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Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

SÉRIE OPORTUNIDADES DE NEGÓCIOS

CRIAÇÃO COMERCIAL DE PEIXES EM


VIVEIROS OU AÇUDES

Boa Vista
SEBRAE em Roraima
2001
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

SERVIÇO DE APOIO ÀS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS EM RORAIMA

Entidades integrantes do Conselho Deliberativo Estadual


Agência de Fomento de Roraima - AFER
Associação das Micro Empresas de Roraima - AMER
Banco do Brasil - BB
Caixa Econômica Federal - CEF
Federação das Associações Comerciais e Industriais de Roraima - FACIR
Federação da Agricultura do Estado de Roraima - FAER
Federação do Comércio do Estado de Roraima - FECOR
Federação das Indústrias do Estado de Roraima - FIER
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - SEBRAE
Secretaria Estadual de Planejamento Indústria e Comércio - SEPLAN
Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM
Universidade Federal de Roraima - UFRR

Presidente do Conselho Deliberativo Estadual


Carlos Salustiano de Sousa Coêlho
Federação das Indústrias do Estado de Roraima - FIER

Diretor Superintendente
Armando Freire Ladeira

Diretor de Estratégias e Operações


Alexandre Alberto Henklain Fonseca

Diretor de Atendimento ao Cliente


Paulo Roberto Oliveira de Vasconcelos

Equipe Técnica do SEBRAE


Marcione Soeiro Moraes – Gerente da Unidade de Marketing e Comunicação
Helder de Souza Ribeiro – Responsável pela Área de Estudos e Pesquisas
Fátima Djenane Ferreira dos Santos – Assistente Técnico/Administrativo

Elaboração Técnica
Valter Dias Patricio – Engenheiro Agrônomo e Consultor em Piscicultura

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Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

APRESENTAÇÃO

A arte de criar e multiplicar peixes, ou melhor, a piscicultura, está em


ascensão no país. Mas quem pensa em entrar na atividade comercialmente, precisa
de informações técnicas e treinamento adequado. Obter um pescado competitivo e
de qualidade é uma questão de sobrevivência. E quem já está no mercado,
utilizando métodos ultrapassados precisa modernizar-se urgentemente.

A diretriz básica para o cultivo de peixes em viveiros escavados


apresentados neste trabalho, aplicam-se ao cultivo do tambaqui (colossoma
macropomum) e também servirá para outros peixes regionais, ou seja, da Bacia
Amazônica, com algumas pequenas adaptações principalmente quanto à
alimentação.

Neste trabalho trataremos da criação de peixes em duas formas


diferentes, tanques escavados o qual chamaremos de viveiros de barragem e
açudes.

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INTRODUÇÃO

A piscicultura é um dos ramos da aqüicultura, que se preocupa com o


cultivo racional de peixes.

Atualmente, a piscicultura, já bem conhecida, vem despertando interesse


de todos, tanto a nível particular quanto governamental, por produzir alimento de alto
valor protéico.

Esta atividade é, sem dúvida, a maneira mais econômica de se produzir


alimento nobre, de alto valor nutritivo e a baixo custo, uma vez que sua forma de
cultivo pode variar bastante, inclusive nas fontes de alimentação.

O peixe, pelo fato de viver na água, apresenta uma série de vantagens


para sua criação, dentre as quais se destacam os gastos de pouca energia para a
manutenção da temperatura corporal, respiração e locomoção. Daí ser um dos
animais que mais aproveita os alimentos ingeridos. Por outro lado, esse mesmo
motivo apresenta uma série de dificuldades para o melhor conhecimento de suas
necessidades, pois não podemos vê-los sem que os capturemos.

Em decorrência da escassez de pescado nos estoques pesqueiros


naturais, o aumento do preço do peixe fez com que a piscicultura surgisse como
alternativa técnica e economicamente viável para produção de alimento protéico em
curto espaço de tempo.

Para a produção de pescado, o potencial hídrico e a formação topográfica


da região viabilizam a implantação de projetos de viveiros escavados e açudes,
caminho natural para a piscicultura regional.

Portanto, podemos dizer que a piscicultura, atualmente, encaixa-se


perfeitamente no conceito de diversificação de atividades da propriedade rural,
permitindo ao produtor produzir com menos riscos e maior flexibilidade comercial.

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HISTÓRICO

A piscicultura surgiu na China há cerca de 4 mil anos, onde também se


desenvolveu o consórcio entre peixes e outros animais (búfalos e porcos), com a
finalidade de melhorar a qualidade da água.

Nos primeiros séculos da era cristã, os registros sobre a piscicultura se


deram através dos romanos que fizeram grandes piscinas nas proximidades das
praias, destinadas a armazenar peixes.

Na Europa a piscicultura só começou a partir do século XIV, através dos


monges que criavam carpas nos mosteiros afim de consumi-las nos momentos de
abstinência de carnes vermelhas.

Data desta época o registro das primeiras fecundações artificiais


realizadas com óvulos de truta, em mosteiros franceses e alemães.

A partir do século XX, a piscicultura teve grande evolução, passando por


inúmeras transformações formando um ramo de especialização dentro das Ciências
Agrárias. Surgiram nesta época as Estações de Piscicultura.

A Argentina foi o primeiro país a introduzir a piscicultura na América do


Sul, importando, em 1870, os primeiros reprodutores de carpa comum (Cyprinus
carpio) e carpa espelho (Cyprinus carpio var. especularis).

No Brasil, a piscicultura propriamente dita iniciou-se por volta de 1929.


Nessa época, o cientista Rodolfo Von Lhering estudou os peixes do Rio Mogi-Guaçu
em Piracicaba - São Paulo, utilizando pela primeira vez hipófise para provocar
desova do Dourado (Salminus maxillorus). Em 1939, surgiu a primeira estação de
piscicultura do país em Pirassununga – São Paulo.

Atualmente no Brasil, se cultiva peixe de várias espécies, do extremo sul


ao extremo norte, alcançando níveis de produtividade dos mais elevados em termos
mundiais, inclusive em alguns casos, exportando tecnologia.

