OS REQUISITOS ELEMENTARES DA LIMINAR DA TUTELA CAUTELAR, TUTELA ANTECIPADA E NO MANDADO DE SEGURANÇA E AS SUAS DIFERENÇAS

Gilberto Ferreira Marchetti Filho1

RESUMO.

Os requisitos elementares da liminar da tutela cautelar, tutela antecipada e no mandado de segurança e as suas diferenças. Cada liminar tem seus requisitos específicos. E, segundo a grande maioria dos doutrinadores, os necessários para a tutela cautelar não se confundem com aqueles necessários à tutela antecipada e ao mandado de segurança. Cada qual tem seu significado, inconfundível com o de outra liminar.

PALAVRAS-CHAVE.

Liminar. Requisitos. Tutela cautelar. Tutela antecipada. Mandado de segurança.

INTRODUÇÃO

É comum visualizar nas petições que adentram aos serviços de protocolos das comarcas brasileiras petições iniciais, com pleito de tutela antecipada, demonstrando requisitos legais diversos dos necessários para sua concessão. O mesmo ocorre com nos pedidos de liminares do mandado de segurança. Portanto, necessário se faz algumas considerações sobre o tema, com o fim de aclarar sobre quais são os requisitos de cada uma dessas liminares, e quais as suas diferenças.

1

DOS REQUISITOS DA LIMINAR NA TUTELA JURISDICIONAL CAUTELAR

Noções Gerais ______________
Bacharel em Direito pelo Centro Universitário da Grande Dourados – UNIGRAN. Assessor Jurídico da 6ª Vara Cível da Comarca de Dourados – MS. Professor de Direito Civil no Centro Universitário da Grande Dourados – UNIGRAN e na Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD. Pós-graduando lato sensu em Direito Civil pelo Centro Universitário da Grande Dourados – UNIGRAN.
1

Nápoles. via de regra. Rio de Janeiro: Forense. lecionada Alexandre Freitas Câmara que “o processo cautelar não é capaz de satisfazer o direito substancial. em razão do periculum in mora. ed. quando tratar-se de título executivo judicial. Exposição de motivos do Código de Processo Civil. necessário se faz a presença de certos requisitos 6. Nesse sentido. n. 37. ed. p. o fumus boni iuris. Humberto. 6 Expressão utilizada por Humberto Theodoro Júnior in Curso de Direito Civil. 7 Termo utilizado por Ernani Fidélis dos Santos in Manual de Direito Processual Civil. e por Alexandre Freitas Câmara in Lições de Direito Processual Civil. a saber: I – Um dano potencial. Alfredo. 4 BUZAID. 3 Ibidem.Ao lado dos processos de conhecimento e execução. ou pressupostos 7. 1972. Enquanto aqueles visam a satisfação da prestação jurisdicional. 1958. Diritto e processo. Na verdade. Rio de Janeiro: Lúmen Júris. v. p. 350. Grifo no original. no qual analisar-se-á o próprio direito material. p. 2. a cautelar acaba por assumir uma posição “preventiva” 4. Rio de Janeiro: Forense. Apud THEODORO JÚNIOR. mesmo quando alcança seu desfecho normal (o que ocorre quando é prolatada a sentença cautelar. e por Alcidez Munhoz da Cunha in Comentários ao Código de Processo Civil. 3. p. E neste ponto é que se pretende diferenciar tais requisitos em relação aos indispensáveis para a concessão da antecipação dos efeitos da tutela e da liminar no mandado de segurança. Curso de Direito Processual Civil: processo de execução e processo cautelar. 360. ed. p.” 2 Tanto ocorre porque “o processo cautelar tem por fim garantir a efetividade de outro processo. Humberto. v. chamado de processo principal. Lições de Direito Processual Civil. 6. este transmutado para fase de cumprimento de sentença pela Lei 11. Alexandre Freitas. Fumus boni iuris ______________ CÂMARA. “auxiliar e subsidiária” 5 em relação a outro processo.232/2005. 8 THEODORO JÚNIOR. um risco que corre o processo principal de não ser útil ao interesse demonstrado pela parte. 2004. 2005. ou seja. 353. ao qual o mesmo se liga necessariamente” 3. o processo cautelar. 5 CARNELUTTI. Curso de Direito Processual Civil: processo de execução e processo cautelar. não é suficiente a satisfazer o direito material invocado. v. Para alcançar-se uma providência de natureza cautelar. tem-se um segundo gênero de processos: o Processo Cautelar. 2005. Francesco. 2 . 11. 2. concedendose a tutela jurisdicional satisfativa. II – A plausibilidade do direito substancial invocado por quem pretenda segurança. com a posterior efetivação do comando nela contido). 8 Sem esses requisitos não defere a liminar da cautelar. 37. 2. 3. risco esse que deve ser objetivamente apurável.

