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O QUE É SER UM CRISTÃO

Um manual reformado de discipulado

Com textos para preenchimento, questionário


de revisão e indicação de leituras

Leandro Lima
Este ebook é de uso exclusivo dos alunos
do Instituto Reformado de São Paulo - IRSP
É proibido qualquer tipo de compartilhamento,
digital ou impresso.
INTRODUÇÃO ÀS
DOUTRINAS DA GRAÇA
Um manual reformado de discipulado

Com textos para preenchimento, questionário de


revisão e indicação de leituras

Leandro Lima
Introdução às Doutrinas da Graça: Um manual reformado de discipulado
Copyright © Leandro Antonio de Lima, 2a. Edição, 2018
Título anterior: O que é ser um cristão?
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida
sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores.
Editor: Leandro Antonio de Lima
Revisão: Nelson Oliveira, Mariza Tavares, Geimar de Lima

Leandro Lima, São Paulo: Editora Agathos, 2a. Edição, 2018.


1.Teologia. 2. Discipulado. I. Reforma.

EDITORA AGATHOS
Rua Promotor Gabriel Netuzzi Perez, 289, São Paulo – SP
www.institutoreformado.com.br
SUMÁRIO

COMO USAR ESTE LIVRO ...........................................04


1. COMO POSSO SER SALVO?.............................................05
2. O QUE SIGNIFICA DIZER “ESTOU SALVO”?.....................18
3. QUANDO ALGUÉM ESTÁ CONVERTIDO?...........................27

4. É POSSÍVEL TER CERTEZA DA SALVAÇÃO?.......................37


5. A SALVAÇÃO É SOMENTE PELA GRAÇA............................47
6. DOS ÍDOLOS PARA DEUS................................................58

7. QUAL É A IMPORTÂNCIA DO BATISMO?............................71


8. O BATISMO COM O ESPÍRITO.........................................85

9. FRUTIFICANDO PARA DEUS..........................................93


10. VIDA DE ORAÇÃO.......................................................100
11. OS FALSOS PROFETAS................................................108
12. QUEBRANDO AS MALDIÇÕES......................................117
13. MANIFESTAÇÕES ESPIRITUAIS....................................125
14. A SANTA CEIA...........................................................136
15. O QUE A BÍBLIA FALA SOBRE DÍZIMO..........................143

16. ENFRENTANDO O INIMIGO..........................................153


17. CONFIANDO NA SOBERANIA DE DEUS..........................163
18. ESPERANDO A VINDA DE JESUS..................................172

19. COMPARTILHANDO A FÉ.............................................181


COMO USAR ESTE LIVRO

Este manual de discipulado nasceu da necessidade prática, como


pastor de igreja local, de ajudar os novos convertidos, ou mesmo os cris-
tãos advindos de outras denominações, a entenderem melhor o que a
igreja reformada entende por salvação e vida cristã. São aspectos funda-
mentais da fé, que, no entanto, não poucas vezes, são quase que totalmen-
te desconhecidos de muitos que já frequentam igrejas há bastante tempo.
O livro pode ser usado individualmente, ou em classes de pre-
paração para recepção de novos membros. Também é muito apropriado
para uso entre um discipulador e um discípulo.
Os textos bíblicos citados, muitas vezes, têm espaço para o preen-
chimento de alguma palavra. O objetivo é que o aluno estude o livro com
a Bíblia nas mãos, e manuseie a própria Bíblia procurando o texto citado.
Além disso, ao preencher a palavra que falta no texto, ele assimila essa
palavra que é chave para o entendimento da passagem.
Ao final de cada lição ou capítulo, há um questionário de múltipla
escolha, útil para o aluno verificar o aprendizado. Um gabarito no final
do livro mostra as respostas corretas.
Além disso, ao final de cada lição, são indicados livros ou partes
de livros que expandem o assunto tratado na lição. Assim, o aluno que
quiser se aprofundar mais a respeito do referido assunto já recebe o “ca-
minho das pedras”.
Os irmãos Nelson Ferreira, Geimar de Lima e Mariza Tavares
contribuíram com ideias e ajudaram na finalização desse projeto. A eles
meu agradecimento, e a Deus toda a glória.

Leandro Lima
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1. COMO POSSO SER SALVO?

No mundo dominado pelo secularismo, um grande número de


pessoas não acredita mais nas realidades eternas. Céu ou inferno torna-
ram-se lendas medievais que as pessoas descartam com um riso irônico.
Mesmo entre cristãos, a salvação eterna não parece ser a maior preocu-
pação. Hoje em dia, quando as pessoas procuram Deus através de alguma
igreja ou grupo religioso, geralmente estão atrás de bênçãos bastante ter-
renas, como a cura de alguma doença, restauração do casamento, solução
para crise financeira, libertação de vícios, etc. Poucos estão interessados
no céu, e praticamente ninguém parece ter medo do inferno. Talvez, por
isso, a Bíblia seja desconsiderada na maioria das igrejas evangélicas. O
assunto principal da Escritura é a salvação eterna. Mas se ninguém quer
ouvir sobre isso, os pregadores precisam oferecer outras coisas para po-
der manter as igrejas cheias. A Bíblia chegou até nossas mãos com a mis-
são de nos ensinar o caminho para o céu, ou seja, o caminho para a vida
eterna, e consequentemente, o modo também de evitar a condenação
eterna.
Se a única coisa que existisse fosse apenas este mundo, não faria
sentido a existência de Deus. As pessoas estariam perdendo seu tempo
indo atrás de soluções milagrosas para seus problemas pessoais. Por ou-
tro lado, se Deus existe, as pessoas estão sendo tolas quando o procuram
apenas para bênçãos materiais, pois como Jesus disse: “Que aproveita ao
homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36). Muitos
estão procurando Cristo para serem mais felizes nesta vida, porém, Paulo
disse que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida,
somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19).
Segundo a Bíblia, a necessidade mais urgente do ser humano é a
de ser salvo. Mas como alguém pode ser salvo? Entendemos que para que
alguém seja salvo, quatro coisas precisam acontecer.
(Alguns versículos citados a partir de agora, virão com espaços
que deverão ser preenchidos. O objetivo é que o aluno se familiarize com
o manuseio dos livros da bíblia. A versão utilizada aqui é a Almeida Re-
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vista e Atualizada).

I. Reconhecendo o estado de pecado

Um dos modos como os crentes evangelizam, hoje em dia, é


apresentando as chamadas “quatro leis espirituais”.* Apesar de que as
chamadas “quatro leis” possam ser instrumento de Deus para a salvação
das pessoas, entendemos que elas partem do princípio errado. A primei-
ra coisa que o homem precisa saber para ser salvo não é que “Deus o ama
e tem um plano maravilhoso para sua vida”. Isso, de certo modo, pode
despertar no ser humano um sentimento de orgulho, de merecimento.
Os apóstolos e o próprio Cristo tinham algo para dizer antes de anunciar
o amor de Deus. O primeiro anúncio de Cristo foi:

“O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo;


_________________ e crede no evangelho” (Mc 1.15).
Do mesmo modo, Pedro em seu primeiro sermão após o Pentecos-
tes, em resposta ao questionamento dos ouvintes, que lhe perguntaram:
“Que faremos, irmãos?”, disse-lhes:
“____________________, e cada um de vós seja batizado em nome
de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do
Espírito Santo” (At 2.37-38).

Portanto, a pregação do Evangelho sempre começa com um forte


alerta contra o pecado humano, e conclama o ser humano ao arrependi-
mento. Até mesma a famosa declaração de Cristo, que disse: “Deus amou
ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3.16), foi
proferida após ele dizer a Nicodemos que este precisava nascer de novo,
da água** e do Espírito (Jo 3.5), e que era tão pecador quanto israelitas do
deserto que foram picados pelas serpentes abrasadoras (Jo 3.14).
De fato, parece inútil começar falando do amor de Deus, porque
as pessoas só conseguirão realmente entender o amor divino quando

* Geralmente, as quatro leis espirituais são apresentadas do seguinte modo: 1)


Deus ama você e tem um plano maravilhoso para sua vida. 2) O homem é pecador
e está separado de Deus, portanto não pode conhecer, nem experimentar o amor de
Deus. 3) Jesus Cristo é a única solução para o homem pecador. 4) Precisamos receber a
Jesus como Senhor e Salvador.
** A menção à água provavelmente seja uma referência ao batismo com água,
que era já em si mesmo, um símbolo de arrependimento (Mt 3.11).
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entenderem a gravidade de seu estado diante de Deus. Além disso, não


é certo anunciar que Deus tem um “plano maravilhoso” para a vida de
alguém antes que esta pessoa manifeste fé em Cristo, pois se isso não
acontecer, de acordo com a Bíblia, este plano poderá ser o inferno.
A primeira coisa que alguém precisa fazer para receber a salvação
é entender seu próprio estado de pecador diante da lei de Deus. Somente
quando alguém abandona toda a confiança em si mesmo e reconhece o
estado de absoluta falência espiritual, está pronto para entender o amor
de Deus. Só então suas mãos estarão suficientemente vazias para serem
cheias do maior presente que existe: a vida eterna.
A Bíblia diz: “Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10). Esta é
uma sombria descrição do estado da humanidade. Perante a Lei de Deus
todos são enquadrados como “injustos”. Isto se deve ao fato de que todos
os seres humanos já cometeram alguma transgressão da lei de Deus. Pau-
lo diz isto claramente: “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”
(Rm 3.23). Muitas vezes temos dúvidas sobre o que é pecado. Pecado é
uma palavra extremamente desgastada em nossos dias, porque recebeu
muitas novas interpretações. Uma delas é a de que o pecado é uma espé-
cie de “tabu” que os homens fariam bem em abandonar, pois é algo obso-
leto e totalmente sem utilidade. Outra interpretação relaciona o pecado
com coisas atrativas e desejáveis, como chocolate, maçã e a cor vermelha.
Essas interpretações objetivam enfraquecer o sentido de pecado. Mas pe-
cado é a coisa mais horrenda deste mundo. Ao mesmo tempo também é
a coisa mais comum deste mundo.
Um bom modo de entender o que é pecado é considerar os Dez
Mandamentos. Nos Dez Mandamentos Deus concedeu aos homens um
excelente resumo de sua vontade. Neles está contida a essência da ética
e do bem, segundo a vontade de Deus. Pecado pode ser resumido como
“quebrar os mandamentos de Deus”,* mas não pensemos que isto indica
somente atitudes externas. Quem olha apenas externamente os manda-
mentos, pode até pensar que os está cumprindo, porém, os mandamentos
têm muito mais do que uma dimensão externa. Jesus disse: “Ouvistes que

* É claro que a Lei de Deus é muito maior do que os Dez Mandamentos. No An-
tigo Testamento havia mais de 600 leis. E o Novo Testamento também traz um número
muito grande de recomendações para a Igreja. Mas os Dez Mandamentos, de certo
modo, resumem tudo o que Deus deseja para as pessoas. Jesus resumiu ainda mais as
coisas, pois ele resumiu os próprios Dez Mandamentos em apenas dois: “Amarás o Sen-
hor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo
o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27).
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foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a jul-
gamento” (Mt 5.21). Quem olha apenas para a dimensão externa desse
mandamento, que é o sexto, pode até se sentir tranquilo, pois pensará:
“eu nunca matei ninguém”. Entretanto, Jesus demonstrou que algo mais
precisa ser considerado à luz deste mandamento:

“Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra
seu irmão estará _____________________________; e quem proferir
um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem
lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao _________________________” (Mt
5.22).

Deus não avalia apenas uma atitude externa, ele olha para o pró-
prio sentimento que a motivou, mesmo que a atitude não tenha sido
concretizada. Uma pessoa que alimentar a ira em seu coração já será
acusada diante da lei de Deus de ter quebrado o Sexto Mandamento. O
mesmo acontecerá com aquele que tão somente proferir um insulto con-
tra outra pessoa. Será que alguém já conseguiu cumprir integralmente o
sexto mandamento? Parece difícil.
O sétimo mandamento nos leva a uma situação semelhante. Je-
sus disse: “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás” (Mt 5.27). Muitos con-
sideram adultério somente o fato de uma pessoa casada se relacionar
sexualmente com alguém que não seja seu cônjuge. Mas o sétimo man-
damento vai muito além disso, conforme Jesus declara:

“Eu, porém, vos digo: qualquer que ______ para uma mulher com
intenção impura, no coração, já ____________ com ela” (Mt 5.28).

Ou seja, de acordo com Jesus, um olhar de cobiça consuma o


adultério no coração e faz com que o sétimo mandamento seja quebrado.
Imagine o que é cumprir este mandamento em tempos em que as roupas
estão em extinção na televisão, nas revistas e nas ruas!
Jesus ainda falou algo a respeito de outro mandamento: “Tam-
bém ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás
rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos” (Mt 5.33). Para
muitos, cumprir o nono mandamento é apenas uma questão de manter
a palavra quando se faz um juramento formal. Para Jesus é muito mais
do que isso. Ele resume dizendo:
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“Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem
do __________” (Mt 5.37).

Para Jesus as pessoas nem precisam fazer juramentos, pois sempre


devem falar a verdade. Nem uma “mentirinha” é admitida. Sim, sim; não,
não representam o modo absolutamente verdadeiro e transparente como
devemos ser. Dizer que faremos algo e não fazer depois é descumprir o
nono mandamento. Marcar um encontro e não ir, ou chegar atrasado;
dizer que mudaremos e não mudamos; falar coisas imprecisas quando
desconhecemos os fatos; ou seja, há inúmeras maneiras de quebrar esse
mandamento. Talvez este seja o mandamento mais descumprido de to-
dos.
Poderíamos continuar analisando todos os Dez Mandamentos e
veríamos que não conseguimos cumprir integralmente nenhum deles. É
por isso que a Bíblia diz que “todos pecaram”. Na verdade, nem precisa-
ríamos quebrar todos os mandamentos para estarmos perdidos. Bastaria
descumprir apenas um deles. Tiago diz:

“Pois qualquer que guarda ___________ a lei, mas tropeça em um só


ponto, se torna _______________ de todos” (Tg 2.10).

Os mandamentos divinos são uma unidade. Quebrar um é que-


brar todos. Por isso, Jesus uniu as duas tábuas da Lei nas frases: “Amarás,
pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de
todo o teu entendimento e de toda a tua força”. E, “Amarás o teu próximo
como a ti mesmo”. (Mc 12.30-31).
Enquanto não reconhecermos e sofrermos por causa de nossos
pecados diante de Deus, estaremos totalmente impossibilitados de ser-
mos salvos. João escreveu: “Se dissermos que não temos pecado nenhum,
a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. (...) Se dis-
sermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua
palavra não está em nós” (1Jo 1.8,10). Negar a realidade do pecado em
nós é chamar Deus de mentiroso, portanto, é se colocar para além da
possibilidade da salvação. Se quisermos ser salvos, primeiramente preci-
samos reconhecer nosso estado de pecadores.
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II. Entendendo a consequência do pecado

Se quisermos ser salvos, além de entender a realidade de nosso


pecado, precisaremos entender também as consequências dele. O profe-
ta Isaías falou ao povo de Israel:

“Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa
salvar; nem surdo o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas as vossas ini-
quidades fazem _______________ entre vós e o vosso Deus; e os vossos
pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça” (Is 59.1-2).

Apesar desta repreensão se aplicar especificamente ao povo de


Deus no Antigo Testamento que, por sua vida descomprometida com
os padrões da Aliança, estava sendo alvo da ira de Deus em forma de
“exílio” e abandono, por certo, também se aplica a todos os seres hu-
manos, que não podem esperar “proximidade” de Deus, se vivem em
estilo de vida francamente ofensor a Ele. O pecado cria uma espécie de
“barreira” entre o Deus santo e o homem pecador. Ele faz com que todo
o relacionamento se rompa e que as orações sejam inúteis. Deus não
estava disposto a agir em favor de Israel para trazê-lo de volta do cati-
veiro enquanto o povo não se arrependesse de seus pecados. Do mesmo
modo, nenhum pecador pode ser aceito na presença de Deus enquanto
permanecer no pecado.
Foi por causa do pecado que Adão e Eva foram expulsos do Jar-
dim, conforme nos relata o Gênesis: “O SENHOR Deus, por isso, o lan-
çou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado.
E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e
o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da ár-
vore da vida” (Gn 3.23-24). O pecado colocou o homem num estado de
separação de Deus. A isto chamamos “morte espiritual”. Ele está conde-
nado a viver sua breve e incerta vida “fora do jardim”, longe da presença
de Deus. Mas isto não significa viver uma vida “neutra”, como se Deus
simplesmente estivesse distante e o homem pudesse viver tranquilamen-
te, pois a Bíblia diz que o homem pecador está debaixo da ira de Deus.
Paulo escreveu: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e
perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Rm 1.18). A
realidade da ira de Deus se manifesta em todo tipo de tragédias e perver-
sões às quais Deus entregou os homens (Rm 1.24-31). Todos os pecado-
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res estão debaixo da ira de Deus (Jo 3.36; Rm 2.5; Ef 5.3-6; Cl 3.5-6; Ap
11.18),
A Bíblia descreve a consequência do pecado como um estado de
“morte espiritual”. Paulo escreveu:

“Ele vos deu vida, estando vós ____________ nos vossos delitos e pe-
cados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segun-
do o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos
da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora,
segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e
dos pensamentos; e éramos, por natureza, _______________________,
como também os demais” (Ef 2.1-3).

Quando a Bíblia diz que as pessoas sem Cristo estão mortas em


seus delitos e pecados, está dizendo que não há nelas qualquer coisa que
as direcione para Deus. Elas estão totalmente alienadas da vida de Deus.
Estão totalmente escravizadas pelo mundo, pelo diabo e por sua própria
carne pecaminosa. Pessoas assim jamais conseguirão salvar-se a si mes-
mas.
Pecadores não podem esperar um futuro melhor. A Bíblia diz: “O
salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Receber a “pena de morte” por
seus pecados é o único destino que aguarda os pecadores sem Cristo pe-
rante a justiça de Deus. Quando Deus estabeleceu sua lei para os homens
também estabeleceu esta pena pelo descumprimento da lei. A pena é a
morte. Muitos cauterizam sua consciência pensando que quando morre-
rem tudo estará acabado, mas segundo a Bíblia, as coisas não são bem as-
sim. Receber a “pena de morte” envolve mais do que simplesmente mor-
rer. As pessoas têm se esforçado por negar a realidade do Inferno. Tentam
fugir desta noção dizendo que Deus é amor e que não mandaria pessoas
para um “fogo eterno”. Mas a Bíblia afirma explicitamente a existência do
Inferno. Evidentemente que não é aquele lugar pitoresco das imaginações
medievais, aonde o diabo com o tridente atormenta os pecadores dentro
do caldeirão. A Bíblia não diz que o diabo está no Inferno, muito menos
que ele é o senhor do Inferno. O diabo está na terra (Ap 12.12). O Infer-
no é uma espécie de “calabouço do palácio de Deus”. Deus é o Senhor do
Inferno (Ap 1.18), pois para lá são enviados todos aqueles que rejeitam a
salvação em Cristo e permanecem vivendo em seus pecados.
Jesus ensinou sobre a realidade última do lugar de punição, pois
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advertiu:

“Portanto, se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar, corta-o e lança-o


fora de ti; melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo
duas mãos ou dois pés, seres lançado no __________________. Se um
dos teus olhos te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora de ti; melhor é
entrares na vida com um só dos teus olhos do que, tendo dois, seres lan-
çado no ____________de fogo”* (Mt 18.8-9).

O Inferno não é algo com que se deve brincar. As afirmações de


Jesus deixam claro que ele deve ser realmente levado a sério. Na verdade,
ninguém falou mais a respeito da realidade do Inferno do que o próprio
Jesus. Ainda que mentes demasiadamente humanistas se escandalizem
com as afirmações bíblicas a respeito do Inferno, a existência dele é ne-
cessária e exalta plenamente a justiça de Deus. Não seria certo Deus pu-
nir os pecados das pessoas? Se o Inferno não existisse que justiça haveria
neste mundo? Todos os males e injustiças cometidos jamais seriam pu-
nidos, pois a justiça humana é falha e frequentemente comprometida.
Deus, na sua justiça, sabe exatamente a punição que cada um
deve receber. Não devemos fazer especulações a respeito de como essas
punições acontecerão, apenas podemos ter certeza de que elas acontece-
rão. Jamais será aceitável a argumentação humana de que a existência do
Inferno é injusta, ainda mais pelo fato de que Deus tem providenciado
uma salvação que é acessível a todos. Certa vez vi escrito na camiseta de
uma menina: “boas meninas vão para o céu, meninas espertas vão para
onde quiserem”. O único lugar que sobra, em termos de eternidade, fora
do céu, é o Inferno.

III. Entendendo a maravilhosa graça de Deus que


salva o perdido

Somente quando entendemos a realidade de nosso pecado e a


consequência dele é que estamos preparados para entender o amor de

* Nesta passagem, Jesus usa o termo Geena para Inferno. Esse parece ser o lugar
que João identifica em Apocalipse como o “lago que arde com fogo e enxofre”, também
chamado de “segunda morte” (Ap 21.8). Não parece ser o lugar onde estão as almas
perdidas, também chamado de inferno (Hades) no Novo Testamento, mas o lugar de-
finitivo para onde os perdidos vão com corpo e alma (Mt 10.28).
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Deus e o maravilhoso plano da salvação.


Deus sempre tomou a iniciativa na salvação das pessoas. Quando
nossos primeiros pais pecaram, Deus poderia ter permanecido no céu e
executado a lei que exigia a morte deles, mas, ao invés de fazer isto, Deus
foi atrás deles a fim de restaurá-los (Gn 3.8-15). Os homens não estão
ansiosos por se encontrarem com Deus, antes, como Adão e Eva, fogem
desesperadamente dele. Ainda assim, Deus vai atrás do pecador para lhe
oferecer a maravilhosa salvação. Isso é graça.
Somente quando sentimos a nua e crua realidade de nosso peca-
do é que podemos entender o mais conhecido versículo da Bíblia: “Por-
que Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito,
para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo
3.16). Como este amor se torna imensurável quando o comparamos com
o nosso desinteresse por Deus. Como este amor toma proporções astro-
nômicas quando compreendemos que ele amou pecadores (Rm 5.8). Este
amor assume o caráter de infinito quando compreendemos que ele amou
rebeldes, blasfemos, intolerantes e arrogantes (1Co 6.9-11; 1Tm 1.13).
Ultrapassa toda possibilidade de compreensão quando entendemos que
o levou a entregar seu próprio filho para ser sacrificado em nosso lugar.
Somente um amor imensurável entregaria o filho santo, perfeito e puro
para morrer no lugar de pecadores, conforme Pedro descreve:

“Pois também Cristo ________, uma única vez, pelos pecados, o justo
pelos _______, para conduzir-vos a Deus” (1Pe 3.18).

Quando Jesus atravessava as ruas de Jerusalém, carregando aque-


la pesada cruz; quando era chicoteado, humilhado e ferido; quando os
pregos transpassavam suas mãos e pés; quando a coroa de espinhos lhe
machucava a cabeça; ali víamos o amor imensurável daquele que se dis-
punha a pagar por nossos pecados, a sofrer a punição da Lei, a receber
sobre si a ira de Deus. Pedro descreveu que ele estava:

“Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos


_________, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justi-
ça; por suas chagas, fostes sarados” (1Pe 2.24).

Suas feridas nos saram, seus açoites nos tornam perdoados, sua
dor nos faz aceitáveis.
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Para sermos salvos, precisamos entender esta maravilhosa graça


que é chamada de Evangelho. Deus o planejou em sua sabedoria, amor
e bondade infinitos. A palavra “Evangelho” significa “boa notícia”. A boa
notícia que Deus tem para os homens é que existe uma salvação para
pecadores. Paulo diz que a salvação é uma espécie de “proposta” que
Deus tem feito para a salvação dos homens (Rm 3.25). Porém, de certo
modo, não é uma proposta que Deus tem feito aos homens. É uma pro-
posta que Deus fez para si mesmo. Um sacrifício que o Filho ofereceu ao
Trino Deus, como um modo de possibilitar que Deus salvasse pecadores,
sem que o próprio Deus deixasse de ser justo. Paulo disse que todos os
homens pecaram e estão separados da glória de Deus (Rm 3.23). Mas
podem ser justificados de seus pecados gratuitamente mediante uma re-
denção que há em Cristo Jesus (Rm 3.24). Esta redenção Deus é uma
proposta de Deus, através do sangue de Jesus, que faz propiciação pelos
pecados diante de Deus (Rm 3.25).
A questão é bastante simples: A lei diz que todos os pecadores
precisam ser condenados à morte por causa de seus pecados (Ez 18.20).
Deus não poderia perdoá-los pura e simplesmente, pois se fizesse isso,
estaria anulando sua própria Lei. Só há um modo, portanto, de perdoar
pecadores: alguém precisa receber a punição no lugar deles. Esta é a fun-
ção de Jesus. Ele aceitou a dificílima tarefa de substituir o homem ao
receber a pena de seus pecados. Por isso a morte de Jesus foi tão angus-
tiante. Por isso ele relutou, por alguns instantes, no Jardim do Getsêma-
ni (Mt 26.39). Por isso ele gemeu quando foi “abandonado por Deus”
porque carregava nossa culpa (Mt 27.46). Ele carregou integralmente a
culpa por nossos pecados. Como disse Paulo: “Aquele que não conheceu
pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça
de Deus” (2Co 5.21).

IV. Convertendo-me a Cristo de todo o coração

Conversão consiste do verdadeiro arrependimento e da verda-


deira fé.
Jesus e os Apóstolos costumavam dizer às pessoas que a resposta
ao Evangelho consistia de arrependimento e fé. Relembramos mais uma
vez o modo como Jesus anunciou o Evangelho aos judeus:

“Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia, pregando o
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evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus


está próximo; __________________ e crede no evangelho” (Mc 1.14-15).

Pedro proclamou isto nos mesmos termos: “Arrependei-vos, pois,


e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados” (At 3.19). E
Paulo e Silas anunciaram ao carcereiro arrependido: “Crê no Senhor Je-
sus e serás salvo, tu e tua casa” (At 16.31). Arrepender-se dos pecados e
crer de todo o coração na mensagem do Evangelho é a resposta que os
homens devem oferecer a Deus, capacitados pelo Espírito Santo.
João diz que isto significa receber Jesus e se tornar filho de Deus:

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos


filhos de Deus, a saber, aos que ________ no seu nome” (Jo 1.12).

Receber Jesus, portanto, significa crer no nome de Jesus, e quando


isso acontece, uma pessoa se torna um filho de Deus. Hoje se fala muito
em “aceitar a Jesus”, recebê-lo no coração, etc. É preciso entender que isto
não é um mero ritual, um levantar a mão, ou um ir à frente para receber
uma oração. É muito mais do que isso. É uma decisão de entregar a vida
inteiramente ao Senhor, se tornar um discípulo dele, e segui-lo por toda
a vida. Quando Filipe foi enviado para pregar o Evangelho ao eunuco
oficial da rainha da Etiópia e o eunuco desejou ser batizado, Filipe disse:

“É lícito, se _____ de todo o coração. E, respondendo ele, disse: ______


que Jesus Cristo é o Filho de Deus” (At 8.37).

A salvação é concedida quando entendemos nossos pecados e a


condenação deles, compreendemos a graça divina, demonstramos sin-
cero arrependimento diante de Deus e dos homens, e cremos de todo o
coração na salvação que Jesus Cristo proporcionou para nós.
O arrependimento e a fé podem ser considerados como coisas
que sentimos de forma instantânea e que nos tornam salvos pelo sangue
de Cristo instantaneamente. Isto significa que podemos olhar para o mo-
mento em que nos arrependemos e cremos como o momento de nossa
salvação, como a hora do nosso “novo nascimento” (Jo 3.3). Por outro
lado, arrependimento e fé serão elementos contínuos em nossa vida, pois
eles nos acompanharão por todos os dias até o momento de adentrarmos
o reino celestial. Somos salvos para desenvolver um novo e revolucioná-
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rio relacionamento com Deus, como veremos nos próximos capítulos.


Se você entendeu o que falamos até aqui, e deseja fazer uma de-
cisão de seguir a Jesus, faça uma oração semelhante a esta: “Oh Deus, eu
estou sinceramente arrependido de toda a minha vida de pecado. Reco-
nheço que não mereço a vida eterna, pois sou pecador e a condenação
justa por meus pecados é a morte. Agradeço porque Jesus Cristo car-
regou a cruz e morreu em meu lugar, e deste modo o Senhor pode me
perdoar e me aceitar na sua presença. Dá-me o dom da fé e a capacidade
de segui-lo por todos os dias da minha vida. Em nome de Jesus, Amém”.

Questionário de revisão (gabarito na página 191)

1 - Quem vai para o céu? Qua é a atitude fundamental da salvação?

a) ( ) Batizar-se na água.
b) ( ) Arrepender-se dos pecados e crer no Senhor Jesus.
c) ( ) Conhecer o Evangelho.
d) ( ) Amar ao próximo.

2 - O que é pecado?

a) ( ) É a quebra dos Mandamentos de Deus.


b) ( ) É o descumprimento das Leis Civis.
c) ( ) É deixar de amar o seu próximo.
d) ( ) É desconhecer a Palavra de Deus.

3 - Quais são as consequências do pecado? Indique a errada.

a) ( ) A morte física.
b) ( ) A morte eterna.
c) ( ) A morte espiritual.
d) ( ) Todas estão corretas.
17

4 - O que significa “graça de Deus na salvação”?

a) ( ) É o reconhecimento de Deus pelas nossas boas obras.


b) ( ) É a manifestação de Deus ao pecador não arrependido.
c) ( ) É a resposta de Deus ao apelo do pregador.
d) ( ) É um favor imerecido de Deus ao seu povo.

5 - Qual é a “boa notícia” que o Evangelho nos traz?

a) ( ) É que existe uma salvação para pecadores.


b) ( ) É que existe salvação para todos os homens.
c) ( ) É que as boas obras salvam o pecador.
d) ( ) Jesus salvará todos os pecadores do mundo.

6 - Você se considera um convertido? Descreva quando e como foi sua


conversão.

Indicação de leituras adicionais

• Cristianismo Básico – John Stott – Ed. Ultimato, 2007 – Parte


Dois – A Necessidade do Homem.
• Criados à Imagem de Deus – A. Hoekema – Ed. Cultura Cristã,
2010 – Cap. 9 – A Natureza do Pecado .
• O Conhecimento de Deus – J. I. Packer – Ed. Cultura Cristã, 2014
– Cap. 13 – A Graça de Deus.
18

2. O QUE SIGNIFICA DIZER “ESTOU SALVO”?

Vimos no capítulo anterior o quanto nossos pecados são terríveis


à luz da Bíblia, porém, agora precisamos entender que o nosso maior
problema nem são os pecados que cometemos, mas nossa natureza pe-
caminosa. Nossos atos pecaminosos são apenas a “ponta do Iceberg”. Há
muitas coisas mais terríveis nas profundezas de nosso ser.
De certo modo, os pecados que cometemos são apenas “frutos
maus” da nossa natureza pecaminosa. Jesus costumava dizer:

“Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, __________


dos espinheiros ou _________ dos abrolhos? Assim, toda árvore boa
produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode
a árvore _________produzir frutos maus, nem a árvore _________pro-
duzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e
lançada ao fogo. Assim, pois, pelos seus __________os conhecereis” (Mt
7.16-20).

Jesus estava falando dos falsos profetas, e nos ensinou como


reconhecê-los. Devemos olhar para os frutos deles, mais do que para
suas palavras. Mas por certo, as palavras de Jesus têm implicações ainda
maiores. Na verdade Jesus nos revelou que os atos maus das pessoas são
derivados de sua essência má, como uma árvore que produz fruto de
acordo com sua natureza. Pensemos no pé de limão. O limoeiro produz
limões porque esta é sua natureza essencial. Ainda que se esforçasse, ele
não conseguiria produzir laranjas. Nosso problema não é só que come-
temos pecados, mas que somos pecadores.

I. Nascidos no pecado

O ensino bíblico é que todas as pessoas já nascem pecadoras.


Pode parecer que todos os homens herdam o pecado como se fosse uma
19

espécie de doença hereditária, mas é mais do que isso, pois o mal é algo
que adentrou a vida humana em forma de uma corrupção total, uma pré-
-disposição para o mal que se torna absolutamente invencível. Não é uma
doença latente que pode ou não se manifestar. É uma corrupção indisfar-
çável, que tomou conta tanto da alma quanto do corpo humano.
Davi, quando reconheceu seu terrível pecado cometido com Ba-
te-Seba, entendeu que seu estado de pecado ia muito além do seu ato
mau, pois o pecado era uma realidade que afrontava diretamente a Deus.
Ele disse:

“Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu _____________


está sempre diante de mim. Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que
é mal perante os teus olhos, de maneira que serás tido por ___________
no teu falar e puro no teu julgar” (Sl 51.3-4).

Mas percebeu que na verdade, havia algo ainda mais profundo:


“Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5).
Os teólogos chamam o pecado que herdamos como “pecado ori-
ginal” que é o pecado cometido por Adão e Eva e que foi transmitido a
todos os seus descendentes. O Gênesis descreve que Deus ao criar o ho-
mem o colocou no Jardim do Éden com todos os direitos e prerrogativas
de cuidar do Jardim e de desfrutar das suas delícias. Apenas uma proi-
bição foi estabelecida: “E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda
árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento
do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, cer-
tamente morrerás” (Gn 2.16-17). Deus estabeleceu um único teste de fi-
delidade para o ser humano. O capítulo 3 do Gênesis descreve a maneira
como o homem transgrediu o mandamento de Deus. Evidentemente o
ser humano foi influenciado pela serpente (Satanás – Ap 12.9), mas foi o
único responsável por seu pecado, pois trocou a liberdade e todo o status
que Deus lhe deu pela ambição de ser independente. De certo modo, o
ser humano seguiu uma ilusão, pensando que seria “igual a Deus”. Não se
contentou em ser “imagem e semelhança” de Deus.
A consequência do pecado realmente foi a morte. Embora o ho-
mem e sua mulher não tenham morrido fisicamente naquele dia em que
comeram, aquele ato garantiu a entrada da morte no mundo. O mundo se
tornou amaldiçoado e o homem voltaria ao pó (Gn 3.19). A morte preci-
sa ser entendida em três aspectos: física, espiritual e eterna. Fisicamente,
20

eles começaram a morrer naquele dia. Espiritualmente, eles morreram,


pois se viram separados de Deus. E a punição eterna os aguardaria, a me-
nos que, evidentemente, fossem regenerados, e assim, todos os aspectos
da morte seriam revertidos.
Após proferir a maldição, Deus expulsou o homem e a mulher
do Jardim do Éden (Gn 3.22-24). Agora a vida do ser humano seria fora
do jardim. Lá nasceriam seus filhos e lá teria que viver até o dia em que
a morte viesse buscá-lo, para nela permanecer eternamente. Esta é a he-
rança de todos os seres humanos. Paulo escreveu aos Romanos:

“Portanto, assim como por um só homem ____________ o peca-


do no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a
__________os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12).

A transmissão do pecado e da morte a todos os seres humanos a


partir de Adão fica evidente neste texto. Cada criança que nasceu depois
de Adão e Eva já nasceu contaminada com o “vírus” do pecado original.
Por isso dissemos que todos os seres humanos possuem uma “natureza
pecaminosa”. É esta natureza pecaminosa que é a responsável pelo peca-
do do ser humano. É a árvore má que produz fruto mau e que não pode
produzir fruto bom. Como o profeta Jeremias explicou simbolicamente:
“Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas?
Então, poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal” (Jr
13.23). A cor da pele não é uma questão de escolha. O ser humano igual-
mente não tem condições de escolher deixar de pecar, pois como Jesus
disse, ele é um escravo do pecado (Jo 8.34).

II. Nascidos de novo

Em João 3, há uma narrativa de um homem chamado Nicode-


mos que foi se encontrar com Jesus à noite. Conhecemos bem a história
de Nicodemos. Sabemos de sua importante posição religiosa e social.
João nos diz que ele era um Mestre, um entendido da Lei (Jo 3.1). O que
muitas vezes não percebemos, é que esse encontro com Jesus mudou
(ou pelo menos começou a mudar) a vida daquele homem. Nicodemos
começou a conversa com uma troca de gentilezas. Suas palavras são fa-
voráveis a Jesus, num reconhecimento de sua autoridade (Jo 3.2). Per-
cebemos que Jesus não deu muita atenção a estas palavras, pois estava
21

ansioso pela salvação daquele homem. Por isso, sua afirmação corta o
assunto anterior e insere um novo: “Em verdade, em verdade te digo que,
se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3).
Jesus disse que para ver o Reino de Deus é necessária uma transforma-
ção completa, algo como um novo nascimento. “Nascer de novo” signi-
fica abandonar tudo e começar uma nova vida a partir do encontro com
Cristo. Geralmente nos inclinamos a acreditar que Nicodemos não tenha
entendido as palavras de Jesus, especialmente a metáfora do “nascer de
novo”. A maneira como ele respondeu a Jesus, entretanto, se utilizando
igualmente de uma metáfora, pode sugerir que, ao menos em parte, ele
tenha entendido. Ele fez uma pergunta retórica: “Como pode um homem
nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer
segunda vez?” (Jo 3.4). Ele parece estar resistindo à ideia de ter que des-
considerar sua vida até aquele momento. Está se desculpando, pois acha
muito tarde, acha que não precisa e não pode mudar. Nicodemos, talvez
pensasse, que já vivera e experimentara muitas coisas em sua vida, e que
todas as experiências pelas quais passou, todo o seu aprendizado, todo o
seu status, não eram coisas que se possa descartar.
Jesus não desistiu. Jesus tratou de argumentar que aquela expe-
riência não dependeria apenas da vontade do homem, pois havia alguns
elementos ainda mais importantes. Jesus disse: “Em verdade, em verdade
te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino
de Deus”. A referência à água e ao Espírito provavelmente sejam figuras
do batismo de João (com água) e do batismo de Jesus (com Espírito).
A verdadeira conversão, na perspectiva de Jesus é uma intervenção di-
reta do poder de Deus sobre a vida das pessoas. Algo que produz uma
real e duradoura mudança, não só de atitudes, mas de caráter. Quando
pensamos no Espírito que Jesus falou, devemos lembrar que é o mesmo
Espírito que pairava sobre as águas na criação do mundo, e que possibili-
tou o surgimento da vida. Também foi esse Espírito que envolveu Maria
com sua sombra, fazendo com que ela concebesse o menino Jesus. Desde
o início, a função desse Espírito foi dar vida. Assim, ele é o que dá vida
espiritual ao convertido que estava morto em delitos e pecados (Ef 2.1).
Nascer de novo implica numa transformação que atinge o âmago,
como que a própria essência da pessoa. Uma verdadeira mudança de na-
tureza. Jesus disse:

“O que é ___________da carne é carne; e o que é nascido do Espírito


22

é espírito. Não te admires de eu te dizer: importa-vos ____________de


novo. O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde
vem, nem para onde vai; assim é todo o que é ____________do Espírito”
(Jo 3.6-8).

O que está contido nessas palavras é a ideia de uma transfor-


mação radical da própria essência da pessoa. Quando Jesus diz que o
nascido da carne é carne, está descrevendo o que todas as pessoas são
por natureza. É o modo como todas nascem neste mundo e aqui vivem,
absolutamente dominadas pela força corruptora que as mantém em pri-
são. A aspiração máxima da vida “da carne” é apenas a vida carnal. É a
rotina de centenas de milhões de pessoas em todos os tempos: nascer na
carne, viver na carne e morrer na carne. Esse é o seu máximo, pois este
mundo é tudo que lhes resta, o pecado é seu modo de vida e o diabo é
seu mestre. Mas, o que é nascido do Espírito é espírito. Há uma nova na-
tureza, pois já não tem apenas as características inerentes da carne. Esta
pessoa recebeu uma nova vida: a espiritual. Por consequência tem uma
nova expectativa e uma nova existência. Sua mente, seu coração e suas
atitudes foram profundamente transformadas porque Deus agora está
em sua vida. A vida divina foi implantada nele, a vida do Espírito está em
seu corpo, uma nova natureza o faz ser mais do que apenas carne. Esse
é o significado da conversão segundo Jesus. Uma transformação interna
realizada pelo Espírito que muda a orientação das pessoas, implantando
vida onde havia morte. Isto faz com que pessoas nascidas em pecado se
tornem novas criaturas, e o pecado já não tenha mais domínio sobre elas.

III. Novas criaturas

O Novo Nascimento é uma experiência sinônima de conversão.


Mas é preciso entender que para que a conversão aconteça, antes Deus
precisa implantar um princípio de vida espiritual dentro da pessoa, que
chamamos de regeneração (Ef 2.1). Usando a própria analogia do nasci-
mento, poderíamos dizer que existe o momento da implantação da vida
(fecundação) e o momento do vir à luz (conversão), sem necessariamen-
te um intervalo de nove meses entre estes dois acontecimentos. A pri-
meira é uma obra exclusiva de Deus, é o momento da graça soberana,
quando Deus se dirige secretamente ao pecador e implanta nele, através
do Espírito, a centelha da vida espiritual. A segunda é uma obra da qual
23

o homem participa, pois, uma vez que a centelha foi acendida, agora o
homem pode colocar mais lenha e fazer o fogo dessa vida aumentar, isso
é feito através do arrependimento e da fé, ou seja, da conversão. Deste
modo, o homem “desenvolve sua salvação” (Fp 2.12), sem esquecer que
só faz isso porque Deus opera o “querer e o realizar” (Fp 2.13).
Jesus destacou a participação do Espírito Santo e da água no Novo
Nascimento. Paulo também destacou estes dois elementos, embora os te-
nha unificado: “Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedien-
tes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em
malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Quando, porém,
se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para
com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo
sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renova-
dor do Espírito Santo” (Tt 3.3-5). Paulo descreveu o estado dos cristãos
antes de terem sido regenerados. Ele diz que eram “escravos de toda sor-
te de paixões”. Então Deus atuou na vida deles, não levando em conta
seus pecados, mas exclusivamente sua misericórdia e “salvou mediante
o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo”. A salvação aconte-
ceu quando o Espírito Santo purificou a pessoa dos pecados regenerando
e renovando. Todas essas expressões demonstram que a experiência da
conversão é uma atuação poderosa do Espírito Santo que lava e regenera
o pecador. Há estes dois aspectos: uma purificação do pecado e a criação
de uma nova natureza. Assim a conversão nos perdoa e purifica do peca-
do original e cria em nós uma nova natureza inclinada para a santidade.
Isso não significa que nos tornaremos incapazes de pecar. Ainda residem
em nós os resquícios da velha natureza decaída, os quais continuarão fa-
zendo luta contra o Espírito que habita em nós (Gl 5.17). Porém, o crente
regenerado deixou de ser escravo do pecado, justamente porque recebeu
essa nova natureza que, permanecendo no Espírito, tem condições de
não satisfazer os desejos da carne (Gl 5.16)
Paulo resume a experiência do Novo Nascimento com as seguin-
tes palavras:

“E, assim, se alguém está em Cristo, é ___________________; as coi-


sas antigas já passaram; eis que se fizeram __________” (2Co 5.17).

Ele diz que para que alguém seja “nova criatura” é preciso que
“esteja em Cristo”. Esta é a maneira de Paulo definir a conversão, o ato de
24

fé e arrependimento, o ato de entregar a vida a Jesus. Estar em Cristo é


estar unido com Cristo. É quando Cristo, na pessoa do Espírito Santo,
passa a habitar dentro do cristão. O ápice da vida cristã em sua própria
experiência, Paulo descreveu do seguinte modo:

“Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo __________em mim; e


esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela _________no Filho de
Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20).

João costumava descrever esta experiência como o ato de “ter


Cristo”. Ele escreveu:

“Aquele que _______ o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho
de Deus _____ tem a vida” (1Jo 5.12).

A experiência da “união com Cristo” faz o crente ser uma “nova


criatura”, ou seja, um “cidadão do mundo vindouro”. E Paulo explica que
isto significa ter rompido definitivamente com o passado e assumido
plena novidade de vida. Quando Paulo diz que as “coisas antigas já pas-
saram” está dizendo que os pecados cometidos são perdoados e esque-
cidos diante de Deus. Muitos cristãos têm um passado tenebroso que
frequentemente tenta desestruturá-los, mas à luz da Palavra de Deus,
podem abandonar este passado, pois Deus já o abandonou. Paulo dizia:

“Uma coisa faço: ________________das coisas que para trás ficam


e _________________para as que diante de mim estão, prossigo para o
alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp
3.13-14).

O passado de perseguidor da Igreja já não assolava Paulo no pre-


sente, pois sabia que Deus o havia perdoado. Experimentar esta “no-
vidade de vida” todos os dias é a vocação do cristão. A experiência do
novo nascimento faz com que a “antiga vida” deixe de importar. Agora
há uma nova vida disponível a todos aqueles que se converteram. E esta
nova vida tem um poder de renovação diário, para que jamais se torne
algo “velho” outra vez. A cada dia o cristão regenerado pode olhar para
si mesmo e dizer “estou em Cristo, sou um cidadão do mundo vindouro,
sou uma nova criatura, as coisas antigas passaram, tudo é novamente
25

novo”. Quando nos tornamos novas criaturas, Deus muda uma frase em
nossos lábios: Não dizemos que somos pecadores lutando para sermos
santos, mas somos santos que lutam para não pecar.
Portanto, dizer que somos salvos significa dizer que estávamos ir-
remediavelmente perdidos por causa da natureza corrupta que herdamos
de Adão, mas que, em Cristo, fomos feitos novas criaturas, e agora somos
orientados para a santidade e não mais para o pecado.

Questionário de revisão

1 -Qual é a relação entre os pecados que cometemos e a natureza pe-


caminosa que herdamos de Adão?

a) ( ) Deus criou o homem pecador.


b) ( ) Pecados são os “frutos maus” que trazemos dentro de nós.
c) ( ) O homem não é responsável pelo seu pecado.
d) ( ) Deus decretou a queda desde a fundação do mundo.

2 - Por que Jesus disse que se alguém não nascer de novo não pode ver
o Reino de Deus?

a) ( ) Para ver o Reino de Deus, há a necessidade que a pessoa tenha


um coração bom.
b) ( ) Para ver o Reino de Deus, é necessário que a pessoa se batize
nas águas.
c) ( ) Para ver o Reino de Deus é necessário uma transformação
completa somente possível pela fé.
d) ( ) Para ver o Reino de Deus é necessário que ela não peque
mais.

3 - O que significa ser uma nova criatura?

a) ( ) Abandonar os velhos hábitos.


b) ( ) Abandonar as antigas companhias.
c) ( ) Ser religioso.
d) ( ) Estar unido com Cristo.
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4 - Quando é que acontece a salvação?

a) ( ) Quando o Espírito Santo transforma o pecador.


b) ( ) Quando o pecador pede perdão pelos seus pecados.
c) ( ) Quando o pecador reconhece os seus pecados, se arrepende
e crê no Senhor Jesus.
d) ( ) Quando torna-se membro da igreja local.

5 - O que significa “Pecado Original”?

a) ( ) É o pecado exclusivo de Eva.


b) ( ) É o pecado de Adão e Eva transmitido a todos os seus filhos
e descendentes.
c) ( ) É o pecado das crianças que ainda não foram batizadas.
d) ( ) É pecado sem perdão.

6 - Você entende o que significa nascer de novo? Descreva com suas


palavras.

Indicação de leituras adicionais

• O Evangelho Segundo Jesus – J. MacArthur Jr. – Ed. Fiel, 2003 –


Cap. 2 – Ele Exige um Novo Nascimento.
• Encontros com Jesus – T. Keller – Ed. Vida Nova, 2015 – Cap.
5 – O Primeiro Cristão.
• Verdadeira Espiritualidade – F. Schaeffer – Ed. Cultura Cristã,
2008 – Cap. 6 - Salvação.
27

3. QUANDO ALGUÉM ESTÁ CONVERTIDO?

Nos estudos anteriores falamos um pouco sobre a conversão que


é a decisão de vida que torna alguém salvo mediante a obra redentora
de Jesus. Neste estudo, procuraremos definir mais precisamente quan-
do alguém está verdadeiramente convertido. Destacaremos quais são as
atitudes que as pessoas precisam tomar para experimentar a verdadeira
transformação. Frequentemente, as pessoas pensam que se converter é
mudar de religião. Muito embora isso possa acontecer quando alguém
se converte, não se deve identificar conversão com mudança de religião
em si, pois alguém pode mudar de religião sem ter se convertido real-
mente. Isto em hipótese alguma é algo incomum, pois às vezes as pessoas
são atraídas por promessas de prosperidade, ou por aceitação social, sem
jamais assumirem um compromisso duradouro com Jesus Cristo. Mui-
tos brasileiros, nos últimos anos, abandonaram a Igreja Católica e foram
para as Igrejas Neopentecostais, mas isso não significa que realmente se
converteram, pois muitas vezes foram em busca de prosperidade, curas
e outras manifestações carismáticas. Como dissemos no primeiro estu-
do, estavam mais interessadas nas bênçãos terrenas do que nas celestiais.
Conversão é uma mudança de vida que começa no interior da pessoa e
que se expande para o exterior a partir do arrependimento e da fé. Ela é
uma experiência interior, mas que vai se demonstrar em atos bem con-
cretos. É uma vida voltada para o céu, e não mais para a terra (Cl 3.1-2).

