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Hector #1 - Aline Rubert

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© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Copyright © Aline Rubert, 2020

Todos os direitos reservados. É proibido o armazenamento, cópia e/ou


reprodução de qualquer parte dessa obra — física ou eletrônica — sem
autorização prévia da autora. A violação dos direitos autorais é crime
estabelecido pela lei nº.9.610./98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Esta é uma obra de ficção, nomes, lugares e acontecimentos aqui
descritos são produtos da imaginação da autora, toda e qualquer semelhança
com eventos reais são mera coincidência.

Revisão: Bah Pinheiro


Capa: Aline Rubert
Diagramação: Aline Rubert

2020
1ª Edição

HECTOR
Irmãos Vanslow – Livro 1
© Todos os direitos reservados a Aline Rubert
Sumário
Nota da Autora
Capítulo Um
Capítulo Dois
Capítulo Três
Capítulo Quatro
Capítulo Cinco
Capítulo Seis
Capítulo Sete
Capítulo Oito
Capítulo Nove
Capítulo Dez
Capítulo Onze
Capítulo Doze
Capítulo Treze
Capítulo Quatorze
Capítulo Quinze
Capítulo Dezesseis
Capítulo Dezessete
Capítulo Dezoito
Capítulo Dezenove
Capítulo Vinte
Capítulo Vinte e Um
Capítulo Vinte e Dois
Capítulo Vinte e Três
Capítulo Vinte e Quatro
Capítulo Vinte e Cinco
Capítulo Vinte e Seis
Capítulo Vinte e Sete
Capítulo Vinte e Oito
Capítulo Vinte e Nove
Capítulo Trinta
Capítulo Trinta e Um
Capítulo Trinta e Dois
Capítulo Trinta e Três
Capítulo Trinta e Quatro
Capítulo Trinta e Cinco
Capítulo Trinta e Seis
Capítulo Trinta e Sete
Capítulo Trinta e Oito
Capítulo Trinta e Nove
Capítulo Quarenta
Capítulo Quarenta e Um
Capítulo Quarenta e Dois
Capítulo Quarenta e Três
Capítulo Quarenta e Quatro
Capítulo Quarenta e Cinco
Capítulo Quarenta e Seis
Capítulo Quarenta e Sete
Capítulo Quarenta e Oito
Capítulo Quarenta e Nove
Epílogo
Dê uma espiada no próximo livro
Nota da Autora

Este é um trigger warning (aviso de gatilho). Este livro contém cenas gráficas
e fortes de temas como depressão, borderline e ansiedade. Se você não se
sente confortável com estes temas, peço que, por favor, feche o livro agora.
Se você precisar de ajuda de qualquer forma, o número do CVV (centro de
valorização à vida) é 188, e também pode ser acessado por chat pelo site
https://www.cvv.org.br/.
Depressão não é brincadeira, é uma doença psicológica e merece todo o
respeito e tratamento de doenças físicas. Se você se identificar com os
sintomas da personagem, procure ajuda. Nunca é tarde para melhorar.

Atenciosamente, Aline Rubert.


Que saco. Eu já estava atrasado há dois minutos, e o maldito elevador
não chegava até a cobertura. Sim, a reunião era com meus irmãos, ainda
assim, não pegava bem chegar atrasado. Bem, pelo menos eu tinha a certeza
de que chegaria antes de Ethan, que só aparecia quinze minutos depois em
todas as reuniões que tínhamos da empresa. Senso de responsabilidade zero.
Bati o pé no chão de metal, impaciente. O elevador finalmente parou
na cobertura do Pallace e eu saí, seguindo até a sala de reuniões de Roman.
Meu irmão morava no apartamento de cobertura do Pallace de Nova York,
hotel que administrava. Vez ou outra quando alguma coisa surgia, às vezes
apenas para deixarem uns aos outros a par de tudo, fazíamos uma reunião
aqui, sobre a Vanslow Corporation, empresa de nosso pai. A Vanslow. Corp
administrava outras empresas das quais éramos donos individualmente, e
ficamos como donos responsáveis da empresa em si, após nosso pai,
Frederick Vanslow, se aposentar. As reuniões eram sempre aqui ou no prédio
central da Vanslow Corp, mas preferíamos nos reunir aqui, e já transformar a
reunião de negócios em uma reunião de família, que estavam mais raras a
cada dia.
Entrei na sala, vendo três dos meus quatro irmãos. Roman era o mais
velho, com trinta anos, e de acordo com as mulheres era o mais bonito dos
cinco. Já ouvi mais de uma secretária dizendo que ele era como vinho, que só
melhorava com a idade, e sempre ri disso. Mal sabiam elas que meu irmão
era mais frio que uma pedra quando se tratava de alguém fora da família. Ele
tinha olhos claros e usava o cabelo curto, sempre pra cima. Eu era o segundo
mais velho, com vinte e sete anos, seguido pelos gêmeos de vinte e cinco.
Brian e Phillip não eram idênticos, eram quase opostos. Um de cabelos
castanhos rentes à cabeça, raramente usava terno e ganhava a vida como
pintor e com galerias de arte, enquanto o outro era loiro como nossa mãe,
vivia com aquele terno azul de risca de giz e era o mais empenhado na
empresa, depois de Roman, mais até do que eu.
— Me desculpem o atraso — falei, enquanto me sentava na minha
cadeira habitual. Brian riu.
— Três minutos não é atraso. Ethan é atraso. — Ele deu de ombros,
se recostando na cadeira, e eu podia ver que estava lutando contra o impulso
de colocar os pés na mesa. Ele era o mais desleixado, depois do mais novo. E
como se por falar no diabo nós o invocássemos, Ethan passou pela porta, os
cabelos despenteados e usando uma jaqueta de couro. Dos cinco, ele era o
mais rebelde, com o cabelão escuro e a barba, nunca usava um maldito terno
nem se comportava como devia. Roman detestava isso nele, e eu também.
— Chegou cedo. Que milagre é esse, caiu da cama hoje? Só cinco
minutos de atraso, seu novo recorde — provoquei, rindo. Ele me mostrou o
dedo do meio em resposta.
— Ethan! — Roman repreendeu e nosso irmãozinho simplesmente
deu de ombros, se sentando e fazendo o que Brian não tinha coragem:
colocando os pés na mesa. Roman suspirou, revirando os olhos. — Muito
bem, eu chamei vocês aqui para uma conversa sobre um evento beneficente
que está surgindo, e como cada um pode ajudar. Afinal, não é porque...
— Somos privilegiados, que não vamos ajudar os outros — nós
quatro completamos a frase que ele adorava repetir, rindo. — Já sabemos,
Roman. E imagino que já tenha pensado em tudo.
— Bem, sim. — Ele deu de ombros, cansado de nosso mau
comportamento e pegando quatro pastas, empurrando uma na direção de cada
um de nós. — A Vanslow Corp participará fazendo pequenos eventos
beneficentes e promoções para a ajuda, a começar pela galeria de Brian e seus
quadros, com um leilão cem por cento sem lucros, com todo o valor
arrecadado indo para a causa.
— E podemos saber qual é a causa?
— Crianças. Mais especificamente, crianças necessitadas e órfãs de
várias partes do mundo — Roman continuou a explicação.
— Ok. Parece bom pra mim, e os outros? — Brian ergueu uma
sobrancelha, olhando ao redor da mesa para nós. Abri a pasta na minha
frente, enquanto Roman voltava a falar.
— A gravadora de Phill fará um show beneficente com todos os
artistas que conseguir reunir, de preferência em um dos eventos que vamos
sediar. Ethan, você vai fazer uma doação significativa, já que ainda não tem
nada fixo.
— Não sei por que ainda faz essas reuniões, só pra nos dar ordens,
poderia ter mandado só uma mensagem. — Ethan deu de ombros e eu não
segurei uma risada. Ele não estava totalmente errado.
— Continuando — Roman ignorou o comentário dele —, eu sediarei
um evento beneficente aqui no Pallace, para grandes personalidades famosas,
e por último, Hector. Como ele também trabalha com hotéis, ficaria repetitivo
mais um evento, então ele usará seu segundo talento: falar. — Ele se virou
para mim, com aquele sorrisinho de quem se achava o dono do mundo. —
Você dará palestras em faculdades e auditórios, falando sobre crescimento
profissional e a importância de ajudar quem não teve as mesmas condições de
crescer. Mais especificamente, você irá arrecadar doações de quem estiver
disposto a ajudar.
— Ou seja, vou fazer o que já faço e pedir doações no final?
— Exatamente — Roman assentiu, e eu balancei a cabeça. Sempre
ficava com a parte mais trabalhosa, mas ao menos isso mostrava que eu tinha
responsabilidade. — A primeira palestra será na escola de artes Lucille, para
os alunos de alguns cursos de lá. Cinema, direção, atuação... um pessoal com
o qual você vai se identificar.
— Ah com certeza. — Revirei os olhos ironicamente, rindo. Eu era de
exatas até não poder mais, havia me formado em Economia, e fazia toda a
contabilidade dos meus irmãos e da empresa. Era o cérebro matemático da
família, perdendo apenas para Roman, que era praticamente uma divindade.
Pessoal de humanas que aplaudia o sol não era exatamente a minha praia.
— Bem, por hoje é isso.
— Viu o que eu disse? Podia ter só nos mandado mensagens e teria o
mesmo efeito — Ethan resmungou, pegando o celular do bolso e checando
suas mensagens. Roman respirou fundo.
— Por mensagem, eu não poderia fazer... isso! — E atirou a pasta de
Brian diretamente na cabeça de Ethan, que gritou um sonoro “porra”,
enquanto erguia o olhar para Roman, que ria, em um de seus raros momentos.
— Eu te odeio.
— Também te amo, irmãozinho. — Ele riu, empurrando a cadeira de
rodinhas para trás e se levantando. — Agora, quem quiser me acompanhar
em uma bebida, vou estar no bar. Ethan, pode evaporar.
— Vou beber seu whisky caro, obrigado. — Ethan se levantou,
seguindo Roman para fora. Eu fui o último a sair, indo encontrar com eles no
bar da varanda.
A cobertura tinha dois andares, e o primeiro onde estávamos ficava a
sala de reuniões, o bar interno e o externo, uma sala de estar ampla, ao lado
de uma cozinha e uma enorme sala de jantar. Todos os dois últimos andares
do Pallace eram dele, então era espaço de sobra. Caminhei até o bar, vendo
meu reflexo nas paredes de vidro que dividiam a área interna da externa. Meu
cabelo estava razoavelmente arrumado, raspado nas laterais e penteado para
trás em cima, a barba um pouco grande no mesmo tom claro de castanho. Eu
estava usando um terno, tinha vindo direto de outra reunião, e folguei a
gravata enquanto pegava um copo com whisky de cima do bar e ia me sentar
perto dos outros.
— E então, por qual motivo vamos encher a paciência uns dos outros
hoje?
— Eu diria relacionamentos, mas considerando que somos quatro
solteirões e um bebê — Phill apontou para Ethan, rindo —, nem teria graça.
— Sou só três anos mais novo que você, palhaço.
— Exatamente, um feto nesa vida, nem empresa própria tem ainda,
por pura indecisão.
— Eu tenho vinte e dois anos. O homem normal de vinte e dois anos
não tem nem formação acadêmica completa, que dirá uma empresa própria.
— Ethan era o mais realista de nós, ao menos alguma vantagem ele tinha.
— Não somos pessoas normais, somos herdeiros de um império
bilionário. Temos tantas obrigações como os outros, mas as nossas são um
pouco diferentes. — Brian deu de ombros, tomando um gole de whisky.
Havíamos puxado o gosto do nosso pai por bebidas fortes.
— Somos um clichê. — Phillip riu. — Conseguem imaginar quantas
adolescentes leem cinquenta tons e imaginam que somos como o tal do sei lá
o que Grey?
— CEOs frios e calculistas, com fetiches estranhos e violentos. Quem
diria que nossa imagem ficaria resumida a isso. — Roman balançou a cabeça,
se recostando na poltrona onde estava.
— Não é de se impressionar que estejamos todos solteiros. — Brian riu. —
Só nos aparecem malucas com fetiches em personagens de livros. Será que
custaria demais alguém fazer um CEO que não fosse um pé no saco?
— Quebraria o estereótipo. — Eu ri, tomando um gole do meu copo. —
Consegue imaginar um livro com um CEO bom, que faça caridade e ame
cachorrinhos pequenos e adoráveis? Não venderia nada.
— Está querendo um livro só sobre você e seu pug, Hector? — Ethan me
alfinetou, rindo. Eu dei de ombros.
— As grandes aventuras de Hector e Rudy, seu fiel escudeiro canino. Me soa
bem.
— Pobres de nós, temos um irmão louco. — Brian riu, arrancando risadas
dos outros três. Apenas dei de ombros, rindo também.
— Vai dizer que não gostaria de viver uma história como a daqueles filmes
que você assiste? E não tente me enganar, eu vi você saindo do cinema
quando foi assistir ao filme da Lady Gaga, e sei que chorou.
— Não tinha como não chorar. — Brian riu, dando de ombros. Ele era
o mais sensível dos cinco, e o único que não fazia sentido estar solteiro.
Roman e eu éramos obcecados com trabalho, Ethan e Phillip eram playboys,
mas Brian? Brian era o anjinho de nossa mãe, o menino sensível e amoroso,
que sonhava em ter uma família enorme. Sinceramente ele havia puxado
tanto a ela que só havia de nosso pai os cabelos.
— Sensível demais para o meu gosto — Ethan resmungou, virando o
copo de whisky. — Bem, se me dão licença, eu preciso ir embora. Tenho
mais o que fazer do que olhar pra cara de vocês. — Ele riu.
— Claro que tem, bebê desocupado — provoquei, rindo. Ele se
levantou, me mostrando o dedo do meio.
— Até mais, otários.
— Suma daqui! — Atirei uma almofada nele, rindo, mas o
desgraçado se esquivou.
— Bom, eu não sei vocês, mas eu realmente tenho muito o que fazer.
— Roman acabou seu whisky, colocando o copo na mesinha. — Tenho duas
reuniões hoje à noite, pobre da Camilla, que precisa organizar tudo isso.
— Já falei que você deveria dar um aumento para a coitada.
— Vou dar, ela mais do que merece. — Ele sorriu, algo raro, e se
levantou. — Pois bem, senhores, se puderem desaparecer do meu
apartamento, eu ficaria muto grato.
— Como quiser, alteza — resmunguei, ouvindo os outros rirem
enquanto saíamos. Descemos pelo elevador exclusivo que parava dentro do
apartamento, indo até a garagem. Era óbvio que não íamos beber e dirigir,
para isso tínhamos motoristas. O meu se chamava Nick, e estava à minha
espera na vaga com meu nome.
— Senhor Vanslow.
— Nick — cumprimentei, entrando no banco traseiro do carro.
Limusines haviam saído de foco há alguns anos, mas nada me impedia de
aproveitar um bom Sedan preto. — Para casa, por favor.
— Sim, senhor. — Ele deu a partida, saindo da garagem. Nick só
estava comigo há alguns meses, por recomendação da minha assistente. Ele
era noivo de June, e até agora vinha fazendo um ótimo trabalho. Não
demorou muito e chegamos ao Empire, meu hotel. Eu tinha só uma suíte
presidencial com cozinha, sem necessidade dos luxos exagerados que meus
irmãos tinham. Morava sozinho, para que precisaria de uma cobertura de dois
andares, sala de jantar e três suítes? Não era meu irmão, não precisava
ostentar tanto.
Minha suíte presidencial era suficiente demais para um homem só.
Entrei no elevador, apertando o vigésimo quinto andar. O Empire onde
morava era o primeiro que comprei, anos atrás, quando ainda era um menino
aprendendo a lidar com os negócios. Agora já existiam Empires em todo o
leste americano, e um em Los Angeles. Havia crescido bem, graças a ajuda
dos outros e de nosso pai.
As paredes eram em tons de branco, creme e cinza. June quem havia
decorado quando fui me mudar para tornar residência fixa aqui, e eu gostei
do resultado. Começava com uma sala, que abria caminho para a pequena
cozinha de um lado e do outro, atrás de portas de correr, o meu quarto. O
quarto mesmo tinha tons de preto também, e uma cama king size bem no
meio. Chutei meus sapatos para longe e afrouxei mais a gravata, a tirando e
deixando numa cadeira, junto com meu paletó. Pulei na cama, em um ato
infantil e, ainda assim, prazeroso, dando uma risada sozinho e fechando os
olhos, estava exausto.
Precisava planejar as palestras, mas isso ficaria para depois. Por agora,
eu só queria dormir um pouco.
Hoje seria a primeira das palestras na Lucille, para os alunos de alguns
cursos de humanas, exatamente como Roman tinha dito. Eu iria falar sobre
crescimento pessoal, e como uma boa vida pessoal poderia ajudar em uma
boa vida profissional. Era clichê, mas realista. Quanto melhor nos sentimos,
melhor trabalhamos, e é sobre isso que eu falaria, além de comentar sobre
como fiz um hotel crescer e frisar que mesmo que alguns sejam mais
privilegiados que outros, todos podem conseguir algo. Eu, às vezes, me sentia
tosco falando essas coisas, mas havia sido bem treinado.
E, é claro, iria sortear algumas vagas de estágio no Empire e um fim de
semana com tudo pago.
Levantei da cama, andando até o meu banheiro. Eu tinha acordado há
pouco tempo e ficado na cama, então estava usando apenas minha cueca
boxer, que tirei e larguei no cesto de roupas sujas. O banheiro era enorme,
com uma banheira grande o suficiente para caber duas pessoas
confortavelmente, além de um chuveiro ao lado. Liguei o chuveiro, uma
ducha personalizada de alta pressão, e entrei debaixo d’água, pegando meu
vidrinho de shampoo e lavando o cabelo. Eu era vaidoso? Era. Não é por ser
homem que eu preciso ser porco, mesmo que alguns pensem assim.
Deixei a água quente me relaxar, enquanto repassava mentalmente as
palavras que diria na palestra. Tinha alguns cartões para me ajudar, mas era
melhor saber tudo de cabeça. Desliguei o chuveiro, pegando minha toalha e
enrolando na cintura, saindo com os cabelos e a barba pingando mesmo.
Andei até meu closet, espaçoso demais só pra mim, e comecei a me vestir.
Boxer, calça e camisa social, blazer. Sem gravata, afinal era uma palestra
informal. Peguei minha pasta — sim, eu era o clichê do executivo com uma
pasta — e saí do apartamento, sem comer nada mesmo.
Não gostava de tomar café da manhã normalmente, no máximo tomava
apenas uma xícara de café quando estava com muito sono. Mandei uma
mensagem, avisando a Nick que me esperasse no carro, e apertei o botão do
estacionamento no elevador. Nick tinha um apartamento no hotel, que vinha
como parte do emprego. Há um mês June havia se mudado para o
apartamento dele, o que só me trazia vantagens em ter minha assistente
sempre por perto, sem falar que os dois faziam um casal muito bonito.
Dois dos hóspedes do hotel entraram no elevador também, me dando
bom dia. Retribuí, com um sorriso. Claro que sabiam quem eu era, mas eu
deixava claro que não queria nenhum tratamento especial. Não era um rei, era
apenas o dono de um hotel.
Ao chegar à garagem, andei até o carro, no qual Nick já havia dado a
partida. O cumprimentei com um bom dia e entrei no banco detrás, sem
precisar dizer aonde íamos, ele já havia sido informado da palestra na Lucille.
Eram nove e dez agora, e a palestra seria às dez e meia. Considerando o
trânsito nova iorquino, chegaríamos bem em cima da hora. Ótimo, eu odiava
ficar enrolando nos lugares sem nada para fazer.
O caminho foi tranquilo, com Nick comentando sobre o clima e
dizendo que ele e June estavam planejando se casarem logo, até o final do
ano. Apoiei a decisão, dizendo que queria ser convidado e rindo. Chegamos à
Lucille às dez e vinte, como eu havia previsto. Quando desci, o reitor já
estava me esperando, e fomos levados ao auditório.
— E agora, com vocês, Hector Vanslow. — Fui apresentado e sorri,
entrando no palco, ouvindo os curtos aplausos.
— Bom dia — cumprimentei os alunos presentes, sendo respondido
com um “bom dia” coletivo. — Eu tentarei ser o menos chato possível por
hoje, e ir direto ao ponto, certo? — Eles riram. — Hoje falarei sobre
crescimento pessoal e como isso pode ajudar no crescimento profissional. Irei
começar com a parte mais difíceis, os dias em que pensamos em desistir...
Continuei a falar, com foco na questão de que por pior que as coisas
estiverem, nós nunca devemos desistir. Frisei bastante o ponto de que nunca é
tarde demais para buscar ajuda, e então entrei com a parte profissional,
comentando sobre como um bom ânimo pode te fazer crescer
profissionalmente. Estava no final, quando abri para perguntas, vendo as
mãos se erguerem.
— Você não acha que é fácil demais falar, considerando a família de
onde veio? — uma garota me perguntou e eu sorri, assentindo.
— Nunca neguei ter tido privilégios, mas o tema que estou abordando
pode ser útil em qualquer ramo. Desde estagiários, vendedores, até
professores, CEOs, e até mesmo o presidente do país. Deus sabe que ele
precisa de um pouco mais de bom humor — arrisquei uma piada política,
ouvindo os alunos rirem. Ótimo, deu certo. — Mais alguma pergunta? — Vi
braços se erguerem de novo e apontei dessa vez para um garoto lá no fundo
do auditório.
— Você realmente acredita que qualquer um tem o potencial para
coisas grandes?
— Acredito. Alguns têm mais vantagens que outros, mas potencial
todos nós temos para uma coisa ou para outra. Potencial para ser artista, no
caso de muitos de vocês, potencial para ser professor, para ser pesquisador...
todos temos uma vocação, e nossa missão na vida é descobri-la.
— O que você faz pessoalmente nos dias que quer desistir? — Uma
voz chamou de uma das fileiras da frente, e dirigi meu olhar para ela. Era sem
dúvidas a garota mais bonita daquele auditório, e demonstrava um olhar tão...
triste? Não tinha certeza de longe, mas parecia triste.
— Eu luto contra isso. Eu saio da cama, mesmo assim, eu tomo um
banho bem quente e enfrento o dia, mesmo que mais desanimado, pois sei
que eventualmente o ânimo vai voltar.
— E se não voltasse, o que você faria? Se acordasse todos os dias sem
vontade de se levantar e, mesmo assim, precisasse para não decepcionar os
outros? — Ela me olhou direto nos olhos, eu pude sentir o olhar dela mesmo
à distância. Respirei fundo, pensando por alguns instantes na resposta.
— Isso nunca me aconteceu, mas acho que continuaria tentando. Em
algum momento, tudo sempre precisa melhorar, nada é ruim
permanentemente, tudo tem solução. — Eu realmente acreditava naquilo,
acreditava em finais felizes. Tosco, eu sei, mas gostava de acreditar que no
fim tudo sempre ficava bem. A garota dos olhos tristes e cabelos cacheados
não disse mais nada, então passei para a próxima pergunta.
Respondi mais duas sobre privilégios, uma sobre a campanha das
crianças e uma sobre minha vida pessoal. Sim, eu estava solteiro. Ri das
risadinhas após essa última e pedi para o reitor me trazer os papéis com os
nomes dos alunos para que eu sorteasse seis vagas de estágio e um fim de
semana com tudo pago no Empire, na suíte master. Muitos se animaram com
a ideia.
Primeiro foram os seis nomes do estágio. John Willick, Emma Green,
Edward Pillsbury, Nicole Benitez, Bianca Sanders e Charlotte Lynch. Os
alunos foram levantando o braço, enquanto eram chamados, e logo chegou a
hora tão aguardada do sorteio do fim de semana. Mexi bem na urna com os
nomes, até puxar um papel. Vieram dois grudados. Mexi um pouco,
separando-os e ficando com o que estava do lado esquerdo.
— Alice Rogers — chamei, me surpreendendo ao ver a garota dos
olhos tristes levar um susto e erguer a mão, acanhada. — Meus parabéns,
você acaba de ganhar um fim de semana no Empire, com tudo pago. Os
alunos que foram sorteados, por favor, me encontrem após serem
dispensados. Quanto aos demais, tenham um bom dia, e nunca se esqueçam
de se manterem positivos.
Me despedi dos alunos, ouvindo um sonoro “tchau” da maioria, e dei
um sorriso, acenando. Saí para os bastidores e fiquei à espera dos alunos,
vendo um por um eles aparecerem. Para os que foram sorteados ao estágio,
eu entreguei uma ficha cadastral, para que apresentassem no Empire, até o
final da semana, para serem chamados. E, por fim, a senhorita Rogers se
aproximou de mim, meio tímida, segurando as mangas do moletom que
usava. Ela era bonita, não tinha dúvida alguma. Com olhos claros e um tanto
tristes, um cabelo castanho em cachos que desciam até a altura dos seios, e
um corpo cheio de curvas grandes, visíveis mesmo através do moletom. Era
de fato a mulher mais bonita que já vi.
— Oi, eu ganhei o fim de semana no Empire.
— Eu sei. — Sorri, abrindo a pasta e pegando o voucher que havia
trazido. — Em qualquer fim de semana deste semestre, é só apresentar esse
voucher que poderá se hospedar na suíte master com tudo pago, inclusive,
itens de frigobar. Você tem direito a um acompanhante. — Ela deu uma
risadinha irônica quando eu disse isso e pegou o voucher da minha mão, me
dando um sorriso.
— Obrigada. É só apresentar o voucher na portaria, mais nada?
— Só isso, sim. E se precisar de qualquer coisa, durante a sua estadia, é
só mandar me chamar, eu moro na suíte presidencial.
— Chique. — Ela deu um sorrisinho, abaixando os olhos para o
voucher nas mãos. — Bem, muito obrigada. — Ela ia se virando para sair,
quando eu a interrompi.
— Me permite fazer uma pergunta?
— Claro. — Ela se virou, olhando para mim com uma interrogação no
olhar.
— Aquelas perguntas que você fez... tem algum motivo em especial?
— Ela ficou pálida, engolindo em seco e parecendo pensar bem antes de me
responder, segurando o moletom com mais força.
— Não... nada. Eram apenas perguntas. — Ela parecia nervosa.
— Se precisar de alguma ajuda, pode falar. Eu me disporia a lhe ajudar
— comentei, olhando nos olhos dela.
— Obrigada, mas não preciso de nada. — Ela me deu um sorriso tão
desanimado, parecendo ensaiado até, que doeu na minha alma. — Obrigada
mesmo, é bom ver que ainda têm pessoas que se dispõem a ajudar o outro.
— De nada. Se mudar de ideia, aqui está o meu cartão. — Entreguei o
cartão com meu número pessoal para ela, tomando coragem e completando:
— Ou se quiser, quem sabe, tomar um café...
— Está me chamando para sair assim, na cara dura?
— Eu reconheço que poderia ter sido mais sutil, mas sim — comentei,
rindo. Ela sorriu de novo, um sorriso menos triste, balançando a cabeça e
erguendo uma mão para pegar o cartão. Sucesso! Mas quando ela ergueu a
mão, o moletom abaixou um pouco, deixando à mostra algumas marcas em
seu pulso. Engoli em seco. Ela viu meu olhar e rapidamente puxou o braço,
arregalando os olhos. Não precisei perguntar, podia ver claramente o que
estava acontecendo. — A oferta de ajuda foi séria também. Se precisar de
qualquer coisa, dia ou noite, pode me ligar.
— Eu... obrigada. — Ela sorriu e se virou, saindo praticamente
correndo.
Parabéns imbecil, você assustou a garota.
Suspirei, indo de volta até o estacionamento onde Nick me esperava. E
no caminho todo para casa, eu não parei de pensar nela, a imagem vívida
daquelas marcas no pulso dela ficava me assombrando. Eu já havia lido sobre
isso, assistido a séries sobre isso, mas nunca havia visto tão de perto alguém
que sofresse desse mal. Chegando ao hotel, eu parei na portaria, dando ordens
para que me avisassem se o voucher de fim de semana fosse usado por
alguma Alice Rogers. Daphne nem fez perguntas, apenas assentiu e disse que
me avisaria. Ótimo.
Subi para minha cobertura e me joguei na cama, sem nem tirar os
sapatos, minha mente ainda rodeando tudo o que aconteceu. Na hora que eu
vi aquela menina, eu senti uma atração imediata, e quando tive aquele
pequeno vislumbre dos problemas dela, eu soube que precisava ajudá-la. Eu
não entendia por que meu coração se apertava tanto ao pensar nela, mas algo
me dizia que o buraco era mais embaixo, e que ela precisava de mais ajuda do
que parecia transparecer. Sempre fui intuitivo como minha mãe, sabia que
não estava errado sobre isso.
Fechei os olhos, me perguntando o que aquela garota teria de tão
especial. Agora só me restava esperar que ela me ligasse, ou aparecesse no
hotel.

Três semanas depois, Daphne me notificou de que uma Alice Rogers


estava no quarto dois andares abaixo do meu, na suíte master número 2352.
Eu estava prestes a sair do quarto para ir até ela, me fazer de sonso e
perguntar se precisava de algo, quando ouvi uma batida na minha porta,
provavelmente June com algum arquivo de reunião, mas quando a abri, não
era uma baixinha loira com um terninho que me esperava.
Era Alice.
Meudeusdocéu, ele era mais lindo do que eu me lembrava. Ele me deu
um sorriso, me olhando rapidamente de cima a baixo. Eu estava usando um
moletom de unicórnios e uma calça jeans. Eu usava muitos moletons,
principalmente para esconder os cortes, mas também porque eles me davam
uma sensação de segurança, de abraço.
— Senhorita Rogers, em que posso ajudá-la? — Ele sorriu mais
amplamente, fazendo meu coração disparar. Calma aí, coração.
— Vim ver se a oferta do café ainda estava de pé. — Sorri, meu peito à
beira de explodir. Eu precisei de toda a minha coragem e incentivo de mamãe
para vir aqui hoje, me hospedar no hotel e aceitar falar com ele.
De acordo com mamãe — e com vovó — era bom que eu socializasse
mais, pois passava tempo demais trancada no quarto. Elas que me
convenceram, com muito esforço, a encarar essa oferta de encontro. Disseram
que não era sempre que eu teria chance com um rico bonitão, vovó só faltou
ter um ataque quando eu disse qual dos Vanslow era... foi uma loucura. No
final, reuni toda a minha coragem e aproveitei que estava tendo um dia bom,
e decidi vir.
— Claro que está. — Ele sorriu, abrindo espaço para mim na porta. —
Quer tomar o café aqui, ou prefere descer até a cafeteria? — Ele parecia
querer ter certeza de que eu estaria confortável, afinal, era o apartamento de
um estranho. Mas “apartamento de estranho” me soava bem mais convidativo
que “café cheio de gente”, devido ao meu pânico de multidões.
— Aqui está bom. — Sorri. — Contanto que você faça um bom café.
— Garanto que a minha cafeteira faz. — Ele riu, me guiando no
caminho até a cozinha. O apartamento dele era magnífico, grande e espaçoso,
em tons claros e muito bem decorado, o que me fez duvidar se havia sido ele
mesmo a decorar. Homens em geral não tinham tanto bom gosto assim.
Mas ele não era um homem comum. Era o dono de uma rede de hotéis,
extremamente bonito e milionário. Só de estar falando comigo, eu já me
sentia em uma fanfic de adolescentes, que dirá o fato de estar oficialmente em
um... era um encontro mesmo? Com ele.
— Pode se sentar. — Ele apontou para os bancos encostados na
bancada da cozinha, indo até a cafeteira. — Como prefere o seu café?
— Forte, e com bastante açúcar. — Sorri, me sentando apoiada na
bancada e vendo-o erguer uma sobrancelha.
— Ou seja, o café perfeito para matar um estômago. — Ele riu e eu
acompanhei, balançando a cabeça. Era bom rir, algo que havia se tornado
raro com pessoas reais. — Por que não me ligou?
— Queria te fazer uma surpresa. — Na verdade, eu estava morrendo de
medo de não ter coragem de te encontrar ou de ter uma crise de pânico, por
isso resolvi aparecer do nada quando tivesse coragem. Claro que eu não disse
essa parte, mas pensei.
— Fiquei muito surpreso, pode acreditar. — Ele sorriu, colocando o pó
de café na cafeteira. — Quando ouvi a porta, pensei que fosse June.
— June? — Quem era June? Não me diga que ele já tem alguém, ah
não.
— Minha assistente. — Ufa. — Ela, de vez em quando, aparece aqui
com informações de última hora, reuniões ou pastas de trabalho. — Ele deu
de ombros, colocando uma caneca embaixo da cafeteira e apertando o botão.
Em seguida colocou uma segunda caneca, enquanto enchia a primeira de
açúcar. Sorri, vendo ele me entregar a caneca e tomei um gole.
— Meus parabéns, cafeteira, ficou ótimo. — Agradeci à máquina,
rindo. Ele ergueu uma sobrancelha para mim e riu também, com aquele riso
que iluminava o lugar. Eu queria ter um riso assim, mas normalmente nem rir
eu conseguia, hoje estava num dos raros dias que acordei me sentindo bem o
suficiente para encarar o mundo de braços abertos e ser engraçada por
desespero.
— O cara que colocou o pó e apertou o botão não ganha nenhum
crédito? — ele disse, me olhando e se encostando do outro lado da bancada.
— Quantos anos você tem, senhorita Rogers?
— Pode me chamar de Alice. — Senti meu rosto esquentar um pouco
pelo modo formal com que ele me tratava. — Tenho vinte e um. E antes que
pergunte, meu curso é atuação. — Adivinhei a pergunta seguinte dele, vendo-
o erguer as sobrancelhas.
— Ah, então tenho uma atriz em mãos. Por que atuação?
— Quer a resposta verdadeira ou a bonita? — perguntei, tomando mais
um gole do café. Estava realmente bom, deviam ser grãos importados,
daqueles chiques e bem conhecidos.
— As duas.
— A bonita é que eu quis ser atriz para contar histórias ao mundo. A
verdadeira é que eu não queria ser eu mesma. — Dei de ombros, sendo
sincera e tomando mais um gole do café. Sim, café forte cortava um pouco o
efeito da minha medicação para ansiedade, mas eu amava café, mesmo assim.
Me ajudava a ficar alerta.
— E por que não queria ser você mesma? — Ele parecia genuinamente
curioso, me analisando com o olhar.
— Quem quer ser uma garota do Brooklyn, com vinte e um,
semidesempregada e... — Me calei antes de dizer a parte “depressiva, com
ansiedade e diagnosticada com borderline”.
— E...?
— E desajeitada — improvisei, vendo que ele não acreditou muito.
— Até que não são razões muito ruins. Qual sua peça preferida?
— Romeu e Julieta — respondi de imediato, sorrindo ao me lembrar da
peça. — Meu sonho é interpretar Julieta, ao menos uma vez na vida, mas
nunca consigo os papéis principais. Já fiz a ama dela uma vez, no colegial.
— Pois eu acho que você daria uma ótima julieta. — Ele sorriu,
tomando um gole do próprio café.
— Romeu, oh Romeu, por que tinhas de ser Romeu? Renega teu pai,
despoja-te do nome... — recitei baixinho. Ele parecia fascinado, aqueles
olhos castanho-acinzentados me derretendo. Ele era lindo demais para ainda
ser rico, bem-sucedido e simpático. Tanta perfeição em um só homem
deveria ser ilegal.
— Juro que estou tentando lembrar a fala do Romeu nessa pausa, mas
só consigo pensar em “que luz é essa que emana da janela? Vem do Leste, e
Julieta é o sol”. — Ele riu, dando de ombros e tomando mais um gole do
café.
— Não, essa fala é um pouco antes. Depois de Julieta falar, ele se
pergunta se deveria falar algo ou continuar ouvindo. — Sorri, explicando. Eu
já havia decorado Romeu e Julieta inteiro.
—Viu só? Você será uma Julieta perfeita — ele afirmou, e eu dei um
mini sorrisinho, terminando o café e deixando a caneca sobre a bancada.
Ficamos um pouco em silêncio, mas não foi um silêncio desconfortável, foi
um silêncio bom.
— Então — quebrei o gelo —, me fale mais de você. O que existe por
trás da fachada do milionário bem-sucedido?
— É bom que não esteja esperando um Christian Grey da vida. — Ele
fez uma careta e eu ri, uma risada de verdade, balançando a cabeça.
— Nunca. Detesto cinquenta tons, sendo sincera.
— Ótimo. — Ele riu, dando de ombros. — Sou um cara normal.
Acordo todo dia de manhã, saio para trabalhar, ou no meu caso muitas vezes
fico aqui trabalhando, gosto de filmes de super-herói — ele comentou, rindo
de leve. — Ah, e tenho um pug chamado Rudy, que deve estar dormindo em
algum lugar do apartamento.
— Um pug?! Meu sonho é um pug! Eu tenho uma vira-lata um pouco
insana e mimada, Milady o nome. E ela gosta mais da minha mãe que de
mim. — Sorri, me animando ao falar de Milady. — Ela é uma mistura de
poodle com o diabo da tasmânia. — Dei uma risadinha. — Ela é a coisa mais
linda que eu tenho na vida.
— Seus olhos brilham quando fala nela. — Ele sorriu, se afastando da
bancada. — Vou procurar Rudy, me espere aqui um instante.
Ele saiu andando para as portas de correr, e eu ouvi um latido. Alguns
minutos depois, ele me apareceu carregando a coisinha mais linda deste
mundo, um filhote de pug com uma gravatinha borboleta.
— É um filhote! — Sorri, encantada.
— É sim. — Ele sorriu, se aproximando e me entregando o filhote com
cuidado. — Adotei ele há duas semanas, a mãe foi resgatada de um criadouro
para venda, e já foi adotada por uma família. — Então além de tudo ele ainda
resgata cachorrinhos? Não tinha como ficar mais perfeito, tinha?
— Que fofo. — Dei um sorrisinho, abraçando o filhote e encostando o
focinho dele no meu nariz. — Você é fofo, um fofuchinho lindo. — Dei um
beijinho de esquimó nele. Era a coisa mais fofinha que eu já tinha visto na
vida, e eu parecia uma doida falando com voz de bebê, mas o cachorrinho
melhorou bastante o meu humor. Coloquei-o sentadinho no meu colo e ergui
meu olhar, dando um sorrisinho sem graça. — Desculpe.
— Você fica linda falando assim. — Ele deu de ombros, vindo se
sentar ao meu lado. — E ele gostou de você.
— Ele é um fofo. — Sorri, fazendo carinho em Rudy. — Por que
Rudy?
— Personagem de um livro que minha mãe gostava de ler para mim,
quando era pequeno. Rei Rudolf, na verdade, mas o apelido era Rudy.
— Gostei. É um pequeno rei então. — Ergui o filhote e dei um beijinho
na cabeça dele, ouvindo um latido como resposta.
— Realeza pura, inclusive, ele acha que o apartamento é dele. — Ele
riu, estendendo uma mão e dando um dedo para o filhote morder.
— Um cachorrinho de sorte em ter um apartamento tão bonito. —
Sorri. — Foi você quem decorou?
— June, pouco antes de me mudar. Diz ela que Nick ajudou a dar um ar
mais masculino ao lugar.
— Nick?
— O noivo dela, meu motorista.
— Assistente, motorista... cheio de mimos.
— Vantagens de ser privilegiado. — Ele deu de ombros, piscando um
olho. — Quer fazer alguma coisa? Podemos assistir a algum filme ou série,
que tal? Pode me apresentar seu favorito.
— Pode ser. Eu gosto bastante de... Coraline, já viu? É em desenho stop
motion, mas é muito bem feito. — Foi o primeiro filme que pensei que não
fosse uma comédia romântica ou sobre assassinatos e cheio de sangue.
— Já ouvi falar, mas não vi ainda. Me parece uma ótima oportunidade
de ver. — Ele sorriu, olhando nos meus olhos e eu só pude pensar naquela
frase boba do cego vendo o mar pela primeira vez.
— Onde é o banheiro? — Precisava de uma desculpa para sair dali um
pouco.
— No quarto, primeira porta à direita. — Ele apontou para as portas de
correr e eu me levantei, indo até lá. Claro que o quarto dele parecia ter saído
do Pinterest, e que era maravilhosamente lindo. O banheiro então, nem se
fala. Enorme, com uma banheira que mais parecia uma piscina, e um espelho
gigante. Encarei meu reflexo, suspirando.
Eu era gorda — mesmo que mamãe dissesse que eu era apenas
curvilínea, eu me achava gorda e horrível com meus cem quilos — com
cabelos cacheados demais e arrepiados, uma espinha perdida aqui e ali. A
única coisa que eu gostava eram dos meus olhos, que às vezes ficavam azuis
e às vezes verdinhos. Puxei as mangas do moletom, analisando os cortes no
meu braço. Queria poder tirar o moletom, o apartamento dele era climatizado
e já não estava tão frio, mas não podia deixar ele ver, o que pensaria? Aquele
dia ele quase viu, já foi arriscado demais.
Passei uma água nas casquinhas dos mais recentes e puxei as mangas
de volta para baixo, saindo do banheiro. Ele agora estava no sofá, brincando
com Rudy. Sorri, indo me sentar ao lado dele. Era tão surreal estar no mesmo
sofá de um milionário e seu cachorro, que eu ainda achava que acabaria
acordando a qualquer momento.
— Estávamos te esperando. Acabei de ligar a tv, podemos ver o filme.
— Ligeiro. — Sorri, tirando minhas sapatilhas e cruzando as pernas
sobre o sofá. — Ok, só aviso que tem alguns momentos levemente bizarros.
— Eu aguento. — Ele sorriu, apertando o controle da tv e começando o
filme. Eu já conhecia de cor, e sentia o olhar dele quando eu acidentalmente
repetia em voz alta algumas das frases.
Segurei a vontade de dar um sorrisinho bobo, encantada por ele. Ele era
lindo, e eu ainda não conseguia acreditar que um cara desses realmente tinha
se interessado em mim e me chamado para sair. Ele era tão... irreal. Até agora
tinha sido fofo, gentil, simpático... e tinha um cachorrinho que era a coisa
mais linda. Fala sério, nem em fanfic eu via isso acontecer, até lá a mocinha
era gostosona e padrãozinho. E eu... eu era uma bagunça completa.
Tentei não pensar demais nisso. Estava me sentindo bem pela primeira
vez em semanas, não podia me deixar abalar, ao menos não na frente dele.
Quando eu voltasse para o quarto poderia me odiar e chorar à vontade, mas
por agora eu iria sorrir e assistir ao meu filme preferido ao lado do homem
mais lindo que já vi. E isso seria o bastante.
O filme passou muito rápido, e eu estava me sentindo tão calma ao lado
dele, que quase cochilei, olha o perigo, quase dormindo no sofá de um
estranho. Mas sinceramente, já tinha me acontecido tantas merdas na vida,
que acho que o universo não me deixaria ser abusada. Seria injusto demais
adicionar mais isso à minha lista de tragédias, grandes e pequenas.
— Ok, eu admito, a outra mãe me assustou um pouco. — Ele riu,
balançando a cabeça e se virando para mim.
— Eu avisei. — Ri, balançando a cabeça, olhando aquele rosto bonito
na minha frente. Ele era um sonho.
— Qual sua teoria sobre o que a outra mãe é, de verdade?
— Ela é uma Beldam. Um tipo de bruxa antiga, já li o livro e já assisti a
vários vídeos de teoria no Youtube... O menininho do filme até a chama
assim. — Sorri, sentindo meu celular vibrar no bolso, e peguei para ver o que
era. Notificação dos remédios. Eu tinha três notificações, para não esquecer
nenhum dia, já que não tinha horário fixo e só precisava ser no turno da noite.
— Uau, já está tarde. — Já eram sete e meia da noite.
— A noite é uma criança. — Ele sorriu, piscando um olho. — Você
precisa ir?
— Não sei... — Era a verdade. Eu estava por conta própria esse fim de
semana, sem mãe ou horários para voltar, poderia ficar até a hora que
quisesse.
— Fica — ele pediu, com um sorriso de derreter corações. — Janta
comigo.
— Bem...
— Bem...?
— O que tem pra jantar? — Sorri, cedendo. Eu poderia me dar ao luxo
de passar mais tempo com ele, aproveitar mais desse sonho.
— O que você quiser. Pode escolher literalmente qualquer coisa, que eu
peço para um chef cozinhar.
— Pensei que você fosse fazer o jantar... — Ri, o vendo dar de ombros.
— Se quiser jantar torradas com ovos mexidos, eu faço. — Ele riu. —
Sou péssimo cozinheiro.
— Algum defeito tinha que ter — comentei, e ele ergueu uma
sobrancelha. — É sério. Milionário, bem-sucedido, dono de uma rede de
hotéis, palestrante, cheiroso, bonito... precisava ter algum defeito, se não nem
seria humano. — Eu me calei, sentindo meu rosto ficar cor-de-rosa quando
disse tudo isso. Ele apenas sorriu, um sorrisinho de canto maravilhoso.
— Cheiroso e bonito, é? — Ele se inclinou um pouco para perto. — O
que mais acha de mim?
— Eu não deveria ter dito isso.
— Mas disse.
— Mas eu disse. — Suspirei, dando uma risadinha fraca. Ele ergueu
uma mão e tocou meu rosto de leve, me dando um sorriso.
— Você também é linda, Alice.
— Não sou, mas obrigada. — Dei um sorriso sem ânimo. Eu não sabia
reagir a elogios, não estava acostumada com eles vindo de fora da minha
família. Ele ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada, apenas se inclinou
mais para perto, ficando a centímetros do meu rosto.
— É sim, e eu nunca minto, então é melhor aceitar. — Ele sorriu, me
surpreendendo ao me dar um beijo no rosto e se levantando do sofá, me
estendendo uma mão. Segurei a mão dele e me levantei, sentindo meu rosto
bem quente, enquanto andávamos até a cozinha e ele me entregava um menu.
— Escolha o que quiser. Esse é meu menu pessoal, com itens que
normalmente não tem na cozinha.
— Lasanha de queijo, que tal? — Sorri, já imaginando uma lasanha
preparada por um chef cinco estrelas. Ele sorriu, assentindo e pegando um
telefone que ficava na cozinha, apertando alguns números.
— Geralt? Boa noite. Sim, meu jantar. Hoje vou querer lasanha de
queijo, para dois. Sim, só um instante. — Ele se virou para mim, pondo uma
mão no telefone. — Olhe na última página, que queijos vai querer.
— Todos os que foram possíveis, pode? — Sorri, dando uma risadinha.
Ele riu, assentindo, e voltando ao telefone.
— Coloque seus melhores queijos, Geralt. Nos surpreenda! — Ele
sorriu, desligando em seguida. — Quando estiver pronto, eles nos trazem
aqui. — Ele colocou o telefone de volta no gancho. — Você bebe? Posso
pedir um vinho de primeira também.
— Adoraria... mas não posso. — Dei um sorrisinho triste, dando de
ombros. Eu costumava amar vinhos, aos dezoito anos bebia garrafas inteiras
sozinha de madrugada, mas a nova medicação me proibia de beber.
— Refrigerante, então. Qual seu preferido?
— Pepsi, ou mountain dew. — Sorri, satisfeita por ele não fazer mais
perguntas. Estava na cara que ele queria saber o porquê de eu não beber, mas
não seria invasivo perguntando. Isso era bom.
— Mountain dew então, que por pior que seja para a nossa saúde,
nenhum outro sabor cítrico supera. — Ele sorriu, indo até a geladeira e
pegando duas latinhas, me jogando uma. Quase derrubei a lata duas vezes,
mas consegui segurar, praticamente abraçando a lata. Ele riu.
— Bem que você disse que era desajeitada. — Ele balançou a cabeça,
vindo para perto de mim. — Completamente desajeitada. — Ri,
balançando a cabeça. Um pensamento me ocorreu de que ao lado dele eu
estava rindo mais do que ria em uma semana inteira, a não ser vendo séries.
Isso era bom, eu gostava de rir.
Ele ia falar algo, mas Rudy chegou latindo no pé dele e ele sorriu,
deixando a lata na bancada e se abaixando para pegar o cachorro no colo.
— Me desculpe, ele é um bebê mimado. — Ele abraçou a bolinha que
era Rudy, beijando sua cabeça. — É sim, e um bebê muito mimado. — Ele
fez a mesma voz de bebê que eu fiz antes e eu ri. Ri mesmo, uma gargalhada
espontânea e rara que eu quase não tinha mais atualmente. Ele ergueu uma
sobrancelha. — Posso saber qual é a graça? — ele falou na voz de bebê e eu
ri mais ainda, precisando me segurar na bancada.
Ele não se aguentou e riu também, gargalhando com o filhote no colo,
me acompanhando nesse raro momento. Quando eu finalmente parei de rir
estava com lágrimas nos olhos, e os sequei ainda rindo baixinho. Ele me
olhava de novo com aquela maldita cara de cego vendo o mar pela primeira
vez.
— Você é hilário, senhor Vanslow. — Sorri, ainda me recompondo.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Pode me chamar de Hector. Depois de nos assustarmos juntos com
aquela louca em forma de aranha metálica, já podemos partir para o primeiro
nome. — Ele riu, me fazendo dar uma risadinha também.
— Concordo. Hector, então.
— Isso. — Ele sorriu. — Muito bem, vamos nos sentar até a comida
chegar. Aliás, esqueci de te perguntar, você cozinha?
— Sou boa com sobremesas e massas. — Sorri. — Minha avó paterna é
italiana, então aprendi a fazer macarrão caseiro.
— Por isso a lasanha?
— Por isso a lasanha.
— Um dia você vai fazer macarrão pra mim, que tal? — Ele sorriu de
canto.
— Se você me aguentar até lá... — falei, em tom de brincadeira, rindo,
mas era sério. Depois de Victor, nunca tive um relacionamento que durasse
mais que uma semana, não duvidava que esses encontros também não fossem
durar.
— Aguento para sempre, se deixar. — Ele sorriu, piscando um olho.
Rudy ainda estava no colo dele, e ele o deixou sobre o sofá. Ele cambaleou
nas quatro patinhas até chegar em mim e eu sorri, pegando-o no colo.
— Oi, bebê. — Sorri, fazendo carinho nele.
— Ele gostou mesmo de você. Normalmente, ele foge dos meus
irmãos.
— É que eu tenho o cheiro de Milady. — Sorri, pegando o cachorrinho
e o erguendo no alto, como se fosse mesmo um bebê. — Não é, meu
fofucho?
— O que é isso? — ele perguntou, me olhando estranho. Só então
percebi que a manga do moletom, folgado demais para mim, tinha descido e
dois cortes de anteontem estavam aparecendo. Abaixei o cachorro rápido,
puxando a manga para cobrir novamente e sentindo o desespero bater.
— Nada — murmurei, torcendo para ele deixar isso de lado.
— Alice... — Ele se aproximou mais, me olhando nos olhos com um
olhar tão forte que eu não pude desviar. Segurou meu braço com cuidado,
tocando a ponta da manga do moletom. — Posso?
Eu poderia dizer não. Poderia entregar Rudy a ele e sair correndo, e
sabia que não insistiria, era educado e respeitoso demais para insistir. Mas
algo no olhar dele foi mais forte que meu medo e minha vergonha, então eu
apenas assenti, em silêncio. Ele puxou a manga, os olhos se arregalando um
pouco quando viu os cortes. Dois deles ainda estavam bem abertos, os mais
recentes. Os outros eram mais antigos, mais rasos, ainda assim, muitos.
Cobriam meu braço esquerdo inteiro, além das cicatrizes já saradas por baixo.
Eu era uma bagunça. Ele ergueu o olhar para o meu, os olhos tristes.
— Não vou me pedir que me explique agora, não precisa falar nada até
estar pronta. Apenas... posso te dar um abraço? — Assenti e ele me puxou
para os braços, me envolvendo no calor da pele e do cheiro dele que me
lembrou erva doce, e eu não pude fazer outra coisa que não o abraçar de
volta, me sentindo segura. Ele beijou meus cabelos, me mantendo junto dele
e fazendo carinho nos meus ombros.
— Obrigada — sussurrei, fechando os olhos e deixando-o me abraçar,
sentindo algo que eu mal me lembrava como era: calma.
Quando se afastou, ele me deu um sorriso, tocando meu rosto.
— Pode contar comigo, ok? Você tem meu número. A hora que
precisar, pode ser no meio da madrugada, me ligue. Não estou falando só da
boca pra fora, é sério. — Ele fez carinho na minha bochecha com o polegar,
olhando nos meus olhos, aquele mar castanho me derretendo. Ele era lindo,
por dentro e por fora.
— Você é tão bom. Tem certeza de que é real? — Dei uma risadinha,
espelhando o movimento dele e tocando seu rosto. A barba era macia, e eu
me perguntei como seria beijá-lo. Nunca tinha beijado alguém de barba...
Meus pensamentos nada apropriados foram interrompidos por uma
batida na porta. Nosso jantar. Um funcionário entrou com um carrinho com
dois pratos em bandejas cobertas, da forma que se via nos filmes, e o deixou
ao lado da bancada da cozinha, colocando os pratos na bancada e saindo em
seguida. Dei um sorrisinho, acenando de leve para o... seria entregador o
nome certo? Empregado? Garçom?
Seja como for, Hector se levantou, me estendendo uma mão e andando
comigo até a bancada.
— Me desculpe por isso, mas nunca coloquei uma mesa de jantar de
verdade aqui. Normalmente como no sofá ou na varanda. — Ele deu de
ombros.
— Sem problemas, a bancada está ótima. — Sorri, me sentando no
mesmo banquinho de antes. O entregador, vou chamá-lo assim, havia tirado
as tampas, e o cheiro da lasanha estava ótimo. Hector pegou as latas de
mountain dew que tínhamos esquecido e as trocou por novas, já que haviam
esquentado, e veio se sentar ao meu lado.
— Espero que goste da lasanha. Geralt é incrível com massas, fez um
curso na Itália.
— Tenho certeza de que vou adorar. — Sorri, pegando a lasanha com
um garfo e provando um pedaço. Foi como uma explosão de tomate e queijo
na minha boca, me fazendo quase ver estrelas. — É a melhor lasanha que
provei na vida! E olha que eu amo a lasanha da minha mãe — comentei,
sorrindo. Ele riu, assentindo.
— Eu disse que Geralt era incrível. — Ele sorriu, comendo uma
garfada da própria lasanha. — Gostou dos queijos?
— Amei.
— Ótimo. — Ele me deu outro sorriso, e continuamos a comer, em
silêncio por um tempo.
— Hey, se importa se eu puxar as mangas do moletom? Está meio
quente aqui, e já que você já viu... — Eu precisava saber se a visão constante
das cicatrizes e cortes não seria demais para ele. Ele apenas assentiu e eu
enrolei as mangas até o cotovelo.
— Não sei por que anda de moletom. Ok, estamos no final do inverno,
mas você me entendeu. Não precisa esconder quem é, Alice. — Ele deu de
ombros, me surpreendendo por pensar assim. Ele era a primeira pessoa a me
dizer para não esconder os cortes.
— As pessoas tendem a reagir mal quando veem as marcas. Tendem a
fugir — comentei, dando outra garfada na lasanha e tomando um gole do
meu refrigerante. Melhor combinação possível.
— As pessoas estão erradas — ele disse, simplesmente. — Ninguém
deveria precisar esconder quem é, ou o que passa, por causa da opinião
alheia.
— Concordo. É uma pena o mundo ser tão duro — murmurei, sentindo
uma pontadinha de tristeza.
— Você pode sempre ser você mesma perto de mim. Não são algumas
marcas que vão me assustar. — Ele sorriu, e eu dei um sorrisinho em
resposta. Era tão estranho um novato na minha vida me tratar melhor do que
“amigas” que eu conhecia há anos.
— Obrigada. Por tudo.
— Não há de quê. — Ele sorriu, mordendo a lasanha, enquanto parecia
pensar. — Alice... você já buscou ajuda?
— Quer dizer um tratamento? Já. Inclusive, comecei um novo há duas
semanas, com novos medicamentos. Por isso não posso beber — expliquei, e
ele pareceu mais aliviado em saber que eu estava me tratando.
— Ah, bom. Ótimo, na verdade... eu já ia me oferecer para lhe pagar
um tratamento. — Ele deu um sorrisinho e eu ri, balançando a cabeça.
— Mal me conhece e já quer me oferecer ajuda. Tem certeza de que
isso não é uma pegadinha daquelas elaboradas que aparecem na TV?
— Absoluta certeza. — Ele sorriu, se virando para mim. — É tão difícil
acreditar em ricos de coração bom?
— Sim — respondi e ele riu, quase se engasgando.
— Assim você me magoa. — Ele riu, balançando a cabeça. — Sabe,
nem todo CEO é frio, calculista e abusivo como aquele livro conta. Alguns de
nós somos manteigas derretidas, com cachorrinhos resgatados e lasanha. —
Ele piscou um olho, me fazendo sorrir. Eu estava sorrindo bastante com ele, e
ficava me lembrando disso constantemente. Quando se está feliz é que se
percebe a quantidade absurda de tempo que se passa estando triste. — Gosto
do seu sorriso — ele comentou, quase lendo minha mente.
— Você tem sorte de vê-lo. Estava agora mesmo pensando nisso.
— Sorte?
— Em dias normais, eu não sorrio tanto.
— Pronto, minha missão vai ser te arrancar sorrisos. — Ele sorriu,
tomando um gole do refrigerante. Nem percebi que durante a conversa a
lasanha havia acabado.
— Até agora está se saindo muito bem. — Sorri mais amplamente, de
propósito.
— Este vai ser o fim de semana mais divertido da sua vida, eu garanto.
— Ele sorriu, se levantando. Me levantei também, ouvindo mais uma
notificação no meu celular e o tirei do bolso. Era mais um aviso dos
remédios, agora o das oito e quarenta e cinco.
— Wow, já está bem tarde.
— Considera quase nove horas tarde? — Ele ergueu uma sobrancelha e
eu dei de ombros.
— Os remédios me dão sono, então em dias normais eu durmo às dez
— falei a verdade. Ele disse que eu não precisaria me esconder, e isso era
bom. Sem segredos e mentiras elaboradas para esconder.
— Muito bem, eu te acompanho até seu quarto, então. — Ele sorriu,
sem insistir mais dessa vez, me entendendo e estendendo uma mão para que
eu segurasse. Dei a mão a ele e saímos, caminhando silenciosamente pelo
corredor até o elevador. Eu só estava dois andares abaixo dele, então não
encontramos ninguém no caminho.
É claro que ele sabia qual era meu quarto. Paramos em frente à porta
2352, e ele se virou para mim, ainda segurando minha mão. O olhar dele era
lindo, focado nos meus olhos, enquanto se inclinava para mais perto.
— Se você não me impedir — ele sussurrou —, eu vou te beijar. —
Meu coração disparou. Não falei nada, em vez disso soltei a mão dele e
toquei seu rosto, ficando na ponta dos pés. Ele era um tanto mais alto que
meus 1,66 de altura. Ele se inclinou mais para perto e tocou os lábios nos
meus, em um beijo leve, sem pressão. Estava me dando a escolha.
Fazia tanto tempo que eu não era beijada que estava insegura, com
medo de ter desaprendido a beijar, mas quando a língua dele encostou na
minha, eu esqueci todas as preocupações e só me deixei levar pelo momento.
Ele beijava tão bem quanto era de se esperar, me guiando num ritmo lento,
um beijo calmo e sem exigências. Era um verdadeiro cavalheiro. Enrosquei
meus dedos na parte detrás de sua cabeça enquanto retribuía ao beijo, me
entregando. Parte de mim ainda estava com medo de que fosse tudo um
sonho, mas se fosse eu iria aproveitar.
Quando ele se afastou, eu sorri, ainda de olhos fechados, sentindo-o
encostar a testa na minha.
— Boa noite, Alice — ele sussurrou, fazendo um último carinho no
meu rosto e se afastando. — Te vejo amanhã? — Apenas assenti, sem ser
capaz de falar ainda. Ele sorriu e se afastou, voltando para o elevador. Peguei
o cartãozinho da porta no meu bolso e coloquei na fechadura eletrônica,
destrancando a porta e entrando no quarto, fechando em seguida. Me joguei
na cama, suspirando, sentindo meus lábios formigarem. Ele era maravilhoso!
Eu só esperava que o que quer que eu estivesse tendo com ele durasse,
considerando meu histórico de estragar tudo. Suspirei, me levantando e indo
até minha bolsa, pegando o porta-comprimidos.
Ainda não podia ser confiada com as caixas do remédio, então toda
semana minha mãe colocava os comprimidos nos buraquinhos semanais de
segunda a domingo. Eu estava há algumas semanas tomando a medicação
nova, e até agora eles estavam funcionando bem, mas me davam muito sono,
e eu precisava comer antes de tomar um deles. Era bom, porque servia como
incentivo para comer nos dias que me sentia sem ânimo nem para respirar.
Peguei uma garrafinha de água no frigobar e coloquei os dois comprimidos
na boca, tomando um gole da água e os engolindo de uma vez. Pronto,
remédio tomado.
Marquei a caixinha de lembrete do celular de que havia tomado, fazia
isso todos os dias para não me esquecer. Os remédios eram caros, chegando a
preços absurdos que eu não gostava nem de pensar, e nós sofríamos para me
manter na medicação. Eram quase mil dólares de remédio por mês.
Finalmente tirei o moletom e andei até o banheiro, que também não era
nada pequeno. Fui tirando as roupas, enquanto enchia a banheira de água
quente e entrei, fazendo uma careta e praticamente chiando quando a água
bateu nos cortes mais frescos. Ardia, ardia muito, mas era o melhor jeito de
mantê-los limpos. Quando eu estava em dias bons, como hoje, eu reclamava
da dor, mas quando estava em dias ruins, eu aproveitava porque me poupava
de cortar mais. Os cortes eram um vício para mim, assim como o álcool ou as
drogas poderiam ser para outros.
Suspirei, tomando meu banho e saindo da banheira, me enrolando num
roupão macio e andando até o quarto. Tirei com cuidado minhas lentes de
contato e as guardei na caixinha, em seguida pingando o colírio nos meus
olhos.
Peguei na minha malinha um blusão que usava de pijama e uma
calcinha, me vestindo e caindo na cama queen size. O climatizador estava
programado automaticamente para deixar o quarto numa temperatura amena,
e puxei um cobertor sobre a cabeça, desligando as luzes com o interruptor ao
lado da cama. Fechei os olhos, dando um sorriso antes de dormir.
E, mais uma vez, me ocorreu há quanto tempo eu não fazia isso.
Quando a deixei no quarto dela e voltei para o meu, eu não conseguia
tirar da mente a sensação dos seus lábios nos meus. Eu já havia beijado uma
boa quantidade de mulheres nos meus vinte e sete anos, e nenhuma havia
sido como ela. Foi um beijo único, um beijo forte, um beijo que eu nunca me
esqueceria, e esperava que ela também não.
E foi então que as imagens dos braços dela vieram me assombrar. O
quão desesperada uma pessoa precisa estar, para fazer isso consigo mesma?
O ser humano tem uma resistência contra ferir a si mesmo, acho que li isso
uma vez, por isso não conseguimos simplesmente parar de respirar ou
normalmente nos machucar de propósito. O quanto alguém precisa estar
sofrendo para quebrar essas barreiras e rasgar a própria pele?
— Precisamos ajudar ela Rudy — sussurrei para o cachorro, pegando-o
no colo e caminhando até minha cama. Coloquei Rudy em cima da cama e
ele se enrolou no meu travesseiro. Ri, indo trocar de roupa. Eu estava usando
uma camisa social, e fui soltando os botões enquanto falava. — Eu adorei
beijá-la, e sinceramente não me incomodaria nem um pouco em começar um
relacionamento, mas mesmo que ela não queira, eu vou querer ser amigo
dela. Ela parece tão solitária, preciso ter certeza de que ela vá sempre ter
alguém. Eu sei, eu sei, parece estranho eu me encantar assim por ela, sendo
que não sou de “me apaixonar” à primeira vista, mas ela é diferente. Os olhos
dela... nunca vi olhos tão tristes.
Joguei minha camisa no canto do quarto e fiz o mesmo com a calça.
Rudy ergueu uma orelha e me ignorou, se enroscando mais no meu
travesseiro, o ladrãozinho. Suspirei, balançando a cabeça e me jogando na
cama, tomando o cuidado de não roubar o espaço dele.
Pensei em algo mais alegre, no beijo dela. Sorri, balançando a cabeça e
puxando meus cobertores, afinal, ainda estava bem frio. Ela beijava
divinamente bem, e eu tinha minha cota de mulheres com quem comparar.
Ela estava com gosto de lasanha e mountain dew, a combinação perfeita.
Foi pensando nela que peguei no sono.