o fogo. [. Para merecer a tutela cautelar. 405. apenas fumegando. cit. nem sempre a presença de um fumus boni iuris significa a presença do direito.ed. geralmente produz a fumaça. 2004. Tratado das Medidas Cautelares: teoria geral do processo cautelar. cit.Sem adentrar na controvérsia de o fumus boni iuris pertencer ao mérito cautelar ou não. 13 Tanto pode ser extraído do significado da própria expressão “fumus boni iuris”. Este pode estar apagado. o direito ao processo de mérito. 360. que ______________ 9 10 14 SIDOU. como resíduo da combustão. Belo Horizonte : Del Rey. 2000. Othon (org. portanto. em tradução ao pé da letra “fumaça de bom direito” 9. p. p. do que aquele suscetível de vir a consubstanciar-se em futura decisão favorável ao pleiteante da cautelar. ou seja. não é preciso demonstrar-se cabalmente a existência do direito material em risco. v. 2. freqüentemente. Op. porquanto este não é o tema abordado. Luiz. leciona Luiz Orione Neto: A decisão cautelar não se baseia na certeza senão na aparência da pretensão alegada. tem-se que este é o primeiro requisito ou pressuposto da liminar cautelar. 2001. 13 ORIONE NETO. Se existe ou não. tomo 1. tomo I. A expressão “fumus boni iuris” significa. 453. Washington dos. “isto é. v. p. p. E essa regra elementar da natureza também se aplica ao direito. se extinguindo. isto é objeto da ação principal. Ou seja. Com efeito. mas a mera possibilidade da existência deste. no sentido de que basta a plausibilidade da existência do direito invocado. 3.] O direito de que se cuida nada mais é. . 9. a ser apreciada mediante cognição sumária de seus pressupostos de fato e de direito. Mas nem sempre a fumaça significa a existência de fogo. M. ORIONE NETO. que será garantida pela cautelar. Para evitar que o próprio fumus boni iuris transmute-se numa fonte de periculum in mora . 282. Dicionário jurídico. “hoje representa uma simples presunção de legalidade e a possibilidade de um direito” 11. 11 SANTOS. plausibilidade ou probabilidade de um direito” 10. Segundo Humberto Theodoro Júnior: Para a ação cautelar. o direito em risco há de revelar-se apenas como o interesse que justifica o “direito de ação”. Consoante é ressabido. III. v. São Paulo: Lejus. é litigioso e só terá sua comprovação e declaração no processo principal. p. Op. 12 No mesmo sentido. mesmo porque esse.). Rio de Janeiro: Forense Universitária. Dicionário jurídico brasileiro.. 12 THEODORO JÚNIOR. Luiz. ou em brasa. J.. Humberto. 454-455. chamado de periculim in mora inverso 15 é necessário um início de prova escrita.

“diz-se da contingência evidente de agravar-se. 470-471. nada mais é do que o próprio fumus boni iuris 16. Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Sem este início de prova. 361. M. v. “o periculum in mora é o interesse específico que justifica a emanação de qualquer medida cautelar” 21. tomo I. desvio deterioração. cit. v. ou seja.). 21 Ibidem. enquanto aguarda a tutela definitiva. destruição. Washington dos. José Frederico. ser-lheá negada sua pretensão cautelar. significa “risco de decisão tardia” ou “perigo em razão da demora” 17 . no entender de Orione. v. Como dito. basta tão-somente que o autor cautelar apresente provas iniciais que justifiquem sua causa de pedir remota. v. 20 ORIONE NETO. 14 MARQUES. p. Na lição de Humberto Theodoro Júnior: Para obtenção da tutela cautelar. 15 Essa modalidade ocorre quando há a possibilidade da concessão da medida liminar causar. 3. p. Na cautelar. no curso do processo. cit. Não uma prova robusta. como se verá adiante. que comprove cabalmente o direito pleiteado. cit. 436. se esta existisse. 18 SIDOU. 19 THEODORO JÚNIOR. E isto pode ocorrer quando haja o risco de perecimento. traduzindo-se. Humberto. Instituições de Direito Processual Civil. Luiz. ou de qualquer mutação das pessoas. 17 SANTOS. Op. não seria necessária a tutela cautelar. o processo cautelar visa garantir resultado útil do processo principal. 5. acrescida a outros requisitos. p. tomo 1. a lesão de direito cuja reparação por via judicial se postula” 18. Assim. Luiz. por seus resultados em si. 3. danos graves ou irreparáveis à parte contrária. Mesmo porque. J. cit. p. cit. Periculum in mora Outro requisito essencial para a concessão da liminar cautelar é a demonstração do “periculum in mora”. pela prestação jurisdicional tardia 20. que. a parte deverá demonstrar fundado temor de que.comprove aquela possibilidade. p. venham a faltar as circunstâncias de fato favoráveis à própria tutela. Op. . 311. p. Othon (org. Nisto justifica-se a necessidade de prevenir um perigo de dano que possa ameaçar a efetividade da sentença no processo principal. Op. com esta. tem-se a possibilidade da concessão antecipada da própria tutela jurisdicional. porquanto. 19 Correto é o entendimento do Desembargador aposentado do E. bens ou provas necessários para a perfeita e eficaz atuação do provimento final do processo principal. 643. 472. Campinas: Millenium. 2000. Op. 2. Op. p. 16 ORIONE NETO. 447-452. que.

