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Lista de autores, por ordem de saída dos contos:

Pedro Paixão | João Tordo | Rui Zink | Luísa Costa Gomes | Eduardo Madeira | Inês Pedrosa
Afonso Cruz | Gonçalo M. Tavares | Manuel Jorge Marmelo | Mário de Carvalho
Dulce Maria Cardoso | Pedro Mexia | Fernando Alvim | Possidónio Cachapa | David Machado JP
Simões | Rui Cardoso Martins | Nuno Markl | João Barreiros | Raquel Ochoa | João Bonifácio
David Soares | Pedro Santo | Onésimo Teotónio Almeida | Mário Zambujal | Manuel João Vieira
Patrícia Portela | Nuno Costa Santos | Ricardo Adolfo | Lídia Jorge | Sérgio Godinho

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Contos Digitais DN
A coleção Contos Digitais DN é-lhe oferecida pelo
Diário de Notícias, através da Biblioteca Digital DN.

Autor: Luísa Costa Gomes


Título: Mania

Ideia Original e Coordenação Editorial: Miguel Neto


Design e conceção técnica de ebooks: Dania Afonso
ESCRIT ÓRIO editora | www.escritorioeditora.com

© 2012 os autores, DIÁRIO DE NOTÍCIAS, ESCRIT ’ORIO editora

ISBN: 978-989-8507-10-5

Reservados todos os direitos. É proibida a reprodução desta obra por qualquer meio, sem o consentimento
expresso dos autores, do Diário de Notícias e da Escritório editora, abrangendo esta proibição o texto e o
arranjo gráfico. A violação destas regras será passível de procedimento judicial, de acordo com o estipulado
no Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos.
sobre a autora

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Luísa Costa Gomes


Nasceu em Lisboa, em 1954. Licenciada em Filosofia, é professora, contista, roman-
cista, dramaturga, argumentista, cronista, tradutora, guionista. Publicou 7 romances,
7 livros de contos, 2 librettos, 11 peças de teatro. Dirigiu, entre 2000 e 2009, a revista
FICÇÕES (revista de contos), de que se publicaram vinte e dois números. Recebeu o
Prémio D. Dinis da Casa de Mateus pelo romance
O Pequeno Mundo em 1990, o Prémio Revista Máxima de Literatura pelo romance
Olhos Verdes em 1994, o Prémio Eça de Queirós da Cidade de Lisboa pelo livro de peças
Ubardo e a Minha Austrália em 1995, o Prémio Camilo Castelo Branco da Associação
Portuguesa de Escritores por Contos Outra Vez em 1998, o Prémio Pen Club (Ficção)
e o Prémio Fernando Namora com o romance Ilusão, ou o que quiserem em 2010.
Mania
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Luísa Costa Gomes

“O carvão gasto; o balde vazio; a pá sem sentido;


o fogão respirando frio; o quarto embaciado de gelo;
frente à janela, as árvores rígidas de geada;
o céu um escudo de prata contra quem quiser a sua
ajuda. Tenho de arranjar carvão; não posso morrer
gelado; atrás de mim o fogão impiedoso, adiante o céu
impiedoso, por isso tenho de cavalgar, cortante, entre
ambos, e na viagem procurar a ajuda do carvoeiro.”

KAFKA. “Der Kübelreiter”.

Sáurio levantou o auscultador e pousou-o no ombro. Desligou a máquina de


escrever. Sou eu, disse a voz. Sáurio procurava os cigarros por baixo das folhas
manuscritas, e depois os fósforos. A voz insistiu.
— Sim, estou — respondeu, apontando ao bocal.
— Amanhã, no Café Lisboa, às três. Eu vou de chapéu alto, ponha uma
braçadeira azul.
Sáurio apanhou o lápis e escreveu, desenhando, “três horas, Lisboa,
braçadeira azul”, acendeu o cigarro, desligou. Telefonavam-lhe de um lugar
público, era mais um engano. Se acontecia receber chamadas destas, ficava de
auscultador suspenso, perplexo, desconfiando do acaso. Agora olha as chávenas
vazias onde o açúcar em-

