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10/10/2019 Espaço público e “nova urbanidade” no contexto do direito á cidade

Confins
Revue franco-brésilienne de géographie / Revista franco-brasilera de geografia

18 | 2013 :
Número 18

Espaço público e “nova


urbanidade” no contexto do
direito á cidade
Espace public et « nouvelle urbanité » dans le contexte du droit à la ville
Public Space and“new urbanity” in the contextof the rightto the city

A F A C

Résumés
Português Français English
O desafiode pensara cidade em suaperspectiva espacialoferece um conhecimento queenvolve a
construção deuma teoria da práticasócio-espacialurbana,para revelar osentido da realidadecomo
um todo eas oportunidades queestão surgindo nohorizontepara a vida cotidianana cidade.Énesta
perspectiva que se colocou umareflexão críticasobre o significado dareproduçãosocial de longo
prazodo espaço urbano-capaz de iluminara armadilhade reduzir osentido da cidadena
condiçãodereproduçãoforça oude capital,espaçosem sentidoda vida ou dacidadaniae da
experiênciaindividual.Assim, oespaço público comoespaço-tempo na cidade revelouque cada
sujeitoestá localizadoemum espaço específico, construído por uma rede de
significadosexperientesem termos de experiênciacomo uma práticasócio-espacial. Assim, oespaço
a)tem umareal e concretaobjetividade, eb) a dimensão subjetiva: a percepção de queos
cidadãosconstroem sobrea realidade.Estes nãosão independentes epermitem na suadialética a
compreensão dadimensão prática e da dimensão abstratada produçãoespacial.Assim, a cidade
como um produtoda ação humanaé aobjetivaçãoque lhe dáo seu conteúdohistórico e social, é, ao
mesmotempo,o sujeito se tornaconscientedessa produção.

Le défi de penser la ville dans sa perspective spatiale propose un savoir qui porte sur la
construction d'une théorie de la pratique urbaine socio-spatiale, afin de dévoiler le sens de la
réalité dans son ensemble et les possibilités qui se dessinent à l'horizon pour la vie quotidienne
dans la ville. C'est dans cette perspective qu'est placée une réflexion critique sur le sens de la
reproduction sociale à long terme de l'espace urbain - capable d'éclairer le piège consistant à
réduire le sens de la ville à la condition de la reproduction de la force ou du capital, vidé de son
sens d'espace de vie humaine ou de citoyen et l'expérience individuelle. Donc l'espace public
comme espace-temps dans la ville révèle que chaque sujet se situe dans un espace concret,
construit par un réseau de significations vécus au plan du vécu comme une pratique socio-
spatiale. Ainsi l'espace a) a une objectivité réelle et concrète, et b) une dimension subjective: la
prise de conscience que les citoyens construisent sur la réalité. Celles-ci ne sont pas
indépendantes et permettent par leur dialectique de comprendre et la dimension concrète et la
dimension abstraite de la production spatiale. Ainsi, la ville comme un produit de l'action
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humaine est l'objectivation qui lui donne son contenu historique et social, est dans le même
temps, le sujet devient conscient de cette production.

The challengeof thinkingthe city in itsspatial perspectiveoffersknowledge thatinvolves the


constructionofa theory ofsocio-spatial urban practice, in ordertoreveal thesense of realityas a
whole andtheopportunitiesthat are emerginginthehorizonfor everyday lifein the city.It is
inthisperspective that is placeda criticalreflection on the meaningof sociallong-term
reproductionof urban space-capable of illuminatingthe trapof reducing thesense of the cityon the
conditionofreproductionforceor capital, meaninglessspaceof life orcitizenship andindividual
experience.Sothe public space asspace-timein the cityreveals thateach subjectis located ina
specificspace, builtby a network ofexperiencedmeaningsin termsofexperienceas a socio-spatial
practice.Thusspace has a) a real and concreteobjectivity, and b) asubjectivedimension:
therealization thatcitizensbuild ofreality.Theseare not independentand allowintheir dialectical
play an understandingof thepractical and abstractdimensionsof spatialproduction.Thus, the
cityas a product ofhuman action isthe objectificationwhich gives itits historical and
socialcontent,isat the same time, the subject becomesaware of thisproduction.

Entrées d’index
Index de mots-clés : citoyenneté, droit à la ville, identité abstraite, urbanité
Index by keywords : abstract identity, Citizenship, right to the city, urbanity
Índice de palavras-chaves : cidadania, direito à cidade, identidade abstrata, urbanidade

Texte intégral

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1 O desenvolvimento deste texto apoia-se na hipótese segundo a qual os conflitos que
eclodem na cidade se realizam como luta pelo espaço. O ponto de partida do raciocínio
toma a cidade como produção histórica revelando a dimensão da vida humana, posto
que todas as relações sociais realizam-se como relações espaço-temporais, significa
afirmar que as contradições do capitalismo são vividas como realidade concreta no
plano da vida cotidiana. Aí se localiza desenvolve-se o “exercício de cidadania” que
concretiza-se como luta pelo direito a cidade.
2 Inaugura-se -nos anos 80- no Brasil, como decorrência do fim da ditadura militar, a
ação dos chamados "movimentos sociais" que colocam em xeque a extrema
desigualdade social decorrente da opção pelo crescimento econômico em detrimento do
desenvolvimento social. Este se materializa na profunda desigualdade sócio-espacial –
o urbano revela acessos diferenciados na cidade – expressa nas relações contraditórias
entre centro e as imensas periferias marcadas pela precarização das habitações,
infraestrutura, e emprego, ao lado da ausência de equipamentos sociais. Também será o
lugar de onde as vozes contrárias a esta situação vão questionar o “direito á cidade”
para todos. Numa fase critica da urbanização esta ação eclode como urgência e tem por
álibi o acesso a moradia, mas para além da resolução da urgência da moradia o que esta
em jogo é a redefinição das diretrizes da produção da cidade como espaço de todos.
3 Como fundamento da luta é o questionamento da cidade produzida enquanto valor
de troca à qual os movimentos sociais contrapõem, como seu negativo, a cidade
enquanto valor de uso. Como desdobramento exige-se a redefinição do “espaço público”
e da constituição dos novos termos em que se realiza a “urbanidade” à luz deste direito.

