BASES DO REPARO DE LESÕES NO DNA E DOENÇAS GENÉTICAS PRODUZIDAS

MECANISMOS DE REPARO DE LESÕES: A PRESERVAÇÃO DA INFORMAÇAO GENÉTICA O papel biológico desempenhado pelas moléculas de DNA exige que elas possuam duas propriedades fundamentais: (i) de auto-replicação e (ii) de preservação da informação genética. Para que o conteúdo informacional do DNA seja preservado e corretamente transmitido de geração em geração, é indispensável que haja fidelidade na replicação semiconservativa e que existam mecanismos de reparo de modificações estruturais produzidas no material genético por agentes físicos, químicos e biológicos. Erros na replicação semiconservativa podem ocorrer espontaneamente, mas são bastante raros, dada a existência de mecanismos capazes de impedi-los ou corrigi-los. Durante a formação das novas cadeias polinucleotídicas, além das diferenças de afinidades das bases nitrogenadas (formação preferencial de pares entre adenina-timina ou entre citosina-guanina, a atuação seletiva da DNA polimerase evita grande parte dos erros de pareamento devido a sua capacidade exonucleolítica (função editorial)). Outros mecanismos podem se expressar após a replicação, por meio de enzimas capazes de remover bases nitrogenadas incorretamente incorporadas à cadeia ou de degradar segmentos nos quais tenham erros. Para tal, é indispensável à distinção entre as hélices neossintetizadas e as pré-existentes, o que depende dos diferentes graus de metilação existentes entre elas. Quando persistem erros de pareamento após a replicação, algumas enzimas entram em ação. As proteínas MutS e MutL reconhecem os erros de pareamento e a proteína MutiH corta o DNA nas seqüências 5’GATC3’ não metiladas (ou novas). Posteriormente a DNA polimerase copia o novo o trecho retirado pelo sistema Mut. A atuação conjugada destes processos faz com que a probabilidade de ocorrência e/ou persistência de um erro de pareamento seja bastante reduzida, da ordem de grandeza de 10-10, ou seja. de um nucleotídeo indevidamente inserido para cada 1010 nucleotídeos. Uma base nitrogenada incorporada erroneamente acarreta alteração do conteúdo informacional transmissível às gerações subseqüentes, constituindo a mutagênese direta. REPARO DE LESÕES Diversos agentes físicos ou químicos do meio ambiente e mesmo componentes biológicos podem promover modificações estruturais na molécula de DNA, englobadas sob a designação genérica de lesão, cuja persistência representa um obstáculo à manutenção dos processos bioquímicos intracelulares regulares. Assim é fácil entender a importância dos mecanismos enzimáticos que atuam restaurando a integridade do genoma ou criando vias que permitam à célula tolerar as lesões, isto é, manter suas funções mesmo sem a eliminação dos danos provocados no DNA. A não funcionalidade dos mecanismos de reparação conduz à inativação da célula após o seu tratamento com o agente físico ou químico ou, eventualmente, pode ocorrer modificação do património genético, isto é. podem surgir mutações. Mas nem sempre os mecanismos de reparo atuam corretamente. Em alguns casos eles podem promover o desaparecimento da lesão, com alteração do conteúdo informacional, o que caracteriza a mutagênese indireta. Os mecanismos de reparação do DNA, em geral, são dependentes dos produtos de diversos genes e se caracterizam por possuírem várias etapas. possibilitando vias alternativas, muitas vezes coexistentes e competitivas. REVERSÃO DIRETA DAS LESÕES Alguns tipos de lesões podem ser revertidos diretamente mediante a ação de uma única enzima. que desfaz a lesão produzida, restaurando a integridade da molécula de DNA. Como exemplos de mecanismos deste tipo de reparação podem ser citados a fotorreativação e a remoção de grupamentos alquil. FOTORREATIVAÇAO Entre os fotoprodutos formados pelas radiações UV germicidas, os dímeros de pirimidinas são os mais freqüentes. sendo os responsáveis pela inativação celular. A fotorreativação consiste na eliminação de dímeros de pirimidinas mediante exposição das células previamente irradiadas com UV germicida a novas irradiações com UV ou à luz visível. O processo é mediado pela enzima de fotorreativação ou fotoliase, que tem a propriedade de combinar-se, mesmo em ausência de luz, com DNA contendo dímeros de pirimidinas. Quando o complexo enzima-substrato é iluminado, ele se dissocia, sendo liberados o DNA reparado e a enzima. esta podendo atuar em outros sítios nos quais ainda existam dímeros. A fotoliase age rompendo a ligação ciclobutano entre duas pirimidinas. Os

