CENTRO DE EDUCAÇÃO INTEGRADA
Educando para o pensar
(R)Evolução tecnológica: novas formas de ser e estar no mundo!
Data: ___/___/2021 - 3ª Série: ___ - Professora: Ana Catarina Melo
ALUNO(A): _________________________________________________
ATIVIDADE DE PORTUGUÊS - Lista 16
Língua Portuguesa – Análise Linguística e Literatura
Polifonia – dialogismo
TEXTO 1:
Redação de PEDRO ASSAAD SALLOUM MOREIRA DA ROCHA – ENEM 2019 (1000)
As primeiras duas décadas do século XXI, no Brasil e no mundo globalizado, foram marcadas por consideráveis
avanços científicos, dentre os quais destacam-se as tecnologias de informação e comunicação (TICs). Nesse sentido,
tal panorama promoveu a ampliação do acesso ao conhecimento, por intermédio das redes sociais e mídias virtuais.
Em contrapartida, nota-se que essa realidade impôs novos desafios às sociedades contemporâneas, como a
possibilidade de manipulação comportamental via dados digitais. Desse modo, torna-se premente analisar os principais
impactos dessa problemática: a perda da autonomia de pensamento e a sabotagem dos processos políticos
democráticos.
Em primeira análise, é lícito postular que a informação é um bem de valor social, o qual é responsável por
modular a cosmovisão antropológica pessoal e influenciar os processos de decisão humana. Nesse raciocínio, as notícias
e acontecimentos que chegam a um indivíduo exercem forte poder sobre tal, estimulando ou suprimindo sentimentos
como empatia, medo e insegurança. É factual, portanto, que a capacidade de selecionar – via algoritmos – as
reportagens e artigos que serão vistos por determinado público constitui uma ameaça à liberdade de pensamento crítico.
Evidenciando o supracitado, há o livro “Rápido e devagar: duas formas de pensar”, do especialista comportamental
Daniel Khaneman, no qual esse expõe e comprova – por meio de décadas de experimentos socioculturais – a incisiva
influência dos meios de comunicação no julgamento humano. Torna-se clara, por dedução analítica, a potencial relação
negativa entre a manipulação digital por dados e a autonomia psicológica e racional da população.
Ademais, é preciso compreender tal fenômeno patológico como um atentado às instituições democráticas. Isso
porque a perspectiva de mundo dos indivíduos coordena suas escolhas em eleições e plebiscitos públicos. Dessa
maneira, o povo tende a agir segundo o conceito de menoridade, do filósofo iluminista Immanuel Kant, no qual as
decisões pessoais são tomadas pelo intelecto e influência de outro. Evidencia-se, assim, que o domínio da seletividade
de informações nas redes sociais, como Facebook e Twitter, pode representar uma sabotagem ao Estado Democrático.
Em suma, a manipulação comportamental pelo uso de dados é um complexo desafio hodierno e precisa ser
combatida. Dessarte, as instituições escolares – responsáveis por estimular o pensamento crítico na população – devem
buscar fortalecer a capacidade de julgamento e posicionamento racional nos jovens. Isso pode ser feito por meio de
palestras, aulas e distribuição de materiais didáticos sobre a filosofia criticista e sociologia, visando aprimorar o
raciocínio autônomo livre de influências. Em paralelo, as grandes redes sociais, interessadas na plenitude de seus
usuários, precisam restringir o uso indevido de dados privilegiados. Tal ação é viável por intermédio da restrição do
acesso, por parte de entidades políticas, aos algoritmos e informações privadas de preferências pessoais, objetivando
proteger a privacidade do indivíduo e o exercício da democracia plena. Desse modo, atenuar-se-á, em médio e longo
prazo, o impacto nocivo do controle comportamental moderno, e a sociedade alcançará o estágio da maioridade
kantiana.