Acordei com Rudy lambendo meu nariz, e resmunguei alguns palavrões


enquanto me levantava e o carregava até o tapetinho higiênico no canto do
quarto. Como ele ainda era filhote, não levantava a pata para fazer xixi, o que
facilitava muito a minha vida. Ele acabou e saiu abanando o rabinho pelo
quarto, indo até o potinho de água, enquanto eu andei até o banheiro,
sentindo o ar frio da manhã.
Liguei o chuveiro no mais quente possível e entrei embaixo da água,
sentindo os jatos de alta pressão nas minhas costas. Melhor jeito de começar
o dia... bem, segundo melhor. O melhor mesmo era sendo aquecido nos
braços de uma mulher, mas era melhor não me distrair com isso agora.
Bastou pensar em mulher que minha mente foi para Alice. Lembrei de como
ela não aceitou bem o elogio na noite anterior e balancei a cabeça, me
perguntando por que seria tão difícil aceitar um elogio. Ela tinha um sorriso
que iluminava o ambiente, e ela mesma admitiu que era raro sorrir. Eu a faria
sorrir o máximo que pudesse, mesmo que o que quer que nós tivéssemos só
durasse esse fim de semana.
Terminei de lavar meu cabelo e saí do banheiro, enrolando uma toalha
na cintura e sentindo um arrepio com o choque do ar enfumaçado e quente
para o frio. Sim, o apartamento era climatizado, mas ainda ficava bem frio no
inverno, principalmente quando eu esquecia a varanda aberta. Vesti uma
camisa de manga comprida e uma calça folgada de moletom, já que
provavelmente passaria o dia inteiro aqui.
Decidi ligar o notebook e continuar vendo uma série que tinha
começado um dia desses, mas não consegui me concentrar em mais que dois
episódios.
Fechei o notebook e fui até o computador no meu quarto, que era o de
trabalho, checar os e-mails, não tinha nada muito urgente do hotel, então eu
realmente teria o dia inteiro livre. Ótimo. Andei até a cozinha e fiz uma
caneca de café, indo até a varanda e me sentando no ar frio, olhando lá para
baixo. Era final de fevereiro, então ainda estava bem frio, e dava pra ver o
Central Park com a neve indo embora. Pensar no frio me fez pensar nela de
novo.
Como será que Alice escondia as marcas no verão? Agora tudo bem,
tinha a desculpa do inverno e primavera para usar mangas compridas, mas e
em junho, que chegava a quase trinta graus? Ela provavelmente derretia
naquelas roupas enormes. Suspirei, percebendo que estava pensando demais
nela. Eu tinha uma boa quota de mulheres, mas nenhuma tinha tido tanto
impacto assim de primeira, nem mesmo Elisa.
Elisa era minha ex. Ela era filha de um amigo do meu pai, crescemos
juntos, e eu namorei com ela dos vinte e dois aos vinte e cinco, mas
terminamos por termos planos divergentes de futuro. Eu queria me casar e ter
filhos, ela queria conhecer o mundo e ser livre. Ainda somos amigos, mas
não temos mais aquela conexão que tínhamos antes. E por mais que tenha
tido alguns casos nos últimos anos, não namorei sério depois dela. Mas o
impacto de Alice me fazia repensar meus planos.
Ouvi uma batida na porta e fui atender, abrindo um dos lados das portas
duplas e me deparando com ela.
— É muito abuso meu aparecer aqui, dois dias seguidos, sem avisar? —
Ela deu um sorrisinho, piscando os olhos de uma forma incrivelmente linda.
— Pode aparecer amanhã também, não me incomodo nem um pouco.
— Sorri, abrindo espaço para ela entrar e fechando a porta. Ela deu alguns
passos, olhando em volta até encontrar o que queria.
— Rudy! — Ela sorriu para o cachorro, pegando-o no colo e enchendo
o focinho dele de beijos. — Como está o meu príncipe lindo hoje? Você
dormiu bem? — Ela o abraçou e eu ri, erguendo uma sobrancelha.
— Por que será que eu não recebo um bom dia desses, hein? —
comentei, vendo-a ficar cor-de-rosa e se aproximar, ficando na ponta dos pés
e me dando um beijo no rosto. — Melhorou. — Sorri, piscando um olho.
— O que vamos fazer hoje? — Ela continuou a fazer carinho no
cachorro, olhando para mim.
— Eu tenho o dia livre, então o que você quiser, está bom pra mim.
— Você se importaria de ficarmos aqui? Eu vi um monte de gente lá
embaixo quando cheguei ontem, e não gosto muito de multidões. — Ela deu
um sorrisinho sem graça, e eu ergui uma sobrancelha. Síndrome do pânico,
talvez?
— Como quiser. Podemos assistir a algo, jogar alguma coisa, o que
você tiver vontade. — Andei até o sofá, me sentando e dando uma batidinha
no espaço ao meu lado, chamando ela. Ela se sentou do meu lado, com Rudy
ainda no colo, abanando o rabinho enquanto ela brincava com as patinhas
dele.
— Ele realmente gostou de você. — Sorri. — Normalmente ele foge
dos meus irmãos, principalmente de Ethan.
— Ethan? Não me lembro de ter visto o nome dele na mídia.
— Ele é o mais novo, ainda não tem nem empresa própria. E
sinceramente eu não julgo Rudy, todos nós fugiríamos dele, se pudéssemos.
— Ri, me recostando no sofá.
— Por quê? Tadinho dele. — Ela deu uma risadinha baixa, mantendo o
foco em Rudy. Deus, ela estava apaixonada pelo cachorro!
— Ele é o mais imaturo e irresponsável da família, não decidiu ainda o
que quer da vida... sim, um homem normal de vinte e dois anos não precisa
tomar essas decisões, mas não somos normais!
— Não, vocês só são a realização do sonho de qualquer leitora de
fanfics — ela comentou, irônica, com uma risadinha.
— Ah, pronto, lá vamos nós ser fetichizados. — Ri, balançando a
cabeça. — Você lê fanfics?
— Leio, mas não as desse tipo. Sinceramente eu gosto, ou gostava na
época que estavam no auge, das de Crepúsculo.
— Crepúsculo? — Ergui uma sobrancelha, claramente julgando-a. Ela
sorriu, assentindo.
— Sim, Crepúsculo. Foi por onde eu peguei o gosto por ler e comecei a
me conhecer melhor. Foi também o que me fez querer ser atriz, lá quando eu
tinha doze anos. — Ela deu de ombros, sorrindo, colocando Rudy no sofá
entre nós dois. Ele deu duas voltas e se aconchegou entre nós, o folgado.
— Não vou julgar muito, eu assisti aos filmes e não odiei. — Dei de
ombros, vendo-a erguer uma sobrancelha. — É sério! É meio ridículo um
vampiro brilhar? Sim, mas não tira o mérito de que a história até que não foi
mal escrita.
— Você não pode ser real, Hector Vanslow. — Ela sorriu, balançando
a cabeça. — Homem, milionário, CEO, tem um pug, não detesta Crepúsculo,
é um amor de pessoa... você não existe!
— Existo, e estou bem aqui. — Sorri, erguendo uma mão e a
estendendo para ela. — Pode pegar, sou de carne e osso.
Ela deu um risinho, pegando minha mão e entrelaçando os dedos dela.
Ela ergueu o olhar para mim, as bochechas cor-de-rosa.
— É, realmente você é real. — Ela ficou segurando minha mão,
fazendo carinho nos meus dedos.
— Sou. — Sorri, levando a mão dela aos meus lábios e dando um beijo
de leve.
— E agora está se comportando como um mocinho de época. — Ela
suspirou, balançando a cabeça.
— Mocinho de época? — Ergui uma sobrancelha. Que diabos ela
estava falando?
— É. Sabe, eu leio muitos romances regenciais, e você pareceu agora
com os mocinhos dos livros, com toda a coisa de beijar minha mão e ser
super educado.
— Isso é um elogio?
— Um grande elogio. — Ela deu um sorrisinho mais amplo, me
olhando nos olhos.
— Então podemos adicionar isso ao monte de coisas que me fazem ser
“bom demais para ser real”. — Eu ri. — E você, Alice, o que faz de você um
sonho?
— Eu?! Há! Eu não sou nem de longe um sonho. Sou, na melhor das
hipóteses, um sonho daqueles esquisitos, e na mais realista delas, um
pesadelo. — Ela deu de ombros, soltando minha mão e voltando a fazer
carinho em Rudy. Ergui uma sobrancelha.
— Sabia que eu nunca me incomodei com pesadelos? É verdade! Eu
até gostava quando era mais novo e os tinha, era uma onda de adrenalina.
Bem mais divertidos que sonhos comuns.
— Você acabou de romantizar meu drama? — Ela ergueu uma
sobrancelha e eu ri, assentindo.
— Sim, acho que sim. Funcionou?
— Um pouquinho. — Ela balançou a cabeça, me dando um sorriso
contido. — Mas falando sério, eu não tenho nada de especial. Sou comum,
simples, gosto de ler bastante, estudo atuação, criada no Brooklyn... coisas
que você já sabe.
— Vamos, deve ter alguma coisa que não me contou ainda.
— Bem... tem os detalhes não bonitos da minha vida, mas eu acho que
um segundo encontro ainda é cedo demais pra te assustar com isso.
— Então isso é de fato um encontro? — Sorri, vendo-a corar de novo.
Ela parecia se envergonhar facilmente.
— É sim.
— Bom saber. — Ergui uma mão, tocando o rosto dela e afastando uma
mecha de cabelo para de trás da orelha. Ela sorriu, e eu sorri de volta.
— Posso dizer uma coisa, sem que você se assuste?
— Claro que pode.
— Lembra quando eu comentei dos sorrisos? — Eu assenti. — Eu falei
sério. Normalmente eu não sorrio tanto quanto nos últimos dias, e se você
realmente tem planos de seguir tendo encontros comigo, acho melhor que já
saiba disso desde o começo. Eu tenho alguns problemas que não vem ao caso
agora, três diagnósticos psiquiátricos e não me dou bem com multidões em
geral. Eu sou extremamente complicada, e se o que quase temos, durar, vão
ter dias em que você vai me odiar. Acho melhor já saber disso tudo desde
agora, para evitar que depois você diga que eu não avisei. — Ela abaixou a
cabeça, suspirando.
— Ei... — Segurei o queixo dela, fazendo-a levantar o olhar para mim.
— Eu não vou fugir só porque você pode ser um pouco complicada. Todos
temos problemas, todos temos um lado sombrio, e não sei quanto aos outros
que você já pode ter conhecido, mas eu não me amedronto com isso. Eu sou
um homem, não um moleque qualquer. E eu gostei de você, Alice.
— Viu só? Não pode ser real. — Ela me deu um sorrisinho, suspirando.
— O que eu preciso fazer pra você acreditar que eu existo, e que isso
não é uma pegadinha? — Ergui uma sobrancelha, deduzindo o que ela estava
pensando. Ela deu de ombros, erguendo uma mão e tocando meu rosto,
fazendo carinho na minha barba.
— Não sei. É estranho, sabe, conhecer alguém depois de tanto tempo
sozinha.
— Não consigo entender o que te faria ficar sozinha. — Balancei a
cabeça, pegando a mão dela. — Você é fascinante, Alice.
— Eu sou comum. — Ela deu de ombros, e eu decidi não insistir, ao
menos não por agora. Teria que desfazer as barreiras dela aos poucos, uma
por uma. Eu não me amedrontava facilmente, mas ela parecia assustada
demais para ser pressionada de uma vez.
— Bem, senhorita comum, o que quer fazer hoje? Temos literalmente
todas as opções possíveis dentro de um apartamento, incluindo jogos de
tabuleiro e maratonas de séries. — Sorri, mudando o assunto para algo mais
alegre, e ela pareceu se animar.
— Quais jogos você tem? Eu amo jogos de tabuleiro, mas raramente
tenho com quem jogar.
— Tenho uma boa quantidade de jogos. Cresci jogando-os com meus
irmãos, e a maioria ficou comigo. Ainda jogamos uma vez ou outra, mesmo
estando teoricamente velhos demais pra isso. — Eu ri, me levantando. —
Venha, vou lhe mostrar.
Ela se levantou e me seguiu até o closet, enquanto eu abria uma das
portas que era mais um depósito de coisas. Como eu tinha metade do closet
livre, acabava usando para guardar as coisas mais variadas. Essa porta tinha
uma pilha com jogos de tabuleiro, incluindo diferentes versões especiais de
Monopoly. Ela deu um gritinho quando viu a versão de Game of Thrones.
— Esse! — Ela sorriu, e eu me abaixei para pegar o jogo, tentando com
todo o cuidado evitar que os outros caíssem. Consegui.
— Então você gosta de Game of Thrones?
— Eu amo! — Ela sorriu, voltando comigo para a sala. — Mesmo com
o final péssimo da série. Ah, e eu jogo com a casa Lannister, falei primeiro!
— Tudo bem, eu sou Targaryen mesmo. — Ri, me sentando no chão
junto da mesinha da sala e fazendo um sinal para ela se sentar do outro lado,
tirando as coisas que estavam ali em cima e colocando no chão.
— Ao menos não é Stark, senão eu teria que ir embora agora mesmo.
— Ela deu uma risadinha, se sentando na minha frente e pegando a caixa,
começando a montar o tabuleiro. — Por favor, diga que você é bom com
contas, pois eu sou uma negação completa!
— Sou formado em Economia, senhorita humanas. — Ri, ajudando-a a
montar o tabuleiro e pegando o livreto de regras. Fazia algum tempo que eu
não jogava esse, e era bom relembrar como funcionava.
— Ótimo, então você é o banqueiro. — Ela me empurrou a caixa do
jogo com as peças e dinheiros, rindo. Revirei os olhos de brincadeira e peguei
a caixa, começando a separar o dinheiro.
— Muito bem, você sabe jogar?
— São os mesmos princípios do Monopoly normal, não são?
— Teoricamente, sim, mas como essa é a versão mais recente, tem as
moedas em vez de dinheiro normal. Rapidinho você se acostuma com o jogo.
— Sorri, entregando o manual para ela, e começamos o jogo.
— Eu ganhei! Né? — Ela sorriu, animada. Era bom vê-la assim. Eu
assenti, rindo.
— Considerando que nenhum de nós está mais com paciência para
continuar jogando, e você tem mais propriedades e fortalezas, além de todo o
dinheiro, eu diria que ganhou, sim. Parabéns, milady. O trono de ferro é seu.
— Eu ganhei! Ganhei! Lalalá, ganhei! — Ela fez uma espécie de
dancinha, me fazendo rir. Puta merda, como ela é maravilhosa!
— Vossa alteza, Alice Lannister.
— Alysanne. Soa mais Game of Thrones. — Ela sorriu, esticando os
braços sobre a cabeça. — Que horas são?
— Não sei... — Peguei meu celular do sofá para olhar. — Quase meio-
dia.
— Ah, isso explica a fome.
— Se não estiver cansada da minha companhia, podemos pedir o
almoço. — Sorri, me levantando do chão e estendendo uma mão para ela.
— Cansada? Tá brincando? Estou num dos raros dias que gosto da
presença humana junto de mim, eu vou é aproveitar. — Ela riu, e eu comecei
a perceber um padrão nisso. Ela gostava de fazer piadas com a própria
situação.
— Muito bem, o que quer almoçar? Pode pedir qualquer coisa,
literalmente. Se não tiver aqui no hotel, eu mando alguém buscar. — Sorri,
vendo-a pensar por um instante.
— Pode ser batata recheada? Parece bobo, mas eu amo batata recheada.
— E batata recheada será. — Sorri, indo até a cozinha e pegando o
telefone com linha direta lá para baixo. — Geralt? Sou eu. Hoje vou querer
batatas recheadas. Nos surpreenda!
— “Nos” surpreenda? De novo? — Eu quase pude vê-lo erguendo a
sobrancelha.
— Almoço para dois, e capriche. — Desliguei, ouvindo-o rir.
Geralt costumava ser o cozinheiro lá de casa quando eu era pequeno, e
viajou pela Europa por uns anos para se aperfeiçoar. Ele já ganhou uma
estrela Michelin, e voltou para a América no ano que eu abri o hotel, e
aceitou trabalhar para mim. Ele tinha um apartamento aqui perto, por minha
conta, era um grande amigo, quase um segundo pai. Me conhecia bem, e
sabia que se eu estava com a mesma garota por dois dias seguintes, não era
por acaso.
— Espero que não demore. — Ela sorriu, vindo até a bancada e se
sentando, enquanto eu me apoiava no lado oposto.
— Não vai demorar muito, ele sempre agiliza meus pedidos. É errado
passar na frente de quem está esperando? É, mas tenho que ter alguma
vantagem nessa vida, além dos privilégios óbvios.
— Ah, claro, coitadinho de você se não tivesse vantagens. — Ela riu,
irônica. Eu sorri, dando de ombros.
— Vamos deixar minhas vantagens de lado. Você disse que ama
batatas, certo? Do que mais gosta?
— Massas. Qualquer coisa com queijo. Qualquer coisa com chocolate.
Sou um pouquinho chata para saladas, mas como também por necessidade.
— Acho que ninguém gosta mesmo de saladas. — Ri. — Vegetais no
vapor até que sim, mas salada crua? Todos comemos por pura necessidade de
saúde.
— Exatamente! É igual a peixe, quem gosta de peixe?!
— Eu gosto...
— Você é estranho. — Ela deu uma risadinha baixa, me fazendo
balançar a cabeça.
— Então você não gosta de sushi?
— Detesto. Não basta ser peixe, tem que ser cru?! Deus me proteja.
Mas gosto de frutos do mar, camarão em especial.
— Muito bem, então, teremos massa com camarão para o jantar. —
Sorri, piscando um olho.
— Isso supondo que você me suportaria até o jantar. — Ela deu de
ombros, meio incrédula de que eu realmente estava gostando da companhia
dela. Suspirei mentalmente, isso seria uma missão complicada.
— Pare de duvidar das minhas habilidades, eu suporto Ethan há vinte e
dois anos e ele não é nem um pouco tão boa companhia quanto você.
— Pois sabe o que eu acho? Que ele é seu irmão favorito, mesmo sendo
irritante. — Ela sorriu, erguendo uma sobrancelha.
— Você não tem irmãos, né? — Ela negou com a cabeça. — Se tivesse,
saberia que é impossível ter um favorito. É a lei da natureza que se ame e
odeie os irmãos na mesma intensidade.
— Até que faz sentido. Eu sou filha única, mas tenho alguns primos
que são quase como irmãos. Mas no meu caso, eu tenho uma preferida,
Breanna. — Ela deu de ombros e eu ri, balançando a cabeça.
— E por que Breanna?
— Ela é a única que não me deixa isolada quando saímos juntos ou tem
evento de família. Já tem trinta anos, mas é uma boa amiga. Ela e a esposa,
Pamela, são ótimas comigo. Os outros só falam das viagens que fizeram, dos
lugares aonde foram, ou do próprio grupo de amigos. Esquecem que eu
existo.
— São quantos primos no total?
— Três, sem contar a esposa de uma. Eddie; Breanna e Pamela; e
Beatriz. E esses são só por parte de mãe. Por parte de pai, eu tenho mais uma
porção, mas eles são do Sul, moram na Louisiana. Eu nasci perto de lá, em
Oklahoma, mas fui criada aqui, no Brooklyn.
— Ah, uma sulista. Devo me preocupar que vá começar a cantar
country a qualquer momento? — Ri, vendo-a revirar os olhos.
— Estereótipos são feios, sabia? — Ela riu. — Porém não está errado,
eu amo música country. Mas também amo Taylor Swift, Maroon 5, e até
música em espanhol. Sou fluente. — Ela sorriu, se gabando um pouco. Ergui
uma sobrancelha.
— Fluente em espanhol, viciada em country... você é cheia de
surpresas, Alice. — Sorri, ouvindo uma batida na porta. — E antes que me
pergunte, são surpresas boas.
Andei até a porta, abrindo para o empregado do hotel entrar. Ontem
Geralt mandou James, hoje foi Lucian. Ele era só um garoto, uns dezesseis
anos no máximo, trabalhando no hotel para ajudar a família. Eu fazia questão
de conhecer todos os meus empregados, ao menos os com quem eu convivia
todo dia.
— Boa tarde, senhor Vanslow.
— Boa tarde, Lucian. Pode deixar o almoço ali na bancada, perto da
moça bonita. — Pisquei um olho para Alice.
— Sim, senhor. Boa tarde — ele a cumprimentou, que sorriu enquanto
respondia, e deixou os dois pratos na bancada, saindo em seguida. Peguei
uma nota de vinte que, por acaso, estava no bolso e dei de gorjeta para ele.
Fechei a porta e voltei para a cozinha, me sentando ao lado dela. A
batata parecia saborosa.
— Então eu sou a “moça bonita”? — Ela sorriu, erguendo uma
sobrancelha. Assenti.
— Uma moça muito bonita, que, por sorte, está no meu apartamento.
— Sorri, pegando meu garfo. — Prove a batata. Garanto que deve estar
saborosa.
— Muito bem, vamos ver. — Ela pegou uma garfada, levando à boca e
mastigando. Fingiu pensar por um segundo antes de sorrir, assentindo. —
Maravilhosa! Esse seu chef, ele é cinco estrelas, né? Só pode ser...
— Ele já ganhou uma estrela Michelin. — Sorri, vendo ela arregalar os
olhos e quase se engasgar.
— Sério? Eu até hoje só tinha ouvido falar delas no Masterchef.
— Sério — assenti, vendo-a balançar a cabeça, incrédula.
— Um chef Michelin à minha disposição e eu peço batata recheada.
Parabéns, Alice — ela murmurou para si mesma e eu ri.
— Pode pedir algo mais sofisticado no jantar, mas não acho que tenha
errado pedindo a batata. Ele é ótimo com recheios, e esse aqui ficou divino.
— Então ser viciada em batata não foi ruim?
— Foi algo certeiro. — Sorri, e continuamos a comer em silêncio.
Os silêncios com ela eram estranhos, pois não tinham a necessidade de
serem preenchidos. Eram silêncios que se encontravam, que se conectavam.
Silêncios agradáveis.
Acabamos de comer e eu me virei para ela, mais uma vez me
surpreendendo em quão bonita ela era. Parecia que cada vez que eu a
observava algum detalhe mudava e me chamava mais a atenção. Fosse o
sorriso que às vezes era mais genuíno, fossem os olhos que pareciam mudar
de verde para azul, ou a única covinha do lado esquerdo dela. Sempre havia
algo para me surpreender, eu poderia olhar para ela por anos e ainda assim
não conseguiria pegar todos os detalhes.
— Então, o que quer fazer agora? — Sorri, contendo a vontade de
apenas puxá-la para mim.
— Você escolhe agora. Já passamos a manhã jogando Monopoly por
minha causa, é justo que a tarde seja sua.
— Muito bem... que tal me mostrar suas músicas em espanhol? Talvez
eu até goste.
— Vai amar. — Ela sorriu, se levantando e puxando o celular do bolso,
olhando em volta até ver meu home theater. — Posso conectar no bluetooth?
— Claro. — Sorri, vendo-a desbloquear a tela com a digital e me
levantando, andando até ela. O som fez um barulhinho notificando que estava
conectado e ela se virou para mim.
— Pronto?
— Pronto. Qual será a primeira música?
— Déjame ir, do Andrés Cepeda com Morat. São da Colômbia, e
Morat é minha banda preferida em espanhol. — Ela sorriu, dando play na
música. Tinha uma sonoridade bonita, por mais que eu só entendesse o básico
do espanhol. Eu havia optado por aulas de francês quando estava no ensino
médio, então só sabia o espanhol básico, mas já dava para entender um
pouco. Déjame ir significa “deixa-me ir”. E no finalzinho, quédate aqui,
significa “fica aqui”.
— Gostei. Entendi por alto apenas, mas gostei. — Sorri, vendo-a se
animar quando eu disse isso.
— Essa é uma das mais lindas, mas minhas preferidas são cuando
nadie ve e punto y aparte. Amo todo o álbum balas perdidas, mas essas duas
são minhas favoritas. — Ela sorriu, procurando no celular e dando play em
outra música.
— Sonhei um verão que seria eterno, desde o momento em que vi teu
olhar, me derreteste com esse olhar... — ela cantarolou a letra traduzida
baixinho, enquanto os alto-falantes tocavam a versão original. Sorri, gostando
daquilo. Ela tinha uma voz linda. — Se me perguntam por ti! Ooh, direi que é
mentira... — Ela não se aguentou e rodopiou sozinha pela sala, me fazendo
rir. Ela era maravilhosa!
— O que acharia de dançar comigo? — perguntei, vendo-a arregalar os
olhos e assentir, com um sorriso largo, um dos mais felizes que já a vi dar.
Ela mudou a música para uma mais lenta e se aproximou de mim, mordendo
o lábio inferior. Percebi que ela fazia isso quando estava nervosa.
Puxei-a para perto e começamos a dançar lentamente pelo espaço vazio
que tinha na minha sala, rodopiando pelo tapete felpudo. Reconheci algumas
palavras da letra, era a tal punto y aparte que ela falou. Era bonita também,
pelo pouco que eu podia entender.
Quando essa acabou, começou uma mais lenta ainda, e se aproximou
mais, deitando a cabeça no meu ombro enquanto dançávamos. Bem,
estávamos mais balançando de um lado para o outro do que dançando, mas
isso não parecia incomodá-la, e muito menos a mim. Sorri, não resistindo à
tentação e beijando a testa dela. Deus, eu só queria passar todo o tempo com
ela assim.
A música que começou depois era bem animada, e ela deu um pulinho
de surpresa. Eu ri, segurando-a pela mão e a fazendo girar para lá e pra cá.
Ela riu, se divertindo com aquilo. Dançamos mais duas músicas sem falar
nada, apenas nos divertindo juntos, rodopiando um ao outro do jeito mais
aleatório possível, rindo quando um de nós tropeçava. Quando a música
acabou, estávamos ambos rindo, um pouco suados e ela lindamente corada.
Sorri, pegando a mão dela e a puxando para se sentar comigo no sofá.
Enquanto dançávamos, Rudy havia saído dali, provavelmente para almoçar
— ele tinha um daqueles potinhos automáticos que dispensavam ração a cada
algumas horas — e devia estar no quarto agora.
— Você dança muito bem. — Ela riu, colocando os pés sobre a
mesinha, empurrando para o lado algumas peças esquecidas de Monopoly.
Era bom ver que ela estava se sentindo à vontade. Queria que ela se sentisse
sempre bem ao meu lado.
— Você também. — Sorri, colocando meus pés ao lado dos dela. Ela se
virou para mim, com os olhos brilhando.
— Vou me repetir pela milésima vez, isso aqui parece um sonho. —
Ela deu uma risadinha, encostando a cabeça no meu ombro. — O grande
Hector Vanslow dançando comigo feito um louco. Parece historinha de filme.
— E qual seria o nome do nosso filme? — perguntei, erguendo uma
sobrancelha.
— A problemática e o milionário. Uma comédia romântica daquelas
que a mocinha é um patinho feio e passa por uma transformação e do nada os
óculos somem e ela fica bonita. Tipo O diário da princesa.
— Tem dois problemas nisso. Você não usa óculos, e não é um patinho
feio.
— Na verdade, uso, mas como meu grau se estabilizou, passei a usar
lentes. — Ela deu de ombros, ignorando a parte sobre o patinho feio. Sorri.
— Viu só? Então você já passou pela sua transformação majestosa, por
isso é tão linda.
— Você devia parar de me elogiar — ela sussurrou, fechando os olhos.
— É difícil acreditar. A vida inteira as únicas pessoas que me acharam bonita
foram minha família e olhe lá, demorou dois anos para uma tia aceitar meu
peso.
— Seu peso? — repeti, passando um braço em volta dos ombros dela.
Não é possível que ela se considerasse feia por isso. Eu podia apenas
imaginar todas as curvas que ela tinha, e não me incomodava nem um pouco
com isso. Nunca gostei do físico de supermodelos.
— Vai se fazer de cego agora? Eu peso cem quilos, mais ou menos.
— E desde quando isso é um problema?
— Pare com isso. Pare de tentar me fazer sentir melhor, eu
simplesmente não consigo acreditar que realmente pense assim, que
realmente me ache bonita. Me chame de agradável, divertida, estranha.
Nessas coisas, eu acredito. — Ela suspirou e se afastou um pouco, se
levantando. — Talvez já seja hora de ir.
— Alice... — Me levantei também, ficando em frente a ela. — Nada de
fugir, não de mim. Sei que só te conheço há um dia, mas já te quero tão
bem... — Toquei o rosto dela e ela fechou os olhos, segurando minha mão. —
Vou repetir até entrar nessa sua linda cabecinha o quanto você é bonita.
Linda. Desejável, da forma que é. — Sussurrei as palavras, me inclinando na
direção dela e roçado meus lábios aos seus. — Acha que eu estaria aqui,
agora, se não pensasse realmente isso? Que eu lhe beijaria assim, se não lhe
achasse a mulher mais bonita que já vi?
E colei meus lábios aos dela. Ela demorou um segundo para perceber o
que estava acontecendo, mas suas mãos eventualmente envolveram meu
pescoço, os dedos se entrelaçando no meu cabelo. Ela correspondeu ao beijo
com força, nossas línguas em um ritmo equilibrado e intenso, deslizando
juntas em nossas bocas. Caralho, ela beijava bem demais. Mantive uma mão
em seu rosto e com a outra puxei sua cintura, a aproximando mais de mim,
colando nossos corpos também. Só eu sei tudo o que gostaria de fazer com
ela nesse momento, mas não apressaria as coisas. Ela era o tipo de garota que
iria querer esperar, e por ela eu podia esperar quanto tempo for que vai valer
a pena.
Quando nos separamos, apenas alguns centímetros, ela estava ofegante
e o rosto cor-de-rosa.
— Hector...
— Se reclamar dos elogios, eu te beijo de novo, até parar. — Sorri,
vendo-a dar uma risadinha. Isso!
— Sabia que isso me incentiva a reclamar?
— Pois bem, então só ganha mais beijos se aceitar elogios também. —
Ri, vendo-a revirar os olhos e sorrir.
— Nesse caso, eu posso até considerar. Mas vamos começar com
apenas “bonita”, por enquanto, ok?
— Já é algo. — Beijei o rosto dela, me sentando de novo no sofá e
puxando ela comigo. Ela caiu metade por cima do meu peito, rindo com um
gritinho.
— Me derrubar não era parte do acordo!
— Não derrubei, eu puxei.
— Detalhes. — Ela riu, apoiando a cabeça no meu peito e colocando os
pés para cima do sofá. Passei um braço em volta dela, a mantendo por perto.
— O que vamos fazer agora?
— Que tal ver alguma série? Você escolhe qual.
— Muito bem, que tal... já assistiu Grey’s Anatomy?
— Já vi alguns episódios aleatórios, mas nunca sentei pra assistir toda
mesmo.
— Pois agora vai. — Ela sorriu, se soltando de mim e pegando o
controle da tv de debaixo da mesinha, onde eu havia deixado antes. Eu sorri,
vendo-a ligar a Tv e selecionar a Netflix. Quando deu play na série, voltou a
deitar com a cabeça no meu peito, e começou a abertura.
Passamos boa parte da tarde assim, abraçados, assistindo aos dramas de
Grey’s Anatomy. E eu não poderia pensar em nada melhor do que tê-la nos
meus braços.
Eu acabei cochilando um pouco nos braços dele. Me sentia segura ao
seu lado, se ele fosse tentar algo de mal comigo já teria feito, pelo contrário,
ele era um perfeito cavalheiro. Eu estava caidinha por ele! Havia lido uma
vez, em algum lugar, que não se leva mais que um segundo para se apaixonar
por alguém. E já havíamos passado muitos e muitos segundos juntos, e com a
facilidade que eu tinha para me encantar, não me surpreendia em estar me
sentindo assim.
Por ser extremamente carente, eu me apegava com facilidade, e era
óbvio que não seria diferente com ele. Eu tinha uma tendência de ir rápido
demais e estragar tudo, então teria que me colocar um freio dessa vez, me dar
limites. Suspirei mentalmente, abrindo os olhos. Ele estava com o braço à
minha volta, fazendo carinho nos meus ombros enquanto os olhos estavam
focados na tela. Sorri, me erguendo e me afastando um pouco, enquanto me
espreguiçava. Ouvi-o dar uma risada e me virei.
— Acordou, Bela adormecida? — O sorriso dele foi lindo, e eu sorri de
volta.
— Desculpe por ter cochilado. Os remédios me deixam com sono o dia
todo, não posso deitar que durmo. — Me desculpei, com um sorrisinho fraco.
— Sem problemas. Você fica bonita quando dorme, mas eu
aconselharia tomar mais cuidado ao dormir perto de estranhos. Eu sou
inofensivo, mas alguns homens por aí não são. — Ele parecia preocupado.
Assenti.
— Eu sei disso. Só me deixei cochilar, pois sei que você não me faria
mal. — Sorri, voltando a me deitar no colo dele. Eu me sentia segura ao seu
lado. Ele era lindo, atencioso, tinha uma personalidade incrível, um
cachorrinho fofo... sem falar que eu realmente já me sentia segura ao lado
dele, algo completamente raro e incomum, já que eu normalmente tinha medo
das pessoas.
— Fico feliz que você confie em mim. — Ele sorriu, e senti uma mão
nos meus cabelos. — Quer dormir mais um pouco? Eu posso continuar vendo
a série enquanto isso. Por incrível que pareça, estou gostando da história.
— Claro que está, é uma das melhores séries já criadas! — Sorri. — E
não, não quero dormir mais. Quero estar acordada, para quando a realidade
voltar ao normal, eu ter a lembrança de cada momento que passamos.
— Quando a realidade voltar? — Pude sentir a sobrancelha dele se
erguendo pelo tom de voz, mesmo sem ver.
— Sabe, quando este fim de semana terminar e minha vida voltar ao
normal, sem encontros e beijos com um cara incrível e sem o cachorrinho
mais fofo do mundo. Quando eu voltar a ser apenas Alice, a garota escondida
em um canto em todos os cômodos, eu quero ser capaz de me lembrar de
como foi me sentir especial.
— Alice... — Ele deu um ar de riso, e eu pude senti-lo balançando a
cabeça. — Quem disse que isso acaba aqui? Você não é a Cinderela, que
quando bater às doze badaladas precisa ir para sua vida antiga novamente. O
que quer que tenhamos é uma conexão, e podemos ver aonde isso vai dar. Se
você quiser, podemos continuar a nos encontrar, a ver séries juntos e
eventualmente nos beijar de novo. Posso te levar para encontros, podemos ir
jantar juntos ou passear pelo Central Park. Podemos fazer tudo o que você
quiser, se quiser algo comigo. Você me dá uma chance, Alice?
— Hector... claro que sim. — Sorri, me erguendo e tocando o rosto dele
com uma mão. — Quem seria louca o bastante para dizer que não? Nem com
todos os meus distúrbios, eu recusaria uma oferta dessas.
— Ainda bem que disse sim. — Ele sorriu, se inclinando para perto de
mim. — Agora, quanto aos beijos eventuais...
— Sim?
— Quer que eles sejam raros, ou com frequência?
— Sempre — sussurrei, e ele deu um sorrisinho de canto, segurando
meu rosto com as mãos.
— Era tudo que eu precisava saber. — E me beijou.
Um beijo doce, cheio de carinho, enquanto sua língua deslizava junto a
minha. Um beijo com gosto de batata misturado a algo doce dele mesmo,
como aquela sobremesa Romeu e Julieta. Era delicioso! Ele beijava tão bem
que quase me fazia desmaiar, e eu o beijava com todas as minhas forças, me
segurando no pescoço dele enquanto era puxada para seu colo, as pernas
abertas sobre ele, num amasso fortíssimo. Sim, eu podia sentir claramente o
algo dele pressionando contra mim, mas quem disse que isso era um
problema? Muito pelo contrário, eu estava adorando. Adorando saber que
podia causar aquele efeito nele, que ainda era desejável, mesmo pesando cem
quilos, que ainda era boa o suficiente para alguém.
Eu era do tipo de pessoa que precisava ser amada para poder se amar, e
ele estava me ajudando com isso, me dando carinho e fazendo eu me
importar comigo mesma.
Quando nos afastamos um pouco, eu estava ofegante, me segurando na
camisa dele, e ele estava rindo baixinho, me segurando pela cintura.
— Me avise se for desmaiar — ele sussurrou, e eu dei tapa no braço
dele, vendo-o rir.
— Não é justo causar um impacto assim em alguém e ainda rir —
reclamei, fazendo um bico. Ele me deu um selinho e riu, tocando meu rosto
com uma mão, fazendo carinho.
— Você ainda tem coragem de falar em impacto? Está me matando,
Alice — ele sussurrou, escondendo o rosto no meu pescoço e depositando um
beijo ali. Senti um arrepio.
— Se eu estou te matando, o que diabos é isso que você está fazendo
comigo? — sussurrei, fechando os olhos e aconchegando meu rosto no
pescoço dele, me sentindo segura em seus braços.
— Dando o troco. — Senti o sorriso dele, e um arrepio novamente com
seu hálito na minha pele.
— Você é malvado — reclamei, ouvindo-o rir e se afastar do meu
pescoço, me olhando nos olhos.
— E você é uma deusa — ele sussurrou, segurando meu rosto com as
mãos. — Sei que você não acredita nisso, mas é uma deusa. Se soubesse uma
fração do impacto que está causando em mim, em tão pouco tempo, você
acharia que “deusa” é pouco para explicar a sensação.
— Hector...
— Eu sei, eu sei. Você acha que eu estou louco ou exagerando, mas, na
verdade, só estou encantado por você. Encantado, arrebatado, tomado e todas
as outras palavras bonitas que você conseguir pensar. Você é uma sereia,
Alice. A minha sereia.
— Ah, Hector... — sussurrei, sem palavras, sentindo meu coração
gelado e abandonado se aquecer com as palavras dele.
Não sabia mais o que dizer, então apenas o beijei novamente, tomando
a boca dele na minha com toda a força que tinha, na mesma intensidade com
a qual ele me beijou antes. Ele não demorou mais que um milissegundo para
corresponder, apertando minha cintura e lentamente me movendo sobre ele,
em um ritmo gostoso, que me dava a sensação de estar no controle.
Que tolinha, eu nem saberia o que fazer no controle. Estaria perdida
sem as mãos dele ali, me guiando, me levando de um ponto ao outro sobre
ele. Benditas sejam as calças de moletom! Nessa hora eu me amaldiçoei por
estar usando jeans, queria poder sentir mais. Há tanto tempo não sentia nada
tão forte, desde o meu primeiro namorado, Victor. Há tanto tempo eu havia
esquecido o que era ser desejada, e ele estava me lembrando desses
sentimentos, me trazendo de volta a mim mesma, a quem eu gostava de ser.
Era delicioso.
Continuamos por um bom tempo, meu corpo começando a ter pequenos
espasmozinhos de prazer. Se eu sentia tudo isso vestida, imagine sem nada!
Dei uma risadinha do meu próprio pensamento, sentindo-o morder meu lábio
inferior. Uma mão dele subiu pela minha cintura, parando na lateral do meu
peito, pedindo permissão. Assenti, sem tirar minha boca da dele, sentindo a
mão dele cobrir meu seio direito sobre a blusa, numa carícia leve e ao mesmo
tempo intensa, me fazendo imaginar coisas. Me remexi no colo dele,
rebolando devagarinho, sentindo arrepios enquanto ele continuava a me tocar.
— Alice... — A voz rouca dele me trouxe de volta para a realidade, me
dando conta do que estávamos fazendo. Eu sabia aonde aquilo iria terminar
se eu não parasse, mas estava tão bom... me mexi mais algumas vezes, um
pouco mais rápido, chegando tão perto de onde queria que poderia gritar,
mas... nada. Graças à porcaria dos meus remédios que mexiam com a minha
libido, eu não consegui chegar lá, mas foi mais perto do que chegava sozinha
nos últimos tempos. Suspirei, dando um último selinho nele e me afastando
um pouco, sem sair de cima dele.
— Acho... acho melhor pararmos — sussurrei, ofegante, vendo-o dar
um sorrisinho de canto. Podia sentir o quanto ele estava duro embaixo de
mim, e estava usando todas as minhas forças para não continuar a me mover.
— Rápido demais? — ele sussurrou, me dando um beijinho de leve no
canto da boca.
— Um pouco — admiti, vendo-o sorrir pesarosamente e me tirar de
cima dele, me colocando de volta ao seu lado. Me recostei no sofá, ofegante,
fechando os olhos enquanto ouvia uma risadinha dele.
— Me desculpe, mas como eu disse, você é uma deusa... e não é
sempre que tenho uma deusa em cima de mim.
— He treats me like a goddess… — cantarolei a música da Avril
Lavigne, vendo-o erguer uma sobrancelha. — É uma música da Avril,
Goddes, do álbum novo. Só consigo pensar nela quando você me chama de
deusa. — Sorri, sentindo meu rosto ficar cor-de-rosa.
— Gostei. Combina com você. — Ele sorriu, passando um braço a
minha volta e me puxando para perto. — Só me responda uma coisa.
— Lá vem...
— Promete me avisar quando for a hora certa para irmos adiante? Não
quero lhe pressionar.
— Prometo. — Sorri, abrindo os olhos e me encostando no peito dele.
— Posso te fazer uma pergunta um pouco invasiva? É uma curiosidade que
eu sempre tive sobre os homens.
— Devo ter medo? — Ele riu, beijando meus cabelos. — Pode
perguntar o que quiser, minha deusa.
— Fica dolorido, quando não vai até o fim? Tipo, o mito das “bolas
azuis” é real? — Fechei os olhos, morta de vergonha. Eu não tinha muitos
amigos em geral, muito menos amigos homens. Minhas únicas amigas eram
virtuais,da Califórnia, uma do Arizona e uma da Louisiana, e meu único
amigo era gay e passivo, então não era a mesma coisa, de acordo com o que
ele me disse.
— Fica, um pouco. Depende do quanto eu for provocado, e
normalmente demora a passar. — Ele riu, e eu pude senti-lo dando de
ombros. — Agora mesmo, estou morrendo, mas aguentando firme.
— Desculpa. — Dei um sorrisinho, ouvindo-o rir e sentindo seus lábios
em meu cabelo.
— Não se desculpe, deusa. Foi maravilhoso, mesmo não indo até o fim.
Agora, se me der licença por alguns minutos, um banho frio ajudaria. — Ele
riu e eu também, me afastando do peito dele e me sentando no sofá como a
mocinha comportada que eu deveria ser.
— Vá. Mas não demore. — Sorri, e ele me deu um selinho, se
levantando. Enquanto ele ia até o quarto, e depois ao banheiro, eu me deitei
no sofá, olhando para o teto.
Eu estava ficando louca, só podia ser. Quase dei para um cara que
recém-conheci! E sinceramente não teria me arrependido se tivesse ido até o
fim, muito pelo contrário, sei que ia amar. Mas minha amiga uma vez disse
que para um relacionamento dar certo é preciso limitar a quantidade de
relação física no começo, criar uma certa negação, digamos assim, para que o
casal se conheça sem que os hormônios sexuais atrapalhem. Seja como for,
eu precisava me controlar mais daqui para frente.
Por outro lado, eu já tinha vinte e um anos e era adulta. Adultos fazem
sexo no primeiro ou segundo encontro sem problema algum. Só que é óbvio
que eu não era uma adulta normal, com todos os problemas e traumas que eu
carregava. Vivia com um pé mais pra lá do que pra cá, desde os treze anos, e
não era ele que iria magicamente mudar isso, nem a melhor foda do mundo
consertaria tudo de errado comigo.
Suspirei, puxando as mangas do moletom até os cotovelos, morta de
calor. Havia suado bastante na nossa pequena aventura no sofá, e estava
derretendo agora. Olhei para os meus braços, os cortes já mais fechadinhos.
Quatro dias sem me cortar, estava chegando perto de um recorde.
Passei os dedos por cima das marcas, mais uma vez surpresa com o fato
de ele não ter tido nojo de mim. Muito pelo contrário, ele me aceitou com
todos os defeitos, me chamava de deusa mesmo eu sendo completamente
comum, não parecia se importar com meu peso... ele estava claramente — e
eu pude sentir — excitado por mim! Eu não lembrava como era causar essa
sensação em alguém desde os dezesseis anos.
Sorri sozinha, ouvindo ao longe o barulho do chuveiro e peguei meu
celular, ligando novamente o bluetooth com o home teather dele e colocando
a playlist na qual eu estava viciada recentemente. A primeira música que
tocou foi Always, do Bon Jovi.
Estava cantarolando quando o vi de relance passando, só de toalha. Não
deu tempo de espiar, até que eu me desse conta do que tinha visto, ele já tinha
passado e devia estar no closet. Continuei olhando para o teto mesmo,
sorrindo ao senti-lo se aproximar.
— Melhor agora? — perguntei, rindo. Ele assentiu, piscando um olho.
— Bem melhor.
— Ótimo. — Sorri, me sentando direito e batendo no espaço ao meu
lado para ele vir se sentar. Quando se sentou, eu deitei a cabeça em seu colo,
sentindo o cheiro de sabonete e shampoo. Erva doce. Sorri, encantada em
como até os cheiros mais simples da face da terra ficavam fabulosos quando
combinados com ele.
— I’ll be ther ‘till the stars don’t shine… — cantarolou, reconhecendo
a música e sorrindo para mim. — Você tem bom gosto, Alice Rogers — ele
disse meu nome completo, me fazendo corar de novo. Mas que porra, só
ficava vermelha junto dele.
— Eu sei. — Dei um sorrisinho, fechando os olhos e bocejando.
— Ainda está com sono?
— Estou sempre com sono. — Dei de ombros, abrindo os olhos e
erguendo uma mão, brincando de leve com a barba úmida dele.
— Os remédios são pesados, hein? — Ele deu um sorriso que era uma
meia careta.
— Sim, infelizmente.
— Não vou dizer que entendo, porque não conheço quase nada de
remédios, mas imagino que sejam fortes, para te deixar com tanto sono
assim. — Ele ergueu uma mão, tocando meu rosto. — Se quiser, pode ir
dormir. Eu deixo. — Ele piscou um olho, com um sorrisinho.
— Eu até quero, mas ficar com você é mais divertido. — Sorri,
continuando a enrolar a barba dele nos meus dedos. — Gosto da sua barba —
comentei aleatoriamente.
— Percebi. — Ele sorriu, se inclinando e me dando um selinho. Lindo.
— E gosto quando me beija. Gosto muito, muito mesmo. — Mordi meu
lábio inferior, decidindo continuar a falar. — A gente lê sobre beijos assim
nos livros, mas não acredita que eles existam até realmente sentir, sabe?
— Beijos assim, como?
— Mágicos.
— Mágico, é? — Ele deu um sorrisinho, se inclinando e me beijando
de novo, bem devagar, só com os lábios. — Abracadabra, minha deusa — ele
sussurrou, me beijando de novo, dessa vez deslizando a língua pelos meus
lábios. E então outra vez, de verdade, sem nem precisar pedir passagem para
sua língua alcançar a minha, num beijo lento e ao mesmo tempo feroz.
Merda, eu estava com tanta vontade quanto ele de seguir em frente, mas não
iria tão rápido. Ele havia visto e aceitado algumas cicatrizes nos braços,
provavelmente se assustaria de vez quando visse as marcas enormes nas
coxas, as estrias e manchas na minha pele... balancei a cabeça, separando
nosso beijo. — Você vai me enlouquecer, Alice.
— É meu objetivo — provoquei, sentindo meu coração acelerar.
Putamerda, ele era tão maravilhoso! Ainda não acreditava que tudo isso não
era um sonho.
— O que foi? Está me olhando de um jeito engraçado.
— Pensando que em algum momento eu vou acordar e tudo isso vai ter
sido um sonho.
— Como diria Khal Drogo em Game of Thrones, no último episódio da
segunda temporada, “se isso for um sonho, vou matar o homem que me
acordar”. — Ele sorriu, se inclinando e me beijando rapidamente mais uma
vez. — Também gosto dos seus beijos, deusa.
— Vai ficar me chamando assim? — Ergui uma sobrancelha.
— Vou, se não for um problema. — Ele sorriu, uma mão fazendo
carinho no meu rosto e a outra em minha cintura.
— Problema nenhum, muito pelo contrário... eu sempre quis um
apelido fofo — admiti, sentindo meu rosto esquentar. Infernoooo, eu ia ficar
rosa o tempo todo com ele? Ou rosa, ou com taquicardia, ou rosa e com
taquicardia... affe!
— Pois acaba de ganhar um. — Ele sorriu de novo, aquele sorriso lindo
e maravilhoso, me dando outro selinho.
— Muito bem, se eu sou uma deusa, você é um deus grego, daqueles
maravilhosos esculpidos em mármore.
— Se eu fizer um comentário meio baixo, você promete não se
incomodar?
— Diga...
— Aquelas estátuas têm o pau pequeno, e assim você vai ferir o meu
ego. — Ele riu, e eu pude jurar que ele ficou um pouquinho de nada cor-de-
rosa. Eu dei uma risada alta, uma verdadeira gargalhada.
— Tudo bem, não um deus grego de estátua, então.
— Ótimo. — Ele riu, enquanto eu balançava a cabeça. — E desculpe
pelo termo baixo.
— Eu falo coisa pior com as minhas amigas. — Dei de ombros, dando
uma risada ao me lembrar de algo que Cammie, uma ex-colega de classe,
havia dito uma vez. — Aliás, eu tenho uma cantada maravilhosa que vai te
fazer rir.
— Diga.
— Bem... — Respirei fundo, tomando coragem. — Deixa eu te chamar
de sorvete e chupar suas bolas. — Tentei segurar a risada, vendo-o arregalar
os olhos provavelmente em dúvida se ria ou se me expulsava dali. Optou por
rir, e eu acabei rindo também.
— Seria errado eu dizer que deixo? — Ele riu, balançando a cabeça. —
A cada segundo, eu gosto mais de você, Alice.
— Bom saber. — Sorri, mordendo meu lábio inferior. — Tem outra
também, uma cantada bem tosca, na verdade, que eu mesma inventei. —
Pigarreei, me concentrando. — Me chama de Ana Bolena, que por você eu
perco a cabeça.
— Referência histórica, gostei. — Ele riu, balançando a cabeça. —
Infelizmente eu sou péssimo com cantadas, senão eu te mandaria alguma
muito bem bolada.
— As vantagens de ser rico e bonito: não precisar usar cantadas para
conquistar alguém. — Ri, balançando a cabeça. — É tão estranho. Ao mesmo
tempo que você é inalcançável, é alguém completamente normal.
— E quem disse que eu sou inalcançável?
— Fala sério, Hector, você é lindo, rico, razoavelmente famoso,
poderoso... e ao mesmo tempo você é engraçado, tarado como qualquer
homem, divertido, bom de se conversar, extremamente jovem para alguém de
vinte e sete anos... Deveria ser injusto alguém ser o pacote completo —
simplesmente falei, fechando os olhos enquanto esperava a resposta dele.
— Primeiro de tudo, vamos fingir que eu não fui chamado de velho. —
Ele riu, e eu abri um olho, dando um sorrisinho. — E sobre ser o pacote
completo... você realmente não se enxerga, não é? Você é linda, divertida,
inteligente até demais, gostosa pra caralho, me desculpe os termos, e ainda
por cima tem um sorriso capaz de destruir mundos. Helena de Tróia, o rosto
que lançou mil navios. É você, minha deusa. Eu sou só um homem bem
educado e comum, com alguns privilégios financeiros.
— E você tem alguma noção de como na sociedade de hoje os homens
bem educados são raros? Não deveria ser, homens assim deveriam ser a
maioria e não uma minoria tão absurda, mas é o mundo em que vivemos.
Você é uma raridade!
— E você está exagerando. — Ele deu de ombros, claramente
incomodado por ser posto num pedestal. Balancei a cabeça.
— Eu adoro você. — Sorri, erguendo uma mão e fazendo carinho no
rosto dele. — E tudo bem, vamos mudar de assunto. Que tal... ok, eu sou
péssima para puxar assuntos.
— E se fizéssemos algo melhor que conversar? — Ele deu um
sorrisinho, me puxando para cima para sentar novamente. — E se eu fizer
isso... — Ele me deu um selinho, me puxando novamente para o colo dele. —
E isso... — Desceu um beijo pelo pouco do meu pescoço que estava exposto.
— E mais isso... — Beijou minha orelha, me causando arrepios.
— Porra... — sussurrei, sem muito controle das palavras, mas, por
sorte, ele parecia não se incomodar com palavrões.
— Eu quero você, Alice. Não precisamos fazer nada hoje, nem amanhã,
nem em nenhum dia até você estar pronta, mas eu preciso que saiba o quanto
eu te desejo. O quanto eu quero você, o quanto é desejável e maravilhosa...
— Ele continuou a me dar beijos pelo pescoço, a voz grave arranhando meu
interior e expondo partes de mim que eu nem sabia que existiam.
— Eu também quero você — sussurrei, puxando o rosto dele e o
beijando de novo, com força. Um beijo cheio de desejo e doçura, lento,
saboroso. Enrosquei minhas mãos no cabelo dele, deslizando minha língua
pela sua, sentindo coisas que não sentia desde os dezesseis anos.
Continuamos a nos beijar por sabe-se lá quanto tempo, as mãos dele
deslizando pelo meu corpo e segurando minha bunda, me puxando contra ele.
Podia senti-lo duro embaixo de mim de novo... Gemi baixinho, sem me
controlar, agarrando os cabelos dele.
Quando nos separamos, estávamos os dois ofegantes, e eu me escondi
no pescoço dele, ouvindo-o dar uma risadinha e passar uma mão nas minhas
costas.
— Você vai me deixar louco, sabia? — disse, beijando meu pescoço.
— Era o objetivo. — Ri baixinho.
Ficamos em silêncio por um tempo, só curtindo aquela proximidade um
com o outro, curtindo o momento. Acabei cochilando de novo, dessa vez nos
braços dele, em uma posição que teoricamente não seria confortável, mas que
na prática era a mais confortável possível.
Quando eu acordei de novo, ele estava passando as mãos nas minhas
costas, me fazendo carinho. Tão doce, tão amoroso, tão... aaaa! A vontade era
de gritar, de tão perfeito que ele era. Um deus grego de fato.
— Juro que vou parar de cochilar — sussurrei, beijando o rosto dele e
me afastando um pouco, olhando em seus olhos.
— Você fica linda dormindo. — Ele sorriu, ainda passando as mãos nas
minhas costas. — E não vou mentir, eu adorei ser seu travesseiro. — Ele
piscou um olho e eu ri, balançando a cabeça.
— É cedo demais pra dizer que eu gosto mesmo de você? — perguntei,
mordendo meu lábio inferior.
— Eu não acredito em “cedo demais”. Cada um tem seu tempo, e eu
também gosto mesmo de você. — Ele sorriu, adotando meu jeitinho de falar.
— Você me fascina, Alice. É maravilhosa em todos os sentidos, me conquista
mais a cada segundo, e por mais que não pareça acreditar nisso, é
extremamente perfeita, em um nível que beira o absurdo.
— Obrigada, eu acho. — Segurei o rosto dele nas mãos, fazendo
carinho de leve. — Você é um sonho. Um deus grego, não como o das
estátuas — ri —, mas como eles deveriam ser na realidade. Lindo, charmoso,
inteligente e inalcançável. Não importa o que faça, nada vai me convencer
que todo este fim de semana não vai ser apenas um sonho quando eu acordar,
segunda-feira. Posso estar me iludindo em todos os níveis possíveis, mas vou
aproveitar cada segundo que tivermos juntos. E prometo não repetir mais
isso. — Dei um sorrisinho e ele balançou a cabeça, puxando a minha boca
para dele e me beijando rapidamente, com força.
— E eu não vou repetir de novo o que farei se isso for um sonho e
alguém nos acordar. Apenas pare de ter tão pouca fé em si mesma e confie
em mim, você é maravilhosa, e eu adoro você. — Ele sorriu, tocando meu
rosto. — Agora, falando de assuntos mais divertidos, o que vai querer para
jantar?
— Já é hora do jantar?
— Quase.
— Eu realmente dormi demais — resmunguei, vendo-o rir. — E eu vou
querer... tem pizza?
— Pra você tem. — Ele sorriu. — Só preciso avisar logo ao Geralt,
porque ele mesmo faz desde a massa até o molho e o recheio das pizzas.
— Meu sonho é ter um chef particular desses. — Ri, dando um selinho
nele e me levantando, ficando de pé.
— Vem morar comigo e vai ter — ele brincou, com uma piscada. Sorri,
balançando a cabeça.
— Você realmente não tem noção de “rápido demais”, hein? — Ri, me
espreguiçando e me esticando toda. — O banheiro é no quarto, né?
— Isso.
— Já volto. — Sorri, caminhando pelas portas do quarto, fazendo um
“awwn” quando vi Rudy dormindo numa almofadinha no chão. Coisa mais
fofa de titia.
Antes de sair do banheiro, eu parei em frente ao espelho. Eu estava um
pouco corada, com um sorriso enorme no rosto, e totalmente apaixonadinha.
Há quanto tempo eu não me sentia tão bem assim?! Estava impressionada.
Ele era como uma forma humana de remédio para mim, e isso era
maravilhoso.
Saí do banheiro e voltei para sala, encontrando-o no sofá, fazendo
alguma coisa num notebook. Sorri.
— Voltei.
— Voltou. — Ele sorriu, dando uma batidinha no espaço ao lado dele.
— Já liguei para Geralt, a pizza deve vir em mais ou menos uma hora e meia
ou duas.
— Tudo bem. — Me sentei ao lado dele. — O que está fazendo?
— Checando meus e-mails. Por sorte, nada importante. — Ele fechou o
notebook e colocou na mesinha, se virando para mim. — E então, o que quer
fazer até a pizza chegar?
— Não sei... que horas são?
— Seis da noite. — Ele olhou no relógio que tinha no pulso, antes de
responder.
— Se eu não lembrar sozinha, você me avisa quando der dez horas? É o
horário limite em que eu normalmente tomo meus remédios, se não mais
cedo. Ontem mesmo eu estava cansada e tomei assim que voltei para o quarto
e já fui dormir.
— Traga-os para cá, amanhã. Assim não precisa se preocupar com a
hora. — Ele sorriu, e eu ergui uma sobrancelha.
— Não vai enjoar de mim, três dias seguidos?
— Não enjoaria nem em três anos seguidos. — Ele me deu um sorriso,
tocando meu rosto com carinho. — Mas se você já estiver cansada de mim...
— Não, claro que não. Muito pelo contrário, estou ficando viciada em
você. — Segurei a mão dele. — Estou sorrindo tanto, que até eu mesma me
assusto. Me acostumei a só rir com séries ou com minhas amigas virtuais.
— Virtuais? Não tem nenhuma amiga por aqui?
— Tenho Cammie, minha ex-colega de classe, mas ela é meio distante.
Mas minhas melhores amigas moram uma no Arizona, duas na Califórnia e
uma na Louisiana. Meu sonho é um dia conhecê-las pessoalmente. Mary, eu
conheço desde os treze anos, é minha amiga mais antiga; e Abigail desde os
quinze. Elas são como minhas irmãs. Gabrielle e Pauline são as mais
recentes, só um ano e meio de amizade, mas já as amo demais.
— Todos esses anos de amizade, e nunca se viram pessoalmente?
— Nunca tive o dinheiro para viajar até lá. Sabe, nem todo mundo
nasce num berço de ouro — provoquei, com uma risadinha. — A maior parte
do nosso dinheiro vai para os meus medicamentos e tratamento, psiquiatras
estão cada vez mais caros, remédios também... é difícil.
— Sabe que se precisar de qualquer coisa, pode me pedir sem vergonha
nenhuma, não sabe?
— Obrigada por oferecer, mas isso é algo que eu preciso resolver
sozinha. — Sorri, me inclinando e dando um selinho nele. — Você é um
doce.
— Eu tento. — Ele sorriu, piscando um olho.
— Mas me fale mais de você. E os seus amigos, seus irmãos, como é
sua vida?
— Bem, eu não tenho muitos amigos, por pura falta de tempo mesmo.
Tenho alguns colegas da faculdade, e sou mais próximo dos meus irmãos, em
especial Roman. Ele pode parecer ser feito de pedra para quem olha de fora,
mas é o maior coração de nós cinco. Ele é quem organizou todo o movimento
de doações para as crianças. Ele é apaixonado por crianças, ajuda uma
quantidade enorme de caridades voltadas às “mini pessoas”, como ele chama.
Um dia ele vai ser um ótimo pai.
— Ele parece incrível. — Sorri, cruzando as pernas sobre o sofá. — E
os outros?
— Depois de Roman, sou eu, seguido pelos gêmeos, que de semelhante
só tem a data de nascimento mesmo. — Ele riu. — Brian e Phillip, um artista
e um empresário. Brian administra algumas galerias de artes, com quadros de
artistas famosos como ele próprio, Alyssa Rose, Yanna Melbourne etc.,
enquanto Phill é músico, dono da Vans Records. É interessante os gêmeos
serem ambos artistas, cada um em seu ramo. E por último, vem Ethan, o
“irresponsável”. Ele ainda não tem uma empresa, um ramo nem nada
parecido, de acordo com ele, vinte e dois é novo demais para tomar uma
decisão dessas e vive de investimentos. Ele mora no edifício Rhodes, com a
melhor amiga, Nicole.
— Melhor amiga? — Ergui uma sobrancelha, desconfiada. Ele riu,
assentindo.
— Os dois são basicamente grudados desde sempre, fomos para os
mesmos internatos e como eles têm a mesma idade, nasceram com uma
diferença de dois dias, sempre estudaram juntos. Eu e os outros temos uma
aposta rolando de quanto tempo vai até os dois se pegarem, de fato. Eu
apostei que antes de ele fazer vinte e quatro, em novembro do ano que vem.
— Boa sorte. — Ri, balançando a cabeça. — Seus irmãos parecem
incríveis.
— Um dia eu te levo para conhecê-los. Sinta-se convidada para nossa
próxima noite de jogos de tabuleiro. Do jeito que você é competitiva, vai dar
certinho com Roman e Ethan. — Ele riu, e eu ergui as sobrancelhas, me
fazendo de sonsa.
— Eu sou competitiva?
— Não, imagina. Só gritou que ganhou e parecia obcecada pelas fichas
do jogo. — Ele riu, sendo irônico, e eu dei de ombros.
— Apenas gosto de vencer.
— Sei.
— Enfim, vou querer entrar na aposta também, posso? Nem conheço os
dois, mas acho que até o dezembro deste ano eles se pegam. Aposto... vale
aposta baixa? Quinze dólares.
— Vale. — Ele sorriu, pegando o celular da mesinha e digitando algo
rapidamente. — Aposta anotada. Parabéns, você agora é da família. — Ele
riu, e eu senti meu rosto esquentar.
Ele riu, se inclinando e me roubando um beijo rápido.
— Sabe qual seria meu ramo como uma Vanslow? Eu abriria uma
editora para autores independentes publicados on-line. Totalmente sem custos
para o autor, dando a chance de ficarem mais conhecidos e espalhados por
livrarias físicas. Já li tantos livros independentes que eram maravilhosos,
acho mais que justo ficarem conhecidos. Ou então uma companhia de teatro.
— Você seria uma ótima Vanslow. Com certeza mais útil que Ethan. —
Ele riu, e fomos interrompidos por uma bolinha de pelos que veio balançando
o rabinho até o sofá, latindo para ser posto para cima.
— Oi, neném! — Sorri, pegando o cachorrinho no colo e abraçando
ele. — Você deu um cochilo, foi? Dormiu bem? — O filhote lambeu meu
nariz, então entendi isso como um sim.
— Nem olha para mim, não é? — ele resmungou com o cachorro,
rindo e balançando a cabeça. — Ele amou você.
— É bom que fiz dois amigos neste fim de semana, você e Rudy.
— Pensei que eu fosse mais que um amigo... — ele provocou, rindo
quando eu fiquei cor-de-rosa de novo. Fazia tanto tempo que eu não corava
tanto quanto com ele, que eu não ria tanto com alguém... ele estava trazendo
de volta alguém que eu nem lembrava mais como ser.
— Amizade com benefícios?
— Perfeito. — Ele piscou um olho. Tentou se inclinar para me beijar de
novo, mas Rudy latiu e o impediu. — Ah, seu cachorrinho ciumento... eu a vi
primeiro. — Ele puxou o cachorro do meu braço, erguendo-o no ar e
encostando o nariz no focinho, como se fosse um bebê, do mesmo jeito que
eu fiz ontem.
— Podem travar um duelo por mim, rapazes, eu não me incomodo nem
um pouco. — Ri, vendo-o erguer uma sobrancelha, se levantar e colocar o
filhote no chão.
— Em pose de batalha, Rudy! Quem for mais adorável e agradar mais a
nossa dama, irá vencer. — O cachorrinho o ignorou completamente, se
sentando no chão e começando a morder a própria pata. — Então já
começamos, não é?
Eu só fazia rir. Enquanto o cachorro não estava nem aí, Hector se
esforçava para ser fofo, fazendo caretas ridículas, enquanto eu explodia em
gargalhadas. Ele realmente ia aos extremos pra me fazer rir.
— Quer ver eu ganhar essa batalha? Vou fazer algo que você não pode,
pequeno trapaceiro. — E se inclinou sobre o sofá, segurando meu rosto com
as mãos e me beijando com força, deslizando os lábios pelos meus, a língua
me fazendo esquecer das risadas e lembrar apenas dele. — E então, minha
lady? Quem vence?
— Quem é o trapaceiro agora? — sussurrei, enquanto ele fazia uma
dança da vitória muito ridícula, me fazendo rir ainda mais.
— Eu adoro sua risada — ele comentou, desabando do meu lado no
sofá, enquanto Rudy abanava o rabinho no chão, latindo para mim. — E
adoro te fazer rir.
— É mesmo? Nem tinha percebido. — Encarei-o, irônica, e ele riu. —
Cadê essa pizza que não chega? Eu vou morrer aqui! — dramatizei um
pouco, vendo-o rir. Ele tinha uma risada grave, bonita de se ouvir. Percebi
que também adorava a risada dele.
— Logo, logo a pizza chega. — Ele sorriu, passando um braço à minha
volta descontraidamente.
— Que horas são? — Meu celular estava na mesinha e eu tive preguiça
de sair dos braços dele para pegar e ver a hora. Ele ergueu o braço do relógio.
— Seis e meia. Está cedo ainda, tenha paciência. — Ele sorriu,
beijando minha testa. Ficamos em silêncio por um instante, até que ele falou
de novo: — Alice... posso te fazer uma pergunta pessoal?
— Claro.
— Não precisa responder, se não quiser, mas o que te levou a entrar em
depressão? Sei que normalmente essas coisas são desencadeadas por algum
tipo de gatilho, não é? Qual foi o seu? — Ergui meu olhar para ele, que
parecia genuinamente preocupado. Sorri de leve, sem muito ânimo para falar,
mas se ele pretendia ficar por perto, merecia uma explicação.
— Vou responder, porque acho melhor você já saber de tudo, desde o
início. Minha mãe teima em dizer que eu não devo comentar isso com todo
mundo, que o que passou já passou, mas meu último relacionamento deu
errado justamente por eu ter esperado demais para contar, então vou seguir
meus instintos e te contar. — Respirei fundo, e ele apenas assentiu. Me
afastei um pouco e cruzei as pernas sobre o sofá, ficando de frente para ele.
— Começou quando eu tinha doze anos. Antes disso, na verdade, mas foi
com quase treze que eu fiz o primeiro corte. Eu sofria bullying de todos os
tipos. Sofria por ser diferente, sofria por ser de outro lugar, por não seguir o
padrão de beleza, por gostar de ler bastante, por nunca ter beijado ninguém...
eu era excluída, uma piada da sociedade.
Respirei fundo, me preparando para a pior parte. Eu, hoje em dia, já
não chorava mais ao falar nisso, mas me doía do mesmo jeito. Ele estava
concentrado, os olhos focados em mim.
— Eu tinha pensado em me matar. Ali, aos doze anos e meio, sem
conhecer nem metade da vida. E foi então que eu lembrei que já tinha visto
em algum lugar sobre pessoas que se cortavam pra fazer a dor passar, e
resolvi tentar. A sensação foi incrível desde a primeira vez. Me senti livre,
como se descontando em mim mesma a dor fosse passando, como se... não
sei explicar, mas me castigar era uma saída para tirar o sofrimento do meu
peito. E aos poucos isso foi sendo como o álcool ou outras drogas, deixando
de ser um alívio e se tornando um vício. Quando se faz muito isso, você
acaba se acostumando com a dor e ela acaba se tornando sua única
companheira. Foi aos treze que tentei me matar, pela primeira vez, em
setembro, quando as aulas voltaram e eu estava ainda mais sozinha. Mudei de
ideia na última hora, e essa cicatriz aqui — ergui um pouco a manga do
moletom, mostrando a cicatriz já meio desbotada no meu pulso esquerdo — é
tudo o que restou de lembrança daquele dia. A medicação que eu tomava na
época era muito forte, e eu bloqueei a memória daquele ano, então eu não
lembro de muita coisa. Mas, resumindo, é isso.
— Alice... tão jovem e já suportou tanto — ele sussurrou, erguendo
uma mão e segurando a minha. — Como alguém pode correr de você por
saber disso? Como alguém ousaria te excluir, sendo maravilhosa como é?
Não, minha querida, eu não vou a lugar nenhum. Se me permitir, ficarei por
perto até você enjoar de mim. — Ele sorriu, apertando de leve minha mão e
fazendo carinho nos meus dedos. — Você é uma guerreira.
— Ah, Hector... — Sorri, me inclinando e abraçando-o o mais forte que
consegui. Era tão bom poder finalmente dividir isso com alguém cara a cara
sem causar nojo na pessoa. Era bom não ser repulsiva, para variar um pouco.
— Ah, respondendo a sua pergunta inicial, meu gatilho é a exclusão, o
isolamento. Por isso cada dia que eu vou para o curso é um progresso
enorme, só comecei a estudar este ano letivo, depois de muita terapia. E
comecei a medicação nova há duas semanas, então, ainda estou esperando
fazer efeito.
— Eu vou te ajudar no que puder. Quero te ver bem, minha deusa. —
Ele usou meu novo apelido, me fazendo sorrir e beijar o rosto dele, o
abraçando mais forte. Senti meus olhos se encherem de lágrimas, e funguei
baixinho, beijando o rosto dele de novo.
— Obrigada — sussurrei, escondendo o rosto no pescoço dele. Senti
suas mãos nas minhas costas, fazendo carinho, enquanto ele beijava meus
cabelos.
— Não me agradeça, deusa. Estou fazendo o que é certo, o que você
merece que eu faça. Não vou desistir de você.
Eu ia dizer mais algo, mas não consegui encontrar palavras. Apenas o
abracei mais forte, subindo no colo dele e ficando por ali mesmo, me
sentindo segura.
— Adoro você — sussurrei, sentindo o sorriso dele quando beijou meus
cabelos e me apertou em seus braços.
Ficamos assim por um tempo, apenas abraçados, até minhas lágrimas
secarem e eu fechar os olhos, me aninhando no pescoço e no cheiro dele. Ele
era delicioso, e nesse momento era só meu.
Afastei-me um pouquinho e sorri, olhando para ele. Ele sorriu de volta,
tocando meu rosto com carinho.
— E então, o que quer fazer até a pizza chegar? Ainda temos pelo
menos meia hora livre.
— Meia hora, é? — Dei um sorrisinho de canto, vendo-o abrir um
sorrisão.
— No que está pensando, minha Afrodite?
— Nisso — sussurrei, me inclinando e beijando a boca dele. — E nisso.
— Desci meus lábios pelo rosto dele. — E nisso... — Beijei seu pescoço,
sentindo-o se arrepiar nos meus braços e me segurar mais perto, as mãos se
atrevendo a descer e segurar minha bunda. Arfei, surpresa. Ele deu um
sorrisinho, piscando um olho.
Quer brincar com fogo, Hector? Pois vamos ver quem se queima
primeiro.
Fiz como antes e comecei a rebolar de leve em cima dele, provocando,
instigando, levando-o à loucura, e consequentemente indo junto. As mãos
dele me apertavam de leve, ajudando meu movimento, e eu já podia sentir o
quão duro ele estava embaixo de mim. Se eu ainda tivesse a mesma libido de
antigamente e um pouco mais de confiança em mim mesma, já estaríamos
jogados na cama dele. Houve uma época em que meu maior objetivo era
perder minha virgindade, algo que claramente não aconteceu, porque
ninguém me quis. Hoje eu fico grata de não ter sido com qualquer um.
Na minha cabeça, começou a tocar aquelas músicas de putaria,
daquelas com ritmo lento que se encaixa perfeitamente no momento. Ouvi-o
gemer baixinho e sorri na boca dele, sentindo seus dentes no meu lábio
inferior. Ele sorriu, me soltando da mordida.
— Tirou o dia para me enlouquecer, hein?
— A culpa não é minha se você é delicioso. — Sorri, sentindo meu
rosto ficar cor-de-rosa, enquanto eu me remexia sobre ele. Tinha horas em
que eu ficava extremamente grata por vivermos no “século da putaria” como
alguns chamavam, por ter essa liberdade de estar aqui no segundo encontro e
não ser julgada por isso. Era bom não ter julgamentos, para variar um pouco.
Ele balançou a cabeça, e eu ri, beijando-o de novo. Ainda estávamos
nesse joguinho de provocar quando ouvimos a batida na porta.
— Chegou nossa pizza — ele murmurou, me beijando mais uma vez e
me tirando de cima dele, andando até lá. O mesmo rapaz do almoço trouxe a
pizza, e eu dei um aceno para ele. Era uma pizza enorme, metade queijo e
metade pepperoni. Sorri, animada. Eu amava pizza.
Levantei-me, indo até a cozinha e passando pelo balcão, indo lavar
minhas mãos na pia. Já me sentia confiante o bastante naquele apartamento
para andar sozinha por ele, e Hector não pareceu se incomodar.
— Pizza! — disse, animada, enquanto me sentava na bancada. Ele foi
lavar as mãos e veio se sentar do meu lado, me entregando um prato.
— Divirta-se. — Ele sorriu, me ajudando a cortar a pizza. Parecia
aquelas pizzas de comercial de TV, que você ergue a fatia e vê o queijo
escorrendo até chegar no prato. Coisa mais linda.
— Eu já falei que amo pizza? Porque eu amo, muito! — exclamei,
vendo minha linda fatia no prato.
— É mesmo? Nem dava para perceber.
Fiz uma careta para ele, pegando a pizza e mordendo. “Taquepariu”,
era a melhor pizza que eu já provei, e olha que eu já comi em quase todas as
pizzarias do Brooklyn. Ele sorriu ao ver minha expressão de puro prazer,
dando uma mordida no pedaço dele. Minha metade era de queijo, a dele era a
de pepperoni.
Comemos em silêncio, aproveitando a maravilhosa pizza, e depois ele
pegou duas latas de Pepsi na geladeira. Fiquei feliz por ele ter se lembrado de
que eu ontem comentei que adorava Pepsi.
— Já está ficando tarde, né?
— Quase oito horas. Já precisa ir?
— Não sei... eu não quero ir.
— Então não vá ainda. Fique mais uma hora, e juro que não vou mais
te impedir de sair. — Ele sorriu, e eu sorri de volta.
— Tudo bem, até às nove. Prometo que amanhã eu trago os remédios,
aí não vou precisar ficar obcecada com as horas.
— Problema resolvido, então. — Ele sorriu, se levantando e estendendo
a mão para mim.
— O que vamos fazer agora? Acho que já exaurimos todas as minhas
ideias.
— Tenho uma ideia — ele disse, me puxando até a varanda e passando
os braços à minha volta, ficando atrás de mim, com o queixo no meu ombro.
— Olhe em volta. Nova York inteira está embaixo de nós. — Ele apontou,
beijando minha orelha e me causando um pequeno arrepio.
A visão realmente era linda. Parecia um diamante reluzindo em
milhares de pequenas luzes brilhantes, cada prédio aceso à sua maneira,
lâmpadas amarelas e brancas se misturando. Era algo majestoso de se ver,
ainda mais acompanhada por ele, os braços à minha volta e os beijos suaves
no meu pescoço.
— New York at night... — cantarolei um trechinho da música do Old
Dominion. Era realmente uma visão maravilhosa.
— Você tem uma música para tudo? — ele perguntou e eu assenti.
— Para quase tudo. Passei muito tempo sozinha com as músicas, acabei
tendo uma playlist mental completa. — Sorri, lembrando de mais uma e
dando uma risadinha. — Tem uma que eu lembrei também, mas só vou falar
dela amanhã.
— Você é cruel, me deixando curioso.
— Sou mesmo. — Dei um sorrisinho, fechando os olhos e sentindo o
vento frio no meu rosto. Me virei nos braços dele, ficando de frente a ele e
me erguendo na ponta dos pés. — Mas nem sou tão cruel assim, senão eu não
te daria isso... e isso... — Dei beijinhos rápidos nele, gostando daquele
carinho todo que ele me deixava demonstrar.
Ele sorriu, me puxando contra si e me beijando de verdade, um beijo
longo e quente, com toda a cidade de Nova York de testemunha, as luzes da
cidade reluzindo por cima dos meus olhos fechados, como se estivéssemos
cercados de estrelas.
Quando ele se afastou, eu estava com as pernas bambas, me segurando
na camiseta dele para não cair. Ele sorriu, segurando meu rosto com uma
mão.
— Você é mais brilhante que todas as luzes juntas — ele sussurrou, me
puxando contra si e me abraçando, a barba raspando na minha testa e fazendo
cócegas de leve.
Continuamos ali, observando as luzes, até que eu comecei a bocejar de
novo. Ele suspirou, me puxando pela mão de volta para o apartamento.
— Hora de ir. — Suspirei, sem querer me desgrudar dele. Eu podia ser
meio grudenta às vezes, mas não tinha como mudar isso. Era parte de mim,
mesmo que eu tivesse medo de ele me rejeitar por isso, como Archie, meu
caso de uma semana e meia, fez.
— Eu te levo até o quarto. — Ele segurou minha mão, caminhando
comigo para fora do apartamento, pegando meu celular no caminho, indo do
elevador até a minha porta. Não encontramos ninguém no caminho. — Até
amanhã, minha deusa. Me procure assim que acordar, se quiser. Vou te
esperar.
— Olha que eu sou ansiosa, posso acabar acordando às cinco da manhã.
— Me ligue e eu acordo. — Ele sorriu, acariciando meu rosto. — Boa
noite, Afrodite.
— Boa noite. — Sorri, recebendo um último beijo, antes de entrar no
quarto. Suspirei sozinha, sorrindo de orelha a orelha.
Andei até o banheiro, tirei minhas lentes de contato e as guardei, tomei
um banho bem quente, coloquei meu pijama de ursinhos — eu era ridícula —
e me joguei na cama, finalmente me permitindo pensar exclusivamente nele.
Fazia muito, muito tempo que eu não me sentia assim. Desde Victor.
Sim, depois dele, eu tive um crush ou outro, como Archie, mas nada de mais,
nada que me fizesse sentir verdadeiras borboletas no estômago, corar feito
uma mocinha boba e ter vontade de cantar Enchanted e Today was a fairytale
da Taylor Swift. Eu realmente estava encantada, e hoje havia sido um conto
de fadas. Ele me dava vontade de usar um vestido amanhã, só para sentir as
mãos dele em contato com as minhas pernas.
Claro que eu sabia que não faria isso. Nem tinha trazido vestidos. Ele já
havia se acostumado com a visão dos meus braços, mas talvez fosse demais
as coxas, sem falar que os cortes das coxas estavam bem mais abertos que os
dos braços. Eu só cortava o braço quando não tinha mais espaço na perna,
então isso já dá para ter uma noção de quão horríveis as coisas estavam. Sim,
já haviam se fechado um pouco, era o terceiro ou quarto dia — não tinha
mais certeza sem cortes novos. Meu recorde era de um mês sem gatilhos,
porque passei o mês no sítio com minha avó paterna e éramos só ela e eu,
sem o resto do mundo.
Suspirei, encarando o teto. Eu estava completamente apaixonadinha por
ele, não havia como fugir disso. Eu tinha essa habilidade de me apaixonar
rápido, e ainda havia aquilo que eu li sobre as pessoas não precisarem de
mais que alguns segundos para se apaixonarem. Eu estava perdida! Tinha
horas que eu só queria ser Edward Cullen ou Sookie Stackhouse para poder
ler a mente dele e saber se ele sentia o mesmo.
Tolice a minha. Ele claramente gostava de mim, mas não estaria
apaixonado. Ele já era um homem formado, e homens adultos não se
apaixonam em dois dias, pois adultos de verdade não tem a capacidade
emocional de uma garotinha de quinze anos — como eu. Suspirei de novo,
sem saber o que mais fazer. Puxei as cobertas sobre mim, me deitando mais
confortavelmente, de barriga para baixo.
Ah, merda! Esqueci os remédios. Bufei, me levantando e acendendo um
abajur, indo pegar meu remédio da caixinha e tomando, voltando a me deitar
em seguida. Ri sozinha no escuro, balançando a cabeça. Às vezes eu era
muito esquecida.
Acabei pegando no sono, enquanto ainda tagarelava mentalmente sobre
Hector e eu, sobre como seríamos um casalzão maravilhoso e sobre como eu
tinha medo de que ele me visse por completo. Sim, ele já havia visto uma boa
parte e não tinha desistido ainda, mas vai saber, né?! Com a minha sorte, não
era demais esperar sempre o pior.
Só que, por algum motivo, Hector me fazia querer o melhor. E eu
estava gostando disso.
Eu estava louco por ela. Louco, encantado, surtado, e todos os outros
títulos que se pode dar para alguém que está se apaixonando. Sim, eu estava
me apaixonando tão rapidamente que chegava a doer, por aquela garota tão
complicada e com tantos problemas. Eu estava me apaixonando pelo jeito
dela, pelos sorrisos que ela dizia serem raros, pela risada e pelos olhos dela.
Eu não sabia que podia me apaixonar tão rápido assim, não até acontecer de
fato.
Essa noite eu a havia deixado no quarto e estava voltando para o meu,
pensando no quanto ela havia me ganhado assim, tão rápido. Sorri sozinho no
elevador, balançando a cabeça. Ela ia me deixar completamente louco se
fizesse amanhã o que fez hoje. Eu sabia que precisávamos ir com calma,
inclusive, havia lido uma vez sobre como a abstenção de sexo no começo de
um relacionamento o deixa mais forte, mas como diabos eu devia me
controlar com ela em cima de mim daquele jeito? Porra!
Eu não conseguia acreditar que ela não se achava desejável, que não
conseguia encarar o quão gostosa ela era. Sim, ela estava acima do peso que
o padrão de beleza ditava. Não, isso não era um problema de forma alguma,
muito pelo contrário. Ela tinha carne nos lugares certos, era gostosa de se
segurar, e tinha as curvas de um violão cheio. Ri sozinho quando pensei na
música “All about that bass”, que se encaixava tanto nela.
Só quando entrei no meu apartamento, que parei para realmente pensar
sobre o que ela me contou, não podia reagir de verdade na frente dela e deixar
que pensasse que eu estava assustado. Eu não iria fugir.
Pensar em tudo o que ela passou me dava vontade de abraçá-la o mais
forte possível e nunca mais soltar, até que todos os pedacinhos dela fossem
colados de volta. E eu tinha a sensação de que ela ainda não havia me
contado tudo, de que havia mais algo, só que como ela mesma disse, ela não
se lembrava de tudo daquele ano. Me doía vê-la assim, e quando chorou nos
meus braços eu pude sentir o coração dela partido. Não consigo nem
imaginar a dor que devia sentir, o sofrimento que devia ser.
Andei até Rudy, pegando-o no colo e indo me sentar na cama,
colocando-o no meu travesseiro.
— Precisamos fazer algo, Rudy. Qualquer coisa, mas precisamos ajudá-
la, precisamos vê-la bem — conversei com meu amiguinho de quatro patas,
fazendo carinho na cabeça dele.
Eu me perguntava quem fugiu dela, para ter tanto medo assim que eu
fosse sair correndo. Ela mencionou por alto algo sobre o último
relacionamento ter dado errado por isso, e eu só tinha vontade de socar o
canalha que a magoou assim. Ela merecia mais, merecia o mundo.
Às vezes, eu era tão sensível quanto Brian, até mais, e esse era um
desses momentos. Eu estava preocupado com ela, de um jeito que nunca me
preocupei com ninguém, além dos meus irmãos. Eu queria vê-la bem, queria
ver os braços dela sarados e sem cortes novos, queria vê-la sorrir diariamente
e não em momentos raros. Queria que ela se visse como eu a via, como uma
deusa, pois é isso que ela era. Uma divindade torturada pela vida, que
merecia muito mais.
Levantei-me, indo tomar um banho rápido para ir dormir, pensamentos
dela rodando na minha cabeça. Estava realmente me apaixonando, tão rápido
quanto um piscar de olhos. Esses dois dias pareciam como duas eternidades
na minha memória, era difícil acreditar que havia se passado tão pouco tempo
desde que ela surgiu na minha porta, sexta-feira à noite. Desliguei o chuveiro
e me vesti com uma calça de moletom, indo me deitar.
Puxei as cobertas sobre o corpo, vendo Rudy deitado no travesseiro ao
lado do meu. Sorri, fechando os olhos, ainda pensando nela, e adormeci.