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO
INTRODUÇÃO
HISTÓRICO

1 PORQUE CRIAR PEIXES.................................................................................. 13


2 INFORMAÇÕES MERCADOLÓGICAS............................................................. 14
2.1 Resumo da Oferta e Procura..................................................................... 16
3 LOCALIZAÇÃO.................................................................................................. 17
3.1 Infra-estrutura Necessária.......................................................................... 17
3.2 Área Física.................................................................................................. 18
3.3 Seleção da Área.......................................................................................... 19
3.4 A Qualidade da Água ................................................................................. 19
3.5 Arranjo Físico.............................................................................................. 21
4 TECNOLOGIA DE PRODUÇÃO........................................................................ 22
4.1 Processo de Produção................................................................................ 23
4.2 Conservação do Pescado........................................................................... 27
4.3 Locais para Criação.................................................................................... 28
4.4 Alimentação................................................................................................. 29
4.4.1 Outra sugestão de alimentação para o peixe tambaqui..................... 30
5 SANIDADE DOS PEIXES.................................................................................. 32
5.1 Bacterioses.................................................................................................. 33
5.2 Parasitoses.................................................................................................. 33
5.3 Micoses....................................................................................................... 34
6 AVALIAÇÃO FINANCEIRA................................................................................ 35
6.1 Investimento Fixo........................................................................................ 35
6.2 Custo Fixo do Ciclo..................................................................................... 35
6.3 Custo Variável do Ciclo............................................................................... 36
6.4 Receita Operacional.................................................................................... 36
6.4.1 Exemplo 1.......................................................................................... 36
6.4.2 Exemplo 2.......................................................................................... 36
6.5 Demonstração do Resultado Anual............................................................. 37
6.6 Ponto de Equilíbrio...................................................................................... 37
6.7 Investimento Inicial...................................................................................... 38
6.8 Taxa de Retorno do Investimento............................................................... 38
6.9 Prazo de Retorno do Investimento.............................................................. 39
7 LEGISLAÇÃO..................................................................................................... 39
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................... 40
9 FORNECEDORES............................................................................................. 41
10 BIBLIOGRAFIA................................................................................................ 42

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1 PORQUE CRIAR PEIXES ?

Dentre as principais vantagens da piscicultura, podemos destacar:

a - Aproveitamento de áreas improdutivas ou de baixo rendimento


agropecuário, transformando-as e elevando sua produtividade;
b - Utilização de subprodutos agropecuários na manutenção dos peixes;
c - Eficiente conversão alimentar (come pouco e cresce muito);
d - Rápido retorno do capital investido;
e - Elevada produção por área;
f - Aumento no faturamento do produtor rural; e
g - Diminuição dos problemas de sazonalidade (safra), dos produtos
agrícolas.

A produção da aqüicultura, que cresceu a uma taxa de 11% ao ano


durante a última década, é o setor de maior desenvolvimento na economia
alimentícia mundial. Aumentando de 13 milhões de toneladas de peixes produzidos
em 1990, para 31 milhões de toneladas em 1998 (no mundo), a piscicultura
provavelmente ultrapassará a pecuária como fonte de alimentos, até o fim desta
década.

Este crescimento recorde da aqüicultura sinaliza uma mudança


fundamental em nossa dieta. Durante o último século, o mundo dependeu quase que
exclusivamente de dois sistemas naturais – pesqueiros oceânicos e pastagens –
para satisfazer a demanda cada vez maior de proteína animal, entretanto, essa era
aproxima-se do fim quando ambos os sistemas atingem seus limites produtivos.

Vistas todas essas informações, ainda podemos aliar o fato de estarmos


localizados na região que detém a maior parte da mais extensa bacia hidrográfica
do mundo, com 6.112.000 Km2 e que esta região tem o hábito alimentar de consumir
peixes, sendo que um dos peixes mais apreciados é o tambaqui (Colossoma
macropomun), cuja tecnologia de reprodução e criação em cativeiro é conhecida.

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2 INFORMAÇÕES MERCADOLÓGICAS

O mercado de Boa Vista/RR consome atualmente 1.300 toneladas de


peixe por ano, sendo 400 toneladas provenientes de criações em cativeiro, 700
toneladas importadas de outros estados e 200 toneladas capturadas nos estoques
pesqueiros naturais. Essa demanda nos permite calcular um consumo atual de
aproximadamente 6,5 Kg por pessoa ao ano, porém sabe-se que o consumo per
capita em condições de oferta normal é de 8 kg/ano por pessoa.

Fato é que, sendo o consumo per capita de peixe em Boa Vista de


8Kg/ano e a população de 200.000 habitantes, chegamos a 1600 toneladas de
consumo normal. Podemos concluir então, que existe um déficit de 300 toneladas
na oferta. As 700 toneladas hoje importadas de outros Estados também podem ser
substituídas por peixes produzidos em cativeiro no Estado de Roraima e sabe-se
também que a pesca nos estoques pesqueiros naturais, encontra-se em decadência,
abrindo espaço para a produção e fornecimento de mais 200 toneladas por ano que
são necessárias para atender o consumo.

Com base nesses dados, podemos concluir que a procura/oferta de


peixe com boa qualidade apresenta um déficit de 1000 toneladas/ano.

De acordo com dados fornecidos pela Organização das Nações Unidas


para a Agricultura e Alimentação - FAO (Food and Agriculture Organization),
considerando o consumo per capita ideal de 20 Kg/ano por habitante, chegaremos a
um número mais animador para os futuros investidores, ou seja, 4.000
toneladas/ano ampliando o déficit na oferta para 2.700 toneladas/ano. Considerando
que se importa 700 toneladas/ano poderemos produzir em Roraima 3.400 toneladas
de peixe, analisando-se tão somente o mercado de Boa Vista.

Ampliando a visão de mercado e considerando Manaus como parceiro


comercial, visto que os habitantes dessa cidade consomem 60 Kg de pescado/ano,
chegamos a 90.000 toneladas o consumo total anual, sendo 30% a 40% oriundo da
pesca extrativista, fonte essa, que durante o período da piracema (defeso) não pode

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ser utilizada, gerando um déficit muito grande na oferta, chegando a quantidade de


9.000 toneladas.

Voltamos a ressaltar, que além de estarmos localizados na região que


detém a maior parte da maior bacia hidrográfica do mundo, possuímos um grande
potencial de consumo de peixe.

O mercado potencial representado pelos Estados de Roraima e


Amazonas, torna a criação de peixes em viveiros e açudes muito interessantes
financeiramente. Como se isso não bastasse, ainda temos as outras regiões do
Brasil, onde se produz atualmente 100.000 toneladas/ano, com consumo per capita
de 4 kg/ano por habitante, o que nos dá um consumo ainda baixo de 600.000
toneladas gerando uma lacuna muito grande na oferta.

Esse grande mercado consumidor, Roraima e Amazonas, está localizado


geograficamente, de maneira que dificulta a entrada de produtos perecíveis vindos
de outros estados, visto as dificuldades de transporte de Porto Velho a Manaus.

O consumidor, tanto do Amazonas quanto de Roraima, tem o tambaqui


como peixe de sua preferência e o elegeu como peixe de primeira qualidade,
consumindo também outras espécies, como matrinxã, curimatã, jaraqui, pirarucu,
tucunaré, pescada, etc.