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pedernira, os copos dispersos, com marcas roxas de vinho.
A sala é grande demais, pensa. Não aqueço. Sentava-se à secretária de cachecol e
blusão apertado até ao queixo, às vezes mesmo um cobertor sobre os joelhos. Alguém
se quer encontrar com alguém, alguém leva um chapéu alto, alguém uma
braçadeira azul. Vê-se reflectido no vidro da janela, acrescenta:
— Ainda não tens trinta anos, já és quase extravagante.
A sala não tem luz. Escreve de candeeiro aceso, aquecendo as mãos em
concha no calor da lâmpada. Distrai-se a olhar o estore da única janela que
ainda abre, encravado, de tabuinhas oblíquas. Concentra-se depois na história que
não consegue escrever, percorrendo as personagens vagas, desfocadas,
deambulando pelo enredo que não vislumbram. Sete dias de meias páginas para se
enfurecer, para lamentar a improdução, a produção defeituosa, o alastrar das folhas
inúteis.
— Vamos ao terceiro café da tarde. — Ao passar pelo radiador trata-o com uma
pancadinha para lhe avivar a chama, há uma baforada de cheiro a petróleo,
Sáurio escolhe a chávena menos suja, esboroada, de meia asa. Deitado na cama
inclinada (três pernas e um tijolo quase à medida), Sáurio volta ao telefonema e
ao encontro marcado. A sua curiosidade é sonolenta, mas ainda é curiosidade. E há
a questão das meias páginas e a perspectiva de caçar o real onde ele se mostra mais
denso. Escolhe termos que sirvam a descrição da sala, velha, sórdida, lúgubre,
húmida, como uma esquina, um canto no fundo de uma esquina, e ocorrem-lhe
outros como fechamento, tristeza fria; como o tempo, de chuva sem intervalo,
mudando só a qualidade e o brilho da pouca luz, em que os dias que não foram já
propriamente dias acabam ainda por cima às cinco da tarde.
Uma voz de homem marca um encontro. Sáurio tem mais frio: daí virá, talvez,
um episódio para a escrita. Há-de ser um marginal, ou não se teria esquivado,
marcado de raspão essa hora, de um lugar público e ele anónimo. Mas o chapéu
alto, a braçadeira azul, apontam outra coisa, incomodativa, ostensiva, fora do
protocolo. Sáurio já decidiu ir, vai adormecendo e acordando ao longo da noite,
bebendo na insónia entrecortada; desenha na parede a sombra da mão esquerda.
Uma cabeça vazia, a mão esquerda; o retrato de Letra, espantada na moldura,
colada na parede amarela em que a fenda se interrompe acima do cabelo e retorna
no peito, vertical, cortando-a em metades desiguais.
Antes de sair, preparando-se ao espelho, Sáurio conclui que não se parece
com ninguém e que, mesmo assim, é um rosto neutro. Talvez passe por estudante
retardado, ainda na rotina das ausências e das presenças, fixo no prazer de faltar
aos deveres. Passeia devagar, embora não vá com muito tempo. Quando vira à
direita, para a Travessa do Cego, é colhido de surpresa pelos cânticos de uma
congregação clamando intramuros com indiferença. Mistura-se com a gente,
finge fazer parte
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de grupos; pára para ver os cartazes dos cinemas, onde as filas são já
desencorajantes. Entra finalmente no café, encosta-se ao balcão da tabacaria
esfregando as mãos, sacudindo a chuva; viu logo o homem do chapéu na mesa de
canto.
— Magro, branco — o homem da cartola levanta os olhos; curvado sobre a
chávena, erguera só um rosto translúcido, os olhos azuis carregados de kohl, pacientes.
— Mau sinal — pensou Sáurio — sabe esperar. — Desdobrou o jornal e consultou
a página dos cinemas. Depois enfiou a braçadeira e chegou-se à mesa, sentando-
se, deslizando para a frente do outro, estendendo-lhe a mão. Recebeu o envelope,
tocou no bolso interior do casaco. O outro tirara o chapéu e passava o dedo no
rebordo da aba enquanto Sáurio abria o envelope.
— Os cinco mil.
— Não trago tanto comigo. Só tenho dois. — Calaram-se, Sáurio embaraçado. —
Interessa-te o relógio?
O outro estendeu-lhe a cartola, Sáurio desapertou a correia, despejou o relógio
de entre dois dedos.
— O Boris e os relógios! — sorriu o outro. Sopesou-o, virou-o, bateu-lhe ao de
leve no mostrador — é quase antigo! — disse Sáurio, para lhe acalmar a
exploração, e ele sorriu com algum saber, brincando com a corda, esticando,
experimentando a correia. Passou-a afinal entre a cava e o decote do colete,
fixando o relógio sobre a clavícula. Levantava-se já, Sáurio apontou-lhe num
gesto rápido a cadeira, ele voltou a sentar-se.
— Talvez ainda precise de ti. Perdi o teu contacto. — Ficara sem o dinheiro,
sem o relógio, e sem saber o que comprara.
— Não há contacto — disse o outro.
Agora parecia não querer ir-se embora. Acomodara-se, apoiando os braços
em cruz nas costas da cadeira, estava para passar o resto da tarde. Sáurio,
sentado na ponta da cadeira, remexe o envelope sem impaciência, mudando-o
de bolso, e o silêncio instala-se. Sáurio disse que continuava a chover.
— O melhor é esperar — respondeu Boris, como se lhe tivesse perguntado
alguma coisa.
— Bebemos? — e Boris concordou. Ainda não é a hora de as velhinhas encomenda-
rem os seus garotos. De repente há um arrastar de cadeiras, duas mulheres levantam-
-se e esperam à porta que a chuva abrande. Sáurio anota tudo isto, obrigado a olhar.
Mas já está à vontade com Boris, cumplicidade de se terem sentado à mesma mesa,
com direito a todas as frases, indecididas, íntimas, todo o material das conversas.
— Muito trabalho? — perguntou Sáurio, displicente.
— Muito estudo. Dantes o Boris andava nuns sapatinhos de palerma, abreviava.
Se lhe davam que fazer, era incómodo. Nessa altura tinha uns cabelos
encarnados,
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era um viquingue. Ainda não se mandara ao loiro-branco.
— Agora estás muito mais apresentável... — adiantou Sáurio.
— Agora olha, observa, estuda, verifica — Sáurio arma-se contra a atitude plácida
e violenta de Boris, coloca vocabulário à medida nos seus gestos, estilizando-o
em personagem, enquanto Boris fala em direcção ao outro canto da sala onde um
ho- menzinho fascinado se obriga a ouvi-lo. Boris olha-o com força, passando ao
largo da orelha esquerda de Sáurio (ele volta-se para trás constantemente)
atingindo o homenzinho em cheio, que não distingue os sons mas se sente talvez
no dever de os decifrar; Boris fala baixo, quase murmurando, e faz-se ouvir.
Começa a cair um granizo forte, irrompe no café gente foragida, parando à porta
e olhando, confusa, os habituais do escuro.
— O Boris é uma obra de engenharia — Sáurio sente-se de repente ameaçado, o
rapaz toma-se a sério, de tal modo que se impõe ao homem sentado do outro lado
da sala, preso e alheio, bebendo aguardente, a mão tremendo na luz acinzentada.
— O Boris achava-se um herói que ainda não tinha livro. Mas não andava para
aí a ensaboar pastilhas, nem comeu o pão que o diabo amassou, nem esvoaçou
para a salvação. Se morria, soltava a pomba, se não, matava gente.
Sáurio encolhe os ombros. Matar é abstracto. Quer voltar para a máquina de
escrever, adiantar a história, produzir palavragem.
Aquela figura afinal não lhe serve, parecera-lhe que sim, a princípio,
quando Boris segurara no guarda-chuva e na cartola como se fossem armas de
ilusionista e quisera sair, porque se movera de uma forma inefável e mantivera
uma ginástica de suspensões, lenta, como um caçador indígena, diria Sáurio, e
era uma analogia imediata e também injusta. Sáurio luta com a literatura dentro de
si. Olha para trás, para a porta. O homenzinho escapara-se, aproveitando uma
distracção de Boris. Que agora se comportava fora das expectativas e não era mais
interessante por isso. Es- forçava-se, como um personagem. Sáurio insistiu que
era inútil para a história que escrevia, e que se imobilizara, e só ficou sentado
porque não encontrou as palavras de saída e queria adiar os próximos passos, a
leitura do envelope comprado e o que teria de seguir-se. Pergunta:
— E como é, o crime? — surpreendido, porque tem mais medo do que curiosida-
de em saber, e Boris recosta-se amuado, de cabeça baixa.
— Diz-me tu.
Despe a braçadeira, este é um jogo para adolescentes; conclui que Boris é
apenas um marginal menor, um exibicionista, um actor. Levanta-se, Boris
continua a desenhar. Sáurio julga reconhecer um conhecimento à entrada do
café, esconde-se por trás do arco.
Abre o envelope e lê a carta pelo caminho. Em casa entala-a com cuidado sobre

