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Tione Echkardt

O M UNDO DE ERESHKIGAL
L.LIN C O LN
Text o: Tione Echkardt

Diagramação: Léo Lincoln

Digit alização: L.Lin c o l n

M arço de 2013

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Tione Echkardt

O M UNDO DE ERESHKIGAL

l .l in c o l n
E- BOOK

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Introdução....................................................................... 5

Os Gêmeos .................................................................... 7

A Curiosa Ereshkigal ...................................................... 9

Os Irmãos Enki e Ereshikigal ....................................... 12

A Viagem ...................................................................... 16

O Mundo Inferior ........................................................... 21

A Morte ......................................................................... 24

A Vida Pós-Morte .......................................................... 27

A Árvore Huluppu .......................................................... 31

A Árvore da Vida ........................................................... 34

Nergal e Ereshkigal ....................................................... 39

O Banquete ................................................................... 41

Ida ao Mundo Inferior .................................................... 46

O Encontro com Ereshkigal .......................................... 50

A Fuga .......................................................................... 55

O Retorno ..................................................................... 61
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Introdução
Ereshkigal era uma das grandes divindades sumérias, filha de Anu o
antigo senhor do Céu e Nammu, a senhora dos oceanos e irmã gêmea de Enki.
O seu nome significa "Senhora da Grande Habitação Inferior" ou ainda
"Senhora dos Vastos Caminhos", tal nome indica que é a rainha do inferno,
pois "vastos caminhos" tanto como "terras vastas" eram eufemismos para se
falar do Inferno, terra cujos caminhos são infindáveis e sem rumo certo. Assim,
Ereshkigal é a rainha de Kur-Nu-Gia "A Terra do Não Retorno".

Apesar de ser a rainha do inferno e governante dos demônios e dos


deuses obscuros, Ereshkigal é uma dos grandes deuses Anunnaki, a quem
Anu delegou o dever de ser a juíza das almas dos mortos. Ela é quem julga os
casos dos homens e mesmo dos deuses, mesmo depois de já julgados pelo
grande conselho dos 12 deuses, como aconteceu com Enlil, quando do seu
crime de violentar a jovem deusa Ninlil.

O motivo pelo qual Ereshkigal se tornou rainha do Inferno é de certo


modo obscuro, alguns unem sua figura a de Ninlil, de modo que, após ter sido
violentada, ela morre e então se torna a severa rainha do mundo inferior
passando a se chamar então Ereshkigal. Outros textos antigos sugerem que
por sua vontade ela abandonou o seio de Namu e partiu para descobrir o
destino de Kur e outros irmãos que partiram para além do Mundo das coisas
vivas, e lá chegando tornou-se a rainha dos deuses infernais.

Tinha sob seus serviços diversas divindades obscurar, entre elas,


Husbishag (sua secretária) e Namtar seu vizir e mensageiro, e deus do Destino
e da Sorte.

Os mitos dos quais Ereshkigal tornou-se uma deusas célebre por mitos
como o de seu casamentos com Nergal e a descida de Ninlil e de sua irmã
Inanna ao Inferno para recuperarem seus esposos. Certa vez, ao enviar
Namtar como seu representante para ter com Anu e os demais Anunnaki, foi
ofendida pelo jovem deus Nergal, que se recusou a reverenciar Namtar em
honra dela. Todos os deuses temeram pelo destino de Nergal, pois Namtar
contaria a sua senhora tamanha desfeita. Mas Nergal pouco se importou

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afirmando que não daria préstimo a uma deusa a quem nunca vira. Porém sua
impáfia durou até que Enki lhe advertir sobre o tremendo risco que corria, já
que os poderes de Ereshkigal eram imensos.Por conselho de Enki, Nergal
desceu ao Inferno para se desculpar e acabou apaixonado por para beleza
fulminante de Ereshkigal a quem julgava ser uma velha senil e horrenda.

No caso de Ninlil, anterior a Nergal, a donzela, mesmo ofendida e


violentada por Enlil, decide descer ao Inferno para convencer Ereshkigal a
devolver sua vida, já que ela no fundo o amava.

Por fim, foi a vez de Inanna (Isthar), de atravessar os nove portais do


reino do Inferno e ver a face de Ereshkigal. Inanna, por sua realiza, beleza e
nobreza, julgou que poderia enfrentar a irmã e exigir o retorno de Dumuzi, seu
esposo. Mas com mão de ferro, Ereshkigal submeteu Inanna a todos os tipos
de dor e humilhação diante de cada portal, nos quais era obrigada a se despir
de alguma jóias ou peça de roupa, até que chegou nua e humilhada diante do
trono da soberana infernal. Todavia a força do amor de Inanna causou tanto
temor em Ereshkigal e ela a impalou lavando-a a morte. Não fosse pela
intercessão de Enki, ao criar da sujeira sob suas unhas o belo mensageiro
Asushunamir, para interceder e resgatar Inanna, ela teria ficado morta para
sempre. Ele convenceu Ereshkigal a restituir a vida de Dumuzi e
Inanna.Ereshkigal também era chamada de Irkalla.

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Os Gêmeos

Foi há muitos e muitos milênios atrás, mas nos primeiros tempos, depois
que Anu, o Deus do firmamento, foi separado de Ki, a montanha cósmica e
Terra Mãe, sua esposa muito amada. Das esferas mais altas dos céus, as
lágrimas que Anu verteu por Ki desceram para encontrar as águas do mar de
Mãe Namu, que em seu seio, com carinho e compaixão, a inconsolável tristeza
de Anu acolheu. Do abraço, do consolo e do aconchego que o Deus do
Firmamento buscou nas águas profundas do mar, Namu fez nascer um casal,
um menino e uma menina, gêmeos perfeitos, a quem um destino maior estava
reservado. Ele, Enki foi chamado e ela, Ereshkigal.

À medida que o tempo passou, Enki e Ereshkigal cresceram com as


bênçãos da aurora da criação. Se terra firme era o lar e Enlil, o jovem Deus do
Ar, o melhor irmão que os gêmeos podiam desejar, era o mar o local preferido
para passar o tempo e inventar toda sorte de folguedos. Curiosos, alegres e
muitas vezes demonstrando uma sabedoria maior do que seus poucos anos,
irmão e irmã muito brincavam todo dia nas águas profundas do mar da Mãe
Namu. Mas enquanto Enki gostava de passar horas boiando na superfície das
águas, Ereshkigal preferia as profundezas do mar, mergulhando em todo lugar.

- Ereshkigal! Onde está você? Volte deste mergulho tão longo, certo? Por que
você tem de se esconder no fundo das águas quando há tanto para ver e fazer
aqui fora também? Perguntou Enki com um suspiro.

- Uma pergunta retórica, irmãozinho, sem dúvida, interviu Enki, com um sorriso
divertido do ponto onde o jovem Deus do Ar montava guarda sobre o Duku, a
montanha sagrada e câmara da criação, honrando assim o juramento que
fizera a Grande Deusa e Terra Mãe, Ninhursag-Ki. Ereshkigal vai voltar para
nós daqui a pouco. Pelo menos, eu posso muito bem passar alguns minutos
sem ter de responder a todos os inúmeros por quês e para quês de Erehkigal!

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- Isto eu ouvi, Enlil! Replicou Ereshkigal, aproximando-se rapidamente da costa
na crista de uma onda. E creio que não posso ficar impassível frente a esta
observação. Ao ataque!

Imediatamente, entre risos, Ereshkigal começou a reunir todos os


esforços para levantar uma poderosa parede de água e espuma para molhar a
rocha onde Enlil estava sentado. Tanto Enlil quanto Enki, que estava boiando
no mar, justamente no meio do caminho entre Ereshkigal e Enlil, alegremente
alarmados, buscaram alguma cobertura. Será que conseguiriam escapar da
zanga molhada de Ereshkigal desta vez?

O que, evidentemente, eles não puderam fazer. Com um sorriso


satisfeito, Ereshkigal, pingando água e tão fresca e saudável quanto as mais
límpidas fontes da água da terra, sentou-se aos pés de Enlil e Enki.

- Então eu faço perguntas demais, meus irmãos? Pois com certeza! Eu quero
saber e para saber eu devo primeiro perguntar. Pelo menos, é o que sinto que
devo fazer. Explicou pela milésima vez Ereshkigal, ignorando as expressões
divertidas e resignadas de Enlil e Enki.

Ela prosseguiu com confiança:

- Há todo um mundo novo dento do mar e creio que também no interior de tudo
o que existe. Não sei direito como explicar, porque este mundo que sinto existir
não é algo que se possa com as mãos pegar, como se faz no Mundo Físico ou
com as águas do mar. De alguma forma, porém, sinto este mundo intangível
dentro de mim. Ele é sutil e envolvente, intenso, mas não tão diferente do que
se passa aqui fora. De fato, é como se o mundo interior refletisse o mundo
exterior e vice-versa. Um dia, irei saber mais a respeito deste mundo novo.
Pois enquanto você, Enlil, faz os planos da criação e você, Enki, confere forma
e sentido exterior a estes mesmos planos, talvez o que me interesse, a minha
busca e jornada seja exatamente o intangível, a força interior que une planos,
formas e imagens em combinações de todas as sortes. Não sei ao certo como
explicar, mas deve existir um modelo interior que liga palavras, formas,
imagens e seres num todo e é este modelo que quero compreender. Como,
ainda não sei. Mas tenho uma vida pela frente para descobrir.

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A Curiosa Ereshkigal

Uma sombra ligeira obscureceu a face sorridente e interessada de Enlil.

- Às vezes, bem que eu queria ver o mundo da forma com que o vê, Ereshkigal,
para explicar o inexplicável. Vejamos Kur, por exemplo, e nossos irmãos e
irmãzinhas que o seguiram aos confins do mundo. Por que eles são tão
diferentes de nós, por que eles abandonaram a segurança do Duku, a
montanha da criação, por que eles nos deixaram, indo para além das águas da
Mãe Namu, mudando-se para tão perto de onde não queremos ir?

- De novo preocupado com Kur e os Guardiões das Trevas, Enlil? Por que você
não os aceita pelo que são, energia pura, sem reconhecer controles ou limites?
Perguntou Ereshkigal.

- Ah, Ereshkigal, se tivesses visto Kur e os outros, entenderias a minha


preocupação. Eles são tão diferentes de nós, tão instáveis e zangados.

- Mas por que teríamos de ser todos iguais, Enlil? Observou Ereshkigal.
Sinceramente, basta olhar para ver que somos todos bem diferentes em forma,
apesar de algumas semelhanças na aparência. Mas há alguma coisa mais que
todos compartilhamos e é nela em que todas as diferenças se fundem ou
perdem o sentido, não sei bem ainda como explicar, porém. Posso estar
bastante errada, Enlil, mas acho que se fixarmos a atenção em alguns detalhes
exteriores, podemos correr o risco de perder outros detalhes que, apesar de
não serem tão evidentes, conferem significado maior ao todo. O que existe no
interior pode, quem sabe, também revelar e completar o exterior, basta saber
procurar. E creio que isto vale para tudo o que existe, uma pedra, uma planta,
um animal e para nós também.

- Sábias palavras, irmãzinha! Eu creio que algumas vezes levo demais a sério
o meu compromisso de zelar pelo bem-estar de toda a terra, concordou Enlil.
Mas amando a terra e a todos os meus irmãos, por tê-los visto nascer na
aurora da criação, eu gostaria de entender Kur e todos os outros. Seja como
for, eu, com toda certeza, mesmo se pudesse, não gostaria de visitar o lugar

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onde Kur e os outros escolheram viver. Onde quer que seja este lugar.
Concluiu Enlil.

- Sabem de uma coisa? Disse Ereshkigal, depois de pensar por alguns


minutos. Eu tenho muita curiosidade a respeito de tudo aquilo que não
conheço. Também não tenho receio do que ainda não sei, pois como poderia,
se outras realidades ainda não experimentei? Gostaria de conhecer melhor até
mesmo este Kur difícil de entender, Enlil. De fato, eu estou muito curiosa a
respeito de Kur e dos confins do mundo, onde ele se refugiou. Onde ficam os
confins do mundo, a propósito? Onde começa o Mundo Subterrâneo, talvez?

- Ninguém, só Kur e os outros foram aos confins do mundo, portanto não sei
lhe dizer, respondeu Enlil com franqueza. Também creio que onde o Mundo
Físico termina, começa o Mundo Subterrâneo. Mãe Namu disse que as
Grandes Profundezas se estendem tão alto quanto o firmamento e vão tão
fundo quanto as águas do mar e além.

- Que maravilha! Um novo mundo onde ninguém jamais foi ou sobre o qual mal
se sabe a respeito. Encantou-se Ereshkigal.

- Ah, irmãzinha, algumas vezes eu gostaria que mostrasses mais respeito pelo
que ainda não sabes ou conheces. Só por segurança. Suspirou Enki.

- Mas eu tomo os meus cuidados. Mesmo perguntadora e curiosa como sou, eu


não corro riscos desnecessários.

Mas não acho que Kur e o Mundo Subterrâneo, as Grandes


Profundezas, sejam um risco tão perigoso assim. Ereshkigal pensou, mas
guardou esta observação para si. Diferentes do usual, por isso, desconhecidos,
isto sim, mas perigosos, será? Não é o que eu sinto e como gostaria de
descobrir um dia!