I. No coração e nos lábios

No capítulo 2 de Atos temos a descrição impressionante da con-


versão de três mil pessoas. Após a descida do Espírito Santo, Pedro pre-
gou um sermão poderoso e três mil pessoas se converteram e foram bati-
zadas. Durante a mensagem, Pedro enfatizou que as profecias do Antigo
Testamento estavam se cumprindo naquele momento e anunciou a Jesus,
falando de sua morte e de sua ressurreição. Pedro enfatizou a soberania
28

de Deus em todo este acontecimento, ainda que não tenha retirado dos
homens a responsabilidade pela morte de Jesus (At 2.22-24). O ponto
alto do sermão de Pedro é que através de tudo isto, Jesus galgou o se-
nhorio absoluto sobre todas as coisas e pode salvar a todos que creem
nele (At 2.36). Diante da pregação de Pedro, as multidões que o ouviam
tiveram uma reação impressionante, como Lucas relata:

“Ouvindo eles estas coisas, compungiu-se-lhes o _________ e per-


guntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?”. (At
2.37)

Aqueles ouvintes foram tocados pela pregação de Pedro. Algo


dentro deles percebeu que estavam completamente afastados do cami-
nho de Deus. A Palavra lhes atingiu em cheio. Eles não foram atraídos
por promessas de uma vida melhor, de bênçãos materiais, mas foram
convencidos da necessidade de se reconciliarem com Deus.
Pedro nem precisou fazer apelo, a própria Palavra foi o grande
apelo para a vida delas. E a resposta de Pedro foi simples:

“Respondeu-lhes Pedro: _____________, e cada um de vós seja ba-


tizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos __________,
e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promes-
sa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para
quantos o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2.38-39).
Entre as coisas que Pedro enfatizou que eles “deviam fazer” es-
tava o arrependimento. Talvez algumas daquelas pessoas até mesmo ti-
vessem participado da crucificação de Jesus. Quem sabe ajudaram a es-
colher Barrabás. Ou talvez assistiram tudo quando ele andou pelas ruas
de Jerusalém carregando a cruz. Mas Deus podia perdoar até mesmo os
responsáveis pela morte de seu Filho.
Na verdade, todos são responsáveis pela morte de Jesus, afinal,
ele morreu pelos nossos pecados. O arrependimento é a porta de entrada
para a salvação que é oferecida a todos. Embora Pedro não tenha dito
que eles precisavam crer, isto estava implícito na ordem de que fossem
batizados no nome de Jesus. Se submeter ao batismo significa crer. Mas
ao mesmo tempo isto nos conduz para mais um elemento da verdadeira
conversão que é o compromisso. Um convertido é alguém que assume
um compromisso público com Jesus. Aprendemos isto de outra passa-
29

gem bíblica. Paulo disse aos Romanos:

“Se, com a tua boca, ______________Jesus como Senhor e, em teu


coração, ________________que Deus o ressuscitou dentre os mor-
tos, serás salvo. Porque com o ___________se crê para justiça e com a
_______________se confessa a respeito da salvação” (Rm 10.9-10).

Isto significa que a conversão (arrependimento e fé) consiste de


uma realidade interna e outra externa. Tudo começa no coração. Assim
como o pecado começa no coração, a conversão também começa no co-
ração. É preciso crer “de todo o coração”. É preciso crer lá no íntimo do
nosso ser que Jesus Cristo é nosso Salvador. Mas em seguida é preciso
declarar isto com os lábios, ou seja, é preciso testemunhar isto publica-
mente. Não existe crente do tipo “agente secreto”. Todo crente verdadeiro
é alguém que crê no coração e não tem receio de declarar com os lábios
a sua fé em Jesus. As palavras de Jesus deveriam despertar todos aqueles
que têm escondido sua fé: “Portanto, todo aquele que me confessar diante
dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos
céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei
diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.32-33).

II. Seguindo a Jesus

Hoje se fala muito em “aceitar a Jesus”. Isto até virou uma espécie
de “termo técnico” para conversão. Mas, às vezes, é um pouco mal com-
preendido. Uma pessoa vai a um culto e o pregador fala sobre conversão,
e, ao final da pregação, convida aqueles que desejam “aceitar a Jesus” para
que venham até a frente. Uma pessoa se levanta e vai até à frente e todos
pensam que ela se converteu. É possível realmente que isto tenha aconte-
cido, mas devemos ser um pouco mais cautelosos e criteriosos. Jesus não
costumava pedir às pessoas que o “aceitassem”, ele os desafiava para que
o “seguissem”. A única conversão que pode ser considerada como verda-
deira é a que tem como consequência o ato de seguir a Jesus.
É impressionante a maneira como Jesus chamou seus primeiros
discípulos. Podemos destacar o chamado de um deles que, de certo modo,
tipifica o chamado de todos os demais. Lucas relata a maneira como Jesus
chamou Mateus que também era conhecido como Levi:
30

“Passadas estas coisas, saindo, viu um publicano, chamado Levi, as-


sentado na coletoria, e disse-lhe: __________! Ele se levantou e, deixan-
do tudo, o _______” (Lc 5.27-29).

O que impressiona é a simplicidade de toda esta cena. Jesus esta-


va passando diante da coletoria de impostos onde Mateus (Levi) estava
assentado trabalhando. Sem promessas ou explicações, ele simplesmente
disse àquele homem: “segue-me”. E o homem deixou tudo para trás e o
seguiu. Apesar da simplicidade da narrativa há muitos elementos impor-
tantes neste texto que nos ajudam a entender o que significa realmente
conversão, ou pelo menos, quais são as consequências dela. Primeira-
mente observamos que é Jesus quem toma a iniciativa. Isto é algo inva-
riável. É sempre Jesus quem fixa seus olhos em nós e nos chama, e não
o contrário. Percebemos também que a pessoa chamada está “tranquila”
em sua rotina. Mas só Deus sabe as angústias e as lutas que estão no
interior. Só Deus sabe o quanto ele próprio está trabalhando silenciosa-
mente na vida desta pessoa para que esteja preparada para uma decisão
de segui-lo.
Percebemos também que Jesus não prometeu ou ofereceu coisa
alguma para Mateus. Isto sem dúvida é muito diferente do evangelismo
de nossos dias. Hoje os pregadores oferecem “mundos e fundos” para
que as pessoas se convertam. Jesus não prometia nada. Ele jamais condi-
cionou o ato de segui-lo com a promessa de alguma vantagem pessoal.
Aliás, repudiou isto. Ele disse a um escriba que estava interessado em se-
gui-lo que não podia esperar vantagens financeiras: “As raposas têm seus
covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde
reclinar a cabeça” (Lc 9.58). Ou seja, alguém que estivesse disposto a
segui-lo deveria estar preparado para enfrentar privações. Ele frequente-
mente alertou para o custo do discipulado. Usando metáforas, disse que
uma pessoa não deveria começar a construir uma torre se não tivesse
certeza de que poderia acabar a obra (Lc 14.28-30). Disse que um rei não
deveria se lançar à guerra se não tivesse certeza de que poderia vencer
(Lc 14.31-32). E concluiu:

“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a ___________
quanto tem não pode ser meu discípulo” (Lc 14.33).

Então significa que se formos segui-lo, teremos que fazer isso


31

pelo que ele é, e não pelo que tem a nos oferecer.


No caso de Mateus, não podemos deixar de notar a reação dele.
Ele deixou tudo e o seguiu. O que isto significa? Será que toda pessoa que
se converter terá que abandonar totalmente a vida que vive. Isso real-
mente pode acontecer, mas achamos que pode acontecer de outra forma.
Um convertido verdadeiro é alguém que já não se apega às coisas que
desagradam a Deus. No caso de Mateus, seu trabalho era um empecilho
para agradar a Deus. Ele era um cobrador de impostos e frequentemente
era forçado a ser corrupto, ainda que às vezes isto não precisasse ser tão
forçado assim. Ele dificilmente poderia seguir a Jesus se continuasse co-
brando impostos para Roma. Quando alguém está realmente convertido,
consegue deixar para trás aquelas coisas que o impedem de ter um rela-
cionamento com Deus.
Jesus costumava radicalizar quando se tratava de discipulado. No
entendimento de Jesus, uma conversão verdadeira conduzia inevitavel-
mente a uma vida de discipulado. Para Jesus não existia conversão sem
discipulado ou discipulado sem conversão. Havia pessoas desejosas de
seguir a Jesus naqueles dias e o motivo era simples: Jesus foi um homem
impressionante. A maioria das pessoas estava sedenta para ver sinais e
alguns o seguiam pensando na multiplicação dos pães e dos peixes. Os
próprios discípulos estavam de olho numa posição importante no “novo
reino de Israel”. Porém, Jesus sempre fez questão de mostrar a dura reali-
dade do discipulado. Nunca prometeu o que não seria possível nem certo
realizar. Uma das declarações mais extraordinárias de Jesus com relação
ao discipulado foi:

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se ________, dia a dia tome
a sua _______ e siga-me” (Lc 9.23; Mt 10.38; 16.24; Mc 8.34; Lc 14.27).

Marcos relata que, para dizer estas palavras, Jesus convocou as


multidões (Mc 8.34). Ele jamais escondeu das pessoas o que significava
a vida de discipulado. Ele jamais iludiu alguém com promessas de pros-
peridade. A expressão “tomar a cruz” era facilmente compreensível para
as pessoas da época, porém, algo repugnante. Acreditamos que Jesus não
estivesse falando diretamente do martírio, muito embora, todo discípulo
precisava estar preparado para enfrentar o martírio, caso ele venha. O
tomar a cruz era o momento quando o condenado saía pelas ruas car-
regando a cruz sobre a qual morreria. Tomar a cruz é o primeiro passo,
32

mas que envolve uma disposição de ir até o fim. O verdadeiro convertido


sabe que já morreu para si mesmo.

III. Não olhando para trás

Um homem se ofereceu para seguir a Jesus, mas tinha algumas


condições:

“Seguir-te-ei, Senhor; mas deixa-me _________ despedir-me dos de


casa. Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que, tendo posto a mão no arado,
olha para trás é apto para o reino de Deus” (Lc 9.61-62).

Jesus não pode aceitar decisões fracas. Ele quer intensidade, dis-
posição plena, convicção profunda. Sempre nos perguntamos sobre o
porquê de Jesus proibir aquele homem de se despedir dos de casa. Pa-
rece exagerado, desumano, algo próximo do fanatismo. Mas Jesus tinha
suas razões. Em sua onisciência, ele viu naquele jovem uma inconstân-
cia, uma facilidade em mudar de ideia. Será que seria pressionado pelos
de casa a não partir? Será que seguiria a Jesus cheio de dor e pesar pelo
que teria que deixar para trás? De algum modo, aquele discípulo sempre
seguiria o mestre olhando para trás, pensando no que perdeu ou no que
não poderia mais fazer? O amor por Jesus não era maior do que o amor
pelo passado perdido. Diante disso, Jesus não teve outra opção senão
recusá-lo, pois não estava apto para o reino de Deus. O apego às coisas
deste mundo, à posição social, a pecados secretos faz com que as pessoas
não se decidam inteiramente por Jesus. Elas olham para Jesus, desejam
segui-lo, mas querem conciliar isto com coisas contrárias à vontade de
Jesus. Jesus não está disposto a aceitar uma espécie de “meio termo” en-
tre ele e o mundo. Jesus disse: “Quem não é por mim é contra mim; e
quem comigo não ajunta espalha” (Mt 12.30).
No capítulo 10 de Hebreus há um precioso ensino a respeito do
perigo de retroceder na fé. O autor exorta seus leitores: “Não deixemos
de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoes-
tações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.25). Já
naqueles dias algumas pessoas abandonavam a congregação dos fiéis.
Isto significa não apenas que estavam deixando de ir à igreja nos domin-
gos, mas que estavam abandonando a busca por Deus. Estavam voltando
para o mundo, ou para a religiosidade que tinham antes de conhecer a
33

Cristo. Por isso, ele os advertiu:

“Porque, se vivermos ____________ em pecado, depois de termos re-


cebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pe-
cados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador
prestes a consumir os adversários” (Hb 10.26-27).

Não entendemos que uma pessoa que foi verdadeiramente sal-


va possa perder a salvação, mas entendemos que muitas pessoas podem
ter sido profundamente influenciadas pelo evangelho, a ponto de expe-
rimentarem certas transformações, e ainda assim não serem totalmente
convertidas ao Senhor. Estas pessoas tomaram conhecimento da salva-
ção, mas quando abandonam o caminho do discipulado, colocam-se para
além da possibilidade da salvação. A Bíblia chama de isto de pecado ou
blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt 12.31; Mc 3.29). Quando alguém
comete este pecado estará condenado para sempre. Nada nem ninguém
poderá salvá-lo, pois “calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o san-
gue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça?”
(Hb 10.29).
Por esta razão, quem tem posto a mão no arado não deve olhar
para trás. Assim, o autor aos Hebreus complementa:

“Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galar-


dão. Com efeito, tendes necessidade de ___________, para que, havendo
feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de
pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará; todavia, o meu justo
viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma. Nós,
porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretan-
to, da fé, para a conservação da alma” (Hb 10.35-39).

IV. As recompensas

Depois destas considerações, alguém poderia questionar: Mas


então não há vantagem alguma em se converter e seguir a Jesus? Talvez
esta pessoa precisasse ler novamente este estudo, pois dissemos que uma
pessoa nunca deve seguir a Jesus pensando nas vantagens. Mas isto não
significa que não haja vantagens. Significa que não é um negócio ou uma
troca, mas uma atitude de coração em seguir a Jesus. Mas se fôssemos
34

fazer uma lista das vantagens de seguir o Mestre teríamos que colocar
entre elas as seguintes: Deixar de ser escravos do pecado (Jo 8.32-36);
Não andar mais nas trevas (Jo 8.12); ter a água que realmente mata a sede
(Jo 7.37-38); ter a paz no coração (Jo 14.27); ter a tristeza convertida em
alegria (Jo 16.20); ter muitos novos irmãos (Lc 18.29-30); ter um tesouro
no céu (Mc 10.21); ter a vida eterna (Jo 3.36), etc.
Alguns discípulos de Jesus, após alguns momentos difíceis que
enfrentaram, fizeram as contas e realmente resolveram deixá-lo. Foi após
um discurso de Jesus na Sinagoga de Cafarnaum. Não sabemos se eles
não o entenderam, ou se perceberam que suas exigências eram muito
grandes. Mas quando Jesus disse que era o pão vivo que desceu do céu,
e que sua carne era comida e seu sangue bebida (Jo 6.50-59), muitos dis-
seram: “Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (Jo 6.60). Jesus não
aliviou, conforme João relata:

“Mas Jesus, sabendo por si mesmo que eles _________ a respeito de


suas palavras, interpelou-os: Isto vos escandaliza? Que será, pois, se vir-
des o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava? O espí-
rito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos
tenho dito são espírito e são vida. Contudo, há __________ entre vós.
Pois Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem
o havia de trair. E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: nin-
guém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido. À vista disso,
muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele”
(Jo 6.61-66).

De certo modo, aqueles discípulos perceberam que não estavam


mais tendo vantagens em segui-lo. Aquele tipo de pregação não os agra-
dava. Talvez quisessem ver milagres e prodígios e ouvir o mestre falar
contra Roma, mas Jesus estava dizendo que poucos ali tinham um ver-
dadeiro compromisso com ele. Quando aqueles foram embora, Jesus se
voltou para os doze apóstolos: “Porventura, quereis também vós outros
retirar-vos?” (Jo 6.67). Aquela foi uma hora crucial. Teriam os apóstolos
se entreolhado e pensado em suas próprias murmurações e, ou, expec-
tativas em relação a Jesus? A pergunta de Jesus deixou bem claro que ele
não deseja pessoas não convictas ao seu lado. Também deixou claro que
ele não precisa de ninguém ao seu lado. Pedro salvou-os do momento
constrangedor:
35

“Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para ______ iremos? Tu tens as


________ da vida ________; e nós temos crido e conhecido que tu és o
Santo de Deus” (Jo 6.68-69).

As vantagens de seguir a Jesus são muitas, mas de qualquer modo,


um pecador perdido não tem muitas escolhas. Ou ele segue o único que
pode salvá-lo, ou permanece perdido em seus pecados. Uma pessoa sabe
que está realmente salva quando percebe que tudo o que ela precisa é de
Jesus, de estar perto dele, e que nada no mundo tem mais importância do
que isso. Ela não vai trocá-lo por nada.

Questionário de revisão

1 - Qual é a relação entre se converter e mudar de religião? Escolha a


errada.

a) ( ) Na conversão há uma mudança de vida, enquanto na mudan-


ça de religião pode haver apenas interesse em bênçãos terrenas.
b) ( ) Todos que se convertem obrigatoriamente mudam de religião.
c) ( ) Um verdadeiro convertido pode ter que mudar de religião
quando percebe que não consegue mais servir a Deus na antiga religião.
d) ( ) Uma boa igreja é aquela que ensina o novo convertido os prin-
cípios verdadeiramente bíblicos.

2 - Qual tipo de apelo Jesus e os apóstolos usavam para que as pessoas


se convertessem?

a) ( ) Promessas de curas.
b) ( ) Promessas de bênçãos terrenas.
c) ( ) Convidavam ao arrependimento e à fé em Cristo.
d) ( ) Uma vida feliz.
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3 - Quais vantagens devemos esperar quando nos dispomos a seguir


a Jesus?

a) ( ) Deixar de ser escravo do pecado.


b) ( ) Ter paz no coração.
c) ( ) Ter a vida eterna.
d) ( ) Todas as alternativas estão corretas.

4 - Qual é o tipo de discípulo que Jesus não aceita?

a) ( ) Um discípulo temeroso.
b) ( ) Um discípulo fraco.
c) ( ) Um discípulo sem convicção de sua fé.
d) ( ) Um discípulo rico de bens.

5 - Você já tomou a decisão de seguir a Jesus integralmente e entende


os custos dessa decisão? Relate abaixo quais são os custos que você en-
tende que precisa “pagar”.

Indicação de leituras adicionais

• 12 Sinais da Verdadeira Espiritualidade – G. R. McDermont –


Ed. Vida Nova, 2011 – Parte 2 – Sinais Confiáveis da Espiritualidade.
• Em busca de Deus – John Piper – Shedd Publicações, 2008 –
Cap. 2 – A Conversão.
• Santidade – J. C. Ryle – Ed. Fiel, 2009 – Cap. 5 – O Preço.
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4. É POSSÍVEL TER CERTEZA DA SALVAÇÃO?

Como dissemos, o maior objetivo da Bíblia é falar sobre como po-


demos ser salvos. Podemos ser salvos mediante a obra redentora de Cris-
to que, por um lado, pagou nossa dívida diante de Deus ao morrer em
nosso lugar e, por outro, colocou sobre nós sua justiça, nos tornando jus-
tificados. Quando somos salvos, nos tornamos novas criaturas, nascidos
de novo, e isso significa que temos condições de viver e agradar a Deus.
Porém, como o pecado ainda é uma realidade contra a qual precisamos
lutar, uma dúvida que geralmente assola os novos convertidos (e até os
não tão novos) é se podemos ter certeza que estamos mesmo salvos, ou
se há riscos de perdermos esta salvação por causa dos pecados que ainda
cometemos.

I. Segurança verdadeira

Começaremos com o ensino bíblico a respeito da certeza da sal-


vação. Será que é possível ter plena certeza de que estamos salvos. Se
morrêssemos agora mesmo, poderíamos dizer com absoluta confiança
qual seria nosso destino eterno? Muitas pessoas simplesmente não sabem
responder. Outras pensam que ninguém, na verdade, pode saber. O fato,
porém, é que a Bíblia nos ensina que é possível saber se estamos salvos ou
não, e se podemos perder essa salvação ou não.
Inicialmente, precisamos destacar que a Bíblia coloca a certeza
da salvação sobre o ato de crer. Quando o carcereiro perguntou a Paulo o
que precisava fazer para ser salvo, Paulo disse que ele precisava “crer no
Senhor Jesus”, e isso garantiria a salvação dele (At 16.31). No capítulo 6
de João, os judeus se dirigiram a Jesus com uma pergunta: “Que faremos
para realizar as obras de Deus?” (Jo 6.28). Eles estavam pensando na Lei,
mas Jesus lhes respondeu:

“A obra de Deus é esta: que _________ naquele que por ele foi envia-
do” (Jo 6.29).
38

Depois, Jesus tornou a dizer algo semelhante: “De fato, a von-


tade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a
vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.40). E como ainda
não entendiam o que ele pretendia dizer (v. 41-42), Jesus foi ainda mais
enfático: “Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a
vida eterna” (Jo 6.47). O ato de crer em Jesus dá ao crente o dom da vida
eterna. Essa é uma promessa e uma garantia do próprio Deus.
Quando uma pessoa se arrepende dos seus pecados e crê em Je-
sus como seu Salvador, isso tem um significado jurídico muito impor-
tante. Ela passa a desfrutar das conquistas jurídicas do próprio Senhor
Jesus. Toda a condenação que ela merecia receber foi assumida por Jesus,
de modo que a pessoa que crê em Cristo passa a estar isenta do próprio
julgamento de Deus. O próprio Jesus declarou isso:

“Quem nele crê __________julgado; o que não crê _________julga-


do, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.18).

Isto significa que, quando morrer, o crente chegará absolvido


diante do grande tribunal de Deus, pois:

“quem crê no Filho __________a vida eterna; o que, todavia, se


mantém rebelde contra o Filho ___________a vida, mas sobre ele
____________a ira de Deus” (Jo 3.36).

A fé coloca o convertido num estado de perfeita justificação


diante de Deus, o estado que os reformadores definiam como sendo “fo-
rense”, ou seja, perante o fórum divino. Diante da corte celeste, o crente
justificado por Cristo não precisa esperar veredicto penoso, pois como
Paulo explica, “agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão
em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Isso garante ao crente um relacionamento
com Deus sem sobressaltos: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz
com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).
Neste ponto, geralmente as pessoas perguntam: “Mas só é preci-
so crer? Não é necessário fazer mais nada?” E a resposta bíblica é: sim,
pois somos salvos pela graça, mediante a fé, e isso não vem de nós mes-
mos, ou das nossas obras, é dom de Deus (Ef 2.8-9). Então, as pessoas,
às vezes, perguntam ainda: “quer, então, dizer que alguém é salvo pela fé
independente da maneira como leva sua vida? Pode continuar pecando
39

à vontade?”
Para obtermos uma resposta precisa à esta pergunta precisaremos da
ajuda de dois apóstolos: Paulo e Tiago. Vejamos o que diz o primeiro:

“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independente-


mente das _____ da lei” (Rm 3.28).

Paulo esclarece que nossa justificação depende inteiramente do


ato de crer. Mas então precisamos também considerar o que diz Tiago:

“Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé


sem ______ é morta” (Tg 2.26).

Apesar de aparentemente existir uma contradição entre estas


duas afirmações, na verdade elas são complementares, porque os após-
tolos estão respondendo a perguntas diferentes. Paulo está dizendo que
é somente a fé que salva. E Tiago está dizendo qual é o tipo de fé que
salva. Então precisamos concluir que é somente a fé que salva, mas a fé
que salva sempre vem acompanhada de boas obras. As obras não têm o
poder de salvar, mas têm o poder de definir se a fé é verdadeira ou não.
Elas funcionam como evidências da fé. Mas isto, Paulo também já havia
declarado:

“Porque pela __________sois salvos, mediante a fé; e isto __________


de vós; é dom de Deus; não de __________, para que ninguém se glorie.
Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais
Deus de antemão preparou para que _______________nelas” (Ef 2.8-
10).

Uma pessoa pode ter certeza de sua salvação quando consegue


identificar três coisas na sua vida. A primeira é a fé. A segunda é o tes-
temunho interno do Espírito Santo. E a terceira é a evidência das obras
realizadas pela fé e no poder do Espírito. Já falamos sobre a primeira e a
terceira, e agora precisamos falar a respeito da segunda. Na teologia re-
formada esta é a grande dádiva da evidência da salvação. É o testemunho
do Espírito Santo dentro do crente dizendo que ele está salvo. Nenhum
testemunho pode ser mais verdadeiro do que o de Deus. Paulo escreveu:
“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
40

Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez,


atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual cla-
mamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que
somos filhos de Deus” (Rm 8.14-16). De alguma maneira maravilhosa,
a Terceira Pessoa da Trindade, que veio habitar dentro do crente no mo-
mento da conversão, testifica no interior do crente que ele está salvo.
Essa voz íntima é individual, ou seja, nosso vizinho não pode ouvi-la,
apenas nós podemos. É o Espírito Santo que nos dá a certeza de que
agora somos filhos de Deus e que podemos chamar o Pai de “Aba”, que é
uma palavra aramaica que literalmente significa “papai”, um tratamento
íntimo que as crianças pequenas usavam para falar com seu pai nos dias
de Jesus.
O testemunho interno do Espírito, portanto, é a grande evidên-
cia que Deus nos deu de que somos realmente salvos. Porém, como ele
é subjetivo, e uma pessoa poderia se iludir a si mesma, acreditando que
“ouve essa voz íntima”, quando na verdade está ouvindo apenas a si mes-
ma, é necessário acrescentar, como dizem Paulo e Tiago, as evidências
das obras, ou como disse Cristo, “dos frutos”, pois através deles conhece-
mos a natureza da árvore.
Portanto, uma pessoa pode ter certeza de sua salvação. Ela pode
ter certeza se já experimentou a verdadeira conversão através do arre-
pendimento e da fé. Ela pode ter certeza se o Espírito Santo “sussurra”
dentro de si a realidade da filiação do crente para com Deus. E ela pode
ter certeza se este mesmo Espírito já começou a realizar a obra de purifi-
cação dos pecados, constante arrependimento, e a produção do fruto do
Espírito que se demonstra em objetiva transformação de vida. É impor-
tante notar que a certeza da salvação não advém de uma impecabilidade
do crente após a conversão, pois ninguém consegue viver sem cometer
nenhum pecado, mas de uma vida de constante busca da presença de
Deus, do arrependimento verdadeiro, e do poder do Espírito para viver
a vida espiritual (1Jo 1.8; 2.1).

II. Alguém pode perder a salvação?

A certeza de nossa salvação descansa sobre a imutabilidade de


Deus. Mas infelizmente, nem sempre os crentes entendem bem o que
isso quer dizer. Dentre aqueles que creem que a salvação não se perde,
desenvolveu-se um slogan para definir bem a posição. O slogan diz “uma
41

vez salvo, sempre salvo”. Estamos convictos de que esse slogan é verda-
deiro, mas percebemos que ele é muitas vezes mal-entendido, pois pode
sugerir que uma vez que alguma pessoa fez uma decisão por Cristo, ela
pode viver sua vida irresponsavelmente, e, ao mesmo tempo, plenamente
confiante de que jamais poderá ser condenada. Alguém pode dizer “eu fiz
minha decisão, Cristo é meu Salvador, e todos os meus pecados – passa-
dos, presentes, e futuros – estão perdoados e esquecidos. Então, eu não
tenho que me preocupar mais com os momentos de fraqueza”. Há um
grave equívoco nesta afirmação.
Como vimos, para que uma pessoa seja salva é necessário que
aconteça um grande evento dentro dela, o qual Jesus chamou de “novo
nascimento” (Jo 3.3). O novo nascimento acontece no momento quando
o Espírito Santo cria uma nova vida em nossa alma. Mas, a salvação é
ainda mais do que isso. De fato, no instante em que Deus efetuou o novo
nascimento em nosso ser, fomos capacitados a responder com fé à prega-
ção do Evangelho e então fomos instantaneamente justificados, pois Deus
nos declarou justos naquele momento. Entretanto, a salvação também é
um processo, é um ato contínuo de Deus em nos tornar justos. Esse pro-
cesso recebe o nome de santificação. Para que alguém seja de fato salvo,
é necessário que este processo tenha sido iniciado em sua vida. Portanto,
para que alguém diga “uma vez salvo, sempre salvo” é preciso que tenha
sido realmente salvo. E para ser realmente salvo é preciso que haja uma
transformação. Alguém que não evidencia estas coisas será condenado,
não porque perdeu a salvação, mas porque na verdade, nunca foi salvo.
A ideia do novo nascimento, por outro lado, nos conduz ao con-
ceito de segurança da salvação. Pois seria completamente absurdo um
“nascido de novo” que viesse a “morrer de novo”. A Bíblia de fato fala em
“nascer de novo”, mas não fala em “morrer de novo”.
Em Romanos 8.30 está escrito: “E aos que predestinou, a esses
também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que
justificou, a esses também glorificou”. O que se percebe nesse texto é que
há uma “Ordem da Salvação”. Uma coisa se liga a outra de maneira que a
cadeia não pode ser quebrada. Não faz sentido alguém ser predestinado,
chamado, justificado, e depois perdido. Isso seria absurdo. Este texto en-
sina que quando Deus começa uma obra, ele termina, como Paulo bem
colocou:

“Estou plenamente certo de que aquele que _________ boa obra em


42

vós há de _________ até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

A garantia de nossa salvação repousa não somente sobre nossas


decisões pessoais, mas, acima de tudo, sobre a fidelidade de Deus.
Em Efésios 1.3-14 Paulo fala da obra da Trindade na salvação
do Crente. Paulo fala que os crentes são escolhidos pelo Pai (Ef 1.3-5),
redimidos pelo Filho (Ef 1.6-12) e selados com o Espírito (Ef 1.13-14).
A obra da Trindade é perfeita na salvação do crente. Não faria sentido
que o Pai começasse o trabalho, e o Filho, ou o Espírito, não levasse o
trabalho adiante. Merece destaque o fato de que quando alguém se con-
verte recebe um selo divino: “em quem também vós, depois que ouvistes
a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também
crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13). Nos
tempos do Novo Testamento se selavam cartas ou objetos (Mt 27.66).
A intenção em se colocar o selo era demonstrar que tal objeto pertencia
a alguém, e assim, o objeto deveria estar sob a proteção máxima. Da
mesma forma o selo do Espírito Santo na vida do crente indica que ele
pertence a Deus e será protegido de todos os males. Da mesma forma no
texto Paulo usa a palavra “penhor”: “O qual é o penhor da nossa herança,
até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef 1.14). O
penhor nos tempos do Novo Testamento era um acordo de negócio onde
uma pessoa dava um primeiro pagamento, algo como uma entrada a fim
de garantir o negócio. E essa entrada era uma garantia de que o resto
também seria pago. Assim, pois, o Espírito Santo em nós é a garantia de
que o resto será pago, ou seja, de que Deus completará sua obra em nós
até o dia de Cristo Jesus.
A presença do Espírito na vida do crente é a grande garantia que
Deus mesmo nos deu de que permaneceremos salvos até o fim. Se pu-
déssemos nos perder, isso significaria que o selo divino poderia ser ras-
gado, ou que o penhor divino não tivesse valor suficiente para garantir
nossa salvação. Em ambos casos, seria o mesmo que dizer que o Espírito
Santo não vale nada.
Muitos acham que depende apenas deles mesmos a tarefa de
manter a salvação. Para estes bem cabe a repreensão que Paulo fez aos
gálatas: “sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais,
agora, vos aperfeiçoando na carne?” (Gl 3.3). De fato, essas pessoas veem
sua salvação em termos de uma decisão que fizeram, e baseiam a certeza
de sua salvação sobre a inconstante areia da vontade humana. Por mais
43

que compete a nós a busca pela vida verdadeiramente espiritual, não de-
vemos jamais buscar a certeza da nossa salvação apenas em nossas habili-
dades ou em nossa vida, mas no selo que Deus pôs sobre as nossas vidas,
que é o selo do Espírito Santo que funciona como um penhor da nossa
salvação. Para que perdêssemos a salvação teríamos que voltar à antiga
condição de morte espiritual. Mas, imagine que tipo de regeneração seria
essa que o Espírito Santo realizaria na vida de alguém, ressuscitando-o
e dando-lhe vida eterna, a qual a pessoa poderia de alguma forma per-
der e voltar a morrer. Então, não seria de fato vida eterna. Será que nós
podemos cometer suicídio espiritual? Certamente que não, pois Pedro
diz que nós temos sido “regenerados não de semente corruptível, mas de
incorruptível” (1Pd 1.23).

III. É preciso perseverar

Mas é preciso lembrar que a Escritura diz que “todo aquele que
perseverar até o fim será salvo” (Mt 24.13). Cremos que todo crente ver-
dadeiro será capacitado por Deus para permanecer firme até o fim. Por
isso, os reformadores falavam em “perseverança dos santos” quando que-
riam explicar a certeza da salvação. Eles não queriam dar a entender que
alguém será salvo sem perseverança. Mas tinham a plena convicção de
que todos os verdadeiros crentes, capacitados e habitados pelo Espírito,
perseverariam até o fim.
O que acontece, então, com aqueles que se afastam de Jesus? Afi-
nal, é um fato que muitos cristãos, no passado e no presente, têm abando-
nado a fé que professaram. Se uma pessoa que é salva permanecerá sem-
pre salva, isso não deveria significar que ela jamais poderia abandonar a
igreja?
Para responder esta pergunta, precisamos lembrar que podem
existir dois tipos de afastamento: um temporário e o outro definitivo. O
afastamento temporário pode acontecer quando alguém se desvia dos
caminhos de Deus, porém, invariavelmente retorna para os braços do
pai. Nesse sentido, precisamos nos lembrar da Parábola do Filho Pró-
digo. Ele se afastou da presença do pai, mas jamais deixou de ser filho,
e um dia retornou (Lc 15.11-32). Junto com esta parábola, Jesus contou
outras duas, a da Ovelha Perdida e a da Dracma Perdida (Lc 15.3-10). Se
na parábola do Filho Pródigo é o filho quem volta, nas outras duas, é o
dono que vai atrás de sua propriedade. Pensar que uma verdadeira ovelha
44

de Jesus possa perder a salvação é duvidar da capacidade que Jesus tem


de pastorear suas ovelhas. Ele pode até permitir que ela se desvie, talvez
para que aprenda com isso, mas não permitirá que se perca para sempre.
Jesus falou a respeito de suas ovelhas: “

As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me se-


guem. Eu lhes dou a vida eterna; ________ perecerão, e ninguém as ar-
rebatará da minha mão” (Jo 10.27-28).

Portanto, quando alguém é um verdadeiro filho de Deus, ou uma


verdadeira ovelha de Jesus, o máximo que pode acontecer é se desviar
temporariamente do caminho do Senhor, porém, mais cedo ou mais tar-
de, retornará. E quando retornar provará que sempre foi crente.
Porém, o mesmo João que relatou estas palavras de Jesus falou de
alguns que se afastaram definitivamente dos caminhos de Deus:

“Eles saíram de nosso meio; entretanto, ______ eram dos nossos;


porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; to-
davia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos
nossos” (1Jo 2.19).

Quem se afasta definitivamente do caminho é porque nunca es-


teve realmente no caminho. Chamamos de desvio definitivo “apostasia”.
Um apóstata jamais foi um verdadeiro convertido, não importa o quanto
parecesse isso.
Talvez dois episódios bem simples nos ajudem a entender toda
esta história. Dois homens que estavam entre os discípulos de Jesus pe-
caram contra o Mestre e se afastaram dele, mas um retornou e o outro
não. Estamos falando de Pedro e de Judas. Suas histórias podem nos aju-
dar a entender o que significa “desvio temporário” e “apostasia”. Um filho
pode se desviar, mas não apostatará. Pedro negou a Jesus três vezes. Seu
pecado foi tão sério quanto o de Judas que entregou Jesus. Após o peca-
do, ambos parecem se arrepender do que fizeram. Lucas diz que “então,
Pedro, saindo dali, chorou amargamente” (Lc 22.62). E Mateus relata o
que aconteceu com Judas: “Então, Judas, o que o traiu, vendo que Jesus
fora condenado, tocado de remorso, devolveu as trinta moedas de prata
aos principais sacerdotes e aos anciãos, dizendo: Pequei, traindo sangue
inocente. Eles, porém, responderam: Que nos importa? Isso é contigo.
45

Então, Judas, atirando para o santuário as moedas de prata, retirou-se e


foi enforcar-se” (Mt 27.3-5). Ambos pecaram e ambos se arrependeram
do que fizeram, mas só um teve esperança de ser perdoado e retornou.
O filho sempre volta à casa do Pai. Judas não teve esperança de salvação
e se afastou definitivamente de Deus, demonstrando que jamais foi um
verdadeiro filho. Pedro voltou, e ao voltar, provou que era um verdadeiro
discípulo. O verdadeiro filho sempre retorna à casa do Pai.
Portanto, podemos ter certeza da salvação. Não é uma atitude de
orgulho dizer: “se eu morresse hoje iria para o céu”, justamente porque
isto não é dito do seguinte modo: “Eu vou para o céu porque eu mereço”.
Ao contrário, é dito: “Eu vou para céu mesmo sem merecer, pois, Jesus
Cristo que morreu pelos meus pecados, me concedeu o dom da fé e me
deu a vida eterna”. Amém.

Questionário de revisão

1 - O que precisamos fazer para sermos salvos?

a) ( ) Crer em Jesus.
b) ( ) Fazer boas obras.
c) ( ) Congregar em uma Igreja.
d) ( ) Conhecer a Palavra da de Deus.

2 - O que a verdadeira fé produz?

a) ( ) Dom de cura.
b) ( ) Boas obras.
c) ( ) Vocação pastoral.
d) ( ) Possibilidade de bênçãos materiais.

3 - Quais são os elementos que nos dão certeza da salvação?

a) ( ) Possuir os dons do Espírito, possuir os frutos do Espírito e


realizar boas obras.
b) ( ) Ser batizado, participar da Ceia do Senhor e manter a santi-
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dade.
c) ( ) A fé em Jesus, o testemunho interno do Espírito Santo e a
evidência das obras realizadas pela fé e no poder do Espírito.
d) ( ) O amor ao próximo, a fidelidade nas Escrituras, conheci-
mento teológico.

4 - Alguém verdadeiramente salvo pode perder a salvação?

a) ( ) Sim. No caso dele se desviar do caminho de Deus.


b) ( ) Não. Pois Deus é imutável, e possibilitará que seu filho perse-
vere até o final.
c) ( ) Depende da maneira de viver do crente.
d) ( ) A Escritura é omissa sobre essa possibilidade.

5 - É possível ter certeza da salvação?

a) ( ) Sim. Mas não por méritos, antes por causa de Cristo.


b) ( ) Ninguém pode ter essa certeza.
c) ( ) Sim, desde que já se livrou dos vícios.
d) ( ) Todas estão erradas.

Indicação de leituras adicionais

• As Doutrinas da Maravilhosa Graça – M. Horton – Ed. Cultura


Cristã, 2003 - Cap. 10 – Sem Causas Perdidas.
• Razão da Esperança – L. A. Lima – Ed. Cultura Cristã, 2006 –
Cap. 32 – A Bênção da Perseverança.
• Entenda a Fé Cristã – W. Grudem – Ed. Vida Nova, 2015 – Cap.
15 – O quê é a santificação e a perseverança?
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5. A SALVAÇÃO É SOMENTE PELA GRAÇA

Algo que sempre inquieta os novos convertidos é a relação entre


Graça e Lei, que às vezes é compreendida como sendo a relação entre o
Antigo e o Novo Testamento. Às vezes se diz que no Antigo Testamento
as pessoas eram salvas através da obediência da Lei, enquanto que no
Novo Testamento, a Lei foi abolida e a salvação é somente pela graça.
Algumas seitas e igrejas continuam pregando o uso da lei e de costumes
para o cristão, como a observância do Sábado, ou a proibição de certos
alimentos. Enquanto outras dizem que a Lei já não tem qualquer função
para o crente. Este é um assunto um tanto complexo, mas de grande im-
portância para o discipulado cristão reformado.

I. De graça

Percebemos que o movimento evangélico moderno não conse-


guiu se libertar das práticas do ascetismo e do legalismo. Isso pode ser
visto pela ênfase de certas denominações sobre o vestuário, abstinência
de entretenimentos, bem como de comidas e bebidas, ou na exigência à
observação de certos ritos referentes ao batismo, a santa ceia, ou ao sába-
do, como necessários para a salvação. Isto tudo certamente deve-se à falta
de entendimento bíblico de como funciona a salvação. O Apóstolo Paulo
diz:

“Pela __________sois salvos, mediante a _______, e isso não vem de


vós é _________de Deus” (Ef 2.8).

Qual é a função então das obras? O mesmo texto diz que a sal-
vação é dom de Deus e “não de obras, para que ninguém se glorie”, e
acrescenta: “pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas
obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”
(Ef 2.9-10). Então, não somos salvos por causa das boas obras, antes por
causa da graça de Deus, mediante a fé na obra redentora de Cristo, mas
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somos salvos para boas obras, e por isso elas são importantes, porque
são a evidência de que somos salvos. São os frutos da regeneração e da
verdadeira conversão.
No texto já estudado de Romanos 3.23-24, Paulo enfatiza que a
salvação é pela graça: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,
sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção
que há em Cristo Jesus”. A frase é praticamente uma redundância. Paulo
quer eliminar completamente a ideia de merecimento ou troca. Não fa-
zemos uma troca com Deus. Não oferecemos a ele nossa fé, e em troca
ele nos dá a salvação. Tudo o que acontece com relação a nossa salvação é
regido pela palavra “gratuitamente”. Alguém pode oferecer algo valiosís-
simo e dizer que não precisamos pagar nada, mas se alguém lhe oferecer
um centavo e ele aceitar, já não é mais de graça; pode ser muito barato,
mas não é de graça. Para ser de graça, não podemos dar absolutamente
nada em troca. Dissemos que o que alguém precisa fazer para receber
a salvação é crer. Mas nem mesmo a fé pode ser considerada uma obra
minha, ou então, ela seria uma espécie de pagamento. Quando Paulo diz
em Efésios 2.8: “E isto não vem de vós, é dom de Deus”. Ele está dizendo
que todo o “conjunto” da salvação é um dom de Deus, inclusive a fé.
Disso decorre que seremos salvos pela graça, ou não seremos salvos de
maneira alguma.

II. O papel da lei

Deus sempre teve um mesmo jeito de salvar os pecadores. A sal-


vação em ambos os testamentos é pela graça. A lei teve e tem um papel
importante no esquema de salvação divino, mas jamais foi o instrumen-
to de Deus para salvação. Quando Deus revelou sua Lei no Sinai, estava
revelando ao homem a sua vontade que resumia tudo o que era bom,
perfeito e agradável. Mas o simples fato de Deus ter revelado juntamente
com a Lei moral, também a Lei cerimonial, cujo significado central era a
expiação, já demonstrava que a salvação não era pela rígida observância
dos mandamentos. Quando Deus estabeleceu o sistema de sacrifícios,
onde animais eram sacrificados para expiar o pecado dos homens, dei-
xou bem claro que a salvação sempre foi e sempre será pela graça. So-
mente a graça de Deus poderia aceitar que um animal fosse sacrificado
no lugar do homem, isentando o homem de pagar com sua vida por seus
pecados. Por isso, Jesus é chamado no Novo Testamento de “o cordeiro
49

de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Porque ele realizou de-
finitivamente o que aqueles cordeiros do Antigo Testamento realizavam
apenas temporariamente.
Na teologia reformada costuma-se falar em três usos da Lei. O
uso fundamental é como preparação para salvação. Paulo fala da Lei
como sendo um “aio”. Ele diz:

“Mas, antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei e nela en-
cerrados, para essa fé que, de futuro, haveria de revelar-se. De maneira
que a lei nos serviu de aio para nos _________ a Cristo, a fim de que
fôssemos justificados por fé. Mas, tendo vindo a fé, já não permanecemos
______________ ao aio” (Gl 3.23-25).

Nesse sentido a Lei funciona como preparação para salvação. Ela


é responsável pelo convencimento do pecado, pois, aponta para nossas
falhas (Rm 3.20). A função da Lei é nos levar a Cristo, pois ela mostra que
sem Cristo estamos condenados por causa de nossos pecados. Na verda-
de, Paulo diz claramente que a Lei não poderia estar contra a promessa
da graça, pois,

“uma aliança já anteriormente confirmada por Deus, a ___, que veio


quatrocentos e trinta anos depois, não a pode ab-rogar, de forma que
venha a __________ a promessa” (Gl 3.17).

Paulo está simplesmente dizendo que quando Deus estabeleceu a


aliança com Abraão, prometeu que o salvaria pela fé. Então, a lei mosaica
que foi dada no Sinai 430 anos depois não pode invalidar aquela promes-
sa. Segue-se, portanto, que a Lei não é uma concorrente da graça, na ver-
dade, ela é um dos elementos da Aliança da Graça. Ela foi acrescentada à
Aliança da Graça para cumprir uma função bem específica: “Qual, pois,
a razão de ser da lei? Foi adicionada por causa das transgressões, até que
viesse o descendente a quem se fez a promessa” (Gl 3.19). Esta, portanto,
é a função específica que a Lei cumpre dentro da Aliança da Graça. Ela
revela nossas transgressões e nos prepara para Cristo.
A lei ainda serve como um “fator de contenção”. Esse uso da Lei é
chamado de “uso político ou civil”. Nesse sentido a Lei atende ao propó-
sito de restringir o pecado e promover a justiça. Ela age como refreadora
do pecado dos homens. Ela inspira a formação das próprias leis gerais
50

que regem a maioria das nações do mundo, e age no interior das pessoas,
sob a forma da “consciência” impedindo que os homens pequem tanto
quanto poderiam pecar (Rm 2.15). E finalmente há também o terceiro
uso da lei que é como “instrumento de santificação”. Nesse sentido ela é a
norma de vida para os crentes, um fator de contribuição para a santifica-
ção. É claro que, nesse sentido, em nada ela contribuiria para a salvação,
mas quem já está salvo pode fazer uso da Lei de Deus para se aperfeiçoar
cada vez mais no caminho da santidade.
O que precisa ficar claro desses três usos propostos para a Lei é
que a salvação é um dom de Deus. A Lei serve ou para conduzir a Cristo,
ou para ajudar quem já está em Cristo. Mas, é Cristo que salva, e somente
ele. Entendendo que a função da lei não é, nem nunca foi salvar, Paulo
repreende os crentes da Galácia por estarem usando a Lei indevidamen-
te. Com sua ênfase na necessidade da circuncisão, eles estavam fazendo
da lei o instrumento da salvação. Por esse motivo Paulo fala: “Eu, Paulo,
vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aprovei-
tará” (Gl 5.2). De fato, se quisessem ser salvos pela Lei, não haveria a
necessidade de Cristo. Teriam que guardar toda a Lei e não tropeçar em
nenhum ponto (Tg 2.10). Nesse sentido realmente era ou a Lei ou Cristo,
pois, no sentido de salvação, Cristo é o:

“fim da Lei para justiça de todo o que ____” (Rm 10.4). Nunca foi
intenção de Deus salvar alguém pela Lei.

Segundo Paulo, a justificação pela fé confirma a própria lei:

“Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes,


__________ a lei” (Rm 3.31).

Portanto, para Paulo, o propósito da lei e a justificação pela fé


não são coisas contraditórias, mas complementares. A Lei não é algo que
está necessariamente contra a graça. No propósito de Deus, a Lei é um
aspecto da graça. Ela só se torna um empecilho para a graça, quando as
pessoas fazem um mau uso dela, tentando ser salvos através dela, como
era o caso dos fariseus e do próprio Paulo antes de se encontrar com o
Senhor.
51

III. Usos e costumes

Quanto à questão dos usos e costumes precisamos entender que,


de acordo com a Escritura, tudo que possa desviar a atenção das pessoas
do Senhor Jesus como único e suficiente Salvador, não provém de Deus,
e por mais que tenha uma aparência de piedade, religiosidade ou boa-in-
tenção, deve ser considerado como mundano, perverso e demoníaco. A
circuncisão conforme era exigida pelos judaizantes dos dias de Paulo se
tornava um costume maléfico que afastava as pessoas da graça de Deus
(Gl 5.1-4). E o mesmo pode ser dito a respeito dos demais costumes exi-
gidos por tantas denominações, como o uso de roupas específicas, comi-
das específicas e a própria observância do Sábado.
Paulo escreveu aos Colossenses:

“Ninguém, pois, vos _______ por causa de comida e bebida, ou dia de


festa, ou lua nova, ou sábados” (Cl 2.16).

