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A CRUZ DE CRISTO

(A VINDICAÇÃO
DA CAUSA DE DEUS)

D. M. Lloyd Jones
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"Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua
justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para
demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador
daquele que tem fé em Jesus" (Romanos 3:25-26).

Com o fim de dirigir sua atenção às grandes palavras que se encontram no capítulo 3,
versículos 25 e 26, da epístola de Paulo aos Romanos, gostaria de lembrar novamente que, em
muitos sentidos, não existem versículos mais importantes que estes dois em tudo o alcance e
esfera das Escrituras. Neles temos a afirmação clássica da grande doutrina central da
expiação. Eis o motivo pelo que os consideraremos muito cuidadosa e detalhadamente. Alguns
os descreveram como "A acrópole da fé cristã".
Podemos ter a certeza de que não há nada que a mente humana pudesse jamais
considerar, que seja de forma alguma mais importante q estes dois versículos. A história da
igreja mostra muito claramente que estes têm sido o médio que Deus o Espírito Santo tem
utilizado para atrair muitas almas das trevas à luz, e para dar a muitos pobres pecadores o
primeiro conhecimento salvador e sua primeira certeza de salvação.
Permitam-me dar um bem conhecido e notável exemplo e ilustração fora da história. Estou
me referindo ao poeta William Cowper. Ele nos diz que estava em seu quarto, em grande
agonia da alma, e sob uma profunda e terrível convicção. Ele não podia encontrar a paz, e
andou caminhando de um lado para outro, quase até o ponto da desesperação, sentindo-se
completamente sem esperança, não sabendo o que fazer de si mesmo. Repentinamente, em
completo desespero, sentou-se numa cadeira frente à janela da habitação. Havia uma Bíblia
ali, então ele a tomou e a abriu, e assim chegou a esta passagem e isto é o que ele nos diz: "A
passagem que acharam meus olhos foi o versículo 25 do terceiro capítulo de Romanos. Ao lê-
lo, de imediato recebi poder para crer. Os raios do Sol de Justiça caíram sobre mim em toda a
plenitude. Eu vi a completa suficiência da expiação, na qual Cristo forjou para mim perdão e
inteira justificação. Num instante acreditei e recebi a paz do Evangelho. Se o braço do Deus
Todo Poderoso não me tivesse sustentado, eu acredito que teria sido esmagado de gratidão e
gozo. Meus olhos estavam cheios de lágrimas; este encanto afogou as minhas palavras. Eu
somente podia olhar para o céu em silencioso temor, surpreendido com amor e assombro".
Isto foi o que este versículo 25 do capítulo 3 da epístola aos Romanos fez pelo famoso poeta
William Cowper, e tem feito a mesma coisa por muitos outros.
Permitam lembrar outra vez o que diz a passagem. É a continuação do que o apóstolo tem
estado falando no versículo 24. É a grande boa nova de que agora é possível para nós sermos
"justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus". Em outras
palavras, agora existe um caminho de salvação fora da lei, o qual não depende de nossa
observação à mesma. Este é o caminho gratuito que é em Cristo.
Deus nos resgatou em Cristo, e estes versículos 25 e 26 explicam como este resgate foi
realizado. Mas, por que teve que suceder algo como isto? Como aconteceu algo assim?
Neste capítulo, o apóstolo já tem considerado duas das grandes palavras que explicam isto.
Elas são as palavras "propiciação" e "sangue". Já tem falado que a redenção adquirida desta
forma vem a nós através da instrumentalidade da fé.
Porém o apóstolo não se detém aqui, ele diz muito mais. Vejamos novamente a afirmação:
"Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça
pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da
sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em
Jesus" (Romanos 3:25-26). Por que o apóstolo continuou até dizer tudo isto? Por que não ficou
em sua primeira afirmação? Qual o significado desta asseveração adicional?
Para descobrir a resposta devemos considerar mais uma vez estes termos. O primeiro é o
termo "propôs". Isto significa "manifestar", "fazer claro". Eis aqui, obviamente, algo que é de
vital interesse para nós, o diz de uma vez; que a morte do Senhor Jesus Cristo no calvário não
foi um acidente, senão que foi a obra de Deus. foi Deus que "propôs a Cristo" ali. Quão amiúde
a glória completa da cruz é perdida quando os homens a sentimentalizam de alguma maneira
e dizem: "Oh, Ele foi tão bom com o mundo, Ele era tão puro. Seus ensinos foram tão
maravilhosos, e os homens cruéis o crucificaram". O resultado disto é que as pessoas
começam a ter pena dEle, esquecendo que Ele mesmo se voltou para as filhas de Jerusalém,
quem começavam a sentir pena dEle, para lhes dizer: "não choreis por mim; chorai antes por
vós mesmas" (Lucas 23:28). Se a nossa opinião da cruz de Cristo é tal que nos faz sentir dor
dEle, isto significa que nunca a vimos verdadeiramente.