Sendo eleito o tambaqui como o peixe ideal para criação em cativeiro e


em 0função dos motivos já expostos anteriormente, ainda tem-se a vantagem de
poder adquirir alevinos em diversas épocas do ano, em várias partes do Brasil a um
preço bastante acessível. Atualmente pode-se adquirir alevinos na estação de
piscicultura de Boa Vista/RR, Usina de Balbina, em Presidente Figueiredo/AM e em
Natal/RN, além de algumas estações que estão em fase de implantação tanto no
Amazonas quanto em nosso estado, no município de Rorainópolis.

Os produtores de pescado para consumo, que abastecem o mercado de


Boa Vista, estão instalados nos municípios vizinhos de Alto Alegre e Bonfim.

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Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

No Estado de Roraima existe um potencial de produção instalado


suficiente para abastecer o mercado local, porém, isto não ocorre por problemas
estruturais, técnicos e de investimento em alimentação.

A grande maioria dos açudes construídos, tinha a finalidade de perenizar


a água para o gado e posteriormente houve o interesse na utilização destes para a
criação de peixes.

As principais dificuldades nesse tipo de instalação são, a grande


profundidade, presença de obstáculos à despesca, grandes extensões e grande
quantidade de predadores.

Estima-se que o setor possui hoje, aproximadamente, 250 hectares de


viveiros e 500 hectares de açudes. Produzindo efetivamente, existem
aproximadamente 150 hectares entre os dois sistemas.

Nota-se uma tendência de crescimento na construção de viveiros com


controle de abastecimento e esvaziamento.

Segundo dados da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de


Roraima, o número de produtores rurais que hoje possuem em suas propriedades
viveiros ou açudes é de aproximadamente 450 produtores.

2.1 Resumo da Oferta e Procura

Consumo normal em Boa Vista 1600 t/ano


Quantidade ofertada para compra 1300 t/ano

Existe um consumo reprimido de 300 toneladas/ano.

A quantidade ofertada é composta por:

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Origem Produção (tonelada/ano)


Criatórios 400
Pesca nos rios 200
Vindos do Amazonas 700

Normalmente, os produtores deixam para vender a maior parte da sua


produção no período da páscoa, e como a produção ainda é pequena, falta peixe
logo após essa período.

Em 2001, foram comercializados aproximadamente 100.000 kg de peixes


criados em cativeiro na cidade de Boa Vista. Os peixes mais comercializados foram
tambaqui, tambacu e piauvuçu ou aracu.

3 LOCALIZAÇÃO

O empreendimento em piscicultura deverá ser de fácil acesso durante


toda a época do ano e estar localizado, de preferência, próximo ao mercado
consumidor, próximo aos fornecedores de ração, próximo da residência do
proprietário.

3.1 Infra-Estrutura Necessária

Para se investir em piscicultura é necessário, em primeiro lugar, que se


tenha disponibilidade de água durante todo o ano e que essa água tenha
características químicas e físicas adequadas à criação de peixes. Além da
disponibilidade e da qualidade da água é interessante que esteja bem localizada, ou
seja, o local de criação seja de fácil acesso, pois será necessário levar alevinos,
transportar insumos e a produção, etapas que exigem cuidados.

À distância a ser percorrida para dar o devido atendimento ao


empreendimento, influenciará de maneira significativa no resultado final.

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A infra-estrutura básica para se ter uma criação de peixes é, em primeiro


lugar, os viveiros de alevinagem e os viveiros ou açudes para engorda, com as
devidas instalações de abastecimento e esvaziamento.

Como infra-estrutura propriamente dita e para efeito de cálculo,


consideraremos dois viveiros de 50 x 100 ( 10.000 m²), para engorda e um de 20 x
50 ( 1.000 m²) para alevinagem, ou seja, 11.000 m², ou 1,1 ha de espelho d´água.
Para a criação em açude, também consideraremos espelho d´água de 1 ha com
berçário1 de 1.000 m².

Além dos locais de criação, recomenda-se dispor de:

a - um barracão para guardar ração;


b - rede de arrasto para despesca;
c - tarrafa para analisar o desenvolvimento dos peixes;
d - meio de transporte; e
e - equipamento para verificar a acidez da água.

3.2 Área Física

A quantificação, em metros quadrados, de espelho d’água


economicamente viável, depende das despesas totais, de maneira que o lucro da
atividade seja maior que os custos de manutenção, custeio e sobre a receita para
amortizar parte do investimento inicial.

Sabe-se que a receita financeira desejada é aquela em que a atividade


piscícola produz e suficiente para cobrir todos os gastos com a criação e ainda

1
Obs.: O berçário não será orçado neste caso, pois, pode variar muito o seu custo e em algumas situações
pode até ser suprimido. Em casos de criação em barragem é fundamental a existência de bercário para evitar
perdas por ataque de outros peixes predadores. Já no caso de viveiros escavados, pode-se usar no primeiro ano
o próprio viveiro como berçário. A partir do segundo ano, caso se queira esvaziar os viveiros para um novo
cultivo, utilizar-se-á o bercário para o crescimento inicial.

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sobrar para reinvestir, portanto, definir uma área ideal é extremamente importante,
pois as condições e necessidades variam de produtor para produtor.

O melhor seria que a piscicultura não fosse a única atividade em uma


propriedade, mas que fizesse parte de um contexto agropecuário.

3.3 Seleção da Área

A escolha do local para implantação da piscicultura implicará na


adequada viabilização do projeto, onde se deve observar os aspectos ligados a
atividade.

Esses aspectos referem-se à topografia da área de implantação, o tipo do


solo, a avaliação quantitativa e qualitativa da água para abastecimento dos tanques
e açudes e a vegetação local. Devem ser consideradas também, informações
meteorológicas diárias disponíveis, como temperatura do ar (máximas, mínimas e
médias), umidade relativa do ar, chuvas, evaporação e ventos. Além disso, o
reconhecimento e seleção da área de implantação da piscicultura deverão levar em
consideração o tipo de projeto, o manejo a ser adotado e as facilidades de
comercialização do produto.

Todos esses aspectos influenciarão no sucesso do empreendimento e


orientarão o dimensionamento e a implantação da piscicultura.

3.4 A Qualidade da Água

Em termos gerais, a qualidade da água inclui todas as características


químicas, físicas e biológicas que influem no seu uso benéfico. Tratando-se
especificamente de piscicultura, qualquer característica da água, que de alguma
forma afeta a sobrevivência, reprodução, crescimento, produção ou manejo de
peixes, é uma variável da qualidade da água. Existem muitas variáveis envolvidas na
qualidade da água, mas somente algumas delas têm papel muito importante e nas
quais iremos nos concentrar, especialmente naquelas que podemos controlar
através de um manejo adequado.

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Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

A avaliação quanti-qualitativa da água necessária ao abastecimento dos


tanques e viveiros é, sem dúvida, o fator primordial na implantação de um projeto de
piscicultura.

