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Olavo Pires de Camargo Luiz Eduardo Garcez Leme

E os livros?

É

lembrança presente entre os menos jovens que, à alegria esfuziante de pais e familiares dos que entravam nas faculdades de Medicina, imediatamente se seguia uma pergunta não isenta de preocupação: e os livros? Entrar em uma universidade, principalmente em uma escola médica, pressupunha a formação de uma biblioteca, freqüentemente custosa. Parentes, amigos e, sempre, o médico da família, orgulhosos, esforçavam-se para conseguir livros doados ou emprestados para permitir ao “calouro” estudar. Comprar livros usados de estudantes mais velhos era uma alternativa possível. A biblioteca da faculdade desde já passava a ser um endereço freqüente do aluno para que pudesse acompanhar o curso médico. Quantos casais se conheceram e namoraram em silêncio e sob o olhar fiscalizador da bibliotecária, nas bibliotecas de nossas faculdades? O advento da internet, com a facilidade de acesso a textos, bancos de dados e os mais variados recursos didáticos, mudou esta realidade em duas vertentes. Por um lado, a divulgação dos dados com facilidade tornou a informação acessível a qualquer pessoa que tenha acesso à rede mundial e habilidade para utilizar os recursos da informática. A “posse” de uma vasta biblioteca técnica pode, com facilidade, ser superada pela posse do acesso a
Diagn T ratamento. 2007;12(3):129-30.

sanja gjenero

bons equipamentos informáticos a uma boa base mundial de textos e dados. Por outro lado, a rápida divulgação do conhecimento tornou ainda mais efêmera a duração do conhecimento médico. Nos anos 70 e 80, estimava-se que a meia-vida desse conhecimento era de quatro a cinco anos. Hoje, certamente, uma fração desses números seria a melhor aproximação da realidade. Frente a esta realidade, pode-se repetir a pergunta inicial, agora sob outro prisma: e os livros? A grande abrangência e atualidade de opções com que se consegue, a qualquer dia, a qualquer hora, textos e dados da literatura nacional e internacional sobre determinado tema ou afecção fazem com que seja impossível obter o mesmo resultado num capítulo de livro. A rapidez com que as ciências médicas revêem conceitos, aperfeiçoam métodos diagnósticos e modificam estratégias de tratamento em todas as suas áreas torna impossível que o responsável por um livro consiga mantê-lo atualizado integralmente já por ocasião de seu lançamento. Quanto mais específico o tema abordado, mais difícil se torna manter a atualidade da publicação — obviamente aqui não se questiona a importância de publicações na área de formação acadêmica como na

RESIDÊNCIA E ENSINO MÉDICO

em comparação às revistas científicas de qualidade. traidor). dá-se mais valor à quantidade de computadores colocados à disposição dos alunos com acesso às principais bases médicas do que à extensão de sua biblioteca impressa. em que pouco ou quase nenhum crédito é conferido ao docente que publicou um livro ou escreveu um capítulo. essa realidade já foi plenamente incorporada pelos organismos avaliadores de excelência acadêmica como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Nunca deixarão de existir livros científicos na área médica. mas é de se temer que representem apenas uma fração dos que atualmente são publicados. No entanto. quando digitalizados.área básica da graduação e alguns livros essenciais na área clínica e cirúrgica. Professor livre-docente associado do Departamento de Ortopedia e Traumatologia. assim.br Data de entrada: 30/1/2007 Data da última modificação: 30/1/2007 Data de aceitação: 22/6/2007 130 Diagn Tratamento. Como possível justificativa. Luiz Eduardo Garcez Leme. A par disso. Não há dúvida possível de que os livros trazem consigo uma sistematização e hierarquização do conhecimento que nenhuma base de textos poderá oferecer. não têm seus textos submetidos a qualquer crítica por pares antes de sua publicação. Informações Endereço para correspondência: Olavo Pires de Camargo Rua Barata Ribeiro. traditore” (tradutor. Professor titular e chefe do Departamento de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas. em aspectos técnicos. nunca deixarão de ser necessários para dar base a todo o conhecimento e estruturá-lo de maneira racional.12(3):129-30. como os atlas de anatomia — ainda assim. com exceção de alguns poucos. Bons livros são insubstituíveis e sempre bem-vindos. mesmo nos compêndios da área básica. Essa realidade não parece ter sido incorporada por muitos autores e editoras. na avaliação de uma faculdade de Medicina. ler textos técnicos em inglês.com. esses mesmos atlas. injustificáveis numa realidade em que se exige de um acadêmico de medicina que consiga. ao menos. oferecem a possibilidade de acesso a figuras tridimensionais da anatomia humana. Instituto de Ortopedia. Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IOT/FMUSP). comprometer a qualidade da informação fornecida. o que. (11) 3123-5620 E-mail: olapcama@uol. com raras exceções. . 790 — 3o andar — conjunto 33 Bela Vista — São Paulo (SP) — CEP 01308-000 Tel. têm outras vantagens. Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/IOT/FMUSP). Não sem razão dizia o antigo ditado latino: “tradutore. por certo. Nessa mesma perspectiva. na esteira da realidade abordada no parágrafo inicial. Olavo Pires de Camargo. Na melhor das hipóteses. certamente um prazer adicional para os aficionados da leitura. 2007. um livro editado no exterior tem o mesmo peso de um trabalho científico fruto de um projeto de pesquisa. seus dias contados. deve-se levar em conta que os livros técnicos. Por outro lado. os livros técnicos com aporte exclusivamente informativo. como a facilidade de transporte e a sensação física e olfatória do papel. foi prática freqüente (passar livros de texto médico de pai para filho) é hoje impossível. Proliferam e são lançados anualmente dezenas de livros que são meras repetições de material já existente no mercado ou então traduções de livros da língua inglesa. Instituto de Ortopedia. o que pode. sem preocupação com a formação e a estruturação do conhecimento dos leitores têm. contudo novos critérios de legitimidade para sua publicação ou tradução deveriam existir além dos que sejam meramente comerciais ou de valorização pessoal de seus autores. No entanto.