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Anais da

Semana de Pedagogia da UEM


ISSN Online: 2316-9435

XX Semana de Pedagogia da UEM


VIII Encontro de Pesquisa em Educação / I Jornada Parfor

REFLEXÕES SOBRE O MITO DE NARCISOi


RIBEIRO, Luiz Augusto O.
laor.luiz@hotmail.com
SOUZA, Gabrieu de Queiros
gabrieusouza@bol.com.br
SANTOS, Stephany Rosa.
stephanyrosa@live.com
OLIVEIRA, Viviane
vivi.uem2010@gmail.com
OLIVEIRA, Terezinha
Universidade Estadual de Maringá (UEM)
História e historiografia da educação

INTRODUÇÃO
Fruto das reflexões e inquietações humanas, a linguagem mítica nos tem falado dos
sentimentos, virtudes e valores humanos desde tempos imemoriais. Toda sociedade humana
com certo desenvolvimento social, econômico e intelectual projetou e projeta os anseios de
sua realidade cotidiana em narrativas míticas. Os anseios por conhecer as suas origens (a
necessidade de entender a origem do mundo, do homem, dos animais, das plantas e dos
fenômenos naturais), o pós-morte, as relações sociais entre diferentes grupos, os desafios
cotidianos e os sentimentos humanos são objetos de reflexão e representação mítica.
Os mitos revelam muito de nós mesmos, pois trabalham com os nossos sentimentos,
virtudes e vícios. A partir desse esclarecimento podemos entender a importância do Mito de
Narciso e do seu significado para o homem grego e conseguimos perceber o seu valor ainda
atual para o homem moderno. Afinal, a vaidade representada por Narciso é uma característica
marcante da nossa sociedade moderna e individualista e o alerta contido nesta narrativa mítica
ainda é de grande valia para o espírito humano.
Neste artigo consideraremos a concepção de mito e a relação do tempo histórico com a
narrativa mítica para desenvolver o objeto de nossa análise que é o Mito de Narciso e as
reflexões pedagógicas e filosóficas que o mesmo proporciona, já que o mito foi a primeira
forma de reflexão do homem e sua linguagem continua presente em nosso cotidiano.

DEFINIÇÕES DO MITO
Definir a expressão mito é tarefa ainda difícil. Alguns pesquisadores buscam retratar
da melhor forma essa palavra que, ao longo da História foi encarado de diversas formas. Em
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virtude da ampla complexidade e debate que envolve esse conceito, de imediato observamos
que usaremos aqui a definição de Mircea Eliade em seu livro Mito e Realidade (1972), no
qual afirma:

A definição que a mim, pessoalmente, me parece a menos imperfeita, por ser


a mais ampla, é a seguinte: o mito conta uma história sagrada; ele relata um
acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do
"princípio". Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos
Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total,
o Cosmo,ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um
comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de
uma "criação": ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O
mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou
plenamente. Os personagens dos mitos são os Entes Sobrenaturais. Eles são
conhecidos, sobretudo pelo que fizeram no tempo prestigioso dos
"primórdios". Os mitos revelam, portanto, sua atividade criadora e
desvendam a sacralidade (ou simplesmente a "sobrenaturalidade") de suas
obras. Em suma, os mitos descrevem as diversas, e algumas vezes
dramáticas, irrupções do sagrado (ou do "sobrenatural") no Mundo. É essa
irrupção do sagrado que realmente fundamenta o Mundo e o converte no que
é hoje. E mais: é em razão das intervenções dos Entes Sobrenaturais que o
homem é o que é hoje, um ser mortal, sexuado e cultural. (ELIADE, 1972,
p.8).

Pensar o mito nos dias de hoje é, para as ciências humanas, encará-lo como uma
‘tradição sagrada’, esse olhar que é dado hoje, se opõe ao o que era proposto no século XIX,
no qual mito estava relacionado com ficção e/ou invenção. Pensar o mito como produção
histórica cuja temporalidade é específica permite compreendermos as diferentes formas como
foi pensado ao longo dos tempos. (ELIADE, 1972, p. 5).
Mircea Eliade (1992), analisa a questão dos homens que viviam em sociedades
arcaicas. Assim, para ele, o sagrado representa muito mais o cotidiano, está muito mais
presente nesse homem do que o profano,

O homem das sociedades arcaicas tem a tendência para viver o mais possível
no sagrado ou muito perto dos objetos consagrados. Essa tendência é
compreensível, pois para os “primitivos”, como para o homem de todas as
sociedades pré-modernas, O Sagrado e o Profano o sagrado equivale ao
poder e, em última análise, à realidade por excelência. O sagrado está
saturado de ser. Potência sagrada quer dizer ao mesmo tempo realidade,
perenidade e eficácia.” (ELIADE, 1992, pp. 13-14)