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4 Os movimentos sociais que exigem a reforma urbana iluminam um fato importante:


sob a égide da reprodução capitalista, a cidade se produz enquanto condição e meio da
acumulação. Nesta perspectiva ela se produz como espaços-tempo da realização dos
processos de produção, distribuição, troca, circulação de bens e mercadorias. Como
produto desta orientação a cidade também se produz sobre a égide da produção de
mercado, tornando-se, ela própria mercadoria. Assim ela fragmenta-se em lugares
apropriados apenas através do mercado imobiliário. Sob esta orientação – a da
realização do processo de acumulação – a cidade aparece ao cidadão como
exterioridade, e vivida como estranhamento redefinindo, nesta perspectiva, todas as
relações sociais, cunhando uma nova urbanidade fundada nos princípios do mercado.
5 No plano da morfologia urbana produz-se concretamente limites e fronteiras, sob a
orientação das necessidades da acumulação esvazia-se e empobrece-se os espaços
públicos que dão sentido a vida como condição da criação de uma história coletiva.
6 A segregação espacial como produto da desigualdade revela o modo como se realiza a
propriedade da riqueza. Seu grau de concentração revela-se nos modos de acesso á
cidade como condição, meio e produto da reprodução da sociedade. Os conflitos
caracterizam uma urgência e se situam no plano da moradia na medida em que o
fundamento da produção cidade capitalista é a reprodução constante das condições de
produção da riqueza, fortemente concentrada nas mãos de uma classe que tem o poder
de definir as políticas públicas e, dentre elas a urbana - orientando o orçamento
público, fazendo com que seu interesse particular apareça como necessidade de todos.
A cidade produzida como exterioridade revela, portanto, uma contradição muito mais
profunda: seu processo de produção é social mas sua apropriação é privatizada.
7 A existência da propriedade privada da riqueza domina as dinâmicas espaciais pois a
condição de proprietário dá a uma classe social a possibilidade de orientar as políticas
urbanas em direção as necessidades de realização do processo acumulativo
direcionando orçamentos de estado, orientando a legislação de acordo com seus
interesses, delimitando e estabelecendo os contornos da vida urbana.
8 Os movimentos sociais tem sistematicamente, nas 3 últimas décadas, questionado
esse poder e com ele a extrema vinculação dos interesses econômico e aqueles do plano
do político. Com isso a vida se realiza em espaços-tempos definidos e delimitados por
uma lógica da reprodução econômica e política e só, secundariamente, social. A ação e o
debate em torno do planejamento da cidade constitui-se nesta direção, uma
necessidade de resolução da profunda desigualdade com que se realiza o processo de
urbanização decorrente de uma industrialização “dependente” – modulada pela
condição de pais periférico – dando características específicas, a crise urbana que
vivemos, aonde a segregação aponta contradições insolúveis, no âmbito da reprodução
capitalista.
9 Estes são os termos em que se funda o debate em torno da direito a cidade balizada
pelo “discurso da cidadania”1. No Brasil, a produção deste discurso significou ganhos
advindos com o amadurecimento da democracia, na esteira da promulgação de uma
nova constituição – 1988 - adjetivada de “cidadã”; mas significa também – e, é o que o
discurso oculta – a imposição do projeto neoliberal imposto no cenário mundial por
Thatcher e Regan, assumida pelo Banco Mundial.

A produção alienada da cidade


10 Consequência dos processos acima apontados, a cidade aparece como privação,
perda, estranhamento revelando os descompassos entre tempo da vida e aquele da
transformação da morfologia urbana imposta pelas políticas urbanas no seio do Estado
objetivando a reprodução do capital. Esse descompasso aponta a produção alienada da
cidade. Por outro lado, a produção do espaço sob a égide do Estado, ganha um caráter
estratégico. Isto é, o Estado regulador impõe as relações de produção sob a forma de
dominação do espaço, imbricando espaços dominados/dominantes para assegurar a
reprodução da sociedade enquanto reprodução continuada do capital e do poder
político.

