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As ideias cientificistas e evolucionistas no debate

intelectual no Ceará nos anos 1880


The scientistic and evolutionary ideas in the intellectual debate in
Ceará in the 1880s
Jamily Marciano Fonseca*
Mestranda em História Social
Universidade Federal do Ceará-UFC
jamilyfonseca@hotmail.com

RESUMO: O artigo aborda a produção intelectual em Fortaleza, capital da província do Ceará,


durante a década de 1880. Discute-se o modo como as teorias cientificistas e evolucionistas
europeias foram recebidas, bem como influenciaram as formas como os letrados passaram a
pensar sobre a sociedade em que viviam nas últimas décadas do século XIX, sua população e
natureza. Analisa-se como o cientificismo e outras correntes teóricas evolucionistas contribuíram
para as reflexões que ajudaram a construir uma sociedade e identidade do Ceará.

PALAVRAS-CHAVE: Cientificismo, Evolucionismo, Letrados de Fortaleza

ABSTRACT: The article discusses the intellectual production in Fortaleza, capital of the
province of Ceará during the 1880s. Discusses how the European scientism and evolutionary
theories were received and influenced the ways in which intellectuals have come to think about
the society they lived in the last decades of the nineteenth century, its population and nature. It is
shown how scientism and other evolutionists theoretical currents contributed to the reflections
that helped to build a society and identity of Ceará.

KEYWORDS: Scientism, Evolucionism, Intellectuals of Fortaleza

Introdução

A partir de meados do século XIX, o desenvolvimento da cultura cafeeira no Brasil


intensificou sua participação no mercado econômico mundial. Esse aumento do contato com as
nações consideradas modelos de civilização, principalmente europeias, inspirou o país a
remodelar-se materialmente. Na mesma proporção, a sua inteligência também acompanhou esse
processo de mudanças, renovando seu modo de pensar.

A intensificação das atividades econômicas proporcionou o aumento do fluxo de


mercadorias, bem como de livros, informações e novas correntes teóricas dentro do território
brasileiro. O fluxo de ideias ocorreu tanto entre as províncias, como entre estas e os países
estrangeiros, principalmente europeus.

*Estudante do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Ceará-UFC e bolsista


FUNCAP.

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Essas mudanças ocasionaram a chamada “crise da renovação das ideias”, que de acordo
com Candido havia sido assinalada por Sílvio Romero e ocorreu devido ao choque entre a
tradição escolástica e as ideias modernas, tendo se iniciado a partir de 1870, devido à entrada de
novas correntes do pensamento europeu no ambiente intelectual brasileiro.1

Positivismo, evolucionismo, crítica religiosa, naturalismo, realismo, racialismo e


transformações do direito e da política foram algumas das linhas de pensamento que se
popularizaram em fins do século XIX e contribuíram para a elaboração de ideais que visavam
“uma ampla reforma social (...) [a fim de] melhorar o aspecto físico, moral e mental da ‘raça
nacional’”2.

Diante das novas correntes de pensamento, diversos intelectuais, políticos e literatos


brasileiros, preocupados em atualizar o país, buscavam fazê-lo semelhante à Europa e aos
Estados Unidos, no tocante ao progresso material e social. Segundo Schwarcz, o discurso
evolucionista e determinista que adentra no Brasil da partir dos anos 1870, proporcionou o
desenvolvimento de um novo raciocínio para explicar as diferenças internas, pois por meio das
teorias racialistas, os políticos e os letrados disseminariam a ideia de que o lugar de cada indivíduo
na sociedade seria estabelecido pelas diferenças físicas, bem como as diferenças sociais e
econômicas seriam explicadas3.

De acordo com Alonso, em fins do século XIX não havia um campo intelectual
autônomo no Brasil e, por isso, toda manifestação intelectual era imediatamente um evento
político. Logo, a denominada “renovação das ideias” esteve atrelada ao momento político pelo
qual o Brasil passava nesse período. Concordamos com a autora quando ela afirma que
“argumentos e conceitos de teorias estrangeiras não foram adotados aleatoriamente, sofriam um
processo de triagem”, isto é, “havia um critério político de seleção”, pois os intelectuais
escolheram determinadas teorias e práticas no intuito de subsidiar suas compreensões acerca da
realidade que viviam, bem como para “desvendar linhas mais eficazes de ação política”4.

A crise do Segundo Reinado, iniciada a partir de meados dos anos 1860, proporcionou
discussões sobre a reforma do regime de trabalho, a secularização das instituições e a
reestruturação do sistema político. Como resultado dessa crise política e das reformas que

1 Ver: CANDIDO, Antônio. O método crítico de Sílvio Romero. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988.
2 SOUZA, Vanderlei Sebastião de. Por uma nação eugênica: higiene, raça e identidade nacional no movimento
eugênico brasileiro dos anos 1910 e 1920. Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 146-166,
jul/dez 2008. p. 146.
3 Ver: SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930).

8. impressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.


4 ALONSO, Angela. Ideias em movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p.

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visavam à modernização do império na virada de 1860 para 1870, houve uma nova configuração
da “estrutura de oportunidades políticas”, em que foi possível a participação de grupos sociais
antes alijados. Isto foi resultado da alteração no padrão da imprensa e da reforma do sistema de
ensino que aumentaram as oportunidades de meios de expressão política. A possibilidade de
manifestação pública de grupos sociais antes marginalizados deu condições de manifestação para
um novo movimento político-intelectual, que passou a contestar o poder imperial. Foi nessa
conjuntura que teve lugar o movimento da geração de 1870 que privilegiou mais suas posturas
intelectuais que as políticas.5

Nessa época, o Ceará intensificou suas relações econômicas com outras províncias
brasileiras, bem como com países do exterior, em decorrência do seu desenvolvimento
econômico, ocorrido a partir da ampliação da produção e exportação do algodão, o que
ocasionou o crescimento urbano e demográfico de sua capital, Fortaleza. De acordo com
Cardoso, a partir de 1860, o comércio do algodão e a migração da população sertaneja fugida da
seca colaboraram para que a cidade se formasse como um espaço de atuação de vários grupos
sociais.6

Nesse sentido, Oliveira assevera que esse também é um momento em que diversos
estudantes transitavam na província do Ceará devido ao aumento dos cursos preparatórios e
secundários, além da saída e da entrada daqueles que realizavam seus cursos superiores em outras
províncias, principalmente em Recife e no Rio de Janeiro.7

As novas ideias permearam o pensamento dos letrados não somente em Fortaleza, mas
em todo o Brasil, os quais compuseram a chamada “geração de 1870”8, ou “geração modernista
de 1870”9. A maioria dos pensadores que fizeram parte dessa “geração”, marcada por correntes
de pensamento europeias de cunho científico, evolucionista e racialista, pertencia principalmente
às camadas mais abastadas da sociedade brasileira.