É Deus quem o "propôs". Não foi um acidente, senão Aldo deliberado. De fato, o apóstolo
Pedro, predicando no dia de Pentecoste, disse que tudo tinha passado "pelo determinado
conselho e presciência de Deus" (Atos 2:23). Deus o "propôs".

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Este termo também enfatiza o caráter público da ação. É um grande ato público de Deus.
Deus fez aqui algo em público, na cena da história do mundo, com a finalidade de que isto
pudesse ser visto, que pudesse ser apreciado e ser lembrado de uma vez e para sempre. Esta
foi a ação mais pública que jamais tenha existido. Deste modo Deus propôs Jesus Cristo
publicamente, como uma propiciação pela fé em seu sangue.
Isto nos leva a uma pergunta vital: Por que Deus fez isto? Por que aconteceu? Que foi (se
me é permitido perguntar com reverência) o que conduziu Deus a realizar isto? Porventura
teve algum propósito para fazê-lo? a melhor resposta pode achar-se vendo os termos um a
um. Depois os consideraremos como um todo e veremos exatamente por que o apóstolo sentiu
que era vital e essencial agregar isto ao que já tinha falado.
Em primeiro lugar aparece o termo "demonstrar", "para demonstrar a sua justiça". Isto
significa "mostrar", "manifestar", "ensinar", "dar uma mostra evidente", provar". Deus disse
isto, explica Paulo, com o fim de que Cristo, deste modo, pudesse nos regatar, através de
entregar uma oferenda propiciatória. Sim, mas em adição a isto, Deus está "demonstrando"
algo aqui, está manifestando algo, está ensinando e dando uma mostra evidente de algo.
De quê? "De sua justiça". Devemos ter cuidado com esta expressão, porque este termo é
utilizado também no versículo 21.
É um tanto desafortunado que o mesmo termo seja utilizado para se referir a duas idéias
ligeiramente diferentes. No versículo 21 esta palavra significa simplesmente "um caminho de
justiça". "Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus" (Romanos 3:21).
Em outras palavras, o que significa é que foi manifesto o caminho de Deus para fazer justos
os homens, o caminho de Deus para dar aos homens justiça.
Porém no versículo 25 não significa isto. Neste versículo diz que Deus fez algo através do
qual Ele manifesta sua justiça; não a justiça que Ele nos dá a nós, mas a justiça como um dos
seus atributos gloriosos. Esta significa a equidade de Deus, significa a retidão judicial de Deus,
significa a essência moral, santa, justa e reta do caráter de Deus.
Ele diz novamente no seguinte versículo 26: "para que ele seja justo e justificador daquele
que tem fé (o que crê) em Jesus". Ou seja, na cruz Deus está declarando sua própria retidão,
seu próprio caráter justo, sua própria essencial e inerente retidão e justiça.
A seguinte frase é "atento a ter passado por alto". Deus está declarando a sua justiça "com
respeito a", "a conta da" remissão dos pecados passados. (Nota do Tradutor ao espanhol: Na
versão em inglês aparecem no versículo 25 as palavras "for" e "remission", "To declare his
righteousness for the remission of sins that are past", que se traduziria como "para manifestar
sua justiça pela remissão dos pecados passados". Este é o motivo pelo qual o autor realiza os
comentários a respeito destas palavras, e as mesmas não coincidem com as versões em
espanhol [e também não com as versões em português, N. do T. ao português], as quais
traduzem "atento a ter passado por alto, em sua paciência, os pecados passados"). Veja a
palavra "remissão" em sua Versão Autorizada e achará que esta palavra é utilizada várias
vezes; mas se você se incomoda em buscar a palavra utilizada no grego, fará um muito
interessante descobrimento acerca da palavra que o apóstolo usou aqui (a qual é traduzida
como "remissão" na versão em inglês), descobrirá que este é o único lugar onde foi utilizada
em todo o Novo Testamento. O apóstolo Paulo não a usou em nenhum outro lugar e mais
ninguém a empregou. Existe outra palavra que é traduzida também como "remissão", e em
suas várias formas podemos achá-la 17 vezes no Novo Testamento; porém esta palavra que
temos aqui no versículo 25 é usada somente uma vez e na realidade não significa "remissão",
senão "pretermisão".