Quando acordei, já eram nove horas da manhã. Rudy não estava mais
na cama, e não havia nenhuma chamada perdida dela no meu celular.
Levantei, caminhando com preguiça até o banheiro e tomando um banho
gelado para ver se acordava de vez. Quase morri com a água fria, mas
funcionou, fiquei bem desperto.
Me vesti e fui até a cozinha, fazendo uma caneca enorme de café. Dei
um sorriso para a caneca, que havia ganhado de June e dizia “melhor chefe
do mundo”. Me joguei no sofá, ligando a TV e colocando a mesma série que
assistimos ontem, Grey’s Anatomy. Até que não era ruim, os dramas médicos
eram bem interessantes, sem falar dos dramas pessoais da Meredith com o
McDreamy. Dava vontade de entrar na faculdade de Medicina e me formar
cirurgião só para ver se tudo aquilo era real.
Ri desse pensamento, enquanto tomava meu café. Vi de rabo de olho
Rudy no cantinho da sala, roendo um ossinho de borracha, e decidi não o
incomodar, por enquanto. Pensei no quanto ele já havia se apegado à Alice e
sorri, balançando a cabeça. Cachorrinho danado, fugia dos marmanjos, mas
não podia ver a moça bonita que já corria para ela. Bem, errado ele não
estava.
Continuei assistindo a série, sem ver a hora passar. Quando dei por
mim, já eram quase onze horas e ela não havia aparecido. Comecei a me
preocupar. E se eu tivesse ido rápido demais ontem, e ela não quisesse mais
me ver? Já estava pensando em ir até o quarto dela, checar se ainda estava ali,
quando ouvi a batida na porta. Sorri, passando uma mão no cabelo e me
levantando, indo até lá abrir.
— Bom dia. — Ela deu um sorrisinho, segurando uma caixinha numa
mão e o celular na outra. — Desculpa a demora. Eu dormi demais, o que, se
pensar bem, é algo bom, porque aí não vou ter sono o dia inteiro e...
— Entre, Alice — a interrompi. Quando ela passou por mim, lhe roubei
um beijo rápido. Ela sorriu, caminhando pelo apartamento. — O que é isso na
sua mão?
— Meu porta-comprimidos. Você me disse para trazer hoje, pra não
precisar ficar preocupada com a hora...
— Ah sim, verdade. Pode deixá-los em algum lugar que não vá
esquecer, mi casa es su casa. — Dei uma risadinha, vendo-a revirar os olhos
e ir deixar os comprimidos na bancada da cozinha. — Eu já estava ficando
preocupado com a demora. Achei que eu é quem tinha te assustado, depois de
ontem.
— Precisa de bem mais do que um pau duro para me assustar — ela
falou, sem pensar, arregalando os olhos e ficando cor-de-rosa e cobrindo a
boca com uma mão, enquanto eu dava uma risada, balançando a cabeça.
— Bom saber, pois foi só te ver que ele acordou. — Sorri de canto,
observando os tons de rosa que passavam pelo rosto dela com a provocação.
— Você é péssimo, sabia? — Ela riu, se aproximando de mim e
passando os braços em volta do meu pescoço.
— Olha só quem fala. — Sorri, envolvendo a cintura dela e me
inclinando, a beijando.
Beijá-la era uma experiência deliciosa da qual eu nunca enjoaria, cada
beijo tinha o mesmo impacto que o primeiro. Ela não era o tipo de mulher
com quem você se acostuma a ter, ela era um presente que eu me sentia
honrado em receber na minha boca. Mordisquei os lábios dela, chupei sua
língua e apertei sua cintura, a beijando com força, demonstrando o quanto eu
a queria. Ela precisava saber o quanto era desejada, acreditar em si mesma.
Quando nos soltamos, ela estava ofegante e corada, e eu estava com um
sorriso sacana no rosto.
— Agora sim, bom dia. — Pisquei um olho, tocando o rosto dela.
— Isso é que eu chamo de jeito de começar um dia. — Ela riu
baixinho, ficando na ponta dos pés e me dando mais um selinho.
Eu sorri, a observando. Ela hoje estava usando uma calça de tecido, e
um casaco de moletom, com uma blusa de alguma série por baixo. Linda.
Rudy reconheceu a voz dela e veio abanando o rabinho, latindo para
ela. Alice sorriu, pegando-o no colo e enchendo ele de beijos, enquanto eu
apenas sorria, observando os dois. Eu precisaria me cuidar para aquele
ladrãozinho de quatro patas não me roubar a garota também, já bastava o
travesseiro.
— Então, o que quer fazer hoje?
— Não sei. Eu avisei ontem que todas as minhas ideias tinham
acabado, não avisei? — Ela riu, indo se sentar no sofá, com Rudy nos braços.
— Eu tenho algumas ideias, mas não sei se você gostaria delas. São um
pouco... indecentes, para essa hora da manhã — provoquei, adorava vê-la
corar por minha causa. Ela sorriu, o rosto vermelho, balançando a cabeça.
— Cuidado, eu posso acabar aceitando uma dessas ideias — ela
provocou de volta, e meu amiguinho lá embaixo já reagiu praticamente num
pulo. Essa garota ia me enlouquecer, eu perto dela parecia um adolescente
que nunca havia estado com uma mulher antes.
— Não me provoque, deusa — avisei, indo me sentar ao seu lado e
passando um braço em volta dela. Estávamos praticamente morando no meu
sofá esses dias.
— Se você pode me provocar, eu também posso. — Ela sorriu,
colocando o cachorro do lado dela no sofá e tirando as sapatilhas, colocando
os pés para cima do sofá e se deitando no meu peito. — Hoje eu não vou ficar
dormindo, prometo.
— Não me incomodo se dormir. Você fica linda dormindo. — Sorri,
fazendo carinho no braço dela.
— Pois eu me incomodo. Boas companhias não ficam dormindo o
tempo todo. — Ela fez uma espécie de bico e eu ri, beijando os seus cabelos.
Pelo amor, eu não conseguia me manter longe dela. — Vou ficar acordada o
dia inteiro hoje, e amanhã dormir até o meio-dia. — Ela deu uma risadinha.
— Mentira, não posso. Tenho aula amanhã, e preciso me preparar. Vão
começar as audições para a peça do final do semestre, uma peça original
chamada Espelhos. Para audição nós precisamos recitar uma cena de nossa
preferência, do personagem que vamos tentar.
— E quem você vai tentar?
— A principal, Bianca.
— Vai ter que me explicar sobre o que é a peça, sabe disso, né?
— Imaginei. — Ela sorriu, se afastando um pouco e se sentando de
frente para mim, as pernas cruzadas sobre o sofá. — Então, Espelhos é uma
peça sobre um casal, Bianca e Jonathan, que passam por encontros e
desencontros durante um período de seis anos. É parecida com os livros da
Leisa Rayven, Meu Romeu e Minha Julieta. Eu ajudei um pouco com o
roteiro, já que eu leio bastante, me deram essa chance. Foi totalmente escrita
pela nossa turma, e as audições vão ser abertas para todo o Lucille.
Resumindo a história, é isso.
— Quer ajuda para ensaiar? Eu sou um péssimo ator, mas adoraria
fazer as cenas de beijo...
— Engraçadinho. — Ela sorriu, se levantando. — Posso te mostrar
minha cena?
— Claro — concordei, e ela se levantou, indo até o espaço vazio atrás
do sofá. Ela respirou fundo uma, duas vezes, e eu pude ver a mudança
enquanto ela incorporava a personagem. Ela ergueu a cabeça, dando dois
passos à frente, a expressão mudando de tranquila para... desesperada?
— Jonathan, por favor, eu já te pedi mil vezes, não faça isso comigo,
conosco. — Ela fungou, a voz à beira de chorar. Eu já estava impressionado.
— Não destrua tudo o que passamos por causa de um único errinho. Eu ainda
sou eu, nós ainda podemos ser nós. — Ela fez uma pausa, como que
esperando uma fala dele. Alguns segundos depois, ela voltou: — Sou, sim!
Sou a mesma pessoa por quem você se apaixonou, anos atrás, quando éramos
apenas adolescentes. E sou a mesma que você abandonou para correr atrás do
sonho de ser famoso, me deixando sem escolha a não ser abortar nosso bebê.
— Ela fez mais uma pausa, os olhos marejados. Eu estava mais
impressionado ainda. — Não, eu não poderia ter te contado. Não iria dar uma
notícia assim ao telefone, e você disse que não era para te procurar. Fiz a
única coisa que podia ser feita e decidi sozinha, e se você realmente me
amou, vai entender.
Ela respirou fundo mais uma vez, secando os olhos e me dando um
sorriso. Eu estava boquiaberto. Me levantei, dando a volta no sofá e puxando-
a para os meus braços.
— Você, minha cara Alice, é incrível! — declarei, roubando um beijo.
— Me conte mais sobre essa peça, agora fiquei curioso. Ela abortou um
bebê? Ele a largou para ser famoso?
— Não vou dar mais spoilers — ela disse, passando os braços à minha
volta. — Me aguente até junho, e poderá assistir, com ingressos vip, na
primeira fila — ela brincou, mas eu levei bem a sério o significado por trás
das palavras. Era um desafio, ela não acreditava que o que tínhamos fosse
durar.
— Quer apostar quanto, que eu aguento até lá, numa boa?
— Os quinze dólares que eu tinha já apostei ontem no seu irmão e a
melhor amiga dele. — Ela riu, os dedos brincando na parte detrás do meu
cabelo.
— Vamos apostar beijos então. Se eu vencer, você me beija, se você
vencer, eu te beijo. — Dei um meio sorriso, vendo-a rir.
— Feito — ela concordou, ficando na ponta dos pés e me dando um
selinho.
— Tem muitas cenas de beijo nessa peça? — Ergui uma sobrancelha.
— Várias. E uma de sexo, que ainda estamos pensando em como fazer.
Provavelmente ficará algo como Rocky Horror nos teatros, a cama levantada
e os movimentos mimicando o ato.
— Talvez esse seja um bom momento para avisar que eu sou ciumento.
— Dei um meio sorriso e ela riu.
— Que fofinho. — Ela sorriu, segurando meu rosto nas mãos. — Mas
não precisa se preocupar. Nenhuma mulher em sã consciência te trocaria.
Milionário, fofo, resgata cachorrinhos, beija bem, é lindo, tem uma
personalidade incrível... preciso continuar ou já inflei seu ego o suficiente?
— Ela riu, acariciando meu rosto, os dedos raspando na barba.
— Eu não me oporia se quisesse continuar sabe... — Ri, me inclinando
e a beijando outra vez. — O que diabos há em você, que eu não consigo me
conter quando está por perto?
— Can’t keep my hands to myself… — ela cantarolou, me fazendo rir e
erguer uma sobrancelha.
— Música para tudo — comentei, passando as mãos pelos meus braços.
— As vantagens de passar muito tempo sozinha com meus fones de
ouvido. — Ela sorriu, se segurando em mim e ficando na ponta dos pés de
novo, me dando outro beijo. — E se servir de consolo, eu também não
consigo me conter.
— Bom saber. — Sorri, me inclinando e a beijando de verdade.
Um beijo forte, gostoso, sua língua colada na minha, com gosto de café
e de Alice. Ela era maravilhosa, e eu ainda ia correr doido. É claro que meu
pau foi ficando duro, enquanto eu descia as mãos pela cintura dela e a puxava
para perto, colando-a em mim. Não me segurei e puxei-a comigo, a erguendo
e a colocando sentada no encosto do sofá, me pressionando contra ela. Ela
gemeu deliciosamente, dando uma reboladinha na minha direção.
Fiquei me lembrando de que precisava ir com calma, que era cedo
demais para ir para cama com ela, mas tudo o que eu queria naquele
momento era arrancar as roupas dela e beijar cada centímetro do seu corpo.
Só de imaginar que sabor ela teria entre as pernas, me fez gemer, mordendo
seu lábio inferior.
— Hector... — ela sussurrou meu nome, as mãos agarradas nos meus
braços. Apertei mais a sua bunda, puxando-a contra mim, simulando o
movimento de investidas.
— Eu sei, eu sei — sussurrei, beijando o seu pescoço. — Não vamos ir
mais longe do que já fomos.
— Eu quero, mas...
— Não se explique. — Beijei o seu rosto, parando os movimentos. —
Eu entendo.
— Entende?
— Quanto mais demorarmos, melhor vai ser quando acontecer de fato.
— Sorri, a soltando e tocando seu rosto. — Por você, eu esperaria séculos.
— Mesmo ficando com as bolas azuis? — Ela deu uma risadinha, o
rosto cor-de-rosa, e eu ri, assentindo.
— Mesmo que fiquem roxas. Só, pelo amor de tudo que for sagrado,
tente não me seduzir. — Ri, dando um selinho nela e me afastando, puxando
a camisa sobre a frente da minha calça. Ela seguiu meu movimento com o
olhar, dando uma risadinha de novo.
— Banho frio de novo?
— Não, eu aguento. — Fiz uma careta, vendo-a rir e pular do sofá,
ficando de pé.
— Desculpe por isso — ela sussurrou, segurando meu rosto e me dando
um beijo rápido. — Prometo que vou ser menos sedutora daqui para frente.
— Ótimo. — Sorri, dando a volta no sofá e me deixando cair sentado,
com as pernas meio abertas. Inferno, doía mesmo.
Ela se sentou do meu lado, colocando as pernas de lado e deitando no
meu ombro, segurando minha mão.
— Posso te confessar uma coisa?
— Não precisa nem perguntar.
— Então... eu gosto de “te seduzir” — ela fez aspas no ar —, porque
isso me faz sentir desejável, e consequentemente me faz sentir desejo. E com
os remédios e tudo mais, eu normalmente fico praticamente sem libido
nenhuma. — A voz dela foi diminuindo enquanto falava, e o rosto ficando
cor-de-rosa. Toquei seu queixo, a fazendo erguer o olhar.
— Primeiro de tudo, pare de se envergonhar. Como diria um grande
pensador contemporâneo, o pai do Jim, em American Pie — ela riu —, isso é
algo completamente natural.
— Então além de todas as qualidades que eu citei antes, você também
curte filmes de besteirol?
— Está brincando? Eu adoro um bom filme ruim — contei, vendo-a
balançar a cabeça. — E continuando, fico mais que feliz em ser “usado” para
ativar sua libido. E sempre que duvidar se é desejável, basta olhar para as
minhas calças e vai ter a resposta. — Ri, vendo-a corar de novo. — E eu
adoro te ver vermelha.
— Ah, então está fazendo de propósito?
— Claro. — Ela fechou a cara, cruzando os braços.
— Você é cruel.
— Eu nunca disse que não era. — Beijei seus cabelos. — Agora, que
tal pedirmos o almoço? Já deve ser quase meio-dia.
— Ótima ideia — ela concordou, se afastando do meu ombro e me
deixando levantar para ir até o telefone. — Hoje você escolhe. Já conhece
meus gostos, me surpreenda.
— Como quiser — assenti, indo até a minha cozinha e pegando o
telefone, discando o número da cozinha lá debaixo. — Geralt? Sou eu. Sim,
almoço para dois de novo. — Ouvi a risada do outro lado. — Faça sua
melhor massa com molho de queijo e camarões, surpreenda a minha dama.
— Três dias seguidos, hein? É algo sério?
— Depois eu te conto. — Ri, desligando. Voltei a me sentar ao lado
dela, colocando os pés por cima da mesinha e puxando-a para deitar no meu
peito. — Pedi a Geralt que nos surpreendesse. Quero só ver o que vai sair.
— Já sei que vai ser algo ótimo — ela disse, se esticando para pegar o
controle da tv na mesinha. — Hoje vamos assistir a La Casa de Papel. Vou te
viciar numa porção absurda de séries e filmes que eu gosto.
— Essa eu já ouvi falar, não é em espanhol?
— Tem legenda. — Ela deu de ombros.
— Sabe que se eu me perder, você é quem vai ter que me explicar, né?
— Sei disso. — Ela sorriu, se aconchegando nos meus braços e dando
play na série.
Começou com a garota de cabelo curto dizendo que se chamava
Tóquio. Até que a premissa não era ruim, se ignorarmos o fato de o espanhol
soar mais como alemão nos meus ouvidos, de tão incompreensível que era.
Eu sempre achei que sabia o básico, mas estava começando a desconfiar de
que não sabia porra nenhuma. Passei a maior parte do tempo com os olhos
flutuando da legenda para a série, desacostumado a ver programas
legendados. Até que não era ruim.
Estávamos na metade do segundo episódio, os atracadores já dentro da
casa da moeda, quando o nosso almoço chegou. Deixei-a no sofá e fui abrir a
porta.
— Senhor Hector, boa tarde. — Janice sorriu, entrando no apartamento
com o carrinho.
— Pode deixar os pratos na bancada — pedi e ela obedeceu. Alice, me
surpreendendo por ser mais sociável, deu tchauzinho para ela. Ela se levantou
e veio até mim, se sentando no banquinho que já pertencia a ela, após esses
dias. Olhei para os pratos. — Ravioli ao molho de queijo com camarões
cozidos.
— Delícia. — Ela sorriu, pegando o prato e os talheres, lambendo os
lábios. Céus, até aquilo era extremamente sedutor vindo dela.
Começamos a comer em silêncio, e eu me lembrei de ela ter comentado
algo sobre não saber puxar assunto. Resolvi começar com perguntas óbvias
que deviam ser feitas nos primeiros encontros.
— Então, você mencionou em algum momento que gosta de ler. Qual
seu livro preferido?
— A trilogia Starcrossed, da Leisa Rayven, e os livros de Corte de
Espinhos e Rosas, da Sarah J. Maas.
— Já ouvi falar, mas nunca li nenhum desses. Meu favorito é Harry
Potter. Clichê, eu sei, mas que fique claro que não apoio mais a autora e os
comentários ridículos dela — esclareci, mordendo mais um camarão. Geralt
havia se superado.
— Ótimo. E leia o segundo que eu falei, é maravilhoso. Feéricos,
mundos além de muralhas, um grão-senhor extremamente perfeito e machos
com asas... você daria um bom Grão-Senhor, agora que pensei nisso.
Provavelmente da corte Crepuscular, você me lembra a calma do pôr do sol.
— Isso é uma coisa boa?
— Uma coisa ótima. — Ela sorriu em resposta, acabando de comer e
afastando um pouco o prato. — Sabe, se eu tivesse coragem, te pediria para
me levar até a cozinha para agradecer pessoalmente ao seu chefe. A comida
dele é suprema.
— Geralt vai gostar de saber disso. Ele se orgulha muito do que faz —
disse, deixando meu prato de lado também e estendendo uma mão para ela
quando me levantei. — Quer voltar para o nosso sofá?
— Nosso? — Ela ergueu uma sobrancelha, parecendo surpresa, e
segurou minha mão, caminhando comigo. Me sentei e puxei ela para o meu
colo, percebendo como ela realmente se ajustava bem ali.
— Sim. Meu e seu... e de Rudy, mas ele está no quarto agora. — Ri,
divertido, vendo-a balançar a cabeça enquanto um sorriso ameaçava aparecer
nos lábios. Envolvi sua cintura, fazendo carinho devagar nela.
— Eu... se importa se eu tirar o casaco? Vim com ele hoje por isso,
mais fácil de tirar do que uma camisa de moletom...
— Não precisa me pedir permissão, principalmente para tirar a roupa.
— Fiz graça, vendo-a dar uma risadinha e tirar o casaco. Com a blusinha que
ela usava por baixo, uma estampa de FRIENDS na frente, eu podia ter uma
noção melhor que só tateando seu corpo, e putamerda, a garota era gostosa.
Mais ainda do que eu havia pensado.
— O que foi? — ela perguntou, diante do meu olhar. Voltei a segurar
sua cintura, puxando-a mais sobre mim.
— Você. Você é mais gostosa do que eu imaginei com os moletons...
não me entenda mal, mas... caralho. — Dei uma risada baixa, ouvindo o
risinho dela enquanto mordia o lábio inferior, e vi o olhar dela descer para os
braços. Só então os olhei, vendo o esquerdo bem mais marcado que o direito,
os cortes cor-de-rosa em cicatrizes que mal começavam a se formar. Segurei
o pulso dela, com carinho, e beijei algumas das marcas.
— Você... você não tem nojo delas?
— De jeito nenhum. Eu jamais teria nojo de você, e elas são parte de
você. Uma parte triste, que me faz querer te guardar em algum lugar a salvo
do mundo lá fora, ainda assim... — Ergui meus olhos para os dela. — Você é
incrivelmente forte, Alice. E eu adoro você por isso.
Ela ficou em silêncio, apenas me olhando, como se tentasse decidir se
era verdade ou não o que eu dizia. Acho que acabou aceitando, pois no
instante seguinte ela avançou na minha boca, me beijando com força,
puxando os fios do meu cabelo que estavam na parte de trás, me trazendo
mais para si, e eu mal tive tempo de reagir antes de seus quadris começarem a
se mover, igual a ontem, só que mais determinada, seus gemidos baixinhos
me levando à beira da loucura enquanto ela tomava o controle da situação e
de mim.
O beijo se estendeu até estarmos sem fôlego, e então ela começou a
descer beijinhos pelo meu pescoço, meu amigo lá embaixo totalmente
desperto, duro e latejando por ela. Minhas mãos desceram até sua bunda, a
puxando mais contra mim, ouvindo-a arfar baixinho enquanto a boca voltava
para a minha. Alice era uma caixinha de surpresas, e me deixava louco tê-la
me beijando assim, totalmente entregue. Alguma parte da minha mente estava
ciente de que não passaria disso, mas a parte principal só queria aproveitar
qualquer atenção que recebesse.
— Alice... —murmurei entre um beijo e outro, sentindo-a ofegante em
cima de mim. Ela se afastou um pouco, parando de se mover e me olhado nos
olhos.
— Exagerei? — Ela deu um sorrisinho envergonhado, me fazendo dar
uma risada, que saiu rouca, e morder seu lábio inferior, o puxando de leve.
— Depende... se seu plano era me seduzir até a loucura e me deixar
morto de desejo, eu diria que fez o trabalho perfeito. — Dei um sorrisinho de
canto, daqueles pervertidos que eu só dava em momentos assim, e beijei-a de
novo. — Até onde pretende ir hoje?
— Não muito além disso... — Ela pareceu pensar em algo, abrindo a
boca e desistindo de falar.
— Muito bem, vou aproveitar o que tenho, então. Mas não reclame se
eu tiver que sumir para um banho frio de novo — brinquei, querendo quebrar
a tensão que se formou e vendo-a sorrir de volta para mim, se segurando de
novo no meu cabelo.
— Posso continuar te beijando? Eu gosto bastante.
— Nunca precisará pedir isso. — Sorri, e os lábios dela num instante
voltaram aos meus, e eu estava gostando da confiança que ela estava criando
em mim.
Correspondi ao beijo com força, com paixão, agarrando-a e a puxando
quando começou a rebolar de novo. Queria enfiar minhas mãos dentro de sua
blusa e a tocar em todos os lugares, mas aquela pequena parte de mim que
continuava raciocinando sabia que ainda não era o momento, então só a
toquei por cima da blusa.
Minha mão subiu, igual ao outro dia e tocando seu seio por cima da
blusa, sendo gratamente surpreendido ao sentir um mamilo rígido e perceber
que não havia sutiã algum por baixo. Ah, se ela ao menos confiasse o
bastante em si mesma para tirar a blusa, eu a levaria ao paraíso quantas vezes
me pedisse. Só de pensar em ouvi-la gemer meu nome eu endureci ainda
mais, minha mão a acariciando através do tecido, ouvindo os gemidinhos
manhosos que saíam dela, me puxando mais para perto.
Senti suas mãos descerem pela minha camisa e se enfiarem dentro dela,
subindo por meu peito de novo, seus dedos macios me fazendo suspirar com
a imaginação deles em outros lugares. A garota tinha um poder sobre mim
que nem Elisa teve, um poder perigoso que me deixava inteiramente
submisso aos caprichos dela. Ela deu um gemidinho mais alto, e se afastou
um pouco, a mão segurando a base da minha camisa.
— Eu... posso tirar? — Ela ficou vermelha como um tomate, e eu
apenas dei um riso rouco, beijando seu pescoço.
— Pode fazer o que quiser comigo — disse, me afastando para que ela
puxasse minha camisa. A forma como ela me olhou me fez imaginar mil
coisas indecentes, enquanto ela, devagar, começava a beijar meu pescoço de
novo, ainda rebolando devagarinho.
— Eu... queria ter coragem de tirar minha blusa também. Queria ter
coragem de ir até o fim... Deus sabe o quanto eu quero você — ela
murmurou, entre um beijo e outro.
— Na hora certa, minha deusa. Fico mais que satisfeito só com o que
temos agora, em esperar você estar pronta para se entregar de fato. Não
importa quantos banhos frios eu precise tomar até lá. — Deixei minha cabeça
pender sobre o encosto do sofá. Os beijos dela continuaram alcançando a
parte superior do meu peitoral, os lábios macios deixando uma pequena trilha
por onde passavam.
— Sabe, eu não me importaria de... te satisfazer. — Eu senti a voz dela
tremer um pouco e a parei naquele exato instante, erguendo seu rosto para o
meu com carinho.
— Ei... não precisa. Não quero que faça nada que não esteja
confortável, e não me incomodo de verdade em tomar trinta mil banhos frios,
enquanto estivermos juntos. Não me incomodo, inferno, se tiver que me
aliviar com as próprias mãos. Mas só quero que me toque até onde estiver
cem por cento confortável... eu não vou te pressionar, nunca. — Me inclinei e
beijei os lábios dela, devagar. — Entendeu?
— Uhum — ela assentiu, envergonhada. — Eu só... pensei que pudesse
querer.
— Não existem palavras para expressar o quanto eu queria sua boca e
seus dedos em mim, mas eu só vou aceitar quando você quiser também. Pelo
seu olhar, sei que deve querer um pouco agora, mas sua voz me avisou que
não estava pronta, e eu nunca te forçaria a nada. Você é preciosa, Alice.
— E você é um sonho — ela murmurou, me abraçando apertado de
novo, escondendo o rosto no meu pescoço e inspirando, dando um suspiro
baixinho no final. — Gosto do seu cheiro.
— E eu gosto do seu — murmurei, o nariz enfiado em seus cachos,
sentindo o aroma de mel e lavanda, grato por ela ter reagido bem e entendido
o que eu disse. Estava na cara que eu a desejava, e não a deixaria pensar o
contrário, mas também não a usaria.
Passamos parte da tarde ali, trocando carícias distraídas e beijos
calorosos, dando a ela apenas o que estava pronta e nada mais. As mãos dela
às vezes se aventuravam mais para baixo pelo meu abdômen, mas sempre
subiam de volta, e eu não me incomodava. Quando deu o meio da tarde, e já
estávamos um pouco cansados e bem ofegantes, ela me deu um último beijo
desejoso e deixou que eu fosse para o tão temido banho frio.
Se eu tive que me aliviar na minha própria mão? Claro que sim, quem
não teria depois de passar horas se esfregando com a mulher mais gostosa
desse mundo?!
Quando voltei para a sala, ela estava recostada no sofá, as pernas sobre
a mesa, mexendo no celular. Passamos o resto da tarde assistindo a tv e
conversando.
Era final da tarde quando cansamos de ver alguns episódios de Grey’s
Anatomy, e ela realmente cumpriu a palavra de que não cochilaria. Ficou
acordada o tempo todo, comentando os episódios comigo, e estávamos no
primeiro da segunda temporada. Parece até que maratonamos feito loucos,
mas a primeira é bem curtinha.
Ela se levantou, estava deitada no meu colo até agora, e se esticou toda
no sofá, parecendo um gato quando se espreguiça. Sorri, achando-a
extremamente linda. Ela me olhou com uma sobrancelha erguida, e me
inclinei para um selinho rápido.
— Está com fome? Posso já pedir o nosso jantar, se quiser.
— Adoraria. — Ela se virou para mim, voltando a deitar a cabeça no
sofá. — Peça algo sofisticado hoje, digno do chef Michelin que temos
disponível. Sei lá, coquetel de camarão, lagosta... o que pessoas ricas
comem?
— Olha, normalmente eu como vegetais cozidos e carne, com purê de
batata. Sinto desapontar, nada de lagosta ou coquetel de camarão. E nem
pergunte das comidas em porções minúsculas. — Ri, vendo-a fazer um bico,
como se estivesse um pouco emburrada. Dei outro selinho nela, que começou
a sorrir.
— Tudo bem, jantar normal então.
— Posso pedir para o purê ser um aligot, já deixa mais chique. Que tal?
— Ela assentiu e eu sorri, roubando um terceiro selinho antes de me levantar
e ir avisar a Geralt do jantar, meu prato normal de todo dia.
— Me deixe adivinhar, para dois de novo? — Eu podia vê-lo rindo, a
cara cor-de-rosa pela proximidade com os fogões quentes. — Está ficando
sério, já avisou a sua mãe para preparar o casamento?
— Vamos deixar dona Carmen de fora disso, ok? — Ri, desligando
quando ele avisou que em quarenta minutos mandaria o jantar. Voltei para
junto de Alice, que me observava.
— Você sempre sorri quando fala com o chef.
— Conheço-o há anos. Quando eu era pequeno, ele era um cozinheiro
iniciante, de uns vinte anos, que substituiu o cozinheiro antigo lá de casa.
Cresci com a comida dele, é quase um segundo pai para mim, eu adorava
acordar cedo e observar enquanto ele e Martha faziam o pão fresco para o
café da manhã. Martha era uma senhora, já na época, hoje em dia mora numa
casa de repouso com tudo do bom e do melhor, e a sobrinha dela é assistente
de Phillip, na gravadora.
— Resumindo, se mantiveram na família. — Ela sorriu de leve, e eu
assenti.
— Sim, basicamente.
— Me conta mais da sua infância. Como é crescer tendo de tudo? Eu
sei que eu falo muito desse lado seu, e não me entenda mal, mas a realidade
diferente é fascinante. — Ela fez um jeitinho tímido, subindo no meu colo e
começando a fazer carinho na minha barba.
— Bem, minha infância... eu sou o segundo mais velho dos cinco, deve
saber disso, né? No começo éramos só eu e Roman, e por isso eu sou
eternamente mais próximo a ele. Somos mais parecidos também. Bem, nós e
Phillip, os três obcecados por trabalho, mas Phill tem mais o lado playboy da
coisa. Eu e Roman somos mais sérios, mas quando crianças éramos pestes.
Ele corria por todo lado, enquanto eu ficava infernizando todo mundo com
perguntas e mais perguntas.
— Qual era sua brincadeira favorita?
— Eu gostava de me fingir de pirata. Eu e Roman éramos os piratas, e
quando Brian e Phill cresceram, passaram a ser os oficiais da coroa que
tinham que nos impedir de roubar as joias da rainha, ou seja, um dos colares
de nossa mãe. Quando está zangada, ela ainda gosta de esfregar na nossa cara
que perdeu um diamante por nossa culpa. — Dei de ombros, vendo-a
balançar a cabeça diante da banalidade com a qual eu falava de diamantes. —
E você, como era a pequena Alice?
— Ela era... feliz. — Ela deu um sorriso triste, deitando o rosto no meu
ombro. — Quando pequena, eu era bem alegre e adorava inventar histórias e
interpretar papéis. Tive uma amiguinha que entrava nessas minhas
maluquices. Eu inventava histórias onde éramos fadas elementais lutando
contra um mal superior, quando a mãe dela enchia a piscininha do quintal
virávamos irmãs sereias, que nadavam por dutos de ventilação subaquáticos,
ou então brincávamos de casinha ou de Barbie.
— Criativa. Já pensou em transformar uma dessas histórias num
roteiro? — Passei minhas mãos por sua cintura, fazendo carinho, traçando
pequenos círculos e formas com os dedos.
— Quem iria querer ver uma peça ou filme sobre fadas, criado por uma
desconhecida? Não, são histórias que eu guardo para mim. Memórias de uma
amiga que depois se afastou.
— Se importa de me dizer o que aconteceu?
— Tivemos uma discussão, daquelas bem grandes, e a mãe dela a
proibiu de me ver. Eu tinha doze anos, na época, foi um pouco antes de as
coisas começarem a dar drasticamente errado na minha vida. Talvez tenha
sido o pontapé inicial. — Ela suspirou, fechando os olhos e se aninhando
mais no meu pescoço, como se buscasse segurança no meu abraço. Eu já
tinha notado que Alice em alguns momentos era bastante carente, alguns
chamariam de grudenta, mas eu não me incomodava com isso. Dado o
histórico dela, só o fato de ela confiar em mim o bastante para se mostrar
carente, já era uma vitória.
— Uma pena. A mãe dela foi uma escrota, se me permite dizer. Vocês
eventualmente resolveriam a briguinha que tiveram, e voltariam a ser amigas
por conta própria. Ela não tinha necessidade de interferir... nunca procurou de
novo essa amiga?
— Voltamos a nos falar uns três anos depois, mas já não era a mesma
coisa, então apenas me afastei. Aconteceu algo de errado com a maioria das
amigas que eu tenho pessoalmente, só as virtuais se mantiveram durante os
anos, e tenho uma ou duas colegas na faculdade. Ainda não tive coragem de
conversar com muita gente lá.
— Entendi, pois saiba que agora tem mais que um amigo pessoalmente,
e provavelmente vai ganhar outros quatro amigos, assim que conhecer meus
irmãos. Principalmente Brian, diz ele que artistas sempre se entendem bem.
— Sorri, erguendo o rosto dela para olhar para mim, fazendo carinho em seu
queixo e a beijando devagar.
— Já está planejando me apresentar para a família? — Ela mordeu meu
lábio inferior, enquanto se afastava um pouco, um sorriso ameaçando
aparecer.
— Talvez esteja. Preparada para ser apresentada a dois irresponsáveis,
um playboy e um viciado em trabalho que está sempre sério? Além, é claro,
do velho aposentado e da esposa dos diamantes.
— Jeito engraçado de definir os Vanslow. — Ela riu baixinho, me
dando alguns selinhos. — E eu adoraria conhecer sua família... você
realmente não acredita em “rápido demais”, não é?
— Existe o tempo certo de cada um. O que é rápido para uns, para
outros é uma eternidade. Acho que em tudo na vida, principalmente em
relacionamentos, o que mais importa é a intensidade. E isso nós temos de
sobra. — Deslizei meu polegar por sua bochecha, fazendo carinho
suavemente.
— Sempre pensei a mesma coisa. Já... já fui chamada de grudenta, de
irritante, minhas amigas já disseram mil vezes que eu vou “com muita sede
ao pote”... mas é o meu jeito. Eu me jogo de cabeça, mesmo me machucando
consecutivamente. — Ela suspirou, e eu segurei seu rosto com as duas mãos,
fazendo-a olhar nos meus olhos.
— Pois, saiba que eu vou fazer de tudo para não te magoar. Vou cuidar
do seu coração da mesma forma que espero que cuide do meu. Eu gosto
mesmo de você, Alice. Ouso dizer que estou me apaixonando, tão rápido
assim, sendo pego de surpresa por cada detalhe seu que me fascina mais.
Seus bloqueios podem não te deixar acreditar mesmo em tudo isso, mas é a
verdade. Deusa — murmurei, me sentindo meio bobo em ser tão meloso, mas
o sorriso dela foi minha recompensa.
Ouvimos uma batida na porta e ela se levantou do meu colo, me
deixando ir até a porta. Hoje quem veio foi uma das estagiárias do sorteio,
Emma, se não me engano. Ela deu um sorriso tímido e desajeitado, entrando
com o carrinho.
— Boa noite, senhor Vanslow... onde eu deixo os pratos?
— Em cima da bancada está bom, obrigado. — Indiquei o caminho,
vendo-a olhar para Alice umas duas vezes, e então se despedir e sair do
apartamento.
— Ela estuda comigo. Espero que não tenha me reconhecido... Não
preciso ficar conhecida como a “oferecida que estava no quarto do dono do
hotel”. — Alice fez uma careta e suspirou, levantando do sofá e vindo se
sentar comigo na bancada.
— Acha que ela diria isso de você?
— Acho que não por maldade, não conheço muito a garota, ela parece
simpática, mas se isso cai nos ouvidos errados... não quero nem pensar. —
Ela balançou a cabeça, abaixando o olhar para o prato. Os vegetais estavam
ao lado de um pedaço de carne grelhada de primeira, acompanhados de purê
com molho. Algo simples, que eu comia todo dia, e que ela pareceu adorar.
— Seu chef se supera mais a cada dia.
— Ele vai adorar saber que disse isso. — Sorri, começando a comer
também, ficando em silêncio um tempinho. Eu gostava disso, dos silêncios
confortáveis. Era algo raro de se encontrar, e era bom que eu tivesse
encontrado justamente com ela. Acabamos de comer, e eu estendi a mão para
voltarmos ao sofá. Ela sentou por cima de mim, onde estava começando a ser
seu lugar oficialmente, e me deu beijinhos no rosto.
— Eu não respondi antes, mas também gosto muito de você, Hector
Vanslow. — Ela ficou cor-de-rosa ao dizer isso, me fazendo dar um riso
alegre e enroscar meus dedos nos cachos de sua nuca, acariciando ali,
sentindo-a se arrepiar um pouco enquanto fechava os olhos. — Não faz
assim...
— Por que não?
— Eu fico toda estranha... Hector! — Ela tentou reclamar, mas acabou
dando uma risadinha, encostando a testa na minha, o corpo relaxado contra o
meu. — Você me deixa estranhamente calma. Vou sentir sua falta depois
deste fim de semana.
— Não precisa sentir. Pode vir me visitar quando quiser, podemos sair
juntos... Como você não gosta de multidões, eu posso te levar a parques,
visitar sua casa... Acha que seus pais vão gostar de mim?
— Minha mãe — ela corrigiu. — Ela e meu pai são separados, e ele
mora no Sul com a família dele. Vem visitar às vezes, mas a verba não é das
maiores, então não tem como vir sempre. Eu só fui lá quando era pequena...
quando li Crepúsculo, eu me imaginava indo morar com ele e encontrando
um vampiro bonitão na escola — ela admitiu, me fazendo dar uma
gargalhada, balançando a cabeça.
— Você é maluquinha, sabia?
— Isso foi um elogio?
— As melhores pessoas são loucas, Alice.
— Disse o chapeleiro maluco. — Ela entendeu a referência, me fazendo
sorrir largamente e assentir. Minha mãe costumava ler Alice no país das
maravilhas para mim e meus irmãos quando éramos pequenos, e eu nunca
esqueci esse trecho. — Você tem bom gosto.
— Claro que tenho, eu gosto de você — brinquei, vendo ela fazer uma
careta.
— Terrível, então. — Ela deu uma piscadinha, voltando a deitar no
meu ombro, enquanto eu acariciava suas costas. — Sabe o que eu queria
poder fazer?
— O quê?
— Te levar junto comigo quando fosse embora, como um souvenir do
hotel. Com certeza, um melhor do que chaveiros escritos “Eu amo NY”. —
Nem precisei olhar para saber que ela estaria corada, e ri baixinho, a
abraçando mais forte.
— Pode levar. Eu daria um ótimo chaveirinho, não acha? Vou começar
a mandar fazer alguns com a minha cara estampada — brinquei, beijando os
cabelos dela. — Agora, falando sério, eu não me incomodaria nem um pouco
em ser levado por você. Já está roubando meu coração, que mal faria roubar o
resto também?
— Bobo. — Ela sorriu, beijando meu pescoço e erguendo o olhar para
mim. — Vai, me fala mais de você. Já falamos sobre livros, brincadeiras de
infância... qual seu maior medo?
— Vai me julgar muito, se eu disser que meu maior medo é a solidão?
Minha vida inteira eu sempre tive alguém à minha volta, meus pais, meus
irmãos... Não consigo me imaginar solitário de fato. A possibilidade me
assusta.
— Não vou julgar, é quase o mesmo medo que o meu. Também tenho
medo da solidão, mas no meu caso é justamente por passar tempo demais
sozinha. Meu maior terror é que continue assim para sempre. — Ela fez um
biquinho triste, que eu tomei o cuidado de beijar, tentando arrancar um
sorriso.
— Posso te prometer que vou estar do seu lado? Mesmo que por algum
motivo essa coisa de relacionamento não dê certo, eu vou querer estar perto
de você, mesmo que só como amigo.
— Uma parte de mim está gritando que isso é uma ilusão, mas vou
escolher acreditar desta vez. — Ela deu um sorriso triste, se inclinando e
beijando o cantinho da minha boca. — Maior sonho?
— Fazer a diferença. Seja na vida de uma pessoa só ou numa proporção
maior, eu quero fazer a diferença de verdade, e não apenas ser só mais um
rico que passou pelo mundo. — Dei de ombros. — E você?
— Ser feliz. Parece simples, mas tive tão poucos momentos felizes de
verdade, que meu maior objetivo na vida é ter o meu felizes para sempre. —
Ela deu um sorrisinho como que se desculpando pelo sonho bobo, mas eu
balancei a cabeça, a olhando.
— É um bom sonho. Farei minha parte para torná-lo realidade.
— Fofo. — Ela sorriu, aquele sorrisinho torto que ela dava quando
estava encantada, a covinha aparecendo. — Sabe o que eu queria fazer agora?
— O quê?
— Te beijar de novo. Mil vezes, até ter certeza de que minha boca
nunca vai parar de formigar, de que eu vou poder ir embora amanhã com a
sensação de ter o meu souvenir comigo. — Ela foi ficando vermelha
enquanto falava. — Mas não quero te torturar mais sem irmos além de
amassos...
— Pode torturar o quanto quiser, minha deusa, o chuveiro tem água
gelada de sobra. — Pisquei um olho, mudando a forma como segurava a
cintura dela. — E pare de bater nessa tecla. Eu realmente não me importo de
esperar, não sou escroto, nem ousaria te pressionar ou me incomodar por
conta dos seus limites. Fico mais que contente com beijos e amassos, com
seus gemidinhos baixos... — Ela ficou vermelha com isso. — É sério,
qualquer pedacinho de atenção sua já é um paraíso.
— Você... — Ela suspirou, se inclinando na minha direção, a boca
roçando a minha. — Vou me aproveitar da permissão para te torturar. Vou
me aproveitar muito... — E me beijou.
Mais uma vez o beijo começou devagar, só o beijo, as mãos dela
agarrando minha nuca, enquanto as minhas seguravam sua cintura. Eu não
diria em voz alta, sabia que ela acharia que era mentira, mas eu tinha
encontrado um pontinho específico entre as curvas dela em que minha mão se
encaixava perfeitamente. Cada curva, cada pedaço dela era perfeito. E então o
beijo foi se aprofundando, ela foi me beijando com mais força, chupando
minha língua enquanto os quadris começavam a se mover sobre mim. Minha
calça de moletom e a calça de tecido dela aumentavam bastante o contato,
bem melhor do que de calça jeans.
Apertei a sua cintura, minhas mãos começando a descer. A bunda dela
também era maravilhosa de se segurar, e me dava o apoio certo para movê-la
um pouco mais para cima, ouvindo-a arfar quando as reboladas dela a
atingiram no lugar certo. Eu havia percebido que ela não tinha experiência e
se guiava mais pelo instinto, e uma pequena ajudinha não fez mal a nenhum
de nós. Ela começou a gemer baixinho, se esfregando contra mim em
reboladas e movimentos para frente e para trás, a boca se afastando da minha
num perfeito O quando achou o jeito certo de fazer aquilo.
— Isso... — incentivei, me sentindo duro como uma pedra, e ela
continuou, enquanto eu descia a boca pelo pescoço, pelo decote da blusa que
eu desejei que fosse maior, minha mão repetindo o ato de mais cedo e
subindo até encontrar seu mamilo através do tecido, ela dando um gemido
mais alto com aquele toque. Seria pretensão demais querer que ela gozasse só
com aqueles toques superficiais? Provavelmente sim, mas uma parte de mim
queria e queria muito vê-la se desfazendo e chamando meu nome.
Ela gemeu um “hmm” manhoso, quase ronronando, e eu ergui meu
olhar para ela, vendo-a dar um sorriso de prazer enquanto girava os quadris.
Aquele se tornaria facilmente meu segundo sorriso favorito, só perdendo para
a gargalhada. Ela puxou meu cabelo, encostando a testa na minha, arfando
enquanto se movia mais rápido, e meu polegar continuava a rodear o tecido
da camiseta contra ela, a outra mão apertando sua coxa, deixando qualquer
controle nas mãos dela. Não consegui segurar um gemido, que saiu baixo e
rouco. As roupas me impediam de sentir de fato, mas eu podia imaginar o
quão quente e molhada estaria, e minha mente criava mil imagens de tudo o
que eu faria no dia em que estivesse pronta.
— Alice... tem noção de tudo que eu quero fazer com você um dia? Da
forma como eu adoraria seu corpo? — murmurei, querendo que ela tivesse
noção de ao menos uma fração do desejo que eu sentia. Ela merecia saber o
quanto eu a queria, o quanto era gostosa para mim.
— Eu... — Ela pareceu pensar um instante, parando de se mover por
um momento. — Me diz?
— Sua pequena pervertida... quer ouvir as coisas que eu faria com
você? — Ela ficou tão vermelha quanto um tomate, mas assentiu uma vez,
voltando a se mover mais devagar. Dei uma risada desejosa, Alice me
surpreendia mais a cada momento. — Muito bem... eu começaria tirando essa
sua blusa, e te chuparia bem aqui, onde está meu dedo. Bem devagar,
descobrindo se você prefere que eu sugue, brinque com a língua ou morda de
leve... — Fui subindo minha boca pelo pescoço dela, mordiscando sua orelha,
minha voz baixa. — E enquanto isso, meus dedos desceriam até estarem
entre suas pernas... você gostaria disso, não é? Você iria adorar quando eu te
tocasse ali, completamente encharcada pra mim...
Não consegui continuar, já que a boca dela avançou na minha,
enquanto começava a se mover em cima de mim. Um ritmo bom e constante,
equilibrado, fazendo barulhinhos de prazer que me arrepiavam inteiro.
Quando perdeu o ar, ela se afastou, deixando a cabeça pender para trás.
— Continua... — ela pediu, o rosto agora rosado por outro motivo, as
mãos ainda no meu cabelo, puxando um pouco.
— Pervertida... — provoquei, recebendo um puxão de cabelo como
punição, me fazendo rir e mordiscar o pescoço dela. — Eu te tocaria devagar.
Te torturaria um pouco com isso, faria você me pedir para ir mais rápido... e
aí eu descobriria como você gosta mais. Acharia o jeitinho certo de te deixar
ofegante, e brincaria com isso até você gozar a primeira vez na noite.
— Primeira? — ela conseguiu falar entre ofegos, os olhos fechados,
totalmente perdida. Eu estava adorando vê-la assim, entregue.
— Achou que seria só uma? Nem pensar. Você é tão viciante, que eu
poderia ficar horas na tarefa de descobrir como te satisfazer, faria questão de
descobrir cada pontinho que te fizesse tremer ou gritar, e iria fazer questão de
te ver totalmente satisfeita e exausta. Ah, não faz ideia do quanto essa
imagem me excita... você deitada na minha cama, o rosto vermelho e o
cabelo despenteado, ofegante com esse seu sorrisinho envergonhado de
prazer... esse aí, que você acabou de dar.
— Hector...
— E você gemeria meu nome, assim mesmo. Cacete, Alice, se você
estiver entendendo uma fração do poder que tem sobre mim... sabe o que
mais eu faria? — Eu notei rapidamente o quanto ela gostava dessa preliminar
em forma de conversa. Se minha suposição estivesse correta, isso dava a ela
tudo o que tinha receio ou vergonha de fazer de fato, então eu continuaria até
ela dizer que era suficiente. Imaginação pervertida não me faltava. — Eu
desceria minha boca. Eu beijaria cada curvinha sua, até chegar onde eu quero,
e então eu iria mais uma vez descobrir seu ritmo. Chupando, lambendo,
beijando... faria de tudo para te agradar e te ver gozar na minha boca. — Ela
deu um meio gritinho, aumentando o ritmo que se movia.
— Hector... eu quero... — Ela arfou, meu nome saindo como mel da
sua boca. — Eu não sei se eu consigo... — Demorei uns dois segundos para
processar o que ela estava dizendo, até que me lembrei de ela mencionar que
os remédios diminuíam a libido... devia ser difícil para ela conseguir chegar
lá.
— Deixa eu te ajudar? Eu te toco por cima da roupa, igual eu tô
fazendo aqui... — Circulei o mamilo mais uma vez, enquanto ela parava um
pouco de se mover e me olhava nos olhos, o peito subindo e descendo com a
respiração acelerada. — Só se quiser. A escolha é sempre sua.
— Eu quero...
— Mas? — O olhar dela ficou mais profundo, os quadris se mexendo
devagarinho, sem conseguir ficar parada.
— Você realmente me quer, não é? Sem nenhuma pegadinha de mau
gosto... você realmente quer todas as coisas que falou?
— Quero. — Levei a mão que estava em sua coxa até sua nuca,
fazendo aquele carinho que ela gostava. — Eu não mentiria pra você,
principalmente num momento como agora. E jamais me aproveitaria de você,
se for o que está pensando. Quando eu digo que te quero, é porque cada
célula no meu corpo está queimando de desejo por você, cada pelinho meu se
arrepiando com seus gemidos. Você é a mulher mais gostosa que eu já tive
em cima de mim, não duvide disso, nem por um segundo. — Minha voz foi
soando mais rouca do que antes enquanto falava, surpreendendo até a mim
mesmo com a veracidade das últimas palavras. Nenhuma garota que eu
pudesse me lembrar se comparava a ela.
— Nesse caso... sim. — Ela começou a se mover de novo, deixando
gemidinhos escaparem. — Faz tanto tempo que eu não... sinto nada forte o
bastante.
— Você gosta quando eu falo, né? — Eu sabia a resposta, mas gostei
de ela assentir. Desci minha mão até sua coxa de novo, começando a subir e
descer devagar por ali, chegando cada vez mais perto. — Então eu continuo.
Ainda não cheguei nem na metade das fantasias que eu tenho quando você
fica em cima de mim, desse jeito... depois de te fazer gozar o máximo
possível com a minha mão e a minha boca, eu partiria para a ação seguinte.
Veja bem, nessa fantasia não seria nossa primeira vez, então eu não precisaria
ir tão contido...
— Isso... — ela murmurou, os olhos fechados e a boca entreaberta,
enquanto minha mão subia mais entre suas coxas, os movimentos parando
com ela bem encaixada em mim. Eu podia me sentir pulsar.
— Eu te deixaria por cima. Do jeitinho que está agora, você ia poder
me cavalgar como quisesse... sabe essas reboladinhas? Imagine-as comigo
dentro de você. Enterrado até o fundo, totalmente sob o seu controle...
gostaria disso? De me controlar? — provoquei, me sentindo um pervertido
completo enquanto meus dedos subiam mais, pressionando entre suas pernas.
A calça dela era de um tecido mole, como um moletom fino, então não foi
muito difícil chegar onde queria. Ela gemeu.
— S-sim...
— Bom, pois eu seria todo seu. — Comecei a circular meus dois dedos
do meio ali, testando a pressão, achando estranho ter uma calça no meio do
caminho, mas aceitando os limites dela. — E aí cabe a você imaginar como
faria. Se me cavalgaria devagar ou com força, se ficaria só rebolando e me
deixando louco, se iria me querer deitado ou erguido o suficiente para te
beijar em todos os lugares que alcançasse...
Ela começou a deixar gemidinhos mais frequentes escaparem, meus
dedos encontrando a forma certa de fazer aquilo através da calça, sentindo
um pouco do calor que emanava dela, mil imagens mais se formando em
minha mente. Não precisei — nem consegui — falar mais, pois a boca dela
grudou na minha, a língua me puxando, os gemidos dela abafados contra
mim. Continuei o que estava fazendo, a outra mão ainda contra seu seio por
cima da blusa. No instante seguinte as pernas dela começaram a tremer,
tentando se apertar à minha volta, e ela jogou a cabeça para trás, deixando um
gritinho com meu nome escapar, enquanto rebolava contra mim e meus
dedos, aquela visão dela me deixando mais louco do que já estava.
Se era assim com ela vestida e toques superficiais, eu morreria quando
fossem só nossas peles se tocando. Se ela me tocasse agora, eu explodiria
instantaneamente. Aos poucos, Alice foi parando de se mover, e enfiou o
rosto na curva do meu pescoço, se escondendo. Dei uma risada curta e alegre,
envolvendo-a num abraço quase normal de novo, meus braços em volta dela.
— Tudo bem? — precisei perguntar, ouvindo-a dar uma risadinha
abafada contra a minha pele, sem erguer o rosto.
— Morta de vergonha, mas perfeitamente bem... uau. — A voz dela
soou pesada, ofegante. Sorri mais largamente, virando o rosto para beijar os
cabelos dela, ouvindo um suspiro. — Fazia tanto tempo... nem sabia que
ainda podia...
— Gostei de ser eu a te mostrar que pode. — Dei um sorrisinho,
levando uma mão aos seus cabelos e fazendo carinho ali, sentindo-a se mexer
agora para se aconchegar mais contra mim.
— Sabia que eu nunca tinha sido tocada assim? Só por mim mesma...
ninguém nunca quis antes — ela admitiu baixinho, ainda aninhada no meu
pescoço.
— Fico honrado de ser o primeiro, mas... e o seu ex? — Eu me
lembrava de ela ter mencionado um relacionamento passado que não a
aceitou como era.
— Ele só se importava com ele mesmo. — Deu de ombros, erguendo o
rosto, vermelha como sempre, para me olhar. As mãos dela vieram para o
meu rosto, fazendo carinho. Ela não precisou falar nada, eu via em seus olhos
o que estava acontecendo. Ela estava me agradecendo silenciosamente por ser
diferente. Me inclinei e dei um selinho nela.
— Deusa — murmurei, vendo o cor-de-rosa em seu rosto aumentar e
ela abaixar o olhar. Na hora que o fez, ela arregalou um pouco os olhos,
inclinando a cabeça e voltando a me olhar.
— Eu esqueci que você não... desculpe. Se quiser, eu posso... — Eu vi
a intenção dela, e vi que dessa vez ela realmente queria, mas algo em mim me
avisou que poderia ser demais para um dia, então segurei gentilmente seu
pulso, a parando. — Eu quero, de verdade.
— Eu sei. Mas se encostar em mim agora, eu não vou durar muito, e
não quero me envergonhar assim. — Deixei um riso escapar, aquilo não
deixava de ser verdade. — Da próxima vez, ok? — Dei um selinho nela,
voltando a segurar sua cintura com carinho.
— Tudo bem... por mais que esteja sendo bobo com isso de se
envergonhar, tudo bem. — Ergui uma sobrancelha, numa pergunta silenciosa.
— Não é por ser virgem que eu não sei nada... eu leio bastante — ela
admitiu, dando um sorrisinho diferente dos que eu já tinha visto até agora.
Um de alegria contida. Sem nem perceber eu já tinha um catálogo de risos de
Alice.
— Vai ter que me mostrar um desses livros algum dia. Preciso saber
que expectativas vou ter que cumprir — brinquei, arrancando outra risadinha
curta dela, e ela me deu mais alguns selinhos. O celular dela apitou, e ela se
esticou para pegá-lo na mesinha, suspirando ao ver a tela. — O que foi?
— Meu aviso dos remédios, já são quase nove horas. Nem vi que o
tempo tinha passado... acho que o conto de fadas está acabando.
— Não precisa acabar. — Ela ergueu uma sobrancelha, e eu mordi meu
lábio inferior, reunindo coragem para mais um risco. — Dorme aqui hoje.
Sem nenhuma mão boba, prometo, mas... fica mais esse tempo comigo. —
Ela pareceu pensar um instante, mordendo o cantinho do lábio inferior, os
olhos no teto.
— Meus pijamas ficaram no quarto, e são meio ridículos para usar na
sua frente... um deles tem ursinhos. — Ela deu um sorrisinho, me fazendo rir
baixo.
— Se esse for o único problema, eu te empresto um moletom para
dormir. E pode usar meu shampoo pessoal, bem melhor que os que deixamos
nos banheiros de hóspedes — brinquei, me sentindo como um adolescente
bobo e ansioso que esperava um sim da primeira namorada. Ela respirou
fundo.
— Ah, eu já estou na chuva mesmo, que mal faz em me molhar? — Ela
sorriu, um daqueles sorrisos largos que eu cataloguei como mais raros, e
puxou meu rosto com carinho para junto dela. — Eu fico. Mas é bom que
você tenha soro fisiológico ou consiga me arrumar um para tirar as lentes, e
um potinho para guardá-las durante a noite. — Dei um sorriso grande e
vitorioso quando ela falou isso, assentindo.
— Tem soro na caixinha de primeiros socorros, e eu devo ter algum
potinho.
— E precisa prometer me levar até o quarto amanhã de manhã, porque
eu não posso colocar as lentes sem o colírio, e eu fico ceguinha sem elas ou
os óculos.
— Prometo. — Beijei-a rapidamente, e ela sorriu, levantando do meu
colo e ficando de pé, as pernas bambeando um pouco, e eu observei enquanto
ela dava uma risadinha de si mesma. Eu mal podia acreditar que essa garota,
agora tão solta, era a mesma que chegou aqui, morta de vergonha, duas noites
atrás. Eu estava amando o fato de ela se soltar comigo, de confiar em mim. E
pelo que me disse e eu pesquisei por alto no celular, não seria sempre assim.
Teriam dias muito difíceis, crises complicadas e incompreensíveis. Mas eu
estaria com ela nesses momentos também, não tinha escolha, já que me
apaixonava mais a cada instante.
— Posso tomar banho primeiro? Eu sei que você precisa do banho frio,
mas eu estou me sentindo meio... — Ela se calou, ficando vermelha e fazendo
uma careta como se esperasse que eu entendesse, olhando para as próprias
pernas e depois para mim. Ah. Me levantei, sentindo o incômodo entre as
pernas.
— Claro que pode. Vem, vamos escolher um moletom e pegar uma
toalha... e talvez seja uma boa ideia te emprestar uma das minhas cuecas
também. — Ela ficou vermelha como um tomate com isso, mas assentiu, me
seguindo até o closet, ficando paradinha na porta, me olhando. — Pode
entrar. As roupas não mordem.
— Há há. — Ela deu esse risinho irônico, me mostrando a língua,
fazendo com que eu risse enquanto ela se aproximava. Peguei meu conjunto
de moletom cinza-escuro, um dos mais largos que tinha, com um desenho
aleatório de um peixe na frente. Eu ia dar a ela só a blusa, mas tive a
impressão de que ela queria manter as pernas cobertas também, então
entreguei o conjunto todo. E peguei uma das minhas boxers, uma vermelha
grande demais que normalmente ficava folgada em mim, e entreguei a ela. —
Obrigada — ela murmurou.
— Vai adiantar se eu disser para parar de ter vergonha? — perguntei,
vendo-a negar com a cabeça. — Desconfiei. — Me inclinei e dei um selinho
nela, indo pegar uma toalha do armário e a entreguei. — Pronto. Pode ir. Vou
procurar um potinho para as lentes, me deseje sorte.
Ela sorriu, indo para o banheiro. Ouvi o barulhinho da tranca e o
chuveiro ser ligado e me virei em busca de Rudy, que dormia na caminha
dele. Preferi não acordar o coitado e fui até a cozinha. Eu parecia não ter um
único pote nessa casa, mas acabei achando um potinho razoavelmente
pequeno no armário da sala, que tinha alguns papéis com telefones dentro.
Despejei os papéis e lavei o pote, que, por sorte, tinha uma tampinha de abrir
e fechar.
Deixei o potinho na mesinha de cabeceira do quarto e fui checar meus
e-mails só para conferir se não tinha nenhuma emergência. Nada. No celular
também não tinha nada, a única coisa razoavelmente interessante era um
story no Instagram de Ethan, dele e Nicole numa festa ontem à noite. Eu
tinha certeza de que ganharia a aposta.
A tranca do banheiro se abriu, revelando uma Alice que parecia
minúscula no meu moletom, com os cabelos úmidos e um sorriso tímido,
segurando as roupas de antes dobradas sobre o braço.
— Amei seu chuveiro. Não sabia que água podia ser tão forte. — Ela
ficou parada ali, meio que sem saber o que fazer. Fui até ela.
— Você fica mais linda ainda de cabelo molhado, sabia? — Sorri, me
aproximando para um selinho. — Encontrei aquele potinho da mesa de
cabeceira, serve? Qualquer coisa, posso ir rapidinho no seu quarto buscar o
das lentes.
— Esse serve... posso dizer uma coisa?
— Claro.
— Usar cueca é estranho. — Ela deu uma risadinha, me fazendo rir
alto. — Fica um monte de pano sobrando.
— É que te falta ter com o que preencher esse pano. — Dei uma
piscadinha, vendo-a revirar os olhos, o rosto vermelho a entregando.
— Anda, vai tomar seu banho. Vou tomar os remédios e depois tiro as
lentes.
— Me expulsando assim, do meu próprio quarto? Desse jeito você me
magoa — brinquei, rindo de leve, enquanto andava até o closet, achando
melhor levar a roupa e me vestir logo em vez de sair de toalha.
— Seu? Pensei que fosse de Rudy — ela devolveu a brincadeira, e eu
pude ouvir o divertimento em sua voz.
— É, tem razão. — Me inclinei e dei mais um selinho nela. — Tem
água na geladeira, e até queijo e pão, se quiser um lanche. Já volto.
Fechei a porta do banheiro, sem me preocupar em trancar, e tomei um
banho congelante. Os pensamentos dela ficavam me assombrando, mas seria
ridículo eu, aos vinte e sete anos, um homem formado, ter que me aliviar
sozinho duas vezes no mesmo dia. Eu não era mais um adolescente
hormonal, tinha mais autocontrole que isso. Me concentrei bastante e com
ajuda da água estupidamente fria consegui me distrair das fantasias, acabando
meu banho o mais rápido que pude e me vestindo.
Normalmente, eu dormia só de cueca mesmo, às vezes sem nada, mas
com ela ali, preferi usar também uma calça e uma camisa folgadas. A última
coisa que eu iria querer era ela desconfortável.
Saí do banheiro, encontrando-a no canto do quarto, olhando minha
estante. Só tinha meus livros favoritos ali, e ela parecia bem entretida com
eles. Sorri.
— Bisbilhotando? — Ela levou um susto, se virando.
— Dando uma olhada. Você tem bom gosto, mas acho que eu já disse
isso.
— Não me incomodo se repetir — brinquei, me aproximando dela. —
Tomou os remédios? Aliás, se não for uma pergunta invasiva, quantos são?
— Dois. Um para depressão e principalmente a borderline, e um para
ansiedade. — Ela não pareceu notar que disse os diagnósticos, ou então havia
feito de propósito, um teste se eu me assustaria. Gravei os nomes para
pesquisar depois e entender melhor. — Tomei, sim.
— Ótimo. — Sorri, percebendo o quão natural era me preocupar com a
saúde dela. — O soro está na caixinha branca no armário, atrás da porta do
banheiro.
— Já volto. — Ela foi até lá, deixando a porta aberta dessa vez, e em
alguns minutos voltou, segurando o potinho, piscando várias vezes enquanto
andava até a cabeceira da cama e deixava as lentes ali.
— Está conseguindo me ver? — brinquei, vendo-a me mostrar a língua
de novo, fazendo uma careta em que fingia estar brava.
— Engraçadinho. — Ela bocejou, e eu fui até ela, beijando sua testa.
— Vem, hora de dormir. Você prefere qual lado da cama?
— Esquerdo.
— Sorte sua, sempre preferi o meio puxado para direita. — Sorri,
puxando-a para cama comigo. Ela se sentou, cruzando as pernas uma sobre a
outra e me olhando.
— Eu... nunca dormi com alguém na mesma cama. Nem namorados,
nem amigas... acho que uma vez num evento de família dividi um colchão no
chão com a minha vó, mas eu dormi antes de ela deitar e, quando acordei, ela
já tinha saído, então...
— É só deitar como preferir. Se quiser pode me abraçar, se preferir
pode só ficar do meu lado... contextos diferentes, mas a mesma frase de
antes: descubra como gosta mais.
— Eu normalmente deito... assim. — Ela praticamente abraçou um dos
meus travesseiros, deitando de bruços, com uma perna dobrada e uma
esticada. E então ela riu baixinho e se virou, deitando de lado, me olhando.
— Sou estranha, né?
— Nem um pouco, eu durmo todo largado também. — Sorri, me
deitando de frente para ela. Ela ficava linda assim, descontraída.
— A gente pode... tentar dormir de conchinha? Sempre achei fofo nos
filmes e nos livros.
— Pode, sim. Se depois quiser mudar, é só me avisar, me acordar ou
me derrubar da cama. O que for mais prático. — Ela deu um risinho, se
virando de costas e eu a puxei gentilmente pela cintura, a encaixando em mim
e puxando o lençol sobre nós. — Confortável?
— Uhum — ela assentiu, se mexendo um pouquinho e se
aconchegando mais contra meu peito. — Boa noite, Hector.
— Boa noite, deusa. Durma bem. — Beijei o cantinho do rosto dela,
fazendo carinho em sua cintura. Ela não demorou muito a pegar no sono, e eu
percebi naquele momento o quão fundo eu estava mergulhando naquela nova
relação. E não me arrependia nem um pouco.
Eu acordei devagar, minha mente ainda processando o que era aquilo
morno embaixo da minha cabeça. E então eu lembrei, era Hector. Abri os
olhos, vendo que durante a noite tínhamos largado a conchinha e eu agora
estava aninhada no peito dele, que ainda dormia. Fiquei bem quietinha,
vendo-o dormir, tão tranquilo quanto um anjo, e aproveitei aquele momento
para pensar.
Eu cheguei a ter medo de como seria quando acordasse hoje, medo de
que minha mente fosse surtar e achar que tudo foi um erro... mas eu me sentia
bem. Dei um sorriso preguiçoso, daqueles involuntários e automáticos,
enquanto me lembrava de ontem. O que mais grudou na minha memória não
foi o toque dele ou os gemidos roucos, por mais que eu tivesse adorado essa
parte. Foi o olhar, a forma como as pupilas dele dilataram quando ele me
olhou e disse que me queria, o brilho de malícia que passou pelo olhar
quando ele começou a narrar o que faria comigo...
Senti um arrepio só de lembrar. Eu já tinha lido muito sobre aquele
olhar, e já tinha o visto ser reproduzido por atores, mas nunca pensei que eu
estaria do outro lado de um olhar daqueles. E então ele do nada entrou na
minha vida, me arrebatando por completo, tirando meus pés do chão e me
deixando na nuvem mais alta, num pedestal como a deusa que ele dizia que
eu era... hoje era um dos dias muito bons, em parte graças a ele, porque eu
acordei com autoestima suficiente para acreditar em todas aquelas palavras.
Até conhecer Hector, eu jurava que homens assim não existiam fora de
páginas e telas, mas ele era real. Eu sabia que só o tempo diria se eu estava
me iludindo ou não, eu não sou tão boba quanto pareço, mas... algo em mim,
alguma parte da garota que eu um dia já fui, sentia que eu podia confiar nele.
Que não tinha nenhum truque ou pegadinha por trás das palavras doces que
ele me dizia, que era tudo verdade. Eu estava totalmente apaixonadinha, e
pela primeira vez em alguns anos eu não sentia medo disso.
E dessa vez eu sabia que não era invenção da minha mente pelo
desespero. Nos últimos dois anos eu achei várias vezes que tinha me
apaixonado, que gostava de verdade de alguém, e era sempre “fogo de
palha”, queimava rápido e apagava. Eu não sentia nada de verdade, mas
minha mente me convencia de que sim, num desespero por sentir algo,
qualquer coisa que não fosse medo e vontade de chorar, qualquer coisa que
não fosse solidão.
Mas dessa vez... era diferente. Por mais que parecêssemos bem
desesperados ontem, a sensação dentro de mim não era desesperada.
Queimava, sim, mas até agora estava queimando devagar, como uma lareira
daqueles filmes de Natal.
Fui tirada do meu monólogo mental quando ele se mexeu embaixo da
minha cabeça, e me ergui um pouco para vê-lo abrir os olhos, pequenininhos
pelo sono, e sorrir ao direcioná-los para mim. Ele estava um pouco embaçado
pela falta dos meus óculos ou lentes, mas ainda assim lindo.
— Bom dia... — A voz dele logo de manhã, ainda rouca pelo sono...
me derreti todinha.
— Bom dia. — Dei um sorrisinho sem jeito. Como se age ao acordar ao
lado de alguém com quem você se agarrou sem nem tirar a roupa? Nos livros
e filmes o casal sempre transa antes da tão temida manhã seguinte. — Você
fica fofo dormindo. O borrão mais lindo que já vi. — Pronto, agora eu devia
parecer uma maluca falando.
— Olha quem fala, a garota que ficava suspirando enquanto cochilava
no meu colo. — Ele sorriu, e eu percebi que talvez ele gostasse das minhas
maluquices completamente aleatórias. — Dormiu bem?
— Uhum... acho que fazia um bom tempo que não dormia tão bem.
— Eu disse que era um bom travesseiro. — Ele sorriu, e eu me afastei
um pouquinho para me sentar direito na cama, vendo-o se erguer e apoiar as
costas contra a cabeceira. — Quem deve ter ficado chateado é Rudy,
normalmente ele me rouba esse travesseiro onde você dormiu.
— Ele me adora, vai entender as circunstâncias — brinquei também,
meu olhar passeando pelo quarto e vendo o filhote no cantinho, mordendo um
ossinho de brinquedo.
— Pronto, o cachorro rouba o travesseiro e você rouba o cachorro. —
Ele riu, se inclinando para beijar meu rosto. — Você fica linda de manhã.
— Hector... sem elogios demais. — Minha autoestima estava boa hoje,
mas também não podia abusar.
— Apenas falei a verdade. — Ele sorriu, daquele jeito que me fazia
sentir como se fosse sua pessoa favorita no mundo. Bobagem, eu sei, ele mal
me conhece meeeesmo, mas essa ilusão eu ia me permitir.
— Muito bem, senhor verdadeiro, eu preciso estar na Lucille até as
duas da tarde, e preciso ir para casa antes do almoço. Infelizmente o conto de
fadas chegou ao fim.
— Ou ao começo. — Olhei para ele, confusa, e ele se explicou: — Já
parou para pensar que talvez estivéssemos apenas no prólogo, e que agora
sim vai começar nossa história?
— Nossa história... — repeti, testando as palavras. — Tem certeza de
que quer algo comigo? Nem todos os dias vão ser sorrisos e amassos no sofá.
Eu não te julgaria se quisesse deixar nossa relação só nesse fim de semana
mágico, sem nada para estragar, nenhuma crise ou problema. Seria a memória
perfeita, que eu guardaria para sempre com todo carinho.
— Você quer algo comigo, Alice? — Ele devolveu a pergunta, me
vendo ficar quieta, a princípio. — Já sabe a minha resposta, mas e a sua? Se
preferir ficar só com a memória do fim de semana, eu vou entender e
respeitar. Mas me deixe ao menos pedir que nos dê uma chance. Eu sempre
fui um tanto cético para acreditar em amor ou paixão à primeira vista, mas
você está quebrando tudo o que eu pensei conhecer. Não estou dizendo que te
amo, não ainda, mas não posso mentir: estou me apaixonando por você.
Pouco a pouco, a cada gesto e cada sorriso eu estou ficando mais e mais
encantado. E acho que você sente algo parecido, acertei?
— Eu... — Respirei fundo, pensando nas palavras certas, em como me
explicar direitinho sem falar besteira. — Sim, de certa forma, sim. E sim, eu
quero algo com você. Estou morta de medo, e sei que vai partir meu coração
já danificado, se algo estragar a memória desse fim de semana, mas você e
esse seu maldito olhar de cego vendo o mar me faz querer tentar.
— Cego vendo o mar?
— É um clichê de narração em romances. “Ele a olhou como um cego
que via o mar pela primeira vez”. — Dei de ombros, aquela parte era a menos
relevante da história. — O que eu quero dizer é que eu também estou
gostando muito de você. Me apaixonando, como você disse, quando eu achei
que nunca mais seria capaz de me apaixonar de novo, que estava quebrada
demais para isso. Não me entenda mal, isso não significa que você pode me
consertar, mas... pode se encaixar entre os pedacinhos, entende?
— Entendo, eu acho. — Ele sorriu, erguendo a mão para fazer carinho
no meu rosto, o polegar contornando minha bochecha daquela forma doce
como caramelo. — E prometo fazer todo o possível para não piorar sua
situação. Sei que vai ser complicado, e eu também tenho medo, de fazer algo
errado e te machucar, mas... eu quero tentar.
— Vamos tentar, então — assenti, surpresa em como os sorrisos
estavam vindo mais naturalmente, e me inclinei, dando um selinho bem
rápido nele. — E agora você precisa me arranjar uma escova de dentes para
que eu possa te beijar de verdade.
— Você se preocupa demais com detalhes. — Ele sorriu, balançando a
cabeça. — Mas já que insiste, tenho uma de reserva ainda na embalagem no
armário do banheiro, na parte que fica debaixo da pia.
— Obrigada — disse e pulei da cama, pegando minha roupa dobrada
em cima da mesinha e correndo para o banheiro, ouvindo a risada dele
enquanto fechava a porta. Achei a escova, fiz uma mini versão da minha
rotina que não incluía as lentes, já que estava sem o colírio, e peguei as
roupas para me vestir, afinal não podia sair pelo hotel usando o moletom do
dono.
Só tinha um problema: não tinha a mínima condição de usar minha
calcinha de ontem. Quando ele começou a falar todas aquelas coisas
maravilhosas e deduzir que eu estava encharcada, ele não fazia ideia do quão
certo estava. Dei uma risadinha baixa, sozinha, me sentindo como uma
pervertida ao pensar de novo em tudo aquilo. Eu não sabia que tinha tara em
dirty talk, até ele começar a falar, mas como não teria, com aquela voz grossa
e cheia de tesão murmurando na minha orelha?
Olhei de novo para as roupas e suspirei. Ele que me perdoasse, mas eu
teria que ficar com a cueca por mais um tempinho. Dei uma olhada nas
minhas coxas, as cicatrizes que começavam a fechar, roxas pelo ar frio da
manhã. Sempre ficavam mais feias no frio. Suspirei, passando a mão por
cima delas com cuidado, pensando se ele ainda me acharia tão gostosa quanto
falou se visse essas marcas também. Decidi afastar esse pensamento e me
vesti logo de uma vez, escondendo a calcinha na mão, tentando transformá-la
em uma bolinha imperceptível de tecido. Claro que quando eu saí isso foi a
primeira coisa que ele viu, erguendo as sobrancelhas e olhando da minha mão
para mim.
— Talvez eu tenha que ficar de vez com a sua cueca. — Dei um sorriso
automático e totalmente envergonhado, ouvindo a risada dele. — Pare de rir,
a culpa foi sua por... você sabe.
— Por te deixar encharcada e te fazer gozar ainda vestida? — Ele deu
aquele sorrisinho de canto, e eu arregalei os olhos, sentindo o rosto esquentar.
— Hector! — ralhei, vendo-o piscar um olho, passando por mim
enquanto ia na direção do banheiro. Suspirei quando ele fechou a porta, e fui
correndo enfiar a calcinha suja no bolso do meu casaco que tinha ficado na
sala. Rudy me seguiu quando me viu andar mais rápido, e eu me sentei no
sofá, pegando-o no colo. — Bom dia, pequeno. Que bom que você não faz
ideia do que acontece, porque as coisas que rolaram aqui... foram intensas. —
Dei uma risadinha, fazendo carinho no pescoço dele, vendo-o se deitar no
meu colo.
Alguns minutos depois, Hector apareceu na porta do quarto, vestido
com uma camisa de botões e uma calça social, o cabelo penteado para trás.
Ele ficava lindo todo arrumado, fazia me lembrar dele naquele dia da
palestra. Desde a hora que eu o vi subir naquele palanque, pensei que era o
cara mais bonito em quem já botei os olhos pessoalmente, mas nunca que
naquele momento eu imaginaria que ia vir parar aqui. Bendita sorte eu tive, o
primeiro sorteio que eu ganhei na vida, do voucher para o hotel, me trouxe
até ele.
— Viu o que eu disse? Ele te roubou. — Ele fez um gesto com o
queixo para Rudy, que estava quase cochilando. Ri baixinho e o coloquei no
chão com cuidado, me levantando e indo até Hector, ficando na ponta dos pés
e beijando-o devagarinho, com leveza.
— Agora sim, bom dia. — Me afastei, vendo ele sorrir e entrelaçar os
dedos aos meus.
— Quer comer algo? Eu normalmente não como de manhã, mas
podemos pedir algo se você quiser.
— Eu também não, só quando estou com muita fome. — Ergui nossas
mãos, olhando o relógio no pulso dele. Dez horas. Suspirei. — Hora de ir
arrumar minhas coisas e ir para casa.
— Quer uma carona? Eu posso pedir para Nick te levar... ou eu posso
dirigir. Garanto que sou um bom motorista, mesmo que não seja um
profissional — ele ofereceu, e eu percebi que assim como eu, estava
procurando desculpas para passarmos mais tempo juntos.
— Não enjoou ainda de ficar grudado em mim? — brinquei,
continuando antes que ele respondesse. — Eu adoraria uma carona, já me
ajuda a economizar no Uber.
— Fico surpresa que você não tenha enjoado de mim, mas é porque
ainda não conheceu meu lado chato obcecado por reuniões e qual lâmpada
comprar para o hotel inteiro. — Ele riu, se inclinando para mais um beijo
rápido. — Vamos. Ah, não esqueça os remédios e as lentes.
— Como se eu fosse esquecer as duas coisas que me mantêm viva. —
Sorri, indo até o quarto pegar as lentes, e pegando o porta-comprimidos que
tinha deixado do lado delas. Quando voltei, ele estava com o meu casaco
pendurado no braço, e meu celular na mão. — Pronto.
— Vamos. — Ele estendeu o celular para mim, que eu enfiei no bolso,
e entrelaçou os dedos nos meus, enquanto voltávamos para o meu quarto.
Demos sorte de não ter ninguém no elevador nem no corredor do meu andar.
Peguei o cartão chave da suíte, que eu tinha guardado na capinha do celular, e
abri a porta.
— Vou só guardar as coisas soltas na mala, ok? — Ele assentiu, e eu
fui primeiro até a mesinha de cabeceira, pegando meus óculos. Eram de
armação roxa, e eu me sentia ridícula com eles. Respirei fundo e me virei
para ele, que deu um sorriso misturado com riso. — O que foi?
— Estou tentando achar a “patinha feia” que você mencionou outro dia.
Os óculos só te deixam com cara de intelectual, nada de ruim.
— Quack. Pronto, achou. — Ridiculamente imitei um pato, ouvindo-o
gargalhar enquanto andava até o banheiro, tirando minhas lentes do potinho
emprestado e guardando na caixinha delas. Estava indo para casa mesmo,
podia ficar de óculos. Voltei para o quarto e comecei a guardar as coisas, não
tinha feito muita bagunça, já que não tinha ficado tanto tempo no quarto, e
rapidinho estava tudo enfiado dentro da minha bolsa. Olhei em volta,
conferindo se não tinha esquecido nada. — Ok, podemos ir. — Fiz um bico,
meio triste em ir embora. Aquele hotel sempre seria o lugar do meu fim de
semana mágico.
— Não faça essa cara, pode voltar quando quiser. — Ele pareceu ler
minha mente, se aproximando e tirando a bolsa da minha mão, sendo o
cavalheiro perfeito que era.
— Eu sei. — Suspirei uma última vez, erguendo meu olhar para ele e
sorrindo. — Vamos?
— Vamos. — Ele sorriu, e em pouco tempo já estávamos no
estacionamento. Óbvio que ele tinha um carro preto estiloso. Eu só sabia
diferenciar carro normal para caminhonete, então não fazia ideia do modelo
ou marca do dele, mas era bonito. Ele deixou minha bolsa no banco detrás, e
veio abrir a porta do passageiro para mim.
— Pare de ser tão perfeito — resmunguei, fazendo-o rir, enquanto
entrava no carro. Ele foi para o lado do motorista, me perguntando o
endereço. Eu não saberia explicar o caminho daqui para lá de jeito nenhum,
já que não era um que eu fizesse normalmente, então ele me entregou o
celular e eu coloquei no GPS. Mais prático.
— Pronta para me apresentar sua mãe? — ele me perguntou, assim que
saímos do estacionamento, entrando nas ruas movimentadas do Upper East
Side.
— Ela vai te encher de perguntas, e se vovó estiver lá vai ser pior —
avisei. — Mas elas vão te adorar. Quem não adoraria?!
— E ainda diz que eu que elogio demais... — Ele riu, seguindo as
direções que o GPS dava. — Me fale mais sobre elas.
— Mamãe se chama Catarina, é uma mulher extremamente forte e
maravilhosa. Me criou sozinha desde os quatro anos, que foi quando se
separou do meu pai e viemos pra cá. Não entenda mal, ele nunca deixou
faltar nada, mas como eu já expliquei, é difícil para ele ter como vir visitar.
Enfim, ela é maravilhosa. Fisicamente não se parece muito comigo, o cabelo
é liso e mais claro, e os olhos castanhos, mas eu já ouvi que tenho muito da
força dela. Eu concordo, não acho que teria aguentado até aqui, se não
tivesse.
— Fico feliz que tenha aguentado. — Ele sorriu, segurando o volante
com uma mão só e esticando a outra para fazer carinho na minha coxa de
leve. — E sua vó?
— Dona Mary Angela, a idosa menos idosa que eu já vi na vida. —
Balancei a cabeça ao pensar nela. — Vovó nos visita sempre, mora só a três
blocos de distância, e é uma pessoa incrível. Está no auge de seus quase
setenta anos, e é uma das minhas pessoas favoritas no mundo. Ela é um dos
motivos que eu tenho para continuar, quando quero desistir de tudo. Não
gostaria de deixá ela triste.
— E o que elas acharam sobre você ir ao hotel, sexta?
— Eu só fui por causa delas. Foram as duas que me incentivaram a
criar coragem e ir dizer oi pro bonitão que me chamou para um café.
Normalmente não se vê mães, e principalmente avós, empurrando a garota
para a porta de um desconhecido, mas elas já estão indo a extremos para
tentar melhorar minhas crises de pânico. Teve um período que eu tinha medo
até de ir até a varanda, que dirá descer as escadas até a calçada. Eu ter ido até
o hotel foi uma vitória para elas, ficariam felizes, mesmo que eu nem tivesse
falado com você.
— Espero que elas gostem de mim. — Ele parecia genuinamente
ansioso para conhece-las, e eu estava adorando isso. Não seria todo cara, na
verdade, cara nenhum, que não só me entenderia até agora e iria comigo até
em casa para conhecer minha família levemente caótica.
— Vão gostar. Só tente não mencionar nada arriscado quando elas
perguntarem suas intenções... Deus sabe como vou fazer para esconder sua
cueca depois. — Senti meu rosto esquentar de novo, toda vez que tocava
nesse assunto, e ele me olhou com o canto do olho.
— Boa sorte. Me conte depois se deu certo. Aliás, isso me lembra que
você tem meu número, mas eu não tenho o seu. Esquecemos esse detalhe.
— Resolvo num minuto. — Tirei o celular dele do apoio do carro,
deixando o GPS em segundo plano e adicionei meu contato. — Pronto.
— Perfeito. Agora tenho como te importunar, mesmo estando longe —
brincou, me fazendo rir. Como se tivesse alguma chance de ele me
incomodar.
Em pouco tempo, já estávamos quase chegando, e eu desliguei o GPS.
Conhecia aquela área.
— Vire ali... agora aqui, à esquerda... pronto, chegamos, é aquele
prédio marrom ali. — Apontei, e ele deu sorte de achar onde estacionar quase
na frente. Os vizinhos com certeza olhariam, principalmente a senhora Jones,
mas eu respirei fundo e desci do carro, vendo-o abrir a porta de trás e pegar
minha bolsa. — Espera aí. — Puxei o zíper do bolso lateral, pegando minha
chave. — Pronto.
Abri o portão do prédio, simples demais para ter porteiro, e ele me
seguiu até as escadas. O prédio tinha cinco andares, eu morava no terceiro,
apartamento 32B. Ouvi ele dar uma risadinha das minhas caretas sedentárias
enquanto subíamos a escada e contive o instinto de erguer o dedo do meio,
parando na porta de casa.
— Pronto?
— Já nasci pronto. — Ele sorriu, e eu abri a porta. Minha mãe e minha
vó estavam conversando na cozinha, enquanto mamãe fazia o almoço,
consegui ouvir as vozes.
— Alice, é você, querida?
— Não, mãe, é o ladrão — brinquei, e entrei na cozinha a tempo de vê-
la revirar os olhos, enquanto limpava as mãos numa toalha e vir me abraçar.
Vovó sorriu. — Eu trouxe uma surpresa.
— Não me diga que gastou com alguma coisa da lojinha do hotel?
— Esse souvenir é um pouco diferente... — Dei uma risadinha, vendo-a
ter uma pequena surpresa ao me ver tão alegre, e Hector entrou na cozinha,
deixando minha bolsa junto da porta.
— Bom dia, senhoras — ele cumprimentou as duas, e o queixo de vovó
caiu, enquanto minha mãe olhava repetidas vezes dele para mim.
— Bom dia... — minha mãe conseguiu responder, enquanto vovó ainda
encarava.
— Vó, feche a boca! — reclamei baixinho, vendo-a dar uma
gargalhada alegre. Ah não, eu conheço quando ela faz isso.
— Alice, você não nos avisou que o voucher do hotel incluía trazer um
bonitão para casa... Hector Vanslow, não é? — Ela se levantou da cadeira
onde estava, estendendo a mão para ele.
— Por favor, apenas Hector. — Ele sorriu, apertando a mão dela. —
Um prazer conhecê-la, dona Mary Angela. — Ele se virou para a minha mãe,
o mesmo sorriso educado no rosto. — A senhora também, dona Catarina.
— O prazer é todo meu... Alice o que está acontecendo? — Mamãe se
virou para mim, as sobrancelhas bem erguidas. Claro que ela não se
aguentaria para perguntar só depois que ele fosse embora.
— Bem, mãe, eu disse que Hector tinha me convidado para um café,
não disse? Então... — Dei de ombros, vendo o queixo dela cair dessa vez.
Vovó encarava tudo com os olhos brilhantes.
— Vocês passaram o fim de semana juntos, não foi? — vovó perguntou
e Hector assentiu. Ela sorriu mais largamente. E só então minha mãe notou
que eu estava sem casaco ou moletom, usando só a minha blusa de Friends.
— Alice, seus braços! — reclamou baixinho. Não é que ela tivesse
vergonha das minhas marcas, mas ela tinha medo do que as pessoas diriam de
mim, do que me chamariam.
— Está tudo bem. Ele sabe — respondi, notando que Hector não
percebeu, ocupado ouvindo vovó perguntar sobre o fim de semana.
— Alice teve a bondade de aceitar o café e me dar uma chance,
passamos o fim de semana nos conhecendo melhor. Não fizemos nada de
mais, assistimos a algumas séries que ela me recomendou e conversamos a
maior parte do tempo. E ela e Rudy, meu cachorro, se deram muito bem. —
Ele tinha aquele ar mágico que todos os ricos e educados tem, e convenceu
vovó facilmente de que foi um fim de semana inocente. Torci para o meu
rosto não ficar vermelho agora.
E como se invocada pela palavra cachorro, Milady deu um latido e
entrou correndo na cozinha. Me abaixei, fazendo carinho no pescoço dela.
— Oi, pequena, onde você esteve? Senti saudade sua... sabia que
conheci um amiguinho para você? Ele é um pug, bem pequenininho, e se
chama Rudy. Uhum, esse cheiro é dele... prometo te levar para conhecer um
dia. — Sorri, beijando a cabeça dela e me erguendo de novo, deixando-a
cheirar minhas sapatilhas. Quando olhei de canto para Hector, ele estava
sorrindo diante da cena.
— Então essa é a famosa Milady... — Ele sorriu, se inclinando e dando
a mão para ela cheirar, recebendo algumas lambidas e um rabinho abanando
em troca. Milady era ainda mais amigável que Rudy.
— Bem, Hector, obrigada por trazer minha filha até em casa.
— Se quiser ficar para o almoço... — vovó se intrometeu, me fazendo
dar uma risadinha do olhar que minha mãe deu a ela.
— Mãe, ele é um homem ocupado, certamente não tem tempo para
almoçar no Brooklyn.
— Na verdade, meu dia hoje está mais livre, se não for ser um
incômodo, eu adoraria ficar. Inclusive, se quiserem envergonhar Alice me
mostrando fotos antigas, eu não recusaria — ele brincou, aquele jeito
charmoso conquistando minha vó sem esforço algum, e até minha mãe
começava a se render.
— Muito bem, já que não é problema... espero que goste de frango
frito.
— Gosto sim. — Ele sorriu, e eu entrelacei discretamente meus dedos
aos dele, o puxando para mesa. É claro que vovó notou, nos seguindo com o
olhar, enquanto minha mãe já tinha virado de costas para terminar o almoço.
— Você é maluco, aceitando ficar — sussurrei, vendo-o sorrir em
resposta.
— As melhores pessoas são, Alice.
— Pare de bancar o chapeleiro. — Não consegui segurar o sorriso.
— Então, Hector — vovó se sentou na cadeira ao meu lado, de frente
para ele —, eu soube que você e seus irmãos estão trabalhando com órfãos?
Me conte mais do projeto...
E ele explicou, enquanto vovó fazia perguntas e comentários e minha
mãe finalizava o almoço. Assisti, quietinha, a ele interagir com elas e elogiar
a comida da minha mãe, que ficaria toda alegrinha quando eu contasse que o
chef com quem ele a comparou tinha uma estrela Michelin.
Ele teve que ir embora logo depois do almoço, havia chegado uma
mensagem sobre uma reunião de algo com o Empire de Los Angeles, não me
importei muito com os detalhes empresariais, sabia que esqueceria tudo num
piscar de olhos. Tinha coisas mais importantes para lembrar.
Consegui, enquanto mamãe e vovó lavavam a louça, roubar um beijo
de despedida antes de ele sair. Suspirei ao fechar a porta, começando
finalmente a acreditar que aquilo era real, e não um sonho.
Fazia uma semana desde que eu voltei do hotel, e a mágica ainda não
tinha acabado. Hector me ligou naquela mesma noite, e ficamos conversando
aleatoriamente sobre a reunião dele e a minha audição para a peça, que havia
sido remarcada para o dia seguinte — tinham candidatas demais à Bianca.
Era estranho, porque eu normalmente odiava falar ao telefone, mas com ele
eu não me incomodava. Ele me explicou que gostava mais de ligações do que
mensagens, e fez pleno sentido. Ele era mais velho, afinal, e tinha o detalhe
de que eu adorava ouvir a voz dele.
Os resultados do elenco feminino iam ser divulgados amanhã, e eu
estava extremamente ansiosa, e morta de medo. Parte de mim queria ganhar o
papel, enquanto outra parte estava apavorada com a ideia de ter que carregar
a peça nas costas como a protagonista. O elenco masculino sairia hoje, e em
menos de duas horas saberíamos quem faria o papel de Jonathan. Eu tinha
assistido às audições, toda minha turma tinha, e estava apostando em Logan
ou Eric para o papel. Eles eram opostos fisicamente, Logan tinha pele clara e
Eric escura, olhos azuis e olhos castanhos, musculoso bombado e corpo
padrão... o roteiro tinha sido feito de uma forma que o físico dos personagens
não era relevante para a história, por isso teve abertura para todos tentarem o
personagem que quisessem.
Eu agora tinha acabado de achar um lugar para sentar no metrô, e meu
celular vibrou com uma notificação. Hector.

H: Ansiosa?
A: Muito! Ainda não aceito ter que esperar mais um dia para saber os
resultados.
H: Respire fundo. A espera vai valer a pena, minha futura Bianca.
A: Você tem muita fé em mim.
H: Claro que tenho! Você é incrível.
A: O que discutimos sobre elogios?
H: Que eu podia dizer eles sempre? Haha.
H: Certo, parei.
A: Bobo. Tenha um bom dia no trabalho.
H: Boa aula. Pensamento positivo!

Balancei a cabeça para a tela, clicando na foto de perfil dele. Ele estava
sério, parecia esconder do mundo aquele sorriso maravilhoso que eu tanto
adorava ver. Durante a última semana me peguei arrependida de não termos
tirado uma foto juntos durante aqueles dias, queria ter uma recordação nossa.
Sim, eu normalmente odiava tirar fotos e a minha de perfil era um desenho de
uma personagem que eu gosto, mas valeria a pena quebrar essa regra com ele.
Abri minha bolsa, uma espécie de mochila em tamanho médio, e peguei
o livro que estava lendo. Era um romance de época, daqueles fofinhos e
melosos, e eu às vezes ficava comparando Hector com o protagonista. Eles
eram parecidos, mesmo que Hector fosse um pouco mais atirado, mas isso se
devia à época.
Li bem umas cinquenta páginas no caminho, guardando o livro quando
estava perto da estação de Manhattan, descendo no mesmo ponto de sempre e
andando os poucos quarteirões dali até o campus da Lucille, como fazia todos
os dias, desde que começaram as aulas, em setembro. No começo, eu ficava
nervosa, olhando em volta o tempo todo, apressava o passo por qualquer
coisinha. Agora já havia se tornado rotina, e isso era um progresso bem
grande no meu tratamento.
Passei pelos portões da Lucille, seguindo até o prédio de atuação.
Estava me sentindo corajosa hoje, então até acenei para umas duas pessoas, e
respondi o “oi” de um novato. Eram raros esses dias, mas eu gostava quando
aconteciam.
Hoje não teríamos a primeira aula, por causa do anúncio, então
caminhei pelos corredores até a porta do nosso auditório de audições. Já
estava meio cheio, e eu encontrei um lugar em uma das fileiras do meio,
ficando com a mochila no colo para não ocupar um lugar a mais com ela.
Não tinha amigas de fato para ficar perto, mas Anne, a garota que sentava do
meu lado em uma das aulas, veio sentar do meu lado, me desejando boa
tarde.
Cumprimentei-a, usando um dos meus sorrisos ensaiados, aqueles que
eu dava no dia a dia, não totalmente espontâneo, mas o bastante para ser
educada. E então os três professores responsáveis pela peça entraram no
palco do auditório, e todo mundo se calou quase que no mesmo instante. Eu
não era a única ansiosa pelos resultados.
— Boa tarde, alunos — Louis, um dos professores mais velhos, se
pronunciou primeiro. Ele havia sido uma sensação do teatro quando era mais
novo, feito até duas peças na Broadway. Era uma honra o ter como professor.
— Imagino que estejam ansiosos pelos resultados, não é? Pois bem, não
vamos torturar vocês por mais muito tempo.
— A começar pelo papel de Carlos... — Erika, professora de drama
um, começou a falar. É claro que eles deixariam Jonathan por último,
começando o anúncio pelos personagens terciários e secundários. Foi uma
narração enorme de nomes, e eu podia ouvir algumas comemorações da
plateia. No final, só tinham sobrado dois papéis, Liam e Jonathan. Ela
respirou fundo, fazendo suspense. — Foi uma decisão difícil, dois alunos,
que já eram nossa expectativa, ficaram quase empatados na luta pelo papel,
mas infelizmente só podemos ter um Jonathan, e ele será... Eric Swan!
Logan, você ficou com o papel de Liam.
O auditório explodiu em palmas, o próprio Logan estava contente pelo
colega, assobiando um “uhuul”. Fiquei feliz com o resultado, Eric era
simpático e extremamente talentoso, daria um Jonathan maravilhoso. E se eu
fosse escolhida como Bianca, o que eu duvidava, particularmente iria preferir
trabalhar com ele ao Logan, Eric e eu tínhamos sido postos como dupla num
trabalho no começo do semestre e ele foi simpático com a minha timidez.
— Ok, ok, sabemos que estão felizes. — A terceira professora, Miryan,
deu um sorriso enorme para nós. — Como sabem, os resultados dos papéis
femininos, incluindo o de Bianca, serão divulgados amanhã. Mas algo que
vocês não sabiam, é que divulgaremos as finalistas hoje, e faremos um teste
de química com nosso Jonathan. Eric, se puder nos fazer a gentileza de vir até
o palco.
Arregalei os olhos, sentindo meu corpo inteiro gelar, ouvindo os
sussurros pelo auditório. Ninguém esperava por aquilo. Fazia sentido, a
maioria dos elencos sempre escolhe um dos protagonistas e faz testes de
química para o resto, mas normalmente isso é avisado. Engoli em seco,
sentindo o medo de já ser descartada logo hoje.
— Os nomes que eu chamar, por favor, se dirijam até os bastidores.
Luane Johnson, Caroline Fisher, Isabella Freeman e Alice Rogers. O resto de
vocês, já para a aula. — Foi Erika quem chamou os nomes, e eu senti meu
corpo pesar ao ouvir o meu no final. Engoli em seco, sentindo Anne cutucar
meu braço. Me virei para ela.
— Boa sorte. — Ela sorriu e eu assenti, sem encontrar minha voz para
dizer obrigada. Segurei firme a minha mochila e me levantei, caminhando
devagar até a escada lateral do palco, indo me reunir com as outras três nos
bastidores.
Luane e Caroline eram morenas como eu, a primeira com a pele mais
dourada, e Isabella era uma ruiva daquelas que se vê em capas de revistas e
letreiros de Hollywood. Eu era a única do grupo que estava acima do peso
padrão. Respirei fundo, dando um sorriso nervoso para elas. Só Caroline
respondeu, sorrindo de volta.
E então a segunda audição começou. Cada uma de nós ganhou uma
folha com um trecho de alguma cena, e nos deram alguns minutos de
preparação. Foram nos chamando por ordem alfabética de sobrenome, então
eu fui a última. Eu poderia ter ficado feliz por ter tempo a mais para me
preparar, mas em vez disso, eu fiquei ansiosa e com medo de ter que superar
as três que foram antes de mim. Por sorte, eu conhecia a cena que ganhei, era
pouco depois da que eu mostrei a Hector, domingo passado. A cena da
reconciliação.
Meu nome foi chamado, e eu vi de relance as outras três garotas na
plateia. Respirei fundo, me aproximando de onde Eric estava.
— Nervosa?
— Bastante — admiti, vendo-o sorrir.
— Deixe sua Bianca interior aparecer. Respire fundo... boa sorte. —
Ele era bem amigável.
— Podem começar — Erika avisou, e eu respirei fundo duas vezes,
entrando na personagem. Eric começou, a primeira fala era do Jonathan.
— Bia? Eu... me desculpa, tá? Eu não devia ter explodido, não devia ter
te chamado de... não vou nem repetir, eu devia ter te entendido.
— E você alguma vez já me entendeu, Jonathan?! — Li rapidamente as
falas, transmitindo emoção na voz. Tinha tido um tempinho de memorizar um
pouco, ao menos tinha essa vantagem. — Alguma vez você se importou com
algo além de você mesmo?
— Com você. Sempre me importei com você, desde que te conheci no
ensino médio, e me importo mais ainda agora que eu sei de tudo. Eu reagi
mal, eu te tratei mal, mas me desculpa, por favor. — Ele deu um passo à
frente. — Você tem noção do quanto eu te amo? Do quanto eu nunca deixei
de amar?
— Se me amava tanto... — Fiz uma pausa, como imaginei que Bianca
faria, tomando fôlego num soluço de choro artístico. — Se me amava tanto,
por que foi embora? Eu podia ter ido com você atrás das gravadoras, podia
ter te seguido na estrada quando fizesse os shows... por que não me procurou
depois? Por que esperou que o destino viesse com essa chance aleatória de
me ver de novo, por acaso? — A emoção na minha voz foi crescendo, e era
como se as emoções de Bianca fluíssem por mim, eu não era mais Alice
nesse momento.
— Eu achei que você teria seguido em frente! Bianca, se eu tivesse
alguma noção do que aconteceu, do bebê... — Ele se aproximou mais e sua
mão estava no meu rosto. — Me perdoa pelo outro dia. Eu sei que você não
teve escolha, sei que foi culpa minha. Me perdoa por tudo, pelos erros do
passado e do presente... me dê uma última chance.
— Jonathan...
— Só mais essa chance, e eu juro nunca mais desperdiçar seu tempo se
der errado. Por favor... — E então seria a cena do beijo, mas Erika nos parou
antes, a voz estridente nos tirando do personagem.
— Muito bem, acho que já vimos o bastante. — Ela anotou algo na
prancheta, enquanto eu e Eric nos afastávamos e eu voltava a ser a Alice
medrosa e ansiosa de sempre. — Estão todos dispensados. — Ela não ergueu
os olhos da prancheta. Suspirei, indo pegar minha mochila nos bastidores, e
quando voltei as meninas já tinham saído, mas Eric estava me esperando.
— Você foi muito bem. A melhor das quatro, se minha opinião valer de
algo. Elas não tiravam os olhos do papel.
— Tive tempo de vantagem. — Dei de ombros e começamos a andar
para fora do auditório. — E essa cena é logo depois do meu monólogo da
primeira audição, então eu já conhecia.
— Sortuda. — Ele sorriu. — Eu fiz a audição com a cena dele narrando
no começo, contando a versão do que aconteceu. Deu certo. Você ajudou a
escrever, né? Sei que foi feito pela sua turma a maior parte. — Ele estava uns
dois semestres à frente que eu. Assenti.
— Ajudei, um pouco. Eu dei a ideia de fazer a base dos anos separados
por causa de um livro que li. Eu queria ter dado a ideia de fazer a peça do
livro em si, mas além de precisarmos de um roteiro original, eu tive vergonha
de mandar um e-mail para a autora pedindo autorização.
— Ainda assim, ficou ótima. Agora, eu não entendi ainda por que o
título Espelhos.
— Os dois são espelhos um do outro. Os erros dele agora, foram dela
no passado; os medos dela agora, foram dele quando se afastaram. Os dois
passam pelos mesmos sentimentos, em momentos diferentes. — Dei um
sorriso pequeno. — Minha sala é ali. — Indiquei a porta 315, parando
quando chegamos.
— Boa sorte amanhã. Eu e Rob vamos torcer por você. — Rob... tentei
me lembrar do que ouvia nos corredores, acho que era o ficante ou colega de
quarto de Eric. Não tinha certeza.
— Obrigada. — Sorri, entrando na sala em seguida. A professora ainda
não havia chegado, e ninguém notou minha presença, enquanto eu ia
quietinha até minha cadeira habitual. Aproveitei que tinha um tempinho e
digitei uma mensagem rápida para Hector.

A: Sou finalista pro papel. Teve audição final de surpresa. Depois conto
tudo.
H: Me liga depois do jantar.