E assim foi que Ereshkigal, a filha de Namu, as Águas do Mar e da


saudade que Anu, o firmamento, sentiu por Ki, a irmã adorada e grande
companheira de todas as horas e folgas de Enki, cresceu com o desejo de

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conhecer o desconhecido e descobrir os meandros de padrões não explícitos.
Todos os dias, ela e Enki saíam para brincar e explorar o mar e ao voltar,
Ereshkigal tinha sempre que a respeito de tudo e todos a Enlil perguntar. A
cada dia, Ereshkigal mergulhava mais e mais fundo, nadava distâncias
maiores, cada vez mais se aproximando da linha do horizonte e dos confins do
Mundo Físico. Ao voltar, pois Ereshkigal sempre voltava, ela estava quase
sempre fisicamente cansada, mas cheia de energia e paixão pelos mundos que
percebia existir além da superfície da percepção. Mais do que nunca, outras
tantas perguntas também se formavam na mente curiosa de Ereshkigal, mas
responder todas não era mais a prioridade e desafio maior.

Antes, eu queria todas as respostas, como se Saber fosse o Fim e não o


Meio. Raciocinava Ereshkigal. Agora, quero todas as perguntas, quero a Eterna
Aventura de Descobrir e que esta Aventura nunca acabe, enquanto eu viver, tal
qual um caleidoscópio de cores e formas, sempre girando e formando
combinações de todas as sortes. Conhecimento é uma ferramenta, mas o que
realmente importa é o fogo espiritual que dá sentido ao que se aprende ao se
fazer as perguntas certas, ao se colocar em ação no mundo o que se pensou e
descobriu para construir. Ah, como eu quero jamais deixar de fazer perguntas e
me maravilhar ante as respostas que conseguir revelar!

Ao mesmo tempo, uma certeza maior também crescia dentro de


Ereshkigal, sobre a qual ela também calava, com receio de Enki e Enlil magoar.

Algum tempo depois, num belo dia, Ereshkigal escolheu não mais
retornar ao Mundo Físico.

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Os irmãos Enki e Ereshkigal

Nos primeiros dias depois que Ereshkigal, a filha de Namu, as águas do


mar que deram origem à vida e de Anu, o Deus do Firmamento, desapareceu
do Mundo Físico (levada por Kur ou por sua própria escolha), Enki, seu irmão
gêmeo, mal podia suportar a dor da separação de sua mais querida
companheira de todas as horas e melhor amiga.

- Vamos, Enki, anime-se! Repetiu Enlil, o Deus do Ar, pela centésima vez
aquele dia. Você não pode se deixar abater tanto assim pela falta de
Ereshkigal. Quem sabe, mais dia, menos dia, ela há de voltar para nós.

Faltava, porém, convicção às palavras de Enlil. O desaparecimento da


irmã mais nova, sempre tão curiosa e alegre, também era um grande peso no
coração do jovem e poderoso Deus do Ar. Mas o que fazer se Ereshkigal tinha-
se aventurado para muito além dos limites conhecidos?

Desta vez, Enki olhou para Enlil, com a face pesada de tristeza:

- Você não pode fazer algo para trazer Ereshkigal de volta?

- Mas fazer o que, irmão?

- Seja o que for que tiver de ser feito para trazer Ereshkigal de volta! Você pôde
separar mãe Ninhursag-Ki de nosso pai, Anu, o Deus do Firmamento? Por
favor, irmão, crie o que for preciso para resgatar Ereshkigal!

Enlil considerou a questão por um longo momento, para depois levantar


olhos conturbados na direção da linha além do horizonte, para onde Ereshkigal
tinha desaparecido:

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- Não posso. Para onde Ereshkigal foi, fica além dos limites que posso trilhar.
Sou o guardião da terra, Enki, por promessa feita à Mãe Ki, portanto não posso
deixar o Mundo Físico por outros mundos ou reinos. Este é o meu dever, a
responsabilidade que assumi depois de ter separado Mãe Ki de nosso pai Anu.
Mas você pode ir onde quiser, Enki, onde for preciso para resgatar Ereshkigal.
Além do mais, o laço que existe entre gêmeos perfeitos é muito forte. Você e
Ereshkigal são gêmeos perfeitos, em tudo semelhantes, apesar das diferenças
no exterior. Se alguém pode resgatar Ereshkigal, esta pessoa é você com
certeza, irmão menor. Não importa onde ela tiver ido.

- Mas como poderei trazê-la de volta?

- Na hora certa, você saberá como. Respondeu Enlil.

O mundo era tão jovem, Enki mais jovem ainda. Pelo menos Enlil
esperava com sinceridade que Enki achasse uma forma de trazer Ereshkigal
de volta.

- Então devo aprender o que for preciso para trazer minha irmã de volta para
todos nós. Como eu queria ter uma pista do que devo saber.

Enlil suprimiu um suspiro de profundo alívio. Ele temera perder Enki


também para as profundezas do desespero e da desesperança. Mas seus
receios pareciam não ter mais fundamento. A curiosidade sem limites de Enki
tinha sido despertada, ele estava entrando em contato com o mundo
novamente.

- Enquanto você vai aprendendo o que deve fazer para resgatar Ereshkigal, eu
bem que poderia contar com a ajuda do meu irmão menor favorito. Continuou
Enlil, torcendo para estar usando as palavras certas para incentivar Enki, sem
forçá-lo demais.

Enlil continuou:

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- É verdade que a minha Palavra é lei, que delas fiz uso para atribuir nomes
aos Anunaki, os Deuses e Deusas nossos irmãos e irmãs, quando eles
deixaram a montanha sagrada da Criação, o Duranki, como sabes, Enki. Mas
atribuir nomes a tudo o que existe não é o suficiente. Há muito mais coisas
dentro do que chamamos de vida e seres vivos do que o simples e auspicioso
fato de Existir. Eu realmente preciso de ajuda para organizar este Mundo Físico
tão novo, para que ele seja seguro para todos nós.

- O que você quer dizer com isto, Enlil? Perguntou Enki, a sua antiga
curiosidade por sempre saber e aprender de novo estimulada.

Enlil sorriu por dentro:

- O que e como, irmão, creio que nós dois devemos e podemos descobrir
juntos.

Enki ergueu-se do chão, considerando o pedido de Enlil, a confiança que


o jovem e poderoso Deus do Ar estava demonstrando para com ele. Uma onda
de sentimentos conflitantes, assombro e alegria, tomou conta de Enki. Se Enlil
o considerava capaz de fazer estas coisas tão importantes, como trazer
Ereshkigal de volta e ajudá-lo a organizar os poderes do Mundo Físico que
estavam se formando, então Enki não poderia se furtar de tentar satisfazer às
expectativas de Enlil. E às suas próprias também.

- Todos viemos de Mãe Namu, as Águas profundas do Oceano, Enki falou,


pensativo. Água, a essência de minha natureza e de Ereshkigal também, pode
ser moldada em formas infindáveis, dependendo do receptáculo, sem,
entretanto, jamais perder a sua essência. Talvez a vida devesse ser vista como
uma eterna modelagem, sempre se formando, evoluindo e mudando para
permitir incontáveis possibilidades. Não como um plano pré-concebido, mas
como um processo e meta à medida que a existência se desenvolve. Assim
como eu mesmo devo aprender, evoluir e crescer para um dia (logo, espero!),
resgatar Ereshkigal. Raciocinou também Enki, mas calou a respeito destes
seus últimos pensamentos.

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- A vida e o ato de existir como Processo e Meta! Sim, Enki, você pode ter
muita razão nesta sua forma de ver as coisas! Exclamou Enlil, surpreso,
intrigado e feliz. Como sempre, ele não cessava de admirar a grande
capacidade de Enki para entender todas as realidades e visualizar todas as
possibilidades.

E assim foi feito. Ao que Enlil conferia Nome pelo poder de sua Palavra,
a habilidade de Enki conferia Forma, Significado e Identidade. Enki, o filho de
Namu, as Águas do Oceano e de Anu, o Deus do Firmamento, transformou-se
em Nudimud, o Criador de Imagens, Senhor das Formas Arquetípicas, o
Patrono de Todas as Artes e Profissões. E a ele, foram dadas também todas as
águas doces que fertilizam o solo e que vêm de dentro da terra, chamadas
Apsu.

Quando muitas das artes da civilização haviam sido criadas, quando os


Anunaki estavam aprendendo e ensinando a arte de tirar das águas doces e
salgadas alimentos e produtos de que precisavam para sobreviver, Enki retirou-
se para a região sudoeste da Terra Entre os Rios, onde havia encontrado uma
lagoa de águas profundas do mais puro azul cercada de palmeiras. Perto, uma
povoação chamada por Enki de Eridu estava sendo construída. Mas Enki
passava mais tempo na lagoa do que na vila, achando tempo mesmo apesar
de estar administrando o trabalho laborioso de construção dos primeiros
templos e habitações feitos de juncos trançados e tijolos de barro.

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A Viagem

Enki buscava a silenciosa companhia da lagoa e dos pântanos para


pensar sobre como poderia finalmente cumprir a promessa que tinha feito a si
mesmo para resgatar Ereshkigal de onde quer que ela tivesse ido.

Ereshkigal era uma exímia nadadora, tanto é que foi até os confins do
mundo e além, conjeturava Enki durante seus longos passeios. Se quero
resgatá-la, devo encontrar uma forma de cruzar os mares, ir além de todos os
oceanos. Nadando ou não.

Durante seus longos passeios, ele apenas parava perto dos Grandes
Juncos para ver o trabalho diligente e incansável de uma jovem Deusa
Anunaki, chamada Ningikuga. Esta donzela quieta e habilidosa tinha ensinado
à humanidade a arte de trançar juncos para fazer cabanas para morar e adorar
aos Deuses. De junco trançado e argila, foram criados os primeiros templos e
moradias, concebidos pela arte de Ningikuga. E ao olhar a forma com que
Ningikuga trançava os longos juncos, com perfeita paciência, técnica e
diligência, Enki sentiu que tinha finalmente encontrado o que precisava para ir
atrás de Ereshkigal.

- Irmã Ningikuga, Deusa dos Juncos Sagrados, eu peço a tua permissão para
cortar alguns de teus juncos mais resistentes e sob a tua proteção tentar
construir uma estrutura que possa me carregar sobre as águas mais perigosas
e os mares mais bravios. Somente com uma estrutura deste tipo, creio, poderei
partir para resgatar Ereshkigal. Disse Enki um dia à Ningikuga.

Ningikuga olhou para os Grandes Juncos ao longe, às margens da lagoa


e além, contemplou com orgulho o resultado de longas horas de trabalho e
dedicação, as casas e templos da pequena aldeia de Eridu. Ela voltou-se então
para Enki. Como artesã, ela entendia Enki melhor do que ninguém. Ela sorriu
para o Deus das Águas Doces, das Artes e da Mágica:

- Então meu irmão ainda não desistiu de resgatar Ereshkigal de volta para
todos nós? Tudo o que estiver ao meu alcance, todos os juncos que quiseres
Enki, eu colocarei a tua disposição para esta grande tarefa. Corta os juncos

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mais longos e resistentes, trança-os e faz com eles uma estrutura que flutue na
superfície de tudo o que fluir, águas, córregos, rios e mares. Procura também
madeira de cedro, resistente e forte, para juntá-la aos juncos sagrados. Com tal
estrutura, tenho certeza, forte e resistente, irás a todos os lugares, cruzarás os
mais bravios rios, oceanos e mares!

- Ah, irmã, já posso ver de antemão a forma que esta nova e revolucionária
estrutura irá tomar! A voz de Enki vibrava, cheia de entusiasmo, inflamada pelo
fogo da criação. Sim, já consigo ver claro em minha mente a estrutura à qual te
referes: algo que flutue nas águas, leve, mas resistente, capaz de carregar um
homem e tudo o que ele precisar para uma longa jornada! A esta construção,
darei o nome de barco e que ele se desloque sobre as superfícies das águas,
desde as mansas às mais bravas! Movido por longos bastões aos quais
chamarei remos, esta estrutura especial, o primeiro barco da criação cruzará
todas os lagos, rios e mares, retornando, se quiser, ao ponto de partida ou
seguindo para outros rios e mares dantes não navegados. Que o primeiro
barco feito por mim se chame Magur, de linhas longas, de proa e popa em
forma de curva, tal qual o pescoço de um cisne. Ah, Ningikuga, creio que
encontrei o que preciso para finalmente poder com toda segurança ir resgatar
Ereshkigal!

Ningikuga riu, contagiada pelo entusiasmo de Enki:

- E quando tiveres construído o que chamaste de barco, quando estiveres


pronto para partir, eu chamarei nossos irmãos e irmãs, os Anunaki desta área,
para abençoarem a tua jornada!

Usando toda sua habilidade, Enki construiu o barco Magur, todo feito de
juncos e madeira de cedro. Com suas formas curvadas e elegantes e mastro
imponente, este foi o primeiro barco construído em todos os mundos. Enquanto
Enki trabalhava com diligência e empenho, muitos dos irmãos e irmãs Anunaki
vieram vê-lo. Enki ouvia os conselhos e comentários, agradecia-os, mas não se
afastava de sua concepção inicial para o barco Magur.

Porque não é apenas o barco que está sendo aprontado ao longo de


todo este processo, pensava Enki. Ao longo deste tempo, também estou

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juntando forças, preparando-me para enfrentar Kur e o Mundo Subterrâneo por
amor a Ereshkigal.

Finalmente, um dia o barco ficou pronto para zarpar. Pronto também


estava Enki. Fiel à sua promessa, Ningikuga chamou todos os Anunaki da
região de Eridu para abençoarem ao barco e a Enki na jornada até os confins
do Mundo Físico e Além. Com carinho, Enki beijou Ningikuga, e prometeu
voltar para ela, um destes dias.

O barco, entretanto, não tinha tripulação, apenas Enki aos remos.