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o retrato de Letra, fungando e bebericando brandy. Já a sabe de cor: “querida
Belle, estou em Lisboa por uma semana, estou no hotel Fénix, espero que não me
tenhas esquecido, eu penso sempre em ti, queria tanto explicar-te, bacci, teu,
Fabrizio”.
Traz o carimbo dos Restauradores, um post scriptum em letras maiúsculas “NÃO
ME TELEFONES NUNCA. ESCREVE-ME”.
Um namoro antigo, sem dúvida. Mas cinco contos por uma carta? Procura na
lista o número do hotel; agora passam-se as coisas com urgência, e Sáurio só se
sente a perder tempo. Tem que escrever. Para quê esbanjar-se por histórias
paralelas que não lhe dizem respeito?
Do hotel respondem-lhe que não há Fabrizio nenhum, nenhum senhor italiano.
Nem julgam que venha a estar no dia seguinte. Sáurio já o esperava, mas há
demasiadas direcções nos factos para que se possam abarcar num só sentido — o
mal-entendido primeiro, o encontro com o punk, a compra de uma carta, a carta de
alguém que não estava onde dizia estar.
Irrita-o não ter sabido interrogar Boris que se mostrara predisposto à conversa-
ção e à inconfidência. Sentado à máquina, olhando a folha entalada, revê as
hipóteses habituais, chantagem, falsificação, roubo, crimes sobre a emoção, e
decide procurar a mulher, Belle, vigiá-la, dar-lhe a carta? Se a morada que ela
escreveu no envelope estiver certa, a casa não é longe. Esgueira-se pela janela da
cozinha, e corre até à mercearia da frente para se abrigar da chuva. Decorre uma
discussão teórica acerca do aumento dos preços. O merceeiro lamenta-se, perdeu
há muito a fé no futuro do país. Sáurio espera vez, compra uma laranja, verifica-lhe
o peso, são cento e setenta e cinco gramas, vai ser uma conta complicada.
Parado à porta, olhando para baixo, para a direita, vê-se incluído no enfiamento
dos candeeiros saídos das fachadas como sinos, projectados do perfil plano das
casas. Pouco abrigo pelo caminho. Só alguma porta aberta, alguma ombreira, se
continuar a chover assim a pique. Chegando à Rua dos Navegantes, procura a casa
de Belle, e depois um nicho para esperar. A porta do prédio em frente da casa está
entreaberta, Sáurio encaixa-se, rígido, dizendo: repara no passeio alto, de
empedrado; repara na feia casa ao fundo da rua; sentindo ao mesmo tempo as
outras coisas, inúmeras, em que não pode reparar.
Vê uma mulher sair, com pressa. Aflige-o uma grande indecisão; há toda
a estúpida futilidade, e a zanga de uma espera tão vaga. Retira a carta e volta a
guardá-la no bolso; quer uma ideia súbita que o desembarace, ter a visão
imediata da coisa certa, o sentimento da evidência, da justeza — o que deve fazer.
Mas a igno- rância, a morte ignorando, a morte estúpida. Não saber ler factos. É
quando Sáurio se revolta, envolvido pela rua, o amarelado das casas, o passeio de
empedrado e os detalhes: o azulejo, a janela de forma única, a varanda de ferro.
Estar assim rodeado
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de coisas que apertam, na rua a ver a mulher sair. Ter que se mover em
qualquer direcção. Agarrar a oportunidade em cheio, lúcido, senhor de si. E tudo
lhe escapa, ao ignorante. Corre até ao fundo da rua, vê-a mandar parar um táxi,
abrir a porta. Vai desaparecendo até deixar uma perna de fora, na meia escura, uma
canela, a ponta do sapato. E depois é uma sombra dentro do carro.
Volta ao mesmo sítio, para vigiar. Devem ser seis horas, começa a chegar
gente. Relê a página dos anúncios de casas para alugar, reforçando o círculo
negro das que já assinalara, agora que o jornal é uma massa empastelada,
debotada. Quando Sáurio guarda a caneta, aproxima-se um homem do portão da
casa. Relê o nome e a morada de Belle. Não sabe. Precipitar-se para o homem, ou
esperar mais, até vir a resposta, ou subir a rua, correndo? O outro retirou as
chaves, escolhe. É alto, anota Sáurio. Dirige-se-lhe num impulso, atravessa-se no
caminho dele de olhos baixos, o envelope na mão estendida, estacando, curvado,
tremendo de frio; repara na grade do portão, pensa, e olha de soslaio para o ferro
forjado, sem distinguir as lanças que o rematam, porque não quer virar a cabeça.
Repara, acrescenta, veste gabardina.
O homem olha-o um instante, tem um murmúrio de surpresa indignada,
empurra Sáurio ao de leve sem querer fazê-lo cair, um abanão de fúria contida.
— Você é doido? O que está aqui a fazer? — Sáurio compreende que foi este
o homem que quis comprar a carta, o primeiro telefonema era-lhe destinado.
Com um sinal de cabeça, aponta-lhe a porta aberta onde Sáurio esperara e
apressa-se, puxando-o pela manga com as pontas dos dedos. Recolhem-se no vão
da escada, o homem espiara as janelas da rua uma por uma antes de entrar,
parece mais calmo, numa ira mais serena, resmunga:
— Imbecil, imbecil — Sáurio mantém-se muito quieto, respirando pouco, como
morto, no escuro. Depois de uma pausa, o homem acende a luz da escada.
— Quanto é?
— Sete — murmura Sáurio.
— Tinha-se falado em quatro mil.
Sáurio calava-se. O outro abriu o envelope, chegou-se para a luz.
Está satisfeito. Retira uma nota de cinco mil.
— Ficamos assim?
— Não — disse Sáurio, a voz baixa para se notar menos o tremor. — Sete mil.
Deu-me muito trabalho.
— Não me apareça mais aqui.
O homem recua um pouco, depois puxa Sáurio para a luz pela gola do
casaco (um colérico!) e olha-o de perto friamente, uma das mãos enluvada, a
outra nua, agarrando-lhe a cara, voltando-a para a lâmpada, que se apaga.
— Não aqueço — diz Sáurio na sala enorme. — O homem a repuxar-me, eu batia
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os dentes de frio. Há um espaço em branco. Agora o Fabrizio. — Sáurio, novamente
sentado na cama, aquecendo as mãos no copo de café. Ouve baterem em baixo
à janela da cozinha, só Letra sabe que é por ali a entrada, Sáurio abre devagar a
porta da sala, espreita à varanda de um dos quartos vazios. Vê de cima a querida
cabeça de Letra (arbusto entre arbustos do bárbaro jardim), após tanto tempo de
abandono. Mas recolhe-se com disciplina, diz para si:
— Agora não, Letra, agora estou a brincar.
Letra espera ainda, Sáurio senta-se à secretária, apaga a luz. Depois ouve-a abrir
o portão e sair, fechando-o atrás de si. Querida Letra, sempre a fechar os
portões com cuidado.
Já anda na rua a gente da noite. Ao entrar, Sáurio nota que os hotéis
costumam abafar os passos. Este não. Dirige-se à recepcionista, o porteiro
olhava-o indeciso. Sáurio imagina-se vestido de porteiro, a ideia é desconfortável,
mal-vinda. Respira fundo, começa:
— Chamo-me Fabrizio Ciardi, queria pedir um favore à la signorina.
A mulher debruça-se com solicitude. Tem no cabelo um ganchinho vermelho
em forma de coração.
— Io estou em Lisboa por uma semana, no? Fiquei em casa di amici, ma ho detto