No caso de Fortaleza, alguns dos intelectuais que se reuniram na cidade nos anos 1870, se
associaram novamente na década subsequente e influenciaram outros pensadores, os quais, por
meio do contato com as novas ideias europeias, foram impulsionados a formular modos de

5 ALONSO. Ideias em movimento, p. 87-96.


6 CARDOSO, Gleudson Passos. “Cientificamente interpretadas e utilitariamente aproveitadas”: a Academia Cearense
e a soberania do conhecimento e das leis científicas (1894-1904). Intellectus, UERJ, ano 6, v. 1, p. 41-60, 2007.
7 OLIVEIRA, Almir Leal de. O Instituto Histórico Geográfico e Antropológico do Ceará: memória, representações e

pensamento social (1887-1914). 2001. Tese (Doutorado em História Social) - Pontifícia Universidade Católica, São
Paulo, 2001, p. 29-127.
8 VENTURA, Roberto. Estilo tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil (1870-1914). São Paulo:

Companhia das Letras, 1991. p. 10.


9 SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 3. ed. Editora

Brasiliense, 1983. p. 78.

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pensar a realidade em que viviam e a criar soluções que a inserissem no mundo considerado
civilizado ou desenvolvido.

O cientificismo e as novas leituras sociais dos anos 1870 aos 1880

As décadas de 1870 e 1880 foram marcadas por debates, seja na literatura ou na imprensa
partidária, acerca de diversos projetos sociais, econômicos e políticos para o Brasil que passava
por transformações. Interpretando esse processo de mudanças, várias foram as ideias e posturas
adotadas pelos letrados, as quais podem ser notadas nos periódicos que circularam no período.

Para o caso do Ceará, privilegiaremos as reflexões da “Mocidade Cearense”: um grupo de


letrados que “participou das campanhas em prol do racionalismo filosófico e do movimento
abolicionista, entre as décadas de 1870 e 1880, com a Academia Francesa, Sociedade Libertadora
Cearense, Centro Abolicionista e Clube Literário”. A maioria dos autodenominados “moços do
Ceará” provinha das classes sociais mais bastadas da sociedade, as quais exerceram poder na
política local ou pertenciam aos grupos médio-burgueses que emergiram com a economia
algodoeira, cujo principal entreposto comercial do Ceará era sua capital.10

Em Fortaleza, podemos destacar no ano de 1872 a fundação da Academia Francesa, uma


associação literária e filosófica onde estiveram reunidos Raimundo Antônio da Rocha Lima,
Capistrano de Abreu, João Lopes Ferreira Filho, Thomaz Pompeu de Sousa Brasil Filho,
Xilderico de Farias, entre outros. Homens de letras que atuaram na divulgação das novas ideias
entre a elite letrada, principalmente do ideário positivista, por meio do jornal maçom Fraternidade
e de conferências proferidas na Escola Popular, voltada para a formação intelectual dos pobres e
operários.11

Atentando para a supervalorização do discurso científico europeu em fins do século XIX,


verificamos a influência de Capistrano de Abreu e de sua leitura cientificista da sociedade,
elaborada durante os anos 1870, sobre os homens das letras do Ceará no que se refere às suas
posturas intelectuais e políticas que reverberaram nos anos posteriores. No Ceará, Capistrano
participou da Academia Francesa, tendo contribuído no jornal Fraternidade, no Constituição e
proferiu palestras na Escola Popular. O autor partiu para o Rio de Janeiro em 1875, onde se
estabeleceu e não mais retornou à terra natal.

10 CARDOSO, Gleudson Passos. Literatura, imprensa e política (1873-1904). In: NEVES, Frederico de Castro
(Org.) et al. Intelectuais. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002, p. 45.
11 Ver: BARREIRA, Dolor. História da literatura cearense. Edição fac-similar. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1986. Vol. I,

p. 85-86; e NEVES, Berenice Abreu de Castro. “Intrépidos romeiros do progresso”: maçons cearenses do Império.
In: NEVES et al. Intelectuais, 2002.

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De acordo com Wehling em seu estudo acerca da fase cientificista de Capistrano, o
cientificismo foi “a transformação da ciência de método de abordagem em visão de mundo”12
que se limitou a “uma ‘versão popular’ da ciência, afirmando determinismos e certezas absolutas
que a ciência verdadeira estava longe de possuir, ou sequer desejar”13. Segundo o autor, a
influência cientificista foi determinante na obra de Capistrano entre 1874 e 1880 e o ajudou a
pensar a evolução histórica da sociedade a partir da transposição de determinadas leis e conjuntos
conceituais de uma ciência para outra, no caso das ciências físicas e biológicas para a história e a
sociologia.14

Rocha Lima também serviu de inspiração para os letrados de Fortaleza nos anos 1880.
Tendo falecido jovem, aos 23 anos, em 1878, esse autor foi bastante admirado tanto por suas
reflexões como pelo conhecimento e interesse pelo pensamento europeu do período, além das
atividades exercidas em tão pouco tempo de vida. Rocha Lima havia participado da Academia
Francesa, proferiu conferências na Escola Popular e fez contribuições ao jornal Fraternidade. A
trajetória de suas influências teóricas assemelha-se muito a de Capistrano de Abreu, pois ambos
teriam lido primeiramente Taine e Buckle, passaram para Comte e daí para Spencer.15

Ambos os autores pensaram acerca da evolução social e relacionaram suas leituras à


realidade da província do Ceará nos anos 1870. Notar o modo como Capistrano de Abreu e
Rocha Lima realizaram suas leituras acerca do Ceará, de sua natureza e população, nos ajuda a
refletir sobre as conexões intelectuais entre esses pensadores e os da década posterior. Pois foi
por meio da interação entre os estudantes secundaristas e das atividades da Academia Francesa,
encerradas em 1875, que os primeiros laços intelectuais teriam sido estabelecidos. Por isso, foram
marcados por uma visão de mundo cientificista-naturalista a qual também pode ser encontrada
nos movimentos políticos da abolição dos escravos, bem como nos movimentos literários da
década de 1880 que agitaram a capital do Ceará16 como mostraremos a seguir.