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11 As políticas urbanas orientam os investimentos em determinados setores e áreas da


cidade propícias a esta realização, em detrimento de “áreas carentes”, com a produção
da infraestrutura necessária a esta nova acumulação. Assim mudam-se as leis de
zoneamento de modo a permitir a expulsão de moradores das chamadas “áreas nobres”,
e como conseqüência, permitir o re-parcelamentos das terras urbanas necessárias à
produção dos edifícios corporativos, voltado ao setor dos serviços modernos. É assim
também, modificam-se os gabaritos dos prédios, trazendo como consequência o
adensamento de áreas inteiras da cidade “requalificando-as”. Figura-se uma nova
divisão espacial do trabalho e da residência na cidade através de parcerias entre o setor
público e o privado. E nesta parceria – entre o que é do público e o que é do privado – a
orientação dos projetos transformadores da cidade (em função dos objetivos de
realização deste privado) vem expulsando uma parcela significativa de habitantes “não
compatíveis” (aqueles que não têm renda, nem poder de consumo) com esta “nova
produção espacial”. A capacidade produtiva se estende por todo o espaço enquanto que
cria as políticas que vão gerar a possibilidade do crescimento. É nesta direção, por
exemplo, que a figura do prefeito deve ser associada aquela de empresário, pois a
cidade deve exercer uma função econômica e, portanto, deve gerar lucro, atraindo o
capital para dento de seus limites.
12 Deste modo uma nova ordem orienta a produção do espaço da cidade redefinindo os
usos e as funções criando o ambiente necessário ao crescimento econômico, cada vez
mais, associado ao plano do global. Com isso instaura-se uma contradição entre as a
área da cidade integradas a essa lógica em contrapartida à ampliação das áreas de
desintegração ampliando os conflitos em torno da luta pela cidade e pela vida na
cidade.
13 A produção do espaço urbano no mundo moderno revela, por sua vez, o
aprofundamento das contradições decorrentes da reprodução da sociedade num
momento de generalização da urbanização a partir de uma nova relação entre o Estado
e o espaço apoiado no discurso político que reforça a capacidade de sua ação na
intervenção e gestão do espaço. Nesta direção a propriedade privada assume, no
discurso do planejamento uma função “social” que obscurece seu sentido segregador e
desigual; enquanto a idéia do interesse comum sobre o interesse individual impõe, na
produção do espaço, a lógica do Estado e de suas alianças – isto se revela nas Operações
urbanas realizadas em São Paulo nos últimos anos, de forma muito clara.2
14 A extensão da propriedade privada do solo urbano tornando todo o espaço
intercambiável (o espaço da cidade constantemente partido, fragmentado e suas
parcelas vendidas no mercado), produz a equalização do desigual3 e deste modo a
realização do ato de morar e da realização da vida submetida a realização da
propriedade privada. Neste sentido o movimento da reprodução da metrópole, revela os
conflitos e limites da reprodução social apontando uma contradição fundamental no
movimento do processo de reprodução da cidade entre valor de uso e valor de troca do
espaço expresso na possibilidades de apropriação do espaço da vida. É assim que a
questão da habitação aparece como urgência e vai revelando a ditadura da propriedade
privada da terra impondo a contestação de sua lógica, como fundamento da
intensificação e do aprofundamento das contradições4.
15 O motor do processo de produção espacial da cidade é determinado pelo conflito a
partir das contradições inerentes às diferenças de necessidades e de pontos de vista de
uma sociedade de classes, manifesta na propriedade privada do solo e,
consequentemente, no seu uso. É assim que a cidade vai se reproduzindo hoje como
“exterioridade”, e percebida como “potência estranha à sociedade”.
16 Estes são os elementos que sinalizam o agravamento da crise urbana produto direito
da reprodução geral da sociedade onde a cidade aparece comoo lugar desta realizaçãoe
é por isso que explode por todos os lugares o conflito a partir das contradições inerentes
às diferenças de necessidades e de pontos de vista de uma sociedade de classes,
manifesta pelos modos de apropriação dos espaços.
17 Portanto, a produção de um projeto para a cidade passa pela elaboração de uma
compreensão dos processos constitutivos da cidade, dos conteúdos da urbanização
atual o que envolve a necessidade de destrinchar as estratégias de classe que fundam e
orientam a sua reprodução estabelecendo novas ou reafirmando velhas contradições.
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Desta constatação vem a urgência da construção de um pensamento teórico


(crítico)capaz de entender a prática sócio-espacial em todas as suas dimensões como
possibilidades de realização da vida em suas contradições, entendendo as ações que
sujeitam a vida, e a normatizam na cidade.
18 Assim a luta pela cidade é produto da constatação das contradições que estão na base
da construção do urbano no Brasil, e envolve a elaboração de um projeto para a
sociedade aonde o “o direito à cidade” possa ser entendido como espaço-tempo da vida
humana.

