Você está na página 1de 4

OPINIÃO

OPINIÃO
Athayde Tonhasca Jr.
Scottish Natural Heritage, Edimburgo (Reino Unido)

Os serviços ecológicos
da mata atlântica

Em uma ótica estritamente

econômica, a exploração
S egundo a Organização das
Nações Unidas, a população
humana atingiu em 2000 a mar-
natureza não promoverá o bem-
estar da sociedade a longo prazo.

ca de 6 bilhões de indivíduos. Para U m dos argumentos mais óbvios


predatória e a derrubada alimentar todos esses estômagos, para a preservação da natureza e
as necessidades de terra e de re- das florestas tropicais em parti-
das florestas são mais vantajosas cursos para plantar, gerar renda e cular é sua importância como
criar empregos são cada vez fonte de renda e de bens de con-
– geram mais riqueza – do que sua maiores. A pressão causada pela sumo. Muitos povos retiram ali-
expansão populacional é mais in- mentos, medicamentos, material
preservação. Essa análise, tensa nos países do Terceiro Mun- de construção, combustíveis, in-
do, onde grande parte das pes- seticidas e outros produtos das
porém, não leva em conta o valor soas está destinada a viver sob florestas. Resinas, ceras, corantes,
condições de pobreza extrema e óleos essenciais e fibras são ma-
dos ‘serviços ecológicos’ sofrer todas as suas conseqüên- térias-primas industriais, e inú-
cias, desde a falta de acesso à saú- meras plantas dão origem a cos-
prestados pelos ecossistemas de e à educação até a carência nu- méticos e medicamentos. No Bra-
tricional aguda. sil, produtos não-madeireiros co-
florestais, muito superior Tais países de condições eco- mo borracha, castanha-do-pará,
nômicas e sociais precárias con- açaí, erva-mate, babaçu, carnaú-
aos ganhos obtidos com sua centram as riquezas biológicas do ba, caju e umbu geram divisas
planeta, e é neles que medidas de substanciais.
destruição. No caso da mata preservação ambiental esbarram Os exemplos de exploração
em sérias argumentações utilitá- não predatória da floresta são mo-
atlântica, a grande relevância rias e pragmáticas. Derrubar flo- tivadores e edificantes, mas infe-
restas para retirar madeira ou se- lizmente são também escassos e
desses serviços e o valor social car mangues para construir con- muitas vezes só aplicáveis a con-
juntos habitacionais são ações dições muito específicas. Pesqui-
e cultural dessa floresta para justificadas pela necessidade de sadores já demonstraram que fa-
melhorar as condições de vida das tores como flutuação de preços,
a população brasileira fortalecem pessoas. A oposição à exploração dificuldades de transporte, sazo-
da natureza é vista como atitude nalidade da produção, armazena-
a convicção de que a vegetação elitista de ambientalistas urbanos mento precário e, em especial, a
insensíveis à realidade. Entretan- ação insidiosa de intermediários,
que ainda resta precisa to, é cada vez mais evidente que a impedem a sustentabilidade do
integridade dos ecossistemas tem extrativismo, principalmente em
deixar de ser tratada enorme importância econômica, comunidades isoladas. Também
social e cultural, e que a explora- foi constatado que, em geral, essa
como um bem de consumo. ção predatória e imediatista da atividade tem baixa rentabilida-