a outri amici que ficaria en este hotel. Se me procuran ou me escreven, no?
Então eu pedia à signorina que me guardasse as cartas ou outras coisas para mi e
me telefonasse a este número quando houvesse mensagem, si? Fabrizio é o meu
nome. Este é o número.
Sáurio parara sem fôlego, envergonhado e orgulhoso do espectáculo. A imitação
fora miserável, mas não desagradara à rapariga que aceita o papel e o número;
Sáurio acha-se com vitória fácil, o que lhe dá nervo para acrescentar à encenação
um olhar lânguido, uma hesitação, e uma saída terna.
— Grazie, ciao.
Voltando para casa, vai apanhando no ar falas entrecortadas, tentando manter-se
à distância das arestas dos guarda-chuvas; sente mesmo vergonha. E de cada vez
que se lembra da cena, da arregalada ingenuidade da recepcionista, do seu papel
de industrioso meio gigolò desenvolto, estremece, fecha os olhos para a afastar.
Indigna-o ao mesmo tempo a facilidade da torpeza e a avidez com que a gente se
deixa iludir.
Deitado, vestido, em cima da cama, com febre, tem uma exaltação, há-de escrever isto
tudo, a ficção coitada monstruosa devora o que a antecipa, o que a imita, pobre realidade.
A recepcionista telefonou de manhã, tinham trazido uma carta para Fabrizio.
— Tão cedo? — perguntou Sáurio. Doía-lhe o corpo todo da batalha do sono,
tinha os olhos inchados. A sair do quarto tropeçou no alguidar entretanto cheio das
gotas que pingavam do tecto. Parou a olhar a forma que o charco tomava, repara na
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sombra da janela no chão, repara na sombra da janela no chão, e repetia-se pela rua
abaixo ao ritmo dos passos que o levavam pelo caminho mais longo. A recepcionista
apresentou-lhe a carta e um ar reservado, e Sáurio não queria enveredar pelo espec-
táculo indecente mais uma vez, mascarou-se de tímido, sorrindo a meia boca.
A carta não tinha selo, nem carimbo. Sáurio teve medo, perguntou quem a
entregara ali; a recepcionista descreveu uma mulher, displicentemente,
apoiando dois dedos no telefone. Talvez nem fosse Belle. Sáurio só a vira de longe, e
a rapariga descrevia olhos, boca, expressão, ar de pessoa bem criada, bem na
vida, e Sáurio invejava-lhe o apetite pela exactidão. Tornou a fazer-lhe as
recomendações e saiu, guardando a carta por baixo da camisa, onde ainda não
estava molhado.
Escolheu um caminho cheio de desvios, parando para ler a carta de Belle, emo-
cionado, como se fossem para ele esses suspiros “não, Fabrizio, não te esqueci,
penso em ti, vem buscar-me amanhã às duas horas, podemos passar a tarde
juntos, tua, Belle”, vem buscar-me às duas horas, não te esqueci, passaremos a
tarde juntos, Belle, amanhã, às duas horas, não te esqueci, temos a tarde, Belle.
Vogando nos guarda-chuvas, rasando gente húmida. Letra nunca lhe escrevera,
nunca se tinham separado até se separarem. O que lhe sugere o cartão de Belle
é antes a imagem dos bilhetes passados entre carteiras no liceu, com
comentários, combinações: vais ao jogo amanhã? Queres vir estudar matemática
comigo? A carta de Belle dera-lhe uma disposição benigna, talvez estivesse um
bocadinho apaixonado ou, pelo menos, com febre. Pede o nome do proprietário e
o número de telefone pela morada, liga, esperando que seja o homem a
responder, mas é Belle quem atende; Sáurio deseja falar com Leão Averal, o dono
do telefone. Do outro lado a sala está muito silenciosa, Sáurio ouve-o pegar no
auscultador, diz-lhe:
— Ela escreveu. Na estação do Rossio, hoje, às sete? À porta principal? Ela
pede que Fabrizio a vá buscar a casa, amanhã às duas, para passarem a tarde juntos.
Desligam o telefone.
— Estou inquieto — diz Sáurio para o bocal.
Chega adiantado. Sacode-se da chuva, lê as parangonas dos jornais encostado
à ombreira, no caminho de toda a gente. Tire-se daí, grita-lhe o ardina. Leão pára
a alguns passos, faz-lhe sinal. Uma direcção determinada, observa Sáurio,
olhando a gente que sobe a escada. Entram num café, Leão escolhe uma mesa
discreta e senta-se de costas para a porta. Empurra um envelope para a frente de
Sáurio, que o abre, desdobrando a carta. Fabrizio cancelava o encontro, tinha que
sair de Lisboa por uns dias, voltaria em breve.
— Se você me pudesse fabricar isso para amanhã, com data de hoje — disse Leão,
sem grande ênfase. — Tem de ser entregue pela uma.
Pediu café para ambos, e álcool, e deixou-se curvar sobre a mesa como se desaper-
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tasse a gravata — talvez achasse inútil a pose digna — dizendo, numa voz em queda:
— Belle desapareceu.
Sáurio teve o seu calafrio. O desaparecimento de Belle implicava o seu próprio
desaparecimento. Procurou o amparo de alguém conhecido no café — compre-
endendo, enfim, que procurava Boris. Leão olhava para ele, bebendo, pousando o
balão. Sáurio procurava nos bolsos uma arma qualquer; encontrou apenas duas
canetas de feltro e as chaves de casa, onde a ferrugem começava a pegar. Usara
em tempos um canivete que deixara de abrir. Devia estar em casa, no copo dos
lápis. Leão convocou-o para jantar. Estava impaciente, chegava-se para Sáurio
como se quisesse empurrá-lo, apressá-lo, quase lhe tocava, mas afastava-se, para
recomeçar logo. Fazia um marido abandonado pouco credível.
Sáurio, esse, paralisara. Via as aproximações e recuos de Leão. Estava no centro
da armadilha, seria de novo a morte ignorante, perplexo com essa rigidez,
perguntando-se o que sentia, desejando perguntá-lo a Leão.
Nessa noite, percorreram os bares e os cafés, os que um conhecia, os que outro
conhecia. E quando já estavam bebidos, Leão equilibrando-se numa gravidade
sem propósito, Sáurio encostou-se ao balcão e perguntou:
— Quando olhas para a gente, o que vês?
— Carne. Se sangra é porque tem recheio.
— Sangue! — disse Sáurio, enjoado, para dentro do copo. — E quando é mulher,
o que sentes?
— A minha? — Sáurio reparou que ele ocupava agora mais espaço, os braços que
usava aferrados ao corpo afastavam-se. — Nojo.
Leão cabeceava moderadamente sem perder a dignidade, acotovelando múltiplos
bebedores. Sáurio, mais sóbrio, lança-se à procura. Quer saber verdades.
— E Fabrizio?
— Amante dela.
— Como se previa.
Olhavam pela porta da copa entrevendo, quando instantaneamente aberta, um
homem de branco que esfaqueava um alguidar. Enterrava e desenterrava a faca,
torcendo, apunhalando.
— É gelo — disse Leão.
Saíram, amparando-se. Levantaram as golas ao mesmo tempo, tiveram o mesmo
encolhimento, o de Sáurio, reflexo, o de Leão, castigado; e olharam para o céu.
Ainda chovia muito, era a mesma noite. Curioso, pensou Sáurio pomposamente,
repara que de dia a luz é a todas as horas diferente mas a noite é sempre da
mesma escuridão. E, no entanto...
— És tu então quem escreve as cartas de Fabrizio? — perguntou, afastando-se,