Sobre os espaços públicos


19 A relação do homem com o mundo é construída a partir de um ponto no qual o
indivíduo se reconhece e a partir de onde constrói um teia de relações com o outro e
através deste, com o mundo que o cerca, produzindo-se enquanto humano á medida em
que constrói a realidade. O ponto de partida é o espaço privado. O espaço público, por
sua vez, tem uma multiplicidade de sentidos para a sociedade em função da cultura,
hábitos, costumes, que não pode ser negligenciado. Para muitos, os espaços públicos se
referem àquele dos equipamentos coletivos, o que nega o sentido da possibilidade de
apropriações múltiplas que lhe dão conteúdo como lugar de encontros/desencontros,
lugar da comunicação, do diálogo, da sociabilidade. Portanto, os espaços privados e
públicos são marcados por formas de apropriação diferenciadas, enquanto momentos
privilegiados que constituem a identidade cidadão/cidade em sua indissociabilidade,
apesar de constituírem-se, historicamente, como contraditórios: o dentro e o fora, o
individual e o coletivo, o protegido e o violento.
20 Todavia, se há uma diferença- no plano dos conteúdos das relações sociais- entre o
espaço privado e o espaço público, ambos revelam um “topos” que parece facilmente
detectado nas análises referentes ao espaço privado, enquanto as análises do espaço
público revelam uma a-espacialidade quando restringem seu sentido àquele da esfera
pública.
21 A ação que constitui o mundo concretamente se realiza enquanto modo de
apropriação do espaço para a reprodução da vida em todas as suas dimensões, como
apontamos acima. Referem-se a modos de apropriação que constroem o ser humano e
cria a identidade que se realiza pela mediação do outro (sujeito da relação). Esta é uma
característica da vida humana envolvendo dois planos: o individual (que se revela, em
sua plenitude, no ato de habitar- ligando-se aos conteúdos e sentidos do espaço
privado) e o coletivo (plano da realização da sociedade, realizando-se na cidade -
ligando-se aos conteúdos e sentidos do espaço público). O lugar apropriado visa a
realização dos desejos do cidadão que se realizam através do uso cujo conteúdo
ultrapassa aquele do mero consumo produtivo dos lugares da cidade. Essa relação
ganha sentido objetivo e subjetivo na cidade.
22 A cidade enquanto prática social é espaço – tempo da ação que funda a vida humana
em sua objetividade e não se limitada a um simples campo de experiência, pois a
apropriação do espaço que se realiza, através do corpo e de todos os sentidos, apontam
as determinações do ser humano. Portanto se o espaço foi durante muito tempo
pensado como localização dos fenômenos, palco onde se desenrolava a vida humana, é
possível pensá-lo em uma outra determinação, aquela que encerra, em sua natureza,
um conteúdo social dado pelas relações sociais (práticas) que se realizam num espaço –
tempo determinado; aquele da sua constante reprodução da vida humana, ao longo da
história.
23 Assim ao enfocar a prática, o movimento do pensamento vai na direção do concreto,
da prática urbana real em suas contradições vividas. Na cidade contemporânea a
contradição espaço público – espaço privado revela a extensão da privação – através da
forma jurídica da propriedade privada da riqueza- traduzindo-se na hierarquia social
que define o acesso aos lugares da cidade pontuando a diferenciação entre os
indivíduos. Ao mesmo tempo revela a explosão do centro da cidade como lugar
simbólico constitutivo da identidade. Aqui o sentido deste centro é radicalmente

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diferente da ágora grega. Se todo espaço requer um centro como condição de sua
produção o sentido do que é o centro se transformou– da participação coletiva se
metamorfoseia em participação representativa, nesta conversão o cidadão se eclipsa e
só sobra a monumentalidade que revela a espetacularização do espaço.
24 Neste processo a cidade contemporânea aponta a passagem do espaço do consumo ao
consumo do espaço marcado pela mediação da troca sob a lógica da mercadoria. Aqui o
uso e as formas de apropriação do espaço da realização da vida se submetem e se
orientam sob os desígnios da troca mercantil no momento histórico em que o espaço-
tempo de realização da mercadoria, e de seu mundo, aparece como condição da
reprodução da sociedade. E assim a concretização da vida pública aparece imersa no
mundo do espetáculo da sociedade de massas, como consciência alienada.
25 O espaço público se restringe a contemplação passiva, mais do que da ação cívica, as
representações, aqui, assumem papel importante na dissimulação da participação do
indivíduo no projeto coletivo da cidade. O espaço público saturado de imagens, signos
do urbano e da vida moderna, age como elemento norteador dos comportamentos e
definidores dos valores que organizam a troca, hierarquizando os indivíduos através de
seu acesso aos lugares da cidade. Aqui a prática sócio-espacial apesar de fundar-se na
realidade, dissimula-a. A cidade atual revela que o homem cria as condições que o
fazem existir ao mesmo tempo em que cria as condições de vida que se opõem a ela pela
redução das possibilidades da apropriação: nas transformações dos usos, no
encolhimento das possibilidades da realização da troca como condição da sociabilidade.
26 É assim que, na análise da cidade, nos confrontamos com as situações que emergem
no seio da realidade como urgência advindas de uma vida cotidiana fragmentada,
realizada em espaços segregados, como aspiração à uma “outra vida” restaurando a
dialética da necessidade e do desejo. Aqui o espaço público se converteria em lugar da
experiência coletiva da troca generalizada pela ação dos indivíduos que lhe dão
significado e conteúdos. Sob o exercício do direto á cidade, o espaço público aparece
como o lugar da realização concreta da história individual como história coletiva, pela
mediação dos lugares de realização da vida. Por isso a dinâmica do processo de
produção do espaço urbano revela o movimento da sociedade em sua totalidade. Essa
idéia aponta a possível passagem da compreensão do espaço público entendido como
aquele da “esfera pública”, para o entendimento do espaço público - enquanto lugar
determinado da cidade - como condição da realização da esfera pública enquanto
momento da prática sócio-espacial.

