0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 3K visualizações99 páginasAntunes, I - Lutar Com Palavras
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NA PONTA DA LINGUA
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18
‘Branpirims — guerra em toms da ingua
Caries Aero Fareo [or], 4" ed
Lingua materna ~ Team, vrigioeensina
Mares Bao, Michel Stubbs & Giles Gagné, 3° ed
Hist conc da linguic,Babara Weedwond, 5*e
‘Stilngistica ~ wna introduc erica, Lens Jean Cave, ed
Hira concise da ria, Cates Higoare, 3
Pra entender alingustica — epiemolga ementar de wna diiphna
Robert Marti, 3°
Inve a sada etre, Armand Matelat, fei Neve, 2 ed
A pragmatice,Prongise Armengaud, 2
iwi conc de smidca, Anne Heénalt, 2 ed
A semdntic, Irene Tambs, 2
Linguistic comptaconal — ora & prin
(Gabriel de Avil Otero e Seri de Moura Menuze
Linguistica Marca — Una introduc a xtadn da histria
as inguas, Caos ABerto Frac, 2
Lar com palavras — coo eee, lrandé Antunes, Se
Anais de disse — Hise priias, Francine Maire, 2 ed
Mas gue & mesmo “radia”, Carls Franchi, 2 ed
‘Anais da covers, principe metas Catherine Kerbat Orion
4s politics Unguistins, Loue-Jean Cavet
Pras de lerameto no esi lure, crt dicars, 2 ed
Carlos Alberto Fasc, Maria do Raivio Groin,
ivan Maller de Olvera, Tél Gimene, Lis Carlos Travia
eleva sail da lingua guage eri nna
ais Pecval Leme Brito, Marcos Brg, Neiva Mars Jung, Exnéria
de Lourdes Sav, Maria Mara Frianeto
Tado mundo devia exreve, Georges Par
A argumenaco, Chis Plata
lrandé Antunes
lutar com
PALAVRAS
coesaéo e coerénciaoro Marcos Marcionlo
Gara ¢ mover eadnco: Andria Custédio
Contnno twat Ana Sah les (seo)
Cores alberto Faroe (UF
Epon de Omer Rangel PUCSEL
Gian Maller de Our USC pt
enague Morteogudo Unw Santapo de Comports
‘anova Rojgopeten Tear)
‘Maros Bago (on).
‘Mana MrtaPerero Scere [FR, Un
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PARABOLA EDFTORIAL
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ISBN 7a a5 5640.6
Sect: a e208
© oto: Ma hand Antunes
desta chr Prabal Fao SS Paul, seembro de 005
Para Sara ¢ Daniela,
os melhores frutos de todas as
coesses € coeréncias de minha vida.A lingua é uma das realidades mais fantésticas
da nossa vida. Ela esté presente em todas as nossas
atividades; nés vivemos entrelagados (as vezes soterra-
dos!) pelas palavras; elas estabelecem todas as nossas
relagbes e nossos limites, dizem ou tentam dizer quem
somos, quem so os outros, onde estamos, o que vamos
fazer, o que fizemos. Nossos sonhos so povoados de
palavras; 05 outros se definem por palavras; todas as
nossas emogoes € sentimentos se revestem de pala-
‘vras. © mundo inteiro é um magnifico e gigantesco
bate-papo, dos chefes de Estado negociando a paz e
a guerra as primeias silabas de uma crianga (..). E
pela linguagem, afinal, que somos individuos tinicos:
somos 0 que somos depois de um proceso de con-
quista da nossa palavra, afirmada no meio de milhares
de outras palavras ¢ com elas compostas
(Parao & Teaea, Prins de texto para alos universities,
Feels: Yous, 2002, p 8).
SUMARIO
Apresentagdo: Tudo o que voce queria saber sobre
‘como construir um bom texto sem se estressar
Latis A. Marcusthisennnnnoe
PRA COMECO DE CONVERSA.
Capitulo 1 — 0 ESTUDO DA LINGUA...
1.1, Em busca de mais qualidade.
1.2. Velhos rumos
13. Gaue 60 proceso de exrever?
Capitulo 2 — A COESAO DO TEXTO....
2.1, O que é a coesio?
Capitulo 3 — COMO SE FAZ A COESAO?....
‘3.1. Relagdes textuais responséveis pela coesio.. 52
Capitulo 4 — PROCEDIMENTOS E RECURSOS
4.2. Recursos da coesao.
Capitulo $—~ RECURSOS DA REPETIGAO 62
5.1. A panifrase.
5.2. 0 paralelismo..
5.3. A repetigdo propriamente dita.Lan com PHLARAS: COESKO E coenENcIA
Capitulo 6 — RECURSOS DA SUBSTITUICAO...... 86
6.1. A substituigéo gramatical..
6.2. A substituido lexical..
6.3. A retomada por elipse.. soos IIT
Capitulo 7 — A COESAO PELA ASSOCIAGAO
SEMANTICA ENTRE AS PALAVRAS. ce 125
Capitulo 8 — A COESAO PELA CONEXAO. an. 140
8.1. [Link] : : 140
8.2,As relagoes semanticas sinalizadas pela
COMEXIO ens : so 14S
Capitulo 9 — A COBSAO, O LEXICO EA
GRAMATICA .. 164
Capitulo 10 — A COESAO E A COERENCIA sow 174
Capitulo 11 - QUE A LUTA NAO SEJA VA. ooo 187
FONTES DOS EXEMPLOS APRESENTADOS...... 194
BIBLIOGRAFIA 195
APRESENTAGAO
TUDO O QUE VOCE QUERIA SABER
SOBRE
COMO CONSTRUIR UM BOM TEXTO
SEM SE ESTRESSAR
Este trabalho da professora universitéria e pes-
quisadora de lingua portuguesa, Irandé Antunes, é
‘mais do que um trabalho sobre a coesio e a coeréncia
textuais. E, sobretudo, um exercicio de tradugao, em
palavras simples e compreensiveis a0 leigo, daqueles
conceitos tedricos e téenicos que aparecem nos sisudos
manuais de linguistica textual. E que muitas vezes
ppassam, sem qualquer mediagao explicativa, para os
livros didsticos, ¢ a professora ou o professor sequer
conseguem saber do que se trata. A capacidade de
dizer de maneira simples 0 complexo é uma das tantas
virtudes da obra que vocé esta comecando a ler.
De fato, € comum que as professoras € 08 pro-
fessores, no ensino fundamental € médio, e também
no nivel universitério, assinalem nas margens de
redagées ou de trabalhos de curso expresses como
9ram COM PALAVRAS:COESKO € COERENCIA
“falta coesio” ou “néio tem coeréncia" Mas 0 que esti
mesmo faltando neste caso? O que deveria ser feito
Para suprir a tal lacuna de coesio e coeréncia? E
disso que esta breve e substantiva andlise trata com
naturalidade ¢ muita intimidade, como se estivesse
ensinando a fazer uma comida gostosa. E tudo isso
sem dar receitas simples ou superficiais, além de mos-
‘rar a seguranga de quem tem uma longa experiéncia
neste tipo de assunto.
Digo isto porque conhego Irandé Antunes e seu
trabalho sério de ha muito tempo, desde que se ocu-
ava dessas questées no comego da década de 1980,
quando escreveu sua dissertagao de mestrado sob minha
orientacio, tendo em seguida desenvolvido tese de dou-
torado sobre a coesao textual na Universidade Clissica
de Lisboa, que acabou se transformando no primeiro
livro dedicado exclusivamente a0 assunto no Brasil
Esta familiaridade com o tema, aliada a uma enorme
experiéncia com professores da rede publica no ensino
fundamental ¢ médio, bem como em universidades
pliblicas ¢ particulares, dew & autora uma sensibilidade
incomum para 0 tom adequado a exposicéo que atinge
© leigo e nao enerva o técnico e tedrico exigente, pois
ndo € superficial. Essas virtudes vém aqui aliadas a
‘um texto muito bem humorado e escrito com paixdo
e carinho, pensando sempre nos leitores.