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mas Leão já seguia o seu caminho, subitamente sóbrio em direcção a casa.
— Talvez já lá esteja... — disse para trás, e Sáurio voltou-se para a rua e leu
ovos frangos perus patos codornizes no dorso de uma camioneta que passava
devagar. Espantou-se por ser já tão tarde — ouvira algures o carro do lixo roncar —
e tinha de escrever, andava a perder tempo e afinal seguia Leão que dobrava
esquinas e se metia por ruelas como se quisesse perdê-lo.
Em casa, Leão desfalecia ao piano, gritava Belle de vez em quando. Sáurio
vai abrindo portas até encontrar a cozinha, meio limão no frigorífico e garrafas
vazias. No corredor, tropeça na mesinha do telefone, dobra-se para apanhar uma
agenda que caíra, guarda-a no bolso. Ao fundo do corredor, pelo vitral, aparece a
primeira luz da manhã, a primeira chuva.
Ouve grande comoção na sala, Leão tenta desemaranhar-se do piano e caminha
quase a direito sobre Sáurio, de braços estendidos, entornando vasinhos e bibelots.
— Encontra-ma, Boris, só tu ma podes encontrar.
— É absurda — repete Sáurio — esta noite em claro. — Afasta Leão, senta-o no sofá.
— Sabes onde encontrar Fabrizio. Foi ele quem ma levou.
— Fabrizio? — rindo-se, tendo que se rir.
Subiu as escadas, entrou nos quartos, à procura do de Belle, mas nada lhe
permitia identificá-lo. Esperava porventura um cor-de-rosa, com cama de dossel e
cortinas de renda; acabou por se deitar num canapé de veludo, desconfortável,
que lhe abrandava as tonturas. Dura-lhe pouco o sono, ao acordar procura Leão,
talvez adormecido ao piano; a meio das escadas esquece-se inexplicavelmente
dele, tem urgência em sair, em chegar a casa, para pôr a cabeça em ordem e
arrumar-se; sente a familiaridade da ressaca, que é considerar a vaidade de todo o
movimento.
Boris esperava-o à porta de casa, a gabardina curta manchada pela chuva nos
ombros — ao longe parecia uma sobrecapa. Sáurio demorou a reconhecê-lo, de cara
lavada, depois percebeu que chegara o momento de confissões e de admitir não só o que
Boris já descobrira — o nome, a casa, talvez mais — , mas o que o assustava, as hipóteses
que faziam de Leão um matador, primeiro na intenção, agora na acção, ideias que lhe
sugeriam confusamente, mas com grande energia, o perigo certo, uma cilada.
— Corre-te bem o negócio, mas isto não é pelo dinheiro — disse Boris. O tom era
terno. — Aproveitamo-nos de um erro humano para uma aventura? Bom material
para a mania de o escrever?
Entram pela janela da cozinha; na sala, Sáurio passa-lhe um copo para a
mão, deita café aquecido, contente da inteligência de Boris, da sua vigilância, da
suspeita finalmente fundada, e da oportunidade de fazer dele um aliado contra
Leão. Ainda bem, diz Sáurio, e sorri, apontando a gabardina de Boris onde, à
altura do peito, ele
pregou a bandeira dos piratas.
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Sentam-se como para uma grande conversa; Sáurio, cansado, quer dizer verdades
e justamente a Boris, que ali está para as ouvir:
— Parece que me telefonaste por engano de propósito.
Boris sorri, mas pouco, abomina os diálogos que escorregam nessa vertente,
antecipava que lhe perguntassem se tivera uma infância feliz quando ele era,
feliz- mente, ainda a mesma criança. Mas Sáurio desiste logo, chegou a fazer um
gesto de apaziguamento, como se soubesse dos desagrados de Boris. Curvou-se
sobre o café para esfregar algum vapor na cara.
— Belle respondeu à carta de Fabrizio. Se a primeira carta era “verdadeira”,
escrita por “Fabrizio”… és tu? Ou ela? Ou o marido dela? Diz que Belle
desapareceu. Diz que ele a levou. Pede-me que a descubra, e ao mesmo tempo, que
escrevas mais esta carta de Fabrizio. Eu acho que ele a matou.
— Primeiro ele deu-me a carta de “Fabrizio”. Depois disse que Belle tinha desapa-
recido, continuámos a beber. Acabámos em casa dele, tocou piano, chorou, quis que
lhe trouxesse a mulher. Se ele a matou, uma carta de Fabrizio é capaz de lhe ser útil.
Boris ouvia. Sáurio adormecia. Sentados, separados pela máquina de escrever; o
candeeiro iluminava as mãos de Boris sobre a mesa, a cabeça de Sáurio apoiada
nos braços, sobre a máquina.
— A menos que... — disse Boris, e Sáurio soçobrou definitivamente em cima do
teclado. Dormiu uma hora agitada.
Quando acordou, Boris mantinha-se na mesma atitude, olhando, sonhador, a
parede onde as fendas abriam caminho. Disse:
— Belle escreve um postal ilustrado.
— Do Algarve, a dizer que está em casa de uns amigos, que volta daqui a
cinco, dez dias. Estou bem, não te preocupes, quis estar sozinha por uns tempos.
Amo-te...
— Belle — concluiu Boris.
— Tens a letra dela? — lembrou-se da agenda, Boris procurava papel branco,
uma caneta. Sáurio vigiava-o, retirava-lhe das mãos folhas meio escritas, protector.
Afastou a máquina de escrever, pôs à frente de Boris a agenda aberta, onde
Belle escrevera notas dispersas, gastos, afazeres, e, em Janeiro, duas frases — “amanhã
é um novo dia” — e, mais adiante, no dia vinte — “no fim, veremos”.
Boris folheava quase sem tocar o papel, parecia interessado por tudo, pelo
formato e pelo peso da agenda, e Sáurio disse: é de 1980, não é estranho? E o mês
de Fevereiro está riscado.
— O Boris faz um de Albufeira. De Barcelona... De Antuérpia, afastando-se.
— Barcelona já é longe demais. Chega um postal.
— Olha o método de escrever: movimentos incertos, mas a desigualdade regular,
a comoção que se prevê; nervosismo, sensibilidade, instabilidade; repentino aprumo,