Por esta razão. levou à proposição da existência de um mecanismo de reparação independente da iluminação que seria deficiente nestes mutantes. que apresenta. Em células de mamíferos. Recentemente. à semelhança do que ocorre na reparação por excisão. pelo menos. que são transcritos em RNA mensageiro e traduzidos em proteínas. dependentes de diversos genes. Em E. REPARAÇÃO PÓS-REPLICATIVA A existência na célula de dois ou mais exemplares de determinada seqüência informacional pode favorecer a manutenção de sua viabilidade após tratamentos com agentes físicos ou químicos pela recombinação de fragmentos não lesados. Como exemplos de reparação indutiva têm-se . A etapa final do processo é promovida. mediadas por determinados sinais. REPARAÇÃO POR EXCISÃO O isolamento de mutantes de E. Assim. REMOÇÃO DE BASES NITROGENADAS Bases nitrogenadas lesadas pelo tratamento com um agente físico ou químico podem ser removidas pela atuação de N-glicosilases. uvrB e uvrC. foi mostrado que essa endonuclease é capaz de produzir duas roturas na cadeia polinucleotídica. (ii) excisão e polimerização: é etapa seguinte do reparo e envolve a DNA polimerase que preenche as lacunas deixadas e que também tem o papel de excisar a lesão. (III) ligação: a finalização do reparo é promovida pela polinucleotídeo ligase. sendo hoje conhecido como reparação por excisão ou reparação por excisão-ressíntese que compreende as seguintes etapas: (i) reconhecimento e incisão: é a primeira etapa do mecanismo de excisão de fragmentos da cadeia polinucleotídica. a endonuclease parece ser codificada por um número ainda maior de genes. produtos de adição de vários compostos químicos (tais como a mitomicina C e a psoraleína). vários adutos (inclusive a 6-4 timinacitosina). Assim. pela polinucleotídeo ligase. podem ser reconhecidos: dímeros de pirimidinas. O modelo de mecanismo de reparo fundamenta-se nas trocas de material genético entre as moléculas de DNA . oito genes distintos. a doença humana xeroderma pigmentoso (XP). nesta doença. e expressadas fenotipicamente pela desrepressão de um ou mais genes. Em alguns casos. REPARAÇÃO INDUTIVA Agentes físicos ou químicos podem provocar respostas celulares articuladas. O fechamento das lacunas formadas durante o processo de reparo recombinacional é realizado pela DNA polimerase 1. Uma vez que. Nesta situação. tais como. a reparação recombinacional exige a atuação de varias proteínas intracelulares. a deficiência herdada geneticamente da atividade endonucleolítica. entre outras características. capazes de romper a ligação entre a base e a desoxirribose gerando sítios apurínicos ou apirimídicos (sítios AP). só sendo funcional se estes genes encontram-se sob a forma de seus alelos selvagens. respectivamente. bastante sensíveis às radiações UV germicidas. estas lesões podem ser reparadas diretamente pela remoção dos grupamentos alquil. Em E. que é relativamente inespecífica em relação à natureza da lesão.BASES DO REPARO DE LESÕES NO DNA E DOENÇAS GENÉTICAS PRODUZIDAS comprimentos de onda mais eficientes para promover a fotorreativação situam-se entre 340 e 390 nm. Devido a sua complexidade. nitrosouréia ou nitrosoguanidína. Vias competitivas também parecem existir. este mecanismo foi inicialmente denominado de reparação no escuro. a proteína RecA forma longos filamentos que envolvem as hélices do DNA promovendo a troca de fitas entre duas moléculas de DNA. TRANSFERÊNCIA DE GRUPAMENTOS ALQUIL Quando células são tratadas com agentes alquilantes. e é denominada de endonuclease UvrABC. coli. além do produto do gene recA. o DNA é alquilado nas mais diversas posições. elevada sensibilidade ao UV solar e alta incidência de câncer de pele. parece lógico admitir ser a enzima ativa o produto de. a endonuclease responsável por esta etapa é codificada pelos genes uvrA. pois a enzima por ela responsável identifica como substrato moléculas de DNA que contenham distorções produzidas por vários tipos de lesões. A remoção dos grupamentos alquil das bases acarreta a inativação destas proteínas. admite oito grupos distintos de complementação. que faz a união do fragmento neossintetizado à extremidade livre da cadeia pré-existente. coli existem duas enzimas que reparam o DNA por transferência direta do grupamento alquil: as proteínas Ada e Ogt (O-6-metilguanina DNA metil transferases) codificadas pelos genes ada e aogt. coli B denominados Bs-1 e Bs-2. anterior e posteriormente à lesão.

