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Mitos e Arquétipos: O Arquétipo da Deusa Negra

A mitologia traz consigo inúmeras representações dos


comportamentos humanos oriundos de sua época, símbolos que se perpetuam até hoje em nossa
sociedade. Eram atribuídos aos deuses fenômenos naturais que, na época, não tinham explicações.
Os mitos são formas de entender o que se passava na natureza, assim como a personificação
desses eventos em deuses foi uma forma de aproximar o homem ao meio em que ele vive.

As deusas negras entram na mitologia como forma de explicar os ciclos, tanto na natureza quanto
no organismo humano. O arquétipo da Deusa Negra é presente em todas as mitologias, sendo elas
senhoras dos mistérios, tais divindades estão relacionadas diretamente com os ciclos de vida e
morte, e de certa forma, tentam explicar o mecanismo de reencarnação e carma. Veremos ao
decorrer deste trabalho como os mitos de três deusas diferentes se assemelham e representam
acepções acerca do comportamento e visão feminina a partir da análise de seus arquétipos.

Antes do domínio católico sobre as religiões pagãs, a dicotomia bem e mal era vista de maneira
diferente: a aceitação da morte e dos instintos humanos eram maiores, o sexo não era pecado, as
mulheres e seus ciclos não eram marginalizadas. Com o advento da nova religião (cristianismo), a
imagem feminina ficou cada vez mais idealizada, e consequentemente, muitas características que
fugiam dessa idealização foram demonizadas. Mesmo no cristianismo há arquétipos; as deusas
foram sincretizadas em santas, Maria, por exemplo, é o claro arquétipo da Deusa mãe, como Brigit
ou Hera ou Demeter. Foi bastante comum em tempos de inquisição e escravidão o sincretismo de
deuses em santos católicos, assim seus devotos podiam adorar seus deuses sem correr o risco de
serem punidos.

O que é Arquétipo?

Arquétipos, segundo o famoso Psicanalista Carl Gustav Jung, em sua obra Os Arquétipos e o
Inconsciente Coletivo, são os conteúdos do inconsciente coletivo. Freud dizia que, a princípio, o
inconsciente designava os conteúdos esquecidos ou reprimidos por alguém (JUNG, 2000). A partir
desse preceito, Jung explica o que é inconsciente coletivo:

“Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a


denominamos inconsciente pessoal. Este, porém repousa sobre uma camada mais profunda, que já

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não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais
profunda é o que chamamos inconsciente coletivo.”

(JUNG, 2000)

O arquétipo da Deusa Negra entra no inconsciente coletivo de muitos povos com a mensagem de
que tudo vive, tudo morre, tudo renasce. A mulher traz à vida ao dar à luz, a mulher renova-se a
cada ciclo menstrual. A sabedoria, a paciência, a fertilidade e sexualidade; o conhecimento sobre
ervas, tanto para a cura quanto para venenos, são características deste arquétipo.

O Arquétipo na mitologia - Arquétipo como uma representação coletiva de um conteúdo psíquico


que ainda não tem elaboração no consciente (JUNG, 2000), de maneira rasa, é descrito como a
forma que os antigos povos encontraram para explicar o inexplicável (ações da natureza). Os povos
primitivos não tinham aparato necessário para estudar os eventos naturais, nem mesmo entender
como eles funcionavam. A interpretação deles era puramente subjetiva. Jung argumente que

Para o primitivo não basta ver o Sol nascer e declinar; esta observação exterior deve corresponder
— para ele — a um acontecimento anímico, isto é o Sol deve representar em sua trajetória o
destino de um deus ou herói que, no fundo, habita unicamente a alma do homem. Todos os
acontecimentos mítologizados da natureza, tais como o verão e o inverno, as fases da lua, as
estações chuvosas, etc, não são de modo algum alegorias destas experiências objetivas, mas sim,
expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana
consegue apreender através de projeção — isto é, espelhadas nos fenômenos da natureza. (JUNG,
2000)

Ao observar a natureza, o ser humano primitivo associava os ciclos naturais a si e seu semelhante.
A partir dessa observação, passou-se a compreender subjetivamente seus próprios ciclos. Nos mitos
das deusas que passaram ou viveram no submundo, encontramos as representações do que havia
de mais genuíno e misterioso nas mulheres da época (e dos dias de hoje também): a menstruação,
a gestação, a sexualidade, a intuição, o conhecimento de doenças, a cura através de plantas e a
percepção de vida e morte. Todos esses aspectos análogos aos mitos estabelecem, através destes
arquétipos, uma relação intrínseca entre a mulher e os ciclos naturais da Terra. Alguns mitos de
mitologias diferentes podem trazer a mesma perspectiva por um viés, não só analítico, mas
também bastante único.