6 4 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 3 5 • n º 205
OPINIÃO
de, e que a grande área de flores-
ta necessária para manter cada
família inviabiliza essa prática Na Costa Rica, país cujos ecossistemas são
como opção econômica em larga
escala. Apesar da substancial re- semelhantes aos da mata atlântica, pesquisadores
ceita gerada por alguns produtos
farmacêuticos obtidos de plantas estimaram que cada hectare de floresta
medicinais e aromáticas originá-
rias da floresta e do potencial de gera US$ 52 por ano só com o turismo externo.
novas descobertas, o retorno fi-
nanceiro para os grandes labora-
tórios não tem sido suficiente
No Brasil, há poucos dados sobre a importância
para estimular a preservação em
larga escala das florestas tropi-
econômica do turismo ecológico, mas é evidente
cais. Como os custos de pesquisa
e produção são elevados e é míni- que um número cada vez maior de pessoas
ma a probabilidade de obter um
produto biologicamente ativo, as retira seu sustento dessa atividade
grandes companhias não têm
interesse em investir na ‘biopros-
pecção’.
Por último, o lucro obtido a tais para o bem-estar humano e controle biológico; 7. assegurar a
longo prazo na atividade extra- para a vida do planeta. Um ecos- polinização de plantas agrícolas
tivista não é vantajoso nos termos sistema como o Pantanal, por e silvestres.
da economia tradicional, basea- exemplo, armazena nutrientes e De modo discreto mas ininter-
da na conversão de bens em capi- água, recicla nitrogênio e outros rupto, os ecossistemas prestam
tal. O matemático Colin Clark elementos, absorve e trata águas serviços vitais cujo valor econô-
exemplificou isso muito bem, ao poluídas, produz proteína na for- mico é muito superior aos lucros
demonstrar que, sob o aspecto ex- ma de pescado etc. Já a floresta gerados pela exploração tradi-
clusivamente econômico, a me- amazônica é uma imensa reserva cional de seus recursos. Tais ser-
lhor estratégia em relação às ba- de carbono, cuja incorporação à viços eram omitidos em avalia-
leias-azuis seria caçar todas elas atmosfera pelas queimadas pode- ções financeiras por serem difu-
o mais rapidamente possível e ria agravar muito o efeito estufa sos e de difícil quantificação. Em
investir o dinheiro gerado, já que e desencadear sérias e custosas 1996, porém, 12 economistas e
os lucros provenientes dos juros conseqüências. ecólogos, coordenados por Ro-
seriam maiores que os ganhos Os ecólogos Paul e Anne Ehr- bert Costanza, propuseram-se a
obtidos com a caça sustentada lich enumeraram os principais estimar o valor de todos os servi-
desses animais, que levam muito ‘serviços ecológicos’ prestados ços prestados pelos ecossiste-
tempo para se reproduzir. Simi- pelos sistemas naturais e essen- mas. Eles dividiram a superfície
larmente, sob a fria ótica do acú- ciais ao ser humano: 1. manter a do planeta em 16 biomas, de flo-
mulo de capital, a extração ime- qualidade do ar e controlar a po- restas tropicais até recifes de co-
diata de toda madeira de valor co- luição através da regulação da rais, e definiram 17 categorias de
mercial é mais vantajosa que a ex- composição dos gases atmosféri- serviços. O resultado foi a surpre-
ploração extrativista da floresta. cos; 2. controlar a temperatura e endente estimativa de US$ 33 tri-
o regime de chuvas através do ci- lhões por ano, quase o mesmo
Como visto acima, a abordagem clo biogeoquímico do carbono e valor do produto nacional bruto
econômica tradicional não dá da vegetação; 3. regular o fluxo mundial (figura 1).
margem à defesa da preservação de águas superficiais e controlar O estudo demonstrou enfati-
das florestas. Ecologistas e eco- enchentes; 4. formar e manter o camente que o valor indireto dos
nomistas, porém, estão cada vez solo pela decomposição da maté- ambientes naturais é muito
mais convencidos de que essas ria orgânica e pelas relações en- maior que o valor de mercado de
análises ortodoxas são grosseira- tre raízes de plantas e micorrizos; seus produtos. Um exemplo é a
mente inadequadas na avaliação 5. degradar dejetos industriais e estimativa, feita em Honduras, de
do valor dos ecossistemas porque agrícolas e realizar a ciclagem de que os habitantes das florestas do
não incluem a importância eco- minerais; 6. reduzir a incidência país retiravam destas de 17,8 a
nômica de processos naturais vi- de pragas e doenças através do 23,7 dólares/hectare a cada ano 