Na capital da província, entre os anos 1877-1880 ocorreu uma seca que representou uma
fratura demográfica, com a redução de mais de um terço da população. O Ceará atraiu a atenção
e a compaixão de todo o império e, por meio desse fenômeno climático, foi gerado o sentimento
de unidade nacional para combater a miséria dessa província. A seca de 1877 foi a primeira a ter

12 WEHLING, Arno. Capistrano de Abreu – a fase cientificista. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio
de Janeiro, Departamento de Imprensa Nacional, v. 311, abril/junho 1976, p. 45.
13 ______. Capistrano de Abreu, p. 46.
14 ______. Capistrano de Abreu, p. 51.
15 Ver introdução feita por Djacir Menezes para a obra: LIMA, Raimundo Antônio da Rocha. Crítica e literatura. 3. ed.

Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1968. (Coleção Carnaúba, v. 5)


16 OLIVEIRA, Almir Leal de. Universo letrado em Fortaleza na década de 1870. In: NEVES et. al. Intelectuais, p. 28-

29.

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repercussão nacional e internacional e a “atingir setores médios dos proprietários de terra”,
trazendo “um volume considerável de recursos para as vítimas do flagelo e fez com que as
bancadas nortistas no Parlamento descobrissem a poderosa arma que tinham nas mãos, para
reclamar tratamento igual ao dado ao Sul”.17

Com o fim da seca no início dos anos 1880 e com as novas ideias e consciência do poder
de reivindicação ao governo central, os letrados da província se reuniram e houve a revitalização
das atividades intelectuais que haviam sido interrompidas. Nessa época, uma das bandeiras de luta
que se fortaleceram e geraram discussões no Ceará e em grande parte do império foi o
abolicionismo.

Os “moços do Ceará” que atuaram na década de 1880, como seus antecessores e em


sintonia com outros pensadores do período, passaram a pregar a redenção social por meio da
“abolição” da escravatura, onde o engajamento do homem das letras em nome desses ideais seria
condição sine qua non para que ocorresse a atualização da sociedade brasileira de acordo com os
moldes europeus.18

A questão abolicionista foi motivo de discussões e cisões políticas em todo o Brasil. Em


1871, com a decretação da Lei do Ventre Livre, ocorreu a divisão do Partido Conservador a nível
nacional. No Ceará, tal divisão havia ocorrido em 1863 quando Domingos Jaguaribe e João da
Cunha Freire saíram da colaboração com o jornal Pedro II e fundaram o Constituição. Na província,
houve também a cisão da ala liberal em que os Paulas fundaram o jornal Gazeta do Norte e os
Pompeus, o Cearense.19

Em Fortaleza, com o objetivo de promover a libertação dos trabalhadores escravos, o


movimento abolicionista se fortaleceu nos anos iniciais do penúltimo decênio do século XIX e
foi representado por letrados (tais como João Lopes Ferreira Filho, Antônio Bezerra, Antônio
Martins, Justiniano de Serpa, Manoel de Oliveira Paiva e alguns daqueles que haviam atuado na
Academia Francesa) que colaboravam em diversos periódicos que circulavam na cidade, como o
jornal Gazeta do Norte, Libertador, O Domingo, a revista Avenida, A Quinzena, entre outros.

No Libertador, jornal abolicionista, órgão da Sociedade Cearense Libertadora, que circulou


em Fortaleza durante os anos 1880, encontramos o artigo “Consequencias da emancipação”,

17 ALBUQUERQUE Apud RIOS, Kênia Sousa. Apresentação: A Comissão Científica e a seca do Ceará. In:
CAPANEMA, Guilherme Schurch de; GABLAGLIA, Giacomo Raja. Estudos sobre seca: escritos de Guilherme
Capanema e Raja Gabaglia Fortaleza: Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, Museu do Ceará, 2006, p. 14.
(Coleção Comissão Científica de Exploração, 2).
18 BARREIRA, História da literatura cearense, p. 78-79.
19 Ver introdução de Djacir Menezes à obra: LIMA, Raimundo Antônio da Rocha. Crítica e literatura. 3. ed. Fortaleza:

Imprensa Universitária do Ceará, 1968. (Coleção Carnaúba, v. 5)

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dividido em três partes em publicações diferentes, onde percebemos a crença em que, uma vez
emancipados, os ex-escravos haviam de se entregar “á preguiça, á vadiação, á embriaguez e ao
roubo”20, por outro lado, havia também uma preocupação em mostrar as “vantagens” da
libertação dos escravos:

Quando muitos philantropos da Europa não podiam acreditar na possibilidade


de conseguir, que em poucos annos a raça africana fizesse a evolução da semi-
barbaria da escravidão para o maximo estado de civilisação, no goso de todos
os direitos de cidadão de uma República perfeitamente democrática, vemos que
esse prodigio está realisado: ha negros nas Universidades, nas Academias, nos
Collegios e nas Echolas; ha negros medicos, advogados e em todas as
profissões; ha negros deputados e senadores; ha negros padres e em todos os
ramos da religião christan21.