Nenhum outro Anunaki ousara acompanhar o Deus das águas doces, das artes
e da mágica. O barco Magur partiu, apenas com Enki. Estranha era a sensação
de cruzar as águas da lagoa, como ninguém antes o havia feito em todos os
mundos. E à medida que remava na direção do oceano, deixando as várzeas
da Terra Entre os Rios, Enki sentiu a ansiedade crescer, mas no fundo também
cresceu o desejo de vencer, não importa o que preço que tivesse de pagar.

Mesmo se não conseguir o meu objetivo, irei tentar mesmo assim,


pensava Enki. Estar aqui já é uma vitória. Não importa o quanto viver, este dia,
este momento sempre serão meus.

Remando sempre em frente, Enki passou pelas costas estéreis do


deserto, que ainda esperavam o beijo do sol. Ele passou por praias ladeadas
de palmeiras e coqueiros dos mares do sul, seguindo na direção do mar aberto.
Enfrentando as mais altas ondas, velejando por águas congeladas, sempre em
frente, seguia remando o Deus das Águas Doces.

Não importa a direção que eu tomar, raciocinou Enki, pois o Mundo


Físico deve acabar em algum lugar e onde for este lugar, mais cedo ou mais
tarde eu irei com certeza encontrar.

Como se tivesse convocado os poderes do desconhecido com a sua


vontade de achar a entrada para as Grandes Profundezas, imediatamente um
vento forte começou a soprar, seguido por uma chuva de pedras. Os céus
pareciam ter-se convertido em cascalhos finos e pontiagudos, tal a intensidade
da saraivada de granizo que atingiu Enki em cheio. Ele teve de agarrar-se à

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proa, na tentativa desesperada de proteger a cabeça entre os braços para
resistir ao ataque dos céus. Ao mesmo tempo, como lobos famintos, ondas
enormes ergueram-se para devorar a quilha e a proa do barco Magur, seguidas
de outras ondas ainda maiores, que se chocaram contra a popa da
embarcação como se fossem leões furiosos. Entretanto, não foram suficientes
para virar de cabeça para baixo a embarcação de Enki.

Durante todo ataque dos elementos, Enki comandou a sua mente, seu
coração, corpo e espírito a manter a calma e o equilíbrio. O desconforto físico e
o medo que ameaçavam paralisar Enki por completo tinham de ser dominados.

Onde há medo, há poder e não posso deixar este poder me dominar,


repetia Enki para si mesmo sem cessar, como um mantra.

Com determinação, Enki tentou esquecer as emoções em conflito, a


dormência nos braços, a dor dos filetes celestes sobre o seu corpo. Quando ele
estava quase para se render à força dos elementos, um estranho silêncio e
trevas profundas se manifestaram de repente. O barco Magur também parou.

Enki finalmente pôde erguer a cabeça e pôr-se de pé. O que viu, fê-lo
piscar uma, duas vezes. As águas eram tão escuras e calmas, como se a noite
estivesse no mar e não mais nos céus. Mas novamente este foi só um breve
momento, pois em seguida uma coluna de fogo ergue-se no ar, aproximando-
se do ponto onde estavam Enki e o barco Magur.

Um poderoso desafio tinha-se anunciado. Fogo era o poder contrário à


essência de Enki, o poder das Águas. Uma muralha de fogo poderia impedi-lo
de seguir em frente. De fato, água podia extinguir o fogo e vice-versa, mas qual
era a vantagem de lutar contra algo que em força equivalia à própria essência
elementar de Enki?

O que água e fogo têm em comum dentro de mim? Como o contrário


pode se tornar complemento e cooperação, para que eu possa passar pela
coluna de fogo em igualdade de condições? Raciocinou freneticamente Enki.

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O jovem Deus das águas doces, das artes e da mágica mergulhou então
firme na essência de seu próprio ser para encontrar o ponto onde a água
podia-se encontrar com o fogo, sem que nenhum deles consumisse um ao
outro. Ele então impeliu o barco para frente, entoando um verso que veio de
dentro da sua mente, corpo, coração e alma:

Eu sou o poço da verdade que traz iluminação, sou aquele que dispersa
as trevas do espírito. Sou agora e sempre a forma que tudo transforma, pelo
fogo da mente criativa em ação, sou a luz interior do fogo interior que dá brilho
e substância a tudo o que existe!

20
O Mundo Inferior

Deu certo! Quase a contragosto no início, o barco Magur começou a se


mover, e Enki viu-se atravessando a coluna de fogo sem se queimar.
Entretanto, ele não teve tempo de se regozijar pelo sucesso, pois de imediato
uma voz trovejou à sua frente:

- Bem-vindo aos Portais das Grandes Profundezas, filho de Namu!

A voz clara e trovejante só poderia pertencer a alguém: Kur. Enki


encheu-se de coragem e perguntou:

- Se me conheces e se sabes quem sou, só podes ser Kur. Responda-me


então: onde está minha irmã? Para onde a levaste? Eu vim para levá-la de
volta às Esferas Superiores, seu verdadeiro lar.

- Veio mesmo? Foi a resposta irônica de Kur. Veremos ou melhor, você, meu
Deus, verá na hora certa que talvez as coisas tenham mudado um pouco
desde a última vez que viu Ereshkigal.

Kur continuou depois de alguns segundos, para dar maior efeito às


palavras:

- É meu dever, porém, como Guardião do Portal de Entrada do Mundo


Subterrâneo neste momento, perguntar-lhe: é seu desejo prosseguir, mesmo
não sabendo do desfecho de sua jornada? Ainda há tempo para voltar às
Esferas Superiores.

- Fui longe demais agora para voltar sem pelo menos ver Ereshkigal,
respondeu Enki. Leve-me até ela!

21
Mas havia algo na atitude de Kur que fez Enki pensar pela primeira vez
no inconcebível para ele. Porque talvez o tempo tivesse passado e Ereshkigal
estivesse perdida para as Esferas Superiores. Com um vigoroso sacudir de
cabeça, o jovem Deus afastou esta possibilidade. Mas no fundo, Enki estava
começando a se dar conta de que talvez nem tudo pudesse ser mudado.

Se é verdade que tenho o poder de dar forma e significado a tudo o que


existe, pode haver casos em que eu não possa desfazer o que já foi feito ou
existe. Pensou Enki, alarmado pela direção que estavam seguindo seus
pensamentos. Seja como for, não posso voltar mais atrás. Pelo menos, sem
encontrar Ereshkigal e saber o que realmente ela quer, ficar aqui ou partir
comigo.

Uma coisa, porém, era certa: Kur era também seu meio-irmão, que além
do mais, sabia onde estava Ereshkigal. Ele tinha se apresentado como
Guardião de Ereshkigal. Talvez Kur pudesse levá-lo até ela.

- Ainda não mudei de idéia. Quero ver Ereshkigal, disse ele.

- Todos os que vêm às Grandes Profundezas encontram nossa Grande


Rainha. Quando? Aí depende.

O barco Magur começou a se mover na direção da costa, como se


tivesse vontade própria. Enki manteve-se ereto e digno na proa, pois sabia que
estava sendo minuciosamente observado.

- Para entrar, porém, no Mundo Subterrâneo, todos devem deixar qualquer


arma ou escudo para trás. Todos devem entrar aqui da mesma forma com que
nasceram nas Esferas Superiores: não carregando arma alguma, mas com a
vontade de crescer e fazer algo novo, mesmo que não saibam ainda o quê.

Enki tentou prosseguir, mas uma espécie de paralisia tomou conta do


seu corpo, apesar dele tentar se mover.

22
- Estas são as regras, meu Deus. Sem aceitá-las, os portais do Mundo
Subterrâneo jamais se abrirão. Decida agora ou volte para onde veio.

Nas Esferas Superiores, a primeira respiração, a primeira noção do


mundo e da vida ao redor, Enki havia compartilhado com Ereshkigal. Por ela
ele tinha construído o barco Magur, por ela ele havia descido aos confins da
existência. Mais uma vez, por Ereshkigal, Enki despiu-se para chegar ao
Mundo Subterrâneo tal qual havia um dia nascido no Mundo Físico. Se esta
fosse a lei do Mundo Subterrâneo, que Enki a cumprisse da melhor forma
possível.

Portanto, nu como um recém-nascido, deixando de lado qualquer sinal


de status divino, Enki colocou os pés na costa do Mundo Subterrâneo. Assim
que seus pés tocaram a areia escura e grossa, uma poderosa sensação de
desorientação tomou conta dele, como se cada aspecto e fragmento do seu ser
estivesse minuciosamente sendo revertido, revisado e examinado sob intenso
escrutínio. Ele se sentiu muito vulnerável, pois tudo o que havia pensado ou
considerado verdade absoluta foi desafiado, analisado de todas as formas, de
dentro para fora, de baixo para cima. A sensação era totalmente avassaladora,
como se novos limiares de conhecimento e experiência tivessem se aberto
para ele. Enki segurou a cabeça com firmeza, esperando apenas ser capaz de
resistir à enorme pressão que vinha de dentro dele e do universo interior.

- Não lute contra a sensação, Enki ouviu uma voz grave e melodiosa soar
estranhamente calma nas trevas. Você irá se adaptar à experiência do Mundo
Subterrâneo logo, logo. Lembre-se, porém, da regra básica: se sua alma é
pura, então os seus contatos aqui serão harmoniosos e irão fazê-lo completo.
Mas se você vem com medo, raiva e tudo o que for negativo ou desequilibrado,
você terá então de enfrentar as sombras do seu coração, corpo, mente e alma
antes de encontrar regeneração, cura e equilíbrio.

Alguns minutos ou talvez uma eternidade depois, Enki pôde levantar a


cabeça sem senti-la rodar. Ele deixou seus olhos e sentidos absorverem a
paisagem à sua frente. Sob seus pés, a areia escura e grossa brilhava aqui e
ali. Em cima, o firmamento tinha o mistério do crepúsculo. Enki não sabia de
onde vinha a fonte do brilho sutil que vinha daquele céu. Não havia estrelas no
Mundo Subterrâneo, mas a luz parecia vir de dentro da própria terra. Em frente,
ele podia ver o contorno de uma grande construção toda de lápis lazuli e cristal,
provavelmente um templo ou palácio.

23
A Morte

Mas o que impressionou Enki foram as formas fantasmagóricas, de


todos os tipos e jeitos que ele via ao seu redor, algumas muito ocupadas,
sabendo o que faziam (seja lá o que fosse!), outras parecendo andar a esmo.
Seres descarnados, amontoados de ossos que se movimentavam e se Enki
pudesse usar o termo, parecendo estar vivos. Finalmente, Enki voltou-se na
direção da Voz que o havia saudado. Uma figura alta e silenciosa, toda vestida
de preto e com um grande capuz, estava à frente dele. A face da figura estava
escondida. Mesmo sem poder ver seu rosto, a Figura fez Enki calar-se de
imediato, assumir uma atitude de cautela e respeito que surpreendeu o
carismático jovem Deus. Nunca antes deste momento ele tinha encontrado
uma aura tão grande de autoridade e seriedade. Enki engoliu em seco antes de
falar:

- Talvez eu deva me apresentar à Presença que está me recepcionando nas


Grandes Profundezas, disse Enki.

Presença era um termo ao mesmo tempo ambíguo e apropriado para


endereçar à figura descarnada, ao conjunto de ossos vestido que estava na
frente dele.

- Eu sei quem você é e por que você veio ao Mundo Subterrâneo também.
Você deixou bem claro que quer levar sua irmã Ereshkigal às Esferas
Superiores, continuou a Voz. Mas como pode você ter certeza de que ela quer
realmente retornar com você? Faz muito que vocês não se vêem. É bem
possível que ela considere as Grandes Profundezas o seu lar agora e não mais
o Mundo Físico.

A objetividade direta e firme da Presença tanto chocou quanto


impressionou Enki.

- Eu conhecia Ereshkigal como a minha própria alma, replicou Enki, mas parou,
antes de expressar o que realmente pensava e talvez ofender a Presença.

24
- E conhecendo a sua alma, você não quereria viver no Mundo Subterrâneo,
não é verdade, Deus Enki? Completou a Presença, como se tivesse lido os
pensamentos que Enki não tinha ousado enunciar. Mas todos aqueles que
vivem vêm ao Mundo Subterrâneo ao final de seu ciclo de vida no Mundo
Físico. Todos, sem exceção. Com um gesto amplo, a Presença apontou para
as criaturas fantasmagóricas, os amontoados de ossos descarnados de todos
os tipos e formas que Enki via andando pelo Mundo Subterrâneo.

- Todos os seres vivos vêm a esta esfera no final de suas vidas? Repetiu Enki,
pensativamente. Portanto, todas estas presenças estão mortas?

Ele sabia que tinha feito uma pergunta retórica no momento em que as
palavras saíram de seus lábios. A Presença permaneceu em silêncio, mas de
certa forma, Enki não achou a reserva dela assustadora.

- Não havia pensado muito na morte até este momento. Evidente que ele sabia
que a morte é algo que acontece aos vivos, às plantas e animais, mas não
necessariamente aos Grandes Deuses.

- O que você experimentou ao chegar ao Mundo Subterrâneo? Perguntou a


Presença, com calma.

- Desorientação, desafio, intenso escrutínio de tudo o que fui e sou, minhas


crenças, valores e ideais. Mas espere! Você está dizendo que eu também morri
ao colocar meus pés nesta terra?

Houve uma alteração na face da Presença. Seria este um sorriso?