Hécate, a deusa dos caminhos na Grécia, Trivia para os Romanos, traz o arquétipo da mulher sábia
e observadora. Apesar de não ter um mito próprio, muito provavelmente pela deturpação cristã, é
citada nos Mistérios Eleusis. Hécate, filha dos Titãs Perses e Asteria, teria sido expulsa do Olimpo
por sua mãe ao ser pega roubando um pote de carmim. Fugindo para a Terra, a deusa se tornou
impura, tendo que descer ao Hades para se purificar. Uma vez no submundo, Hécate tornou-se
aprendiz e protegida de Perséfone.

Outros mitos contam que, por ajudar Zeus na guerra contra os Titãs, o poderoso deus do Olimpo a
presenteou com o livre trânsito e domínio entre os outros dois reinos pertencentes aos seus irmãos,
a Terra, os Mares e ao próprio Olimpo.

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Inicialmente, a deusa era cultuada em honra aos caminhos. Era quem regia os nascimentos, sendo
invocada nos trabalhos de parto e também quem conduzia as almas que deixavam a matéria até o
reino dos mortos. Tardiamente, foram atribuídos à deusa os domínios da feitiçaria e magia negra,
sendo descrita como uma mulher de três cabeças, acompanhada por cães negros e fantasmas. Há
relato de culto por marinheiros, que pediam sua proteção enquanto permaneciam em mar aberto.

O arquétipo de Hécate, nas religiões neo-pagãs, resgata a imagem da mulher sábia e conhecedora
de seus caminhos; a mulher independente e livre que não se atém a nenhuma forma de submissão.
Nos mistérios Eleusis, Hécate tem papel importante ao ajudar Demeter, deusa da colheita e da
fertilidade, a encontrar sua filha, Perséfone que é também considerada uma deusa negra.

Perséfone, ou Córe para os romanos, é filha de Zeus com Demeter. Deusa que competia em beleza
com Afrodite. Muitos deuses se apaixonaram por ela, incluindo seu tio Hades, que chegou a pedir
sua mão em casamento. Zeus, sem nem ao menos consultar Demeter, concedeu ao irmão sua filha.
Enquanto a deusa colhia flores em um bosque, Hades a raptou, carregando-a até seu reino no
submundo. Demeter, desesperada com o desaparecimento da filha, deixou de cuidar das
plantações, trazendo um longo inverno para a Terra. Nada crescia e nada germinava nessa fase, até
que Hélio, personificação do sol, aquele que tudo vê, lhe contou o que havia acontecido. Com a
ajuda de Hécate (ou Hermes em algumas versões), Demeter foi conduzida até o submundo para
resgatar sua filha. Entretanto, Perséfone havia comido romãs do reino, fato que a impediria de
voltar para a Terra por longos períodos de tempo, pois ao se comer algo do submundo, fica-se
preso nele. Sendo assim, Perséfone passava seis meses com sua mãe, na Terra, trazendo a
primavera e o verão, e seis meses no submundo, causando o outono e inverno com sua ausência.

O arquétipo da mulher que amadurece para a vida adulta é um dos arquétipos abordados por essa
deusa. Finda-se um ciclo, quando ela deixa sua mãe para retornar ao submundo, e se inicia outro,
quando ela retorna para os braços de Demeter. A analogia que se pode fazer é a do casamento,
situação na qual a mulher é obrigada a se desvincular da mãe para se tornar “mulher”.

O rapto da noiva também era um costume entre os gregos e romanos onde a noiva sendo levada
nos braços do noivo simula uma fuga e começa a gritar, pedindo o auxílio das mulheres que a
acompanham. Psicologicamente isso significa que para a mulher o ato do casamento significa a
morte. A morte de sua ligação com a mãe e de sua imaturidade enquanto mulher. (Mourão, Hellen
Reis)

Isso tudo, é claro, por uma visão patriarcal. Deixando a tradição de lado, Perséfone é a mulher que
deixa a infância e se inicia na idade adulta. Sua descida ao Hades representa a cisão necessária
para o amadurecimento da mulher. O mito pode representar os períodos de um ciclo menstrual no
qual a mulher se regenera todo mês, por cinco dias (mais ou menos), sangra e purifica seu útero
para o próximo ciclo, assim como é na natureza.

Outro arquétipo interessante é o da deusa Inana para os sumérios, Ishtar para os babilônicos,
Astarte para os judeus/hebraicos. Era a deusa da fertilidade, amor, da guerra e sexualidade
feminina. O mito da descida de Inana ao submundo é um dos principais textos das narrativas de
Tâmuz e Ištar (SCANDOLARA, 2015). O mito fala que Inana deveria descer ao submundo para
presenciar o rito de sepultamento do deus Gugalana, consorte de sua irmã, deusa Rainha do

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submundo, Ereshkigal. Como precaução, caso ficasse presa no submundo, Inana alertou sua
cortesã de confiança, Ninshubur, que caso não voltasse em três dias, pedisse aos deuses da lua e
do céu para que a resgatassem.