Parece que os crentes de Colossos estavam sendo assediados por


algumas pessoas que estavam se esquecendo da centralidade absoluta de
Cristo, e estavam exigindo outras práticas para confirmarem a salvação.
Paulo fala dessas pessoas como tendo “raciocínios falazes” (Cl 2.4), e
como sendo portadoras de uma filosofia cheia de vãs sutilezas, que eram
“segundo a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e
não segundo Cristo” (Cl 2.8). Mas, o que estas pessoas ensinavam de tão
ruim? Podemos entender da carta aos Colossenses que estas pessoas en-
sinavam que os crentes deveriam observar certas práticas, sem as quais,
segundo elas, não poderiam ser salvos. Entre as muitas coisas exigidas es-
tava a abstinência de alimentos, a participação em cerimônias religiosas,
a observação dos sábados (Cl 2.16), e muitas outras práticas que Paulo
não relata detalhadamente (Cl 2.21). O grande problema destas práticas
é que elas eram “sombras” do passado, ou seja, que tinham sido abolidas
com a vinda de Jesus (Cl 2.17). Assim, transformavam-se em obras hu-
manas que queriam complementar a Obra de Cristo. Por isso o Apóstolo
Paulo escreveu para os Colossenses explicando o valor infinito e suficien-
te da Pessoa e da Obra de Cristo o qual “é a imagem do Deus invisível” (Cl
1.15), em quem “reside toda plenitude” (Cl 1.19), e onde “todos os tesou-
ros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Cl 2.3). O Apóstolo
incentiva os cristãos de Colossos a “como recebestes Cristo Jesus, o Se-
52

nhor, assim andai nele” (Cl 2.6), não se deixando enredar pelas mentiras
e invenções dos homens. E principalmente não se deixando desviar da
pessoa de Jesus como “único” e “suficiente” Salvador.
Será que Deus está preocupado com o nosso vestuário? Num as-
pecto sim, porque Deus não deseja que seus filhos utilizem roupas que
ofendam seus próprios corpos. Mas será que Deus está preocupado até
com o corte da roupa que usamos? Quando surgiu o movimento pente-
costal, colocava-se muita ênfase no fato de que as mulheres não podiam
usar calças e nem cortar o cabelo. Hoje, poucas igrejas ainda seguem
estes princípios, e ao deixarem de fazer isto reconheceram que estavam
erradas. Não obstante, afirmaram isto por toda uma geração e muitas
mulheres viveram toda uma vida sob este pesado jugo desnecessário.
Este costume se baseava numa lei do Deuteronômio: “A mulher não usa-
rá roupa de homem, nem o homem, veste peculiar à mulher; porque
qualquer que faz tais coisas é abominável ao SENHOR, teu Deus” (Dt
22.5). Então se convencionou que “saia” era veste de mulher, enquanto
que calça era veste de homem.
É importante lembrar que a Bíblia não faz esta afirmação, e que
os homens daquela época usavam turbantes. Além disso é preciso enten-
der que esta era uma lei aplicada para uma determinada época, e junto
com ela havia centenas de outras leis. Mas os pentecostais resolveram
fazer esta lei valer para hoje, enquanto que deixaram de lado as outras
centenas.
A questão do não cortar cabelo foi uma outra distorção de um
texto onde Paulo diz, mais uma vez dentro do contexto de sua própria
época, que cabelo comprido é mais digno para a mulher (1Co 11.14-15).
Mas Paulo não proibiu a mulher de cortar o cabelo. O objetivo da Escri-
tura com essas duas exigências antigas era bastante simples: que o ho-
mem agisse como homem e a mulher como mulher, ou seja, que os pa-
péis não se invertessem. Em Corinto, as mulheres queriam abolir o véu,
porque achavam que isso as limitava, e elas queriam ser independentes.
Paulo as obrigou a usar o véu porque ele simbolizava naquela sociedade
que uma mulher era casada e estava debaixo da direção do marido. Essas
leis e costumes antigos tinham o mesmo propósito: manter a devida or-
dem do lar, segundo Deus estabeleceu, e que essa ordem permanecesse
na igreja também.
A proibição de certos alimentos também fazia parte das leis ju-
daicas. O judeu não podia comer carne de porco, nem beber sangue,
53

nem comer diversos tipos de peixes e pássaros. Só podia haver duas ra-
zões para estas proibições no Antigo Testamento. A primeira talvez fosse
por questões de higiene. E a segunda, e mais provável, por questão de
separação, ou seja, diferenciação com outros povos que comiam aqueles
alimentos. Deus desejava um povo separado e diferente. Mas nada disso
continua tendo valor no Novo Testamento, pois a Igreja já não é nacio-
nal, e sim internacional. Jesus mesmo fez questão de dizer que todos os
alimentos estavam liberados. Ele disse:

“Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o


pode __________, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai
para lugar escuso? E, assim, considerou ele _______ todos os alimentos”
(Mc 7.18-19).

Claro que ainda permanece a contraindicação da glutonaria (Gl


5.21).
Com relação à guarda do Sábado, entramos num assunto um
pouco mais complexo. O Sábado é o quarto mandamento de Israel. Os
mandamentos da Lei moral de Deus valem para sempre, muito embora
não têm poder de salvação, pois esse não era o objetivo deles. Mas então
será que, como dizem os sabatistas, a Igreja mudou a Lei de Deus ao esta-
belecer o Domingo no lugar do Sábado? Nossa resposta é que se alguém
fez isto foram os próprios Apóstolos seguindo a Jesus. Mas não é que a
Lei foi mudada, pois o princípio do “Seis dias trabalharás e farás toda a
tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR” (Ex 20.9-10), não é
mudado com a guarda do Domingo, pois continua sendo um dia de des-
canso e seis de trabalho.
A Igreja Primitiva entendeu que o Domingo era o dia do Senhor
por causa da ressurreição de Cristo, acontecida no “primeiro dia da se-
mana” (Jo 20.1, 19). É interessante que, depois da ressurreição, a próxima
aparição de Jesus aos discípulos é novamente no “primeiro dia da se-
mana” (Jo 20.26). O Sábado desfruta de uma atenção imensa no Antigo
Testamento, mas não há nenhuma ordem no Novo Testamento para os
cristãos guardarem o Sábado e nem qualquer descrição de que eles este-
jam fazendo isto após a ressurreição de Cristo. A única menção explícita
a “sábados” como algo a ser observado nas epístolas do Novo Testamento
diz: “Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de
festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das
54

coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo (Cl 2.16-17). Paulo
está dizendo que as instituições sabáticas do Antigo Testamento, que por
certo incluíam os anos sabáticos, estavam abolidas com Cristo. Porém,
essas instituições derivavam diretamente do conceito de Sábado como
o sétimo dia. Concluímos que o “Sábado” do AT era uma sombra de
Cristo, um prenúncio dele, que apontava para o verdadeiro descanso que
Cristo veio providenciar. Por esse motivo, o autor aos Hebreus dá o Sába-
do como cumprido quando diz:

“Nós, porém, que cremos, entramos no _________” (Hb 4.3).

Quando Paulo procura às sinagogas dos judeus no Sábado para


lhes falar é pelo simples fato de que neste dia os encontraria reunidos,
mas não há qualquer menção de que ele esteja guardando o Sábado (At
13.14,42,44). Não obstante os cultos e cerimônias cristãs acontecem, ao
longo do livro de Atos, no “primeiro dia da semana”, conforme Lucas
relata: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de
partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os
e prolongou o discurso até à meia-noite” (At 20.7). Nesta ocasião estava
acontecendo um culto com pregação e Santa Ceia, e era um Domingo,
o primeiro dia da semana. As ofertas também deveriam ser entregues
neste dia:

“Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às


igrejas da Galácia. No _________ dia da semana, cada um de vós ponha
de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que
se não façam coletas quando eu for” (1Co 16.1-2).

Quando João escreveu o Apocalipse, já tinha a própria consciên-


cia da existência do “dia do Senhor” que é a tradução da palavra “Do-
mingo” (Ap 1.10). Portanto há suficiente base para dizer que o Domingo
foi sendo estabelecido gradualmente a partir do Novo Testamento como
o dia do Senhor. Ainda é preciso dizer que o cristão não deve guardar
o Domingo com o sentimento de legalismo que os fariseus guardavam
o Sábado. Jesus disse para eles: “O sábado foi estabelecido por causa do
homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2.27). O dia de des-
canso não é um dia de escravidão e sim de gozo e alegria na presença do
Senhor.
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IV. A graça educadora

É importante relembrar mais uma vez que quando dizemos que a


salvação é “pela graça” ou simplesmente “de graça”, não estamos dizendo
que alguém será salvo sem experimentar uma verdadeira transformação
de vida. Estamos apenas querendo negar que esta transformação seja for-
çada por legalismo. A pura e simples observância de mandamentos não
pode agradar a Deus, pois alguém pode obedecer a Lei apenas porque
tem medo de ser punido. A verdadeira religião precisa brotar do coração.
Um dos textos paulinos mais esclarecedores sobre o significado
da graça é Tito 2.11-13:

“Porquanto a graça de Deus se manifestou ____________a todos os


homens, _______________para que, renegadas a impiedade e as paixões
mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente,
aguardando a bendita esperança e a _______________da glória do gran-
de Deus e Salvador Cristo Jesus”.

Este texto estabelece que a graça transformará a vida de uma pes-


soa de um modo gradual e constante. A graça não apenas salva, mas tam-
bém transforma.
Paulo fala de uma “manifestação da graça”. A manifestação da
graça aponta em dois sentidos: 1) Para a vinda de Jesus: Encarnação – Sa-
crifício – Ressurreição. 2) Para o momento do chamado em nossa vida:
conversão – das trevas para luz. A graça de Deus é um maravilhoso pre-
sente para nossa vida. Ela veio para mudar a nossa condição. Isso nos fala
que o verdadeiro problema do homem é o pecado e sua necessidade é de
salvação.
Paulo fala também sobre o poder educador da graça. É um fato
mais do que consumado que não conseguimos mudar nossos hábitos. A
religião do legalismo oprime as pessoas, mas não as transforma. Educa-
ção é um processo que pode levar tempo e é preciso persistência. Quando
Paulo diz que a função da graça é “educar” está usando um termo utiliza-
do para o acompanhamento das crianças. A palavra sugere uma educa-
ção continuada e suave, não algo repentino ou abrupto. Ou seja, segundo
Paulo, a graça se manifestou para salvar, e ela faz isso instantaneamente,
porém, inicia um processo de educação que se estende por toda a vida.
56

O processo de educação contempla elementos negativos e po-


sitivos. Negativamente ela educa para que certas coisas sejam deixadas
para trás, sejam renegadas ou rechaçadas. Paulo fala de duas coisas bem
generalizadas que devem ser rechaçadas: a impiedade e as paixões mun-
danas. Essas palavras representam tudo aquilo que é humanamente con-
trário à vontade de Deus, apontando para o modo comum como o ser
humano vive sem ter sido alcançado pela graça de Deus. Impiedade e
paixões mundanas podem ter graus de variação de pessoa para pessoa,
mas marcam a vida de todos aqueles que não foram educados pela graça.
Podemos dizer que elas são o resumo de todas as práticas pecamino-
sas que são próprias deste mundo decaído. Quando a graça salvadora
se manifesta na vida de uma pessoa, ela vai pacientemente educar para
que a vida da natureza decaída seja abandonada. E no lugar dessas coi-
sas, ela vai colocar outras. A graça, segundo Paulo, nos ajudará para que
“vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente”. A expres-
são “presente século” aponta para o mundo atual decaído. Tudo neste
mundo atual pressiona as pessoas para que vivam de forma impiedosa e
satisfaçam suas paixões mundanas. Mas a graça colocará no lugar destas
coisas a sensatez, a justiça e a piedade.
Não devemos deixar o legalismo ditar o ritmo da nossa fé. Somos
salvos pela graça de Deus, e esta graça é a provisão de Deus tanto para a
salvação quanto para a transformação. Usos e costumes são coisas supér-
fluas, retrógradas da perspectiva bíblica, que não conduzem a uma ver-
dadeira vida de piedade, mas apenas à superficialidade e ao orgulho. A
graça de Deus nos salva e nos faz ter uma vida verdadeiramente piedosa
e humilde.

Questionário de revisão

1 - Quanto custa a salvação para o homem?

a) ( ) A salvação é gratuita. É um dom de Deus.


b) ( ) As boas obras devem ser levadas em consideração, pois fa-
zem parte do preço.
c) ( ) Custa apenas crer em Deus. Essa é a única obra humana.
d) ( ) Custa amar a Deus sobre todas as coisas.
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2 - Quanto custou a salvação dos homens para Deus?

a) ( ) Custou a vida do seu único Filho Jesus Cristo.


b) ( ) Custou todas as obras oferecidas a Deus.
c) ( ) Custou a morte de vários profetas e apóstolos.
d) ( ) Todas as alternativas estão corretas.

3 - A bíblia ainda proíbe o consumo de certos alimentos?

a) ( ) Sim. Para fazer a separação dos verdadeiros crentes.


b) ( ) O NT não aboliu os alimentos proibidos no AT.
c) ( ) Não. Jesus considerou puros todos os alimentos.
d) ( ) Sim. Alguns alimentos foram abolidos e outros não.

4 - Que Dia os cristãos assimilaram como o dia de descanso e culto?

a) ( ) Somente o Sábado.
b) ( ) Alguns Cristãos consideram o Sábado e outros o Domingo.
c) ( ) Para os Cristãos todos os dias da semana são santos.
d) ( ) O Domingo.

5 - O que significa para os cristãos as práticas dos costumes do AT?

a) ( ) Fidelidade à Escritura.
b) ( ) Manter a santidade.
c) ( ) “Sombras” do passado.
d) ( ) Todas estão certas.

Indicação de leituras adicionais

• Salvos pela Graça – Anthony Hoekema – Ed. Cultura Cristã,


2011.
• A Soberania Banida – M. Wrigth – Ed. Cultura Cristã, 1998 –
Cap. 5 – A Salvação como a Escolha de Deus: Tudo é pela Graça.
• Deus o Pai, Deus o Filho – M. Lloyd-Jones – PES, 1997 – Caps. 20
e 21 – O Pacto da Graça no Antigo e Novo Testamento.
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6. DOS ÍDOLOS PARA DEUS

Qual é o primeiro mandamento? Geralmente as pessoas dizem


que é: “Amar a Deus acima de todas as coisas”. De fato, “amar a Deus
acima de todas as coisas” (e ao próximo como a si mesmo) é o resumo do
que se exige em todos os mandamentos. Mas o primeiro mandamento,
conforme ele foi revelado por Deus a Moisés no Monte Sinai, dizia: “Não
terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3). A principal preocupação
do primeiro mandamento, portanto, é a idolatria. E o segundo manda-
mento define e expande esta ideia para o culto: “Não farás para ti ima-
gem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus,
nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás,
nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso,
que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração
daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daque-
les que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex 20.4-6).
É, portanto, bastante sugestivo que o primeiro e o segundo man-
damentos tratem especificamente da idolatria. Mas não pensemos que
apenas eles fazem isso. Em toda a Bíblia há centenas de alertas e proi-
bições contra a idolatria, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.
Israel entendeu que a expressão que resumia toda a religião do Antigo
Testamento era: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SE-
NHOR” (Dt 6.4). Isso significa que, qualquer coisa, objeto ou pessoa, que
se tornem “rivais” para nós, em relação a Deus, tornam-se idolatria.

I. O único mediador

É sobremodo estranho encontrar toda esta ênfase bíblica a res-


peito do culto e da adoração que deve ser rendida somente ao Senhor e
ver uma parte tão grande do cristianismo mundial cultuando, adorando
e venerando todo tipo de imagens de escultura ou pessoas. No Brasil, es-
pecialmente, a religiosidade popular se polariza no culto às imagens, em
59

promessas e orações a Santos, e principalmente na veneração à Virgem


Maria e suas supostas aparições. Será que estas coisas têm base bíblica?
Evidentemente que não. O culto às imagens e especialmente à Virgem,
provavelmente surgiu do sincretismo entre a Igreja Medieval e as reli-
giões pagãs. Na cristianização do Império Romano, a qual se deu não por
evangelização, mas por decreto imperial, os deuses pagãos foram assu-
mindo a forma de personagens bíblicos e cristãos, e cultuados através de
outros nomes. A “deusa” era adorada em quase todos os países do mundo
antigo, assumindo diversos nomes diferentes. Era Ísis, Cibele, Astarote,
Diana, etc. Representava o sagrado feminino, a terra, a fertilidade. O ca-
tolicismo utilizou a imagem de Maria para que os pagãos esquecessem
sua deusa, e também se valeu dos outros santos para que os deuses me-
nores fossem abandonados. Isso aconteceu recentemente aqui mesmo no
Brasil. Os escravos vindos da África, ao serem catequizados pelos padres
jesuítas, aprenderam a identificar suas divindades do candomblé africano
através de cognomes cristãos. Assim, Iemanjá, a mãe dos Orixás foi ado-
rada com o nome de “Nossa Senhora da Conceição”, uma das manifes-
tações católicas da Virgem Maria; Iansã foi chamada de “Santa Bárbara”;
Xangô foi chamado de São Jerônimo ou São João; Ogum foi chamado de
Santo Antônio e São Jorge; Oxalá, a divindade que criou a humanidade,
equivale a Jesus Cristo. Cerca de 16 divindades africanas foram identifi-
cadas com santos católicos.
É preciso entender que na religião católica a Bíblia não é a única
fonte de autoridade para assuntos teológicos. A Igreja Romana admite
três fontes de autoridade: A Bíblia, a Tradição e o pronunciamento do
Papa e dos Concílios. O culto às imagens se originou a partir da autori-
dade da tradição, dos papas e dos concílios, e não da Bíblia. Esta questão
da autoridade tríplice foi justamente uma das principais motivações para
a Reforma Protestante do Século 16. O movimento da Reforma rejeitou
qualquer outra fonte de autoridade além da Escritura. A primeira grande
afirmação da Reforma foi o “Só a Escritura”. Por esta razão a Igreja Refor-
mada aboliu o culto ou veneração de imagens.
A Bíblia terminantemente rejeita toda e qualquer ideia de culto a
santos e a imagens. A grande afirmação da Bíblia é que além da Trindade,
ninguém mais deve ser adorado ou invocado. Paulo escreveu:

“Porquanto há um só Deus e um só ___________ entre Deus e os ho-


mens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5).
60

A função de Mediador é justamente a de fazer a ligação entre os


homens e Deus. Paulo enfatiza que há somente um que pode fazer isto:
Jesus Cristo. Isso já demonstra a completa inutilidade que é fazer orações
ou pedidos a santos. Eles não têm o poder de interceder diante de Deus,
pois somente Jesus Cristo é o Mediador, ele é o nosso único intercessor
(Hb 7.25; 1Jo 2.1). Paulo que escreveu estas palavras jamais pensaria em
si mesmo como um mediador. E Pedro também não, pois ele pregou em
um de seus primeiros sermões:

“E não há salvação em _________________; porque abaixo do céu


não existe nenhum ______________, dado entre os homens, pelo qual
importa que sejamos ____________” (At 4.12).

Isto demonstra a tolice que é invocar o nome de algum santo,


pois há somente um nome que foi dado aos homens. Por isso a oração
somente deve ser feita em nome de Jesus (Jo 15.16). Essas palavras de
Paulo e Pedro apenas confirmam as palavras do próprio Jesus: “Respon-
deu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao
Pai senão por mim” (Jo 14.6). Nenhum santo pode conduzir as pessoas
ou seus pedidos a Deus. Esta é uma prerrogativa exclusiva de Jesus, o
nosso único e suficiente salvador e mediador. Sempre que as pessoas in-
vocam o nome de santos ou lhes prestam homenagens estão quebrando
o primeiro e o segundo mandamento, e desagradando o Deus triúno que
disse:

“Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois,


_______________ a outrem, nem a minha honra, às ______________
de escultura” (Is 42.8).

O Apóstolo Pedro deu seu exemplo pessoal de que rejeitava ho-


menagens feitas para si mesmo. Quando Deus o chamou para pregar o
Evangelho à casa de Cornélio, algo estranho aconteceu, conforme Lucas
relata: “No dia imediato, entrou em Cesaréia. Cornélio estava esperando
por eles, tendo reunido seus parentes e amigos íntimos. Aconteceu que,
indo Pedro a entrar, lhe saiu Cornélio ao encontro e, prostrando-se-lhe
aos pés, o adorou. Mas Pedro o levantou, dizendo: Ergue-te, que eu tam-
bém sou homem” (At 10.24-26). Diante disso, como se sentiria o “São
Pedro” se visse toda a adoração e culto que são oferecidos a ele hoje?
61

Os anjos também recusaram este tipo de homenagem na Bíblia. Quando


João recebeu toda a revelação do Apocalipse pela mão de um anjo, ele
relata o que tentou fazer, e o que o anjo lhe ordenou: “Eu, João, sou quem
ouviu e viu estas coisas. E, quando as ouvi e vi, prostrei-me ante os pés
do anjo que me mostrou essas coisas, para adorá-lo. Então, ele me disse:
Vê, não faças isso; eu sou conservo teu, dos teus irmãos, os profetas, e dos
que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus” (Ap 22.8-9). Segundo
o anjo, e também segundo Jesus (Mt 4.10), ninguém além de Deus deve
receber adoração. Ponto final.

II. A Virgem Maria

Mas e quanto a Maria? Tem ela o status de corredentora que o


catolicismo lhe confere, e pode ser cultuada? Se mantivermos a Bíblia
como única fonte de autoridade teremos que dizer que não. Porém, a
Bíblia zela pela pessoa de Maria e não autoriza que sua figura seja dene-
grida. Maria foi escolhida por Deus dentre todas as mulheres para gerar
a vida humana do Filho de Deus. Quando o anjo se apresentou a Maria,
sua saudação foi: “Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo” (Lc
1.28). Isabel a chamou de “bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1.42), e a
própria Maria disse que a partir dali todos a chamariam de “Bem-Aven-
turada” (Lc 1.48). Quem rejeitar estas indicações bíblicas certamente está
sendo seletivo em relação à Bíblia. Jesus certamente não ficaria satisfeito
em ver pessoas menosprezando aquela que foi sua mãe terrena. Mas nada
disso faz de Maria uma corredentora. Maria reconheceu que Deus era o
salvador dela (Lc 1.47), o que equivale a dizer que ela própria precisava
de salvação.
Todos os termos e o status que o catolicismo atribuiu a Maria são
totalmente alheios à Bíblia. Em 392 d.C. pela primeira vez Maria foi de-
clarada perpetuamente virgem pelo papa Siríaco, mas somente no Concí-
lio de Trento em 1547 isso foi considerado um dogma católico, e somente
em 1854 o papa Pio IX declarou Maria totalmente livre de pecados atra-
vés de sua vida inteira. O Papa Leão XIII em 1891 na Encíclica Octo-
bri Mense declarou que ninguém pode ir ao Filho senão através da Mãe,
chamando-a de digna de todo louvor, de poderosa, mãe do todo-pode-
roso Deus. Em 1892 esse mesmo Papa na Encíclica Magnae Dei Matris
declarou: “Ela permanece sobre todas as ordens de anjos e homens, e ela
somente está próxima de Cristo”. Na Encíclica Mystici Corporis Christi
62

de 1943 o Papa Pio XII declarou que Maria foi imune de todo pecado;
ofereceu seu filho no Gólgota ao Pai; obteve o derramar do Espírito San-
to no Pentecoste; providencia cuidado materno para a Igreja; e reina nos
céus com Cristo. Em 1950 ele declarou: “Ela conquistou a morte e foi
elevada com corpo e alma para a glória dos céus, onde como Rainha rei-
na refulgente a direita de seu Filho... Nós proclamamos e definimos esse
dogma revelado por Deus que a imaculada Mãe de Deus, Maria sempre
Virgem, quando o curso de sua vida terrena se acabou, foi tomada com
corpo e alma para a glória dos céus”. Tudo isso foi confirmado pelo Con-
cílio Vaticano II.* E nada disso encontra base bíblica.
Os Evangelhos revelam que Maria teve outros filhos além de Je-
sus. Mateus 1.24-25 diz o que José fez quando soube que Maria estava
grávida pelo Espírito Santo:

“Despertado José do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor


e recebeu sua mulher. Contudo, não a conheceu, ___________ ela não
deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Jesus”.

O texto diz que José não consumou o casamento com Maria en-
quanto ela não deu à luz. A presença da expressão “enquanto”, indica que
após o nascimento eles foram um casal normal. Lucas chama Jesus de
primogênito de Maria:

“E ela deu à luz o seu filho ___________, enfaixou-o e o deitou numa


manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2.7).

A palavra “primogênito” seria totalmente desnecessária se Jesus


fosse o único filho de Maria. Mas há alguns textos que dizem explicita-
mente que Jesus tinha irmãos. Em Marcos 6 está escrito: “Tendo Jesus
partido dali, foi para a sua terra, e os seus discípulos o acompanharam.
Chegando o sábado, passou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o,
se maravilhavam, dizendo: Donde vêm a este estas coisas? Que sabedoria
é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos?
Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Si-
mão? E não vivem aqui entre nós suas irmãs? E escandalizavam-se nele”
(Mc 6.1-3). Jesus foi pregar na Sinagoga em sua própria terra e como lá

* Essas informações foram retiradas de: Paul Enns. The Moody Handbook of
Theology, Parte 4, Cap. 37).
63

as pessoas o conheciam, estranhavam que ele estivesse se apresentando


como um profeta. Eles conheciam seu pai, sua mãe, seus irmãos e irmãs.
Apesar de muitos tentarem dizer que esses “irmãos” eram na verdade pri-
mos, permanece a evidência de que o termo utilizado pelos Evangelhos é
“irmãos” e não “primos”. Além disso, a menção ao pai e a mãe juntamente
com “irmãos” citados pelos nomes evoca claramente a ideia de uma famí-
lia básica e não de primos.
No capítulo 3 de Marcos há um incidente bastante curioso envol-
vendo a família de Jesus. Era o início do ministério de Jesus, e ele estava
reunindo muita gente e contrariando os religiosos da época. Então Mar-
cos descreve a reação de seus parentes: “E, quando os parentes de Jesus
ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si. (Mc
3.21). Os parentes de Jesus não acreditavam nele no início. Mais tarde se
converteram e um dos irmãos de Jesus, Tiago, se tornou o primeiro chefe
da Igreja de Jerusalém (At 15.12-13).
Quem eram estes parentes? Ainda neste capítulo, Marcos relata:

“Nisto, chegaram sua _____ e seus ________ e, tendo ficado do lado


de fora, mandaram chamá-lo. Muita gente estava assentada ao redor dele
e lhe disseram: Olha, tua mãe, teus irmãos e irmãs estão lá fora à tua
procura. Então, ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus
irmãos? E, correndo o olhar pelos que estavam assentados ao redor, disse:
Eis minha mãe e meus irmãos. Portanto, qualquer que fizer a vontade de
Deus, esse é meu ______, irmã e _____” (Mc 3.31-35).

Jesus se recusou a conceder a sua mãe algum tipo de louvor es-


pecial. Só podemos entender que ele fez isto não porque tivesse alguma
indisposição com ela, mas para que as pessoas não tivessem razões para
o fazerem depois. Lucas relata uma situação interessante: “Ora, aconte-
ceu que, ao dizer Jesus estas palavras, uma mulher, que estava entre a
multidão, exclamou e disse-lhe: Bem-aventurada aquela que te concebeu,
e os seios que te amamentaram! Ele, porém, respondeu: Antes, bem-a-
venturados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam! (Lc 11.27-
28). Evidentemente não há qualquer atitude deselegante de Jesus com sua
mãe, apenas ele não fez questão de colocá-la no centro das atenções. Até
mesmo quando ela, inconscientemente fez isto, Jesus tratou de corrigi-
-la. Isto aconteceu no primeiro milagre de Jesus, no casamento em Caná.
João relata: “Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não
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têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ain-
da não é chegada a minha hora. Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo
o que ele vos disser” (Jo 2.3-5). É interessante que ela esteja meio que
ocupando uma função de intercessora neste ponto, e Jesus lhe diz uma
palavra que deixa claro que aquela não é a função dela. Tendo entendido,
Maria manda os serventes tratar diretamente com Jesus. Ninguém preci-
sa de intermediários para se dirigir a Jesus, nem mesmo da mãe dele.

III. O culto agradável

Muitos evangélicos acusam os católicos de idolatria sem perce-


ber que incorrem no mesmo erro, porém por vias diferentes.
O anjo disse a João: “Adora a Deus” (Ap 22.9). Desde já devemos
admitir que a idolatria, a adoração a falsos deuses ou a imagens, não é a
única distorção que irrita a Deus, mas a própria adoração ao Deus ver-
dadeiro que é feita com uma atitude errada não pode agradá-lo. Isto quer
dizer que nem toda adoração agrada a Deus, e realmente, nem poderia.
Existem coisas muito sutis que precisam ser consideradas, a fim de que
não seja oferecido “fogo estranho”, na presença do Senhor, como fizeram
Nadabe e Abiú (Lv 10.1-2). Às vezes se pensa que não há dificuldades ou
problemas com respeito à liturgia, pois tudo aquilo que oferecermos a
Deus, ele aceitará, desde que seja feito com sinceridade. Não nos ocorre
que Deus estabeleceu coisas que lhe agradam, e explicitou outras que
não lhe agradam. Se quisermos que nosso culto seja “aceitável”, precisa-
mos submetê-lo à revelação divina. Se ela (a Palavra de Deus) aprovar,
podemos ficar tranquilos e perseverar em nossa atitude. Se ela desapro-
var, humildemente devemos reconhecer diante de Deus o nosso erro, e
retornar ao princípio bíblico que Deus estabeleceu.
Mesmo quando o verdadeiro Deus é adorado, podem existir pro-
blemas que tornam esta adoração desagradável e inaceitável para ele. Isto
é o que podemos chamar de “cultuar de forma errada o Deus verdadei-
ro”. Há muitos exemplos bíblicos que elucidam bem este ponto. Existem
formas de culto que ao invés de agradar a Deus, causam sofrimento a
ele. Em Isaías 1.14, Deus disse: “As vossas solenidades, a minha alma as
aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer”. O primeiro ca-
pítulo de Isaías nos relata que chegou um momento na história de Judá,
em que o culto oferecido pelo povo já não podia ser aceito por Deus. Era
um culto que estava causando sofrimento a ele. A maior queixa de Deus
65

contra o povo é que este desobedecia contínua e abertamente a Deus,


entretanto, continuava a oferecer sacrifícios e ofertas, cultuando como se
nada tivesse acontecido, como se fosse o povo mais santo da face da terra.
Deus diz que aquilo era “abominável”, porque ele não podia “suportar
iniquidade associada ao ajuntamento solene” (Is 1.13). O povo vinha até
a presença de Deus, cultuava, mas não mudava de vida. Apresentava-se
diante de Deus coberto de pecados e sem arrependimento, pensando tal-
vez, que bastasse apenas cumprir os rituais que tudo estaria resolvido.
Era um povo muito dado à oração, pois eles “estendiam as mãos” e “mul-
tiplicavam as orações” (v. 15), não obstante, Deus disse que em hipótese
alguma as ouviria, pois eram mãos contaminadas, e certamente, orações
vazias. A vida deles não condizia com o culto que praticavam.
Um outro exemplo de culto que não pode agradar a Deus é aquele
que não leva em consideração os atos passados de Deus e não obedece
à sua Palavra. Temos um exemplo disso no livro do Êxodo capítulo 32.
Moisés estava no alto do monte Sinai diante de Deus, e o povo cansado
de esperar por ele, resolveu fazer para si dois bezerros de ouro. Então, no
alto do monte, Deus ordenou a Moisés:

“Vai desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu,
e depressa se desviou do caminho que lhes havia eu ordenado; fizeram
para si um bezerro fundido, e o __________, e lhe sacrificaram, e dizem:
São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Ex
32.7-8).

Na verdade, talvez a única coisa que o povo queria era adorar o


Deus que lhes havia tirado do Egito, mas fez isso de uma forma errada,
fundindo um bezerro de ouro, coisa que Deus havia advertido expressa-
mente que não fizesse (Ex 20.4). Quando não se presta atenção ao que a
Palavra de Deus prescreve, a tendência é inventar novas formas de adora-
ção que podem ser muito desagradáveis para Deus.
Uma maneira muito sutil de burlar a verdadeira adoração é a ten-
dência de corromper o uso de alguma coisa que por si mesma é legal, mas
que por causa do uso, se torna pecaminosa. Por exemplo, podemos citar
o uso supersticioso que Gideão fez da estola sacerdotal conforme nos
relata o texto de Juízes 8.27: “Fez Gideão uma estola sacerdotal, e a pôs na
sua cidade, em Ofra; e todo o Israel se prostituiu ali após ela; a qual veio
a ser um laço para Gideão e à sua casa”. Esta estola havia sido ordenada
66

pelo próprio Deus em Êxodo 39.1-31, entretanto, lá ela possuía um lugar


específico no culto, e deveria ser usada pelo sacerdote. O que Gideão fez,
foi usar um princípio correto de forma errada.
Também temos o caso do culto à serpente de 2Reis 18.4. A ser-
pente de bronze foi construída por Moisés por ordem do próprio Deus,
como um antídoto contra as picadas das serpentes enviadas como juízo
contra o povo, como nos relata Números 21.9. Entretanto, os israelitas
passaram a lhe queimar incenso, chamando-a de Neustã, o que certa-
mente era algo deplorável diante de Deus, e precisou ser destruída por
Ezequias. Por isso, na adoração é necessário cuidado para que coisas le-
gítimas não sejam usadas de maneira ilegítima. É sempre um risco de-
turparmos o uso correto de alguma coisa. Por exemplo, a Bíblia, ela é o
livro de Deus, dado para que as pessoas sejam edificadas por ele e conhe-
çam mais a Deus. Mas, quando as pessoas a usam de forma supersticiosa
não estão agradando a Deus. Um exemplo disso é deixar a Bíblia aberta
em algum lugar da casa com o fim de protegê-la, ou o uso das caixinhas
de promessa que não passam de um horóscopo cristão.
No texto de Malaquias 1.6-10, Deus se queixa que seu povo não o
está honrando como devia. O povo pergunta, “em quê?”, e Deus respon-
de, “na qualidade das ofertas”. O que o povo estava oferecendo no altar
do Senhor não era o melhor. Em vez de levar o animal sadio que estava
no rebanho, o povo levava o coxo, ou o cego. Então Deus diz: tente fazer
isso com o governador! É claro que o povo não levaria ao governador
uma oferta tão ruim. Então, o governador era mais importante do que
Deus. Nessa perspectiva Deus diz: “Eu não tenho prazer em vós, diz o
Senhor dos Exércitos, nem aceitarei da vossa mão a vossa oferta” (vs.
10). Um culto que não oferece aquilo que tem de melhor para Deus, não
pode de forma alguma adorá-lo. Com isso Deus não está exigindo os-
tentação ou riqueza, apenas que as pessoas o honrem como ele merece, e
não deixem de oferecer o melhor que está ao seu alcance.
Em Amós, Deus exige justiça e não sacrifícios. Ele diz:

“Aborreço, desprezo as vossas festas, e com as vossas ________________


solenes não tenho nenhum prazer... afasta de mim o estrépito dos teus
_____________; porque não ouvirei as melodias das tuas liras, antes
corra o juízo...” (5.21-24).

Em Oséias 6.6 está escrito: “Pois misericórdia quero, e não sacri-


67

fício, e o conhecimento de Deus mais do que holocaustos”. Se o povo não


consegue ser íntegro no dia-a-dia, de nada adianta se apresentar dian-
te do Senhor com louvores profissionais. Os israelitas pensavam que se
apenas cumprissem os rituais prescritos na lei, estariam fazendo tudo o
que era necessário. Mas, a resposta de Deus é devastadora: eu não su-
porto ouvir o louvor de vocês, pois eu não tenho visto mudança algu-
ma na vida de vocês. Jesus aplicou esta expressão “misericórdia quero e
não holocaustos” duas vezes no Novo Testamento (Mt 9.13; 12.7). Nas
duas vezes foi contra os fariseus que estavam preocupados demais com
os ritos externos da lei, mas, que como na expressão de Jesus, “colhiam
o mosquito e engoliam o camelo” (Mt 23.24). Para que o culto agrade a
Deus, ele deve vir acompanhado de vida justa por parte daqueles que se
apresentam para cultuar. Mas, não uma vida justa no sentido legalista
como dos fariseus, e sim uma vida que se preocupa em viver de forma
misericordiosa e correta.
Um outro tipo sutil, mas falso, é cultuar o Deus verdadeiro com
atitude errada. E esta atitude deve ser entendida muito mais como inter-
na do que externa, e por isso, esta é a forma de culto falso mais difícil de
ser identificada. Mesmo que eliminemos todas as imagens de deuses fal-
sos e nos desfaçamos de todos os modos particulares concebidos, o culto
ainda será inaceitável se a atitude do coração não for correta. O culto, ou
a adoração é a expressão máxima de fé por parte do crente, por isso, o
culto que não é prestado de todo o coração só pode ser abominável para o
Senhor. Assim, o Senhor condenou o povo de Israel pela boca do profeta
Isaías:

“Este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com os seus


lábios me honra, mas o seu coração está ______________e o seu te-
mor para comigo consiste só em mandamentos de __________ que
________________aprendeu...” (Is 29.13).

Ou seja, o que está nos lábios precisa estar no coração. A sinceri-


dade profunda de coração, aliada a um conhecimento claro e submisso
da Palavra de Deus, são necessários para que em nosso culto, não adore-
mos o verdadeiro Deus com uma atitude íntima errada, e por isso, nosso
culto fique descaracterizado dos verdadeiros elementos da adoração.
Podemos entender, portanto, que não basta o homem querer ado-
rar ao Deus verdadeiro, há maneiras corretas e outras erradas de se ado-
68

rar a Deus. Convém aprender a maneira correta. Um culto oferecido a


Deus de forma hipócrita, sem honrar a Palavra, que perverte o uso dos
elementos, que é feito de forma maquinal, que não oferece o melhor ou
que não vem acompanhado de justiça não pode agradar a Deus. Se as
pessoas entendessem realmente que Deus não se agrada de tudo o que
elas supostamente fazem em seu nome, elas se preocupariam mais em
serem obedientes a ele e a descobrir o que realmente lhe agrada, e menos
em adotar práticas e costumes que os homens inventaram, por melhores,
atrativas e práticas que pareçam. Algo que precisa ficar claro no adora-
dor é que a pessoa que precisa ser “agradada” no culto é Deus e não o
próprio adorador. A questão final é: onde podemos descobrir o que agra-
da a Deus? O único lugar confiável é a Palavra de Deus. A Bíblia é nossa
regra de fé e prática, somente nela podemos encontrar o ensino confiável
para entendermos o que agrada a Deus. Se desprezarmos a Bíblia e con-
fiarmos em nossas opiniões, certamente não estaremos honrando aquele
que inspirou a Bíblia e a entregou a nós para que fosse o meio pelo qual
teríamos conhecimento dele.

IV. Os ídolos do coração

Finalmente, deve ser entendido que nossa tendência é sempre


identificar idolatria com algum tipo de ritual ou objeto externo. Porém,
existem ídolos mais sofisticados, os ídolos do coração. E não estamos
nem mesmo pensando na idolatria grosseira que é o excesso de admira-
ção de muitos crentes por artistas evangélicos ou não, ou até mesmo por
pregadores famosos. Estamos falando daqueles ídolos íntimos, associa-
dos aos pecados “favoritos” que levamos conosco pela vida. Jesus disse
que a verdadeira contaminação que ameaçava o ser humano não era a
“de fora para dentro”, mas aquela que vinha “de dentro para fora”. Comer
sem lavar as mãos não tornava o ser humano impuro, segundo Jesus,
mas as palavras e ações originadas de sentimentos arraigados no cora-
ção davam vazão a pecados: “o que sai da boca vem do coração, e é isso
que contamina o homem. Porque do coração procedem maus desígnios,
homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfê-
mias” (Mt 15.17-19). Esses são os verdadeiros ídolos do coração. Muitos
crentes jamais se ajoelhariam diante de uma estátua, porém, se dobram
diante do adultério, da mentira, dos pensamentos impuros. Cultuam a
ira, o ressentimento, a inveja, a falsidade em seus corações. Alimentam-
69

-nos todos os dias, fazem oferendas a eles, pois jamais estão realmente
dispostos a abandoná-los. E, não apenas esses pecados são ídolos do co-
ração, mas também sentimentos de orgulho, superioridade, pensar que
somos melhores do que os outros porque fazemos algo de forma mais efi-
ciente, ou porque somos aplaudidos. Nada mexe mais com o ser humano
do que vaias ou aplausos, porque ambas essas coisas se relacionam com a
idolatria e os ídolos do coração.

Questionário de revisão

1 - Quem é o único mediador entre Deus e os homens?

a) ( ) Maria
b) ( ) Apóstolos
c) ( ) Anjos
d) ( ) Jesus Cristo

2 - Qual é o nome do primeiro líder da Igreja de Jerusalém?

a) ( ) Tiago, irmão de Jesus.


b) ( ) Apóstolo Pedro.
c) ( ) Apóstolo Paulo.
d) ( ) Apóstolo João.

3 - Qual é a forma de Culto que agrada a Deus?

a) ( ) O Culto oferecido com sinceridade de coração.


b) ( ) O Culto estabelecido nos princípios da Palavra de Deus.
c) ( ) O Culto com bastante cântico e louvor.
d) ( ) Todas as alternativas estão corretas.

4 - O que podemos chamar de “ídolos do coração”?

a) ( ) São todas as coisas que valorizamos mais do que ao SENHOR.


b) ( ) São sentimentos que depositamos às imagens de escultura.
c) ( ) É toda a contaminação que ameaça o ser humano “de dentro
70

para fora”.
d) ( ) Todas as alternativas estão corretas.

5 - Segundo a Bíblia, quem unicamente deve ser adorado ou invoca-


do?

a) ( ) A Trindade.
b) ( ) O Espírito Santo.
c) ( ) Maria, a mãe de Jesus.
d) ( ) Os santos.

Indicação de leituras adicionais

• Palavras do Fogo – A. Mohler Jr. – Ed. Cultura Cristã – Cap. 1 –


Nenhum outro Deus, Nenhuma outra Voz.
• Você se Torna Aquilo que Adora – G. K. Beale – Ed. Vida Nova,
2014.
• Deuses Falsos – T. Keller – Ed. Thomas Nelson Brasil, 2010.
71

7. QUAL É A IMPORTÂNCIA DO BATISMO?

A Escritura diz que há “um só batismo”, e que ele é um dos gran-


des símbolos da “unidade cristã”. Paulo escreve isso em Efésios 4.1-6:
“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno
da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão,
com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçan-
do-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da
paz; há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados
numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só
batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio
de todos e está em todos”.
Lamentavelmente, porém, o assunto do batismo é um dos que
mais têm dividido os cristãos ao longo dos séculos. Basicamente, as igre-
jas se dividem entre aqueles que batizam crianças e os que não batizam
crianças. Também, geralmente, esses se dividem entre os que entendem
que batizar é “imergir”, e os que pensam que é “aspergir”.
Antes de dizer qualquer coisa adicional sobre isso, é preciso escla-
recer que não temos no Novo Testamento nenhuma passagem que des-
creva de forma explícita e inequívoca “o modo como o batismo deve ser
feito”. E, do mesmo modo, não temos nenhuma passagem dizendo como
o batismo devia ser aplicado aos filhos dos convertidos, ou seja, se era
necessário esperar eles crescerem, ou se, como no caso da circuncisão,
isso devia ser feito enquanto ainda eram bebês. Portanto, nenhum dos
lados da disputa jamais conseguirá comprovar inequivocamente que seu
ponto de vista é o único certo. Isso já deveria arrefecer nossos ânimos, e
mesmo que adotemos essa ou aquela posição, deveríamos lutar para não
criar divisões no corpo de Cristo.
Neste capítulo, como reformado, explanarei o ponto de vista tra-
dicional da igreja reformada sobre o assunto, pedindo vênia aos irmãos
de outras denominações que, porventura, leiam esse manual. Caso o lei-
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tor seja membro de uma igreja evangélica fiel que batiza por imersão, eu,
como autor deste estudo, quero dizer que a Igreja Reformada aceita e re-
conhece seu batismo. A Igreja Reformada, nesse sentido, não tem a prá-
tica de rebatizar os cristãos. Esse capítulo, portanto, pode ser “pulado”
por aqueles que não estão envolvidos num momento de decisão sobre o
batismo. É, entretanto, indispensável para aqueles que estão se mudando
para alguma igreja reformada ou presbiteriana, ou que desejam enten-
der, ainda que resumidamente, os motivos pelos quais os reformados
clássicos batizam crianças, e também preferem a aspersão.

I. A importância do batismo

Quando ficamos muito preocupados com o método ou a forma


do batismo há um risco de esquecermos de sua real importância. Dis-
cussões infindáveis sobre o assunto tendem a obscurecer a bênção que o
batismo representa para o crente. Para os protestantes, o batismo é um
dos dois sacramentos instituídos por Cristo. Sacramento é o equivalente
da palavra grega ”mysterion”, significando um “sinal visível de uma graça
invisível”. A ideia de sacramento como sinal vem da própria circuncisão,
conforme Paulo explica em Romanos 4.11:

“E recebeu o sinal da circuncisão como ______ da justiça da fé que


teve quando ainda incircunciso”.

Portanto, sinal ou selo da justiça da fé é a melhor definição de


sacramento que temos.
No caso do batismo, ele é evidentemente um selo da fé. A fé não
pode ser vista, pois é uma atitude abstrata, porém, o ato do batismo pode
ser visto, e é um modo de atestar e selar essa fé. Por isso ele é tão im-
portante. Jesus estabeleceu o batismo como uma ordenança que a igreja
tinha a obrigação de realizar em sua missão: “fazei discípulos de todas
as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito San-
to” (Mt 28.19). Nenhum cristão verdadeiro, portanto, pode se recusar a
receber o batismo, ou do contrário, provaria que não é um cristão verda-
deiro. Em Marcos 16, Jesus liga o ato de receber o batismo com a própria
salvação: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.
Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será conde-
nado” (Mc 16.15-16). Evidentemente, a salvação é pela graça, mediante
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a fé, e não mediante o batismo, porém, a fé verdadeira humildemente


aceita a selo divino. Uma recusa em aceita-lo é uma negação da própria
fé.
O batismo, no Novo Testamento (e também no período intertes-
tamentário), tem a conotação de mudança de vida, um recomeço espiri-
tual, a inserção em uma nova realidade. Quando os judeus faziam prosé-
litos no período anterior à vinda de Cristo, eles os batizavam com água.
Isso significava que aquelas pessoas estavam deixando de ser “estrangei-
ras” para se tornarem “israelitas” por adoção. Nesse sentido, quando João
Batista apareceu pregando no deserto da Judeia e batizando os que iam
até ele, não estava fazendo algo radicalmente novo, uma vez que aquela
prática já acontecia há algum tempo. Porém, de certo modo, ele estava
fazendo algo novo sim. Pois ele estava chamando os próprios israelitas
a se batizarem. Era como se ele dissesse: “vocês são israelitas, mas estão
desviados da Aliança divina, então venham, arrependam-se, e mostrem
esse arrependimento através do batismo, e depois também através da
mudança de vida”. Vamos ler as palavras do Batista nesse sentido: “Então,
saíam a ter com ele Jerusalém, toda a Judeia e toda a circunvizinhança
do Jordão; e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus
pecados. Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao
batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vin-
doura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis
a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo
que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3.5-9). Portan-
to, o batismo era um sinal externo de uma decisão interna de mudar de
vida, de se tornar um verdadeiro israelita.
O banho ou ritual de purificação, portanto, representava o pu-
rificar-se dos pecados a partir de um ato de arrependimento. Era uma
atitude de abandonar as impurezas resultantes das práticas pecaminosas.
Por esse motivo, Jesus deu prosseguimento a esse ritual. Ele orien-
tou seus discípulos a batizarem judeus durante seu ministério (Jo 4.1-2),
e a batizarem gentios após sua ressurreição (Mt 28.19-20). Portanto, o
batismo é um símbolo da “entrada” do crente na comunidade da Aliança,
a partir de uma decisão de se purificar e mudar de vida. É, de fato, um
ritual de iniciação. Ninguém pode ser cristão verdadeiro se recusar-se a
ser batizado.* Todos os crentes que já foram batizados devem se lembrar

* Deus, evidentemente, pode salvar alguém que crê em Cristo, mesmo sem ter
tempo ou condições de ser batizado. O exemplo do ladrão que se arrependeu e foi salvo
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que este selo já está sobre eles. Já não importa a vida de pecado anterior.
Paulo diz:

“Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem
efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados,
nem maldizentes, nem roubadores herdarão o ___________de Deus. Tais
fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes _____________,
mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito
do nosso Deus” (1Co 6.9-11).