O título “Consequencias da emancipação” nos faz refletir sobre a possibilidade de um


projeto que visava à libertação dos escravos. Esse texto poderia ter contribuído para a formação
da opinião da elite letrada acerca da ocorrência desse evento, pois o autor cita alguns de seus
efeitos. A palavra “emancipação” na nomeação do texto remete à ideia de que os escravos
poderiam ter certa maturidade intelectual para defender e lutar por sua liberdade, no entanto, no
decorrer da leitura, em especial no trecho destacado, notamos que a “raça africana” era
considerada inferior, já que precisaria evoluir. Logo, compreendemos que os letrados, os quais
teriam a consciência sobre os “benefícios” da libertação dos escravos, acreditavam serem os
“libertadores” por estarem à frente desse processo.

De acordo com o texto, pelo fato de os trabalhadores escravos serem negros, de antemão
eles eram considerados naturalmente degenerados, entregues aos vícios, e para mostrar que tal
malefício não havia de se realizar na sociedade em que viviam, os libertadores expunham
exemplos em que isso não ocorreu, como no caso das sociedades europeias, que eram tidas como
modelos a serem seguidos.

O contato com as ideias cientificistas proporcionou aos letrados de Fortaleza um novo


modo de ler a sociedade em que viviam, a qual passava por transformações decorridas das
atividades comerciais e das migrações dos retirantes fugidos da seca que assolava o interior do
Ceará.

Dentre os aspectos que eram mais presentes em suas reflexões, encontrava-se a formação
do chamado “povo cearense” e de suas “aptidões” para a sobrevivência no território que
habitava, fatores que, segundo os intelectuais, haviam contribuído para sua “evolução”. Vale

20 Parte I do artigo intitulado “Consequencias da emancipação”. In: BPMP, Núcleo de Microfilmagem. Jornal
Libertador. Fortaleza, 15 jan. 1881, p. 3, rolo nº. 127-A.
21 Parte II do artigo intitulado “Consequencias da emancipação”. In: BPMP. Libertador, 15 jan. 1881, p. 3.

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salientar que as ideias foram selecionadas e adaptadas pelos letrados para pensarem sobre suas
peculiaridades e experiências na cidade e como membros do império.

Raça e natureza

O uso do pensamento cientificista-naturalista que esses letrados realizavam se relacionava


com o que era entendido por progresso, bem como os fatores identificados como subsídios por
meio dos quais o Ceará seria reconhecido como desenvolvido e civilizado.

Embasados nas evidências da experiência, é perceptível também a constante naturalização


da superação das adversidades naturais. A natureza local era apresentada como um ambiente
desprovido de riquezas, diferentemente de outras localidades onde o meio físico teria sido
generoso com seus habitantes. Na luta em prol da libertação dos escravos, encontramos as
seguintes ideias no texto intitulado “Abaixo a escravidão”, que foi uma espécie de editorial
publicado no primeiro número do jornal Libertador a circular na cidade:

Se uma parte do império só sabe elevar-se auxiliada pelo braço do escravo, que
lhe proporciona as comodidades da riqueza, alem da uberdade do solo, da
regularidade das estações, da doçura do clima, que tudo lhe é favorável, nós os
desamparados da fortuna, que luctamos com as calamidades inherentes a
posição geographica de nosso trovão, para quem a vida é difficil e exige
constante trabalho; nós os beduinos do deserto, acostumados a arrancar do
solo o sustento quotidiano com muito suor da fronte, devemos orgulhar-nos de
termos sido os primeiros que enunciamos o trabalho livre e que primeiro
extinguiremos o elemento servil, que tanto destoa do nosso adianta[mento]22.

A parte do império assinalada no texto pelos letrados provavelmente se refere às


províncias das regiões Sul e Sudeste, que à época se destacavam economicamente por serem
grandes produtoras e exportadoras de café. Segundo esse discurso, essas províncias, além de
possuírem solo fértil e clima agradável, viviam comodamente à custa do trabalho escravo.

De acordo com Araújo, até os anos iniciais do século XX a ideia de natureza que
prevalecia entre a elite política e cultural brasileira era a de que o Brasil tinha uma “vocação
agrária”. Havia a evocação da “fecundidade divina da terra”, representada, principalmente pela
economia cafeeira; a questão apresentada era a da gestão da terra: era preciso uma boa gestão da
natureza, pois era através dela que o país tomava seu lugar dentre as nações civilizadas23.

Logo, ao analisarmos o discurso dos intelectuais em Fortaleza, percebemos que o Ceará


destoaria desse Brasil fecundo, pois, por estar localizado numa terra árida, era preciso que seus

22Libertador, 1 jan. 1881, p. 1.


23Ver: ARAÚJO, Hermetes Reis de. Da mecânica ao motor: a ideia de natureza no Brasil no final do século XIX.
Projeto História, São Paulo, n. 23, p. 151-167, nov. 2001.

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habitantes, os “desamparados da fortuna”, despendiassem um esforço maior para conseguirem o
básico para sobrevivência.

No trecho do texto assinalado acima, podemos notar que para os chamados


“libertadores”, era motivo de orgulho o fato de o Ceará, apesar de todas as dificuldades impostas
pela natureza, ter sido a primeira província a proclamar a luta contra o cativeiro em favor do
trabalho livre, visando o progresso. Eles estavam exaltando os habitantes de sua terra, ao mostrar
que mesmo acostumados ou adaptados ao trabalho árduo, pois não tinham regalias,
manifestavam o interesse em estar atualizados ao perfil de civilização e lutar pela liberdade.

A partir do texto, percebemos que havia a crença de que a natureza não tinha sido
generosa com o homem do Ceará, o qual, devido ao clima seco e árido e ao solo pouco fértil, se
esforçou mais para obter o alimento e sobreviver em meio às adversidades naturais, comparado
aos habitantes das áreas consideradas mais férteis do território brasileiro.

Na mesma acepção, para Rocha Lima o “homem deixa de ser uma passividade diante de
Deus e da natureza como no fatalismo teológico ou metafísico, para tornar-se um reagente
contínuo, um Prometeu sem Cáucaso, que vai cada dia, pelo progresso de sua inteligência,
roubando à natureza o segredo de sua onipotência”24. Ou seja, o homem não esperava mais pela
providência divina, mas buscava mudar sua realidade em favor do próprio progresso intelectual,
enfrentando as dificuldades impostas principalmente pelas forças naturais.