Esta é uma palavra importante e devemos examiná-la. O que significa "pretermisão"? O
que significa "pretermitir pecados", diferentemente de "remitir pecados"? Esta é uma palavra
que foi usada na Lei Romana. Quando a encontramos na Lei Romana, geralmente é usada
neste sentido: refere-se a uma pessoa que fez um testamento e deixou a alguém fora dele.
Imagine um homem fazendo seu testamento e deixando algo a vários amigos. Mas há um
amigo ao qual não deixou nada, isto é "pretermisão". Ele deixou seu amigo fora do
testamento, não o considerou.
Isto significa, se você prefere, "passar por alto". Aquele homem deu algo a todos seus
parentes e amigos, mas passou por alto a um deles; isto é pretermitir. Esta é a palavra que é
usada aqui no versículo 25, "passar por alto", "escusar", "não fazer caso de", "permitir que
passe sem notá-lo", "ignorar intencionalmente". Estes são os significados que foram dados a
esta importante palavra que o apóstolo deliberadamente escolheu neste versículo
(Nota do Tradutor ao espanhol: o dicionário Larousse, por Ramón García-Pelayo e Gross,
define a palavra "pretermisão" como: Omitir, passar em silencio alguma coisa).
Agora, quando o apóstolo faz uma coisa como esta, ele deve ter tido uma boa razão para
fazê-lo, não o fez acidentalmente. Por que não usou a palavra que tinha utilizado em outras

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partes? Por que esta palavra aqui e somente aqui? E por que esta palavra particular que
significa "passar por alto"? Com certeza, devido a que obviamente o significado expressa a
idéia de "passar por alto". Assim sendo, em vez de traduzir "pela remissão dos pecados
passados", deveríamos ler: "atento a ter passado por alto, em sua paciência, os pecados
passados"; "por não ter feito caso intencionalmente, em sua paciência, dos pecados
passados". Podemos dizê-lo de outra forma. A diferença entre "remissão" e "pretermisão" é a
diferença entre "perdoar" e "não castigar". Você pode dizer que isto seja uma exageração, que
esta é uma distinção sem diferença. Porém não é assim. Obviamente, no fim resulta a mesma
coisa. Se eu não castigo um homem, num sentido o perdoei, porém, ainda não o fiz
completamente. Se eu perdôo, certamente não castiguei; mas perdoar significa mais que não
castigar. Então, este termo "pretermisão", "passar por alto", fica curto com a palavra
"remissão"; e este é o motivo pelo que é uma pena que a Versão Atualizada tenha "remissão"
aqui, devendo ser "passar por alto" ou "não fazer caso intencionalmente".
A seguinte frase que veremos é "os pecados passados". "Atento a ter passado por alto os
pecados passados". Outra vez a Versão Autorizada não é tão boa como deveria.
Tomando a Versão Autorizada você poderia chegar à conclusão que o apóstolo está dizendo
que Deus passa por alto os pecados "passados", os pecados passados de qualquer um; por
exemplo, meus pecados passados, seus pecados passados, "os pecados passados" em geral.
Mas isto não é o que o apóstolo estava dizendo, isto não é o que ele queria dizer. Uma
melhor tradução aqui poderia ser: "pecados que foram cometidos antigamente". Ele está se
referindo a um tempo muito definido. Este é um tempo que ele contrasta no seguinte
versículo, com um "neste tempo" (versículo 26). Houve aquele tempo, depois este tempo. Ele
diz: "Deus propôs Cristo em propiciação pela fé em seu sangue, para manifestação de sua
justiça, atento a ter passado por alto, em sua paciência, os pecados que foram cometidos
antigamente, com vistas a manifestar sua justiça neste tempo..." O que é que está olhando
para trás? Ele está olhando para a Antiga Dispensação.
Ele está dizendo que Deus passou por alto pecados sob a antiga dispensação, sob o pacto
antigo, nos tempos do Antigo Testamento. Seu ponto é que Deus fez isto, e agora propôs
Cristo para realizar algo, acerca do que Ele fez naquele tempo.