Sorri, desligando a tela quando a professora entrou e começando a


prestar atenção. Essa aula era teórica, história do teatro, mas eu gostava, era
uma das únicas que assistia enquanto a maior parte da sala cochilava ou fazia
outras coisas. O resto do dia passou rápido, meus pensamentos voando para o
resultado amanhã. Eu nem pensei que teria qualquer chance, e agora era uma
das quatro finalistas. Mesmo que não ficasse com o papel, já tinha sido uma
conquista e tanto chegar tão perto.
Voltei andando, distraída, pelas ruas até o metrô, e me deixei distrair a
mente no livro que estava lendo até chegar em casa, acompanhando as
aventuras da mocinha apaixonada pelo libertino cavalheiro. Como sempre, já
estava começando a escurecer quando cheguei em casa, destrancando o
portão e dando tchauzinho para a senhora Jones, que regava as plantas da
varanda.
Subi até o apartamento, quase morrendo com as escadas. Morei aqui a
vida quase toda e ainda não me acostumava e ficar subindo escada.
— Mãe, cheguei!
— Estou no quarto! — minha mãe gritou de volta, e eu andei até lá,
vendo-a na máquina de costura. Ela fazia roupas e remendos para ajudar,
quando não estava trabalhando na lanchonete. — Como foi seu dia?
— Começou muito bem. Sou uma finalista para o papel de Bianca,
fizeram uma segunda audição com teste de química com o Jonathan
escolhido.
— Quem ganhou?
— Eric. Fiquei feliz, mais fácil criar química com ele do que com
Logan, que nunca nem conversei. — Me joguei na cama dela, chutando as
sapatilhas para fora dos pés.
— É um bom sinal. Você vai conseguir. — Ela sorriu, desligando a
máquina e se levantando. — Está com fome?
— Uhum. O que tem para o jantar?
— Carne com batatas. — Me levantei e fui seguindo-a até a cozinha,
me sentando no balcão livre enquanto ela esquentava a comida. — Sua vó
mandou perguntar como andam as coisas com Hector.
— Fiquei de ligar para ele depois do jantar. — Sorri, e ela ergueu uma
sobrancelha.
— De novo?
— Sim. Gosto de falar com ele.
— Deve gostar mesmo, você odeia ligações! — Ela riu, desligando o
fogo. — Pegue um prato. — Obedeci, indo até o fogão e me servindo. — Só
tome cuidado, minha filha. Não quero que se machuque no final, já achei
arriscado demais ter mostrado os cortes a ele.
— Ele não me julgou, mãe. Ele me olhou com tristeza e carinho, mas
nenhum traço de nojo. E me abraçou. E pensa pelo lado bom, agora tem mais
alguém na luta pra que eu pare. — Por falar nisso, tirei o casaco, deixando no
encosto da cadeira, voltando a comer.
— Como estão os das pernas?
— Melhores. Estou passando a pomada direitinho, e não fiz mais
depois. — Era mentira. Semana passada eu fiz alguns arranhões, na véspera
da primeira audição. Tinha ficado nervosa e ansiosa demais, precisava do
meu “calmante”. Quando estava bem, como hoje, eu me sentia ridícula, e
muitas vezes me julgava ao ponto de ficar mal e precisar cortar de novo para
aliviar o sentimento. Mas ao menos os últimos não foram fundos.
— Ótimo. Rumo ao novo recorde, não é?
— Sim. — Dei um sorriso desanimado, acabando de comer e indo lavar
logo meu prato. — Vou para o meu quarto.
— Diga a ele que sua vó mandou um oi — mamãe disse, enquanto eu
colocava o prato no escorredor e praticamente corria até o quarto no final do
pequeno corredor. Peguei o celular, clicando no nome dele e deixando no
viva voz, me deitando com o celular ao lado. Ele atendeu depois de três
toques.
— Boa noite, deusa.
— Boa noite. — Me virei de bruços, ficando de frente para o celular.
— Como foi seu dia?
— Parado. Nenhuma reunião, nenhuma emergência... o mais
interessante que aconteceu no hotel o dia todo foi um garotinho que teimou
que um outro hóspede era algum personagem de um filme infantil. Não
prestei atenção em qual. — Eu quase podia vê-lo dando de ombros. — E o
seu? Falou algo de uma audição surpresa.
— De última hora, chamaram quatro finalistas à Bianca para um teste
de química com o Jonathan, no caso, Eric. E amanhã vão dar o resultado.
— Teste de química, hein? Se fosse comigo, o papel já era seu. — Eu
conseguia sentir pela voz que ele estava dando um sorriso, me fazendo dar
uma risada baixa.
— Se fosse com você, nem precisaria de audição, seria só olhar para
nós dois juntos. — Suspirei, com saudade de tê-lo pertinho. Semana passada
foi corrida, e esse fim de semana ele teve que viajar para resolver algo no
hotel, em Atlantic City, e precisou ficar lá até ontem.
— Acha que conseguiu o papel?
— Não sei. As outras três também eram muito boas, mas Eric disse que
está torcendo por mim.
— Devo ficar com ciúme? — ele brincou, me fazendo rir baixinho.
— Acho que não. Não consigo me lembrar de jeito nenhum se ele é
gay, ele mencionou um Rob, mas não me vem à memória se é o ficante ou o
colega de quarto dele. De qualquer forma, não precisa se preocupar, eu só
tenho olhos para você. Bem, e para Rudy.
— Ladrãozinho de quatro patas. — Ele riu, e ouvir sua risada era como
o paraíso para mim. Eu estava gostando do rumo que as coisas estavam
tomando.
— Não fale assim com o meu bebê, não é culpa dele ser tão adorável.
— E eu não sou adorável?
— Não. — Dei uma risadinha, fazendo uma pausa. — Você é gostosão.
— Meu rosto queimou, mas nem metade do que queimaria se ele estivesse na
minha frente. Ouvi a gargalhada dele, e podia imaginar que estava
balançando a cabeça negativamente.
— Você é terrível.
— Nunca disse que não era — devolvi. Eu estava bem confortável com
ele, ainda mais ao telefone, e principalmente depois de tudo. Tinha se tornado
fácil ser eu mesma com ele, da mesma forma que eu era com Abigail e
Gabrielle.
— Queria te ver. Vou soar como um bobo se disser que estou com
saudade dos seus beijos?
— Então somos dois bobos, porque eu também estou com saudade dos
seus — admiti, gostando da forma leve e sincera com que ele tratava nossa
relação. — Vem me ver — convidei, mordendo meu lábio inferior, me
sentindo nervosa.
— Vou mesmo. Quando menos esperar, eu apareço na sua porta.
— Me avise antes, ou vovó me mata por não dizer a ela que você vinha.
Ela ficou caidinha por você. — Ri, me lembrando de vovó falando nele o
tempo todo, perguntando quando meu bonitão viria de novo.
— Pelo visto, o bom gosto é de família, então. — Eu imaginei aquela
piscadinha dele acompanhando essa frase. Fazia sentido.
— Engraçadinho. — Segurei o celular, me levantando da cama e me
espreguiçando. — Vou ter que desligar, já, já. Ainda preciso tomar banho e
me preparar psicologicamente para amanhã.
— Sabe que não importa o resultado, eu vou estar orgulhoso de você,
não sabe? Minha atriz prodígio. — Eu gostava do carinho que tinha na voz
dele quando dizia “minha” alguma coisa.
— Sei disso. E obrigada pelo apoio. E por me aturar falando só nisso,
há uma semana.
— Eu gosto de te ouvir falar, principalmente quando você se empolga
com algo. É como se eu pudesse ver você aqui, na minha frente, os olhos
brilhantes e o sorriso que você nem percebe que está dando. Linda demais.
— Ok, elogios demais, vou tomar meu banho. — Eu ficava esquisita
com elogios, nunca fui acostumada com eles. — Assim que disserem o
resultado, eu te mando uma mensagem.
— Não vou largar o celular o dia inteiro. — Eu pude sentir o sorriso
dele de novo. — Até amanhã, deusa.
— Até amanhã. Dê um beijo em Rudy por mim. — Sorri, desligando,
suspirando e me deixando cair deitada de costas de novo, encarando o teto.
Seria cedo demais se eu começasse a chamá-lo de “amor”? Eu queria
ter um jeitinho fofo de chamar ele também, mas não conseguia pensar em
nada além disso. Suspirei, levantando da cama e indo tomar logo meu banho,
lavando o cabelo com meu shampoo e condicionador de mel.
— Alice, já te falei para não lavar o cabelo antes de dormir... — minha
mãe me repreendeu ao me ver de pijama e com a toalha enrolada na cabeça.
— Vai acabar com cheiro de mofo.
— Sério que você vai acreditar naquelas teorias loucas de tia Ellen? —
Minha tia Ellen era casada com o irmão mais novo da minha mãe, só tinha
uns trinta anos e era completamente insana. Vivia querendo que eu perdesse
peso, mesmo que vovó brigasse com ela por me pressionar.
— Essa ao menos faz sentido. — Minha mãe deu de ombros, vindo
beijar minha testa. — Já vai dormir? Não são nem dez horas.
— Quero ver se amanhã chega logo. Já vou tomar os remédios e deitar,
torcer para não ter insônia de ansiedade.
— Vai dar tudo certo, você vai ver. — Ela sorriu, me deixando passar
para pegar a garrafinha de água, e voltei para o quarto, pegando meu porta-
comprimidos e despejando os de hoje na mão. Um era cor-de-rosa, o outro
era branco. Eu vivia esquecendo os nomes, já que não ficava com as caixas.
Peguei meu livro e desliguei a luz do quarto, acendendo meu abajur e
começando a ler um pouco, enquanto o sono não vinha. Estava morta de
ansiedade, mas o cansaço falou mais alto, e acabei dormindo ainda com o
livro nas mãos.

Acordei cedo. Bem cedo, mal eram oito horas. Eu sabia que ia passar o
dia bocejando, mas estava nervosa demais para conseguir dormir de novo,
então pulei da cama, de pijama mesmo, indo até a cozinha trocar minha
garrafinha de água de ontem por uma que estivesse gelada. Minha mãe já
estava na máquina de costura, e eu dei um tchauzinho para ela, voltando para
o quarto. Fiquei tentada a ligar para Hector e pedir para ele me distrair com
papo sobre negócios até a hora de almoçar e sair de casa, mas achei melhor
só falar quando já soubesse a resposta se, afinal, seria ou não Bianca.
Fiquei fazendo absolutamente nada até a hora do almoço, revirando
minha pequena estante de livros – eu lia a maioria por e-book, que eram mais
baratos, mas sempre que podia comprava algum em físico, como o que estava
lendo ontem. Troquei de roupa e almocei numa velocidade impressionante,
indo correndo para o metrô, gritando um “tchau, mãe” antes de sair. A
sensação que eu tinha era de que hoje os trens estavam indo mais devagar e
parando por tempo a mais em cada estação até Manhattan, mas sabia que era
por causa da ansiedade. Devia ter tomado um dos calmantes naturais à base
de maracujá que tinha em casa.
Quando finalmente parou na minha estação, eu fui a primeira a sair do
vagão, andando a passos apressados. Era Nova Iorque, ninguém acharia
estranho se eu corresse, havia sempre algum louco atrasado na rua, mas me
controlei para apenas andar rápido até lá. Fui uma das primeiras a entrar no
auditório, e fiquei descascando meu esmalte até os professores chegarem. E
então começaram os anúncios.
— Emma Green, como Jenna... — Foram passados de nome em nome,
e duas das finalistas já foram descartadas como secundárias. No final, só
havia Bianca restando, o que significava que uma teria o papel e a outra
ficaria nos bastidores. Estava entre mim e Isabella Freeman. — E o tão
esperado anúncio, que eu sei que é o único motivo da maioria estar aqui...
Bianca será interpretada por Alice Rogers.
Algumas pessoas aplaudiram, Eric gritou um sonoro “uhuul” em
comemoração, e eu estava de olhos arregalados e boquiaberta. O papel
principal era meu?!
— Parabéns, Alice. — Anne sorriu, e eu nem tinha percebido que ela
tinha sentado ao meu lado de novo.
— Obrigada... — Eu estava sem reação. Professor Louis chamou todos
os selecionados para irem pegar os roteiros completos e revisados, e notificou
que estávamos dispensados do resto das aulas dessa semana para
memorizarmos as falas, e que a partir da próxima teríamos ensaios segundas,
quartas e sextas, após a aula. Andei até lá devagar, segurando as mangas do
casaco que usava, uma blusa xadrez de flanela, e peguei o roteiro onde as
minhas falas estavam grifadas em marcador amarelo.
— Eu disse que você tinha sido a melhor. — Eric se aproximou de
mim, com um garoto ao seu lado, de mãos dadas. Ah, então Rob era o
ficante, mesmo... talvez até namorado. Fofos.
— Eu ainda não estou acreditando... ah! — Lembrei-me da promessa
que fiz a Hector e peguei o celular, digitando bem rápido as palavras “Eu
ganhei o papel!” e enviando.
— Pois acredite, Bianca. — Ele sorriu, pegando o roteiro com as falas
grifadas em azul. — Boa sorte para decorar tudo isso em uma semana...
— Para você também. Ao menos, temos a semana livre para fazer isso.
— Sorri, sentindo a alegria começar a surgir dentro de mim. Eu tinha
conseguido!
— Isso. Te vejo segunda?
— Uhum — assenti, pela primeira vez sorrindo de verdade dentro da
faculdade, e não um sorriso automático.
Dei um tchauzinho para ele e Rob, e comecei a descer as escadas
laterais, meu roteiro enorme nas mãos, indo em direção à saída lateral do
auditório. Estava quase saindo, quando ouvi a voz de Isabella.
— Ela é uma vagabunda, isso sim! Ouvi Emma contando a alguém que
a viu no quarto daquele rico que veio dar aquela palestra. E pensar que ela
“ganhou” o tal sorteio do fim de semana... devia ser tudo combinado. E não
duvido nada que ela tenha chupado Louis para ganhar o papel, vagabunda
uma vez, vagabunda sempre e... — Ela percebeu que eu estava parada,
ouvindo-a falar, e deu uma risada cruel, daquelas que eu conheci bem no
ensino médio. — E então, vadiazinha, valeu a pena chupar saco de velho para
tirar o papel de mim?
— Eu não...
— Ah, vai se foder com esse papinho de menininha quieta e inocente.
Você é uma vagabunda, que não sabe nem atuar direito. Ou, por acaso, seu
namoradinho rico que pagou para te colocar na peça? Ele, eu chuparia sem
problema nenhum por um papel...
Ela ainda estava falando e rindo quando eu dei às costas e saí andando,
começando a correr assim que saí do auditório. Corri até chegar ao metrô,
tentando com todas as forças não chorar, minha respiração ficando pesada e
dolorida enquanto eu enfiava as unhas nas palmas das mãos, procurando
alguma dor, enquanto não chegava em casa para me aliviar nas lâminas.
A pequena viagem passou como um borrão, os sinais de crise
aparecendo, e subi as escadas quase me arrastando, caindo no choro na
metade, e quando abri a porta de casa, eu desabei.
Eu não consegui segurar um sorriso grande e orgulhoso quando recebi a
mensagem de que Alice tinha conseguido o papel. Eu hoje estava no Empire
de Atlantic City de novo, tudo porque eu fui burro de cair no papinho de
Ethan, de que seria uma boa ideia abrir um cassino no hotel. Devia ter
escutado Roman dizer que era uma péssima ideia e que cassinos davam
trabalho na mesma medida que davam lucro, e vez ou outra dava prejuízo,
principalmente para nós que não éramos do ramo, mas o imbecil aqui se
deixou levar pela conversa de Ethan que daria certo, e agora eram viagens
direto pra supervisionar o começo e os problemas com apostadores
revoltados. Aparentemente, o gerente não sabia se virar sozinho.
E era uma viagem de duas horas de carro de Atlantic City até Nova
York, viagens essas que eu e Nick já poderíamos fazer de olhos fechados.
Fim de semana passado, eu até o dispensei e vim sozinho, aproveitando para
correr um pouco atrás do volante. Queria ter trazido Alice comigo, mas sabia
que ficaria ocupado demais e não teria muito tempo para ela, então preferi
não. Era melhor esperar para que nossa primeira viagem juntos fosse mais
tranquila.
Eu estava no meio da reunião com o gerente quando a mensagem dela
chegou, a notificação com o som diferente do toque geral. Só ela e minha
família tinham esse toque diferente, fazia isso pra saber quando podia ignorar
e quando não podia.
— Desculpe, prossiga. — Desliguei a tela, voltando a olhar para o
gerente. O homem tinha uns quarenta anos, se chamava Marshall Stein, e
entendia tão pouco de cassinos quanto eu.
— Como eu ia dizendo, precisamos de mais seguranças.
— Por mim, fecharíamos o cassino e faríamos, sei lá, uma ala de bingo
para idosos de férias, uma ala de lazer, um salão para casamentos... qualquer
coisa normal e que saibamos como lidar. — Bufei, querendo sair logo dali.
Não aguentava mais um problema novo por dia com aquele cassino.
— Mas veja, o cassino tem grande potencial. O problema é que
precisamos urgentemente de alguém com experiência no ramo... um gerente
só para a parte do cassino, enquanto eu cuidaria da parte da hotelaria.
— E aonde vamos achar alguém com experiência em cassinos e
paciência para lidar com essa bagunça que fizemos? Aqui não é Vegas, por
mais que tente ser. Não vai ter um mestre de jogos em cada esquina
esperando por ser contratado. — Eu queria ir embora. Já queria ir desde
quando cheguei, antes do almoço, e agora que havia recebido a mensagem de
Alice queria mais ainda voltar para Nova Iorque e surpreendê-la com uma
visita de parabéns. Mas em vez disso, eu estava preso aqui, resolvendo um
problema que era culpa de Ethan. Ok, a culpa era minha por levar algo que
ele diz a sério.
— Chegamos ao ponto que eu queria. Tenho um primo que trabalha em
Vegas, gerente de hotel também, e ele conhece um agente de cassinos que
não cobra um preço muito alto, e quer vir para a costa leste.
— Qual o preço dele?
— Bem...
— Quer saber, não importa. Se for razoável, pode contratar para um
período de experiência, qualquer coisa que me livre de ter que ficar vindo pra
cá o tempo todo. — Eu raramente reclamava ou me irritava no trabalho, mas
já estava impaciente com tudo isso. E ansioso para ver Alice. Stein ergueu
uma sobrancelha, dando um sorriso.
— Quem é a garota? Eu trabalho com ricos e hoteleiros há muito
tempo, senhor Vanslow, e a única coisa que deixa sua espécie ansiosa para
largar uma reunião de negócios, é mulher. — Ele riu, daquele jeito que os
mais velhos riem quando querem mostrar que conhecem a vida. Fiz uma
careta, mas acabei rindo um pouco. — A mensagem que recebeu foi dela, não
foi? Nem tentou esconder o sorriso.
— Sim. Ela é atriz, e conseguiu o papel que queria numa apresentação.
Não me leve a mal, mas eu preferiria passar o resto da minha tarde e a noite
comemorando com ela do que discutindo esse projeto estúpido de cassino
com você.
— Entendo perfeitamente. Vou entrar em contato com o meu primo, e
pedir para que o tal agente entre em contato comigo. Mando um e-mail para o
senhor confirmando antes de fechar qualquer negócio, e evitamos que precise
vir até aqui de novo. Melhor assim?
— Bem melhor. — Sorri, afastando minha cadeira da mesa e me
levantando, vendo-o fazer o mesmo. — E me perdoe o mau humor, é que eu
realmente não aguento mais esse cassino.
— Bastante compreensível. — Ele deu um tapinha no meu ombro,
sorrindo. — Vá encontrar sua garota.
— Você é casado, Stein? — perguntei, enquanto entrávamos no
elevador.
— Sou. Felizmente casado há quinze anos, e tenho dois filhos. Minha
esposa está em casa me esperando, provavelmente tão ansiosa quanto a sua
garota, e odiando esse cassino tanto quanto nós. — Ele riu, e eu balancei a
cabeça.
— Quinze anos... meus parabéns.
— Obrigado. Um conselho não solicitado: ame a sua garota como se
ela estivesse prestes a ir embora, e ela nunca irá. — Ele deu um daqueles
sorrisos de quem entende do assunto e saiu do elevador, me deixando sozinho
com seu conselho. Parando para pensar, fazia bastante sentido. As pessoas
tendem a amar com mais força quando estão prestes a perder quem amam. Se
amassem assim, desde o início, não correriam o risco.
Fiquei com isso na cabeça enquanto descia no estacionamento e ia até o
meu carro. Nick havia tido um problema familiar e eu o liberei do serviço
hoje, então eu mesmo tinha dirigido até aqui. Entrei no carro e dei a partida,
entrando na rodovia e enfiando o pé no acelerador. Chegaria a Nova Iorque
bem quando Alice normalmente saía da aula, daria tempo de estar esperando-
a com flores para a parabenizar. Senti um aperto no peito, daqueles que
minha mãe chamava de pressentimento, e estranhei. Eu raramente tinha um
pressentimento de algo.
Dei de ombros e continuei a dirigir, aproveitando que ao menos a
rodovia estava limpa e indo no limite de velocidade permitido, ameaçando
ultrapassar um pouco às vezes. Quando entrei na zona metropolitana, só tinha
gastado uma hora e quarenta. Só dependia do trânsito agora para chegar à
casa dela. Bem, do GPS também, havia decorado o endereço, mas não como
chegar lá.
Parei na primeira floricultura que encontrei no caminho e peguei um
buquê de rosas vermelhas, do tipo de clichê romântico que eu imaginei que
ela gostaria, e com mais alguns minutos estava estacionando na rua dela.
Desci do carro, pegando o buquê e vendo a senhorinha do segundo andar me
observar da varanda. Parei em frente ao portão, suspirando. Como
surpreendê-la sem tocar a campainha? Ergui meu olhar.
— A senhora poderia...
— Está aberto, querido — a senhorinha gritou lá de cima, os olhos
atentos, adivinhando a pergunta que eu faria.
— Obrigado. — Sorri, abrindo o portão e subindo as escadas até o
segundo andar. Parei em frente ao apartamento dela, respirando fundo e
batendo à porta. Precisei bater de novo, ouvindo barulhos vindo lá de dentro,
mas ninguém vinha me atender. Bati uma terceira vez, até que a mãe dela
abriu a porta, uma expressão estranha no rosto.
— O que... ah, Hector. Olhe, essa não é uma boa hora... — Ela olhou
por cima do ombro, suspirando e se virando para mim. — Alice não está
bem. Agora, se me der licença...
— Não está bem? O que aconteceu? — Meu peito pesou na hora, mil
possibilidades horríveis me passando pela cabeça.
— Isso é coisa de família, por favor, vá embora e... — Ouvimos um
grito vindo do fundo do corredor, e ela esqueceu minha presença ali,
correndo naquela direção. Não pensei nem por meio segundo antes de correr
atrás, jogando as flores no sofá quando passei por ele.
O final do corredor dava no quarto de Alice. E o que eu vi ali me cortou
o coração, ela encolhida no chão, com um corte profundo no antebraço, logo
abaixo do cotovelo, chorando de forma desesperada e segurando a lâmina
contra o pulso, as mãos tremendo. A mãe dela arfou em choque, e eu tive que
pensar rápido. Qualquer palavra errada aqui poderia ser fatal, e eu não
suportaria vê-la... Não, não iria nem pensar nessa possibilidade.
— Alice, filha... — a mãe dela começou, a voz de quem queria chorar.
— Não! — ela gritou, a mão que segurava a lâmina tremendo mais. —
Eu não... eu não sou... não é justo... — Ela parecia falar sozinha entre os
soluços do choro, e eu engoli em seco. Eu sabia que ela teria crises, sabia que
a situação poderia ficar pesada, mas não pensei que seria tão cedo, e que seria
assim. Era muito mais assustador na prática. — Eu só... chega...
— Ei... — comecei, e ela levou um susto com a minha voz, erguendo o
olhar. E então o choro aumentou. — Ei, está tudo bem... olhe pra mim. Vai
ficar tudo bem... — Eu mesmo não conseguia acreditar completamente nas
minhas palavras, mas precisava mostrar confiança. Qualquer tropeço seria
perigoso demais. Dei um passo pequeno para a frente. — Eu estou aqui com
você. Você vai ficar bem, ainda não é o fim.
— Chega... dói demais... — Ela mal conseguia encontrar ar para falar
entre os soluços, o rosto vermelho de uma forma totalmente diferente da que
eu achava linda e com que eu sonhava acordado. — Chega...
— Alice... Deusa... vamos conversar. Solte isso, deixa a gente cuidar
desse machucado... — Era difícil encontrar as palavras sem ter a mínima
noção do que havia acontecido, e eu estava apavorado. A ideia de tão
facilmente perdê-la se tornou meu novo maior medo. Me aproximei mais,
ficando a uma distância segura e me agachando perto dela, estendendo a mão.
— Vem cá.
— Não... você não sabe... elas... que eu... tudo de novo... — Ela ficava
mais vermelha quanto mais se esforçava para encontrar ar para falar. Mantive
a mão estendida, meus olhos nos seus, tentando quebrar aquela barreira
perigosa. A mãe dela se aproximou, parando atrás de mim.
— Filha, você não está sozinha. Estamos aqui. — Ela encontrou a
própria voz, que falhou um pouco. Alice afastou a lâmina do pulso, apenas
um pouco, como se começasse a mudar de ideia.
— Confia em mim. Deixa a gente te ajudar, isso vai passar. — Ela
ficou em silêncio, olhando do pulso e do corte aberto para a minha mão,
várias vezes. E então o choro mudou, os olhos dela se arregalando, clareando
como se finalmente me reconhecessem.
— Hector... — Ela soluçou, os dedos se abrindo e soltando a lâmina, as
mãos tremendo. Ouvi a mãe dela respirar e a puxei para os meus braços, a
segurando contra o meu peito, respirando de verdade pela primeira vez desde
que entrei ali, mas não estávamos fora de perigo ainda. A mãe dela passou
por nós mais rápido do que eu pensei ser possível, pegando a lâmina do chão
antes que Alice a procurasse de novo. Ela continuou chorando, e eu sentia o
braço dela sangrando na minha roupa, mas essa era a menor das
preocupações.
— Shh, está tudo bem, você vai ficar bem. — Beijei os seus cabelos,
tentando passar algum conforto, e a mãe dela se abaixou ao nosso lado,
tocando suas costas com cuidado, como se fosse quebrar.
— Filha... precisamos tratar desse corte... está sangrando muito — ela
falou baixinho e Alice apertou mais a mão direita na minha camisa, o outro
braço estendido ao lado do corpo. — Vem, deixa a gente te ajudar.
— Por favor, deusa — pedi, e ela ergueu o olhar para mim, o choro
agora silencioso, as lágrimas rolando pelo rosto numa visão que me partia a
alma.
— Eu... — ela assentiu, mas não me soltou, então eu envolvi a cintura
dela e passei um braço embaixo de suas pernas, a erguendo no colo. A mãe
dela me apontou o banheiro e eu a carreguei até lá, colocando ela sentada na
borda da banheira.
— Vamos limpar isso, ok? Sabe me dizer qual toalha eu posso usar? —
Ela fez um gesto com o queixo para uma toalha vermelha pendurada atrás da
porta, que eu percebi que já tinha algumas manchas escuras. Aquilo também
me doeu no peito, mas me mantive forte por ela. Peguei a toalha e a molhei
na pia, me aproximando de Alice. Eu não entendia quase nada de primeiros
socorros, mas o que sabia teria que ser o bastante. — Vou estancar o
sangramento, ok? Vai arder um pouco.
Ela assentiu de novo, e eu segurei o braço dela por baixo, pressionando
a toalha contra o corte, ouvindo-a fazer um barulho de dor que soava como
um chiado. Queria poder a abraçar e aninhar, mas precisava fazer o
sangramento parar antes. O sangue havia escorrido pelo braço, criando trilhas
que morbidamente pareciam raízes, começando a secar em algumas partes.
Engoli em seco, continuando a pressão por algum tempo, sem saber quanto
seria suficiente.
— Pode... pode soltar. Já deve ter parado. — Ela fungou, finalmente
falando algo mais coerente, e eu assenti, afastando um pouco a toalha. Ainda
se formou uma bolinha de sangue no canto do corte, mas havia parado de
escorrer.
— Vou limpar agora, ok? — O que quer que tenha acontecido hoje,
entre a hora que me mandou a mensagem e a hora que eu cheguei, havia
machucado algo no fundo da alma dela, e eu queria me certificar de que ela
estaria bem com tudo o que eu fizesse.
— Armário — ela disse, e eu me virei, segurando sua mão, e abri o
armário, vendo uma caixinha sem tampa com todo o tipo de pomada,
antisséptico e material de curativo. Assenti, notando de relance que a mãe
dela estava nos olhando da porta, e peguei a caixinha.
Lembrei de quando Ethan precisou levar pontos por causa de um corte
no ombro, quando tentou pular uma cerca do nosso sítio no interior, e lembrei
de como minha mãe limpou tudo antes de o levar para o hospital. Primeiro,
molhei algumas gazes com água, vendo-a fazer aquele barulhinho de chiado
de novo, e me inclinei para beijar sua testa, voltando a passar a gaze com
cuidado sobre o corte, limpando o sangue que ainda estava acumulado ali e
em volta com bastante cuidado, me desculpando todas as vezes que precisava
esfregar um pouco onde o sangue já havia secado. Não parei até o braço dela
estar totalmente limpo, da cor de creme normal dela.
— Isso vai arder um pouco... mas precisa, ok? — avisei, enquanto
molhava outro pedaço de gaze com o antisséptico, um líquido laranja, e
apliquei em cima do corte. Ela deu um grito misturado com chorinho, e eu
estendi a outra mão para ela segurar, sentindo quando apertou meus dedos. —
Desculpe... eu sei que dói — murmurei, terminando e pegando um pedaço
limpo de gaze, prendendo com um esparadrapo em cima do corte. — Pronto.
— Me desculpa. — A voz dela soou tão baixa, tão partida, e eu a puxei
para os meus braços com carinho, beijando seu rosto.
— Shh, depois conversamos, ok? Você precisa trocar essa roupa e ir
deitar um pouco agora. — Não queria que ela chorasse mais, que sofresse
mais. Explicações podiam esperar. A mãe dela apareceu com um conjunto de
moletom cinza e deixou em cima da tampa do vaso. — Vou te esperar do
outro lado da porta, ok? Qualquer coisa que precisar, chame que eu ou sua
mãe, te ajudaremos.
Ela assentiu e eu beijei sua testa de novo, me afastando relutante e
deixando a porta do banheiro encostada quando saí. Não ouvi a tranca.
— Obrigada, por... pelo que fez. — A mãe dela suspirou, com lágrimas
nos olhos. — Não sei o que teria acontecido se não tivesse aparecido aqui
bem na hora.
— Não me agradeça. Por um momento ali, eu pensei... — Balancei a
cabeça, tentando afastar aquele pensamento. Ouvimos o barulho da pia sendo
ligada, e alguns instantes depois Alice saiu do banheiro, usando o moletom,
que tinha uma estampa de bicho preguiça na frente. — Como está se
sentindo?
— Um lixo. — Ela abaixou a cabeça, suspirando. — Eu sinto muito,
eu... por favor, não me odeiem.
— Te odiar?
— Filha... claro que não te odiamos. — A mãe a abraçou. — Vem,
você precisa descansar um pouco, pode ficar no meu quarto. — Ela andou
com Alice até a porta em frente a do banheiro, e eu as segui.
— Mas eu tenho que explicar e...
— Depois. Não tem pressa, o que importa agora é você ficar bem. — A
mãe dela e eu agora parecíamos em plena sintonia, e ela suspirou, se sentando
na cama. — Descanse, ok?
— Vai estar aqui quando eu acordar?
— Vou estar aqui sempre — sussurrei, beijando a mão dela com
carinho, me inclinando para beijar sua testa.
Ela assentiu, se deitando e abraçando um travesseiro, e quando saímos
do quarto, a mãe dela deixou a luz acesa, e a porta semiaberta. Segui com ela
até a cozinha, para não incomodarmos Alice com o barulho, e só então ela se
permitiu fraquejar, lágrimas começando a cair.
— Eu pensei que ela... que eu a perderia dessa vez... obrigada mesmo,
eu... — E então ela me abraçou, um daqueles abraços carinhosos de mãe,
muito parecido com os da minha.
— Está tudo bem, ela vai ficar bem. — Eu queria tanto acreditar nisso
de verdade. Queria ser capaz de magicamente tirar toda a dor que Alice sentia
e transferir para mim.
— Me desculpe por ter agido de forma desconfiada com você, semana
passada. — Ela se afastou, andando até a mesa, fazendo um gesto para que eu
me sentasse na outra cadeira. — Mas Alice já sofreu o bastante, eu não
precisava de mais um trauma na vida. Mas da forma como você cuidou dela
agora... você realmente gosta dela, não é?
— Mais do que a senhora imagina. Alice entrou na minha vida como
um furacão, ocupando espaços que eu nem sabia ter. Sei que só a conheço
mesmo há pouco mais de uma semana, mas a conexão que nós temos não é
algo que se encontra todo dia. Em vinte e sete anos, eu nunca havia
encontrado algo assim.
— Eu tive medo, quando você chegou hoje, de que reagisse mal ao ver
a situação dela e tudo piorasse mais ainda. Não são muitos que teriam a
calma que teve, eu mesma já estava me desesperando quando ouvi as batidas
na porta — ela admitiu, suspirando. — Alice é meu tudo. Desde que eu me
separei do pai dela, ela passou a ser o centro da minha existência, e a
felicidade dela é o que mais me importa. Me destrói vê-la nesse estado.
— No que depender de mim, a senhora não terá mais que lutar sozinha
com a doença dela. Eu vou estar com vocês — garanti, sentindo a verdade
daquelas palavras enquanto as dizia. — Sabe o que foi o gatilho hoje?
— Não faço ideia. Ela chegou da faculdade mais cedo, chorando, e
começou a entrar em crise, assim que pisou em casa, começando a tremer.
Antes que eu tivesse tempo de impedir já estava com a lâmina na mão,
encolhida no chão do quarto, dizendo “chega”, várias vezes. Talvez ela não
tenha conseguido o papel de Bianca, e isso tenha sido mais forte do que
esperávamos.
— Mas ela conseguiu. Me mandou uma mensagem no começo da tarde,
aqui. — Mostrei meu celular a ela, a mensagem alegre de Alice dizendo que
tinha conseguido. — Isso não faz sentido... algo deve ter acontecido logo
depois, mas o quê?
— Teremos que esperar até ela se sentir confortável em falar. O que
quer que tenha sido, foi forte... ela tem trauma de ser deixada de lado, ou de
ser insultada diretamente. Talvez alguém não tenha gostado dela como
Bianca.
— Talvez — concordei, passando as mãos no rosto, suspirando. Agora
que o susto havia passado eu me sentia como se tivesse corrido uma
maratona.
— Bom, eu vou limpar o sangue do quarto dela. Fique à vontade... você
agora é de casa.
— Obrigado — agradeci, tirando meu paletó que havia sido manchado
de sangue e o dobrando do avesso. Se Alice visse aquilo, se culparia, mas que
se foda o sangue, não me importaria em ficar coberto do que fosse, se
significasse salvá-la de novo.
Peguei meu celular e cancelei todo e qualquer compromisso para o
resto da semana. Não teria cabeça pra nada de qualquer forma, e daria um
jeito de vir visitá-la todos os dias, conferir se estava bem. Em uma semana,
eu sentia que tinha passado uma vida com ela, e em vê-la quase acabar com a
própria... realmente se apaixonar não era questão de tempo e, sim, de
intensidade.
Após algum tempo, a mãe dela voltou para a cozinha, fez um café que
tomamos em silêncio, e Milady veio quietinha cheirar os meus pés. Dona
Catarina me explicou que ela estava escondida, que sempre fica embaixo da
cama quando Alice tem crises, assustada. Não tinha muito o que ser dito
numa situação como aquelas, e Catarina me pediu para ficar de olho nas
coisas, enquanto ia até a casa da mãe, contar o que havia acontecido, antes
que ela aparecesse ali de surpresa.
Alguns minutos depois que ela saiu, Alice apareceu na entrada da
cozinha. Os olhos estavam inchados pelo choro, e ela se aproximou
devagarinho. Minha cadeira estava afastada da mesa, então ela em silêncio se
sentou de lado na minha perna e abraçou meu pescoço com força,
escondendo o rosto ali. A abracei de volta, fazendo carinho em seus cachos,
querendo cobri-la de calma.
— Sinto muito por você ter visto tudo aquilo. Queria que nunca
precisasse me ver naquele estado, que não precisasse... cuidar de mim. Sinto
muito. — A voz dela saiu baixinha, abafada pelo meu pescoço.
— Shh, não precisa se desculpar. Eu disse que não ia fugir, não disse?
— Beijei os seus cabelos, sentindo o cheirinho fraco de mel, e ela me apertou
mais nos braços.
— Minha mãe saiu?
— Foi falar com sua avó, já, já ela deve estar de volta — prometi,
abraçando-a, a aninhando junto de mim. Doía tanto vê-la naquele estado
frágil, tão diferente da garota viva e solta daquela última noite.
— Sabe... você pode ir, se quiser. Não precisa ficar comigo por pena,
por causa do que me viu fazer. Eu não te julgaria... — A voz abafada de
novo, tremendo, como se quisesse chorar.
— Alice, eu não estou com você por pena. Eu não seria baixo a ponto
de ficar se não gostasse mesmo de você, minha deusa. Lembra do que eu
disse, domingo, que estava me apaixonando? Aquilo continua sendo verdade.
Eu estou com você porque é importante pra mim. — A fiz se afastar do meu
pescoço e me olhar, encostando minha testa contra a dela. — Se meus
sentimentos mudarem, eu prometo te avisar, mas tenha certeza de que se eu
estou com você, se estou aqui te cuidando, é porque eu quero estar aqui.
— Desculpa — ela disse de novo, levando as mãos ao meu rosto,
fazendo carinho na minha barba. — Eu... posso te chamar de amor? Eu estava
pensando nisso ontem, mas achei que podia ser estranho. Mas depois disso...
parece bobeira ter me preocupado.
— Claro que pode, me chame como quiser. Menos de deus grego de
estátua. — Lembrei daquela conversa que tivemos, tentando tirar ao menos
um sorrisinho pequeno dela. Quase consegui, vendo-a assentir de leve. —
Isso me lembra que eu te trouxe flores, rosas vermelhas. Estão lá no sofá. —
Beijei a testa dela, demorando alguns segundos, grato por tê-la viva ao meu
lado. — Quer falar sobre o que aconteceu? Não precisa, se não quiser.
— Eu... eu ganhei o papel — ela começou com a parte que eu já sabia,
e eu assenti, esperando que continuasse. — E uma garota não ficou nada feliz
com isso. Ela... ela sabia que eu estava no seu apartamento, ouviu Emma
falando com alguém e... começou a me chamar de vagabunda. Dizer que eu
devia ter te... me vendido pra ganhar o voucher do hotel, e que não duvidava
que eu tivesse feito o mesmo com nosso professor e diretor de elenco pelo
papel. E o jeito que ela falou comigo doeu, doeu muito. Me fez sentir aquela
menininha maltratada do ensino médio de novo...
— Ah, minha Alice... não dê ouvidos a isso. Sei que é difícil,
principalmente no seu caso, mas ignore tudo o que ela disser daqui pra frente.
Você mereceu o papel de Bianca, e vai se sair incrivelmente bem. E eu vou
estar lá, na primeira fila, te aplaudindo de pé. — Beijei o rosto dela,
demonstrando todo o carinho que eu sentia. — Posso te pedir uma coisa? —
Ela assentiu. — Promete que se algo assim se repetir, você me liga antes de
tentar algo? Pode ser a qualquer hora, qualquer dia, em qualquer momento.
Assim que sentir os sinais de crise você me liga, corre para o hotel, o que for.
Só promete que vai fazer tudo o que puder pra evitar se machucar de novo.
— Eu já prometi isso tantas vezes... não quero quebrar uma promessa,
não com você.
— Então não quebre. E se algo acontecer, eu vou estar do seu lado para
juntar os caquinhos, ok?
— Ok — ela concordou bem baixinho, e me abraçou de novo. Ouvimos
a porta da frente abrir e ela ergueu a cabeça, os olhos marejando. — Mãe...
— Ela se levantou, indo abraçar a mãe, pedindo desculpas várias vezes,
enquanto a mãe apenas a reconfortava de que tudo ia ficar bem.
Desviei o olhar do momento das duas, e alguns minutos depois senti
uma mão no meu ombro. Me virei, já tendo reconhecido o toque de Alice, e
me levantei, a abraçando. A mãe dela sumiu pelo corredor nesse momento.
— Você precisa ir, né? — ela perguntou baixinho, o rosto contra o meu
peito.
— Sim, sinto muito. Prometo voltar amanhã pra checar como você está.
— Beijei o topo da cabeça dela, apoiando meu queixo ali em seguida.
— Ok. — Ela respirou fundo. — Não vou ter aula o resto da semana,
fui liberada pra poder memorizar as falas. Se quiser ficar vindo todos os dias,
pode até me ajudar a ensaiar. — Ela se afastou para me olhar, dando um
sorriso desajeitado, como se tivesse esquecido como se fazia. Eu conseguia
perceber a mudança dela da crise até agora, a forma como ela havia saído de
si antes.
— Sabia que esse era exatamente meu plano? Tenho uma semana leve
também, a partir de amanhã — menti sobre isso, não querendo que ela se
culpasse por me fazer cancelar minha agenda.
— Vou te esperar. — Ela ficou na ponta dos pés, beijando o canto da
minha boca com carinho. — Até amanhã, amor.
— Boa noite, deusa — sussurrei, erguendo seu queixo e beijando-a
devagarinho, dando um sorriso calmo ao me afastar. — Até amanhã.
E, muito relutante, saí do apartamento.
Todo o caminho até em casa, a imagem do braço dela aberto não saiu
da minha mente. A imagem continuou me assombrando enquanto eu subia o
elevador, enquanto eu entrava no quarto, e ainda mais enquanto eu lavava a
mancha no meu paletó, até ficar quase invisível. Suspirei, desistindo, mas ao
menos não estava mais perceptível que era sangue.
Tirei o resto da roupa e me enfiei embaixo do chuveiro quente,
abusando dos privilégios que tinha e demorando bastante, gastando litros e
litros de água até aquela sensação de peso nas minhas costas ao menos
diminuir. Sabia que não iria sumir nem tão cedo. Vesti o mesmo moletom
que tinha emprestado para ela aquele dia, me sentindo estranho.
Nunca tinha precisado me preocupar de fato com nada. A minha vida
toda eu sempre tive tudo, nascido em berço de ouro. Não precisava me
preocupar com comida, com as contas no final do mês, se quisesse qualquer
coisa que fosse era só comprar... Vantagens de se ter um pai multimilionário.
E em questão de relações... eu me preocupo com minha família, mas nunca
tive motivo para preocupação mesmo, até Ethan que era um caso perdido,
nunca fez nada que me fizesse ficar preocupado de fato com o bem-estar dele.
Só quando a ameaça era eu mesmo querendo esganá-lo.
E então Alice entrou na minha vida, e tudo mudou tão rápido que eu
mal era capaz de processar. Em uma semana e meia ela passou de garota dos
olhos tristes para minha deusa. Quando era mais novo realmente tinha essa
facilidade de me apaixonar, e sempre quis um compromisso sério —
inclusive, esse foi meu problema com Elisa, ela não queria —, mas nunca
havia sido tão forte, tão rápido.
Pela primeira vez, em vinte e sete anos de vida, eu tinha algo que
realmente poderia perder e que todo o dinheiro do mundo não seria suficiente
para resolver. E esse pensamento me aterrorizava. Suspirei, pegando Rudy do
chão e o colocando no travesseiro do meu lado, achando a cama vazia
demais. Meus pensamentos voltaram à crise dela, a forma como ela saiu
totalmente de si e pareceu até demorar a me reconhecer. Eu havia pesquisado
um pouco, não entendia quase nada além do que li e do que me lembrava de
um primo, mas aquilo parecia ser parte da tal borderline. A automutilação
era; e de acordo com alguns sites de psicologia, a borderline nascia de uma
depressão severa.
Eu sabia que não conseguiria dormir nem tão cedo, então peguei meu
telefone e disquei o número da única pessoa que eu sabia que não julgaria a
bagunça na minha mente e no meu peito. Meu irmão, Brian. Ele era o mais
sensível da família, e por mais que eu não fosse contar tudo de Alice — era a
privacidade dela — eu explicaria por alto a situação. Sabia que ele me
entenderia, ou ao menos se esforçaria para entender, então me recostei contra
a cabeceira da cama e esperei ele atender. Demorou cinco toques, então
imaginei que ele estivesse pintando.
— É bom ser importante, quase destruí um quadro que vai valer
milhares de dólares para caridade de Roman quando, do nada, o celular
tocou.
— Extremamente importante, então trate de largar os pincéis e deixar
para terminar isso outra hora.
— Sabe que se a tinta secar, não vai misturar direito, não sabe? — Ele
bufou do outro lado, e eu ouvi o barulho dos pincéis sendo deixados em
algum lugar. — O que foi?
— Não sei nem por onde começar, sendo sincero. Mas você é o único
da família tão babaca quanto eu pra essas coisas, então...
— Primeiro de tudo, eu não sou babaca em nada. Só quando se trata de
mulher e homem bonito... isso é sobre mulher, né? — Eu podia imaginar a
cara que ele fez.
— Sim.
— E lá vamos nós, sabia que um dia você se apaixonaria de novo, era
só questão de tempo. — Brian realmente fazia jus ao título de romântico
incorrigível da família. — Prontinho, irmão, estou muito bem sentado na
minha poltrona e pronto pro impacto do que quer que for me contar.
— Ok, começando do início... se lembra das palestras que eu fiz
durante duas semanas, no final de janeiro, aquelas que Roman arrumou? Mais
especificamente a primeira, na Lucille.
— Lembro. Conheceu ela lá?
— De certa forma, sim. Resumindo uma história longa, tinha uma
garota na fileira da frente, com olhos verdes e tristes, que ganhou aquele
voucher do sorteio da suíte master. Eu senti alguma coisa que não sei explicar
quando a vi, e na hora de entregar o voucher, a chamei para um café. Três
semanas depois, ela chegou à minha porta, dizendo que aceitava o café.
— Fofo. E aí, quem é ela?
— O nome dela é Alice Rogers, e ela é a garota mais linda e incrível
que eu já vi na vida. Você lembra o tipo que eu normalmente me interesso,
né?
— Olhos bonitos, plus size, cabelo cacheado...
— Ela se encaixa perfeitamente em cada um dos detalhes. E o sorriso...
— Suspirei, lembrando da gargalhada dela, tão espontânea e rara. — Por
mais raros que sejam os sorrisos dela, são a coisa mais linda que eu já vi em
toda a minha vida.
— Own... peraí, raros? O que foi, não sabe mais fazer uma garota
sorrir?
— Palhaço. Não é nada disso, queria eu que fosse por incompetência
minha... ela tem depressão.
— Ah.
— Pois é. Enfim, passamos o fim de semana que ela ficou no hotel
juntos, nos dois primeiros dias ela veio me ver, e no domingo até dormiu
aqui. Antes que pergunte, não, não fizemos nada de fato. Ela não enxerga a
beleza carrega e o poder que tem sobre mim... alguém a magoou muito no
passado. — Suspirei de novo.
— E você está caidinho por ela — ele deduziu, acertando como fazia
toda vez que o assunto era romance. Brian tinha um sexto sentido para isso.
— Mais do que caidinho. Estou completamente apaixonado, e só nos
conhecemos há uma semana e meia. Nunca me senti assim antes. Quer dizer,
você sabe da minha teoria sobre intensidade e não tempo e tudo mais, só que
nunca foi tão rápido assim e com uma força desse tamanho. Lembra-se de
Elisa? Não era uma fração do que é com Alice.
— Porra, tá pesado mesmo, hein.
— Sim. E hoje... hoje ela teve uma crise. Não vou entrar em detalhes,
isso é particular dela, mas foi pesado, e eu me peguei preso no medo da
possibilidade real de a perder. Nunca tive motivos para temer perder algo ou
alguém, mas agora... isso está fora do meu controle, e eu não tenho ideia do
que fazer.
— Cara, aí é foda. — Brian às vezes falava como se tivesse vinte, e não
vinte e cinco anos, mas ninguém se incomodava, afinal, Brian era Brian. —
Não vou pedir detalhes, mas essa crise dela... você estava lá?
— Sim. Por acaso, cheguei à casa dela bem na hora. Ela hoje tinha
conseguido um papel importante na peça semestral da Lucille, e eu fui direto
de Atlantic City pra casa dela, levei até flores. E quando eu a vi em crise, a
forma como ela fica... doeu saber que ela estava sofrendo e que eu estava de
mãos atadas, que não tinha como tirar aquela dor dela.
— Você realmente gosta da garota, hein?
— Sim. Você não tem a mínima noção do quanto. Parece loucura, em
tão pouco tempo, mas é como se ela já estivesse presa em mim, entrelaçada
como... sabe aquela lenda asiática, não me lembro de qual país exatamente,
do fio vermelho no dedo mindinho?
— Akai ito.
— Essa mesma. É quase isso, sabe. Foi uma ligação instantânea.
— Hector Daniel Vanslow acreditando em almas gêmeas... quem diria,
hein? — Ele riu, me fazendo revirar os olhos. — Mas falando sério, você
ainda não chegou ao ponto que queria. Por que ligou?
— Porque eu não sei o que fazer! Não sei como a ajudar, como tirá-la
desse poço que é a doença. Ela já está em tratamento, com remédios e tudo,
mas não parece ser o bastante, e eu...
— Você queria ser capaz de salvá-la, não é? — Brian completou, e eu
assenti, mesmo sem ele ver. Ele suspirou. — É estranho ter algo que não
podemos comprar ou pagar alguém pra fazer. São nesses momentos que ser
rico não serve de nada.
— Estava pensando exatamente isso antes de ligar, no quão inútil
podemos ser quando realmente importa. Eu daria de bom grado todo o meu
pequeno império de hotéis em troca de uma pílula mágica que fizesse a dor
dela sumir, mas não existe nada assim... você é o romântico da família, já se
sentiu assim alguma vez?
— Uma só, quando eu namorei com Alec, lembra? Eu era totalmente
doido por ele, mas acho que não chegou a ser tão forte quanto o que você
sente por essa Alice. Olha só, os nomes são parecidos. — Ele riu desse fato
aleatório, me fazendo revirar os olhos de novo. Brian às vezes perdia o foco
das coisas. — Enfim, você não vê as séries que eu recomendo, mas em How I
Met Your Mother tem uma cena em que eles usam duas palavras complicadas
em alemão pra definirduas formas de se apaixonar.
— Continue.
— Eu não lembro as palavras em si, não sei nem se existem de verdade
ou se foram criadas para a série, mas a primeira significa “tesouro do destino
ao longo da vida”, e a outra é “a coisa que é quase aquilo que você quer, mas
não totalmente”. Esse era Alec pra mim, eu acho. E pelo que você falou,
Alice é o seu tesouro do destino. Na série, o personagem diz que é algo
instantâneo, que te enche e te esvazia ao mesmo tempo, algo que você sente
no corpo inteiro...
— Você realmente decorou, hein.
— O que eu posso dizer, sou um caso perdido. — Ele riu. — Mas
voltando ao seu caso com Alice, e parando de falar coisas pra te confundir
ainda mais, você se sente pronto para encarar um relacionamento com ela e
todas as crises que podem vir, grandes e pequenas?
— Sim. — Não precisei nem parar e pensar, eu sabia que sim, que
estava pronto para o que der e vier ao lado dela. Depois do que vi hoje, não
havia mais dúvida.
— Então, pronto. Não vou dizer pra ir com calma ou não, vão no tempo
de vocês, mas vá sempre com o bem-estar dela em mente. Lembra daquele
projeto que eu fiz, no ano passado, naquela clínica psiquiátrica?
— Cacete, tinha esquecido. Sabia que tinha mais algum motivo pra ter
te ligado, além dos conselhos românticos baseados em série.
— Engraçadinho. Enfim, eu ainda me lembro de algumas coisas que
aprendi lá. Sim, minha função era só ensinar os pacientes a canalizarem o que
sentiam em alguma forma de arte, mas eu passava os intervalos na sala dos
funcionários e ouvia todo tipo de conversa. O que eu quero dizer é: descubra
os medos dela e faça questão de ser o oposto. Se ela tiver medo de escuro,
tenha sempre uma lanterna, e assim vai. Exemplo bobo, mas você entendeu.
— Entendi, sim. Garantir que ela se sinta segura comigo.
— Exatamente. Resolvi seu problema?
— Não totalmente, ainda não tenho como arrancar a dor dela e jogar
longe, mas ao menos estou mais calmo. Valeu, irmãozinho.
— Sirvo pra isso. — Pude ver o sorriso dele, e do jeito que Brian era
exagerado, eu não duvidava que ele faria uma reverência se estivesse aqui. —
E sabe que vai ter que me apresentar a garota eventualmente, não sabe?
— Sei disso. Estava pensando em levá-la para o evento beneficente no
Pallace, sábado que vem, se ela aceitar. Apresenta-la oficialmente como
minha namorada... se ela aceitar também. — Balancei a cabeça, suspirando.
— Se aceitar, dê um vestido de presente, ou melhor, leve-a para
comprar um vestido para o evento. Provavelmente ela vai gostar do mimo.
— Boa ideia. Aquela sua ex ainda trabalha naquela grife de alta costura
plus size... qual era o nome mesmo?
— Dreamsize. E, sim, Daphne ainda trabalha lá, inclusive se passarem
por lá digam que eu mandei um oi. — Brian era incrivelmente amigo de
todos os ex-namorados e ex-namoradas que tinha. E a lista não era pequena.
— Vou dizer. E vou te deixar voltar a pintar em paz, sua tinta já deve
ter secado a essa altura.
— Provavelmente. — Ele suspirou, e eu ri. — Me conte depois se deu
tudo certo, e chore no meu ombro se der errado.
— Apoio, não importa o fim?
— Apoio, não importa o fim — ele concordou, rindo. — Tchau. E boa
sorte.
— Tchau, irmãozinho. Boa noite. — Desliguei, rindo baixo, deixando o
aparelho no carregador sem fio ao lado da cama e me deitando, ouvindo os
roncos baixinhos de Rudy no meu travesseiro.
Ao menos a conversa com ele me poupou de ter pesadelos.

Já era o terceiro dia depois da crise, e eu havia ido visitar Alice nos
últimos dois dias, como prometido. Ela estava tomando mais um calmante,
além dos remédios normais por causa da crise, a mãe dela me explicou que
era um remédio extra que só usavam em casos extremos, então ela ficava
mais sonolenta que o normal, mas eu não me incomodava em vê-la cochilar
no meu colo, enquanto eu brincava com seus cachos. Catarina já estava
acostumada a me ver na casa, e quando as férias dela da lanchonete
acabaram, admitiu estar aliviada que eu estaria lá com Alice, enquanto ela
não estava.
Hoje eu acordei mais cedo, graças a um despertador que tinha
esquecido de desativar. Durante o resto da semana, como eu havia tirado
folga e estava eu mesmo dirigindo para a casa de Alice, consequentemente
Nick e June estavam de folga também. Ela havia adorado, dava mais tempo
para planejarem o casamento.
Não tinha nada para fazer em casa, e eu só iria para o Brooklyn depois
do almoço, e em pleno tédio me veio uma ideia. Aquele dia minha surpresa
das flores não deu certo, mas ela ainda merecia algo por ter ganhado o papel
de Bianca — no qual ela estava ficando ótima, ensaiando as falas comigo
quando estava acordada.
Desci até o térreo, indo dar uma olhada nas lojas perto do hotel em
busca de algo que ela fosse gostar. Pensei em comprar chocolates, depois em
mais flores, um colar com um pingente da letra A... considerei até uma
caneca personalizada escrito “Melhor atriz do mundo”, e quando já estava
quase comprando de tudo, eu vi a almofada.
Estava na vitrine de uma lojinha de aleatoriedades, era uma lua
crescente com várias mini almofadas em formato de estrelas acompanhando,
e eu achei perfeito, considerando o quanto ela dormia. Entrei na loja,
descobrindo que tinham várias opções de cores, mas peguei a azul-escuro,
minha cor favorita, diria para ela se lembrar de mim com a almofada. Pedi
que embrulhassem para presente, e colocaram a almofada grande e as
pequenas numa caixa, coberta com um papel cor-de-rosa e um lacinho
vermelho. Eu estava tão de bom humor que deixei uma bela gorjeta para a
moça da loja, que me agradeceu várias vezes enquanto eu saía.
Nem voltei para o apartamento, almocei na cozinha enquanto
conversava com Geralt sobre alguns pratos novos, ouvindo as risadas dele,
que me provocava com ameaças de contar aos meus pais da minha nova
namorada, se eu não contasse logo. Não adiantava, para ele eu sempre seria o
garoto de seis anos que queria aprender a fazer pão. Deixei a cozinha logo
depois de comer, indo pegar o carro. Já não precisava mais do GPS, e em
alguns minutos estava na casa dela, tocando a campainha do 32B. O portão se
abriu e eu subi as escadas, batendo na porta só uma vez e vendo-a ser aberta
por uma Alice de olhos brilhantes. Ela estava mais animada.
— Boa tarde. — Sorri, me inclinando para dar um selinho nela. —
Trouxe um presente. — Ergui a caixa, vendo-a arregalar os olhos, surpresa.
— É seu — incentivei, quando ela relutou em pegar a caixa a princípio, até
que ergueu as mãos, os olhos brilhando.
— Mãe! Hector chegou! — ela gritou para o interior do apartamento,
indo até o sofá com a caixa nas mãos e se sentando com ela no colo. Me
sentei ao lado dela, vendo Catarina aparecer pela entrada do corredor, já
pronta para sair.
— Boa tarde, querido... — Ela agora me tratava assim, como um filho.
Tudo o que aconteceu nos aproximou bastante, eu havia me tornado parte da
família. — O que é isso? — Encarou a caixa, se virando para mim, com o
olhar curioso.
— Um presente. Estou esperando Alice criar coragem de abrir —
brinquei, e a minha garota deu um sorriso. Pequeno, mas era um sorriso.
— Ok, vou deixar vocês dois discutirem se a caixa vai ser aberta e já
vou indo, antes que me atrase e seja descontado do meu salário, de novo. Até
mais, querida. Qualquer coisa, me liguem.
— Pode deixar — concordei, sabendo que nós dois esperávamos que
não fosse preciso ligar.
— Tchau, mãe. — Alice deu um tchauzinho para a mãe, voltando a
olhar de mim para a caixa quando ela saiu. — Hector, por que eu ganhei um
presente?
— Porque não tivemos a chance de comemorar propriamente você
conseguir o papel de Bianca. Vamos, abra. Acho que vai gosta — encorajei,
vendo-a morder o lábio inferior e concordar, começando a puxar o papel, e
então tirando a tampa da caixa, a boca se abrindo ao ver as almofadas. —
Como você precisa dormir bastante, pensei que isso poderia ajudar a se
lembrar de mim quando eu não estiver por perto, servir de travesseiro... O
que achou?
— Eu amei! — ela deu um gritinho, colocando a caixa do outro lado do
sofá e se atirando nos meus braços, me apertando. Senti meu peito se
aquecer, ela realmente estava em um dia bom. Ainda meio aérea por causa do
terceiro remédio, mas num dia bom. — Obrigada. — Ela começou a encher
meu rosto de beijos, me fazendo dar um riso alegre, enquanto fazia graça,
virando o rosto para lá e para cá, na tentativa de capturar seus lábios,
enquanto ela brincava de fugir dos meus.
— Está animada hoje. Aconteceu algo? — Eu tinha que perguntar. Ela
assentiu, dando um sorriso contido.
— Meu pai ganhou um bônus no trabalho, e vai vir me visitar este ano.
Ainda está vendo quando a passagem fica mais barata, o bônus não foi lá algo
grandioso, mas... ele virá. — Ela deu um sorriso maior, animada de verdade.
— E você vai poder conhecê-lo. Juro que ele, de bravo, só tem a cara. Já
contei a ele sobre nós estarmos tendo algo, e ele está ansioso em te conhecer.
Principalmente depois que... que mamãe contou o que você fez por mim,
aquele dia. — O sorriso murchou um pouco, e ela se ajeitou melhor, ficando
de lado no meu colo.
— Alice, isso é ótimo! — Sorri, beijando sua bochecha. — Mal posso
esperar para conhecer seu pai. Aliás, ainda não me disse o nome dele.
— Bill. William na verdade, mas todos chamam de Bill. — Ela deu de
ombros. — Ah, ele disse que vai te ameaçar um pouco, mas se você for “um
cara bacana”, vai te convidar para ir pescar um dia. — Ela deu um pequeno
sorriso, encostando a cabeça no meu ombro.
— E por falar em conhecer a família... eu tenho um convite a te fazer.
— Eu deveria ficar com medo?
— Depende. O que você acharia de ir a um evento beneficente comigo,
no Pallace? Vai ser a grande colaboração de Roman para o projeto das
crianças. Sexta que vem. — Eu me sentia um adolescente ansioso,
convidando a garota bonita para o baile de formatura.
— É um evento chique, né? — Assenti. — Não sei... eu nunca fui em
algo assim. O maior evento que já fui foi o aniversário de cinquenta anos de
casamento dessa minha avó paterna, quando eu tinha onze anos. Não sei nem
se tenho roupa para ser apresentada aos Vanslow... imagino que moletom e
calça jeans não sejam apropriados?
— Não são, mas podemos resolver isso rapidinho. Se você aceitar, eu te
dou o vestido que quiser. — Testei a ideia de Brian, em dúvida se daria certo
ou se ela ficaria ofendida comigo me oferecendo para bancá-la.
— Isso já é chantagem. — Ela fez um bico, suspirando baixinho. — Eu
quero aceitar, mas... o que sua família iria pensar de mim? Uma garota
desajeitada, que mal consegue se equilibrar num salto alto... e como você me
apresentaria? “Essa aqui é Alice, uma garota do Brooklyn que não entende
nada da alta sociedade”?
— Na verdade, eu estava pensando em te apresentar apenas como
minha namorada. Essa é a segunda pergunta de hoje, se você quer ser minha
namorada mesmo, com título e tudo. — Sorri, vendo-a se afastar do meu
ombro com os olhos arregalados na minha direção.
— Achei que hoje em dia não existissem mais pedidos de namoro —
ela murmurou, me fazendo rir e me inclinar para perto.
— Talvez você não seja a única aqui a gostar de clichês românticos. O
que me diz, namora comigo?
— Claro que sim. — Ela sorriu de novo, enquanto os dedos iam parar
na minha nuca, me trazendo para mais perto. — Hoje está sendo um dia cada
vez melhor, sabia?
— Fico feliz em fazer parte dele. — Sorri, e então ela me beijou. Um
beijo calmo, o primeiro de verdade desde aquele fim de semana, cheio de
doçura, me fazendo sorrir contra seus lábios, quando ela suspirou baixinho.
— Tudo bem, eu vou ao evento. Mas quanto ao vestido... nada
exagerado, ok? Não quero ficar parecendo outra pessoa. E precisa ser de
manga comprida, por motivos óbvios — ela listou as exigências, me fazendo
sorrir por ter concordado.
— Ok. Você é quem vai escolher, eu vou só te levar até a loja e ficar lá
com cara de paisagem, enquanto você e a vendedora discutem três tons da
mesma cor. — Sorri, vendo-a me olhar.
— Sabe que eu não conheço nenhuma loja dessas chiques, né? Só
conheço as lojas pequenas aqui do Brooklyn ou lojas de departamento, e
duvido que numa delas tenha algo apropriado para o grande evento do seu
irmão.
— Para a nossa sorte, uma ex de Brian trabalha na Dreamsize, uma loja
de alta costura plus size. Inclusive, me lembre de agradecer quando o
conhecer, foi ideia dele o vestido novo. — Sorri, vendo-a franzir as
sobrancelhas.
— Já contou a eles sobre mim?
— Por alto, sim. Todos os quatro já sabem que eu estou com uma
garota, mas Brian tem mais detalhes. Ele é o romântico sonhador da família,
aposto que vão se dar bem.
— Entendi. Tudo bem, eu aceito tudo isso. Estou apavorada em
conhecer sua família? Com certeza, mas se forem tão legais quanto você, vou
ficar bem.
— Eles vão te adorar, tanto quanto eu adoro. — Sorri, beijando o rosto
dela. — Garanto que eles não mordem — brinquei, conseguindo arrancar
uma risadinha dela.
— Só você morde?
— Só eu — assenti, me inclinando e mordendo o lábio inferior dela e
puxando um pouco antes de soltar. Ela suspirou, dando um sorriso pequeno,
antes de se afastar do meu colo e ficar de pé.
— Hora de ensaiar. Quero ao menos tentar não cochilar hoje. Me ajuda
a repassar as falas?
— Sempre. — Sorri, e ela foi até o quarto, voltando com o roteiro.