. Orione Neto ensina: que “o dano que deve ser evitado através de uma medida de urgência é o dano iminente. 27 Ibidem. Luiz. i. quer de medidas cautelares. 3. Nessa senda. sua demonstração exsurge inafastável. Ibidem. ou seja. cit. o dano deve ser próximo ou iminente. 466-470. 361. v. p. 25 Ibidem. Nos termos do artigo 798. o pressuposto sine qua non do processo cautelar. capazes de realizar o efeito temido.” 26 Além de ser fundado. situações estas subjetivas. deve ser. isto é. sem dúvida alguma.e. Quer se trate. O receio é fundado quanto não decorre de simples estado de espírito do requerente. Em outro falar. “o receio de dano há.De acordo com Luiz Orione Neto: O periculum in mora constitui. aquele que se refere a um prejuízo imediato que pode verificar-se de um momento para o outro e que provavelmente se consumará antes da decisão final. pois. venha a lhe acarretar excessivo gravame e prejuízo. de tutela cautelar nominada ou inominada. ante a lesão iminente ou assaz provável ao seu alegado e suposto direito. demonstrável através de algum fato concreto” 25. que ser fundado (art. 362. não há que se falar em prejuízo ao processo principal. do Código de Processo Civil. Na verdade. o requisito necessário e indispensável à concessão – quer de liminares cautelares. 2. Humberto. b) relacionado a um dano ‘próximo’. antes da prestação jurisdicional neste. p. por assim dizer. o dano. É. . cit. p. o perigo “deve ser: a) ‘fundado’. mesmo porque as duas idéias se ______________ 22 23 Idem. temor ou dúvida pessoal. 482. 24 THEODORO JÚNIOR. e c) que seja ‘grave’ e de ‘difícil reparação’”24. o dano provavelmente ocorrerá durante o curso do processo principal. “se liga a uma situação objetiva. v. Grifo no original. 22 De fato. de sua mera imaginação. deve ser analisado objetivamente. tomo 1. sendo imprescindível que o requerente da medida cautelar comprove que o perigo de retardo.” 27 Por fim. p. “a um só tempo grave e de difícil reparação. Op. 26 ORIONE NETO. Op. além de iminente. falta ao processo cautelar carecedor de periculum in mora causa de pedir próxima. Portanto. calculado pelo exame das causas já postas em existência. 362. pois. no magistério de Humberto Theodoro Júnior. p. segundo o sobredito autor 23. 798). se inexiste a iminência de dano.