É extremamente importante, tanto o conhecimento da origem da água,


quanto à quantidade disponível a suprir as necessidades da unidade de piscicultura.

A seguir serão abordadas as relações fundamentais entre as principais


variáveis físicas e químicas da qualidade da água e a aqüicultura, comentando-se as
relações mais comuns:

a - temperatura;
b - transparência;
c - oxigênio dissolvido na água;
d - dióxido de carbono (co2) dissolvido na água;
e - acidez (pH); e
f - amônia.

Todos estes fatores são de suma importância para a atividade piscícola e


serão descritos a seguir, porém, são informações técnicas que devem ter
acompanhamento de um profissional habilitado para melhor interpretação e as
devidas recomendações. Existem ainda outros parâmetros que podem ser
analisados, caso o responsável julgue necessário.

• temperatura: as espécies tropicais têm entre 20 e 30 graus sua faixa


ideal de conforto térmico para crescimento e reprodução, sendo que a
maioria delas encontra um nível ótimo entre 25 e 28 graus centígrados.
Aqui em nossa região a temperatura da água varia de 24 a 30 graus
centígrados.
• transparência: o ideal é que consigamos enxergar até 30 centímetro
de profundidade, para que se possa avaliar a concentração de plânctons.
Os plânctons servem como alimento natural para os peixes. Para fazer
essa avaliação pode-se usar o disco de secchi. Este disco é feito com

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uma placa de ferro pintada de branco e preto presa em uma fita métrica e
quando mergulhado deve desaparecer entre 15 e 30 centímetros de
profundidade.

• oxigênio dissolvido: é sem dúvida alguma, o fator mais limitante no


cultivo. Deve ser maior que 5 mg/litro; este resultado pode ser obtido
através de análise em laboratório ou com equipamentos portáteis.

• dióxido de carbono, CO2 dissolvido na água: este parâmetro


também deverá ser avaliado em laboratório ou com equipamentos
portáteis; teores acima de 50 mg/litro são letais aos peixes.

• acidez (pH): através da avaliação deste parâmetro é possível saber


qual a acidez da água, níveis abaixo de 5 ou superior a 9 são tóxicos à
maioria das espécies cultivadas.

• amônia: é o segundo parâmetro em importância depois do oxigênio


dissolvido. A amônia presente na água pode ter origem na decomposição
da matéria orgânica, poluição, nos excrementos dos organismos
aquáticos e morte de algas.

3.5 Arranjo Físico

O arranjo físico dos viveiros implica no melhor posicionamento para o


aproveitamento racional da área, facilitando o manejo.

No arranjo físico da área devemos observar o aproveitamento da maior


área alagada possível com a menor movimentação de terra, não esquecendo que o
manejo também deve ser considerado, pois após o peixamento, existirão atividades
diárias que deverão ser facilitadas, devendo-se prever também a entrada de
caminhões de carga em época de despesca.

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Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

4 TECNOLOGIA DE PRODUÇÃO

A tecnologia de produção de peixes vem evoluindo desde que o homem


pela primeira vez capturou peixes e os manteve vivos para consumir em outros
períodos, isto nada mais foi do que o início da piscicultura.

Foram os chineses que iniciaram as primeiras técnicas para aumentar a


produtividade em viveiros, com o uso do esterco, resíduos orgânicos e sistema de
drenagem para esvaziar os tanques.

Basicamente, podemos dizer que existem atualmente quatro métodos de


cultivo de peixes, dos quais tem origem a nossa tecnologia. São eles:

a) SISTEMA CHINÊS: fazem o policultivo com quatro ou mais espécies


em duas faixas etárias (idades diferentes), utilizam alimentação
orgânica e grande número de trabalhadores;

b) SISTEMA EUROPEU: teve início com os romanos e desenvolveu-se


a partir do século XIV, baseado no cultivo da carpa comum e de
linhagens selecionadas. O policultivo foi introduzido na Europa nas
últimos trinta anos. Os viveiros são de grande porte e a alimentação
baseada em milho;

c) SISTEMA JAPONÊS: surgiu inicialmente junto à cultura do arroz e


evoluiu para a piscicultura intensiva. Predomina o cultivo de uma só
espécie com alto grau de mecanização, sem utilização de estercos e
baseado principalmente, no uso de ração balanceada rica em
proteína. Viveiros pequenos com renovação de água e aeração
intensa;

d) SISTEMA ISRAELENSE: fazem policultivo intensivo, adubação


orgânica na fase inicial, uso de fontes de carboidratos (milho e sorgo)
na fase intermediaria e ração balanceada na fase final.

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Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

O nosso sistema de criação ainda está em fase de definição, mas existe


uma tendência para as criações em sistema intensivo com a utilização de viveiros
“berçário”, para o desenvolvimento inicial e o povoamento, já com alevinos
avançados (maiores), a alimentação do berçário é baseada em plânctons e ração
balanceada com alto valor de proteína bruta (35%), ração balanceada com (28%) de
proteína bruta para crescimento, podendo baixar para (24%) na engorda.

O tamanho dos viveiros varia de 4.000 a 5.000 m² de espelho d’água e os


sistemas de abastecimento e escoamento de água, totalmente controlados.

O policultivo ainda é pouco utilizado, pois, a oferta de alevinos de outras


espécies ainda tem limitações de disponibilidade e preço, porém, é uma técnica que
certamente fará parte do nosso sistema de criação.

4.1 Processo de Produção

No presente trabalho, faremos a exposição de um fluxograma do


processo de produção para tambaqui numa área de espelho d’água igual a 1 ha.

O tambaqui é um peixe que originalmente vive em rios e faz piracema


para se reproduzir, entretanto não se reproduz em viveiros. Sua reprodução, para
obtenção de alevinos, é feita em laboratório, através da indução da desova com
hormônios.

Enfocaremos, portanto, a tecnologia de engorda a partir da aquisição dos


alevinos produzidos em estações de piscicultura.

Como a área modelo é de 1 ha, iniciaremos o raciocínio desde a


construção do viveiro, desprezando o custo do desvio da água, pois este poderá

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Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

servir para muitos viveiros. São dois viveiros que medem 50x100m cada, o que é
igual a 1 ha, ou seja, 10.000 m2 de espelho d’água.

Barragem
berçário

200 m
Viveiros
50 m
Para a construção destes viveiros podemos calcular o valor desta obra da
seguinte maneira: R$ 100,00 a hora de um trator de esteira (modelo D – 65) mais
10% para compactação.