Ela estava focada nas cenas grandes primeiro, as que não podiam ser
improvisadas nem alteradas, e eu fazia qualquer outro personagem que ela
precisasse, só para preencher as lacunas de tempo da fala.
Passamos mais uma tarde nisso, e ela realmente aguentou sem cochilar
a tarde toda. Eu estava começando a perceber que nos dias bons, ela tinha
menos sono, como se o cansaço fosse proporcional ao desânimo. Às vezes,
ela estava narrando um monólogo e eu me desligava das palavras em si, me
concentrando em como sua voz mudava quando ela entrava na personagem,
meus pensamentos me distraindo na forma como seus olhos estavam
brilhantes.
Fiquei até um pouco depois do jantar, quando ela começou a ficar
cansada, e a deixei quase dormindo, quando saí do apartamento, abraçada
com a almofada nova. Agora só me restava esperar que ela continuasse a ter
dias bons assim, e fazer minha parte para isso.
Era domingo e o medo de voltar para a aula estava começando a me
apavorar. Tinham sido dias estranhos, passei os dois primeiros meio grogue,
e só comecei a melhorar quando meu pai ligou, avisando que ia vir visitar. E
no mesmo dia Hector veio com almofadas, convites e pedidos de namoro, me
deixando completamente maluca. Ontem eu já não tinha tomado o terceiro
remédio, e estava começando a me sentir eu mesma de novo.
Meu braço ainda doía, e eu fiquei usando curativos, que trocava de
manhã e à noite. Durante o surto, eu fui fundo demais, e ia demorar a
cicatrizar. Era ridiculamente trágico perceber o quanto eu já havia me
acostumado a fazer curativos e cuidar de cortes. Limpar, passar pomada para
não infeccionar, ficar de olho se sentia febre... esse era um que mereceria ter
levado pontos, mas eu já tinha o histórico médico de uma tentativa de
suicídio, se eu fosse para o hospital por automutilação de novo, seria
internada por alguns dias, e não tínhamos como bancar isso.
Hector tinha ficado de vir me buscar, pra comprar o tal vestido para o
evento, e eu resolvi me focar nisso, por enquanto, e deixar pra me preocupar
depois. Me arrumei com minha melhor calça jeans e uma blusa roxa de
botões. Me achei quase bonita no espelho, e me arrisquei a até mesmo passar
um batom vermelho clarinho. Saí do quarto e encontrei minha mãe na sala,
assistindo a algum programa de competição culinária.
— Que tal, bom o bastante para ir numa loja chique?
— Perfeita. — Mamãe sorriu. — Hector já está vindo?
— Ele me mandou uma mensagem agora há pouco, avisando que
estava saindo de casa... e se eu não ficar bem em nenhum vestido? — Me
sentei ao lado dela no sofá, abaixando a mão para fazer carinho na cabeça de
Milady.
— Por que não ficaria?
— Mãe, eu sou gorda. Não uma gorda bonita como a Adele, antes de
emagrecer, ou a Meghan Trainor naquele clipe. Meu corpo é todo errado,
com dobras e a barriga pra frente.
— Filha, pare com isso, você é lindíssima. Seu peso não tem nada de
ruim, você é tão linda quanto essas duas que citou. E antes de reclamar que
eu só digo isso por ser sua mãe, Hector deve pensar a mesma coisa. Além
disso, a loja é especializada em roupas plus size, não é?
— Sim. Uma tal de Dreamsize... espero que não sejam vestidos tão
caros quanto eu imagino que vão ser... não gostaria que alguém imaginasse
que eu estou com Hector por interesse no dinheiro dele, a verdade é que eu
me apaixonaria por ele em qualquer circunstância. — Suspirei. — É estranho
eu já estar apaixonada?
— Não é, não. Você sempre foi intensa, e a vida inteira pulou de
cabeça nas coisas. E ele parece se sentir do mesmo jeito, principalmente pela
forma como te olha. — Ela sorriu, ajeitando meu cabelo atrás da orelha. —
Espero que ele seja tudo o que você sempre sonhou.
— Ele é. — Sorri, assentindo de leve. Ela abriu um sorriso largo,
beijando minha testa. Ouvimos a campainha e eu fiz um barulhinho ansioso,
me levantando do sofá. — Prometo voltar cedo.
— Demore o quanto precisar. E não se esqueça que azul combina com
seus olhos! — ela gritou, enquanto eu fechava a porta, me fazendo sorrir.
Mamãe sempre tinha um jeito de fazer com que eu me sentisse melhor sobre
tudo.
Desci as escadas o mais rápido que podia sem ficar sem ar, o
encontrando no portão, lindo como sempre, usando uma camisa social e um
blazer por cima.
— Oi. — Sorri de leve, abrindo o portão e abraçando ele rapidamente.
— Pronta para escolher um vestido? Eu trouxe até meu Kindle, pra
ficar lendo enquanto te espero nos provadores — ele brincou, me dando um
beijo rápido.
— Nada de ficar lendo, vai ter que me ajudar a escolher. Tudo o que eu
entendo de vestidos de gala é “acho bonito” e “não acho bonito”. Não sei
nada sobre ser apropriado para o evento ou para a situação...
— Para nossa sorte, as atendentes da loja devem entender, meu
conhecimento em vestidos é tão reduzido quanto o seu. — Ele sorriu,
entrelaçando os dedos aos meus, enquanto andávamos até onde ele tinha
estacionado. A rua estava cheia hoje, e ele teve que deixar o carro no outro
quarteirão. Eu achava fofo que ele insistia em abrir a porta pra mim, um
perfeito cavalheiro. — Está calada hoje, aconteceu algo?
— Nervosismo. Nunca comprei um vestido chique, nunca fui a um
evento beneficente desse porte, e... amanhã voltam as aulas e começa o
primeiro ensaio. Não sei se estou pronta.
— O vestido vai ser fácil, e aposto que irá se divertir provando vários
modelos. O evento também vai ser simples de lidar, minha família vai
garantir em te fazer se sentir aceita. — Ele ligou o carro, manobrando
perfeitamente para fora da vaga e começando a dirigir. — E quanto a
voltarem as aulas... Está com medo de que falem algo, não é?
— Sim — admiti, meu olhar nos prédios que passavam pela janela.
— Se falarem, ignore. Sei que é difícil, mas você sabe a verdade, sabe
que ganhou o papel de Bianca porque mereceu, porque é extremamente
talentosa, e quando chegar a noite de estreia, no final do semestre, você vai
calar a boca de todos que duvidaram. E se precisar fugir, basta me ligar, que
eu mando Nick ir te buscar e te levar para o hotel. Rudy está com saudade. —
Ele espertamente encerrou com um outro assunto, já me conhecia o suficiente
para saber a hora de mudar o foco da conversa para me acalmar e distrair.
— Diga a ele que eu também estou. — Virei meu olhar para ele, o
observando enquanto dirigia. — Essa loja fica onde?
— Perto da 5th Avenue. Não é uma loja muito antiga, acho que abriu
há apenas dois ou três anos, mas é especializada em roupas plus size, desde
dia a dia até alta costura e gala, que é o que queremos hoje. Se gostar de lá,
eu posso te trazer mais vezes e te encher de presentes.
— Eu não teria nem onde colocar tantas roupas, meu armário é
pequeno. — Balancei a cabeça. — E nada de gastar demais comigo,
entendeu? Só em ter você na minha vida já é um presente e tanto.
— Você é literalmente tudo o que eu sempre sonhei, e eu que sou o
presente? — Ele me olhou, aproveitando que estávamos parados no trânsito.
— Sempre sonhou com uma garota problemática e esquisita? — Eu
tinha esse instinto de fazer piada com a minha situação, principalmente
quando era elogiada, um reflexo de me diminuir.
— Sempre sonhei com uma garota de olhos bonitos e curvas grandes,
com uma personalidade forte e que me deixasse louco desde o começo. Essa
é você. — Ele piscou um olho, voltando a dirigir, e eu só balancei a cabeça.
Ele tinha um jeito especial de me fazer ficar cor-de-rosa e me sentir um
pouco menos mal sobre mim mesma.
Não demoramos muito até ele estacionar na frente da loja, que tinha
uma fachada maravilhosa, num daqueles prédios antigos e reformados. O
nome Dreamsize estava bem grande em letras manuscritas e brilhantes,
“especialistas Plus Size” embaixo, acesas num tom claro de azul. Respirei
fundo, descendo do carro com ele e entrelaçando nossos dedos, enquanto
entrávamos na loja.
— Boa tarde, em que podemos ajudá-los? — Uma das vendedoras
abriu um sorriso simpático, se aproximando de nós.
— Boa tarde. Estamos procurando Daphne, por favor. Ela ficou de nos
atender. — Daphne deveria ser a tal ex do irmão dele.
— Claro. Venham por aqui, vou chamá-la. — Se a vendedora, que eu
consegui ler no crachá dourado que se chamava Irina, ficou brava por passar
o atendimento para a colega, ela não demonstrou.
A loja era bonita, com um espaço amplo e bem-iluminado, e tinham
algumas vendedoras atendendo a mulheres que tinham corpos parecidos com
os meus, algumas um pouco menores, outras um pouco maiores. Não era
como uma loja comum das que eu costumava frequentar, cheias de araras e
roupas penduradas fora de ordem. Tinha um estilo mais clean, com algumas
roupas em manequins e alguns balcões com peças dobradas e vendedoras
ansiosas, além de escadas rolantes para o segundo andar.
Uma ruiva se aproximou de nós, sorrindo largamente, e no crachá dela
estava escrito Daphne. Ela era bonita.
— Hector? Há quanto tempo! Como está a família?
— Estão bem, Brian mandou um oi.
— Que ótimo. E então, o que posso fazer por vocês hoje? — Ela olhou
dele para mim, e eu dei um sorriso que esperava parecer simpático. Estava
nervosa.
— Essa aqui é Alice, minha namorada. — Senti borboletas no
estômago ao ouvir ele me apresentar assim pela primeira vez. — Estamos
procurando um vestido para ela. Não entendemos muito de vestidos, então
precisaremos bastante da sua ajuda, mas precisa ser algo digno de um dos
eventos de Roman.
— Sei bem como é. É um prazer te conhecer, querida. Venham, os
vestidos desse estilo ficam no primeiro andar. — Ela começou a andar até a
escada rolante, e nós a seguimos. — Temos todos os tamanhos a partir do 44
e costureiras especializadas para os que não estiverem no catálogo... Você me
parece estar entre 50 e 54, acertei? — Ela tinha o olho muito bem treinado, e
era estranho ouvir alguém numa loja falar meu tamanho sem aquele tom de
pena na voz.
— Sim, depende bastante do modelo, mas é mais ou menos isso.
— Certo, por aqui então. Já tem algum modelo ou cor em mente? —
Chegamos ao primeiro andar, que se parecia mais com uma loja do que o
térreo, e eu pude notar que era separado em setores. Alguns tinham araras
com vestidos longos e estampados, que eu imaginei que fossem os casuais,
outros com vestidos separados em cabides com plásticos entre eles, alguns
balcões de acessórios, e ainda havia mais escadas rolantes. Me perguntei
quantos andares a loja teria, se ocuparia todos os cinco do prédio.
— Pensei em vermelho... ou azul — Lembrei-me do conselho de
mamãe. — Hector falou sério quando disse que não entendíamos muito de
vestidos, ele é homem, e eu não estou acostumada com eventos assim —
admiti, vendo-a parar em frente a um dos setores, que tinham vestidos longos
e curtos pendurados. — Só quero que seja de manga longa — pedi, essa seria
minha única exigência.
— Certo. A coleção de primavera tem muitas mangas três quartos, mas
tenho alguns de manga comprida por aqui. Vermelho e azul... certo. — Ela
pareceu mais estar falando sozinha, e andou até os cabides, como se os
folheasse, e tirou um vestido num tom vivo de vermelho, me mostrando. —
Algo assim? — Era um modelo bonito, daqueles que tem uma minissaia solta
por cima da normal, que ia até acima dos joelhos. Mas era colado, e eu não
teria confiança suficiente para isso.
— Talvez um que não seja tão justo...
— Tem certeza? Suas curvas são lindas, e esse estilo as valorizaria
bastante. — Era muito estranho ouvir uma vendedora dizer que eu tinha um
corpo bonito, mas eu apenas neguei com a cabeça. — Ok, algo com uma saia
mais solta, então. — Ela olhou mais, pegando um azul escuro, que iria colado
só até a cintura e se soltava. Assenti, e ela abriu um sorriso, apoiando o
vestido no braço e pegando mais alguns, em vários tons das duas cores que eu
falei. Hector apertou minha mão de leve, mostrando que ainda estava ali. —
Pronto, tem três aqui que eu acho que vão ficar ótimos, mas pode dar uma
olhada, se gostar de mais algum.
Ela se afastou dos cabides e eu soltei a mão de Hector, começando a
olhar as opções que tinham ali, tentando esconder o quão surpresa fiquei com
a qualidade dos tecidos. Aquele realmente não era o mundo com o qual eu
estava acostumada. Peguei dois, um azul de um tecido grosso, que iria até os
pés, e um de veludo vermelho meio escuro, que parecia ir até embaixo dos
joelhos.
— Ótimas escolhas. — Ela sorriu. — O provador é por aqui. Hector,
você pode vir também, temos algumas poltronas em frente aos provadores
feitas especialmente para namorados esperarem. — Ela me fez rir baixinho
com isso, enquanto a seguíamos, ela carregando os primeiros três vestidos e
eu os outros dois. Os provadores ficavam numa ala enorme, contei sete
cabines, três abertas e duas fechadas por cortinas duplas, e alguns sofás na
frente. Ela andou até o provador do meio, colocando os vestidos que
carregava nos ganchos que tinham ali, e eu fiz o mesmo com os meus dois.
— Vou te esperar aqui — Hector avisou, se sentando na poltrona em
frente ao meu provador.
— Vou deixar que comece. Se precisar de ajuda, é só chamar, estarei
do outro lado da cortina. — Daphne sorriu, saindo do provador e fechando as
cortinas, me deixando sozinha ali. Era realmente uma loja plus size, o
provador tinha facilmente espaço para me mover sem ficar espremida, como
nas lojas de departamento que eu normalmente frequentava. E era realmente
uma loja de gente rica, porque em vez daquela luz solitária e pálida de lojas
comuns, o espelho era coberto de pequenas lâmpadas, e havia alguns botões
do lado para escolher a intensidade e cor da luz. Uau.
Tirei minha blusa e a calça, pegando o primeiro vestido que ela me
mostrou, o azul-escuro. Ele não tinha zíper, era de elástico nas laterais, e se
encaixou perfeitamente em mim, sem ficar colado demais, e a saia que se
soltava na cintura impedia que minha barriga ficasse em evidência. Meu
maior complexo com meu corpo era justamente a barriga, eu a achava
desproporcional ao resto, grande demais.
Abri a cortina do provador, vendo o olhar de Hector na minha direção,
a boca se abrindo, e percebi que era a primeira vez que ele me via de vestido.
— Linda — ele murmurou, me fazendo ficar vermelha. Daphne me
puxou para a frente, me fez olhar no espelho maior e ainda mais iluminado
que tinha na parede, me fazendo dar uma voltinha para a saia se movimentar.
Eu me senti uma princesa.
— Ficou ótimo em você. Vamos, prove os outros, quero que veja todos
antes de fazer uma escolha. — Ela gentilmente me empurrou de volta ao
provador, e eu ouvi a conversa dela com Hector através das cortinas
fechadas, enquanto vestia o segundo, um vermelho vivo e decotado demais.
— Ela é tímida, não é?
— Bastante — ele concordou. — O que achou do vestido? Eu não sou
a opinião mais imparcial, acho que tudo fica lindo nela, mas e você?
— Ficou bom, mas ela não estava com aquele brilho de quem achou o
vestido certo. Trabalho com roupas há tempo o bastante para saber que se a
garota não brilhar de alegria, não é o vestido certo. Roupas de festa são iguais
a vestidos de noiva, sempre tem um que se encaixa mais perfeitamente.
Tirei o segundo vestido sem nem mostrar a eles, não gostei nem um
pouco do decote cavado, deixava meus peitos quase de fora, e ficavam
aparecendo as estrias neles de quando engordei de uma vez. Já eram
esbranquiçadas e antigas, mas estavam lá.
Coloquei o terceiro, num tom esverdeado de azul, agradecendo o zíper
lateral que me poupou de pedir ajuda. Respirei fundo, gostando do meu
reflexo nele, e abri as cortinas de novo. O queixo de Hector caiu mais uma
vez.
— Não gostei do vermelho vivo, ficou decotado demais, mas este aqui
até que não ficou ruim. — Sorri, sendo arrastada para o espelho maior mais
uma vez, olhando os lados nos dois espelhos laterais. Esse se soltava logo
abaixo dos seios, ficando aberto quase como um vestido de época.
— Posso ser honesta? — Daphne perguntou, e eu assenti. — A cor
combinou com seus olhos, mas o modelo não te favoreceu tanto. Acho que os
modelos presos na cintura te valorizam mais. Não precisa ter vergonha deles,
você tem o biotipo perfeito para esses modelos. — Ela sorriu, e eu assenti de
novo.
— Entendi. — Voltei para o provador e resolvi provar logo o de veludo
vermelho.
O tecido era macio e deslizou bem fácil por mim, e o modelo era
simplesmente perfeito. Tinham duas costuras o prendendo, uma embaixo dos
seios e uma na cintura, onde a saia se abria com algumas pregas, indo até
logo abaixo do joelho. O decote era pequeno, mostrando só um pouco do
encontro dos peitos, e tinha algumas pregas fininhas que iam do meio dele até
os ombros. Todos os detalhes do vestido eram trabalho de costura, sem
nenhuma adição de fora, só tecido e habilidade. A manga era comprida como
eu queria, e o tecido era fresco o bastante para não me incomodar. Precisei
chamar Daphne para fechar o zíper, que era nas costas, e saí do provador.
O queixo de Hector caiu de novo, e ele balançou a cabeça, um sorriso
grande surgindo. Ele moveu os lábios em silêncio, a palavra “deusa”
murmurada, e eu dei um sorrisinho com o rosto vermelho. Andei sozinha até
o espelho grande com os dois laterais, e dei uma voltinha, dando um risinho
baixo. Eu tinha amado.
— O que achou? De verdade, acha que está bom o suficiente para o
evento? — Me virei para ele, segurando as laterais da saia e a balançando um
pouco, vendo ele assentir.
— Está perfeita. — Ele deu um sorriso enorme, feliz. — Minha própria
Afrodite. E vai ganhar pontos com minha mãe pela escolha do tecido, ela ama
vestidos de veludo.
— Bom saber. — Sorri mais abertamente pela primeira vez, quase me
sentindo a deusa que ele teimava que eu era. Me virei para Daphne. — É
esse.
— Perfeito! — Ela sorriu em aprovação. — A cor combinou com você,
e com a maquiagem certa e talvez um penteado meio preso, vai ficar
maravilhosa.
Ela me seguiu até o provador, soltando o zíper e saindo, me vesti
rapidamente e entreguei o vestido a ela quando saí, Hector veio segurar
minha mão de novo, enquanto descíamos até o térreo para os caixas.
Recusei-me a olhar o preço do vestido, sabendo que devia ser uma
fortuna e que eu me sentiria culpada por ele gastar tanto comigo, então me
afastei e fiquei olhando os manequins, enquanto ele passava um cartão de
débito com a expressão mais tranquila possível. Centenas de dólares
realmente não deviam ser nada na família dele.
Daphne me trouxe a sacola bonita com o vestido dobrado e embrulhado
em papel de seda, me dando um sorriso.
— Você é uma garota de sorte, os Vanslow são incríveis. Eu namorei
com Brian, por quase seis meses, antes de percebermos que não tinha amor, e
a família é simplesmente incrível. Não precisa ter medo, eles aceitam bem
quem vem de fora.
— Obrigada — agradeci, vendo Hector vindo na minha direção e
estendendo a mão para mim.
— Até mais, voltem sempre. E digam a Brian que eu mandei um oi! —
Daphne nos acompanhou até a porta, acenando quando saímos, e eu sentia
meu coração quentinho.
— Feliz? — Hector sorriu pra mim, e eu assenti, alegre. — Ótimo. E se
me permite dizer, você de vestido fica extremamente gostosa.
— Hector! — ralhei, vendo-o rir, enquanto se inclinava e beijava minha
têmpora.
— Estou falando sério. Mal posso esperar pra te ver nele de novo,
raramente tenho chance de ver suas curvas. Gosto delas.
— O que combinamos sobre elogios? — Senti meu rosto esquentar, e
ele apenas deu de ombros, o sorriso ainda no rosto.
— Que eu posso dizê-los sempre que quiser?
— Engraçadinho. — Ele abriu a porta do carro pra mim, me roubando
um selinho quando eu fui entrar.
— Linda. — Ele fechou a porta, dando a volta no carro. — Acha que
vai precisar de mais algo para o evento? Sapatos, acessórios, maquiagens e
sei lá mais o que for.
— Talvez sapatos, não tenho nenhum salto, nem grande nem pequeno,
mas esses faço questão de comprar eu mesma. Tem uma loja não muito cara
perto da Lucille, e o cartão da minha mãe rodou esta semana.
— Alice...
— Você já gastou sabe-se lá quanto hoje, deixe que eu contribua com
algo. — Me estiquei para beijar a bochecha dele.
— Tudo bem, tudo bem. Aliás, isso me lembra uma coisa, você
aceitaria ir lá pra casa sábado, e só voltar domingo? Fica mais perto do
evento, se você estiver lá em casa, e como eu provavelmente vou beber um
pouco, não queria ter que te mandar sozinha para casa de madrugada. Isso é,
se não se incomodar e não for ser um problema com sua mãe.
— Eu adoraria. Estou morta de saudade de Rudy, e quero usar seu peito
de travesseiro de novo. — Sorri, lembrando-me do abraço dele e da sensação
quentinha de estar segura. Ele sorriu, soltando uma mão do volante e
segurando a minha. — E quanto a minha mãe, ela não vai se incomodar. Ela
e vovó acham que eu não sei, mas tem uma aposta rolando entre as duas de
quanto tempo seria até eu começar a ir dormir com você. Vovó vai ganhar.
— Ótimo. — Ele riu. — Gosto da sua família. Espero que goste da
minha também.
— Vou gostar. Estou apavorada de conhecer sua mãe, a maravilhosa
Carmen Vanslow? Com certeza, mas prometo ser a minha versão mais
educada possível.
— Vou contar a ela que a chamou de maravilhosa. — Ele continuava
sorrindo, os dentes brancos e perfeitos aparecendo. Tudo nele era como se
tivesse sido esculpido à mão para ser um sonho real. — Antes de sairmos, eu
te passo todas as informações necessárias da família. Meu pai, por exemplo,
se quiser agradá-lo, basta dizer que gostou do bigode. Ele está deixando
crescer, desde o ano passado, quando se aposentou, e adora quando alguém
nota. Diz ele que está tentando ser um velho bonitão.
— Vou me lembrar disso. — Balancei a cabeça, gostando do jeito que
ele falava da família.
Ele pegou o caminho de volta para a minha casa, e eu percebi que tinha
esquecido totalmente meu nervosismo. Respirei fundo, lembrando-me de
novo do que ele disse antes sobre ignorar se alguém falasse merda. Eu
precisaria me lembrar disso, me lembrar dele. Olhei-o dirigir, e percebi que
nunca tinha me sentido tão calma assim com alguém que não fosse minha
mãe, meu pai e minha avó. Eu tinha medo de quando essa fase de País das
Maravilhas inicial de todo relacionamento passasse tudo fosse por água
abaixo, mas teria que manter a fé de que daria tudo certo. De que dessa vez
era para ser.
Ele me deixou em casa, me dando um beijo de despedida, e eu subi as
escadas, cantarolando baixinho, entrando em casa com um sorriso bobo que
não passou despercebido pela minha mãe.
A semana foi uma das mais cansativas que eu tive, desde que entrei na
Lucille. Correndo de uma aula para outra e para os ensaios, não tive nem
tempo de me preocupar com Isabella falando alguma merda. Fiz questão de
me manter longe dela nas duas aulas que tínhamos juntas, sem nem olhar na
sua direção. Quando tinha medo, eu olhava pra minha mochila e respirava
fundo, me concentrando em uma das pequenas almofadas de estrela que
ganhei de Hector, que eu tinha transformado em chaveiro e estava junto da
chave de casa, onde mamãe me esperava. Eu tinha motivos para me manter
forte.
Os três primeiros ensaios foram ótimos. Começamos com os
monólogos de narração de Bianca e Jonathan, nossa voz ficaria gravada,
enquanto fazíamos a cena de fundo. A gravação seria segunda, e durante essa
semana só treinamos a voz para passar a emoção certa na hora de falar, e eu
me senti como uma dubladora de filmes animados, lendo a cena sem ter que
interpretar de fato com o corpo. Eric estava sendo muito simpático comigo,
ontem ele até me trouxe um chocolate de presente. Então era assim que era
fazer amizades? Eu estava gostando.
Agora estava acabando de arrumar minha bolsa, Hector tinha avisado
que às três e meia Nick viria me buscar, já que ele estava acabando uma
reunião com o novo cara do cassino de Atlantic City. Parecia que agora tudo
ia se resolver nesse quesito, ao menos isso, já que ele odiava ter que ficar ido
e vindo de Atlantic City o tempo todo.
Meu braço já estava bem melhor, o corte havia fechado e começava a
cicatrizar. Ainda estava bem sensível ao toque, e eu tinha que me controlar
pra não puxar a casquinha, mas até que estava indo rápido. Meu corpo
parecia já ter aprendido a cicatrizar cortes depressa, ou talvez isso só fosse
loucura da minha cabeça.
Coloquei meu pijama rosa de flanela na bolsa, era um dos mais
arrumadinhos que eu tinha, sem estampas de bichinhos nem nada do tipo.
Coloquei uma muda de roupa pra vestir amanhã, e algumas calcinhas extras,
rindo baixinho sozinha ao pensar na cueca dele, que tinha ficado escondida
no fundo da minha gaveta, e no motivo de precisar disso. Eu não sabia se
algo ia acontecer essa noite, se o fogo ainda estaria lá quando, depois dessas
três semanas sem termos muito tempo juntos, nós ficássemos sozinhos de
novo. Nem sabia se estava pronta para ir adiante. Era estranho ser uma
virgem de vinte e um anos no mundo atual, mas meu receio não era por isso
e, sim, por ter que mostrar meu corpo inteiro a ele.
Ele gostar de curvas sob as roupas era uma coisa, mas ele gostaria das
marcas que essas curvas tinham? Das estrias roxas e brancas, da pele mole e
das coxas com cicatrizes grossas e grotescas, além das celulites. E se ele
imaginasse que minha pele era como a de uma daquelas modelos plus size
que não tinham marcas, e não gostasse quando me visse de fato? Sim, eu
tinha feito todo o esforço absurdo que era raspar minhas pernas — ao menos
do joelho para baixo, os pelos das coxas eram bem fininhos e eu não ligava
— e até entre elas, o que pelo meu reflexo no espelho depois não tinha dado
muito certo, graças ao fato de ter a barriga me atrapalhando no processo, mas
se na hora H eu teria coragem de ir adiante, eram outros quinhentos.
Suspirei, colocando os sapatos pretos de salto quadrado na bolsa, não
eram muito altos, mas já era melhor do que usar sapatilhas num evento
desses. Guardei também minha pequena bolsinha de maquiagem. Eu não
tinha muita coisa, quase não usava mais maquiagem, então junto com os
sapatos, acabei precisando comprar uma paleta pequena de sombras —
peguei uma em tons de marrom e dourado, vinham quatro tons dessas cores,
além de um branco e um preto — dois pincéis, uma base e um delineador. Eu
não saberia fazer o delineado puxado sozinha, então tive que dar vinte e cinco
dólares em um daqueles que tinha um carimbo na parte de trás. Ao menos
rímel e batom vermelho eu já tinha. No total foram quase trezentos dólares no
cartão da minha mãe, que dividimos em seis vezes pra poder pagar.
Coloquei na bolsa meu shampoo e condicionador de mel, meu sabonete
com cheirinho de lavanda, minha escova de dentes e estava tudo pronto.
Levei a bolsa até a sala, pegando meu celular e o carregador, guardando o
cabo no bolso lateral. Agora, sim, tudo estava realmente pronto.
— Nervosa? — minha mãe perguntou, quando eu apareci e deixei a
bolsa sobre o braço do sofá, ao lado da sacola do vestido. Vovó tinha vindo
pra me desejar sorte, e me deu um sorriso.
— Bastante. O medo de tropeçar nos saltos ou falar alguma besteira é
enorme. Imagina se eu envergonho Hector, de alguma forma? Nunca vou me
perdoar.
— Pare de drama, querida, ele não se envergonharia nem se você
subisse nas mesas e dançasse a Macarena. — Vovó riu, me fazendo revirar os
olhos com uma ameaça de sorriso. — É sério. Além disso, você não assistia
àquela série dos adolescentes ricos?
— Sim, mas eles eram adolescentes. Hector e todos que vão estar lá são
adultos da vida real. — Suspirei, balançando a cabeça.
— Vai dar certo, de qualquer forma. Se tiver dúvidas, fique calada e
observe, tente falar com pessoas que tenham assuntos que você entenda.
Elogie as joias da mãe dele e das senhoras com quem falar. — Vovó
começou a dar conselhos que provavelmente tinha visto em algum blog na
internet, e eu dei uma risadinha. — Agora sim, mantenha esse sorriso no
rosto e não vai ter problemas.
— Vou tentar. — Respirei fundo, tentando acalmar meu ritmo cardíaco.
— Divirta-se, aproveite a oportunidade. — Ela sorriu, vindo me
abraçar. — Ah, eu trouxe algo para você. — Ela enfiou a mão na bolsinha
que sempre carregava para todo lado, me fazendo arregalar os olhos e ficar
vermelha como um tomate quando ela tirou um pacote de camisinhas ali de
dentro. — Segurança em primeiro lugar.
— Vó! — gritei, ignorando a gargalhada da minha mãe enquanto nos
olhava.
— Sua vó está certa, querida. Nunca se sabe o que pode acontecer
quando voltarem para o apartamento... — Esse era um dos momentos que eu
detestava ter uma família liberal e mente aberta.
— Parem com isso, vocês duas. Não vai acontecer nada.
— Sei... — as duas falaram ao mesmo tempo, e eu revirei os olhos,
levando um susto quando ouvimos a campainha. Olhei para o relógio da
parede, três e meia em ponto. — Hora de ir. Me desejem sorte.
— Boa sorte, querida. — Vovó me abraçou de novo. — Aproveite o
gostosão.
— Vó! — Acabei rindo, balançando a cabeça, enquanto abraçava
minha mãe.
— Se divirta, filha. — Mamãe sorriu. Peguei minha bolsa e a sacola do
vestido e saí, sentindo uma pequena taquicardia enquanto descia as escadas,
encontrando Nick parado no portão.
— Boa tarde, senhorita Alice.
— Boa tarde. — Dei um sorriso educado, andando até o carro. Estava
tão acostumada com Hector dirigindo quando saíamos, que achei estranho
sentar no banco de trás.
— Quer que eu ligue o rádio em alguma estação específica? Pode
colocar as músicas pelo seu celular também, se preferir, tem um pouco de
trânsito no caminho até Manhattan. — Ele deu a partida no carro, e eu me
sentia como se estivesse num Uber mais sofisticado.
— Não precisa, eu trouxe meus fones. Pode ouvir o que mais gostar.
— Certo — ele assentiu e ouvi o rádio parar numa estação de esportes,
antes de ligar a música no meu fone.
Eu tinha uma playlist bem esquisita de músicas que me ajudavam a
ficar mais calma e encarar situações novas, a mesma que ouvi há três
semanas, quando fui para o hotel pela primeira vez. Parecia ter sido uma
eternidade atrás.
What are you waiting for começou a tocar, e era uma das minhas
favoritas nessas situações. “Todos precisam de um salto de fé, quando você
vai dar o seu?”. Três semanas atrás, eu dei meu primeiro salto de fé em muito
tempo, batendo na porta dele e aceitando o convite para o café. E agora aqui
estava eu, indo encontrá-lo para irmos juntos a um evento da família dele,
pronta para ser apresentada como sua namorada. Nem em meus sonhos mais
loucos, imaginei que isso poderia acontecer.
Aquele fim de semana me fazia sorrir toda vez que me lembrava do que
tinha acontecido, tão rápido e tão intenso. A forma como ele foi educado,
desde o princípio, o jeito que me abraçou quando viu as marcas pela primeira
vez, nós dois dançando pela sala ao som de Morat, os beijos dele, o jeito que
respeitou cada limite meu e conseguiu, mesmo assim, me levar à loucura em
seus braços...
Aproveitei que o hotel ainda estava longe e continuei a recapitular
nossa curta e intensa história até aqui. Eu ainda não aceitava que depois de
tudo o que vivemos naquele fim de semana mágico, a vez seguinte em que
nos encontramos pessoalmente foi durante a minha crise. Ele tinha, por
acaso, ido me parabenizar pelo papel de Bianca, e me encontrou naquele
estado deplorável, jogada no chão com o braço rasgado. Eu me envergonhava
bastante daquilo, de ele ter tido que presenciar o meu pior tão cedo na nossa
relação, mas ao menos aquilo serviu para me convencer de que ele não fugiria
facilmente.
Ele tinha me visto no meu pior momento, aquela tinha sido uma das
piores crises dos últimos tempos, mas ele não se afugentou com aquela cena.
Ele se aproximou, me trouxe de volta para a realidade e cuidou de mim, fez o
que até então só minha mãe tinha feito, me remendou e me ajudou a
descansar. E depois daquele dia, ele ficou tão mais atencioso, indo me visitar
todos os dias da semana passada, e essa semana ele me ligou sempre que
podia.
Eu às vezes tinha medo de estar em coma e isso tudo ser um sonho,
acordar um dia numa cama de hospital e descobrir que não existe nenhum
Hector Vanslow e que não passou de imaginação minha. Parecia uma teoria
louca da conspiração, daquelas que dizem que a história de Harry Potter foi
um sonho do Harry ou que em Pokémon o Ash está em coma, desde o
primeiro episódio e, por isso, não envelhece.
Contive a vontade de suspirar e vi que já estávamos chegando, me
distraí tanto, pensando, que nem vi o tempo passar, mas pelo relógio do meu
celular tinham se passado quarenta e cinco minutos. Nick entrou na garagem
do hotel, e eu desliguei minha música, tirando os fones e guardando na bolsa,
enquanto ele estacionava.
Agradeci quando ele abriu a porta do carro para mim e andei até os
elevadores, apertando o botão com o número 25. Esperei sem pressa,
enquanto os andares iam passando dei boa tarde para duas pessoas que
entraram e saíram durante a subida, e finalmente o elevador parou em frente à
porta de Hector. Respirei fundo, ansiosa para vê-lo, e bati à porta, que se
abriu um instante depois, revelando um Hector de terno e gravata, sorrindo
para mim.
— Oi. — Sorri, mordendo meu lábio inferior um pouco, sentindo a
sensação familiar de aparecer na porta dele.
— Oi. — Ele sorriu de volta, se aproximando e me dando um beijo
rápido, se afastando da porta para que eu entrasse. — Pode deixar a bolsa lá
no quarto, tem uma surpresa pra você em cima da cama.
— Uma surpresa?
— Você vai gostar — ele garantiu e eu dei de ombros, curiosa, indo até
lá.
Assim que passei da porta, eu vi a surpresa e dei uma risada alta,
balançando a cabeça. Era Rudy, com uma plaquinha de papel escrito “Oi,
mamãe, senti saudade”, pendurada no pescoço. Ele latiu pra mim, e eu deixei
a bolsa e a sacola no chão, indo pegar o filhote no colo.
— Oi, pequeno. Quer dizer que eu agora sou sua mamãe? — Ergui o
focinho dele até a altura do meu rosto, dando um beijinho de esquimó igual
quando o conheci. Ele começou a lamber meu nariz, arfando e abanando o
rabinho. Ouvi o riso de Hector e o vi encostado na soleira da porta, os braços
cruzados, me olhando como se eu fosse seu mundo inteiro. — Estava certo,
eu adorei.
— Sei que no fundo só está comigo por causa dele, achei melhor fazer
esse agrado — ele brincou, me fazendo sorrir mais, enquanto ajeitava Rudy
no meu colo e me aproximava.
— Droga, meu segredo foi descoberto — devolvi a brincadeira,
piscando um olho. Eu me sentia tão bem aqui quanto em casa, confortável.
Ele sorriu, pegando o cachorro do meu colo e colocando-o no chão, as mãos
indo parar na minha cintura, me puxando para perto.
Sem dizer nada, ele se inclinou, me beijando de novo, dessa vez
devagar, a língua brincando contra meu lábio inferior antes de alcançar a
minha, me fazendo suspirar baixinho contra ele, meus braços passando por
seu pescoço, enquanto eu ficava na ponta dos pés, os dedos se enroscando em
seu pescoço do jeitinho que eu adorava fazer.
O beijei por todo o tempo que pude, parando um mísero instante para
tomar ar e voltando a colar nossos lábios, dessa vez com mais força. Eu tinha
sentido falta disso, falta dos toques dele, falta desses momentos sozinhos dos
quais tivemos tão pouco até aqui. As mãos dele desceram, me puxando mais
para perto. Quando ele se afastou, apenas um pouco, eu estava sem ar, dando
um sorriso bobo.
— Agora sim, oi. — Ele sorriu, uma mão vindo fazer carinho na minha
bochecha, antes de se afastar. — Senti falta disso, de te beijar sem medo.
Você é um vício, Alice.
— Olha só quem fala. — Balancei a cabeça, vendo ele fazer uma
carinha de inocente e dar de ombros. Entrelacei nossos dedos, deixando-o me
puxar até o sofá, que já havia se tornado nosso lugar.
— Ansiosa para hoje à noite?
— Mal consegui dormir direito essa noite, acho que já bati meu recorde
de taquicardias, e tem borboletas fazendo uma rave no meu estômago. É, eu
diria que estou bem. — A última frase saiu com um tom irônico e ele riu, se
jogando no sofá e me puxando pela mão quando fez isso, me fazendo cair por
cima dele, sentada de lado no seu colo.
— Pare de se preocupar, deusa. Vai ser uma noite ótima, você vai se
dar bem com todos, e eu vou ser o namorado mais orgulhoso deste mundo. —
Ele envolveu minha cintura com carinho e eu suspirei, deitando a cabeça em
seu ombro.
— Você é sempre tão positivo... não tem medo de que as coisas deem
errado às vezes?
— Tenho, mas sempre tento pesar positivo. Alguns resultados não são
do meu controle, então é melhor focar na melhor possibilidade do que me
desesperar antes da hora. — Ele deu de ombros, as mãos passeando devagar
pelas minhas costas.
— Você não pode ser real. — Ri baixinho, beijando o pescoço dele de
leve, fechando meus olhos.
— Sou, sim. Pode até me morder se quiser testar, eu deixo — ele
brincou.
— Olha que eu mordo, mesmo — ameacei, a voz brincalhona. — Que
horas preciso começar a me arrumar?
— Depende do quanto pretende se arrumar. Eu fico pronto em meia
hora, mas acho que você precisa de mais do que isso, acertei?
— Eu vou ter que me maquiar sozinha, então com certeza mais de meia
hora, a menos que queira chegar lá acompanhado de uma palhacinha de circo.
— A palhacinha mais linda. — Ele beijou minha testa, sorrindo. — O
evento é às sete horas, mas precisamos estar lá às seis e meia, já que
tecnicamente sou um dos anfitriões também.
— Ok. Já, já vou tomar banho então, essa parte vai ser rápida, já que
não vou lavar o cabelo agora. Minha mãe fez uma hidratação nele ontem, no
começo da noite, por isso os cachos estão mais baixos e comportados —
expliquei, sentindo a mão dele subir das minhas costas para a nuca.
— Se precisar de alguém para esfregar suas costas, pode me chamar —
ele provocou, me deixando até em dúvida se era brincadeira ou não. Ele sabia
como deixar o clima mais leve num piscar de olhos.
— Vou fingir não saber que você quer esfregar outras coisas — devolvi
a provocação, ouvindo o riso dele.
— Espertinha. — Ele beijou minha cabeça de novo, fazendo carinho na
minha nuca daquele jeitinho que me deixava toda mole nos braços dele.
Suspirei.
— Pare com isso... sabe que é meu ponto fraco.
— Claro que sei, por que acha que estou fazendo isso? — Ele sorriu,
me fazendo sorrir também. Eu adorava esse jeito dele de me provocar e
brincar ao mesmo tempo, a forma como me deixava confortável para me
soltar.
— Malvado — sussurrei, deixando um beijinho em seu pescoço e
fechando os olhos por um instante, só curtindo a companhia dele em silêncio
por alguns minutos, aproveitando aquela proximidade calma.
Afastei-me após alguns minutos, puxando o pulso dele para ver no
relógio que horas eram. Quase cinco. Suspirei, dando um selinho nele e me
afastando.
— Hora do banho?
— Hora do banho — concordei, me levantando.
— Tem uma toalha e roupão rosa no banheiro, comprei pra você. Pode
usar enquanto se arruma, se quiser.
— Obrigada. — Sorri, achando aquele gesto dele superfofo e atencioso.
Soprei um beijo e fui para o quarto, pegando uma calcinha e meu kit de
banho na bolsa e entrando no banheiro, prendendo meu cabelo no alto para
não molhar por acidente.
Liguei o chuveiro de alta pressão, tão encantada com a força da água
quanto da outra vez, tentando não demorar demais no banho, mas acabei
gastando uns vinte minutos, distraída em aproveitar a massagem que a água
fazia nas minhas costas. O banheiro estava cheirando ao meu sabonete
quando eu saí, o roupão amarrado bem apertado à minha volta. Era um
roupão longo, de um tecido macio e fofinho, e eu me sentia como se estivesse
abraçando uma nuvem.
Ele estava sentado na cadeira do computador, já sem o paletó e com a
gravata frouxa em volta do pescoço. Lindo.
— O banheiro está livre — avisei, vendo ele se virar para mim, dando
um sorriso de canto.
— Você fica linda de roupão. — A voz dele soou casual, mas o elogio
me deixou vermelha, mesmo assim. Ele se levantou, passando por mim,
inspirando o ar perfumado que vinha do banheiro ao chegar à porta, e eu
podia jurar que o vi dar um sorriso bobo enquanto entrava. Dei uma risada
baixa, indo pegar minhas coisas. Coloquei logo o vestido, mas teria que
esperar até ele sair do banheiro para fechar o zíper, não conseguia alcançar
minhas costas de jeito nenhum. E então chegou o momento complicado, me
maquiar.
Andei até o espelho na parede do canto, colocando a maquiagem na
mesinha do lado e primeiro colocando os grampos no cabelo, deixando uma
parte dos cachos no alto, em seguida começando bem devagar a maquiagem,
com todo o cuidado do mundo pra não sujar o vestido por acidente. Estava
acabando de passar a base, bem de levinho pra não ficar marcada demais,
quando ouvi a porta do banheiro se abrir e ele saiu de lá, com uma toalha na
cintura e outra secando os cabelos. Vi pelo reflexo no espelho, e suspirei
baixinho, o vendo andar na direção do closet. Aquele homem molhado era a
visão do paraíso, pelo amor de Deus.
Respirei fundo, tentando voltar minha concentração para a maquiagem,
pegando meu celular e procurando o tutorial de sombra que tinha achado no
Pinterest, deixando-o na mesinha e olhando o tempo todo para conferir se
estava fazendo certo, passando primeiro uma camada de dourado clarinho em
cada olho. Ia começar a tentar esfumar o marrom em volta sem fazer uma
bagunça, quando vi pelo reflexo Hector se aproximando, de calça social e
uma camisa desabotoada, e um instante depois as mãos dele estavam na
minha cintura, seus lábios no meu ouvido.
— Nem está pronta ainda e eu já sei que vai ser a mulher mais bonita
do evento — ele sussurrou, o hálito quente na minha pele, dando um
sorrisinho e deixando um beijo no meu pescoço, se afastando em seguida. —
Quer ajuda com o zíper? — Assenti, sentindo os dedos dele descerem pela
pele exposta das minhas costas, alcançando o zíper e o puxando para cima.
Deixei um suspiro baixinho escapar. Me virei pra ele, dando de cara com
aquele sorrisinho convencido, e deixei meus olhos descerem por seu peito, os
músculos levemente definidos, na medida certa, uma trilha aparada de pelos
que sumia dentro da calça. Mordi meu lábio inferior.
— Devia ser crime ser tão gostoso assim, você já tem privilégios
demais — resmunguei, ouvindo a risada dele enquanto eu erguia meu olhar
de volta. Eu tinha visto ele sem camisa naquele domingo, mas estava com a
mente dividida entre a visão dele e as sensações novas de ter ele.
— Me acha gostoso, é? — ele provocou, se inclinando e me beijando,
demorando um pouco. — Bom saber.
— Cale a boca... — falei baixinho, meu rosto ficando quente, e me virei
de volta para o espelho, tentando lembrar como segurar o pincel de sombra.
Observei pelo reflexo ele se afastar pelo quarto enquanto abotoava a camisa.
Respirei fundo, me concentrando, e comecei a esfumar bem de leve o
marrom sobre o dourado. Demorei e me atrapalhei um pouco, suspirando no
final, me afastando um pouco para observar o resultado. Tinha dado certo.
Não estava perfeito como eu queria, mas era o melhor que podia fazer.
Hector tinha desaparecido dentro do closet de novo, e eu me peguei pensando
que não me incomodaria nem um pouco de me arrumar ao lado dele pelo
resto da vida. Balancei a cabeça para afastar esse pensamento. Nada de ir
com tanta sede ao pote, repreendi a mim mesma.
Peguei o delineador, dando graças a Deus por ter gastado os vinte e
cinco dólares no modelo com carimbo, ao menos o delineado ficou perfeito
pra compensar as pequenas falhas na sombra. Tinha acabado de passar o
rímel, com bastante cuidado, quando ele apareceu de novo já de paletó e uma
gravata borboleta, prendendo as abotoaduras das mangas. Estava lindo de
morrer.
— Quase pronta? — ele me perguntou, parando do meu lado no
espelho e pegando um pente da mesma mesinha onde estava minha
maquiagem, daqueles de madeira com dentes dos dois lados, um deles mais
separado e o outro mais junto, começando a pentear a barba.
— Quase. Falta só o batom, os brincos e os sapatos. — Observei-o
pentear o cabelo em seguida, os fios ficando perfeitamente para trás como se
não ousassem desobedecer a ele. Me virei de volta para o espelho, pegando o
batom matte num tom médio-claro de vermelho e começando a passar com
cuidado, sabendo que estragaria toda a base se borrasse. Ele deixou o pente
sobre a mesinha de volta e se afastou, indo até um gaveteiro que havia no
canto.
— Falta o colar também. — Terminei o batom antes de responder,
concentrada.
— Que colar? — Me virei pra ele, que estava de costas, mexendo em
algo.
— Esse aqui. — Ele se virou, com uma corrente nas mãos, um pingente
de pedra vermelha pendurado nela. Arregalei os olhos.
— Hector!
— Surpresa. — Ele sorriu, se aproximando de mim. — Vire-se. —
Fiquei tão sem reação que obedeci, automaticamente afastando os cabelos e o
deixando prender o colar em volta do meu pescoço, sentindo o pingente
gelado contra o meu colo, e levei uma mão até ele, o tocando com cuidado.
Era um rubi de verdade, eu tinha certeza, num corte em formato de lágrima,
com um diamante pequeno em cima, e tinha ficado exatamente na metade do
caminho entre meu pescoço e o centro do decote. — Gostou?
— É lindo. — Me virei de volta para Hector, balançando a cabeça. —
Isso deve ter custado uma fortuna, eu disse que não precisava mais gastar
comigo.
— Não foi caro, não se preocupe com isso. — Eu tinha minhas dúvidas
sobre o que seria “caro” na percepção dele. Com certeza devia ter sido mais
de mil dólares, então era caríssimo, na minha opinião. — Vamos, desfaça
essa expressão zangada. É apenas um mimo.
— Não estou zangada, é só que... não precisava. — Suspirei, abraçando
seu pescoço, sem muita força para não amassar a roupa dele, que me abraçou
de volta. — Mas eu amei, de verdade. Nunca vi nada tão lindo assim antes,
não pessoalmente.
— Ainda bem que gostou. Eu ia pegar o par de brincos que combina,
mas deduzi que você me mataria se eu fizesse isso.
— Deduziu certo. O colar é muito mais que suficiente, e é lindo...
obrigada, de verdade. — Soltei ele, dando um sorriso pequeno, ainda em
choque. — Mas me prometa que não vai mais comprar presentes caros sem
motivo.
— Prometo. — Ele riu, beijando minha testa e se afastando. — Mas
eventualmente vai ter que se acostumar com isso, você é parte dos Vanslow
agora, e minha família ama presentes sem motivo. — Piscou um olho, indo se
sentar na cama para pôr os sapatos.
Peguei meus brincos dourados de argola, que pareciam simples demais
ao lado daquele colar. Sim, era um colar pequeno, todo o pingente não devia
ter nem dois centímetros direito, mas eu me sentia como se fosse um letreiro
em neon na minha pele.
Peguei meus saltos, colocando os dois e depois me abaixando para
encaixar a parte de trás no calcanhar. Hector estava sentado na cama, me
olhando, quando terminei.
— Agora sim, pronta. — Peguei a bolsinha preta de mão que eu tinha
trazido, que na verdade, era de vovó, e coloquei meu celular e o batom dentro
dela.
— Você está linda. — Ele deu um sorriso maravilhoso, se levantando e
alisando o paletó, estendendo a mão pra mim. — Vamos? Já são seis e dez,
vamos chegar em cima da hora.
— Espero que seu irmão não se zangue. — Entrelacei nossos dedos, e
fomos em direção à porta.
— Ethan deve chegar atrasado ou fazer algo errado logo no começo,
então qualquer irritação de Roman conosco não vai durar muito. — Ele riu,
pegando o celular do bolso de dentro do paletó, ligando para avisar a Nick
para nos esperar no carro que já estávamos descendo.
Três minutos depois, ele estava abrindo a porta de trás para mim, sendo
um fofo, e saímos. O Pallace ficava a dez minutos de distância, se não tivesse
trânsito, mas quem já viu Nova Iorque sem trânsito num sábado à noite?
Demorou quase vinte minutos até o carro entrar na garagem, parando numa
vaga reservada. Claro que Hector tinha uma vaga no hotel do irmão, nem me
surpreendi com isso.
— Pronta? — Ele apertou minha mão, e eu respirei fundo, sentindo um
pouco de taquicardia de novo.
— Teoricamente. — Dei um sorriso esquisito e ele sorriu, levando
minha mão aos lábios e deixando um beijo pequeno ali.
— Respire fundo, e lembre-se de que eu estou com você. Vai ser uma
ótima noite. — Ele sorriu de novo ao dizer isso, tentando me passar
confiança, e eu assenti.
Que seja o que Deus quiser.
Só a soltei pelo tempo necessário para sairmos do carro, voltando a
segurar sua mão, assim que ela chegou ao meu lado. Nesse tipo de evento eu
teoricamente deveria estar com o braço entrelaçado ao dela, bem a moda
antiga, mas eu sabia que ela se sentia mais confortável de mãos dadas, e eu
queria deixá-la o mais calma possível. Tinha certeza de que minha família
iria adorar ela, e assim que ela se soltasse um pouco tudo daria certo.
O estacionamento onde estávamos era subterrâneo, então pegamos o
elevador até o primeiro andar, caminhando pelos corredores até o salão de
grandes eventos. O Pallace era um dos maiores hotéis de Nova Iorque, estava
na família desde quando meu pai começou a Vanslow Corp, e nenhum de nós
se incomodou quando ele passou para o nome de Roman, que já administrava
tudo por aqui há anos de qualquer forma.
Alice olhava em volta com os olhos atentos, claramente maravilhada
com aquilo tudo. Sorri, achando ela muito mais linda que qualquer decoração
existente no mundo. Apertei a mão dela de leve quando chegamos nas portas
duplas do salão.
— Lembre-se de respirar, e ser você mesma — sussurrei, beijando a
têmpora dela, que engoliu em seco e assentiu.
— Ok, respirar. — Ela apertou meus dedos e nós entramos. Roman
estava conversando com a assistente, Camilla, provavelmente conferindo
tudo, e só notou nossa presença quando nos aproximamos, erguendo a cabeça
do tablet.
— Eu reclamaria do atraso, mas ainda conseguiu ser o primeiro a
chegar. — Ele balançou a cabeça, me fazendo dar rir, e entregou o tablet de
volta à Camilla. Os olhos dele foram para Alice, um sorriso se abrindo. —
Ah, então você é a namorada. Seja muito bem-vinda, Alice. Espero que goste
do evento.
— Obrigada. — A voz dela saiu baixa, mas ela deu um sorriso que
parecia muito bem ensaiado. — A decoração está maravilhosa.
— Tudo graças à Camilla. — Ele inclinou a cabeça na direção da
assistente, que sorriu. — Não sei o que seria dos meus eventos sem a ajuda
dela.
— Seriam tão bons quanto já são, mas talvez menos bem decorados. —
A mulher sorriu, em seguida levando uma mão à orelha, apertando o pequeno
ponto eletrônico. — Com licença. — E se afastou, indo resolver alguma
coisa. Roman observou por um instante aonde ela ia, e então se voltou para
nós de novo, dando um sorriso.
— Bem, eu tenho que ir recepcionar os convidados que logo devem
começar a chegar, mas fiquem à vontade. Mais uma vez, seja bem-vinda. —
Ele deu um pequeno aceno com a cabeça para Alice e foi até a porta, parando
naquela pose comportada e bem treinada dele. Ele era assim, poucas palavras
com pessoas novas, sempre focado no trabalho, sempre tinha algo para fazer.
— Um foi, faltam três. — Sorri para Alice, que deu um risinho baixo.
— Tudo bem?
— Até agora, tudo certo. — Ela apertou meus dedos, com carinho.
— Ótimo. Fique calma, os outros eu garanto que vão ser mais falantes.
Roman é... bem, Roman. Calado, mas tem um bom coração.
— Entendi. — Ela desviou o olhar, observando a decoração mais uma
vez, e eu a puxei gentilmente para começarmos a andar pelo enorme salão.
Tinha um palco montado em uma extremidade, onde alguma banda da
gravadora de Phillip acabava de ajustar os instrumentos, e algumas mesas ao
redor do espaço amplo no meio. — O que exatamente se faz em um evento
desses? Eu me esqueci de perguntar antes, estou totalmente perdida.
— É uma festa, as pessoas conversam, bebem, mas não muito, e no
final escrevem cheques de doações — expliquei, e antes que ela pudesse
responder, eu ouvi a risada de Ethan se aproximar. — Lá vem o segundo —
murmurei, vendo- ela dar um sorriso nervoso, e me virei, vendo meu irmão e
Nicole se aproximarem de nós. Ele estava com um terno verde-escuro, o
cabelo milagrosamente preso para trás, e a loira estava usando um vestido
azul-escuro sem mangas e colado no corpo, com uma fenda que se abria na
coxa. Ela tinha o tipo de beleza óbvia que a maioria gosta.
— Que que há, velhinho? — ele me cumprimentou com uma imitação
ridícula do Pernalonga, me fazendo rir. — Viu só, cheguei até cedo hoje, não
sou tão irresponsável.
— Pare de mentir, só chegou na hora porque eu te apressei. — Nicole
fez uma careta para ele, se virando para mim e Alice com um sorriso. — E
me agradeça também por ter o convencido a pentear o cabelo.
— Cale a boca, Nic. — Ele a empurrou de leve com o ombro e se virou
para Alice. — Então você é Alice. Bem-vinda à família.
— Obrigada.
— Somos um pouco caóticos às vezes, eu principalmente, mas com o
tempo você se acostuma. — Ele riu, enquanto a melhor amiga revirava os
olhos.
— Uma dica de ouro para a convivência com os Vanslow — Nicole
começou, fazendo suspense —, ignore metade do que Ethan disser e vai ficar
bem. — Ela gargalhou, e Alice deixou escapar uma risadinha.
— Sabe, ela não está errada — comentei, vendo Ethan fechar a cara.
— Isso é um complô, por acaso? Parem de virar a garota contra mim.
— Ele riu, os olhos em Alice. — Ignore esses dois, isso sim. Sou o melhor
dos Vanslow.
— Melhor dos Vanslow, estão falando de mim? — Brian se aproximou,
usando um blazer azul-escuro e uma calça social preta, rindo.
— Até parece. — Ethan riu, balançando a cabeça. — Estávamos
contando para a nova adição da família o quão incrível eu sou.
— Convencido. — Nicole fingiu uma tosse ao dizer isso, rindo.
— Vão acabar assustando a garota, isso sim. — Brian riu, estendendo a
mão para Alice. — Sou Brian, é um prazer te conhecer.
— Igualmente. — Ela apertou a mão dele com a mão livre, e ele sorriu.
— Ouvi falar muito de você, mas é ainda mais bonita pessoalmente.
Agora entendi porque meu irmão virou um bobo apaixonado. — Ele sorriu, e
ela ficou vermelha, o rubor mais fraco que o normal graças a maquiagem que
camuflava a pele dela. — Ele me disse que você é atriz, certo? — Ela
assentiu. — Ótimo, precisávamos de mais algum artista na família, eu já
estava correndo louco em ter que carregar todo o peso de talento da família
sozinho.
— Daqui pra frente, eu te ajudo. — Ela conseguiu sorrir, e seu aperto
nervoso na minha mão estava começando a relaxar, podia notar que ela
estava começando a ver que não precisava ter medo.
— Atriz? — Nicole se intrometeu, dando um sorriso enorme. — Que
incrível, já tem algum projeto em vista?
— Eu... vou ser a principal na peça semestral da Lucille, em junho —
ela falou baixinho, tímida, e Nicole deu um gritinho contido.
— Parabéns! Vai ter que me contar tudo sobre como vai ser, eu adoro
teatro. E boa sorte em me suportar, eu esperei séculos para termos mais uma
garota no grupo, não aguento mais esses cinco. — Nicole era muito amigável
e puxou Alice de junto de mim, que arregalou um pouco os olhos enquanto a
loira grudava em seu braço. — Não sei se Hector te explicou, mas eu sou
praticamente da família. Meu pai estudou com o deles em Yale, e eu e Ethan
fomos para os mesmos colégios e internatos, acredita que fazemos
aniversário na mesma semana, com só dois dias de distância? — Ela era
falante também, e eu tive um pequeno receio de que pudesse sobrecarregar
Alice, mas ela parecia bem até agora. — Enfim, é bom não ser mais a única
garota. E eu adorei seu vestido!
— Obrigada. — Alice parecia apenas um pouco perdida, e eu lembrei
que ela não sabia agir com amigas pessoalmente. Sorri, pensando que com
Nicole ela aprenderia. — O seu também é maravilhoso.
A loira estava prestes a começar a tagarelar sobre qualquer coisa de
novo quando Phillip se aproximou do grupo, usando um terno azul-escuro.
— Já deixou Nicole roubar sua namorada, Hector? — ele brincou,
olhando para Alice. — Sou Phill, prazer em te conhecer.
— Igualmente.
— Roman me pediu para avisar a vocês que isso não é uma reunião de
família e que precisamos conversar com todos que chegarem, então eu
recomendaria dispersar o grupo, antes que ele mande Camilla vir puxar
nossas orelhas. — Ele revirou os olhos, com um ar de riso.
— Ele tem que parar de dar ordens e relaxar um pouco — Ethan
resmungou, nos fazendo rir. Até Alice deu uma risadinha baixa, os olhos
mostrando que estava um pouco atordoada com tudo aquilo. Ele seguiu meu
olhar para ela e Nicole. — Nic, devolva a namorada de Hector, vocês vão ter
a noite inteira pra ficarem amigas, deixe que ele ao menos a apresente às
pessoas antes de monopolizar a coitada, não queremos que ela saia correndo.
— Ninguém sairia correndo de mim. — Ela riu, soltando o braço de
Alice, que voltou pra junto de mim. — Vocês fazem um casal bonito. — E
com isso, sem nem se despedir, ela saiu puxando Ethan em direção ao bar.
Um a um meus irmãos se afastaram, indo conversar com alguns
conhecidos que começavam a chegar, me deixando sozinho com Alice. Ela
me deu um sorriso, respirando fundo.
— Até que não foi tão difícil. Seus irmãos são estranhos, mas legais. E
eu agora reafirmo minha aposta, Nicole e Ethan vão ter algo antes de
dezembro deste ano.
— Ainda acho que demora até o próximo ano — rebati, passando meu
braço em volta da cintura dela de forma casual. — Está mais calma agora?
— Uhum — ela assentiu.
— Bom, pois a noite só está começando. E ainda faltam meus pais,
logo eles devem chegar. — Começamos a caminhar pelo salão,
cumprimentando algumas personalidades da mídia e socialites que chegavam,
e aos poucos ela foi relaxando mais ao meu lado.
Estávamos perto do bar, eu com minha taça de champanhe e ela com
uma de espumante sem álcool, quando eu vi meus pais entrarem no salão, de
braços dados, e virem direto na minha direção, após cumprimentarem
Roman. Eu havia avisado que traria minha namorada, e principalmente minha
mãe havia ficado ansiosa com isso. Fazia um bom tempo desde que um dos
filhos deu algum sinal de relacionamento sério, até agora.
Minha mãe estava com um vestido longo de veludo verde, de mangas
que iam até os cotovelos, um que eu sabia ser um de seus favoritos, com uma
gargantilha de esmeraldas e diamantes no pescoço, roubando a cena, como
sempre. Aos cinquenta e sete anos, Carmen Merissa Vanslow ainda era uma
das mulheres mais bonitas de todo o nosso círculo social, e eu não dizia isso
só por ser filho dela. Ao seu lado, meu pai estava com um terno preto e a
gravata no mesmo tom de verde do vestido dela. Eles combinavam cores
desde que se casaram, era uma tradição.
— Mãe, pai — cumprimentei, com um aceno de cabeça, vendo o
sorriso largo e ainda assim perfeitamente apropriado de minha mãe. — Essa
aqui é Alice, minha namorada.
— Muito prazer, senhor e senhora Vanslow. — A voz dela tremeu
quase imperceptivelmente, dando um sorriso pequeno e educado.
— Por favor, querida, me chame de Carmen. E preciso dizer, seu
vestido está divino, combinamos no tecido. — Segurei a vontade de dar um
sorriso convencido para Alice, eu tinha dito que minha mãe ia falar do tecido,
e estava certo.
— Obrigada. Não consigo nem encontrar elogios para o seu, a senhora
está belíssima — ela elogiou, e eu pude ver que não eram palavras vazias
para agradar, que ela realmente pensava isso, o brilho deslumbrado nos olhos
dizia tudo.
— Seja bem-vinda à família — meu pai falou, dando um sorriso e se
virando para mim. — Hector, sei que não é o momento, mas podemos dar
uma palavrinha? É sobre o cassino. — A expressão dele se fechou. Segurei
um suspiro, eu ainda iria matar Ethan por ter me convencido a entrar nessa
furada, não aguentava mais ter problemas por causa disso.
— Agora? — Meus olhos foram para Alice ao meu lado, numa
pergunta silenciosa se ela ficaria bem sem mim.
— Pode ir, querido, eu faço companhia à Alice. Tenho certeza de que
seremos boas amigas. — Minha mãe sorriu, e Alice assentiu de leve.
— Está tudo bem. Sua mãe pode me manter entretida com histórias do
que você aprontava quando criança. — Ela fez essa brincadeirinha, e meu
peito se encheu de alegria ao perceber que ela aos poucos estava se soltando.
— Ok. Volto logo.
Beijei o rosto dela e me afastei com meu pai, minha mente praticamente
se desligando enquanto ele falava sobre o quanto eu havia sido irresponsável
ao abrir um cassino sem ter um gerente especialista pré-contratado, que
coloquei uma fortuna em risco e que tinha sorte do novo agente de cassinos
ser realmente bom no trabalho.
— Eu entendo, não vai se repetir.
— Ótimo. Agora, mudando o assunto para algo mais agradável, me fale
sobre a garota. Você quase não liga mais ou visita eu e sua mãe, Rhode Island
fica a apenas duas horas daqui, esqueceu? — Ele balançou a cabeça,
aceitando um copo de whisky com gelo que um garçom ofereceu. — Acha
que ela é a certa?
— Acho — assenti, dando um sorriso. — Ela é tudo que eu sempre
sonhei, externa e internamente, se encaixa em cada pequeno detalhe. Estava
conversando com Brian sobre isso, semana passada, é como se ela tivesse
sido feita à mão para mim. Ela é... a tempestade perfeita. — Meu olhar vagou
para o outro lado do salão, onde ela estava agora sentada com minha mãe,
falando algo daquele jeitinho que ela falava quando se animava demais com
alguma coisa. — Ela é tão sensível, e quando se empolga com algo ela põe
todo seu coração nisso. É como o whisky mais antigo e forte, complexa e
incrível de se desvendar.
— Você a ama. — Ele ergueu uma sobrancelha, dando aquele velho e
conhecido sorriso de quem sabia das coisas.
— Eu não disse isso.
— Não precisou dizer. A forma como a descreveu é como eu
descreveria sua mãe, trinta e tantos anos atrás, quando a conheci, e essa lista
só ganhou mais e mais adjetivos com o passar dos anos. Se quiser um
conselho, filho, agarre-se a esse amor, e a coloque num pedestal e se devote a
ela. Foi assim que ganhei o coração de sua mãe.
— Vou fazer isso — assenti, desviando meu olhar para minha mãe e
Alice de novo, vendo que dessa vez elas estavam rindo. Minha garota, antes
tão nervosa, estava rindo.
— Vá, volte para junto dela. Vou procurar Ethan para uma palavrinha
também. — Ele apertou meu ombro, a forma dele de demonstrar carinho com
os filhos, e saiu andando. Atravessei o salão até a mesa delas, parando no
caminho para pegar alguns doces para Alice. À medida que me aproximava,
deu para ouvir a conversa das duas.
— Faça Hector te levar em Rhode Island qualquer dia, adoraríamos te
receber, e eu poderia mostrar as fotos que comentei. — Minha mãe sorriu, e
eu ergui uma sobrancelha ao parar ao lado da mesa.
— Espero que não sejam fotos minhas — brinquei, colocando o
pratinho de doces em frente à Alice. — Trouxe algumas sobremesas, imagino
que vá gostar. Todas levam chocolate.
— Obrigada. E sim, são fotos suas de quando era bebê. Mal posso
esperar pra ver um mini Hector gorduchinho e fofo — ela fez graça, e eu ouvi
a risada da minha mãe. — Sua mãe estava me contando que você nem sempre
foi tão comportado como é hoje, senhor adolescente rebelde.
— Já me arrependi de deixar vocês duas sozinhas. — Ri, puxando uma
cadeira e me sentando ao lado dela.
— Pois deveria ter demorado mais, nem tive tempo de começar a
interrogá-la de fato, a espertinha me distraiu com conversas sobre peças de
teatro e sua infância. — Minha mãe deu um sorriso afetuoso para Alice, e eu
percebi o quanto elas tinham se dado bem.
— Então que bom que cheguei a tempo de impedir o questionamento.
— Sorri, vendo Alice morder um docinho redondo com casca de chocolate e
recheio de morango. Ela pareceu gostar.
— Teremos outras oportunidades. — Minha mãe sorriu, desviando o
olhar e acenando levemente para alguém atrás de nós. Em um instante Nicole
estava na nossa mesa. — Nicole, querida, não tinha te visto ainda.
— Oi, Carmen. — Ela sorriu. — Vejo que já conheceu nossa nova
garota, finalmente uma nova adição à família.
— Finamente — minha mãe comentou, e eu estava gostando da forma
como elas falavam de Alice. Sabiam que era algo recente, mas me conheciam
o bastante para saber que era sério, e já a tratavam como uma adição
permanente.
— Sabia que ela é atriz? Tem até uma peça, como a protagonista, em
junho. Inclusive, pode ir começando a me contar mais sobre como vai ser.
Qual o tema, a história, nos dê todos os spoilers — Nicole insistiu, e Alice
acabou de mastigar o doce e começou a falar.
Apoiei meu braço no encosto da cadeira dela, ouvindo a voz dela se
tornar mais confiante enquanto ela sorria ao explicar detalhes, começando até
a gesticular um pouco ao explicar como seriam feitas as partes técnicas da
junção de narração e cena silenciosa nos flashbacks. Percebi em silêncio que
ela estava cercada de gente, e não estava escondida. Estava confortável,
animada, monopolizando todos os olhares de quem passava por ali, duas
socialites e uma senhora dona de uma rede de lojas parando para ouvir o final
da história.
Ela estava roubando a cena, e eu não podia estar mais orgulhoso.
Após mais algum tempo de conversa Nicole pediu que ela a
acompanhasse até o banheiro, e para a minha surpresa as duas saíram rindo e
conversando como boas amigas no caminho. Fiquei olhando enquanto ela se
afastava, achando ela a coisa mais linda que eu já havia visto.
— Ela é maravilhosa — minha mãe comentou, aproveitando que
ficamos só nós. — Consigo entender facilmente o que viu nela. Não fique
zangado, mas Brian me contou sobre a conversa que vocês tiveram, e eu
fiquei preocupada com a possibilidade de que ela pudesse ser uma espécie de
peso ou impedimento na sua vida, mas agora que a conheci... ela é incrível.
— Brian não tinha o direito de falar, mas nem me surpreendo, ele te
conta tudo. E sim, ela é. — Sorri. — Fico feliz que tenham se dado bem, ela
estava apavorada com a ideia de conhecer a família, mas parece ter se soltado
com a senhora.
— Eu sei como conquistar garotas tímidas — ela brincou, sorrindo. —
E gostaria de dizer que ela até agora já se mostrou bem melhor que Elisa. Ela
era fútil demais, poderia dar certo com Phillip, mas não com você, não a
longo prazo. Fico contente que tenha encontrado Alice, e saiba que vai se ver
comigo se a magoar.
— Jamais a magoaria. Só largo dela se ela não me quiser mais, estou
mergulhando de cabeça nessa relação.
— Você já a ama, não é? Sempre apressado.
— O pai disse a mesma coisa. Eu nem tinha percebido que esse
sentimento todo poderia ser amor. Sempre vemos o amor como algo cheio de
impedimentos e complicado e até doloroso, mas com ela não é assim. É
simples, um sentimento rápido que não se importa que só nos conheçamos há
três semanas, Brian deve ter te contado que eu estou até acreditando em
teorias de reencarnação e almas gêmeas, ao menos assim seria uma boa
explicação para tudo isso. — Suspirei, pegando um copo com dois dedos de
whisky que passou em uma bandeja, dando um gole.
— Você fica lindo apaixonado, meu filho. — Minha mãe sorriu. —
Seja feliz ao lado dela, e eu estarei feliz por vocês. E me ligue quando tiver
alguma novidade, não quero ter que sempre ouvir as coisas através de Brian.
— Ela reclamou em um tom leve, me fazendo sorrir. Vi Alice e Nicole
saírem do corredor dos banheiros, e virei o resto do meu copo e me
levantando.
— Bem, se me dá licença, vou chamar a minha garota para dançar
comigo.
— Vá lá, divirta-se.
Andei até as duas, ouvindo elas darem risadinhas como se fossem
amigas antigas, meu peito mais uma vez se aquecendo ao ver Alice se
encaixar no meu mundo.
— Nicole, me deixaria roubar Alice por uma música ou duas? —
perguntei, com um sorriso, vendo a loira fingir uma careta.
— Só deixo porque já a monopolizei demais e vocês merecem um
tempinho juntos, mas tem que prometer levar ela pra me visitar qualquer dia
desses.
— Prometo. — Ela riu e soltou Alice, para quem estendi uma mão. —
Dança comigo?
— Eu não sei dançar... não de verdade.
— Eu te ensino, é fácil. Pode até pisar nos meus pés que eu não vou me
incomodar — brinquei, vendo ela dar um risinho e segurar minha mão,
andando juntos até a frente do palco, onde alguns casais dançavam devagar
no ritmo da música lenta e romântica que tocava.
— Não sabia que se dançava em eventos assim. Pensei que só se
conversasse e recebesse convidados — ela admitiu, levando uma mão ao meu
ombro, enquanto eu segurava sua cintura.
— Depende do evento. Se for um leilão, comum ou silencioso, não se
dança, mas aqui é uma versão diminuída de um baile, praticamente. Um
pouco de tudo, para agradar todos e arrancar doações generosas de todos —
expliquei, começando a dançar com ela, devagar, nossos pés se movendo no
ritmo da música.
— Entendi. Sabe, gostei bastante da sua mãe, e de Nicole. As duas são
maravilhosas. Estou até me sentindo boba por ter tido medo antes, as pessoas
com quem falei são simpáticas, e ninguém me olhou como uma impostora no
lugar errado.
— Eu disse que te aceitariam bem, não disse? — Dei um sorrisinho
convencido, vendo seu sorriso em resposta. — Estou gostando de te ver
sorrindo. Hoje é um dia dos muitos bons, não é?
— Está sendo, graças a vocês, Vanslow. Não lembro de ter te contado,
mas acho que já deve ter notado que eu não tenho costume com festas de
nenhum tipo. Estava com medo de não saber como agir, mas vocês ricos
realmente são pessoas normais! — Ela deu um risinho, me fazendo balançar a
cabeça.
— Ainda tinha dúvidas? Somos pessoas comuns com dinheiro demais,
nada além disso.
— Estou começando a acreditar nisso. — Ela sorriu, se aproximando e
recostando suavemente a cabeça no meu ombro enquanto dançávamos.
— Acho que eu mencionei antes de sairmos, mas preciso dizer de novo:
você está tão linda esta noite. Perfeita, em todos os sentidos, e uma parte de
mim mal pode esperar para voltarmos ao apartamento.
— Está planejando me seduzir? — ela sussurrou, erguendo os olhos
para mim.
— Talvez eu esteja. — Pisquei um olho, dando um sorrisinho. —
Gostaria ser seduzida por mim?
— Adoraria. — A voz dela ficou ainda mais baixa, o rosto vermelho,
aparecendo mais através da maquiagem que começava a desbotar pelas horas
desde que havia sido feita.
— Bom saber. — Afastei-a do meu corpo, a segurando por uma mão e
a rodopiando, vendo ela dar uma risada espontânea e bonita enquanto eu a
trazia para perto de novo. Alguns casais que estavam perto de nós se viraram
para ver o que era, e uma senhora sorriu ao nos ver, provavelmente pensando
algo como “esses jovens”.
E naquele momento, com ela rindo nos meus braços, eu percebi que
realmente a amava.
A festa foi até às onze, e nós tivemos que esperar todos os convidados
irem embora antes de nós, afinal, éramos os anfitriões. Roman estava
orgulhoso, havia sido um sucesso, e agora estávamos todos sentados de
qualquer jeito numa mesa no canto, só a família, jogando conversa fora.
Ethan estava um pouco bêbado, enquanto o resto de nós estávamos apenas
alegres, sabíamos o significado da palavra “limite”.
Alice estava sentada do meu lado, meu braço em volta dos ombros dela,
e durante o passar da noite ela tinha ficado tão leve com a minha família
quanto ficava ao meu lado, tinha se dado bem principalmente com Brian e
Ethan além de minha mãe e Nicole, e agora estava gargalhando de alguma
coisa que um deles disse. Eu não tinha prestado atenção.
Fomos os últimos a ir embora, e Alice estava radiante. Era a primeira
vez que eu a via tão plenamente alegre, sem nenhuma sombra de tristeza nos
olhos. Já estava tão tarde que em pouquíssimo tempo já estávamos no
elevador do Empire. Ela se segurou no meu ombro enquanto tirava os
sapatos, reclamando dos pés a estarem matando.
— Assim que chegarmos, eu te faço uma massagem, que tal?
— Me parece um ótimo plano. Estou exausta, mas nunca me diverti
tanto na vida. E agora, no final, então, já posso dizer com toda a certeza que
amo sua família. Se eu tivesse irmãos, gostaria que fossem como os seus.
— Pode considerá-los assim, se quiser, são seus cunhados, afinal.
— Não tinha pensado por esse lado. — Ela sorriu, encostando a cabeça
no meu ombro enquanto o elevador não chegava na cobertura. — Obrigada,
por me dar a melhor noite da minha vida.
— A noite ainda não acabou, aposto que consigo melhorá-la ainda mais
— provoquei, deixando os pensamentos indecentes que contive durante a
noite toda finalmente ocuparem minha mente. Estava me controlando desde a
hora que saí do banho mais cedo, vendo ela naquele vestido maravilhoso, as
costas expostas no zíper aberto... naquele momento tive vontade até de
ignorar o evento. Ela me deixava louco.
— Lembro de ter dito algo sobre me seduzir... — Ela riu baixinho, e o
elevador parou, as portas se abrindo. Puxei ela pela mão, entrando no
apartamento. Ela deixou os sapatos junto da porta, enquanto eu acendia as
luzes, procurando por Rudy, estranhando ela não vir latindo, mas acabei o
encontrando deitado na almofada atrás do sofá, dormindo como um anjo.
Preferi não incomodar o coitado.
Alice desapareceu dentro do meu quarto, voltando do banheiro alguns
minutos depois, com o cabelo solto. Sorri de canto, feliz por finalmente estar
a sós com ela novamente.
— Pare de me comer com os olhos. — Ela deu um risinho, os olhos
piscando devagar.
— Prefere que eu faça com as mãos? — Ela ficou vermelha quando eu
disse isso, enquanto eu ria e me aproximava, tirando a gravata no meio do
caminho e a jogando em algum canto. — Agora que estamos sozinhos, eu
posso finalmente dizer, você fica extremamente gostosa nesse vestido, sabia?
— Hector! — Ela ficou mais vermelha, mas sorriu. — Eu não preciso
nem dizer o quanto você fica sexy com essa pose toda, de paletó e gravata e
com esse maldito sorriso que acaba comigo.
— Hoje cedo me chamou de gostoso, agora de sexy... — Dei um
sorrisinho, me aproximando dela e segurando sua cintura, a puxando para
perto, me sentindo bem em ter o corpo dela junto ao meu. — Vou ficar
convencido desse jeito.
— Sendo sincera, você tem todo o direito de ficar. — Ela deu um
risinho, envolvendo as mãos no meu pescoço, ficando na ponta dos pés.
— Sabia que precisei me controlar a noite inteira para evitar te arrastar
para o primeiro lugar escondido que achasse e te agarrar? Você já é meu
ponto fraco normalmente, e com esse vestido e as risadas... cacete, Alice,
você me enlouquece. — Me inclinei até tocar sua orelha com os lábios,
mordiscando ali de leve. — Quer que eu te conte o que queria fazer com você
naquela hora que te vi de roupão, e depois com o vestido aberto? As coisas
sujas e pervertidas que me passaram pela mente ao ver essa sua boquinha
linda com esse batom vermelho...
Eu não tinha esquecido que ela tinha um fraco por palavras, e ela
suspirou baixinho, me afastei um pouco bem a tempo de vê-la juntar as
pernas, apertando uma coxa contra a outra. Porra, eu só queria enterrar minha
cara ali até ela gritar.
— Hector, eu não sei se eu... hmm... — A frase dela parou na metade,
os olhos se fechando quando eu comecei a beijar seu pescoço, mas eu sabia o
que ela ia dizer.
— Vamos até onde você se sentir pronta, sem pressão — murmurei,
beijando seu pescoço de novo, subindo numa trilha até sua boca e a tomando
para mim, com toda a força e saudade que eu tinha sentido daqueles beijos
mais fortes durante essas últimas três semanas, sugando a língua dela,
sentindo quando as mãos dela agarraram meu cabelo, me puxando mais para
si.
Ela mesmo sem ar quase não deixou que eu me afastasse, segurando
minha nuca, a respiração ofegante. O batom que restava na boca dela depois
de tantas horas estava agora borrado, a deixando mais sedutora ainda.
Puxei-a comigo até o quarto, me sentando na beirada da cama, a
puxando para o meu colo, uma perna de cada lado, se encaixando
perfeitamente em mim. Ela arfou baixinho ao sentir o quanto eu já estava
duro, escondendo o rosto no meu pescoço.
— Viu como você me deixa? Louco, hipnotizado... doendo, pulsando
de desejo por você. Você lembra da outra vez, não lembra? — ela murmurou
um “uhum” baixinho, os quadris começando a se mover bem devagar, minhas
mãos em suas coxas por cima do vestido. — Desde aquele dia, eu venho
sendo assombrado pela lembrança de você gemendo em cima de mim, do seu
sorrisinho de prazer... eu menti quando disse que era só por causa do horário
que queria que você dormisse aqui hoje. Eu também queria isso aqui, queria
ficar a sós com a minha deusa. — Ela deu uma risadinha, o corpo se
arrepiando com meus toques e sussurros.
— Se eu disser que também esperei por isso, vai acreditar? Que eu
também queria sentir tudo isso de novo, me sentir desejável e sua de novo...
— Ela ergueu o rosto para o meu, roubando beijos rápidos, ainda se movendo
devagarinho. — Você me transforma numa, como foi que me chamou?
Pervertida? — Ela mordeu meu lábio, o prendendo entre os dentes. — Desde
aquele dia, qualquer livro que eu leio que tenha alguma cena quente, eu só
consigo pensar em você, nas coisas que disse... e eu que pensei que por causa
dos remédios nunca mais ia sentir desejo, mas é só você me olhar desse jeito
que eu fico toda...
— Molhada? — provoquei, com um risinho, subindo as mãos por suas
coxas, amassando um pouco o vestido. Ela assentiu uma vez, o rosto
queimando, e eu a beijei de novo, até ela estar ofegante mais uma vez. — Eu
sei bem como é, mais de um dia eu acordei excitado por sonhar com você.
Não me envergonho em admitir que tive que me virar sozinho. — Ri,
mordiscando o pescoço dela, que começou a rebolar com mais confiança.
— Dessa vez, eu estou aqui... — A voz dela soou diferente. Não tremeu
nem falhou, muito pelo contrário, as palavras saíram com confiança, a voz
mais baixa e lenta. Ela desceu as mãos do meu pescoço, segurando a frente
do meu paletó e eu deixei que ela o empurrasse para trás, e então as mãos
dela começaram a desabotoar minha camisa, bem devagar. — Sabe, eu
também precisei me controlar mais cedo, quando te vi saindo do banho...
você tem alguma ideia do quão gostoso fica daquele jeito, só de toalha, o
cabelo pingando... é o sonho de qualquer mulher.
— E sou só seu — afirmei, subindo minha mão por sua cintura
enquanto ela continuava a descer pelos botões, um por um, e comecei a
acariciar a lateral do seu seio, vendo ela parar por um instante e fechar os
olhos, os quadris ainda se movendo.
— E eu sua — ela sussurrou, me beijando de novo, esquecendo a
minha camisa por um momento, e eu apenas correspondi aos comandos dela,
a deixando no controle, querendo ver até onde ela iria, o que aquela
cabecinha linda e pervertida estava planejando fazer comigo. Ela respirou
fundo, do jeitinho que fazia quando queria tomar coragem. — Me toca de
novo? Eu ainda não... não sei se tenho coragem de ficar nua, mas... eu quero
suas mãos em mim. — Ela deixou um gemido baixinho escapar ao se
encaixar melhor em mim, a boca entreaberta.
— Eu faço tudo o que me pedir, minha deusa, do jeitinho que me pedir.
Te toco como quiser, onde quiser... você é quem manda. — Comecei o
mesmo movimento que fiz em seu seio da outra vez, por cima do tecido
macio do veludo, sentindo ela se arrepiar inteira no meu colo enquanto
voltava a desabotoar minha camisa, a puxando de dentro da calça ao chegar
no último botão. Afastei os braços apenas por tempo suficiente para a camisa
sem tirada, e voltei a tocar e segurar ela, sentindo seus dedos curiosos sobre
meu peito.
Tinha mais calma dessa vez, mesmo em meio ao desejo desenfreado, e
mais confiança. As mãos dela foram me explorando, passando por cada parte
devagar, traçando círculos com as pontas dos dedos pela minha pele. Me
inclinei, beijando o pescoço dela de novo, aproveitando a posição
privilegiada daquele momento e começando a descer a boca pelo decote dela,
ouvindo ela arfar mais alto quando lambi a pequena parte de seu seio que
estava exposta, os quadris se movendo mais rápido e as unhas passando pela
minha pele, subindo de volta até minha nuca.
— Eu posso... — Ergui meu olhar, meus olhos nos dela. — Disse que
não queria ficar nua ainda, mas... se sentir confortável para isso, eu gostaria
de te beijar bem aqui. — Circulei meu dedo por cima de seu mamilo através
do tecido, deixando claro do que estava falando, deixando a escolha para ela.
— Eu... — ela começou, ofegando baixinho, e soltou uma mão do meu
pescoço, segurando o decote do vestido e o puxando devagar. — Sim, pode
fazer isso. E se quiser pode me tocar de novo... lá. Confio em você, contanto
que meu vestido fique mais ou menos no lugar, pode fazer o que quiser,
como quiser... me mostra aquelas coisas que você falou.
Eu entendi exatamente o que estava acontecendo, ela ainda tinha
vergonha do próprio corpo, não me deixaria que a visse totalmente nua ainda,
não com os olhos, mas estava permitindo que meus dedos a descobrissem.
Ela acabou de puxar o decote, liberando o seio com o qual eu estive
brincando sob o tecido, me fazendo arfar com aquela visão.
Ela era perfeita, do tamanho exato para me deixar louco, o mamilo num
tom claro de marrom, rígido e implorando pelo meu toque.
— Vou fazer exatamente como falei naquela tarde — comecei a
provocar, contendo minha vontade de avançar nela de uma vez, indo com
calma, voltando ao seu pescoço, descendo em beijos lentos, sugando sua pele
no caminho. — Beijar, lamber, morder... e vou te fazer gritar pra mim.
E com esse aviso, minha boca alcançou seu mamilo, seu corpo inteiro
reagindo quando meus lábios o envolveram, deixando um beijo, depois outro
e mais um, agora adicionando a língua, o circulando devagar, deixando eu
mesmo um gemido escapar quando ela aumentou a forma como se movia em
mim, seguindo o mesmo ritmo que minha língua fazia ali. Rocei os dentes
bem de leve, numa provocação de perigo, ouvindo-a dar um gemido
manhoso, puxando meu cabelo.
Minhas mãos começaram a explorá-la devagar, me permitindo conhecer
seu corpo mesmo que sem ver, uma mão parando na lateral de sua coxa
enquanto a outra foi subindo por dentro delas, parando ao chegar perto
demais, meu olhar se erguendo para ela, em busca de uma confirmação. Ela
assentiu, ofegante, parando de se mover e se entregando aos meus toques.
E então meus dedos alcançaram sua calcinha, me fazendo gemer um
“cacete” ao sentir o quão quente e molhada ela estava, mesmo através do
tecido. Ela gemeu também, as pernas se apertando um pouco, os lábios
procurando os meus num beijo necessitado, a respiração falhando quando
comecei a mover os dedos devagar, a descobrindo agora que a tinha mais de
perto, só com o tecido fino atrapalhando. O beijo parou abruptamente quando
ela jogou a cabeça para trás num gemido mais alto.
— Posso... — Prendi um dedo na lateral da calcinha dela, ameaçando a
deslizar para o lado.
— Sim. Pode o que quiser, mas não pare. — Ela nem me deixou
terminar a pergunta, escondendo o rosto no meu pescoço, deixando alguns
beijos ali, me deixando louco.
Afastei o tecido, e meus dedos se encaixaram na umidade dela,
encontrando aquele pontinho sensível e inchado, ouvindo ela dar um gritinho
e puxar meu cabelo mais forte, as mãos descendo pelas minhas costas, as
unhas me provocando. Comecei a acariciar ali devagar, completamente
focado no prazer dela e em descobrir como ela gostava. Deslizando, em
círculos, com mais ou menos pressão... soube que tinha encontrado o jeito
certo quando ela começou a rebolar de novo, gemendo no meu pescoço, o
corpo dando pequenos sinais de espasmos.
Minha mão livre voltou a subir, meu polegar rodeando seu mamilo no
mesmo ritmo que meus dedos trabalhavam entre suas pernas. Não demorou
muito e os gemidos foram ficando mais altos e ofegantes, as pernas dela me
apertando.
— Eu... Hector... — ela murmurou meu nome de uma forma arrastada,
doce e densa, como mel escorrendo, os braços se agarrando à minha volta.
— Goza pra mim, Alice... deixa vir. — Minha voz soou baixa e rouca,
no limite entre pedir e suplicar, e no instante seguinte ela começou a tremer,
as costas de arqueando, enquanto rebolava mais nos meus dedos, gemidos
altos e baixos saindo, muitos deles sendo meu nome, as mãos apertando meus
ombros com força, me deixando ofegante só de vê-la assim, meus dedos
ficando ainda mais molhados, continuando em movimentos mais lentos até
ela dar um gemidinho mais agudo e contrair o corpo, sensível demais pelo
orgasmo recente.
De uma forma totalmente pervertida, me afastei o suficiente para que
ela visse quando levei os dedos molhado à boca, sentindo seu gosto, vendo
seus olhos se arregalarem. Dei um sorrisinho cheio de malícia, me inclinando
e roubando um beijo dela, que não durou muito, já que ela estava sem ar.
— Você... uau. — Ela suspirou, abraçando meu pescoço e encostando a
testa na minha, o peito subindo e descendo ofegante, dando uma risadinha
satisfeita.
— Eu avisei naquele dia que você ia gozar nos meus dedos, não avisei?
— provoquei, rindo quando ela assentiu, o rosto corado tanto de vergonha
quanto por causa de toda a ação. — Valeu a pena?
— Muito... — Ela me beijou devagarinho, o olhar começando a descer
pelo meu corpo, mordendo o lábio inferior enquanto me olhava.
— O que foi?
— Eu... — Ela ergueu o olhar de novo, os olhos verdes brilhantes, as
pupilas dilatadas pelo desejo. — Eu posso te tocar também? Eu quero... não,
eu exijo te retribuir pelo que fez. — O sorriso dela foi tímido, mas
verdadeiro.
— Sabe que não precisa, né? — me assegurei de que ela soubesse
disso, e ela assentiu, segurando meu rosto.
— Sei disso, mas eu realmente quero, e você prometeu que da próxima
vez eu podia... — Ela mordeu o lábio inferior de novo, se afastando um
pouco para ter mais espaço, e começou a descer as mãos pelo meu peito, bem
devagar. — Eu quero ver se é como nos livros, se você fica mais bonito ainda
gemendo meu nome... eu li bastante, tenho uma noção do que fazer. Deixa?
— Eu achei lindo que ela pediu permissão, assim como eu pedia a ela, e
assenti, totalmente entregue.
— Sabe que eu faço tudo o que me pede com esse sorrisinho, não sabe?
— Enrosquei minha mão em sua nuca e a puxei para um beijo intenso, a
deixando livre em seguida. — Sou seu. Me descubra como quiser, me toque
onde quiser... estou à sua mercê.
Ela sorriu, me beijando rápido e voltando a descer as mãos pelo meu
peito, chegando no meu abdômen e raspando as unhas por acaso, repetindo
de propósito quando percebeu que eu me arrepiei. Suas mãos pararam no meu
cinto, soltando a fivela, devagar, e abrindo a calça em seguida, respirando
antes de me tocar, com a mão em cima da minha cueca, primeiro só
deslizando os dedos, e então envolvendo o volume, me fazendo gemer baixo.
Ela sorriu, fazendo de novo, movendo a mão bem devagar, me testando
da mesma forma que eu a testei, tentando descobrir a forma certa de fazer o
que planejava.
— Eu posso tirar? — Ela ficou vermelha ao me pedir isso, dando um
sorrisinho contido. — Eu nunca vi um.... você sabe. Não na vida real.
— Pode fazer o que quiser, desde que se sinta confortável com isso. E
pode parar a hora que quiser também, eu não seria louco de me zangar com
você. No máximo, choraria no banho frio — brinquei, quebrando o
nervosismo dela com uma risada, a vendo relaxar um pouco com isso.
— Ok. — Ela se afastou mais um pouco, o bastante para puxar minha
calça junto com a cueca até o meio das minhas coxas, os olhos se arregalando
e a boca se abrindo em surpresa ao ver a ereção erguida, inclinando um pouco
a cabeça enquanto me observava, os olhos curiosos. Sem dizer nada, ela
subiu uma mão pela minha coxa, até os dedos me alcançarem, contornando
bem levemente minha extensão. Deixei um arfar baixo escapar.
Ela então o envolveu pela base, me segurando e movendo a mão
devagar até em cima, dando uma risadinha baixa, erguendo o olhar para mim.
— É macio. Nos livros, quando dizem ser duro, eu sempre imaginei
que a textura seria como a de uma pedra ou sei lá, algo sólido, mas é macio
por fora. — Ela deu um sorriso como quem estava impressionada, me
fazendo dar um sorriso incrédulo enquanto balançava a cabeça, adorando o
jeito dela, me divertindo com a expressão surpresa que ela fez ao testar o
movimento mais uma vez, confirmando o que tinha percebido.
Ela desceu os olhos de novo, mordendo o lábio inferior, concentrada, a
mão começando a subir e descer, seu toque suave me fazendo gemer baixo.
Ela parou com a mão perto da glande, parecendo pensar por um instante, e
então passou o dedo por ali, deixando outro arfar de surpresa escapar. Segurei
meu gemido, erguendo uma sobrancelha, esperando o que ela diria agora.
— Você também fica molhado. — Ela riu baixinho, aparentemente
havia algo divertido naquele fato. Ela repetiu o movimento, e então voltou a
subir e descer a mão, num vai e vem lento e torturante. — É... gosta assim?
— Gosto... se quiser uma dica, ele não vai quebrar se apertar mais. —
Eu estava desesperado por algum toque mais forte, um alívio maior, e ela
assentiu, a mão se fechando mais à minha volta. — Porra...
Assenti, vendo-a dar um sorriso malicioso, o primeiro desse tipo que eu
via nela, e apoiei minhas mãos na cama, deixando que ela brincasse comigo
como bem entendesse, e aos poucos ela foi pegando mais confiança, sorrindo
e repetindo o movimento todas as vezes que eu gemia mais alto ou que
soltava algum palavrão, e em pouco tempo ela já tinha entendido exatamente
como me deixar louco. Ela aprendia rápido.
— Hector... posso te fazer uma pergunta? — Ela rodeou o polegar na
minha glande de novo enquanto falava, então eu apenas arfei e assenti. —
Você, aquele dia, disse que imaginava minha boca em você, né? Você pode...
me dizer como eu faço? — Ela ergueu o olhar para encontrar minha
expressão surpresa, dando um risinho baixo e se inclinando para me beijar.
— Alice...
— Está tudo bem, eu quero. — Ela me apertou, me arrancando outro
gemido. — Viu? Eu quero ouvir mais desses, eu quero... quero me sentir
poderosa, quero te dar tanto prazer quanto me deu. — O rosto dela assumiu
aquele tom de vermelho que eu amava, a mão continuando a se mover
devagar, enquanto ela se levantava do meu colo, me deixando boquiaberto ao
vê-la realmente se ajoelhar entre as minhas pernas.
— Caralho, deusa, você sempre me surpreende. — Balancei a cabeça,
contornando seu rosto com a ponta dos dedos, me sentindo pulsar com a
visão dela ali, aquele olhar novo e confiante na minha direção. — Faça como
quiser, divirta-se. Eu aviso quando for a hora — garanti, vendo ela assentir,
parecendo parar para pensar um pouco. Provavelmente se lembrando de todas
as cenas de oral que já tinha lido.
E então ela se aproximou mais, uma mão na minha coxa e a outra me
segurando pela base, o hálito morno tocando minha glande quando ela
chegou bem perto e a beijou, puxando um pouco antes de soltar. Meus olhos
fraquejaram, minha boca a recompensando com um gemido quando ela fez
de novo.
E então ela, mal percebendo o poder que aquela visão tinha sobre mim,
esticou a língua e a passou pela glande, como se eu fosse um maldito pirulito.
Minhas mãos se apertaram ao lado da cama, usando todo meu autocontrole
para não explodir agora e dar mais tempo para que ela me explorasse. Ela
percebeu isso, dando uma risadinha baixa e totalmente indecente, e eu vi que
estava fodido. Aquela garota tão inocentemente pervertida me tinha nas mãos
em todos os sentidos, literais ou não, e ela agora estava ciente disso.
Vi a mudança diante dos meus olhos quando a confiança dela
aumentou, o sorriso se tornando mais firme, assim como seu aperto em minha
coxa, antes que ela abrisse a boca e deslizasse a língua por toda a minha
extensão, me fazendo soltar um gemido arrastado, quase sem conseguir
manter os olhos abertos. Ver ela confiar no próprio poder daquela forma me
excitou mais ainda, e me distraí tanto ao pensar nisso que fui surpreendido ao
sentir sua boca fechada em minha glande, a língua traçando círculos lentos
enquanto os lábios me sugavam.
Não consegui mais segurar apenas a cama, precisava tocar ela ou
poderia morrer de frustração, então meus dedos se enroscaram no cabelo
dela, apenas segurando, sem movê-la um milímetro. A escolha era dela. Ela
se afastou um pouco, o olhar se erguendo para mim, passando a língua nos
lábios numa provocação óbvia.
— Coisa cruel e linda. — Balancei a cabeça, sorrindo. — Vai ficar me
torturando? Eu fui tão bonzinho com você...
— Tem razão. — Ela se inclinou novamente, me fazendo soltar um
“porra!” alto quando, sem nenhum aviso prévio, ela me tomou na boca de
uma vez, começando a se mover devagar com ajuda da mão, me deixando
com a respiração ofegante e pesada em questão de segundos. Aquela garota ia
me matar desse jeito.
Meu peito começou a pesar, a sensação na base do meu estômago se
repuxando, e eu segurei seus cabelos com mais firmeza, os gemidos
escapando de mim sem controle algum.
— Alice... porra, isso... eu... — Tentei avisar, sem conseguir formar a
frase inteira, e ela simplesmente não parou, não tive nem certeza se ela estava
me ouvindo, os olhos fechados de concentração. A sensação aumentou, meu
corpo se contraindo de antecipação. — Eu estou quase... Alice! — Tive que
puxar o cabelo dela, a afastando bem na hora, pois no instante seguinte meu
orgasmo irrompeu, me sujando e escorrendo pelos dedos dela.
Não consegui segurar os olhos abertos, principalmente quando ela
ainda moveu a mão um pouco, minha cabeça jogada para trás, tremendo em
pequenos espasmos de prazer, chamando o nome dela repetidas vezes, até
acabar, a respiração ofegante o peito pesado enquanto abria os olhos, dando
um riso alto de satisfação, balançando a cabeça.
— Uau — ela sussurrou, rindo baixinho e afastando a mão, observando
o líquido esbranquiçado nos dedos. Observei incrédulo ela fazer quase o
mesmo que eu fiz com ela, esticando a língua e tocando bem de leve os
dedos, fazendo uma caretinha em seguida que me arrancou uma risada.
— Vem cá. — Puxei-a para cima, precisando beijá-la urgentemente,
sem me importar nem um pouco com onde sua boca estava até agora, e ela
suspirou contra a minha boca. — Amo você — deixei escapar, vendo-a
arregalar os olhos, e antes que ela falasse algo ou começasse a surtar com isso
eu a puxei para outro beijo, mais lento e profundo que os beijos necessitados
de antes, mostrando em ações o que tinha acabado de dizer. — E então, foi
como nos livros?
— Você realmente fica lindo quando está... você sabe. — Ela olhou na
direção da bagunça entre minhas pernas e de volta para mim, o rosto num
tom mais claro de cor-de-rosa que o normal. Ao menos a vergonha dela
estava diminuindo. Ela suspirou, levando as mãos ao meu rosto num carinho.
— Também amo você. Estava com medo, mas já que falou primeiro... — Ela
sorriu, encostando a testa na minha.
— Deusa. — Envolvi sua cintura, tomando o cuidado de a manter
afastada o bastante para não sujar o vestido. Ela percebeu, dando uma
risadinha.
— Quer tomar banho primeiro? Eu deixo. — Ela me deu um selinho, se
levantando do meu colo.
— Acho justo. — Ri, me levantando. — Da próxima, nós tomamos
banho juntos, o que me diz? — Pisquei um olho, me virando na direção do
banheiro.
— Talvez. — Ela sorriu, e eu podia jurar que ouvi ela murmurar algo
sobre “uma bundinha linda”, enquanto eu entrava no banheiro.
Eu me sentia estranha, mas de uma forma boa. Enquanto eu esperava
Hector sair do banheiro, o que fizemos ficava rondando minha mente e me
fazendo dar sorrisos bobos, estranhando aquela sensação nova no meu peito.
Eu não sabia encontrar palavras para explicar aquilo, era um peso agradável,
que me lembrava de paz e sossego misturados com ansiedade. Eu não me
lembrava de já ter me sentido assim algum dia.
E eu estava evitando ao máximo pensar nele dizendo que me amava. Eu
estava tão presa no momento que falei também, descobrindo naquele
momento que era amor o que eu sentia por ele. Bem, eu acho que é. Eu nunca
conheci um amor que fosse simples, até nos livros mais românticos o amor
sempre enfrenta obstáculos e dores.
Eu me lembrei de uma cena em Scandal, da Olivia terminando com o
Edison, dizendo que não quer o normal, fácil e simples, que queria um amor
doloroso, difícil, devastador e extraordinário, daqueles que mudam a vida. Eu
sempre concordei com aquilo, mas agora estava começando a desconfiar que
talvez a resposta dele que era a certa, que amor não deveria doer.
Suspirei, me lembrando de puxar o decote do vestido de volta para o
lugar certo, afastando aqueles pensamentos e focando na outra parte. Depois
de hoje, tinha ficado mais fácil acreditar que ele me desejava. Eu ainda tinha
medo de que ele em algum momento me rejeitasse e mudasse de ideia, mas o
jeitinho que ele chamou meu nome foi incrível. Queria ter coragem de puxar
ele de volta para a cama quando saísse do banheiro, de me entregar por
completo. Minha mente e meu corpo estavam brigando internamente um com
o outro. Enquanto meu corpo queria pertencer a ele em todos os sentidos,
minhas inseguranças não deixavam, mil paranoias e medos de rejeição
gritando que não.
Respirei fundo, passando as mãos pelo cabelo, ouvindo a porta do
banheiro se abrir, o vendo de toalha mais uma vez. Ele deu um sorriso ao me
ver ali, sentadinha na cama dele como se fosse uma menina comportada e não
a pervertida que esteve com a boca nele até alguns minutos atrás. Me
levantei, andando até ele e ficando na ponta dos pés para um selinho.
— Gosto de te ver de toalha — falei baixinho, sentindo o riso dele
contra minha pele quando beijou minha testa.
— Vou me lembrar disso. Quer ajuda com o zíper? — Assenti, me
virando de costas e puxando o cabelo, sorrindo quando senti um beijo na
minha nuca antes do zíper ser puxado.
— Já volto. — Peguei o pijama e o shampoo na minha bolsa enquanto
ele entrava no closet, entrando no banheiro e fechando a porta, sem me
importar em trancar. Ele não invadiria minha privacidade.
Liguei o chuveiro, deixando o vestido cair no chão e entrando embaixo
d’água, fechando os olhos ao sentir os jatos quentes de alta pressão, deixando
minha mente vagar enquanto tomava banho, tentando tirar os toques de
Hector de foco e pensar no resto da noite, em como foi o evento.
Eu me apavorei à toa, percebi isso no momento que a mãe dele
começou a conversar comigo. Carmen era uma mulher incrivelmente
simpática, com um sorriso perfeitamente esculpido, que se parecia muito com
o de Hector, e tinha o mesmo olhar gentil, mesmo que de outra cor. Eu tive
medo de que principalmente ela e o marido pudessem me olhar como se eu
fosse uma impostora, que fossem achar que eu era uma interesseira quando
vissem o colar, mas em vez disso ela foi simpática e me aceitou. Eu não
deixei de notar a forma como todos se referiam a mim, como se eu estivesse
ali para ficar. Eu esperava que estivessem certos.
Os irmãos dele eram iguais e totalmente diferentes ao mesmo tempo,
todos extremamente bonitos, mas cada um com uma personalidade diferente.
Roman e Phillip eram mais calados, mas ainda assim foram agradáveis,
enquanto Brian e Ethan eram extrovertidos e falantes, fazendo questão de
puxar assunto comigo. E tinha Nicole, completamente louca e divertida,
amigável até demais, me tratando como se já me conhecesse há anos.
Desliguei o chuveiro, o banheiro inteiro cheirando a mel e lavanda, e
enrolei a toalha no cabelo, parando em frente ao espelho de corpo inteiro e
inclinando um pouco a cabeça ao me observar. Eu nunca gostei do meu
reflexo nua. Eu me achava feia, desproporcional e estranha, e era por isso que
eu não deixei Hector me ver assim. Ele me achava tão gostosa, e eu tinha
medo de quebrar a expectativa dele com algo, principalmente as cicatrizes
grotescas nas coxas, totalmente irregulares, algumas altas demais. Eu não me
cortei mais desde aquela crise, e o corte do braço já estava totalmente fechado
por fora, mas tinham outras formas de me machucar que eu não conseguia
parar. Coisas pequenas, como espremer cravos quase que inexistentes até
ferir, apertar as unhas nas mãos quando ficava nervosa...
Deixei o reflexo pra lá, me virando de costas para o espelho e vestindo
meu pijama, fechando os botões. Não queria estragar uma noite maravilhosa
com pensamentos ruins, os deixaria para amanhã. Respirei fundo, tirando a
toalha do cabelo e saindo do banheiro, torcendo para não ter demorado
demais perdida na minha mente, e vi ele deitado usando só uma calça de
moletom, as mãos atrás da cabeça, que se ergueu ao me perceber ali. Ele
sorriu.
— Demorei muito?
— Só o suficiente pra já me deixar com saudade — ele brincou, e eu
balancei a cabeça, indo até a bolsa pegar meu remédio.
— Pois fique com saudade mais um pouco, já volto. — Andei até a
cozinha, pegando um copo de água e engolindo os remédios, voltando para o
quarto rapidinho. — Voltei. — Sorri, me aproximando e subindo na cama,
deitando junto dele.
— Como você está? — A voz dele saiu casual, como se fosse uma
pergunta simples enquanto me puxava para seu peito, mas eu sabia que tinha
mais por trás, que ele estava garantindo que eu estivesse confortável com
tudo o que aconteceu.
— Com sono. — Eu sabia que essa não era a resposta que ele queria, e
apoiei meu queixo em seu peito, o olhando. — Estou bem... gostei de termos
avançado, mesmo que só um pouco. E eu... — Senti meu rosto esquentar,
abaixando o olhar. Fazer era uma coisa, agora falar era bem mais complicado
e vergonhoso. — Eu adorei te fazer... você sabe.
— Gozar?
— Sim. — Fechei os olhos, ouvindo sua risada enquanto eu escondia o
rosto em seu peito. — Você fica tão lindinho... gemendo daquele jeito. E eu
me senti tão poderosa, é a uma sensação legal.
— Agora você entende como eu me senti naquele domingo, e hoje de
novo. A sensação de ver você perdendo o controle nos meus dedos, de ouvir
você chamando meu nome, totalmente entregue... — Ergui meu olhar, e ele
estava balançando a cabeça, um sorriso nos lábios. — Naquela hora, quando
você se ajoelhou, finalmente percebeu o poder que tem sobre mim, não foi?
— Mais ou menos. Foi como se o jeito que você me olhou me
transformasse numa outra Alice, a Alice que poderia ter sido sedutora e
confiante, se tantas coisas não tivessem dado errado.
— Pois saiba que eu já te considero bem sedutora como é agora. Até de
pijama você fica sexy, não duvido nada que eu vá precisar de um banho bem
frio quando acordar. — Ele sempre sabia como deixar as coisas mais leves
quando o assunto começava a me deixar mal, fosse dizendo as coisas certas
ou me fazendo rir baixinho, ele sempre acertava meus momentos.
— É só me seduzir de novo que eu te ajudo. — Escondi o rosto de
novo, sentindo o peito dele se mover com a risada.
— Eu que te seduzi? Você coloca um vestido incrível, fica ainda mais
gostosa, sobe no meu colo e quase me mata rebolando, e ainda tem coragem
de dizer que fui eu quem te seduziu? — A mão dele veio fazer carinho na
minha nuca, daquele jeitinho que me deixava toda mole nos braços dele. — E
isso porque não vou nem mencionar o que fez depois.
— Ok, chega, se não quiser que eu exploda de vergonha é melhor parar.
— Soltei uma risadinha envergonhada, bocejando em seguida. Não fazia
ideia de que horas eram, mas já era bem mais tarde do que eu normalmente
ficava acordada.
— Tudo bem, eu paro, mas só porque você precisa dormir, foi uma
longa noite. — A mão dele desceu para fazer carinho nas minhas costas, e eu
deitei a cabeça em seu peito, sentindo o calor suave da pele dele e ouvindo o
coração bater. — Boa noite, minha deusa.
— Boa noite amor — sussurrei, fechando os olhos e deixando meu
corpo relaxar com os carinhos dele, sentindo seu beijo em minha cabeça logo
antes de pegar no sono.