Os conteúdos da urbanidade
27 O “direito à cidade” no centro da análise cria uma nova inteligibilidade, iluminando
um projeto para a sociedade: a) como produto da crítica radical ao planejamento e a
produção de um conhecimento sobre a cidade que supere a redução da problemática
urbana àquela da gestão do espaço da cidade com o objetivo de restituir a coerência do
processo de crescimento (apoiado no saber técnico que instrumentaliza o planejamento
estratégico realizado sob a batuta do Estado, justificando sua política); b) como
movimento da práxis, na medida em que o cotidiano os homens os relacionam com um
conjunto de objetos que, cada vez mais, regem as suas relações e são convertidos em
elementos distinguidores na construção da sociabilidade ou de sua negação, na medida
em que as relações com os objetos substitui cada vez mais as relações diretas entre as
pessoas produzindo um mundo do espetáculo permanente, da celebração do objeto.
Aqui o homem esta envolto num ambiente saturado de objetos que acaba provocando a
inércia e a sua subjugação - ocultação do sujeito posto que o triunfo do objeto faz
desaparecer. Isto é, na resplandecência do objeto, o homem torna-se ausente e aí o
objeto aparece como sujeito.
28 A construção deste novo individualismo que contribui ao aprofundamento da
atomização da sociedade se cria e se desenvolve no bojo da sociedade de consumo,
produzindo-se a partir de uma nova orientação: a existência do hedonismo que dá
legitimidade aos prazeres e satisfações materiais mais íntimas. Esse individualismo

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moderno, ligado à implosão das orientações sócio-culturais e da crise da cidade, tende a


separar e dividir os habitantes na cidade em função das formas de apropriação
determinadas pela existência da propriedade do solo urbano; cada um num endereço
específico, apontando para uma segregação espacial bem nítida. Essa delimitação, bem
marcada, separando a casa da rua, reduzindo o espaço público, apagando a vida nos
bairros (onde cada um se reconhecia, porque este era o espaço da vida), torna a cidade
anônima, funcional e institucionalizada, marcando os contornos de uma nova
urbanidade.
29 Nesse processo a cultura de massa acaba por desempenhar um papel fundamental,
pois reforça as pressões sociais sobre o indivíduo ao impor modelos de imitação
coletiva, o que finda por pulverizar o homem. Derrubam-se convenções, costumes,
crenças, para, em seu lugar construir o vazio. Nesse sentido o cotidiano se realiza como
ausência e presença ilusórias, instalado no vazio, produto de relações sempre fluídas, da
construção da imagem de uma sociedade programada e, aparentemente, sem sujeitos,
ou de um sujeito que se reconhece em sua demanda mercantil.

O discurso da gestão democrática


30 Na cidade a negatividade da luta pelo direito indica a necessidade prática de
superação da contradição uso/troca. Esta contradição só se resolve na superação
daquilo que funda o capitalismo: a propriedade privada. Os movimentos sociais de
moradia ao colocarem a propriedade privada do solo no centro da luta, apontam a
necessidade de transformação radical da cidade vivida enquanto privação, como
realização suprema da desigualdade. É assim que a consciência subjetiva desse
processo, que revela a dialética do mundo, cria a necessidade da ação que põe fim à
alienação percebida enquanto estranhamento, isto é a cidade produzida enquanto
exterioridade, percebida enquanto perda e privação.
31 A proposta da “gestão democrática” apoia-se no argumento da realização da
cidadania através da “participação dos envolvidos” na gestão da cidade. Muitos Autores
vêem nesta possibilidade um projeto de transformação da realidade urbana suficiente
para colocar fim aos problemas enfrentados na cidade. É nessa perspectiva que
caminham as análises de Queiroz Ribeiro, Santos Jr, Azevedo, Gohn, dentre outros.
Mesmo entendendo a importância em nossa sociedade, hoje, da criação do estatuto da
cidade, da realização das conferências da cidade e da criação do ministério da cidade,
como conjunto de medidas que relativiza a indiferença com a qual tem sido tratada no
Brasil a profunda desigualdade (com que a acumulação se realiza e se reproduz), o
imenso coro de adeptos a este projeto causa grande preocupação.
32 Em sua superficialidade analítica os teóricos da “gestão democrática” chegam mesmo
a achá-la revolucionária, quando, na realidade é possível situá-la na totalidade das
condições da reprodução capitalista em seu atual estágio de desenvolvimento. As
análises de Annick Osmont5 indicam que este tipo de gestão funda o conceito de
governança retomado pelo banco Mundial no final dos anos 80 ganhando
operacionalidade como modelo de ação cujo objetivo é permitir o “ajustamento” das
economias em desenvolvimento às necessidades de expansão do neoliberalismo. Nesta
direção a nova gestão urbana produziria o ambiente propício à reprodução da lógica
neoliberal sob o comando do Banco Mundial.
33 Fundamentando esta proposta os conceitos de cidadania e de direto à cidade,
merecem especial atenção pois seu esvaziamento pela criação de um discurso
fortemente ideologizado.
34 A noção de cidadania, que funda a proposta de gestão democrática tem se apoiado na
definição de Marshall,6 para quem a cidadania teria como conteúdo a realização dos
direitos civis, políticos e sociais. Merece atenção o destaque de Murilo de Carvalho7
para quem o exercício de cidadania pode ocorrer mesmo sem que esses três direitos
estejam presentes numa determinada sociedade. Em seu raciocínio a reunião
simultânea dos três constituiria a cidadania plena como ideal posto como horizonte
inaugural para a sociedade ocidental, pois a garantia de vigência desses direitos