- Você também renasceu aqui. O Mundo Subterrâneo é a Realidade Interior


que dá substância a tudo o que foi, é e será em todos os mundos. Ele é a
esfera da essência, onde a vida e a morte se encontram e se fundem uma na
outra. Aqui, a vida e a morte são ao mesmo tempo ritmo e transformação,
mostrando a relação estreita entre a Energia de tudo o que foi um dia Forma,
para que todas as Curas e Regenerações possam ocorrer. Você, meu Deus,
que pelo seu dom confere a tudo o que existe o Conhecimento Potencial

25
daquilo no que todos os seres podem se transformar, se assim o quiserem,
também deve saber que este Conhecimento é muito raramente concretizado no
Mundo Físico, sendo a causa de ódios, problemas e frustrações. Portanto, ao
final de seus ciclos de vida, todos os seres vivos vêm ao Mundo Subterrâneo
para alcançar Equilíbrio e Justiça. Lembre-se, meu Deus, que da vida
sobrevêm à morte e que a morte cede lugar à vida, assim como o jovem se
torna velho e o velho, se bem viver, jovem no espírito. Desta forma nós, nas
Grandes Profundezas, estamos sempre ligados às Esferas Superiores como
parte do fluxo de criação e dissolução que nunca termina.

- E como isto ocorre?

- O que era Forma torna-se a Energia do que Foi, enquanto que a Essência se
reconstrói na força do que poderia ter sido, o tom de voz da Presença tornou-
se extremamente gentil e positivo. Viver é bem mais do que satisfazer as
necessidades básicas do corpo, pois deve também levar em conta a realidade
do espírito. Se todos os seres vivos se dessem conta deste fato tão simples,
então talvez ser-lhes-ia possível ver suas existências no Mundo Físico tanto
como processo e meta, sempre evoluindo e transcendendo ao que um dia
foram. Pois a vida não é um plano pré-estabelecido, mas uma semente de
transformação, contendo dentro de si todas as possibilidades para se
concretizar no Mundo Físico, sempre guiada pelo Espírito que a tudo dá
significado e fulgor.

Fez-se então silêncio e Enki foi tomado por profunda emoção. Uma
lágrima quente e solitária correu pela face do Deus das Águas Doces, das
Artes e da Mágica. Então ele, num ato de vontade, alterou o seu estado de
consciência, transformando a Energia do que e quem ele via à sua frente nas
Formas do que estes tinham sido, eram e seriam em todos os mundos. O
Mundo Subterrâneo então se transformou na imagem do Paraíso Restaurado,
o Mundo Físico Original, que também contém as estrelas.

26
A Vida Pós-Morte

Enki dirigiu-se a Presença com profundo respeito e admiração,


reconhecendo-a por quem ela realmente era:

- Irmã adorada, Ereshkigal, eu te saúdo e te peço humildemente perdão por


não ter-te reconhecido antes deste momento.

De fato, quem estava sorrindo para ele não era mais o amontoado de
ossos descarnado e projeção dos piores medos que se pode ter a respeito da
vida após-morte, mas sim uma jovem mulher de idade indefinida, de longos
cabelos negros, toda vestida de preto e prata, a quem Enki conhecia tão bem
quanto a sua própria alma. Os dois irmãos se abraçaram com grande carinho.

- Compreendes tudo agora, Enki? Falou Ereshkigal quando o abraço terminou.


Por que meu lugar é aqui, por que não posso retornar contigo às Esferas
Superiores? Eu me tornei numa das Grandes Guardiãs. Esta foi a minha
escolha. Pai Anu é o Guardião do Firmamento, Ninhursag-Ki de tantos nomes é
nossa Terra Mãe, Enlil zela por ela e pelo Ar que respiramos. Tu, Enki, guardas
também as Águas Doces, as Artes e a Mágica. Eu escolhi o Mundo
Subterrâneo. Havia uma grande necessidade de uma Presença aqui. Muitos
vêm a esta Esfera com tanta dor e tristeza, sentindo tanta falta do que nunca
experimentaram ou conseguiram atingir no Mundo Físico. Estes seres precisam
aprender muito a respeito do equilíbrio e da cura. Eu estou aqui para assegurar
que todos os que buscam pela essência além da aparência irão encontrá-las,
se estiverem dispostos a desnudar e refazer suas almas para encontrar os
tesouros que antes não tiveram capacidade de encontrar no Mundo Físico.
Tantos não conseguem ver no Mundo Subterrâneo como a Esfera da Justiça e
do Equilíbrio Restaurados. Como tu mesmo, Enki, que ao chegar viu, apenas
figuras fantasmagóricas e feias, a vida aqui como trabalho duro e lágrimas.

- Ah, irmã, não é demais tentares equilibrar tanta dor pelas Esferas Superiores
antes que a cura e a regeneração possam acontecer? Perguntou Enki, tomado
de assombro pela responsabilidade que Ereshkigal tinha assumido de livre e
espontânea vontade e colocado sobre seus delicados ombros.

27
- Tu enfrentaste a iniciação do Mundo Subterrâneo ao chegar aqui, irmão. Num
nível mais profundo, tu mudaste e cresceste com a experiência. Foram-se a
atitude arrogante, o desejo de me levar de volta, porque sentias a minha falta,
sem me perguntar se também era meu desejo partir. E porque tu me conheces
tão bem quanto a tua própria alma, creio que agora compreendes que, apesar
de sentir falta das Esferas Superiores, dos meus irmãos Deuses e Deusas, de
brincar e me divertir com eles, existem tesouros escondidos nas Grandes
Profundezas e que me tornei na Guardiã principal deles. Muitos jamais serão
capazes de ver o que são e onde estão tais tesouros. Eu sim. Por este motivo
sou necessária aqui. Assim como a tua mágica, irmão, é necessária nas
Esferas Superiores.

Enki deixou as lágrimas rolarem livremente. Agora, ele sabia com


certeza que Ereshkigal jamais retornaria ao Mundo Físico ou à Região do
Firmamento. Ela não voltaria para Enlil ou para ele nunca mais.

- Posso te perguntar a respeito de Kur? Eu sempre quis saber por que tu nos
deixaste, perguntou Enki.

Finalmente ele tinha feito a pergunta que devorara as suas entranhas


desde que Ereshkigal havia deixado o Mundo Físico.

- Kur é um dos guardiões das Grandes Profundezas agora. Ele foi um amigo
que me ajudou a entender muitas coisas de que precisava saber e aprender ao
chegar aqui. Mas não é esta a pergunta que me queres realmente fazer, Enki.
Faça a pergunta certa, meu irmão. Em voz alta e clara, para deixar o passado
para trás, toda a culpa que sentiste por todo este tempo, uma culpa que na
realidade, nunca deverias ter assumido.

Enki respirou fundo antes de desnudar finalmente a sua alma:

- Deixaste as Esferas Superiores por Kur? Nós, eu te falhei de alguma forma?

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A voz de Ereshkigal tornou-se extremamente gentil, mas havia uma
ternura feita de aço nela:

- Eu não deixei as Esferas Superiores por Kur. Eu desci às Grandes


Profundezas, porque esta era a Vontade Maior em mim, a realização da minha
missão de vida para ser compartilhada por todos os mundos. Kur foi um amigo,
um companheiro ao longo desta jornada, assim como tu, Enki, também o foste
durante os dias maravilhosos de nossa infância. Agora, Kur está ligado a mim
por laços de liberdade, porque ele resolveu ficar e ser um de meus guardiões
aqui no Mundo Subterrâneo. Nunca mais, irmão adorado, o melhor
companheiro de folgas dos meus primeiros anos, penses que me faltaste de
alguma forma. Talvez eu tenha faltado a ti e a Enlil, quem sabe? Mas de
alguma forma, não creio que falhamos uns aos outros. Nós fizemos as nossas
escolhas, todos nos tornamos guardiões de pleno direito. Desta forma, aqui das
Grandes Profundezas eu também sou uma com todos os Anunaki.

Outro silêncio carregado de emoção seguiu-se às palavras de


Ereshkigal. Enki sentiu como se uma carga de imenso peso tivesse sido
erguida de seus ombros, mente, coração e alma.

- Não lamentes a tua escolha de ter descido por mim, Enki, continuou
Ereshkigal. De fato, eu tinha certeza de que virias e sempre te esperei aqui. Os
laços que nos unem como gêmeos perfeitos são demasiado fortes e sempre
que quiseres, irás me encontrar, se souberes como e onde procurar. Mas antes
que tu entendesses a função da minha vida, eu não poderia me apresentar ou
dizer alguma coisa. Tanto quanto eu pertenço agora às Grandes Profundezas,
tu também pertences em tua totalidade às Esferas Superiores. Mas ao vires até
mim, eu espero que tenhas aprendido a ver tudo o que existe como Forma e
Essência. Se as Esferas Superiores são o domínio da Forma, onde a Essência
está no interior, o Mundo Subterrâneo é o domínio da Essência Perfeita, que
está contida na Forma e que será vista por todos aqueles cuja Visão Interior se
projetar além das aparências. Desta forma, aqui das Grandes Profundezas
estamos para sempre ligados às Esferas Superiores, pois o Mundo
Subterrâneo é a Estrutura Interior que dá sustentação aos outros mundos.
Tudo o que existir no exterior também é igual ao que existe no interior para
revelar os segredos Daquele e Daquela que são Um/Uma e Muitos/Muitas.

Enki bebeu as palavras de Ereshkigal, a sabedoria calma e profunda da


Guardiã das Grandes Profundezas. Ereshkigal, num movimento gracioso e

29
rápido, ajoelhou-se no chão, suas mãos mergulhando na sólida fundação do
Mundo Subterrâneo.

30
A Árvore Huluppu

- Antes de partir, irmão, tome isto.

A mão de Ereshkigal retirou do solo uma forma oval e pálida, colocando-


a na palma da mão de Enki. Uma semente! Enki ergueu um olhar intrigado para
Ereshkigal.

- Plante esta semente, Enki e espere para ver o que vai sair dela. Mas em
verdade, em verdade eu afirmo, querido irmão, que se esta semente crescer e
ficar madura, ela será o portal para muitos outros mundos de crescimento,
equilíbrio e regeneração. E por Namu, a Mãe Original e muito amada que deu à
luz a mim e a ti, bem como pelo Deus do Firmamento Anu, nosso adorado pai,
eu agora declaro um destino dos mais auspiciosos: aquele ou aquela que
encontrar minha semente crescida e bem formada será quem irá descobrir a
forma de manter a ponte de ligação entre o Mundo Subterrâneo e as Esferas
Superiores sempre aberta para todos. E que seja feita a minha vontade, agora
e para sempre!

Enki sabia que a semente era o presente de adeus de Ereshkigal:

- Eu a verei novamente, Ereshkigal? Ou perdemos você para sempre lá nas


Esferas Superiores? Ele perguntou.

O riso cristalino de Ereshkigal fez-se ouvir:

- Eu não creio que as Esferas Superiores estão perdidas para mim, Enki. Você
me perdeu para sempre, irmão?

O coração de Enki queria gritar: nunca! Jamais estarás perdida para mim
Ereshkigal! Mas as palavras que a sua alma formou não foram pronunciadas
pela boca.

31
- Se me procurares hás de me achar. Sempre! E agora, irmão querido,
companheiro e grande amigo, eu te digo adeus!

Enki sentiu um beijo carinhoso na face, e logo se viu completamente


sozinho junto ao barco Magur. Lágrimas quentes brotaram-lhe copiosas dos
olhos. Ele fez uma profunda cortesia de amor e respeito à Deusa do Mundo
Subterrâneo. Por um breve momento, Enki teve inveja de Kur, que estava livre
para ficar com Ereshkigal, enquanto que ele, Enki, não podia ficar nas Grandes
Profundezas. Mas Enki sentiu-se forte como nunca, extremamente comovido,
com uma visão maior e mais profunda que podia abraçar todo o universo.

A semente de Ereshkigal pareceu pulsar na palma da mão do Deus das


Águas Doces, das Artes e da Mágica. Ele se dirigiu ao barco Magur,
começando a remar de volta às Esferas Superiores. Quando o barco tinha se
afastado da costa a uma pequena distância, Enki subiu a proa e ergueu a mão
num adeus silencioso e cheio de amor a Ereshkigal:

- Que a luz do Mundo Subterrâneo, a terra da Regeneração, Equilíbrio e


Crescimento, que um dia em mim brilhou jamais se apague e nem se afaste de
mim o seu fulgor. Que ela cubra como uma Coroa de gloria todos os que
descerem às Grandes Profundezas com suas almas, corpos, corações e
mentes abertos a todos os mistérios! E que Ereshkigal seja para sempre
lembrada pelos desafios que apresentar a todos que guiados pela verdade
vierem ao Mundo Subterrâneo, para também dele retornar!

Alguns meses depois, Enki tomou novamente o barco Magur. Seu


objetivo neste dia era encontrar a semente de Ereshkigal, que ele havia
plantado perto do rio. Será que a semente das Grandes Profundezas poderia
ter crescido nas Esferas Superiores, para renascer no Mundo Físico? Enki
tinha algumas dúvidas, mas tendo experimentado o poder de Ereshkigal, ele
sabia que tudo era possível em se tratando da Grande Deusa do Mundo
Subterrâneo.

Ao chegar próximo ao ponto onde ele havia plantado a semente,


ansioso, Enki esticou o pescoço para poder ver mais à frente. Passaram-se
alguns minutos, mas quando um pouco além ele viu as folhas verdes, o
pequeno, mas robusto tronco se projetando para o Mundo Físico, o riso de Enki

32
soou cristalino na luz da manhã radiosa de verão. Ele atracou o barco e se
aproximou da viçosa arvorezinha, junto a qual o brejeiro e sensual Deus se
ajoelhou com alegria e reverência. Aqui estava o fruto da semente que havia
recebido de presente de Ereshkigal!