Acordei, dando um risinho baixo com a sensação dos dedos dele na


minha nuca, meu braço em volta dele e uma perna jogada por cima das suas,
numa posição estranhamente confortável e aconchegada.
— Bom dia. — A voz dele me fez abrir os olhos, o sussurro suave e
ainda sonolento, erguendo a cabeça para ver ele me olhando como se eu fosse
mesmo uma deusa.
— Oi. — Dei um sorriso preguiçoso, ainda acordando de fato, deixando
um beijo suave no peito dele e me aninhando mais em seu abraço. — Bom
dia.
— Quer descansar mais? Dormimos bem tarde ontem. — Senti o beijo
dele no meu cabelo e balancei a cabeça.
— Até queria, mas estou morrendo de fome. — Suspirei, erguendo meu
rosto de novo, o queixo apoiado sobre seu peito. — Você disse que não
cozinhava, mas tem comida nos armários? Se tiver o básico eu faço café da
manhã pra gente. Você disse que não comia de manhã cedo, mas
tecnicamente não é tão cedo agora... eu acho. Que horas são?
— Não sei. — Ele riu, se esticando para pegar o celular na mesinha de
cabeceira. — Dez e vinte. E acho que tem pão, queijo e geleia. Fora isso só
porcarias como Doritos, pipoca de micro-ondas ou biscoitos.
— Não sei nem para que tem um fogão. — Ri, me esticando para dar
um selinho nele e afastando, sentando na cama com as pernas cruzadas estilo
indiozinho, de frente para ele.
— Para esquentar sopa no inverno. — Ele deu de ombros, e eu ergui
uma sobrancelha, uma cena de livro vindo imediatamente à mente ao associar
ele e sopa. — O que foi?
— Bem... digamos que num dos meus livros favoritos tem um
momento relacionado à sopa. — Dei um sorrisinho, mordendo meu lábio
inferior e desviando o olhar antes de continuar falando. — Na cultura do livro
existem laços de parceria, que são como almas gêmeas mais fortes, e uma
forma de aceitar esse laço é oferecer comida ao cara. Quando a personagem
principal aceita o parceiro, é com uma tigela de sopa. — Não mencionei a
cena seguinte, com o casal se agarrando em cima da mesa, em meio a tintas,
mas meu rosto vermelho deve ter entregado alguma coisa, pois ele deu uma
risadinha baixa, se sentando contra a cabeceira da cama e esticando uma mão
para segurar meu queixo, me fazendo o olhar.
— Quando se ofereceu para fazer o café, estava me aceitando como seu
parceiro? — Ele deu um sorrisinho daqueles que me deixava em dúvida se
era uma provocação ou não.
— Não tinha lembrado disso até você falar na sopa, mas já que
mencionou... — Dei um sorriso pequeno, assentindo devagar.
— Ótimo. — Ele me olhou, estendendo uma mão para a minha e
começando a brincar distraidamente com meus dedos. — Somos parceiros
então.
— Quase. Vou fazer o café, aí se torna oficial. Já volto. — Saí da cama,
com um sorriso animado enquanto ia até a cozinha dele. Ele não estava
brincando sobre não ter quase nada, essas eram as vantagens de poder pedir
comida de primeira sempre que quisesse.
Peguei quatro fatias de pão e queijo cheddar, que era o único na
geladeira, e encontrei uma frigideira no armário inferior que mal devia ter
sido usada. Ri sozinha, preparando dois queijos quentes e encontrando um
prato, onde os coloquei e fui em direção ao quarto, entregando o prato a ele e
subindo na cama de novo.
— Coma, parceiro. — Fiz uma carinha que torci para ser fofa, vendo
ele sorrir e pegar um dos sanduíches, o analisando.
— O que acontece, exatamente, no momento que eu morder esse
sanduíche? — Ele deu aquele sorrisinho divertido, piscando um olho.
— O laço de parceria se ajusta. Um fio mental vai nos conectar
eternamente, saberemos os pensamentos um do outro, e tem algo sobre desejo
descontrolado... coisas básicas assim. — Eu estava adorando que ele
simplesmente incentivava o tipo de coisa que eu dizia, o tipo de interesse que
eu tinha.
— Me parece ótimo. — Ele mordeu o sanduíche e eu peguei o meu,
fazendo o mesmo. Comemos rápido e em silêncio, ambos mortos de fome, e
ele me deu um sorriso enorme quando terminou de comer, tirando o prato do
colo e deixando na mesinha. — Acho que já estou começando a sentir a
mudança... consigo até saber o que está pensando agora.
— É mesmo? E o que eu estou pensando?
— Que quer me beijar. — Ele deu um risinho e eu revirei os olhos com
um sorriso, subindo no colo dele devagar, percebendo que aquele estava se
tornando meu lugar favorito não importa o que estivéssemos fazendo ou não.
— Engraçadinho.
— Acertei?
— Talvez. — Me inclinei, o beijando devagarinho, só um elinho
demorado. — Era isso que eu estava pensando?
— Acho que não... você estava pensando em algo mais assim. — E me
beijou de verdade, mas devagar, aproveitando cada segundo que podia
explorando minha boca, a língua numa carícia suave contra a minha. Era o
equilíbrio perfeito, beijos desesperados de noite e apaixonados de manhã,
desejo e carinho encontrando o equilíbrio perfeito. Ele se afastou com
pequenos selinhos, me fazendo suspirar. — Era algo assim?
— Algo assim — concordei, mordendo o lábio inferior dele bem de
leve, escondendo meu rosto em seu pescoço em seguida, fechando os olhos,
meu corpo relaxado nos braços dele, sentindo seus beijos em meu cabelo e
seu carinho nas minhas costas e nuca. — Eu amo que você nunca julga
minhas maluquices, sabia?
— Seus olhos brilham sempre que tem alguma “maluquice”, apoio por
puro egoísmo de querer ver essas duas estrelas verdes que você tem. — Eu
senti o sorriso na voz dele. — Amo mesmo você, sabe. Pode ter parecido que
eu disse ontem pelo calor do momento, que foi de certa forma meu incentivo
para falar, mas não deixa de ser verdade.
— Hector... — Suspirei, abraçando-o mais forte, tentando com todas as
minhas forças lutar contra a parte de mim que não queria acreditar naquele
amor.
— Tudo bem, não precisamos falar disso agora, eu só queria que você
soubesse que não falei por falar. — Ele beijou meu cabelo de novo, e eu senti
seu nariz nos meus cachos enquanto ele inspirava. — Cheirinho de doce. —
Ele deu uma risada baixa, mudando o assunto, me fazendo sorrir ao me
afastar do seu pescoço. A mão dele veio instantaneamente acariciar meu
rosto. — Linda.
— Fofo — devolvi o elogio, segurando seu rosto em minhas mãos,
meus dedos acariciando os pelos macios da barba. — No que está pensando?
— Em como nem o paraíso seria melhor que estar aqui, agora. Pode rir,
sou o tipo de cara que fica todo meloso na manhã seguinte. — Ele mesmo fez
graça, rindo baixo.
— Fofo — repeti, me aproximando para dar pequenos beijos nele,
cheios de carinho. Eu não tinha coragem de dizer “eu te amo” de novo, não
agora, mas daria um jeito de mostrar isso de outras formas. — O que quer
fazer hoje?
— Não sei... acho que esgotamos todas as opções normais naquele fim
de semana. Podemos conversar, sobre qualquer coisa — ele sugeriu, me
fazendo o olhar desconfiada.
— Qualquer coisa? Seja mais específico.
— Talvez, e eu disse talvez, poderíamos falar sobre a noite passada.
Sabe, conversar mesmo. Demos um passo adiante, fisicamente falando, e eu
quero garantir que você esteja bem com tudo isso. — Ele era tão... maduro.
Falando dessas coisas tão naturalmente, sem corar e tremer dando risadinhas,
como era o meu caso.
— Eu estou. Vou admitir que tinha uma pequena chance de que eu
surtasse hoje ao acordar, que todas as paranoias e medos viessem com força
total e eu fugisse antes de você acordar, e talvez acontecesse exatamente isso
se tivesse sido outra pessoa, mas eu confio tanto em você que foi
simplesmente natural. Eu não sei me explicar, não sei o jeito certo de pôr
tudo em palavras, mas o que quero dizer é que eu amei cada pedacinho do
que aconteceu. — Suspirei, desejando saber me expressar melhor. — E você,
quer dizer alguma coisa? Sei que estamos em situações tecnicamente
diferentes, mas...
— Não sei se preciso dizer algo, ou se meu corpo deixou tudo óbvio o
bastante. Você foi tão perfeita, me deixou tão louco, que eu me senti um
moleque descontrolado de dezessete anos que estava sendo tocado pela
primeira vez. E fico tão feliz que tenha confiado em mim, que tenha me
permitido tudo o que aconteceu. Tive medo de que pudesse estar arrependida
hoje de manhã, nunca me perdoaria por isso. — Ele balançou a cabeça um
pouco, provavelmente sem querer pensar naquela opção.
— Eu nunca me arrependeria, não com você. Morro de vergonha em
admitir, mas só de pensar nas coisas que fez comigo eu já fico com calor de
novo.
— Não há motivo para se envergonhar, minha deusa. Eu me sinto da
mesma forma, provavelmente passarei o resto da vida com a imagem dos
seus olhos cravados em mim enquanto sua boca... — Ele suspirou, me
fazendo dar uma risadinha, mesmo com o rosto ardendo.
— Foi divertido, fazer aquilo. Sempre que eu lia algo assim num livro
eu imaginava como era, as principais sempre se sentem poderosas quando o
fazem, e foi como eu me senti. Ver você naquele estado por minha causa, a
forma como seus olhos se fecharam, os espasmos na sua perna e o jeito
surpreendente que eu podia realmente te sentir pulsando na minha mão... eu
me senti a deusa que você diz que eu sou. — Era estranhamente bom
conversar sobre aquilo, me ajudava a ter menos vergonha.
— Fico feliz que tenha gostado. Acho que não preciso explicar que me
senti da mesma forma quando te toquei. Ver você entregue, o corpo
respondendo aos meus incentivos, aquilo teve um poder sobre mim que só de
lembrar meu corpo já começa a reagir. — Ele deu um risinho baixo,
roubando um selinho.
— Posso perguntar uma coisa? — Ele assentiu. — Você disse algo
ontem sobre ter tido que se virar sozinho, pensando em mim. Isso aconteceu
mais vezes?
— Sim. É um pouco vergonhoso admitir de fato, me faz parecer um
adolescente hormonal, mas sim, aconteceu algumas vezes, logo depois de
acordar e sonhar com você nos meus braços, ou então naquele domingo, num
dos banhos frios. — Ele me olhou um instante, dando um sorrisinho. — E
você, ficou fantasiando muito sobre mim?
— Sonhos, também. Sonhos confusos, dos quais eu não conseguia me
lembrar muito, mas lembrava de ter você envolvido, e acordava quente e
ansiosa, mas nunca tenho privacidade suficiente em casa para resolver isso.
Na verdade, eu nem lembro há quantos meses eu não... você sabe. — Admitir
isso me fez corar ainda mais.
— Aqui você tem toda a privacidade que quiser, mas preciso admitir
que eu adoraria assistir. — Ele me deixou boquiaberta com isso, um
comentário tão pervertido e tentador desses.
— Hector!
— Você quem começou o assunto. — Ele riu, me fazendo balançar a
cabeça. — E não minta, você também gostaria de me ver. Esse seu sorrisinho
lindo e rosto vermelho não escondem mais a garota maravilhosamente
pervertida que mora aí dentro. — O polegar dele deslizou pela minha
bochecha, os dedos indo para a minha nuca. — Gosto disso, e gosto de ver
quando se solta ao meu lado, seja dando gargalhadas, falando de personagens
ou mostrando seus desejos.
— Eu só faço isso porque você sabe como me deixar confortável. —
Fiz uma pausa, observando-o por um instante, respirando fundo antes de
perguntar o que eu estava pensando já há algum tempo. — Como você faz
isso? Como sempre sabe a coisa certa a se dizer e fazer? É como se você
soubesse exatamente do que eu preciso.
— Bem, eu tento meu melhor. Quando era adolescente um primo meu
passou por situações semelhantes ao que você passa. Motivos diferentes,
consequências iguais. Eu na época tentei ajudar ele, mas não conseguimos
fazer muito, ele encontrou o refúgio dele nas drogas e o perdemos alguns
anos depois. Sempre me perguntei se podia ter feito mais, se alguma coisa
podia ter mudado o final, inclusive foi por causa disso que de vez em quando
Brian faz projetos de interação artística em clínicas psiquiátricas e de
reabilitação, e Roman tem um projeto fixo com essas mesmas instituições. —
Ele fez uma pausa, o carinho voltando ao meu rosto.
— Sinto muito — murmurei, vendo os olhos dele tristes.
— Quando te conheci você me atingiu como um furacão, e quando eu
descobri esse lado seu, eu jurei a mim mesmo que te ajudaria, mesmo que
você não quisesse nada comigo, mesmo que não estivéssemos aqui hoje, você
me teria em sua vida. Antes que entenda errado, eu não estou com você por
pena ou apenas por isso, estou aqui porque te amo, e é justamente por esse
amor que eu me esforço, pesquiso sobre a sua doença e luto pra dizer as
coisas certas nas horas certas. — O olhar dele foi ficando mais intenso
enquanto falava, e eu não interrompi. — Você é preciosa para mim, Alice.
— Hector, eu... — Não encontrei palavras, então simplesmente o
abracei bem forte, meu rosto naquela curva de seu pescoço que já me
pertencia.
— Está tudo bem, não precisa dizer nada agora. — As mãos dele
faziam um carinho leve nas minhas costas, me mantendo segura em seus
braços.
— Obrigada, amor — sussurrei, deixando um beijo demorado no rosto
dele e me afastando só o suficiente para o olhar, ainda me mantendo tão perto
quanto podia. Respirei fundo, dando um sorriso pequeno.
— Podia me agradecer com beijos, sabe. — Ele deu aquele sorriso
suave que sempre aliviava o clima quando via que estava pesando demais, me
fazendo sorrir mais largamente e me aproximar, cobrindo o rosto dele com
beijos, demonstrando que me sentia da mesma forma que ele, que me
importava também.
— E então, o que vamos fazer agora?
— O que acharia de um passeio? Nenhum lugar muito movimentado,
mas podemos ir ao Central Park e andar de mãos dadas, comer pipoca de
algum carrinho e então eu te levo para casa.
— Estamos numa comédia romântica e ninguém me avisou? — Beijei-
o de novo, com carinho. — Me parece uma ótima ideia. — Sorri, abraçando-
o forte mais uma vez e então me levantando. — Vou trocar de roupa.
Peguei a roupa que tinha trazido na bolsa e sumi dentro do banheiro. Eu
me sentia estranhamente em paz depois da nossa conversa, como se pequenas
e assustadoras pecinhas finalmente se encaixassem e começassem a fazer
sentido. E, pela primeira vez em muito tempo, consegui acreditar que meu
futuro poderia ser bom.
O dia ontem tinha sido maravilhoso, eu pensava que não teria como
confiar ainda mais em Hector, mas depois daquela conversa de manhã foi
como se agora realmente tivéssemos um laço mais forte nos unindo. Eu
ficava boba ao pensar nisso, me sentia extremamente contente... feliz. Era
estranho ter ganho tantas memórias bonitas em tão pouco tempo, ter tido dias
bons tão pouco tempo depois daquela última grande crise. Amanhã faria
semanas sem cortes, e eu estava torcendo para que dessa vez durasse até um
mês inteiro, que eu pudesse comemorar feliz da vida essa conquista.
O sinal de que a aula havia acabado soou e eu saí da sala, sempre a
primeira a sair para evitar encontrar Isabella de novo e ter problemas, e fui
em direção ao teatro principal onde estávamos ensaiando, e onde faríamos a
apresentação no final do semestre. Os ensaios dessa semana seriam da cena
sincronizada com a narração, de novo. Essa era com certeza a parte mais
complicada, pois não podia ter um movimento errado na boca e não
podíamos emitir um único som fora de hora.
Tinha alguns minutos livres até todo o pessoal de hoje chegar, então me
sentei numa das poltronas da primeira fileira e coloquei meus fones, pegando
meu livro da mochila. Tinha decidido ler agora um romance contemporâneo,
e só na metade descobri que era daqueles cheios de cenas que me fariam
corar me lembrando de Hector. Estava concentrada numa dessas quando
quase morri de susto ao sentir um tapinha no meu ombro, dando um pulo na
cadeira e fechando o livro. Era Eric.
— Está tentando me matar do coração?! — reclamei, vendo-o gargalhar
e estender um chocolatinho pra mim.
— Não é minha culpa se você estava concentrada demais no livro.
Inclusive, deu pra ler um pedacinho por cima do seu ombro...
— Calado! — Arregalei os olhos, pegando o chocolate. — Você não
viu nada.
— Claro que não — ele concordou, piscando um olho e se jogando na
poltrona do meu lado. — Como estão as coisas com o milionário? — Eu
tinha comentado algumas coisas com Eric, pela primeira vez estava mais
confiante em fazer amizade, e teríamos que trabalhar juntos o semestre
inteiro, eventualmente ele descobriria de Hector, e eu não queria a mesma
reação que Isabella teve.
— Já disse pra não chamar ele assim, o nome dele é Hector.
— Tá, como estão as coisas com Hector?
— Bem... promete que não vai me julgar? Eu realmente preciso
conversar sobre isso com alguém, e minhas amigas não são imparciais o
bastante. — Dei um sorriso daqueles de quem pede por favor.
— Agora ficou interessante, o que foi?
— Ele disse que me amava. Sábado, depois daquele evento que eu
comentei que ia, lembra? — Ele assentiu, os olhos arregalados e brilhantes
com a nova informação. — Tivemos um... momento, e ele disse que me ama.
— Ok, vamos por partes, me lembre de pedir detalhes sobre esse
momento depois, mas primeiro o foco é nas três palavrinhas mágicas. Como
você respondeu?
— Eu fiquei tão surpresa que admiti sentir o mesmo, mas ontem de
manhã não consegui repetir, mesmo ele dizendo mais vezes. Aconteceu cedo
demais pra ser verdade?
— Olha, eu não posso julgar o que é cedo demais, porque fui morar
com Rob depois de só dois meses e meio ficando, e agora já faz quase um
ano que namoramos. Algumas pessoas se apaixonam, mas rápido, outras mais
devagar... — Ele deu de ombros, mordendo o próprio chocolate. — Você
acha que foi muito rápido?
— Na teoria de rapidez, sim. Mas na prática não parece que faz só três
semanas desde que começamos a sair, a química foi instantânea, e ele é
tãããão perfeito! — Era bom poder dizer isso em voz alta, conversar com
alguém da minha idade que estivesse na minha frente, que não fosse minha
mãe ou uma tela de celular.
— Então pronto, problema resolvido. Contanto que os dois estejam
confortáveis com o ritmo das coisas, não tem nada de errado. — Ele deu um
sorriso compreensivo. — Você nunca se apaixonou assim, né?
— Desse jeito, não. Com essa força, essa facilidade nas coisas darem
certo... às vezes tenho a sensação de que um furacão vai explodir em nós,
quando eu menos esperar, pra compensar toda a parte fácil e bonita.
— Já pensou que talvez não tenha furacão, e que tudo pode continuar
bem? Quero dizer, provavelmente com dois meses vocês vão discutir por
quem fica com o cobertor durante a noite e por coisas bobas e aleatórias só de
vocês, mas cada vez que fizerem as pazes vai ser melhor ainda. Se quiser um
conselho, as vezes é bom brigar só pela reconciliação. — Ele piscou um olho,
rindo. — Comigo e Rob foi assim. Fácil desde o começo, rápido. Temos
problemas e dias chatos como todo casal, mas continuamos aqui, mesmo
depois de tanto tempo.
Eu ia responder, interessada em entender melhor como um
relacionamento pode ser fácil e sem dor, tão diferente dos livros e tudo mais,
mas os outros já tinham chegado e fomos chamados para o palco. A cena era
extremamente complicada de se fazer. Na minha narração de hoje, Bianca
contava sobre os primeiros meses quando se conheceram, como ambos
tentaram negar a atração que sentiam, enquanto a de Eric é Jonathan narrando
quando finalmente cederem ao que sentiam. Todos os flashbacks da peça
seriam nesse estilo, só atuaríamos com falas nas cenas presentes deles após
seis anos. Seria mega complicado.
O ensaio hoje acabou bem mais tarde, já que eu errei a sincronia de
duas falas narradas, e Eric errava constantemente um dos movimentos.
Éramos atores de teatro, iniciantes ainda por cima, então atuar com narração
era um baita desafio. Ao menos na próxima semana teríamos dois dias de
folga. Um feriado interno da Lucille, algum tipo de reunião ou sei lá.
Juntei minhas coisas e saí, seguindo de volta para o metrô. Quando me
sentei e peguei o celular, tinha uma mensagem me esperando.

H: Me ligue quando chegar em casa, tenho uma surpresa.


A: Devo ter medo?
H: Talvez. ;)

Dei um sorriso para a tela, balançando a cabeça um pouco. Só esperava


que dessa vez a surpresa não fosse algo absurdo como o colar. Sim, eu tinha
amado meu pequeno rubi, mas nem tinha coragem de usar ele. Tinha medo de
ser roubado, de quebrar, então o deixei guardado na minha pequena caixinha
de joias, junto com um colar que tinha sido da minha mãe quando mais nova
e um par de brincos que vovó me deu. Eram as únicas joias de verdade que eu
tinha.
Precisei me esforçar para ficar acordada no caminho, e acabei
colocando uma rádio country aleatória no volume máximo, prestando atenção
nas letras que iam desde músicas de términos e recaídas até romances bonitos
e homenagens à família dos cantores. Eu admirava bastante o mundo country
principalmente por coisas assim, músicas feitas com o coração, que contavam
histórias e atingiam o coração de quem ouvia.
Quando finalmente cheguei na estação do Brooklyn quase corri pelas
ruas, chegando em casa, finalmente. Minha mãe estava no sofá, erguendo
uma sobrancelha para mim quando larguei minha mochila no chão e me
joguei no sofá.
— Demorou hoje.
— Eu odeio ensaiar cenas gravadas. — Bufei, deitando a cabeça no
encosto do sofá, ouvindo-a rir. — Tem jantar pronto? Por favor, diz que sim.
— Comprei aquele hamburguer que você gosta, é só ligar o micro-
ondas.
— Melhor mãe do mundo! — Sorri, mais animada por causa do
hamburguer, e fui ligar o micro-ondas, abrindo a geladeira e pegando uma
latinha de Pepsi para acompanhar. Depois do dia de hoje eu merecia.
Coloquei o hamburguer num pratinho e me sentei, comendo numa velocidade
impressionante, estava morta de fome e exausta do dia. Quando acabei
mandei uma mensagem rápida para Hector, avisando que ia só tomar banho e
já ligava.
Depois de bastante água quente e sabonete de lavanda, eu estava
deitadinha de pijama, e peguei o celular, ligando e deixando do meu lado com
o volume alto. Após dois toques ouvi ele atender.
— Já vou avisando que não é nada pessoal se eu pegar no sono — falei,
antes que ele pudesse dizer algo, ouvindo a risada do outro lado.
— Dia cansativo?
— Bastante. Estou odiando os ensaios com narração gravada, e não sou
a única. Eric errou a deixa umas três vezes, só quem está indo bem são os
secundários porque o foco não é neles e não precisam fazer lipsync. —
Suspirei, claramente irritada. — E o seu, como foi?
— A má notícia é que vou precisar ir visitar o Empire de Los Angeles,
teve um probleminha com o gerente, um escândalo publicitário, e vou
precisar ficar lá até contratar alguém novo. — Ele suspirou também, e eu
sabia que ele odiava quando tinha que viajar por causa de algum problema.
— A boa notícia é que eu devo voltar antes de sexta-feira, bem a tempo.
— De quê?
— É aqui que entra a surpresa que eu mencionei. Já percebeu que fins
de semanas são meio que a nossa marca, certo?
— Uhum. — Esperei ele continuar, curiosa.
— E esta sexta faz um mês desde que você apareceu na minha porta, e
eu pensei em comemorarmos esse primeiro mês indo pra casa do lago da
minha família, em Montauk. O que me diz, aguenta um fim de semana
prolongado comigo? — Eu podia ver o sorriso como se ele estivesse aqui na
minha frente, já conhecia só pelo soar da voz dele.
— Depende, vai ter comida na geladeira dessa vez, ou vou ter que fazer
fotossíntese no quintal? — brinquei, rindo baixinho, minha voz saindo aguda
e animada. — Eu vou adorar. Só tome cuidado pra não me deixar mal
acostumada, dois fins de semana seguidos.
— Talvez eu queira justamente te acostumar mal, só pra que sinta
minha falta e venha me ver todo fim de semana. — O tom brincalhão com
um fundo de verdade, do jeitinho que eu gostava.
— Pois saiba que está conseguindo. — Sorri, sentindo meu coração
acelerar. — Quando você vai para Los Angeles?
— Amanhã, de meio dia. E na volta chego aqui de cinco da manhã da
sexta, com tempo exato pra dormir o dia todo e acordar a tempo de ir te
buscar pra viajarmos. Se incomoda se eu for te buscar direto na Lucille
depois do seu ensaio? Vou entender se não quiser que me vejam ainda.
— Não tem problema... se alguém quiser pensar algo errado, que
pensem. Não é justo comigo nem com você esconder que estamos juntos por
medo de alguma Isabella falar merda sobre nós. Sabia que Eric está se
tornando um bom amigo meu? Ele já sabe sobre você, inclusive estava me
dando conselhos hoje.
— E posso saber que conselhos são esses? — Eu podia imaginar
perfeitamente a sobrancelha dele erguida nesse momento.
— Não. — Dei uma risadinha. — Coisa boba, comentários sobre
relacionamento. É bom falar pessoalmente sobre nós com alguém além de
mamãe e vovó, afinal, por mais que eu ame minhas amigas, é difícil manter
contato frequente estando em horários diferentes.
— Se não estivesse no meio de ensaios, eu te levava comigo pra Los
Angeles, pra conhecer aquelas duas que são de lá. Prometo resolver isso nas
férias. — O jeito que ele falava me deixava nervosa e feliz ao mesmo tempo,
ele tinha tanta certeza de que duraríamos, parecia não temer nada, e isso era
uma das coisas que eu mais amava nele. Acabei bocejando quando fui
responder, e ouvi o riso baixo dele. — Vá dormir. Amanhã conversamos
mais, assim que chegar lá eu te aviso.
— Ok. São quantas horas de voo?
— Seis horas. Vou chegar lá de três da tarde, seis da noite aqui. — Ele
suspirou. — Detesto trocar de horário sem me preparar antes, fico todo
perdido.
— Boa sorte, espero que tudo se resolva logo. — Bocejei de novo,
suspirando baixinho. — Boa noite, amor.
— Boa noite, minha deusa. Tenha bons sonhos, de preferência comigo.
— Digo o mesmo. — Sorri. — Até amanhã. Se não der tempo de falar
com você antes, boa viagem.
— Obrigado. Durma bem. Te amo. — Lá estavam elas de novo, as
palavrinhas que soavam tão naturais na voz dele e que sairiam assustadas
demais na minha.
— Tchau. — E desliguei, deixando o celular de lado e pegando meus
remédios e minha garrafinha na mesa de cabeceira. Em menos de quinze
minutos estava dormindo.

A semana passou de uma forma estranha, o tempo que estava na


faculdade e ensaiando passava rápido, mas as horas em casa demoravam
séculos, já que eram quando eu tinha tempo para pensar e ficar ansiosa.
Hector não tinha conseguido falar muito comigo, correndo com as entrevistas
para o novo gerente, mas fazia questão de mandar mensagens de bom dia e
boa noite. Ele tinha chegado hoje cedo, e quando eu acordei tinha uma
mensagem dele dizendo que estaria me esperando na saída do ensaio mais
tarde.
Eu agora estava sentada na minha cama, com vovó fazendo duas
tranças no meu cabelo.
— Pronto, ainda mais linda. — Ela sorriu, prendendo um elástico na
parte debaixo da segunda trança.
— Obrigada, vó.
— Está ansiosa para o fim de semana? Aposto que Hector deve ter
preparado alguma surpresa, depois de passar a semana toda longe.
— Só espero que dessa vez não seja algo tão absurdamente caro quanto
o colar. Só de estar com ele eu já vou estar bem feliz, sendo sincera. —
Suspirei, me virando para ela. — Acha que estamos exagerando, nos vendo
com tanta frequência? Tenho medo de que ele acabe enjoando de mim.
— Mas querida, não foi ele mesmo quem a convidou e deu a ideia de
passarem esses quatro dias juntos? Eu duvido que ele possa enjoar de você.
Você é uma garota maravilhosa e com muito a dizer, e ele te olha como se
você fosse a própria luz do sol e o ar que ele respira. — Ela sorriu, fazendo
um carinho na minha cabeça, com cuidado para não desmanchar as tranças.
— Pare de se preocupar. Aproveite.
— Vou tentar... foi tanto tempo com tudo dando tão errado que eu não
consigo simplesmente acreditar que dessa vez eu vou continuar feliz. Preciso
me lembrar de comentar isso com Dr. Ronald na próxima consulta, talvez
esteja na hora de começar mesmo uma terapia de conversa além dos
remédios.
— Fico feliz em ouvir isso, em ver você querendo melhorar. Agora
ande, já está quase na hora de sair para a faculdade, e você precisa terminar a
bolsa de viagem. — Vovó sorriu, beijando minha testa e se levantando, indo
para a cozinha.
Peguei a bolsa, dessa vez uma um pouco maior do que a que eu levei
das outras vezes, mas ainda menor que uma mala de fato, e comecei a
conferir o que já tinha ali. Roupas normais, um único vestido já que ele
gostou aquele dia, shampoo e condicionador, desodorante e sabonete...
coloquei as melhores lingeries que eu tinha, por garantia. Não eram muitas, e
não eram enfeitadas, mas pelo menos dois sutiãs combinavam com a cor das
calcinhas, já era algo. Suspirei, mais uma vez me perguntando como ele
ficava naquele estado de desejo por minha causa, eu era tão... sem graça.
Coloquei o resto das coisas na bolsa, enfiando um livro da faculdade ali
pra não precisar levar ela e a mochila — só a bolsa já chamaria atenção o
suficiente — e fechei o zíper. Milady veio abanando o rabinho pra junto de
mim, tinha recém acordado, e eu sorri, pegando-a no colo.
— Você vai sentir saudade da mamãe? Vai? — falei, com aquela voz
bobinha, abraçando-a, beijando sua cabeça. — Amo você, pequeninha. —
Coloquei ela de volta no chão e peguei a bolsa, saindo do quarto e indo
encontrar mamãe e vovó na sala. Elas sorriram para mim.
— Hora de ir? — minha mãe perguntou, e eu assenti. — Divirta-se. Se
cuide. Usem proteção. — Ela falou essa parte de propósito pra me matar de
vergonha, e ainda deu risada da minha cara. — Aproveite a viagem, querida.
Pode me ligar qualquer hora se precisar de mim, e mande mensagem quando
chegarem em Montauk.
— Pode deixar. — Me aproximei, abraçando-a bem forte. — Obrigada
por confiar em me deixar ir.
— Hector é um bom rapaz, sei que vai cuidar bem de você. — Ela
sorriu, se afastando. — Agora vá, antes que eu comece a ficar emotiva.
— Até terça. — Sorri, sentindo meu peito disparar com a ansiedade de
que realmente havia chegado o dia de ir.
Saí de casa, andando apressada até o metrô, totalmente distraída no
caminho. Eu estava morrendo de nervosismo. Sim, já tínhamos passado
vários momentos juntos e dormido na mesma cama duas vezes, mas eu sentia
que agora ia ser diferente... era um fim de semana prolongado, comemorando
nosso primeiro mês juntos. Tinham expectativas por trás disso, e por mais
que eu soubesse que ele jamais me pressionaria, eu queria ser capaz de
cumprir essas expectativas silenciosas. Se ao menos eu confiasse mais um
pouco em mim, as coisas seriam mais fáceis.
A tarde passou como um borrão, minha mente totalmente dispersa, as
vezes tranquila e as vezes focada em todas as imperfeições que me faziam ter
raiva de mim mesma. Mal percebi que já estava na hora do ensaio, hoje
estávamos fazendo a última cena de narração, e já estávamos começando a
pegar o jeito. Eric começou a encarar o áudio gravado como uma música,
para acertar o momento certo de agir, e eu fiquei treinando lipsync com
vídeos do Tiktok até me acostumar a dublar áudios. Técnicas estranhas, mas
que estavam apresentando resultados.
Quando o ensaio acabou eu fui pegar minha bolsa, com Eric do meu
lado.
— E aí, nervosa para o fim de semana com o bonitão?
— Bastante. — Ri de nervoso, guardando meu script na bolsa, dentro
do livro.
— Então respire fundo, porque parece que ele chegou. — Eric inclinou
o rosto na direção da porta, e quando eu me virei, lá estava Hector, usando
uma camiseta normal de botões, o cabelo penteado para trás, e o sorriso lindo
enquanto se aproximava de mim.
— Oi. — Ele sorriu, se inclinando e me dando um selinho, e eu sentia
como se meu coração fosse pular do peito. Era como se ele ficasse melhor a
cada vez que eu o via.
— Oi. — Sorri, tentando conter a vontade de pular nos braços dele para
um abraço. Eric pigarreou, claramente querendo ser apresentado, e eu ri
baixinho. — Hector, esse aqui é Eric. Eric, Hector.
— Então é você quem vai ficar beijando minha garota todos esses
meses? — Hector sorriu, brincalhão, passando um braço pela minha cintura.
— Só não faça um trabalho melhor que o meu.
— É tudo estritamente profissional, pode acreditar. Rob me mataria se
não fosse. — Eric riu. — Se cuidem na viagem, quero minha coestrela de
volta na quarta.
— Pode deixar. — Hector sorriu, se virando para mim. — Vamos?
— Vamos. — Sorri, vendo elepegar minha bolsa e sair do auditório
abraçado em mim. Senti os olhares em nós como se toda a Lucille estivesse
olhando. — Tem uma cena em Crepúsculo, quando o Edward e a Bella
assumem relacionamento e são vistos juntos. Me sinto exatamente naquela
cena — falei baixinho, ouvindo a risada dele enquanto beijava minha
têmpora, indo em direção ao estacionamento.
— Seja qual for a fala dele, imagine que eu a repeti agora, então. — Ele
apertou um pouco o braço a minha volta, num gesto que me acalmou, e eu
ergui a cabeça. Não tinha motivos para esconder meu namoro, não estávamos
fazendo nada de errado. Passamos por Isabella no estacionamento e eu ergui
mais o queixo, demonstrando uma confiança que não sentia realmente, até
que chegamos no carro.
Ele jogou minha mala no banco traseiro e abriu a porta do passageiro
pra mim, sorrindo daquela forma cavalheiresca que eu amava. Alguns
minutos depois estávamos na estrada.
A viagem pra Califórnia tinha sido terrivelmente cansativa, não bastava
ter que entrevistar gerentes, tive que resolver a visão de mídia do hotel. O
gerente antigo foi envolvido num escândalo com desvio de dinheiro e assédio
de duas funcionárias, uma dor de cabeça absurda, que me fez fazer uma
pesquisa redobrada nos novos candidatos. Também fiz questão de dar um
bônus às funcionárias e agradecer por terem denunciado antes que se tornasse
mais grave. Acabei contratando uma gerente que precisei “roubar” de outro
hotel, Sabina Graves. Me custou uma fortuna pagar a indenização para tirá-la
do Walford, mas ao menos ela tinha uma ficha perfeita que não me traria
problemas. E era mulher, além de muito competente, o que ajudou com a
visão pública.
Agora estava numa viagem muito melhor, a caminho de Montauk com
Alice. Tínhamos acabado de pegar a estrada.
— Como foi sua semana? — perguntei, sentindo a casualidade no ar, a
forma como parecia natural, igual à quando meu pai chegava em casa do
trabalho e perguntava como tinha sido o dia da minha mãe.
— Estranha. Tinha horas que passava voando, e horas que demorava
séculos pra passar cinco minutos. Nada de muito interessante, pra ser sincera.
Eu e Eric começamos a tomar jeito nos ensaios, então ao menos começamos
a fazer progresso nas cenas gravadas. Acho que só isso. E você, como foi a
viagem?
— Cansativa. Não conseguia dormir direito com a troca repentina de
fuso horário, mas ao menos está tudo resolvido. O avião teria sido o pior, seis
horas na ida e seis na volta sem fazer nada...
— E o que te manteve distraído? — Eu sabia que ela ia perguntar,
estava esperando por isso.
— Um livro, mais especificamente um que você comentou. — Olhei
rapidamente, vendo-a erguer as sobrancelhas. Respondi antes que ela
perguntasse qual livro foi. — Corte de Névoa e Fúria.
— Ah, não... — ela murmurou, me fazendo rir.
— Você devia ter me avisado sobre as tintas e a mesa depois da sopa...
Eu com certeza teria prestado ainda mais atenção nesse negócio de parceria.
— Vi com o canto do olho ela ficar vermelha, balançando a cabeça. — E é
claro que não podemos esquecer a cena da estalagem, a cena da corte dos
pesadelos... agora eu entendi de onde veio sua mente pervertida.
— Hector! — ela gritou, me fazendo gargalhar.
— É um bom livro. Claro, eu não li o primeiro, mas deu pra ter uma
boa noção da história. — Dei um sorrisinho de canto ao lembrar de um
detalhe, segurando a vontade de rir da reação dela. — Aliás, acha que eu teria
uma envergadura de asa de que tamanho? — No livro mencionava algo sobre
a envergadura dos que tinham asas ser proporcional ao que tinham entre as
pernas, e eu não segurei a gargalhada ao ver ela dar um gritinho e ficar ainda
mais vermelha. Esse era meu plano, gastar toda a vergonha logo no caminho,
e deixar ela confortável o resto do fim de semana.
— Hector! — ela reclamou de novo, mas riu dessa vez.
— Tudo bem, vou parar de te provocar... por enquanto. — Ganhei um
tapa no ombro como resposta, rindo. — Mas falando sério, eu gostei bastante
do livro e provavelmente vou ler os outros quando tiver mais tempo
sobrando. Você tem bom gosto.
— Ainda estou braba por me deixar morta de vergonha, mas obrigada.
— Tirei uma mão do volante, entrelaçando meus dedos aos dela.
— Você já leu... Príncipe Cruel? — Fiz uma pausa pra lembrar o nome
certo do primeiro livro.
— Não, por quê?
— Ótimo, porque eu comprei a trilogia de presente pra você. Imaginei
que pudesse gostar de mais livros com sobrenaturais de orelhas pontudas e
reinos mágicos. A mulher da livraria que recomendou quando eu falei dos
feéricos, disse que você ia adorar. — Sorri, olhando com o canto do olho e
vendo ela incrédula.
— É injusto, sabia? Você me enche de presentes, e eu não tenho como
te dar nada em troca. — Ela fez um bico, soltando minha mão e cruzando os
braços. Ficou adorável.
— Pare de se preocupar com isso, eu gosto de te mimar e dar presentes,
ver alguma coisa que me lembra você e comprar, como foi com a almofada.
Eu amo você, Alice, e é natural te encher de mimos. Não espero nada em
troca, ter você ao meu lado já é recompensa o bastante. E o cara do livro,
Rhysand, encheu a Feyre de tiaras e vestidos, não foi? Pois bem, aceite ser
minha Feyre. — Eu sabia que era golpe baixo usar isso de argumento, mas
não gostava que ela se sentisse mal por aceitar meus presentes. Ela merecia o
mundo, mas como não tinha como envolver o planeta num laço cor-de-rosa, o
jeito era dar presentes pequenos, significativos e bobos.
— Ok... só não exagere, está bem? Presentes bobos, que eu possa usar
no dia a dia sem medo, esses eu aceito. Mas nada de colares preciosos ou
qualquer coisa do tipo. Temos um acordo? — Ela se virou de lado no assento,
e eu podia sentir seu olhar sobre mim.
— Acordo feito. — Sorri, minha mão apertando carinhosamente sua
coxa, mantendo meus olhos na curva a frente. — Quer colocar alguma
música para ouvirmos na viagem?
— Pode ser uma rádio de country? Descobri uma nova esses dias que
só têm música boa e poucos comerciais.
— Pode. Vai ter que me apresentar as músicas, não devo conhecer
nenhuma, mas pode. — Vi-a se inclinar para o rádio, mudando as estações
até achar a que queria. As primeiras palavras que ouvi da música, que já
estava em andamento, era sobre o amor fazer o resto parecer insignificante.
— So small, Carrie Underwood. Adoro essa… todas as músicas dela,
na verdade, são lindas. Tem uma que ela fez para a mãe no dia do casamento,
Mama’s Song, que eu chorei a primeira vez que ouvi. Sou emotiva. — Ela
deu uma risadinha curta. — Já vou avisando pra não ficar surpreso se a
maioria das músicas contarem histórias de corações partidos, são as
melhores.
— Então você tem um fraco por músicas tristes? — Ergui uma
sobrancelha.
— Mais ou menos. As histórias tristes da música country são sempre
profundas... essa que começou agora, Ain’t Always the cowboy. Mostra que
nem sempre o cara que vai embora... Graças a músicas assim que eu confiei
em você, sabia? Elas me mantiveram acreditando em amor e caras legais
durante todos esses anos — ela admitiu, e eu sorri.
— Me lembre de agradecer aos countrys por isso. — Sorri, vendo-a
cantarolar a música, e então dar um gritinho quando a próxima começou.
— Make me want to! Eu amo demais essa música, e combina
totalmente com a gente, sabia? “Pode ser cedo demais para dizer que te amo,
mas você me faz querer dizer” — Vi pelo retrovisor central que ela ficou só
um pouco rosa. Ela não dizia que me amava com a mesma frequência que eu
estava dizendo, só me disse mesmo naquela noite, mas eu não me
incomodava. Ela diria mais abertamente quando estivesse pronta.
— Então já temos a nossa música?
— Se depender da minha lista infinita de country, teremos várias. —
Ela sorriu, cantarolando a música e dançando um pouco no lugar.
— Bom saber. Qual é essa? — perguntei quando o rádio mudou de
novo. Ela fez uma carinha concentrada, balançando a cabeça.
— Não conheço, mas a voz parece ser do Kane Brown. — Ela deu de
ombros, e eu a deixei prestar atenção na música nova, vendo ela começar a
balançar a cabeça de um lado para o outro no ritmo. Começou a próxima, e
ela sorriu. — More girls like you — ela citou o nome da música, e eu ergui
uma sobrancelha.
— Você realmente entende de country, não é?
— Anos de prática, consigo reconhecer grande partes das vozes antigas
e as mais famosas das recentes. — A voz dela soou orgulhosa de si mesma,
me fazendo sorrir. Ela suspirou com a música seguinte, dando um daqueles
sorrisos lindos que eu tanto adorava. — Beautiful Crazy, do Luke Combs. Eu
venero as músicas e a voz dele, acompanho desde que conheci Hurricane, e
são umas das mais bonitas que eu conheço.
Ela começou a cantarolar a música baixinho, sorrindo e fechando os
olhos. Prestei atenção na letra, e acabei sorrindo quando foi chegando no
final.
— Acho que temos mais uma música nossa, minha linda maluca. —
Sorri, e uma música nova começou direto no final da de antes, num ritmo
bem mais animado. Ela sorriu, começando a dançar no lugar. — Você tem
que amar como se não existissem corações partidos... gostei. — Sorri ao
ouvir o refrão pela primeira vez, enquanto ela cantarolava.
— Essa é do Old Dominion, eles têm uma vibe tão boa nas músicas. —
Ela sorriu, movendo a cabeça no ritmo da música. Um comercial começou
depois dessa. — E então, o que está achando da tour pelo mundo do country
até agora?
— Por incrível que pareça, eu estou gostando. As letras são bonitas, e
tem um ritmo gostoso de ouvir. Você nunca decepciona. — Sorri, dando uma
olhada no relógio do painel. Já estávamos na estrada há meia hora. — Quer
parar para lanchar algo no caminho?
— Podemos? — Assenti. — Então eu quero, mas não precisa ser agora,
só se você estiver com fome também.
— Daqui uns vinte minutos, então. Tem uma lanchonete mais à frente
que vende o melhor hamburguer com batatas de estrada que já comi na vida.
— Sorri. — De vez em quando eu e meus irmãos pegamos o carro e
passamos um fim de semana lá em Montauk, enchendo a cara e jogando
cartas. Tradição de família, de certa forma.
— A cada dia eu gosto mais da sua família, sabia? — Ela sorriu,
fazendo uma pausa. — Acha que um dia eu serei parte dessa tradição?
— Da casa no lago não, mas a do chalé de inverno provavelmente. Em
dezembro a gente viaja para o chalé, no Norte, fingimos que não temos a
idade que temos e fazemos guerras de neve. Nossos pais e Nicole sempre vão
também, e Brian uma vez levou Alec quando estavam juntos. Ainda não
aceito que eles tenham terminado, faziam um ótimo casal.
— Me surpreende você, até agora não ter revelado uma aposta rolando
de que eles vão voltar um dia — ela comentou, lembrando a aposta sobre
Ethan e Nicole, e eu ri.
— A aposta sobre Ethan foi justamente Brian quem começou... Ethan
provavelmente já considerou devolver na mesma moeda, mas Brian sofreu
tanto com o término... hoje em dia ele e Alec ainda são amigos, de certa
forma, mas na época ele ficou devastado. Fazem três anos desde que
acabaram, e tinham passado quase três juntos.
— Que triste... — Ela fez um biquinho, apertando meus dedos. — E
seus outros irmãos, Phill e Roman, quais as histórias deles?
— Nenhum relacionamento sério em anos, se é o que quer saber.
Roman é obcecado com trabalho, tem amantes quando quer, mas, palavras
dele, não se atreve a condenar uma garota a viver com alguém que nunca
teria tempo para ela. E Phill é quase a mesma coisa, mas no caso dele é
porque diz que não sente necessidade de se envolver sem ter certeza de que é
a garota certa. — Dei de ombros, eu mesmo as vezes não os entendia.
— E... e você? Você sabe que eu tive um ex meio chato, mas nunca me
contou do seu passado amoroso... — Pelo tom de voz dela, eu não soube
dizer se era um namoro arriscado ou não, mas resolvi responder
tranquilamente.
— Tive uma ex significante, Elisa. Filha de um amigo do meu pai,
começamos a sair quando eu tinha vinte e dois anos, e terminamos dois anos
atrás. Eu estava pronto para um relacionamento mais sério, queria me casar e
construir uma família, mas ela não via nada disso no próprio futuro.
Terminamos numa situação boa, ainda falo com ela de vez em quando em
algum evento. — Preferi não mencionar o fato de que minha mãe a achava
fútil demais para mim.
— Três anos juntos... uau. — Vi ela desviar o olhar para a janela e
ergui uma sobrancelha.
— O que foi?
— Nada, é só que... você já teve um relacionamento de verdade, sabe
como agir a longo prazo, e eu... tenho medo de acabar estragando as coisas, já
que minhas únicas referências verdadeiras são de casais fictícios. — Eu
gostei de ela ter confiado em dividir essa insegurança comigo, e apertei mais
seus dedos, fazendo carinho neles com o polegar.
— Em sua defesa, casais fictícios muitas vezes são melhores que os
verdadeiros. E quanto a saber o que fazer, vamos aprender juntos. Todo
relacionamento é novo, e eu nunca me senti da forma como se sinto com
você, então de certa forma é tudo novo pra mim também. — Sorri, soltando a
mão dela depois de mais um carinho e voltando para o volante, virando para
estacionar na lanchonete. — Chegamos à nossa parada.
— Ótimo, estou faminta. É bom que você tenha falado sério sobre o tal
hamburguer! — Ela tentou fazer uma expressão ameaçadora, que me fez rir
enquanto saíamos do carro. Ela apertou os braços, tremendo. — Quando
esfriou tanto do nada?
— O carro estava com o aquecedor ligado. Espere um instante. —
Voltei para perto do carro, abrindo a porta de trás e pegando a jaqueta que eu
tinha trazido e entregando a ela. — Pegue.
— Você não vai ficar com frio?
— Você me esquenta, se eu precisar. — Pisquei um olho, dando um
sorrisinho que fez ela balançar a cabeça enquanto vestia a jaqueta. Dei a mão
a ela e entramos na lanchonete.
Pedimos dois hamburgueres e uma porção grande de fritas, e Alice foi
ao banheiro enquanto eu esperava. A comida chegou logo depois dela voltar,
não tinha muito movimento a essa hora. Ela me deu um sorriso após a
primeira mordida, assentindo.
— Ok, você falou a verdade, esse aqui é melhor do que muito fast food
famoso que eu já comi. — Ela pegou uma batata, e eu sorri.
— Eu nunca minto — brinquei, mordendo o meu. O dela era do
simples, só carne, queijo cheddar e molho, enquanto o meu tinha salada e
bacon. Era meu favorito toda vez que passava por aqui. — Percebeu que essa
é a primeira vez que comemos fora?
— Uhum. — Ela assentiu, acabando de mastigar. — E num restaurante
vazio na beira da estrada... adorei.
— Um brinde, ao nosso primeiro encontro. — Ergui minha lata de
Pepsi, vendo ela dar uma risadinha e erguer a dela também. Assim que
acabamos de comer eu paguei a conta e voltamos para o carro. Já eram seis e
meia, e ainda faltava uma hora e meia de viagem.
Abri a porta do carro para ela, que tomou seu lugar no banco ao meu
lado, e voltamos para a estrada. Ela ligou a rádio country de novo,
cantarolando a música tristinha sobre corações partidos que estava tocando,
de olhos fechados. Ela acabou cochilando um pouco, e eu mexi um pouco no
aquecedor para que ela não derretesse no casaco. Não me importei em ficar
com um pouco de frio.
Continuei dirigindo, minha mente sempre vagando para o anjo do meu
lado. Eu a amava com uma força que só me surpreendia cada vez mais, e
tinha planejado algumas surpresas para esse fim de semana, que incluíam
desde os livros que comprei até velas aromáticas para nosso quarto. Não
importava o que faríamos ou não, eu criaria um ambiente de contos de fadas,
daqueles que teoricamente toda garota sonha sobre. Só não teriam pétalas de
rosa, tive a pequena impressão de que isso já seria exagero.
Acelerei mais um pouco, aproveitado a rodovia meio deserta, e
continuei pensando em tudo o que já tinha vivido e esperava viver ao lado
dela. Começou a tocar uma música, que eu não fazia ideia do nome, mas me
encantei pela letra, principalmente quando ele diz que depois de três semanas
já achava amar a garota. Agora você é minha vida, agora você é meu mundo
inteiro. Isso resumia bem como eu me sentia sobre Alice, a forma como ela
se encaixou na minha vida, como se cada espacinho vazio estivesse
esperando justamente por ela para se completar.
Era mais do que uma peça faltando no meu quebra-cabeça, era como se
ela fosse luz passando pelas frestas e iluminando partes de mim que eu nem
sabia que existiam. Em tão pouco tempo aconteceu tanto, e eu já não
conseguia me imaginar sem ela. Conseguia imaginar nós dois daqui há um
ano, ela com os braços totalmente cicatrizados já há algum tempo, nós dois
nessa mesma estrada vindo comemorar nosso primeiro aniversário oficial de
namoro... era extremamente fácil ver um futuro ao lado dela.
Suspirei, dando um sorriso, ouvindo ela roncar baixinho do meu lado, a
cabeça deitada contra a janela, tão calma quanto um anjo. Desejei que ela
pudesse estar sempre nesse estado de calma, que todas as dores dela se
curassem. Sabia que não seria um milagre, e nesse futuro que eu já podia ver
eu enxergava que ainda teriam muitas crises grandes e pequenas durante o
processo de cura, mas que eu estaria ao lado dela em cada momento, sempre
que ela precisasse de mim.
Ela acordou após quase uma hora de devaneios meus, bocejando
baixinho e estendendo uma mão para fazer carinho no meu ombro.
— Dormi demais?
— Só um pouco. Estamos chegando, falta só mais meia hora. Se quiser
pode voltar a dormir e eu te acordo quando estivermos mais perto.
— Não precisa. — Ela se espreguiçou como podia. — Eu só estava
cansada do ensaio de hoje, um cochilo foi suficiente... se eu soubesse dirigir
eu me oferecia pra trocar de lugar com você e te deixar descansar um pouco
também.
— Eu já dormi o dia inteiro, depois que cheguei de viagem, ainda estou
bem descansado. — Sorri, estendendo minha mão e fazendo um carinho na
coxa dela. — Você não sabe dirigir?
— Nunca tivemos condição de ter um carro, então nem me importei em
aprender. — Ela deu de ombros. — Sempre me virei de ônibus e metrô
mesmo, taxis e hoje em dia Ubers quando extremamente necessário.
— Me lembre de um dia insistir para te ensinar a dirigir. Prometo que
não vou tentar te dar um carro, mas seria importante ter uma carteira de
motorista.
— Seria perda de tempo, eu provavelmente daria uma de Bob Esponja
e falharia em todas as provas práticas que fizesse. — Ela deu uma risadinha,
balançando a cabeça enquanto eu ria.
— Comparação terrível.
— Quietinho, me deixe ser aleatória. — Ela sorriu, aumentando o
volume da rádio quando começou uma música nova. — Whiskey Glasses! —
Ela começou a cantar e dançar como se estivesse tomando shots de uísque
sempre que o cantor falava, e eu estava me divertindo imensamente com ela
daquele jeito.
Me concentrei bastante no primeiro refrão, e consegui cantar algumas
palavras com ela da segunda vez, adorando a performance maluca que ela
estava fazendo. A garota era perfeita em todos os sentidos, pelo amor de
Deus. E se eu achei que essa tinha sido demais, a próxima veio me
surpreender mais ainda. Reconheci a voz de um dos cantores de antes, e ela
ficou tão distraída em cantar que esqueceu de dizer o nome, mas reconheci
que essa devia ser a Hurricane que ela mencionou. Ela cantou com tanta
paixão, sem se importar se desafinava ou não, os olhos fechados, sentindo
toda a emoção da letra. Era linda demais de se ver.
Quando a música a acabou estava sorrindo largamente, me olhando
com os olhos brilhantes por algum motivo que eu preferi nem perguntar, e ela
se inclinou no banco e beijou minha bochecha, bem de leve, com carinho.
Mais alguns quilômetros à frente e estávamos entrando em Montauk,
enquanto eu seguia até o lago.
— Estamos chegando — avisei, e ela ficou atenta à janela, olhando em
volta enquanto nos aproximávamos, até que virei na garagem da casa.
Estava escuro, ainda assim, ela arregalou os olhos com a visão da casa,
que era razoavelmente grande. Bem menor que a mansão onde meus pais
moravam atualmente e onde eu cresci, mas grande mesmo assim. Estacionei
na entrada do lado de fora e saí do carro, dando a volta para abrir a porta dela.
— Bem-vinda ao seu lar pelos próximos dias, minha deusa. — Sorri,
estendendo uma mão, que ela segurou ainda boquiaberta. — Vem, vou te
mostrar por dentro. — Peguei a chave do meu bolso e abri a porta, acendendo
as luzes da sala de entrada, sorrindo ao ver os olhos dela brilhando enquanto
olhava de um lado para o outro.
— É lindo... — Ela soltou minha mão, começando a andar pela sala,
observando as pequenas decorações que minha mãe tinha escolhido quando
compramos a casa na minha adolescência, e eu sorri para ela.
— Vou pegar as malas. Fiquei à vontade para explorar, os quartos
ficam lá em cima.
Saí da sala, indo pegar a bolsa dela, a colocando no ombro, enquanto
com uma mão puxava minha mala. Era um pouco grande para apenas quatro
dias, mas tinha trazido os livros dela e as velas aromáticas ali dentro, tinha
todo um fim de semana romântico preparado ali.
Entrei de novo, fechando a porta atrás de mim e a trancando,
pendurando a chave no gancho ali do lado, indo procurá-la. A encontrei na
cozinha, dando uma risadinha para mim.
— O que foi?
— Tem mais comida na geladeira daqui do que no seu apartamento. —
Ela sorriu, e eu dei de ombros.
— Tem um casal que toma conta daqui quando estamos longe, pedi
para que reabastecessem a geladeira e os armários com o suficiente para
sobrevivermos até terça. Vem, vou te mostrar nosso quarto. — Ela ficou
levemente vermelha quando eu disse que o quarto era nosso, e me seguiu
pelas escadas. — São cinco quartos no total. Antigamente era um dos meus
pais, e um para cada um de nós, Brian e Phill dividiam um deles. Hoje em dia
é um para cada um. Aquele ali é o de Roman, Brian, Phill, Ethan, e aqui está
o nosso. — Parei em frente à porta de madeira no final do lado direito do
corredor, a abrindo. Era uma suíte, todos os quartos eram, e tinha uma cama
enorme no meio. As paredes eram em tons variados de amarelo escuro e
marrom queimado, uma versão mais escura dos tons do meu apartamento no
Empire. Tinham duas mesinhas, uma de cada lado da cama, e um armário
contra a parede. — O que achou?
— É perfeito. — Ela sorriu, enquanto eu deixava a bolsa dela sobre a
cômoda no canto e minha mala no chão ao lado. Ela se virou, vindo me
abraçar pelo pescoço, com força, beijando meu rosto. — Tudo com você é
perfeito, incrível isso.
— Você que é perfeita, deusa. — Sorri, envolvendo a cintura dela com
carinho, movendo meus polegares numa carícia suave. — Amo você —
murmurei, e ela só assentiu, daquele jeitinho silencioso dela de dizer que
também se importava, e eu me inclinei, tocando seus lábios com os meus.
O beijo começou devagar, cheio de saudade pela semana inteira sem
nos ver, e então foi aumentando à medida que a saudade dava espaço para
algo mais profundo. Deixei minha língua brincar com a dela, sentindo-a
ofegar baixinho enquanto enroscava os dedos no meu cabelo daquela forma
tão característica dela, me puxando contra si, tão entregue quanto eu estava.
A beijei até nenhum de nós ter mais ar, e não me afastei de fato, só comecei a
descer beijos pelo pescoço dela, carinhosos e provocativos, tentando
encontrar o equilíbrio perfeito.
— Senti sua falta — ela murmurou. — Falta de ter você assim, juntinho
de mim, falta dos seus beijos... acho que fiquei viciada. — Ela deu uma
risadinha, e eu nem precisei olhar para saber que seu rosto estava tomando
aquele tom bonito de cor-de-rosa.
— Também senti a sua. Foi mais difícil ficar sem te ver estando longe,
sabendo que não tinha a opção de simplesmente pegar o carro e correr até o
Brooklyn se a vontade de estar com você se tornasse insuportável. Esse foi
também um dos motivos pelos quais peguei o livro, queria algo de você
comigo — murmurei contra seu pescoço, deixando um último beijo ali e me
afastando devagar, levando uma mão até seu rosto, contornando sua
bochecha.
— Nisso, eu tive vantagem, se sentisse sua falta tudo que eu fazia era
abraçar a almofada de lua que ajudava. Prometo encontrar algo para você ter
um pedacinho de mim aonde for. — Ela deu um risinho alegre, respirando
fundo, os dedos mexendo no meu cabelo, na minha nuca. Os olhos dela se
desviaram de mim para a cama, e então para mim de novo, e seu rosto mudou
de cor. Beijei sua testa, dizendo em silêncio para que relaxasse, que estava
tudo bem.
— Deusa — murmurei, deixando beijos suaves por seu rosto, e ela me
puxou para um beijo rápido antes de se afastar devagar.
— Eu... vou ir tomar água. Já volto. — E praticamente fugiu pela porta.
Eu entendia, ela precisaria de uns minutos sozinha, pensar melhore raciocinar
o que estava acontecendo, afinal éramos só nos dois, numa casa vazia, por
quatro dias. Tudo poderia acontecer ou não, só dependeria dela. Sempre seria
escolha dela.
Aproveitei que ela saiu e abri a mala, pegando as velas, encontrando o
momento perfeito, e diminuí a luz do quarto, deixando o interruptor na
metade, com uma luz mais fraca, e colocando as velas duas na cômoda e uma
em cada mesinha. Liguei meu celular numa música baixa e lenta, deixei a
caixa de camisinhas na gaveta da cabeceira, e voltei para as velas. Todas
tinham aromas de coisas românticas, como flores e outras coisas que eu não
lembrava mais, que a moça da loja tinha recomendado. Estava acabando de
acender a última vela quando ouvi os passos parando na porta.
— Hector?
— Surpresa. — Sorri, me virando para ela, vendo seu queixo caído e
me aproximei. — Preparei todos os tipos de clichês românticos para nós. Um
quarto de velas perfumadas, uma loção chique para massagear seus pés,
cobertores para vermos filmes de romance juntos... tudo o que consegui
pensar. — Segurei gentilmente sua cintura, a olhando nos olhos. — Gostou?
— Você não existe, sabia? — Ela deu um sorriso, ficando na ponta dos
pés e me puxando para um beijo, que não durou muito. Ela parou, respirando
fundo. — Hector, precisamos conversar.
— Claro. — Puxei ela comigo até estarmos sentados ao lado um do
outro na ponta da cama, e eu tinha uma noção do que ela iria dizer. Não me
incomodava, posso ter preparado todo o clichê da primeira vez romântica,
mas não me incomodaria em esperar sabe-se lá mais quanto tempo até essa
primeira vez acontecer de fato, contanto que isso significasse ela estar
confortável quando fosse acontecer. — O que foi?
— É que... as velas, a luz baixa, a música... eu sei que você tem
expectativas, mas eu...
— Ei, não se preocupe. Não faremos nada que você não queira, e sinto
muito se exagerei com as velas e tudo mais. — Segurei a mão dela,
entrelaçando nossos dedos, e ela suspirou.
— Esse é o problema... eu quero, muito, você não faz ideia do quanto,
mas eu tenho medo de... esquece, é bobeira. — Ela desviou o olhar.
— Seus medos não são bobos, Alice. Pode confiar em mim, eu vou te
entender. — Toquei seu queixo com carinho, fazendo ela olhar nos meus
olhos. — Confia em mim? — Ela assentiu uma vez, respirando fundo antes
de falar.
— Medo de te decepcionar. Medo de que, quando você me vir nua de
fato, seu desejo deixe de existir. Medo de não ser boa o suficiente, de não
valer toda a expectativa e beleza que você pôs nesse momento. Eu... eu te
amo, e é por esse mesmo medo que eu não repito isso na frequência com que
você repete, mas eu te amo, sim. Eu durante a semana pensei várias vezes
nessa noite, uma parte bem grande de mim extremamente ansiosa para estar
nos seus braços de novo, para ter todas aquelas sensações outra vez... mas aí
vem as paranoias que não me deixam dormir direito, que me fazem acreditar
que vou ser rejeitada. — Ela suspirou, abaixando o olhar, e eu me aproximei
mais, passando um braço a sua volta.
— Alice, minha deusa, não existe a mínima chance de que você me
decepcione. Você é perfeita para mim em todos os sentidos, físicos ou não.
Esse é um medo que não precisa ter, amor. — Beijei a têmpora dela, e senti
quando ela deitou no meu ombro, fechando os olhos.
— Eu... eu não sou bonita, Hector. Meu corpo é estranho e
desproporcional, e por mais que eu ame e admire muitas mulheres com
corpos parecidos, eu simplesmente não consigo gostar do meu. As marcas são
estranhas, estrias de duas cores misturadas num lugar só, e as coxas... você
não fugiu quando viu meus braços, mas a situação delas é mil vezes pior, são
dezenas de cicatrizes a mais, uma por cima da outra...
— Alice, meu amor, como pode pensar que isso seria um problema
para mim? Eu te amo com cicatrizes e tudo, amo cada grama do seu corpo,
cada curva, cada marca, quer eu as tenha visto ou não. Amo você, e só em te
ter do meu lado, só em te ter confiando em mim, já é mais que suficiente para
me fazer feliz. Se não quiser fazer nada essa noite, se quiser que eu apague as
velas e que desçamos para ir assistir um filme no sofá, é isso que vamos
fazer. — A fiz se afastar do meu ombro para olhar em meus olhos, a
intensidade das minhas palavras aumentando. — Mas se seu único
impedimento for esse medo irracional de me decepcionar... lembra de sábado,
como se sentiu quando percebeu o poder que tinha, o efeito que causava em
mim? Aquele poder ainda está aí, só precisa achá-lo. Você é uma deusa, a
minha própria Afrodite, e eu sou todo seu.
— Hector...
— Me deixe terminar, ok? — pedi, antes que ela começasse a se
colocar para baixo de novo. — Eu amo você. Amo tudo que vi e toquei até
agora, e quando estiver pronta eu vou amar o resto também, porque você é
perfeita aos meus olhos. Sinto muito que tenham te machucado tanto, que
você mesma não consegue ver isso, mas se ao menos pudesse se ver com
meus olhos, enxergaria que seu peso nunca seria um problema, enxergaria a
perfeição em cada curvinha, cada marca. Se soubesse o efeito que tem em
mim a memória daquela nossa última noite, se tivesse noção do quanto eu te
desejo, você não teria medo de me decepcionar, pois entenderia o quão
impossível é isso.
— Mas eu nunca... e se eu não souber o que fazer?
— Eu te ensino. Se quiser, se realmente desejar isso, eu posso te
ensinar como essas coisas funcionam. Eu nunca vou te julgar ou perder a
paciência com você, ainda mais em um momento assim. — Acariciei seu
rosto, me inclinando para um beijo suave no canto de sua boca. — Sou seu,
para o que quiser, quando e como quiser.
— Eu... eu quero ser sua. Eu soei totalmente clichê e boba dizendo isso
— ela deu uma quase risadinha baixa —, mas é o que eu quero. Desde aquele
primeiro domingo, eu quero isso, desde sábado passado mais ainda... queria
ter tido coragem semana passada. Queria ter te puxado de volta pra cama
quando saiu do banho e te deixado fazer comigo todas as coisas que eu
sempre vi nos livros, todas as coisas que me deixam quente e envergonhada
só de pensar. Queria ter ido até o fim, mas naquele dia nem consegui colocar
em palavras o que acabei de te dizer. Eu me sinto boba em ter esses medos,
mas fui tão treinada pela vida a me achar insuficiente, que isso nubla minha
mente e às vezes não me deixa lembrar do quão bom você é ara mim. — Os
dedos dela vieram parar na minha nuca de novo, me mantendo perto
enquanto ela se aproximava mais, passando uma perna por cima do meu colo
e encontrando aquela posição que já era tão nossa.
— Alice...
— Me prometa uma coisa, ok? Prometa que se eu fizer algo errado, se
não for boa o bastante, você vai me dizer. Prometa que vai ser sincero sobre
tudo que fizermos juntos, e que vai me dizer se mudar de ideia, se... não
gostar do que vê. — Ela deixou beijinhos no meu rosto e na minha boca, se
afastando e ficando de pé na minha frente, tirando as sapatilhas com os pés.
— Prometa.
— Deusa, claro que eu prometo, mas não precisa ter pressa, não
precisamos ir até o fim hoje. Podemos parar exatamente onde paramos da
outra vez e eu não vou me incomodar, eu garanto. — Eu tive medo de que
meu gesto bonito com as velas tivesse feito ela se sentir pressionada, mas ela
negou com a cabeça, tirando o casaco emprestado devagar.
— Eu quero. Se você estiver falando sério sobre me querer com todos
os defeitos e imperfeições, eu estou disposta a confiar em você. Se eu mudar
de ideia eu digo, se quiser parar, mas... eu quero que me toque de novo.
Quero... — O rosto dela queimou e ela desviou o olhar para os próprios pés,
respirando fundo e voltando a olhar para mim. — Quero te ver daquele jeito
por minha causa de novo, quero acreditar que sou poderosa de novo.
— Você é — afirmei, e ela sorriu, respirando fundo e se aproximando
de novo, pondo as mãos nos meus ombros.
— Então faça amor comigo, Hector. Me transforme naquela deusa de
novo. — Ouvir essas palavras vindo dela teve um poder tão grande sobre
mim, que se não estivesse sentado eu teria caído de joelhos aos pés dela.
Assenti, e ela lentamente subiu no meu colo de novo, grudando a boca na
minha, agora sem receios, num beijo necessitado e desesperado, que eu
correspondi assim que me recuperei do choque.
Envolvi a cintura dela como das outras vezes, enquanto minha língua
provocava e sugava a dela, sentindo a mudança no ar à medida que o corpo
dela se tensionava de antecipação enquanto sua alma relaxava contra mim, o
equilíbrio explicito na forma como ela suspirou, e levou a mão até minha
camisa, começando a soltar os botões, bem devagar, do mesmo jeito que na
outra noite.
Sem dizer nada, ela parou e levou minhas mãos até a barra de sua blusa,
se afastando para que eu a tirasse. Ela se encolheu um pouco quando eu
arranquei a blusa e a deixei cair no chão, e então eu entendi. O abdômen dela
era coberto de estrias, brancas e roxas, que chegavam quase aos seios, ainda
cobertor por um sutiã preto. Quase ri, a vontade de balançar a cabeça. Era
esse o medo dela, que umas pequenas marcas assim me afugentassem? Ergui
meu olhar para ela, um sorriso largo no rosto.
— Linda — sussurrei, e em alguns minutos eu faria questão de beijar e
lamber cada marquinha daquelas até ela entender que não eram um problema.
Naquele momento eu odiei a sociedade que a fez pensar que algo tão bobo
quanto isso me faria desistir dela. Ela respirou fundo, e então voltou a tirar
minha camisa, botão por botão até chegar no último e a deixar cair por
minhas costas. Deixei-a se divertir, os dedos me explorado de novo, ela
suspirando baixinho.
— Diz o que vai fazer comigo hoje — ela pediu, minha pervertida
maravilhosa começando a se mostrar, e eu me inclinei para morder seu lábio
inferior antes de começar.
— Vou fazer o que eu quero desde que você se esfregou em mim, a
primeira vez, fazer o que vem me matando de vontade há semanas, e vou
enterrar meu rosto entre suas pernas. — Minhas mãos foram até suas costas,
bem devagar, brincando com o fecho do sutiã. — Vou te lamber e chupar até
você gritar de novo e de novo, até você ficar sem forças nem para se mexer,
até estar sensível demais para qualquer outro toque durante os minutos
seguintes. Vou sentir seu gosto direto da fonte, e vou aproveitar cada segundo
disso, ouvir cada gemido seu implorando por alívio. Você vai ser meu
banquete, Alice. — Usei as mesmas palavras que o cara do livro usou, vendo
ela assentir enquanto começava a se mover sobre mim. Soltei seu sutiã, e ela
inclinou os braços para que eu o tirasse.
Dei um sorriso cheio de malícia ao ver os seios expostos dessa vez, os
mamilos já rígidos, implorando por atenção, por toques. Não a deixei
esperando demais, avançando primeiro com meus polegares, sentindo-a
apertar as pernas à minha volta.
— Você queria isso, não é, minha pervertida? Queria que eu te tocasse
bem assim de novo, nos dois de uma vez... eu também queria. — Mordi o
pescoço dela e me afastei um pouco, olhando em seus olhos, vendo o brilho
que começava a nascer por trás das pupilas dilatadas. — Dessa vez eu não
vou falar sozinho. Sei bem o que você lê, então me diga exatamente o que
quer que eu faça. Me peça, me ordene... sou seu.
— Hector... — A voz dela saiu manhosa, enquanto ela rebolava
devagarinho em cima de mim, as mãos agarrando meu cabelo. — Eu quero
sua boca em mim. Quero que faça igual aquele dia, que me beije em todos os
lugares que desejar, e quero... ah... quero seus dedos me tocando de novo.
Quero que me faça...
— Gozar? — completei, vendo-a assentir com o rosto vermelho. —
Seu desejo é uma ordem, minha deusa.
Minha boca desceu por seu pescoço, chegando primeiro até o seio
esquerdo, deslizando a língua por ele e ouvindo ela arfar, enquanto eu
começava a sugar o mamilo, bem devagar, o rodeando com a língua.
Belisquei o outro de leve com os dedos, o prendendo entre meu polegar e o
indicador, sentindo as pernas dela se apertando a minha volta. Eu já estava
duro como pedra, meu corpo inteiro entregue a ela.
Minha mão livre subiu por sua coxa, os dedos entrando em sua calça de
tecido, encontrando-a molhada e pronta para mim. Deixei um grunhido de
prazer escapar enquanto comecei a tocá-la, devagar, circulando com a mesma
pressão que fiz sábado, dessa vez arriscando a descer mais um dedo, o
pressionando contra sua entrada, ouvindo o arfar surpreso dela quando o
pressionei mais forte, entrando bem devagarinho, recebendo um gemido
manhoso e necessitado como recompensa. Ela começou a mover os quadris,
rebolando sobre meu dedo, e eu afastei minha boca dela por um instante.
— E ainda diz que não sabe o que fazer... vai cavalgar meus dedos,
deusa? Vai me fazer imaginar essas reboladinhas comigo dentro de você...
que tortura — murmurei com uma risada baixa de satisfação, meu polegar
ainda rodeando seu clitóris enquanto meu dedo começava um ritmo lento de
entrar e sair, ouvindo os gemidinhos ofegantes dela, suas pernas começando a
tremer um pouco. — Pode deixar vir... vai ser só o primeiro da noite. Eu
avisei que não seria só uma vez... goza para mim, Alice. Isso...
O corpo dela explodia ao meu comando, ela começando a cavalgar meu
dedo mais rápido, rebolando, deixando ofegos escaparem num orgasmo
silencioso, e me afastei de seu seio a tempo de vê-la dar aquele sorrisinho de
prazer com a cabeça inclinada para trás, ainda se movendo mais devagarinho.
Esse foi rápido, e me fez pensar se ela havia tentado se tocar sozinha durante
essa semana longe. Não havia momento melhor que agora para perguntar.
— Alice... você tentou gozar, pensando em mim, esta semana, não foi?
Por isso já estava tão pronta, tão desesperada que ao mínimo toque meu já
explodiu... gosto assim.
— Eu... eu tentei. Cheguei perto, mas sempre parava antes... foi
frustrante. — Ela me puxou para um beijo, com força, enquanto eu afastava
meus dedos dela, ouvindo-a resmungar contra meus lábios. — Não, não
pare... Eu quero mais. Você prometeu mais... — Eu gostava de como ela
perdia o controle e a noção de vergonha quando estava necessitada assim, a
forma como essa parte de sua mente parecia ser mais forte que a parte
assustada.
— E você terá mais — garanti, a erguendo do meu colo e me
levantando, a virando e empurrando gentilmente para que sentasse na cama.
— Não sabe o quanto eu quero fazer isso... — Minhas mãos foram até o cós
de sua calça, a puxando devagar, revelando suas pernas pedaço por pedaço.
As cicatrizes estavam lá, grandes e irregulares, mas não me assustaram. Ela
nunca me assustaria dessa forma. Deixei a calça dela cair no chão e segurei
suas coxas, finalmente pele contra pele, e a puxei contra a lateral da cama. —
Minha vez de ajoelhar.
Dei um riso de prazer ao fazer isso, sentindo os olhos atentos dela sobre
mim, e segurei as laterais de sua calcinha, a puxando para baixo ainda mais
devagar que a calça. E então ela estava finalmente nua para mim, e ela a
melhor visão que já tive na vida. Cada curva, cada pedacinho no lugar certo,
cada marquinha a valorizando mais ainda. Apertei suas coxas, a puxando
mais para a beirada, deixando seus joelhos sobre meus ombros. Ela arfou, e
eu ergui o olhar para encontrá-la me observando.
— Pequena pervertida... quer assistir, não é? — Ela assentiu, e eu não
esperei nem mais um segundo, começando a beijar a parte interna de suas
coxas.
A pele dela era macia, suave, e eu fui deixando beijos e mordidas até
chegar aonde realmente queria, e comecei com um beijo. Um beijo simples,
na parte externa de sua intimidade, ouvindo o gemidinho surpreso dela. Então
a beijei de novo e outra vez, e então meus lábios começaram a sugar aquele
pontinho inchado e já sensível por antes, e senti quando o corpo dela
despencou para trás na cama, o quadril dela se movendo, sem conseguir ficar
quieta.
Eu me sentia latejando de desejo ao finalmente estar ali, e comecei a
circular a língua, enquanto minha mão subia pela coxa dela, até alcançar sua
entrada de novo, meu dedo voltando para lá, meu membro pulsando ao ouvir
o gemido dela em resposta. Aquela mulher iria me matar desse jeito.
Comecei um ritmo calmo, meu dedo brincando de entrar e sair
enquanto minha língua fazia círculos lentos, os ofegos dela ficando mais altos
depois de algum tempo. Encontrei com meu dedo a parte interna daquele
pontinho sensível dela e pressionei ali, recebendo um grito e mãos puxando
meus cabelos como resposta. Dei uma risada profunda de desejo, e ela
realizou minha fantasia, o corpo tremendo em espasmos enquanto gozava na
minha boca, encharcando meu dedo.
Não parei. Queria garantir a satisfação dela essa noite, e garantir que
ela estaria molhada o suficiente para sentir o mínimo de dor possível quando
finalmente fosse eu dentro dela. Continuei os mesmos toques, aumentando a
cada orgasmo, até que no último ela gritou, um som arrastado, enquanto o
corpo todo tremia em espasmos, e suas mãos puxaram meu cabelo para que
me afastasse, encontrando olhos fechados de prazer e um sorriso enorme nos
lábios.
Deixei uma trilha de beijos de volta até chegar na boca dela, a beijando
com força, deixando que sentisse o próprio gosto. Ela gemeu baixinho na
minha boca.
— Isso foram orgasmos múltiplos?! — A voz dela saiu baixa e
ofegante, e eu ri, negando com a cabeça.
— Esses foram seguidos, se fossem múltiplos acho que eu morreria
com seus gritos... tem noção do quão fica gostosa quando geme meu nome?
Do quanto isso me deixa louco? — Ela deu uma risadinha quando eu disse
isso, e me afastei o bastante para ver o corpo dela deitado na cama, nua,
esperando por mim. — Me dê dois segundos.
Peguei uma camisinha da caixa na gaveta, sumindo com minhas roupas
e a colocando, e enquanto fazia isso Alice subiu mais o corpo na cama,
apoiada nos cotovelos enquanto me observava, a cabeça inclinada. E então eu
estava em cima dela, sem fazer nada ainda, mas a provocando, provocando a
ambos quando me pressionava um pouco contra sua entrada e retrocedia. Ela
agarrou meus cabelos.
— Hector... por favor. Eu quero — ela assentiu, olhando nos meus
olhos, todas as palavras não ditas completamente óbvias no brilho de seus
olhos e nas pupilas dilatadas de prazer e desejo.
— Me diga se doer — murmurei, beijando os seus lábios
superficialmente e então me aproximando mais, me pressionando e voltando
cada vez um pouco mais, até que finalmente a penetrei de fato, parando logo
após o comecinho. — Tudo bem?
Ela assentiu, os quadris se movendo devagarinho, e continuei a me
mover devagar, até estar totalmente dentro dela, parando de novo. Ela fez
uma caretinha e riu baixinho.
— Arde, um pouquinho, mas não está insuportável... na verdade, está
bem gostosinho. — Ela rebolou devagarinho, testando, dando um pequeno
gritinho ao perceber que gostava daquilo, e eu dei uma risada alegre, a
beijando repetidas vezes, começando a me mover num vai e vem lento,
controlado, deixando o corpo dela se acostumar comigo, com a sensação
nova. Apertou os braços à minha volta, as unhas nos meus ombros. — Isso
é... uau... tão melhor que meus dedos... Ah, Hector...
Os gemidos dela saíam em meio às frases, e eu não conseguia falar. A
sensação dela tão apertada à minha volta me deixou louco, e precisava de
todo o meu controle para não explodir cedo demais, mantendo o foco de
movimento em movimento, ouvindo ela dar um gemidinho mais alto quando
aumentei um pouco o ritmo.
— Alice... — Seu nome saiu como uma prece de meus lábios, e eu
comecei a aumentar devagar o ritmo, pouco a pouco, e ela começou a rebolar
mais rápido contra mim.
— Hector, eu quero... ah... mais um. — A frase dela se perdeu num
gemido, mas eu entendi. Ergui uma das mãos que me apoiavam na cama e a
guiei até a junção de nossos corpos, encontrando-a e a tocando ali de novo,
acelerando seu orgasmo, sabendo que o meu não demoraria muito para vir
também.
E então ela gritou, se apertando à minha volta em espasmos que me
fizeram revirar os olhos, e eu perdi o controle, me movendo em mais algumas
poucas estocadas perdidas enquanto meu orgasmo irrompia por todo meu
corpo em ondas de prazer contínuas, o nome dela escapando sem controle dos
meus lábios, e eu tive certeza de que aquele tinha sido o melhor da minha
vida. Os nossos gemidos se misturaram quando eu a toquei com mais pressa,
aproveitando o quão sensível ela estava, querendo sentir ela se apertar à
minha volta mais uma vez enquanto eu encerrava, e consegui, ouvindo um
grito vindo do fundo de sua garganta enquanto meu corpo era totalmente
preso ao dela, os espasmos internos e externos dela me fazendo ver estrelas.
— Amo você — murmurei, meu corpo se afastando do dela, caindo
deitado ao seu lado, ouvindo nossas respirações ofegantes preencherem o
quarto.
Eu não conseguia lembrar como respirar normalmente, tentava e
tentava e ainda me faltava ar, e fechei meus olhos, sentindo um sorriso surgir
sem controle no meu rosto. Senti o peso na cama mudar quando ele se
levantou, mas rapidinho ele estava de volta. Mantive os olhos fechados,
abrindo um sorriso maior ao sentir sua mão em minha cintura.
— Eu sei que não está dormindo... — ele murmurou, os lábios vindo
beijar meu rosto. — Olhe pra mim. Quero ver você, minha deusa.
— Uhum.... — murmurei e abri os olhos, encontrando os dele
brilhantes perto de mim, deitado de lado, me encarando como se eu fosse
preciosa.
— Linda. — Havia um tom de reverência na voz dele, de devoção.
Senti a mão dele se mover da minha cintura para minha barriga, traçando as
linhas das estrias. — Não consigo acreditar que pensou que eu me assustaria
com elas... são lindas, assim como você. Cada pedacinho seu me fascina de
um jeito surpreendente. — A mão dele desceu até minha coxa, e eu desviei o
olhar quando ele tocou as cicatrizes. — E essas daqui... são marcas do quanto
você já suportou e seguiu em frente nessa vida. Sinto muito que elas tenham
sido necessárias, mas fico imensamente feliz que você tenha sobrevivido ao
que causou cada uma delas.
— Eu fui boba em ter medo, não fui?
— Foi, sim. Mas eu entendo seus medos, e vou provar com palavras e
ações todas as vezes em que estiver enganada em temer. — Ele se inclinou,
os lábios roçando meu rosto, e eu me virei para ele, o beijando devagarinho.
— Eu te amo. Não sei dizer direito, a coragem falta em todos os
momentos, mas lembre disso, ok?
— Nunca vou esquecer. — A mão dele voltou a subir, parando no
espacinho entre meus seios e traçando linhas ali. — Como está se sentindo?
— Cansada. Com sede. Feliz. — Dei um risinho preguiçoso, fechando
os olhos de novo ao sentir a mão dele parada ali, sobre meu coração.
— Quer ir tomar um banho enquanto eu pego água pra você? Posso
trazer até um lanchinho. — A pergunta me lembrou algo que ele tinha dito,
me fazendo sorrir.
— Tenho a impressão de que você me prometeu um banho juntos, da
última vez...
— Tem razão. — Abri os olhos de novo, pesados pelo cansaço, e
encontrei o sorriso dele enquanto se levantava e estendia a mão para mim.
Respirei fundo, sentindo minhas pernas moles como gelatina enquanto
segurava a mão dele e me levantava. Ele deu um risinho, envolvendo minha
cintura. — Bom saber que consigo te deixar quase sem andar.
— Calado. — Mostrei a língua, ouvindo aquela gargalhada que eu tanto
amava enquanto entrávamos no banheiro. Fiquei recostada contra a pia
enquanto ele enchia a banheira. Era bem larga, mas ainda menor que a do
apartamento dele. Ele me puxou pela mão, entrando na água comigo, se
sentando contra a borda, deixando o espaço perfeito entre as pernas para que
eu ficasse ali, as costas contra o peito dele. Eu me senti numa cena de livro
fofo. Dei um sorrisinho, sentindo meu rosto queimar com o que diria a seguir.
— Sabe, respondendo sua pergunta de quando estávamos no carro, você teria
asas do tamanho perfeito.
— Tamanho perfeito, é mesmo? — Senti o hálito dele quando riu na
minha orelha, seus braços me envolvendo com carinho, as mãos traçando
círculos na minha pele. — Bom saber. — Ele beijou meu pescoço, as mãos se
afastando para pegar uma esponja e a cobrir com um sabonete cheirosinho de
erva doce, o cheiro dele, vindo deslizar ela pelos meus braços, me fazendo rir
baixinho de felicidade.
— Vai me deixar mal acostumada, sabia?
— Esse é meu objetivo. — Ele sorriu, a esponja fazendo movimentos
circulares por mim, enquanto eu relaxava nos braços dele, sentindo todos os
medos e desconfianças bem distantes, concentrada só nos carinhos e no jeito
que ele cuidava de mim, mais confortável ali do que em qualquer outro lugar
no mundo. Ele começou espalhar água em mim, tirando a espuma, e eu fechei
os olhos, me sentindo mais em paz até mesmo do que quando tomava o
terceiro calmante. Ficamos por um tempo ali, em silêncio, com ele me
cobrindo de amor e carinho, até que eu me virei, ficando de frente para ele e
pegando a esponja.
— Minha vez. — Eu sempre tinha lido cenas assim, visto em filmes,
mas nunca tinha tido noção da verdadeira intimidade e beleza disso. Estar
aqui, sentindo os carinhos dele enquanto cobria seu peito de espuma, era algo
tão mais íntimo do que o que fizemos alguns minutos atrás. Era uma
intimidade profunda, e não apenas física. Dei um sorrisinho bobo, lembrando
da nossa brincadeira sobre o livro. — Meu parceiro. É uma pena que você
não tenha asas de fato, eu adoraria descobrir como funciona a sensibilidade
delas na prática...
— Mente pervertida que eu tanto adoro... mal posso esperar para ver o
que fará comigo com o passar do tempo. — Ele sorriu, levando uma mão ao
meu rosto, os dedos me contornando devagarinho, me puxando gentilmente
para um beijo curto.
— Também quero ver. Se totalmente perdida já foi assim, imagina
quando eu souber o que fazer?
— Vou sofrer nas suas mãos. — Ele piscou um olho, enquanto eu fazia
uma concha com as mãos e levava a água até seu peito, tirando a espuma,
deslizando meus dedos por ali com carinho. Ele era lindo, o corpo na medida
exata entre comum e quase musculoso, sem nenhum exagero, os músculos
retos, mas não tão definidos. Passei meus braços em volta dele e me
aproximei mais, o abraçando pelo pescoço, meu rosto em seu ombro. As
mãos dele faziam uma caricia bem leve nas minhas costas, quase como se
fossem penas.
Ficamos abraçados ali, meu corpo aninhado no dele, meus olhos
pesando enquanto eu lutava contra o sono que vinha do conforto de ter ele ali
somado ao calor morno da água. Ele percebeu, pois me afastou bem devagar,
deixando um beijo no meu rosto.
— Vem, você precisa dormir, foi um dia longo. Amanhã eu te cubro de
mais mimos ainda, te dou mais beijos ainda, e tudo mais que você quiser. —
Ele me beijou gentilmente, e saímos da banheira. Observei ele enrolar uma
toalha na cintura depois de me entregar um roupão fofinho, igual ao que eu
usei aquele dia no hotel. Me enrolei nele, deixando Hector me puxar pela
mão até o quarto. Vi uma manchinha vermelha no lençol, e senti meu rosto
queimar, me aproximando dele e escondendo meu rosto em seu peito. — O
que foi?
— O lençol... — falei baixinho, minha voz abafada pela pele dele.
— Ah, isso. — Ele me abraçou de volta. — Não é nada, vou pegar um
novo no armário e amanhã botamos esse pra lavar.
— É tão vergonhoso... — Dei uma risadinha de vergonha, sentindo o
carinho dele nos meus cabelos quando ele riu.
— Não é não. — Ele beijou minha testa, se afastando com um carinho e
puxando o lençol de cima da cama, o enrolando todo e deixando no canto do
quarto. Vi ele se abaixar para pegar uma cueca na mala, tirando a toalha e
deixando aquela bundinha linda aparecendo. Eu queria morder, e faria isso se
não estivesse tão cansada. Quando ele se virou de volta, eu estava encarando
com a cabeça inclinada. — E agora, o que foi?
— Nada, só observando o gostoso que eu namoro. — Dei um risinho,
indo até a bolsa na cômoda e pegando uma calcinha, morrendo de vergonha
enquanto me vestia, ciente de que ele também estava encarando, e mal acabei
de colocar um blusão de dormir quando senti ele me abraçando pelas costas.
— Perfeita — ele sussurrou, me puxando para a cama, indo pegar outro
cobertor enquanto eu me deitava. Dei uma risadinha quando ele estendeu o
cobertor por cima de mim, me cobrindo como se fosse uma toalha de mesa.
— Vou pegar água, e seus remédios. — Eu já tinha até esquecido deles.
Comecei a soltar minhas tranças, e em alguns minutos ele voltou, com
uma garrafinha de água e pegou os remédios na bolsa, trazendo para mim.
Engoli os comprimidos e entreguei a garrafa de volta pra ele, que o deixou na
mesinha de cabeceira e veio deitar do meu lado, me virando e ficando de
conchinha, igual na nossa primeira noite. A luz do quarto se apagou,
deixando só a iluminação fraca das velas perfumadas.
Deixei um suspiro alegre escapar, me aninhando para junto dele, seus
braços a minha volta, me mantendo naquele casulo onde nada podia me
machucar. Fechei os olhos, pegando no sono enquanto ouvia ele cantarolar o
ritmo de uma das músicas que tocou no carro.

