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Brasileiros criam debate que

não existe na Alemanha


"Nazismo de esquerda": internautas tentam "ensinar" história a alemães
após vídeo da embaixada. Discussão levantada aparece há alguns anos em
círculos de direita brasileiros, mas nunca existiu entre historiadores
sérios.

 Data 17.09.2018
 Autoria Jean-Philip Struck

         

Adolf Hitler marcha em direção ao Reichstag em Berlim no dia em que tomou posse como
chanceler
"Os alemães não escondem seu passado", diz a frase inicial de um vídeo com
legendas em português publicado pela Embaixada da Alemanha em Brasília
publicado no Facebook há pouco mais de dez dias.
O que era para ser mais um vídeo institucional para divulgar como a sociedade
alemã lida hoje com o nazismo e o Holocausto acabou virando, em meio à
polarização pré-eleições, palco de ataques de militantes de direita brasileiros que
não gostaram do conteúdo da peça. 
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Tudo porque um trecho classifica o nazismo como uma ideologia de extrema direita
e cita uma frase do ministro do Exterior alemão, Heiko Mass, que diz: "Devemos
nos opor aos extremistas de direita, não devemos ignorar, temos que mostrar nossa
cara contra neonazistas e antissemitas." 
Para militantes brasileiros que passaram a escrever na caixa de comentários do
vídeo, a embaixada e o ministro alemão estão errados em classificar o nazismo
como um movimento de "extrema direita".
"Extremistas de direita? O partido de Hitler não se chamava Partido dos
Trabalhadores Socialistas? Onde tem extrema direita?", disse um usuário, apelando
incorretamente para o nome oficial da agremiação nazista, que se chamava Partido
Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP. 
Outro disse: "Vindo do país de origem do Marxismo, tendo a Alemanha sido
infestada por vermelhinhos no pós-guerra (...) é claro que eles vão distorcer tudo e
jogar na conta da direita." Uma rápida olhada nos perfis dos usuários que
associaram o nazismo com a esquerda mostra que vários divulgam propaganda do
candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL). 
Entre algumas páginas e círculos de direita brasileiros, muitos deles pró-Bolsonaro,
têm sido comum nos últimos anos tentar classificar o nazismo como um
"movimento de esquerda". O principal argumento para defender a tese leva em
conta a presença do termo "socialista" no nome do partido. 
"Se essa for a lógica, então eles também têm que afirmar que a República
Democrática da Coreia (Coreia do Norte) é uma democracia e que o mesmo valia
para República Democrática Alemã (antiga Alemanha Oriental comunista)", afirma
o cientista político alemão Kai Michael Kenkel, professor do Instituto de Relações
Internacionais da PUC-Rio e pesquisador associado do Instituto Alemão de Estudos
Globais e Regionais (Giga).
Outro argumento usado pelos propagadores da ideia do "nazismo de esquerda"
também aponta para o caráter antiliberal na economia do Terceiro Reich e as
características estatistas de setores do regime. A comparação ignora que regimes de
direita como a ditadura militar brasileira (1964-1985) ou o antigo governo
franquista da Espanha também eram estatistas, antiliberais e favoreciam uma
espécie de capitalismo a serviço dos interesses nacionais, assim como o nazismo. 
"Nunca tinha visto essa discussão sobre o nazismo ser de esquerda na Alemanha",
afirma Kenkel. "Lá é muito simples: trata-se de extrema direita e pronto. Essa
discussão sobre ser de esquerda ou direita parece existir só no Brasil. Se você
perguntar para um neonazista na Alemanha se ele é de esquerda, vai levar uma
porrada", continua. "Essa falsa polêmica demonstra que o ensino de história no
nível básico é profundamente falho no Brasil. Também mostra uma profunda
manipulação dos fatos e um desprezo pela verdade entre alguns setores no Brasil."
Outros usuários que comentaram no vídeo foram até mais longe, chegando a negar
o Holocausto e chamar o extermínio de milhões de judeus durante o nazismo de
"holofraude". "Os supostos 6 milhões existem desde 1915 como propaganda
sionista, só que não existia um culpado certo e acharam um em 1945", disse um
comentarista. O teor desse tipo de comentário levou a embaixada a reagir e
responder "que o Holocausto é um fato histórico".
Mas não só militantes que contestaram o vídeo encheram a caixa de comentários.
Centenas de brasileiros também mostraram repúdio às declarações dos militantes
de direita.
"Querem ensinar o padre a rezar a missa", disse um usuário. "Todo dia um a 7 a 1
diferente", disse outro. Vários pediram "desculpas" à embaixada da Alemanha pelo
comportamento de alguns de seus compatriotas. 
Na tarde desta segunda-feira (17/09), o vídeo já havia sido compartilhado 16 mil
vezes e tinha mais de mil comentários. O Consulado-Geral da Alemanha no Recife