Certamente, não há mais nenhuma marca de água em nós que


possa ser vista, porém, Deus vê o selo que ele próprio abençoou. Somos
parte do Pacto, através do batismo, Deus nos inseriu em sua Aliança.
Na Igreja Protestante há dois sacramentos aceitos: O Batismo e a
Santa Ceia. Entendemos que estes foram os únicos dois sacramentos ins-
tituídos por Jesus e que correspondem aos dois “sacramentos” do Antigo
Testamento: a Circuncisão e a Páscoa, que também eram uma “marca”
e uma “refeição” (1Co 10.1-4). Sacramento tem sido definido como um
sinal visível de uma graça invisível. Isto significa que ele não é algo que
opera por si mesmo, mas algo que somente tem valor desde que corres-
ponda a uma atitude interior apropriada. Ele é um acontecimento exter-
no e visível da graça que precisa se manifestar internamente.

II. Quem deve ser batizado?

Inicialmente, há um consenso entre os cristãos no entendimento


de que, por princípio, devem ser batizados todos os novos convertidos.
Essa é, primordialmente, a ordem de Jesus em Mateus 28.18-20 e Marcos
16.16.
A dificuldade, entretanto, diz respeito a como se deve tratar com
os filhos desses convertidos. Deve-se esperar que cresçam até que te-
nham condições de tomar a decisão por si mesmos? Ou devem ser mar-
cados juntamente com os pais, como um ato de responsabilidade pater-
na?
Como já dissemos, é um fato que não temos no Novo Testamen-
to nenhuma passagem ordenando, nem proibindo batismo de crianças.
Nenhuma passagem mostrando explicitamente crianças sendo batiza-

na cruz atesta isso. Porém, isso deve ser visto como uma exceção.
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das, e igualmente nenhuma passagem mostrando elas sendo excluídas


desse batismo quando adultos são batizados. Para muitos crentes, o silên-
cio significa exclusão. Já que as crianças não aparecem sendo batizadas
no Novo Testamento, nem há ordem explícita para batizá-las, elas devem
ficar de fora, até que cresçam e tenham discernimento. Esses irmãos en-
tendem que a fé é o pré-requisito para o batismo, como está escrito em
Mc 16.16: “quem crer e for batizado será salvo”. A conclusão deles é que
bebês não creem, portanto, não podem ser batizados. Os reformados e
presbiterianos, entretanto, interpretam esse silêncio de maneira diferen-
te. Eles o tomam como evidência da continuidade da inclusão das crian-
ças no pacto, como era praxe no Antigo Testamento, através da circun-
cisão.* Já que, no Antigo Testamento, as crianças eram marcadas, então,
uma vez que o Novo Testamento não as exclui explicitamente, é porque
devem continuar sendo incluídas no pacto da graça. Esse é o raciocínio
da igreja reformada.
A circuncisão separava os filhos dos crentes dos filhos dos in-
crédulos e os localizava sob as asas protetoras do pacto (Gn 17.10-12).
Quando Deus estabeleceu seu pacto com Abraão, ele ordenou:

“Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós e a tua des-
cendência: todo macho entre vós será circuncidado. Circuncidareis a car-
ne do vosso prepúcio; será isso por _______ de aliança entre mim e vós”
(Gn 17.10-11).

Deus não trabalha apenas com indivíduos, mas com famílias.


Para “você e sua casa” é uma frase comum em ambos os testamentos. No
caso de Abraão, Deus estabeleceu um sinal pactual que fizesse separa-
ção entre os filhos dos crentes e os filhos dos incrédulos. Deus ordenou
que os infantes (de oito dias – Gn 17.12) em Israel fossem circuncidados.
Abraão creu em Deus e por isso foi justificado. Circuncidar seu filho era
uma atitude de fé na promessa de Deus. Por que será que Deus não espe-
rou que o filho de Abraão tivesse idade suficiente para fazer uma decisão
por si mesmo? A resposta é simples: O foco não é a nossa escolha, mas a

* Um argumento por analogia de sacramento diz que se fosse necessário sem-


pre uma autorização explícita, as mulheres não deveriam participar da ceia, pois na
instituição havia apenas homens, e em nenhum texto do NT as mulheres são vistas ou
autorizadas a participar da ceia. Mesmo assim, é uma legítima inferência a participação
das mulheres.
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escolha divina. Deus, por sua graça, coloca sua marca de posse no povo
do seu pacto. Para aqueles que argumentam que a pessoa precisa se arre-
pender e crer para depois ser batizada, podemos dizer que é assim para
os adultos, pois Deus exigiu isso de Abraão para que fosse circuncidado,
mas Deus não exigiu isso de Isaque. Isaque foi circuncidado porque era
um filho do pacto. A fé que Abraão demonstrou era suficiente para que
Isaque também recebesse a marca do pacto.
Muitos irmãos acham que não existe ligação entre o batismo e a
circuncisão. Eles reconhecem que a crianças eram circuncidadas, mas
entendem que o batismo significa outra coisa, portanto, as crianças não
devem ser batizadas. Porém, a analogia do batismo com a circuncisão é
muito grande. Ambos são sinais da Aliança. Ambos marcam a “entrada”
do crente na comunidade (Israel e Igreja). E o Novo Testamento estabe-
lece a ligação entre as duas marcas: “Nele, também fostes circuncidados,
não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne,
que é a circuncisão de Cristo, tendo sido sepultados, juntamente com
ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no
poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos. E a vós outros, que
estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa
carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos deli-
tos” (Cl 2.11-13). O assunto de Paulo desde o capítulo anterior é a inclu-
são dos gentios na comunidade da aliança (Cl 1.13-29), um mistério que
estivera oculto em Deus, mas revelado através do ministério de Paulo. A
circuncisão era uma barreira natural à entrada dos gentios, mas ela foi
plenamente satisfeita através do batismo. O batismo que nos despojou
do corpo da carne cumpre plenamente os objetivos da circuncisão. Ela
não é mais necessária porque agora temos o batismo que é a circuncisão
de Cristo. Portanto, parece-nos que há estreita ligação entre circuncisão
e batismo.
No Novo Testamento, o interesse de Deus pelas famílias conti-
nua. Quando Pedro pregou um sermão evangelístico no templo após o
dia de Pentecostes, ele declarou:

“Pois para vós outros é a _________, para vossos _____ e para todos
os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, cha-
mar” (At 2.39).

É interessante que Pedro destaque a questão da promessa. Ele fala


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da promessa de Deus a respeito dos filhos em termos bem parecidos com


aqueles que o próprio Deus usou ao estabelecer a Aliança com Abraão.
A orientação aqui não está no fato de que Deus espera que nossos filhos
queiram ter um compromisso com ele, mas no fato de que é ele quem os
chama.
O Apóstolo Paulo assegura-nos que um pai crente pode santificar
um filho mesmo que o outro cônjuge seja incrédulo, pois como ele mes-
mo diz: “Doutra sorte, os vossos filhos seriam impuros; porém, agora,
são santos” (1Co 7.14). O cônjuge incrédulo é “santificado no convívio”,
ideia que expressa um processo. Porém, os filhos são “santos”, ideia que
expressa uma obra definitiva. Paulo, nesta passagem, faz uma clara dis-
tinção entre ‘filhos de incrédulos” e ‘filhos de crentes”, e isso mais uma
vez está em ordem com o princípio do Antigo Testamento. Os termos
são aqueles usados para distinguir circuncidados de incircuncidados
“impuro” e “santo”. (Is 52.1). É inegável que esse texto está fazendo uma
clara distinção entre filhos de pais incrédulos e filhos de ao menos um
pai crente. Os primeiros são “impuros”, enquanto os últimos são “santos”.
Deus olha para os pais, pois eles encabeçam a Aliança. O filho pequeno
de um pai crente está incluído na Aliança da graça, e portanto, no enten-
dimento da igreja reformada, pode e deve receber a marca desta Aliança.
Deixá-lo crescer para depois receber é cerceá-lo de um direito divino. E
se os filhos são, desse modo, reconhecidos como pertencentes ao pacto,
por que negar a eles a marca do pacto, a marca de entrada na igreja, que
é justamente o batismo? Por que esperar que eles cresçam para decidirem
se desejam ter a marca, se perante os olhos de Deus, tendo um dos pais
crentes, eles já são ”santos”?
A igreja primitiva seguiu esta orientação bíblica. Existem muitos
documentos antigos do período pós-apostólico que apontam uma cons-
tante prática do batismo infantil.* Na verdade, como já dissemos, o batis-
mo do Novo Testamento era uma prática advinda do próprio Judaísmo,

* Explicitamente, Tertuliano (160-230), Hipólito (170-236), Orígenes (185-254),


e Cipriano (200-258) mencionam o batismo infantil. Embora Tertuliano acreditasse que
era melhor retardar o batismo, de preferência para a hora da morte, para que o crente
não tivesse tempo de se desviar, o simples fato de discutir o assunto é prova de que o ba-
tismo infantil era praticado em seu tempo. Autores ainda mais antigos como Policarpo
(69-155), Justino Mártir (100-165) e Polícrates (130-196) parecem mencionar o batismo
em seus escritos quando dizem ser “discípulos”, ou conhecerem alguns discípulos desde
o nascimento. Irineu (120-202) também fala sobre a obra regeneradora de Cristo em
relação aos infantes.
78

pois os judeus, quando recebiam prosélitos, os batizavam com água. E o


fato é que eles batizam crianças também.*
É preciso que fique claro, entretanto, que a base para batizar as
crianças é a doutrina bíblica do Pacto da Graça. Se os pais fazem parte
do pacto, então, os filhos também fazem. Porém, isso não significa que
estão automaticamente salvos. Não somos salvos por nascimento, somos
salvos por fé. Deus não prometeu que cada filho de pais crentes será
salvo, antes tem prometido perpetuar sua obra de graça na descendên-
cia dos crentes (Ver Gn 17.7; Sl 103.17-18; 105.6-11; Is 59.21; At 2.39).
Sobre essa base os pais crentes devem batizar seus filhos, confiando que
Deus desenvolverá sua obra pactual com eles, enquanto eles próprios
esforçam-se por ensinar a criança no caminho certo para que não se
desvie quando adulta (Pv 22.6). Quanto ao argumento de que seria inútil
batizar as crianças sem ter certeza de que serão salvas, podemos contra
argumentar que não temos certeza se todos os adultos que se batizam
são realmente salvos. É uma atitude de fé consagrar os filhos ao Senhor e
administrar sobre eles o símbolo da Aliança. Ao contrário de desagradar
a Deus, essa prática somente o agradaria, pois ele próprio exigiu essa ati-
tude de fé no fato de Abraão circuncidar seu filho Isaque com oito dias
de vida. O batismo das crianças que são filhas de pais crentes simboliza
a realidade de que elas são separadas aos olhos de Deus. Neste batismo,
pais que vivem na aliança se comprometem a criar seus filhos conforme
a Palavra do Senhor.
Ainda que o Novo Testamento não diga explicitamente que as
crianças devam ser batizadas, há bons indícios de que isso acontecia. Há
relatos de várias “casas” que receberam o batismo através dos Apóstolos.
Por exemplo, Lídia e toda a sua casa (At 16.15), bem como o carcereiro e
todos os seus (At 16.33; Ver ainda At 18.8, 1Co 1.14-16). É verdade que

* Alguns Talmudes relatam isso: Talmud Babylon. Mass. Jevamoth, fol 47:
“Quando um prosélito é recebido, ele precisa ser circuncidado; e quando ele é curado,
eles o batizam na presença de dois homens sábios, dizendo, Eis que, ele é um Israelita
em todas as coisas; o ou se é uma mulher, a mulher a conduz até as águas”. Talmud, Ge-
mara: “Eles têm o costume de batizar esse prosélito na infância baseando-se na profis-
são da Casa do Julgamento. Porque isso é para o seu bem”. Maimonides, Halach Aib-
dim, c. VIII: ”Um israelita que toma uma criancinha pagã e a batiza como prosélito: eis
que é prosélito”. Rabino Ezequias (Hierofol, Jevamoth, fol. 8,4): “Se alguém achar uma
criança abandonada e a batizar como servo: deverá também circuncidá-la como servo.
Todavia, se batizá-la como livre, deverá também circuncidá-la como livre”. Citações de
W. Wall. The History of Infant Baptism. London: G. Auld, 1705, 1820.
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os textos não dizem explicitamente que havia crianças nas casas, mas ne-
gar essa possibilidade soa como preconceito. No caso específico de Lídia,
isso parece bastante evidente. Não há menção ao marido, o que indica
que ela deveria ser uma judia viúva ou mesmo repudiada pelo marido.
Ela era de uma cidade produtora de confecções e tinturaria (Tiatira), e
estava em Filipos a trabalho, levando consigo sua família. É de supor que
tivesse que trabalhar para sustentar filhos pequenos, uma vez que é men-
cionado explicitamente que foi batizada, “ela e toda a sua casa” (At 16.15).
Se tivesse marido ele seria mencionado. Se tivesse filhos grandes, prova-
velmente não teria que trabalhar.
Finalmente, deve ser observado que nas igrejas que não praticam
o batismo de crianças existe a prática de “apresentar” as crianças. Ou seja,
existe o reconhecimento desses irmãos de que “algo” deve ser feito pe-
las crianças. Diríamos que a única diferença, neste caso, é a água, pois a
“apresentação” acaba sendo uma espécie de cerimônia sacramental. Pro-
vavelmente, a maioria dos reformados concordaria que essa cerimônia
pode ser aceita por Deus como uma marca de iniciação no pacto, quando
os pais se comprometem a “ensinar os filhos no caminho do Senhor”. As-
sim sendo, aqueles pais que apenas “apresentam” os filhos, uma vez que
a igreja que frequentam não os batizam, devem confiar que essa apresen-
tação será aceita por Deus como uma cerimônia de admissão à aliança.
Porém, os reformados se sentem muito mais confortáveis, biblicamente
falando, em batizar seus filhos com água.

III. Quão importante é a água?

No nosso entendimento, todas as formas de batismo são acei-


táveis, pois a Bíblia não estabelece explicitamente nenhuma delas. En-
tretanto, a Igreja Reformada entende que “aspersão ou efusão” possuem
uma base bíblica um pouco mais sólida.
A palavra batismo (βάπτισμα), deriva do verbo bapto, que signi-
fica mergulhar e molhar. No grego clássico, o termo geralmente é usado
como afundar, porém, não até o fundo do rio ou do mar. Por esse motivo,
muitos crentes entendem que o único modo aceitável de batismo é por
imersão, ou seja, afundamento. De fato, a mais antiga tradução grega do
Antigo Testamento, a Septuaginta, ao narrar o “mergulho” de Naamã nas
águas do Jordão para ficar curado da lepra, segundo a ordem de Eliseu,
usou a palavra “batismo” (2Rs 5.14). Portanto, é preciso reconhecer que
80

o termo “batismo” pode realmente ter o significado de “afundar”. Entre-


tanto, esse não parece ser o “único” sentido.
No Novo Testamento, o termo adquire também o sentido de la-
var e até mesmo aspergir, como por exemplo em Marcos 7.4: “quando
voltam da praça, não comem sem se aspergirem (grego: batizarem); e
há muitas outras coisas que receberam para observar, como a lavagem
(grego: batismos) de copos, jarros e vasos de metal [e camas])”. O mesmo
pode ser visto em Lc 11.37-39: “Ao falar Jesus estas palavras, um fariseu
o convidou para ir comer com ele; então, entrando, tomou lugar à mesa.
O fariseu, porém, admirou-se ao ver que Jesus não se lavara (grego: ba-
tizara) primeiro, antes de comer”. Do mesmo modo, o autor aos Hebreus
chamou os rituais de lavagem e purificação do Antigo Testamento (que
eram sempre por “aspersão”) de “batismos”: “os quais não passam de or-
denanças da carne, baseadas somente em comidas, e bebidas, e diversas
abluções (grego: batismos), impostas até ao tempo oportuno de reforma”
(Hb 9.10). De fato, basta ler os textos do Antigo Testamento para ver
que esses rituais eram mesmo por aspersão. Números 8.7 diz: “Assim
lhes farás, para os purificar: asperge sobre eles a água da expiação”. Há
descrições minuciosas sobre como deveria ser a cerimônia de purifica-
ção: “Um homem limpo tomará hissopo, e o molhará naquela água, e a
aspergirá sobre aquela tenda, e sobre todo utensílio, e sobre as pessoas
que ali estiverem” (Nm 19.18).
Além disso, a analogia entre o batismo com água e o batismo
com o Espírito sugere que “derramar” água é mais lógico. A Bíblia fala
em dois tipos de batismo. O batismo com água e o batismo com o Espí-
rito. É natural pensar que sejam coisas parecidas. Na verdade, como já
vimos, Paulo diz que há somente um batismo (Ef 4.5). Então, o batismo
com água deve ser visto como o sinal visível do batismo com o Espírito
Santo. Veremos mais sobre isso no próximo estudo, mas por enquanto,
é suficiente lembrar que o Novo Testamento diz que o Espírito desceu
sobre as pessoas no dia de Pentecostes (At 2.1-4). E o Antigo Testamento
conecta o derramamento do Espírito a um derramamento de água:

“Então, _______________água pura sobre vós, e ficareis purifi-


cados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos
_____________. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito
novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne.
Porei dentro de vós o meu _____________e farei que andeis nos meus
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estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36.25-27) Ver tam-


bém Is 44.3, Ez 39.29, Tt 3.5-6).

Portanto, batismo com o Espírito, na Bíblia, é derramamento. Se


o Espírito é “aspergido” sobre os crentes, por que a água não poderia ser?
Quando João Batista começou a batizar no Jordão, ele chamou a
atenção dos estudiosos do Antigo Testamento, os fariseus e escribas. As
multidões se dirigiam ao Jordão para serem batizadas, e até mesmo os
religiosos se submetiam ao batismo de João. O próprio Jesus foi batizado.
Mateus relata: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram
os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele”
(Mt 3.16). Esse verso tem dado margem para bastante discussão sobre a
forma de batismo com a qual Jesus foi batizado. Para os defensores do
imersionismo não resta dúvidas de que ele foi batizado por imersão. Para
surpresa de muitos, o texto nada fala a respeito de imersão. O argumento
baseado na construção “saiu da água” não acrescenta nada, pois alguém
pode sair da água sem que, com isso, precisasse estar inteiramente imer-
gido nela. Bastaria estar com os pés dentro da água e a frase já seria vá-
lida. O mesmo pode ser dito de Atos 8.38-39: “Então, mandou parar o
carro, ambos desceram à água, e Filipe batizou o eunuco. Quando saíram
da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe”. Se esse “sair da água”
significa se levantar de dentro da água, então, Filipe também teria que ter
se afundado, pois “ambos” saíram da água. É preciso reconhecer que é
possível que Felipe tenha batizado o eunuco afundando-o naquela água,
mas também é preciso reconhecer que isso não está comprovado neste
texto.
Há casos bíblicos de batismo onde a ideia de imersão fica mais
difícil de ser mantida. Em Atos 2 cerca de três mil pessoas se converteram
e foram batizadas dentro da cidade de Jerusalém (At 2.41). Daria bastante
trabalho batizar todas elas num único dia, e num local onde não há rios.
É bem mais plausível a ideia de que os apóstolos, a exemplo do Antigo
Testamento, utilizassem ramos de árvores e aspergissem a água sobre as
pessoas. O batismo de Paulo, que segundo a Bíblia, foi realizado dentro
de casa, é outro fator complicador para a ideia da imersão. Inclusive a
Bíblia diz que ele “levantou-se e foi batizado” (At 9.18), o que sugere que
talvez ele tenha sido batizado de pé, mas isso somente é possível em caso
de aspersão ou efusão. Outro caso está em Atos 16, onde o carcereiro
convertido e toda a sua família foram batizados de noite, provavelmente
82

dentro da prisão, ou na casa deles, que deveria ser anexa à prisão (At
16.33). É muito difícil sustentar o modo por imersão nestes casos.
Pedro compara o batismo com a experiência do dilúvio quando
oito pessoas foram salvas das águas (1Pd 3.20-21). Essas pessoas em hi-
pótese alguma foram imersas. E Paulo o compara com a experiência dos
israelitas no deserto quando foram “todos batizados, assim na nuvem,
como no mar” (1Co 10.2). A nuvem era a presença de Deus que guiava
e seguia os filhos de Israel (Ex 33.8-11), e o mar era o Mar Vermelho
no qual eles atravessaram com pé enxuto. Não há qualquer referência à
imersão nesses textos.
Geralmente os imersionistas usam os termos bíblicos que falam
da morte e da ressurreição de Cristo como um batismo para os crentes,
para dizer que é preciso afundar na água para ressurgir para uma nova
vida. Os textos usados são Romanos 6.3-4: “Ou, porventura, ignorais que
todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua
morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para
que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai,
assim também andemos nós em novidade de vida”. E também Colos-
senses 2.12: “Tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo,
no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus
que o ressuscitou dentre os mortos”. Neste caso, é preciso reconhecer que
Paulo compara batismo a sepultamento. Porém, ele não menciona sepul-
tamento “nas águas”. Ainda que a analogia seja possível, faz mais sentido
pensar em “sepultamento” espiritual, ou seja, o fato de que fomos incluí-
dos na morte de Cristo. O batismo simboliza isso pelo fato de que aponta
para o despojamento do corpo, para uma nova vida de ressurreição.
Por outro lado, aspersão identifica o símbolo (água) com a coisa
significada (redenção), já que o significado é a purificação pelo sangue
de Cristo. Pedro diz: “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em san-
tificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus
Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas” (1Pe 1.2). Ou seja, o sangue
de Cristo que nos purifica é “aspergido”. Do mesmo modo, Hebreus diz:
“aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo
o coração purificado (grego: aspergido) de má consciência e lavado o
corpo com água pura. (Hb 10.22). E, acrescenta: “a Jesus, o Mediador da
nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que
fala o próprio Abel (Hb 12.24). João relaciona “água com sangue” em 1Jo
5.6-8: “Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo;
83

não somente com água, mas também com a água e com o sangue. E o Es-
pírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade. Pois há três
que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes
num só propósito” (1Jo 5.6–8).
Então, tanto a imersão quanto a aspersão podem representar bem
a redenção. A Igreja Primitiva utilizava, provavelmente, todas as formas
de batismo, ou seja, efusão (derramar), imersão e aspersão. Isso aparece
no mais antigo documento não canônico, o Didaquê: “Quanto ao batis-
mo, faça assim: depois de ditas todas essas coisas, batize em água cor-
rente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Se você não tiver
água corrente, batize em outra água. Se não puder batizar com água fria,
faça com água quente. Na falta de uma ou outra, derrame água três vezes
sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Cap 7,
1-4). Portanto, ao que parece, a igreja do século 2 tinha uma preferência
por batizar em água corrente, em rios ou fontes. Se havia imersão, apesar
de provável, não há evidências definitivas. O modo de batismo, portanto,
não parece ser algo de grande importância para os primeiros cristãos,
sendo que qualquer um deles poderia ser praticado. A água é só um sím-
bolo, portanto, a quantidade ou a qualidade dela não são decisivas.
O Batismo é um exercício de fé. Quando uma pessoa se submete
ao batismo, ou quando conduz seus filhos para serem batizados, ela está
fazendo uma declaração solene de que faz parte do povo de Deus, e de
que se submete a Aliança de Deus. Ela está confirmando o pacto com
Deus, e desse modo atraindo bênçãos para sua vida e para a sua casa. É
muito importante que as pessoas participem do batismo com muito mais
do que só a ideia de cumprir uma obrigação. Ele precisa ser um ato de fé,
uma demonstração vibrante da confiança no Deus do pacto. Um ato que
exprime a certeza do povo de Deus, de que o Deus das promessas não
falha.

Questionário de revisão

1 - A igreja protestante entende que só há dois sacramentos, quais são?

a) ( ) Batismo e casamento.
b) ( ) Batismo e Ceia do Senhor.
c) ( ) Batismo nas águas e Batismo no Espírito Santo.
d) ( ) Batismo no Espírito Santo e Ceia do Senhor.
84

2 - Qual é a analogia do batismo com a circuncisão?

a) ( ) É a entrada do crente na comunidade da Aliança.


b) ( ) É o meio de tornar o crente mais santo.
c) ( ) É a entrada do crente para fazer parte do ministério pastoral.
d) ( ) É um sacramento obrigatório para receber a salvação.

3 - O batismo com o Espírito na Bíblia traz a ideia de:

a) ( ) Imersão
b) ( ) Derramamento ou aspersão.
c) ( ) A Bíblia não faz menção.
d) ( ) Todas as alternativas estão corretas.

4 - Quais as formas de batismo utilizadas pela Igreja Primitiva?

a) ( ) Efusão, imersão e aspersão.


b) ( ) Aspersão, imersão, com o Espírito.
c) ( ) Com o Espírito, aspersão, com fogo.
d) ( ) Efusão, com fogo e com o Espírito.

5 - As igrejas reformadas adotam qual postura sobre o batismo?

a) ( ) Batizam por efusão e não reconhecem outra forma.


b) ( ) Batizam por imersão, mas aceitam todas as formas.
c) ( ) Batizam por aspersão, mas reconhecem as outras.
d) ( ) Batizam por aspersão e não reconhecem as demais.

Indicação de leituras adicionais

• Batismo Cristão – imersão ou aspersão? – Charles Hodge – Casa


Editora Presbiteriana, 1988.
• Manual de Doutrina Cristã – L. Berkhof – Ed. Cultura Cristã,
2012 – O Batismo Cristão.
• Razão da Esperança – L. A. Lima – Ed. Cultura Cristã, 2006 –
Cap. 39 – Os Sacramentos e a Espiritualidade.
85

8. O BATISMO COM O ESPÍRITO

Como vimos no estudo anterior, Paulo diz que há “um só batis-


mo” (Ef 4.5). Isso significa que todos os crentes verdadeiros já foram bati-
zados, e o que faz com que sejam “iguais” perante Deus é justamente este
fato. Por isso, podem manter a unidade da Igreja. Tristemente, porém,
entre os cristãos não há apenas divisão no que diz respeito ao batismo
com água, também há uma profunda divisão no que diz respeito ao ba-
tismo com o Espírito.
Esta divisão surgiu com o movimento pentecostal que trouxe um
novo entendimento a respeito do batismo com o Espírito Santo. Crentes
pentecostais, neopentecostais e alguns católicos carismáticos afirmam
que o batismo com o Espírito Santo é uma experiência pós-conversão.
Eles dizem que mesmo depois que alguém se converte a Cristo, ainda não
está preparado para viver a vida cristã vitoriosa, pois para isso precisa de
uma segunda bênção, denominada de Batismo “com” ou “no” Espírito
Santo. Assim, para estas pessoas existem duas grandes classes de cristãos
na igreja: os que já foram batizados e os que ainda não foram batiza-
dos com o Espírito Santo. Quem já foi batizado faz parte da categoria
dos crentes “espirituais”, enquanto que quem não foi batizado faz parte
de uma categoria inferior de crentes, que ainda são “carnais”. Estes últi-
mos, frequentemente recebem alguma discriminação por parte dos mais
“adiantados”, e são ameaçados pela pergunta tradicional destes irmãos:
“Você já foi batizado no Espírito Santo?”.
Há algo em que carismáticos e reformados concordam: o Espírito
Santo é absolutamente necessário para a vida cristã santa. A questão que
não passa no teste da Escritura, entretanto, é que o Batismo com o Espíri-
to é uma segunda bênção, pois entendemos que ele acontece simultanea-
mente com a conversão, muito embora, por toda a vida o cristão deverá
buscar o enchimento do Espírito.
86

I. A importância do Espírito

No capítulo 14 de João, Jesus explicou a seus discípulos que teria


que se ausentar por algum tempo da presença deles. Logicamente eles
se sentiram extremamente tristes com essa notícia, e Jesus se apressou
em consolá-los. Jesus esteve com os discípulos por cerca de 3 anos, mas
agora era a hora de completar a obra que veio fazer neste mundo e então
partir para o santuário celestial onde continuaria sua obra de intercessão
pelo seu povo até o último dia. Mas, os discípulos não ficariam sozinhos
nesse ínterim, pois Jesus disse:

“Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará ________Consolador, a fim de que


esteja para sempre convosco” (Jo 14.16).

Note a expressão “outro”. Jesus foi o grande consolador de seus


discípulos. Mas, agora, ele precisava partir, entretanto, não deixaria seus
discípulos órfãos, pois mandaria alguém extremamente necessário para
a vida deles: o Espírito Santo.
Seria função do Espírito lembrar os discípulos das coisas que Je-
sus havia dito (Jo 14.26). Também fazia parte de sua obra convencer o
mundo do pecado da justiça e do juízo (Jo 16.8). Jesus disse que o Espíri-
to Santo viria para guiar os discípulos a toda a verdade (Jo 16.13). Certa-
mente a obra dele não seria uma obra independente, pois sua função era
glorificar o próprio Jesus, exaltando sua pessoa, seu poder e sua obra (Jo
16.14). Além disso, a presença do Espírito Santo na vida dos discípulos
seria a garantia de que os discípulos de fato pertenciam a Jesus (Cf. Rm
8.9, Ef 1.13-14). Jesus disse que o Espírito Santo seria enviado para estar
para sempre com os discípulos, ou seja, eles não poderiam viver sem este
Espírito. Isso nos fala da importância do Espírito Santo para a vida do
crente. Não dá para conceber um crente sem o Espírito Santo, pois ele é
absolutamente vital para que o crente conheça Jesus e receba a salvação.
Um crente sem o Espírito Santo em hipótese alguma é um crente.
O Espírito Santo em toda a Bíblia simboliza a capacitação do
povo de Deus. Ele é a fonte da vida, do poder e da autoridade. Podemos
ver isto tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O Espírito agiu na
criação do mundo, “pairando por sobre as águas” (Gn 1.2). De algum
modo ele foi o responsável por fazer com que surgisse a vida do caos que
era a terra sem forma e vazia. O Espírito capacitou homens no Antigo
87

Testamento para construírem o tabernáculo (Ex 31.3-5), além de ungir


os reis, os profetas e os sacerdotes para a missão que precisavam desem-
penhar (Nm 27.18; Jz 3.10; 1Sm 16.14). A promessa do Espírito sempre
esteve ligada a um tempo de restauração espiritual, familiar e material
(Is 32.14-15; 44.3; Ez 36.27). Jesus disse aos discípulos que o Espírito iria
capacitá-los para a tarefa que precisavam desempenhar:

“Mas recebereis _________, ao descer sobre vós o ______________, e


sereis minhas ___________________tanto em Jerusalém como em toda
a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8).

Portanto, o Espírito é o grande dom de Deus para seu povo. Uma


vida cheia do Espírito é o que Deus idealizou para seu povo.

II. Primeira bênção

Justamente porque o Espírito tem toda esta importância é que


não podemos conceber a conversão dissociada do Batismo com o Espí-
rito. Ninguém faz parte da igreja visível sem ser batizado com água. Do
mesmo modo, ninguém pode fazer parte da igreja invisível sem ser ba-
tizado com o Espírito. Batismo significa “admissão”, justamente por isso
não pode ser “segunda” bênção. Sem o Espírito Santo uma pessoa nem
poderia se converter, pois é função do Espírito dar a vida. O novo nas-
cimento é um nascimento do Espírito (Jo 3.5), o Espírito guia à verdade
(Jo 16.13) e convence do pecado (Jo 16.8). O Batismo significa o ato de
admissão ao corpo de Cristo. Portanto, ele precisa acontecer no início e
não em algum momento posterior.
Além disso, temos alguns textos que claramente dizem que o Ba-
tismo acontece na conversão. Paulo escreveu aos Efésios:

“Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da


____________, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido,
fostes _____________com o Santo Espírito da promessa; o qual é o pe-
nhor da nossa herança, ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua
glória” (Ef 1.13-14).

Paulo está escrevendo desde o início da carta sobre a obra do Pai,


do Filho e do Espírito Santo na salvação dos crentes. Podemos resumir
88

dizendo que o Pai escolheu os salvos e planejou a salvação, que o Filho


executou a salvação através de sua morte e ressurreição, e que o Espírito
aplica e garante a salvação dessas pessoas. Quando o Espírito faz isto?
Paulo disse que isto acontece quando alguém ouve a palavra da verda-
de, o evangelho da salvação, e crê. Quando alguém crê é selado com o
Espírito Santo da promessa que vai funcionar como um penhor na vida
do crente. Ou seja, a vinda do Espírito Santo sobre aquele que crê é a
garantia divina de que a pessoa está salva e continuará salva. O texto
não sugere qualquer intervalo de tempo entre o ato de crer e o ato de
receber o Espírito. O crente é selado com o Espírito Santo no momento
em que ouve o evangelho e crê. Se o crente não tiver o Espírito Santo ele
não tem a garantia de que está salvo, pois lhe falta o penhor, e então, ele
não poderia ser chamado realmente de “crente”.
Outro texto nos ajuda a entender isto ainda mais. Paulo escre-
veu aos Romanos:

“Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espí-
rito de Deus habita em vós. E, se alguém ____ tem o Espírito de Cristo,
esse tal _____ é dele” (Rm 8.9).

Se o Espírito habita o crente é porque aconteceu uma transfor-


mação completa na vida desta pessoa. Ela não está mais na carne, ou
seja, já não é escrava do pecado. Mas veja o que Paulo diz claramente:
“Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele”. Como seria
possível alguém se converter e ainda não ter recebido o Espírito? Paulo
está dizendo que um crente que não foi batizado com o Espírito não é
um crente, pois é o Espírito que o faz ser crente. Por isso temos afirma-
do que o Batismo com o Espírito não pode ser uma “segunda bênção”.
Ele tem que ser uma “primeira bênção”.
O texto definitivo, no nosso entendimento, que esclarece essa
questão é 1Coríntios 12.13: “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos
batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer
livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito”. Paulo é abso-
lutamente claro em dizer que todos os crentes foram batizados com o
Espírito. Pois é justamente este batismo com o Espírito que faz alguém
ser parte do corpo de Cristo. Quem não é batizado com o Espírito não
é uma pessoa realmente convertida, pois não foi inserida no corpo.
Assim como o batismo com água marca a entrada do crente na igreja
89

visível, o batismo com o Espírito marca a entrada do crente no corpo de


Cristo, a igreja invisível. Se não foi batizado está fora do corpo. Não existe
duas classes de crentes na igreja. Na verdade, afirmar isso é ir contra tudo
o que Paulo ensinou em 1Coríntios 12.
Agora precisamos explicar o acontecimento do Pentecostes. Te-
mos dito que os crentes recebem o Batismo com o Espírito Santo no mo-
mento da conversão. Mas e como fica o caso dos discípulos que já eram
convertidos e receberam o Espírito Santo depois da conversão? No caso
deles não foi uma segunda bênção? Primeiramente precisamos entender
que os apóstolos e primeiros discípulos de Jesus constituem um grupo es-
pecial. Eles conheceram Jesus antes do derramamento do Espírito Santo.
Isto já explicaria o fato de eles terem recebido o Batismo com o Espírito
depois, pois como eles poderiam ter sido batizados com o Espírito que
forma o corpo de Cristo antes do Espírito ter vindo para formá-lo? João
explicou que os discípulos somente poderiam ser batizados deste modo
depois da Ascensão de Jesus (Jo 7.39). Mas também é preciso entender
que, de certo modo, os discípulos só tiveram uma conversão completa no
dia de Pentecostes. Até aquele momento eles viviam debaixo das expec-
tativas do Antigo Testamento, e não entendiam muito bem as coisas que
estavam acontecendo. Eles nem entendiam a necessidade da morte de
Jesus. Pedro parece entender que sua conversão aconteceu no dia de Pen-
tecostes, pois disse que foi naquele dia que eles creram no Senhor Jesus
(At 11.15-17). Ainda é preciso lembrar que naquele mesmo dia, mais três
mil pessoas se converteram e receberam o dom do Espírito Santo, após
a pregação de Pedro (At 2.37-41). Essas três mil pessoas não precisaram
esperar para serem batizadas com o Espírito. Tudo aconteceu simulta-
neamente, pois não faziam parte do grupo especial de discípulos que já
conhecia a Jesus antes do dia de Pentecostes.

III. Enchendo-se do Espírito

Ao dizermos, porém, que o Batismo com o Espírito é uma expe-


riência inicial da vida cristã, uma “primeira bênção”, não estamos que-
rendo dizer que é a única. Na conversão há um batismo e um enchimento
com o Espírito, mas outros enchimentos terão que acontecer futuramen-
te.
No dia de Pentecostes, os discípulos receberam o batismo e o en-
chimento do Espírito, mas algum tempo depois tiveram que ser nova-
90

mente cheios deste Espírito. Em Atos 4, a Igreja enfrentou a primeira


perseguição. Os sacerdotes prenderam os apóstolos e os lançaram na
prisão (At 4.1-3). Após interrogá-los, exigiram que não falassem mais
no nome de Jesus (At 4.18), e lhes fizeram ameaças (At 4.21). Quan-
do foram soltos, os crentes se reuniram e começaram a orar. Na oração
clamaram pela Soberania de Deus, e pediram “agora, Senhor, olha para
as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a in-
trepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais
e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus” (At 4.29-
30). Lucas relata a resposta de Deus à oração deles: “Tendo eles orado,
tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito
Santo e, com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus” (At 4.31). Eles
já haviam sido batizados com o Espírito (Atos 2), mas precisaram de um
novo enchimento do Espírito para poder realizar a obra de Deus. Vários
enchimentos são possíveis ao longo da vida de um crente, porém, não se
deve chamar esses enchimentos de “batismos”. Tecnicamente, há apenas
um batismo, e ele acontece na conversão.
Depois de um primeiro enchimento com o Espírito é possível
que o “reservatório espiritual” fique muito baixo. Paulo orienta os cris-
tãos de Éfeso a terem cuidado para não “entristecer o Espírito” (Ef 4.30),
e aos cristãos de Tessalônica para não “apagar o Espírito” (1Ts 5.19). No
contexto dessas orientações, Paulo diz aos cristãos que mantenham uma
vida de santidade, de constante estudo da Palavra de Deus e de oração.
A negligência com estas coisas causa o esfriamento espiritual. Não signi-
fica, porém, que uma pessoa que foi batizada com o Espírito Santo pos-
sa ficar totalmente vazia deste Espírito, pois o Espírito nunca abandona
totalmente aquele que foi selado, mas as influências dele sobre a vida da
pessoa podem ficar bastante inexpressivas.
Por causa disto a Bíblia nos manda buscar um enchimento do Es-
pírito. Em Efésios 5.18 Paulo diz: “E não vos embriagueis com vinho, no
qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito”. A ordem é direcionada a
todos os crentes, assim, todos os crentes têm a obrigação de serem cheios
do Espírito Santo. Quando o Espírito desce e enche-nos com seus novos
desejos e com seu poder, nós podemos naturalmente servir a Deus. Algo
que ainda precisa ficar esclarecido é como podemos ficar cheios do Espí-
rito. Jesus nos dá a resposta: Ele disse:

“Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como
91

diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com
respeito ao _________ que haviam de receber os que nele cressem; pois o
Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido
ainda glorificado” (Jo 7.37-39).

Jesus nos explica aqui como esse Espírito pode ser conseguido.
Ele diz: Bebendo: “Quem tem sede venha a mim e beba”. Tão somente
isso, ir a Jesus e beber. O método divino pelo qual podemos ficar cheios
do Espírito Santo é o mais simples de todos: basta ter sede, ir a Jesus e
beber. Isso pode ser feito a qualquer momento, em qualquer lugar, e em
qualquer situação.

Questionário de revisão

1 - Com relação ao Espírito, que aspectos os carismáticos e os refor-


mados concordam?

a) ( ) Que o batismo com o Espírito Santo é uma segunda bênção.


b) ( ) Que o batismo com o Espírito Santo ocorre após a conversão.
c) ( ) Que o batismo com o Espírito Santo acontece mais de uma
vez.
d) ( ) Que o Espírito Santo é absolutamente necessário para a vida
cristã santa.

2 - Cite algumas funções do Espírito Santo na vida do crente:

a) ( ) Consolador, convencer o mundo do pecado da justiça e do


juízo, guiar a toda a verdade.
b) ( ) Salvar os eleitos, eleger os que serão salvos e julgar os vivos e
os mortos.
c) Consolador, eleger os que serão salvos e convencer o mundo do
pecado e da justiça.
d) Guiar a toda a verdade, salvar os eleitos e julgar os vivos e os mor-
tos.

3 - Em que momento o crente é selado com o Espírito Santo?


92

a) ( ) No momento que o crente ouve o Evangelho da salvação e


crê.
b) ( ) Após a sua conversão.
c) ( ) Ao final da vida, na extrema unção.
d) ( ) No falar em línguas estranhas.

4 - Quantas vezes um crente pode ser cheio do Espírito Santo?

a) ( ) Uma única vez.


b) ( ) Vários enchimentos são possíveis ao longo da vida de um
crente.
c) ( ) Somente duas vezes, porque só existe duas bênçãos.
d) ( ) Somente no momento do batismo com o Espírito Santo.

5 - Qual é o método divino que possibilita que sejamos cheios do


Espírito Santo?

a) ( ) Não faltando aos cultos aos domingos.


b) ( ) Abandonando as más companhias.
c) ( ) Ao sentir sede, ir até Jesus e beber, ou seja, buscar nele.
d) ( ) Fazer jejum de alimentos.

Indicação de leituras adicionais

• Deus o Espírito Santo – M. Lloyd-Jones – PES, 1998 – Cap. 28 –


Batismo e Enchimento.
• A Obra do Espírito Santo – A. Kuyper – Ed. Cultura Cristã, 2010
– Vol. 3 – A obra do Espírito Santo no Indivíduo (continuação).
• Batismo e Plenitude do Espírito Santo – J. Stott - Ed. Vida Nova,
2007 – Cap. 2 – A Plenitude do Espírito.
93

9. FRUTIFICANDO PARA DEUS

Neste estudo queremos trabalhar um pouco mais com a questão


dos resultados da conversão. Lembremos que Jesus disse que “árvore boa
produz bom fruto” (Mt 7.17). Esse “fruto bom” em hipótese alguma é
resultado de algum tipo de legalismo cristão, antes é uma evidência na-
tural de um verdadeiro convertido, batizado com o Espírito, e, portanto,
habilitado a viver para a glória de Deus. O que desejamos enfatizar é que
a garantia da produção deste fruto não é meramente o esforço, antes cer-
tas condições precisam ser preenchidas. Muitas vezes, quando alguém
está recebendo os primeiros estudos evangelísticos, uma pergunta surge:
“Mas se eu me converter, então significa que não poderei mais fazer isto
ou aquilo?” Nesta lista estão as festas, as bebidas, os vícios, etc. Neste
ponto, às vezes o evangelista fica na dúvida. Se ele responder que terá que
deixar tudo aquilo, a pessoa pode se assustar e não voltar aos estudos. Se
ele disser que não precisará deixar nada, poderá passar uma falsa impres-
são do cristianismo. Minha resposta a esta dúvida tem seguido outra li-
nha de raciocínio. Eu respondo: “você não terá que deixar nada que você
não quiser deixar, mas o Espírito Santo vai lhe convencer a deixar o que
precisa ser deixado”.

I. Um novo coração

Muitas vezes as pessoas ingressam em determinadas religiões


cheias de ordenanças do tipo “não faça isso e não faça aquilo”. Quantas
vezes seguem estas ordenanças apenas para serem bem vistas e aceitas
pelo grupo! Por que Deus se agradaria de uma obediência deste tipo?
Por que Deus se agradaria de uma obediência formal e externa? Quando
alguém dirige um automóvel numa autoestrada sabe que há um limite de
velocidade. Muitos obedecem este limite. Mas quantos obedecem por que
têm consciência de que aquela é uma velocidade condizente e que ofere-
ce menos riscos para si mesmos e para os outros? E quantos obedecem
apenas para não serem flagrados pelo radar e multados pelo policial ro-
94

doviário? Se os motoristas tivessem certeza que todos os radares seriam


retirados, quantos ainda respeitariam o limite? Assim, a observância da
Lei por puro medo de punição não poderia ser algo agradável diante dos
olhos de Deus. Deus espera algo mais, uma transformação que vem de
dentro.
Jesus percebeu a ênfase dos religiosos de sua época de exigir obe-
diência externa aos mandamentos. Alguns judeus, para não quebrarem o
Sábado, tinham um estratagema ao estilo do “jeitinho brasileiro”. Como
eles só podiam se deslocar uma determinada distância no Sábado a par-
tir de suas casas, então, no dia anterior afixavam pertences pessoais em
vários lugares, o que lhes dava o “direito” de irem até aquele lugar (que
consideravam casa), e sempre um pouco mais à frente, até os outros lu-
gares desejados. Este tipo de obediência não poderia agradar a Deus.
Jesus falou:

“Do coração ____________maus desígnios, homicídios, adultérios,


prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt 15.19).

Uma das preocupações dos fariseus era comer sem lavar as mãos,
mas não estavam preocupados com o coração. A verdadeira mudança é
aquela que começa lá no coração. O coração é como se fosse uma fonte
de água. Se a fonte está contaminada, não adianta tratar o córrego. De
nada adianta as pessoas se esforçarem para mudar de vida, não falarem
palavrões, se controlarem para não discutir, etc., se continuam alimen-
tando todas essas coisas no coração. O caminho da transformação não é
de fora para dentro, mas de dentro para fora. O Espírito Santo que veio
morar em nosso coração (Gl 4.6) purificará esta fonte e então ela poderá
produzir água limpa.

II. A velha e a nova natureza

Uma das realidades mais nítidas do crente é a do conflito. Paulo


diz:

“Porque a carne ___________contra o Espírito, e o Espírito, contra


a carne, porque são _____________entre si; para que não façais o que,
porventura, seja do vosso querer” (Gl 5.17).
95

Esta é uma batalha terrível. O velho homem não quer entregar o


terreno de bom grado e se arma até aos dentes a fim de resistir ao Espírito
que veio habitar em nós.
Num certo sentido, já somos criaturas inteiramente novas, mas
noutro ainda não. Ao estar em Cristo, uma pessoa se tornou “nova cria-
tura” sendo que “as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas”
(2Co 5.17). Toda a sua vida sofreu uma inversão de valores, e por conse-
quência, as coisas antigas já passaram, e ele experimenta uma nova forma
de viver. Ele vive no novo tempo de Deus, sendo “um novo homem” para
Deus, para si mesmo, e para os outros. Tudo na expressão de Paulo indica
a renovação ocorrida na vida inteira do convertido, mas devemos lem-
brar que ele ainda tem um corpo e uma alma decaídos, que lhe causam
sofrimento. Portanto, existe uma tensão entre o que o crente já é, e o que
ele ainda não é. Ao mesmo tempo em que ele já é um “novo homem” e,
portanto, viver como novo homem deve ser algo natural, a Bíblia man-
da ele se esforçar para ser realmente um novo homem. Apesar de já ser
uma “nova criatura”, ainda tem muito em si da velha criatura. Por isto,
Paulo roga aos crentes que não mais se “conformem” com este século,
mas renovem-se em direção à vontade de Deus (Rm 12.1-2). Este século
continuará atuante e fazendo de tudo para que os crentes continuem a
viver segundo o padrão “da noite”, e por isso, como “filhos da luz” eles
devem abandonar “as obras das trevas” e se revestir “das armas da luz”
(Rm 13.12, Ef 5.8). Mas isto só é possível porque já são “filhos da luz”.
Paulo diz:

“Ora, as obras da _________ são conhecidas e são: prostituição, im-


pureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras,
discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas
___________ a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, ou-
trora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas
praticam” (Gl 5.19-21).

Evidentemente, essas obras caracterizam a vida de uma pessoa


não-regenerada. Não significa que um crente não possa cair em algum
desses pecados ocasionalmente, porém, se essas coisas forem evidências
contínuas na vida de alguém, como Jesus disse, isso caracteriza natureza
de árvore má, ou seja, ausência de conversão. A lista parece falar de pe-
cados que tem relação com o sexo (prostituição, impureza, lascívia), com
96

a religião (idolatria, feitiçarias), com o relacionamento com outros (ini-


mizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas), e
por fim com pecados relacionados aos apetites (bebedices, glutonarias).
Porém, a lista não é exaustiva, pois Paulo diz: “e coisas semelhantes a
essas”. Quatro áreas problemáticas ficam bem delineadas: sexo, religião,
relacionamento e apetites. São quatro áreas que a carne gosta de se ma-
nifestar.

III. Andando no Espírito

“Andai no Espírito e _________ satisfareis à concupiscência da carne”


(Gl 5.16).