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cá está, susceptibilidade.
— A letra é a mulher — disse Sáurio.
Em três saltos, Boris está junto à porta; desce a correr, por cima dos caixotes
e espalhando lixo que se acumulou nas escadas, na luz amarela a sombra é a de
um espião de filme animado, a calça curta, riscada pelos fios de chuva que
deslizam no vidro. Ó grafólogo, grita Sáurio, do patamar, isto não fica assim!
Ouve-o abrir a janela da cozinha, saltar e, pela clarabóia, vê-o dar um encontrão
num vizinho, virar para a Travessa do Cego. Sáurio ri-se sozinho da cumplicidade
com Boris; são todos criminosos, ele, Boris, Leão, mas daqui em diante há mais
em jogo: Sáurio e Boris estão do mesmo lado.
Boris vem de tarde com o postal de Belle, uma vista de Albufeira, o carimbo com
data quase indistinguível.
— Quanto tempo demora um postal a chegar? — perguntou Sáurio.
Sáurio mergulha na penumbra da sala enorme, acordando a meio da noite
para beber, e pensar, ou jogar “solitárias”, tentando adivinhar a sua sorte, o azar,
dispondo as cartas de acordo com as regras. Dormia durante a tarde, e acordava
depois para escrever, para desesperar de escrever.
Quando finalmente Boris aparece, saem ambos abrigados no mesmo guarda-
chuva, divergindo no meio da gente, Sáurio eufórico, liberto da casa, e Boris, todo
imagem, silencioso. Sobre o rio entreabre-se a nuvem e a luz raia, batendo na água.
Separam-se antes de chegarem a casa de Leão, escreve, diz Boris, telefona mais, diz
Sáurio.
Boris acena com o guarda-chuva, parado num charco junto ao passeio. Sem saber
se Boris o ouviu, Sáurio afasta-se, subindo e chega à Rua dos Navegantes
esperando que a chuva não passe de poeira. Quando dobra a esquina, sai um velho
pequenino e magro carregando um saco fora de proporção, da porta em frente.
Sáurio deixa-o desaparecer ao fundo da rua, aproxima-se e deixa o postal na caixa,
olhando as janelas fechadas, as portadas verde-escuras, depois a imobilidade
momentânea da rua, no intervalo — um instante de absoluta fixidez, em que
nada sucede. Sáurio tivera o cuidado de espreitar a caixa do correio que estava
ainda cheia.
Quando chega, Boris espera-o à porta.
— Já está — diz Sáurio. — Talvez telefone para o hotel, pode haver mensagens
para Fabrizio.
Boris senta-se à secretária a ler as semifolhas de Sáurio, que marca o
número do hotel, ouve tocar e desiste quando ninguém responde. Imita a letra
de Sáurio, escreve disciplinadamente, firme, desviando os olhos só para o original,
até ter meia página. Mistura-a com as outras folhas e arruma-as junto à máquina:
está disposto a conversar quando toca a campainha do telefone.
Sáurio levanta o auscultador, contrariado:
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— Belle escreveu — diz Leão. — Parece que está bem. A carta já está pronta?
Queria tê-la cá quando ela voltar.
— Ainda não. Tem pressa?
Leão cala-se um instante e parece a Sáurio um tom de suspeita quando ele diz:
— Estranho que ela esteja em Albufeira. Ou será Quarteira? Fala-me de uns
amigos que não conheço. E desapareceu a agenda. Não a viu?
— Já está a falar sozinho — disse Sáurio, para Boris. Respondeu: — Não, não
vi. Aliás, eu nem sequer entrei no quarto dela... não sabia...
— Eu não disse que estava no quarto, estava no corredor, na mesa do telefone...
era uma destas agendas que...
— Conversa — disse Boris.
— Não tenho ideia — repetiu Sáurio. — Amanhã passo a entregar a carta de
Fabrizio.
— Sim, à noite. Deite-a na caixa.
— Se ele matou, sabe que o postal é falso. Isso põe-me numa situação ridícula.
— Atenção — acentuou Boris — Fabrizio és tu. Vide, a recepcionista.
Sim, reconhece Sáurio. A recepcionista, o seu número de telefone, a carta, Belle
fugiu com ele, Fabrizio.
— Mas não — lembra Sáurio — se Fabrizio diz na carta que está fora de Lisboa.
Boris sentou-se na cama. Nem um nem outro queriam falar mais de cartas
falsas.
Sáurio esperava que as coisas se resolvessem por si. Falava da história que
escrevia, deixada a meio; Boris ouvia-o de cabeça baixa, as mãos escondidas nos
bolsos da gabardina molhada, até que teve um arrepio e Sáurio ofereceu-lhe um
cobertor.
— E quem és tu? — perguntou Boris, a manta pelos ombros, metido na cama.
— Eu não entro nesta história.
— É tramada, essa tua constante prospecção de analogias. Para o Boris é muito
cansativo.
— Estranho — disse Sáurio. — Parecias-me um tipo com queda para a criação.
— Não, não. Ele estuda.
E, num movimento, virou-se para a parede, acomodou melhor a cabeça na
almofada, fechou os olhos.
Sáurio dá-se o tempo de arrumar a secretária e senta-se para escrever.
Na escuridão, escreve sobre a luz. Uma página de nomes. A história que
escrevia já se diluiu na palavragem. E Leão, o enredo, Sáurio vagamente na
expectativa, como se estivesse no recreio, a viver entre episódios.
— Já estarei morto? Devia tremer, preparam-me ciladas. Devia sentir-me em
perigo e só me ocorrem nomes. — Levanta-se e aproxima-se de Boris. Põe-lhe a
mão no ombro, está quente, agita-se quase, nota a linha de contacto entre a cara e
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o lençol, da mesma cor, escondendo a boca. É uma forma de a conhecer, à
minha morte. De a criar, para que venha com uma cara conhecida.
Boris acordou, veio sentar-se do outro lado da secretária.
Fumaram. Dormimos por turnos, como na selva, nas expedições, mas Sáurio
não o disse, já conhecia a aversão de Boris pelas frases. Acompanhou-o ao