Este fenômeno. responsável pelo aumento da resistência celular ao peróxido de hidrogênio. neste momento acumulada na célula. LexA e dos produtos dos outros genes que estavam reprimidos por LexA. Como você se posiciona em relação ao consumo de uma dieta rica em alimentos com substâncias oxidantes. envolvendo as proteínas RecA e lexÀ. algumas moléculas desta proteína passam ao estado co-proteolítico (co-protease RecA). elas podem tomar-se mais resistentes a tratamentos posteriores com concentrações elevadas (letais) do mesmo agente. pelo menos duas enzimas acumulam-se após o tratamento indutor. Sua interação com a proteína LexA induz a autoclivagem desta. A oxidação da proteína OxvR é o sinal para que haja a ativação da transcrição destes genes. glutationa redutase e uma alquil hidroperóxido redutase. genes ligados a outras funções celulares como a filamentação. mas. superóxido dismutase. Que tipo de dieta você sugeriria um paciente com alguma doença sugestiva da participação e ERO. 0-4 da timina e da ligação fosfodiéster. remove grupamentos alquil inseridos nas posições 0-6 da guanna. ela poderia justificar inúmeros fenômenos da maior relevância. a proteína Ada sofre uma mudança conformacional.BASES DO REPARO DE LESÕES NO DNA E DOENÇAS GENÉTICAS PRODUZIDAS as respostas adaptativas e as funções SOS. é explicado pelo acúmulo intracelular de uma ou mais enzimas capazes de eliminar lesões provocadas no DNA pelo tratamento. Ambas são capazes de promover a eliminação de lesões provocadas no DNA por agentes alquilantes e. que atuam tendo como intermediários as ERO. RESPOSTAS ADAPTATIVAS Quando células procarióticas ou eucaríóticas são expostas a concentrações reduzidas (sub-letais) de determinados agentes químicos. coli: (i) a proteína LexA (o produto do gene lexA é repressora de diversos genes. As espécies reativas de oxigênio estão relacionadas ao aparecimento de diversas respostas do sistema biológico. O modelo hoje admitido fundamentase nos seguintes princípios. reduzindo assim seus efeitos letais ou mutagênicos. cuja expressão é dependente da existência de alelos selvagens de dois genes: recA e lexA. pois. observa-se o aumento da quantidade intracelular das proteínas RecA. (ii) a proteína RecA é uma enzima multifuncional. entre os quais encontram-se o próprio gene lexA. particular importância tem sido dada a um conjunto de funções celulares desreprimidas quando surgem lesões no DNA. A proteína Ada. o surgimento de lesões no DNA). etc. Com base no que você estudou. portanto. 0 produto do gene oxyR é um regulador positivo de pelo menos nove genes. Em E. de reduzir a inativação celular e a mutagênese produzidas por estes agentes. Diversos fenômenos foram observados e interpretados como uma forma de expressão de mecanismos induzidos de reparação do DNA em eucariotos. discuta a importância dos mecanismos de reparo de lesões do DNA . em muitos casos. O sistema de controle da expressão das funções SOS é relativamente complexo. pelo menos em E. conduzindo à síntese de milhares de moléculas de Ada. Para que ela se expresse é indispensável que a célula possa sintetizar proteínas após o primeiro tratamento indutor. se verificada experimentalmente. No caso da remoção do metil da ligação fosfodiéster. o nível de protease RecA se reduz e a proteína LexA. Quando ocorre o sinal indutor (por exemplo. entre os quais a própria transformação neoplásica. inclusive o peróxido de hidrogênio.. o alkA que codifica para a síntese da 3-metil adenina DNA glicosilase II (Tag II) que remove bases metiladas em diferentes posições. A existência em células de mamíferos de funções análogas às que acabam de ser descritas em bactérias constitui um dos pontos mais polêmicos entre os foto e radiobiologistas. as chamadas funções SOS. A resposta adaptativa também tem sido descrita após tratamento com diversos agentes químicos. (iii) após a eliminação das lesões (e conseqüentemente do sinal indutor). coli e em algumas outras espécies bacterianas.. o gene recA. volta a reprimir os genes por ela controlados. O gene oxyR codifica a proteína OxyR. genes ligados a processos de reparação. todos já verificados experimentalmente. A hipótese da existência de um mecanismo geral de controle de diversos genes em eucariotos é bastante atraente. Como consequência. O excesso de proteína Ada conduz a desrepressão de outro gene. conhecido como reparação adaptativa. FUNÇÕES SOS Em termos de reparo. tomando-se um ativador de seu próprio gene. outras interpretações são igualmente possíveis. Quatro das proteínas OxvR-dependentes já foram identificadas: catalase. desempenhando diversos papéis na célula (controle da recombinação genética e da reparação pós-replicativa. por exemplo).