Sob 0 ponto de vista teérico, a autora parte da
ideia de que a lingua nao se acha confinada as regras,
da gramatica, nem € uma questio de certo ¢ errado,
mas é uma atividade social que cria as condigées da
interagio € dos processos comunicativos em geral.
Além disso, sustenta que “escrever é, como falar, uma
10
=
ponesentacho
atividade de interagao, de intercambio verbal. Por isso
€ que nao tem sentido escrever quando nao se esté
procurando agir com outro, trocar com alguém alguma
informagio, alguma ideia, dizer-Ihe algo, sob algum
pretexto”. Escrever é uma atividade que exige um
‘movimento para 0 outro, definindo este outro como
‘seu interlocutor. E é nesta relaco que o proprio autor
se constitui. Ninguém escreve sem um destinatério,
E claro que, nessa visio, 0 que mais conta nao vai
ser a ortografia nem a simples regra de concordancia
¢ sim 0 desenvolvimento das ideias ¢ a distribuicéo
dos tépicos, a selecdo lexical, a contextualizagéo, 0
estilo que vio produzindo a adequacao da escrita.
Para a autora, “isso equivale a admitir que a coerén-
cia do texto é: linguéstica, mas é também contextual,
extralinguistica, pragmética, enfim, no sentido de que
depende também de outros fatores que néo aqueles
puramente internos & lingua”. A lingua enquanto
sistema de formas ndo comanda tudo.
Baseada nessas premissas, Irandé Antunes, co-
mhecida por seus trabalhos sobre lingua portuguesa
‘numa linha inovadora e ligada a linguistica textual ¢
andlise da sociointeraglo, desenvolve uma série de
argumentos mostrando como 0s textos séo muito mais
do que simples formas. Como apontado, 0 micleo das
observagées recai nos processos de coesdo e coerén-
cia. Mas 0 que & coesdo? Como observé-la? Que faz
6 aluno quando a professora escreve que seu texto
no tem coesio ou Ihe falta coeréncia? Certamente,
no se trata de trocar uma palavra, acrescentar ou
mudar um conectivo, nem de melhorar o parégrafo
fou adequar os tempos verbais ¢ as concordancias
"lumaR com paLaveas: coESHO E CoERENCIA
verbo-nominais. Lendo 0 livro, ficard claro do que se
trata, efetivamente, Esta clareza é dada também por
outra caracteristica singular da autora: a farta exem-
plificagdo com trechos da literatura, do jornalismo
de obras cientificas,
Em suma, aqui o leitor encontra uma introdugéo
a produgio textual escrita em linguagem acessivel. Se
gundo as préprias palavras da autora, ela pretende
trazer algumas nogbesbisicas, acerca da propriedade textual
da coesio ede sua relago com a overéncia,com o objetivo de
Se compreender missinda esas noges eas, desenvolver
nossa competéncia para falar, ouvir, lr e escrever textos,
com mas relevncia, consisténciae sdequagio.
Parece pouco, mas é muito, ¢ talvez seja quase
tudo o de que necessitamos para tratar questo tio
dificil e a0 mesmo tempo tio decisiva. Neste aff,
Trandé trata de “trocar em mitidos” os termos técni-
os € as teorias, oferecendo aos leitores comuns uma
ferramenta como nao se tinha até agora. Esta é uma
obra que sai do pedestal das teorias para chegar a rea-
lidade do usudrio que mais necessita, isto é, o aluno,
a aluna do ensino fundamental e médio, mas também
0 universitério, bem como o homem e a mulher que
J sairam da escola ¢ da universidade e entraram na
vida ¢ precisam continuar escrevendo,
No se trata de dominar a lingua enquanto uma
forma e sim de saber como usé-la de maneira adequada
nas mais diversas situagdes da vida didria e nos mais
diversos graus de formalidade ou informalidade que
se oferecem e nos quais devemos produzir géneros
textuais variados. “Escrever é sempre escrever textos”,
Jembra com razdo a autora, ¢ por isso ndo é possivel
2
ResenTaghO
‘escapar dessa atividade no uso da lingua. Escrever nao
6 fazer frases isoladas ou combinar formas apenas,
‘mas produzir textos que sejam compreensiveis. Isto
significa que escrever também é inaliendvel da leitura:
escrever € oferecer algo para ler. Assim, a coesio © a
‘coeréncia tém aspectos voltados tanto para o linguistico
‘quanto para decisGes relativas ao contexto social, cultural
€ cognitivo, levando em conta o interlocutor visado.
Para tanto, ao longo do livro, uma série de mitos é
‘abalada. Por exemplo: nao é verdade que s6 0s dotados
pela natureza escrevem bons textos. A rigor, todos,
com algum esforgo, podem produzir bons textos. Outro
mito € a ideia de que todo texto deve ter elementos
coesivos na superficie textual para funcionar. O que
ele deve é permitir a compreensio. Constitui, ainda,
‘uma visio distorcida imaginar que a repetigio seja
coisa da lingua falada; basta ver a quantidade de re-
petigdes encontradas em textos jornalisticos, romances
trabalhos de teses, entre outros. A repeti¢do, como
mostra Irandé Antunes, € um recurso expressivo de
enorme importancia € até necessério em alguns gé-
neros textuais. Além desses, muitos outros mitos em
relagdo a escrita vdo sendo derrubados com enorme
clareza e sedugdo argumentativa.
Nao creio que seja minha missdo dizer, numa
breve apresentagio, tudo o que a autora trata em
obra de tanta densidade e com enorme transparéncia.
Numa apresentagdo, tal como o genero exige, deve
se criar o gostinho da leitura no leitor. Espero ter
atingido este objetivo nestas breves observagées. E
assim, para saber mais, remeto vocé, leitora, leitor,
4 leitura atenta. Mas néo poderia finalizar sem citar
18LIAR com PALAYRAS: COESHO E cOERENCIA
aqui o poema que serve de epigrafe ao capitulo 10,
“A coesdo e coeréncia”, Eis a magnifica passage
Subi a porta ¢ fechei a escada.
Tirei minhas oragées ¢ recitei meus sapatos.
Desliguei a cama ¢ deitei-me na luz
Tudo porque
Ele me deu um beijo de boa noite
(dvro8 awe)
‘Ap6s introduzir esse poema, a autora se indaga,
logo no inicio do capitulo:
Seria esse texto incoerente? Epossivel descobrir nele alg
1a ponta de sentido? Melhor dizendo, épossvelrecuperar
alguma unidade de sentido ou de intengio? Serve para
“dizer alguma coisa? Se serve, como encarar 0 fato de as
palavas estarem numa arrumagio linear que resulta sem
sentido? A porta sobe? A gente fecha a escada? A gente
tira as oraées ¢ recta os saptos? A gente desliga a cama
se deta na luz?
Nao ¢ dificil concordar com Irandé Antunes: 0
texto tem tudo para ndo dizer nada. Tem tudo para
no funcionar, mas, flizmente, como constata a auto-
ra, vivemos num mundo em que nossas experiéncias
€ condigées sociais, culturais e cognitivas permitem
saber como se sentem os amantes beijando-se com
ardor... Tudo se inverte, e entio é possivel até mesmo
recitar sapatos, desligar a cama ou fechar a escada, A.
andnima poetisa (creio que ‘o autor’ é uma mulher),
foi mais do que coerente: deixou-nos plenamente
cientes de como se sentira apés 0 beijo. Como acer-
tadamente lembrado por Irandé a este propésito,
“
>=
pvnesenragno
esse texto € coerente no porgue, simplesmente, & um
texto poético Ele € coerente poraue se pode, por uma via
qualquer, recuperar uma unidade de sentido, uma unidade
de intengio.