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dependeria da existência de uma eficiente máquina administrativa do poder executivo


capaz de permitir à sociedade politicamente organizada de reduzir os excessos da
desigualdade, produzidas pelo capitalismo, garantindo o bem estar para todos, com
justiça social.
35 A cidadania assim concebida só poderia realizar-se no seio do estado capitalista,
como sua expressão lógica, limitada a existência da sociedade civil surgida com o
desenvolvimento do capitalismo. Na direção oposta como argumenta Décio Saes8, a
conquista da cidadania “plena e ilimitada (...) situa-se além do horizonte da sociedade
capitalista e de suas instituições políticas”,9 o que implicaria na superação deste
modelo.
36 Este é o sentido das análises de Agnes Heller em seu livro A filosofia radical onde
escreve que o capitalismo produz uma série de carecimentos, dentre eles o que chama
de carecimentos radicais – o de cidadania, por exemplo, “que se formam nas sociedades
fundadas em relações de subordinação e de domínio, mas que não podem ser
satisfeitos quando se resta no interior delas. Significa dizer que são carecimentos cuja
satisfação só é possível com a superação desta sociedade”10

Passeata no dia nacional de mobilização para o direito a moradia

Fonte: http://www.riltonsilva.com.br/2011_05_01_archive.html
37 O direito á cidade, neste contexto, pode ser entendido como um carecimento radical
uma necessidade que surge na contramão da história que transforma a propriedade
comunal em potência abstrata na sociedade capitalista. Na cidade a negatividade da
luta pelo direito à cidade indica a necessidade prática de superação da contradição uso-
troca - esta contradição só se resolveria na superação daquilo que funda o capitalismo, a
propriedade privada. Assim se revela o mesmo horizonte delineado por Marx na
questão judaica; a transformação radical da sociedade deve negar à política primeiro
porque ela reduz o homem a membro de uma sociedade civil submetido ao egoísmo, à
propriedade privada. Segundo porque o político está submetido ao controle burocrático
que escapa ao controle democrático, em terceiro lugar porque o partido político está
submetido a suas alianças.
38 O direito à cidade se insere, portanto, como ação que entra em contradição com o
controle burocrático do Estado. Aqui a urbanidade revela os conteúdos da práxis que
vai na direção da ação que coloca em xeque a totalidade da sociedade submetida à
economia e à política que a sustenta e apóia. Orientada pela idéia de cidadania o debate
e as ações ganham novo contorno. Todavia esse conceito revela limites quando
confrontado com os termos do direito a cidade, defendido por Lefebvre, por exemplo11.

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O discurso do Estado sobre o direito


39 O movimento pela reforma urbana, no Brasil, conquistou, na década de 80 espaço no
cenário nacional que redundou em mudanças que acabaram por criar a lei federal
10.257 – o estatuto da cidade - como nova base jurídica para o desenvolvimento urbano
com modificações sobre o direito à propriedade (incorporando a noção de direitos
urbanos e sustentabilidade). Sua existência relativiza a indiferença diante da
desigualdade que fundamenta a produção das cidades capitalistas, colocando na ordem
do dia, o debate sobre o “direito à cidade”. Este procedimento também sinaliza o
reconhecimento dos movimentos reivindicatórios que estão na base da sociedade
brasileira, recolocando o direito à cidade e o exercício de cidadania no centro do debate
do entendimento do mundo moderno capaz de criar elementos para a construção de
uma nova sociedade. Sem negar esse avanço é, no entanto, necessário dialetizar seu
papel na constituição de um projeto capaz de sinalizar as transformações necessárias
(da cidade) como momento de transformação radical da sociedade na medida em que
tal procedimento não permitiu o questionamento daquilo que é fundamento da
produção espacial: a propriedade privada do solo urbano.
40 No limite último podemos afirmar que o que aparece como “direito a cidade” esta
circunscrito ao que o Estado esta disposto a ceder na gestão da cidade sem todavia,
perturbar a realização do circuito do capital, ao contrário, criando plenas condições
para sua realização. A questão mistificadora central é a identificação do “direito à
cidade” ao “direito à moradia”.
41 Podemos identificar alguns problemas obscurecidos pelo discurso da identificação da
propriedade a uma "função
função so
social” presente na constituição Federal. Isto é, o debate
realizado em torno do tema da gestão democrática da cidade pressupõe que os
processos urbanos se compreendem como um ato de planejar e gerir a cidade. Nesta
direção o discurso revela a necessidade da participação dos envolvidos e com isso o
perigo da cooptação dos movimentos sociais, sob a coordenação do estado (ministério e
prefeituras). Este é o debate a partir de uma lógica, a reprodução econômica e política,
pela dominação, através de alianças definidas - entre o estado e as classes detentoras do
capital. A produção de uma política para a cidade, mesmo saindo de um fórum coletivo
não apaga a racionalidade do Estado capitalista em suas alianças apoiadas no discurso
na democracia representativa. No limite último trata-se apenas de propor paliativos
para que a cidade não exploda e a população se sinta participante de seu destino; b) o
estabelecimento de uma função só sócio - ambiental da cidade e da propriedade (contida
nos artigos 26 e 73/74) é produto do pensamento que entende a urbanização como
crescimento populacional e a consequente deterioração que contingente traz com sua
presença à “natureza” na cidade.
42 Com isso inverte-se o foco da realidade encobre as contradições da produção do
espaço que se configura em "desarmonia sistêmica" trazendo como contraponto a
necessidade da busca do equilíbrio da cidade frente a crise ecológica através de sua
transformação em “ambiente urbano", redefinida enquanto ecossistema. A busca da
sustentabilidade é a decorrência imediata deste tipo de raciocínio, que, ignorando os
conflitos, evita a diferença propondo ummodelo de inteligibilidade do mundo
embasado na sistematização, com imensos riscos de simplificação da realidade, e de seu
movimento, com a busca de uma harmonia que ignora as contradições profundas sob as
quais se fundam as atuais relações sociais na cidade.
43 c) a busca por uma “melhor qualidade de vida“ pressupondo uma vida organizada sob
a égide de um modelo manipulado em torno do “bem estar” que cria a satisfação do
indivíduo enquanto usuário de bens de consumo. Nesta direção o que dá conteúdo
hoje, ao termo “cidadão” é a sua condição de consumidor seja de mercadorias (sua casa
esvaziada do sentido do habitar se transforma, ela própria, em mercadoria enquanto
áreas inteiras da cidade se transformam em reserva de valor), seja de serviços públicos.
Numa sociedade de consumo a condição de cidadania só pode se realizar, tendo como
conteúdo a realização do indivíduo enquanto consumidor. Na realidade “qualidade de
vida” é uma expressão vazia, produto do discurso ideológico que desloca a questão