Às vezes pensamos que precisamos lutar contra a carne para po-


der vencer o pecado e as tentações. Mas essa luta não é nossa. Essa é a
luta do Espírito contra a carne. Paulo diz: “Porque a carne milita contra
o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para
que não façais o que, porventura, seja do vosso querer” (Gl 5.17). A luta
já é bastante real. Não somos chamados para entrar nela, somos chama-
dos para “andar no Espírito”. O fruto do Espírito, que é consequência
de ser cheio do Espírito, acontecerá naturalmente em nós. Tão natural
quando um fruto pode ser. Quando estamos cheios do Espírito, o mun-
do não brilha tanto para nós, Satanás já não é tão ameaçador, e nossa
carne fica bastante enfraquecida. Ser cheio do Espírito é a garantia de
uma vida cristã autêntica.
Viver “no Espírito” é sinônimo de “andar no Espírito” ou ser
“cheio do Espírito”. Ser cheio ou pleno do Espírito Santo deve ser a maior
busca do cristão nessa vida. Pois ao mesmo tempo em que ele já é um ho-
mem espiritual, ainda precisa continuar buscando a plenitude espiritual.
A plenitude do Espírito é uma obra contínua. Ou seja, não se pode es-
perar um enchimento definitivo. Alguém que está em Cristo e por con-
sequência é nova criatura, não pode se dar ao luxo de não mais buscar
a Cristo. Alguém que tem o Espírito, e por consequência não está mais
na carne, ainda precisa se encher deste Espírito (Ef 5.18). Só a plenitude
do Espírito confere ao crente a plenitude de Deus em sua vida. A palavra
“andar” é um hebraísmo que significa viver continuamente na prática
de algo. A figura bíblica do “andar” é significativa, pois aponta para uma
realidade diária de caminhar, deparando-se com novas e desafiadoras
97

situações, nas quais o Espírito conduzirá de forma segura conforme as


Escrituras.

IV. Produzindo o fruto do Espírito

A primeira coisa que devemos notar é que há apenas um fruto do


Espírito. Ainda que, geralmente falemos em “frutos do Espírito”, a palavra
em Gálatas 5.22 está no singular. Isso faz contraste com “as obras da car-
ne” que são muitas e estão no plural, e também com os “dons do Espírito”.
Em relação aos dons do Espírito, eles são muitos porque caracterizam a
diversidade de membros no corpo de Cristo, e, por conseguinte, ninguém
tem todos os dons. Mas o fruto não tem essa função, e por isso, cada
crente verdadeiro deve produzir todo o fruto do Espírito. A unidade do
fruto do Espírito nos diz que não podemos escolher virtudes, devemos
evidenciá-las todas. Uma pessoa não pode ser apenas “longânime” sem
ser “fiel”. Do mesmo modo não pode evidenciar “amor” sem “domínio
próprio”.
Como estamos falando de “fruto” devemos pensar em seu cres-
cimento orgânico. Isso nos sugere duas coisas: primeiro que ele precisa
crescer, e segundo que cresce em certas circunstâncias. Não devemos es-
perar que uma pessoa recém-convertida demonstre o fruto do Espírito
em sua forma plena. Ele será desenvolvido gradualmente.
Isso nos leva a segunda observação, pois para que algo se desen-
volva, precisa ser alimentado. Usando a analogia da natureza, sabemos
que uma árvore não precisa fazer força para produzir frutos, ela precisa
dispor dos elementos necessários, como chuva, boa terra, sol, etc., e assim
os produzirá naturalmente. Da mesma forma, o crente não produz frutos
pela força, mas quando dispõe dos elementos necessários para isso, como
a pregação da Palavra, a comunhão entre os irmãos, a oração, a medita-
ção, etc. Essas santas influências do Espírito Santo produzirão na vida do
crente o bendito fruto do Espírito. Esse é o segredo de “andar no Espírito”.
E quem anda no Espírito tem a garantia de não satisfazer as concupiscên-
cias da carne (Gl 5.16).
O segredo do fruto do Espírito é andar no Espírito. Quando vive-
mos sob as influências benditas do Espírito Santo que nos são oferecidas
através da Palavra de Deus, da Oração, da Comunhão e da Igreja, levan-
do todas essas coisas a sério, o fruto do Espírito crescerá e amadurecerá
naturalmente em nós. A vida cristã é uma guerra realmente, mas se o
98

Espírito for engrandecido em nós, a guerra não será tão dramática. Ela
só será realmente árdua, se permitirmos que a carne se sobreponha.

Questionário de revisão

1 - De acordo com essa lição, onde e como começam as mudanças


verdadeiras?

a) ( ) Nos estudos teológicos.


b) ( ) Na consciência.
c) ( ) Na igreja.
d) ( ) No coração.

2 - Dê outro sinônimo para o termo “andar no Espírito”:

a) ( ) Viver no Espírito.
b) ( ) Lutar contra o “ego”.
c) ( ) Impedir que a carne domine.
d) ( ) Enfrentar o mal.

3 - O enchimento do Espírito é uma obra:

a) ( ) Definitiva
b) ( ) Passageira
c) ( ) Contínua
d) ( ) Temporária

4 - Como o cristão pode evidenciar que é um crente verdadeiro?

a) ( ) Através dos dons do Espírito adquiridos pela oração.


b) ( ) Através do fruto do Espírito produzido por viver no Espírito.
c) ( ) Através da prosperidade material.
d) ( ) Todas as alternativas estão corretas.
99

5 - Quais os elementos necessários para produzir o fruto do Espírito?

a) ( ) Não faltar ao culto, participar de campanhas e orar diaria-


mente.
b) ( ) Meditar na Palavra de Deus, se desviar do mal, pagar o dízi-
mo.
c) ( ) Ouvir a pregação da Palavra, manter a comunhão com os
irmãos, se dedicar à oração.
d) ( ) Adorar a Deus nos cultos, assumir cargos na igreja, jejuar
continuamente.

Indicação de leituras adicionais

• A Obra Consumada de Cristo – F. Schaeffer – Ed. Cultura Cristã,


2003 – Parte Dois – Santificação.
• Teologia Puritana – Joel Beeke – Ed. Vida Nova, 2016 – Cap. 29 –
Os puritanos e a regeneração.
• Creio sim, mas e daí? – J. M. Boice – Ed. Cultura Cristã, 1999 –
Cap. 4 – Creio sim, mas e daí?
100

10. VIDA DE ORAÇÃO

Uma das coisas mais importantes da vida cristã é a oração. Se an-


tes da conversão nossas iniquidades faziam separação entre nós e Deus,
de modo que ele não ouviria nossas orações (Is 59.1-2), após a conversão,
a paz com Deus foi estabelecida (Rm 5.1), e agora temos livre acesso ao
Trono da Graça (Hb 4.16). São praticamente inumeráveis as recomenda-
ções e ordens bíblicas para que os crentes se dediquem à oração. A vida
cristã começa com uma oração de invocação do nome do Senhor (Rm
10.13), e para o crente, orar deve ser como respirar (Rm 8.15). De fato,
Paulo ordenou: “Orai sem cessar” (1Ts 5.17). A oração para o crente deve
ser um modo de vida. Isto significa que além dos momentos que são
reservados exclusivamente para a oração, o crente pode manter uma co-
munhão com Deus constante, de maneira que, a todo o momento, suas
orações sobem à presença de Deus, seja através de frases faladas ou ditas
no pensamento. Esta “vida de oração” é o segredo do poder espiritual
e da vitória sobre o pecado. Viver em oração é sinônimo de “andar no
Espírito”.

I. A oração e a vontade de Deus

“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e _________; batei, e abrir-se-vos-á” (Mt


7.7).

Deus estabeleceu uma lei espiritual: o modo mais corriqueiro


como ele nos concede suas bênçãos é quando vamos até ele e pedimos.
A negligência na oração é a maior causa da estagnação da vida cristã. Je-
sus ensinou isto para seus discípulos no Monte das Oliveiras. Lá ele lhes
advertiu: “Orai, para que não entreis em tentação” (Lc 22.40). A falta de
oração nos torna presas fáceis do Diabo. Tiago identificou a razão dos
problemas dos cristãos como sendo falta de oração, ou oração feita de
forma errada:
101

“Nada tendes, porque _____________; pedis e não recebeis, porque


pedis mal, para __________________em vossos prazeres” (Tg 4.2-3).

Orar pouco ou orar de forma errada são atitudes extremamente


prejudiciais à nossa saúde espiritual.
Algumas pessoas argumentam: Mas se Deus já sabe de tudo, en-
tão por que orar? Essa é uma das principais objeções levantadas contra a
soberania de Deus. Podemos dar dois motivos para isso: primeiro porque
é um mandamento bíblico. Jesus nos mandou orar, e por isso devemos
obedecê-lo. Se ele nos deu o exemplo orando pessoalmente tantas ve-
zes em sua vida, se ensinou seus discípulos a orarem, e se a Escritura
nos manda “orar sem cessar” (1Ts 5.17), é porque devemos orar mesmo.
Ainda que a oração não tivesse nenhum outro valor, só o fato de ser um
mandato bíblico já seria motivo suficiente para ser obedecido. Mas não é
só isso. Há ainda mais um motivo pelo qual devemos orar: porque Deus
ouve nossas orações. Temos todos os motivos para crer nisto, e por isso
temos todos os motivos para orar. Nossas orações realmente podem ser
respondidas por Deus. Nossas orações abrem as janelas dos céus para que
as bênçãos de Deus caiam sobre nós.
Mas será que a oração pode realmente mudar a vontade de Deus?
A Bíblia não ensina que a oração muda a vontade de Deus. Por isso Jesus
ensinou dizer em oração “seja feita a tua vontade assim na terra como
no céu”. Algo para pensar: Seria bom que nossas orações mudassem a
vontade de Deus? Se eu soubesse que a minha oração poderia realmente
mudar algum desígnio de Deus para minha vida, eu me calaria. A razão
é simples: quem entende melhor a situação: eu ou Deus? Só Deus sabe o
que é melhor para a minha vida. Devo orar mais e mais, mas não preci-
so ter a pretensão de que minha oração mude sua vontade. O fato é que
normalmente é Deus mesmo quem nos incentiva a orar e, dessa maneira,
acabamos orando segundo a vontade dele, e ele responde nossa oração. O
famoso caso do rei Ezequias se enquadra nessa explicação. Ezequias após
receber um ultimato de Deus de que iria morrer, implorou ao Senhor que
lhe concedesse mais tempo de vida, e Deus lhe deu uma sobrevida de 15
anos (Is 38.1-8). Ezequias morreria se Deus não interviesse, mas, estava
em seu plano intervir, fazendo uso da oração do próprio Ezequias. Se a
intenção definitiva de Deus fosse levar Ezequias, nem teria revelado a
situação ao rei. Mas Deus pretendia dar mais tempo a Ezequias, e tinha
determinado que ele se humilhasse e orasse. Em resposta, Deus atendeu o
102

pedido do rei. Isso tudo faz parte do decreto divino e em nada abala sua
imutabilidade, porém, destaca de uma forma impressionante o papel da
oração no cumprimento dos decretos de Deus.

II. Cuidados com a oração

Muitas pessoas têm orado de forma errada. Existe uma crença


de que Deus nos tem dado todas as coisas mediante o sacrifício de seu
Filho, mas nós precisamos tomar posse delas. Ou seja, depende exclu-
sivamente de nós. Deus já deu, mas se nós não reclamarmos, ficaremos
sem nada. Em alguns casos, existe uma ideia de que há requisitos que
precisam ser preenchidos, e então, Deus passa a estar à nossa disposição.
E assim, muitas vezes, os crentes exigem algo de Deus, como se Deus
fosse obrigado a conceder o que eles desejam. Esta tem sido a forma de
algumas orações: “Senhor, tu prometeste na tua palavra, e agora eu exijo
que me seja dado!”; “Senhor, eu não admito esta doença na minha vida!”.
Muitas vezes, as pessoas pensam que esta é uma forma de piedade ou es-
piritualidade, mas quando vamos às Escrituras nos deparamos com um
panorama muito diferente.
No capítulo 6 do Evangelho de Mateus está, certamente, a princi-
pal concentração do ensino de Jesus com respeito à oração. Neste capítu-
lo, que faz parte do Sermão do Monte, encontra-se a oração dominical,
talvez a parte mais conhecida das Escrituras em todo o mundo. Interes-
sa-nos especialmente neste momento, o ensino de Jesus com respeito
à oração que vem logo antes da oração dominical. Podemos dizer que
Jesus deu a teoria aos discípulos antes, e logo em seguida lhes ensinou
como seria isso na prática. Jesus disse:

“E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de


orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem _______
dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora-
rás a teu Pai, que está em ___________; e teu Pai, que vê em secreto, te
recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios;
porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos as-
semelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes
necessidade, antes que lho peçais” (Mt 6.5-8).
103

Podemos ver, portanto que Jesus está explicando como deve e


como não deve ser a oração. A oração é o momento mais íntimo de co-
municação com Deus que o homem pode ter. É o momento quando o
homem tem uma audiência com Deus, e o Todo-Poderoso condescende
em lhe ouvir as súplicas. Portanto, ela não pode ser feita de qualquer
jeito. É necessário um cuidado especial. O Senhor Jesus, portanto, ex-
plica nesta passagem quais são esses cuidados. Nós podemos dizer que
significa ter consciência de certas coisas. E a primeira delas diz respeito à
situação do próprio homem. Jesus diz, “quando orardes, não sereis como
os hipócritas”. Quando Jesus adverte seus discípulos para que não façam
desta forma, está chamando a atenção deles para o fato de que é possí-
vel que eles próprios fizessem isso. Talvez não da forma tão escandalosa
como os fariseus, mas sempre é possível achar alguma forma mais sutil de
hipocrisia. Quando falamos algo que não é sincero, como por exemplo,
um elogio que fazemos a Deus, sem ao menos pensarmos no que estamos
dizendo. Por isso, na oração devemos estar conscientes de nós mesmos,
de quais são nossas reais intenções, e do quanto temos facilidade de cair
no erro da hipocrisia.
Para que nossas orações agradem a Deus, elas devem ser sinceras.
É isto que Jesus está querendo dizer quando ordena que seus discípulos
orem em secreto. Ele não está querendo dizer que não podem orar publi-
camente, mas que, se o único modo para que a oração seja sincera é se ela
for feita em particular, então deveria ser feita dessa forma.
A segunda coisa da qual aqueles que oram devem estar conscien-
tes diz respeito às palavras usadas. Será então, que apenas aqueles que
conseguem fazer orações bonitas, cheias de palavras teológicas é que
oram corretamente, e que os simples, aqueles que mal sabem falar cor-
retamente, não agradam a Deus? Não é disso que Jesus está falando. Ele
diz: “E orando, não useis de vãs repetições como fazem os pagãos”. Ele
está muito mais interessado no sentido das palavras do que nas palavras
em si. O motivo pelo qual os pagãos usavam tantas repetições era porque
pensavam que quanto maior e mais ruidosa fosse sua oração, maior era a
possibilidade de serem atendidos. Um exemplo disso foram os sacerdotes
de Baal que “invocaram o nome de Baal desde a manhã até o meio-dia”
(1Rs 18.26), para que este respondesse à invocação deles e se manifes-
tasse diante do profeta Elias. Nesta forma errônea de oração encontra-se
também o rosário que alguns usam, onde repetem as “Ave-Marias” e os
“Padre-Nossos”, até a exaustão.
104

Portanto, percebemos que nem todas as palavras ditas numa


oração agradam a Deus. E se uma mera repetição não o agrada, como
poderia ele estar satisfeito quando as pessoas lhe dão ordens dizendo o
que deve e o que não deve fazer? Portanto, Jesus Cristo está nos dando
um aviso para que tenhamos cuidado com o que falamos na presença de
Deus. O sábio rei Salomão disse no Eclesiastes: “Não te precipites com
a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma
diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam
poucas as tuas palavras” (5.2). Nosso Pai se agrada em nos ouvir, entre-
tanto, devemos tomar muito cuidado com a forma como nos dirigimos a
ele. Ele não é nosso igual (Sl 50.21), antes é o Deus excelso e todo-pode-
roso a quem devemos todo o respeito.

III. O modelo correto de oração

Através da oração dominical, o popular “Pai Nosso”, Jesus ensi-


nou seus discípulos como deveriam orar. Será importante considerar-
mos brevemente esta oração para entender qual é a oração que agrada a
Deus. Antes, porém, precisamos dizer que a oração precisa ser acompa-
nhada de fé. Jesus disse:

“E tudo quanto _____________ em oração, ______________, rece-


bereis” (Mt 21.22).

A fé, portanto, é um elemento indispensável à oração. Jesus man-


dou que seus discípulos orassem no nome dele: “E tudo quanto pedirdes
em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo
14.13; 14.14; 16.24). Orar “em nome de Jesus” significa que não estamos
pedindo algo de Deus com base em nossos méritos pessoais, mas com
base nos méritos do próprio Jesus. E algo que jamais pode faltar na ora-
ção é “ação de graças” (Fp 4.6; Cl 4.2). Um coração agradecido reconhece
que Deus sempre nos tem dado o melhor, e que nada foge dos propósitos
dele, ainda que naquele momento esteja pedindo algo que acredita es-
tar lhe faltando. Devemos ainda lembrar que o Espírito Santo funciona
como uma espécie de “tradutor” dos crentes quando eles oram a Deus
(Rm 8.26-27). Isto é maravilhoso, pois apesar de todo o cuidado que
devemos ter aos nos dirigirmos a Deus, sempre há o risco de falarmos o
que não devemos.
105

Agora precisamos considerar a oração dominical. Ela é o grande


modelo divino de oração. Jesus disse:

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado
seja o ____ nome; venha o ____ reino; faça-se a ____ vontade, assim na
terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; e perdoa-nos as
nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e
não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal pois teu é o reino,
o poder e a glória para sempre. Amém!” (Mt 6.9-13).

Quando Jesus disse: “portanto, vós orareis assim”, ele não tinha
a intenção de que as pessoas ficassem repetindo esta oração, até porque
acabou de dizer que Deus não se agrada de “vãs repetições”. O que ele
pretendeu dizer é que este é um “modelo de oração”. Ou seja, devemos
olhar para esta forma de oração e procurar seguir estes princípios quando
estivermos orando. A estrutura da oração que Jesus ensinou é bastante
simples. Há uma introdução, sete petições e uma conclusão. A introdu-
ção é: “Pai nosso, que está nos céus”. Jesus quer que nos dirijamos a Deus
da forma mais simples e íntima possível, chamando-o de “Pai”, sem es-
quecer que ele “está nos céus”, ou seja, devemos equilibrar intimidade e
respeito ao mesmo tempo. Em seguida vêm sete petições.
A estrutura dessas petições impressiona. As três primeiras têm
o verbo na segunda pessoa do singular: “teu, teu, tua”. Não são pedidos
para coisas nossas, mas para coisas de Deus. Jesus está ensinando que
nossas orações devem primeiro buscar aquelas coisas que dizem respeito
à glória de Deus. Devemos buscar em oração que o nome de Deus seja
santificado, que o reino dele se estabeleça, que a vontade dele seja feita.
Estas coisas devem ter a prioridade em nossas orações, mais do que nos-
sas necessidades pessoais.
Das sete petições, há apenas uma para nossas necessidades físicas.
Isto tem um aspecto negativo e outro positivo. O negativo é que Deus não
se agrada de crentes que só sabem orar pedindo coisas para si mesmos. O
positivo é que os crentes podem orar por suas necessidades físicas. Elas
não devem monopolizar a oração, mas podem aparecer no meio dela. Je-
sus mandou que pedíssemos o pão de cada dia. Isto tem pelo menos duas
implicações. Primeiro que o pão simboliza o básico, aquilo que realmente
precisamos. Segundo que temos que pedir diariamente, porque precisa-
mos reconhecer nossa dependência diária do sustento de Deus.
106

As três últimas petições dizem respeito a aspectos espirituais.


Nossa espiritualidade deveria receber mais atenção em nossas orações
do que nossas necessidades físicas. Nos três pedidos por questões espiri-
tuais destacam-se: O perdão que precisamos de Deus e que devemos aos
outros; forças para resistir às tentações do pecado; livramento do mal, ou
literalmente “do maligno”. A oração termina com um louvor pelo reco-
nhecimento da soberania de Deus: “pois teu é o reino, o poder e a glória
para sempre”. O “amém”, algo como um “assim seja” também faz parte da
oração, pois representa nossa confiança de que Deus agirá e sempre fará
o melhor.
O crente jamais deve descuidar da oração às custas de pagar um
alto preço de retrocesso na fé. A oração estreita nossa comunhão com
Deus, e se for feita nos moldes que Jesus ensinou, nos fará pessoas preo-
cupadas com a glória de Deus e desejosas de alcançar feitos espirituais.
Mas devemos estar atentos a todo tipo de formalismo ou ritualismo em
nossas orações. Deus não deseja ouvir coisas repetidas e destituídas de
sentido. Ele quer sinceridade, coração, joelho dobrado e fervor espiri-
tual.

Questionário de revisão

1 - Por que a oração é tão importante na vida do crente?

a) ( ) Porque a oração nos dá a vitória sobre o pecado.


b) ( ) Porque a oração muda a vontade de Deus.
c) ( ) Porque a oração é um exercício espiritual.
d) ( ) É através da oração que conseguimos o que queremos.

2 - A oração muda a vontade de Deus?

a) ( ) Sim. Desde que oremos com bastante fé.


b) ( ) Sim. Desde que estejamos com o coração limpo.
c) ( ) Não. A Bíblia não ensina que ela muda a vontade de Deus.
d) ( ) Algumas vezes, quando Deus se compadece do sofrimento.

3 - Seria bom se a oração mudasse a vontade de Deus? Justifique:


107

a) ( ) Sim. Pois teríamos todos os nossos pedidos alcançados.


b) ( ) Sim. Pois teríamos todos os problemas solucionados.
c) ( ) Sim. Pois seríamos mais felizes nesse mundo.
d) ( ) Não. Porque somente Deus sabe o que é melhor.

4 - O que seria usar de vãs repetições na oração, e por que Deus não
se agrada disso?

a) ( ) Chamar a atenção de Deus repetindo o mesmo pedido, como


se ele não estivesse ouvindo. Deus não se agrada porque já conhece a
nossa necessidade, antes do nosso pedido.
b) ( ) Pedir algo que desagrada a Deus. Deus não atende pedidos
que não sejam de sua vontade
c) ( ) Fazer algum pedido estando em pecado. Deus não atende
pecadores.
d) ( ) Chamar a atenção de Deus de forma egoísta. Deus não res-
ponde aos pedidos individuais.

5 - O que significa orar em nome de Jesus?

a) ( ) Significa que Deus concederá tudo aquilo que pedirmos.


b) ( ) Significa que Jesus entende os nossos desejos pois, ele tem a
natureza humana.
c) ( ) Significa que Jesus é o único que pode fazer a nossa vontade.
d) ( ) Significa que não estamos pedindo algo a Deus baseado em
nossos méritos pessoais, mas com base nos méritos do próprio Jesus.

Indicação de leituras adicionais

• Oração do Dever ao Prazer – J. I. Packer – Ed. Cultura Cristã,


2009.
• A Família da Aliança – Harriet e Gerrard van Groningen – Ed.
Cultura Cristã, 2009 – Cap. 17 – O Culto no Lar da Família da Aliança
• Discípulos Hoje – R. C. Sproul – Ed. Cultura Cristã, 1998 – Parte
2 - A Oração Altera as Coisas?
108

11. OS FALSOS PROFETAS

Muitos pregadores têm oferecido uma esperança falsa para os


pecadores, pois os fazem pensar que serão salvos apesar de continuarem
rebeldes contra Deus. Grandes multidões têm sido atraídas para muitas
igrejas em busca de milagres e soluções urgentes para seus problemas.
Em contrapartida, não têm ouvido a verdadeira mensagem do Evange-
lho. Isso tem produzido uma geração de adeptos do cristianismo cujo
comportamento pouco ou nada se distingue do comportamento dos in-
crédulos. Formas chocantes de imoralidade têm se tornado comuns no
meio da Igreja quando pessoas famosas são atraídas para a igreja, mas
não experimentaram a verdadeira conversão. Quando ligamos a televi-
são, vemos todo tipo de pregadores dizendo que milagres estão aconte-
cendo em suas igrejas, e vemos estas igrejas cheias de pessoas. Existem
mais de quarenta milhões de evangélicos no Brasil. Eles estão em todas
as camadas da população, e até mesmo em Brasília nos antros do poder.
Mas continuamos vivendo numa sociedade má que pouco tem sido in-
fluenciada apesar de tanta evidência evangélica na mídia.
Há três grandes perigos espirituais que todo novo convertido
precisa ter conhecimento. O primeiro é o perigo de ser enganado por
falsos mestres e falsos ensinos, o segundo é o de negligenciar o papel das
provações, e o terceiro é o de se deixar fascinar pelo dinheiro.

I. O estreito caminho

No final do Sermão do Monte, Jesus procurou alertar os discí-


pulos contra os perigos de se envolver com aspectos falsos da religião e
da espiritualidade. Jesus sempre esteve preocupado em alertar seus dis-
cípulos com respeito ao erro. O mestre sabia que, neste mundo, nunca o
verdadeiro estaria completamente livre do falso. Sempre que a verdade
fosse proclamada, a mentira se colocaria em ação.
Em primeiro lugar Jesus nos diz que o caminho que conduz à
vida eterna é apertado, e poucos são os que por ele transitam:
109

“Entrai pela porta ______________(larga é a porta, e espaçoso, o ca-


minho que conduz para a ____________, e são muitos os que entram por
ela), porque estreita é a porta, e _____________, o caminho que conduz
para a vida, e são poucos os que acertam com ela” (Mt 7.13-14).

Algo que devemos notar em primeiro lugar é que o melhor lu-


gar não é onde necessariamente tem mais gente. Se a nossa religião é a
mesma das multidões, então temos motivos para estarmos preocupados.
A Bíblia e a experiência comprovam que sempre há mais pessoas onde
existem mais “vantagens”. O caminho largo é o caminho das vantagens
pessoais, é o caminho da ausência de compromisso e dedicação, é o cami-
nho da despreocupação espiritual. Em contrapartida, o caminho estreito
é o caminho das dificuldades. É por isso que há tão poucas pessoas nele.
Por isso não devemos desanimar se a religião que professamos não é po-
pular, ou se as multidões não estão interessadas nela. As igrejas enchem
quando a ênfase está nas vitórias sobre a pobreza, sobre a doença, ou seja,
no alívio dos problemas. Mas, quando a ênfase está no tomar a cruz todos
os dias, no suportar aflições por amor de Cristo, no afastar-se do mundo
e dos seus prazeres, poucos são os que perseveram.
Em segundo lugar, Jesus alertou para que tomássemos cuidado
com os falsos profetas:

“Acautelai-vos dos ___________profetas, que se vos apresentam dis-


farçados em ovelhas, mas por dentro são ______________roubadores”
(Mt 7.15).

Eles se apresentam como ovelhas, ou seja, não é fácil identificá-


-los à primeira vista. O pelo de lobo está bem disfarçado por baixo de
uma aparência de piedade, por uma demonstração de interesse desin-
teressado ou por um simples pedido de ajuda. O Senhor Jesus nos deu
um modo de identificá-los: “Olhem para os seus frutos” (Mt 7.16-20).
Uma árvore não consegue esconder para sempre sua natureza, pois logo
ela terá frutos que vão dizer que tipo de árvore ela é. Um limoeiro nunca
conseguirá produzir laranjas, mas é preciso ficar atento, de longe pode
ser difícil identificar um limão de uma laranja. Assim também, os falsos
mestres não vivem o que muitas vezes pregam, mas dão toda a aparência
de que vivem. Não é incomum existir na vida das pessoas que se dizem
as mais espirituais, aquelas que sempre têm uma palavra de Deus para a
110

vida de todo mundo, a existência de um coração indomado. Observe-


mos, portanto, estes que se dizem mestres, se possuem o mesmo caráter
terno e paciente de Jesus, bem como sua humildade, amor, autocontrole
e bondade. E analisemos também o ensino deles. Pois sã doutrina e vida
santa são sinais característicos dos verdadeiros profetas.
Em terceiro lugar é preciso entender que há sinais falsos. Jesus
disse:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos


céus, mas aquele que faz a _______________de meu Pai, que está nos
céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventu-
ra, não temos nós _______________________em teu nome, e em teu
nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos
________________? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conhe-
ci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” (Mt 7.21-23).

O dia do juízo final revelará coisas espantosas. Quantas pessoas


que nós não suspeitávamos que fossem crentes estarão do lado dos esco-
lhidos; e quantos por quem nós colocaríamos nossa mão no fogo serão
reprovados. É impressionante a declaração de Jesus de que muitos na-
quele dia argumentarão que fizeram tantas coisas maravilhosas no nome
de Jesus, como profetizar, expelir demônios e realizar muitos milagres,
mas serão condenados porque nunca mudaram de vida. Claramente há
nestas pessoas uma grande distância entre o “dizer” e o “fazer”. Eles di-
zem que servem a Cristo, pois o chamam de Senhor, mas como diz Lu-
cas “não fazem o que ele manda” (Lc 6.46). O que chama a atenção é o
desespero e a sinceridade destes “crentes” enganados diante do trono de
Deus. Eles dizem: “mas o que está errado? Nós fizemos tudo o que era
necessário! Todos na terra sabem que nós somos crentes. Falamos de Je-
sus para muitas pessoas, nunca nos envergonhamos disso. Usamos o teu
nome e coisas fantásticas aconteceram, como curas, exorcismos e profe-
cias. E sempre demonstramos todo fervor com respeito à igreja...”. Jesus
não negou que tivessem acontecido sinais e maravilhas, mas negou que
os conhecia. Embora os homens possam ser enganados com palavras e
demonstrações de poder, Deus não pode ser enganado, porque somente
ele conhece o mais íntimo do coração.
Não devemos esquecer que o próprio Satanás é perito em operar
prodígios e sinais. A Bíblia tem anunciado que a manifestação final do
111

maligno será recheada de eventos sobrenaturais. Jesus disse que “surgirão


falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para
enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.24). Paulo também falou
que “o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo
poder, e sinais, e prodígios da mentira” (2Ts 2.9). E a segunda Besta que
João viu e registrou no Apocalipse, e que representa a religião dominada
pelo maligno, “também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do
céu faz descer à terra, diante dos homens. Seduz os que habitam sobre a
terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta” (Ap
13.13-14). A verdade é revelada pela Palavra e não pelos sinais.

II. O papel das provações

Nos dias de hoje muitos crentes acreditam numa espécie de triun-


falismo cristão. Pensam que um fiel não passa por dificuldades, não pode
ter problemas financeiros ou ficar doente. Em geral, esses problemas são
atribuídos ao Diabo, e pensa-se que, passar por tais dificuldades, eviden-
cia falta de fé. Pastores ensinam os crentes a se considerarem vitorio-
sos sobre todos os problemas, pois são filhos de Deus. Devem exigir na
prática o status que desfrutam como “príncipes”. Diante das dificuldades
basta orar e decretar que o problema não mais existe e ele sumirá. Basta
profetizar vitórias e todos os problemas desaparecerão. Essa “teologia” se
parece muito com a filosofia de vida chamada de “pensamento positivo”.
Mas o que esta forma de pensar ignora é que o mundo está debaixo da
maldição do próprio Deus, e que o fato de alguém ser crente não impede
que nasçam ervas daninhas em seu quintal, nem que sua esposa tenha
dores de parto (Gn 3.16-18), pois esses são exemplos da maldição citados
pelo próprio Deus.
Outra coisa que essa forma de pensar ignora é que o próprio Deus
pode enviar provações para amadurecer os crentes. A Bíblia claramente
demonstra que Deus permite que venham tribulações sobre a vida dos
crentes a fim de purificar a fé. Pedro diz que os crentes deveriam se ale-
grar nas tribulações:

“Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário,


sejais contristados por várias _______________, para que, uma vez con-
firmado o valor da vossa fé, muito mais ______________do que o ouro
perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em ____________, glória e
112

honra na revelação de Jesus Cristo” (1Pe 1.6-7).

As provações da vida contribuem para a purificação da fé e re-


dundam no louvor de Jesus. Paulo experimentou em sua própria vida
todo tipo de provações e dificuldades. Ele descreveu seu sofrimento com
as seguintes palavras: “Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena
de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, ape-
drejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem
do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de
salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em pe-
rigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos
entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em
fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez” (2Co 11.25-27).
Paulo não seria um modelo de fé para muitas igrejas da atualidade. Ele
próprio fez questão de relatar um sofrimento terrível em sua vida, o qual
chamou de “espinho na carne”, que o atormentava, e para o qual insistiu
ao Senhor que o livrasse, mas a resposta que recebeu de Deus foi: “a mi-
nha graça te basta” (2Co 12.7-9). Deus não retirou o sofrimento, porque
aquele sofrimento era para o bem de Paulo. Então Paulo teve que apren-
der a viver sem que tudo fosse exatamente como ele queria.
Ele explicou o segredo de seu contentamento: “Digo isto, não por
causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer
situação” (Fp 4.11). Paulo enfrentou todo tipo de situação, algumas que
quase o fizeram desesperar da vida (2Co 1.8), mas jamais deixou de ser
fiel e sua fé foi maravilhosamente amadurecida, a ponto de poder dizer
ao final de seu ministério: “Combati o bom combate, completei a carrei-
ra, guardei a fé” (2Tm 4.7). Nos moldes de Jó, Paulo descobriu a graça de
Deus no sofrimento, e por causa dela podia dizer: “quando sou fraco é
que sou forte” (2Co 12.10). Infelizmente o triunfalismo cristão impede
que as pessoas tenham as maiores e mais verdadeiras experiências com
Deus, e nunca levará uma pessoa a um nível espiritual mais elevado. O
triunfalismo cristão cria crentes mimados, uma espécie de “bebês em
Cristo” que nunca experimentam o verdadeiro crescimento, pois se re-
cusam a usar os instrumentos divinos para o crescimento de seus filhos.
O triunfalismo cristão ignora a verdade de Romanos 8.28:

“Sabemos que todas as cousas cooperam para o ______ daqueles que


amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”.
113

Deus usa todas as coisas, inclusive o sofrimento para o nosso cresci-


mento. Tiago escrevendo aos perseguidos crentes da dispersão disse:

“Meus irmãos, tende por motivo de grande alegria o passardes por


várias ___________” (Tg 1.2).

Tiago afirma que as provações vão trazer perseverança aos cren-


tes, o que por sua vez os tornará maduros na fé (Tg 1.3-4). Mais à frente
Tiago escreveu:

“Bem-aventurado o homem que __________, com perseverança, a


provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida,
a qual o Senhor prometeu aos que o amam” (Tg 1.12).

As provações devem ser motivo de alegria porque existem para o


bem dos crentes.

III. A prosperidade do cristão

Jesus nasceu numa manjedoura, viveu sua vida em extrema sim-


plicidade, se relacionou com pessoas pobres, viveu alheio dos redutos do
poder e do conforto, não tendo, segundo as palavras dele mesmo, “onde
reclinar a cabeça” (Mt 8.20). Jesus foi um simples carpinteiro que preci-
sou ser sustentado por mulheres para que pudesse desenvolver o minis-
tério, e isto significa que sua arrecadação deveria ser bastante modesta
(Lc 8.3). Mas hoje há crentes que desembolsam centenas de milhares de
dólares para comprar um carro, e conseguem dormir tranquilos em palá-
cios luxuosos enquanto tantos ao seu redor estão passando fome.
Jesus ensinava seus discípulos a não se apegarem aos bens mate-
riais e a estarem preparados para enfrentar sofrimentos e privações por
causa dele, mas hoje os pregadores proclamam dos púlpitos que os crentes
serão prósperos, que terão todos os seus sonhos realizados, que desfruta-
rão de todo o conforto que esta terra pode oferecer. Hoje os pregadores
resumem todo o sofrimento a que Jesus se submeteu desde seu nasci-
mento até à sua terrível morte por crucificação como sendo para fazê-los
“felizes”, “prósperos” e “saudáveis”. Esses mesmos pregadores ensinam os
crentes a fazerem negócios com Deus, a provar a fidelidade de Deus. O
método geralmente é o de depositar uma gorda quantia no cofre da igre-
114

ja e esperar que Deus irá recompensar em dobro ou triplo. As bênçãos


celestes que a igreja romana da idade média vendia, a igreja evangélica
também vende, porém, bênçãos terrenas que atraem muito mais do que
as celestes. Na verdade, isto, além de ser uma excelente técnica de arre-
cadação, é também um excelente método de fazer discípulos de Mamon
(deus das riquezas). Este tipo de pregação que se torna mais comum a
cada dia tem criado “crentes” obcecados por dinheiro e felicidade. Deus
é para eles apenas um instrumento para conseguir estas coisas.
Paulo em seu tempo já falou de homens que misturavam fé e lu-
cro. Ele alertou Timóteo a respeito de homens “cuja mente é pervertida e
privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.5).
Evidentemente estes homens estavam mais interessados nos ganhos fi-
nanceiros que podiam ser obtidos através da religião, do que em relação
ao compromisso com Deus que se requer para uma vida piedosa. Eles
pensavam que a piedade podia ser fonte de lucros, e isto também se pa-
rece com as pessoas dos dias de hoje que enfrentam todo tipo de “rituais
evangélicos” para obterem algum dinheiro. Paulo entende que a piedade
é fonte de lucro sim, mas de outro tipo de lucro, aquele que vem com o
contentamento (1Tm 6.6). A lógica de Paulo é muito parecida com a de
Jó:

“Porque __________temos trazido para o mundo, nem coisa alguma


podemos levar dele. Tendo ________________e com que nos vestir, es-
tejamos contentes” (1Tm 6.7-8).

O contentamento é a grande virtude do cristão. Paulo diz: “Ora,


os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concu-
piscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína
e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns,
nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com
muitas dores” (1Tm 6.9-10). Estes versos deveriam ser afixados em todos
os para-brisas dos carros dos crentes, pois é uma palavra extremamente
importante para os nossos dias. Elas nos alertam sobre coisas terríveis
que podem sobrevir àqueles que se enveredam pelo caminho da cobiça
e da ganância. É muito importante entender que Paulo está falando de
cristãos neste capítulo. Ele percebe claramente que muitos estão tentan-
do servir a Deus e a Mamon conjuntamente, mas ele sabe que afinal, se
continuarem nesta prática, servirão apenas a Mamon.
115

Porém, não se deve pensar que Paulo está dizendo que é impossí-
vel ser rico e ser crente. É possível. Inclusive ele diz: “Exorta aos ricos do
presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperan-
ça na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona
ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de
boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para
si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apode-
rarem da verdadeira vida” (1Tm 6.17-19). Portanto, é possível ser rico e
agradar a Deus. Mas para isso, é preciso abrir mão da avareza.
Devemos estar preparados para enfrentarmos os perigos espiri-
tuais que surgem em nossa caminhada cristã. O diabo fará de tudo para
nos enganar, às vezes usando a própria religião. Precisamos sempre lem-
brar que o caminho é estreito, que as provações fazem parte da caminha-
da e que o amor aos bens terrenos nos afasta de Deus.

Questionário de revisão

1 - Quais os três perigos espirituais, apontados nessa lição, que o novo


convertido deve evitar?

a) ( ) Conversar com incrédulos, frequentar praias e clubes sociais,


ler livros e assistir filmes seculares.
b) ( ) Assistir programas televisivos impróprios, frequentar praias e
clubes sociais, e manter amizade com irmãos de outras denominações.
c) ( ) Ensinamentos de falsos mestres, negligenciar o papel das pro-
vações e deixar se fascinar pelo dinheiro.
d) ( ) Ter amizade com incrédulos, ser consumista e frequentar luga-
res impróprios aos cristãos.

2 - Destaque dois sinais característicos dos verdadeiros profetas:

a) ( ) Ensinamento da sã doutrina e vida santa.


b) ( ) Eloquência na pregação e dedicação na obra de Deus.
c) ( ) Fidelidade à esposa e prosperidade financeira.
d) ( ) Dedicação à igreja e dedicação à sociedade civil.
116

3 - Por que a operação de sinais não é parâmetro para a verdade?

a) ( ) Porque Deus não opera mais milagres.


b) ( ) Os sinais só aconteceram para estabelecer a igreja.
c) ( ) Deus não está interessado em sinais.
d) ( ) Porque nem todos que operam sinais tiveram uma mudança
de vida.

4 - Qual a relação entre a filosofia do “pensamento positivo” com o


triunfalismo cristão?

a) ( ) Pensar que o fiel não pode passar dificuldade.


b) ( ) O fiel não pode aceitar derrotas de nenhuma espécie, carac-
terizando falta de fé.
c) ( ) O fiel não deve aceitar problemas financeiros ou doenças,
pois esses problemas são atribuídos geralmente ao Diabo.
d) ( ) Todas as alternativas estão corretas.

5 - Quanto ao perigo das riquezas, que cuidados você poderia desta-


car como úteis para manter a fidelidade?

a) ( ) Evitar se dedicar ao trabalho em demasia e aceitar a pobreza.


b) ( ) Saber que ser pobre é a maior virtude do crente.
c) ( ) Não se apegar a bens materiais e estar preparado para enfren-
tar sofrimentos e privações por causa de Jesus.
d) ( ) Não procurar assumir cargos importantes e querer ser prós-
pero financeiramente.

Indicação de leituras adicionais

• Brecha em Nossa Santidade – Kevin DeYoung – Ed. Fiel, 2013.


• Bom Demais para Ser Verdade – M. Horton – Ed. Fiel, 2013 –
Cap. 5 – Existe alguém ali em cima?
• Verdades do Evangelho X Mentiras Pagãs – Peter Jones – Ed.
Cultura Cristã, 2007 – Mentira Pagã nº 5: Olhar para Dentro de Si; Ver-
dade do Evangelho nº 5: Olhar para Ele.
117

12. QUEBRANDO AS MALDIÇÕES

Será que existem maldições hereditárias? Será que quando uma


pessoa faz algum tipo de pacto com o Diabo, atrai maldições para si mes-
ma e para seus descendentes? Para muitas pessoas, a resposta para essas
perguntas é sim. Explicam que doenças, vícios e certos tipos de compor-
tamento se devem a maldições familiares que precisam ser quebradas. Di-
zem que problemas com alcoolismo, depressão, nervosismo, pornografia,
adultério, divórcio, diabete, câncer, pobreza, alergia, doenças do coração,
problemas de visão, perturbações mentais e emocionais, abusos sexuais,
obesidade, etc., acontecem porque algum antepassado viveu aquela si-
tuação ou praticou aquele pecado e transmitiu tal pecado ou maldição a
um descendente. Dizem que mesmo que uma pessoa se converta a Cristo
ela pode continuar amaldiçoada. E por isso, ela precisa passar por uma
experiência de “quebra de maldições”. Alguns dizem que, para quebrar
maldições, basta fazer uma oração repreendendo todos os espíritos ma-
lignos que estão agindo naquele problema. Outros dizem que é preciso
identificar os pecados cometidos pelos antepassados e pedir perdão por
eles. Outros fazem cerimônias escrevendo os pecados em papeizinhos e
os queimam em fogueiras, como se estivessem queimando os pecados. E,
certamente, devem haver muitas outras maneiras “prescritas” para que-
brar maldições. Neste estudo vamos procurar entender de onde vem a
maldição e como ela pode, de fato, ser quebrada.

I. A origem da maldição

Muitas vezes pensamos que a maldição é uma arma do diabo que


está interessado em nos fazer mal. Mas, a maldição é um instrumento
divino, e na verdade faz parte de sua atividade julgadora. Em Deuteronô-
mio 11.26 Deus diz:

“Eis que hoje eu ponho diante de vós a ____________ e a ____________:


a bênção quando cumprirdes os mandamentos do Senhor vosso Deus,
que hoje vos ordeno; a maldição, se _____________________os manda-
118

mentos do Senhor vosso Deus”.

A Bíblia não diz que a bênção é de Deus e a maldição é do diabo.


Tanto a bênção quanto a maldição são prerrogativas divinas. A maldição
está estritamente ligada à desobediência e a bênção à obediência. Isso já
havia sido dito em Êxodo 20.5-6 onde Deus é chamado de “Deus zeloso
que visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração
daqueles que o aborrecem”, mas por outro lado “faz misericórdia até mil
gerações daqueles que o amam e guardam os seus mandamentos”. Então,
a maldição é uma decorrência da desobediência da lei de Deus, ou para
simplificarmos, do pecado. É preciso, portanto, reconhecer que a maldi-
ção pode ser uma realidade na vida dos homens. De certo modo, a terra
como um todo está amaldiçoada, pois quando o homem pecou, Deus
decretou: “Maldita é a terra por tua causa” (Gn 3.17).
No caso de maldições pessoais, precisamos entender que, via de
regra, cada pessoa é responsável por seus próprios atos. Embora no se-
gundo mandamento, que alerta contra a idolatria, esteja incluída uma
promessa de maldição até a quarta geração, é preciso lembrar que este é
um caso específico. A idolatria é, entre todos, o mais odioso dos pecados
humanos diante de Deus. Mas é evidente que a maldição só tem prosse-
guimento se as próximas gerações também forem idólatras. Deus deixou
claro que sua maldição está posta sobre os que o desobedecem.
Deus não costuma punir os filhos pelos pecados dos pais. Israel
tinha um provérbio que dizia o seguinte: “Os pais comeram uvas verdes,
e os dentes dos filhos é que se embotaram” (Ez 18.2). Se fosse hoje, di-
ríamos: “os pais comeram doce e os dentes dos filhos ficaram cariados”.
Mas Deus disse que as coisas não funcionavam assim: “Tão certo como
eu vivo, diz o SENHOR Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis
que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do
filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.3-4). E concluiu:

“A alma que pecar, essa _________; o filho não _________ a iniqui-


dade do pai, nem o pai, a iniquidade do filho; a justiça do justo ficará
sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este” (Ez 18.20).

Percebemos que os discípulos de Jesus acreditavam naquele pro-


vérbio, pois quando viram um cego de nascença, perguntaram a Jesus:
“Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo
119

9.2). Parece que os discípulos acreditavam em “maldição hereditária”.


Mas Jesus corrigiu: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se
manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9.3). Jesus disse que a cegueira da-
quele homem não era em razão de algum pecado, mas por causa de um
propósito soberano de Deus. Por isso, apesar de sabermos que maldições
existem, não devemos tentar identificar todas as doenças ou males com
maldições por causa de pecados particulares.

II. Maldição quebrada

É preciso entender que todos os homens quando nascem, nascem


num mundo amaldiçoado. É obvio que serão alvos de muitas maldições,
pois a maldição é uma consequência do pecado, e todos são pecadores,
tendo herdado o pecado de Adão. Por isso, por natureza todos os ho-
mens são amaldiçoados. Mas, como é que se quebra uma maldição? Não
é através de algum ritual, cerimônia ou passe de mágica. É através de uma
mudança de um estado de desobediência para um estado de obediência.
E como isto é possível? Somente por causa da obra de Cristo Jesus.
A Escritura fala da obra de Cristo em termos decisivos. Cristo não
realizou uma obra pela metade, o que ele fez foi completo. Paulo escreveu
aos Gálatas:

“Cristo nos resgatou da ____________da lei, fazendo-se ele pró-


prio maldição em nosso lugar, porque está escrito: maldito todo aquele
que for _______________num madeiro, para que a ____________de
Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos
____________o Espírito prometido” (Gl 3.13-14).

Mas, a questão é: quando essa maldição cessa na vida do crente e


ele começa a viver na bênção? Pelo que aprendemos do texto acima, no
instante em que ele crê, pois vimos que a bênção é recebida pela fé. Jesus
explicou como isto funciona quando falou aos fariseus: “E conhecereis
a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). Os fariseus não gostaram
daquela declaração e replicaram: nós somos filhos de Abraão, e nunca
fomos escravos de ninguém, que história é essa de sermos livres? Mas,
Jesus respondeu:

“Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escra-
120

vo do pecado. O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sem-
pre. Se, pois, o Filho vos __________, verdadeiramente sereis ________”
(Jo 8.34-36).