Nesse sentido o mito se apresentava aos antigos como uma realidade muito mais
presente, o sagrado, como diz Eliade, refere-se por vezes a própria realidade. Paul Veyne
(1984), atenta para uma das funções dos mitos entre os gregos: “O mito era um motivo de
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reflexões sérias [...]” (VEYNE, 1984, p.11). Reflexões estas que foram fruto de amplos
estudos na filosofia grega.
Para entendermos a relação do homem grego com os seus mitos necessitamos de uma
análise que vá além do sentido literal do mito, deve-se entender o sentido racional da narrativa
mítica, pois segundo Paul Veyne:

Nem todos acreditavam que Minos continuasse a ser juiz dos Infernos, nem
que Teseu tivesse combatido o Minotauro, e eles sabiam que os poetas
‘mentem’. Todavia, a sua maneira de não acreditar nisso não tinha sido
menos real; é necessário simplesmente ‘depurar o Mito pela Razão’, e
reduzir a biografia do companheiro de Hércules a seu núcleo histórico. [...]
O mito era um motivo de reflexões sérias e os gregos ainda não tinham
acabado com ele, seis séculos depois do movimento dos sofistas [...]
(VEYNE, 1984, p. 11).

Como aponta Veyne, as reflexões míticas vão além do seu sentido literal, sendo assim
essas narrativas são passíveis de modificações sem que percam seu caráter reflexivo, isso
ocorre pois os mitos são constantemente recontados, por isso se faz necessária uma
identificação das suas diferentes formas e conteúdos. Para isso partimos dos esclarecimentos
de Pierre Grimal (1985), para esse autor são identificaveis quatro categorias de mito: os mitos
cosmogônicos ou teogônicos (que tratam da formação de matérias fundamentais, como o
cosmo, a Terra e o Céu), os ciclos divinos e heróicos (que narram os feitos e as histórias dos
deuses e dos heróis), o relato lendário ou novela (que trata de grandes eventos usando de
forma literária, tal qual ocorre em a Ilíada) e ‘relatos elementares’ ou ‘anedotas etiológicas’
(que explicam certo ritual religioso, a forma de um rochedo, um costume).
Apesar das diferentes origens, significados, categorias e formas em que os mitos são
apresentados, estes mantém uma função específica nas sociedades. Sendo assim, como aponta
Veyne, o mito grego é carregado de informações que orientam a vida cotidiana e racional
daquela população. Por meio desta forma narrativa, o homem grego poderia identificar estes
conhecimentos que revelam as inquietações inerentes ao ser humano, grego antigo ou atual.

O CONTEXTO HISTÓRICO DAS NARRATIVAS MÍTICAS


Para melhor compreender o caráter da mitologia grega e do processo que levou ao
surgimento da filosofia precisamos compreender o contexto histórico grego antigo. Afinal
toda e qualquer forma de pensamento é influenciada pelo seu contexto histórico e as relações
sociais e culturais de seu autor, no caso dos mitos de seus autores. As narrativas míticas e o

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discurso presentes nelas devem ser entendidas tendo-se em consideração a sua historicidade.
Terezinha Oliveira esclarece a relação entre o discurso e a história:

[...] o discurso, assim como outros produtos humanos, como os costumes, as


leis, as convenções sociais, os mitos, a língua, a linguagem, são forjados no
interior das relações sociais de cada tempo histórico. Logo, o conceito ou
entendimento de discurso da contemporaneidade não pode ser válido para
interpretar discursos de outras épocas históricas. Com efeito, precisamos
analisar os escritos dos autores antigos, como é o caso de Ésquilo e
Aristófanes, nos seus respectivos tempos, como expressões de construções e
análises sociais. Se considerarmos as obras que tratavam dos deuses na
Antigüidade como instrumento de dominação e carregados de intenção de
sujeição, não compreendemos a riqueza da análise, os ensinamentos morais,
a composição das relações sociais, as críticas e projetos sociais que estavam
presentes em seus escritos. Se fizermos essa leitura dos mitos, certamente
não os compreendemos em sua historicidade.
Deste modo, o propósito é compreender o discurso escrito como expressão
histórica de um tempo determinado e não o discurso como verdade imutável
(OLIVEIRA, 2008, p. 212).