para se ter o perigo fundamentador de qualquer tutela cautelar. da Processual Civil especifica que o dano de causar “ao direito da outra lesão grave e de difícil reparação” 29 . do Código de Processo Civil. com a finalidade de conceder ao autor. que alterou o art.. Tratado das Liminares. como dantes citado.. 136. Orione. é imprescindível que ele detenha essas três características. De efeito. In casu. pois não se limita a conservar ______________ 28 29 THEODORO JÚNIOR. Na verdade. Grifo nosso. Luiz. por meio do qual o juiz provê a respeito da urgência ou da evidência da satisfação da pretensão processual principal. Op. 2000. não há que se falar em liminar no processo cautelar. . ou pelo menos de difícil reparação” 28. antecipando um ou mais efeitos da decisão final. que se efetiva mediante execução “lato sensu”. 362. E. 1. de forma antecipada ao juízo definitivo. Grifo no original.interpretam e se completam. São Paulo: Lejus.] consiste num provimento (decisão) de urgência ou de evidência. dando sentido de adição da expressão anterior (“lesão grave”) com a posterior (“de difícil reparação”). [. Como no escólio de Luiz Orione Neto: Tutela antecipatória dos efeitos da sentença de mérito é providência que tem natureza jurídica mandamental. cit. posto que para ter-se como realmente grave um lesão jurídica é preciso que seja irreparável sua conseqüência. Humberto. o artigo 798. 2. passa-se ao estudo e diferenciação daquele instituto com o da antecipação da tutela. instituído no Direito Processual Brasileiro na reforma de 1994. os efeitos da tutela pretendida no pedido inicial. v. “o exercício do próprio direito afirmado pelo autor”. Destaque-se que. p. “predomina o entendimento de que não se trata de cautelar. 273. total ou parcialmente. 2 DOS REQUISITOS DA TUTELA ANTECIPADA Considerações Gerais Feitas essas considerações sobre a tutela cautelar. Do contrário. que é a mais comum e simples das medidas liminares. Com a técnica da antecipação da tutela jurisdicional busca-se outorgar. 30 A doutrina diverge sobre a natureza da providência consistente em antecipar efeitos da tutela. numa interpretação gramatical dessa fração do dispositivo. p. o entendimento não poderia ser diferente. entende que é de natureza mandamental. tem-se que o termo “e” refere-se a uma conjunção aditiva. v. 30 ORIONE NETO.

35 ORIONE NETO. ante a segurança jurídica mínima. um julgamento de acolhida do pedido formulado pelo autor (mérito). cit. Luiz. da simples leitura do texto legal. I. v. é ato extremo. desde que. Trata-se de fenômeno próprio do processo de conhecimento” 32. p. é necessário entender dois dos principais requisitos para a concessão da tutela antecipada. se o litígio. 791. desde logo. 34 CÂMARA. é indispensável a presença 35. 87. mas implica antecipação do próprio resultado” 31. prestada com base em juízo de probabilidade. A prova inequívoca e a verossimilhança da alegação O primeiro requisito de destaque da tutela antecipada é a prova inequívoca. v. devesse ser julgado naquele instante. a requerimento da parte. antecipar. p. Em outro falar. pois. fazendose necessário que haja uma situação capaz de gerar fundado receio de dano grave. É relevante a presença da “prova inequívoca” e da “verossimilhança da alegação”. Não a elide da possibilidade. O juiz poderá. de que contraprova futura possa eventualmente ______________ 31 MARCATO. 33 Portanto. 273. p. v. presentes no artigo 273.situações para assegurar a efetividade do resultado final. não é suficiente o receio de dano irreparável ou de difícil reparação (periculum in mora) para se ter a tutela antecipada. E isso a difere da tutela cautelar. “a tutela antecipada é uma forma de tutela jurisdicional satisfativa (e. Alexandre Freitas. p. De acordo com Humberto Theodoro: Por prova inequívoca deve entender-se a que. São Paulo: Atlas. Código de Processo Civil Interpretado. Op. cit. 1. se convença da verossimilhança da alegação: I – haja fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação. não-cautelar). 32 CÂMARA. Também “não basta estar presente a probabilidade de existência do direito alegado. por sua clareza e precisão. 2004. . Porém. Antonio Carlos (coord). de difícil reparação ou impossível reparação” 34 . 1. 211. os efeitos da tutela pretendida no pedido inicial. existindo prova inequívoca. 88. Op. Alexandre Freitas. também hipotética. 33 Grifo nosso. Op. ou II – fique caracterizado o abuso de direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório do réu. autorizaria. cit. como se verá. total ou parcialmente. por ser a antecipação dos efeitos da sentença em sede de liminar. de suma gravidade e. hipoteticamente. in verbis: Art. portanto. antes.