A libertação espiritual acontece na vida de uma pessoa quando


ela conhece a verdade, quando ela se converte e nasce de novo.
As pessoas que acham que ainda precisam quebrar maldições de
crentes não entenderam bem a obra de Cristo. Aqueles que temem que
Satanás possa prender algum crente sobre maldição não entenderam o
que Cristo fez com o diabo para benefício dos crentes quando morreu na
cruz. Gênesis 3.15 diz que Cristo esmagaria a cabeça da serpente, e isso
aconteceu quando ele morreu na cruz. O próprio Cristo disse que “viu
Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10.17-18). Note que nesse
texto a queda de Satanás é associada à pregação do Evangelho. Antes de
sua morte, Jesus disse: “Chegou o momento de ser julgado este mundo,
e agora o seu príncipe será expulso” (Jo 12.31-32). Também em Hebreus
2.14 está escrito: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de
carne e sangue, destes também ele (Jesus), igualmente, participou, para
que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a sa-
ber, o diabo”. Da mesma forma Colossenses 2.13-15 fala-nos da obra de
Cristo que removeu nossa dívida quando morreu na cruz, como tendo
“despojado os principados e as potestades, publicamente os expondo ao
desprezo, triunfando deles na cruz”. A descrição de Paulo a respeito da
vitória de Cristo é a de um general que derrotou completamente seu ini-
migo e ainda desfilou pela cidade com seu prisioneiro atrás do carro
vitorioso, humilhado e ridicularizado pelo povo. A vitória de Cristo é
uma vitória completa. Se temos essa vitória em nossas vidas, somos ver-
dadeiramente livres, e o diabo não poderá fazer nada contra nós.
Mas, não é apenas isso que a Bíblia fala sobre nossa liberdade es-
piritual. Em Romanos 6, Paulo explica o que aconteceu conosco quando
nos convertemos. Ele diz que “fomos unidos com Ele (Cristo) na seme-
lhança da sua morte” (Rm 6.5). Isso significa que o crente espiritualmente
participa da morte de Cristo. Ele realmente morreu com Cristo na cruz.
Paulo diz que “foi crucificado com Ele (Cristo) o nosso velho homem”
(Rm 6.6). Podemos entender que todas as nossas maldições cessam aí,
crucificadas na cruz de Cristo. Mas, a grande ênfase de Paulo é que não
ficamos mortos, e sim, como Cristo ressuscitou, nós também ressusci-
tamos (Veja os versos 4,5 e 8). O que Paulo nos diz é que se morremos
121

com Cristo também ressuscitamos com ele. Esse ressuscitar nada mais é
do que o novo nascimento (Jo 3.3). Agora precisamos perguntar: pode
alguém que nasceu de novo, que morreu com Cristo e ressuscitou com
ele, ainda carregar maldições? Se fosse possível, então, a obra de Cristo
não teria sido completa. Se um crente ainda pode carregar maldições, o
texto de 2Coríntios 5.17 não seria verdadeiro:

“E assim, se alguém está em Cristo, é __________criatura: as cousas


antigas já passaram; eis que se fizeram __________”.

Que coisas novas são essas se ainda há maldições sobre a vida de


alguém que nasceu de novo? Se ainda há maldições, então, não há nova
criatura, nem novo nascimento, nem conversão. Mas, se você tem cer-
teza da sua conversão, se Cristo habita em seu coração, não menospreze
a obra de Cristo, não diminua a importância e a eficácia dessa obra. O
sacrifício de Cristo foi um sacrifício perfeito, amplamente poderoso para
nos salvar de uma forma completa. Não foi uma obra pela metade.

III. Da teoria para a prática

Mas, talvez o leitor pergunte: Então por que tantos crentes vivem
como se estivessem sob maldição, sem conseguir se livrar de vícios e de
pecados? Talvez porque não façam uso dos recursos que Deus lhes tem
dado para vencerem estas coisas. Não é difícil entender o porquê de o
ensino sobre quebra de maldições atrair tanto as pessoas. Ele se torna um
atalho mágico e ilusório para substituir a doutrina da santificação, que é
um processo indispensável a ser desenvolvido pelo Espírito Santo na vida
do cristão, exigindo dele autodisciplina e perseverança na fé. Parece mais
fácil ser libertado por um “passe de mágica” do que pelo uso da oração,
do estudo bíblico e da santificação.
Ainda precisa ser dito que uma pessoa liberta deve viver como
alguém que foi liberto. Ao terminar a lista do fruto do Espírito e explicar
como o andar no Espírito é o segredo da vitória contra a carne, Paulo
conclui:

“Se vivemos no Espírito, _______ também no Espírito” (Gl 5.25).

É como se ele dissesse: Seja aquilo que você agora é. Você agora
122

tem o Espírito, então ande no Espírito. Talvez possamos entender isso


com uma ilustração. Mantenha um passarinho 10 anos preso em uma
gaiola. Ele nunca soube o que é voar, sempre esteve preso lá. Agora solte
este passarinho. Ele vai sair voando? Não, ele não sabe voar. Seus olhos
ainda veem as grades o prendendo. Mas, ele ainda está preso? Não, você
o libertou, mas ele não sabe o que fazer com essa liberdade. Da mesma
forma, às vezes, os crentes em Cristo Jesus vivem como se ainda estives-
sem debaixo da escravidão e da maldição. Foram resgatados da maldição
pela obra de Cristo (Gl 3.13), mas nem sempre se dão conta disso. Ou
seja, precisamos usufruir todas as bênçãos conquistadas para nós por
Cristo. Paulo disse que Deus o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, já “nos
tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais
em Cristo” (Ef 1.3). Estas bênçãos estão à nossa disposição, mas precisa-
mos usá-las. Paulo encarava as coisas do passado do seguinte modo:

“Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as


que diante de mim estão, _________ para o alvo, para o prêmio da sobe-
rana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.13-14).

É uma bobagem ficar se apegando a supostas maldições do pas-


sado, se todas as maldições já foram quebradas na cruz de Cristo no
momento da nossa conversão.
Em vez de olhar para o passado, os crentes devem olhar para o
futuro glorioso que Deus lhes tem reservado.
E finalmente, há mais uma pergunta que precisa ser respondi-
da: Depois da conversão, quando todas as maldições cessaram, o crente
ainda pode ser amaldiçoado? A reação mais espontânea a esta pergun-
ta é dizer que não, porém, algumas coisas precisam ser consideradas.
Eu diria que o crente tem todos os recursos necessários para não ser
mais amaldiçoado, porém, deve tomar cuidado para não oferecer oca-
siões propícias para o inimigo agir em sua vida. É preciso lembrar ain-
da que Deus disse as seguintes palavras para seu povo, ou seja, para os
crentes do Antigo Testamento: “Eis que, hoje, eu ponho diante de vós a
bênção e a maldição: a bênção, quando cumprirdes os mandamentos do
SENHOR, vosso Deus, que hoje vos ordeno; a maldição, se não cumprir-
des os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, mas vos desviardes do
caminho que hoje vos ordeno, para seguirdes outros deuses que não co-
nhecestes” (Dt 11.26-28). É preciso lembrar, por outro lado, que “como
123

o pássaro que foge, como a andorinha no seu voo, assim, a maldição sem
causa não se cumpre” (Pv 26.2). Vivendo na presença de Deus, “habitan-
do no esconderijo do altíssimo” não temos o que temer. Quando Balaque
contratou o profeta Balaão para amaldiçoar o povo de Israel, perdeu seu
tempo e dinheiro (Nm 23.7-8), pois “contra Jacó não vale encantamento,
nem adivinhação contra Israel” (Nm 23.23). O povo de Deus não precisa
temer maldições que são lançadas contra ele, pois “nenhum mal te suce-
derá, praga nenhuma chegará à tua tenda” (Sl 91.10). Acima de tudo, ele
pode ter a certeza de que “todo aquele que é nascido de Deus não vive em
pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe
toca” (1Jo 5.18).

Questionário de revisão

1 -Tanto a benção quanto a maldição provém de um só. Marque a


alternativa correta:

a) ( ) Diabo
b) ( ) Adão
c) ( ) Deus
d) ( ) Pecado

2 - Por natureza, todos os homens são amaldiçoados, por quê?

a) ( ) Porque Adão e Eva cometeram o pecado desobedecendo a lei


de Deus atraindo maldição sobre o mundo.
b) ( ) Porque o Diabo amaldiçoou Adão quando ele pecou.
c) ( ) Porque o Diabo amaldiçoou a terra quando se rebelou contra
Deus .
d) ( ) Todas estão erradas.

3 - De que maneira se dá a verdadeira quebra de maldições?

a) ( ) Fazendo corrente de libertação.


124

b) ( ) Amarrando Satanás.
c) ( ) Expulsando o Diabo de sua vida.
d) ( ) No conhecimento da Verdade, se convertendo a Jesus.

4 - Satanás pode possuir um crente?

a) ( ) Jamais. Pois Cristo esmagou a cabeça de Satanás em sua mor-


te na cruz e todas as maldições foram quebradas.
b) ( ) Sim. Se o crente continuar pecando
c) ( ) Sim. Isso acontece, pois ainda o crente não está na glória.
d) ( ) Depende da vida espiritual do crente.

5 - Em qual momento Cristo esmagou a cabeça da serpente (Gn 3.15)?

a) ( ) Em seu nascimento.
b) ( ) No derramento do Espírito Santo
c) ( ) Ele fará isso quando retornar.
d) ( ) Na sua morte na cruz.

Indicação de leituras adicionais

• O que Você Precisa Saber sobre Batalha Espiritual – A. N. G.


Lopes – Ed. Cultura Cristã, 2015 – Cap. 8 – O Erro Religioso.
• Razão para Crer – R. C. Sproul – Ed. Mundo Cristão, 1997 – Cap.
8 – Se Há um Deus, por que Existe tanta Maldade no Mundo?
• A Providência de Deus – Paul Helm – Ed. Cultura Cristã, 2007 –
Cap. 5 – Providência e Orientação.
125

13. MANIFESTAÇÕES ESPIRITUAIS

A vida cristã é uma vida essencialmente espiritual. Jesus disse: “O


que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito.
Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. O vento sopra
onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde
vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3.6-8). Espera-se que al-
guém com essas características tenha intensas experiências espirituais em
sua vida. O problema é que quando olhamos para dois tipos bem comuns
de cristãos hoje, percebemos dois extremos. Alguns estão o tempo todo
falando em experiências com anjos, revelações, profecias, sonhos, línguas
estranhas, etc. Mas há outros que estão no extremo oposto disso. Eles
acham que a vida cristã é apenas uma questão de “saber” certas coisas e
não de “sentir”. Eles conhecem bem a doutrina, mas vivem suas vidas de
forma pouco diferente das pessoas do mundo. Qual é o tipo de cristão
mais autêntico? Não precisamos ter medo de dizer: Nenhum dos dois.

I. Necessidade de maturidade

Na cidade de Corinto, existia uma igreja que parecia ser ao mes-


mo tempo muito espiritual e muito imatura. A Igreja de Corinto foi ex-
tremamente abençoada por Deus. O próprio Paulo dá testemunho disso:

“Sempre dou graças a Deus a vosso respeito, a propósito da sua graça,


que vos foi dada em Cristo Jesus; porque, _____________, fostes enrique-
cidos nele, em toda a _____________e em todo o _________________;
assim como o testemunho de Cristo tem sido confirmado em vós, de ma-
neira que não vos falte _____________dom, aguardando vós a revelação
de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 1.4-7).

Os Coríntios haviam sido enriquecidos, segundo Paulo, em toda


palavra e em todo conhecimento. Isso só pode se referir ao conhecimen-
to da Palavra de Deus entre eles. E Paulo diz ainda que não lhes faltava
nenhum dom. Não devemos pensar que isso significasse que as outras
126

Igrejas fossem menos enriquecidas. Todos os cristãos têm a sua dispo-


sição tudo o que precisam para seu crescimento e serviço espiritual. O
fato é que Paulo, tendo em mente os distúrbios e a imaturidade espiritual
daquela igreja, fez questão de dizer que nada lhes havia sido negado. Eles
dispunham de todos os benefícios de Deus, como todas as demais igre-
jas. Mas apesar de toda a provisão divina, faltava-lhes a maturidade es-
piritual. Por isso Paulo lhes advertiu: “Eu, porém, irmãos, não vos pude
falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cris-
to. Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não
podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais.
Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois
carnais e andais segundo o homem?” (1Co 3.1-3). Paulo não está dizen-
do que os coríntios não eram convertidos, mas que não estavam agindo
como convertidos. Por essa razão os chama de “crianças em Cristo”. Nem
sempre percebemos o sentido trágico das palavras de Paulo. Uma crian-
ça que age como criança é um motivo de alegria, mas um adulto que age
como criança é uma tragédia. Paulo está falando de uma igreja inteira
que já tinha idade para ser adulta, e tinha todos os recursos para isto,
mas não passava de uma criança. Esse tipo de “retardo” é muito pior do
que o físico ou do que o mental. Alguém “retardado” mental não pode
ser condenado por suas atitudes, mas um retardado espiritual pode, pois
é retardado por opção.
Os coríntios usavam de forma errada os dons espirituais que
haviam recebido de Deus. Os dons espirituais sempre são distribuídos
“visando a um fim proveitoso” (1Co 12.7). Ao que parece, os coríntios
estavam usando os dons em benefício próprio. Os dons, especialmente o
de línguas, eram cobiçados, pois estavam se tornando símbolos de status
espiritual. Por essa razão, Paulo diz: “

Assim, também vós, visto que desejais dons espirituais, procurai pro-
gredir, para a _____________ da igreja” (1Co 14.12).

A terrível deturpação que estava acontecendo dentro daquela


Igreja era que, ao invés dos dons serem usados para a edificação da Igre-
ja, especialmente dos mais fracos, estavam sendo usados para o engran-
decimento de pessoas para dominação sobre as demais. Por esta razão,
Paulo ensina que o amor é o dom superior que deve ser buscado acima
de qualquer outro (1Co 12.31-13.13). A presença do amor redireciona o
127

uso dos dons, não para benefício próprio, mas dos outros. A ausência do
amor faz com que os dons sejam absolutamente sem valor (1Co 13.1-3).
A maturidade espiritual faz com que as pessoas usem seus dons espiri-
tuais em humildade e visando o crescimento do corpo de Cristo.

II. Profetas e profecias

Revelação é o ato divino pelo qual Deus se dá a conhecer. No iní-


cio Deus “aparecia” para os homens (Gn 3.8; 12.2; 28.13), mas aos poucos
isso deixou de acontecer. A Bíblia afirma que após Moisés essa forma de
Revelação não seria mais usada (Dt 34.10). Em seguida Deus começou a
se revelar através de Profecia (Nm 12.6-8). O tempo dos profetas se esten-
de desde a morte de Moisés até João Batista (Mt 11.13), que foi o último
dos profetas do Antigo Testamento. Precisamos entender que durante
esses modos de revelação de Deus a Sagrada Escritura ainda não existia.
Quando Jesus veio ao mundo e estabeleceu a Nova Aliança (Novo Tes-
tamento) novas revelações vieram, especialmente na pessoa do próprio
Filho (Hb 1.1-2).
Após a Ascensão de Jesus, principalmente no período de Atos dos
Apóstolos, enquanto o Novo Testamento ainda não havia sido escrito,
Deus se revelava através de dois ministérios: O Ministério dos Apóstolos
e o Ministério dos Profetas. Apóstolos e Profetas eram a fundação da
Igreja (Ef 2.20). Como Apóstolos podemos citar Pedro, João, Paulo, etc.
Todos comissionados diretamente por Jesus e que precisavam tê-lo visto
ressuscitado (At 1.21-22; 1Co 9.1). Além disso, tinham poderes especiais
(1Co 12.12; Mc 16.18; At 5.15; 9.36-42; 28.3-6) e escreviam textos ins-
pirados e considerados Escritura (2Pe 3.14-16). Não há mais Apóstolos,
pois ninguém hoje pode dizer que tem todas essas características. E os
Profetas? Também era um grupo especial que falava sob a inspiração do
Espírito Santo. Podemos citar nomes como Ágabo (At 11.27-28; 21.10-
11); Judas e Silas (At 15.32); e outros (At 13.1). Nesse sentido não há
mais Profetas hoje, como não há Apóstolos, pois esses dois Ofícios foram
usados por Deus na formação da Igreja, foram o fundamento da Igreja
(Ef 2.20), em um tempo quando a Bíblia ainda não estava completa. Caso
haja Apóstolos e Profetas hoje, então o que eles disserem está sob a ins-
piração do Espírito Santo e, portanto, é infalível, e deve ser considerado
como Bíblia. Mas, já não há necessidade de Apóstolos e Profetas inspi-
rados porque a Bíblia já está completamente escrita (2Tm 3.16-17; Ap
128

22.18).
Mas a Bíblia fala em dom de profecia (1Co 12.8; 14.6, 26). Será
que este dom ainda existe? Paulo disse que esse dom deveria ter a proe-
minência na igreja (1Co 14.1), mas o crente que tem o dom de profetizar
não é um Profeta e nem um Apóstolo, no sentido de possuir o Ofício
Apostólico ou o Ofício Profético. O dom de profecia serve para edificar
a Igreja, tendo a função de “edificar, exortar e consolar” as pessoas (1Co
14.3). Não quer dizer que a profecia tenha que predizer o futuro, e nem
mesmo que aquilo que será falado é absolutamente verdade, pois Paulo
disse que nós deveríamos julgar todas as profecias (1Co 14.29; 1Ts 5.20-
21; 1Jo 4.1). João diz que o “testemunho de Jesus é o espírito da profecia”
(Ap 19.10), portanto, testemunhar a respeito de Jesus é o objetivo da
profecia. Dessa forma, cada vez que uma pessoa proclama a Palavra de
Deus (Bíblia), pode estar exercitando o dom espiritual de profecia.
Profecia é um dom que todos os crentes podem exercer, e signi-
fica proclamar a vontade de Deus para as pessoas. A maior vontade de
Deus é que as pessoas se convertam dos seus pecados (Ez 18.32; 1Tm
2.4). A vontade de Deus para as pessoas está clara na Escritura. Pode
haver elemento preditivo na profecia, isso significa que Deus realmen-
te pode fazer alguém conhecer algo do futuro através de uma profecia,
ou mesmo de sonhos, entretanto, não podemos confundir profecia com
“adivinhação”, pois a adivinhação foi desde sempre proibida pela Escri-
tura (Dt 18.10).
Com relação à previsão do futuro, ainda precisamos dizer algo:
Deus sempre foi contra profetas que profetizavam de seu próprio cora-
ção (Jr 23.30-32). E, além disso, um profeta que profetizava algo falso de-
via ser morto (Dt 18.20-22). Hoje vemos muitas pessoas fazendo muitas
profecias, mas no fundo não passam de adivinhações, e muitas delas não
se cumprem. Não podemos esperar que um verdadeiro profeta de Deus
fale coisas que não acontecerão. Portanto, devemos considerar como fal-
so profeta, todo homem que anunciar qualquer coisa como revelação
de Deus e aquilo não acontecer. De acordo com esse último texto, um
homem que faça uma única profecia falsa já não pode mais ser consi-
derado de Deus. Se estivéssemos no Antigo Testamento, esse homem,
ou mulher, seria morto. Mas, há um outro detalhe: É bem possível que a
profecia de algum profeta se cumpra, e ainda assim, ele não seja verda-
deiro. É a Bíblia quem fala isso. Em Deuteronômio 13.1-5 Deus adverte
o povo a tomar cuidado com a profecia de algum profeta, mesmo que ela
129

se cumpra. O que precisa ser analisado é o ensino do tal profeta. No caso


específico daquele texto, depois de anunciar um sinal que se cumpriu, o
profeta tentou levar o povo após outros deuses. Ao fazer isso, ele estava
contrariando o primeiro mandamento da Lei, ou seja, sua pregação esta-
va indo contra a Palavra de Deus. Então, o elemento mais importante é se
o ensino do profeta está em conformidade com a Escritura.
Os cristãos precisam estar atentos com essas coisas hoje em dia.
Há pouquíssimas pregações bíblicas por aí. Muitos pregadores pregam
apenas o que o povo quer ouvir, não o que Deus quer falar. Precisamos ter
cuidado, pois o mistério da iniquidade está em franca atuação no mun-
do, e aqueles que não tiverem conhecimento da verdade facilmente pe-
recerão. Precisamos ter cuidado com o subjetivismo das “revelações pes-
soais”, pois muitas vezes é o próprio coração falando mais alto. Devemos
submeter tudo ao critério das Sagradas Escrituras. Não podemos trocar a
revelação segura de Deus que é a Bíblia, por coisas subjetivas e incertas.
Não é uma questão de ser insensível à atuação do Espírito, muito pelo
contrário, é uma questão de respeito pelo próprio Espírito que inspirou
as Escrituras, e declarou que ela é suficiente para que o homem de Deus
seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2Tm 3.17).

III. Línguas estranhas

Durante todo o século 20, o dom espiritual mais buscado pelos


crentes carismáticos foi o dom de línguas. O movimento pentecostal en-
tendeu que havia redescoberto o dom de línguas do Pentecostes, e apre-
goou que todos os crentes falariam em línguas estranhas quando fossem
batizados com o Espírito Santo. Já demonstramos neste livro que o Ba-
tismo com o Espírito Santo não é uma “segunda experiência da graça”.
Agora precisamos entender se o dom de línguas evidencia o Batismo com
o Espírito.
Inicialmente temos que analisar o que aconteceu no dia de Pen-
tecostes, conforme está registrado em Atos 2. Quando o Espírito desceu,
Lucas relata o que aconteceu: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e
passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que
falassem” (At 2.4). É preciso entender que o texto está dizendo que es-
sas línguas eram idiomas de outras nações. Lucas inclusive diz que eram
“línguas maternas” (At 2.8) de várias nações, citando inclusive algumas
delas: “partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judéia, Ca-
130

padócia, Ponto e Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito e das regiões da Lí-


bia, nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem” (At 2.9-10).
Evidentemente que as línguas que as pessoas dizem falar hoje nas igrejas
pentecostais e católicas carismáticas não são as línguas do Pentecostes. O
que se fala hoje são línguas desconexas, muitas vezes extáticas, que nem
poderiam ser chamadas de idiomas, pois não têm qualquer significado,
sendo muito mais um resultado da emoção do que qualquer coisa coe-
rente.
Muitos pentecostais ao perceberem esta diferença, trataram de
corrigir a ideia, dizendo que as línguas faladas hoje são “línguas dos an-
jos”. O problema é que nada se falou a respeito de língua dos anjos em
Atos 2. E a Bíblia não diz que o dom de línguas de nações mudou para
o dom de línguas angelicais. A ideia de uma “língua angelical” surgiu de
uma equivocada interpretação do texto de 1Coríntios 13.1: “

Ainda que eu fale as línguas dos _________ e dos anjos, se não tiver
amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine”.

Paulo não está dizendo que falava a língua dos anjos, mas apenas
que mesmo que isto fosse possível, sem o amor, que é o que ele está en-
fatizando, de nada adiantaria. Paulo está usando uma linguagem hipo-
tética com o objetivo de enfatizar a superioridade do amor sobre todos
os outros dons. Ainda deve ser lembrado que Paulo disse que falava a
língua dos homens. Por que, nas igrejas pentecostais, só se fala a suposta
língua dos anjos?
Há outras coisas que Paulo deseja que os coríntios entendessem
sobre o dom de línguas. Primeiramente que este dom não era o mais
importante (1Co 14.5). Línguas ocupam o último lugar na lista de Pau-
lo (1Co 12.28). Além disso, nem todos falavam em outras línguas (1Co
12.8-10; 29-30). A Bíblia deixa claro que nem todos os que foram batiza-
dos com o Espírito falaram em outras línguas (At 4.31; 8.17; 9.17-19).
Alguns acham que o dom de línguas de 1Coríntios é um dom de
línguas extático, porque Paulo diz:

“Pois quem fala em _____________língua não fala a homens, senão


a Deus, visto que _____________o entende, e em espírito fala mistérios”
(1Co 14.2).
Mas Paulo está simplesmente dizendo que quando alguém fala
131

numa língua que os outros não conhecem, está falando mistérios para
os homens, mas não para Deus, pois Deus conhece todas as línguas. Por
isso, o dom de línguas só deveria ser usado com tradução na igreja, pois
assim, todos entenderiam os mistérios. Paulo diz que falar numa língua
que os outros não entendem não tem qualquer proveito, pois é o mesmo
que tocar instrumentos sem saber música (1Co 14.6-9). Paulo mesmo
diz que falava em muitas línguas diferentes, mas preferia falar cinco pala-
vras em língua compreensível a dez mil em língua incompreensível (1Co
14.18-19).
A prova decisiva de que o dom de falar línguas em 1Coríntios
12-14 é realmente a capacidade de falar em outros idiomas é dada neste
texto:

“Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças;


quanto ao juízo, sede homens amadurecidos. Na lei está escrito: Falarei a
este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros _________,
e nem assim me ouvirão, diz o Senhor” (1Co 14.20-21).

Portanto, o dom de línguas foi profetizado no Antigo Testamento,


e significava “falar em idiomas de estrangeiros”.
Paulo permitia que o autêntico dom de línguas fosse utilizado na
igreja, porém, precisava ser dentro de certas condições: “No caso de al-
guém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando
muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não ha-
vendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com
Deus” (1Co 14.27-28). Apenas três pessoas podiam falar, uma após a
outra, e somente caso houvesse intérprete. Paulo queria eliminar toda
a confusão que o dom de línguas pudesse causar na Igreja. Hoje, vemos
problemas muito maiores. O dom que se verifica dificilmente passa no
teste bíblico, e mesmo assim é amplamente utilizado contrariando estas
regulamentações da Bíblia. Dois erros, portanto.

IV. Cristãos frios

Se uns estão tão fascinados por experiências sobrenaturais, por


outro lado, há muitos que estão completamente esfriados em sua fé.
Muitos novos convertidos se surpreendem quando chegam numa igreja
reformada e encontram lá um número grande de crentes acomodados,
132

ranzinzas, críticos, pessimistas, inativos e infrutíferos. Há um excesso de


pessoas nas igrejas que parecem ter apenas um conhecimento exterior
de Cristo.
Também há verdadeiros convertidos que não dão o testemunho
que deveriam dar. Parece que muitos crentes estão satisfeitos demais
com sua condição espiritual. Não anseiam por uma intimidade maior
com Deus, por um mover do Espírito em si mesmos e em suas igrejas.
Têm tanto medo dos excessos que fecham a porta para a ação do Espíri-
to. Estão longe do padrão da Igreja primitiva, de quem é dito que perse-
verava na doutrina dos apóstolos (At 2.42), mas não só nisso, pois

“em cada alma havia _______; e muitos prodígios e sinais eram feitos
por intermédio dos apóstolos” (At 2.43).

A sã doutrina sem dúvida era a preocupação primordial da igreja


primitiva, pois aparece em primeiro lugar nesta lista dada por Lucas,
mas não era a única. O temor e o fervor espiritual estavam juntos. A
Igreja primitiva queria o agir poderoso de Deus. Em Atos 4, debaixo de
tantas ameaças, a igreja ora por isso: “Agora, Senhor, olha para as suas
ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a
tua palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios
por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus” (At 4.29-30). O poder
de Deus se manifesta quando a igreja se põe em oração e busca insisten-
temente este poder. Veja como Deus respondeu aquela oração:

“Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos fica-
ram ________ do Espírito Santo e, com intrepidez, anunciavam a pala-
vra de Deus” (At 2.31).

A Igreja de Éfeso pode ser considerada o caso clássico de esfria-


mento espiritual. Foi para ela que Jesus dirigiu as famosas palavras:

“Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu _________ amor”


(Ap 2.4).

Jesus viu muitas coisas positivas na Igreja de Éfeso. Ele elogiou


o labor e a perseverança da igreja que não desanimou em meio às lutas
(Ap 2.2-3). Ele também elogiou a firmeza doutrinária daquela igreja que
133

pôs à prova aqueles que se diziam pregadores de Cristo, mas eram falsos
(Ap 2.2, 6). A igreja conhecia muito bem a doutrina verdadeira e por isso
conseguiu rejeitar a falsa. Mas de algum modo, sua ortodoxia (doutrina
correta) se tornou morta. Depois de quarenta anos de lutas contra os fal-
sos mestres, a igreja continuava intelectualmente apegada à verdade, mas
o coração estava distanciado. Contentava-se em possuir a verdade, mas
o coração já não amava a Jesus com a mesma intensidade, nem desejava
testemunhar dele perante o mundo. Ainda havia labor e perseverança
internos, mas eram feitos sem amor, como uma esposa que cumpre seu
papel sem amar o marido. Qualquer cristão pode correr este risco se não
mantiver bem acesa a chama do amor dentro de si. Para aqueles, como
Éfeso, que deixaram a chama se apagar, o Senhor só tem uma recomen-
dação:

“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e _______ à prática das


primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu can-
deeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.5).

Jesus manda lembrar do momento em que o primeiro amor foi


abandonado. Lembrar é reconhecer o erro, e não é fácil lembrar de mo-
mentos maus. Mas é preciso sentir a dor de não ser mais tão fiel. É preciso
se arrepender, literalmente “mudar de mente”. E voltar às primeiras obras,
pois não vale arrependimento sem ação.
O cristão mais autêntico é aquele que equilibra sã doutrina com
fervor espiritual. Ele se apega à Escritura e não deseja fazer nada que
contrarie a Escritura, mas ao mesmo tempo, ele não se contenta em viver
uma vida medíocre. Ele não se contenta em ver os anos passando sem
experimentar a vida de Deus. Ele busca em oração, ele louva com intensi-
dade e fervor, estuda a Bíblia com diligência e inteligência, não mergulha
em experiência desenfreadas e não-bíblicas, mas também não põe limites
ao poder de Deus.
134

Questionário de revisão

1 - Para que servem os dons espirituais e de que maneira os crentes de


Corinto os estavam usando?

a) ( ) Os dons espirituais servem para edificação da igreja, espe-


cialmente dos mais fracos. Os crentes de Corinto estavam usando para
engrandecimento de pessoas para dominação sobre os demais.
b) ( ) Os dons espirituais servem para benefício do próprio crente.
Os crentes de Corinto estavam usando para benefício de toda a igreja.
c) ( ) Os dons espirituais servem para edificar apenas os crentes
fracos na fé. Os crentes de Corinto estavam usando para todos os cren-
tes.
d) ( ) Os dons espirituais servem apenas para uma determinada
classe de pessoas da igreja. Os crentes de Corinto estavam usando para
toda a igreja.

2 - Qual foi o último dos profetas do Antigo Testamento, segundo o


Novo Testamento?

a) ( ) Malaquias
b) ( ) Jesus
c) ( ) Ágabo
d) ( ) João Batista

3 - Quais foram os dois ofícios que foram usados por Deus como
fundamento da Igreja?

a) ( ) O Ministério dos Apóstolos e o Ministério dos Profetas.


b) ( ) O Ministério dos Diáconos e o Ministério dos Presbíteros.
c) ( ) O Ministério dos Apóstolos e Ministério dos Presbíteros.
d) ( ) O Ministério dos Profetas e o Ministério dos Discípulos.

4 - Que funções alguém que tenha o dom de profecia pode desempe-


nhar na igreja?
135

a) ( ) Edificação
b) ( ) Exortação
c) ( ) Consolo
d) ( ) Todas as alternativas estão corretas.

5 - Para que não nos enganemos com os falsos profetas, o que deve-
mos analisar neles, mais do que a profecia em si?

a) ( ) Se a sua revelação se cumpriu.


b) ( ) Se a sua revelação tem poder para edificar a igreja.
c) ( ) Se o seu ensino está em conformidade com a Escritura.
d) ( ) Se a igreja foi abençoada com com a sua pregação.

Indicação de leituras adicionais

• Fé Cristã e Misticismo – A. S. Matos, A. N. Lopes, F. S. Portela, H.


C. Campos – Ed. Cultura Cristã, 2000 – Cap. 2 – Avaliando as Manifesta-
ções Sobrenaturais.
• A Genuína Experiência Espiritual – J. Edwards – PES, 1993.
• Os Carismáticos – J. MacArthur Jr. – Ed. Fiel, 2002 – Cap. 6 – Será
a Experiência Mais Importante que a Palavra de Deus.
136

14. A SANTA CEIA

Na conversão começa o processo da santificação, que é o ato de


Deus ministrar sua graça sobre nós, uma graça que irá nos transformar,
a ponto de mudar completamente a nossa vida. A Santa Ceia é um ins-
trumento desta graça porque nos sustenta e renova nossas forças espiri-
tuais. Se ficarmos bastante tempo sem alimentos, nos sentiremos fracos
e logo adoeceremos. Quando nos alimentamos, permanecemos fortes e
mais imunes a doenças. A Ceia é o nosso alimento espiritual e participar
dela é garantia de sustento e renovação espiritual. Por isso, nossa visão
da Santa Comunhão é muito diferente da visão da igreja romana. Para
ela a comunhão possui graça salvadora, ou seja, se alguém cometeu um
pecado mortal, através da comunhão pode receber o perdão e ser salvo
novamente. Entretanto, cremos que a graça que encontramos na Ceia
não é a graça que nos salva, mas a que confirma que somos salvos, e
nos capacita a continuarmos salvos. Através dela, o Senhor nos alimenta
espiritualmente, pois oferece seu corpo e sangue como um alimento es-
piritual.

I. Memória e bênção

Os evangelistas relatam a última ceia do Senhor Jesus com seus


discípulos detalhadamente. Jesus sabia que aquela seria sua última noite
em que poderia estar a sós com seus amigos, e escolheu aquela ocasião
para conceder um dom maravilhoso à sua igreja antes de sua partida.
A primeira coisa que percebemos na maneira como o Senhor dirigiu
aquela reunião foi sua disposição de que todos participassem daquele
momento. Ele ordenou que seus discípulos “comessem e bebessem”. Em
outra ocasião ele já havia declarado: “Em verdade, em verdade vos digo:
se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu san-
gue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e
beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”
(Jo 6.53-54). Obviamente Jesus não estava ensinando naquela ocasião
nenhum tipo de canibalismo, ele falava de ter um relacionamento com
137

ele, um relacionamento tão íntimo que só poderia ser possível se parti-


cipássemos dele, se ele estivesse dentro de nós. Naquela noite, na última
ceia, em palavras memoráveis, ele ordenou que seu povo participasse da
união com ele, que é a maneira como todas as bênçãos de Deus vêm sobre
nós.
O significado daquela cerimônia está intimamente ligado à obra
de Jesus. Jesus disse:

“Tomai, comei; isto é o meu __________. A seguir, tomou um cálice


e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos;
porque isto é o meu _________, o sangue da nova aliança, derramado em
favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.26-28).

Poucas expressões têm sido mais controversas na história do que


“isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue”. Infelizmente aquilo que foi
dito para unir os crentes, até ao dia de hoje continua separando. Mas
temos que reconhecer que Jesus não estava querendo dizer que aquele
pedaço de pão e aquele pouco de vinho eram fisicamente o corpo e o
sangue dele, pois do mesmo modo, muitas vezes ele disse que era “uma
porta”, “a luz”, “o caminho”, e nem por isso estava dizendo que fisicamente
era aquelas coisas. Ele escolheu dois elementos para simbolizarem aquilo
que, através de seu corpo e de seu sangue, realizaria pelo mundo.
A Igreja de Roma defende que, no momento da comunhão acon-
tece uma Transubstanciação. Significa que a substância do pão e do vinho
é miraculosamente transformada na substância do corpo e do sangue do
Senhor, de modo que já não devem ser vistos como pão e vinho, embora
pareçam ser. Lutero criou outra teoria que ficou conhecida como Con-
substanciação. Os Luteranos defendem uma espécie de comunicação de
atributos entre a natureza divina e a natureza humana de Jesus. Assim, a
natureza divina comunica à natureza humana de Jesus o atributo da Oni-
presença. Dessa forma, Jesus teria se tornado fisicamente Onipresente.
Essa foi a forma que Lutero encontrou para defender a presença física de
Jesus na Ceia baseado na expressão: “Isto é o meu corpo”. Zuínglio negou
que o Cristo glorificado esteja presente na Ceia do Senhor, apelando ape-
nas para a questão memorial da Ceia. Calvino concordou com Zuínglio
no sentido de simbologia, mas entendia que Cristo, por meio do Espíri-
to, concede aos adoradores um verdadeiro gozo de sua presença pessoal,
atraindo-os à comunhão com ele no céu, de forma gloriosa e bem real,
138

não obstante indescritível. Entendemos que a visão de Calvino é a mais


correta, e ela é a visão tradicional da igreja reformada.
O pão e o vinho simbolizam o seu sacrifício. Deve ser dito que
apenas simbolizam, eles não são em si um sacrifício, pois, o sacrifício de
Jesus é único e não pode ser repetido (Hb 10.14). Porém, Cristo está pre-
sente na Ceia, de modo espiritual, abençoando, fortalecendo e julgando
sua igreja. Jesus destacou também o aspecto do sangue ser o “sangue da
aliança”. Desde o início do mundo Deus estabeleceu uma Aliança com
seu povo. Por várias vezes Deus renovou essa Aliança ao longo das gera-
ções. Um dos elementos centrais dessa Aliança era justamente o sangue.
O sangue simbolizava a expiação, a forma como os pecados podiam ser
perdoados (Hb 9.22). Quando Jesus disse que o sangue dele era o sangue
da Aliança apontou para a forma como as pessoas foram salvas desde
o início do mundo, a partir do momento em que o pecado entrou. Os
sacrifícios oferecidos no Antigo Testamento eram apenas sombras do
sacrifício de Jesus e só tinham valor porque no plano de Deus, chegaria
o momento quando Jesus viria e derramaria seu sangue para cumprir a
Aliança.
O objetivo da ceia é para fins de memória e bênção. O aspecto
memorial do seu sacrifício pode ser percebido pela expressão que Paulo
usa em sua primeira carta aos Coríntios:

“Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em _____________de mim.


Porque, todas as vezes que _____________este pão e _____________o
cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1Co 11.25-26).

Devemos entender essas palavras à luz do que o próprio Jesus


disse: “E digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da
videira, até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino
de meu Pai” (Mt 26.29). O memorial da Santa Ceia nos aponta para o
passado e para o futuro. Para o passado se referindo à obra que o Senhor
realizou na cruz ao oferecer o seu corpo e o seu sangue como sacrifício
que perdoa definitivamente os nossos pecados. Mas a Santa Ceia tam-
bém aponta para o futuro, como uma espécie de proclamação e expecta-
tiva do retorno de Jesus. Ele disse que só voltaria a participar dessa Ceia
quando retornasse. E Paulo, com certeza tendo isso em mente, disse que
ao participar da ceia, anunciamos a morte do Senhor até que ele venha.
Mas a Ceia não é apenas memorial, ela é também meio de graça. Quando
139

participamos dela, estamos espiritualmente unidos ao Senhor, e através


dessa união, Deus nos concede suas bênçãos e nos alimenta espiritual-
mente.

II. Como participar da Ceia

A Páscoa está para a Ceia do Senhor o que a circuncisão signifi-


cava em relação ao batismo. Os judeus comemoravam a Páscoa como o
dia da libertação. Eles comiam pão e vinho na Páscoa, lembrando-se que
seus antepassados haviam comido o pão da aflição e bebido o cálice da
ira no Egito, mas que eles, pela libertação divina estavam livres daquilo,
e podiam comer o pão e beber o vinho em paz e segurança. É isto que
fazemos na Ceia. Levantamos o cálice que simboliza nossa salvação, mas
devemos lembrar que alguém pagou o preço dela. A Santa Comunhão
é um símbolo e um selo de que a ira de Deus passou sobre nós. Cristo
experimentou o cálice da Ira de Deus, e por isso nós podemos beber o cá-
lice da salvação. É muito interessante que Jesus, em seu maior momento
de angústia, antes da Cruz, no jardim de Getsêmani orou a Deus: “Meu
Pai, se possível, passe de mim este cálice” (Mt 26.39). É significativo que
o relato do Getsêmani esteja justamente depois do relato da última ceia.
Na Ceia, o Senhor ofereceu ao seu povo o cálice da bênção, no Getsêmani
assumiu o cálice da ira em lugar de seu povo. O cálice que Jesus relutava
em beber era o cálice da Ira de Deus, acumulada desde o pecado de Adão.
Mas ele o bebeu inteiramente, para que nós possamos beber o cálice da
salvação.
Mas, há o perigo de que as pessoas bebam um cálice pelo outro.
Paulo, pensando nas próprias palavras da instituição da Ceia, acrescenta:

“Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor,


______________, será réu do corpo e do sangue do Senhor” (1Co 11.27).

Ou seja, a comunhão pode se tornar um sacrilégio, como os co-


ríntios estavam fazendo com todas as suas divisões e orgulho, demons-
trando que possuíam uma visão distorcida do sacramento. Assim, eles es-
tavam atraindo para si a ira divina, pois comiam o pão e bebiam o vinho
sem discernimento. Entender o que a Ceia significa é essencial para uma
participação digna da Mesa do Senhor.
140

III. Quem deve participar da Ceia

Se a Ceia é tão fundamental, por um lado todos deveriam partici-


par dela, mas ela só tem valor para aqueles que participam coerentemen-
te com o que ela significa, e, portanto, nem todos devem participar. Isso
nos conduz a uma questão importante: Quem deve participar da Ceia?
Em 1Coríntios 11, Paulo estabelece os requisitos. Ele diz que a Ceia pode
ser um ajuntamento não para melhor e sim para pior, de acordo com o
comportamento das pessoas (1Co 11.17). No caso dos Coríntios, as di-
visões internas acarretavam uma participação hipócrita na Ceia, o que
se tornava uma maldição (1Co 11.18). Tal era a situação de irregula-
ridade, que Paulo diz que aquela cerimônia nem poderia ser chamada
de “Ceia do Senhor” (1Co 11.20). Os exageros eram marcantes no mo-
mento da cerimônia, onde alguns comiam demais e até se embriagavam
(1Co 11.21). Em seguida Paulo restabelece os elementos fundamentais
da Ceia. Ele diz:

“Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Se-


nhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado gra-
ças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; _______
isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado,
tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu
sangue; _______ isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de
mim” (1Co 11.23-25).

Por causa da seriedade da instituição, sendo o próprio Jesus o


Instituidor, e pelo significado da cerimônia, Paulo argumenta que “aque-
le que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu
do corpo e do sangue do Senhor” (1Co 11.27). Por causa disso, todos
deveriam fazer um autoexame antes de participar da Ceia (1Co 11.28).
Não fazer este autoexame implicaria em estar sujeito ao Juízo de Deus
(1Co 11.29). Este é o significado da expressão “discernimento”. A pes-
soa que participa da Ceia precisa entender sua situação pecaminosa e
a necessidade absoluta do sacrifício de Jesus para sua salvação, que está
simbolizado nos elementos da Santa Ceia. Participar da Ceia sem um
coração arrependido é garantia de fraqueza, doença e até morte (1Co
11.30). Isso claramente exclui da Ceia os incrédulos e todos aqueles que
não entenderam o sacrifício de Jesus.
141

Por esse motivo, também, os líderes das igrejas devem responsa-


velmente admoestar para que se afastem da mesa da comunhão os peca-
dores que não demonstraram claro arrependimento de suas faltas. Nes-
se caso, quando os líderes suspendem alguém que não deu mostras de
verdadeira mudança, estão mantendo a santidade da mesa e, ao mesmo
tempo, poupando o pecador de consequências piores. No entanto, não
parece haver justificativa para manter separado da mesa o pecador que
já mostrou estar arrependido, pois seria o mesmo que manter o faminto
longe do alimento.
É necessário que resgatemos a centralidade e a importância dos
Sacramentos instituídos por nosso Senhor em nossa vida pessoal e na
vida de nossa igreja. Cristo pretendeu que o Batismo e a Santa Ceia fos-
sem elementos poderosos colocados à nossa disposição para nosso cres-
cimento. Os sacramentos são meios de graça para nosso crescimento
espiritual. Por isso, devemos tomar cuidado para nunca nos privarmos
daquilo que ele providenciou para nossas vidas. Muitos crentes não veem
qualquer coisa interessante ao participar da ceia, ou quando assistem a
batismos, pois consideram-nos rituais chatos. Poucos se preparam antes
de tomar do pão e do vinho, e a maioria não faz uso do discernimento.
Não admira, que a situação em muitos lugares seja parecida com a de
Corinto, havendo também muitos fracos e doentes e não poucos que dor-
mem (1Co 11.30).

Questionário de revisão

1 - Com relação à Ceia do Senhor, quem defende o quê?

a) ( ) Católicos defendem a consubstanciação.


b) ( ) Luteranos defendem a transubstanciação.
c) ( ) Reformados ou calvinistas defendem a presença espiritual de
Cristo na ceia.
d) ( ) Todas estão corretas.

2 - Qual a diferença entre o conceito de Zuínglio e Calvino quanto à


presença de Jesus na Ceia?

a) ( ) Zuínglio, embora afirme a questão memorial da Ceia, nega


142

que o Cristo glorificado esteja presente na mesma. Calvino confirma a


simbologia do sacrifício de Jesus na Ceia, porém afirma que Cristo está
presente espiritualmente, abençoando, fortalecendo e julgando a sua
igreja
b) ( ) Zuínglio defende a presença de Jesus na Ceia, enquanto Cal-
vino nega a presença de Cristo na Ceia do Senhor.
c) ( ) Zuínglio defende a presença física de Jesus na Ceia, enquanto
Calvino defende a presença espiritual de Jesus.
d) ( ) Zuinglio defende a presença espiritual de Jesus na Ceia, en-
quanto Calvino defende a presença física de Jesus.

3 - Destaque alguma condição necessária para uma correta participa-


ção na Ceia.

a) ( ) Ter discernimento do sacramento.


b) ( ) Fazer um autoexame antes de participar da Ceia.
c) ( ) Participar dignamente.
d) ( ) Todas as alternativas estão corretas.

4 - Quem não deve participar da Ceia?

a) ( ) Os fiéis de denominações que não professam a fé em Jesus.


b) ( ) Os crentes que estiverem sob disciplina.
c) ( ) Os que ainda não foram recebidos por batismo e profissão de
fé.
d) ( ) Todas as alternativas estão corretas

Indicação de leituras adicionais

• O Pensamento da Reforma – A. McGrath – Ed. Cultura Cristã,


2014 – Cap. 9 – A Doutrina dos Sacramentos.
• O que é a Ceia do Senhor? – R. C. Sproul – Ed. Fiel, 2014.
• A União das Naturezas do Redentor – H. C. Campos – Ed. Cul-
tura Cristã, 2005 - Cap. 8 – A Comunicação de Atributos.
143

15. O QUE A BÍBLIA FALA SOBRE DÍZIMO

No Brasil, a legislação permite o surgimento de igrejas pratica-


mente sem nenhuma organização ou prestação de contas. Isto tem feito
com que muitos enganadores e aproveitadores se utilizem dos mandados
bíblicos para obterem vantagens pessoais, especialmente na questão dos
dízimos e ofertas. Entendemos que o dízimo é um assunto bastante com-
plexo, mas graças a Deus, a Bíblia nos dá todos os esclarecimentos que
precisamos sobre ele.
Uma das coisas que se espera de um membro, quando passa a
fazer parte de uma igreja, é que ajude a sustentá-la. Porém, qual é o mé-
todo bíblico que ele deve seguir para fazer isto? Dízimos ou ofertas? Uma
das grandes dúvidas de muitos cristãos é justamente essa. Ninguém tem
dúvidas de que o dízimo é bíblico, porém, muitos entendem que ele só
deveria ser praticado no Antigo Testamento. Como podemos entender
esse assunto a partir da Bíblia?
A igreja reformada não tem um posicionamento específico sobre
o dízimo. Portanto, nossa abordagem aqui não tem a pretensão de esta-
belecer isso.

I. O significado do dízimo no Antigo Testamento

A origem dos dízimos, de fato, remonta ao Antigo Testamento.


A primeira vez que a Bíblia fala em dízimo é com o patriarca Abraão.
Depois de uma importante conquista militar, Abraão encontrou-se com
o sacerdote Melquisedeque e lhe entregou o dízimo de suas conquistas
(Gn 14.18-20). A próxima referência ao dízimo se dá com Jacó, quando
este resolveu fazer uma aliança com Deus, e prometeu entregar o dízimo
ao Senhor de tudo o que o Senhor lhe concedesse (Gn 28.20-22). Poste-
riormente, Deus ordenou que o povo de Israel entregasse ao Senhor uma
porção de tudo o que arrecadasse:

“No tocante às dízimas do gado e do rebanho, de tudo o que passar


144

debaixo do bordão do pastor, o dízimo será ________ ao SENHOR” (Lv


27.32).

Note que o texto diz que o dízimo seria “santo” ao Senhor, ou seja,
separado, pertenceria a ele e não ao que estava entregando (Dt 14.22). A
palavra dízimo significa dez por cento, ou “um em dez”. Deste modo, de
cada dez animais do rebanho, um deveria ser consagrado ao Senhor. A
ideia seria que o pastor levantasse o cajado e contasse nove animais, en-
tão, o décimo que passasse por baixo seria do Senhor (Lv 27.32). Este era
um modo de não escolher algum animal inferior. Alguns acham que isto
é um exagero, pois é um valor alto, porém, quando a perspectiva é vista
de outro ângulo, significa que Deus concede nove animais ao povo e exi-
ge dele apenas um. Porém, o primogênito de cada animal já pertenceria
ao Senhor, era “primícias” (Lv 27.26). O dízimo era entregue aos levitas
que eram os responsáveis pela manutenção do templo e do serviço reli-
gioso em Israel.
Quando o templo fosse construído em Israel, aparentemente,
haveria um segundo dízimo. Porém, este parece estar reservado ao usu-
fruto do próprio dizimista. Ele poderia “comer” todo esse produto du-
rante a festa das semanas. Caso não pudesse levar a mercadoria, poderia
vende-la e usar o dinheiro para se banquetear em Jerusalém durante a
festa (Dt 12.6-7, Dt 14.22-27). Aparentemente, havia ainda um terceiro
dízimo, o qual deveria ser separado de três em três anos, e se destinava a
ajudar os pobres (Dt 14.28-29) .
Porém, o dízimo não era uma carga para os crentes do Antigo
Testamento. Ao entregarem o dízimo eles faziam com alegria, pois ti-
nham toda a certeza de que Deus iria recompensar. E, na verdade, o Se-
nhor promete isso:

“Honra ao SENHOR com os teus ______ e com as primícias de toda


a tua renda; e se encherão fartamente os teus celeiros, e transbordarão
de vinho os teus lagares” (Pv 3.9-10. Veja também Pv 11.24 e Lc 6.38).