- Em verdade, em verdade eu afirmo que a vida realmente vem das


Profundezas Interiores, disse ele. Semente que cresceu das entranhas da
terra, seja bem-vinda ao Mundo Físico, você que carrega dentro os tesouros
das Grandes Profundezas. Que suas raízes mantenham-se firmes em todos os
Reinos, que o seu tronco cresça forte à luz da verdade e seus galhos, folhas e
frutos confiram conhecimentos a serem compartilhados por todos, mostrando
outras formas de Ser em todos os Mundos e Esferas. Que todos que a
encontrarem subam às alturas mais elevadas e desçam às maiores
profundezas em busca de equilíbrio e crescimento. A você dou o nome da mais
preciosa, mais querida e sagrada de todas as árvores, a árvore sagrada do
conhecimento de todas as verdades, ponte entre todos os mundos, a Árvore de
Hulupu.

Após proferir estas palavras, Enki retornou ao barco Magur com um


sorriso, um coração pleno e mais do que satisfeito. Hora de voltar para Eridu.

- E para Ningikuga. Desta vez para ser mais do que um bom amigo!

O barco Magur zarpou com pressa de chegar. Eridu agora era casa,
porto e lar.

33
A Árvore da Vida

Nos primeiros dias, nos dias primordiais,

Nas primeiras noites, nas noites primordiais,

Nos primeiros anos, nos anos primordiais,

Nos primeiros dias, quando tudo o que era necessário foi trazido à
existência,

Nos primeiros dias, quanto tudo o que era necesssário foi


adequadamente nutrido,

E o pão era assado nos santuários da terra,

E o pão era provado nos lares da terra,

Quando o céu retirou-se da terra,

e a terra separou-se do céu,

E o nome do Homem foi fixado;

Quando o Deus do Céu, An, carregou os céus,

Quando o deus do ar, Enlil, carregou a terra,

Quando à rainha do Grande Abaixo, Ereshkigal, foi dado o mundo


inferior para seu domínio,

Ele velejou; o Pai velejou;

Enki, o Deus da Sabedoria, velejou para o mundo inferior.

Pequenas pedras foram lançadas contra ele;

Grandes granizos foram arremessados contra ele;

Como uma investida de tartarugas,

Eles quebraram a quilha do navio de Enki.

As águas do mar devoraram a proa do seu navio como lobos;

As águas do mar golpearam a popa do seu navio como leões.

34
Neste momento, uma árvore, uma solitária árvore, uma árvore huluppu

Foi plantada nas margens do Eufrates.

A árvore foi nutrida pelas águas do Eufrates.

O rodopiante Vento Sul apareceu, puxando suas raízes

e dilacerando seus galhos.

Até que as águas do Eufrates a levaram.

Uma mulher que caminhava temendo a palavra do Deus do Céu, An,

que caminhava temendo a palavra do Deus do Ar, Enlil,

Arrancou a árvore do rio e disse:

"Eu levarei essa árvore para Uruk.

Eu plantarei essa árvore em meu jardim sagrado."

Inanna cuidou da árvore com suas mãos.

Ela firmou a terra ao redor da árvore com seu pé.

Ela pensou:

"Quanto tempo passará até que eu tenha um trono reluzente para me


sentar?

"Quanto tempo passará até que eu tenha uma cama reluzente para me
deitar?"

Os anos se passaram; cinco anos, então dez anos.

A árvore cresceu grossa,

Mas sua casca não se partiu.

Então uma serpente que não podia ser encantada

Fez seu ninho nas raízes da árvore huluppu.

35
O pássaro Anzu pôs seus filhotes nos galhos da árvore.

E a donzela negra Lilith construiu sua casa no tronco.

A jovem mulher que adorava sorrir chorou.

Como Inanna chorou!

(Ainda assim eles não deixariam a árvore.)

Logo que os pássaros iniciaram seu canto no alvorecer,

O Deus Sol, Utu, deixou seu dormitório real.

Inanna chamou seu irmão Utu, dizendo:

"Oh Utu, na época em que os destinos foram decretados,

Quando a abundância se derramava pela terra,

Quando o Deus Céu pegou os céus, e o Deus Ar, a terra,

Quando à Ereshkigal foi dado o Grande Abaixo para seu domínio,

O Deus da Sabedoria, Pai Enki, velejou para o mundo inferior,

E o Mundo Inferior levantou-se contra ele e atacou-o...

Neste momento, uma árvore, uma solitária árvore, uma árvore huluppu

Foi plantada nas margens do Eufrates.

O Vento Sul puxou suas raízes e dilacerou seus galhos.

Até que as águas do Eufrates a levaram.

Eu arranquei a árvore do rio

Eu trouxe-a para o meu jardim sagrado."

Eu cuidei da árvore, esperando por meus brilhantes trono e cama.

Então uma serpente que não podia ser encantada

Fez seu ninho nas raízes da árvore huluppu.

36
O pássaro Anzu pôs seus filhotes nos galhos da árvore.

E a donzela negra Lilith construiu sua casa no tronco.

Eu chorei.

Como eu chorei!

(Ainda assim eles não deixariam a árvore.)

Utu, o guerreiro valente, Utu,

Não ajudaria sua irmã, Inanna.

Logo que os pássaros iniciaram seu canto no alvorecer do segundo dia,

Inanna chamou seu irmão Gilgamesh, dizendo:

"Oh Gilgamesh, na época em que os destinos foram decretados,

Quando a abundância se derramava pela terra,

Quando o Deus Céu pegou os céus, e o Deus Ar, a terra,

Quando à Ereshkigal foi dado o Grande Abaixo para seu domínio,

O Deus da Sabedoria, Pai Enki, velejou para o mundo inferior,

E o Mundo Inferior levantou-se contra ele e atacou-o...

Neste momento, uma árvore, uma solitária árvore, uma árvore huluppu

Foi plantada nas margens do Eufrates.

O Vento Sul puxou suas raízes e dilacerou seus galhos.

Até que as águas do Eufrates a levaram.

Eu arranquei a árvore do rio

Eu trouxe-a para o meu jardim sagrado."

Eu cuidei da árvore, esperando por meus brilhantes trono e cama.

Então uma serpente que não podia ser encantada

37
Fez seu ninho nas raízes da árvore huluppu.

O pássaro Anzu pôs seus filhotes nos galhos da árvore.

E a donzela negra Lilith construiu sua casa no tronco.

Eu chorei.

Como eu chorei!

(Ainda assim eles não deixariam a árvore.)

Gilgamesh, o guerreiro valente, Gilgamesh,

O herói de Uruk, ficou ao lado de Inanna.

Gilgamesh firmou sua armadura de cinqüenta minas ao redor de seu


peito.

As cinqüentas minas pesaram tão pouco para ele como cinqüenta


penas.

Ele levantou seu machado de bronze, o machado do caminho.

Pesando sete talentos e sete minas, até seu ombro.

Ele entrou o jardim sagrado de Inanna.

Gilgamesh golpeou a serpente que não podia ser encantada.

O pássaro Anzu vôou com seus filhotes para a montanha;

E Lilith destruiu sua casa e fugiu para os locais selvagens e desabitados.

Gilgamesh, então, desprendeu as raízes da árvore huluppu;

E os filhos da cidade, que o acompanhavam, cortaram os galhos.

Do tronco da árvore ele esculpiu um trono para sua sagrada irmã.

Do tronco da árvore, Gilgamesh esculpiu uma cama para Inanna.

Das raízes da árvore ela moldou um pukku para seu irmão.

Da coroa da árvore Innana moldou um mikku para Gilgamesh, o herói de Uruk.

38
Nergal e Ereshkigal

Foi há muito tempo, há alguns milênios e outros tantos séculos atrás na


Antiga Mesopotâmia, quando Anu, o Todo-Poderoso Deus do firmamento, o pai
de todos os Deuses, ergueu sua voz para dizer:

- Em breve, darei um grande banquete para todos os meus filhos e filhas, os


grandes Deuses e Deusas desta terra. Por este motivo, enviarei uma
mensagem ao Mundo Subterrâneo, para Ereshkigal, a Deusa e rainha das
Grandes Profundezas. Na mensagem eu dir-lhe-ei que como não é possível
para ela subir às Esferas Superiores e juntar-se aos nossos festejos, pois a sua
presença é necessária nas Grandes Profundezas para manter o Equilíbrio
entre a Vida e a Morte, as Trevas e a Luz, o Caos e a Ordem. Por outro lado, é
igualmente impossível que os Deuses e Deusas das Esferas Superiores
desçam ao Mundo Subterrâneo. Portanto, eu enviarei uma mensagem à
Ereshkigal em nome de todos os Anunaki das alturas e um mensageiro ao
Reino das Profundezas. Eu pedirei a Ereshkigal que envie um mensageiro de
sua confiança até nós e que tal mensageiro escolha da mesa do Grande
Banquete presentes para ela. Se Ereshkigal não pode vir juntar-se a nós, pelo
menos ela terá o melhor de nossa mesa de festejos para si! E que seja feito
segundo a minha vontade!

Anu escolheu Kaka, seu fiel conselheiro e sábio ministro, para ser o
mensageiro encarregado de enviar pessoalmente a mensagem para
Ereshkigal. Kaka desceu a longa Escadaria dos Céus e porque ele acreditava
na integridade de sua missão, Kaka pôde livremente passar pelos sete portais
do Mundo Subterrâneo. Ao anunciar em alto e bom tom o propósito de sua
descida à cada portal, de imediato as Portas que jamais se abriam
concederam-lhe entrada sem alarde, demora ou confusões.

Com confiança e eficiência, ele entrou nos jardins bem cuidados de


Ereshkigal, prosseguindo pelos corredores do Grande Palácio até a sala de
audiências. Kaka então se viu finalmente na presença da Senhora das Grandes
Profundezas.

O fiel conselheiro de Anu ajoelhou-se e beijou o chão, para logo depois


fazer uma perfeita cortesia, como mandavam as regras de comportamento para

39
com uma Deusa e Grande Rainha. Somente então ele enunciou a mensagem
que tinha trazido para ela:

- Grande e nobre senhora, Rainha do Mundo Subterrâneo, que vosso nome


seja louvado em todos os mundos e esferas! Em nome de vossos irmãos e
irmãs venho até a Deusa das Grandes Profundezas Ereshkigal, trazendo-vos
as mais respeitosas saudações, bem como uma mensagem para vós. Anu,
vosso pai, em breve dará um grande banquete. Como vós não podeis deixar as
Grandes Profundezas para comparecer ao banquete, pois sois a guardiã que
mantém o equilíbrio entre as trevas e a luz, vosso pai e vossos irmãos e irmãs
humildemente vos pedem para enviar um mensageiro de vossa inteira
confiança, para escolher em vosso nome algo da mesa do grande banquete,
um presente digno da grande rainha do Mundo Subterrâneo. De forma alguma
Anu e os Deuses e Deusas vossos irmãos deixariam a nobre Deusa Ereshkigal
de lado! Portanto, se for vosso desejo, que um mensageiro seja escolhido! A
este nobre enviado, quando de sua entrada nos Mundos Superiores, todas as
saudações, todo o respeito ser-lhe-a agraciado, como se fosse a Grande
Ereshkigal em pessoa, em visita aos Mundos das Alturas. Então, da mesa do
grande banquete, antes mesmo dos pratos e taças serem tocados, a ele o
direito de escolher o melhor para a rainha Ereshkigal será dado, aceitando em
nome dos grandes Deuses, um presente para a Deusa do Mundo Subterrâneo.
Esta é a vontade de Anu, o Todo-Poderoso Deus do firmamento, à qual peço
humildemente que seja concedido pronto deferimento!

Ereshkigal encheu-se de alegria ante a mensagem recebida. Tocada


pela deferência dos Deuses e Deusas das Alturas Superiores para com ela,
Ereshkigal prontamente enviou Namtar, seu fiel ministro e sábio conselheiro,
para os Mundos das Alturas, para o banquete e assembléia dos Deuses.

- Vá e volte sem demora, Namtar, ao Mundo das Alturas, onde se encontram


meu pai Anu, o Deus do firmamento e os Deuses meus irmãos e irmãs. Suba
de imediato à longa Escadaria dos Céus, escolha e aceite da mesa sagrada um
presente para mim. Seja qual for o presente escolhido, este será
graciosamente recebido como uma dádiva verdadeira para mim.

- Eu ouço e obedeço, minha rainha.

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O Banquete

Namtar curvou-se numa profunda reverência antes de partir


imediatamente para cumprir o mandato de sua senhora. Ele ascendeu as
Alturas Superiores, não sem antes cruzar os Sete Portais do Mundo
Subterrâneo e galgar degrau por degrau a longa Escadaria dos Céus.

Ao chegar à sala do Grande Banquete, frente a todos os Anunaki das


Alturas, todos os Deuses saudaram-no como a um Deus, como se o
mensageiro fosse Ereshkigal em pessoa em visita ao Mundo das Alturas. Os
Deuses reunidos ajoelharam-se ante Namtar, cumprimentaram-no como se
fosse um dentre eles.

Todos, menos um, à exceção de um jovem Deus. Este se mostrou


impassível, não saudando a Namtar, como se o enviado de Ereshkigal não a
estivesse representando, no lugar da Deusa tudo em seu nome recebendo. Ele
nem mesmo ajoelhou-se, conforme o combinado, ignorando o acordo de tratar
ao conselheiro como se ele fosse a própria Deusa das Grandes Profundezas,
Ereshkigal, em visita às Esferas Superiores.

Tal Deus irreverente e indisciplinado, respondia pelo nome de Nergal, o


Deus da Guerra e das Doenças. Dentre todos os Anunaki das Alturas, ele foi o
único a recusar-se a fazer o que havia sido acordado.

Intrigado por tanta falta de cortesia, Namtar aproximou-se de Nergal com


todo respeito.