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central: a produção segregada do espaço fundada na propriedade e apropriação privada


do solo urbano e, consequentemente, da cidade.
44 Assim a propriedade assume, no mundo moderno várias funções que o estatuto da
cidade não nega, mas também não questiona. A função econômica que se impõe sobre o
habitar e sobre todos os lugares e momentos da vida cotidiana, na cidade, projeta o
espaço homogêneo (dado por sua condição de mercadoria) fragmentado (a venda de
parcelas do espaço definido o uso). Deste modo os mecanismos que produzem a
moradia revelam a extrema segregação imposta –pela existência da propriedade
privada do solo urbano como necessidade da reprodução do capital revelando, no plano
da prática sócio espacial, a fragmentação dos lugares submetidos a funcionalização do
capital.
45 Podemos detectar dois deslocamentos no debate sobre a gestão democrática da
cidade:
46 a) no plano dom pensamento: o deslocamento da necessidade da compreensão dos
conteúdos da urbanização, (do sentido, das contradições que aparecem sob a forma de
conflito em torno do espaço da realização da vida e das condições do exercício real da
cidadania), para a suposição da gestão da cidade orientada pelo planejamento urbano
como condição única desta realização. Esse deslocamento faz coincidir a crise da
cidade, a crise vivida na vida cotidiana (a crise de acumulação do capital vivida como
prática sócio-espacial que é, em essência, uma crise social) para uma explicação política
presa ao universo do planejamento. Não raro, os problemas urbanos se explicam pela
necessidade de um planejamento em função da constatação ilusória de uma “falta de
planejamento da cidade”.
47 b) do sujeito que produz a cidade em ator que encena a vida na cidade. O conteúdo
desses processos que explicam a cidade e lhe conferem um caráter histórico e social
transcende sua forma, a cidade é antes de tudo uma produção social, vivida enquanto
pratica sócio-espacial, isto é, o sentido da cidade se ilumina a partir da sociedade
enquanto sujeito produtor da cidade. Todavia os sujeitos sociais, são reduzidos a sua
condição de atores eliminado sua ação transformadora.

Jornal da associação da Cantareira, São Paulo

Fonte: http://www.cantareira.org/noticias/participacao-cidada-da-periferia-e-retratada-no-jornal-cantareira
48 Essa orientação do pensamento revela as contradições desse movimento real que liga
a vida à apropriação necessária dos espaços-tempo da realização desta própria vida:

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como os espaços – tempo da vida cotidiana. Estes atos reais se referem aos usos dos
lugares da cidade, como dimensão necessária à realização da vida e, nesta perspectiva
se defronta e entra em conflito com as necessidades de reprodução tanto do econômico
quanto do político com táticas diferenciadas ligadas a uma estratégia de classe. Assim
na cidade se produz e se vive, como conflito, a contradição entre necessidades e desejos
da realização da vida e as necessidades sempre renovadas da reprodução do capital e do
poder que o sustenta (inaugurando, no momento atual, uma nova relação entre o
estado e o espaço). Reflexões estas, que tem passado ao largo das análises daqueles que
defendem, incondicionalmente, a gestão democrática da cidade como um projeto
revolucionário e transformador da cidade.
49 Assim se inaugura uma ocultação do papel do Estado no espaço, através das políticas
urbanas, que têm o papel de tornar o espaço da cidade programado pela lógica da
circulação subjugada a uma racionalidade que vai produzir a infra-estrutura, capaz de
permitir a migração do capital de um setor a outro na economia de modo a criar,
continuadamente, as possibilidades, sempre renovadas, da acumulação do capital,
agora, sob a égide do capital financeiro.
50 O debate em torno da gestão democrática da cidade aparece profundamente
ideologizado. Neste sentido, se faz necessário pensar o sentido do direito à cidade. Mas
para pensar o que é o direito à cidade, é preciso pensar o que é a cidade, e no que ela se
tornou. É nesse sentido que a cidade se revela para além de simples ato de morar,
espaços-tempos plenos de conteúdos. Espaços privados (o da casa) não isolados lugares
aonde se realiza a vida na cidade na imbricação de vários espaços-tempos; aqueles do
encontro, de reunião e sociabilidade. Envolve a existência dos pequenos comércios de
bairros que vão estruturando as relações de sociabilidade, os trajetos, enfim, todos os
movimentos e todos os momentos desta vida cotidiana que acontecem enquanto prática
através do espaço pelo uso realizado no plano do vivido através do corpo (e de todos os
seus sentidos), percebidos ora como presença, ora como ausências. Estes fatos impõem
um significado à cidade enquanto realidade, ato e possibilidade da realização da vida
humana.
51 Esse entendimento contrapõe-se a existência da propriedade privada que delimita e
esvazia as possibilidades da relação da vida humana. A cidade produzida enquanto
mercadoria, como legado do desenvolvimento do capitalismo, que ao se estender,
ampliou sem limites o mundo da mercadoria, englobou primeiramente os lugares da
cidade para contemporaneamente, produzir a própria cidade enquanto mercadoria e
com ela, o empobrecimento e esvaziamento dos espaços públicos, a normatização dos
momentos do lazer e do ócio. Nessa condição, a cidade invadida e produzida, sob a
égide do valor de troca, como condição e existência da extensão da propriedade privada
sinaliza ao mesmo tempo a reprodução ampliada do capital e o esvaziamento da
urbanidade.
52 Nessa direção os movimentos sociais apontam as necessidades urgentes de uma
mudança da cidade, de uma cidade vivida enquanto perda e privação, estranhamento e
caos. Nesta direção os movimentos sociais se definem como recusa, colocando o direito
à cidade no centro da luta, orientando-a. Os movimentos sociais nas cidades são, assim,
a própria negatividade, isto é, têm a potência da negatividade diante desse processo
enfocando o conflito violento, na cidade entre sua produção enquanto valor de uso e a
exigência da acumulação do capital em produzi-la enquanto valor de troca. 12
53 Os movimentos sociais de moradia, ao colocarem a propriedade privada do solo no
centro da luta apontam a necessidade de transformação radical da sociedade. É assim
que consciência subjetiva desse processo revela a dialética do mundo.