Pois bem, & mais ou menos assim — como a
amante de que trata 0 poema acima — que voce,
Teitora, leitor, vai se sentir em relagio a coesio € &
coeréncia depois de estudar este livro. Vai entender
que € possivel ser coerente ¢ coeso sem seguir line-
‘armente € na superficie, vai descobrir que na lingua
nem tudo é transparente e que muitas coisas 6 se
constroem na relagao com o leitor no ato da escritura
voltada para a interagdo. O que se dé igualmente na
produgio oral. Enfim, na vida hé muito mais do que
formas linguisticas quando lidamos com a lingua em
funcionamento. E é deste algo mais que vem a maior
parte dos efeitos de sentido que 0s textos provocam
em nés, Neste livro voce vai aprender como organizar
© aspecto linguistico em consonancia com este algo
mais. E 0 mais importante: vocé nao precisa ser um
‘téenico em linguistica para entender do que se trata
comecar a agir na sua producdo textual com maior
seguranga. Aproveite!
Lum AxtOwio Maxcuscut
Recife, setembro de 2005
5PRA COMEGO DE CONVERSA..
‘A questo da coeséo tem sido, em geral, pouco
ou quase nada tratada pelas graméticas e, 86 muito
ecentemente, um ou outro livro didatico [Link]-
Ges acerca dessa propriedade textual. Em geral, essas
observagies so apresentadas de forma superficial,
incompletas e, por vezes, com algumas inconsistencies
Assim, pode-se admitir que as questdes da coesio ¢
da coeréncia nao séo exploradas de forma satisfat6ria,
nem mesmo nas aulas de Kingua,
E comum ouvir-se referéncias muito vagas &
coesio © & coeréncia. Essas propriedades do texto
Parecem ser, assim, um terreno meio indefinido, vago,
impreciso, para onde vamos jogando tudo 0 que nio
sabemos explicar bem; sobretudo quando se trata de
dificuldades menos superficiais. Diante daquele texto
meio ruim, que nio estd muito bem formulado, que
nao esté muito claro, cuja dificuldade nao sabemos exa-
tamente identificar, recorremos a uma érea geral, sem
contornos, onde cabe tudo e tudo se acomoda. B, af,
dizemos: falta coesdo; ou 0 texto ndo tem coeréncia.
Mas... falta coesio exatamente onde? Falta que
tipo de recurso? Se um texto nao tem coeséo é porque
Ihe esté feltando 0 qué?
16
RA COMEGD DE CONVERSA
A indefinigao é pior ainda quando se trata de
‘coeréncia. Um texto, incoerente? Onde? Por qué?
‘Como disse, joga-se genericamente para o campo
da coesio e da coeréncia a razdo de toda dificuldade
que nio se consegue definir ou explicar.
Na verdade, 0 que nao tem sido muito comum €
que saibamos, todos nés, professores, alunos e demais,
‘como € um texto coeso e, paralelamente, como € um
texto sem coesio; que recursos concorrem para que um
texto seja coeso; o que falta em um texto sem coeséo.
Minha pretensio com este trabalho é contribuir
para que qualquer leitor interessado na questao possa
ter acesso a essas nocdes basicas e possa compreender
‘um pouco mais acerca do que fazer para deixar o texto
articulado, encadeado; enfim, coeso ¢ coerente.
Para isso, depois de apresentar as fungdes textuais
da coesio, fago uma descri¢ao de cada um dos dife-
entes recursos que concorrem para esse resultado.
‘Uso de propésito uma linguagem nao demasiada-
‘mente téenica ou académica, evitando, por isso, 0 act-
rmulo das nomenclaturas especializadas. Iso nao significa
‘que, alguma ver, teriha abdicado do rigor teérioo das
questées, bem como da fidelidade as fontes citadas.
Quanto aos exemplos apresentados, decidi tam-
bém suprimir parte dos créditos relativos as fontes
referidas, Esses exemplos foram, em sua grande
maioria, colhidos em livros, jornais e revistas, com 0
‘cuidado de ser fel ao contetido ¢ a forma das citacoes
tomadas, No entanto, alguns poucos foram criados
‘ad hoc, para servirem de ilustragao, embora sejam
inteiramente previsiveis nas situagées corriqueiras
da interagdo cotidiana,
"7LUTAR CoM PALAVRAS: COESHO € coERENCIA
No conjunto do trabalho, posso parecer reite-
rativa, ou posso até, num ponto ou noutro, deixar
a impressio de redundancia. Preferi correr esse
risco, contanto que meu texto cumprisse sua fungdo
Principal: a de ser explicativo, a de possibilitar uma
exposicéo mais acessivel do fendmeno da coesio,
sobretudo para aqueles leitores apenas iniciados nas
questées textuais. Quis, afinal, tornar mais clares €
mais acessiveis questées, por vezes, complexas e nem
sempre bem compreendidas.
Esse propésito remonta ao desejo de trazer para
© debate priblico questées linguisticas que ultrapas-
sem as determinagdes pontuais do certo e do errado,
geralmente vistas em frases ¢ sem referéncia a um
contexto de uso.
De fato, o debate que se tem realizado no Brasil
sobre questées linguisticas em diferentes programas
de televisio, de radio, ou da imprensa escrita, tem
tido uma tinica diregéo: a de reforgar a importancia
da gramética normativa, a de reafirmar as nogées de
uma suposta norma culta e, consequentemente, a de
fixar-se “nas coisas erradas que dizemos”, com as quais
“deixamos a lingua portuguesa em franco perigo””
Como pano de fundo desse debate prescritivo,
hé o pressuposto geral de que “nés, brasileiros, nao
sabemos falar bem a lingua portuguesa”, de que nés
a “bagungamos com nossa indisciplina e nosso es-
pirito irreverente”: Aliés, corre solto o boato de que
“a lingua portuguesa é uma lingua muito dificil” Algo
assim imposs{vel de ser aprendida; sé uns poucos
superdotados é que conseguem, depois de muita luta.
Ou, ainda, 0 outro boato, meio terrorista, de que a
8
i.
[Link] O€ CONVERSA,
tuguesa corre o risco de desaparecer e, para
asoobreivenie, pede-se socorro. Em linhas gerais,
vai por esses termos a tOnica do debate publico no
Brasil em torno das questdes linguisticas.
‘Nao por acaso, em todos esses meios de comuni-
‘cago, qualquer intervencao relacionada a lingua por-
tuguesa 86 se ocupa de tirar divides pontuais quanto
40 que € certo € ao que é errado. Normalmente, essas
jntervengées giram em torno de questées como, por
exemple: O que é certo — entregar em domicitio ou
entregar a domicilio? e similares. Questdes pontuais,
quer dizer, localizadas, na verdade, em um determi-
nado ponto do texto (as vezes, em um pontinho do
texto). .