- Meu Deus, disse-lhe ele. Não pude deixar de observar que não prestastes as
devidas homenagens à minha rainha Ereshkigal, a grande Deusa do Mundo
Subterrâneo. Com o maior respeito, com a maior das considerações, atrevo-me
humildemente, meu senhor, a fazer-lhe uma pergunta: por que está o jovem
Deus recusando-se a saudar a Grande Rainha das Profundezas, a quem
humildemente e com grande honra neste momento represento?

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Nergal, aparentemente achando muita graça na pergunta de Namtar e
em todo inusitado da situação, examinou o conselheiro de Ereshkigal com
atrevimento e mal disfarçada insolência antes de responder à pergunta
educada do vizir.

- Por que eu deveria saudar, fazer reverências, mostrar respeito ou deferência


a uma Deusa a quem nunca vi? Não conheço Ereshkigal, jamais a encontrei!
Caso ela estivesse aqui ou tivesse sido eu apresentado a ela, então e somente
então eu consideraria a possibilidade de prestar homenagem a ela. Mas com
toda franqueza, está acima da minha compreensão por que eu, um Deus, iria
saudar ou me ajoelhar em frente de um simples mensageiro de uma irmã mais
velha a quem nunca vi!

Namtar, tomado de surpresa pela afronta e insolência de Nergal, furtou-


se de responder ao jovem Deus. O fiel conselheiro lutou para manter a
compostura, até finalmente encontrar voz para dizer:

- Terei de relatar à minha rainha sobre vosso impensável e grosseiro


comportamento, meu Deus. Ninguém, eu repito, ninguém ofende Ereshkigal
sem receber o merecido castigo por suas ações!

Imediatamente, Namtar desapareceu das Esferas das Alturas para


retornar ao Mundo Subterrâneo e relatar todos os fatos a Ereshkigal.

Na sala do Grande banquete, caiu um silêncio pesado. Os Anunaki das


Alturas, os grandes Deuses e Deusas da Mesopotâmia, estavam estupefatos,
paralisados mesmo de surpresa. Somente Enki, o Deus das Águas Doces, da
Mágica, Artes e Sabedoria, pareceu se recobrar do choque primeiro. Ele
balançou a cabeça, como se não estivesse acreditando nos fatos
presenciados, mas dirigiu-se a Nergal, o único que parecia totalmente não
afetado pelas palavras e saída intempestiva de Namtar.

- Nergal, Nergal, como pode você ser tão mal-educado, faltando ao respeito
com nossa irmã e rainha das grandes profundezas, comprando para si uma
briga da qual com certeza não poderá vencer? Não admira ser você o Deus de
todas as guerras, aquele que traz todas as doenças! Você acabou de se

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comportar como um bárbaro grosseiro e rude para com uma grande Deusa,
que além do mais, é minha irmã gêmea! Agora, diga-me, o que você pretende
fazer? Como vai se escapar desta?

Nergal olhou ao redor da mesa do Grande Banquete, reparando nas


expressões chocadas de seus irmãos e irmãs. Deveras, os grandes Deuses e
Deusas pareciam transtornados, gelados de surpresa e muito preocupados.
Tão profunda parecia a preocupação deles.

Por que parecem eles, todos de fato, tão transtornados? Será que
temem por alguém, por mim? Raciocinou finalmente Nergal.

Foi então que Nergal se deu conta de que talvez tivesse feito um erro
fatal ao ignorar e ofender Ereshkigal. Ele se voltou para Enki.

- Enki, meu irmão mais velho e o mais sábio de todos os Deuses, será
Ereshkigal assim tão terrível? Será que estou perdido? Irmão, grande Enki, que
tudo sabe e todos os problemas com arte e mágica resolve, posso contar com
a sua ajuda para safar-me desta?

- Com certeza a ira de Ereshkigal tem a forca do próprio caos. Você, Nergal,
fez a sua cama: agora, deite-se nela! Respondeu Enki com toda franqueza,
nada escondendo de Nergal.

- Então Ereshkigal irá atrás de mim? Perguntou Nergal, agora visivelmente


preocupado.

- A lei máxima do Mundo Subterrâneo é a Lei do Equilíbrio, da Regeneração e


do Crescimento. Cedo ou tarde, Nergal, você terá de pagar o preço pela
insolência de seu comportamento para com Ereshkigal. Você é jovem, Nergal e
muito impulsivo. Portanto, vou ajudá-lo. Talvez haja algo que você possa fazer
para salvar a sua pele. Deixe-me pensar.

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Alguns minutos se passaram, durante os quais Enki pareceu se
distanciar de tudo e de todos, para mergulhar no Mundo Interior, de onde toda
sabedoria se origina, toda força encontra sustentação e fulgor.

- Em verdade, em verdade eu digo a você, Nergal, que partir você deve, para
uma jornada rumo ao Mundo Subterrâneo, para ver Ereshkigal. Mas não antes
de se preparar cuidadosamente! Em primeiro lugar, com a espada sagrada na
mão, vá até a floresta e peça permissão a Ningishzida, o Deus das grandes
árvores, para cortar delas madeira sagrada. Desta madeira sagrada, irá você
esculpir um trono, pintá-lo com as cores certas e inscrever nele os símbolos
apropriados. O trono significa que a matéria do seu corpo que você irá oferecer
em seu lugar aos espíritos do mundo Subterrâneo.

- É só isto o que devo fazer? Mas é tão fácil como tirar bala de uma criança!

Novamente, Enki balançou a cabeça, não acreditando no que estava


ouvindo.

- Não, não é só isto, Nergal! Há muito mais que você deve aprender saber
realmente antes e fazer antes de tentar ver Ereshkigal, face a face! Com este
tipo de atitude, eu me pergunto se vale o esforço de lhe ajudar! Talvez eu
mesmo devesse deixá-lo à mercê de Ereshkigal e das Grandes Profundezas.

- Ah não, grande e sábio irmão, ajude-me, por favor! Eu preciso que me diga o
que devo fazer, se devo na realidade ir até o Mundo Subterrâneo para
encontrar nossa irmã velhota, desculpe-me, nossa irmã mais velha, no reino
dela.

- Na realidade, não seria justo deixá-lo partir sem alguns conselhos, disse Enki,
conformando-se com o fato de ter de auxiliar um teimoso como Nergal. Mesmo
não tendo certeza de que você irá seguir à risca todas as minhas instruções.
Bem, de qualquer modo, ao chegar às Grandes Profundezas, preste bastante
atenção: não se sente em outros lugares que não o trono por você mesmo
esculpido, não coma ou beba da mesa de Ereshkigal ou deixe que servos lhe
lavem os pés. E, sobretudo, não se apaixone pela Rainha do Mundo
Subterrâneo, não se deixe levar pelos encantos de Ereshkigal. Eu repito: sob

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hipótese alguma evite de fazer com ela o que homens e mulheres fazem, com
respeito, carinho e muito amor. Estamos entendidos?

- Enki, não posso acreditar no que acabei de ouvir! exclamou Nergal. Como
poderia ter vontade de fazer amor com uma Deusa muito mais velha do que eu
e que quer a minha vida?

- Ereshkigal pode muito bem reservar algumas surpresas para você, Nergal,
sorriu Enki. Com os olhos da memória, ele lembrou-se da Deusa-menina, sua
irmã e grande amiga, a quem ele havia amado como a sua própria alma.
Jamais diga nunca farei isto ou aquilo, pois Ereshkigal provavelmente achará
uma forma de fazê-lo fazer exatamente o contrário! Siga as minhas instruções,
Nergal, à risca e eu desejo muita sorte. Vá e volte com as minhas bênçãos!

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Ida ao Mundo Inferior

Nergal seguiu cuidadosamente as instruções de Enki. Ele foi até a


floresta, armado da Espada Sagrada. Lá chegando, procurou por Ningishzida,
o guardião das Boas Árvores, para pedir-lhe permissão para cortar madeira
sagrada e com ela esculpir o trono necessário para a sua jornada ao Mundo
Subterrâneo. Com grande zelo, Nergal esculpiu o trono, pintando-o com as
cores certas e os símbolos apropriados.

Neste meio tempo, tendo sido informada por Namtar da descortesia de


Nergal, Ereshkigal pôs-se a esperar. A Rainha do Mundo Subterrâneo, a Deusa
da Terra do Equilíbrio Restaurado, da Justiça e da Memória Ancestral, sabia
que cedo ou tarde Nergal iria ter-se com ela para aprender uma grande lição e
não mais se comportar de forma tão rude para com uma grande Deusa, dele
conhecida ou desconhecida. Até este momento chegar, Ereshkigal iria apenas
esperar com perfeita paciência e confiança na Lei Maior das Grandes
Profundezas.

Finalmente, Nergal aprontou o trono, considerando-se também


preparado para a jornada. Porque ele ia ao Mundo Subterrâneo numa breve
visita, para trás Nergal deixou os símbolos do poder e da guerra que o
definiam, a cimitarra e o cetro de cabeça de leão. Apenas o trono que havia tão
laboriosamente esculpido foi o que Nergal levou consigo como um troféu ao
descer na direção das Grandes Profundezas. Pela primeira vez, o ardoroso
Deus da guerra, o beligerante Nergal encetava uma jornada totalmente
desarmado, sem qualquer sinal exterior de posição ou status. Ele partiu
também estranhamente silencioso, preocupado apenas em conseguir o seu
intento: ver Ereshkigal, enfrentar a ira da grande Deusa e voltar às Esferas
Superiores no mínimo espaço de tempo.

Entretanto, no limiar do primeiro portal das Grandes Profundezas, Nergal


teve de parar, ao encontrar o guardião daquele ponto que, neste dia, era o fiel
conselheiro Namtar.

- Quem se atreve a se aproximar dos Portais da Terra de Onde Não Há


Retorno antes da sua hora? Namtar perguntou e, como de praxe, examinou
cuidadosamente o recém-chegado com olhos penetrantes.

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Quando o sábio conselheiro de Ereshkigal viu quem era na realidade
aquele que pedia passagem, Namtar empalideceu sua face ficando tão lívida
quanto os campos cobertos de geada no dia mais frio de inverno.

- Oh, é o Deus que não tratou com o devido respeito à minha rainha nos
Mundos Superiores quando do Grande Banquete! Parai de imediato, meu
senhor, pois devo imediatamente avisar a vossa chegada à minha soberana, a
grande Deusa Ereshkigal.

Não dando tempo para Nergal responder, mas deixando o Deus-


guerreiro imobilizado à entrada do primeiro portal, Namtar correu ao encontro
de Ereshkigal.

- Minha rainha, começou Namtar, ofegante e ansioso, mas não sem antes
curvar-se numa perfeita reverência, um dos Deuses do Mundo das Alturas veio
até as Grandes Profundezas sem ser anunciado. O Deus que aqui chegou
pode não ser do agrado da minha senhora.

- Como pode ser isto, Namtar? Perguntou Ereshkigal.

- Grande Senhora, quando me mandastes ao banquete de vosso augusto pai, à


minha entrada na sala dos festejos, todos os Deuses saudaram-me com os
cumprimentos mais honrosos. De fato, eles ajoelharam-se na minha presença,
pois estavam saudando, na verdade, não a mim, seu servo mais dedicado, mas
à minha senhora. Dentre eles, entretanto, houve um jovem Deus que não me
saudou, não se ajoelhou na minha presença ou mostrou o devido respeito para
com a minha adorada soberana. É este Deus que se encontra neste momento
no limiar do primeiro portal das Grandes Profundezas.

O sorriso misterioso de Ereshkigal saudou as palavras de Namtar.

- Traga este Deus à minha presença, Namtar. Quero realmente encontrar


aquele que se portou com inexplicável grosseria e rudeza para comigo, mesmo

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sem ter-me conhecido ou ouvido falar de mim. Em verdade, em verdade eu
afirmo: quero conhecer este Deus e descobrir a razão de alguns porquês!

Namtar voltou ao primeiro portal para permitir a passagem de Nergal. O


sábio conselheiro também garantiu ao Deus da guerra a passagem pelo
segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo portal do Mundo Subterrâneo.

Nergal viu-se então num amplo pátio ajardinado de um templo de


proporções grandiosas, todo do mais puro lápis lázuli e cristal, situado às
margens de um rio ou lago, qual dos dois, ele não saberia dizer. Mas Namtar
não lhe deu muito tempo, para analisar as redondezas, sempre seguindo com
passos largos, rumo à sala de audiências de Ereshkigal. Lá chegando, Nergal
colocou o trono que havia esculpido no chão e ergueu os olhos para
contemplar Ereshkigal.

Mais uma vez, no entanto, a voz de Namtar fez-se ouvir:

- Meu Deus, a ninguém é dado o direito de prosseguir ou levantar os olhos para


encontrar os de minha rainha, sem que deixe antes de tudo seus preconceitos
e idéias falsas de lado. Portanto, olhe primeiro para dentro de si mesmo com a
os olhos de sua mente, corpo, coração e espírito, pois esta é a Visão que lhe
dará a verdade além das aparências. Lembre-se de que o Mundo Subterrâneo
é a Esfera da Essência de Tudo que foi, é e será. Para aqueles que vêm às
Grandes Profundezas com medo, medo será o que terão antes de aqui
encontrar cura. Cura é a meta de todas as jornadas da alma às Grandes
Profundezas, a Grande Aventura daqueles que buscam a auto-transcendência,
antes, agora e sempre!

A voz de Namtar ressoou profunda e cheia de autoridade na câmara de


audiências, na mente, corpo e alma de Nergal. Sem pestanejar, Nergal curvou-
se aos desígnios do conselheiro de Ereshkigal, para então erguer os olhos para
encontrar Ereshkigal face a face.