Quando acordei não sabia que horas eram, e eu estava sozinha na cama.
Me espreguicei, me esticando toda pela cama, rolando para o lado oposto e
puxando um travesseiro, o abraçando com vontade de dormir mais um pouco,
mas meu corpo me traiu pedindo que eu fosse fazer xixi, e quando saí no
banheiro já estava acordada demais para voltar a dormir. Suspirei, decidindo
ir procurar Hector, voltando antes para escovar meus dentes. Eu não me
incomodei em acordar sozinha, sabia que ele estaria em algum lugar da casa e
saí do quarto, seguindo os barulhos que vinham da cozinha, o encontrando lá,
usando só uma calça de moletom e mexendo no fogão.
— Pensei que não soubesse cozinhar. — Sorri, vendo ele se
surpreender com a minha voz e se virar com uma expressão brava de mentira.
— Você não está aqui, você está dormindo para receber café na cama
daqui a pouco. — Ele riu, piscando um olho. — Bom dia. E eu sei cozinhar o
básico, como ovos mexidos, bacon e torradas. E sei esquentar comida em
geral. — Ele se defendeu, e eu dei uma risadinha, me sentando em frente à
bancada, observando-o concentrado na frigideira.
— Ok, não desconfio mais das suas habilidades culinárias, senhor “não
tenho comida na geladeira de casa”. — Ri, sentindo uma alegria nova e calma
dentro de mim que eu não me lembrava de sentir desde que era uma
garotinha. Ele desligou o fogo logo depois da torradeira soar que estava
pronta, e colocou os ovos e bacon num prato, junto com duas torradas.
— Seu café, que deveria ser servido na cama, milady. — Ele fez toda
uma pose que sabia que arrancaria uma risada de mim, enquanto colocava o
prato no balcão a minha frente, indo abrir a geladeira. — O que vai querer
beber? Temos água, suco de laranja, posso fazer café, ou podemos ser loucos
e tomarmos Pepsi no café da manhã.
— Suco de laranja serve. — Sorri, vendo ele tirar a caixa da geladeira e
encher dois copos, me entregando um e se apoiando do outro lado da
bancada, enquanto eu pegava o garfo e provava o prato “elaborado” dele. O
bacon estava levemente torrado demais, mas era bom.
— E então, estou aprovado?
— Talvez... está faltando um beijo de bom dia nesse café da manhã.
— Ah, isso eu consigo resolver facilmente. — Ele deu a volta no
balcão de ilha, vindo se inclinar na minha direção e me dar um beijo suave,
nem lento nem demorado. — Agora sim?
— Agora sim. — Assenti, sorrindo e voltando a comer, enquanto ele se
encostava no espaço do meu lado e tomava um gole do suco. — Quais os
planos pra hoje?
— Ficarmos vendo filmes ou séries o dia todo, agarrados no sofá,
parece uma boa ideia?
— Parece uma ótima ideia.
— Então é isso que faremos. — Ele sorriu, aquele sorriso aberto e lindo
que eu tanto amava e que me fazia tão bem. — O que vai querer assistir hoje?
— Hmm... você já viu True Blood?
— Só a primeira temporada, séculos atrás. Vampiros “saindo do
caixão” como analogia ao termo “sair do armário” e uma mensagem sobre
preconceito de fundo, é essa?
— A primeira temporada é, o resto da série vai se perdendo, mas é bem
legal. Quer assistir? — Sorri, contendo a animação. True Blood tinha virado
uma bagunça com o passar dos anos, mas ainda era uma das séries que eu
mais amava rever. Tinha um motivo estranho de que, quando eu tinha crises
pesadas, a violência e sangue nos episódios me distraía da vontade de ser
violenta comigo mesma, mas ainda assim era uma ótima série.
— Pode ser. — Ele sorriu, indo deixar o copo vazio na pia, esperando
que eu acabasse de comer e pegando meu prato. — Vá lá em cima e busque
dois cobertores e todas as almofadas e travesseiros que quiser, vamos
transformar o sofá no lugar mais confortável do mundo.
— Me parece um ótimo plano. — Dei uma risadinha, correndo escadas
acima, algo perigoso consideranda minha tendência de tropeçar, e peguei
duas mantas felpudas no armário, junto com todos os quatro travesseiros da
cama. Desci as escadas bem devagar, com cuidado pra não derrubar e
tropeçar em nada, e cheguei na sala, ouvindo a risada dele se aproximar para
me ajudar.
— Não sei como não caiu, podia ter feito duas viagens, ou me
chamado. — Ele balançou a cabeça, pegando os travesseiros e os jogando nas
almofadas do enorme sofá retrátil, que ele já havia puxado para ficar do
tamanho de uma cama praticamente. Ele se sentou, batendo no espaço ao seu
lado em um convite e eu sorri.
Me aproximei com as mantas, jogando uma em cima dele enquanto me
sentava ao seu lado, as pernas esticadas pra frente e as costas apoiadas num
travesseiro contra o encosto do sofá. Ele pegou o controle, ligando a tv e
procurando onde True Blood estivesse disponível para stream, dando play no
primeiro episódio da segunda temporada.
Me aninhei nele, deitando a cabeça em seu peito, os olhos na tela
enquanto começava aquela abertura maravilhosa. Eu conhecia de cor as três
primeiras temporadas, então não prestei muita atenção, minha mente
começando a vagar enquanto eu pensava na noite passada.
Eu tive medo. Tive muito medo, quando finalmente confessei todas as
minhas inseguranças, de que ele finalmente fosse perceber que não aguentaria
mais as minhas partes complicadas e defeitos. Tive medo de que ele, mesmo
dizendo que era impossível, não me desejasse mais. Meu coração só se
acalmou mesmo quando ele puxou minha blusa e os olhos mudaram, as
pupilas grandes e o tom acinzentado de castanho mais profundo. Eu já tinha
lido sobre olhares como aqueles, o famoso “os olhos dele escureceram”, mas
não sabia que acontecia de verdade. Achava que era liberdade poética, forma
de falar.
E então ele começou a me tocar daquele jeito maravilhoso, forte ao
mesmo tempo que tinha a delicadeza de quem lidava com a mais fina
porcelana, e eu ficava com calor só de lembrar. Aproveitei que ele estava
concentrado na tela e dei um sorriso com a memória de como explodi tão
facilmente, de como meu corpo simplesmente reconheceu o dele e se
entregou, de como não precisei de muito para me desfazer. Senti um arrepio
ao lembrar de como ele se ajoelhou na minha frente, a boca traçando o
mesmo caminho que os dedos tinham feito... eu tinha deduzido que seria
bom, mas nunca pensei que poderia ser tanto.
Quando ele finalmente parou de me matar com a antecipação, eu já não
tinha um traço de medo, era como se quando nossos corpos se tocassem
daquela forma minha mente tivesse forças suficientes para trancar a parte
ruim numa jaula. Na hora que ele finalmente entrou em mim a sensação foi
esquisita, diferente de quando eram os dedos meus ou os dele, e incomodou
no começo, mas foi ficando bom à medida que ele se mexia, e no final eu já
tinha até esquecido do começo. Eu sabia que só tinha sido bom porque era
com ele, porque ele me passou confiança.
Foi difícil manter os olhos abertos, mas com muito esforço eu consegui
assistir enquanto ele se perdia em mim, chamando meu nome de novo e de
novo como se me venerando... eram em momentos assim que eu acreditava
ser a deusa que ele me chamava.
Me aninhei melhor contra ele, sentindo seu carinho distraído nas
minhas costas enquanto assistia a série. Foquei meu olhar na tela, estava na
cena que quase parece que vão matar o Lafayette, mas eu já sabia que ele
sobrevivia até o final, e eu teria abandonado a série caso contrário. Continuei
a me deixar levar por devaneios, pensando em como ele leu um dos meus
livros favoritos simplesmente porque eu o mencionei, e depois me comprou
livros parecidos. Ele fazia tudo de uma forma tão natural, não era como se
estivesse se esforçando para me impressionar, ele simplesmente era aquele
cara perfeito e maravilhoso por quem eu me apaixonei.
Lembrei de mais livros com os quais seria fácil comparar ele ao
mocinho principal, ou comparar pequenos momentos nossos com cenas deles.
Agora mesmo, nós dois sozinhos em uma casa pouco depois da nossa
primeira vez, deitadinhos no sofá assistindo tv... só consegui pensar nas cenas
durante a Ilha de Esme em Amanhecer. Meu sorriso foi suave, fechando
meus olhos enquanto mudava de posição, deitando a cabeça no colo dele,
sentindo seu carinho em meus cabelos enquanto o episódio acabava e o
seguinte iniciava.
Ouvi as vozes da tela por um instante, me lembrando de cada pequeno
chilique meu enquanto assistia pela primeira vez, por causa de com quem a
Sookie ficaria. É engraçado como as opiniões mudam com o passar dos anos.
Team Eric desde o começo, depois Team Bill porque parecia o certo, e hoje
em dia era Team Alcide. Sim, ele morreu na última temporada, mas teria sido
um final digno se tivessem ficado juntos, considerando tudo o que passaram.
E sinceramente qualquer final seria melhor do que o oficial mesmo.
Meus pensamentos voltaram para os gestos que Hector já fez por mim,
segurando um sorriso ao pensar nas velas que ficaram acesas a noite inteira.
Ele tinha construído o ambiente mais clichê e bonito que se tem para uma
primeira vez. Música, iluminação, velas cheirosinhas e todo o carinho do
mundo. Ele me cobria de coisas fofas, de referências à romances famosos e
clichês reconhecidos por todos, e eu amava isso. Amava que ele não parecia
real.
Sinceramente, eu mal podia esperar para ver sobre o que seria nossa
primeira discussão. Estava apostando comigo mesma que seria algo
relacionado ao dinheiro que ele teima em gastar comigo. Não é que eu me
sentisse mal ou não gostasse dos presentes, eu entendia que pra ele o valor
deles não era nada, mas eu ficava triste em não saber retribuir. Foi golpe
baixo ele ter usado aquele pedido de ser a Feyre dele e aceitar os mimos
assim como ela aceitou os colares e tiaras que ganhava do Rhys, isso me
derreteu toda.
Em algum momento no meio dos pensamentos eu cochilei, e quando
dei por mim já estava no começo do quarto episódio, e Hector fazia um
carinho leve no meu cabelo. Me mexi, virando pra deitar de barriga pra cima
e olhar para ele, que sorriu pra mim.
— Acordou, bela adormecida? — Ele sorriu, se curvando na minha
direção e me beijando de leve na testa.
— Você me deixou cansada ontem, ok? — Sorri, me sentando
enquanto me espreguiçava, vendo-o rir do barulhinho que eu fiz ao me
esticar.
— Se quiser eu posso te cansar mais... — Ele deu aquele sorrisinho de
segundas intenções, piscando um olho.
— Você é terrível. — Sorri, subindo no colo dele e segurando seu rosto
nas mãos, enroscando meus dedos em sua barba. — Mas eu te amo mesmo
assim.
— Eu sei. — Ele sorriu, as mãos repousando sobre a minha coxa, só os
polegares se movendo devagar. — O que acha de almoçarmos primeiro, e
depois você pode ser minha sobremesa?
— Me parece um ótimo plano. — Não consegui evitar que meu rosto
ficasse vermelho ao imaginar ele me devorando de novo, e ele mordeu meu
lábio inferior. — Mas com uma condição... se eu vou ser a sua sobremesa,
você vai ser a minha.
— É um acordo. — E então a boca dele avançou na minha, me beijando
devagar, com resquícios do desejo de ontem começando a queimar
novamente, me fazendo suspirar, provocando ao me mover devagarinho. —
Pensei que fôssemos almoçar primeiro...
— Eu gosto de antecipar a sobremesa — sussurrei, beijando o pescoço
dele, estava começando a aprender como provocar ele do jeito que ele fazia
comigo, como deixar ele tão louco quanto me deixava.
— Pervertida... — A boca dele procurou a minha, e eu deixei que me
beijasse enquanto descia meus dedos por seu peito, procurando aquela parte
dura e macia que me fez ver estrelas menos de vinte e quatro horas atrás,
agindo por impulso e o puxando para fora da calça. Ele grunhiu contra a
minha boca, quase um rosnado, que me arrepiou da cabeça aos pés.
— Vou me vingar por ter me destruído tanto noite passada... aproveite
meu momento de coragem — avisei, aproveitando eu mesma aquele
momento de confiança, o poder que sentia ao ter ele nas minhas mãos. Tinha
sido assim uma semana atrás, quando o descobri pela primeira vez, e agora eu
já tinha uma noção melhor de como agir. O soltei, deixando ele ali, e
começando a rebolar devagarinho por cima dele, sentindo só o tecido da
minha calcinha nos separando, me fazendo dar gemidinhos baixos ao lembrar
onde aquilo terminaria.
Ele agarrou minha blusa, a arrancando de mim e deixando de lado no
sofá, a série esquecida na tv enquanto eu puxava o cabelo dele, o trazendo
para mim. Era bom não ter mais tanta vergonha, saber que ele me desejava
mesmo com tantos defeitos e problemas. As pupilas dele dilataram, o olhar
ficando mais profundo a medida que eu me movia, e a boca dele foi descendo
pelo meu pescoço, chegando onde eu o queria, fazendo com que eu me
pressionasse mais sobre ele, girando os quadris, sentindo a glande dele
pressionada contra aquele meu pontinho sensível.
Puxei mais os cabelos, gostando de quando ficavam bagunçados nas
minhas mãos, fazendo ele se afastar um pouco, segurando a frustração por
isso.
— Depois. Hoje sou eu que vou me divertir com você... é o mínimo. —
Dei um sorrisinho, sentindo meus seios pesarem com a atenção interrompida,
e fui me afastando devagar, dando espaço para minha mão descer entre nós, o
segurando de novo. Eu ainda me surpreendia por ser tão macio ao toque, uma
textura suave que acompanhava os movimentos da minha mão.
— Faça o que quiser. — Ele sorriu, me soltando e apoiando os braços
no sofá, me deixando totalmente livre para brincar com o corpo dele. Levei
meu polegar até a parte de cima, traçando pequenos círculos, erguendo meu
olhar para ver ele mordendo o lábio inferior.
Continuei, levando a outra mão até ele também, descendo por seu peito
e pela trilha de pelos recém aparados que começavam a crescer de novo, até
chegar onde queria. Eu falei sério sobre ser do tamanho perfeito, não tinha
com o que comparar, mas se encaixava perfeitamente em mim, e isso bastava.
Minha mão foi descendo, e eu mordi meu lábio inferior ao testar algo que
tinha lido e segurar bem gentilmente embaixo dele, arfando e rindo baixinho
ao sentir que a sensação era, de fato, a de segurar duas bolas.
— Me tortura e ainda dá risada... — A voz dele saiu arrastada, e eu
ergui uma sobrancelha, fazendo de novo.
— Gostou disso? — Ele assentiu e eu repeti, sendo recompensada com
um gemido. Eu gostei de descobrir do que ele gostava.
Meus dedos o envolveram de novo, o tocando enquanto eu saía de seu
colo e mais uma vez me ajoelhava entre suas pernas, dessa vez mais confiante
do que fazer e como. Mas antes eu testaria algo. Levei os lábios até onde
minha mão estava antes, deixando um beijo levemente sugado ali, sentindo-o
tremer em resposta, um som afirmativo saindo do fundo de sua garganta. A
pele ali parecia mais fina e sensível, então tomei cuidado, me divertindo ao
dar beijos curtos, erguendo meu olhar para ele, encontrando olhos famintos
me observando.
Dei meu melhor sorriso pervertido, um que só ele conheceria, e passei a
língua por ali, deslizando por toda a sua extensão até chegar em cima. Eu
esperava estar sendo tão sedutora quanto parecia na minha mente, fiz questão
de ler dois livros narrados pelo cara essa semana só pra ter uma noção de
como a mente deles deve funcionar. Ele apertou uma mão na lateral do sofá,
então devia estar dando certo. Fiz como na semana passada e beijei o topo,
sugando um pouquinho antes de afastar minha boca, repetindo essa mesma
ação algumas vezes.
E então eu fui até o limite, o colocando na boca até onde conseguia e
tocando o resto com a mão, pressionando minha língua contra ele,
começando a fazer movimentos no mesmo ritmo que ele fez em mim ontem,
sentindo o calor entre minhas pernas aumentar cada vez que ele gemia meu
nome ou soltava algum palavrão, e senti vontade de me tocar, só um
pouquinho, só pra manter minha cabeça no lugar enquanto meu foco era dar
prazer a ele, mas não o fiz, concentrada demais em não errar nos movimentos
que fazia.
Senti o espasmo dele, a coxa que eu segurava como apoio tremendo um
pouco, e então me empenhei mais. Eu já conhecia os sinais de quando ele
estava perto, o jeitinho que o corpo dele tensionava logo antes de explodir.
Igual da outra vez eu estava tão concentrada que não ouvi o aviso dele, tive
que ser afastada pelos ombros, mas não parei minha mão, ouvindo aquele
gemido rouco vindo do fundo da garganta dele enquanto seu líquido sujava
seu abdômen e escorria pelos meus dedos, me fazendo dar um sorriso
orgulhoso do efeito que tinha causado, de ter feito ele perder o controle de
novo.
Usei a barrinha da minha blusa para limpar meus dedos, a colocaria
para lavar assim que acabássemos, e limpei também a barriga dele, vendo-o
erguer uma sobrancelha pra mim. Dei de ombros, como se aquilo explicasse
tudo, e subi em seu colo de novo.
— Você, minha deusa, só me surpreende. — Ele deu uma risada baixa
e arrastada, a voz ainda rouca como os gemidos, e eu o puxei para me beijar,
enroscando minha língua na sua por quanto tempo aguentei.
— Sua vez. — Sorri, dando um gritinho quando ele me jogou ao seu
lado no sofá, fazendo como eu fiz e se ajoelhando, me fazendo tremer em
antecipação ao sentir ele puxar minha calcinha e separar minhas coxas. Gritei
quando sua boca me encontrou, a língua brincando na minha entrada, e então
vieram dois dedos para me deixar louca, ele fazia um movimento como quem
chama alguém, puxando os dedos contra algum ponto sensível que eu não
sabia ter, e eu senti como se minha alma saísse do corpo quando explodi, uma
vez e outra e mais outra, meu corpo sem parar de tremer, espasmos fortes me
fazendo arquear as costas, e ele não parava, me chupando cada vez com mais
força, e eu tive que puxar seus cabelos, implorando silenciosamente para que
me deixasse respirar por um momento.
— Esses foram múltiplos. — Ele riu contra a minha pele, o hálito
quente me causando arrepios enquanto ele se levantava, se inclinando para
me beijar devagar. Era surpreendentemente bom sentir meu gosto na língua
dele. — Respire, volto em um minuto. — Eu realmente mal tive tempo de
respirar enquanto ele desaparecia nas escadas, e logo ele já estava de volta,
com dois pacotes de camisinha na mão. Ergui uma sobrancelha, e ele riu. —
Melhor já termos um reserva. — Observei com atenção enquanto ele descia a
mão pelo próprio corpo, colocando a camisinha e se aproximando de mim.
— Só... vá devagar. Ainda estou um pouquinho dolorida de ontem. —
Meu rosto ficou vermelho ao falar sobre isso, algo totalmente aleatório já que
pra fazer eu não sentia vergonha, e ele se sentou do meu lado, me puxando
para seu colo.
— Vou fazer melhor, e te ensinar a ficar por cima. Hoje o controle é
inteiramente seu, minha deusa. — Ele segurou meus quadris com leveza, os
apertando de levinho, e eu comecei a fazer igual em todas as vezes e me
mover sobre ele, dando gemidinhos baixos ao sentir a cabeça pressionada
contra mim.
— Como eu...? — perguntei, sem ter a mínima ideia de como encontrar
a posição certa. Ele se recostou mais contra o sofá, levando uma mão até
entre nossos corpos, e eu me ergui enquanto ele segurava a ereção, a
posicionando contra minha entrada. Ah.
— Quando estiver pronta. — Ele deu um sorrisinho, subindo as mãos
para segurar meus seios, e a sensação foi tão boa que eu despenquei sobre ele
de uma vez, dando um grito ao ser preenchida, tomada, possuída e qualquer
outro termo que exista para essa sensação maravilhosa. Ele soltou um “porra”
arrastado, balançando a cabeça. — Não ia ser devagar?
— Você me distraiu. — Minha voz soou mais como um gemido do que
como uma frase mesmo, e eu comecei a me mover devagarinho, me
segurando nos ombros dele enquanto aprendia o que fazer. Comecei com o
que já fazia, sem subir ou descer, apenas circulando devagarinho, sentindo
meus olhos revirarem um pouco sem controle.
Apoiei-me nele e ergui meus quadris, afastando um pouco nossos
corpos e então voltando, minha boca se abrindo e meus olhos se arregalando
ao entender que era assim que se fazia. Repeti de novo, e então mais uma
vez, até que peguei o jeito e criei um ritmo que misturava isso e me mover
para frente e para trás com ele dentro de mim. Lembrei a palavra certa para o
que estava fazendo, estava cavalgando nele.
Não demoramos muito. Aquela necessidade desenfreada era totalmente
nova pra mim, e ele parecia sentir a mesma coisa, porque com três segundos
que eu explodi fui capaz de ouvir os gemidos dele ecoando os meus, sempre
chamando meu nome, sempre se agarrando em mim como se eu fosse seu
tudo. Em momentos como esse eu acreditava que realmente era.
Meu corpo desabou por cima dele, cansada, meu rosto em seu pescoço
enquanto tentava recuperar o ar, e senti suas mãos nas minhas costas,
segurando meus quadris e me erguendo um pouco, separando a junção de
nossos corpos. Resmunguei baixinho, ouvindo ele rir e sentindo seu beijo em
meu rosto enquanto me deixava ao seu lado, se levantando e sumindo na
portinha do banheiro para se livrar da camisinha, voltando pra junto de mim
instantes depois, me puxando pra deitar com ele no sofá, e uma intimidade
nova nasceu: nós dois nus, deitados no sofá, olhando um para o outro e
explodindo num riso curto de pura alegria.
Passamos o resto da tarde de ontem no sofá. Eventualmente a fome
ficou forte e eu tive que subir pra pegar outra blusa enquanto ele esquentava
uma lasanha de micro-ondas para o almoço, que comemos enquanto
conversávamos sobre tudo e nada, com assuntos aleatórios que eu já não
conseguia mais lembrar, mas as risadas e sorrisos ficaram gravados na minha
memória. E à noite nos amamos de novo, eu estava ficando viciada no corpo
dele.
Eu dormi estranha nessa noite, tive sonhos que não conseguia me
lembrar, e acordei mais tarde que ele de novo, só que hoje ele estava na cama,
deitado ao meu lado, com os braços atrás da cabeça. Em algum momento
durante a noite eu tinha me soltado do abraço dele e estava no travesseiro ao
seu lado, de bruços, uma perna por cima das dele e coberta só até a cintura.
Levei minha mão ao seu peito, o tirando dos próprios pensamentos com meu
carinho.
— Bom dia. — Sorri, subindo meus dedos para fazerem carinho em sua
barba, sentindo os fios macios dos quais ele cuidava tão bem. — No que
estava pensando?
— Em nós. Em como tudo aconteceu tão rápido e de forma certeira...
— Ele se virou para mim, com um sorriso calmo. — Se me dissessem
naquele dia da palestra que eu hoje estaria deitado aqui com você,
completamente apaixonado, eu chamaria quem falou de louco. Mesmo
quando eu te vi e me encantei, não cheguei a imaginar que daria tão certo
assim.
— Parece até eu falando. — Dei uma risadinha, fazendo um carinho
leve no rosto dele. — Eu também não imaginei que seria assim. Há alguns
anos atrás eu me proibi de sonhar com futuros bonitos, porque sempre me
iludia e ficava triste, então quando te conheci, e três semanas depois quando
apareci na sua porta, eu me esforcei ao máximo pra não criar expectativas,
pra já começar sabendo que eventualmente acabaria.
— E agora, ainda pensa assim? — Os olhos dele estavam profundos,
como se aquela pergunta tivesse mais significado do que eu conseguia
perceber.
— Não exatamente. Eu ainda tenho medo de pensar à longo prazo, mas
há duas semanas que eu consigo ver o fim de semana chegando e fico ansiosa
por querer te ver. Ontem eu estava pensando, distraída enquanto víamos True
Blood, e percebi que estou curiosa para ver nossa primeira briga. Parece
estranho, mas imaginar que podemos brigar um dia significa também
imaginar que duraremos até essa fase de lua de mel acabar. — Dei de
ombros, continuando o carinho distraído na barba dele. — Por que está me
perguntando isso?
— Para te entender melhor, e entender melhor aonde estamos indo. Eu
não consigo mais me ver num futuro sozinho, e a garota sem rosto com quem
eu costumava imaginar que me casaria algum dia agora tem cabelos
cacheados, uma única covinha e seu sorriso. Não estou dizendo para fugirmos
hoje para Vegas e nos casarmos como loucos — ele riu —, mas estou
dizendo que no que depender de mim, esse relacionamento vai longe.
— Hector...
— Eu vou entender, sabe, se um dia mudar de ideia sobre nós, se
perceber que eu não era exatamente o que queria da vida, e vou respeitar
sempre as suas decisões. Mas quero que esteja ciente de que em apenas um
mês eu já me tornei inteiramente seu. — Ele distraidamente levou uma mão
por cima da minha cabeça e começou a acariciar meu ombro. — Não precisa
dizer nada sobre isso, eu só precisava dizer em voz alta mesmo.
— Eu vivo há tanto tempo sem saber se estarei viva no mês seguinte
que minha mente não consegue mais enxergar nada a longo prazo, mas se
pudesse sonhar com um futuro, seria ao seu lado. — Me aproximei mais dele,
deitando minha cabeça em seu peito e o abraçando. — Você me faz feliz nos
dias bons, e é um motivo extra para lutar nos dias ruins.
— Queria ter como tirar os dias ruins de você. Eu, de bom grado,
suportaria as dores no seu lugar, se isso significasse aliviar seu coração. —
Ele sorriu, e eu senti meus olhos lacrimejarem. Aquela manhã tinha
começado bem profunda.
— O que te fez pensar nisso tudo, justo hoje?
— Bem... não sei se você sabia, mas às vezes você fala dormindo. Bem
baixinho, e eu só prestei atenção porque tinha levantado para ir ao banheiro, e
essa noite você disse “eu não quero ficar sozinha de novo”. E a voz com que
você disse isso me fez repensar se estava demonstrando o suficiente o quanto
falo sério sobre nós, sobre te amar. — Ele deu um sorriso que parecia triste.
— Eu sei que às vezes não acredita.
— Eu...
— Não se desculpe, eu sei que não é porque não quer acreditar, que tem
medos de que gritam e falam mais alto que seu coração, que tem uma parte de
você que ainda acha que vai ser deixada sozinha. E eu vou fazer questão de te
assegurar todos os dias de que você nunca mais vai estar sozinha, não se
depender de mim. — Ele me abraçou, e eu solucei baixinho, surpresa ao
sentir uma lágrima cair. — Eu amo você, minha deusa, minha Alice. E sou
inteiramente seu, de corpo e alma. Eu esperei vinte e sete anos até te
encontrar, e não teve um único dia nesse mês que eu não tenha desejado ter
sido antes, ter sido capaz de estar do seu lado quando tudo deu errado. Posso
ser totalmente sincero sobre uma coisa, sem que me entenda mal?
— Sempre. — Funguei, erguendo meu olhar para ele.
— Aquela terça, quase um mês atrás, no dia da sua crise... eu nunca
tive tanto medo na minha vida quanto tive ao te ver com aquela lâmina na
mão. Precisei de todo o meu controle para não me desesperar e poder estar ali
por você, mas foi como se meu coração parasse de bater ao pensar em te
perder daquele jeito. Estávamos nos conhecendo há pouco mais de uma
semana, e foi como se eu estivesse perdendo um pedaço de mim. Por isso não
me surpreendi ao perceber que te amava com três semanas. — Ele me
abraçou mais forte, e eu percebi que eu estava chorando baixinho.
— Me desculpe, por ter te assustado.
— Não foi sua culpa, essa doença não é culpa sua, é de quem te fez mal
através dos anos. Nunca fui um cara violento, mas se pudesse eu socaria a
cara de cada um que já te fez chorar, de todos os culpados por suas crises. Eu
nunca me senti tão inútil quanto naquele momento quando vi o desespero nos
seus olhos e percebi que não tinha nada que eu pudesse fazer. Me perdoe por
essa conversa pesada logo de manhã, mas eu não conseguiria tirar isso da
cabeça até dizer, até ter certeza de que você saiba que nunca vai estar sozinha
de novo. — Ele beijou minha testa, um braço me abraçando e a outra mão
acariciando minha nuca. — Eu amo você. — E foi como se um pedacinho
machucado dentro de mim fosse arrancado, deixando um espaço vazio no
lugar, uma fresta por onde o amor dele pudesse passar de fato.
— Eu não sabia o quanto precisava ouvir tudo isso, até você falar. Parte
de mim entendeu quando você disse me amar semana passada, mas essa parte
ficou sendo dominada pelos medos de que isso acabasse tão rápido quanto
nasceu, de que você enjoasse de mim. Não é que eu desconfie de você, mas
eu desconfio de mim, da minha capacidade de ser amada. Eu ouvi tantas e
tantas vezes que ninguém nunca ia me querer, que eu não era suficiente, que
a cada corte que eu fazia era como se escrevesse essas palavras dentro de
mim. — Respirei fundo, fechando meus olhos. — Eu vou procurar começar
uma terapia complementar de conversa, além dos remédios. Estava pensando
nisso sexta antes de sair de casa, e agora parece mais necessário ainda. Eu...
eu quero ser capaz de aceitar seu amor, sem medo.
— Amar como se não houvesse corações partidos — ele murmurou a
letra da música que ouvimos no carro e eu ri baixinho em meio às lágrimas,
abraçando-o mais forte, apoiando meu queixo no peito dele e o olhando. Os
olhos dele estavam brilhando com lágrimas que se recusavam a descer, e ele
tocou meu rosto com carinho, secando minhas lágrimas. — Eu vou estar do
seu lado, para o que der e vier. Pode sempre contar comigo, correr para os
meus braços e deixar que eu te conforte.
— Amo você. Tenho medo do que esse sentimento pode me trazer,
acho que você merece saber disso, mas eu realmente te amo. Você é a melhor
coisa que me aconteceu em anos, finalmente uma mudança positiva na minha
vida. Não sei se foi coincidência, mas eu me tornei mais confiante depois de
te conhecer, foi depois de nós que consegui o papel de Bianca, que fiquei
amiga de Eric. Foi graças ao seu apoio que eu tive coragem e fui naquele
evento e conheci sua família maravilhosa. Te conheci logo depois de começar
os remédios novos, e você tem sido uma parte importante do meu tratamento.
— E vou continuar do seu lado, por todo o tempo que me quiser. — Ele
se inclinou para beijar minha testa, e eu senti aquilo entre nós mudar de novo,
se tornar mais profundo do que eu pensaria ser possível. — Você é tudo o
que eu sempre sonhei e mais, Alice. De acordo com uma teoria que Brian viu
em alguma série, você é o presente do destino pra mim. Espero que não fique
zangada, mas liguei para ele naquela noite quando cheguei em casa. Não
contei detalhes, mas precisava desabafar com alguém sobre como me sentia.
— Tudo bem, eu gostei dele, e se você confia nele, eu confio também...
— fiz uma pausa. — Me promete uma coisa?
— Tudo o que me pedir.
— Se... se por algum motivo não der certo entre a gente, se algo nos
separar como casal, promete que ainda vai ser meu amigo? Eu odiaria perder
meu namorado, mas odiaria mais ainda perder meu melhor amigo. — Ele deu
um sorriso triste, assentindo, e eu vi uma única lágrima escapar.
— Prometo. Espero que nunca precise cumprir essa promessa, mas eu
prometo. Se algo nos separar, você ainda me terá ao seu lado por todo o
tempo que me quiser. Eu vou ser sempre o que você mais precisar que eu
seja. — Abracei-o mais forte, sentindo as lágrimas flutuando dos meus olhos,
chorando pela emoção do momento e não pela tristeza.
— Também espero que esse dia nunca chegue. — Ergui minha mão até
a bochecha dele, secando aquela lágrima solitária e me esticando toda para
ficar mais perto dele, sentindo-o me aninhar nos braços. — E... eu gostei de
termos tido essa conversa. É uma forma estranha de começar um dia, mas
acho que nós dois precisávamos dizer o que foi dito... É como a Feyre diz no
livro. Eu estou quebrada e me curando, mas todos os pedacinhos do meu
coração são seus.
— Minha parceira... — Ele sorriu, se inclinando e beijando minha testa
demoradamente. — Vamos, acho melhor levantarmos. Tenho uma surpresa
divertida planejada para hoje.
— Mais surpresas?
— Bem, não fizemos muito além de ficarmos na cama e no sofá ontem,
e tem um píer no quintal... O que acha de um passeio de barco pelo lago?
Está frio demais para nadar, mas a vista é bonita.
— Me parece perfeito. — Sorri, abraçando-o mais apertado antes de o
soltar, me afastando devagar e me sentando na beirada da cama, levantando.
— Vou tomar um banho antes... a porta vai estar destrancada. — Ele deu um
sorriso largo, e eu sabia que tinha entendido que o duplo sentido na minha
voz não era sexual dessa vez e, sim, apenas a sugestão de mais um momento
juntos, mais um toque daquela intimidade leve e divertida que estávamos
construindo a cada dia que se passava.
Tinha acabado de entrar embaixo do chuveiro quando senti os braços
na minha cintura.
Tomar banho com ela era uma rotina suave, uma troca de cuidados
quase sem segundas intenções, e de alguma forma aquele momento tinha se
tornado ainda mais íntimo depois da conversa que tivemos. Eu tinha a
sensação de que teria parecido louco se fosse qualquer outra garota ali
comigo, mas Alice me entendia da mesma forma que eu a entendia, parecia
até que realmente tínhamos um laço conectando nossas mentes.
Dei um sorriso tranquilo ao abraçar a cintura dela assim que entrei no
chuveiro, beijando seu rosto. Ela se virou de frente pra mim, e sem dizer nada
me abraçou, o rosto no meu pescoço começando uma linha de beijos suaves
até minha boca, e quando nossos lábios se tocaram aquele foi o melhor beijo
que já trocamos. Não era um beijo recente de quem está se conhecendo e nem
um beijo descontrolado pelo desejo. Era um beijo de entrega, uma forma de
selar o contrato que pairava entre nós depois daquela conversa.
AMe afastei com pequenos selinhos e peguei o shampoo dela da
prateleira, sentindo o cheiro de mel a nossa volta enquanto cobria seus
cabelos com espuma, vendo o sorriso bobo e alegre dela, os olhos fechados,
enquanto eu massageava sua cabeça. Eu me sentia tão bem cuidado dela, era
como se isso fosse minha verdadeira vocação, meu motivo celestial para
existir. Eu tinha noção do quão louco isso soava, mesmo em minha mente,
mas era assim que me sentia.
Puxei-a de volta para o chuveiro, vendo a espuma escorrer, e então
peguei o condicionador com o mesmo perfume, notando que ela ainda estava
de olhos fechados quando a virei de costas. Nunca tinha visto-a tão calma, tão
suave, e isso me fez bem, pelo visto, a conversa foi no momento certo.
Envolvi os cachos dela com o condicionador. Ela se virou para mim, sem
dizer nada, e fez o mesmo comigo. Não precisávamos mais de palavras em
momentos assim, não quando os sorrisos dela já diziam tudo. Seus dedos
eram suaves no meu cabelo, e ela ontem prestou atenção em como eu lavava
a barba, pois fez do mesmo jeito que eu fazia.
Segurei sua mão e ali, embaixo daquele chuveiro, fiz ela girar e a puxei
para mim, começando a dançar no ritmo lento de uma música inexistente. O
som da risadinha baixa e alegre dela preencheu o ambiente, tanto quanto meu
coração, e eu comecei a deixar beijos em seu rosto, deixando caminhos de
carinho e devoção por ela, até que ela se aproximou mais e encostou o rosto
em meu peito, e eu notei ela mudar nossa dança para o ritmo do meu coração.
Não prestei atenção em quanto tempo ficamos ali, mas achei melhor a
puxar para fora da água quando nossos dedos já estavam enrugados.
— Linda. Simplesmente linda. — Sorri ao vê-la enrolada na toalha, os
olhos preguiçosos e apertados para me ver sem os óculos ou lentes, os
cabelos úmidos... ela era a minha definição de paraíso.
Ela deu um sorrisinho que era em parte uma careta fofa e passou por
mim em direção ao quarto. Enrolei uma toalha na cintura e a segui, indo
pegar uma roupa na mala.
— Que horas já são? — ela me perguntou enquanto eu abotoava a
calça. Peguei meu relógio de cima da mesa e dei uma olhada.
— Quase meio-dia. Nem vimos o tempo passar, melhor almoçarmos
antes de irmos passear, desmaiar em um barco me parece uma péssima ideia.
— Ela deu uma risadinha, assentindo. Quando me virei para ela, congelei no
lugar. Ela estava usando um vestido, branco em cima e azul estampado
embaixo. Um sorriso se abriu no meu rosto, a vendo dar de ombros ao ver
minha reação.
— Você gostou do meu vestido aquele dia... aí eu trouxe este. — O
sorriso foi aumentando enquanto eu me aproximava e puxava a cintura dela
prra mim, a beijando com carinho, rapidamente.
— Linda.
— Vamos, eu faço o almoço hoje, tenho a impressão de que vamos sair
daqui doentes de tanto comer porcaria, e se tem uma coisa que eu me orgulho
na minha saúde é de mesmo com meu peso conseguir manter as taxas num
limite bom.
— Vai me oferecer comida de novo, parceira? Espero que seja sopa —
provoquei, vendo-a rir enquanto saíamos do quarto, indo até a cozinha.
— Engraçadinho. Vou fazer carne com legumes. Simples, clássico,
difícil de errar. Sente-se e observe, talvez aprenda a fazer algo além de bacon
queimado. — Ela piscou um olho, rindo, e eu obedeci, me sentando num dos
bancos altos em frente à bancada central da cozinha, observando-a abrir a
geladeira e os armários, começando a separar o que iria precisar.
— Em minha defesa, você gostou do bacon queimado.
— Eu fiquei com pena, é diferente. — Ela continuava a rir baixinho, e
eu observei o quanto ela parecia estar em casa, colocando um pedaço de
carne na tábua de corte, a cortando em cubinhos enquanto continuava a falar
comigo. — Sabe, eu cozinho às vezes em casa, posso te ensinar algum dia. Já
é uma desculpa para nos vermos de novo sábado que vem.
— Gosto que também fique procurando motivos para passarmos tempo
juntos. E me parece uma ótima ideia, contanto que não acabemos
incendiando o apartamento.
— Te ensino a fazer alguma sobremesa sem fogo da primeira vez, e eu
que coloco no forno no final.
— Perfeito.
— Aliás, não lembro se te perguntei alguma vez, mas qual seu prato
favorito? — Ela colocou óleo e cebola numa panela de pressão, daquelas que
assustam leigos como eu, e começou a mexer um pouco, aquele cheiro de
comida caseira tomando a cozinha.
— Filé com purê de batatas e brócolis, e a segunda favorita é
justamente o que está fazendo. — Sorri, e ela me olhou por cima do ombro.
— O milionário que gosta de comida simples...
— É bem estereotipado da sua parte pensar que eu só comeria caviar e
pratos minúsculos, sabia? Um dia vai acabar me ofendendo.
— Se isso acontecer, eu já sei como me desculpar. — Ela deu um
sorrisinho, se virando de volta e colocando a carne na panela. — É só te
encher de beijos e carinhos.
— Muito espertinha você. — Ri, observando ela colocar um pouco de
água na panela, a fechando e girando aquela válvula. — Não tem medo de
que exploda? Sempre que vejo uma dessas, seja pessoalmente ou na tv, eu
acho que vai explodir.
— Você é tão bobinho às vezes. — Ela riu, ajustando o timer que tinha
em cima da panela e indo cortar as batatas e cenouras em cubos mais ou
menos do mesmo tamanho dos que ela fez na carne. — Panelas de pressão
não são assustadoras como parecem, só precisa usar com cuidado.
— Prefiro não me arriscar. — Balancei a cabeça, vendo-a deixar os
legumes de lado e vir para o outro lado da bancada, ficando de frente para
mim.
— Medroso. — Ela sorriu, apoiando os braços no balcão, me olhando.
— O que posso dizer, se ter medo de se explodir é ser medroso...
— Bobinho. — Ela sorriu, levando uma mão até minha barba e fazendo
carinho daquele jeito que eu adorava tanto. — Amo você. Não tenho mais
medo de dizer, quero que saiba sempre que eu sinto o mesmo.
— Eu sei. Mesmo quando não dizia em voz alta, seus gestos e sorrisos
me mostravam como se sentia. — Cobri a mão dela com a minha, a levando
aos meus lábios.
— Adoro quando você me olha assim, como se eu fosse o seu sol.
Sempre achei que não teria ninguém além da minha família e de amigas
distantes... e agora eu tenho você também. Se minha eu, aos dez anos,
soubesse disso ela pularia feito uma maluca comemorando que eu encontrei
um príncipe encantado. — Ela deu uma risadinha, acariciando meu lábio
inferior com o polegar.
— Príncipe encantado? Garota, eu sou um grão senhor, mais respeito.
— Eu já tinha notado o quanto ela adorava quando eu referenciava o livro, e
eu precisaria ler outros para continuar fazendo a mesma coisa. O sorriso dela
cresceu, e eu percebi agora que a cada dia os sorrisos dela se tornavam mais
fortes, incrivelmente poderosos comparados aos sorrisos tímidos dos
primeiros dias.
— Melhor ainda. — Ela me puxou um pouco e se inclinou toda sobre a
mesa para me dar um selinho, se afastando com um sorriso. — Você
realmente prestou atenção no livro, né?
— Sim. E se não quiser me recomendar outros, eu vou subornar sua
mãe para revirar sua estante e me dizer quais estão lá.
— Não precisa ser tão extremo, eu digo. — Ela balançou a cabeça. —
Tem a trilogia Starcrossed, da Leisa Rayven, que eu amo completamente.
Tem uma porção de cenas indecentes nela, então você vai adorar me encher a
paciência sobre elas. — Uma risadinha surgiu em seus lábios. — A mesma
coisa com a série Off Campus da Elle Kennedy. E tem uma porção de
romances de época que eu acho incríveis, posso te passar uma lista depois. E
aí entram os livros que não são de romance, como Instrumentos Mortais e
Percy Jackson... teoricamente são para um público bem mais jovem, mas
ainda gosto até hoje.
— Vai ter que me passar uma lista com todos esses que falou, vou ler
sempre que tiver algum tempo sobrando. Quero entender melhor essa sua
mente brilhantemente perfeita. E não me julgue, mas vou começar pelos dois
primeiros que você mencionou.
— Eu já sabia. — Ela deu uma risadinha, se virando quando a panela
apitou o timer e indo tirar a pressão, coisa que ainda me deixava meio
receoso. Nada que faz aquele barulho é totalmente seguro. — Espero que
goste da história desses também.
— Vou gostar. Seus gostos não me decepcionaram até agora. —
Observei ela colocar a batata e a cenoura na panela, se virando de volta para
mim e ficando apoiada de costas ali.
— Pronto, agora é só esperar mais uns quinze ou vinte minutos e
podemos comer.
— E depois vamos para o passeio de barco. — Sorri, vendo-a assentir.
— Nunca andei de barco, sabia?
— Vai gostar desse. Temos um barco de verdade, mas ele está no píer
grande, o do quintal tem uma espécie de canoa... já assistiu Diário de Uma
Paixão? — Ela assentiu. — É como a do filme, bem simples, mas combina
com a gente. E antes que pergunte, não, não tem chance nenhuma de você
cair do barco.
— Quando aprendeu a ler mentes? — Ela riu, e eu dei de ombros.
— Temos nosso laço mental, não temos?
— Pelo visto sim. — Ela balançou a cabeça. — É uma pena ainda estar
frio demais, eu adoraria nadar no lago. Está na minha lista de clichês
favoritos.
— Podemos voltar algum dia no verão, quando estiver de férias, e
aproveitar o sol. — Eu conseguia facilmente vê-la ainda ao meu lado quatro
meses adiante, até bem mais. E ela parecia estar finalmente começando a
pensar da mesma forma, por mais difícil que fosse para ela ver um futuro
para si.
— Me parece uma boa ideia. — Ela se virou para a panela, mexendo de
novo.
— Que outros clichês você gostaria de viver?
— Beijo na chuva. Provavelmente acabaria gripada, mas valeria a pena.
E quando a gente brigar um dia, quero que me faça uma surpresa com flores
meu chocolate favorito... uma pena que eu não tenho uma casa comum, ou
poderia até jogar pedras na janela. — Ela riu. — Devo parecer uma boba
falando, mas é isso o que acontece quando se passa tempo demais sem
relacionamentos, vendo o mundo através de livros e filmes que são um pouco
fora da realidade comum.
— Sorte sua que eu não seja comum, então.
— Você é digno da mistura de um mocinho de Gossip Girl, com o
cavalheirismo de Edward Cullen e a malícia de Rhysand... por isso eu ainda
acho que isso tudo pode ser um sonho... vamos, me diga algum defeito seu
que te torne real.
— O quê?
— É sério! — Ela deu um risinho. — Eu exijo que me conte algo que te
deixe mais humano, não é possível que seu único defeito seja queimar bacon.
— Bem... eu acho que posso ser um pouco arrogante, às vezes, sem
nem perceber. E sou insistente demais com algumas coisas, pode ver como
foi no começo, que insisti até que aceitou receber meus elogios sem reclamar.
Estou acostumado a ter de tudo, isso pode prejudicar uma personalidade.
— Bem, pra um “riquinho mimado”, você está muito bem. Eu assisti a
Gossip Girl, poderia ser mil vezes pior, você poderia ser um escroto de moral
duvidosa. Sim, ele evolui com o passar das temporadas, mas assim, por mais
que eu goste do Chuck com a Blair, ele não é o homem dos sonhos.
— Vou ter que me lembrar de assistir as séries que você gosta também.
— Observei ela se virar de volta para a panela, mexendo e inspirando a
fumaça. — Quase pronto?
— Mais dois minutos. Está com fome?
— Alguém me deixou exausto ontem... estou faminto. — Pisquei um
olho, rindo da expressão que ela fez.
— Eu que te deixei exausto? Não lembro de você ter problemas pra
andar depois. — Eu gargalhei com isso, vendo o rosto dela vermelho
enquanto ela se virava de costas e me ignorava completamente enquanto
desligava o fogo e procurava uma travessa para servir a comida e a levava até
a mesa. — Coma e fique quieto.
— Ficou bravinha? — Ri, me levantando e indo pegar dois pratos e
uma garrafa de refrigerante, enquanto ela pegava copos e talheres. Tínhamos
uma sincronia em momentos assim que fazia parecer que já dividíamos a vida
há anos.
— Chato — ela reclamou, mas sorriu ao se sentar na cadeira em frente
à minha, se servindo e fazendo o mesmo com meu prato. — Me diga se ficou
bom. — Peguei meu garfo e provei um pedaço. A carne estava macia, no
ponto exato de cozimento, e o tempero...
— Está decidido, vou demitir Geralt e você vai cozinhar no hotel. —
Sorri, balançando a cabeça. — Devia ter me avisado antes que cozinhava tão
bem.
— Eu sou só mediana. — Ela deu de ombros, ficando levemente cor-
de-rosa com os elogios e provando um pedaço do próprio prato. — Tá, desta
vez eu me superei, mas normalmente sou só mediana mesmo.
— Sei. — Sorri, continuando a comer.
— Então, além das velas, livros e até um barquinho, tem outras
surpresas planejadas? Melhor me avisar logo. — Ela deu um risinho.
— Não, só essas dessa vez.
— Ótimo. Vou ter que pensar em algo pra te pegar de surpresa um dia,
mal posso esperar pra devolver na mesma moeda o que faz comigo.
— Se quiser aparecer na minha cama de lingerie vermelha, eu não me
incomodaria sabe — deixei a sugestão, vendo ela me encarar.
— Por que vermelha?
— Combina com você, e me lembra da noite do evento. — Vi ela dar
um sorrisinho e abaixar o olhar, acabando de comer em silêncio.
— Vou pensar no caso — ela disse, por fim, se levantando e pegando
os dois pratos e os levando pra pia. — Tem problema se eu só lavar a louça
mais tarde? Quero ver logo barco.
— Quanto voltarmos, eu lavo e você seca, que tal? — sugeri, e ela
sorriu, assentindo. Me levantei e estendi uma mão pra ela. — Vamos.
Andamos até o quintal, onde o barco em estilo de canoa estava em cima
do píer. O empurrei para a água, colocando os dois remos ali, e subi nele,
estendendo uma mão para ela. Ela me olhou meio desconfiada.
— Tem certeza de que não vai desequilibrar com o meu peso?
— Tenho, pode confiar. Prometo que não vai se afogar enquanto eu
estiver por perto. — Mantive a mão estendida, e ela aceitou, dando um
gritinho contido quando o barco balançou. Ri um pouco, segurando sua mão
e servindo de apoio até que ela se sentou, me sentando a sua frente. — Viu
só? Está segura.
— É, também disseram isso pra uma pobre coitada do Titanic — ela
resmungou, fazendo graça, enquanto eu balançava a cabeça.
— Sorte sua que não tem nenhum iceberg nesse lago. — Sorri, pegando
os remos e nos afastando do píer, a vendo olhar em volta à medida que nos
aproximávamos do meio do lago.
— É lindo aqui... parece um sonho, e se disser que eu sou seu sonho eu
vou gritar, porque vai ser a coisa mais linda do mundo e ainda por cima uma
referência à Enrolados quando a Rapunzel e o Flynn estão no barquinho com
as lanternas.
— Lanternas! Sabia que devia ter pensado em algo mais. — Ela riu
quando eu disse isso, e parei de remar quando ela levou uma mão ao meu
rosto, acariciando minha barba.
— Bobinho, já está tudo perfeito assim. — O sorriso dela foi um dos
mais bonitos, se inclinando para me dar um selinho carinhoso.
— Amo você. — Sorri, segurando a mão dela sobre meu rosto e a
entrelaçando nos meus dedos. — Viu que não precisava ter medo do barco?
— Bem, me desculpe se eu sou covarde. — Ela deu uma risadinha,
fazendo carinho nos meus dedos. — Sabia que na realidade essas coisas são
bem mais divertidas que nos livros e filmes?
— É mesmo?
— Uhum. No mundo real não tem uma chuva pra atrapalhar, ou uma
crise no relacionamento pra deixar tudo mais dramático. Somos
simplesmente dois emocionados que se jogaram de cabeça um no outro, e
agora não conseguem parar de dizer “eu te amo”. Daríamos um filme bem
chato, sem conflitos nem dramas. — Ela riu, e eu acompanhei.
— Pois eu acho que deveriam ter mais filmes com casais sem
problemas. Já chega dessa noção de que amor precisa doer, minha única dor
ao seu lado é do meu peito à beira de explodir.
— Fofo. — Ela apertou minha mão, acariciando meus dedos com o
polegar, me olhando nos olhos com aquelas duas estrelas verdes brilhando.
— Eu também achava que tinha que doer. Inclusive, eu fiquei pensando nisso
na semana passada, numa frase de uma série que eu gosto, Scandal. Quando a
Olivia vai terminar com o Edison, ela diz algo sobre não querer simples e
fácil e, sim, um amor devastador e doloroso que mudasse a vida dela. E eu
sempre achei que tinha que ser assim, até você aparecer.
— É uma noção terrível que normalmente passam, porque uma história
simples não seria interessante. Ninguém vê que histórias simples também
podem ser bonitas e divertidas de se acompanhar?
— Eu estou começando a perceber isso. Ao seu lado é mais fácil de
acreditar que existem amores verdadeiros e bonitos que são fáceis de lidar e
não machucam. Acho que também passei tanto tempo sendo machucada em
tudo que tentava, fossem amizades ou fosse com Victor, eu acreditei por
muito tempo que o certo na minha vida era me tratarem mal. Por isso eu me
assustei tanto com você se apaixonando por mim. Nunca acreditei que eu
fosse fácil de gostar...
— Mas é. — Estendi minha mão para a outra dela, segurando as duas
com carinho. — Foi muito fácil me apaixonar por você. Foi praticamente
amor à primeira vista, e eu nunca pensei que fosse capaz de sentir isso, não
sabia que um sentimento assim nasceria tão rápido, mas você veio como
naquela música que cantou no carro e me atingiu como um furacão.
— Posso dizer o mesmo. Você chegou com uma marreta gigante e
botou abaixo todas as minhas defesas de uma vez, sem aviso prévio. Eu...
num livro que eu li, a garota menciona uma tradição que se não me engano é
chinesa, onde quando um vaso se quebra ele é colado de volta com fios de
ouro que mostram onde foram as rachaduras, uma forma de encontrar beleza
no que se partiu. É mais ou menos isso que você está fazendo. Não estou
dizendo que você é a minha cura, não colocaria esse peso em você, mas é
mais fácil colar meus pedaços com alguém os segurando no lugar. — Ela deu
um sorrisinho tímido, dando levemente de ombros.
— Fico feliz em ajudar, em estar ao seu lado. — Sorri, apertando as
mãos dela e as soltando, levando uma mão para seu rosto. — Você é
preciosa, e se já é incrível agora, eu mal posso esperar para ver quando todos
os pedaços estiverem colados novamente. Tenho até medo do impacto que
pode ter em mim — brinquei.
— Não sei quanto a impacto, mas posso dizer que nem eu sei mais
como seria estar inteira. Já estou quebrada há tantos anos, a última vez que
não tive crises ou inseguranças assim eu tinha dez, onze anos. Era uma
criança ainda... às vezes eu me pergunto que tipo de adulta eu teria me
tornado se as coisas não tivessem dado errado.
— Como você imagina que seria?
— Corajosa. Muito corajosa, do tipo que vai atrás do que quer...
provavelmente eu mesma teria te pedido para sair comigo depois daquela
palestra, e teríamos transado já naquele segundo encontro. Era o que eu
queria fazer, e teria feito se confiasse mim mesma. Talvez eu não me
apaixonasse tão rápido, mas com certeza seria bem mais divertida, e você não
precisaria presenciar as crises e problemas que me acompanham. Acho que
gostaria mais de mim se eu fosse essa outra Alice.
— Eu acho que seria indiferente. Mesmo com ações diferentes, você
ainda seria você, e é por ser você que eu te amo. Se eu teria gostado de você
mesma me chamar pra sair, e de me enterrar entre suas pernas logo no
começo? Bastante, mas não mudaria a história que tivemos até aqui. Você
valeu a espera, e eu teria esperado mais quanto tempo fosse necessário. E
sobre as crises, eu odeio que você tenha precisado passar por aquilo, mas fico
grato de ter visto logo no começo, de já saber no que estava entrando. Aquilo
me ajudou a entender melhor o que você passa, e ver o quanto eu queria e
quero te ajudar. — Ela recostou mais o rosto contra minha mão ao ouvir isso.
— Eu tive muito medo naquela tarde, de que você fugisse de mim, ou
pior, que só continuasse comigo por pena ou medo de que eu fizesse alguma
besteira se fosse embora. Eu não acho que suportaria se estivesse comigo por
um desses motivos.
— Que bom que não estou, então. Estou com você por te amar, por te
achar a criatura mais preciosa que já caminhou nessa terra, por te ver como
uma deusa num pedestal alto, que por algum motivo se apaixonou por um
mero mortal como eu. A sua força me admira muito, Alice. Tudo o que você
sobreviveu, tudo o que você aguentou, cada marca na sua pele... eu amo que
tenha aguentado até me conhecer, e me orgulho em ser um dos motivos para
que continue lutando.
— Você é minha lua cheia nas noites escuras. Eu antes só tinha mamãe,
vovó e meu pai, agora tenho você também. Você é algo só meu, alguém de
fora que se importou em entrar. — Ela sorriu, cobrindo minha mão com a sua
e a levando até seus lábios, beijando a palma. — Eu amo você.
— Assim como eu amo você. — Sorri em resposta, me inclinando para
a frente, meus dedos se enroscando em sua nuca enquanto eu a beijava
devagar, querendo demonstrar o quanto realmente a amava mais uma vez. Foi
um beijo lento, com um sabor doce de entrega mútua, os lábios dela
brincando com os meus num ritmo de carinho, suspirando baixinho e
agarrando meu cabelo.
Quando se afastou ela sorriu, cobrindo meu rosto de beijos suaves, só
então se afastando mesmo e voltando para o lugar no barco.
— Hoje está sendo cheio de emoções, hein.
— Domingos são nossos dias especiais.
— Estou gostando disso. — Ela deu um risinho, se virando para olhar
em volta. — O que vamos fazer agora?
— Podemos passear mais pelo lago, se quiser. E eu trouxe meu celular,
se quiser colocar alguma música. — Tirei o celular do bolso e entreguei a ela.
— A senha é meu aniversário, nove de novembro.
— Ah, finalmente descobri seu aniversário. O meu é quinze de julho.
— Ela pareceu pensar por um instante e deu uma risadinha. — Nossos signos
são compatíveis, eu acho.
— Não faço ideia, quem talvez entenda disso seja Nicole, mas eu não
lembro direito meu próprio signo. Escorpião, né?
— Sim. — Ela riu, balançando a cabeça e olhando para a tela do
celular, parando por um instante. — Vem cá. — Ergueu o celular, a câmera
frontal nos refletindo, e eu me aproximei dela, sorrindo abertamente quando
ela tirou a foto, e então uma outra, enquanto eu beijava seu rosto. — Ainda
não tínhamos nenhuma foto juntos.
— Coloque de plano de fundo. E não esqueça a música. — Ela deu um
sorriso surpreso e assentiu, e em segundos mais country começou a tocar.
— Achei a rádio aqui também.
— Qual é essa música?
— Não tenho certeza, mas a voz é do Scotty McCreery, se não me
engano. — Ela ficou em silêncio, prestando atenção na letra. — Pelo refrão,
deve se chamar In between.
— Faz sentido. — Peguei os remos e comecei a passear pelo lago de
novo. — E essa de agora? Vou te interrogar sobre todas.
— Essa é Catch. — Ela riu, balançando a cabeça pra mim e começando
a cantarolar a música, balançando a cabeça.
— Mais uma música pra nós. Encaixa um pouco, eu só fui fazer uma
palestra, conseguir umas doações, e aí você apareceu e eu fiquei totalmente
sem ar.
— Você ficou sem ar? Eu tinha acabado de ver o cara mais gostoso do
mundo na minha frente, fiquei tão desestruturada que até fiz perguntas! —
Ela riu, ouvindo a música que começou. — Mud on the tires! Essa é um
clássico.
— Bom saber que eu também te desestruturei de primeira. — Pisquei
um olho, sorrindo. — Foi sorte minha ter tirado seu nome naquele sorteio,
sabia? Quando penso o que poderia não ter acontecido se eu pegasse o outro
papel que veio colado com seu nome... talvez eu tivesse te procurado e te
chamado para sair assim mesmo.
— Não teria conseguido, se não tivesse sido chamada eu sairia
correndo do auditório e você não me encontraria a tempo... parece que tudo
acontece por um motivo, né?
— Destino. — Sorri, ouvindo a música mudar e ela dar um sorriso
lindo.
— Love you like I used to. Lançou há pouco tempo, e é maravilhosa.
— Ela começou a cantarolar, feliz da vida, e ao ouvir aquela letra eu pude
enxergar nosso futuro. Nós dois juntos há anos, eu dizendo que a amo mais a
cada dia, ela talvez grávida ou com um bebê no colo, dependendo de quantos
anos tivessem se passado... eu conseguia ver uma vida inteira ao lado dela, a
vida com a qual eu sempre sonhei. — O que foi? Está me olhando engraçado.
— Só pensando no quanto você é linda. — Escondi meus devaneios,
por enquanto. Ela ficou um pouco cor-de-rosa, desviando o olhar com um
sorrisinho pequeno, daqueles que ela dava quando estava envergonhada pelos
elogios.
Continuamos ouvindo as músicas dela e passeando pelo lago, até que
começou a escurecer e eu remei de volta para o píer. Ela desligou a música,
me entregando o celular quando chegamos junto do píer de novo, e eu me
levantei, estendendo uma mão para servir de apoio para ela. Quase deu certo,
mas na hora que pisou no píer as botinhas que ela tinha decidido usar
prenderam na madeira e ela caiu de joelhos. Arregalei os olhos, indo ajudar
ela, quando ouvi a gargalhada.
Ela jogou a cabeça pra trás, rindo alto, dobrando as pernas para ficarem
cruzadas e continuando a rir. Ergui uma sobrancelha, sendo contagiado e
rindo também. Ela sem dizer nada estendeu as mãos para mim, e me puxou
para sentar em frente a ela.
— Uma tarde romântica e perfeita, aí eu vou e tropeço! — Ela
continuava rindo, na maior crise de riso que eu já tinha visto ela ter, enquanto
eu balançava a cabeça, com um sorriso no rosto.
— Eu amo você. — Eu tive que dizer, e ela assentiu enquanto ria, o
rosto ficando cor-de-rosa pelo esforço, uma mão no peito enquanto tentava
recuperar o ar. Ela balançou a cabeça, os olhos pequenos e quase fechados
enquanto ela tentava parar de rir, suspirando e dizendo “ai” algumas vezes.
Continuei a encarando. — O que teve de tão engraçado na sua queda?
— Foi boba. Algo totalmente a minha cara, e foi divertido. O final mais
aleatório possível para um dia perfeito. — Ela respirou fundo, abrindo o
maior sorriso que já a vi dar. — Eu nunca fui tão feliz.
— É bom que esteja feliz, eu também estou. — Sorri, erguendo minhas
mãos para segurar gentilmente logo abaixo de seu rosto, em seu pescoço,
fazendo um carinho com os polegares. — Eu amo sua risada, sabia?
— E eu amo seus carinhos. — Ela sorriu, fechando os olhos, uma mão
na minha coxa, quando me inclinei para beijar sua testa. Senti seu sorriso sem
nem precisar ver, e me afastei um pouco, segurando logo atrás de suas
orelhas, segurando meu mundo em minhas mãos.
— Minha vida — sussurrei, me inclinando e a beijando devagar, com
carinho, deixando meus lábios deslizarem e brincarem por todo o seu rosto.
Ela deu um risinho, enroscando os dedos na minha barba.
— Meu amor. Meu Hector. — E ao ouvir ela dizer isso, me olhando
com aqueles olhos verdes e brilhantes, eu percebi que também nunca tinha
me sentido tão feliz antes.
Ficamos no píer até escurecer mais e começar a ficar frio, quando a
puxei para se levantar comigo e voltarmos para a casa. Caminhamos,
devagar, com ela enroscada no meu braço, a cabeça contra meu ombro,
sorrindo com uma felicidade maravilhosa que me aquecia o coração. Eu a
amava tanto.
— O que acha de um banho quente? Posso te encher de mimos —
ofereci, e ela assentiu.
— Com a condição de que eu possa te mimar também, eu aceito. — Ela
sorriu, entrando comigo na casa, indo para as escadas.
— Acordo feito. — Sorri, a seguindo de mãos dadas, chegando no
nosso quarto. Era fácil ver aquele espaço como nosso, e não mais só meu.
Minha própria vida não era mais só minha
Liguei a torneira morna da banheira, jogando uma loção de espuma que
encontrei por perto, que tinha um cheiro floral que eu não sabia identificar de
que era. Comecei a desabotoar minha camisa, enquanto ela puxava o vestido
pela cabeça. Eu nunca me cansaria de vê-la tirar a roupa na minha frente, ela
não fazia ideia do quão sedutora era até em algo simples e sem pretensões.
Ok, era um banho onde provavelmente aconteceria algo, mas mesmo assim...
Depois de tudo hoje de manhã, e do barco, eu me sentia mais próximo
dela que nunca. Ela era meu paraíso. Tirei o resto da minha roupa, entrando
na banheira e estendendo uma mão para ela, que ainda ficava adoravelmente
vermelha quando eu encarava seu corpo.
— Linda — murmurei, me sentando na banheira e vendo elase apoiar
na outra extremidade, de frente pra mim. — Linda e gostosa, a própria visão
do pecado — comentei, rindo baixo, totalmente hipnotizado pela visão dela
ali, coberta de espuma na minha frente, dando um sorrisinho tímido.
— Olha quem fala... você é um deus grego, definitivamente maior que
os das estátuas. — Ela deu uma risada baixa, desviando o olhar, enquanto eu
ria de verdade. — Não sei por que ainda fico com vergonha. Já fizemos
tantas coisas, mas é só você me olhar assim, que eu fico vermelha.
— Eu gosto. Você fica linda com o rosto vermelho assim, só pra mim.
Você é perfeita, Alice. Em todos os sentidos que puderem existir para a
palavra, você é perfeita.
— Eu amo que você sempre sabe o que dizer.
— Sei disso. — Sorri, pegando uma esponja e puxando uma perna dela,
deslizando a espuma por ali, vendo ela dar risinhos baixos. — O que foi?
— Cócegas.
— É mesmo? — Dei um sorrisinho quase perverso, adorando a
informação nova, e segurei suas mãos, a trazendo para o meu colo. — Onde
mais você sente cócegas? Talvez... aqui? — Segurei seus quadris, começando
um ritmo leve de cócegas e ouvindo ela explodir numa gargalhada alta, se
debatendo nos meus braços enquanto ria, se segurando nos meus ombros. Ri
também, aproveitando a leveza daquele momento enquanto continuava por
mais um pouco.
— Hector.... chega... por favor... — Ela continuava rindo, e eu fui
parando, a envolvendo em um abraço que ela retribuiu sem fôlego, agarrada
ao meu pescoço, ainda rindo baixinho. — Você é cruel.
— E você me ama, mesmo assim.
— Amo — ela confirmou, beijando meu pescoço de leve e deitando o
rosto ali, enquanto eu deslizava as mãos por suas costas, espalhando a
espuma perfumada por ali.
Alice se afastou um pouco para deslizar as mãos pelo meu peito,
traçando linhas e círculos com as pontas dos dedos, me olhando com um
sorriso tão leve que pela primeira vez parecia que ela estava livre de dores e
preocupações naquele momento. Minha alma vibrou com aquilo. As mãos
dela foram descendo, e um sorrisinho surgiu.
— Seria errado estragar nosso momento fofinho com a minha vontade
de te tocar de novo e de novo? Acho que estou ficando viciada em você —
ela admitiu, parando com os dedos na base do meu abdômen. É claro que
meu corpo já tinha começado a reagir.
— Não estragaria nada. Sabe o quanto eu adoro quando faz o que quer
comigo... — Sorri, segurando seu rosto e a trazendo para me beijar. Não tinha
pressa dessa vez, tínhamos gastado a necessidade desenfreada ontem de todas
as formas, e hoje podíamos ir com calma, e foi assim que a beijei. Minha
boca deslizando devagar com a sua, nossas línguas brincando juntas,
mantendo ela perto de mim, uma mão segurando sua cintura.
Ela suspirou contra minha boca e desceu as mãos, me fazendo arfar
quando me segurou, explorando com a mesma lentidão daquela primeira vez
que me tocou na semana passada, interrompendo o beijo e mantendo a testa
encostada na minha. Deixei que ela me tocasse como quisesse, que brincasse
com meu autocontrole, e então ela me soltou e subiu mais no meu colo.
— Alice... não podemos, não aqui... — avisei, sabendo que as
camisinhas estavam no quarto. Ela entendeu, assentindo, mas continuou a
rebolar devagarinho, se pressionando contra mim, pele contra pele me
deixando louco.
— Só um pouquinho assim... depois a gente vai pra cama, mas eu
queria sentir como era, sabe, só a sua pele.
— Tinha pensamentos pervertidos com minha pele contra a sua, deusa?
— Talvez... — Ela fechou os olhos, se encaixando de forma que minha
glande ficasse contra seu clitóris. Gemi quando ela começou a rebolar ali,
quase parada, só criando uma pequena fricção. — É gostoso assim. Eu... e se
eu começasse a tomar a pílula, poderíamos fazer assim, sem nada?
— Se você quiser, claro. Mas vai ter que tomar direitinho, assim como
toma os outros remédios. Não quero que fique presa a mim por algum
acidente. — Eu queria ter uma família com ela, mas queria se ela quisesse
também, e não por causa de falta de cuidado. Ela assentiu, sorrindo.
— Vamos tomar cuidado. — Ela voltou a se mover, dando um
gemidinho baixo e manhoso, girando os quadris, os olhos se fechando
enquanto segurava meus ombros.
Subi minhas mãos por seu corpo, segurando um dos seios que eu tanto
adorava e o acariciando devagar, rodeando com a ponta do polegar e então o
prendendo entre os dedos, ouvindo os barulhinhos que ela fazia enquanto
continuava a se mover, começando a ir com o corpo para frente e para trás,
descobrindo que nesse movimento ela me acariciava inteiro com o próprio
corpo. Apertei sua cintura um pouco, deixando meus olhos se fecharam,
enquanto minha cabeça pendia para trás, arfando.
— Alice... — Seu nome a cada noite saía com mais reverência da
minha boca, como se a cada dia ela conseguisse se tornar ainda mais divina.
Senti seu sorriso quando ela mordeu meu lábio inferior, me dando beijinhos
curtos e carinhosos, parando de se mover e começando a só rebolar de novo,
deixando gemidos baixos e arrastados escaparem. — Quer ir pra cama?
— Uhum. — Ela assentiu, continuando a se mover por mais um
tempinho antes de parar e se levantar, comigo indo logo e seguida. Observei
elase secar, vendo-a sair com aquela bunda maravilhosa virada pra mim,
enquanto andava até o quarto, e fui atrás dela, a puxando contra mim,
ouvindo ela dar um gritinho alegre enquanto eu a empurrava até a cama,
vendo ela se deitar, a visão dela ali, inteiramente nua pra mim, me deixando
louco mais uma vez.
Puxei uma das camisinhas da mesinha de cabeceira, grato por ter
comprado uma caixa que vinham várias, e um instante depois eu estava em
cima dela, a provocando com movimentos curtos, ameaçando entrar sem
realmente o fazer. Ela agarrou meus cabelos, me olhando nos olhos.
— Eu amo você — ela sussurrou, me envolvendo com as pernas,
trazendo meu corpo mais para perto, até que não me sobrou opção além de a
penetrar bem lentamente, a preenchendo sem pressa, aproveitando cada
centímetro que era envolvido por ela, que se remexeu toda num gemido com
um sorriso.
— Deusa — sussurrei, começando movimentos lentos, aproveitando
aquele momento como se fosse uma segunda primeira vez, agora sem pressa
ou necessidade nos enlouquecendo, apenas nossos corpos se encontrando.
Continuei os movimentos, devagar, a cada estocada sentindo mais dela,
sentindo e prestando atenção em cada espasmo que seu corpo dava, em cada
vez que seu interior me sugava para dentro e me fazia ver estrelas. Nenhum
de nós dois parecia estar sequer perto, então fui pego de surpresa quando,
com mais um movimento, o corpo dela começou a tremer enquanto girava os
quadris, os espasmos de prazer me apertando, e eu fui logo em seguida.
Meu rosto foi parar na curva de seu pescoço, respirando fundo
enquanto me recuperava do orgasmo inesperado, as mãos dela acariciando
meus cabelos, seu peito ofegante embaixo de mim.
— Eu amo você. — Beijei seu rosto e saí de cima dela, indo me
desfazer da camisinha no lixo do banheiro. Quando voltei, ela estava olhando
para o teto com um sorriso bobo no rosto. — Feliz?
— Muito. — Ela sorriu, estendendo uma mão, e quando eu aceitei ao
voltar para a cama ela me puxou, me fazendo deitar a cabeça em seu peito
dessa vez, sentindo seus carinhos enquanto ouvia seu coração acelerado. —
Você me faz feliz, meu amor.
— É uma honra — respondi, deixando um beijo ali no espaço entre
seus seios e me afastando para deitarmos de conchinha, segurando-a como
meu bem mais precioso, o que, de fato, ela era.
A melhor parte de ter um fim de semana prolongado era ainda ser
segunda e eu ainda não precisar ir pra casa. Em vez disso, eram dez da manhã
e eu estava deitada no colo de Hector, assistindo ao começo da terceira
temporada de True Blood. Ele, afinal, tinha gostado bastante da série. Eu
ficava me distraindo toda vez que começava, já conhecia muito bem aquelas
partes, ao menos até metade dessa temporada, então apenas deitei no colo
dele de barriga pra cima e fiquei mexendo em sua barba, fazendo carinho nos
fios que já estavam ficando meio irregulares pelo tempo sem aparar. Lindo.
Ontem à noite quando voltamos do píer, e depois daquela conversa logo
cedo, alguma coisa estava bem diferente e mais forte entre nós. E quando
fizemos amor não tinha mais pressa, só uma necessidade de nos entregar. Eu
me sentia até meio tosca pensando as palavras “fazer amor”, mas não tinha
outra definição pra ontem. Foi ainda mais suave que a primeira vez, com uma
sensação de pertencimento e de um contrato que era selado.
Eu estava distraída com isso, e ele concentrado no meio do segundo
episódio, quando ouvimos a porta se abrir. Arregalei os olhos, me sentando
num pulo, até que ouvimos a voz vindo do pequeno vestíbulo na entrada.
— É bom que vocês estejam vestidos, ou eu vou armar um escândalo!
— E no momento seguinte, o irmão dele, Brian, apareceu na entrada da sala,
rindo.
— O que diabos está fazendo aqui? — Hector encarou o irmão, e eu
segurei uma risadinha.
— Não posso mais visitar minha casa no lago?
— Quando eu estou aqui, num fim de semana romântico, com a minha
namorada? Não. — Hector fechou a cara, enquanto Brian caiu na risada.
— Oi, Alice. — Ele acenou pra mim, e eu fiz o mesmo, provavelmente
com a expressão mais confusa possível no rosto.
— Sério, por que está aqui? — Hector insistiu, e eu queria gargalhar da
carinha brava dele, mas me segurei. Ele ficava tão fofo.
— Alec voltou para a cidade, e eu não estou pronto pra ver ele
pessoalmente de novo, então fugi. Minhas opções eram importunar vocês ou
a mãe e o pai, vocês pareceram uma companhia melhor. — Ele deu de
ombros, enfiando as mãos no bolso, e a expressão brava de Hector se desfez.
— Só tente não estragar meu fim de semana.
— Tecnicamente, já é segunda. — Quando ele disse isso, Hector jogou
uma das almofadas nele, me fazendo rir baixinho. — Isso é agressão! Está
vendo só com quem você foi namorar, Alice? Ele é totalmente violento e
cruel com o pobre irmãozinho que só precisava de uma fuga. — Brian fez
drama, se jogando na poltrona ao lado do sofá. — O que estão assistindo?
— True Blood. Convenci seu irmão a continuar vendo, e ele adorou. —
Sorri, pegando o controle e lembrando de pausar a série por enquanto.
— Vampiros, violência e sexo pra todo lado. Tem alguém que não
goste dessa série? — Brian riu. — Prometo não atrapalhar vocês, só tentem
não se agarrar na minha frente.
— Acabou de me dar uma ideia de como te fazer ir embora, sabe disso,
não é? — Hector deu uma olhada pra mim, me fazendo rir baixinho enquanto
meu rosto esquentava um pouco.
— Você não constrangeria Alice assim, então vai ter que me aguentar.
— Ele deu de ombros.
— Só não vou reclamar muito, porque sinto pena da sua situação, mas
ainda preferiria que tivesse ido importunar nossos pais.
— E aturar mamãe fazendo perguntas sobre como eu me sinto e o que
acho que vai acontecer daqui pra frente? Nem pensar! Com vocês, eu posso
me distrair te irritando e deixando Alice envergonhada. — Ele riu, franzindo
o cenho em seguida, e eu segui seu olhar para os meus braços, as cicatrizes
rosadas evidentes por causa da blusinha de manga curta que eu estava
usando. — Ah.
— Fale uma besteira e eu vou te expulsar daqui — Hector ameaçou,
passando um braço a minha volta de forma protetora. Brian ergueu uma
sobrancelha.
— Não precisa de violência, irmão. Eu sei quando ficar quieto. — Ele
se virou para mim, com um sorriso. — Eu entendo e não julgo. Você é
família agora, se um dia precisar de algo e meu irmão não estiver disponível,
pode me ligar.
— Obrigada. — Dei um sorrisinho, mais uma vez achando estranho o
fato de não ser olhada com nojo, e sim com compreensão. Então era assim
que deveria ter sido, todo esse tempo?
— Enfim, como está sendo o fim de semana de vocês?
— Ótimo, até dez minutos atrás — Hector resmungou, mas acabou
rindo no final. — Andamos no velho barco ontem, demos uma volta no lago
quase todo.
— Fofos, o lago é bem romântico. — Ele olhou de mim para Hector
duas vezes. — Quantas surpresas ele planejou?
— Me deu livros, velas perfumadas e o passeio de barco — respondi,
vendo-o erguer uma sobrancelha.
— Velas? — Ele se virou para o irmão. — Nem pra me agradecer por
te mostrar os clichês bonitos em filmes, hein?
— Se eu agradecer, você nos deixa em paz?
— Não. — Ele riu, e Hector fez uma cara fechada enquanto o encarava,
balançando a cabeça.
— Eu vou jogar outra almofada.
— Viu só, Alice? Eu sou um ótimo irmão e ainda recebo ameaças de
agressão! Controle seu namorado, não quero sair daqui com um olho roxo. —
Eu gostava da forma como ele falava comigo, como se me conhecesse há
tempos e eu realmente já fosse família dele.
— Que tal um acordo? — comecei, segurando a vontade de rir. —
Você equilibra nos importunar com nos deixar em paz, e eu não deixo Hector
te agredir.
— Você é esperta. — Ele estendeu uma mão para a minha. — Acordo
feito. Vou tentar, e note que eu disse tentar, não atrapalhar vocês. Contanto
que prometam não gritar demais nem bater a cabeceira da cama na parede,
meu quarto é o do lado.
— Brian! — Hector ralhou, enquanto eu arregalei os olhos e desviei o
olhar com o rosto vermelho.
— Só comentei... — Brian riu, enquanto Hector revirava os olhos.
— Vai ter que arrumar outro lugar pra ficar, se continuar “só
comentando”
— Deixe ele, parece que é de família gostar de me envergonhar. —
Balancei a cabeça, rindo e dando um beijinho no rosto de Hector. — Não
precisa se preocupar, mas se quiser pode continuar bravinho, fica fofo. —
Ouvi a risada de Brian quando disse isso, mas ele foi sábio em ficar calado.
— Quando se arrepender não diga que eu não avisei. — Ele sorriu, me
dando um selinho e pegando o controle da tv e se virando para o irmão. —
Vai querer assistir também? Estamos no começo da terceira temporada.
— Essa é a das panteras e lobisomens, né?
— Olha o spoiler! — reclamei, vendo ele rir. — Se Hector desistir de