Para entrar no submundo, Inana deveria passar pelos sete portões, e em cada um deles ser despida
pelo porteiro do umbral. Ao passar pelo primeiro portão, lhe foi tirado seu turbante; no segundo seu
colar; no terceiro seu par de contas; no quarto, o alfinete de seu peito; no quinto portão, suas
joias; no sexto suas armas e no sétimo tiraram-lhe suas vestes. Somente nua, de corpo e alma, a
deusa poderia entrar no palácio do submundo. Para sair do submundo, a deusa precisa passar por
um processo de morte e ressureição, que se dá pelo enfrentamento da sua irmã, a sombra.
Crucificada após o confronto, Inana se rende ao sacrifício.

Apesar dos pedidos de ajuda de Ninshubur aos deuses do céu e da lua, ninguém se atreveu a
resgatar Inana. O deus Enki, compadecendo-se da situação, cria dois seres assexuados e os
mandou resgata-la no submundo. Ao chegarem, as criaturas encontram a deusa Ereshikigal em
trabalho de parto. Eles a ajudam. Grata pela ajuda, a deusa lhes concede uma recompensa. Eles
pedem o corpo de Inana. Entretanto, para sair do umbral, os seres avisam que Inana deve deixar
alguém em seu lugar. A deusa deixa, com muito pesar, seu marido Tamuz. Seis meses Tamuz
passará no submundo, e esses seriam seis meses de infertilidade para o povo, pois sua deusa de
luto estaria. Porém, seis meses a irmã de seu marido o substituiria para que Tamuz pudesse voltar
à sua amada esposa, então seis meses de abundância o povo teria.

Muito parecido com o mito de Perséfone, a descida da deusa Inana mostra o arquétipo da
submissão, não a outros, mas aos seus próprios sentidos e aceitação de suas sombras. O despir-se
de vestimentas simboliza o despir-se de seus velhos conceitos e visão de mundo para um novo
prisma de aceitação dos aspectos mais instintivos e natural ao ser humano. Ensinando-nos a aceitar
nosso lado negativo, a aceitação de nossas falhas e defeitos, daquilo que varemos para o tapete de
nossos inconscientes, muitas vezes por traumas ou arrogância, é um passo essencial para o
autoconhecimento.

Mitos e mitemas - Por um viés estruturalista, de Lévi Strauss, os mitos refletem as estruturas
sociais de uma época, sendo também considerado uma válvula escapatória para sentimentos
reprimidos no inconsciente humano. Um mito sempre se referirá a algo do passado. Tudo pode
acontecer em um mito, de maneira que as relações mitológicas nem sempre são fáceis de
compreender pelo ser humano moderno (STRAUSS, 1985). Justamente, a partir dessa premissa,
Strauss se questiona: “se o conteúdo do mito é inteiramente contingente, como compreender que,
de um canto a outro da Terra, os mitos se pareçam tanto?”

Há três pontos que valem a pena ressaltar, ainda apresentados por Levi em sua obra Antropologia
Estrutural, no capítulo A Estrutura dos Mitos (1985):

1. Se os mitos possuem um sentido, este não pode decorrer dos elementos isolados que
entram em sua composição, mas na maneira como esses elementos estão
combinados.

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2. O mito pertence à ordem da linguagem, faz parte dela; entretanto, a linguagem, tal
como é utilizada no mito, exibe propriedades específicas.

3. Tais propriedades só podem ser buscadas acima do nível habitual da expressão


lingüística; em outras palavras, elas são de natureza mais complexa do que as que se
encontram numa expressão lingüística de um tipo qualquer.

A partir desses três preceitos forma-se a ideia de mitemas, ou grandes unidades constitutivas. Os
mitos aqui relatados preocupam-se com tradições religiosas e de cunho ritualístico e não em passar
conceitos morais. Se os lermos como uma partitura, de maneira diacrônica e sincrônica,
observaremos que há feixes de relações (ainda citando Strauss), que combinados, adquirem
significante. Na prática obtemos essa estrutura:

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Vemos os pontos em que os mitemas se encontram. Os constituintes alinhados verticalmente em na
primeira coluna descrevem as características comuns das deusas; na segunda coluna, o fator em
comum que as levou ao submundo e na terceira e quarta, as consequências. Nos mitos de
Perséfone e Inana há uma enorme semelhança, muito provavelmente causada pelo sincretismo dos
deuses sumérios e babilônicos na mitologia grega/romana.

Conclusão - Não pretendo, com esse trabalho, delimitar o que é certo ou errado afirmar sobre
essas estruturas míticas, mas sim trazer um novo olhar sobre aquilo que talvez devesse ser

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resgatado com urgência na mulher moderna, através da força que esses arquétipos têm/tiveram
nas culturas. Talvez, respondendo à pergunta de Strauss, tal semelhança entre os mitos, além das
unidades constitutivas, mais do que um reflexo dos sincretismos, abordam uma forma genuína de
cada povo representar a mesma força que rege a vida e a natureza. Citando um conceito neo-pagão
da Wicca: “Todos os deuses são um só, todas as deusas são uma só.” Tudo vive, morre e se
regenera na dualidade do divino.

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Referências:

JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente. Editora Vozes, 2000.

LÉVI-STRAUSS, Claude. A estrutura dos mitos, in Antropologia estrutural. Editora Tempo