Nergal prendeu a respiração ante àquela que estava à sua frente. De


fato, a grande Deusa e rainha estava sentada, como seria de se esperar, em
seu trono, vestida com extrema sobriedade, mas exalando força e magia como

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nem uma outra Deusa ou Deus que Nergal tinha conhecido. Onde estava a
velhota que ele esperava encontrar? Onde estava a rabugenta soberana das
Grandes Profundezas, que permitia aos mortos viverem sem luz, que oferecia
poeira como alimento, argila como pão e penas como vestimentas?

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O Encontro com Ereshkigal

Estes eram os preconceitos, Nergal finalmente entendeu, não a verdade.

Pois quem o fitava do trono era uma linda e séria mulher, toda vestida de
preto com longas madeixas negras onduladas e uma aura de poder que deixou
Nergal sem fala.

Ereshkigal não parecia velha. De fato, ela parecia não ter idade definida,
ao mesmo tempo jovem e experiente, com a sabedoria daqueles que muito
viram e tudo aprenderam. A filha de Namu, as Águas do Oceano e do Deus do
firmamento Anu, a querida irmã gêmea de Enki era linda, mas sua beleza vinha
mais de uma força interior e Poder-Que-Vem-de-Dentro que Nergal não sabia
definir. Ele sabia, porém, sem sombra de dúvida, que desde aquele primeiro
instante Ereshkigal havia capturado a sua mente, seu corpo, coração e alma.

A severidade de Ereshkigal não me causa desconforto, ele pensou. De


fato, eu entendo por que ela é e tem de ser tão severa. É pura e simplesmente
o distanciamento e equilíbrio de uma Grande Juíza de Seres e Atos, imparcial e
sábia.

Com perfeita cortesia, Nergal fez exatamente o que havia negado à


Ereshkigal anteriormente: ele se ajoelhou e beijou o chão ante a soberana do
Mundo Subterrâneo. Ele o fez com toda naturalidade, pois a visão de
Ereshkigal tinha comandado tal ato do fundo de seu bravo coração de
guerreiro.

A rainha do Mundo Subterrâneo contemplou com atenção o jovem Deus


Anunaki das Alturas ajoelhado com perfeita cortesia frente a ela. Nergal era
alto, com longos cabelos negros. Os trajes de Deus-guerreiro deixavam à
mostra pernas musculosas e um físico escultural. Nergal também tinha a
arrogância e impulsividade dos jovens, a um tempo uma qualidade e grande
defeito. Ereshkigal manteve o silêncio, mas um sorriso misterioso quase
brincou nos seus lábios.

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Finalmente encontro o filho de Enlil e Ninlil, ela pensou, concebido às
portas do Mundo Subterrâneo, como parte das jornadas de iniciação de Enlil e
Ninlil para crescer como um Casal Divino e formar uma Parceria Indissolúvel e
Sagrada. Agora Nergal desceu ele mesmo, tendo deixado qualquer símbolo de
autoridade exterior de lado, pois não vejo o cetro de cabeça de leão ou a
cimitarra em suas mãos. Fico imaginando que tipo de lição o Deus dos
Conflitos e Doenças irá aprender desta experiência nas Grandes Profundezas?
É cedo demais para que se diga alguma coisa. Como todos que aqui vêm,
Nergal terá primeiro de mostrar o seu valor e provar em atos e pensamentos o
que realmente aqui aprendeu.

Após alguns minutos de avaliações recíprocas, Ereshkigal quebrou o


silêncio, sua voz grave ressoando profundamente no coração de Nergal.

- Posso lhe perguntar quem é você e por que veio até mim?

Onde estavam a ira, a raiva que Nergal havia esperado de Ereshkigal?


Pela segunda vez ela pegava-o totalmente de surpresa. A pergunta era
previsível, exceto que Nergal não havia pensado nela! O que responder,
agora?

Nergal olhou para o trono que havia trazido e resolveu seguir um palpite.

- Grande senhora, sou Nergal, o Deus da Guerra e de todas as Doenças.

- E por que você veio até mim? Continuou ela, sem abrandar um milímetro.

Nergal engoliu em seco.

- De fato, foi Anu, o Deus do firmamento, seu pai, minha senhora, que
me mandou até as Grandes Profundezas. Ele, o Todo-Poderoso senhor
dos céus, disse "sente-se naquele trono, Nergal, desça até a Grande
Rainha do Mundo Subterrâneio e julgue os atos e casos de todos os
seres vivos com ela." Portanto, para fazer a vontade do grande Deus

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Anu, eu desci até aqui. Também fiz este trono, o qual ofereço em honra
da grande Deusa do Mundo Subterrâneo.

A desculpa apresentada por Nergal era tão inusitada que Ereshkigal


resolveu levá-la adiante.

- Então Anu, meu pai, decidiu que depois de tanto tempo eu devo ter um
companheiro para julgar os casos dos grandes Deuses e os atos de todos os
seres vivos? Depois de todo este tempo? Perguntou Ereshkigal, fingindo
grande surpresa. Muito gentil da parte do meu pai, mas não posso permitir que
você se sente ao meu lado para julgar todos os casos antes de você ter
passado algum tempo comigo nesta esfera. Sentar-se ao meu lado, você
poderá, mas não no trono trazido por você. Sim, com toda certeza, não o
aceitarei antes de você ter se alimentado da minha mesa e bebido da minha
adega. Somente então vou poder dizer com certeza se você pode ficar e julgar
almas e espíritos no Mundo Subterrâneo. Mas enquanto estiver se provando
apto para mim, sinta-se à vontade para apreciar tudo o que as Grandes
Profundezas tiverem a lhe oferecer, Nergal.

Ereshkigal retirou-se então para seus aposentos e Nergal foi deixado


sozinho na câmara de audiências. Mas não por muito tempo. Outro trono,
iguarias, vinho e cerveja foram-lhe apresentados por servos prestativos
comandados pela costumeira eficiência de Namtar. Nergal lembrou-se dos
conselhos de Enki para não comer, não beber e não permitir que lhe lavassem
os pés nas Grandes Profundezas, e a tudo recusou.

Ereshkigal retornou e apenas sorriu ao ver o trono, os alimentos e a


bebida, a bacia cheia intocados. A grande rainha não perdeu sua compostura:

- Vejo que você não quis compartilhar da minha mesa, sentar-se no trono que
lhe foi indicado ou permitir alguns pequenos bons tratos. Eu repito Nergal,
sinta-se à vontade para apreciar o que o Mundo Subterrâneo tiver a lhe
oferecer. Por ora, vou deixá-lo, para ir-me banhar.

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Ereshkigal foi à casa de banhos. Nergal não pôde resistir e seguiu-a
discretamente. O Deus da guerra, o bravo e ardoroso guerreiro Nergal sentia-
se curiosamente atraído por Ereshkigal.

A soberana do Mundo Subterrâneo sabia que tinha sido seguida. Na


casa de banhos, ela manteve então as cortinas levemente abertas, despiu-se,
banhou-se e ungiu seu corpo perfeito com óleos caros. A seguir, como na
antecipação de um encontro mais do que especial, Ereshkigal vestiu-se com
trajes de rainha, adornou-se com as jóias da divindade. Tudo isto ela deixou o
Deus-guerreiro de seu esconderijo escolhido presenciar.

Ao contemplar a beleza de Ereshkigal, Nergal não pôde resistir,


rendendo-se aos encantos da Deusa, ao desejo crescente do seu corpo, delícia
da sua mente e alma. O Deus da guerra declarou-se derrotado, ao admitir que
o que mais almejava com força e paixão era fazer com ela o que um homem e
uma mulher fazem.

Confiante, mas tomado de profunda emoção, Nergal foi até Ereshkigal.

- Ah, Ereshkigal, eu me rendo! Rendo-me ao desejo do meu coração e delícia


da minha alma para fazer contigo o que um homem faz com uma mulher!
Senhora das Grandes Profundezas, do Mundo Subterrâneo, rainha, tenho-te
procurado sem saber durante toda minha vida. A tua solidão é a minha, pois
minha também foi outra escolha árdua assumida com profundo conhecimento e
plena liberdade. Pois fiz minha a escolha e a pesada carga de trazer a guerra e
todas as doenças como a Solução Final para a humanidade aprender a
respeito da paz, saúde, fertilidade e riqueza. Ah, Ereshkigal, agora que te
encontrei, sei com certeza de que tua é a voz que chama pelo meu coração, a
verdade maravilhosa que sempre soube um dia iria encontrar!

Os dois se abraçaram com paixão.

- Por ti, que desceste ao Mundo Subterrâneo por mim, eu me banhei e me


perfumei com os óleos mais finos e delicados, admitiu Ereshkigal. Por ti, que
desceste ao Mundo Subterrâneo não sabendo que desafios irias enfrentar, se
minha raiva ou mágoa, eu me trajei com roupas de grande rainha. Por ti,

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guerreiro ardoroso, que não teve medo de te mostrar vulnerável e me revelar o
desejo do teu coração, o anseio da tua alma, eu me adornei com as jóias da
divindade. Por ti, que desceste às Maiores Profundezas para encontrar a minha
justiça, eu dou a paz do meu abraço, a vitalidade do meu desejo, a alegria,
paixão e ousadia do meu amor. Portanto, por meu poder, pelas leis do meu
reino, eu te convido: vem para mim, Nergal, meu Deus-guerreiro, sonho
tornado verdade, que sempre soube um dia iria achar!

Nergal rendeu-se ao desejo do seu coração, ao anseio da sua alma para


fazer com Ereshkigal o um homem faz com uma mulher. Com amor, paixão,
carinho, ousadia, respeito e muita alegria, eles se beijaram e se abraçaram por
longo tempo.

Aos beijos e abraços apertados, a rainha do Mundo Subterrâneo e o


Deus da Guerra foram até os aposentos reais, ao sagrado leito. No leito real
Ereshkigal e Nergal se deitaram, no leito sagrado eles apaixonadamente se
amaram. A soberana das Grandes Profundezas e o ardente Deus-guerreiro
deitaram-se juntos para se amar por um dia e uma noite, por dois dias e duas
noites, por três dias e três noites. E assim também se passaram o quarto dia e
a quarta noite, o quinto dia e a quinta noite, o sexto dia e a sexta noite.

Quando a aurora do sétimo dia estava para raiar, Nergal, com Ereshkigal
adormecida em seus braços, sentiu então pela primeira vez o impacto total de
ter-se rendido aos encantos de Ereshkigal. Dúvidas encheram seu coração:
tanto amor, responsabilidade e paixão ele estava sendo chamado a
compartilhar. Será que ele estava realmente pronto para assumir tal
compromisso?

Minha irmã mais velha, minha amada, Nergal pensou, beijando a orelha
bem feita, os cabelos longos e sedosos. Estamos juntos há seis dias e seis
noites apaixonadas. Agora que a sétima aurora se aproxima, um ciclo completo
está chegando ao fim. Ereshkigal, grande rainha que capturou meu coração,
serás realmente a resposta para todos os meus desejos, o melhor abraço para
o meu beijo, amiga, amante, companheira, de todas, a melhor? Pode ser que
eu não o sejas! Até descobrir a resposta para esta pergunta, deixar-te-ei para
subir mais uma vez aos Mundos das Alturas, para depois, e somente depois,
retornar. Pois com certeza retornarei para ti, mas por agora me devo ir! Quem
sabe, quando minha resposta encontrar, voltarei então para sempre ficar!

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A Fuga

Nergal não se atreveu a acordar Ereshkigal. Beijou-a pela última vez e


com imensa gentileza, ajeitou-a no leito, desvencilhando-se dos braços que se
teimavam em se enroscar no seu pescoço, com cuidado, para não despertá-la.
Com presteza, mas sem olhar para o leito sagrado, onde dormia ainda a
amada (pois talvez não tivesse coragem de partir), Nergal vestiu-se, deixando
os aposentos de Ereshkigal.

Como um ladrão em fuga, silencioso e veloz, antes da aurora, quando as


Grandes Profundezas estavam ainda mais mergulhadas na mais completa
calma, Nergal percorreu os corredores do templo, como um fantasma ele se
esgueirou por entre os sete grandes portais, como um espírito Nergal não foi
visto, exceto durante um breve momento por Namtar. Mas já era tarde para o
fiel conselheiro ir atrás do Deus da guerra, que subiu sem ser perturbado a
grande Escadaria dos Céus, o ponto de entrada para os Mundos Superiores.

Quando Nergal finalmente chegou, ofegante, na Assembléia dos Deuses


das Alturas, encontrou de imediato An, Enlil e Enki. Num só olhar, Enki tudo
viu, tudo compreendeu.

- Então você voltou! Disse Enki. Mas há em você agora uma grande diferença.
Corrija-me também, se estiver enganado: o Deus da guerra parece estar sob
pressão, definitivamente sitiado! Vejamos se penso certo, se tenho razão: creio
que você, Nergal, partiu do Mundo das Profundezas, sem se despedir ou dar à
Ereshkigal uma razão para querer partir.

- Sim, esta é a verdade, respondeu Nergal, não negando a evidência.

- Mas não é tudo, não é mesmo? Continuou Enki. Não me diga nada, deixe-me
adivinhar. Você também comeu e bebeu da mesa de Ereshkigal, sentou-se a
seu lado no trono que ela indicou e fez amor com ela, deixando-a depois sem
nada dizer! Nergal, foi criado um laço muito forte entre você e Ereshkigal, como
tudo o que partilharam, a qualidade dos momentos que juntos passaram. Você
não poderá nunca mais esconder-se dela, pois Ereshkigal com certeza irá
segui-lo, onde quer que for! Desta vez, você não poderá escapar.

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- Mas eu mesmo não sei se na realidade quero me escapar de Ereshkigal,
respondeu Nergal criticamente. Só estou pedindo algum tempo para pensar,
antes de decidir trocar definitivamente o Mundo das Alturas pelas Grandes
Profundezas.