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Notes
1 Aqui refiro-me a uma diferença entre “exercício de cidadania” que é uma ação como produto da
consciência em torno das contradições vividas concretamente na vida cotidiana, do “discurso da
cidadania”.
2 Este assunto foi alvo de pesquisa apresentada no livro “Espaço e tempo na metrópole”, Editora
Contexto, 2001.
3 a equalização do desigual se refere aqui a tratar todos os cidadãos como se fossem iguais,
todavia sua renda define acessos diferenciados para cidadãos que em tese, tem os mesmos
direitos mas o exercem de forma desigual como decorrência dos fundamentos desiguais da
sociedade capitalista.
https://journals.openedition.org/confins/8391 12/14
10/10/2019 Espaço público e “nova urbanidade” no contexto do direito á cidade
4 A cidade é o lugar da realização possível do desejo. Esse se refere as possibilidades de
realização da vida humana em sua plenitude, sem separações e normas rígidas que tornam o ato
de habitar um uma ação reduzida àquela da moradia sob o signo da realização do valor e da
norma da dominação que se realiza com a extensão da propriedade privada no espaço.
5 “Governances” in Les annales de la recherche urbaine n°80-81, décembre de 1998.p. 3-25.
6 T.H.Marshall, Cidadania e classe social, in Cidadania, classe social e status, Ed. Zahar, Rio de
Janeiro, 1967, cap.3.
7 José Murilo de Carvalho, cidadania no Brasil: o longo caminho, Civilização brasileira, Rio de
janeiro, 2004.
8 “as liberdades civis se configuraram como fenômeno essencial e necessário à reprodução do
capital, pois o poder político continua nas mãos dos grandes bancos e das instituições ou
sociedades financeiras porisso os governos de esquerda sempre tiveram que se adaptar ao poder
da classe capitalista gerindo a economia dentro dos limites fixados pelos interesses econômicos e
políticos da classe social” Décio Azevedo de Saes, Cidadania e capitalismo: uma crítica á
concepção liberal de cidadania, in Crítica marxista nº 16, Boitempo, março de 2003 p. 9-38
p. 25/26.
9 op cit, idem, p. 38.
10 A filosofia radical, Editora Brasiliense, p. 143.
11 em várias obras, dentre elas “Le droit à la ville” de 1968.
12 Todavia os movimentos sociais na cidade guardam diversos conteúdos, em alguns momentos,
são, mesmo, capturados pela lógica do Estado.

Table des illustrations


Titre Passeata no dia nacional de mobilização para o direito a moradia
Crédits Fonte: http://www.riltonsilva.com.br/2011_05_01_archive.html
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/8391/img-1.jpg
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Titre Jornal da associação da Cantareira, São Paulo
Crédits Fonte: http://www.cantareira.org/noticias/participacao-cidada-da-periferia-
e-retratada-no-jornal-cantareira
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/8391/img-2.jpg
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Pour citer cet article


Référence électronique
Ana Fani Alessandri Carlos, « Espaço público e “nova urbanidade” no contexto do direito á
cidade », Confins [En ligne], 18 | 2013, mis en ligne le 18 juillet 2013, consulté le 10 octobre
2019. URL : http://journals.openedition.org/confins/8391 ; DOI : 10.4000/confins.8391

Auteur
Ana Fani Alessandri Carlos
Professora no Departamento de Geografia da USP, anafanic@usp.br

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Dynamique urbaine et métropolisation, le cas de São Paulo [Texte intégral]
Paru dans Confins, 2 | 2008
São Paulo, ville mondiale ? [Texte intégral]
Paru dans Confins, 1 | 2007

Droits d’auteur

Confins – Revue franco-brésilienne de géographie est mis à disposition selon les termes de la
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10/10/2019 Espaço público e “nova urbanidade” no contexto do direito á cidade
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