pesando mais as negativas. ou a verossimilhança. p. Luiz. portador de maior segurança do que a mera verossimilhança. em si mesma. Para Antonio Carlos Marcato: Afirmação verossímil versa sobre fato com aparência de verdadeiro. Probabilidade é a situação decorrente da preponderância dos motivos convergentes à aceitação de determinada proposição. v.. cit. ______________ 36 37 THEODORO JÚNIOR. 796. 335. o fato é provável. 273 do Código de Processo Civil (prova inequívoca e convencer-se da verossimilhança). cit. A rigor. 273. ele é improvável (Malatesta). 39 DINAMARCO. No momento. 212. As afirmativas pesando mais sobre o espírito da pessoa. é menos que a certeza. 1996. Grifo no original. do CPC. já que prova inequívoca é aquela que infunde no espírito do juiz o sentido de certeza e não verossimilhança. O juízo de verossimilhança sobre a existência do direito do autor tem como parâmetro legal a prova inequívoca dos fatos que o fundamentam. porque lá os motivos divergentes não ficam afastados mas somente suplantados.] A existência de prova inequívoca significa que a mera aparência não basta e que a verossimilhança exigida é mais do que o fumus boni juris exigido para a tutela cautelar. Antonio Carlos (coord). prova alguma será inequívoca. p. conceituada. adotada no caput do art. Op. ou confirma a verossimilhança da alegação é muito mais do que o simples fumus boni iuris. a prova inequívoca fundamenta a verossimilhança da alegação. 212-213. 1. ed. também não ousa negar. 145. São Paulo: Malheiros. chega-se ao conceito de probabilidade. A probabilidade. I.. Op. da concessão da medida provisória. 38 ORIONE NETO. pela qual na mente do observador os motivos convergentes e os divergentes comparecem em situação de equivalência e. Humberto. a prova inequívoca que conduz. 3. Resulta do exame da matéria fática. 1. a prova disponível não deve ensejar dúvidas na convicção do julgador. p. Com efeito. se o espírito não se anima a afirmar. Cândido Rangel. cuja veracidade mostra-se provável ao julgador. e é mais que a credibilidade. p.desmerecê-la. [. Grifo no original. 36 E. A reforma do Código de Processo Civil. cit. v. MARCATO. 39 Importante a parte final da lição do citado jurista. v. Op. no sentido de absolutamente incontestável. Luiz. cit. Op. causou certa perplexidade. porém. . suficiente para a concessão da tutela cautelar. sobre os motivos divergentes. p. assim. a princípio. Apud ORIONE NETO. 37 Segundo Orione Neto: A locução prova inequívoca. 38 Mas Cândido Rangel Dinamarco concilia essa contradição ao esclarecer que: Aproximadas as duas locuções formalmente contraditórias contidas no art.

todavia as distingue. assegurar o resultado útil do processo de conhecimento. portanto. aparentemente paradoxal. é que a tutela cautelar apenas assegura uma pretensão. na tutela antecipada é imprescindível a presença da prova inequívoca (mais do que apenas o início de prova) da verossimilhança do ______________ 40 41 MARCATO. . visa a chamar a atenção para a necessidade de forte probabilidade de que os fatos sejam verdadeiros e o requerente tenha razão. cit.] A exigência de prova inequívoca da verossimilhança. I. Portanto. demonstrável com um início de prova. repisa-se que. percebe-se que a tutela cautelar difere da tutela antecipada em vários aspectos.Como lecionada Antonio Carlos Marcato: Prova inequívoca da verossimilhança implicaria. Já a tutela antecipatória. Humberto. em substância. ao contrário. que. “ele está mais próximo ao conceito de direito líquido e certo do mandado de segurança. dada a própria natureza típica da cautelar. Consoante ensinamento clarividente de Humberto Theodoro Júnior: Tanto a medida cautelar propriamente dita (objeto de ação cautelar) como a medida antecipatória (objeto de liminar na própria ação principal) representam providências. de natureza emergencial. adotadas em caráter provisório. 798 para a cautelar. p. proteger. p. Luiz. 796. 359. a garantir. quase certa do direito questionado. do que ao fumus boni juris da tutela cautelar” 41. executiva e sumárias. qual seja. pode não representar a presença do fogo (direito). A tutela antecipada e a tutela cautelar Por tudo até aqui dito. Demais disso. Op. v. enquanto a tutela antecipatória realiza de imediato a pretensão. 2. em sede de liminar. v. Op. concedendo de imediato a pretensão. cit. Antonio Carlos (coord). mas inferior à cognição plena e exauriente que antecede a tutela definitiva [. Grifo no original. cit.. como dantes dito. se dá na própria ação de conhecimento. e não simplesmente a sua fumaça. tratada anteriormente. 213. Op. enquanto na tutela cautelar. basta a presença do fumus boni iuris. no qual se discutirá o direito material. O que. mas que basta para o deferimento da liminar cautelar. p. ORIONE NETO.. 42 E tanto é obvio. juízo cognitivo mais profundo do que o exigido no art. 42 THEODORO JÚNIOR. 40 A bem da verdade é que a tutela antecipada exige a presença firme.