patamar, esperou até o ouvir na rua.
Voltou a sentar-se, releu a folha, colocou-a junto das outras. Esvaziara a garrafa.
— Não aqueço.
Tinham concluído que era melhor não levarem a carta de Fabrizio a Leão, pelo
menos enquanto Belle não aparecesse. Sáurio deitou-se, estava disposto a
dormir dias seguidos. Saiu no outro dia para comprar o jornal e enlatados;
passeou, admirando-se da capacidade que o tempo tem de se distender e de encher
os ócios. Assim perdeu a tarde, a vaguear. De volta a casa leu a página dos
cinemas, deliberando, sabendo já que qualquer deslocação seria um esforço. Janta
das latas aquecidas despejadas no prato único, e recosta-se na cama a beber,
abre o jornal. Primeiro, os crimes. Menor violada em Odivelas. Casal desavindo
alvoroça vizinhança. Morte misteriosa na Lapa.
“O doutor Leão Averal, médico, casado, de trinta e três anos de idade,
residente na Rua dos Navegantes, foi encontrado morto dentro do seu automóvel,
na garagem de sua casa. Ao que foi apurado, a morte ocorreu por asfixia devida a
monóxido de carbono, desconhecendo-se ainda as razões do sucedido. O doutor
Averal foi colaborador do nosso jornal entre Agosto de 1980 e Março de 1982,
publicando artigos de divulgação científica.”
Sáurio volta ao princípio. Leão Averal suicidado? Por Belle? Por Boris? Veste-se,
o blusão ainda húmido da última chuvada, não sabe onde encontrar Boris mais
sai como se soubesse, desce até ao rio, caminha junto à linha do eléctrico.
Aproximam-se três homens que falam alto, Sáurio espera que eles estejam mais
perto para tentar reconhecê-los, um deles esmurra-lhe a cara, outro agarra-o pelas
costas. Tiram-lhe a carteira, despejam-lhe os bolsos do casaco, entre puxões, em
silêncio. Afastam-se gingando, Sáurio senta-se na borda de um canteiro,
amparando-se aos arbustos; retoma o caminho de casa coxeando embora não sinta
dores, ou outra coisa, excepto talvez espanto. Vai rente às paredes, contornando
caixotes do lixo, obstinando-se em não olhar para trás. Como é que eles eram? —
pergunta-se — eram três — responde-se — sim, eram três, mas como eram?
— Não sei, não reparei.
Sáurio estaca, indignado, não reparei, repete.
— Não pude ver. Terei de inventar uma coisa que me aconteceu! — Agora fala-se
como a uma criança, para não chorar, nem os vi, não reparei neles, estava
demasiado
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ocupado a sobreviver.
Senta-se de novo à secretária, arrasta o telefone para junto da máquina de
escrever, vai marcando dígitos sem levantar o auscultador. Carrega devagar nas teclas
da máquina, sentindo o lábio inchar, palpando o rosto à procura de sangue ou outro
sinal, mas é só a boca que se desloca progressivamente, presa de grande secura. A sala
parece-lhe o único lugar do mundo isento de ameaça.
Letra também pode confortá-lo. Mas esqueceu-se do número, e para o recons-
truir seria precisa uma teimosia que o ultrapassa. Demora-se a escrever combinações de
números sem qualquer esperança de acertar no telefone de Letra, sem qualquer esperança.
Quando lhe parece ouvir passos no jardim, avança até ao patamar e espreita. Não
vê ninguém. Entra na sala e fecha-se à chave, a mão no peito, a acalmá-lo.
Junto à janela, curva-se para olhar a rua. Amanheceu. Para o lado do rio, o
nevoeiro espesso. Chove uma poalha esbranquiçada, bloqueando a luz. Ouve o
telefone tocar várias vezes antes de se mexer.
— Sáurio? É Belle. Vem esta tarde a minha casa? Às
quatro? Este é mesmo para mim, pensa.
— Não me sinto. — Mas tremia quando pousou o auscultador na mesa. — Eu não
queria nada disto.
Senta-se na cama a beber, ouve a água nos canos e os passinhos dos ratos
no sótão, de vez em quando um motor esforçado a subir a rua. O frigorífico
roncando e parando. Depois adormece. Resolvera que afinal não iria ao encontro de
Belle, aquele assunto não lhe dizia respeito, era uma história que se podia ter
passado sem ele, desde o início. Passar-se-ia sem ele, daí em diante. Boris
substituí-lo-ia a responder à convocação de Belle. Boris a quem nada podia
perturbar, muito menos um renascimento encenado como este, de surpresa
previsível; Boris saberia movimentar-se de suspeita em suspeita, flexível, evadindo-
se das mãos dos outros jogadores.
— Que grande falta de jeito para a vida real — diz Sáurio, e agarra-se à frase-de-
-salvação, inseguro, sorri porque se sabe ao contrário homem de sentido
prático, desfazendo-se do que o atravanca, buscando do que precisa.
Puxa a campainha, tem as mãos molhadas. Passa-as pelo cabelo que escorre
chuva. Belle é uma aparição vestida de negro, o cabelo loiro solto, liso. A
Sáurio aparece distorcida, como o corredor pulsante, e as paredes que recuam,
onduladas. Na sala, a mesa respira, bojuda, engordada, e o armário de portas de
vidro vibra, oscilando, até se harmonizar num movimento redondo. Depois
abranda-se um pouco a agitação. Belle faz-lhe um gesto amável para que se sente e
Sáurio deixa-se cair no sofá, esforçando-se por se manter social, sóbrio; sente
que vai entrar mais uma vez na zona obrigatória da verdade, mas que agora a
aposta é maior, há que tomar precauções das quais se sente, no momento,
incapaz.
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Afunda-se no sofá de couro, estudando a melhor posição dos braços — a melhor
posição defensiva — mas o cadeirão é, já de si, uma fortaleza. Sáurio acende o
cigarro, firme, como se fosse fruto de uma decisão muito pensada. Belle compõe-se