De tal forma o dízimo era considerado propriedade do Senhor,


que se o povo não entregasse, era acusado de roubo: “Roubará o homem
a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dí-
zimos e nas ofertas” (Ml 3.8). Este conhecido texto de Malaquias reflete
uma prática do povo de oferecer ao Senhor os refugos e não os pro-
145

dutos de alta qualidade, como Levítico 27.32 estabelecia. É interessante


que Deus acusou o povo de roubo, e nem era porque o povo não estava
entregando o dízimo, mas porque não estava entregando a melhor parte.
E a consequência dessa infidelidade era uma espécie de maldição, pois o
Senhor não abençoava seu povo, e o tornava sujeito a todo tipo de cala-
midades (Ml 3.9). Por isso o profeta Malaquias profetizou que se o povo
passasse a trazer “todos” os dízimos até o templo, Deus iria abençoá-los
sem medida, e repreenderia o motivo pelo qual o dinheiro estava sempre
faltando (Ml 3.10-11). Nisso vemos o quanto o dízimo foi importante
para Deus no Antigo Testamento, pois segundo a Bíblia, cada vez que o
povo não entregava corretamente estava roubando a Deus.

II. O significado no Novo Testamento

Mas, o que o Novo Testamento fala a respeito do dízimo? Alguns


afirmam que não fala nada e que, portanto, as igrejas que exigem o dí-
zimo de seus fiéis estão indo contra os princípios do Novo Testamento.
Neste caso, mais uma vez, é preciso interpretar o silêncio do Novo Testa-
mento. Ele significa que algo mudou? Ou significa que tudo permanece
igual?
Como já vimos, o Novo Testamento não está contra o Antigo Tes-
tamento. Ambos se complementam. Quando algumas práticas do Antigo
são mudadas no Novo é porque se cumpriram na pessoa de Jesus, ou fo-
ram adaptadas às novas circunstâncias. Nesses casos, o Novo Testamento
explica a existência da mudança e o porquê dela.
No caso dos dízimos, realmente parece que algo mudou. A termi-
nologia “dízimo” não é mais usada no Novo Testamento, exceto em dois
lugares que precisam ser considerados.
O primeiro é em Mateus 23.23. Jesus certamente entregou o dízi-
mo em sua vida, seguindo o padrão do Antigo Testamento, pois, ele pre-
cisava cumprir toda a Lei. O texto de Mateus 23.23, geralmente é usado
para afirmar que Jesus era contra os dízimos:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hor-


telã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais im-
portantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; ________, porém, fazer
estas coisas, sem omitir aquelas!”
146

Jesus realmente criticou os fariseus que eram extremamente de-


talhistas, pois davam o dízimo até das pequenas hortaliças, mas se esque-
ciam do amor, da justiça e da fé. Entretanto, Jesus diz “devíeis, porém,
fazer estas cousas, sem omitir aquelas”. Ou seja, ele disse que os fariseus
estavam certos em dar o dízimo, mas precisavam também se preocupar
com as demais coisas da fé. Evidentemente, ele estava falando a respeito
da legislação judaica.
Antes de analisar o segundo lugar que menciona “dízimo” no
Novo Testamento, é preciso reconhecer que a terminologia que o Novo
Testamento usa para contribuição é “oferta”. Porém, será que isso signi-
fica que a ideia do dízimo se tornou obsoleta? Será que foi abolida essa
perspectiva de contribuir com “dez por cento”?
Em 2Coríntios 8 e 9, Paulo não menciona a palavra “dízimo”,
entretanto, podemos ver nesses capítulos amplas explicações bíblicas
sobre contribuição. Paulo e outros irmãos haviam decidido fazer uma
arrecadação entre as igrejas da Europa e Ásia para ajudar as igrejas de
Jerusalém que estavam em grandes dificuldades financeiras, por causa
da terrível seca que já durava muito tempo. Paulo, então, fala da Igreja
da Macedônia que quis participar da contribuição: “Porque, no meio de
muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a pro-
funda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosi-
dade. Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo
acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos,
a graça de participarem da assistência aos santos” (2Co 8.2-4). Note que
eles eram muito pobres, mas insistiram em contribuir. Não foi neces-
sário Paulo fazer longas campanhas para que contribuíssem, eles con-
tribuíram espontaneamente. Essa é a norma, conforme o próprio Paulo
disse:

“Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tris-


teza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com _________”
(2Co 9.7).

Os crentes não devem entregar ofertas porque são constrangidos


a fazer isso, mas porque desejam de coração contribuir com a obra de
Deus. Uma das marcas do verdadeiro convertido é generosidade.
Mas qual deve ser o valor da oferta? Muitos daqueles que “bri-
gam” por causa do dízimo, exigindo sua extinção na igreja, fazem isso
147

porque desejam contribuir “menos” do que dez por cento. Porém, à luz
do Novo Testamento, a ideia de “dízimo” só poderia ser deixada de lado,
se a intenção fosse contribuir com mais do que isso. Ou seja, se ficasse
entendido que dez por cento é muito pouco. Quando Paulo diz “cada um
contribua segundo tiver proposto no coração”, ele realmente parece estar
deixando certa liberdade para que o contribuinte estabeleça o valor da
contribuição. Porém, à luz de toda a revelação bíblica, qual sempre foi o
percentual mínimo? Seria aceitável diante de Deus uma oferta de grati-
dão inferior a esse valor? Isso representaria gratidão?
O segundo lugar no Novo Testamento onde dízimo é menciona-
do é a Carta ao Hebreus. O autor aos Hebreus menciona o momento em
que Abraão entregou dízimos para Melquisedeque, ligando o sacerdote
ao próprio Cristo:

“Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssi-


mo, que saiu ao encontro de Abraão, quando voltava da matança dos reis,
e o abençoou, para o qual também Abraão separou o _________ de tudo
(primeiramente se interpreta rei de justiça, depois também é rei de Salém,
ou seja, rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia; que não teve prin-
cípio de dias, nem fim de existência, entretanto, feito _____________ ao
Filho de Deus), permanece sacerdote perpetuamente” (Hb 7.1-3).

No mínimo, Melquisedeque precisa ser considerado um “tipo de


Cristo”. Talvez, ele fosse o próprio Cristo pré-encarnado, aparecendo para
Abraão com “pão e vinho” (Gn 14.18). É importante lembrar que esse
momento se deu antes mesmo do estabelecimento da nação de Israel,
e, portanto, antes da legislação mosaica sobre os três dízimos. Se Cristo
recebeu dízimos de Abraão, que é chamado de o “pai da fé”, então, isso
mostra que antes mesmo de se tornar parte da legislação específica de Is-
rael, a prática do dízimo era um princípio eterno, estabelecido por Deus.
Era um dos elementos da Aliança. Isso deveria trazer cautela aos propa-
gadores mais exacerbados da “extinção do dízimo”.
O mais interessante na entrega da oferta é que Deus está mais in-
teressado na fidelidade do que no valor. Lucas relata um momento muito
interessante do ministério de Jesus: “Estando Jesus a observar, viu os ri-
cos lançarem suas ofertas no gazofilácio. Viu também certa viúva pobre
lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que
esta viúva pobre deu mais do que todos. Porque todos estes deram como
148

oferta daquilo que lhes sobrava; esta, porém, da sua pobreza deu tudo
o que possuía, todo o seu sustento” (Lc 21.1-4). Jesus louvou a genero-
sidade da mulher. Ela havia dado pouco em comparação com os ricos
que haviam dado muito, mas o que deu era muito por ser tudo o que ela
tinha para dar. Diante dessa ideia, percebemos que “proporcionalidade”
continua sendo um princípio válido. Como alguém poderia querer agra-
dar a Deus se oferecesse menos do que o mínimo que desde o começo foi
estabelecido? A mulher agradou a Deus porque ofereceu “mais do que
isso”.
O princípio do dízimo é uma bênção porque não se exige de nós
mais do que podemos dar, a menos que desejemos fazer isso. Por outro
lado, oferecer “menos” do que podemos dar é um forte sintoma de ingra-
tidão. É verdade que Deus não teria prazer em nos ver passar necessida-
de ao mesmo tempo em que enchêssemos os cofres da igreja, mas nossas
contribuições espontâneas e justas são extremamente agradáveis a Deus.
Deus ama a generosidade dos crentes.
Com base nisso, podemos afirmar que o Novo Testamento não
estabelece a obrigatoriedade do dízimo nos mesmos moldes de Levítico
e Deuteronômio. Porém, sendo ele um princípio eterno da Escritura, es-
tabelecido por aquele que foi feito “sacerdote para sempre”, podemos di-
zer que ele continua sendo um excelente princípio de contribuição para
a igreja, uma espécie de “mínimo” que deveria ser observado na entrega
das ofertas. Entregar menos do que dez por cento, exceto em circuns-
tâncias de extrema necessidade, nos parece um ato que compromete a
oferta.

III. Razões para contribuir

Algo que precisa ficar bem claro é que o espírito de contribuição


do Novo Testamento é diferente do que vemos hoje em dia em muitas
igrejas. No Novo Testamento, os crentes são incentivados a contribuir
com alegria, de forma espontânea e como gratidão. Não por medo, ou
por desejo de ser abençoado como muitos pregam.
Precisamos ter em mente que contribuir é um feito espiritual,
pois tem implicações espirituais. Não é um mero ato de colocar um di-
nheiro dentro de um envelope. Israel trazia em “víveres”, pois era uma
amostra de todo o trabalho e uma forma de reconhecer que Deus estava
lhes proporcionando tudo o que precisavam. Quando ofertamos dinhei-
149

ro, precisamos olhar para ele e pensar na graça de Deus, que providencia
tudo para nós e nos deixa ficar com noventa por cento.
É preciso também entender que contribuir é um ato de semear.
Paulo disse:

“E isto afirmo: aquele que ____________pouco pouco também cei-


fará; e o que semeia com ___________com abundância também cei-
fará. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com
______________ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com
___________. Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que,
tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa
obra” (2Co 9.6-8).

Na semeadura há uma lei: semear pouco acarretará em colher


pouco. Paulo aplica esse princípio à contribuição. Não devemos pensar
numa troca do tipo “toma lá dá cá”, mas precisamos crer que vamos co-
lher o que estamos semeando, até porque, há todo um processo de fé em
semear e colher. Esta atitude de fé é importante, porque não é uma esmo-
la que entregamos a Deus. Contribuir é um ato de fé, pois é como lançar
a semente na terra. Precisamos acreditar que daquela semente brotará
muitos frutos, e é claro que queremos colher não apenas bênçãos mate-
riais. Contribuir é um ato espontâneo. Se não existir esta espontaneidade
não haverá semeadura. Constrangimento e obrigação não trazem frutos
de volta. Paulo disse ainda:

“Ora, aquele que dá _____________ao que semeia e pão para alimen-


to também suprirá e _____________a vossa sementeira e multiplicará os
frutos da vossa justiça” (2Co 9.10).

Contribuir é um ato que gera ainda mais contribuição, pois Paulo


diz que Deus fará aumentar nossa sementeira. Isso significa que teremos
ainda mais condições de contribuir. Esta é a rotina na agricultura: colher
bastante para semear mais. Se demonstramos má vontade em entregar
nossos dízimos porque achamos que é um valor muito alto, é como se
estivéssemos dizendo que estamos ganhando muito e que Deus deveria
diminuir nossa renda. Ao contrário devemos orar e esperar que Deus
aumente a nossa sementeira, pois quanto mais estivermos semeando é
porque na verdade já estamos colhendo mais.
150

Devemos ser sinceros, muitos pregadores sabem de todas essas


coisas, mas não pregam porque têm medo que a contribuição das igrejas
vá diminuir. Entretanto, os verdadeiros crentes continuarão ofertando
seus dízimos fielmente, e os dízimos “arrancados” dos falsos, certamente,
a igreja pode muito bem passar sem eles. Por outro lado, crentes não de-
veriam ficar entregando dinheiro a todo pregador que surge na televisão,
antes entregar seus dízimos em sua igreja e zelar para que o dinheiro seja
aplicado na expansão do reino de Deus e na ajuda dos necessitados. A
igreja primitiva também se preocupava com os necessitados: “Pois ne-
nhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou
casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes, e depositavam
aos pés dos apóstolos” (At 4.34-35). Quando as pessoas estão cheias do
Espírito Santo elas não se apegam tanto aos bens materiais.
O desafio de muitos pregadores para que os crentes “façam prova
de Deus” não é um motivo justo para contribuição. Em primeiro lugar
porque não temos o direito de provar a Deus. Jesus deixou isso bem claro
quando disse a Satanás: “Não tentarás ao Senhor teu Deus” (Mt 4.7). Na-
quela situação, o diabo desafiou Jesus a se jogar do alto do templo para
ver se Deus o socorreria. Na resposta Jesus deixou bem claro que não
devemos, nem temos o direito de colocar Deus à prova. Mas, e quanto ao
texto de Malaquias? Nele, o Senhor diz: “Provai-me nisso, diz o Senhor
dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu” (Ml 3.10). Aquela foi
uma situação específica. Deus deixou bem claro que a nação toda estava
sendo infiel (Ml 3.9), e que essa infidelidade era a causa de não estarem
sendo abençoados. Com base nisso, Deus disse ao povo daquela época
que podiam “tirar a prova”, e veriam que o que Deus estava dizendo era
verdade. Deus, portanto, estava chamando seu povo a reagir de acordo
com as estipulações da Aliança válidas para aquele momento histórico.
Mas, esse texto não manda os crentes saírem por aí provando a Deus,
pois não somos Israel, não respondemos diante de Deus como nação,
e sim como indivíduos, e Deus não declarou a cada indivíduo que está
sendo infiel nos dízimos que por isso não está sendo abençoado. Cada
caso é um caso, como diz o ditado.
Generosidade é uma marca de todo crente verdadeiro. Quem se
apega ao dinheiro de forma avarenta, está se apegando à raiz de todos
os males (1Tm 6.10). Prontidão para contribuir, portanto, é uma atitude
que glorifica a Deus e abençoa a igreja.
151

Questionário de revisão

1 - Qual a ocasião em que a bíblia fala pela primeira vez sobre dízimo?

a) ( ) Após uma conquista Militar de Abraão, em que ele se encon-


trou com o sacerdote Melquisedeque e lhe entregou o dízimo de suas
conquistas.
b) ( ) Quando Jacó resolveu fazer uma aliança com Deus, e prome-
teu entregar o dízimo ao Senhor de tudo que o Senhor lhe concedesse.
c) ( ) Quando Deus ordenou ao povo de Israel que entregasse ao
Senhor uma porção de tudo o que arrecadasse.
d) ( ) Na Aliança de Deus com Noé, após o dilúvio.

2 - O dízimo é um conceito que pode ser aplicado nos dias atuais?

a) ( ) Não. Pois é um conceito presente apenas do AT.


b) ( ) Não. Pois o dízimo foi abolido no NT.
c) ( ) Não . Pois o dízimo nunca foi praticado pela igreja primitiva.
d) ( ) Sim. Pois o dízimo é um princípio eterno da Escritura, estabe-
lecido por aquele que foi feito “sacerdote para sempre”

3 - Qual é o conceito bíblico do dízimo?

a) ( ) Um ato de fidelidade a Deus e gratidão pelo reconhecimento


de que tudo que temos é graça de Deus.
b) ( ) É um ato de obrigatoriedade decretado por Deus em sua lei.
c) ( ) É um ato de troca pelas bênçãos que o Senhor nos concede.
d) ( ) Todas as alternativas estão incorretas.

4 - Qual a relação entre ofertar e semear?

a) ( ) É um ato de fé. Contribuir é um ato que gera mais contribui-


ção.
b) ( ) É um ato de chamar a atenção de Deus para receber suas bên-
çãos.
152

c) ( ) É um ato de ousadia para fazer prova com Deus.


d) ( ) Todas as alternativas são incorretas.

5 - Que sentimento deve orientar a prática do dízimo na igreja?

a) ( ) Obrigação
b) ( ) Coragem
c) ( ) Ousadia
d) ( ) Gratidão

Indicação de leituras adicionais

• Santos no Mundo – Leland Ryken – Ed. Fiel, 2013 – Cap. 4 – Di-


nheiro.
• Fidelidade e Bênção – Jacob Silva – Ed. Cultura Cristã, 2012.
• Dízimos e Ofertas – Samuel J. Souza – Ed. Cultura Cristã, 2010.
153

16. ENFRENTANDO O INIMIGO

Quando alguém se converte ao Senhor entra de forma instantâ-


nea num grande conflito, uma verdadeira luta espiritual. Se, por um lado,
está em paz com Deus, pois foi justificado pela fé (Rm 5.1), por outro,
uma grande inimizade se estabeleceu contra o príncipe da potestade do
ar. Uma luta diária e constante, portanto, estará em seu caminho. Como
soldado em batalha, cabe ao cristão estar preparado. Desatenção ou des-
preparo o tornará presa fácil das artimanhas malignas. Como em uma
luta convencional, conhecer razoavelmente o inimigo e suas estratégias
pode ser útil para aguentar aos seus assaltos.
A grande arma de Satanás é o extremismo das pessoas. Por extre-
mismo queremos dizer que há muitas pessoas que negam a existência do
diabo, ou vivem totalmente despreocupadas, como se ele não existisse.
Estas dão todo o espaço que ele precisa para agir sem ser notado, pois
quando somos atacados de surpresa, temos poucas chances de vencer.
Paulo escreveu aos Coríntios que tomassem muito cuidado “para que
Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os de-
sígnios” (2Co 2.11). O fato é que as pessoas têm ignorado largamente
os desígnios do diabo. Muitos pintam um retrato mitológico dele, todo
vermelho, com chifres e tridente na mão. A Bíblia, ao contrário, diz que
ele prefere se apresentar como “anjo de luz” (2Co 11.14). Agindo às es-
condidas ele tem conseguido vitórias espetaculares.
No outro extremo, alguns crentes prestam mais atenção ao diabo
do que em Deus. Em tudo eles veem o Diabo, e atribuem o que acontece
de ruim a ele. Ele que gosta de estar no centro das atenções, por certo se
agrada de toda esta publicidade que os crentes lhe prestam, como se lhe
fosse uma homenagem. Achar demônios em toda parte é uma obsessão
pessoal que Satanás usa como uma cortina de fumaça, desviando a aten-
ção do verdadeiro plano: a corrupção espiritual. Como em quase todos os
assuntos espirituais, também neste há a necessidade de equilíbrio. Quei-
ramos ou não, todos estamos envolvidos numa batalha contra o diabo. A
melhor tática de guerra é: conheça o inimigo, não o superestime, nem o
subestime.
154

I. Características do inimigo

O primeiro problema é como conhecer o inimigo? Entendemos


que o segredo de conhecer bem o inimigo é primeiro conhecer bem a
Deus. Quem é Deus para nós? Um tio celestial, a quem nos dirigimos
sempre que precisamos de alguma coisa? Então, o diabo é o mal-humo-
rado cósmico que gosta de estragar tudo. Deus é um ser poderoso, mas
não todo-poderoso? Então o diabo tem quase o mesmo poder que Deus
e disputa palmo a palmo com ele. Mas se entendemos que Deus é So-
berano, todo-poderoso, inigualável, etc., então, o diabo só pode ser um
usurpador que tenta se beneficiar da graça de Deus, antes que a justiça
divina seja executada sobre ele.
Hoje em dia, muitos crentes ficam fascinados com revelações de
pessoas que praticavam bruxaria. Pensam que estas pessoas podem nos
ensinar a respeito do diabo. Mas, por que acreditaríamos nelas? O diabo
é o pai da mentira (Jo 8.44). Quem garante que não as enganou o tempo
todo. O mais importante é conhecer bem a Deus e a sua palavra, e deste
modo não seremos surpreendidos pelo inimigo.
As informações que temos da Escritura a respeito de Satanás não
são muitas, mas são suficientes para entendermos quem ele é, e o que
ele pode fazer. Apesar da Bíblia não dizer explicitamente que ele era um
anjo, isso se deduz a partir de várias passagens. O livro de Jó localiza o
diabo entre os anjos de Deus:

“Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o


SENHOR, veio também Satanás _______ eles” (Jó 1.6).

Jesus disse que o diabo tem anjos do seu lado (Mt 25.41), e Apo-
calipse diz que ele lidera esses anjos (Ap 12.9). Por esse motivo, é de se
supor que ele também seja um anjo. Paulo diz que Satanás sabe se trans-
formar em “anjo de luz” (2Co 11.14), e disso se deduz que ele seja um
“anjo das trevas”, um anjo caído.
Paulo o chama de “o príncipe da potestade do ar” (Ef 2.2), um
título que parece apontar sua função sobre esses poderes malignos in-
visíveis. Ele é o governador de um mundo de trevas (Cl 1.13; Lc 22.53).
Do ponto de vista de Cristo, o mundo era um território sob o poder do
inimigo, pois Jesus o chamou de “príncipe”, e disse que viera para des-
155

trona-lo (Jo 12.31; 14.30; 16.11). Agindo através da serpente (Gn 3, Ap


12.9), ele induziu o ser humano à queda, e assim, conseguiu usurpar o
domínio deste mundo. Evidentemente que não é um domínio absoluto,
pois o único que está realmente no controle de todas as coisas é Deus.
Satanás alcançou prerrogativas legais, jurídicas, e se tornou o enganador
das nações e o acusador do povo de Deus (Ap 12.9-10).* Satanás governa
o coração dos homens que se mantêm alienados de Deus. É neste sentido
que ele é o deus deste século (2Co 4.4), pois dita as normas e os valores
para a vida daqueles que estão distanciados de Deus.
O Apocalipse descreve o diabo como alguém que se revoltou con-
tra Deus, e que juntamente com seus aliados, foi expulso do céu:

“Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dra-


gão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; todavia, não prevalece-
ram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi __________ o grande
dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de
todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos” (Ap
12.7-9).

E o anjo proclamou: “Por isso, festejai, ó céus, e vós, os que ne-


les habitais. Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de
grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta” (Ap 12.10). Embora o
texto tenha sido escrito em linguagem simbólica, é possível entender que
Satanás foi expulso do céu e que está na terra, agindo com toda fúria, pois
sabe que seus dias estão contados.
Com respeito a como aconteceu a queda moral de Satanás e dos
demais anjos, novamente, não temos informações diretas, e precisamos
fazer deduções a partir de vários textos. Sabemos apenas que, de alguma
forma, um grupo de anjos liderados por Satanás se rebelou contra Deus.
Satanás significa “Adversário” e é o grande líder dessa rebelião. Ele recebe
muitos nomes na Bíblia, e o mais conhecido, Lúcifer (portador da luz),
não está na Bíblia. Esse nome vem do Latim e era aplicado ao Planeta
Vênus. O motivo deste nome ser associado a Satanás foi porque as ver-
sões Latinas da Bíblia traduziram um termo hebraico que pode significa
“estrela da manhã”, como Lúcifer (Isaías 14.12). O texto de Isaías diz:

* Para uma exposição dos aspectos jurídicos ligados à ação de Satanás no mundo
e sua derrota na cruz, veja meu livro: Leandro Lima. A Grande Batalha Escatológica. São
Paulo: Agathos, 2016.
156

“Como caíste do _____, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste


lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração:
Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no
monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei
acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. Contudo,
serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo”
(Is 14.12-15).

Em geral esse texto tem sido entendido como uma referência à


queda de Satanás. Mas antes de qualquer coisa, esse texto está sendo diri-
gido ao rei de Babilônia. Foi uma profecia contra o rei de Babilônia e não
uma explicação direta sobre a origem de Satanás. É certo, porém, que o
rei de Babilônia é uma figura de Satanás, e no mínimo um representan-
te dele na terra. Por esse motivo, é possível que por detrás do que está
sendo dito do referido rei haja alguma reminiscência sobre o próprio
Satanás. O texto descreve a queda desse rei que em seu orgulho queria
ser semelhante a Deus. Realmente este parece ser o motivo principal da
queda de Satanás.
Outro texto que em geral se aplica a Satanás é Ezequiel 28.11-19,
que é uma profecia contra o rei de Tiro:

“Assim diz o SENHOR Deus: Tu és o sinete da perfeição, cheio de


sabedoria e formosura. Estavas no ______, jardim de Deus; de todas as
pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o
ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de ouro se te fizeram
os engastes e os ornamentos; no dia em que foste criado, foram eles pre-
parados. Tu eras ___________ da guarda ungido, e te estabeleci; perma-
necias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Perfeito
eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou
_____________ em ti” (Ez 28.12-15).

O mesmo que falamos sobre o rei de Babilônia pode ser aplicado


ao rei de Tiro. Algumas expressões do texto parecem realmente indicar
alguém maior do que o rei de Tiro: São elas: “Estavas no Éden”, “eras
querubim da guarda ungido”, “permanecias no monte de Deus”, “perfei-
to eras nos teus caminhos desde o dia que foste criado até que se achou
iniquidade em ti”. De fato, essas expressões extrapolam em muito o que
se poderia dizer de um homem, mesmo que consideremos o aspecto hi-
157

perbólico do texto. Parece ter alguma aplicação ao próprio Satanás do


qual o rei de Tiro era um representante. Então, talvez possamos dizer que
Satanás se rebelou contra Deus porque deixou o orgulho crescer em seu
coração e porque desejou ocupar o lugar do próprio Deus. Em sua rebe-
lião, ele arrastou consigo um grande número dos anjos de Deus. Esses
anjos se tornaram “demônios”, e são submissos a Satanás, agindo em toda
a terra para contrariar os propósitos de Deus. Satanás induziu o homem
à queda, e com isso obteve sua maior vitória. No entanto, Jesus reverteu
essa vitória dele quando assegurou a redenção. Então, ele e todos os seus
foram expulsos do céu e lançados à terra. Eles estão furiosos porque estão
vendo seus dias se abreviarem.

II. Métodos malignos

Em sua primeira vinda, Jesus impôs sobre Satanás o poder do rei-


no de Deus. Ele o venceu na tentação do deserto (Mt 4), e o fez retroceder
das vidas humanas dominadas, expulsando seus comparsas sistematica-
mente. Com a chegada do Reino de Deus, Jesus disse que impôs uma
restrição à ação satânica no mundo (Mt 12.28-29). Porém, o momen-
to definitivo em que Cristo conquistou a vitória contra o inimigo foi na
cruz. Nela, ele destronou o príncipe deste mundo (Jo 12.31-33), destruiu
o poder que ele tinha de exigir a morte dos pecadores (Hb 2.14), e retirou
todos os “bens” e “armas” dos seus inimigos (Cl 2.15). Quando Cristo
ressuscitou e subiu ao céu, ele colocou todos esses inimigos para baixo,
expulsando-os do céu (Ap 12.5-9, Ef 1.20-21, 1Pe 3.22).
Porém, apesar de juridicamente derrotado e expulso do céu, Sa-
tanás ainda não foi definitivamente banido. Na terra, ele continua agindo
nos homens ímpios (2Co 4.4), e tentando levar vantagem sobre os crentes
(2Co 2.11).
Pedro o chama de adversário:

“Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derre-


dor, como leão que ruge ____________ alguém para devorar” (1Pe 5.8).

Desatenção pode ser fatal. Satanás é um ser totalmente mau. Nele


não há qualquer vestígio de bondade ou de verdade, apenas ódio em seu
potencial máximo. Um ser mau, seguido por uma hoste dotada de mal-
dade inimaginável, os quais estão furiosos por causa da terrível e irre-
158

versível derrota que sofreram na cruz. Estes são os nossos inimigos. São
mais cruéis, mais maliciosos, mais orgulhosos, mais zombadores, mais
pervertidos, mais destrutivos, mais repugnantes, mais imundos, mais
desprezíveis do que qualquer coisa que a mente humana possa conceber.
Vejamos o que a Bíblia diz que ele ainda pode fazer. Já dissemos
que ele pode se apresentar como “anjo de luz” (2Co 11.14). Isso signifi-
ca que feiura não é necessariamente uma característica dele. Sua maior
arma é se parecer ao máximo com o que é verdadeiro. Por isso, os crentes
devem tomar muito cuidado, pois seus falsos mestres se apresentam dis-
farçados como ovelhas, sendo por dentro lobos vorazes (Mt 7.15). É dito
que ele pode manipular eventos físicos (2Ts 2.9; Jó 1.12), pode sugerir
pensamentos errados em nossa mente” (Mt 4.3), pode causar doenças
(Lc 13.16), pode cegar os incrédulos (2Co 4.4). Ele é a prisão da raça
humana decaída (1Jo 5.19).
É evidente que todo o poder que ele pode demonstrar depende
de uma permissão divina. Mesmo que ele não queira admitir, é uma fer-
ramenta nas mãos de Deus. Como um homem pode usar um cão bra-
vo, Deus usa Satanás para disciplinar o mundo. A Bíblia diz que muitos
demônios estão acorrentados (Jd 6; Mt 25.41; Ap 20.10). Isto significa
que há limitações impostas sobre eles. Mesmo aqueles que se encontram
soltos na terra não podem fazer tudo o que querem, pois Deus ainda
preserva este mundo. Satanás gosta de ser chamado de governante (Mt
4.6), mas seu poder é limitado pelo poder de Deus. Ele vê o crente como
um fugitivo de seu império (Cl 1.13), e vai fazer de tudo para torná-lo
um cativo novamente. Se ele conseguir produzir o engano, terá alcança-
do vitória, por isso concentra toda sua força na tentativa de desacreditar
a Bíblia, ou no mínimo de deixá-la de lado. Sua intenção sempre é levar
ao pecado. E faz isto induzindo ao erro ou distorcendo o que está certo.
Se formos fiéis em um ponto da muralha, ele tentará abrir outro, assim,
sucessivamente, todos os dias.

III. Como vencer o inimigo

Antes de tudo precisamos entender que, num sentido, já somos


vitoriosos contra Satanás. Cristo compartilhou sua própria vitória co-
nosco. Portanto, já somos “mais do que vencedores por meio daquele
que nos amou” (Rm 8.37). A vitória jurídica que Cristo obteve garantiu
nossa plena justificação diante de Deus, de modo que Satanás não pode
159

mais nos acusar, nem nos ameaçar. Ele não pode mais “nos tocar” (1Jo
5.18). Por esse motivo, talvez, Pedro o tenha descrito como um leão que
ruge, andando em derredor, como uma fera que espera alguém dar opor-
tunidade para que ele ataque (1Pe 5.8). Isso significa que ele não tem mais
direitos de agir no crente a menos que lhe sejam dados outra vez.
Em linguagem futebolística, às vezes se diz que “a defesa é o me-
lhor ataque”. Nem sempre isto funciona nos campos de futebol, mas é o
que funciona na batalha contra o inimigo. Somos chamados para uma
luta de resistência, porque o inimigo não poderá ultrapassar nossas defe-
sas, se elas estiverem bem postadas. A palavra de ordem é: “Sujeitai-vos,
portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7). Ele
não tem outra opção. Sempre que encontra alguém “firme na fé” (1Pe
5.9), resistindo-o, ao mesmo tempo que se submete a Deus, só lhe restará
bater em retirada.
A conversão nos coloca no centro de uma batalha da qual não
podemos fugir: a batalha espiritual. Porém, além de garantida a vitória
escatológica através de Cristo, a Escritura no diz que recebemos também
armas para derrotar o inimigo no dia a dia. Paulo disse:

“Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.


Revesti-vos de toda a _____________ de Deus, para poderdes ficar fir-
mes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue
e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os domina-
dores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas
regiões celestes” (Ef 6.10-12).

A carta aos Efésios demonstra o plano maravilhoso de Deus para


sua igreja, que foi escolhida antes da fundação do mundo, que experi-
menta a salvação pela graça através dos méritos de Cristo, que servirá
como demonstração pública do poder e da sabedoria de Deus, etc. Mas
as coisas não serão fáceis, pois uma guerra sem tréguas se torna a realida-
de do cristão. Paulo diz que ele usa “ciladas” para apanhar os crentes (Ef
6.11). Uma cilada é uma espécie de “armadilha”. É um engano engenhoso
que faz com que as pessoas caiam sem perceber. Em duas passagens Pau-
lo fala sobre o “laço do diabo”. Numa delas diz que o Presbítero deve ter
bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço do
diabo (1Tm 3:7). Na outra fala de pessoas que faziam oposição ao Evan-
gelho, as quais precisavam ser libertas dos laços do diabo, pois tinham
160

sido feitas cativas por ele para cumprirem a sua vontade (2Tm 2.25-26).
O engano, portanto, é sua principal tática de guerra, e isso tanto em rela-
ção aos incrédulos quanto em relação aos crentes. Quando Paulo utiliza
as expressões “principados e potestades” (Ef 6.10-12) ele está querendo
demonstrar a ideia de poderes invisíveis em atuação e talvez até mesmo
aponte para hierarquias malignas. Essas forças estão agindo diretamente
sobre este mundo.
As recomendações de Paulo seguem a seguinte ordem: 1) Preci-
samos nos fortalecer no Senhor. 2) Precisamos entender que estamos em
meio a uma batalha contra inimigos que não são de “carne e sangue”. 3)
Precisamos entender que estes inimigos jogam sujo e não desistem facil-
mente. 4) Precisamos nos revestir da armadura de Deus para enfrentar
este combate.
A armadura de Deus é composta de virtudes espirituais que nos
ajudarão a resistir aos ataques malignos. Paulo diz: “Portanto, tomai toda
a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de
terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis. Estai, pois, firmes, cingin-
do-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça. Calçai os pés
com a preparação do evangelho da paz; embraçando sempre o escudo da
fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.
Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a
palavra de Deus; com toda oração e súplica, orando em todo tempo no
Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos
os santos” (Ef 6.13-18).
Podemos dividir esta armadura em sete partes: 1) Verdade, 2)
Justiça, 3) Evangelho, 4) Fé, 5) Salvação, 6) Palavra, e, 7) Oração.
O cinto da verdade aponta para a segurança baseada não em fal-
sas ilusões, mas na sinceridade e na certeza da verdade que é o próprio
Jesus (Jo 14.6). Vestir a couraça da justiça aponta para a necessidade de
se viver aquilo que se crê, ou seja, a necessidade da vida justa. Calçar os
pés com o Evangelho só pode significar firmeza e prontidão para anun-
ciar o Evangelho. Embraçar o escudo da fé é usá-la como uma defesa
contra os dardos malignos que induzem à pensamentos de dúvida, de
rebeldia, de malícia, etc. O capacete da Salvação mostra que nossa cabe-
ça está segura e não poderemos ser feridos mortalmente. A Espada da
Palavra parece ser a única arma que serve tanto para defesa quanto para
ataque. De fato, foi a Palavra a arma que Jesus usou para se defender da
tentação de Satanás (Mt 4). E a oração, embora não apareça como um
161

aspecto específico da armadura, pode indicar a maneira como cada uma


das peças da armadura deve ser vestida e utilizada.
É interessante que esta armadura não tem defesa para as costas,
talvez porque o inimigo precisa ser encarado de frente, na força de Deus,
com a armadura sem brechas, para que não sejamos atingidos no cal-
canhar de Aquiles. Algo que precisa ser dito ainda é que numa guerra a
vitória só vem com muita dedicação, com treino e com luta. Não existe
passe de mágica, amuletos, rituais que possam vencê-lo. Precisamos do
fortalecimento do Senhor e o uso da armadura, em plena confiança no
poder e na vitória de Cristo.

Questionário de revisão

1 - Segundo essa lição, qual seria a melhor tática de guerra?

a) ( ) Conhecer o inimigo, não o superestimar, nem o subestimar.


b) ( ) Não dar importância alguma aos seus ataques.
c) ( ) Enfrentar o inimigo, o amarrando e determinando a sua der-
rota.
d) ( ) Não se preocupar com as ciladas porque o inimigo já é um
derrotado.

2 - De que maneira podemos conhecer o inimigo?

a) ( ) Conhecendo todas as suas táticas, principalmente pelo teste-


munho de pessoas que já lidaram com ele.
b) ( ) Conhecendo bem a Deus e a tudo o que a Escritura revela.
c) ( ) Buscando estudar os ensinos dos demônios.
d) ( ) É impossível conhecer o inimigo.

3 - Em que sentido Satanás é o deus deste século?

a) ( ) No sentido de Satanás ter o governo do mundo em suas mãos.


b) ( ) No sentido de toda a riqueza desse mundo lhe pertencer.
c) ( ) No sentido de Satanás governar o coração dos homens que se
162

mantêm alienados de Deus.


d) ( ) No sentido de Satanás ser a maior autoridade sobre os ho-
mens nesse mundo caído pelo pecado.

4 - O que teria levado Satanás a se rebelar contra Deus?

a) ( ) A vaidade e a ambição .
b) ( ) A inveja e a vaidade.
c) ( ) A ambição e a insatisfação do governo de Deus.
d) ( ) O orgulho e desejar ocupar o lugar de Deus.

5 - Qual é a principal arma de Satanás?

a) ( ) Ele tenta se parecer ao máximo com o que é verdadeiro.


b) ( ) Ele tenta ganhar a confiança do crente fazendo falsas promes-
sas.
c) ( ) Ele seduz os homens com os prazeres deste mundo.
d) ( ) Ele oferece riquezas aos homens.

Indicação de leituras adicionais

• A Vinda do Reino – H. Ridderbos – Ed. Cultura Cristã, 2010 –


Cap. 9 – O Maligno Vencido.
• O Soldado Cristão – M. Lloyd-Jones – PES, 1996 – Cap. 12 –
Toda a armadura de Deus.
• A Grande Batalha Escatológica – L. A. Lima – Ed. Agathos, 2016
– Cap. 5 – A Batalha na Cruz; Cap. 6 – A Vitória na Ressurreição.
163

17. CONFIANDO NA SOBERANIA DE DEUS

Segundo Paulo, o Senhor é o “único soberano” que existe (1Tm


6.15), e embora ele só use esta expressão neste texto, todos os seus escri-
tos estão permeados do senso da Soberania de Deus. O mundo existe por
causa da soberania de Deus. A redenção segue os parâmetros desta mes-
ma soberania. A consumação de todas as coisas tão somente consumará
os propósitos soberanos de Deus. Deus é aquele que “faz todas as coisas
conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Paulo não poderia defi-
nir melhor o conceito de soberania de Deus do que faz com a afirmação
doxológica: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas.
A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.36).

I. O todo poderoso

Em teologia fala-se muito que Deus é Onisciente, Onipresente e


Onipotente. Essas características nos falam do conhecimento pleno de
Deus, de sua presença infinita e de seu poder absolutos.
Uma das principais características de Deus é sua habilidade de
“conhecer” todas as coisas. É aquilo que os teólogos chamam de “Onis-
ciência” (omnis=todo; ciência=conhecimento). Quando dizemos que
Deus é Onisciente, estamos afirmando que ele tem um conhecimento
exaustivo (completo, em detalhes) sobre todas as coisas imagináveis e ini-
magináveis. O homem muda constantemente de opinião ou de estratégia
porque não tem conhecimento pleno das coisas, das conjunturas e nem
de si mesmo. Deus, ao contrário, sabe exatamente quais são seus propó-
sitos, além dos meios corretos para alcançá-los, e por isso ele não muda
e nem precisa mudar. Deus consegue planejar algo de forma tão perfeita
que nada, absolutamente nada, o surpreenderá. Ele conhece todos os de-
talhes, cada possibilidade, todas as consequências dos atos, e sabe como
conduzir tudo de uma forma harmoniosa e perfeita. Só ele é assim. No
livro dos Provérbios está escrito: “Os olhos do Senhor estão em todo lu-
gar” (Pv 15.3). Seu conhecimento é pleno, instantâneo, absoluto e não é
164

afetado pelo tempo. O passado ou o futuro não são empecilhos para o


seu conhecimento. Ele é eternamente consciente de todas as coisas. Nes-
se momento, quando estou escrevendo esse capítulo, preciso “acessar”
informações que estão em livros, em dicionários, em programas de com-
putador, ou mesmo em coisas que já aprendi, mas que ficaram guardadas
em algum lugar da minha mente. Não é assim com Deus, ele não precisa
“acessar” informações, pois todas elas estão eternamente presentes dian-
te de seus olhos. A Onisciência divina é uma grande fonte de consolo
para os crentes e de terror para os ímpios. Os crentes podem confiar que
“os olhos do Senhor repousam sobre os justos” (1Pe 3.12), e que “até os
cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt 10.30). Já o ímpio não terá
desculpas perante aquele que conhece todas as coisas, inclusive os segre-
dos do coração (Sl 44.21; Rm 2.16).
Outra característica essencial de Deus refere-se a sua presença
infinita. O nome teológico é Onipresença. A definição mais comum de
Onipresença refere-se à capacidade divina de estar em todos os lugares
ao mesmo tempo com seu ser inteiro. Ninguém exceto Deus é Onipre-
sente. Satanás não pode estar nem sequer em dois lugares ao mesmo
tempo, quanto mais em todos. Para os homens é muito difícil imaginar
isso. O salmista diz:

“Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua


face? Se subo aos céus, ________________; se faço a minha cama no
mais profundo abismo, _____________também; se tomo as asas da al-
vorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar
a tua mão, e a tua destra me susterá” (Sl 139.7-10).

Não existe lugar onde Deus não esteja. Embora desde o tempo
de Adão e Eva, o homem tente fugir da presença de Deus, a verdade é
que sua fuga se torna inútil e absolutamente impossível. Não é possível
fugir de Deus, pois estamos todos de forma imediata na presença dele.
Por imediata queremos dizer que não precisamos de meios para estar na
presença dele. Estamos a todo o momento e em todo lugar imediatamen-
te na presença dele. Mesmo o ímpio no Inferno não pode dizer que está
longe da presença de Deus. Pode estar longe de sua bênção, mas sente
em todos os momentos a presença da ira divina sobre si.
Deus não está somente em todos os lugares ao mesmo tempo,
como está totalmente presente em todos os lugares ao mesmo tempo.
165

Há que se ter o cuidado de não confundir onipresença com panteísmo.


O panteísmo afirma que todas as coisas são como que uma extensão de
Deus, dessa forma, Deus estaria em todos os lugares porque é como se
cada coisa fosse um pedacinho de Deus. Já onipresença significa que
Deus está integralmente presente em cada lugar desse universo. Ele está
presente com seu ser inteiro em cada molécula existente (Jr 23.23-24; At
17.27-28). Assim como a Onisciência, a Onipresença revela-se conforta-
dora para os crentes e ao mesmo tempo aterrorizante para os ímpios. Os
crentes podem se sentir confortados em saber que Deus está sempre com
eles. Em todo e qualquer momento, seja nas águas de descanso, ou no
vale das sombras, a presença do pastor celeste não os abandona. Enquan-
to isso, o ímpio não desfruta de privacidade. Seus crimes, seus pecados,
suas omissões foram testemunhados pelo Senhor. O mais terrível para
eles é que essa testemunha é o próprio Juiz, que um dia julgará todas as
coisas. Não haverá argumentos perante ele.
A terceira virtude divina mais conhecida chama-se Onipotência.
Refere-se à capacidade divina de realizar tudo aquilo que sua vontade de-
terminar. Não significa literalmente que Deus possa fazer qualquer coisa.
A bíblia fala de muitas coisas que Deus não pode fazer. Por exemplo, ele
não pode pecar (Hq 1.13), não pode mentir (Hb 6.18), também não pode
mudar (Tg 1.17), ou negar-se a si mesmo (2Tm 2.13). Onipotência tem
muito a ver com o propósito de Deus. Significa que nada pode impedi-lo
de realizar seus propósitos. Com certeza era isso o que o anjo Gabriel ti-
nha em mente quando disse a Maria: “Para Deus não haverá impossíveis
em todas as suas promessas” (Lc 1.37). Nada pode restringir seu poder a
não ser ele mesmo. Jó entendeu bem essa questão quando disse: “Bem sei
que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2).
Davi escreveu no Salmo 139:

“Os teus olhos me _____________a substância ainda informe, e no teu


livro foram escritos_____________os meus dias, cada um deles escrito e
________________, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16).

Esse é certamente um dos versículos mais maravilhosos e difíceis


de toda a Bíblia. Ele inegavelmente descreve a imensidão do poder de
Deus. Muitos crentes acreditam em predestinação. Na verdade, pratica-
mente todos creem, mesmo os que seguem a tradição arminiana, mas, a
maioria defende uma predestinação com base somente na Onisciência
166

divina. A ideia é que Deus conhece todas as coisas, então, ele sabe quem
aceitará o plano da salvação e quem não aceitará. Baseado nisso ele pre-
destina os que serão salvos e os que serão condenados. No entanto, o
texto não diz que Deus previu os dias do homem, mas que escreveu cada
um desses dias e os determinou antes que acontecessem. Deus não é
apenas Onisciente, ele é também Onipotente. Ele não prevê apenas as
coisas que deverão acontecer, ele determina cada uma delas. Se apenas
previsse, como poderia ter certeza de que aconteceriam? A garantia é a
sua Onipotência. Seu poder é suficiente para conduzir todas as coisas ao
propósito que sua vontade determinou (Sl 115.3). Novamente precisa-
mos dizer que o poder absoluto de Deus é fonte de regozijo para os cren-
tes e de terror para os ímpios. O mesmo poder que Deus usou para criar
o universo e para ressuscitar Jesus, usa para nossa salvação. Além disso,
ele pode mudar a situação mais adversa e reverter o quadro mais trágico.
Seu poder controla tudo o que acontece, fazendo todas as coisas coope-
rarem para o nosso bem (Rm 8.28). Não há uma molécula sequer nesse
universo que seja independente do poder de Deus ou que possa frustrar
seus planos. Não precisamos temer as forças desse mundo, por mais po-
derosas que sejam, pois “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm
8.31). O ímpio enfrentará esse Deus poderoso no dia do grande juízo...

II. Eleitos de Deus

Uma importante e, ao mesmo, difícil doutrina bíblica é a doutri-


na da predestinação. Paulo escreveu aos Efésios:

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem
abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em
Cristo, assim como nos _____________nele antes da _____________do
mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos
_________________para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus
Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1.3-5).

Paulo está louvando a Deus por ter escolhido antes da fundação


do mundo aqueles que serão salvos. Embora para que alguém seja salvo,
precisa demonstrar arrependimento e fé, a Bíblia demonstra que a sal-
vação estava planejada antes da fundação do mundo, e até mesmo quem
seria salvo estava predeterminado para ser salvo.
167

Há muitos textos que demonstram o fato de que Deus nos esco-


lheu antes da fundação do mundo. Por exemplo, 2Tessaloniscenses 2.13
que diz: “Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos
amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a
salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade”. Aqueles que são
salvos foram escolhidos por Deus desde o princípio, ou seja, antes de
Deus começar a criar qualquer coisa. Paulo escreveu na primeira carta
aos Tessaloniscenses:

“Porque Deus não nos _________ para a ira, mas para alcançar a sal-
vação mediante nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.9).

Paulo está dizendo que os crentes não foram destinados para a


ira, mas destinados para a salvação. Em 2Timóteo 1.9, Paulo diz que a
escolha divina não levou em conta qualquer obra que tenhamos feito:

“Nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas
obras, mas conforme a sua própria ______________ e graça que nos foi
dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos”.

Em Romanos 9.11-13, Paulo fala sobre os gêmeos Esaú e Jacó, e


diz que antes que nascessem, seus destinos já estavam determinados:

“E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem


ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à _________, prevale-
cesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais
velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me
aborreci de Esaú”.

Jesus disse que somente seriam salvos aqueles que o Pai havia lhe
dado: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e
eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.44). Ele falou para seus discípulos:

“Não fostes vós que me _______________a mim; pelo contrário, eu


vos ______________a vós outros e vos designei para que vades e deis
fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao
Pai em meu nome, ele vo-lo conceda” (Jo 15.16).
168

Muitos outros textos demonstram que as pessoas que creem ha-


viam sido destinadas para a vida eterna (At 16.46-48), que a fé não é uma
obra nossa, mas um dom (Ef 2.8), que o arrependimento é um dom de
Deus (At 11.17-18, 2Tm 2.24-26), que os salvos têm seu nome escrito no
Livro da Vida desde a fundação do mundo (Ap 13.8; 17.8).
Quando Deus escolhe alguém para ser salvo, ele não está sendo
injusto, porque todos estão perdidos em seus pecados. Se Deus decide
salvar alguns, ele está apenas exaltando sua própria misericórdia (Rm
9.14-18). Ao mesmo tempo em que precisamos entender que, da pers-
pectiva de Deus há pessoas escolhidas e não escolhidas, da perspectiva
humana, todos têm a responsabilidade de se decidirem por Cristo. A
Bíblia diz: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm
10.13). Os perdidos não se perderão porque Deus tira a salvação deles,
mas porque eles não desejam a salvação de Deus.
A Bíblia diz que a eleição se confirma através de uma vida trans-
formada. Paulo escreveu: “Damos, sempre, graças a Deus por todos vós,
mencionando-vos em nossas orações e, sem cessar, recordando-nos,
diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé, da abnegação do
vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cris-
to, reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição” (1Ts 1.2-4).
Paulo disse que ao ver certas evidências de um coração transformado,
podia reconhecer que aqueles crentes eram eleitos de Deus. Somente
quem experimentou a verdadeira transformação de vida pode se dizer
um escolhido (1Ts 1.4; Cl 3.12-13, 2Pe 1.10-11; 2Ts 2.13).

