristo (CI 2.13-
17).

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A VITÓRIA DA GRAÇA SOBRE A LEI

Com isso em mente, conseguimos compreender o ensinamento de Paulo


no capítulo 7. Falando ao grupo de judeus que desejava forçar os gentios a
adotar suas práticas, em especial a circuncisão, Paulo afirma que todos
morreram para a lei, por meio do corpo de Cristo (v. 4). Para tal, usa um
argumento jurídico que nota que um casamento só possui valor legal até
que um dos cônjuges venha a perecer (v. 2,3). Com a morte do corpo e do
pecado em Cristo Jesus, o judeu era liberto da lei para servir conforme o
novo modo do Espírito (v. 6).

Esse novo modo de vida leva o cristão a agir segundo a lei do amor. Foi
pelo prisma do amor que Jesus sintetizou toda a lei em apenas dois
mandamentos: amor a Deus e ao próximo como a si mesmo (Mt 22.36-40).
Estes mandamentos, já existentes nas Escrituras (Dt 6.5; Lv 19.18),
podiam ser desdobrados em todos os outros existentes e lhes davam
sentido. Ou seja, somente conseguimos olhar para o próximo como
alguém digno através das lentes de Cristo, que se sacrificou por todos nós,
apesar de sermos indignos de sua misericórdia.

Viver segundo a graça divina significa viver segundo o seu amor,


permitindo que nossas ações sejam conduzidas espontaneamente, e não
como uma mera vivência ritualística. Passamos a seguir as orientações
divinas não por obrigação, mas porque amamos a Deus e queremos
agradá-lo. Passamos a ser leais com o outro não porque a Bíblia nos
manda, mas porque desejamos o seu bem assim como pensamos em nosso
próprio bem-estar. O amor ressignifica a vida e facilita a condução de
nossas jornadas.

A LUTA CONTRA O PECADO

A lei, então, é apresentada por sua função didática: como revelação do que
é pecado, ou seja, do que fere o padrão de conduta divino (v. 7). Ao revelar
o que seria pecado, a lei acaba tendo um efeito contrário, pois produz um
efeito cobiçoso (v. 8-11) que leva o homem a uma luta interna entre fazer
a vontade de Deus ou ceder às paixões carnais (v.14-20).

É impressionante perceber o sofrimento de Paulo em sua luta contra o


pecado nas palavras que fecham o capítulo. O apóstolo dos gentios, um
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dos maiores pregadores do evangelho da história, demonstrou possuir os
mesmos conflitos que nós, ao afirmar que ele possuía prazer na Lei de
Deus, mas que seu corpo, guiado pela lei do pecado, guerreava contra sua
mente (v. 21-23). A lei, portanto, era insuficiente para fazê-lo vencer essa
luta, sendo necessário um libertador externo para ajudar Paulo (e todos
nós) a vencer essa luta (v. 24). E este libertador, como veremos mais
detidamente no próximo estudo, é o próprio Jesus Cristo.

CONCLUSÃO

Precisamos tomar extremo cuidado com movimentos contemporâneos


que visam restaurar práticas religiosas veterotestamentárias das quais
fomos desobrigados quando Cristo morreu por nossos pecados. O
diferente pode ser especialmente encantador, ainda mais se vier com
roupagem moderna ou superprodução, como acontece em algumas
igrejas. Porém, Jesus, em nenhum momento exigiu de seus discípulos que
eles seguissem tais práticas. Não coloquemos sobre nós jugos que Jesus
não tinha a intenção de nos impor.

Compreender a forma como Jesus Cristo entendia a lei nos leva a enxergá-
Ia com outros olhos. A lei serviu para dar uma identidade ao povo de
Israel frente às nações pagãs que as cercariam na terra prometida. Hoje,
como membros de uma nova diáspora espiritual, onde estamos
espalhados pelo mundo, somos instados a adotar o padrão de vida que
Cristo apresentou. Não o devemos fazer por obrigação, mas por amor, com
a consciência de que somos embaixadores de Cristo na terra (2Co 5.20),
representantes de seu reino entre as nações.

A luta contra o pecado é um fato da vida cristã que não deve ser ignorado
ou menosprezado. Não há nível de maturidade cristã que venha a alijar
completamente de nossas vidas esse embate entre a carne e o espírito.
Contudo, conforme caminhamos e nos aperfeiçoamos na fé,
compreendemos que somos limitados, falhos e, portanto, totalmente
dependentes do Espírito Santo para nos ajudar a vencer essa batalha.
Como Paulo diz, graças a Deus por nosso Senhor Jesus Cristo (v. 25), pois,
sem ele, seria impossível para nós vencermos a batalha contra o mal. Com
Cristo ao nosso lado, porém, temos condições de resistir às tentações e
conduzir a nossa vida espelhando o exemplo de Cristo para aqueles que
nos rodeiam.
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