Isto nos leva à última palavra que devemos considerar, a qual é a palavra "paciência" ou
"indulgência". O que é a paciência ou a indulgência? Paciência significa "auto-refreamento"
(autocontrole), significa "discrepância permitida", "tolerância". O que exatamente está dizendo
aqui o apóstolo? Diz: "A quem Deus propôs, em propiciação pela fé em seu sangue, para
manifestação de sua justiça, atento a ter passado por alto, em seu auto-refreamento ou
paciência, os pecados que foram cometidos antigamente..."
O que significa isto? O que Paulo está nos dizendo é que este ato público que Deus decretou
e consumou no Calvário tem relação também com as ações de Deus sob a dispensação do
Antigo Testamento, quando Deus intencionalmente não fez caso, quando Deus passou por alto,
pelo seu auto-refreamento e paciência, os pecados de seu povo daquele tempo.
Mas, o que significa tudo isto? Podemos responder de uma maneira muito interessante a
esta pergunta, vendo a mesma classe de afirmação em outros dois lugares no Novo
Testamento.
Você se lembra de como falou o apóstolo Paulo à congregação dos estóicos, os epicúreos e
outros, em Atenas? O informe nos é dado no capítulo 17 do livro dos Atos dos Apóstolos,
começando particularmente no versículo 30. O apóstolo, elaborando seu argumento, diz: "Mas
Deus, não levando em conta os tempos da ignorância, manda agora que todos os homens em
todo lugar se arrependam" (Atos 17:30).
Observe como ele elabora seu grande argumento. Ele diz que Deus não se deixou a Si
mesmo sem testemunho através de todas estas gerações e séculos. Deus deixou suas
evidências e sinais. E o propósito foi que as pessoas pudessem buscar o Senhor, "para que
buscassem a Deus, se porventura, tateando, o pudessem achar, o qual, todavia, não está
longe de cada um de nós; porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também
alguns dos vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração. Sendo nós, pois,
geração de Deus, não devemos pensar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata,
ou à pedra esculpida pela arte e imaginação do homem. Mas Deus, não levando em conta os
tempos da ignorância, manda agora que todos os homens em todo lugar se arrependam;
porquanto determinou um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do varão
que para isso ordenou; e disso tem dado certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos"
(Atos 17:27-31).
A outra passagem é o versículo 15 do capítulo 9 da Epístola aos Hebreus: "E por isso é
mediador (Cristo) de um novo pacto, para que, intervindo a morte para remissão das
transgressões cometidas debaixo do primeiro pacto, os chamados recebam a promessa da

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herança eterna". Agora, isto é precisamente a mesma coisa. Hebreus 9:15 diz exatamente a
mesma coisa que o apóstolo está mencionando em Romanos 3. então, o verdadeiro
comentário de nosso versículo se encontra na afirmação de Hebreus, onde vemos que o autor
estava ansioso de que seus leitores pudessem entender claramente acerca do antigo pacto e
dos sacrifícios e ofertas que as pessoas entregavam a Deus sob esta antiga aliança. Eles
deviam compreender e ter mui em claro em suas mentes, que estes sacrifícios nunca foram
capazes de produzir um perdão completo de pecados; e que não podiam expiar o pecado.
Estes sacrifícios podiam fazer algo, diz o apóstolo, eles foram de valor para "a purificação da
carne". "...a aspersão do sangue de bodes e de touros, e das cinzas duma novilha santifica os
contaminados, quanto à purificação da carne..." (Hebreus 9:13).
Mas estes sacrifícios não podiam realizar mais nada. Eles não podiam tratar com a
consciência. Esta era a dificuldade, e ainda todo o problema trata a respeito da consciência.
Porém, se o sangue de bodes e touros podia purificar a carne, "quanto mais o sangue de
Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará das obras
mortas a vossa consciência, para servirdes ao Deus vivo?" (Hebreus 9:14). O qual "é uma
parábola para o tempo presente, conforme a qual se oferecem tanto dons como sacrifícios
que, quanto à consciência, não podem aperfeiçoar aquele que presta o culto; sendo somente,
no tocante a comidas, e bebidas, e várias abluções, umas ordenanças da carne, impostas ATÉ
um tempo de reforma. Mas (agora) Cristo, tendo vindo como sumo sacerdote dos bens já
realizados..." (Hebreus 9:9-11), e assim continua.