Notamos que a forma de pensar dos colaboradores do Libertador, estava em consonância


com as reflexões de Rocha Lima, já que a vontade do homem em lutar contra a natureza e
superá-la era assunto comum, recorrente e abordado a partir de uma linha de raciocínio
semelhante em que o homem galgaria os aspectos e as forças do meio físico e progrediria mental
e socialmente.

Segundo esses intelectuais, a luta pela sobrevivência do homem do Ceará em uma terra de
difícil habitação e cultivo mostrava o quanto ele estava adaptado a esse ambiente. Tal adaptação
era apresentada pelos letrados de Fortaleza estando relacionada à miscigenação das “raças”,
branca e indígena principalmente, que teria contribuído para a formação física e moral de um tipo
humano diferenciado.

O debate sobre as raças atingiu seu auge nos anos finais do século XIX. Legitimado pela
ciência, o racismo despertou novas perspectivas intelectuais acerca das transformações da espécie
humana e engendrou pensamentos racialistas.

24 LIMA. Crítica e literatura, p. 147.

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Para Murari, o racialismo difere do racismo, pois aquele não precisa de uma justificação
baseada em estudos científicos. Essa autora resume a teoria racialista como o estudo da questão
da afirmação da superioridade da raça branca sobre a negra e a amarela, condenando a
miscigenação, pois esta originaria seres fracos, inferiores, degenerados e incivilizáveis, bem como
o estudo das diferenciações morais, espirituais e nacionais existentes dentro da raça branca25. O
tema da raça é bastante presente nas narrativas da “geração” de intelectuais da década de 1880 no
Ceará.

Para entendermos como o racialismo se afigura no pensamento dos letrados em


Fortaleza, apresentamos o discurso de Antônio Bezerra no seu livro intitulado O Ceará e os
cearenses, que reúne artigos publicados em Manaus no jornal A Pátria.

Nessa obra encontra-se o artigo homônimo do livro em que Bezerra expõe sua crença
“de que o pôvo cearense tem no sangue uma parte do sangue do cigano”26. Bezerra afirma que
“da fusão desses dois elementos [português e índio] e do elemento europeu [cigano] se formou a
população do Ceará”.27

Ora, de acordo com Louis Agassiz (1807-1873) e Joseph Arthur de Gobineau (1816-
1882), estudiosos franceses, cujos pensamentos eram conhecidos pelos intelectuais da região Sul e
Sudeste do Brasil, o homem do Ceará, constituído da forma como Bezerra afirmava, era sem
dúvidas degenerado, uma vez que esses estudiosos europeus consideravam a miscigenação das
raças um fator negativo.

Segundo Ventura, um dos principais problemas antropológicos do século XIX foi o


debate travado entre monogenistas e poligenistas surgido a partir do conceito de degeneração
elaborado por Georges-Louis Leclerc ou Conde de Buffon (1707-1788). Esse naturalista francês
do século XVIII, identificado com a corrente monogenista, estudou os efeitos do cruzamento
entre cavalos e asnos e detectou uma degeneração no produto (o mulo, que é estéril), no entanto,
defendia que essa degeneração se restringia ao mundo animal e que havia uma “grande e única
família de nosso gênero humano”, que se multiplicou e se dispersou pelo mundo, tendo se
modificado em decorrência das ações do meio físico e ao modo de vida que levava e, assim, as
diversas raças foram produzidas28.

25 Ver: MURARI, Luciana. A mestiçagem da alma: literatura crítica e ciência na construção do discurso racial no
Brasil pós 1870. Intinerários, Araraquara, n. 23, p. 175-190, 2005.
26 BEZERRA, Antônio. O Ceará e os cearenses. Edição fac-similar. Fortaleza: Fundação Waldermar Alcântara, 2001, p.

19. (Coleção Biblioteca Básica Cearense).


27 ______. O Ceará e os cearenses, p. 15.
28 Ver: VENTURA. Estilo tropical.

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As ideias de Buffon foram retomadas no século seguinte sob uma óptica diferenciada por
Agassiz e Gobineau, que negaram a existência de uma origem comum dos homens, defendendo o
poligenismo, ou a separação das raças, e que a miscigenação resultaria em homens degenerados.
Logo, de acordo com esses autores, o Brasil enquanto país formado por um povo miscigenado
estava condenado à degeneração. Essas teorias das desigualdades entre as raças adentram o Brasil
nas três últimas décadas do século XIX, juntamente com as ideias naturalistas, cientificistas,
positivistas e evolucionistas.

Kury, em seu estudo sobre a expedição científica comandada por Agassiz no Brasil na
região Amazônica entre os anos de 1865 e 1866, afirma que o naturalista avaliava negativamente
o que chamava de hibridizações, pois “o indivíduo resultante do cruzamento de diferentes raças
perde as melhores características das raças puras”29. Ainda acerca do pensamento de Agassiz,
Roberts acredita que o naturalista francês admitia a existência de uma ligação entre as espécies
que surgiram no transcorrer da história terrestre, porém destacava que a relação não era do tipo
“descendência familiar”, mas sim uma conexão de “natureza imaterial e superior”, ou seja, uma
ligação entre as ideias na mente do Criador30.

Para Gobineau, de acordo com Sousa, a questão étnica teria sido a responsável pelo
declínio das civilizações antigas. E isso ocorreria pelo fato de uma raça originalmente pura, ao
misturar-se com outras, se tornava degenerada e, assim, perdia as suas qualidades essenciais,
levando ao fim essas civilizações31.