A partir das observações de Oliveira podemos inferir que as narrativas míticas são
mutáveis, pois o mito é passível de diversas alterações dependendo da sua região e do seu
tempo histórico, um mesmo mito pode ter várias versões diferentes, um mesmo deus pode ter
três, quatro origens diferentes, o culto de certos deuses é unido a outros, por conseguinte,
‘mudam sua natureza divina’. Essa mutabilidade dos mitos é uma característica também
presente nos mitos gregos, por exemplo, segundo Pierre Grimal existe três locais de
nascimento do deus Zeus, isso demonstra que mitos locais sobre o nascimento do deus foram
depois adaptados e reinterpretados em nível ‘nacional’ii, processo que ocorre com vários
outros deuses e heróis.
Os mitos surgem de tradições orais e como toda tradição oral passa por mudanças e
alterações. Para o caso grego Paul Veyne entende que: “[...] a mitologia grega, cuja ligação
com a religião era das mais fracas, no fundo não foi outra coisa senão um gênero literário
muito popular, um vasto quadro de literatura, sobretudo oral [...]” (VEYNE, 1984, p. 27).
Estes mitos que, segundo o autor surgem de uma tradição oral, quando são passados
para a escrita sofrem alterações. Para Veyne, certas narrativas míticas são adaptadas para dar
legitimidade a certas cidades ou a descendência de determinados grupo, em um mito, por
exemplo, Hércules passa por uma aventura e gera uma descendência que será reivindicada
pelos habitantes de uma cidade.
É difícil identificar a origem dos mitos e das tradições orais, já que desde que tomou
consciência, o homem buscou, no mito, respostas para o que não entendia e para as reflexões
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da sua condição enquanto ser vivente e reflexivo. Todavia, a importância das explicações
míticas começou a declinar a partir do desenvolvimento da filosofia, primeiramente em
Mileto, com o surgimento da pólis e da busca do homem por explicações racionais para as
suas origens e para a natureza. Segundo Vernant:

[...] se o advento da filosofia na Grécia indica o declínio do pensamento


mítico e o começo de um saber de tipo racional, pode-se fixar a data e o local
de nascimento da razão grega e estabelecer seu estado civil. Foi a princípios
do século VI, na Mileto jônica, onde homens como Tales, Anaximandro,
Anaxímenes, inauguram um novo modo de reflexão a cerca da natureza e a
tomam por objeto de uma investigação sistemática e desinteressada [...] . Da
origem do mundo, de sua composição, de seu ordenamento, dos fenômenos
meteorológicos, propõem explicações livres de toda a imaginação dramática
das teogonias e cosmogonias antigas (VERNANT, 1992, p. 115. Tradução
nossa)”

Devemos entender, em suma, que os mitos foram transformados e adaptados a


diferentes contextos históricos da civilização grega, mas os seus significados para o homem
grego foram perpetuados pelas reflexões filosóficas. E um desses mitos gregos que nos
permite reflexões é o Mito de Narciso.

O MITO DE NARCISO
Existem muitas variantes do Mito de Narciso. Ovídio (414-428 a. C), em sua obra
Metamorfoses, destaca uma versão em que o deus e rio Cefiso possuíram a Ninfa Liríope
contra a sua vontade, gerando-lhe assim um filho. O menino era mais belo que os próprios
deuses do Olimpo que eram, por essência, belos e imortais. Ser uma criatura tão bela como os
deuses era considerado uma afronta digna de ser punida.
Liríope, entorpecida com essa beleza, desejava saber quantos anos viveria o mais belos
dos mortais, o que a levou procurar um sábio ancião chamado Tirésias que, apesar de cego,
poderia ver além do que os olhos humanos enxergam, tinha o dom da adivinhação que lhe foi
dado por Zeus. Ao perguntar se Narciso viveria muitos anos, o adivinho respondeu que sim,
mas ele jamais deveria ver a si mesmo.
Narciso cresceu e como Liríope desejara, inúmeras moças e ninfas se apaixonaram por
sua beleza, até mesmo uma ninfa chamada Eco, que havia sido retirada do Olimpo pela deusa
Hera, que estava desconfiada de seu marido, pois este saia pela Grécia a ‘namorar’ as mortais.
Hera havia proibido Zeus de dar esses passeios, então ele pediu para que a ninfa Eco,
conhecida por seu dom em conversar, distraísse sua esposa para que pudesse descer a Terra