Questées que néo requerem uma compreensio
mais global de como as pessoas interagem por meio
dos mais diferentes géneros de texto. Questdes que
nao requerem um conhecimento mais relevante de
como fazemos, por exemplo, para organizar um texto
em fungéo de: a
© defender um ponto de vista, um principio
tedrico;
orientar uma argumentagao;
fazer uma ressalva;
apresentar uma justificativa;
dar uma explicagao;
emitir um parecer;
= vender um produto (ou uma ideia) et
Coisas que supdem, de fato, uma competéncia
flobal, para perceber semelhangas e diferencas, para
ordenar, para estabelecer hierarquias, para decidir
sobre 0 que € nuclear e o que € periférico, para dis-
19LUTAR COM PALAMRAS: COESHO E COERENCIA
cernir sobre 0 melhor jeito de abordar o outro — se
de forma cautelosa, se de forma taxativa; se de vez, se
0s poucos etc. Essas muitissimas outras coisas é que
sdo habilidades relevantes que qualquer pessoa deve
pode dominar. Com certeza, seriam muito mais titeis
socialmente, na vida de cada cidadio, do que saber, por
exemplo, se a entrega € a domicitio ou em domiciio,
E apoiada na percepedo de que saber atuar ver-
balmente é uma condigio de sucesso para o exercicio
de nossas atividades sociais que me sinto motivada a
trazer aqui uma explicagio um pouco mais acessivel
acerca de questées textuais; questées verdadeiramente
dlobais, capazes de nos apoiar em nossas tentativas
de desenvolver competéncias relevantes para uma
atuacdo verbal bem-sucedida. Questdes, enfim, capazes
de nos ajudar a, na luta com as palavras, conseguir a
coesio e a coeréncia que tornam significativas as coisas
‘que fazemos, quando dizemas.
Se aceitarmos a ideia de que existem, “por debai-
x0 do pano”, muitas formas de boicotar, de retardar,
de impedit 0 acesso de todos as oportunidades do
desenvolvimento pleno da pessoa, temos que admitir,
também, que a privagdo de uma competéncia textual ¢
comunicativa constitui uma dessas formas de deixar de
fora ou de exeluir as pessoas. Em geral, mesmo dentro
das escolas, ainda falta chegar a hora de as pessoas
acordarem para 0 que significa, socialmente, 0 nao de-
senvolvimento de competéncias textuais. No total, os
que se privam dessas competéncias nao dao por isso, E
8 responséveis também nao, E quem sai perdendo?
Vejo, portanto, como da maior pertinéncia que se
instigue 0 piblico em geral para perceber a amplitude
2
PRA COMEGO OE COWERSA
das questdes linguisticas; para perceber que uma lin-
gua néo é uma coisa que se restringe apenas a um
manual de gramdtica, a regras de certo e errado; para
‘perceber que usar a linguagem é uma atividade social,
é um ato hist6rico, politico, cultural, que envolve
tum complexo conjunto de habilidades (cognitivas,
textuais e interativas) e de fatores situacionais. E,
além disso, uma prerrogativa do ser humano, que
Ihe dé imensos poderes e que retrata os intimeros
Jagos que as pessoas criam entre si e com 0 mundo
fem que vivem. Vejo, assim, com grande simpatia,
‘qualquer iniciativa de estender 0 debate das questoes
Jinguisticas a todas as pessoas que no, apenas, os
professores e, mais especificamente, os professores e
(08 alunos de lingua portuguesa. ;
‘A lingua é universal. Ter competéncia para
saber usé-la adequadamente em textos bem organiza-
dos e relevantes é um direito de todos. Direito que,
parece, ainda nao chegou “a tados os domicilios” ou,
brasileiramente, “emt todos os domiciios”, Pelo menos,
naqueles verde-amarelos. s
Ferreira Gullar compos um poema que intitulou
de Muitas voces. Nele, aparecem os versos:
‘Meu poema
um tumulte,
a fala
que nele fala
‘outras voces
arrasta em alarido,
Pois é: neste trabalho também se pode ouvir
a fala de muita gente. Gente com quem conversei,
.aLUTAR Com PALAURAS: COESKO € cOERENCIA
com quem troquei ideias, com quem dividi minhas
preocupagtes.
Por isso, gostaria de agradecer 0 incentivo, 0
apoio que, por muitas conversas e sugestdes, me
foram dados néo s6 pelos professores Eduardo Calil
€ Marcos Bagno, mas também pelas professoras Ana
Lima, Beth Marcuschi, Auxiliadora Lustosa, Gléucia
Nascimento, Isabel Pinheiro. Me foram muito valiosas
também as reflexdes feitas, na UECE, com os alunos
do mestrado de linguistica aplicada ¢ com minhas
orientandas de iniciagdo cientifica. As professoras
Francineide Costa, Alair Geanne, Aparecida Santos e
Nara Janaina, de Belém de Sao Francisco, gente que
vive “com a mao na massa”, foram o “termémetro”
com que pude avaliar o grau de transparéncia de
‘minha linguagem neste trabalho. A elas, agradeco a
inestimavel escuta,
Agradego, de forma muito especial, & professora
Adair Pimentel Palicio e ao professor Luis Antonio
Mareuschi, que, por dominios diferentes, me abriram
as portas da linguistica. Cada um a seu tempo
Parece razodvel admitir que, para os de casa,
nio precisa haver agradecimentos. verdade. Mas
me deixem dizer aqui quanto me sinto gratificada por
poder discutir com Alfredo cada uma das questées
aqui tratadas. E uma forma de a gente misturar a
filosofia e a linguistica. Dé tudo no mesmo
IRaNDE Costa ANTUNES
Recife, setembro de 2005
2
CAPITULO 1
© ESTUDO DA LINGUA
1.1. Em busca de mais qualidade
Em geral, temos acompanhado o debate acerca das
‘questies ligadas ao estudo do portugués. J4 no causa
nenhuma surpresa ouvir falar das imensas dificuldades
dos alunos para escreverem, mesmo no final do ensino
‘médio, textos relevantes, adequados e, consequentemen-
te, coerentes. Ou, para se expressarem oralmente num
registro mais formal. ‘Todos nés conhecemos também
as condigées gerais em que esse estudo acontece: sem
‘muito estimulo a leitura e sem tempo para um persis-
tente exercicio de se esctever textos que sejam, de fato,
representativos da atividade que as pessoas desenvolvem
nna comunicagao social do dia a dia
‘As inquietagdes deixadas pela constatagdo de
que “como esta nao pode ser” nem sempre trazem
muitas pistas de como “deveria ser”. Além disso,
faltam livros de orientagdo especifica para professores
€ alunos do ensino fundamental e médio e, até, para
© piiblico que queira conhecer explicitamente certas
questées da linguagem. O que se tem escrito acerca
dos problemas do ensino da lingua e de suas possiveis
2LUMAR col PALAVRAS; COESKO E coeRENCIA
solugies destina-se, na grande maioria dos casos, a0
proprio publico pesquisador, numa linguagem, quase
sempre — como deve ser, na verdade — altamente
especializada, de dificil acesso aqueles que apenas se
iniciaram numa compreensio cientifica dos fendmenos
da lingua e de seu ensino. Dessa forma, faltam orien-
tages mais condizentes com as reais possibilidades de
apteensio dos grupos menos especializados. Também
tém faltado livros que sejam acessiveis aos alunos. Os
livros didaticos ainda tém concedido muito pouca aten-
fo as questées mais especificamente textuais, sobretudo
em relagdo a determinados pontos tedricos.
Evidentemente, no esté em causa no momento
tentar simplificar essas orientagdes. Nem tampouco
reduzi-las a um conjunto de receitas que dispensem a
consisténcia teérica e a reflexio critica. Pretendo tra-
zer algumas noges bisicas — pra comeco de conversa
— acerca da propriedade textual da coesio e de sua
relagio com a coeréncia, com o objetivo de compreender
mais ainda essas nogdes e, assim, desenvolver nossa
competéncia para falar, ouvir, ler e escrever textos, com
mais relevancia, consisténcia e adequagao.