III. Todas as coisas cooperam

Em Romanos 8, encontramos duas declarações impressionantes


do Apóstolo Paulo a respeito das influências que podemos sofrer ou não
das circunstâncias que nos cercam. Paulo estabelece que, uma vez que
estamos em Cristo, e fomos regenerados pelo Espírito, passamos a ser
habitados pelo Espírito Santo, de modo que, por um lado “todas as coisas
vão cooperar para o nosso bem”, e por outra, “nada vai poder realmente
atrapalhar”, pois nada poderá nos separar do amor de Deus. Então, po-
demos resumir dizendo: tudo coopera e nada atrapalha.
De fato, um dos textos bíblicos mais consoladores da Escritura
é Romanos 8.28: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem
daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu
169

propósito”. Todas as coisas contribuem para o bem do povo que ama a


Deus e que tem o seu Espírito. A prosperidade e a adversidade, a felicida-
de e o sofrimento, as intenções maldosas das pessoas contra os crentes, os
acidentes, as doenças, enfim, tudo o que Deus permite que nos aconteça,
ele permite para que, de algum modo misterioso, isso se transforme em
“bem” para nós. Não significa que seremos poupados do sofrimento. Sig-
nifica que todo sofrimento tem um propósito, de modo que nada poderá
nos separar do amor de Deus, nem tribulação, perseguição, fome, nudez,
perigo, espada. E nesta lista Paulo ainda inclui a morte, a vida, os anjos,
os principados, as coisas do presente, do porvir, os poderes, a altura, ou a
profundidade (Rm 8.35-39). Portanto, se estamos em Cristo, os inimigos
não terão poder de nos afastar de Cristo, e as circunstâncias desfavoráveis
jamais significarão derrota, pois não podemos deixar de ser “mais que
vencedores”.
Tudo o que acontece, e o que não acontece, ainda que seja ou pa-
reça mau a princípio, será transformado em bem para aqueles que amam
a Deus. Esta é uma verdade estrondosa da Escritura que nunca devemos
perder de vista. Quando estivermos confusos, quando as coisas parece-
rem estar fora de controle, quando nada fizer sentido, sempre devemos
lembrar que Deus está no controle e fará tudo contribuir para o nosso
bem, ainda que muitas vezes, esse bem seja o “bem final”, aquele que só
desfrutaremos plenamente na eternidade.
Devemos nos alegrar e descansar na Soberania de Deus. Jesus nos
ensinou a orar:

“Faça-se a tua __________, assim na terra com no céu” (Mt 6.10). Jó,
depois de perder a família e os bens, disse: “O Senhor o deu, e o Senhor o
tomou; ___________ seja o nome do Senhor!” (Jó 1.21).

Jamais devemos agir como se fôssemos independentes de Deus.


Tiago escreveu:

“Atendei agora, vós que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos para a cidade
tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos e teremos lucros. Vós _____
sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida ? Sois apenas como ne-
blina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, ________
dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como faremos isto ou aquilo”
(Tg 4.13-15).
170

Ainda que tenhamos dificuldades em entender certas coisas que


nos acontecem, e até mesmo o rumo estranho que o mundo segue, de-
vemos sempre manter a nossa confiança em Deus, e um coração agra-
decido, como Paulo recomenda: “Em tudo dai graças, porque esta é a
vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (1Ts 5.18; Ef 5.20).
Em todos os momentos em que Paulo destaca a soberania de
Deus, ele só tem palavras de louvor e gratidão a Deus. Devemos seguir o
exemplo dele e louvar: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria
como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos,
e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente
do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele
para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para
ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm
11.33-36).

Questionário de revisão

1 - Marque a alternativa que descreve o significado do termo Onis-


ciência:

a) ( ) É a capacidade de Deus estar em todos os lugares ao mesmo


tempo, com seu ser inteiro.
b) ( ) Significa que Deus tem um conhecimento exaustivo (com-
pleto, em detalhes) sobre todas as coisas imagináveis e inimagináveis.
c) ( ) Refere-se à capacidade divina de realizar tudo aquilo que sua
vontade determinar.
d) ( ) Significa dizer que Deus tem a soberania sobre todos os ho-
mens.

2 - Embora Deus seja onipotente, a bíblia destaca algumas coisas que


Deus não pode fazer. Marque a alternativa correta.

a) ( ) Deus não pode pecar, não pode mentir, negar a si mesmo e


não pode julgar os salvos.
b) ( ) Deus não pode pecar, não pode ter sentimento, Deus não
171

pode sofrer, Deus não pode chorar.


c) ( ) Deus não pode pecar, Deus não pode mentir, Deus não pode
negar a si mesmo, Deus não pode ter sentimento.
d) ( ) Deus não pode pecar, Deus não pode mentir, Deus não pode
mudar, e Deus não pode negar a si mesmo.

3 - Por que Deus não está sendo injusto quando escolhe alguém para
a salvação?

a) ( ) Porque todos estão perdidos em seus pecados.


b) ( ) Porque Deus como soberano tem o direito de salvar os que
parecem ter o coração mais quebrantado.
c) ( ) Porque o homem pelo seu livre-arbítrio escolheu Deus para
passar sua eternidade.
d) ( ) Porque a escolha de Deus se deu pelos méritos de cada salvo.

4 - Qual é o modo de confirmar a eleição pessoal?

a) ( ) Através de um grande conhecimento da Bíblia.


b) ( ) Através de uma vida de oração e jejum constante.
c) ( ) Através de uma vida transformada.
d) ( ) Através da fidelidade nos dízimos e ofertas.

Indicação de leituras adicionais

• Eleitos de Deus – R. C. Sproul – Ed. Cultura Cristã, 2002.


• Por quem Cristo Morreu – John Owen – PES, 1986.
• O Sorriso Escondido de Deus – John Piper – Shedd Publicações,
2002.
172

18. ESPERANDO A VINDA DE JESUS

A igreja moderna perdeu o interesse pela vinda de Jesus. Ela não


ocupa mais espaço nas pregações, nos cânticos e nem nas orações. A
razão disso talvez seja porque boa parte das igrejas hoje concentre sua
mensagem na obtenção de bênçãos terrenas. Muitos cristãos trocaram o
céu pela terra e o mundo vindouro pelo mundo atual. Porém, tem que
ser dito que o evento mais esperado pelos cristãos autênticos é a segunda
vinda de Jesus. Naquele dia todas as nossas esperanças se concretizarão.
Naquele dia a suprema justiça de Deus se manifestará nesse mundo, e
ele mostrará ao mundo a diferença entre o justo e o perverso (Ml 3.18).
A Bíblia nos orienta a direcionar toda a expectativa e a razão de nossa
existência para aquele dia fantástico quando Cristo voltar e isto, é claro,
sem esquecer de nossas responsabilidades aqui. É triste que boa parte
dos cristãos viva como se Jesus não fosse voltar. Precisamos redescobrir
o ensino bíblico sobre a volta de Jesus.

I. O fim do mundo

Em Mateus 24, Jesus começou a dar explicações numa ocasião


quando os discípulos lhe mostraram a imponência do templo, e Jesus
disse que ele não duraria muito tempo (Mt 24.1-2). Aquilo espantou os
discípulos que logo viram naquele acontecimento a consumação do sé-
culo, por isso pediram quais seriam os sinais que antecederiam o evento
(Mt 24.3). Jesus disse que primeiramente deveriam estar preparados para
não serem enganados, pois muitos tentariam se fazer passar por Cristo
(Mt 24.4-5). Também lhes falou sobre um tempo de muitas guerras que
sobreviriam ao mundo, mas que seriam apenas o “princípio das dores”
(Mt 24.6-8). Depois falou da perseguição e da Apostasia que afligira os
cristãos (Mt 24.9-13). Eles seriam odiados e martirizados por causa do
nome de Jesus. Aconteceria de cristãos entregarem uns aos outros (v. 10).
Muitos se estribariam em falsas doutrinas (v. 11). A iniquidade aumen-
taria e o amor diminuiria (v. 12). Por isso, a necessidade de perseverança
173

era a maior de todas (v. 13). Ao mesmo tempo, o Evangelho seria pregado
no mundo inteiro, mas parece que não haveria tantas conversões. O texto
fala de testemunho apenas (Mt 24.14).
Em seguida, Jesus falou a respeito da destruição de Jerusalém. As
predições feitas acima se cumpririam (e ainda se cumprirão) ao longo
da história até a segunda vinda de Jesus, porém, também se aplicam em-
brionariamente à destruição de Jerusalém que aconteceu ainda no ano 70
d.C. Precisamos lembrar que Jesus está respondendo a duas perguntas.
Ele está falando sobre a consumação do século e sobre a destruição do
templo. Com relação à destruição do templo, Jesus diz que haveria uma
grande profanação (Mt 24.15). Quando os habitantes de Jerusalém e da
Judéia vissem essa profanação, deveriam fugir para os montes, sem se
preocupar em voltar para pegar alguma coisa (Mt 24.16-18). Provavel-
mente, aquela foi uma referência ao momento quando o General Roma-
no Tito invadiu Jerusalém e profanou o Templo. A referência às grávidas,
ao Inverno e ao Sábado deve ser entendida como em relação à fuga. A
fuga deveria acontecer a toda pressa e uma grávida teria dificuldade de
correr. O mesmo se daria no inverno. E no Sábado, o judeu nem podia
correr (Mt 24.19-20). E todo esse sofrimento foi apenas uma pálida de-
monstração do que vai acontecer na segunda vinda de Jesus.

II. Uma vinda inconfundível

Em seguida, Jesus voltou a falar sobre a consumação final. Ele


diz que haveria um tempo de tribulação ímpar na história, e que aqueles
dias seriam abreviados por causa dos escolhidos, pois, caso contrário,
eles mesmos correriam riscos (Mt 24.21-22). E novamente ele fala sobre
a necessidade de estar atento para não ser enganado. Ele diz:

“Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acre-
diteis; porque surgirão ________ cristos e ________ profetas operando
grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos.
Vede que vo-lo tenho predito” (Mt 24.23-25).

Jesus tinha plena consciência de que os poderes malignos fariam


de tudo para impedir que as pessoas fossem salvas pela manifestação fi-
nal do Reino de Deus. Eles fariam isso falsificando essa manifestação.
À medida que Satanás consegue fisgar alguém com falsos ensinos, essa
174

pessoa está totalmente perdida, e o pior é que acha que está salva. Dessa
forma, não procurará refúgio, pois acha que já está refugiada.
Jesus falou sobre sua vinda inconfundível. Ele disse: “Porque, as-
sim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até no ocidente, assim
há de ser a vinda do Filho do Homem” (Mt 24.27). Jesus não voltaria
de forma particular ou privada. Sua vinda seria totalmente pública, de
forma que todo olho o verá. A expressão “Onde estiver o cadáver, aí se
ajuntarão os abutres” (Mt 24.28), significa simplesmente: o que está pro-
gramado para acontecer certamente acontecerá, assim como, os abutres
certamente se ajuntam onde está o cadáver.

III. A grande tribulação

Os crentes devem estar preparados para enfrentarem a grande


tribulação que acontecerá logo antes da vinda de Jesus. Tribulação re-
presenta um tempo de provação. Jesus disse que os últimos dias seriam
tempos de grande tribulação. Há um sentido em que a tribulação marca
todos os períodos da Igreja, desde que sempre tem havido provações,
perseguições e dificuldades a serem vencidas pelos crentes. Portanto, de
certo modo, a grande tribulação se iniciou com o surgimento da igreja
entre os gentios no primeiro século. Porém, o Senhor parece falar de
uma “grande tribulação” ainda mais específica em Mateus 24.21-22:

“Porque nesse tempo haverá _________ tribulação, como desde o


princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais. Não
tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por
causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados”.

Essa tribulação certamente é especial, pois sua intensidade é su-


perior a todos os outros momentos de tribulação na história. Ao mes-
mo tempo, essa tribulação é abreviada, ou seja, interrompida. O que in-
terrompe essa tribulação? Certamente deve ser a vinda de Cristo para
resgatar seu povo. Paulo diz aos crentes de Tessalônica que não deviam
esperar a vinda de Jesus antes do aparecimento do Anticristo (1Ts 2.1-3).
A tribulação do fim dos tempos existirá por causa da Igreja. Será con-
duzida por Satanás e pelo Anticristo, mas Deus a permitirá para provar
a fé de seus santos. A tribulação será um tempo ímpar de provação, po-
rém, Deus não deixará os crentes desprotegidos. A tribulação não durará
175

muito, pois a vinda do Senhor a abreviará.


A grande tribulação mesclará perseguições aos crentes com der-
ramamento da ira de Deus sobre os ímpios. É evidente que a ira de Deus
não atingirá a Igreja de Cristo, pois o sétimo capítulo do Apocalipse diz
que os servos de Deus são marcados em suas frontes para que a ira de
Deus não caia sobre eles (Ap 7.1-3). O Anticristo arrojará todas as suas
forças contra o povo de Deus e conseguirá levar muitos à morte, enquan-
to outros provavelmente apostatarão da fé para não serem perseguidos.
Quando isso acontecer, devemos nos lembrar das palavras de Jesus:
“aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo” (Mt 24.13).

IV. Sinais dos tempos

Como os discípulos queriam saber quais seriam os sinais da vin-


da de Jesus, ele falou de mais alguns. Primeiramente, sobre coisas que
aconteceriam na natureza. Falou do escurecimento da lua e do sol, e de
abalos cósmicos (Lc 24.29). Não sabemos se essas coisas devem ser en-
tendidas literalmente, porém, ele nos alerta sobre coisas impressionantes
que o antecederiam. Antes de falar sobre o próximo tipo de sinal, Jesus
falou sobre a responsabilidade de estar atento aos sinais. Assim como as
pessoas, ao olhar para a figueira, sabiam por causa dos ramos e das folhas,
dizer que estava próximo o verão, também deveriam saber, à medida que
aqueles sinais se cumprissem, que a volta de Jesus estava muito próxima
(Mt 24.32-33). Isto é o que precisamos fazer hoje. Muitos desses sinais
que Jesus anunciou já se cumpriram, outros estão se cumprindo. Como
ele disse, não devemos nos assustar, mas precisamos estar preparados,
pois sua vinda pode ser a qualquer momento e certamente pegará muitos
de surpresa. Jesus não fixou data, e, portanto, não podemos estabelecer
nenhuma data como mais provável. Devemos estar preparados o tempo
todo.
O outro grupo de sinais que antecederiam sua vinda seriam mo-
rais ou éticos (Mt 24.37-39). Jesus disse que antes de sua Vinda, haveria
um tempo parecido com o tempo de Noé. Os dias que antecederam o
dilúvio foram os piores que já existiram. Deus entregou aquelas pessoas
ao pecado. Elas se tornaram totalmente alienadas de Deus. A única preo-
cupação delas era com as coisas do dia-a-dia, as quais praticavam em
aberta rebelião contra Deus. Veja, por exemplo, os casamentos daquele
tempo (Gn 6.1). Jesus disse que o mesmo tipo de alienação haveria antes
176

de sua vinda. Este talvez seja o sinal mais evidente dos nossos dias. O
secularismo domina inteiramente a vida das pessoas. A maioria não tem
qualquer preocupação com as coisas de Deus, vivendo uma religiosidade
muitas vezes só de aparência, preocupados no fundo, apenas com con-
forto, bem-estar e sucesso. Não há dúvidas de que estamos num tempo
bastante parecido com o dos dias de Noé, ou com os dias de Ló em So-
doma (Lc 17.28-30).

V. Necessidade de vigilância

Em seguida, Jesus citou vários exemplos sobre a necessidade de


vigilância. Ele disse que dois poderão estar juntos no campo, mas um ser
levado por Deus e o outro abandonado (Mt 24.40). Também duas mu-
lheres poderão estar juntas moendo e só uma ser levada (Mt 24.41). Isto
provavelmente seja uma referência ao arrebatamento do povo de Deus
que acontecerá um pouco antes de Deus derramar seus últimos juízos
sobre este mundo. Proximidade física não adiantará nada naquele dia,
é preciso vigilância. Como ninguém sabe que dia o Senhor vem, todos
devem vigiar (Mt 24.42). Um pai de família, como não sabe quando o
ladrão vem, deve vigiar sempre (Mt 24.43).
Em seguida, Jesus contou duas parábolas para ilustrar a neces-
sidade de vigilância. Falou do servo que, pensando que o seu senhor
demoraria, começou a se aproveitar da situação. Quando ele menos ima-
ginasse, o senhor viria e o puniria (Mt 24.45-51). E falou também das
virgens que esperavam o noivo. Cinco delas levaram azeite suficiente
para as lâmpadas e cinco não. As cinco que levaram puderam entrar na
festa das bodas, mas as cinco que não levaram, ficaram de fora (Mt 25.1-
12). E Jesus arremata:

“Vigiai, pois, porque _____ sabeis o dia nem a hora” (Mt 25.13).

Um outro aspecto importante que Jesus enfatizou em relação a


estar preparado para sua vinda, foi a necessidade de administrar res-
ponsavelmente os bens concedidos por ele (Mt 25.14-30). Jesus contou
a parábola dos talentos, falando de um homem que se ausentou do país,
e que distribuiu dinheiro para alguns servos. A um deu cinco talentos, a
outro dois, e a outro um. Jesus enfatiza que cada um ganhou segundo a
sua própria capacidade (v. 15). O que recebeu cinco talentos fez negócios
177

e ganhou mais cinco. O que recebeu dois ganhou mais dois. Mas, o que
recebeu um, com medo de perder o dinheiro, resolveu enterrá-lo. Quan-
do o senhor voltou, cada servo foi apresentar as contas diante do Senhor.
Os dois primeiros receberam elogios do Senhor, pois administraram sa-
biamente o que haviam recebido, fazendo uso dos bens do Senhor. Po-
rém, o que recebeu um talento apenas, entregou o mesmo dinheiro, argu-
mentando que agiu assim porque ficou com medo de perder o dinheiro,
ainda mais sabendo do rigor com que o senhor tratava essas questões de
dinheiro. Jesus chamou aquele servo de mau e negligente (v. 26). Ao me-
nos ele poderia ter posto o dinheiro no banco para que rendesse algum
juro, mas nem isso teve dedicação para fazer. Como consequência perdeu
até aquele talento que recebeu, o qual foi acrescido ao que tinha dez. E
o servo inútil foi lançado fora, nas trevas (v. 30). Do mesmo modo que
as virgens néscias ficaram de fora porque não tinham azeite, esse servo
ficou de fora porque não administrou dignamente o que havia recebido
de Deus. Portanto, um bom modo de esperar a vinda de Jesus é trabalhar-
mos com os dons e talentos que ele nos deu em benefício do seu reino.

VI. O juízo final

Finalmente, em seu sermão profético, Jesus falou sobre o mo-


mento final quando haverá a grande separação dos salvos e dos condena-
dos (Mt 25.31-46). Ele diz que o Filho do Homem virá na sua majestade
acompanhado de todos os anjos e se assentará no trono da glória (v. 31).
Essa é uma imagem bem diferente daquela que os homens se acostu-
maram a ver em Jesus. O humilde carpinteiro de Nazaré voltará envolto
em glória, majestade e autoridade. Todas as nações serão reunidas diante
dele, que passará a fazer separação, como se separa ovelhas de cabritos (v.
32). As ovelhas ficarão à sua direita e os cabritos à esquerda (v. 33). Até
aqui não ficou claro qual o motivo dessa separação, então, em seguida,
Jesus esclarece que as ovelhas são benditas e podem entrar no Reino que
está preparado desde a fundação do mundo (v. 34), porque “tive fome, e
me destes de comer, tive sede, e me destes de beber, era forasteiro, e me
hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso,
e fostes ver-me” (Mt 25.35-36). Naquele momento, as ovelhas aparente-
mente surpresas dirão: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te
demos de comer? Ou com sede e te demos de beber?” (Mt 25.37). Jesus
lhes responde:
178

“Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus
___________ irmãos, a _______ o fizestes” (Lc 25.40).

Os cabritos que estão postados à esquerda recebem a ordem de se


afastar, e só lhes resta a perdição. A razão é porque agiram justamente no
sentido oposto dos primeiros. E Jesus lhes disse: “Então, lhes responderá:
Em verdade vos digo que, sempre que o deixastes de fazer a um destes
mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer” (Lc 25.45). É interessante
que condenação ou salvação dependem daquilo que as pessoas tiverem
feito em relação a Jesus. Ele é a base da salvação. Agir de forma positiva
em relação a ele garante salvação, agir de forma negativa causa conde-
nação. Essas afirmações de Jesus demonstram que não pode existir um
distanciamento entre a fé e a prática. Acima de tudo, Jesus quis demons-
trar a necessidade de vida autêntica. Ele mostrou de forma muito clara
ao longo de seu ministério qual era o tipo de discípulo que o agradava.
Não era aquele que se importava apenas com aparências. Ele queria de-
cisão de vida. Decisão que envolvesse profunda mudança de caráter. Um
discípulo deve se parecer ao máximo com o Mestre.
Jesus garantiu que sua vinda era certa. Sinais poderiam ser visto
antes de sua manifestação. Naquele dia, todas as máscaras cairão. Cada
um será revelado inteiramente como é. Ninguém sabe quando isso acon-
tecerá, pois pode ser a qualquer momento. Por isso, todos os que são
sábios estarão sempre preparados, vigilantes, administrando os bens dei-
xados pelo Senhor, e praticando aquelas coisas que agradam ao Senhor.
Acima de tudo é preciso destacar que a segunda vinda de Jesus
será uma vinda em glória e poder. Quando aqui esteve pela primeira vez,
Jesus foi o humilde carpinteiro que sofreu pelos pecados dos homens,
mas na segunda vinda, como ele próprio disse, retornará “sobre as nu-
vens do céu com poder e muita glória” (Mt 24.30). João anteviu profe-
ticamente essa volta. Uma de suas descrições mais impressionantes está
no capítulo 19 de Apocalipse. Ele diz:

“Vi o céu aberto, e eis um cavalo ________. O seu cavaleiro se chama


Fiel e Verdadeiro e _______ e _________ com justiça. Os seus olhos
são chama de fogo; na sua cabeça, há muitos diademas; tem um nome
escrito que ninguém conhece, senão ele mesmo. Está vestido com um
manto tinto de ________, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; e
seguiam-no os exércitos que há no céu, montando cavalos brancos, com
179

vestiduras de linho finíssimo, branco e puro. Sai da sua boca uma espa-
da afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro
de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus
Todo-Poderoso. Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: REI
DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES” (Ap 19.11-16).

João está descrevendo a vinda vitoriosa do Senhor quando ele


destruirá todos os seus inimigos. Naquele dia as forças do mal serão des-
truídas e o Senhor estabelecerá seu reino eterno. O seu povo será defini-
tivamente livre de todo pecado e de todo mal.

Questionário de revisão

1 - O que significa dizer que a vinda de Jesus será inconfundível?

a) ( ) Significa dizer que a vinda de Jesus será inteiramente secreta,


pois só os salvos o verão.
b) ( ) Significa dizer que a sua vinda será totalmente pública, de
forma que todo olho o verá.
c) ( ) Significa dizer que a sua vinda será parcialmente secreta, pois
primeiro ele arrebatará os escolhidos e depois ele virá para julgar os ím-
pios.
d) ( ) Significa dizer que a sua vinda será repentina e assustadora.

2 - Quanto à grande tribulação, por que será necessário que a igreja


passe por ela?

a) ( ) Para que a igreja possa derrotar Satanás.


b) ( ) Para que Deus possa provar a fé de seus santos.
c) ( ) Para que Deus possa julgar a sua igreja.
d) ( ) Para que Deus possa ter a certeza de quem são os verdadeiros
salvos.

3 - Além da perseverança e vigilância o que mais Jesus disse ser neces-


sário para o grande dia?
180

a) ( ) A necessidade de administrar responsavelmente os bens con-


cedidos por ele.
b) ( ) A necessidade de permanecer fiel à liderança da igreja.
c) ( ) A necessidade de congregar em uma igreja verdadeira.
d) ( ) A necessidade de oração e jejum continuamente.

4 - Como virá o Senhor Jesus em sua segunda vinda?

a) ( ) Virá com a determinação de salvar todos os homens.


b) ( ) Virá trazendo o perdão para todos aqueles que se arrepende-
rem.
c) ( ) Será uma vinda de glória e poder para destruir todos os seus
inimigos.
d) ( ) Virá com toda a humildade e simplicidade da primeira vinda.

Indicação de leituras adicionais

• Razão da Esperança – L. A. Lima – Ed. Cultura Cristã, 2006 –


Cap. 46 – A Segunda Vinda de Jesus.
• Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo – H. M. P. Costa – Ed.
Fiel, 2014 – Cap. 19 – A Segunda Vinda de Jesus Cristo.
• A Bíblia e o Futuro – A. Hoekema – Ed. Cultura Cristã, 2013 –
Cap. 13 – A Natureza da Segunda Vinda.
181

19. COMPARTILHANDO A FÉ

A maioria dos estudos deste livro para cristãos reformados ini-


ciantes procurou estabelecer mais firmemente o que é a verdadeira con-
versão e suas consequências. No nosso entendimento, quem recebeu o
mais precioso de todos os tesouros não pode guardá-lo apenas para si
mesmo. Quem descobriu a salvação e o sentido da vida em Jesus Cristo
terá o imenso desejo de compartilhar esta descoberta com aqueles que
ainda vivem nas trevas. No nosso entendimento isto é algo que aconte-
ce necessariamente. Um cristão que não tem preocupação alguma em
fazer o nome do Senhor conhecido, que não se importa com a salvação
de pessoas perdidas, que vive apenas para si mesmo; está extremamente
equivocado em seu procedimento. É extremamente duvidoso que uma
pessoa assim seja de fato um convertido.
A ideia de Jesus para sua Igreja é que ela fosse um poderoso ins-
trumento para alcançar pessoas perdidas. Quando a Igreja se contenta
em viver apenas “internamente”, cumprindo seus serviços rotineiros, tra-
balhando apenas para manutenção daquilo que já possui, ela se torna
um candeeiro apagado. Mas a Igreja precisa entender que ela tem esta
missão não apenas como “corporação”, mas como indivíduos. Em Mateus
28.18-20, encontramos a solene e desafiadora palavra de Jesus para seus
discípulos:

“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. _______, portanto,


fazei ________________de todas as nações, _______________em nome
do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; _________________a guardar
todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos
os dias até à consumação do século”.

I. Um estilo de vida

O verso 19 começa com a expressão: “Ide, portanto”. A que se


refere este “portanto”? Ao que está declarado no verso 18: “Toda a autori-
182

dade me foi dada no céu e na terra”. Esta certamente é a declaração mais


monumental que encontramos na Palavra de Deus. É a declaração de
que o Cristo ressurreto, o vitorioso sobre a morte e sobre o pecado, ha-
via conquistado autoridade para que o Evangelho fosse proclamado em
todo o mundo debaixo do poder do Espírito Santo e sem impedimentos.
Essa é a declaração do Cristo ressuscitado, investido de poder, coroado
nos céus, tendo recebido soberania universal e sem restrições que en-
coraja os discípulos a levarem adiante a titânica obra de evangelizar o
mundo.
Cristo não chamou apenas algumas pessoas para desempenha-
rem o papel de evangelizar o mundo, Cristo chamou cada crente, e isto
porque ele deseja que o evangelismo seja feito de pessoa em pessoa. É
verdade que muitas pessoas insistem em dizer que a Grande Comissão
foi destinada apenas aos Apóstolos e que não tem mais validade para a
Igreja hoje, entretanto, pensar dessa forma é ser seletivo com respeito à
Palavra de Deus, pois não há evidência alguma na Palavra de que apenas
os Apóstolos deviam proclamar o Evangelho. Todo novo convertido é
chamado a testemunhar de Jesus diante dos homens. Cristo disse: “Por-
que qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se
envergonhará o Filho do Homem, quando vier na sua glória e na do Pai
e dos santos anjos” (Lc 9.26).
Poucos textos são mais conhecidos na Palavra de Deus do que
este da chamada “Grande Comissão”. Poucas palavras são tão usadas,
principalmente em campanhas para despertamento missionário do que
o “ide” do verso 19. Mas, há algo que precisamos entender e que em geral
passa despercebido pela grande maioria dos estudiosos de missões: que
evangelização não é apenas um comissionamento especial, mas é um es-
tilo de vida, justamente por causa da autoridade conquistada por Cristo.
Há apenas um verbo que está no imperativo nos três versos da grande
comissão, é o verbo “fazei discípulos”. Na verdade, este é o verbo mais
importante da seção inteira. O primeiro verbo, o “ide”, curiosamente não
está no imperativo na língua original. O verbo que é traduzido por “ide”
na língua grega está no modo verbal chamado de “particípio”. O particí-
pio descreve uma ação contínua e não necessariamente uma ordem. A
tradução literal deste verbo seria “tendo ido” ou mesmo “indo”. Assim a
frase deveria ser lida: “portanto, indo por todo o mundo, fazei discípu-
los de todas as nações”. Missões não devem ser entendidas apenas como
um comissionamento especial dado a alguns indivíduos que deverão se
183

dirigir a países distantes, mas como um modo de vida de cada cristão ver-
dadeiro que entendeu o Senhorio de Jesus. Jesus quis enfatizar que “onde
estivéssemos” deveríamos fazer discípulos, pois isso foi algo que ele teve
que lutar para conquistar. Ele enfrentou a cruz por causa disso. Ou seja, a
ordem para fazer discípulos se aplica a todo e qualquer lugar onde esteja
um crente. Todo cristão deve sentir sobre si o peso da responsabilidade
de comunicar o Evangelho aos outros, onde quer que esteja. O discípulo
de Cristo deve fazer tudo quanto seja possível, pessoalmente, ou pela ora-
ção, para que outras pessoas venham a conhecer a Cristo. Se uma pessoa
não tem a preocupação de fazer o Evangelho conhecido é porque não
conhece o valor do Evangelho.
“Ir” é um modo de vida. Todo cristão deve estar constantemente
indo e fazendo discípulos. Isso quer dizer que o cristão não deve concen-
trar toda a sua atenção apenas em “vir” a Igreja, mas deve levar a men-
sagem adiante. Também isso nos ensina que a Igreja não deve esperar o
mundo vir até onde ela está, mas ela mesma deve ir ao mundo. Vemos
hoje em dia que muitos homens de Deus desenvolvem um ministério de
espera antes que um ministério de ação. Os pregadores ficam esperando
as pessoas virem à igreja com o fim de evangelizá-las. Cristo não disse
para ficarmos esperando as pessoas virem até nós para que as evangeli-
zássemos, mas tomou como certo que todo crente verdadeiro estaria dis-
posto a ir a todo lugar possível com o fim de fazer discípulos. Aqui está,
portanto, uma característica marcante da igreja: o discipulado.
Com isso não estamos diminuindo a importância da ordem de
Jesus de evangelizar o mundo. Como dissemos a palavra mais forte destes
versículos é “fazei discípulos”, e estes discípulos deveriam ser feitos em
todo o mundo. Inclusive, Cristo declarou que deveria ser a partir de Je-
rusalém, bem como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra
(At 1.8). A igreja deve se preocupar com missões mundiais. Mas, cada
cristão, a nível local também deve se sentir impelido a fazer discípulos.
Nossa responsabilidade é tanto local, quanto mundial. Queremos afirmar
com isso que tanto o missionário que está evangelizando em algum dis-
tante país do Oriente Médio ou da África, quanto um membro comum de
igreja pregando a Palavra a seus vizinhos de condomínio estão igualmen-
te cumprindo à ordem de Jesus da grande comissão, e respeitando seu
senhorio. O fato é que Deus tem chamado uns para uma tarefa e outros
para outra. O que realmente importa é que a tarefa seja cumprida.
184

II. Fazendo discípulos

Cristo ordenou que seus discípulos fizessem discípulos. Mas,


como se faz um discípulo? Já dissemos que a expressão “fazer discípu-
los” é o mandamento central dos versos 19-20. Originalmente, a palavra
“discípulo” combina pelo menos dois significados: crer e aprender. Con-
textualmente, portanto, Cristo quis dizer que aqueles que creem nele le-
vam uma vida de constante obediência e aprendizado. Fazer discípulos
é praticamente o mesmo que fazer alunos. Um aluno é alguém que está
disposto a aprender. E de fato, um discípulo tem muito o que aprender,
pois o Evangelho possui um grande conteúdo. Um pregador do passado
disse: “o Evangelho é notícia e notícia da boa”, é informação com pro-
fundidade. Hoje em dia percebemos que, muitas vezes, a apresentação
do evangelho é algo sem profundidade e sem alicerces bíblicos. Isso, é
claro, é uma consequência da propagação do Evangelho no Brasil, prin-
cipalmente por igrejas pentecostais e neopentecostais, onde a teologia é
desprezada. Em meio às ofertas de prosperidade e soluções para todos
os problemas, o conteúdo profundo e revolucionário do Evangelho tem
sido esquecido ou diluído.
Quando olhamos para a maneira como os discípulos do Se-
nhor pregavam o Evangelho, observamos que eles tinham um grande
conteúdo para passar. Veja, por exemplo, o Sermão de Pedro no dia de
Pentecostes. Veja que senso de entendimento bíblico o Apóstolo Pedro
demonstra ao dizer que as coisas que estavam acontecendo naquele dia
na verdade já estavam profetizadas (At 2.14-21). Também veja com que
sensibilidade Pedro apresenta a Jesus (v. 22). E mesmo estando a pregar
um sermão evangelístico, observe como ele faz menção da soberania de
Deus por um lado, e da responsabilidade humana, por outro, no ver-
so 23: “sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de
Deus, vós o mataste, crucificando-o por mãos de iníquos” (grifos meus).
Em tudo vemos um conteúdo profundo, escriturístico, e também apela-
tivo, conforme nos relatam os versos 37-38:

“Ouvindo eles estas coisas, compungiu-se-lhes o coração e pergun-


taram a Pedro e aos demais apóstolos: Que ________, irmãos? Res-
pondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em
nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o
185

dom do Espírito Santo”.

Podemos perceber claramente que os discípulos não apresenta-


vam a Jesus como “a solução para todos os seus problemas”, nem pediam
para alguém “levantar a mão” para aceitar a Jesus, porém, o anunciavam
como o Salvador crucificado e ressuscitado, poderoso para dar a vida
eterna a todos os que se achegarem a ele com fé e arrependimento.
Entretanto, fazer discípulos não é apenas jogar sobre uma pes-
soa uma grande quantidade de informações e deixá-la abandonada a sua
própria sorte. Um discipulado autêntico requer envolvimento. Discipu-
lador e discipulado devem ser bons amigos, devem ser próximos uns aos
outros. O discipulador precisa se considerar um tutor espiritual daquele
que está sendo discipulado e deve acompanhá-lo até que consiga tam-
bém ser um discipulador. Nos tempos de Jesus havia muitos mestres que
tomavam discípulos para si. Paulo, por exemplo, foi discípulo de Gama-
liel, um grande erudito da época. O relacionamento entre o discípulo e o
mestre era um relacionamento próximo e afetivo. Em algumas ocasiões,
o discípulo chegava até a morar junto com o mestre a fim de ficar o mais
possível ligado a ele. Com os discípulos de Jesus aconteceu exatamen-
te isso. Jesus chamou-os um por um, e por causa disso cada um deles
abandonou suas ocupações, a casa dos pais e passou a acompanhar Jesus
por onde ele andava. Mesmo que isso não venha a acontecer nos nossos
dias, é importante entender que ligação afetiva é fundamental para que
haja um discipulado autêntico. Mesmo neste mundo moderno, podemos
nos tornar mentores espirituais de outras pessoas, mantendo um contato
estreito e um vínculo espiritual.
Discipulado requer companheirismo, dedicação, apego e verda-
deiro amor pelas almas. Todos os cristãos devem buscar fazer discípulos,
pois esta é uma ordem do Senhor Jesus, mas, devemos ter todo o cuidado
para sermos bons mestres. Falando aos presbíteros, Pedro diz:

“Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangi-


mento, mas espontaneamente, _______________quer; nem por sórdida
ganância, mas de boa ___________, nem como dominadores dos que
vos foram confiados, antes tornando-vos _____________do rebanho”
(1Pe 5.2-3).

Embora isso se aplique diretamente ao exercício ministerial do


186

presbítero, certamente é um bom resumo de como deve ser o discipula-


do. Veja que Pedro enfatiza três coisas: ao invés de constrangido, que seja
espontâneo; ao invés de interesse pessoal, desejo real de ajudar; ao invés
de dominador, como um modelo. Principalmente esta última parte deve
ser destacada. Se quisermos que nossos discípulos sejam fiéis a Deus,
precisamos nós mesmos demonstrar esta fidelidade. Não precisaremos
querer dominar a vida dos discípulos, basta que eles vejam em nós o ver-
dadeiro comportamento de um crente fiel. Precisamos ser fiéis, para que
os discípulos também sejam.
O objetivo do discipulado é fazer crentes fiéis ao Senhor, crentes
que estejam dispostos a guardar as coisas ensinadas. Um discípulo deve
ser ensinado a crer em Jesus, bem como a obedecê-lo. Não é um crente
verdadeiro aquele que diz que crê, mas não obedece, pois não há como
receber a Cristo como Salvador sem que também seja Senhor da nossa
vida. Somos chamados a fazer discípulos fiéis. Pessoas que conhecem
profundamente a Cristo e desejam ardentemente obedecê-lo.

III. De todas as nações

Há muitos séculos que a Igreja tem se preocupado com missões


transculturais. Mas, também muitos têm se levantado contra a ideia de
missões, dizendo que elas não são absolutamente necessárias, pois Deus
em sua soberania pode salvar quem ele quiser, independente da colabo-
ração do homem. Outra dúvida que surge é: se de fato devemos levar o
Evangelho para o mundo, como faremos isso num mundo pluralista e
globalizado?
No Antigo Testamento Deus não havia comissionado o seu povo
para “ir” a todas as nações. Ao contrário, as nações deveriam “vir” a Is-
rael para conhecer o Senhor. Por isso Deus plantou Israel naquela pe-
quena faixa de terra que liga três continentes. Podemos dizer que Deus
literalmente plantou Israel no centro do mundo, a fim de que o mundo
passasse por ali e visse a glória de Deus. O Salmista entendeu isso muito
bem quando compôs o seguinte verso: “O Senhor ama as portas de Sião
mais do que as habitações todas de Jacó” (Sl 87.2). Por que Deus ama
as portas de Sião? Porque é por onde os gentios deveriam entrar para
louvarem ao Senhor. Nesse sentido é que Isaías profetizou: “Olhai para
mim, e sede salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e
não há outro” (Is 45.22).
187

A grande diferença entre o Antigo Testamento e o Novo Testa-


mento com relação às nações, é que no Antigo Testamento as nações pre-
cisavam “vir” a Israel para conhecerem a Deus, enquanto que no Novo
Testamento, é o Israel (Igreja), que vai até as nações a fim de que o nome
de Deus se torne conhecido.
Segundo a Bíblia só há um Deus (Ef 4.6), e Jesus disse que só ha-
via um caminho para chegar até esse Deus, e o caminho é ele mesmo (Jo
14.6). Além disso, está escrito:

“E não há __________ em nenhum outro; porque abaixo do céu não


existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que
sejamos salvos” (At 4.12).

De fato, segundo a Palavra de Deus, a famosa expressão popular


“todos os caminhos levam a Deus” está absolutamente errada. Há um só
Deus e um só caminho que leva a esse Deus único, e este caminho é Jesus,
portanto, se alguém quiser ser salvo precisa receber Jesus como Senhor
e Salvador de sua vida. Disso decorre que, se os pagãos morrerem sem
Cristo estarão para sempre condenados. Mas, alguém dirá: “é justo que
sejam condenados aqueles que nada ouviram sobre Jesus?” Mas, é justa-
mente aqui que entra a responsabilidade da Igreja de fazer o Evangelho
conhecido a todas as nações. Sem querer discutir se Deus tem outros
métodos de fazer o Evangelho conhecido, como, por exemplo, através de
anjos, ou de visões, a verdade é que o método comum de Deus é a procla-
mação do Evangelho por parte de seus discípulos. Foi a seus discípulos
que ele mandou “fazer discípulos de todas as nações”.
O mundo precisa de Deus. Seus ídolos para nada servem. Todas
as religiões juntas não têm valor algum. As boas obras não salvarão nin-
guém, porque a salvação não é pelas obras, mas pela graça (Ef 2.8-9).
Portanto, não temos escapatória. Pesa sobre nós a responsabilidade de
evangelizar o mundo. Vivemos num mundo globalizado e pluralista, mas,
precisamos estar preparados para apresentar o único caminho de salva-
ção. A globalização pode até facilitar a obra missionária, pois torna mais
fácil o contato com povos distantes. Já o pluralismo tende a atrapalhar.
Mas, devemos ter a coragem de apresentar Jesus como a única solução
mesmo no meio de uma sociedade que aceita tudo, e não se apega radi-
calmente a nada. Não devemos começar a obra pensando nos resultados.
Os resultados pertencem ao Senhor.
188

IV. Garantia de sucesso

Muito se tem escrito ultimamente sobre como obter sucesso em


missões. Fala-se em métodos, sociologia, marketing, etc., para se obter
frutos no trabalho missionário.
Alguém disse certa vez: “o melhor método de evangelização é ir
e pregar”. Nenhum resultado será alcançado se em primeiro lugar não
nos dispormos a ir e fazer discípulos. Por isso a obediência é o primeiro
grande requisito para que as missões alcancem resultados. O autor aos
Hebreus faz a obediência ser sinônima da fé salvadora ao declarar que
Cristo:

“tornou-se o __________ da salvação eterna para todos os que lhe


obedecem” (Hb 5.9).

Com relação à evangelização, Jesus deu três ordens específicas:


“fazer discípulos”, “batizá-los” e “ensiná-los”. Aqui está toda a importân-
cia do batismo: é questão de obediência ao mandamento de Jesus. Bati-
zar em nome do Pai, Filho e Espírito Santo significa mostrar a quem o
discípulo pertence, e também é uma forma de testemunho público. A
pessoa que se batiza está declarando publicamente que pertence ao Pai,
ao Filho e ao Espírito Santo. Ninguém deve negligenciar o batismo, ou
considerá-lo algo de pouca importância. O batismo tem muita impor-
tância, pois foi Jesus quem ordenou que ele fosse praticado. Quando o
obedecemos, certamente o agradamos, e também podemos com toda
certeza esperar bênçãos. Portanto, batismo faz parte de missões.
Mas, apenas obediência não é suficiente para que a obra missio-
nária tenha resultados satisfatórios. É preciso dependência. Precisamos
entender que a obra não é nossa. Precisamos entender que projetos me-
ramente humanos estão destinados ao fracasso, por melhores, atrativos
e pragmáticos que pareçam. Estamos vivendo a era do marketing. Os
crentes fazem congressos e produzem numerosas obras com o único in-
tuito de discutir a melhor técnica para convencer os incrédulos a aceita-
rem Cristo. Cristo e os Apóstolos nunca usaram marketing, eles prega-
vam a velha e “surrada” mensagem da cruz, “escândalo para os judeus,
loucura para os gentios” (1Co 1.23). O motivo pelo qual se busca tanto
novas técnicas é porque o movimento evangélico perdeu a cruz de Cris-
189

to. A mensagem do Evangelho que se ouve por aí não chama as pessoas


ao arrependimento e à conversão verdadeira, mas apenas tenta atrair as
pessoas como se atrai um freguês para a loja. Promessas de prosperidade
e garantias de uma “super vida espiritual” é o que tem atraído multidões
para as igrejas. Mas, será que estas multidões de fato têm sido atraídas
para Cristo?
No texto da Grande Comissão, Jesus demonstrou claramente qual
é a garantia do sucesso em missões na primeira e na última frase do tex-
to. A primeira é “toda a autoridade me foi dada nos céus e na terra”. E
a última é: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação
do século”. Não tentemos aperfeiçoar pela carne, aquilo que só o Espíri-
to pode realizar. Para termos sucesso na evangelização, seja em missões
transculturais ou evangelizando nosso vizinho, precisamos do poder do
alto, o poder do Espírito Santo. E recebemos a garantia desse poder do
próprio Senhor Jesus. Aquele que tem toda a autoridade tanto no céu
como na terra nos mandou pregar o Evangelho, e nos prometeu que esta-
ria ao nosso lado, não por algum tempo, mas literalmente “todos os dias”.
Seu reinado no céu, e sua presença diária conosco é a garantia de que as
pessoas serão trazidas das trevas para a luz e despertarão de um estado de
morte para a vida.

Questionário de revisão

1 - Compartilhar a fé, muito mais do que um evento, é um estilo de


vida, o que isso significa?

a) ( ) Significa que o cristão deve ter a responsabilidade de fazer


discípulos aonde ele estiver.
b) ( ) Significa que fazer a obra de Deus é uma obrigação do cristão.
c) ( ) Significa que o cristão tem a obrigação de ir a igreja todos os
domingos.
d) ( ) Significa que o cristão tem a obrigação de pregar o Evangelho
a todos que chegam em sua igreja.

2 - Quanto ao discipulado, o que mais está envolvido além de passar


conteúdo bíblico?
190

a) ( ) Envolvimento estritamente eclesiástico.


b) ( ) Envolvimento formal de um professor e aluno.
c) ( ) Envolvimento afetivo de irmãos em Cristo.
d) ( ) Dedicação aos estudos teológicos.

3 - Com relação à evangelização, Jesus deu três ordens específicas,


quais foram?

a) ( ) Obediência aos ensinamentos, amor às almas e fidelidade.


b) ( ) Fazer discípulos, batizá-los e ensiná-los.
c) ( ) Pregar o evangelho, arrependimento e amar ao próximo.
d) ( ) Ser fiel às Escrituras, santificar-se, e amor às almas.

4 - Por que o Batismo é importante na vida do cristão?

a) ( ) Sem o batismo não há salvação.


b) ( ) João Batista ordenou que todos fossem batizados.
c) ( ) Sem batismo não há arrependimento.
d) ( ) Foi Jesus quem ordenou e devemos obedecê-lo.

5 - Qual é a primeira frase dita por Jesus que garante o sucesso das
missões?

a) ( ) “E eis que estou convosco todos os dias até o fim”.


b) ( ) “Toda a autoridade me foi dada nos céus e na terra”.
c) ( ) “Fazei discípulos”.
d) ( ) “Ide, portanto”.

Indicação de leituras adicionais

• Ide e Fazei Discípulos – R. Greenway – Ed. Cultura Cristã, 2001


– Parte 1 – O Mundo Para o Qual Cristo nos Envia.
• Evangelização Teocêntrica – R. B. Kuiper – PES, 2013 – Caps. 6 a
10 (Escopo, Urgência, Motivo, Meta e Agente da Evangelização).
• A Treliça e a Videira – C. Marshall e T. Payne – Ed. Fiel, 2015 –
Cap. 4 – Todo Cristão é um Trabalhador de Videira?
191

Gabarito das questões de múltipla escolha:

Capítulo 1 (1=b 2=a 3=d 4=d 5=a)


Capítulo 2 (1=b 2=c 3=d 4=c 5=b)
Capítulo 3 (1=b 2=c 3=d 4=c)
Capítulo 4 (1=a 2=b 3=c 4=b 5=a)
Capítulo 5 (1=a 2=a 3=c 4=d 5=c)
Capítulo 6 (1=d 2=a 3=b 4=d 5=a)
Capítulo 7 (1=b 2=a 3=b 4=a 5=c)
Capítulo 8 (1=d 2=a 3=a 4=b 5=c)
Capítulo 9 (1=d 2=a 3=c 4=b 5=c)
Capítulo 10 (1=c 2=c 3=d 4=a 5=d)
Capítulo 11 (1=c 2=a 3=d 4=d 5=c)
Capítulo 12 (1=c 2=a 3=d 4=a 5=d)
Capítulo 13 (1=a 2=d 3=a 4=d 5=c)
Capítulo 14 (1=c 2=a 3=d 4=d)
Capítulo 15 (1=a 2=d 3=a 4=a 5=d)
Capítulo 16 (1=a 2=b 3=c 4=d 5=a)
Capítulo 17 (1=b 2=d 3=a 4=c)
Capítulo 18 (1=b 2=b 3=a 4=c)
Capítulo 19 (1=a 2=c 3=b 4=d 5=b)