Esses viveiros irão consumir 85 horas para serem construídos. Somadas


as horas para construção dos viveiros (serviço de escavação) de R$ 8.500,00 mais
R$ 850,00 para a compactação, o investimento para abertura dos viveiros totalizará
R$ 9.350,00. Em seguida, será feito o canal de abastecimento, que terá uma
distância média de 50 metros com tubulação de 100 mm. Para tal atividade o
piscicultor necessitará de mão de obra, 10 barras de canos, conexões e tela para
filtro, totalizando R$ 200,00 a obra. Além disso, deve-se construir um “monge” para
escoamento da água no valor de R$ 1.000,00. Assim, chegamos a R$ 10.550,00, o
custo de investimento em infra-estrutura.

A nova fase será a correção do solo do viveiro e a fertilização da água.


Inicialmente colocaremos 1 t de calcário em cada viveiro ao preço de R$ 120,00 a
tonelada e 1,5 t de esterco de gado em cada viveiro para fertilização inicial, no valor
de R$ 70,00 a tonelada, totalizando R$ 450,00, o custo para a correção dos dois
viveiros.

Nova adubação será feita conforme a necessidade determinar, podendo-


se reservar R$ 500,00 para adubação durante o ano. A adubação química também
poderá ser usada.

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Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

Conforme o exposto, vimos que o custo/ano para a correção e adubação


dos viveiros é de R$ 950,00.

Após ter abastecido o viveiro, corrigidas a acidez e a fertilidade, já


teremos gastado R$ 11.500,00.

Com o viveiro já cheio e abastecido, livre de predadores, colocaremos os


alevinos de 180g provenientes de um berçário.

O custo do berçário não será orçado aqui, pois sua utilização é variável
em função do projeto.

Vale ressaltar que o custo de aquisição de 6.000 alevinos com peso de 3


gramas é de R$ 300,00 e para atingirem o peso de 180 gramas terão como alimento:
85kg de ração nos 30 dias iniciais, 190kg dos 30 aos 60 dias e 500kg dos 60 aos 90
dias, alcançando o peso desejado ao consumirem ração igual a 775Kg.

Portanto, até os alevinos atingirem 180 gramas, os custos envolvidos


serão os seguintes:

Alevinos: R$ 300,00
Ração: _R$ 542,50_
Total: R$ 842,50

Na fase de berçário é necessário adquirir uma rede de despesca para


alevinos, com o custo de R$ 450,00.

Na transferência dos peixes, é preciso se precaver de doenças


oportunistas. Será indispensável o uso de antibióticos na ração de forma preventiva,
com custo de R$ 30,00.

Durante a transferência, selecionam-se os 5.000 maiores alevinos,


colocando-os nos tanques de crescimento e engorda.

25
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

Durante todo o processo de produção deverá haver um trabalhador para


cuidar dos viveiros, pagando-se um salário mínimo por mês, mais 60% de encargos
sociais, chegando a R$ 3.744,00 por ano, de custo da mão-de-obra fixa.

Considerando que os alevinos entraram para crescimento e engorda com


180 gramas e irão sair com 2.300 gramas, em um ano, o peixe teve uma evolução
na fase de crescimento de 2.120 gramas cada.

Essa diferença é o aumento de peso em nove meses.

Visto isso e sabendo-se que a conversão alimentar do tambaqui em nossa


região é de 1,6 Kg de ração para cada quilo de peixe vivo, teremos um consumo de
16.960 Kg de ração nesta fase. Esse resultado é obtido através da seguinte
operação: 2,12 kg por peixe x 1,6 kg de ração x 5000 peixes. Os 16.960 Kg de ração
irão custar R$ 11.872,00, ou seja, R$ 0,70 o quilo de ração.

Para a despesca dos peixes será necessária uma rede que custa R$
800,00, além da contratação de mão-de-obra, ao custo de R$ 100,00.

Adicionaremos às despesas, os valores de depreciação que é igual a


10%, mais 6% de juros sobre o valor investido e 2,5% de manutenção dos viveiros.

Estes valores são calculados sobre o valor do Investimento Fixo, ou seja,


R$ 11.800,00.

Pode-se observar que R$ 32.021,00 é a despesa total para construção,


implantação e produção de dois viveiros com 0,5 ha de espelho d’água cada. Porém,
faz-se necessário separar essas despesas de investimento e despesas de custeio,
pois o investimento só ocorre uma vez e o custeio todos os anos.

Tendo uma estimativa de produção de 11.500 Kg e preço de venda a R$


2,80 por quilo, a Receita Bruta será de R$ 32.200,00. Já no caso de venda direta ao
consumidor, pode-se alcançar até R$ 3,50 por quilo, o que eleva a receita bruta para
R$ 40.250,00.

26
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

4.2 Conservação do Pescado

A conservação de peixes apresenta problemas mais agudos que a


conservação de carne de outros animais, uma vez que a decomposição instala-se
muito mais rapidamente em pescados.

Os peixes durante sua captura sofrem morte lenta e considerável dano


mecânico da pele, dentro das redes.

Estes danos mecânicos, em um ambiente rico de microorganismos como


a água, antecipam sensivelmente o início da deterioração.

Existem numerosos métodos de conservação de pescados. Alguns se


aplicam especialmente a certos tipos de pescados, outros têm aplicação limitada a
determinadas regiões e grupos populacionais que os apreciam. Serão citados aqui
os métodos mais comuns de aplicação mais geral.

1 – Conservação por refrigeração:


1.1 – Refrigeração com emprego de gelo;
1.2 – Refrigeração pelo emprego de líquido refrigerante;
1.3 – Refrigeração por emprego de ar circulante;
1.4 – Conservação por congelamento;
1.5 – Congelamento pelo emprego de ar circulante;
1.6 – Congelamento pelo emprego de líquidos frios;
1.8 – Congelamento por contacto com superfícies frias; e
1.9 – Congelamento por imersão em líquido refrigerante em ebulição.

2 – Conservação por salga:


2.1 – Salga seca; e
2.2 – Salga úmida.

27
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

3 – Defumação;
4 – Fermentação;
5 – Enlatamento;
6 – Embutidos; e
7 – Farinha de peixe.

Todos os processos de conservação de pescado visam o armazenamento


dos peixes para consumi-los em outras épocas. Conforme o método que se usa,
também se agrega valor, além de preservá-lo.

Para se avaliar o método mais adequado à conservação, é necessário


que seja feita uma análise técnica da situação em questão, definindo-se o processo
mais apropriado.

4.3 Locais para Criação

A criação de tambaqui em viveiro é diferente da criação em açudes,


portanto, descreveremos a seguir algumas características da criação em açudes:

a - profundidade desuniforme;
b - presença de obstáculos à passagem da rede;
e - extensões excessivas;
d - controle deficiente de predadores;
e - falta de controle sobre o abastecimento; e
f - dificuldades para corrigir a qualidade da água.