Compreende o argumento? O que o apóstolo está dizendo é que sob a antiga aliança, sob a
antiga dispensação, não houve provisão para tratar com os pecados num sentido radical. Eram
simplesmente meios passageiros, como o foram, que duraram até o tempo assinalado. Estes
antigos sacrifícios e ofertas davam uma certa classe de purificação da carne, proporcionavam
uma profecia cerimonial, rendiam a pessoa apta para acudir a Deus em oração. Mas não havia
sacrifício no Antigo Testamento que tratasse verdadeiramente com o pecado. Todo o que estes
sacrifícios faziam era indicar para o futuro, para o sacrifício que haveria de vir, o qual
realmente trataria com o pecado, limpando as consciências das obras mortas e reconciliando
verdadeiramente o homem com Deus.
"O que você quer dizer com isto" alguém pode perguntar, "é, por acaso, que os santos do
Antigo Testamento não eram perdoados?". Naturalmente que não. Eles eram obviamente
perdoados e eles agradeceram a Deus seu perdão. Você não pode dizer nem por um momento
que pessoas como Davi, Abraão, Isaque e Jacó não foram perdoadas. Porém, eles não foram
perdoados devido a estes sacrifícios que foram oferecidos naquele tempo.
Eles foram perdoados devido a que eles olhavam para Cristo. Eles não viram isto
claramente, e ainda assim acreditaram no ensino, e realizaram estas ofertas movidos pela fé.
Eles creram nas promessas de Deus, que um dia Ele ia prover um sacrifício, e por meio da fé
eles se sustentaram nisto. Mas foi a sua fé em Cristo o que os salvou, igualmente como é a fé
em Cristo o que nos salva agora. Este é o argumento.
Entretanto, num sentido isto nos deixa com um problema. Deus sempre tem se revelado a
si mesmo como um Deus que aborrece o pecado. Ele anunciou que castigaria o pecado, e que
o castigo pelo pecado é a morte. Ele anunciou que derramaria sua ira sobre o pecado e sobre
os pecadores. E contudo, aqui estava Deus por séculos, aparentemente, retrocedendo de suas
próprias afirmações e de sua própria Palavra. Ele parecia não estar castigando o pecado.
Estava passando-o por alto de vez. Acaso Deus deixou de se preocupar por estas coisas?
Talvez Deus veio ser indiferente com o mal moral? Como pode Deus passar por alto o pecado
desta forma? Este foi o problema. E foi um verdadeiro problema. É óbvio que o sangue dos
bodes e dos touros, e as cinzas da novilha não podiam realmente perdoar o pecado. E ainda
assim, Deus deixava de lado estes pecados. Como podia Ele agir assim? O que justifica esta
"paciência de Deus"?
Agora, diz o apóstolo, Deus realmente nos explicou o que realizou em público diante do
mundo inteiro, na cena e teatro do mundo todo, com Cristo no Calvário. Ele reteve sua ira
através dos séculos e não a revelou totalmente então; porém agora Ele a revelou
completamente. Ele o declarou agora. Paulo diz "para demonstração" (Romanos 3:26), e
repetirei que esta era uma das coisas que estavam acontecendo na cruz.
Na cruz, no monte Calvário, Deus estava dando uma explicação pública do que Ele tinha
estado realizando através dos séculos. E por meio disso, ao mesmo tempo, Ele estava
vindicando seu próprio eterno caráter de justiça e santidade.
Como Deus realizou exatamente isto? Como Deus fez isto no Calvário? Como Ele vindicou
seu caráter? Como Deus explicou seu "ter passado por alto" os pecados no tempo antigo, seu
auto-refreamento e tolerância? Existe uma única maneira na qual Ele poderia fazer isto. Deus
afirmou que aborrece o pecado, que Ele castigará o pecado, que derramará sua ira sobre o

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pecado, e sobre todos aqueles culpáveis de pecado. Portanto, a menos que Deus possa provar
que tem feito isso, então Ele não é justo. E o que o apóstolo está dizendo é que, precisamente
no Calvário Deus realizou isto. Ele mostrou que ainda aborrece o pecado, que vai castigá-lo,
que Ele deve castigá-lo, que derramará sua ira sobre ele. Como mostrou isto no Calvário? O
que Deus fez ali foi derramar sobre seu unigênito e amado Filho sua ira contra o pecado. A ira
de Deus que devia ter caído sobre você e sobre mim foi derramada sobre Cristo, devido a que
os nossos pecados estavam sobre Ele.