Minha preocupacao, portanto, neste momento, é
atender a uma técita e muitas vezes explicita vontade
dos professores, alunos ¢ outros interessados, de sa-
bberem como “se estuda a lingua com base no texto”
como eles dizem, ou como se faz o estudo das regula-
ridades do texto, como digo eu. Muites vezes, tenho
constatado que, como jé disse, se tem pouca clareza
acerca “do que é mesmo essa histéria de coesio” e,
ai, todos aqueles problemas textuais mais complexos,
dificeis de definir e de explicar, sio simplesmente
2
rotulados, e de uma forma muito vaga e indefinida,
‘como problemas de coesio.
Quero assumir, portanto, aqui, essa tarefa de
esclarecimento, de trocar em mitidos, na intencéo
de trazer um pouco de luz as salas de aula, para
que professores ¢ alunos vejam a lingua numa pers-
pectiva bem mais ampla e descubram a maravilhosa
aventura da interagdo, da comunicagao, da troca, do
intercambio, possibilitados pela atividade verbal. Lé,
‘onde s6 os humanos chegam, pelo menos do jeito
‘que chegam.
1.2. Velhos rumos
‘Ja no causa surpresa 0 fato de se constatar que
08 alunos, até mesmo na universidade, demonstram
ter dificuldades significativas na expresso oral, na
Teitura e na escrita de determinados géneros mais
formais. Deparamo-nos, por vezes, com situagdes
diante das quais nos perguntamos: 0 que ficou de,
no minimo, onze anos de estudo da lingua? Por que
até mesmo nogées € habilidades téo elementares néo
foram assimiladas?
Nao pretendo, no momento, desenvolver uma
explicagdo para as muitas razdes desses resultados.
sriste uma farta literatura a respeito. Contento-me
‘em fazer algumas consideracoes, & guisa de introdu-
cao. Como se quisesse motivar o leitor para aceitar
0 que vem depois.
‘Tendo em conta as fungGes de ensino que a es-
cola assume, comecaria por apontar algumas de suas
insuficiéncias, principalmente no que toca ao ensino
25LUTAR COM PALAVRAS: COESHO € COERENCIA
das habilidades de escrever. Embora vé focalizar prin-
cipalmente problemas do ensino, espero interessar
também os alunos e seus responsdveis. Eles precisam
entender 0 que se passa em sala de aula; precisam
saber avaliar a relevincia do que esté sendo proposto
como ensino e de como este ensino estd sendo feito,
Ou seja, na dtica com que falo aqui, os problemas do
ensino devem interessar aos professores, aos alunos
©, Por que nio?, a toda a sociedade. Cada um tem
seu papel na condugéo desses problemas.
‘Uma primeira insuficiéncia do ensino diz res-
Peito ao fato de que hé uma primazia quase absoluta
da oralidade em sala de aula, e de uma oralidade,
As vezes, quase restrita ao informal. Até mesmo as
Notas, 08 resumos, os esquemas para estudo, quando
escritos, passam por um trabalho de tradugéo oral
do professor “para facilitar”, “para que os alunos
entendam melhor’, As oportunidades de escrita sio,
quase sempre, reduzidas &s (poucas) aulas de redagio
© aos eventuais apontamentos de aula, normalmente
copiados do quadro. As atividades de leiture também
no chegam a ser significativas
Uma outra insuficiéncia poderia ser vista no
fato de que, além de escassas, as oportunidades de
escrita limitam-se a uma escrita com finalidade escolar
apenas; ou seja, uma escrita reduzida aos objetivos
imediatos das disciplinas, sem perspectivas sociais ins-
piradas nos diferentes usos da lingua fora do ambiente
escolar. Por exemplo, a produgéo escrita, no ensino
médio, é orientada especificamente para a dissertagdo,
com vistas & redacao do vestibular. Dessa forma, €
comum a artificialidade das condigdes de produgio
26
(0 esTuD0 OA UiNGUR
desses textos, do que resulta uma falsa compreensio do
que seja construir textos relevantes e ajustados a um
‘contexto de comunicagao social mais amplo.
‘A essa escrita falseada falta um processo de
retorno, pois falta, igualmente, um leitor & vista ou
‘mesmo simulado. Nem mesmo o professor que vai ler
(08 textos dos alunos costuma assumir esse papel de
Ieitor, atropeladg que é pelo outro papel de corretor. E,
dificil, nessas condigées, isto é, sem saber para quem
estd escrevendo, alguém tentar ajustar-se as condicbes
da interagio. Assim, & escassez. de oportunidades
de uma escrita socialmente significativa se soma 0
‘agravante de uma escrita que é mero treinamento,
para nada e para ninguém.
E de se ressaltar, ainda, a estreiteza na com-
preensio da atividade de escrever um texto um
tanto quanto formal. Quase sempre, faltam as
providencias para o planejamento do que vai ser
dito ¢, mais ainda, falta a revisio cuidadosa do que
foi dito. Tudo se reduz a um exercicio mectnico
de por no papel no importa o qué; faca ou nao
sentido, tenha ou no relevancia 0 que se diz
Esse aspecto é mais grave quando se constata que
4 preocupaglo com a reviséo do que foi escrito se
limita a corrigir pontos de sua superficie linguis-
tica, como ortografia, concordancia verbal, crases
¢ outras questdes gramaticais.
[Nao se pode esquecer a situaglo de vida de muitos
professores, situacio que dificulta a exigéncia de ele ser
‘um leitor, um “escrevente” assiduo, um pesquisador,
um produtor do conhecimento que pretende fazer
circular entre os alunos com quem convive,
aTAR COM PRLAVRAS: COESKO E COERENCIA
De forma suméria, poderiamos dizer que tais
insuficiéncias acontecem também quando estio em
Jogo atuagdes orais, de cardter mais formal. No en-
tanto, no momento presente, queriamos fixar-nos na
‘modalidade escrita da lingua,
1.3. 0 que é 0 processo de eserever?
A pergunta poderia ser: O que é 0 processo de
cscrever textos? Nao a fiz. nesses termos, por conside-
rar isso uma redundancia. Na verdade, sempre que
escrevemos socialmente escrevemos textos.
Mas por que procurar entender o que é escrever?
Por uma razéo muito simples. Da compreensio que
temos do que seja escrever vao derivar nossas ativida-
des com a prética da escrita. Conforme as concepgées
que se tem do que seja escrever, treina-se a escrita
de palavras soltas, de frases inventadas, de redagies
descontextualizadas, para nada e para ninguém; ou
se escrevem textos socialmente relevantes, de um
determinado género, com objetivos claros, supondo
uum leitor, mesmo simulado. Assim, nunca é€ demais
relembrar as nogdes sobre o que caracteriza a atividade
de escrever. Vejamos.
1.3.1, Escrever é, como falar, uma atividade de
interacao, de intercimbio verbal. Por isso € que néo
tem sentido escrever quando nao se esta procurando
gir com outro, trocar com alguém alguma informagio,
alguma ideia, dizer-the algo, sob algum pretexto. Nao
tem sentido o vazio de uma escrita sem destinatério,
sem alguém do outro lado da linha, sem uma intengéo
particular. Como avaliar a qualidade dessa escrita?
28
‘com que parimetros fazé-lo, se falta aquilo que es-
sencialmente define o ato comunicativo? Desse modo, 0
pparimetro que resta o da ortografia, da concordancia
¢ 0 de outras particularidades da realizagao superficial
a escrita, 0s quais sio importantes, ¢ claro, mas nio
dispensam o concurso de outras regularidades.
1.3.2. Escrever, na perspectiva da interagao, 56
‘pode ser uma atividade cooperativa, Uma atividade
fem que dois ou mais sujeitos agem conjuntamente
para a interpretacao de um sentido (0 que esta sendo
dito), de uma intencio (por que esta sendo dito).