Enki sorriu, entendendo muito bem o dilema de Nergal. Uma vez, há


muito tempo, também ele tinha sido tentado para fazer a mesma escolha,
também por amor a Ereshkigal. A sinceridade do teimoso e ardente Deus da
guerra venceu as graças de Enki, afinal.

- Eu entendo, bem mais do que possas imaginar, Nergal. Mais uma vez, vou
ajudá-lo. Espalhe estas águas sagradas, com mágicas abençoadas, pelo
corpo. Elas irão disfarçar sua face e aspecto geral, de forma que Ereshkigal ou
um dos seus não possa reconhecê-lo.

Nas Grandes Profundezas, antes do raiar da aurora, do seu posto de


guardião, Namtar viu a fuga de Nergal. O fiel conselheiro imediatamente tentou
seguir o Deus guerreiro, mas a agilidade e rapidez de Nergal eram
incomparáveis. Atônito e desapontado, Namtar foi até a sua rainha para relatar
o ocorrido. Ele encontrou Ereshkigal ainda dormindo.

- Minha senhora, acorde! O Deus que veio às Grandes Profundezas, de visita,


antes da aurora, como um ladrão, um criminoso e bandido, partiu, sem a
ninguém avisar. Como um fantasma ele se esgueirou pelos portais do Mundo
Subterrâneo, como um espírito ele desapareceu, sem ser visto! Tentei segui-lo,
mas ele foi mais rápido do que eu e aqui estou, trazendo-lhe novas tão tristes,
de alguém que mais uma vez minha senhora e rainha ofendeu!

Ereshkigal despertou, viu a face transtornada pelo pesar do sábio


conselheiro, ouviu o que ele tinha para lhe dizer e tocou o leito vazio, prova
maior de todos os acontecimentos. Dor, tristeza, desapontamento sentiu a
Deusa neste momento.

- Nergal, erra, como pudeste antes da aurora desaparecer? Ainda não


me cansei de tuas carícias, o que te fiz para tanta desconsideração
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merecer? Onde está o meu amante fogoso e escolhido do meu coração?
Por que me declaraste guerra, se desta vez, bem sabes, derrotada por ti
não vou ser?

Lágrimas quentes escorreram pela face da Deusa. Elas tocaram


profundamente o coração de Namtar.

- Minha rainha, mandai-me de volta ao Mundo das Alturas, deixai-me trazer


para minha Deusa aquele que antes da aurora fugiu!

Com um movimento altivo e zangado, Ereshkigal secou as lágrimas que


teimavam escorrer de seus olhos.

- Você tem razão, Namtar. Eu não vou mais perder tempo com lágrimas por
quem não as merece ou mesmo esperar para que Nergal volte para mim desta
vez! Suba, imediatamente, meu fiel conselheiro! Você deve falar com Anu, Enlil
e Enki e dizer-lhes que desde que era menina, desde que escolhi o Mundo
Subterrâneo como meu reino, não tive mais a oportunidade de brincar como as
outros Deuses e Deusas brincaram ou os prazeres de crescer e ver o mundo
das alturas também amadurecer. Minha foi a escolha de manter o equilíbrio
entre as trevas e a luz, minha foi também a escolha pela solidão, que aceitei de
livre e espontânea vontade, tornando-me deste mundo a guardiã. Mas um dia,
um Deus veio até mim, primeiro cheio de ansiedade e medo, mas logo depois
entre ele e eu nasceu um grande desejo, uma paixão, um amor. Agora, eu
carrego dentro de mim a semente deste fogoso amor. Nergal é o nome deste
Deus! Que ele, que partilhou da minha mesa e do meu leito, volte para viver
comigo como meu amado! E se os Deuses das Alturas Superiores não
mandarem este Deus até mim, de acordo com os ritos deste mundo do qual
sou soberana e rainha, irei levantar os mortos e estes subirão ao Mundo das
Alturas para superar o número dos vivos! E que seja feito segundo a minha
vontade, agora e para sempre!

Namtar apressou-se a cumprir o mandato de Ereshkigal. Ele subiu a


longa Escadaria dos Céus, seguindo com segurança e presteza rumo aos
aposentos da Grande Assembléia dos Deuses das Esferas Superiores, onde
encontrou Anu, Enlil e Enki. Os grandes Deuses perguntaram a Namtar o que o
trazia novamente ao Mundo das Alturas.

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- Grandes Deuses, senhores e protetores de todas as alturas! Saudou-os
Namtar. Novamente venho a vossas augustas presenças em nome de minha
soberana e rainha, a grande Deusa do Mundo Subterrâneo, para entregar-vos
uma mensagem de grande importância. Minha rainha diz que desde que era
que era menina, desde que escolheu o Mundo Subterrâneo como seu reino, ela
não teve mais a oportunidade de brincar como as outras Deusas e Deuses
brincaram ou os prazeres de crescer e ver o mundo das alturas também
amadurecer. Dela foi a escolha de manter o equilíbrio entre a escuridão e a luz,
dela foi também a escolha pela solidão, que aceitou livre e espontaneamente,
tornando-se a fiel guardiã do Mundo Subterrâneo para todos os Deuses e
Deusas, seus irmãos. Mas um dia, um Deus veio até ela, primeiro cheio de
ansiedade e medo, mas logo depois entre ele e minha rainha nasceu um
grande desejo, uma paixão, um profundo amor. Agora, minha Senhora carrega
dentro dela a semente deste fogoso amor. Nergal é o nome deste Deus! Que
ele, que partilhou da mesa e do leito da Grande Deusa Ereshkigal, volte ao
Mundo Subterrâneo, para reinar ao seu lado! E se os Deuses das Alturas
Superiores não mandarem este Deus até minha senhora, de acordo com os
ritos das Grandes Profundezas da qual ela é soberana e toda poderosa, aos
mortos será dada vida para que subam ao Mundo das Alturas para superar o
número dos vivos! Esta é a vontade da minha senhora que todos dela estejam
cientes!

No silêncio que se seguiu, Enki foi o primeiro a recuperar a voz e dirigir-


se a Namtar:

- Entre, Namtar e cumpra as ordens de sua senhora. Encontre o que veio


procurar, se puder achar!

Namtar entrou novamente na companhia dos Deuses e Deusas dos


Mundos das Alturas. Como da vez anterior, à sua entrada, todos os Deuses e
Deusas saudaram-no com o maior respeito.

- Mais uma vez venho a vossa presença, para levar aquele que dentre vós
chama-se Nergal e conduzi-lo à presença de minha rainha.

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Namtar passou a examinar todos os Deuses e Deusas presentes, para
Nergal e somente Nergal identificar.

- Não sois vós, nem vós também! Eu não reconheço em vós a face de Nergal,
o Deus a quem venho buscar, disse Namtar, à medida que com cuidado e
atenção fitava os rostos voltados silenciosamente para ele.

Chegou o momento em que Namtar postou-se respeitosamente frente a


Nergal. Um silêncio eletrizante tomou conta da Assembléia, mas a mágica de
Enki, o poder da Ilusão, manteve-se firme e imperturbável.

Entretanto, os olhos do ministro de Ereshkigal não conseguiram


encontrar os do Deus em disfarce, que tudo fez para fugir, evitar o escrutínio
silencioso, calmo e cuidadoso de Namtar.

Estranho este jovem Deus fugir do meu olhar, nervoso o seu


comportamento, como se algo tivesse a esconder, pensou Namtar. Mas dele
também não é a face a qual devo reconhecer e a minha senhora nas Grandes
Profundezas levar.

- Não, eu não reconheço dentre todos aqui reunidos a face de Nergal, o Deus
que saiu do Mundo Subterrâneo na calada da noite, tal qual um ladrão,
escondido, concluiu finalmente Namtar, extremamente desapontado.

O conselheiro de Ereshkigal dirigiu-se então a toda assembléia:

- Meus sinceros agradecimentos aos grandes Deuses dos Mundos das Alturas,
despediu-se Namtar. Não pude, porém, o Deus que vim procurar aqui
encontrar. Mas mesmo não tendo cumprido minha missão, devo à minha rainha
imediatamente retornar.

Namtar retirou-se em grande estilo para retornar as Grandes


Profundezas, seguindo de imediato até Ereshkigal para relatar o seu insucesso.

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- Minha Senhora, tudo fiz conforme me foi pedido: retornei aos céus de vosso
pai, o Grande Deus do Firmamento, à Assembléia dos Anunaki para procurar
Nergal. Mas por mais que procurasse em todos os locais sagrados e profanos,
não pude encontrá-lo, apesar de ter olhado com atenção as faces de todos os
Deuses, os Anunaki das Alturas. Entretanto, devo dizer que dentre eles, havia
um jovem Deus que fez todo possível para me evitar, não me olhando nos
olhos, parecendo nervoso e agitado. Mas a face que meus olhos
cuidadosamente fitaram com certeza não era a do Deus a quem nas alturas
procurei.

- Estavam mesmo todos os Deuses presentes, Namtar? Inquiriu Ereshkigal.

- Com toda a certeza, minha rainha.

- Mas só um dentre eles estava nervoso e agitado. Este provavelmente era


Nergal, com certeza em disfarce ou protegido por alguma ilusão para não ser
reconhecido por você, meu fiel vizir e companheiro, raciocinou Ereshkigal. Mas
não nos deixaremos dar por vencidos, pois minha força agora Nergal vai ter de
conhecer! Volte, Namtar e faça o possível e o impossível para trazer de volta
Nergal até mim, sob qualquer disfarce, feição ou arte! Com certeza foi Enki,
meu astuto irmão, que fez alguma mágica para a proteção de Nergal. Desta
vez, caro conselheiro, seja todo olhos e ouvidos, para não ser enganado por
mágica, ilusão ou qualquer outra arte! Parta já, neste momento, com o dom que
lhe concedo de ver além das aparências, enxergar alem do invólucro de tudo e
todos a essência!

- Eu ouço e obedeço, minha senhora.

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O Retorno

Namtar fez uma profunda reverência e imediatamente desapareceu,


retornando as Esferas Superiores. De volta a Assembléia, na presença de
todos os Anunaki das Autoras, Namtar ergueu a voz para dizer:

- Grandes Deuses e Deusas, Anunaki das Alturas, eu vos saúdo mais uma vez
em nome de minha rainha, a toda poderosa Ereshkigal das Grandes
Profundezas! Eu subo até os grandes Deuses e Deusas com a missão de levar
de volta ao Mundo Subterrâneo o Deus que partiu sem se despedir de minha
rainha, que abandonou o Mundo Subterrâneo da forma mais covarde e
desgraciosa, tal qual um ladrão e criminoso, esgueirando-se na calada da
noite, fugindo para não ser apreendido. Em nome de minha senhora, eu
conclamo a Nergal, o Deus da Guerra e de todas as doenças, para com
coragem dirigir-se à presença de minha grande rainha! De onde estiver Nergal,
o Deus que amou e abandonou Ereshkigal, eu conclamo que a todos agora, de
imediato apareça! Será que o Deus que à minha senhora se apresentou já dela
e do que compartilharam juntos se esqueceu? Sete dias e seis noites de amor,
carinho e paixão nas Grandes Profundezas para ele nada significaram? Eu
exijo em nome de minha senhora as devidas reparações! Nergal, Deus da
Guerra que um dia ao Mundo Subterrâneo por sua livre e espontânea vontade
desceu, vossa presença é de novo exigida nas Grandes Profundezas, para
todo e qualquer mal-entendido esclarecer. Ao comer e beber da mesa de
minha senhora, sentar-vos ao lado dela, compartilhar do leito sagrado e
impregná-la com sua semente, um elo entre o Deus da guerra e a rainha do
Mundo Subterrâneo foi de forma indelével criado. Em nome de minha rainha,
da Grande Ereshkigal, eu conclamo Nergal, o Deus da guerra, para tudo com
minha Deusa esclarecer!

Nergal não pôde ficar indiferente às palavras de Namtar, ao discurso


apaixonado do fiel ministro e conselheiro de Ereshkigal. Com alegre surpresa,
o corajoso Deus da guerra percebeu que estava disposto a se render
incondicionalmente, corpo, mente, coração e espírito, à Ereshkigal, não apenas
por um momento, mas por toda a eternidade e além! Com esta grande certeza,
em passos longos e resolutos, Nergal foi até Namtar.

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- Não, Namtar, eu não me esqueci de Ereshkigal! Eu posso tê-la deixado, mas
certamente sempre pretendi voltar quando tivesse certeza dos desígnios do
meu coração, sem outros encorajamentos ou coação! Bem, irei provar uma
coisa a Ereshkigal: ela me terá como companheiro e consorte, mas não como
um fantoche na palma da sua mão! Em verdade, em verdade eu afirmo que
Ereshkigal pode ser a Soberana do Mundo Subterrâneo, mas eu exijo ser
tratado como seu igual, Deus e companheiro. Agora sou eu que vou até ela,
abrindo todos os portais mais cerrados e tudo fazendo para ensinar uma lição à
minha grande rainha e senhora do meu ardente coração!

De imediato, Nergal cumpriu a sua palavra, pois começou a longa e


árdua descida para o Mundo Subterrâneo. Desta vez, a cada portal, Nergal não
mais pediu, mas exigiu passagem, em voz calma, mas cheia de autoridade.
Como quem chegou para ficar Nergal desceu, como um soberano, ciente de
seus direitos e deveres, ele prosseguiu sem pestanejar, não ouvindo as
provocações dos guardiões dos portais, os quais não cessaram de testar as
reais intenções de Nergal. Pela primeira vez, o Deus da Guerra, o Beligerante
Nergal ignorou provocações, não perdeu a paciência.

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