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FILOSOFIA: DIÁLOGO DO ADULTO NA INFÂNCIA

Amilton Osmail Matias*


negraomatias55@hotmail.com
Ernando Cassemiro Gonçalves**
ernandonando@terra.com.br

Desde os primórdios da humanidade o homem almeja entender


a si e tudo o que está ao seu redor. Procura sanar dúvidas
manifestadas pelo assombro cotidiano. O assombro foi instaurado
pela contemplação mundana. O homem percebe não somente o
mundo, mas que está inserido nele. Este mesmo mundo será regido
por leis naturais, ou seja, a natureza se torna maestria do universo.
Espantados pela inquietação da grandiosidade universal, os homens
providos de razão buscam com a hermenêutica filosófica desvendar
os mistérios de seu habitat natural, encontrando uma infância dentro
da vida adulta transpassada pela historicidade natural. Nesta
interpretação natural o ser modifica a natureza, sendo isto convertido
como trabalho.
O trabalho, que deveria contribuir para a edificação do ser
humano, faz com que o mesmo deixe de ser humano consciente e
pertinente em seu ato de pensar. O Homem transforma-se
drasticamente num operário, vendendo sua força de trabalho ou
trocando sua mão-de-obra qualificada por um salário. Utilizando uma
planilha de diferenciação global entre competição desleal dos
habitantes capitalistas na captação de recursos materiais, o homem
se tornou objeto, ou uma ferramenta do instrumento de trabalho, o

*
Graduação em Ciências Sociais, UNESP. Marilia/SP. Especialização em Filosofia no
Ensino Médio, UnB. BSB. Professor do Ensino Médio Secretaria de Estado de
Educação do Distrito Federal. Sobradinho DF.
*
Graduação em Pedagogia, UniCEUB, BsB e Graduando em Filosofia UCB, BsB.
Especialçização em Filosofia e Existência, UCB, BsB. Professor do Ensino Médio do
Instituto Educacional Santo Elias. Sobradinho DF.
“[...] operário é reduzido à categoria de mercadoria e da mercadoria
mais miserável” (Marx, 1998). Essa ferramenta maleável modifica-se
e apropria-se cada vez mais do mundo exterior e da natureza
sensível, não estabelece relação direta com a essência do produto e,
dessa forma, torna-se refém dos meios de produção. Alheios ao
destino do bem produzido e sua valoração no mercado capitalista, o
trabalhador se torna um operário alienado. Quanto mais produzirá,
mais pobre ficará: “o operário torna-se tanto mais pobre quanto mais
riquezas ele produzir, quanto mais em poder e em volume crescer
sua produção” (Ibidem, 1998). O homem modificado pelo processo
do trabalho industrial sofre aculturação e, conseqüentemente,
aniquila seu ser: “a prática do trabalho revela-se de tal modo uma
perda da realidade que o operário perde sua realidade até morrer de
fome” (Op. cit., 1998).
Envolvido numa nuvem ilusória de desespero angustiante ao
decifrar por meio condescendente sua alienação trabalhista, o homem
sem conseguir uma luz esclarecedora ou diretiva de existência, atinge
seu nível perceptivo de impotência e desestímulo diante do quadro
social. Sem perceber, este o homem assimila e incorpora a ideologia
da economia política vigente global, conseqüentemente aceitando
fatores exteriores, como as linguagens e leis, não percebendo uma
polaridade ideológica degenerativa existente. Polaridade distinta
entre vertentes de sua angústia diante da alienação do trabalho.
O homem ainda ocultado na situação existencial tenta buscar
no mais íntimo das entranhas obscuras de sua consciência uma
solução para o problema apresentado. Recordando a admiração da
natureza e embrenhado no medo promovido pela angústia, o homem
desencadeia certa coragem diante do fato, provocando uma ação
revolucionária em si e nos outros. Esta revolução foi patrocinada pelo
encontro do eu com o outro. O encontro gera o pensar, “o pensar é
um encontro. Todo encontro que se aprecie como tal não pode ser
antecipado, deduzido ou previsto em formato que possa ser utilizado
para fins didáticos” (Kohan, 2003). O pensar nos remete a reflexão,
conseqüentemente criará uma relação íntima com o ato do filosofar.
O filosofar mantém intrínseca ligação com a filosofia.
A filosofia é a diversidade de caminhos onde os conceitos se
figuram. Atuando diretamente em direções divergentes para a
transcendência do ser. Ela não é teórica e sim prática. A prática é o
brincar. O homem adulto através de sua brincadeira de trabalhar,
invade o mundo da criança. Com seu trabalho, fabrica brinquedos que
em sua historicidade demonstra a fragilidade da criança. As bonecas
de antigamente só eram confeccionadas na forma adulta, não
existiam bonecas bebê de fraldas e sim adultos miniaturas com suas
devidas vestimentas. Esta imagem do brinquedo retrata o reflexo
social do entendimento da infância. Demonstra ausência de voz ativa
da criança. A palavra infância deriva desta ausência de voz, “a falta
de palavra, a ausência de voz (in-fans), nos afetos” (Lyotard apud
Kohan, 2003).
A brincadeira infantil firma conceitos e regras imaginativas e
reais no ato de brincar. Criando novos conceitos e imagens, a infantil
brincadeira vai além dos limites mentais, inserindo-se no processo
transcendental filosófico. “O conceito é uma entidade exclusiva da
filosofia” (Gallo, 2003) ele nos proporciona pensar o pensado de
forma pensante pensativa sobre os significados e suas significâncias.
O pensar conceitos nos leva a criação. Mas a criatividade do
modelo de brinquedo, foi à repetição da ‘maturidade’ adulta invadindo
a ‘imaturidade’ infantil. Os modelos são atribuídos na forma
contingente do conhecimento constitutivo da criança, quando lhe são
apresentados. O brinquedo da criança representa a maneira como o
adulto se coloca no mundo dessa criança “muitos dos mais antigos
brinquedos terão sido de certa forma impostos à criança como
objetos de culto, os quais só mais tarde, graças à força de
imaginação da criança, transformaram-se em brinquedos”
(Benjamim, 1991a). É a ideologia do faz de conta manipulado por
alguém que detém o poder de apresentar as necessidades físicas e
cognitivas da idade pueril. A afirmação desta criança se caracterizará
na existência do próprio eu. Com o auxilio da linguagem,
determinamos o que é e o que não é essencial para nossa
sobrevivência. Cada conceito pré-estabelecido que adquirimos, deve
ser por nós mesmos destruídos para que possamos reconstruí-lo
como sendo nosso, edificando-o. Assim, no caminho trilhado pelos
seres constatamos as margens da estrada o jogo filosófico
antropológico.
Dentro dessa estrada filosófica antropológica, percebemos que
a criança moderna foi e será instruída socialmente dentro de escolas.
Um lugar ao qual as pessoas contemporâneas se enclausuram ou se
aprisionam como num cárcere privado para ‘adquirirem’ educação, a
fim de se organizarem moralmente. Em aspectos sociais de educação
de forma temporal, percebemos a sociedade como reprodutora
elitista. A escola produzirá a distinção e disfunção entre as classes,
ela (des) organiza o pensar. Antes tínhamos um caos educativo;
devido à organização cognitiva colocamos ordem neste caos.
Entretanto, o grande problema da ordem educativa, é encontrar um
caos educacional, e o grande problema do caos educativo é a ordem
escolar cognitiva.
A ausência de problemas faz com que aceitemos o mundo como
é. Numa situação de felicidade, livres de qualquer coibição, tudo está
certo em perfeita ordem. Quando surge algo entristecedor ou um
problema, tudo se desmorona. Para sairmos dessa situação
angustiante recorremos à brincadeira. O brincar será de figurar
personagens sociais. A grande máscara será a experiência. “A
experiência pode ser a máscara da derrota, da resignação, do
consenso. Ela passa a ser o simulacro de uma vida não-vivida, de
sonhos não realizados, nem sequer intentados; a lança de um adulto
que combate sua própria infância – essa que não esquece as utopias”
(Kohan, 2003).
A experiência sendo esta coisa terrível, somente reconhecida no
adulto, onde seria algo genuíno e que ninguém pode nos oferecer ou
ter uma igual, desmembra trilhas percorridas por nós as quais serão
inundadas de falsas realidades constituídas por inúmeras ideologias
que nos lançam na mais profunda escuridão. Escuridão cognitiva de
compressão mundana a ser classificada pelo conhecimento, onde a
percepção sensitiva é o fator primordial para a aquisição e construção
da figuração mental da coisa a ser conhecida. A imagem mental
construída concebe-se de forma a restituir-se no engendrar de
processo da prática social. A criança, com seus sentidos perceptivos
irradiantes prestes a captar tudo à sua volta como se fora um radar,
captura o maior índice de conhecimentos/conceitos presentes;
concomitantemente, adquire formas de sitiar trabalho, capital e
história.
Percebendo que possui uma vasta experiência de encenação
humana, o ser apresenta seu currículo para a empresa social. A
empresa, ao contratar seu empregado, oferece uma máscara enorme
de uma falsa realidade tranqüilizadora protetora. O homem venderá
sua força de trabalho, ganhará um salário atingindo um status na
sociedade.
A cada momento híbrido de nosso cotidiano, a sociedade nos
apresenta máscaras, como se fossem escudos para a proteção
permanente. A pseudoproteção encontra-se sempre presente no
ente, enquanto a ilusão da tranqüilidade permanece velada. Dessa
forma o homem constrói sua humanização, seu próprio universo;
resultado de um comportamento global consumado na luta de
classes, com atitudes enraizadas nos contextos coletivos, histórico-
sociais, oportunizando-se a construção do grande palco social. Palco,
onde todos aparecem representando seu papel, com as respectivas
máscaras “a encenação è a grande pausa criativa no trabalho de
educação” (Benjamim, 1997d). O adulto se esconde atrás de diversas
máscaras, mas talvez a maior seja a máscara da experiência, ‘ela é
inexpressiva, impenetrável, sempre igual’ (Ibidem, 1991a), ela
promove um distanciamento em relação à criança quando pensa que
só ele a possui.
A história da experiência ungida pela filosofia nos leva fazer
com que a criança construa seu próprio fazer da vida. Porque
pensamos sobre o fazer, e isto nos leva a pensar que o fazer está
relacionado ao crescer fazendo, fazendo o crescer. Por exemplo, faço
o vaso na olaria, desenvolvo a modelagem material sem vida. Agora,
quando estou fazendo crescer vida no vaso, edifico a vida. Desta
maneira “filosofia é uma forma de arte; comportamento filosófico é,
portanto, comportamento artístico, e comportamento artístico produz
obras de arte que revelam criatividade” (Lipman, 1990 b).
As descobertas do fazer construir são experiências que
aprofundam o relacionamento, do eu com o outro. O eu sendo adulto
e o outro se encontrando na infância, projetam olhares distantes sem
compreensão - um e outro não compreendem o olhar como jogo “pois
é o jogo, e nada mais, que dá à luz todo hábito... Todo hábito entra
na vida como brincadeira, e mesmo em suas formas mais enrijecidas
sobrevive um restinho de jogo até o final” (Benjamim, 1991a). Aos
poucos, a transparência da vida se torna comum e solidária com essa
claridade; são passos inseguros e seguros ao mesmo tempo em que
se saboreia a intensidade dos triunfos da vida.
Questionar-se-á quem é o adulto e quem está na infância, são
questões medidas pelos olhares do jogo, transparência, experiência.
Nessa equação, a infância-adulta e a adulta-infância são
transformações da experiência onde os costumes convivem e vivem;
mas fazem estanques-diferenças: quando o claro entra no escuro ou
o cair da tarde entra na noite e o amanhecer entra no dia, os
aspectos se coadunam.
O pensar do jogo da experiência filosófica deve relatar que o
ser humano ao abrir lentamente os olhos, vislumbra no início, pela
trajetória filosófica pontos claros e escuros até construir uma
imagem, onde esta se expande como rizoma de assombros; para o
pensar jogo filosófico, minimizar e maximizar são peças ao tabuleiro
do jogar. Estamos brincando no jogo da vida ou a vida brinca no
jogo? Se for um jogo da vida, estamos jogando seguindo suas
normas e regras. Quando seguimos perfeitamente as normas não
estamos nós sendo jogados pela vida? O favorito deste jogo vital
enclausura-se numa redoma temporal. A sua liberdade será como o
brincar de estourar bolhas de sabão “sem dúvida brincar significa
sempre libertação” (Ibidem, 1991a), quando estourar uma bolha de
sabão será como quebrar o fator tempo de maturação mental,
aquelas bolhas serão como paradigmas. E o seu rompimento
formulará uma nova concepção. Essa nova concepção, será filosófica
onde desagrega e agrega o conhecimento temporal da existência do
ente. O fator do distanciamento e também da aproximação destes
entes, se desenvolve devido a fatores estrogênios, como no caso do
tempo. O tempo, de forma cíclica, nos remete ao passado ainda que
estejamos presos ao presente e nos convida para uma abertura para
a possibilidade existencial do futuro. A possibilidade é o local onde as
coisas aparecem. O aparecer do palco na encenação do espetáculo
mágico transforma-se no espaço lógico do vir a ser reluzente, no
aflorar do adulto em relação com a infância. O espaço lógico
determina distinções de onde se inicia e de onde se termina o ente. O
seu terminar não aflora em sua finitude existencial ou sua morte, e
sim na sua transformação do vir a ser. Mas só posso me perceber se
um dia tiver a consciência de minha finitude, “eu só me conheço na
minha finitude por meio da minha relação com outras finitudes, e
com um mundo caracterizado pela finitude...” (Kennedy,.1999) A
perspectiva de meu fim faz aflorar o desejo de viver. Viver está vida
moribunda, que desde minha fecundação comecei caminhar para a
morte.
Naquele mesmo espaço lógico há hegemonia entre adulto e
infância. Não sabendo mais quem está na adultez e quem está na
infância. Ou se os dois formam apenas um, ou o um são dois. Assim
o resultado da unificação promove o alargamento e o prolongamento
existencial e histórico. A ação que o contexto exerce sobre mim me
constitui. Eu, descobrindo que sou um ser constituído, devo ter pleno
conhecimento e domínio de mim. O que exerço na prática do
desenvolvimento está relacionado aos outros e a mim mesmo, o meu
objetivo “foi criar uma história dos diferentes modos pelos quais, em
nossa cultura os seres humanos tornaram-se sujeitos” (Neto, 2003).
A fabricação da experiência, de nós mesmos, e a captura de si estão
concatenadas na forma de um modelo.A concretização do modelo
inspirado na forma adulta demonstra perfeita infantilidade. A criança
aprecia o mundo dos adultos pelos seus sentidos. Os sentidos
formam um elo com a sensibilidade; a criança é sensível..
A pessoa infantil sem perceber oferece um terreno fértil
perceptivo ao adulto. O adulto com sua intromissão sensível percebe-
se na infância “a infância é a condição de ser afetado que nos
acompanha a vida toda” (Kohan, 2003). A sensibilidade
consubstancia a infância na adultez. Ela é o fator primordial de
reconhecimento do outro. Através do outro me percebo, ou melhor,
só posso perceber o outro a partir do momento em que ele se abre
para mim; se não se abrir para mim, não posso percebê-lo. O eu se
encontra na face do outro, não vejo minha face o tempo todo, e sim a
face dos outros, isto me leva a remeter que sou semelhante ao outro.
A sensibilidade é responsável pelo reconhecimento do outro. Se o
percebo não faço mal a ele, pois através do outro me conheço,
imagino, penso, existo e brinco.
A brincadeira faz parte da criança e do adulto; é uma intrínseca
relação entre o real, imaginária e sensível. A vida do adulto torna-se
uma brincadeira. Nesse jogo simbólico, a criança cria seu mundo de
faz de conta, estabelecendo regras e normas, onde o tempo é o
momento para criar e recriar o faz de conta. A criança, brincando no
seu próprio mundo o qual ela construiu de modo totalmente original,
oferece margens à sua imaginação quando atribui os significados e
significantes de uma figuração de forma figurada. O limite do pensar
é agora ultrapassado segundo a maneira transcendental da criação
criada da criança. Todo ser é criativo, mas exige-se um local para que
se possa exercitar esta criatividade. O excesso de criatividade e a
falta de um local para expressá-la poda o fator criativo.
A construção e a demolição de imagens e linguagens cognitivas
encontram seus alicerces no rizoma de expectativas da criação. A
criação caminha junto da afirmação e inovação de conceitos, como a
infância ao lado do adulto.
O homem adulto procurando significados em significâncias
existências encontra sua imagem no reflexo da infância. Temos o
adulto e a infância. Há um espaço entre adulto e infância. É
exatamente neste termo, o ‘entre’, que inferimos algo. O espaço
criado é a possibilidade de ascensão de um ao outro. No espaço
constatamos também a história. “No humano, a infância é a condição
da história” (Kohan, 2003). A história deve ser contada a partir da
infância, o adulto retorna a si mesmo, chegando à conclusão de que
ainda está na infância. Na anamnese adulta passa a trajetória pueril,
brincando no chão com um pedaço de giz rabiscando desenhos,
figuras, palavras coisas e coisas. Parece mais um amontoado de
linhas com retas, curvas perpendiculares, alguns paralelepípedos,
polígonos, todos sem forma e significado, como a vida presente do
adulto.
Nesta falta de representação, o adulto apresenta a figuração do
significado da historicidade vital. E chega à conclusão da construção
de sua história através da arte comportamental realizada por sua
infância. “as crianças podem comportar-se filosoficamente e, quando
assim o fazem, segue-se que o produto de tal comportamento
revelará criatividade”. (Lipman, 1990). Neste momento a vida se
depara como pano de fundo na criatividade, mobilizada por
personagens que fazem da prática a filosofia, movida pela infância no
ato da experiência do aprisionar e libertar-se diante do fator tempo,
“a criança sempre saboreia de novo a vitória da aquisição de um
saber-fazer, incorporá-lo. O adulto percorre esse caminho no sentido
inverso, porque no brincar está a origem do seu gestual cotidiano”.
(Benjamim, 1991a) Tudo isso, num contexto de iguarias regado pelo
belo artístico apresentado pelo eu e o outro.
O belo é como um gostar do ipê-amarelo, outro da cor lilás,
outro vermelho. Segundo David Hume “relativizam a beleza a
opinião” (Aranha Apud Hume,1997) o sabor a cada um. Cada pessoa
opina e discute seu gosto. O belo entretanto não está na percepção
ou no olhar de quem dirige o olhar. O belo é o introjetar da natureza
onde a pessoa admira uma colina verdejante e encontra o belo, um
outro indivíduo encontra o belo nas nuvens negras com relampejos
de chuva. A vinda do nascer de uma criança é uma imagem do belo,
antagonicamente um corpo que cai ensangüentado à morte também
o é.
“Na reflexão do belo se coloca a dualidade objetividade –
subjetividade aquilo que universalmente, ainda que não se possa
justificá-lo intelectualmente” (Kant, 1980). Percebemos que o belo é
um aprofundar no saborear do prazer, cujo fenômeno se aloja no ser.
O ser torna-se um estabelecimento aberto para receber as
informações da beleza, que se aloja no intelecto, como uma
centrífuga – o resultado é a revelação do belo pelo belo.
O rosto adulto com gotículas de lagrimas não se encerra na
tristeza, mas oferece uma transfiguração de alegria quando se depara
com o belo. A finitude dos balbucios adulto provoca o início da
musicalidade filosófica infantil. O final não dá sinal de morte, mas o
início de um quadro multicolorido. Multicolorido porque cada cor
representa o caminho filosófico traçado pela história de vida. O inicio
e o fim, possui, alguma cor de comunhão com o belo. Então o fim
deve ser um enorme começo do belo. O término da estrada se torna
à possibilidade de irmos além dela quebrando e iniciando outros
caminhos para o conhecimento. A consumação de uma brincadeira é
sinal que outra virá, com outras normas e regras, portanto novas
posturas. A nova brincadeira, apresentando o seu jeito sutil com a
leveza do ser, proporciona a sedução e o encantamento do brincar e
do jogar, enfeitiçando e alucinando os jogadores diretos e indiretos
de tal forma a ficarem obcecados e presos naquela realidade
esquecendo-se das demais. Realidade construída pelo trabalho e
manipulada para aquela determinada ocasião. Sendo gerada pela
contingência de significados e significantes dispersos de constituintes
singulares na forma figurativa. Proporcionando um ambiente prolixo
capaz de usufruir, construir e manter conhecimentos pensados por
pensadores pensantes num macro-contexto, restringindo a um micro-
contexto particular, do jogador-pensador. É o começo estético da
presença do ser na imanência da construção de conceitos firmados e
refletidos pela cansada e desanimador busca melancólica do
conhecimento. Conhecimento pictórico figurado cognitivamente com o
auxílio de jogos simbólicos relatados através de brincadeiras pueris,
de crianças com adultos e adultos com crianças. Formulando
encruzilhadas filosóficas, pois o objetivo transpassa o subjetivo e o
subjetivo transpassa o objetivo, na maturidade de obter um encontro
intersubjetivo de permanência do pensar infantil.

A história se perpetua no plano ontológico da infância


questionando a experiência como fator axiológico de posicionamento
e convicção da relação construtiva de conceitos existenciais. A luta
constante de formação e deformação de conhecimentos através de
imagens, linguagens e conceitos reais e imaginários nos leva a um
plano ôntico. A afirmação do ser - aí narrado se encontra na alienante
presença de atuação do dasein. Com auxílio externo e interno da
gama filosófica desencadeadora do andamento de seu processo
evolutivo de firmamento e reconhecimento existencial, o ente
percebe sua singularidade. A singularidade vai de vento em proa ao
encontro intersubjetivo, atuando diretamente sobre o outro. O eu,
com a sensibilidade, percebe o outro. Dentro deste novelo filosófico
do eu e do outro detectamos vários fios condutores a diversas
realidades. A realidade de um passa a ser a realidade do outro. O
brincar e jogar nos faz construir uma mega-construção, como um
arquiteto que planeja, fiscaliza e executa a obra de criação da
criatura a ser criada. Assim é a construção de nossa realidade adulta
- infantil. Portanto, nossa realidade será como vivermos em pleno
jogo filosófico, onde temos que ser aquela peça que foi movimentada
e ao mesmo tempo ser aquele que movimenta e cria as regras para
movimentá-las neste jogo ou brincadeira. Transfigurando minha
essência histórica contextualizada de minha figuração na realidade
perene.

Bibliografia

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