Apesar destas dificuldades, é possível criar tambaqui em açudes, porém,


deve-se construir um viveiro berçário para o peixamento do açude com alevinos
avançados, pesando entre 150 e 180 gramas, pois, com este peso, estarão livres do
ataque de predadores. O povoamento deverá ser feito estimando-se 0,25 kg/m² de
peso final e a alimentação poderá incluir o uso de alimentação alternativa, como
mandioca, feijão, abóbora, milho e soja.

28
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

A despesca deverá ser feita através de retirada seletiva dos peixes


maiores.

A produção neste sistema varia de 2.500 a 5000 kg/ha, enquanto que no


sistema de viveiros pode atingir 15.000 kg/ha/ano.

Quanto ao povoamento de açudes, ainda podemos sugerir o seguinte:


feito o berçário faz-se a compra de um terço do total de alevinos programado para o
açude, coloca-os no berçário por 90 dias com ração balanceada e transfere-os para
o açude, fazendo assim, mais duas vezes com o restante. Esta forma de
povoamento chama-se escalonado e para este sistema de povoamento se fará a
despesca seletiva após nove meses, retirando só os maiores.

4.4 Alimentação

Para a criação em viveiros a alimentação fornecida será na forma de


ração balanceada que poderá ser extrusada ou peletizada e deverá ser fornecida
conforme cronograma pré-estabelecido.

O cálculo da quantidade de ração é feito em função da biomassa total do


viveiro, biomassa significa o peso total dos peixes do viveiro.

Exemplo de cronograma de alimentação:

• 10% a 3% da biomassa por dia até o primeiro mês;


• 3% a 2% da biomassa por dia durante o segundo mês;
• 2,5% a 2% da biomassa por dia durante o terceiro mês (estes três
meses se darão no berçário).
• 2% a 1,5% da biomassa por dia durante o quarto mês;
• 1,5% a 1% da biomassa por dia durante o quinto mês;
• 1% da biomassa por dia do sexto mês até o décimo segundo.

29
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

A ração deverá ser fornecida na forma extrusada ou peletizada e deverá


ser fornecida 5 vezes ao dia, no primeiro mês, passando para 3 vezes no segundo e
terceiro mês e para 2 vezes a partir do quarto mês.

As rações peletizadas podem ser fabricadas na propriedade com a


utilização de máquinas de moer carne.

As composições variam um pouco de fórmula para fórmula em função da


variação dos teores de proteínas necessárias em cada fase de desenvolvimento. As
fórmulas mais protéicas são utilizadas no início e os ingredientes que mais fornecem
proteína bruta são a farinha de carne e farelo de soja. Portanto, as fórmulas com
maior concentração desses nutrientes serão usadas inicialmente.

Especifica-se a seguir uma fórmula de ração caseira para peixe:


Em (%)
Farelo de soja Milho moído Farinha de Farelo de arroz Fosfato Premix Sal Óleo de
Carne Bical Soja
30 25 15 28,5 - 1 0,5 -
24 25 25 25 - 1 - -
25 40 15 16 1 1 - 2
30 30 15 24 - 1 - -

Existem várias combinações de produtos para se formular rações. Estes


são exemplos que podem ser alterados conforme a disponibilidade de matéria-prima
e conforme a fase de desenvolvimento do peixe.

As formulações com altas quantidades de farinha de carne não devem ser


estocadas por muito tempo e devem ser utilizadas inicialmente.

4.4.1 Outra sugestão de alimentação para o peixe tambaquí

• Quantidade: 5.000 unidades


• Área do viveiro: 1 ha ou 10.000m2 de espelho d’água
• Fonte de alimentação: ração extrusada

30
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

• Período de criação2: 48 semanas

Peso Qde. De ração em relação Qde. de ração a ser Qde. de ração a Semana
inicial (g) ao peso dos peixes em (%) fornecida por dia (Kg) ser fornecida por
semana (Kg)
0,5 15 0,375 2,625 1ª
5 10 2,5 17,50 2ª
15 8 6,0 42,00 3ª
30 7 10,5 73,50 4ª
45 7 15,75 110,25 5ª
55 7 19,25 134,75 6ª
65 7 22,75 159,25 7ª
85 7 29,75 208,75 8ª
100 4 20,00 140,00 9ª
130 3 19,50 136,50 10ª
170 3 25,50 178,50 11ª
195 3 29,25 204,75 12ª
220 2,5 27,50 192,50 13ª
260 2,5 32,50 227,50 14ª
310 2,5 38,75 271,25 15ª
360 2,5 45,00 315,00 16ª
410 2,0 41,00 287,00 17ª
460 2,0 46,00 322,00 18ª
530 2,0 53,00 371,00 19ª
600 2,0 60,00 420,00 20ª
670 -- 60,00 420,00 21ª
710 -- 60,00 420,00 22ª
760 -- 60,00 420,00 23ª
810 -- 60,00 420,00 24ª
850 -- 60,00 420,00 25ª
900 -- 60,00 420,00 26ª
Continua
Continuação Tabela Anterior
950 -- 60,00 420,00 27ª

2
Nota: A partir da 20ª semana os peixes terão atingido 600 gramas e a quantidade de ração necessária será de
60Kg por hectare ao dia. Tal quantidade de ração ao dia é o limite da capacidade da água em metabolizar o
material orgânico gerado a partir da ração fornecida, portanto, a partir dessa semana deverá ser fornecido 60Kg
de ração ao dia até o final do ciclo. Estas informações estão baseadas em dados obtidos na região de Roraima,
na Embrapa de Manaus e junto ao Centro de Pesquisas de Peixes Tropicais do Ibama em Pirasununga.

31
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

1000 -- 60,00 420,00 28ª


1050 -- 60,00 420,00 29ª
1100 -- 60,00 420,00 30ª
1150 -- 60,00 420,00 31ª
1200 -- 60,00 420,00 32ª
1250 -- 60,00 420,00 33ª
1300 -- 60,00 420,00 34ª
1350 -- 60,00 420,00 35ª
1400 -- 60,00 420,00 36ª
1450 -- 60,00 420,00 37ª
1500 -- 60,00 420,00 38ª
1550 -- 60,00 420,00 39ª
1600 -- 60,00 420,00 40ª
1650 -- 60,00 420,00 41ª
1700 -- 60,00 420,00 42ª
1800 -- 60,00 420,00 43ª
1850 -- 60,00 420,00 44ª
1900 -- 60,00 420,00 45ª
1950 -- 60,00 420,00 46ª
2000 -- 60,00 420,00 47ª
2050 -- 60,00 420,00 48ª

• Consumo total de ração durante todo o ciclo: 15.574,625Kg


• Produção total estimada: 10.250Kg
• Conversão alimentar: 1,519Kg de ração para cada quilo de peixe vivo.