assim como. ao fato dos seres vivos estarem expostos à radiação natural.BASES DO REPARO DE LESÕES NO DNA E DOENÇAS GENÉTICAS PRODUZIDAS do ponto de vista dos procedimentos médicos que empregam agentes químicos e físicos. Identifique os principais radio e fotoprodutos formados na molécula de DNA e discuta as consequências do mesmos. .

Usualmente. etc. hiperpigmentação. dilatação permanente dos capilares. Entretanto. embora não pareça haver aumento da incidência de neoplasias. de tal forma que crianças portadoras desta doença aparentam se encontrar cm estado senil. a enzima codificada pelo gene denV do fago T4. de sinais e sintomas devidos à insuficiência coronariana. As deficiências imunitárias e a alta incidência de leucemias. A síndrome de Bloom é caracterizada por severos retardos no crescimento. antes dos 20 anos de idade. grande incidência de alguns tipos de câncer de pele. A incidência de neoplasias é bastante elevada. o mecanismo ainda é controvertido. como por exemplo a mitomicina C. além de freqüentes alterações da resposta imune. muitas vezes por leucemia. É interessante ressaltar que a incidência destas doenças parece correlacionada com determinados grupos populacionais. tremores. as responsáveis pela morte. principalmente dos raios cósmicos. Entretanto. A morte costuma ocorrer na infância ou na adolescência. sendo comum o aparecimento. o que toma possível a evolução normal do processo de excisão. Células XP não reparam fotolesões por serem deficientes na endonuclease. na infância. que se caracteriza por elevada sensibilidade ao sol. queratoses. Células de pacientes com esta doença são bastante sensíveis às radiações ionizantes e agentes alquilantes. A progeria ou síndrome de Hutchinson-Gilford caracteriza-se por envelhecimento bastante precoce. retardo no crescimento e no desenvolvimento intelectual e pigmentação marrom da pele.LEITURA COMPLEMENTAR MECANISMOS DE REPARAÇAO E ALGUMAS DOENÇAS Em diversas doenças foi verificada a ocorrência dr determinadas deficiências nos mecanismos de reparação de lesões produzidas no DNA por agentes físicos ou químicos. são muito sensíveis a agentes químicos que provocam ligações cruzadas. desordens da palavra. mal-formações ósseas. arteríolas e vênulas e deficiências imunológicas. Isso pode ser demostrado. quase sempre. a morte ocorrendo. envelhecimento precoce e sensibilidade ao UV solar. o que tem sido interpretado como devido à dificuldade para a reparação das roturas produzidas no DNA. esta hipótese ainda não foi confirmada A ataxia telangiectásica (AT) caracteriza-se por distúrbios neurológicos de origem cerebelar (dificuldades de coordenação motora. A anemia de Fanconi caracteriza-se por severas deficiências na hematopoiese. A síndrome de Cockayne caracteriza-se por um desenvolvimento normal na infância seguida de uma parada deste desenvolvimento físico e mental. Foi proposto que. mas parece haver deficiência na reparação pós-replicativa. embora células destes pacientes sejam muito sensíveis a agentes alquilantes como o etil-metanossulfonato. O xeroderma pigmentoso é uma doença autossômica recessiva. Em alguns variantes da doença. devidas a erros hereditários na síntese de uma ou mais enzimas. são.). o reparo por excisão é normal. ocorreria impossibilidade de reparação de lesões provocadas pelas radiações ionizantes. enquanto a síndrome de Bloom ocorre significativamente nos Estados Unidos. embora o defeito nos mecanismos de reparação ainda não tenha sido detectado. etc. embora os sintomas clínicos sejam análogos. eritema telangiectásico nas zonas expostas ao UV solar e elevada sensibilidade a esta radiação. entre famílias judias oriundas de uma determinada região da Ucrânia. adicionando a culturas destas células. sendo o envelhecimento acelerado pelos efeitos deletérios das radiações ambientais. . retardo no crescimento. Células de pacientes acometidos desta doença. pois as cinéticas dos reparos por excisão e pós-replicativo parecem normais. O defeito no mecanismo de reparação ainda não foi identificado. embora aparentemente sejam proficientes em reparação pós-replicativa. nestes pacientes. uma vez que a ataxia telangiectásica é freqüente em Israel em judeus de origem marroquina. retardo mental. Experimentalmente. Esses fatos favorecem a hipótese de que certos genes recessivos estariam relacionados com a potencialidade do desenvolvimento de uma dessas doenças. As células destes pacientes são muito sensíveis ao UV.

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