Contrariamente a essa forma de pensar, Antônio Bezerra, no artigo mencionado


anteriormente, considerava a mistura do branco português com o cigano um fator positivo ao
afirmar que

Pâra maior semelhança com os tipos ancestrais, as mulhéres cearenses são de


uma fecundidade sem igual no país.
Conhecem-se casais que chegaram a produzir até vinte e oito filhos. É a lei de
origem, essa fórma mediata da hereditariedade que chamam atavismo pêlo que
os sêres voltam ás formas primitivas.
Nêsse ponto dêve têr influído o elemento tzigano que realmente continúa ainda
a se desenvolver do mesmo modo. Do indígena nada se recebeu, porque a
poligamia só pôde trazêr, como trouxe, a degeneração e a inferioridade daquella
raça.32

29 KURY, Lorelai B. A sereia amazônica dos Agassiz: zoologia e racismo na “Viagem ao Brasil”. Revista Brasileira de
História, São Paulo, v. 21, n. 41, p. 157-172, 2001. p. 169.
30 Ver: ROBERTS, Jon. Louis Agassiz: poligenismo, transmutação e metodologia científica – uma reavaliação. In:

DOMINGUES, Heloisa Maria Bertol... [et. al.] (Orgs.). Darwinismo, meio ambiente, sociedade. São Paulo: Via Lettera; Rio
de Janeiro: MAST, 2009.
31 Ver: SOUSA, Ricardo Alexandre Santos. A extinção dos brasileiros segundo o conde Gobineau. Revista Brasileira de

História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 21-34, jan./jun. 2013.


32 BEZERRA. O Ceará e os cearenses, p. 17-8.

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Notamos que Bezerra afirmava o caráter fértil da dita “mulher cearense” e o avalia
positivamente como uma herança hereditária atávica, isto é, uma característica advinda de
ascendentes distantes, no caso dos ciganos, que reapareceu nos descendentes imediatos.

Entretanto, concordando com Agassiz e Gobineau e com a maioria dos racistas


científicos e racialistas europeus, segundo Bezerra, o indígena era inferior e negava a contribuição
deste na composição do que o autor considerava ser o “cearense”, valorizando a presença do
elemento cigano. Compreendemos, então, que para Bezerra não seria toda e qualquer
miscigenação que era vista como algo bom.

Diante disso, podemos pensar que o referido autor e talvez outros letrados de Fortaleza,
estariam a par do debate entre monogenistas e poligenistas que ocorria principalmente na região
Sul do Brasil e no estrangeiro. Ao analisarem a sociedade onde estavam inseridos, se
reconheceriam como inferiores, por serem mestiços, e enquanto raça não branca tinha que
mostrar reiteradamente a superação desse caráter através de sua história, cultura, atitudes políticas
e grau de instrução.

Esse reconhecimento da inferioridade do “povo cearense” e sua tentativa de superação e


evolução são encontrados no poema “A Villa da Redempção”, também de autoria de Bezerra,
publicado no livro Três Liras: poesias. Essa obra compila poesias de Antônio Martins, Antônio
Bezerra e Justiniano de Serpa, publicada em 1883 em Fortaleza. Com ela seus autores se
popularizaram como poetas do “abolicionismo”, ou melhor, poetas “libertadores” do Ceará.
Desse poema, extraímos os seguintes versos de Bezerra:

(...)
Baqueia a escravidão ao choque do heroísmo
D’um povo pobre sim, mas cheio de civismo
E rico de ambição!
Honra a ti nobre terra, estádio da egualdade
Que antepões á vida o amor á liberdade
A gloria da tua nação!33

Baseados nesses versos, consideramos que para o autor a população da Vila de Redenção
era pobre, todavia, apesar das dificuldades, tinha o interesse em contribuir para o progresso da
pátria, por meio da luta contra a escravidão. Bezerra afirmava que a Vila, a qual inspira o título do
poema e foi a primeira a libertar os escravos na província, era local de igualdade, onde o amor, a
vida, a liberdade e a glória da nação estavam em primeiro lugar.

33BEZERRA, Antônio; SERPA, Justiniano de; MARTINS, Antônio. Três Liras: poesias. Fortaleza: Typographia
Economica, 1883, p. 15.

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A partir dos versos de Bezerra destacados acima, podemos inferir que a sua intenção era
dar força ao movimento de libertação dos escravos por meio da exaltação da Vila de Redenção,
enfatizando a superação da pobreza local por seus habitantes para que seu objetivo fosse
atingido.

No Ceará, curiosa foi a atuação de João Lopes: deputado da província em 1854, professor
e jornalista, iniciou os estudos em Direito na Faculdade de Recife, mas logo teve de retornar à
terra natal devido às dificuldades financeiras, contribuiu com a fundação da sociedade Phoenix
Estudantil, participou da Academia Francesa, foi redator dos jornais Fraternidade, Gazeta do Norte,
Cearense, colaborou no Libertador, foi um dos fundadores do Clube Literário, tendo colaborado em
seu órgão, a revista A Quinzena, bem como no jornal O Domingo, no Estado do Ceará, n’A República
e em outros periódicos de várias cidades do Brasil. Lopes escreve o seguinte sobre o
branqueamento da sociedade brasileira:

Quando, amanha, o sangue caucasico, atrahido pela abolição, tiver trazido seiva
sadia ao nosso solo e os milagres do trabalho livre tiverem dignificado o lugar
do Brazil nas grandes officinas da industria moderna, o nome cearense fulgirá
deslumbrante na memoria das gerações para as quaes estamos preparando uma
patria livre34.

O autor indica a entrada de trabalhadores europeus no país e no Ceará após a libertação


dos escravos, cuja mão de obra, branca e livre, traria a nutrição que “ajudaria” o país e a província
a se modernizarem, inserindo-os no mundo “civilizado”. João Lopes abordou a questão do
trabalho livre associado ao imigrantismo e desvalorizou o trabalhador nacional, que por ser
mestiço seria indolente, inepto. Assim, o autor dispensou a mão de obra liberta e compartilhou a
ideia que foi posta em prática após a abolição: os imigrantes europeus além de contribuírem para
o progresso da nação, se misturaria ao povo, embranquecendo-o; e o lugar do Ceará nesse
processo seria o de ter preparado um Brasil livre, ao ser a primeira província a se libertar da
escravatura. Pois para Lopes a libertação dos escravos nesta provincia significa a extinção do
escravo no paiz. O Ceará arrasta facilmente o norte por homogeneidade psychica: o sul pela
fatalidade mathematica das leis da força35.