Deus sempre soube que Ele ia fazer isto. Lemos nas Escrituras acerca do "Cordeiro que foi
morto desde a fundação do mundo" (Apocalipse 13:8). Foi um plano que teve sua origem na
eternidade. Foi devido a que Deus sabia o que ia fazer, que Ele foi capaz de passar por alto o
pecado durante todos esses séculos que transcorreram. Desta forma você pode ver, diz o
apóstolo, que Deus é ao mesmo tempo o Justo que o que justifica o ímpio que acredita em
Cristo. Este era um tremendo problema, como podia Deus permanecer como Santo e Justo, e
tratar com o pecado tal como Ele disse que ia fazer, e ainda perdoar o pecador? A resposta só
pode ser encontrada na cruz do Calvário. Isto é uma parte essencial do que é declarado
através da cruz.
Deus tinha que vindicar o que tinha estado fazendo no passado sob a antiga aliança. Mas
Ele tinha que fazer algo a mais, segundo nos diz o versículo 26: "com vistas a manifestar sua
justiça NESTE TEMPO". Ele já nos explicou como é que Deus pode passar por alto todos esses
pecados no passado. Como trata com o pecado agora? Como tratará com os pecados no
futuro? A resposta está também ali na cruz do monte Calvário. O ensino em outras palavras é
este: a cruz no Calvário, a morte do Senhor Jesus Cristo, tal como o apóstolo João indica em
sua Primeira Epístola (1 João 2:2), "E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente
pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo".
(Nota do Tradutor ao espanhol: Neste versículo a palavra "mundo" significa que Cristo
morreu pelos pecados não só dos judeus, senão também dos gentios. Como disse a
samaritana, Ele é o "Salvador do mundo", e não somente do povo israelita. Note o paralelo do
versículo na Primeira Epístola de João e a passagem de João 11:51-52. Veja também o uso
paralelo da palavra "gentios" e "mundo" feito pelo apóstolo Paulo em Romanos 11:11-12. este
uso foi muito necessário devido ao recalcitrante prejuízo judeu para com os gentios, o qual era
tão grande que só ouvir a palavra "gentil" os incomodava enormemente (veja Atos 22:21-22).
Este é o significado da palavra "mundo" aqui; de outra forma, se se argumentasse que a
morte de Cristo abrangeu a todos e cada um dos membros da raça humana, então, estaríamos
dizendo que os incrédulos vão para o inferno "com a conta paga", ou que Deus castiga o
pecado duas vezes, ou seja, em seu próprio Filho e no pecador. Além disso, é necessário ter
em mente que Cristo não sofreu pelos pecados de nenhuma pessoa que já estivesse no inferno
quando Ele morreu. Se o leitor está interessado em compreender o propósito e alcance da
expiação de Cristo, recomendamos a leitura do livro de "Vida pela sua morte", do Dr. John
Owen).
Os pecados foram tratados de uma vez para sempre na cruz. É na cruz que foram providos
os médios para que todos os pecados sob a antiga dispensação, os pecados que Ele tinha
perdoado a Abraão, Isaque, Jacó e todos os crentes do Antigo Testamento, pudessem ser
desta forma "passados por alto". Seus pecados estavam incluídos no monte Calvário. Sim, diz
Paulo, e os pecados que estão sendo perdoados agora também foram ali tratados. E todos os
pecados que serão cometidos também já foram tratados ali.
Este é o assombroso assunto acerca do Cristo do Calvário, que Ele morreu "de uma vez por
todas". Este é o grande argumento da Epístola aos Hebreus, você se lembra. Os outros
sacrifícios tinham que ser oferecidos dia após dia. Havia uma sucessão de sacerdotes e eles
deviam oferecer seus sacrifícios frescos cada vez. Porém este homem (Jesus Cristo) ofereceu
pelos pecados "um único sacrifício" (Hebreus 10:12). Ele tratou com todos os pecados de seu
povo ali. Não é necessário nem um único sacrifício a mais, este foi realizado uma única vez e
para sempre (veja Hebreus 7:27). Deus os colocou todos sobre Ele ali na cruz; os pecados que
você ainda não tinha cometido já foram tratados ali.