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sem preocupações. Ao descobrir o intuito de Eco em tomar seu tempo, a deusa Hera condena
a ninfa a apenas repetir as palavras que ouvisse, assim nunca mais falaria por si mesma.
Eco que estava, irremediavelmente, apaixonada por Narciso e o seguia sem que fosse
vista, um dia em uma caçada o moço perdeu-se de seus companheiros. A medida em que
Narciso grita por seus amigos Eco principia a repetir os últimos tons de seus gritos,
assustando o belo rapaz que, mesmo ciente de seu amor, despreza a ninfa dizendo que preferia
morrer antes que o amor os unisse.
Em face dessa recusa Eco, desolada, se retirou para uma solidão infindável e deixando
de se alimentar, acabou por definhar-se e se transformou em rocha, restando dela apenas os
seus gemidos. As ninfas, ao verem tal desprezo e insensibilidade de Narciso, pediram ajuda à
deusa Nêmesis que determinou que o destino de Narciso seria viver um amor impossível.
Certo dia Narciso parou na fonte de Téspias para matar a sua sede. Debruçou-se na
fonte e viu sua imagem refletida no espelho das águas, de imediato apaixonou-se pelo próprio
reflexo cumprindo-se, assim, a maldição de Nêmesis o rapaz não conseguiu sair mais daquele
local. No local em que Narciso se encantou com sua própria beleza e acabou por falecer
surgiu uma flor que foi chamada de narciso e a ela foi atribuída o caráter alucinógeno
causando embriagues nas pessoas. Ovídio, em suas Metamorfoses, assim nos relata o trágico
fim de Narciso:

Deitou-se e tentando matar a sede,


Outra mais forte achou. Enquanto bebia,
Viu-se na água e ficou embevecido com a própria imagem.
Julga corpo, o que é sombra e sombra adora.
Extasiado diante de si mesmo, sem mover-se do lugar,
O rosto fixo, Narciso parece uma estátua de mármore de Paros.
Deitado, contempla dois astros: olhos e seus cabelos,
Dignos de Baco, dignos também de Apolo;
Suas faces ainda imberbes, seu pescoço de marfim,
A boca encantadora, o leve rubor que lhe colore a nívea pele.
Admira tudo quanto admiram nele.
Em sua ingenuidade deseja a si mesmo.
A si próprio exalta e louva. Inspira ele mesmo a ardores que sente.
É uma chama que a si própria alimenta.
Quantos beijos lançados ás ondas enganadoras!
Para sustentar o pescoço ali refletido, quantas vezes
Mergulhou inutilmente suas mãos nas águas.
O mesmo erro que lhe engana os olhos, acende-lhe a paixão.
Crédulo menino, por que buscas, em vão, uma imagem fugitiva?
O que procuras não existe. Não olhes e desaparecerá o objeto de teu amor.
A sombra que vês é um reflexo de tua imagem.
Nada é em si mesma: contigo veio e contigo permanece.
Tua partida a dissipara, se pudesses partir...
Universidade Estadual de Maringá, 17 a 20 de setembro de 2013.
Inútil: sustento, sono, tudo esqueceu.
Estirado na relva opaca, não se cansa de olhar seu falso enlevo.
E por seus próprios olhos morre de amor (OVÍDIO apud BRANDÃO, 1997,
p.180).

Existem ainda outras versões do mito de Narciso. Segundo Pausânias (séc II a. C),
Narciso teria uma irmã gêmea que morreu muito jovem, ao ver-se na fonte de Téspias,
acreditou que estava vendo a irmã e por isso, não conseguiu afastar- se dali. As versões
concordam que mesmo no Hadesiii Narciso tenta ver-se refletido nas águas do rio Estige,
perpetuando assim, o seu destino. Na versão, narrada pelo mitógrafo grego Cônon (cerca de
30 a.C), o jovem é descrito como belo, mas orgulhoso em relação àqueles que o amavam.
Mas, apesar de suas diferentes versões, o mito de Narciso gerou várias interpretações e
reflexões para o ‘espírito grego’.

REFLEXÕES PRESENTES NO MITO DE NARCISO


Para entendermos o significado do mito devemos começar pela etimologia da palavra
‘narciso’. Segundo J. S. Brandão (1997), a palavra, narciso não tem origem grega, talvez a
palavra seja de um empréstimo mediterrâneo da ilha de Greta, mas não passam de suposições.
Tem-se uma aproximação do elemento que em grego significa ‘entorpecimento, torpor’, cuja
base talvez seja do indo-europeu ‘encarquilhar, morrer’ e é de cunho popular. Com este
sentido de torpor já é empregado por Aristófanes relacionando-se depois com a flor de
narciso, que era tida por estupefaciente com toda uma vasta família de elementos.
Outro importante fator a ser analisado no mito é a representação da vaidade de
Narciso. O seu reflexo na água, identificado como uma representação do espelho é segundo
Loredana Limoli:

[...] o mediador entre o olhar individual e coletividade. Nós precisamos saber


como o outro nos vê para atrairmos sua atenção ou para confirmarmos que
estamos na mira de sua admiração. E como não podemos incorporar, como
nosso, o olhar do outro, recorremos ao espelho, que é, de todos os tempos, a
figura da vaidade, o instrumento que nos permite ter permanentemente o
olhar do outro sobre nós (LIMOLI, 2008, p. 206).