5 SANIDADE DOS PEIXES

A piscicultura é uma atividade em condições de oferecer a quantidade


necessária de proteína exigida pela sociedade. No entanto, quando se confina
algum tipo de animal, e isso é particularmente verdadeiro em relação aos peixes,
ocorre aparecimento de doenças que em ambientes naturais tem pouca ou nenhuma
repercussão.

32
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

O estresse a que os peixes ficam submetidos leva à manifestação de


agentes patogênicos, em especial, os chamados organismos facultativos ou
secundários, que pertencem ao grupo dos parasitas, bactérias ou fungos. Como
existe uma dificuldade muito grande para tratar qualquer enfermidade em peixe após
esta se instalar, recomenda-se, na piscicultura, a adoção de medidas profiláticas
para evitar a manifestação das várias patologias. Nesse sentido, já está bastante
sedimentada entre os piscicultores a forte relação existente entre técnicas corretas
de manejo e a ausência de enfermidades.

5.1 Bacterioses

As bactérias podem provocar várias doenças, que muitas vezes causam


grandes prejuízos econômicos na piscicultura. As taxas de mortalidade são muitas
elevadas, especialmente em situações de estresse dos hospedeiros. Muitas dessas
bactérias são de tratamento difícil e pouco eficaz.

A maior parte das bactérias é composta de organismos que pertencem à


comunidade bacteriana normal da água, sendo encontradas na superfície dos peixes
e nas brânquias. Porém, quando os peixes são submetidos ao estresse, o que
ocorre freqüentemente nos projetos de piscicultura, as bactérias adquirem uma
capacidade patogênica importante, manifestada por sintomatologia variada.

5.2 Parasitoses

Os peixes em piscicultura são passíveis de serem infectados por


numerosas espécies de parasitas que podem ocorrer em sua superfície ou nos
órgãos internos. Suas dimensões variam de alguns milésimos de milímetro até
vários centímetros.

Na maior parte dos casos, mais importante do que a ação terapêutica


será a profilática, devendo o piscicultor ter a consciência de que atingir as cargas
máximas de peixes em um determinado meio, nem sempre é a forma de conseguir
uma exploração mais rentável. Um especial cuidado deverá ser tomado com a
origem dos animais comprados de outros projetos de piscicultura.

33
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

5.3 Micoses

Os fungos também são importantes agentes patogênicos para os peixes.


São várias doenças em que se manifestam, podendo causar infecções tegumentares
ou branquiais, que são as mais freqüentes e importantes, ou então de caráter
sistêmico.

Aqueles de interesse à piscicultura podem ser agentes patogênicos


primários ou secundários.

A transmissão dos fungos ocorre através dos esporos presentes na água.


Essa transmissão é muitas vezes facilitada pela má qualidade da água, temperatura,
práticas inadequadas de manejo, etc. O tratamento das micoses pode ser
relativamente fácil para algumas espécies, enquanto para outras é muito difícil,
podendo até não existir.

Desse modo, as medidas profiláticas são da maior importância, podendo


ser resumidas a seguir: manter a boa qualidade da água; evitar a introdução de
exemplares infectados; manter baixas densidades populacionais; e eliminar os
peixes mortos, o mais rapidamente possível.

Para concluir, pode-se afirmar que o estado sanitário dos projetos de


piscicultura deverá ser o resultado da interação entre os peixes, os organismos
patogênicos e o ambiente. Um bom manejo do viveiro será aquele que, favorecendo
o adequado e rentável desenvolvimento dos peixes, não permita ou pelo menos
minimize a proliferação dos organismos patogênicos, já que não existe dúvida a
respeito da forte relação existente entre as corretas técnicas de manejo e a ausência
de enfermidades.

34
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

6 AVALIAÇÃO FINANCEIRA

Apresentaremos a seguir algumas tabelas com lançamentos financeiros,


que irão balizar o empreendedor sobre os recursos necessários à implantação de
um projeto de piscicultura.
São também inclusas nas tabelas, espaços para que o próprio
empreendedor adeqüe, caso necessário, os valores à realidade do seu
empreendimento.

6.1 Investimento Fixo

Nesse item, são lançadas as despesas referentes sobretudo, aos


investimentos em infra-estrutura da atividade piscícola.
R$1,00
Item Especificação Qde. Valor Seus Números
1 Serviço de escavação --- 8.500,00
2 Serviço de compactação --- 850,00
3 Materiais para tubulação e serviço de instalação --- 200,00
4 Construção do monge 01 1.000,00
5 Rede 02 1.250,00
TOTAL 11.800,00

6.2 Custo Fixo do Ciclo

Neste item, foram alocados o pessoal envolvido na atividade, os custos


necessários para manutenção, depreciação, conservação do empreendimento,
dentre outros. Os Custos Fixos serão os mesmos, independente das vendas em
altas ou baixas temporadas.
R$1,00
Item Especificação Qde. Valor Seus Números
1 Mão de obra + encargos sociais 01 3.744,00
2 Depreciação (10% s/Investimento Fixo) --- 1.180,00
3 Manutenção (2,5% s/Investimento Fixo) --- 295,00
4 Juros sobre o Capital Investido (6% s/Inv. Fixo) --- 708,00
Continua

35
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

Continuação Tabela – 6.2 Custo Fixo do Ciclo


5 Eventuais --- 200,00
TOTAL 6.127,00

6.3 Custo Variável do Ciclo

Os Custos Variáveis são aqueles que variam proporcionalmente em


relação à produção.
R$1,00
Item Especificação Qde. Valor Seus Números
1 Corretivos e fertilizantes --- 950,00
2 Alevinos 6.000 300,00
3 Ração para alevinos --- 542,00
4 Antibiótico --- 30,00
5 Ração para fase de crescimento e engorda --- 11.872,00
6 Mão de obra temporária 01 100,00
7 Eventuais --- 300,00
TOTAL 14.094,00

6.4 Receita Operacional

A Receita Operacional foi projetado da seguinte forma:

6.4.1 Exemplo 1

Em caso de venda para o atacadista.


R$1,00
Produção Total/Kg Preço de Venda Receita Operacional
11.500 2,80 32.200,00

6.4.2 Exemplo 2

Em caso de venda direta ao consumidor final.