e começa suavemente, Sáurio recorda as profecias de Boris, sorri, está tudo
certo, ele tinha razão. Esta mulher é capaz de grandes coisas com razão de ser.
— O que dirá Boris da minha letra? — é capaz de o revelar pusilânime, enredado,
lento, pesado. Sáurio tem um súbito desgosto pela sua caligrafia que o pode
revelar assim, tal como ele se vê naquele momento, e medo de tudo o que o
desvende aos outros, a começar pelos olhos. Por isso fecha-os, mas abre-os
logo sentindo-se ridículo, pior que fraco.
— Sei que conhecia Leão — vai dizendo Belle — ele contou-me que eram colegas,
amigos? O que aconteceu ao seu lábio? Está muito magoado?
Sáurio esforça-se agora por manter os olhos bem abertos, abanando a cabeça sim
e não, para responder às sucessivas perguntas de Belle, que reforça:
— Quer beber alguma coisa?
— Obrigado.
Ela levanta-se, rodopia — mas que devagar! pensou Sáurio, como é que se
pode rodopiar tão lentamente? — e apresentou a Sáurio um copo cheio de
conhaque.
— Já agradeci — disse ele, estupidamente.
Belle sentava-se; Sáurio reparou que ela não se deixava cair, mas que se
sentava com rigor, calculando o ângulo e a força necessária a cada fracção de
movimento. Depois, estranhando o silêncio, Sáurio perguntou:
— O quê?
— Eu ainda não disse nada — respondeu Belle, e continuou: — Posso dizer-lhe o
que penso? Acha que Leão se suicidou? Também não me parece. Era mais de
matar que morrer, não era? Disto é que eu lhe queria falar.
Sáurio juntava os joelhos, imitando Belle, e reparou que as suas posições
eram quase imagens especulares uma da outra. Pensou em dizê-lo, mas Belle,
ainda indecisa, antecipou-se:
— Teria ele inimigos?
Sáurio começou a rir, do nervoso, mas também da pergunta, e Belle juntou-se-
-lhe num risinho contrariado primeiro, depois estendendo-se francamente cada vez
mais largo, acabando numa espécie de gemido.
Ficaram a olhar-se, a medir-se. Sáurio avançou:
— Eu acho que tu o mataste. O homem não se ia suicidar na garagem. Deste-lhe
uma droga e meteste-o no carro, e par causa de Fabrizio ainda por cima.
— Fabrizio? — perguntou Belle.
— Se calhar até te ajudou a transportá-lo.
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Belle calou-se. Parecia, na verdade, apanhada em falso. Depois lembrou-se,
estendeu o braço para pousar o copo:
— Mas eu nem sequer estava. É verdade que Fabrizio me escreveu, e que eu
lhe respondi, mas arrependi-me logo. Fui para casa de uns amigos, em Albufeira,
queria estar sozinha. Não acredita? Posso provar-lho?
Para Sáurio, a sala rodava lentamente. Suspeitava. Era como se estivesse quase
a lembrar-se de uma palavra adequada.
— Isso é falso, é inventado!
Belle saíra da sala, voltava agora, estendendo a Sáurio o postal que ele e
Boris tinham escrito, imitando a caligrafia dela.
— Tem a data do dia da morte de Leão. Quer ver?
Corrigira a data no carimbo, grosseiramente.
— Não prova nada.
Belle recolheu o postal, releu.
— Foi você, não foi? Fez-se passar por Fabrizio, não sei porquê, talvez para fazer
chantagem comigo, ou com ele? Ou então meteram-se num negócio qualquer,
Leão não resistia à clandestinidade. No me quer dizer o que se passou?
Mas não espera resposta nenhuma, Sáurio cala-se, as mãos pousadas nos joelhos,
os pés juntos, caricato, como um boneco de cera, pronto a ser levado em bloco para o
asilo, ou à cadeia. Belle aprecia a vitória sobre Leão, contemplando mais um
troféu: Sáurio derrocado.
— Leão gostava muito de jogos. Lembro-me de um, por exemplo, eu ainda o
conhecia mal; reunia amigos e fazia-me falar. Eu nessa altura ainda gostava de
falar, achava-me inteligente. E ele deixava-me dizer idiotices, encorajava-me,
todos se divertiam muito.
— Não finja que está a fingir — disse Sáurio. — Eu sei.
— Você tem a mania que é escritor, tem uma visão evasiva das coisas. Para
si, o principal é o “como se”. Eu vivi com Leão dez anos. Para mim o principal era
co- nhecer-lhe exactamente as brincadeiras, para me poder defender. Educou-me
numa grande severidade. Com ele tudo era falso, como estar sempre sentada ao
tabuleiro
— tudo o que se fazia era estratégico. Isso deu-me uma grande disciplina.
— Como é que isto vai acabar? — Belle dobrou a manga do vestido, estendeu-lhe
o braço com a palma da mão voltada para cima. Sáurio olhou-o, descobrindo
uma cicatriz quase invisível do pulso ao cotovelo.
— Já não se vê? Isto também foi ele, uma pequena experiência que fez comigo. Comi
tantas pastilhas para dormir que acabei por entrar toda inteira pelo vidro da varanda.
Sáurio lança-se para a porta. Atravessa o corredor a olhar para trás. Belle deixa-o
ir. Cá fora continua a chover. O que prova um postal ilustrado? Sáurio afasta-se
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depressa, imaginando o olhar do acusador dirigido à sua ânsia de dizer: a verdade
é esta, e admitir, confessar. Para depois escrever em paz, livre dos enredos.
No passeio, agarrado ao candeeiro, o rosto erguido, fechando os olhos, deixa-se
molhar. Parece-lhe o vulto de Boris a passar ao fundo da rua, Sáurio chama-o, segue-o,
estaca no cruzamento à procura. Nas várias multidões, é impossível encontrá-lo.
— Tanto tempo perdido! — diz Sáurio. E caminha de novo para a porta de vigia,
em frente da casa de Belle.

in O Gémeo Diferente, contos, Difel, 1984.


(Texto rescrito)

Este texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

Para aceder aos restantes contos visite: Biblioteca Digital DN

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