A vaidade identificada por Limoli, também está presente na análise de J. S. Brandão


(1997). Para esse autor o Mito de Narciso é baseado no excessivo amor próprio. Esse
sentimento ocupa todos os aspectos da vida do personagem Narciso, afetando-o

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negativamente, o que o leva a morte. Em suma, as consequencias da vaidade e do amor
próprio em excesso, são alertas do mito para os seus ouvintes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A função reflexiva que o mito proporciona foi de fundamental importância para o
desenvolvimento da filosofia grega e ainda é para o homem moderno. O mito, ao indagar
sobre questões fundamentais do homem, o leva a pensar sobre o mundo ao seu redor e as
consequências de seus atos.
Narciso representa o amor exagerado por si mesmo e nos ensina que a vaidade em
excesso atrapalha a vida do homem, o desequilibra e tira o foco das verdadeiras questões que
deveriam ser importantes para o ser humano. Este amor e vaidade representados por Narciso
são presentes em nosso cotidiano e são a causa de muitos males do dia-a-dia que enfrentamos,
como a concorrência entre funcionários de uma mesma empresa que buscam ‘destruir’ a vida
de seus concorrentes, a recusa em se discutir determinados assuntos com temáticas ‘delicadas’
e que podem ferir o ego de certos indivíduos, a falta de humildade em se aceitar que se está
errado e buscar uma melhoria das situações vividas, etc.
O mito de Narciso e a sua reflexão devem ser entendidos tendo-se em vista o contexto
grego, mas o homem grego antigo e o homem atual carregam os mesmos vícios e virtudes,
sendo assim Narciso continua sendo atual e de grande valor para o conhecimento do homem e
de suas características morais.

REFERÊNCIAS

BRANDAO, J. S. Mitologia Grega. Petrópolis: Editora Vozes, 1997.


CARDOSO, Ciro Flamarion S. A Cidade-Estado Antigo. São Paulo: Ática, 1993.
ELIADE, Mirceia. Mito e Realidade. [S.I.]: Scribd. Disponível em:
<http://pt.scribd.com/doc/60591375/Mircea-Eliade-Mito-e-Realidade> - Acessado em: 28
mar. 2013.
ELIADE, Mirceia. O Sagrado e o Profano. [S.I.]: Igreja Batista no Pq Panamericano.
Disponível em:
<http://ibpan.com.br/site/images/stories/Downloads/Estudos_Biblicos/O%20Sagrado%20e%2
0o%20Profano.pdf> – Acessado em: 28 mar. 2013.
FERREIRA, José Ribeiro. A Grécia Antiga. Rio de Janeiro: Edições 70, 1992.
GRIMAL, Pierre. A Mitologia Grega. São Paulo: Brasiliense, 1985.
LIMOLI, Loredana. Beleza feminina: as metamorfoses de um mito. IN: NAVARRO, Pedro
(org.). O Discurso nos domínios da linguagem e da história. São Carlos: Claraluz, 2008.

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OLIVEIRA, Terezinha. O mito como discurso de construção social: Prometeu e Pluto. In:
NAVARRO, Pedro (Org.). O Discurso nos domínios da linguagem e da história. São
Carlos: Claraluz, 2008.
ROSTOVTZEFF, M. História da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
VEYNE, Paul. Acreditavam os Gregos em seus Mitos? São Paulo: Brasiliense, 1984.

i
Esse trabalho, que ora apresentamos, é parte das atividades de ensino da Disciplina Filosofia da Educação na
Antiguidade, ministrada pela professora Terezinha Oliveira aos alunos de Pedagogia do primeiro ano da Turma -
32/2013, no primeiro semestre. Em linhas gerais, as questões tratadas aqui foram representadas em maquete e
expostas a alunos, do 7º ano do Ensino Fundamental, do Colégio de Aplicação da UEM – CAP.
ii
Nacional na acepção de Grimal como pan-helênico.
iii
Na mitologia grega Hades é mundo inferior em que os mortos residem;

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