O autor elaborou uma justificativa cientificista-naturalista do significado da libertação dos


escravos no Ceará, pois considerou a difusão do ideal por leis físicas e exatas. Ou seja, a
libertação dos escravos, era vista por Lopes como um fator importante e forte, uma vez que
atrairia as províncias do norte do Brasil pela “homogeneidade psychica”, a qual poderia ocorrer
em relação a unidade de pensamento ocasionada pela proximidade territorial. E

34 Gazeta do Norte, Fortaleza, 25 mar. 1884, n. 64, p. 2.


35 Gazeta do Norte, Fortaleza, 25 mar. 1884, n. 64, p. 2.

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consequentemente conduziria as províncias do sul “pela fatalidade”, isto é, pela pressão, ou
melhor, “naturalidade”, uma vez que a “abolição” iria ocorrer em todas as regiões do país. E
nesse momento, como em outros períodos da história do Ceará, este seria pioneiro.

Nesse sentido, podemos perceber que na visualização e análise de sua sociedade, esse
grupo de letrados geralmente defenderia em seus discursos a mestiçagem como benéfica, a qual
seria uma peculiaridade do “povo do Ceará”. Consideramos também a existência da influência de
alguns participantes da Academia Francesa no pensamento dos intelectuais na década de 1880,
visto que alguns de seus remanescentes atuaram nos anos posteriores, dentre os quais destacamos
João Lopes, que teve participação em várias agremiações e periódicos em fins do século XIX e
início do XX, tendo contato com Capistrano de Abreu e Rocha Lima, mentores do movimento
na década de 1870.

Uma ramificação do movimento abolicionista surgida na segunda metade dos anos 1880
foi o Clube Literário[1], responsável pela publicação da revista A Quinzena[2]. Dentre os
colaboradores desse periódico estava Antônio Martins, o qual, no ano de 1887, contribuiu com o
artigo intitulado “Os quinze dias”, onde o autor faz menção ao caráter “livre” da “terra
cearense”, ao mesmo tempo em que considerava a existência de dificuldades impostas pelo
ambiente e pela política do governo em relação à província:

Em que pese aos nossos antagonistas, que são os antípodas da civilização, a


terra livre do Ceará após todos os desastres da ultima secca de cinco anos, e,
mesmo, dos constantes obstáculos que se lhe antepõem a política e o governo
floresce a olhos vistos diante do extrangeiro e diante do paiz36.

É importante observar nesse trecho do texto que na compreensão de Antônio Martins, o


fator ambiental (a seca de 1877-1880) havia sido superado, bem como o Ceará contrastava com o
restante do país por ser uma terra de homens livres, uma vez que a libertação dos trabalhadores
escravos não havia ocorrido em outros locais do império. E, por isso, as demais províncias iam
de encontro à civilização e o Ceará seguia o exemplo das sociedades avançadas, pois marchava
louvavelmente em direção contrária àquelas.

Diante das palavras de Martins, podemos notar que em seu pensamento a seca poderia
ser considerada como um mecanismo de seleção natural, uma vez que enquanto fator ambiental
que causou estragos na sociedade, parte da população conseguiu superá-la e sobreviver. Esta, por
sua vez, além de lutar contra a seca e tentar se reconstruir material e socialmente, tinha também
de lutar contra as dificuldades políticas impostas pelo regime central; e, ainda assim, teria logrado
êxito, florescendo, ou seja, tendo forças e condições para prosperar.

36 A Quinzena, Fortaleza, 1 jan. 1887, p. 7.

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Ao encontro desse pensamento de Martins, visualizamos no Gazeta do Norte as seguintes
palavras de João Brígido:

No Ceará, por um destino, que não se desmentiu jámais, toda calamidade foi
sempre um passo á frente. A seca de 1792 foi seguida do plantio do algodão e
da fundação do commercio directo; a de 1825 deu incremento á cultura da
cana; a de 1815 fez desenvolver-se a açudagem da província; a de 1877-1879
finalmente acabou com os captivos; a prova de que não ha mal, que a vontade
humana não supere, e os infortunios de um povo quasi sempre lhe despertam
uma faculdade, que dormitava.37

Esse artigo foi veiculado na seção editorial no dia 25 de março de 1884. Percebemos,
então, que a seca era compreendida pelo autor como uma catástrofe e após a devastação causada,
havia impulsionado a população a encontrar forças para superá-la e encaminhar a sociedade em
que vivia ao progresso. Brígido utilizou metáforas botânicas ao ter comparado o povo do Ceará a
uma semente adormecida que estava à espera de algo que a despertasse, a fizesse germinar. A seca
seria, portanto, o fator que desabrocharia a espécie humana da latência na qual se encontrava,
fazendo emergir nos mais capacitados, os sobreviventes, virtudes que porventura estivessem
escondidas, as quais os faria lutar por melhoramentos.

Para Capistrano, a “literatura [era] a expressão da sociedade, e a sociedade a resultante de


acções e reações: de acções da Natureza sobre o Homem, de reações do Homem sobre a
Natureza”38; e a “civilização [era] a victoria do Homem contra a Natureza”39. O autor relacionava
homem-natureza-sociedade-literatura, mostrando que a superação da natureza pelo homem daria
origem à civilização, cuja realidade seria pensada pelos escritores.

No mesmo sentido, Rocha Lima escreveu que

desde o berço viu-se o homem acabrunhado ao pêso da fatalidade: de um lado


as energias da natureza oprimindo-o com o rigor inexorável de uma divindade,
surda aos nossos lamentos, inconsciente de nosso sofrer; de outro um
tumultuar infernal de instintos grosseiros, de necessidades opressoras, de
desejos irracionais40.