Dai que se torna muito dificil escrever sem se saber
para quem. Como selecionar as informagdes, como
escolher a ordem em que as coisas devem ser ditas,
como ajustar o grau de formalidade da linguagem,
fo nivel do vocabulério e outras particularidades, se
no sabemos, mesmo de forma simulada, quem é 0
nosso interlocutor e como avalié-lo? Se repararmos
que, com algumas excegdes, essa tem sido a pratica
costumeira das escolas, fica fécil entender por que
fa escrita fica reduzida a um exercicio mecénico
de escrever qualquer coisa, de qualquer jeito, que,
fafinal, nao se sabe bem que fim vai ter. Também
‘io fica dificil entender por que tanta averséo dos
alunos & atividade de escrever.
1.3.3. Bscrever, a outros ¢ de forma interativa,
6, pois, uma atividade contextualizada. Situada em
algum momento, em algum espago, inserida em algum
‘evento cultural. Os valores que, convencionalmente, se
atribuem a esses momentos ou espagos determinam
certas escolhas linguisticas. Dessa forma, nao se es-
EyLWTAR CoM PALAVRAS: COEEHO E COERENCIA
reve da mesma maneira, com os mesmos padrdes, em
contextos diferentes. A descrigdo de um apartamento
sera diferente, por exemplo, se ela é feita por um
corretor, interessado em vendé-lo, se ela é feita por
algum comprador interessado em conseguir baixar 0
preco do imével ou se ela é feita por algum arquiteto
‘que pretende fazer o projeto de sua decoragao. O que
equivale a dizer que nao hé uma escrita uniforme, uma
escrita desvinculada de um propésito, como ingenua-
‘mente se pensa, por vezes. A escrita uniforme, que,
na verdade, é mais uma escrita vazia, existe quando se
trata da escrita de frases soltas ou da escrita daqueles
textos sem destinatérios. Como sfo para ninguém, a
forma nao importa, o que se diz néo importa. Como
nio varia o interlocutor (que, na verdade, nem exis-
te), também nao varia o modo de interagir com ele.
E assim se perde o sentido de ser da escrita, Assim
€ que se pode escrever, em qualquer contexto, “Meu
tio viajou.”, mesmo que ndo tenhamos nenhum tio
ou que nenhum tio nosso tenha viajado.
1.34, Tal como falar, escrever é wma atividade
necessariamente textual. Ninguém fala ou escreve por
meio de palavras ou de frases justapostas aleatoria
mente, desconectadas, soltas, sem unidade. O que vale
dizer: 56 nos comunicamos através de textos. Sejam
eles orais ou escritos. Sejam eles grandes, médios ou
pequenos. Tenham muitas, poucas, ou uma palavra
apenas, Assim, a competéncia comunicativa, aquela
que nos distingue como seres verbalmente atuantes,
inclui necessariamente a competéncia para formular
€ entender textos, orais e escritos.
30
__Essa evidéncia parece no prevalecer em muitas
das propostas de estudo da lingua, pois ainda persis-
tem os exercicios de formar frases, cada uma solta
da precedente ou da seguinte, 0 que contraria nossa
‘propria experiéncia de usuérios da lingua, que nunca
‘nos comunicamos formando frases soltas, ou juntando
ppalavras, simplesmente porque elas comecam com’
‘© mesmo som. O que todos nés sabemos é que se
juntam palavras conforme seja necessério para que
‘se consiga dizer 0 que precisa ser dito
Persiste também 0 uso do texto (as vezes, poe-
mas!) apenas para nele se reconhecer a nidade gra-
‘matical em estudo ou dele se retirar uma ocorréncia
de tal unidade (muita coisa “se retira do texto”). Pelo
fato de ainda persistirem tais préticas, pode-se dizer
que a escola nudou muito pouco, pois, agora, 0 mais
significativo é que a andlise da classe gramatical da
palavra ou a classificagdo das oragées analisadas ja no
io feitas a0 acaso ou em frases inventadas na hora
da aula, Sao feitas em fragmentos tirados de um texto,
© qual, dessa forma, como diz Lajolo (1986, p. 52),
serviu apenas de pretexto para 0 ensino do mesmo:
reconhecimento das unidades gramaticais e de suas
classificagdes. Por esses meios, reduzimos, muito ¢
simplistamente, 0 texto enquanto objeto de estudo.
pior € que, com isso, ficamos com a ilusio de
‘que estamos estudando o texto. Na verdade, 0 texto no
chega a ser objeto de estudo, pois, como disse, as tarefas
continuam as mesmas: as de circular digrafos, as de
srifar substantivos, as de distinguir com cruzes oragées
substantivas de adverbiais e outras semelhantes. Ainda
no se deu, portanto, 0 salto qualitativo esperado pelas
3LUmaR COM PALAVRAS: COESHO & cOERENCIA
propostas da linguistca de texto. Como se diz. jocosa-
‘mente: “sait-se de Guatemala para Guatapior”, uma vez
{que se continua excluindo, dos objetivos e programas, 0
estudo das regularidades textuais ou o estudo das regras
de como as interagées orais ¢ escritas se produzem e s40
interpretadas, para que servem e 0 que as pessoas fazem
‘com clas no cotidiano de suas relagbes sociais.
Se, por tais atividades em torno de frases soltas,
escola nio chega ao texto — enquanto condigéo da
atividade verbal — também nao chega as propriedades
da textualidade e, muito menos, lingua enquanto tota-
lidade. Nao chega ao discurso, nem & compreensio do
que se faz através dele na reprodugdo e na criagdo das
representagdes culturais. E, na exploragio das partes
desse corpo desarticulado — sem alma e sem vida —,
fica, melancolicamente,o saldo de um estudo que serve
muito pouco para além das paredes escolares.
Ja fica fundamentada, assim, uma questo, a ser
levantada daqui a pouco: por que o texto? Nao se trata,
evidentemente, apenas de um modismo a mais,
1.3.5. Bscrever & uma atividade tematicamen-
te orientada, Ou seja, em um texto, hé uma ideia
central, um t6pico, um tema global que se pretende
desenvolver,Um ponto de chegada, para 0 qual cada
segmento vai-se encaminhando, vai-se orientando.
Assim, como acontece numa caminhada. Nao im-
porta se estamos dissertando, contando uma historia,
fazendo um relatério, uma carta, ou a descrigao de
‘um aparelho. Nao importa. Hé sempre um ponto
em vista. E perdé-to significa romper com a unidade
tematica ¢ comprometer a relevancia comunicativa
da interagdo. Esse aspecto justifica plenamente a le-
2
imidade de se preferir o texto a frase para ampliar
jnossa competéncia comunicativa,
1.36. Escrever € uma atividade intencionalmente
Escreve-se para se obter determinado fim, para
eumprir determinado objetivo. Na verdade, nenhum
dizer é simplesmente um dizer. Todo dizer é, como
ppropée a teoria dos atos de fala (cf. Searle, 1981), uma
forma de fazer, de agir, de atuar. A desculpa que, as
‘veres, apresentamos — “Falei por falar” — é, quase
sempre, uma estratégia de nos eximirmos de uma tes
‘ponssbilidade, de nao assumirmos o que foi dito.
‘Assim, que intengbes, que objetivos visamos, na
escola, com nossas propostas de escrever um texto?