também publicou a peça, e a reação foi similar: 20 mil compartilhamentos e 1.500
comentários. 
Nazismo
A versão de que o nazismo seria uma ideologia de esquerda vem se espalhando há
alguns anos entre páginas de direita brasileiras. Desde os anos 2000 o filósofo
Olavo De Carvalho vem divulgando essa visão para seus seguidores.
O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL), filho do candidato à Presidência Jair
Bolsonaro, também afirmou em 2016 no Twitter que o "nazismo é esquerda" e usou
o argumento sobre a presença da palavra "socialista" no nome do partido. Desde
então, voltou ao tema várias vezes nas redes sociais sempre apontando que o
nazismo está no campo da esquerda. 
Recentemente, a associação do nazismo com a esquerda ganhou até mesmo adesão
em páginas brasileiras de viés liberal que passaram a adotar posições mais
conservadoras. 
Em 2017, o direitista Movimento Brasil Livre (MBL) publicou um vídeo em que o
ativista Kim Kataguiri diz que Hitler não "era de direita", mas concedia que o
nazismo também "não era de esquerda" e finalizava com um raciocínio confuso em
que apontava que o nacional-socialismo seria uma espécie de "terceira via"
totalitária. Vários comentaristas não gostaram que o líder do MBL não classificou o
nazismo como meramente de "esquerda" e o acusaram de ser um "isentão" que se
deixou levar pela “conversa de esquerdistas". 
Nos EUA, o assunto também surge em páginas de redes sociais, mas praticamente
nunca foi abordado na grande imprensa e permanece relegado a páginas de direita
ou fóruns. No Brasil, no entanto, algumas revistas e sites da imprensa, como o
UOL, G1, Galileu, Superinteressante já abordaram a discussão e divulgaram a
opinião de historiadores. Em 2015, o filósofo Leandro Karnal também abordou o
assunto em um texto. Outros veículos, como o site InfoMoney e o jornal Gazeta do
Povo, abriram espaço para propagadores da associação.   
Na Alemanha, as poucas referências a uma discussão pública sobre o assunto na
imprensa remetem a um episódio de 2012 que envolveu a ex-deputada
conservadora Erika Steinbach. Na ocasião, ela disse no Twitter que o "vocês
esqueceram? O nazismo era de esquerda". Ela foi duramente criticada pela
imprensa e historiadores. Anos depois, ela deixou a União Democrata-Cristã (CDU)
e passou a apoiar o partido populista Alternativa para a Alemanha (AfD), que
recentemente organizou manifestações xenófobas no leste da Alemanha que
contaram com a presença de neonazistas. 
Na Alemanha, a disputa sobre se o nazismo é uma ideologia que pode ser
classificada nas convenções clássicas de direita ou esquerda é praticamente
inexistente entre historiadores renomados. Os livros sérios sobre o Terceiro Reich e
Adolf Hitler no país traçam a origem do movimento nazista entre as tendências
racistas e nacionalistas de certos setores da sociedade alemã e a ação dos Freikorps,
os grupos de paramilitares de direita que se espalharam pela Alemanha após a
derrota na Primeira Guerra Mundial e que combatiam grupos de esquerda,
especialmente comunistas e social-democratas. 
Historiadores apontam algumas características socialistas do regime nazista para
conquistar a classe trabalhadora, mas salientam que elas eram apenas um
mecanismo para garantir a adesão para o verdadeiro ideal do nazismo: a luta pela
supremacia da raça ariana no mundo. "Hitler nunca foi socialista", apontou o
historiador britânico Ian Kershaw na sua monumental biografia de Hitler.
Esse tipo de tática não era incomum na história alemã. Décadas antes de Hitler, o
chanceler Otto von Bismarck criou na Alemanha o primeiro Estado de bem-estar
social do mundo com o objetivo de garantir a lealdade da classe trabalhadora ao
novo Reich alemão e esvaziar o programa do Partido Social-Democrata. Bismarck,
um latifundiário, monarquista e reacionário prussiano nunca é chamado de
esquerdista ou socialista. 
Da mesma forma, os nazistas, que se diziam anticapitalistas, defenderam a
propriedade privada e se aliaram com industriais. Mas o funcionamento de uma
economia capitalista no nazismo só era tolerado se o Estado, e não o mercado,
ditasse a forma de desenvolvimento econômico que tinha como objetivo final
garantir a manutenção de uma máquina de guerra e a prosperidade apenas dos
alemães.  
Se há uma disputa sobre a natureza do nazismo na Alemanha, ela se restringe em
apontar se o movimento foi uma aberração na história alemã, influenciado pelo
contexto instável da época, ou resultado de uma espécie de "Sonderweg" (caminho
especial) dos alemães, ou seja, algo que vinha nascendo há décadas ou talvez
séculos entre um povo que estava acostumado a obedecer, que tinha tendências
antissemitas e que via com desconfiança influências do exterior. 

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