3 DA LIMINAR NO MANDADO DE SEGURANÇA Noções Gerais Outra espécie de liminar que causa grande confusão com a medida cautelar é aquela concedida no mandado de segurança. se a sua existência for duvidosa. Hely Lopes Meirelles define mandamus como sendo: Meio constitucional posto à disposição de toda pessoa física ou jurídica. órgão com capacidade processual. devendo o julgador declarar o autor ______________ 43 44 MEIRELLES. Por outras palavras. Hely Lopes. 36-37. líquido e certo. se o seu exercício depender de situações e fatos ainda indeterminados. Logo. seja de que categoria for e sejam quais forem as funções que exerça. se a sua extensão ainda não estiver delimitada. assemelhando-se a quase certeza de que o direito alegado pelo autor será procedente no julgamento final. Para Hely Lopes Meirelles: Direito líquido e certo é o que se apresenta manifesto na sua existência. p. Ibidem. para ser amparável em sede de writ.533/51 e 4345/64. trata-se de ação civil de natureza constitucional de rito sumário especial. 2005. inciso LXIX. São Paulo: Malheiros.direito alegado. o direito invocado. 28. para a proteção de direito individual ou coletivo. ou universalidade reconhecida por lei. lesado ou ameaçado de lesão. 44 Luiz Alberto David Araújo e Vidal Serrano Nunes Júnior acrescentam: Direito líquido e certo indica exclusivamente a necessidade de a ação estar amparada em provas documentais. Mandado de Segurança. p. a ação torna-se inviável. embora possa ser defendido por outros meios judiciais. 21-22. Constatando-se a necessidade de produção probatória de natureza diversa. e encontra-se regulada pelas Leis 1. . delimitado na sua extensão e apto a ser exercido no momento da impetração. ed. não rende ensejo à segurança. Como dito. há de vir expresso em norma legal e trazer em si todos os requisitos e condições de sua aplicação ao impetrante. o direito deve ser líquido e certo. para ser amparável por mandado de segurança. não aparado por habeas corpus ou habeas data. da Constituição Federal. 43 Essa actio está prevista como garantia no artigo 5º. por ato de autoridade.

Arruda. se vier a ser reconhecido na decisão de mérito. II – que se suspenda o ato que deu motivo ao pedido quando for relevante o fundamento e do ato impugnado puder resultar a ineficácia da medida. a relevância dos motivos em que se assenta o pedido na inicial e a possibilidade da ocorrência de lesão irreparável ao direito do impetrante. “não é difícil constatar que a quase unanimidade da doutrina nacional considera que a natureza jurídica da liminar concedida em mandado de segurança é cautelar” 46. sobre os requisitos da liminar no mandado de segurança. sendo este. 2. São Paulo: Saraiva.. 47 Logo. cit. ou seja. Grifo no original.carecedor da ação. 1990. isto é. Luiz Alberto David. Ao despachar a inicial. Relevância de fundamento do pedido O primeiro requisito para a concessão da liminar é a relevância de fundamento. E. p. p. com o fundamento jurídico.]. leciona: Para a concessão da liminar devem concorrer os dois requisitos legais. 47 Ibidem. E. embora haja casos em que esta torna-se satisfativa. sem dúvida. é perfeitamente possível a concessão da liminar em sede de mandamus.ed. ou seja.533 que: Art. por falta de interesse de agir.. e NUNES JÚNIOR. 9. p. passa-se à análise da liminar no mandado de segurança. Orione Neto. Op. ______________ 45 ARAÚJO. Manual de Direito Processual Civil. o juiz ordenará: I – [. os fatos e suas conseqüências” 48. na modalidade inadequação da via processual. 08. 46 ORIONE NETO. caso seja deferida. II. São Paulo: RT. não há que se falar em liminar no mandado de segurança. 263. ed. Dispõe o artigo 7º. 3. v. Curso de Direito Constitucional. 07. da Lei 1. Vidal Serrano. Portanto. 45 Feitas tais considerações essenciais. 180. p. 48 ALVIM. 7º. Arruda Alvim leciona que “o autor deve demonstrar que os fatos descritos levam necessariamente à conclusão ou conclusões pedidas. . sem esses dois requisitos. 2005. Luiz. de caráter jurídico. à relação de causa e efeito (no plano lógico e volitivo do autor) entre os fatos jurídicos e o pedido.