junho de 2004 • CIÊNCIA HOJE • 65


OPINIÃO
em bens de consumo e de merca- As florestas tropicais – e, por isótopos de hidrogênio, o enge-
do, irrisórios em relação ao valor extensão, a mata atlântica – têm nheiro agrônomo Eneas Salati e
dos serviços ecológicos das flores- como principais benefícios, de outros demonstraram que a eva-
tas tropicais, avaliado em 1.660 acordo com diferentes pesqui- potranspiração da floresta ama-
dólares/hectare no estudo de sas, a proteção do solo contra a zônica é responsável por até 50%
1996. Tais cifras não mudam a erosão e o controle dos ciclos das chuvas da região. Isso signi-
realidade das populações da flo- hídricos, impedindo ou reduzin- fica que a cobertura vegetal é fun-
resta, mas indicam que seria eco- do os efeitos de enchentes, asso- damental para a manutenção do
nomicamente vantajoso indeni- reamento e sedimentação. O efeito ciclo hídrico da mata, influen-
zar essas pessoas se elas perdes- estabilizador da floresta sobre a ciando diretamente o regime de
sem renda em função de medi- estrutura do solo foi demonstra- chuvas. Já o hidrólogo Motohisa
das de preservação. do de forma dramática na serra Fujieda e colaboradores constata-
Esses e outros trabalhos que do Mar na região de Cubatão (SP): ram que cerca de 85% das chu-
abordam os ecossistemas sob a a destruição de grande parte da vas que caem na serra do Mar fi-
ótica econômica representam um vegetação por poluentes libera- cam armazenadas no solo, e que
tremendo incentivo ao esforço dos pelo pólo industrial local re- cerca de 60% dessas reservas
conservacionista, pois se funda- duziu a absorção das chuvas pelo abastecem os riachos e rios da
mentam nos próprios argumen- solo, e o escoamento da água na região. Esse trabalho é particular-
tos utilitários empregados pelos superfície causou freqüentes mente relevante porque quan-
seus críticos. Sob esse ponto de deslizamentos de terra. tifica a importância – reconheci-
vista, a preservação da natureza Parcela significativa da água da há muito tempo – da mata
deixa de ser um obstáculo ao pro- de chuva que cai sobre a floresta atlântica como reservatório hí-
gresso e passa a ser uma atitude logo retorna para a atmosfera por drico. Um exemplo histórico con-
de bom senso com excelente re- evaporação ou transpiração. Ve- firma isso: durante o Império,
torno financeiro. rificando a movimentação de para evitar os freqüentes episó-
dios de falta de água no Rio de
Janeiro, o governo reflorestou as
FIGURA 1. SUMÁRIO DOS VALORES DOS SERVIÇOS PRESTADOS POR ECOSSISTEMAS áreas montanhosas em torno da
cidade, dando origem a uma das
SERVIÇO ECOLÓGICO VALOR GLOBAL
maiores florestas urbanas do
(US$ trilhões/ano)
mundo: a da Tijuca.
Ciclagem de minerais, em especial carbono, nitrogênio e fósforo 17,07 Mais de 100 milhões de brasi-
Valor cultural (estético, artístico, científico e espiritual) 3,01 leiros utilizam a água de rios e
riachos que nascem na mata
Tratamento de resíduos e filtragem de produtos tóxicos 2,28
atlântica ou passam por ela, in-
Controle de distúrbios climáticos como tempestades, enchentes e secas 1,78 clusive cerca de 15 milhões de
habitantes só na região metropo-
Armazenamento de água em bacias hidrográficas, reservatórios e aqüíferos 1,69
litana de São Paulo, segundo o
Produção de alimentos (pescado, caça, produtos extrativistas) 1,39 biólogo João Paulo Capobianco.
Regulação dos níveis de gases atmosféricos poluentes (CO2, O3, SOx etc.) 1,34 Esses fatos já deveriam ser sufi-
cientes para garantir medidas fir-
Regulação de fluxos hidrológicos que suprem águas industriais e de irrigação 1,11 mes de preservação. Além disso,
Recreação (ecoturismo, pesca esportiva, atividades ao ar livre) 0,81 a importância da mata atlântica
como reservatório vital de água
Fonte de matérias-primas (madeira, combustíveis e rações animais) 0,72
potável crescerá no futuro, pois
Regulação de gases que afetam o clima, especialmente CO2, NO2, CH4 e CFC 0,68 cerca de metade da água doce
Controle de erosão e sedimentação através da retenção do solo 0,57 aproveitável do mundo já é utili-
zada, e em vastas áreas a qualida-
Controle biológico de pragas e doenças 0,42 de e a quantidade de água dispo-
Proteção de hábitats utilizados na reprodução e migração de espécies 0,12 nível está diminuindo.
Além do valor como imensa re-
Preservação de polinizadores vitais para a reprodução de plantas 0,11
serva biológica e dos serviços de
Fonte de material genético para melhoramento e controle de pragas 0,08 manutenção dos ciclos hídricos e
controle da erosão, a mata atlân-
Intemperismo da rocha-matriz e formação do solo 0,05
tica é parte dos patrimônios his-
FONTE: ADAPTADO DE COSTANZA E OUTROS (1997) tórico e cultural do Brasil, pois