Este é o significado do perdão e somente isto. Tempo passado, pecados cometidos antes,
pecados cometidos agora e em todo tempo; esta é a justificação provida por Deus para
perdoar qualquer pecado onde quer que se tenha cometido.
Isto é o que o apóstolo está dizendo aqui. Todo pecado é perdoado sobre estas bases e
somente sobre estas. A cruz declara que Deus é o "justo e também justificador daquele que
tem fé em Jesus" (Romanos 3:26). Permitam-me colocá-lo de outra forma. A cruz do Calvário
não manifesta meramente que Deus nos perdoa. Faz isso, mas graças a Deus não pára ali.
Se a cruz somente deixasse isto de manifesto, o apóstolo poderia ter terminado o versículo
com a palavra "sangue" (versículo 26), e não haveria necessidade de mais. Porém ele não se

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detém ali, senão que continua adiante. Continua no versículo 25 e além agrega o versículo 26.
Por quê? Porque a cruz não é somente a manifestação de que Deus está pronto para perdoar-
nos.
Outra forma em que posso explicá-lo é a seguinte: a cruz não foi colocada simplesmente
para influenciar-nos. Embora isto seja o que o ensino popular diz. Nos diz que o problema com
a raça humana é que eles não conhecem o amor de Deus, não conhecem que Deus está já
pronto para perdoar a todo o mundo. Qual é então o significado da cruz? Bem, eles nos dizem
que é Deus nos dizendo que nos tem perdoado; e depois, quando vemos a Cristo morrendo na
cruz, isso quebrantará os nossos corações e nos conduzirá a ver isto. A cruz, de acordo com
eles, está dirigida somente a nós e fala a nós. Porém, a cruz tem um propósito maior que esse
e consegue essa outra coisa também.
Nosso perdão é somente uma coisa; mas há algo que é infinitamente mais importante. O
que é? É o caráter de Deus. Então, a cruz, além de nos dizer que este é o caminho de Deus
para efetivar o perdão, nos diz que o perdão não é uma coisa fácil para Deus. falo com
reverência. Por que o perdão não é uma coisa fácil para Deus? Simplesmente porque Deus não
é somente amor, Deus também é justo e santo e reto. Ele é Luz, e nEle não há trevas (1 João
1:5). Ele é tão reto e justo, como também é amor. Não estou colocando estes atributos um
contra outros. Estou dizendo que Deus é todas essas coisas juntas, e você não deve deixar de
lado uma em favor da outra.
Então, a cruz não nos diz somente que Deus perdoa, nos diz que esta é a forma em que dez
faz possível o perdão. Esta é a maneira na qual compreendemos como Deus nos perdoa. Irei
além: como pode Deus perdoar e permanecer ainda como Deus? (Nota do Tradutor ao
espanhol: ou seja, como um Deus justo e santo, que não terá por inocente ao malvado). Esta
é a questão, e a resposta é que a cruz é a vindicação de Deus. a cruz é a reivindicação do
caráter de Deus. ela não somente mostra o amor de Deus mais gloriosamente que nenhuma
outra coisa, mas também nos mostra Sua retidão, Sua justiça, Sua santidade e toda a glória
de seus eternos atributos. Todos eles podem ver-se brilhando juntos ali na cruz. Se você não
os vê, você não viu a cruz. Eis o motivo pelo que devemos rejeitar totalmente a assim
chamada "teoria da influência moral" da expiação, a qual descrevi. Essa teoria nos diz que
todo o que a cruz deve fazer é quebrantar os nossos corações e depois conduzir-nos a ver o
amor de Deus.
Por cima e além disto, diz Paulo, Deus está manifestando sua "justiça, atento a ter passado
por alto, em sua paciência, os pecados passados". Se a cruz não é mais que a manifestação de
seu amor, então, por que diz isso? Não, diz Paulo, a cruz é mais do que isso. Se a cruz está
proclamando somente Seu perdão, então nós teríamos o direito de perguntar se ainda
podemos depender da Palavra de Deus e se Ele é justo e reto. Esta seria uma boa pergunta
devido a que, repetidamente no Antigo Testamento, Deus afirmou que Ele aborrece o pecado,
e que o castigará, e que o salário do pecado é a morte. O caráter de Deus está envolvido nisso
tudo, Deus não é homem. Algumas vezes nós pensamos que é algo maravilhoso para as
pessoas dizer uma coisa e depois fazer outra. Os pais dizem aos seus filhos: "Se você fizer tal
coisa, não darei dinheiro para comprar doces". Então a criança faz aquilo, mas o pai diz: "Bom,
está bem", e logo dá o dinheiro para gastar. Isto, chegamos a pensar, é amor e perdão
verdadeiros. Mas Deus não se conduz desta forma. Deus, se Possi dizê-lo deste modo, é
eternamente consistente com Ele mesmo. Não há contradição nEle. Ele é o "Pai das luzes, em
quem não há mudança nem sombra de variação" (Tiago 1:17).