Mandado de Segurança. o fundamento plausível. como feição de comportar um possível amparo (ainda que não se confirme.Segundo Orione Neto. a final. Grifo no original. a cabo de análise mais acurada). Essa correspondência carece de procedência. in verbis: Muitos autores equiparam o relevante fundamento da segurança ao fumus boni júris da tutela cautelar. Op. através de prova documental preconstituída (sic). 18. 50 49 . v. Nesse sentido. o que não ocorre. Com efeito. Luiz. 2004. 273 do CPC. Fundamento relevante é. em regra. “a relevância que qualifica o fundamento. estando mais próximo dos requisitos exigidos para a antecipação da tutela (prova inequívoca e verossimilhança das alegações). p. menoscabável. 2. nem se equipara ao fumus boni iuris da tutela cautelar. É que a apresentação judicial do pedido de liminar em mandado de segurança se faz mediante prova pré-constituída. em tema de relevância de fundamento. Op. Celso Antônio Bandeira de Mello acrescenta: A lei não demanda. Se o fundamento colacionado tem vezos de juridicidade. o mandado de segurança – garantia constitucional – seria a mais rúptil e quebradiça das garantias. 51 ORIONE NETO. 2. que este não se confunde. o direito líquido e certo é. p. um plus em relação ao fumus boni júris. v. absolutamente inútil para cumprir o préstimo a que veio. passível de ser acolhido em sede de sentença. 50 Adite-se ainda. Mandado de segurança contra denegação ou concessão de liminar. Luiz. nem podia fazê-lo. cit. ______________ ORIONE NETO. Apud ORIONE NETO. Luiz Orione Neto. sendo. MELLO. sem dúvida. p. 16. que não se trate de alegação de somenos. que o impetrante tenha razão. que satisfaz com a mera aparência do bom direito. que são os requisitos exigidos para a concessão da tutela antecipatória do art. Niterói: Impetus. Se não fora para ser entendido desse modo. portanto. que vem amparada em textos legais” 49. apresenta-se como importante. no mandado de segurança a exigência para a obtenção da liminar é bem maior. p. cit. na tutela cautelar. pois representa um plus em relação a este. na medida em que o impetrante deve ter direito líquido e certo. Mauro Luís Rocha. Op. cit. portanto. comprovado de plano. v. 52 Logo. é aquela que sinaliza com a provável procedência da ação. In: RDP 92/58. Vale dizer. é evidente que estará presente o primeiro requisito. Celso Antonio Bandeira de. Nesse contexto a relevância dos fundamentos do pedido está mais próximo da idéia de “prova inequívoca” e “verossimilhança de alegação”. Em suma. Luiz. enquanto na tutela cautelar o magistrado se contenta com a aparência do direito. 16-17. não há que se confundir tal requisito com o fumus boni iuris. II. 74. 51 Essa mesma linha de raciocínio é comungada por Mauro Luís Rocha Lopes: A relevância do fundamento não se confunde com o fumus boni iuris. Demanda apenas que o fundamento seja relevante. equivocado entendimento ao contrário. de parca verossimilhança jurídica. 52 LOPES.

Ineficácia da medida Outro requisito da liminar do mandado de segurança. assim. Por isso. II. Nela. se inexistir a possibilidade da medida não se tornar ineficaz. o segundo requisito legal à concessão de liminar em mandado de segurança nada mais é do que o tradicional periculum in mora. 74. que somente ocorre no processo principal. após a oitiva da parte contrária e do Ministério Público. houver a previsão de que a eventual sentença de procedência poderá se revelar inútil caso o ato atacado permaneça produzindo efeitos. até o final da demanda. Por isso. Luiz. Já a tutela antecipada. acaso concedida tão-somente na sentença. p. garantindo. . a utilidade do provimento mandamental definitivo. 54 Dessa forma. tutela antecipada e mandado de segurança não são idênticas. Verificada a relevância de fundamento. Para a liminar na tutela cautelar. inconfundíveis. não se concede a liminar do writ. que representa um perigo fundado de dano próximo ou iminente. e o periculum in mora. quando deferida na sentença. essa ineficácia da medida nada mais é do que o periculum in mora 53. que é a possibilidade de existência do direito a ser discutido na ação principal. Para Orione Neto. p. LOPES. Mauro Luís Rocha Lopes assevera: Se. caso seja deferida”. cit. Op. previsto no sobrecitado artigo 7º. considerado relevante o fundamento da impetração.533/51 é o fato “do ato impugnado puder resultar a ineficácia da medida. embora tenham algumas aspectos semelhantes. Op. deverá o juiz suspender os efeitos do último. grave e de difícil reparação. 20. deve estar presente a prova inequívoca da verossimilhança ______________ 53 54 ORIONE NETO. representa a antecipação dos efeitos da própria sentença. é mister ainda que a medida seja ineficaz. Cada qual tem seus requisitos próprios e específicos. cit. Nesse mesmo caminho. tem-se o fumus boni iuris. para sua concessão exige-se mais do que o simples fumus boni iuris. Mauro Luís Rocha. 2. v. CONSIDERAÇÕES FINAIS As liminares em sede de tutela cautelar. da Lei 1.