6 6 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 3 5 • n º 205
OPINIÃO
está intimamente ligada à colo- FIGURA 2. BENS E SERVIÇOS ORIUNDOS DA MATA ATLÂNTICA
nização e ao desenvolvimento do
SOB ASPECTOS ÉTICOS E MORAIS
país. A busca crescente de ativi-
dades de lazer (caminhadas, ci- Patrimônio natural e biológico nacional e da humanidade
clismo, canoagem, acampamen- SOB ASPECTOS ÉSTÉTICOS
tos, alpinismo etc.) ligadas a esse Espaço para atividades de lazer
ecossistema reflete a identidade Local para prática de esportes
afetiva dos brasileiros com essa
floresta. Cerca de 50% da popu- Espaço para a contemplação, observação e estudo da natureza
lação brasileira vive em áreas ori- SOB ASPECTOS UTILITÁRIOS DIRETOS
ginalmente cobertas pela mata Fonte de material genético
atlântica, e muitas dessas pes- Fonte de agentes de controle biológico
soas vivem perto de alguma área
remanescente desse ecossistema. Fonte de alimento (pescado originário do mangue)
É enorme, portanto, o potencial Fonte de produtos farmacêuticos
para o turismo ecológico, sem Divisas originárias do valor estético, através do ecoturismo
contar os possíveis benefícios so-
ciais, emocionais e educacionais Recurso educacional
trazidos por experiências com as SOB ASPECTOS UTILITÁRIOS INDIRETOS
florestas e ambientes associados. Sistema de controle de erosão, enchentes, sedimentação e poluição
Na Costa Rica, país cujos ecos- Reservatório de água
sistemas são semelhantes aos da
mata atlântica, pesquisadores es- FONTE: ADAPTADO DE SPELLERBERG (1992)

timaram que cada hectare de flo-


resta gera US$ 52 por ano só com
o turismo externo. No Brasil, há dos fragmentos remanescentes e tem um valor inestimável na pres-
poucos dados sobre a importân- à ameaça de extinções, esse ecos- tação de serviços como o armaze-
cia econômica do turismo ecoló- sistema não pode mais ser trata- namento de água, controle da
gico, mas é evidente que um nú- do como um bem de consumo. erosão e ciclagem de minerais.
mero cada vez maior de pessoas No entanto, apesar de oficial- Essa floresta é motivo de alegria e
retira seu sustento dessa ativida- mente protegida pela Constitui- bem-estar para muitas pessoas
de. O principal desafio, nesse ca- ção brasileira, a mata atlântica que desfrutam atividades cultu-
so, é a sustentabilidade: nesse tipo continua a ser devastada, vítima rais, esportivas ou de lazer em
de exploração, a busca pelo lucro de especulação imobiliária, ex- seus domínios, ou que respeitam
deve se submeter a aspectos téc- tração ilegal de madeira e ativi- a natureza por razões filosóficas,
nicos, como a capacidade de su- dades agropecuárias. De 1985 a morais ou religiosas. Consideran-
porte do ambiente. Entretanto, 1995, mais de 1 milhão de hecta- do a sua importância como bem
embora possa gerar renda susten- res foram desmatados em 10 es- comum, esse ecossistema não de-
tável através da pesca, do extrati- tados: só o Paraná perdeu quase veria mais estar sujeito a atos
vismo e do turismo, a mata atlân- 5% de suas florestas restantes en- egoístas, corriqueiros e impunes
tica deve ser valorizada por sua tre 1995 e 2000, segundo a Fun- de destruição. Em 1937, o zoólo-
importância econômica indireta e dação SOS Mata Atlântica. A ex- go Cândido Mello Leitão já afir-
seus benefícios sociais (figura 2). tração clandestina de madeira, mava: “No Brasil desaparecem o
vendida como lenha ou carvão, cervo, a anta, o lobo, a lontra, as
A mata atlântica já promoveu a prossegue. O crescimento urba- belas borboletas. Há, entretanto,
riqueza do país, com a explora- no desordenado, em geral ilegal, um Código Florestal e um Código
ção do pau-brasil e de outras ma- tem reduzido ainda mais as áreas de Caça e Pesca, que os lenhado-
deiras: até os anos 70, essa flores- florestais e causado prejuízos res e caçadores ignoram, os nego-
ta contribuía com quase a meta- ambientais, em especial a polui- ciantes de peles desconhecem
de de toda a produção madeireira ção de rios e a contaminação de como belas inutilidades, e de que
nacional. Também foi importan- lençóis freáticos. Além da ex- os políticos se riem como livros
te fonte de lenha, recurso ener- pressiva redução de seus hábitats, de desprezível humorismo.” Ten-
gético acessível e barato, larga- a fauna e a flora da mata atlântica do em vista o tratamento reserva-
mente usado por décadas pelas sofrem a severa ameaça de caça- do à mata atlântica, esse comen-
indústrias. Hoje, devido à crítica dores e coletores de plantas. tário infelizmente continua atual
redução da sua área, à fragilidade Como vimos, a mata atlântica e verdadeiro. ■

junho de 2004 • CIÊNCIA HOJE • 67

Interesses relacionados