R$1,00
Produção Total/Kg Preço de Venda Receita Operacional
11.500 3,50 40.250,00

36
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

6.5 Demonstração do Resultado Anual

A viabilidade econômica do projeto de piscicultura está representada a


seguir:
R$ 1,00
Item Especificação Valor Seus números
1 Receita Operacional (Exemplo 2) 40.250,00
2 Custo Variável 14.094,00
3 Margem de Contribuição (1 – 2) 26.156,00
4 Custo Fixo 6.127,00
5 Lucro Operacional (3 – 4) 20.029,00
6 Contribuição Social (10% s/item 5) 2.003,00
7 Subtotal (5 – 6) 18.026,00
8 Imposto de Renda (2,5% s/item 7) 4.507,00
9 Lucro Líquido (7 – 8) 13.519,00
10 Ponto de Equilíbrio Financeiro (4 : 3 X 1) 9.426,00
11 Ponto de Equilíbrio (4 : 3 X 100) 23,42%
12 Lucratividade (9 : 1 X 100) 33,59%
13 Taxa de Retorno 38,38%
14 Prazo de Retorno do Investimento 2,61 anos

6.6 Ponto de Equilíbrio

O Ponto de Equilíbrio corresponde ao nível de faturamento que a


empresa deverá obter para cobrir seus custos.

Acima do ponto de equilíbrio, a empresa terá LUCRO e abaixo dele,


incorrerá em PREJUÍZO.

A fórmula para o cálculo do Ponto de Equilíbrio é a seguinte:

Despesas Fixas
Ponto de Equilíbrio:
Margem de Contribuição

Receita Operacional

37
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

Exemplo Use aqui seus números para verificação

6.127,00
PE =
26.156,00

40.250,00

PE = R$ 9.426,00

6.7 Investimento Inicial

O Investimento Inicial é composto pelo Investimento Fixo e do


investimento necessário para a formação do Capital de Giro.

O Capital de Giro corresponde aos gastos regulares, que o produtor terá


que arcar para cobrir todo o ciclo de produção – comercialização do pescado, mais
uma reserva financeira para os gastos imprevistos.
R$1,00
Item Especificação Valor Seus números
1 Investimento Fixo 11.800,00
2 Capital de Giro 20.221,00
2.1 Custo Fixo 6.127,00
2.2 Custo Variável 14.094,00
3 Subtotal (1 + 2) 32.021,00
4 Reserva Técnica (10% sobre o item 3) 3.202,00
5 TOTAL (3 + 4) 35.223,00

Então, para se implantar um projeto de piscicultura, o investimento inicial


atingiria R$ 35.223,00, sendo R$ 11.800,00 para Investimento Fixo, e os restantes
R$ 23.423,00 para Capital de Giro e Imprevistos.

6.8 Taxa de Retorno do Investimento

A Taxa de Retorno é calculada dividindo-se o valor do Lucro Líquido pelo


Investimento Total.

38
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

Lucro Líquido
Taxa de Retorno =
Capital Investido

Exemplo Use aqui seus números para verificação

13.519,00
TR =
35.223,00

TR = 38,38%

6.9 Prazo de Retorno do Investimento

O Prazo de Retorno do Investimento é calculado, para que se possa


saber em quanto tempo será recuperado o Capital Inicial Investido.

Para isto, dividi-se o Capital Inicial Investido, pelo Lucro Líquido.

Exemplo Use aqui seus números para verificação

35.223,00
Pr Ret =
13.519,00

Pr Ret = 2,61 anos

7 LEGISLAÇÃO

A legalização da atividade de piscicultura é fator tão importante quanto


qualquer outro fator produtivo, pois viabilizará a finalização do processo, que é a
comercialização.

Na legalização junto ao Departamento de Meio Ambiente Estadual,


teremos as licenças ambientais para instalação e operação da atividade e caso seja
necessário o desmatamento da área, deve-se solicitar licença ao Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente - IBAMA.

39
Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

Após a construção das instalações e obtenção da licença de operação,


faz-se necessário o registro como piscicultor junto ao Ministério da Agricultura.

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As potencialidades do Estado de Roraima (recursos hídricos, genéticos,


climáticos e técnicos) permitem prever que a atividade terá expressão na produção
piscícola. No entanto, o setor de produção deve superar alguns pontos, como o
amadorismo, falta de espírito associativista, desconhecimento do mercado e
ausência de incentivo governamental.

Qualquer que seja o modelo de produção adotado, a visão empresarial, o


estudo de mercado a que se destina o peixe (pesca esportiva, supermercados e
feiras), a orientação técnica, a legalização da atividade nos órgãos ambientais e a
produção sustentável, são ações indispensáveis à consolidação do setor piscícola.

A cadeia produtiva da piscicultura deverá ser trabalhada com a visão de


todos os segmentos que formam o agronegócio. Não basta incentivar o aumento da
produção, sem fortalecer os canais de escoamento que passam pela diversificação
das formas de apresentação dos produtos, investimentos em marketing e
valorização do consumidor final.

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Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

9 FORNECEDORES
Alevinos:
• Agropecuária Paulo Acordi – Boa Vista/Roraima
Telefone: (95) 9971-3000
• Usina de Balbina em Presidente Figueiredo - Amazonas
• Embrapa, Manaus/Amazonas
• Piscicultura Frota – Rio Grande do Norte
Telefone: (84) 982-2154
• Aquabel – Rolândia/Paraná
Telefone: (43) 256-2307
• Projeto Pacu – Campo Grande/Mato Grosso do Sul
Telefone: (67) 721-1220

Máquinas, equipamentos e produtos:


• Nutron alimentos Ltda. - Campinas/São Paulo
Telefone: (19) 247-4848
• Projeto Pacu – Campo Grande/Mato Grosso do Sul
Telefone: (67) 721-1220
• Bernauer Aquacultura Ltda – Blumenau/Santa Catarina
Telefone: (47) 334-0089
• Frutos D’água – Bela Vista/São Paulo
Telefone: (11) 288-0472
• Engepesca Ltda. – Itajaí/Santa Catarina.
Telefone: (47) 334-6929
• Fish Braz – Botucatu/São Paulo
Telefone: (14) 822-3458

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Criação comercial de peixes em viveiros ou açudes

10 BIBLIOGRAFIA

Brown, Lester R. Artigo, “A piscicultura poderá suplantar em breve a pecuária como


fonte e alimento. Embrapa , Boa Vista,2000”

Castagnolli, Newton. Apostila ”PISCICULTURA”, Centro de Aqüicultura, Faculdade


de Ciências Agrárias e Veterinárias-Campus de Jaboticabal. Jaboticabal, março
de 1990

Epamig. Informe Agropecuário. Aqüicultura Empresarial : pesquisa e planejamento.


Vol. 21. –Nº 203 – março/abril 2000

Kubitza, Fernando. Nutrição e alimentação dos peixes cultivados. 3 ed. Ver. e ampl.
– Jundiaí – 1999

Kubitza, Fernando. Principais parasitoses e doenças dos peixes cultivados. Jundiaí –


1999

Proença, Carlos Eduardo Martins de. Manual de piscicultura tropical – Brasília:


IBAMA 1994

SEBRAE/AM. Como criar tambaqui em lago de barragem. MANAUS, Programa de


informações, 1995 62 p. (Série: Perfis Empresariais)

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