torna-se imperioso afirmar-se a inadmissibilidade de equívocos na aplicabilidade de tais medidas com seus respectivos requisitos. MACHADO. a liminar no mandado de segurança necessita da relevância do fundamento da impetração. 2006. v. ARAÚJO. 3. Exposição de motivos do Código de Processo Civil. 2.). Ações Constitucionais. Tecidas tais considerações. Código de Processo Civil Interpretado. Vicente. 2004. São Paulo: RT. ed. Alfredo. Fredie (org. São Paulo: Oliveira Mendes. 2005. 11. porquanto é caracterizada pela presença imprescindível do direito líquido e certo provado de plano e sem dilações probatórias. Manual de Direito Processual Civil.da alegação. Vidal Serrano. São Paulo: Atlas. 1 e 3. NERY JÚNIOR. n. assemelhando mais ao direito liquido e certo do writ. DIDIER JÚNIOR. 28. Lições de Direito Processual Civil. ed. 2006. Mandado de Segurança. LOPES. Por fim. a fim de se evitar aqueles enganos. 5. Curso de Direito Constitucional. Mauro Luís Rocha. v. Alexandre Freitas. São Paulo: RT. MARQUES. 9. 2005. Mandado de Segurança. 6. ed. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVIM. que significa a “quase” certeza de que o destino final do processo. se concedida somente ao final. Arruda. BUZAID. ed. bem como do perigo de ineficácia da medida. Aquela também não se confunde com o fumus boni iuris. 1990. São Paulo: Saraiva. Luiz Alberto David. 2 e 3. José Frederico. Campinas: Millenium. Direito Processual Civil Brasileiro. É preciso entender e difundir com clareza tais requisitos e suas diferença. Rio de Janeiro: Lúmen Júris. Hely Lopes. Código de Processo Civil Comentado. GRECO FILHO. fato esse corriqueiro nas petições que correm os corredores dos fóruns do Brasil. Antonio Carlos (coord). ed. 2000. CÂMARA. Antônio Cláudio da Costa. Nelson. em face do que já foi apresentado será a procedência. São Paulo: Saraiva. . Salvador: Jus Podivm. 9. e NUNES JÚNIOR. 1972. São Paulo: Malheiros. Instituições de Direito Processual Civil. Tutela Antecipada. MARCATO. MEIRELLES. 2004. 2000. v. Niterói: Impetus. 2004. 1998. ed.

). Tratado das Liminares. M. Rio de Janeiro: Forense. 1 e 2. 2003. Tratado das Medidas Cautelares. Manual de Direito Processual Civil. SILVA. 2005. Belo Horizonte : Del Rey. 2000. Manual da Fazenda Pública em Juízo. 37. 2006. Dicionário jurídico. São Paulo: RT. 2001. São Paulo: Lejus. . SANTOS. Dicionário jurídico brasileiro. 2000. v. Constituição Federal Comentada. 9. Humberto. v. Othon (org. São Paulo: RT. PEREIRA. v. ________. Ernani Fidélis dos. Comentários ao Código de Processo Civil. São Paulo: Lejus. 4 e 11. Washington dos. São Paulo: Renovar. ed. SIDOU. ed. 1 e 2. tomo 1. Curso de Direito Processual Civil. Ovídio Araújo Baptista. 2006. J. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 3. SANTOS. 2001. 2004. THEODORO JÚNIOR. Hélio do Valle. ed. 2. Luiz.________. v. São Paulo: Saraiva. v. 1 e 2. ORIONE NETO.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful