Você está na página 1de 4

03/03/2005 - Mandado de Segurança Coletivo

Bom dia,

Neste nosso encontro, estudaremos algumas relevantes orientações


do Supremo Tribunal Federal sobre o mandado de segurança coletivo,
remédio constitucional de natureza coletiva previsto no art. 5º, LXX,
da Lei Maior.

Estabelece a Constituição Federal que o mandado de segurança


coletivo pode ser impetrado por:

a) partido político com representação no Congresso Nacional;

b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente


constituída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa
dos interesses de seus membros ou associados.

Da promulgação da vigente Constituição até os dias atuais,


formaram-se, na doutrina e jurisprudência pátrias, algumas
controvérsias sobre a aplicação do mandado de segurança coletivo
entre nós.

Diante dessas controvérsias, coube à jurisprudência do Supremo


Tribunal Federal firmar o seu entendimento a respeito, nos termos a
seguir examinados.

Porém, antes de adentrarmos no estudo das orientações do Supremo


Tribunal Federal, peço vênia para uma breve consideração, que
certamente será considerada desnecessária por quase todos os
visitantes, mas, em se tratando de concurso público, ainda prefiro
pecar pelo excesso.

Não devemos confundir o mandado de segurança individual (CF, art.


5º, LXIX) com o mandado de segurança coletivo (CF, art. 5º, LXX).

O mandado de segurança coletivo é aquele impetrado por uma


das entidades apontadas no inciso LXX do art. 5º da Constituição
Federal (partido político, organização sindical, entidade de classe ou
associação), na defesa dos interesses dos seus associados ou
membros, e não aquele impetrado por um grupo de cidadãos, na
defesa de seus próprios interesses.

Com efeito, se dez indivíduos têm um interesse comum e resolvem,


juntos, impetrar um único mandado de segurança para a defesa
desse direito, não estaremos diante da impetração de um mandado
de segurança coletivo. Nessa situação, teremos um mandado de
segurança individual, com a formação de um litisconsorte ativo
(pluralidade de sujeitos no pólo ativo da ação).

Passemos às orientações do Supremo Tribunal Federal.

1) EXIGÊNCIA DE CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO

Estabelece a Constituição Federal que o mandado de segurança


coletivo poderá ser impetrado por “organização sindical, entidade de
classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há
pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou
associados”.

Segundo a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, essa


exigência de um ano de constituição e funcionamento destina-se
apenas às associações, não se aplicando às entidades sindicais e
entidades de classe.

2) DESNECESSIDADE DE AUTORIZAÇÃO EXPRESSA

Segundo a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, ao impetrar


um mandado de segurança coletivo, os legitimados do art. 5º, LXX,
da Constituição Federal estão atuando como substitutos processuais,
isto é, estão defendendo em nome próprio interesse alheio (interesse
dos seus membros ou associados).

Nessa condição, de substitutos processuais, não se se exige a


autorização expressa e específica dos membros ou associados para a
impetração do mandado de segurança coletivo, bastando para tal a
autorização genérica constante dos estatutos da entidade.

3) INTERESSE DEFENDIDO PELAS ENTIDADES COLETIVAS

No caso da legitimação das organizações sindicais, entidades de


classe e associações, muito se discutiu a respeito da natureza do
direito que poderia ser por elas defendido na via do mandado de
segurança coletivo, formando-se, a respeito, duas correntes de
pensamento.

A primeira corrente entendia que as entidades só poderiam defender


na via do mandado de segurança coletivo direito que fosse peculiar,
exclusivo dos seus membros ou associados. Assim, o Sindicado dos
Auditores-Fiscais da Receita Federal só poderia defender na via do
mandado se segurança coletivo direito que fosse exclusivo, peculiar
dos Auditores-Fiscais da Receita Federal (o pagamento de uma
gratificação privativa dessa categoria, por exemplo).
A segunda corrente entendia que as entidades poderiam defender na
via do mandado de segurança coletivo direito da titularidade dos seus
membros ou associados, independentemente de ser esse direito
exclusivo (ou não). Assim, o sindicato dos Auditores-Fiscais da
Receita Federal poderia defender na via do mandado de segurança
coletivo direito pertencente aos Auditores-Fiscais da Receita Federal,
ainda que esse direito pertencesse, também, a outras categorias
(poderia, por exemplo, pleitear a restituição do desconto indevido de
uma contribuição previdenciária incidente sobre a remuneração dos
Auditores-Fiscais da Receita Federal, ainda que essa contribuição
tivesse incidência sobre a remuneração de todos os servidores
públicos federais).

Essa segunda orientação, segundo a qual não se exige que o direito


defendido seja exclusivo da classe, foi a firmada pelo Supremo
Tribunal Federal.

Podemos, então, apresentar o seguinte exemplo, a respeito da


impugnação de matéria tributária: (a) a associação ou o sindicato
poderá ajuizar mandado de segurança coletivo para afastar a
incidência de determinado tributo, desde que esse tributo recaia
sobre os associados ou filiados; (b) é irrelevante o fato de tal tributo
atingir, também, outras classes de contribuintes, não associados, pois
não se exige que o direito pleiteado seja peculiar, próprio, da classe;
(c) evidentemente, caso tal tributo não onere os associados ou
filiados, a associação e o sindicato não terão legitimidade para ajuizar
o mandado de segurança coletivo, impugnando a sua exigência.

4) INTERESSE DEFENDIDO PELOS PARTIDOS POLÍTICOS

Em relação à legitimação dos partidos políticos com representação no


Congresso Nacional, também se formou controvérsia semelhante, a
saber: alguns entendiam que os partidos políticos só podiam ajuizar
mandado de segurança coletivo para defender interesse de seus
integrantes, enquanto outros entendiam que o partido político poderia
defender interesse da coletividade na via do mandado de segurança
coletivo (e não somente de seus integrantes).

O Supremo Tribunal Federal firmou entendimento de que os partidos


políticos podem impugnar, em sede de mandado de segurança
coletivo, qualquer ato público, e não somente aqueles relacioandos
aos interesses de seus integrantes (RE 196184, rel. Min. Ellen
Gracie).

Assim, se o partido entender que determinado direito difuso se


encontra ameaçado ou lesado por qualquer ato da administração,
poderá fazer uso do mandado de segurança coletivo, que não se
restringirá apenas aos assuntos relativos a direitos políticos e nem a
seus próprios integrantes.

Entretanto, o partido político não tem legitimidade para propor


mandado de segurança coletivo contra exigência tributária, uma vez
que o direito defendido deverá ser coletivo ou difuso, o que não
ocorre no caso de majoração de tributo, que, segundo entendimento
do STF, é “direito individualizado”, que deverá ser postulado em
outras ações próprias.

Podemos, então, concluir que: (a) o partido político pode impetrar


mandado de segurança coletivo na defesa de qualquer interesse
difuso, abrangendo, inclusive, pessoas não filiadas a ele; (b) porém,
não poderá impetrar o mandado de segurança coletivo para impugnar
exigência de tributo.

5) INTERESSE DE PARTE DA CATEGORIA

No caso da legitimação das organizações sindicais, entidades de


classe e associações, não se exige que o direito defendido na via do
mandado de segurança coletivo pertença a todos os membros ou
associados.

Assim, o Sindicado dos Auditores-Fiscais da Receita Federal, que


congrega Auditores-Fiscais ativos e aposentados, poderá impetrar um
mandado de segurança para defender interesse exclusivo dos
servidores em atividade, ou apenas de parte destes.

São essas as principais orientações do Supremo Tribunal Federal


sobre mandado de segurança coletivo que eu queria repassar a
todos; valorizem essas informações, pois elas têm sido cobradas em
concursos recentes, e certamente ainda aparecerão nos próximos.

Um forte abraço,

Vicente Paulo