Todos estes atributos estão e devem ser vistos brilhando como diamantes em seu caráter
eterno, e todos devem ser mostrados. Na cruz todos eles são manifestos.
Como pode Deus ser justo e justificar o ímpio? A resposta é que Ele pode, devido a que na
cruz castigou os pecados dos pecadores ímpios em seu próprio Filho. Ele derramou sua ira
sobre Ele, "o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos
sarados" (Isaias 53:5). Deus fez o que disse que faria; Ele castigou o pecado. Ele proclamou
isto por todas partes através de todo o Antigo Testamento, e Ele fez o que disse que faria.
Mostrou que Ele é justo e reto. Fez na cruz uma declaração pública disto. Ele é justo e pode
justificar, devido a que tendo castigado a outro em nosso lugar, pode perdoar-nos
gratuitamente. E assim Ele o faz.
Esta é a mensagem do versículo 24: "sendo justificados (considerados, declarados,
pronunciados "justos") gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção (resgate) que há
em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs como propiciação, pela fé, no seu sangue" (Romanos
3:24-25). Deste modo Ele declara sua justiça por ter passado por alto estes pecados em seu
tempo de auto-refreamento. "Com o objeto de manifestar" sua justiça então, e agora, e
sempre, ao perdoar pecados. Desta forma Ele é o único e ao mesmo tempo, o justo e o que
justifica ao que é da fé em Jesus.

8
Tal é a grande, gloriosa e maravilhosa afirmação. Assegure-se de que este seja seu ponto
de vista, e de que seu entendimento da cruz inclua a totalidade dela. Examine seu ponto de
vista acerca da cruz. Onde está a afirmação acerca de "manifestar sua justiça", e mais adiante,
coloque-o em seu pensamento: É isto algo que você simplesmente "pula" e diz: "Bem, não sei
o que isto quer dizer; tudo quanto eu sei é que Deus é amor e que Ele perdoa"? Porém você
deveria conhecer o santificado disso, porque é uma parte essencial do glorioso Evangelho.
No Calvário Deus estava fazendo um caminho de salvação para que você e eu pudéssemos
ser perdoados. Mas Ele deve fazê-lo de forma tal que seu caráter ficasse inviolado, que Sua
eterna consistência permanecesse absoluta e inquebrantável. Uma vez que começamos a
contemplar um assunto como este, percebemos que essa é a mais tremenda, a mais gloriosa,
a mais assombrosa coisa no universo e em toda a história humana. Deus está declarando na
cruz o que Ele fez por nós. E ao mesmo tempo está mostrando sua própria grandeza eterna e
glória, declarando que Ele "é luz, e nele não há trevas nenhumas" (1 João 1:5). "Quando
contemplo a maravilhosa cruz..." diz Isaac Watts, mas você não poderá ver o maravilhoso
dela, até que não a contemple realmente à luz desta grande afirmação do apóstolo. Deus
estava mostrando publicamente na cruz de uma vez e para sempre sua eterna justiça e seu
eterno amor. Nunca devemos separar a uma do outro, porque sempre permanecem juntos e
pertencem ambos atributos ao glorioso caráter de Deus.

Iglesia Bautista de la Gracia AR


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Calle Álamos No.351
Colonia Ampliación Vicente Villada
CD. Netzahualcóyotl, Estado de México
CP 57710
Teléfono: (5) 793-0216

Tradução realizada por Omar Ibáñez Negrete y Thomas R. Montgomery.


Este sermão foi tomado do Tomo #3 da famosa série de D. M. Lloyd Jones sobre Romanos,
publicado por "El Estandarte de la Verdad", © Copyright, Directos Reservados para a tradução
ao espanhol. Impresso em Mexido em 2000.
Tradução realizada do espanhol para o português por Daniela Raffo, em quinta-feira, 27 de
dezembro de 2007, 12:00:39.

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