Nos mesmos, os autores dessas propostas, temos cla-
teza quanto ao que pretendemos com elas? Nao seria
‘bem mais eficaz buscar essa clareza e explicitar essas
ntengdes? Como outros fatores, as intengOes servem
de parametro para muitas das decisdes que precisam
ser tomadas no percurso da interagai
1.3.7, Escrever ¢ uma atividade que envelve,
além de especificidades lingutsticas, outras, pragmd-
ticas'. Creio que j4 se pode perceber como tudo na
Jinguagem esté inter-relacionado. De fato, cada um
dos pontos que vimos enumerando esta ligado aos
‘outros anteriores e subsequentes. Ou seja, se escrever
constitui uma atividade interativa, contextualmente
situada e funcionalmente definida, é natural que cada
7 Por ‘speciiidade pragmatic’, refirome aqui a todas as
Drtcuaridades que podem acontecer ém um texto por conta das
‘ondigdes do contexto ou da situagio (espacial e cultural) da qual
cle faz pare
33LUTaR com PHLAVRAS: COESHO E COERENCIA
texto seja marcado pelas condigées particulares de
cada situagio. Isso significa dizer que tudo o que é
peculiar aos sujeitos, as suas intengdes, ao contexto
de circulagdo do texto vai-se refletir nas escolhas a
serem feitas. De fato, so os elementos da situagio
— 0 elementos pragmsticas, pois — que determinam
as escolhas linguisticas, eno o contrério. A lingua mio
existe em fungéo de si mesma. Estamos fartos de ouvir
essa afirmacao. Falta Jevé-la em conta quando estamos
planejando nossas atividades de estudo da lingua.
Fomos orientados durante muito tempo de nossa
vida escolar para distinguir 0 certo € o errado, sem
nenhuma referéncia a uma situagio qualquer. Pre-
cisamos aprender a pensar em: certo, errado? Onde,
quando, com quem, para qué?
1.38, Escrever é uma atividade que se manifes-
ta em géneros particulares de textos. Isto é, 08 textos
‘néo tém a mesma cara, Nao tém 0 mesmo esquema
de sequenciagdo, 0 mesmo conjunto de partes ou
a mesma forma de distribuigéo dessas partes. Uma
carta, um requetimento, uma ata, uma declaracdo,
‘um comentério, uma noticia, um aviso, por exemplo,
no comecam do mesmo jeito, nao se desenvolvem ¢
se fecham sob 0 mesmo modelo, Ha esquemas tipicos
para cada um desses géneros; uns mais flexiveis, ou-
tros mais rigidos. Por vezes, a criatividade do autor
se expressa, exatamente, pela quebra desses esquemas
tipicos, 0 que, normalmente, acontece, sobretudo no
Ambito da produgio literéria. A verdade é que, fora da
linguagem com fungao poética, nao € usual que crie-
‘mos nosso préprio modelo de texto. Como em outros
dominios sociais, sujeitamo-nos aos esquemas con-
4
(© EsTVo0 OA Uncua
definidos institucionalmente ¢ legitimados
recorténcia. Saber usé-los constitui
mncia do mundo letrado em que circulemos;
mente, essa é a verdadeira competéncia que
escola desenvolver. Dai, a conveniéncia de se
enciar a entrada na escola de géneros textuais,
ntes, levando em consideracio aqueles que, de
aparecem socialmente. Se acabaria, assim, com
ppratica amorfa de escrever textos que parecem
ertencer a nenhum género reconhecivel
139. Escrever é uma atividade que retoma outros
5, isto é, que remonta a outros dizeres. De forma
‘ou menos explicita, estamos sempre voltando @
fontes, (ou a outras “vozes”, como se costuma
), proximas ou remotas. Nunca somos inteiramente
is. Nosso discurso vai-se compondo pela ativagao
imentos jé adquiridos. Em alguma medida,
texto comporta procedimentos de recapitulaglo e
eenquadramento de outros que ouvimos ou lemos.
emo-nos ¢ fazemo-nos, individualmente, na rede
fiva de todos 0s discursos com que entramos em
ato, Fizemo-nos e fazemo-nos no convivio social
conhecimentos partillados. Nunca entendi por que
tos cursinhos estipulam que, numa dissertagdo de
fibular, o candidato nao pode citar a palavra de ou-
0. Nao pode, isso sim, preencher a maior parte de seu
exto com a palavra alheia. Mas pode, evidentemente,
oiar-se nos dizeres de outro ou refuté-los, conforme
estratégias adotadas em cada situacdo discursiva.
1.3.10, Por tiltimo, gostaria de lembrar que a eseri-
€ uma atividade em relacio de interdependéncia com
35a leitura. Ler & a contraparte do ato de escrever, que
como tal, se complementam. O que lemos foi escrito por
alguém, e escrevemos para que outro leia. Nao existe
solidio em nenhum dos dois momentos. Na verdade,
86 aparentemente estamos s6s, quando escrevemos ou
Jemos. Hé sempre um alguém do outro lado. Imagino
como ndo devem ser estranhas aos alunos as primeiras
experiéncias de escrever para nio ser lido, ou de ler
sem ser para entrar em contato com quem escreveu.
‘Mais ainda, deve parecer estranho o fato de haver
aulas de redagdo (que devem ser aulas de escrita de
textos), dissociadas das aulas de literatura e das aulas
de portugués (“aulas de portugués” quer dizer “aulas de
gramética”.) Dessa fragmentacao meio esquizofrénica,
ficam as percepcdes distorcidas do funcionamento das
linguas, concretamente ¢, sobretudo, a ideia equivocada
de que a portugués corresponde gramética. E, ainda,
fica a crenga de que “ler e escrever bem & um trogo
‘ao dificil que nem adianta a gente tentar aprender”.
Ou seja, fica a conviegdo de que, se néo aprendemos,
€ porque ndo fomos capazes ¢, assim, somos 0 tinico
responsével por nosso insucesso. Na verdade, é preciso
que encontremos condigdes — na escola, na familia, na
sociedade — para desenvolvermos em nds 0 gosto e a
competéncia para a leitura e a escrita de textos. Nem
tudo depende apenas de nossa capacidade pessoal
A escrita também guarda dependéncias em
relacio & propria fala. Falando, ouvindo, lendo ow
escrevendo, os sujeitos realizam uma atividade de
interagdo verbal. Com muitos pontos em comum €
algumas diferencas também, salvando-se naturalmente
a ideia de que cada uma dessas atividades supe a
participacdo efetiva dos sujeitos envolvidos.
36
(© €STU00 OA LINGUA
__Hé mais um ponto que gostaria de trazer & re-
flexio. Trata-se do que costumo chamar de as idas ¢
vyindas da atividade de escrever.
‘A escola favorece a aceitagdo de um grande equivo-
co; 0 de que escrever um texto se faz. numa primeira e
finica versio. Nos exercicios de redacio, normalmente, 0
tempo nio chega para se refletir, para se levantar ou se
estar hipSteses, para se encontrar a palavra certa, para se
voltare avaliar a pertinéncia cas escolhas feitas. Tudo fica
conforme apareceu na primeira escrita. Sem mais nem me-
nos Sem grandes exigencias. De qualquer jeito. Tanto faz
dizer isso ou aquilo, deste ou daquelejeito. Sem tentativas
para se dizer melhor. Como se ndo houvesse regularidades,
‘normas. As vezes, imagino qual seria a reagdo dos alunos,
se tivessem acesso aos borrdes de até grandes escritores.
‘Quantos corte, actéscimos, substituigdes, deslocamentos
vo sendo feitos! O texto final que aparece impresso no
uarda as marcas desses reparos. Mas eles aconteceram,
Para deixar o texto no ponto, segundo pede a situacio,
Em Antunes (2003), admiti tés grandes momentos
para a atividade de escrever: 0 do planejamento (remoto
préximo), 0 da escrta propriamente dita e oda revisio.