De acordo com a citação, o homem sempre lutava em oposição à natureza e a si mesmo:


se o homem não reagisse contra a fome, o frio, aos outros animais predadores, à sua ignorância,
ele não buscaria soluções que garantissem seu bem-estar.41

37 Gazeta do Norte, Fortaleza, 25 mar. 1884, n. 64, p. 2.


38 ABREU, J. Capistrano de. Ensaios e estudos (crítica e história). 1. Série. Edição da Sociedade Capistrano de Abreu.
São Paulo: Livraria Briguiet, 1931. p. 62.
39 ______. Ensaios e estudos, p. 65.
40 LIMA. Crítica e literatura, p. 85.
41 ______. Crítica e literatura, p. 88.

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Percebemos, assim, a sintonia entre as reflexões de Capistrano e Rocha Lima e as de
Martins e Brígido, visto que no raciocínio desses autores havia o conflito no qual o homem lutava
contra as “forças e aspectos da natureza”, as quais exerceriam reações sobre a estrutura social e
mental. Diante disso consideramos a continuidade no modo como a realidade era interpretada: a
sociedade civilizada resultaria da luta entre homem e natureza. Canguilhem afirma que

(...) a seleção natural não é uma força que se acrescenta à luta pela existência, ela
não é uma causa suplementar, ela é um conceito recapitulativo que retém, sem
o realizar, com maior razão sem o personificar, o sentido de um procedimento
humano utilizado, como mecanismo analógico, na explicação do fenômeno
natural42.

Esse autor compreende a seleção natural como um conceito recapitulativo, como uma
definição ou explicação que se repete, tal como foi apontado por Brígido e Martins, os quais
apontaram a seca como um fenômeno destruidor que é sempre superado: aquele se referiu à seca
de 1877-1880 e a despeito dela mencionou um crescimento no Ceará e este citou várias datas em
que ocorreram secas na província e os melhoramentos ou atividades que teriam resultado de cada
uma. Nessa perspectiva, cogitamos a possibilidade da existência de um conflito entre a população
e a seca, a qual desenvolveria faculdades essenciais nos sobreviventes, que ajudariam o Ceará a se
civilizar.

La Vergata afirma que um dos grandes autores que influenciaram Darwin foi o
economista liberal, ensaísta e crítico Walter Bagehot (1826-1877), o qual considerava que os
estudos históricos demonstravam a existência de uma relação indissociável entre civilização,
inteligência e guerra e que as nações mais civilizadas também foram as mais bélicas. Baseado
nisso, La Vergata afirma que

as virtudes militares são aquelas sobre as quais se fundam, histórica e


logicamente, todas as outras, e, vice-versa, as verdadeiras virtudes são, no
fundo, essencialmente militares, podendo-se reconduzi-las todas ao sentido da
disciplina. Em resumo, a guerra favoreceu aquele progresso social moderado
que é o ideal político de Bagehot e que consiste no equilíbrio de duas forças
contrastantes: a da conservação da disciplina e a da coesão e inovação43.

Relacionando o pensamento de Canguilhem e La Vergata às citações de Capistrano,


Rocha Lima, Martins e Brígido, podemos deduzir que nas reflexões desses letrados de Fortaleza,
a seca provocaria uma guerra, enquanto conflito ou mecanismo de oposição, contra a população,
a qual lutaria pela sobrevivência e encontraria condições de inovar a sociedade e produzir
melhoramentos que a tornasse civilizada.
42 CANGUILHEM, Georges. Estudos de história e filosofia das ciências: concernentes aos vivos e à vida. Trad. Abner
Chiquieri. Revisão técnica de Manoel Barros da Motta. Rio de Janeiro: Forense, 2012, p. 111.
43 LA VERGATA, Antonello. Darwinismo, evolução e guerra. In: DOMINGUES, Heloisa Maria Bertol... [et. al.]

(Orgs.). Darwinismo, meio ambiente, sociedade. São Paulo: Via Lettera; Rio de Janeiro: MAST, 2009, p. 244-5.

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Nesse sentido, devido aos progressos apontados após as secas, essas catástrofes naturais
seriam uteis, pois proporcionariam um caminho para a evolução. No entanto, essa evolução só
aconteceria, segundo os autores, se o homem tivesse condições de “vencer” a natureza e
promover seu progresso. Assim, ele mostraria estar mais adaptado ao ambiente que habitava.

Considerações Finais

A partir de meados do século XIX diversas ideias europeias puderam ser verificadas no
ambiente intelectual brasileiro, as quais exerceram sua influência na maneira de pensar daqueles
que tinham acesso a elas. Em relação aos intelectuais do Ceará, notamos que não houve uma
única linha de pensamento que os influenciaram, mas sim uma amálgama de teorias das quais era
aproveitado aquilo que convinha à situação ou à realidade vivenciada.

Dessa mescla das correntes de pensamento, os letrados se apropriavam daquilo que os


ajudassem a formular ideais e a inserir-se no mundo considerado civilizado. Cada ideia contribuía
de uma forma e eram ponderadas na medida em que “favoreciam” a composição e o
desenvolvimento sociais.

As reflexões que abordavam a relação entre o homem, a natureza, a sociedade e o


progresso e que perpassaram a mente dos letrados durante os anos 1870, mesmo com a
interrupção das atividades intelectuais devido à seca de 1877-1880, continuaram a seguir uma
linha de pensamento semelhante na década posterior, uma vez que o ambiente político, social e
econômico fortaleceram suas reivindicações e suas interpretações sobre o Ceará.

A “Mocidade Cearense”, que lutava contra o escravismo, acreditava que a evolução


biológica, social e moral da população estava associada a sua adaptação às intempéries causadas
pelas constantes secas que ocorriam no território, além de se promover como agente no processo
de libertação dos trabalhadores escravos. Percebemos que para os considerados “libertadores”, os
escravizados, sozinhos, não conseguiriam a liberdade; dessa forma, eles não levaram em conta as
resistências dos escravizados contra o regime ao qual estavam submetidos.

Em geral, as narrativas dessa intelectualidade visavam à integração de sua sociedade ao


que era compreendido como civilização e desenvolvimento, uma vez que estavam, de certa
forma, atualizadas e afinadas ao pensamento científico e cientificista europeu contemporâneo à
época.

Recebido em: 06/06/2014


Aceito em: 09/09/2014

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