COMENTÁRIO
O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que
a estrutura sintática é excelente e o texto não apresenta desvios de escrita. Em relação aos princípios da estruturação
do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que o participante apresenta uma tese, o desenvolvimento de
justificativas que comprovam essa tese e uma conclusão que encerra a discussão, ou seja, o participante apresenta
excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. Além disso, o tema é abordado de forma completa: no primeiro
parágrafo, o participante trata da manipulação comportamental via dados digitais e, no segundo parágrafo, deixa claro
que está tratando especificamente de controle de dados, ao falar de “algoritmos”. Observa-se também que o
participante usa, de forma produtiva, repertório sociocultural pertinente à discussão: no segundo parágrafo, quando
faz referência ao livro de Daniel Khaneman para reforçar a informação de que o controle de dados ameaça a liberdade
de pensamento; e no terceiro parágrafo, quando trabalha com o conceito de menoridade de Immanuel Kant, para
mostrar que as pessoas tomam decisões influenciadas pelo outro.
Podemos perceber, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto estratégico, que se configura na
organização clara e no desenvolvimento consistente da redação. O participante apresenta informações, fatos e opiniões
relacionados ao tema
proposto para defender seu ponto de vista de que a manipulação traz impactos em relação à autonomia de pensamento
e à sabotagem dos processos políticos democráticos – impactos que serão desenvolvidos ao longo do texto e retomados
nas propostas de intervenção apresentadas no último parágrafo.
Há também, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. Há articulação
tanto entre os parágrafos (“Ademais”, “Em suma”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (como “Nesse
sentido”, “tal”, “Em contrapartida” e “Desse modo”, no 1º parágrafo; “o qual”, “Nesse raciocínio” e “portanto”, no 2º
parágrafo; “Isso”, “porque” e “assim”, no 3º parágrafo; e “em paralelo”, “tal” e “desse modo”, no 4º parágrafo).
Por fim, o participante elabora excelente proposta de intervenção, concreta, detalhada e que respeita os direitos
humanos. As propostas apresentadas retomam o que foi discutido ao longo do texto ao evidenciar a responsabilidade
das instituições escolares, que devem trabalhar filosofia criticista e sociologia para que as pessoas sejam menos
influenciadas, e das redes sociais, que devem restringir o uso indevido de dados pessoais.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
A redação no Enem 2019: cartilha do participante. Brasília, 2019.
TEXTO 2:
LUIZ FELIPE PONDÉ
Deus me livre de ser feliz
Quanto aos meus alunos e aos meus
leitores, esses eu nunca penso em
deixar felizes, graças a Deus
DEUS ME livre de ser feliz. Existem coisas mais sérias que a felicidade. Algum sabichão por aí vai dizer, sentindo-
se inteligentinho: "Existem várias formas de felicidade!". E o colunista dirá: "Sou filósofo, cara. Conheço esse blá-blá-
blá de que existem vários tipos de felicidade, mas hoje não estou a fim".
Um bom teste para saber se o que você está aprendendo vale a pena é ver se o conteúdo em questão visa te
deixar feliz. Se for o caso e você tiver uns 40 anos de idade, você corre o risco de sair do "curso" engatinhando como
um bebê fora do prazo de validade. A mania da felicidade nos deixa retardados.
Querer ser feliz é uma praga. Quando queremos ser felizes sempre ficamos com cara de bobo. Preste atenção
da próxima vez que vir alguém querendo ser feliz.
Mas hoje em dia todo mundo quer deixar todo mundo feliz porque agradar é, agora, um conceito "científico".
Quem não agrada, não vende, assim como maçãs caem da árvore devido à lei de Newton.
Mas eu, talvez por causa de algum trauma (fiz análise por 20 anos e acho que Freud acertou em tudo o que
disse), não quero agradar ninguém. Não considero isso uma "vantagem moral", mas uma espécie de vício. Claro, por
isso tenho poucos amigos. Mas, como dizem por aí, se você tiver muitos amigos, ou você é superficial, ou eles são, ou
os dois.
Quanto aos meus alunos e leitores, esses eu nunca penso em deixar felizes, graças a Deus.
Desejo para eles uma vida atribulada, conflitos infernais com as famílias, dúvidas terríveis quanto a se vale a pena ou
não ter filhos e casar.