Consequentemente, construir um texto escrito:
© primeiro, é uma atividade que comeca antes
da tarefa mecanica de grafar,
‘= segundo, inclui essa tarefa de grafar, de por
no papel;
= terceito, € uma atividade que ultrapassa 0
‘momento da primeira versio.
Ou seja,
claborar um texto escrito € uma taefacujo sucesso nilo se com:
pets, simplesmente, pela codificago de ideas ou informaces,
37LUTa® Com PALAVRAS: COESHO E COERENCIA
através de sinais grfico. Supe etapas de idas evindas, tapas
interdependentes eintercomplementares, que acontecem desde
0 planejamento, pasando pela esrit,até0 momento posterior
da revsio eda reescrta (Antunes, 2003, p. 54)
O planejamento e a revisio do que escrevemos
ainda parecem ser, na escola, um procedimento even-
tual e ndo uma prética sistemética, que ja previsse,
como coisa natural, o momento do planejamento
‘© momento da revisio.
Reiterando o que disse em Antunes 2003, lembro
que, muito provavelmente, a prética das redacées es-
colares?, normalmente realizada num limite escasso
de tempo, sem planejamento e sem revisio, leva a
que se escreva de qualquer maneira.
‘A competéncia para escrever textos relevantes é
uma conquista inteiramente possivel. O mito de que
somente sabem escrever as pessoas que nasceram com
esse “dom” cai por terra numa andlise aprofundada e
objetiva. O dom de escrever é, na verdade, resultado
* Creo que o termo ‘redaio’, pela sua grande didatizacdo,
Jit ganhou uma conotacio demasiado escolar, prvativa do exerccio
didatico de “fazer uma dissertagio” 08, até, “eserover um texto
‘qualquer’: Se observarmos, normalmente, em nossa vida social fora
a escola, ndo somos solicitados a “fazer uma redacio’ Pedem-nos
(que fagamos uma carta, uma ata, um requerimento, um relatéro, um
artigo, um resumo ete. Ou sea, indicam-nos, com um nome especfic,
1um determinado género de texto que devemos esrever, com Vistas &
algum fim bem defnido. $6 na escola scontece a solicitacio amorts
4e fazer uma redagdo: Nio seria melhor usar, em lugar de ‘edacio',
‘© nome do préprio genero que vai ser elaborado? Por exemple: ‘Faga
um comentério’; ‘Faga um convite ou uma cart’ ‘Apresente ume
ustificativa’; DE um parecer: Tavex se riasse um efeito novo, mais
préximo do que acontece nas interags socais fora da escola.
38
0 estuo0 oA LINGUA
muita determinacao, de muitas tentativas, de muita
tica, afinal. Desde cedo
Eyidentemente, cada pessoa € singular e vive esse
de aquisicao e desenvolvimento das habilidades
fer de forma e num ritmo muito particulares.
‘nenhum momento, partilho a ideia de um automa-
‘cego ou de qualquer amulagéo do sujeito em seu
‘de relago com a linguagem. Cada um tem seu
de aprender e de reagir as investidas da atividade
conhecer. O que quero sublinhar aqui é que nio se
, ingenuamente, esperar que, sem aplicaglo, sem
, sem tentativas, muitas epersistentemente conti-
‘se possa chegar a desenvolver as habilidades de
€ excrever textos relevantes e adequados aos muitos
itos interativos de nosso dia a dia.
0 texto, por qué?
No desenvolvimento dos itens anteriores, fomos
respondendo a essa questo; mas, quisemos incluila
explicitamente aqui, devido a grande importancia
que assume.
0 texto, falado, ouvido, lido e escrito € que
constitui, na verdade, 0 objeto de estudo das aulas de
Tingua. Tudo deve convergir para ele: todas as nogées,
‘todas as atividades e procedimentos propostos. Nao tem
sentido aprender nog6es sobre o pronome, por exemplo,
'8¢ niio se sabe como usi-to em textos, orais ¢ escritos,
‘e que funcdo ele tem para a coesio € a coeréncia do
‘que se pretende dizer. Nao tem sentido aprender a
lassificar as conjungées, saber que nomes elas tém,
39LUTAR COM PALAVRAS: COESKO € COERENCIA
se ndo se sabe que tipos de relagdes semanticas elas
estabelecem nos pontos do texto onde aparecem.
O texto deve permear, assim, toda e qualquer a
dade da sala de aula de lingua (da mesma forma que ele
‘permeia toda e qualquer atividade de nossa atuagdo social).
Constitui o ponto de comergéncia de qualquer pritica, de
‘qualquer exercicio, de qualquer plano. O fundamento para
essa concepgio, jd vimos, € 0 seguinte: ninguém interage
verbalmente a nao ser por meio de textos. Pretender ampliar
competéncia verbal de alguém é pretender ampliar as
suas possibilidades de criar € receber textos. O mais,
io pobres manejos de pedagos, de fragmentos, de pecas
desarticuladas de um quebra-cabecas cuja figura global
nunca se manifesta, Manejos que, sem divida, esto a
servigo de muitos outros interesses para além daqueles de
deixar as pessoas, cada vez mais, com o poder da palavra,
pam intervirem nos destinos de suas vidas. Os textos no
podem, assim, acontecer na escola, eventualmente, como
‘quem faz, uma concessio, ou para preencher um tempo
que sobra, se 0 programa permit.
Algumas pesquisas tém mostrado que, em muitas
esoolas, nao ha tempo, por exemplo, para a leitura. O
cuidado maior ainda é aquele de cumprit um programa,
de it “com a matéria pra frente”, o que evidencia que a
leitura ndo faz parte deste programa, nao é item desta
tmatéria; esté fora. Tanto assim que inclu‘la seria correr
orrisco de comprometer, de atrapalhar o tempo destinado
as explicagoes da matéria. Que matéria, podiamos per-
guntar, pode ter relevancia se exchuimos o texto, como
atividade de interagdo emissiva e receptiva?
programa ea matéria, em geral, tem estado em
fungio de se aprender uma fala correta, como se o con-
0
‘0 esrua0 0A UNGUA
‘com bons textos ndo fosse a melhor maneira de se
os padres mais prestigiados da lingua, Nao
a escola se escondendo ou se protegendo, por
dessa necessidade de “cumprir 0 programa”, para
ificar a manutengdo de um ensino da lingua tao
wyante? A escola néo procura cair na conta de que
tem sido dada autonomia suficiente para fazer seus
ios programas, Por que nfo mudé-los, pois?
Se admitirmos que 0s acontecimentos de sala
aula se projetam na vida particular das pessoas,
deduzir que muito pouco interesse pela lei-
pela escrita fica como heranca da experiéncia
. E, depois, Id fora, na vida social, familiar €
trabalho, nao haverd tempo nem gosto para ler €
ver textos, exatamente como, agora, na escola,
se encontra tempo e outras condigdes para de-
Iver tais competéncias.
Creio que, por essas sumérias consideracdes,
ram razbes que justificam a opcao de se fazer do
sto 0 objeto de estudo das aulas de lingua. A medida
se aceita 0 desafio dessa opcdo, vai-se experimen-
tando o gosto (e 0 goz0) de se descobrir uma lingua
nando, uma lingua Viva, teal, situada, pela qual,
fem textos — e no em frases soltas —, as pessoas
interagem e até se defendem, como atores da grande
aventura humana da troca, da mitua relagdo.
1.5. O qué, no texto?
Essa 6, sem duivida, a grande questio. Nao 6 dificil
‘apresentar razies que jutifiquem a opcao pelo texto. Dificl
descobrir 0 que em cada texto se deve fazer objeto de
‘estudo da lingua e, em desdobramento, como se faz.
a