Desejo que, caso optem por não ter família, experimentem a mais dura solidão da existência humana, porque,
no fundo, não passam de egoístas. Mas se tiverem família, desejo que percebam como os filhos cada vez mais são
egoístas porque querem ser felizes e livres.
Desejo para eles pressões violentas no mercado de trabalho. E jantares à meia-noite diante de um trabalho que
não pode ficar para amanhã porque querem viajar e ter grana para gastar.
Quem quiser ser livre, que aguente a insegurança da liberdade. Quem for covarde e optar por uma vida
miseravelmente cotidiana que veja um dia sua filha jogar na sua cara que você foi um covarde.
Especialmente, desejo um futuro cruel para quem acredita que "ser uma pessoa de bem" a protege de ser infiel,
infeliz, abandonada e invejosa. Espero que um dia descubram que, sim, eles têm um preço (apenas desejo que seja
um preço alto) e que se vendam.
Espero que percebam que seus pais não foram santos e parem com essa coisa de gente brega de classe média
que tenta inventar uma "tradição ética familiar" que só engana bobo.
E por que digo isso? Porque hoje todos nós estamos um tanto infantilizados e só queremos que nos digam o
que achamos legal.
O resultado é uma massa de obviedades. A tendência é transformar o pensamento público em autoajuda ou em
"compromisso com um mundo melhor", o que é a mesma coisa.
Quem quer agradar é, no fundo, um frouxo. Vejamos alguns exemplos do produto "querer ser feliz". Comecemos
por quem acha que o seu "querer ser feliz" é superior e espiritualizado.
Talvez você queira virar luz quando morrer porque ser luz é legal (risadas). Deus me livre de querer virar luz
quando morrer. Prefiro as trevas.
Se for para continuar vivendo depois de morto, prefiro viver no "meu elemento", as trevas, porque sou cego
como um morcego. Normalmente, quem quer virar luz quando morrer é gente feia ou magra demais. Mulheres bonitas
vão para o inferno, logo...
E gente que acha que frango tem mãe (só porque ele "descende" do ovo de uma galinha, e ela de outro...) e
por isso é crime matá-los? Trata-se de uma nova forma de compromisso com a "felicidade social e política".
Entre esses "felizes que desejam a felicidade para os frangos" existem pessoas de 40 anos com cérebro de dez
e pessoas de dez anos que um dia terão 40, mas com o mesmo cérebro de dez. Não creio que mudem. Hoje é Carnaval.
Espero que você não tenha pegado aquele trânsito idiota de cinco horas para ser feliz na praia.
ponde.folha@uol.com.br
Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0703201115.htm>. Acesso em: 05 fev. 2020.
Para ir mais longe:
Em um discurso, outras vozes são ouvidas.
Todo discurso também pertence ao outro.
Polifonia: o atravessamento de outras vozes.
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A heterogeneidade enunciativa mostrada, que é a presença localizável do discurso outro no fio do discurso,
pode ser subdividida entre a marcada e a não-marcada. A marcada é aquela que está explicitamente representada
no discurso, pode ser pelo uso de aspas, pelo discurso direto ou indireto, o importante é que esta forma estará
claramente marcada no fio do texto. Por outro lado, a não-marcada será aquela em que percebemos a utilização do
outro, mas não identificamos de maneira clara, isso ocorre no discurso indireto livre, nas alusões, ironias.
A heterogeneidade enunciativa constitutiva pode ser definida a partir do conceito de dialogismo (Bakhtin)
que parte do pressuposto de que toda palavra proferida já foi utilizada anteriormente, portanto, mesmo
inconscientemente, o sujeito, sempre que enuncia, terá a presença do outro em seu discurso.
As palavras são carregadas de história, habitadas, atravessadas por discursos; tudo o que um enunciador
diz já foi dito anteriormente e, assim, o enunciador, a todo o momento, retoma esses “outros dizeres” anteriores.
Existem outras ciências que comprovam o caráter heterogêneo do ser humano e consequentemente da
linguagem, a Psicanálise, a partir das leituras de Freud feitas por Lacan, demonstra que, sem a linguagem, o ser
humano não se constituiria como individuo no mundo real, e que somente através dos significantes este processo se
torna possível.