assistir por sua causa, quem vai te expulsar daqui sou eu — ameacei, me
sentindo um pouco estranha em agir como se já tivesse uma amizade com ele,
mas afinal era assim que ele me tratava.
— Vocês se merecem viu, eu venho para cá para sofrer e vocês ficam
ameaçando me mandar de volta. — Ele fez um biquinho dramático e riu. —
Ok, sem spoilers. Prometo não contar que ainda vão ter bruxas e maldições e
que o... — O interrompi, fazendo igual a Hector, arremessando uma
almofada. Meu namorado gargalhou. — Agora, sim, agrediu um Vanslow, é
oficialmente parte da família.
— Da próxima eu jogo meu sapato — avisei, ouvindo os dois
gargalharem.
— Já entendi, querem me distrair com dor física. Não precisam ir tão
longe, eu estou bem. — Ele fazia piadas com o próprio sofrimento, como eu.
Ergui uma sobrancelha, querendo perguntar, mas sem saber como. Olhei para
Hector e ele apertou um pouco meu ombro, entendendo o que eu faria.
— Brian... qual sua história com Alec? Desculpe perguntar, mas pra
você precisar fugir pra cá e ter que nos aturar, me parece ser algo bem forte.
— Bem... quer a versão completa ou resumida?
— A completa.
— E essa é minha deixa pra cair fora. — Hector me deu um beijo no
rosto e se levantou. — Já conheço essa história bem demais. Vou ir comprar
nosso almoço enquanto vocês conversam, ok?
— Se encontrar algo com batatas, eu quero. — Sorri, e ele saiu pra
pegar a carteira. Me virei de volta para Brian. — E então?
— Basicamente, eu conheci Alec quando tinha dezesseis anos, e ele
virou meu melhor amigo. Começamos a namorar quando eu tinha dezenove,
e isso durou por três anos, terminando há também três anos, me deixando
acabado, e não do jeito legal.
— E por que vocês terminaram? — Vi Hector passar pela porta e dei
um tchauzinho, vendo-o sair.
— Ele recebeu uma oferta de emprego. Alec sempre sonhou em ser
confeiteiro, e foi aprovado numa seleção para uma confeitaria grande da
Califórnia, a Baked Dreams. Sempre foi o sonho dele, e eu não poderia pedir
para ele ficar por minha causa, e nos conhecíamos bem o bastante pra saber
que um namoro a distância nunca iria durar.
— Ah, que triste. — Fiz um biquinho, achando injusto eles terem tido
que se separar.
— É. Aguentamos até onde deu, mas inevitavelmente chegou o dia de
ele ir embora. Eu que deixei ele no aeroporto, e chorei todo o caminho de
volta pra casa. Continuamos amigos, terminamos em termos bons, mas eu
nunca o esqueci. Cheguei a saber que ele namorou com um cara lá na
Califórnia, não sei se ainda estão juntos, então é óbvio que ele seguiu muito
mais em frente do que eu. Tive vários casos depois dele, caras gostosos e
garotas maravilhosas, mas nunca me apaixonei de novo. — Ele deu de
ombros. — Sei que foi infantilidade minha fugir de Nova Iorque assim que
soube que ele voltou, mas sei lá... é estranho me imaginar cara a cara com ele
depois de tanto tempo.
— Queria ter algum conselho pra te ajudar, mas até um mês atrás
minha vida era ridícula, e por conta própria ainda não estou nos melhores
termos. Seu irmão tem me ajudado bastante, sabe. Se falar com ele sobre isso
eu acho que ele pode te dizer algo útil.
— Tudo bem, eu não preciso necessariamente de um conselho, só
precisava de uma desculpa pra não ver ele logo no primeiro dia de volta. Não
tive tempo pra me preparar, ele avisou ontem de noite que hoje estaria de
volta em Nova Iorque. A primeira coisa que pensei em dizer foi que estava
viajando. Peguei o carro assim que acordei e vim pra cá. — Ele me olhou,
dando um sorriso. — Mas vamos fugir do assunto triste, me fale mais de você
e Hector, só sei a versão dele dos fatos.
— Seu irmão é um deus vivo, me trata como uma rainha, e eu ainda
não acredito que ele esteja comigo... parece bom demais pra ser verdade —
admiti. — É realmente normal ele me encher de presentes e mimos, ler os
livros que eu gosto só pra usar alguns trechos como provocação, e preparar
surpresas fofas?
— É, sim. Eu sou o mais emotivo, mas Hector é o mais dedicado dos
cinco. Alguns dizem que é Roman, e ele realmente é dedicado, mas só com a
família. Hector se dedica a todos que ama, todos com quem se importa, todos
por quem é responsável... trate de se acostumar com os mimos e surpresas,
porque eles não vão parar. Quando estava com Elisa, ele também fazia isso, e
ele mesmo me disse que o que sentia por ela não chega aos pés do que sente
por você.
— Ele disse isso?
— Disse, quando me ligou, umas semanas atrás. Foi num dia que você
estava mal, agora acho que entendo melhor o que aconteceu. Como eu disse
antes, não vou te julgar. Tivemos um primo que sofreu de depressão, e eu já
trabalhei com pintura em clínicas, então tenho uma noção do que se passa
com você. Inclusive — ele sorriu —, você deu uma sorte grande entrando pra
nossa família, somos o grupo de ricos mais compreensivo que vai encontrar.
— Vocês são uma quebra do clichê que se imagina sobre alguém com
seu status, sabia? Era de se pensar que vocês fossem ser arrogantes e
complicados, do tipo irritante que adolescentes se apaixonam quando
escutam sobre, e que eu iria querer manter distância. Mas não, vocês são
simpáticos, me trataram bem naquele evento, principalmente você e Ethan,
ficou óbvio que foram com a minha cara. — Sorri, gostando dessa conversa.
— Phill e Roman gostaram também, mas eles são mais fechados na
deles. Dê mais dois meses e vai ter que aturar nós cinco de uma vez. Boa
sorte. — Ele riu. — Por falar em nos aturar, Hector contou que você também
está participando da aposta sobre Ethan e Nicole.
— Dezembro, desse ano. Eu nem conhecia os dois ainda, mas a forma
como Hector falou deles, a aposta foi óbvia. Depois de ver os dois, eu
baixaria pra setembro.
— Esperta. Minha aposta está em junho do ano que vem
especificamente.
— O que acontece se ninguém ganhar a aposta, e eles nunca ficarem?
— A aposta mais longe é a de Roman, julho, daqui a dois anos. Se
passar disso, contamos a Ethan sobre as apostas e deixamos ele rir da nossa
cara pelo resto da vida. — Ele deu de ombros, me fazendo rir.
— Então qual é o plano, embebedar os dois até enxergarem o quanto se
querem? Porque não é possível que seja loucura da minha cabeça eu ter visto
a química entre eles.
— Se for assim, a família toda está louca. — Ele riu. — Acho que eles
não percebem por estarem no centro disso tudo. Tipo, eles se conhecem
desde que nasceram, a química deles é tão natural que devem achar que é
normal.
— E que garantia nós temos de que já não rolou algo e eles
simplesmente não contaram?
— Você é inteligente demais para o seu próprio bem, eu nunca tinha
pensado nisso. — Ele fechou a cara, pensativo. — Mas acho que saberíamos,
de alguma forma. O universo não nos deixaria sem saber quem ganhou a
aposta. Nossa mãe e Phillip já estão fora, tinham apostado os dois em janeiro
desse ano.
— Até sua mãe entrou na aposta?
— Tá brincando? Ela foi uma das primeiras! E nosso pai também, a
dele é até maio do ano que vem. Antes que pergunte, a aposta começou em
dezembro do ano passado, quando os vimos rolando na neve, no chalé de
inverno. Eu simplesmente me virei para Phill “quer apostar quanto que esses
dois se pegam até junho de, no máximo, dois anos?” e acabou tomando
proporções enormes. — Ele riu, claramente orgulhoso dos monstros que tinha
criado.
— Quem diria que uma família como a de vocês seria tão normal e
esquisita quanto qualquer outra. — Ri.
— Somos piores, porque apostamos e brigamos com coisas absurdas,
como da vez que os cinco de nós, bêbados aqui nessa casa, apostamos um
relógio de não me lembro quantos mil. No final alguém tropeçou e pisou no
relógio, e eu tenho quase certeza de que foi Roman, mas ninguém lembra
com clareza. Mas em compensação também somos bem unidos, meus
melhores amigos são meus irmãos, principalmente Phill, sabe aquela teoria
toda sobre conexão de gêmeos? É verdadeira. Por isso que não gosto de
conversar demais com ele, é impossível esconder as coisas ou mentir sobre
algo.
— Eu queria ter irmãos. O máximo que tenho são alguns primos com
quem não falo muito, e outros que nunca vejo. Só se salva mesmo Breanna.
— Dei de ombros.
— Você agora tem quatro irmãos, dois loucos, um playboy e um
protetor. — Ele sorriu, e eu o olhei, surpresa.
— É sério que realmente já me considera família?
— Claro que sim. O jeito que você e Hector se olham, é como se
fossem o mundo inteiro um do outro, iguaizinhos a casais de filme quando os
atores namoram na vida real também. Eu te aceitaria na família só por causa
disso, mas ainda por cima você é divertida e legal. Quando eu disse “bem-
vinda à família”, eu falei sério.
— Obrigada. É muito importante pra mim, ser aceita... tive problemas
com isso no passado.
— Entendo. Mas agora você é uma Vanslow de consideração, não
duvido nada que um dia vá realmente usar nosso sobrenome... isso me deu
ideia pra uma nova aposta de quanto tempo. — Ele riu, me fazendo revirar os
olhos com um sorriso. — Até minha mãe te adorou, e ela é bem rígida sobre
as pessoas que os filhos namoram, se for ver o que ela dizia das namoradas
de Phill na adolescência...
— Acho que dei sorte.
— Já eu acho que você é uma expert em roubar corações Vanslow. —
Ele sorriu, e ouvimos a porta se abrir, onde Hector apareceu carregando dois
pacotes de delivery.
— Se souberem o quanto é difícil achar um lugar que venda grelhados
com massas e outro que venda batatas recheadas por aqui... — ele comentou,
indo até a cozinha, colocando os sacos de papel sobre o balcão da cozinha. —
Melhor virem comer antes que esfrie tudo.
— Estamos indo. — Me levantei, sendo seguida por Brian no caminho
até a cozinha. Hector sorriu ao me ver, se aproximando para um selinho.
— Ele não te importunou demais não, né?
— Na verdade, somos melhores amigos agora. — Sorri, e ele fingiu
uma expressão de desespero.
— Era só o que me faltava... se acabar se juntando com Ethan também
eu estarei em sérios problemas. Por que não fica amiga de Roman? Ele é
calmo, e não me enche a paciência! — Ele riu, fazendo graça e dando um
tapinha no ombro do irmão quando Brian passou para abrir um dos sacos,
pegando um dos potes de refeição que tinha ali dentro.
— Isso, continue fazendo graça e ela vai achar que está falando sério
sobre não me suportar. — Ele riu, abrindo o pote onde eu vi uma massa
acompanhada de algo grelhado e indo pegar talheres na gaveta.
— Ela sabe que eu te amo irmão, mesmo quando você me enche a
paciência. — Hector pegou o próprio almoço, e eu abri a outra sacola,
encontrando duas enormes batatas recheadas. — Gostou? Peguei uma com
bacon e uma só de queijo.
— Eu adorei. — Sorri, pegando a caixinha das batatas com cuidado pra
não acabar derrubando, e fui para mesa. Brian já tinha pegado talheres para
nós três, e Hector pegou uma garrafa de Pepsi. Não estávamos sendo nada
saudáveis, mas quem liga? Eram só alguns dias.
— Sabe, — Brian começou — eu estava aqui dizendo à Alice que vou
começar uma nova aposta na família: quanto tempo até ela ter o sobrenome
Vanslow.
— Brian, eu juro por Deus, se você assustar minha namorada...
— Ela riu, ok? Ela me entende, então, por favor, não a perca, porque eu
estou gostando de ter uma irmãzinha. — Brian sorriu, piscando um olho de
forma caricata, e eu percebi que não conseguia parar de dar risadas perto
daqueles dois. — E eu estou falando sério, se vocês terminarem é você quem
vai embora e Alice fica.
— Que tal nem brincarmos com isso? — me intrometi, vendo os dois
concordarem. — E, amor, fique tranquilo, ele não me assustou. Eu ficaria até
honrada em virar aposta entre os Vanslow.
— Vai se arrepender de dizer isso — Hector me avisou, com um
sorriso, e começamos a comer.
— Irmão, você não comprou nenhuma sobremesa?
— Não acha que está sendo exigente demais? — Hector encarou o
irmão, que deu de ombros.
— Você sabe que eu gosto de doces confeitados.
— Pensei que nem fosse querer ouvir falar em doces, considerando o
motivo de ter vindo pra cá — Hector comentou, enchendo seu copo e o meu
de Pepsi.
— Faz sentido, mas eu nunca rejeito uma boa sobremesa.
— Sabe, se aqui tiver todos os ingredientes, eu posso fazer biscoitos, ou
ao menos um bolinho de chocolate — me ofereci, fazia séculos que eu não
cozinhava nenhuma sobremesa em casa por pura falta de tempo, e eu amava
doces.
— Hector, a cada minuto eu gosto mais dela. Vou deixar minha aposta
em até junho do ano que vem. — Brian me fez rir, enquanto eu balançava a
cabeça. Eu estava me sentindo bem na companhia dele.
— Vou te ignorar e simplesmente concordar com a primeira parte, ela
só se torna mais incrível quanto mais a conhece. — Ele se virou pra mim. —
Adoraríamos se fizesse alguma sobremesa, ainda mais se deixar esses dois
inúteis te ajudarem.
— Fale por você, eu sei o básico de confeitaria graças a Alec... pode
deixar que eu te ajudo, cunhadinha. — Eu estava achando bonito o jeito que
ele ainda falava de Alec com carinho, me dava vontade de abraçar ele e dizer
que tudo ia se resolver de tão fofo que era.
— Ótimo. — Me virei para Hector. — Amor, desta vez eu te deixo só
observar, mas ainda vou te ensinar a cozinhar, guarde minhas palavras.
— Já avisei que não será culpa minha quando a cozinha pegar fogo. —
Ele riu, enquanto acabávamos de comer. — Já que vão fazer a sobremesa,
podem deixar que eu lavo a louça.
— Acho uma ótima ideia. — Sorri. — Brian, você sabe de cabeça o
que vai em biscoitos?
— Sei.
— Ótimo. Me ajude a procurar, por mais que eu ache que não vá ter
extrato de baunilha e açúcar mascavo, então por garantia pegue o que
encontrar para um bolo também.
— Sim, senhora, chefinha. — Ele riu, indo mexer nos armários
enquanto eu abria a geladeira e tirava os ovos e a manteiga. — É, realmente
não tem açúcar mascavo, mas tem a baunilha.
— Pegue, podemos usar no bolo.
Ajudei ele a separar o resto dos ingredientes, enquanto Hector acabava
com a louça, que era basicamente só os talheres e os copos, já que os pratos e
vasilhas eram descartáveis. Era bom que ele soubesse que teria que lavar a
louça do bolo depois também.
Começamos o bolo, misturando os ingredientes na vasilha da batedeira,
enquanto Hector se acabava de rir das palhaçadas que fazíamos. Teve um
momento em que Brian simplesmente pegou uma colher e sujou meu nariz de
massa de bolo, e eu me vinguei jogando farinha nele. Então essa era a
sensação de ter um irmão com quem implicar... eu estava amando.
— Pensei que o bolo seria de chocolate, mas pelo visto vocês também
são ingredientes. — Hector continuava rindo, enquanto eu mostrava a língua
pra ele de forma infantil e boba. O sorriso que ele me deu foi de tirar o
fôlego, tão imensamente feliz.
— Culpe seu irmão, ele que começou! Presta atenção, vai derramar! —
ralhei, vendo Brian virar a massa na forma rápido demais. — E ainda diz que
sabe o que fazer.
— Eu disse saber o básico, não que era um chef cinco estrelas.
— Até eu sei que não se vira a massa de uma vez — Hector provocou.
— Calado, ninguém te chamou no assunto. — Brian apontou um dedo
pra ele, enquanto eu tremia com as risadas ao colocar o bolo no forno. —
Vocês cuidam do bolo, né? Porque alguém me deixou cheio de farinha e eu
vou ter que tomar banho.
— Esse alguém não faria nada se não tivesse provocado — devolvi,
fazendo uma careta forçada, segurando o riso. — Pode ir, nós cuidamos do
bolo.
— Se ficar pronto e vocês comerem sem mim, essa casa inteira vai ficar
coberta em massa de chocolate. Estão avisados. — Ele riu e saiu, indo buscar
a mala e passando de novo pela porta em direção às escadas. Hector
automaticamente se aproximou de mim, limpando meu nariz com o polegar e
sorrindo, se inclinando para me dar um beijo na testa.
— E então, o que está achando de conviver com meu irmão?
— Estou adorando, sempre quis ter um irmão, e o seu é incrível. Tão
louco e aleatório quanto eu sou.
— Fico feliz que estejam se dando bem. — Ele sorriu, me abraçando
com carinho, e eu deitei o rosto em seu peito. — Gosto de te ver com a minha
família. Você pertence ao nosso meio, ao nosso mundo. E acho que até eu
vou entrar na aposta de que você será oficialmente uma de nós. — Ele deu
uma risadinha, beijando meu rosto.
— Hector Vanslow, mal fizemos um mês de namoro e já está querendo
casar comigo um dia?
— Talvez... — Ele enroscou os dedos na minha nuca, se aproximando
mais dos meus lábios. — Um homem pode sonhar, não pode?
— Claro que pode. — Sorri, abraçando-o pelo pescoço e o beijando
devagarinho, com aquele calorzinho de lareira e lar.
— Eu te amo. E amo que minha família também te ame, amo o quanto
você se encaixa na minha vida.
— Também amo tudo isso. — Sorri, fazendo carinho na barba dele,
distraída com seus olhos, até ouvirmos alguém pigarreando da porta.
— Eu de coração partido e vocês dois aí, esfregando seu amor na minha
cara. — Brian fez uma careta, depois riu. — Brincadeira. Vocês são
extremamente lindos juntos.
— Eu sou um cara de sorte, não sou? — Hector sorriu, mantendo um
braço a minha volta casualmente.
— Com certeza. — Brian sorriu. — Esse cheiro é do bolo?
— É, sim, mas nada de ir olhar ainda. Temos que esperar ao menos
vinte e cinco minutos pra abrir o forno — avisei, antes que ele fizesse alguma
besteira, e ele só deu de ombros.
— Tudo bem, chefinha, não vou nem chegar perto do forno.
— Ótimo. — Sorri, vendo ele se apoiar contra a porta, olhando bem
para mim e Hector.
— Mantenho a aposta, junho do ano que vem, no máximo. E eu vou ser
o padrinho.
— Aí já está convencido demais. — Hector riu, beijando minha
têmpora e me soltando.
— Ou eu ou Roman, Phill e Ethan que lidem com isso. — Brian parecia
ter plena certeza de que seria o escolhido quando o dia chegasse, e eu ri,
balançando a cabeça.
— Se nada mais der certo, eu os coloco em vestidos cor-de-rosa pra
serem minhas madrinhas. — Os dois se olharam e deram uma gargalhada alta
quando eu disse isso, provavelmente imaginando os irmãos de vestido.
— Alice — Brian fez uma pausa enquanto ria mais —, eu já te amo só
por plantar essa imagem na minha cabeça. Phill de vestido cor-de-rosa!
Agora eu estou imaginando ele de saltos e batom vermelho também...
— E Ethan com um dos colares de nossa mãe e um penteado
arrumadinho cheio de presilhas! — Hector tentava respirar entre as risadas,
enquanto eu só encarava a loucura dos dois. Estava adorando ser parte dessa
família.
— Vocês são terríveis. — Balancei a cabeça, rindo.
— É porque você não os conhece tão bem quanto nós, mas se
conhecesse estaria rindo igual louca também. — Brian respirou fundo, a
risada diminuindo um pouco.
Balancei a cabeça, ainda rindo, e fui pegar uma luva de forno pra olhar
o bolo. Já estava quase pronto, devia levar só mais uns dez minutos ou
menos. Me apoiei no balcão junto do fogão e fiquei observando eles dois, que
agora estavam discutindo se Ethan usaria ou não uma tiara de princesa,
convencidos de que se fosse ideia de Nicole ele usaria até silicone falso. Eu
fiquei rindo também, um pouco confusa. Eles realmente gastaram sete
minutos debatendo qual tom de rosa cada irmão aceitaria usar, e eu estava
adorando aquela loucura.
O bolo ficou pronto, e eu o tirei do forno, sentindo o cheirinho de
chocolate com baunilha. Coloquei sobre o balcão, indo pegar um prato
grande e sentindo os dois me observarem enquanto eu virava o bolo, que saiu
direitinho da forma. Sorri, orgulhosa.
— Fizemos um bom trabalho. — Sorri para Brian, vendo as caras que
ele e Hector fizeram para o bolo. — Sim, já podem comer.
Dei uma risadinha ao ver eles se aproximarem e avançarem no bolo,
cada um pegando uma fatia enorme, enquanto eu ria e pegava um pedaço
normal. Comemos o bolo ainda extremamente quente, o que podia dar errado
depois, mas ao menos tinham banheiros de sobre na casa.
Voltamos para a sala, nos jogando nos sofás, e eu já me sentia tão
confortável com Brian quanto com o próprio Hector. Ligamos a tv de novo e
continuamos assistindo True Blood, Brian sob a ameaça constante de que eu
o bateria se ele desse algum spoiler.
Passamos a tarde nisso, e pela primeira vez eu descobri como era ter
companhias familiares além de mamãe e vovó.
Já era nosso último dia aqui, teríamos que ir embora hoje à noite, por
causa do meu ensaio, e eu estava bem triste com isso. Não queria que esse
paraíso acabasse. Hector ainda estava dormindo quando acordei, então me
esgueirei pra fora da cama devagar e fui me arrumar, vestindo um short de
tecido e uma blusa folgada. Estava indo para o andar debaixo quando ouvi
um barulho vindo do quarto de Brian. A porta estava entreaberta, ainda assim
eu bati antes de abrir.
— Brian? — Empurrei a porta devagarinho, a tempo de ver ele secando
o rosto, me dando um sorriso triste. — Ei... o que foi?
— Nada, está tudo bem. — Era óbvio que não estava, e eu me
aproximei, sentando ao lado dele na beirada da cama.
— Pode me contar, se quiser. Senão, eu posso fazer alguma palhaçada e
te fazer rir — ofereci, e ele ergueu os olhos para mim.
— Alec. Ele acabou de postar uma foto já em Nova Iorque, na
confeitaria nova... e acompanhado do noivo. Perceba que eu disse noivo,
porque eles estavam usando anéis combinando, e isso só pode significar uma
coisa.
— Ah, Brian... — Tirei o celular da mão dele e deixei de lado,
segurando sua mão. — Você realmente ainda gosta muito dele, não é?
— Eu achava que não. Que só tinha sentimento residual, mas que não
me afetaria tanto quando ele seguisse com a vida... era mais fácil quando ele
estava longe. Mas agora ele está perto demais, e eu perdi minha chance. —
Ele fez uma pausa, respirando fundo. — Eu devia ter ido para Los Angeles
com ele.
— E se... eu sei que é errado, e que ele está noivo, mas e se vocês
conversassem sobre isso?
— Já pensei nisso, mas não me parece uma boa ideia. Eu não seria
cruel a ponto de confundir os sentimentos dele assim, se ele ainda quisesse
algo comigo, ele ainda estaria tão preso quanto eu. — Ela deu de ombros,
com uma expressão triste. — Acho que agora não me resta mais nenhuma
opção além de superar. Só vai ser difícil quando precisar encontrar com ele.
— Como eu disse ontem, eu não tenho conselhos bons, mas tenho
abraços e distrações. Pode me procurar sempre que precisar de um desses. —
Sorri suavemente, vendo ele dar um sorrisinho.
— Você é uma ótima irmã, sabia? Vai dar uma ótima Vanslow algum
dia, de preferência em junho do ano que vem, quero vencer alguma aposta.
— Ele deu uma risada baixa.
— Fico feliz em ser sua irmã. Eu adorei sua família, principalmente a
forma como fazem com que eu me sinta bem-vinda e aceita... nunca pensei
que me encaixaria tão bem em algum lugar fora da minha bolha.
— Já pensou que talvez nós tenhamos uma bolha parecida?
— Faz sentido. — Sorri, olhando pra ele. — Posso te dar um abraço?
— Claro, irmãzinha. — Ele sorriu, e eu o abracei bem forte.
— Vai ficar tudo bem. Mesmo que não seja Alec, você vai encontrar
alguém que te faça feliz. E eu vou ser a madrinha do casamento, ok? — Sorri,
me afastando do abraço e vendo ele assentir.
— Você vai ser o padrinho, eu agora faço questão é de ver Phill de
vestido. — Ele riu, voltando à piada de ontem dele com Hector.
— Ok, Phill de vestido então. — Balancei a cabeça, gostando de ver ele
mais alegrinho.
— Obrigado, por me animar. Eu sei que é loucura minha ter chorado
por causa daquela foto, e vou tentar me controlar mais daqui pra frente.
— Pode me ligar quando não conseguir, e eu te animo de novo. Tenho
uma amiga que desenha, posso pedir pra ela fazer um rascunho dos seus
irmãos de vestidos de princesa. Seria nosso segredinho. — Ri.
— Você é maravilhosa, sabia? — Ele sorriu. — Se realmente conseguir
esse desenho, me mande imediatamente. Já sei até como usar.
— Fazer um pôster pra cada um?
— Exatamente! — Ele riu, e ouvimos alguém pigarrear na porta.
— Era só o que faltava, vocês se dando bem. Não, nem me digam o
plano diabólico que devem estar tramando. Não quero saber. — Hector riu,
nos olhando.
— Ótimo, porque não iríamos contar nem se quisesse. — Brian piscou
um olho, fazendo mistério.
— Sei disso. Só tenho sorte de Ethan não estar aqui também, senão
seria meu fim.
— Se vocês não fossem embora já esta noite, eu ligava pra ele
agorinha. E ele ainda traria Nicole junto.
— Brian, você nem ouse — Hector avisou, e eu fiquei rindo dos dois.
— Se juntar vocês todos, eu vou ser obrigado a chamar Roman e Phillip pra
me ajudarem, não vou enlouquecer sozinho com planos diabólicos e farinha
voando pelo ar.
— Ei, foi só um pouco de farinha! — me defendi, ainda rindo.
— Dessa vez — Brian completou, rindo também, enquanto Hector
balançava a cabeça.
— Mudando para um assunto mais saudável, o que vocês pretendem
fazer hoje? Eu tinha planos maravilhosos, mas que não incluem meu
irmãozinho, então teremos que repensar.
— Me arrume tampões de ouvido e eu fico quietinho aqui. — Brian riu,
e eu desviei o olhar, segurando uma risadinha baixa. — Ainda tem aquelas
cartas que deixamos aqui da última vez? Podíamos começar a treinar Alice
para a noite de jogos da família.
— Já vou avisando que ela é competitiva. — Hector deu um sorrisinho.
— No dia que jogamos Monopoly, ela ficou literalmente dançando quando
me venceu.
— Eu gosto de vencer, só isso. — Dei de ombros.
— Competitiva. — Ele repetiu. — Vou procurar as cartas, encontro
vocês lá embaixo. — E saiu. Brian e eu levantamos, descendo as escadas, e
eu fiquei olhando enquanto ele empurrava o sofá para trás e jogava as
almofadas no chão, criando três extremidades, uma para cada um de nós.
Hector voltou em alguns minutos, com uma caixinha nas mãos. — Tudo o
que achei foi esse uno, não sei onde enfiaram o baralho normal.
— Já serve. — Brian sorriu, sentando em uma das almofadas. Me
aproximei e fiz o mesmo, Hector foi o último. — Sabe jogar?
— Sei, mais ou menos. Faz séculos que não jogo, mas ainda lembro o
básico.
— Ótimo.
— Sem apostar hoje, Brian. Antes que tenha alguma ideia. — Hector
começou a embaralhar as cartas, e eu ri, enquanto ele começava a entregar as
cartas.
— Eu ia pegar leve hoje, deixar minha nova irmãzinha se acostumar
com tudo antes de assustar ela. — Ele deu de ombros, rindo e pegando as
cartas. Segurei as minhas, olhando o que tinha recebido. Algumas cartas
normais, um bloqueio e um +4. Interessante.
— Nada de assustar, deixe que Ethan faça isso. Não quero nem ver os
dois brigando por uma propriedade no Monopoly.
— Eu sou pacífica, ok? — Fiz uma careta, mostrando a língua para ele,
que riu e se esticou pra me dar um beijo no rosto.
— Claro que é. Vamos, quem começa?
— Primeiro as damas. — Brian apontou o queixo na minha direção, e
eu sorri, virando uma das cartas na pilha para iniciar o jogo. Era um seis azul,
eu não tinha nem seis e nem azul, e não gastaria meu +4 logo agora, então
pesquei uma carta. Um seis vermelho!
Joguei e a vez passou para Hector, que estava à minha esquerda, que
jogou um quatro vermelho. O jogo foi continuando, pegando mais e menos
cartas, chegando a um ponto em que eu só tinha dois cincos – um azul e um
amarelo – e o +4. Estava na vez de Brian, e ele deu um sorrisinho perverso,
jogando um +4 pra mim.
— Verde. Sinto muito, irmãzinha.
— Ei, não se desculpe comigo... — Dei um sorriso tão perverso quanto,
e joguei o meu +4 também, vendo Hector arregalar os olhos. — Azul.
— Eu. Odeio. Vocês. — Hector fechou a cara, me fazendo rir baixinho.
— Até você. Eu te amo, mas te odeio.
— E ainda diz que a competitiva sou eu... — Balancei a cabeça,
erguendo uma mão e fazendo um carinho na barba dele. — Vamos, pesque
suas oito cartas.
Ele fez uma careta, mas pegou as cartas, me fazendo rir baixo, e Brian
jogou uma carta azul. Sorri, vitoriosa, jogando meu cinco azul, gritando
“uno” e jogando o amarelo. Os dois me encararam, enquanto eu fazia uma
dancinha da vitória.
— Há! Eu ganhei! — Continuei a dancinha boba, comemorando, vendo
os dois jogarem as cartas no meio do círculo e rirem.
— Sua coisinha diabólica, guardando aquela carta até o final... —
Hector riu, e me puxou pra junto dele pela cintura, beijando minha têmpora,
enquanto eu ainda ria.
— Você escolheu bem, irmão. Ela é brilhante! — Brian riu, se
levantando do chão. — Vou ser bonzinho, e mesmo que não tenha me
deixado apostar, vou dar um prêmio aos dois: vou sair de casa por duas horas
e ir passear no lago. Divirtam-se. — Ele piscou na nossa direção e saiu
andando, me fazendo rir enquanto ele se afastava pela porta dos fundos na
cozinha.
— Viu só? Minha competitividade valeu a pena. — Ri, dando beijinhos
no rosto de Hector enquanto ele me puxava para seu colo, sentada de lado
entre as pernas dele.
— Tem razão... espero que sempre vença deles, vai me render vários
relógios. — Ele deu um sorriso de quem tinha mil planos, deixando beijos
junto da minha orelha. — O que vai querer fazer nas nossas duas horas de
liberdade? Não podemos exagerar, se bem conheço Brian ele pode voltar a
qualquer momento, mas podemos ficar agarradinhos no sofá.
— Me parece uma ótima ideia. — Sorri, sentindo os beijos continuarem
e virando o rosto para encontrar seus lábios, o beijando devagar, com amor e
com carinho.
— Dá tempo de mais dois episódios de True Blood, com isso já
chegamos na metade da terceira temporada. E eu prometo que vou continuar
assistindo depois, eu realmente gostei.
— Parece que meu bom gosto é contagiante. — Sorri, deixando um
selinho nele e me levantando, esticando as mãos para ele. — Vem.
Ele segurou minhas mãos, e enquanto eu juntava as cartas no chão ele
empurrou o sofá de volta para o lugar e trouxe duas fatias do bolo de ontem,
me entregando uma. Sorri, e nos sentamos em frente à TV, comigo aninhada
no colo dele, mexendo em sua barba enquanto ele dava play na série. Eu
estava tão apaixonada por ele que poderia explodir a qualquer instante, ele
era todos os sonhos misturados em um só.
Eu estava com medo de ir embora à noite. Com medo de acabar essa
fase maravilhosa de paraíso onde estávamos, esse momento perfeito, isolados
do mundo cruel que tinha lá fora. Nunca fiquei tão feliz em passar quatro dias
seguidos sem sair de casa, porque tinha ele do meu lado. Tinha os carinhos
dele, os beijos, o som de seu coração enquanto pegava no sono.
Me aninhei mais no colo dele, tirando os óculos e deixando de lado,
fechando os olhos e me deixando cochilar ali nos braços dele pela última vez
nesses dias incríveis.
Acordei com um cafuné nos meus cabelos, abrindo os olhos para
encontrar o sorriso dele, tão lindo que me tirou o fôlego.
— Amo te ver acordando. — Ele sorriu, se inclinando e me dando um
selinho. — Quer ir almoçar? Brian se ofereceu para improvisar algo e te dar
folga da cozinha hoje.
— Pode ser. — Sorri, me erguendo do colo dele e me levantando do
sofá. — Dormi demais?
— Só um pouco, mas você acordou cedo hoje, então tudo bem. — Ele
sorriu, ficando de pé e me beijando no rosto, entrelaçando os dedos nos meus
enquanto íamos até a cozinha, onde Brian estava cozinhando o que parecia
ser uma panela enorme de macarrão.
— Ah, a madame acordou. Espero que goste de macarrão com molho
mal feito, porque é o que temos pra hoje. — Ele sorriu pra mim, voltando a
mexer a panela ao lado do macarrão.
— Posso saber por que o molho é mal feito?
— Porque não é natural. É molho de caixinha com temperos extras.
— Eu deveria ter medo?
— Talvez. — Ele riu. — Brincadeira, fica gostoso, mas com gostinho
genérico.
— Genérico é bom.
— Se você diz... — Ele deu de ombros, ainda sorrindo, e desligou o
fogo, pegando um escorredor no armário. — Peguem bastante queijo ralado,
o gosto fica melhor.
Obedeci, indo pegar o queijo na geladeira. Eles eram tão chiques que
não tinha pacotinho de queijo ralado, eu tive que realmente pegar um pedaço
de parmesão e um ralador. Às vezes o mundo deles ainda me surpreendia
com coisas bobas.
Enquanto Brian misturava o molho na panela de macarrão, eu ajudei
Hector a pegar os talheres e pratos, pondo a mesa. Depois peguei um potinho
e ralei uma boa quantidade de queijo, que eu esperava ser suficiente.
— Ok, espero que gostem. — Ele colocou a panela no centro da mesa,
junto com um pegador de macarrão, e nos servimos, jogando queijo por cima
da massa.
Provei a primeira garfada, e não estava ruim. Sim, o gostinho era de
molho de pacote, mas eu estava acostumada, fazia de vez em quando em
casa.
— Não ficou ruim — comentei, e Brian deu um sorriso orgulhoso.
— Sou um cozinheiro de primeira, sei disso. — Ele brincou, enquanto
Hector ria.
Comemos em silêncio, já eram quase duas da tarde e estávamos os três
mortos de fome, e eu até repeti um segundo prato. Eu gostei que nenhum dos
dois me julgou por comer demais, aqui realmente era o paraíso na terra.
Brian se ofereceu pra lavar a louça, e eu e Hector nem tentamos
reclamar, rindo e voltando para a sala, dando play na série de novo.
Assistimos mais um episódio, Brian veio ver também, e eu tive que jogar
duas almofadas nele para evitar spoilers, mas no final deu tudo certo. Mas à
medida que o final da tarde se aproximava, eu me entristecia mais. Não
queria voltar para minha vida antiga, sem irmãos divertidos me fazendo rir e
beijos de Hector. Era quase final da tarde quando suspirei.
— Vou arrumar minhas coisas. Já volto. — Deixei um beijo no rosto de
Hector e me levantei do sofá, subindo as escadas e pegando minhas roupas.
Cada roupa que eu usei ali tinha uma memória, inclusive o blusão que
precisamos lavar depois daquela tarde... Eu estava no paraíso ali, com todas
as lembranças e momentos divertidos e bons.
Fui guardando tudo devagar, inclusive, a trilogia de livros que ele me
comprou. Peguei um vidrinho vazio de uma das velas, uma com um cheiro
doce que ainda residia no vidro, e guardei de recordação daquela noite
mágica. Eu sempre achei que primeiras vezes eram terríveis na vida real e só
funcionavam em livros, mas pelo visto minha amiga estava certa quando me
disse que tudo dependia de com quem fosse.
Era cedo demais pra pensar nele como amor da minha vida? Podia ser
loucura completa da minha cabeça, só estávamos juntos há um mês, mas eu
me sentia tão bem junto dele, e já tinha acontecido tanto, que era como se
fosse uma eternidade ao lado dele. E eu queria mais tempo ainda.
Finalizei minha bolsa, guardando tudo, e me arrisquei a arrumar as
coisas dele também. Estava acabando quando levei um susto ao ver ele
parado na porta, me observando. Dei um gritinho e levei uma mão ao peito,
vendo ele rir.
— Quer me matar do coração?
— Desculpe. — Ele se aproximou, segurando minha cintura. — Estava
arrumando minha mala?
— Uhum. Não é problema, é? Eu queria ajudar.
— Problema nenhum, me fez imaginar nós dois no futuro, você
arrumando as malas para todas as viagens que ainda vamos fazer juntos. —
Ele me deu um beijo rápido, com um sorriso doce e amoroso no rosto.
— Eu amo que mesmo quando eu não consigo enxergar um futuro para
mim mesma, você enxerga um para nós. — Sorri, envolvendo o pescoço dele
e deitando meu rosto em seu peito. — Temos que ir logo, né?
— Sim, infelizmente.
— Você também não queria ir?
— Eu entendo que precisamos voltar para nossas vidas, mas vou sentir
falta da paz que temos aqui, de ver sua risada todos os dias, de acordar com
seu sorriso preguiçoso... estamos no paraíso aqui.
— Eu estava pensando a mesma coisa. — O abracei mais forte, com
medo de que fosse se desfazer se eu o soltasse. — Vou sentir falta daqui.
— Podemos voltar um dia, quando quiser. E podemos fazer outras
viagens, ou só nos trancar no meu apartamento... estou sempre a seu dispor.
— Amo você. E vou dizer isso sempre que me lembrar, porque você
precisa saber o quão especial está sendo na minha vida.
— Minha deusa, linda e perfeita Alice — ele sussurrou, acariciando
minha cintura devagar, me mantendo perto dele. — Amo você.
Sorri, me soltando só um pouco do abraço e o beijando devagar, com
carinho, prendendo nossos lábios num ritmo suave que demonstrava as
promessas silenciosas que havíamos feito ali. Aproveitei cada instante
daquele beijo, antes de me afastar e suspirar baixinho.
— Hora de ir?
— Hora de ir — ele confirmou, beijando minha testa. — Vou pegar as
malas, vá se despedir do seu novo irmão.
Sorri, assentindo, e desci as escadas, encontrando Brian agora no sofá
grande. Me sentei junto dele, dando um sorriso triste.
— Já, já eu vou ter que ir.
— Eu sei. Eu vou amanhã cedo, encarar minha vida como o homem
corajoso que eu deveria ser.
— Encarar sua vida, ou Alec?
— São a mesma coisa. — Ele suspirou, dando de ombros. — Você e
meu irmão são sortudos, sabia? Se encontraram nesse mundo louco, e não
tiveram medo de se jogar de cabeça.
— Somos dois loucos, eu principalmente, mas nos encaixamos bem. —
Sorri, gostando de ver que ele realmente me aprovava com o irmão, como
parte da família.
— Vou sentir sua falta, irmãzinha. Não se assuste, se amanhã de tarde
eu te ligar apavorado, porque passei na frente da confeitaria.
— Pode ligar, mas se for de tarde, eu prefiro mensagens, vou estar no
meio da aula. — Ri baixinho, vendo-o balançar a cabeça.
— Certo, vou ligar no meio da madrugada, então — ele brincou. —
Obrigado, por ouvir meu surto aleatório hoje de manhã.
— É o mínimo que eu posso fazer, irmãozão. — Sorri, arriscando e
vendo ele dar um sorriso grande antes de me abraçar, beijando minha testa ao
se afastar.
— Até a próxima, irmãzinha.
— Pronta? — Hector apareceu na porta, já sem as malas, e eu respirei
fundo, assentindo.
— Pronta.
— Tchau, irmão. — Hector estendeu uma mão para Brian, que a
apertou, sendo puxado para um abraço. — Fique tranquilo, e se precisar pode
me ligar para reclamar ou sofrer.
— Valeu. — Brian deu dois tapinhas nas costas de Hector e se afastou,
com um sorriso. — Agora andem, ou vão chegar muito tarde no Brooklyn.
— Tchau. — Acenei mais uma vez, entrelaçando minha outra mão à de
Hector, e saímos da casa, entrando no carro e rumando de volta para nossas
vidas normais.
Saímos da casa no lago, e eu senti a mudança dela quase
instantaneamente. A alegria que ela manteve desde que saímos de Nova
Iorque começava a diminuir, com a cabeça encostada no vidro da janela,
olhando a estrada passar.
— Quer colocar sua rádio de novo? Eu realmente gostei das suas
músicas.
— Pode ser. — Ela sorriu, ligando a rádio, e eu reconheci o ritmo do
refrão que entrou.
— Essa tocou quando estávamos vindo, não foi? Beautiful Crazy, algo
assim.
— Isso mesmo.
— Se encaixa com você. Totalmente maluquinha, mas eu amo e acho
linda cada loucura sua. — Sorri, falando enquanto o cantor finalizava a
música, e consegui arrancar um sorrisinho dela. — Está tudo bem?
— Sim, eu só... falei sério sobre estar triste em voltar. — Uma nova
música começou e ela aumentou o volume um pouco, era daquelas de
reencontro e recaída que ela tanto gostava. Devia recomendar essas para
Brian. — O mundo lá fora é tão estranho e maldoso, enquanto no lago
éramos só nós, felizes no nosso mundinho particular. Em Nova Iorque tantas
coisas podem dar errado, tem tantas Isabellas para falarem besteira pra mim,
tantos gatilhos...
— Ei, não se preocupe com isso agora, vamos um passo de cada vez.
— Soltei uma mão no volante para segurar a sua. — O que acha de
conversarmos sobre outra coisa, tirar sua mente disso?
— Me parece uma boa ideia. — Ela sorriu, ainda um pouco
desanimada, e então a música trocou depois de um comercial. — Ah, essa é
legal. Champagne Night, Lady A. — Ela começou a dançar de leve, só se
balançando de um lado para o outro no banco.
— Por que gosta tanto de country? Acho que não perguntei o motivo
por trás disso.
— Meu pai. Ele adora country antigo, Alan Jackson, Willie Nelson,
todos esses. Ele simplesmente me criou cercada dessas músicas, com toda
essa vibe de que música precisa ter uma história ou um significado, que não é
só pelo ritmo. E eu acabei me apaixonando pela vertente mais recente do
country, e até as músicas de outros estilos que eu escuto tem tudo isso de
história e significado por trás.
— Entendi. É uma boa explicação, eu estava esperando algo como “ah,
porque eu gosto”. — Ri. — Adoro que tudo com você sempre tem algum
significado por trás, algo mais complexo e bem pensado. Você é uma
caixinha de surpresas.
— Eu sou só cheia de detalhes bobos.
— E eu amo esses detalhes bobos. Vamos, assim que esse comercial
passar você vai me apresentar mais alguma música, e vai me contar uma
história baseada nela.
— E se eu não tiver nenhuma história pra próxima?
— Esperamos a seguinte. — Bem na hora a música começou, e ela deu
um sorriso bobo.
— God whispered your name, do Keith Urban. Adoro ele, tem uma
vibe muito suave, e essa música até que se encaixa com a gente. “De repente
eu quero viver, mais do que um dia já quis” ... eu não acredito muito em
Deus, mas se ele existir, finalmente está me compensando por tudo de ruim.
“Chame de destino ou fé, chame de loucura de qualquer jeito” ...
Observei com a visão periférica enquanto ela cantarolava, e uma
música nova começou direto. Ela fez uma carinha fofa, dando um sorriso.
— Mais uma música com fundo religioso, Jesus take the wheel, da
Carrie Underwood. Eu algumas vezes já ouvi essa música quando mais nova,
e pedi que ele tomasse o volante da minha vida. Não adiantou muito, por isso
fui parando de acreditar. — Ela deu de ombros. — Você acredita em alguma
coisa?
— Fracamente, sim. Minha família nunca foi muito religiosa, então só
entendo o básico mesmo. Acredito que exista algo maior, mas não sei se me
identifico com alguma religião específica.
— Entendi. Somos parecidos nisso também, então. — Ela apertou
minha mão, nossos dedos entrelaçados.
— Parece que fomos feitos um para o outro.
— Espero que sim. — Eu não podia tirar o olhar da estrada, mas senti o
sorriso no tom de voz dela.
— E então, ansiosa para voltar aos ensaios?
— Mais ou menos. Mal posso esperar pra contar a Eric sobre o nosso
fim de semana, e vamos começar a ensaiar as cenas do final agora. Essa parte
é boa, mas vamos começar com a produção e cenários, e Isabella está nessa
parte.
— Se ela falar algo, faça tudo o que puder e ignore. Ela é só uma
pedrinha no seu sapato, insignificante. Você é mais forte que isso. — Eu
sabia o quão clichê eu deveria estar soando, mas era o melhor que tinha para
dizer. Não conseguia aceitar que a minha garota se sentisse mal por conta de
uma qualquer que não a conhece nem interfere em sua vida.
— Vou tentar. Mas não se assuste se eu te mandar mensagens no meio
do ensaio pedindo socorro. — Ela fez graça, rindo baixinho.
— Pode pedir socorro sempre que quiser... vou até considerar comprar
uma armadura e um cavalo branco.
— Exagerado, como vai andar de cavalo em Nova Iorque?
— Um carro branco então?
— Melhor. — Consegui arrancar uma risada dela, e dei um sorriso
vitorioso, olhando a estrada.
— Quer parar pra comer? Estamos quase chegando naquele restaurante
de quando estávamos vindo.
— Eu adoraria. Esquecemos de jantar, e estamos bem longe de casa
ainda. E o hamburguer de lá realmente é divino.
— Então vamos. — Sorri, me virando rapidamente para ela, só pra ver
seu sorriso, e então me voltei para a estrada de novo.
— Posso fazer uma pergunta aleatória?
— Todas que quiser.
— Qual seu filme preferido?
— Não tenho certeza. Eu gosto bastante de Vingadores e Superman,
mas preferido mesmo eu acho que seria, e não me julgue por isso, Morro dos
Ventos Uivantes, na versão dos anos 90. — Dei de ombros.
— Gosto, mas prefiro a mini série de dois episódios, de 2009. Antes
que devolva a pergunta, meus preferidos em filmes variam muito, desde
Shrek 2 até Orgulho e Preconceito ou Harry Potter e a Câmara Secreta. —
Ela sorriu. — Música preferida?
— Nenhuma em específico. Escuto normalmente algumas bandas de
rock ou pop, e agora country, mas nunca tive uma única música favorita. E
você?
— Cruel Summer, da Taylor Swift, e Hurricane, do Luke Combs. Ao
menos até saírem mais músicas que eu vá gostar mais. É igual com filmes,
meus gostos mudam muito. Só em livros que é fixo em acotar e starcrossed.
— Ela fez uma pausa, provavelmente pensando em mais uma pergunta
aleatória. — Cor preferida eu já sei, livro também... não consigo pensar em
mais nenhuma pergunta boba. Já nos conhecemos tanto que essas ficaram pra
trás.
— Isso às vezes te incomoda, não termos ido num ritmo convencional?
— Não. Eu vez ou outra acho meio estranho, se compararmos com
outros casais, mas é o nosso jeitinho de ser. Nos jogamos de cabeça no fundo
do mar, como diria Lady Gaga, “estamos longe do raso agora”. E eu acho
que não estaríamos juntos se não fosse essa intensidade... não somos do tipo
que vai com calma, nunca foi questão de tempo com a gente.
— Sempre foi de intensidade — completei, feliz por ela pensar da
mesma forma que eu.
— Exatamente. — Ela sorriu também, o polegar acariciando minha
mão. — Amo que nossas loucuras sejam parecidas.
— Nos encaixamos. — Sorri, virando o volante na entrada da
lanchonete, soltando a mão dela para poder estacionar. — Chegamos. Uma
sugestão: coma o hamburguer com bacon hoje, não vai se arrepender.
— Posso provar — ela concordou, e descemos do carro, entrando de
mãos dadas no restaurante. A mesma garçonete da ida nos atendeu, com um
sorriso, perguntando se íamos querer o mesmo pedido. Alice levou minha
sugestão em consideração e pediu para adicionarem Bacon no hamburguer
dela, e logo estávamos comendo. — Ok, o bacon é maravilhoso.
— Eu disse que era. — Sorri, pegando uma batatinha e mordendo. —
Esse lugar é incrível, um dos meus motivos favoritos pra ir até Montauk.
— É tão legal ver o quão normal você pode ser. Gostando de comida de
beira de estrada, brigando com o irmão por um jogo de cartas... sempre me
surpreendo com isso. Às vezes você parece tão distante da realidade, tão
perfeito... é bom ver que é como eu. — Ela sorriu, pegando umas três
batatinhas juntas.
— Eu avisei que era só um cara normal, com condições financeiras
exageradas. Mas eu sou só eu, Hector, o cara que daria a vida pelo
cachorrinho, pela família e por você. — Sorri, vendo ela ficar só um pouco
cor-de-rosa.
— Fofo. — Ela sorriu, continuando a comer em silêncio por um
tempinho. — Ah, nem te contei, eu fiquei com uma daquelas velas, a
vermelha com cheirinho doce que ainda tinha um restinho de cera endurecida.
De recordação.
— Canela doce, é a essência daquela. E que bom que gostou, digamos
que eu daqui pra frente vou associar cheiro de canela doce com seu rosto
vermelho e os cabelos bagunçados.
— Hector! — Ela ficou vermelha. — E eu vou associar a você me
cobrindo de beijos.
— Criamos ótimas memórias, não foi?
— Com certeza. — Ela sorriu, terminando o hamburguer e pegando
mais batatas, tomando um gole do refrigerante. — Mal posso esperar pelas
próximas.
— Eu também. — Sorri, e em pouco tempo acabamos de comer. Paguei
a conta e saímos de volta para o carro, comigo abrindo a porta para ela,
adorava o sorriso que ela dava sempre que eu fazia isso.
Liguei o carro e voltamos para a estrada. Ela ligou a rádio de novo,
começando a cantarolar uma das músicas que tínhamos ouvido na ida
também, toda felizinha. Mas à medida que nos aproximávamos de Nova
Iorque o ânimo dela foi diminuindo.
— Qual música é essa? — Perguntei, numa tentativa de animar ela, que
respirou fundo antes de se concentrar.
— Momma’s House. — Ela sorriu, começando a dançar no ritmo. — Já
percebeu que eu adoro essas músicas de trauma e coração partido né? Todas
essas contam histórias tão profundas.
— Percebi, as de recaída também. E não julgo, as histórias realmente
tem mais emoção nesse estilo de música.
Ela sorriu, aumentando o volume quando começou a seguinte, dando
um gritinho.
— Whiskey Glasses, de novo! — Ela sorriu, e eu reconheci a dancinha
que imitava tomar doses. Quando chegou a parte do final ela parecia nem
respirar, cantando direto os “light’em up, knock ‘em back, fill’em up”. Sorri,
gostando do ânimo dela.
Fomos nos aproximando mais da entrada de NY, e ela foi ficando
mais quieta, e então começou a respirar de forma pesada.
— Alice? O que foi? — Me preocupei, estendendo uma mão para ela,
que a apertou instantaneamente.
— Crise... pânico... — A respiração dela estava ofegante de um jeito
ruim, como se não conseguisse colocar ar suficiente nos pulmões, começando
a hiperventilar. Estávamos quase entrando em NY, e eu parei no
acostamento, me virando para segurar seu rosto, fazendo com que ela olhasse
nos meus olhos.
— Ei, está tudo bem, vai ficar tudo bem. Se concentre em mim, na
minha voz... respire, minha deusa. Comigo, inspire... expire... — Fui
respirando bem devagar, tentando acalmar o ritmo dela. Demorou um tempo,
mas ela conseguiu se controlar, respirando fundo algumas vezes.
— Eu não quero... voltar... vida antiga. — Ela conseguiu dizer, e eu
continuei o carinho em seu rosto, me inclinando sobre o espaço entre o meu
banco e o dela para beijar sua testa.
— Shh, vai ficar tudo bem, não será sua vida antiga. É uma vida nova e
boa, só no lugar antigo — assegurei, e ela assentiu, mas eu vi que suas mãos
estavam tremendo. — Vou te levar para casa, e conversamos mais, ok? Eu
vou estar do seu lado.
Ela assentiu e eu beijei sua testa de novo, voltando a dirigir, mas
mantendo minha mão na dela.
Quando estacionei no Brooklyn, ela estava pálida ao meu lado,
engolindo em seco várias vezes. Não queria que nosso fim de semana perfeito
acabasse assim. Segurei firme na mão dela, erguendo a outra para virar seu
rosto para mim.
— Olhe pra mim, respire fundo, ok? Vai ficar tudo bem, eu estou com
você. Vou pegar sua bolsa e vamos subir. Sua mãe está esperando.
Ela só assentiu, e eu saí do carro, pegando a bolsa no porta-malas e
abrindo a porta dela, que agarrou minha mão, e entramos no prédio. Quando
chegamos ao apartamento, Catarina nos recebeu com um sorriso enorme, nos
abraçando os dois juntos, até que percebeu a expressão de Alice.
— Aconteceu algo?
— Não queria voltar — Alice respondeu, antes que eu pudesse,
agarrando uma mão da mãe com a mesma força que segurava a minha, e eu
percebi que ela fazia isso numa tentativa de não tremer.
— Ela começou a ficar assim quando estávamos na entrada da cidade
— expliquei, e a mãe dela assentiu, puxando a filha e consequentemente a
mim para dentro. Fechei a porta e deixei a bolsa no chão, entrando com elas
até o sofá, onde Alice nos soltou e abraçou os joelhos.
— O que foi, querida? Por que não queria voltar? — a mãe dela
perguntou, passando uma mão nos cabelos dela, enquanto eu mantive meu
braço em volta de seus ombros.
— Foi... foi tudo tão perfeito... eu não quero que tudo fique ruim de
novo. Eu quero continuar feliz. — A forma como ela disse aquilo me partiu o
coração, e eu a mãe dela trocamos um olhar, uma decisão silenciosa de quem
falaria primeiro. Eu.
— Você vai continuar feliz, minha deusa. Podemos estar longe do
isolamento e da bolha que tínhamos no lago, mas você vai continuar feliz. Eu
e sua mãe vamos garantir isso.
— Exatamente, querida. Estamos aqui com você, não precisa se
desesperar, vai continuar tudo tão maravilhoso quanto foram esses dias.
— E se não continuar? E se... se algo der errado? Eu quero aquela
bolha de novo, nunca fui tão feliz antes...
— Se algo der errado, nós vamos estar aqui ao seu lado, cuidando de
você, te enchendo de amor e carinho enquanto você se ergue de novo. —
Beijei sua têmpora, apertando um pouco seus ombros. — Me desculpe, não
pensei que pudesse se sentir assim quando voltasse. Eu amo você, e vai tudo
ficar bem, eu prometo.
— Não... não é culpa sua. Você me deu os melhores quatro dias da
minha vida, e eu não poderia estar mais feliz com isso. Eu só... tenho medo
de tudo voltar ao normal de antes, do choque ser muito grande.
— Ah, minha filha, não pense nisso agora. Vão ter diferenças, sim, mas
não vão ser necessariamente ruins. Vai ficar tudo bem, você vai continuar
mais feliz a cada dia, mesmo estando aqui.
— Tem certeza?
— Tenho. — Catarina beijou os cabelos da filha, sorrindo para ela. —
Tenha confiança, minha filha.
— Vou tentar. — Alice respirou fundo, a pequena crise dando sinais de
que iria passar, e soltou as pernas, se sentando normalmente. — Me
desculpem, sei que deve parecer bobeira minha.
— Nada seu é besteira para mim, Alice. — Beijei seu rosto de novo. —
Eu entendo, ou tento meu melhor para entender, o que você passa. Nós
estamos do seu lado.
— Obrigada — ela murmurou, buscando ar e respirando fundo uma vez
e de novo. Ela olhou pra mim, os olhos se iluminando um pouco, e então se
virou para a mãe. — Mãe, Hector pode dormir aqui hoje?
— Se não for um problema pra ele, claro. — Eu gostava de como
Catarina era aberta à minha presença, como ela não se incomodava comigo
ao lado da filha, desde aquela crise quando eu as ajudei e não corri.
— Problema nenhum, muito pelo contrário. Qualquer tempo a mais
com Alice me é bem-vindo. — Sorri, vendo a minha garota esboçar um
sorrisinho pequeno.
— Amo você. Vocês dois, por sempre aturarem meus momentos.
— E nós amamos você, querida. — A mãe dela sorriu, beijando a
cabeça da filha e se levantando. — Vocês comeram na estrada? Posso fazer
um lanche se quiserem.
— Nós comemos numa lanchonete pequena, que é maravilhosa —
Alice contou, e eu me senti mais calmo ao ver que ela já estava se
recuperando da pequena crise. Agora eu já havia visto os dois lados da
moeda, uma crise grande e uma pequena. E as duas me partiram igualmente o
coração.
— Já que vou passar a noite aqui, vou lá embaixo pegar uma muda de
roupa na minha mala, ok?
— Ok, amor. — Alice me abraçou bem forte antes de soltar, me dando
um beijo no rosto, e então eu levantei, saindo da casa e descendo ligeiro as
escadas. Esperava não ter problemas pelo lugar onde estava estacionado, mas
havia outros carros pela rua, então julguei estar tudo bem.
Abri o porta-malas e a minha mala que estava lá dentro, pegando uma
calça, uma camisa de dormir e uma cueca. Voltei até o terceiro andar, abrindo
a porta, e ouvindo por alto o que Alice estava dizendo para a mãe na cozinha.
—... E foi tão mágico! Tinha velas aromáticas e tudo, eu até trouxe uma
de recordação. Ele é tudo para mim, mãe.
— Fico lisonjeado. — Apareci na porta, assustando-a, que deu um
gritinho e depois riu, claramente mais calma agora do que meros minutos
atrás. Se eu não estiver enganado, isso é coisa da border, essa mudança
repentina similar à bipolaridade, mas não igual. Eu só sabia o que tinha visto
em sites no Google, mas dava pra deduzir isso.
— Você precisa parar de me assustar, sabia? — Ela veio até o meu
lado, envolvendo minha cintura com um braço e deitando a cabeça no meu
ombro. A mãe dela sorriu ao nos ver assim.
— Mas eu gosto de te assustar. — Ela me mostrou a língua quando eu
disse isso, me fazendo rir, enquanto a mãe dela acabava de lavar a louça do
jantar. — Está melhor?
— Sim, um pouco. Ainda assustada em voltar à minha vida normal,
mas ao menos eu tenho vocês e vovó comigo. E na faculdade tem Eric, ele
sempre me trata bem. — Ela sorriu, encostando a cabeça no meu ombro de
novo, respirando fundo.
— Sabe, vocês dois realmente fazem um casal muito bonito. — A mãe
dela sorriu, fechando a torneira da pia e secando as mãos numa toalhinha.
— A beleza é toda de Alice, eu só pego carona no quanto ela brilha.
— Engraçadinho. — Alice me deu um beliscão na cintura, arrancando
risadas de mim e da mãe, e naquele momento tudo estava perfeito. — Vocês
se incomodam se eu já for tomar banho para dormir? Ficar nervosa sempre
me deixa cansada.
— Sem problemas, querida. Eu faço companhia à Hector por enquanto,
também quero saber a versão dele desse fim de semana.
— Só não encha ele de interrogatórios, ok?
— Eu não sou sua vó, fique tranquila. — Ela riu, e Alice se soltou de
mim, me dando um beijo no rosto e saindo da cozinha. Catarina fez um gesto
para que eu me sentasse, e eu a acompanhei até a mesa. — E então, as coisas
realmente deram certo por lá?
— Mais do que certo, nesse mês que estamos juntos eu nunca tinha
visto Alice sorrir tanto de uma vez, brilhar tanto, plenamente alegre... me deu
esperanças de que os dias bons possam se tornar maioria. — Sorri, me
lembrando do sorriso dela no píer aquela noite. — E não sei se ela
mencionou, mas meu irmão resolveu fazer uma visita inesperada. Brian, o
mais velho dos gêmeos. Eles se deram extremamente bem, ele a chama de
irmãzinha ou cunhadinha, já a aceitou como parte da família.
— Fico contente em saber disso, em saber que minha Alice está
achando um novo lugar no mundo. Mas além disso, o que fizeram? Ela só
tinha acabado de começar a me contar quando você chegou.
— Eu preparei algumas surpresas para ela. Velas, livros de presente,
coisas assim. E passamos um tempo assistindo séries, parece que sofás são
nosso habitat natural. — Ri de leve, omitindo tudo o que realmente tinha
acontecido naquele sofá. — Também ouvimos muito das rádios de música
country dela, acabei gostando da maioria.
— Sério? — Assenti. — Você realmente deve amá-la, pra aturar até as
músicas. — Ela sorriu.
— Amo. Sua filha entrou na minha vida de uma vez, arrombando todas
as portas e barreiras que podiam existir, e se tornou de suprema importância
para mim. É como uma das músicas dela, e eu disse isso a ela, Alice me
atingiu como um furacão, e eu não consigo mais me imaginar sem ela ao meu
lado. Sabia que amores podiam nascer rápido, mas nunca tinha visto
acontecer com essa intensidade.
— Gosto muito da forma como fala dela. Seus olhos brilham, e a
sinceridade em sua voz é de partir o coração. Não há dúvidas do quão
importante ela é para você.
— Fico grato que aprove meu relacionamento com ela, que não se
incomode mais com a minha presença. Eu juro pelo que for que jamais
partirei o coração dela, pode ter certeza disso.
— Eu tenho. É mais fácil ela partir seu coração do que o contrário, mas
não acho que vá acontecer. Vocês têm potencial para irem longe, e eu espero
que isso realmente aconteça. — Ela deu um daqueles sorrisos de mãe,
fazendo um carinho na minha mão que estava sobre a mesa. — Bem-vindo à
família.
— Obrigado. — Sorri em resposta, me sentindo bem em ser tão aceito
pela família dela quanto ela foi pela minha.
— Mas então, me conte mais sobre seus irmãos. Só conheço a versão
da mídia, quero saber onde minha filha está se metendo.
— Bem, primeiro tem Roman... — Comecei a explicar sobre eles,
vendo-a rir quando cheguei em Ethan, as loucuras que ele faz às vezes e a
aposta familiar sobre ele e Nicole.
— E Alice entrou nessa aposta?
— Não só entrou, como tem fortes chances de ganhar. — Ri.
— Só não me intrometo também porque não os conheço, mas pelo que
me disse também acho que vão acabar juntos.
— Se os conhecesse, teria certeza. — Alice apareceu na porta, uma
toalha sobre os ombros, usando um pijama de ursinhos que me fez erguer
uma sobrancelha. — Não me julgue, levei os pijamas normais na viagem, só
sobraram os fofinhos em casa.
— Ficou ótima. — Segurei uma risada.
— Sei. Eu vou só comer alguns biscoitos e vou dormir, ok?
— Sem problemas. Vou ir trocar de roupa então, aí pode me usar como
um ursinho de pelúcia. Não que precise, já tem muitos com você. — Eu vi os
olhos dela brilharem com a vontade de arremessar o pacote de biscoitos em
mim, e provavelmente o teria feito se a mãe não estivesse olhando.
Me levantei ainda rindo, pegando a muda de roupas que tinha trazido e
indo me vestir no banheiro, tomando um banho rápido antes. Usei um dos
shampoos de mel dela, sentindo o cheiro de Alice se espalhar pelo banheiro.
Lavanda e mel era uma mistura maravilhosa, e combinava com ela.
Acabei de me vestir e dobrei a roupa de antes, precisaria dela amanhã, e
saí do banheiro, indo até o quarto de Alice e deixando minhas roupas sobre a
escrivaninha. Ela estava sentada na cama, comendo um biscoito, e sorriu pra
mim.
— Tão fofinho de pijama completo.
— Disse a ursinha — provoquei, e dessa vez ela arremessou um
travesseiro em mim, me fazendo rir. — Está mesmo se tornando uma
Vanslow, arremessando as coisas assim.
— Aprendi com o melhor. — Ela não conseguiu segurar o riso, e foi
mais para o canto da cama, batendo no espaço ao lado de me chamando. —
Desligue a luz.
Fui até lá, deitando ao seu lado, e ela automaticamente se aninhou no
meu peito, jogando uma perna por cima das minhas, daquele jeitinho que ela
tanto gostava de ficar ao meu lado.
— Está melhor, de verdade? — perguntei, minha mão acariciando sua
nuca.
— Uhum. Foi só um surto momentâneo, passou logo. — Ela apoiou o
queixo no meu peito, me vendo pela frestinha da luz que entrava pela cortina,
de um dos postes da rua.
— Amo você. Sabe que pode me procurar a hora que precisar, não
sabe?
— Sei, sim. Obrigada, por estar sempre ao meu lado, no bom e no ruim.
— Ela voltou a deitar no meu peito, respirando no mesmo ritmo que eu. —
Prometo tentar melhorar mais daqui pra frente.
— Vou estar ao seu lado em qualquer situação — garanti, beijando sua
testa. — Agora durma. Você precisa descansar, foi um dia longo.
— Vai estar aqui de manhã?
— Vou estar aqui sempre que me quiser. — Continuei o carinho na
nuca dela, e naquele momento eu vi a luz no fim do túnel com mais clareza.
Naquele momento, eu acreditei que tudo realmente iria melhorar.
Havia se passado duas semanas desde a casa do lago. Duas longas e
estranhas semanas.
No dia seguinte quando voltei, Hector me deixou no curso antes de
voltar para o hotel, e todos me viram chegando com ele. Ouvi por alto
Isabella fazer alguns comentários maldosos, mas consegui manter minha
calma e seguir com meus ensaios e projetos. Eric veio me bombardear com
perguntas sobre o fim de semana, parecia tão animado que era como se ele
mesmo tivesse vivido todos aqueles momentos mágicos.
Os ensaios da quarta foram rápidos, estávamos todos com a cabeça
distraída depois dos dias de descanso, então acabamos apenas repassando
falas e cenas que já estavam prontas. Consegui fugir antes que Isabella se
aproximasse demais de mim, segurando um pequeno quase ataque de pânico
e me concentrando em tudo o que era bom na minha vida para não surtar.
Na quinta, tivemos mais ensaios, para compensar o perdido na segunda
de folga. Na sexta eu não consegui escapar a tempo, e tive que ouvir
enquanto Isabella falava com uma amiga, alto o bastante para que eu ouvisse,
sobre o quanto eu era uma “vadia oferecida, cachorra de homem rico”. O
surto foi controlado, mas foi um surto. Não contei nem à minha mãe nem a
Hector, mas me arranhei aquele dia. Só um pouco, nas coxas, nada muito
fundo, mas ainda assim um alívio, uma forma de descontar.
Essa era a maior característica minha com meus distúrbios, alguém me
tratava mal, e em vez de gritar com a pessoa e revidar, eu descontava no meu
próprio corpo. Limpei tudo em silêncio, antes que minha mãe chegasse do
trabalho, e agi como se nada tivesse acontecido. Não queria que se
preocupassem, era coisa boba, uma crise pequenininha de nada.
O primeiro fim de semana foi bom, ainda que meio vazio. Hector
precisou viajar para Atlantic City, o cassino finalmente estava dando certo e
ele só acreditou vendo, além de ter que resolver o contrato permanente do
cara que fez dar certo. Mas ao menos ele me ligou por horas, e ficamos rindo
e conversando sobre os planos para o fim de semana seguinte.
A semana foi tranquila, tirando alguns momentos de tensão em que eu
me senti mal sem motivo, como se uma recaída grande estivesse se
aproximando. Às vezes acontecia, eu ficava mal do nada, por qualquer
besteirinha, até mesmo alguma coisa triste num livro ou série, e estava tudo
bem com isso. Eventualmente eu melhoraria, sempre melhorava, não
precisava preocupar ninguém com isso.
O fim de semana seguinte foi ótimo, Hector veio me buscar e fomos
passear pelo Central Park, comemos algodão doce e pipoca no sábado, e no
domingo ele dormiu lá em casa. Minha mãe estava trabalhando dois turnos,
uma das garçonetes da lanchonete tinha tido um bebê e ela ficou cobrindo os
turnos para ganhar extra. Hector se ofereceu umas duas vezes para nos ajudar
e ela não ter que trabalhar tanto, mas minha mãe era orgulhosa e gostava de
ganhar o próprio dinheiro. Então pra que eu não ficasse sozinha na
madrugada de sábado, Hector dormiu lá, mas não fizemos nada demais. Eu
ainda estava vendo para começar a tomar o anticoncepcional.
A segunda foi tranquila, terça também, e exatas duas semanas depois,
eu estava indo para o intervalo da aula com Eric ao meu lado, conversando
sobre a ideia de termos um encontro duplo algum dia, ele e Rob, Hector e eu.
Eu adorei a ideia.
— Mas nada de lugar caro, Rob e eu não somos milionários. Opa,
bilionários né, o pai dele não recebeu o título oficial há alguns dias?
— Não sei, eu realmente não me importo com essa parte. — Dei de
ombros, sentando com ele no pequeno café que tínhamos do campus.
— Fala sério, você deve se importar ao menos um pouco. Não ser
interesseira, mas aproveitar os presentes.
— Eu fujo dos presentes. Ele me deu um colar de rubi que eu nem me
atrevo a pesquisar o preço, deve ter sido uma verdadeira fortuna... ao menos
pra mim. É estranho, sendo sincera, a noção de quanto dinheiro ele tem. —
Balancei a cabeça, vendo-o rir enquanto a garçonete se aproximava.
— O que posso trazer para vocês hoje?
— Dois cappuccinos e uma cesta de mini muffins — Eric pediu, se
virando de volta para mim assim que ela saiu. — Um colar de rubi?! Você se
esqueceu de me contar essa parte...
— Foi na festa do irmão dele. Meu vestido era vermelho, e ele deu o
colar pra combinar. É um rubi bem pequeno, ao menos isso, mas ainda assim
deve ter sido absurdamente caro. Me sinto estranha aceitando esse tipo de
presente. Graças a Deus a família dele é maravilhosa, e não me veem como
uma interesseira qualquer, tive muito medo disso.
— Os Vanslow realmente são maravilhosos, como é mostrado na
mídia? Eu às vezes desconfiei, afinal, quais as chances de uma família
milionária que faz doações para caridade com frequência não ter nenhum
podre por trás? — Ele riu, agradecendo a garçonete quando entregou os cafés
e a cesta de muffins, e eu peguei um, dando uma mordida.
— Até agora o maior “podre” que eu descobri foi que eles são um
bando de crianções que jogam almofadas uns nos outros. — Ri. — Mas só
conheci meeesmo Hector e Brian, e um pouco de Ethan.
— Ethan é o da melhor amiga, né?
— Esse mesmo. Inclusive, torça por mim, eu apostei só quinze dólares,
mas só deus sabe a fortuna que deve vir se eu ganhar e ele realmente ficar
com Nicole até dezembro. Inclusive, vou apostar cinco extra que acontece
especificamente em setembro, não me pergunte por que, mas tenho um
pressentimento.
— Você é maluca.
— As melhores pessoas são. — Sorri, dando mais uma mordida no meu
muffin, que tinha gotas de chocolate em cima. — Mas e você e Rob, como
vão as coisas?
— Não poderiam estar melhores... eu achei um anel escondido embaixo
da pia. Acho que qualquer dia ele vai propor. — Arregalei os olhos,
engasgando com meu muffin e dando um sorriso enorme quando consegui.
— Eric, isso é incrível! — Minha voz saiu quase gritando de animação,
totalmente feliz por ele. — Você vai dizer que sim, né?
— Claro que vou! — Ele sorriu, tomando um gole do café. — Algumas
pessoas podem achar que um ano é pouco pra ter certeza que eu quero passar
minha vida com ele, mas sei lá, nós nos encaixamos tanto.
— Eu não acho muito cedo. Veja eu e Hector, se ele me pedisse em
casamento, no final do mês eu provavelmente aceitaria, e só estaríamos
juntos há dois meses. Eu acredito que seja sempre questão de intensidade, e
não de tempo. Não precisa se preocupar com o que os outros pensam, o
importante é como vocês se sentem. — Olhe só para mim, dando conselhos
como se entendesse alguma coisa da vida.
— Tem razão. Não importa o que os outros acham, já fugimos de tantos
julgamentos, esse a mais ou a menos não vai fazer diferença na nossa
felicidade.
— Viu só! Vai dar tudo certo. — Sorri, terminando meu muffin e
dando um longo gole no café, olhando para o relógio no meu celular e
suspirando. — Quase hora da aula.
— Qual o problema?
— Eu não te contei, eu acho. Uma menina que está em algumas das
minhas turmas, Isabella, fica me insultando e dando um jeito que eu escute
toda vez. Insinuando que eu sou uma vadia e outras coisas piores, por causa
do papel de Bianca que eu ganhei e ela não.
— Que escrota!
— Pois é.
— Você não deixa isso te afetar, né? Tipo, ignore e pronto. Finge que
ela nem existe.
— Eu tento, mas é complicado... parece que ela fez a missão da vida
dela tornar a minha um inferno.
— Digo de novo, finja que ela nem existe. Não deixa ela ver que te
abala, e eventualmente ela vai desistir e deixar pra lá, te deixar em paz.
— Você acha?
— Tenho certeza. — Ele sorriu, pegando o último muffin e dividindo
em dois, me entregando metade. — Vamos, melhor não se atrasar pra aula.
— Vamos. — Sorri, mordendo meu bolinho enquanto andava. Deixei-o
na porta da sala dele, e fui seguindo para a minha, parando antes no banheiro.
Saí da cabine e fui lavar minhas mãos, aproveitando que não tinha mais
ninguém e levantando as mangas da blusa um pouco. Péssima ideia, pois no
instante seguinte, Isabella e as duas amigas, que eu não sabia o nome,
entraram no banheiro, parando ao me ver. Puxei as mangas pra baixo, mas já
era tarde demais.
— Ahá! Então, além de vagabunda, é uma vagabunda masoquista? —
Ela riu, com aquele tom de voz cruel de garotinha mimada que nunca tinha
saído de fato do ensino médio. Ignorei, como Hector me disse tantas vezes e
agora Eric, e caminhei até a porta. Ela bloqueou minha passagem. — Já vai?
Não quer nem ter uma conversinha antes? — A voz dela tinha um tom
arrastado e incômodo, e ela falava meio que fazendo um biquinho. Me fez
lembrar de toda mean girl que eu já tinha lido ou assistido, e era ridículo
alguém assim existir na vida real.
— Me deixa passar, Isabella. — Minha voz fraquejou só um
pouquinho, quase nada, mas ela percebeu. Engoli em seco ao ver o sorriso
perverso que ela deu.
— Ah, está achando que manda em alguma coisa, vadiazinha? Não
manda nem em si mesma, se vendendo pra homem rico, e acha que vai
mandar em mim? Hmm, acho que não. Por que não mostra de novo esses
braços gordos e nojentos? Não? Tudo bem, você não me deixa escolha. — E
então ela fez a última coisa que eu esperaria que alguém maduro fosse fazer,
puxou a manga do meu casaco com força, e justo hoje eu estava usando um
mais antigo, rasgou absurdamente fácil. Ofeguei, puxando o braço e o
cruzando contra o peito. Ela deu uma gargalhada. — Own, a vagabunda está
com vergonha?
— Pare — pedi, mas era melhor que não o tivesse feito. Ela deu um
passo à frente, começando a me encurralar no banheiro, me afastando da
porta.
—Eu paro quando quiser, vadiazinha. — Ela puxou meu pulso, e eu
fiquei sem reação, arregalando os olhos e me encolhendo quando ela passou
as unhas de uma vez pelo meu braço. — Ué, não gosta de dor? Aproveite,
essa foi de graça. Diferente de você, eu não me vendo.
— Chega, ok? Pode ficar com o papel de Bianca, se isso te fizer me
deixar em paz. Só me deixa em paz. — Eu estava à beira de chorar, e ela
percebeu isso, aquele sorriso nojento aumentando mais ainda.
— Ah, eu não quero mais o papel, não vou ficar com seus restos. Sem
falar que vai ser muito divertido gritar o quanto você é uma vadia quando
estiver no palco, vou garantir que todos saibam que você não presta, e que é
uma masoquista nojenta ainda por cima. — Respirei fundo, tentando ignorá-
la, a empurrando um pouco pra passar. Erro, terrível erro. — Deixei encostar
em mim, vagabunda? Vai se arrepender disso. — E então veio a ardência no
meu rosto, percebendo tarde demais o plano dela de me dar um tapa.
Comecei a chorar.
— Me deixa ir, por favor. — Me rebaixei ao ponto de implorar,
abraçando meu corpo com os braços, sentindo meu rosto arder pelo tapa e
meu braço arder pelos arranhões dela. Ao menos a dor me mantinha sã o
suficiente.
— Pra quê? Vai correr pra o seu namoradinho rico e pedir socorro?
Aposto que ele nem gosta mesmo de você, só gosta de ter um bichinho de
estimação pra chupar ele sempre que quiser.
— Pare...
— Eu paro quando quiser! Cale a boca, se não quiser levar outro tapa,
sua...
Minha sorte foi alguém entrar no banheiro quando ela ergueu a mão.
Aproveitei que ela ficou surpresa e a empurrei, correndo pra fora do banheiro,
do prédio e do campus, mantendo meus braços bem cruzados, sem querer que
ninguém mais visse meu estado, e corri para o metrô, entrando assim que o
trem se abriu. Fiz a única coisa que consegui pensar, digitei para Hector “Eu
te amo, com meu corpo e alma, pra sempre”.
No caminho para o Brooklyn, eu não consegui segurar as lágrimas, mas
isso era Nova Iorque e uma garota chorando no metrô era comum, então não
assustei ninguém. Chorei, desesperada, sentindo meu peito apertado de medo
e de dor, a forma como ela me tratou rodando na minha mente, fazendo com
que eu me sentisse o pior lixo na face da terra. E a forma como ela olhou para
os meus braços, como julgou minhas cicatrizes... me acostumei tanto com
Hector me tratando bem que esqueci o quanto as pessoas poderiam ser cruéis.
Apertei as unhas nas palmas das mãos, correndo para casa assim que o
trem parou, minha respiração pesada, hiperventilando, uma crise borderline
misturada com um ataque de pânico. Graças a Deus minha mãe não estava
em casa, não precisaria me ver assim.
Peguei a lâmina escondida no meu armário, e entrei no banheiro.
Eu estava cuidando das coisas de casa, um monte de papéis espalhados
pela mesa de centro, com June do meu lado, organizando fichas de todos os
Empire da costa leste, e organizando o novo que estava para abrir na Flórida.
Recebi a mensagem de Alice enquanto rabiscava minha ideia para o saguão, e
franzi o cenho. Era estranho, ela me mandar uma mensagem do nada dizendo
que me amava. Respondi com um “eu te amo mais ainda, minha deusa” e
enviei, voltando a me concentrar no hotel.
— Mensagem de Alice? — June perguntou, vendo que eu me distraí.
— Sim.
— Vocês são fofos juntos. Sabe que ainda vai ter que me apresentar
ela, não sabe?
— Eu levo ela como minha acompanhante no seu casamento com Nick,
que tal?
— Perfeito. — Ela sorriu, voltando a olhar para os papéis. — Então,
sobre o saguão, eu realmente acho que seria melhor fazermos algo mais...
conceitual, entre o clássico e o moderno. Algumas colunas aqui, mas com
quadros abstratos ali... — Ela começou a mostrar no rascunho do arquiteto,
contornando onde cada coisa ficaria.
— Me parece um bom plano. Meu maior problema estão sendo os
quartos, queria fazer um hotel com quartos mais “temáticos”, mas a menos
que nos tornemos parte da Disney, isso não faz sentido na Flórida. Agora, se
conseguíssemos abrir um Empire em Vegas...
— Não é você que odeia cassinos?
— Droga, não daria pra ser sem cassino, né? Vamos ter que considerar
isso depois, quando Atlantic City der mais certo.
— Faz sentido. — Ela pegou os rascunhos dos quartos, começando a
rabiscar algumas coisas. — Podemos colocar cores nos quartos, cada andar
de uma cor, que tal?
— Boa ideia. — Sorri, pegando as canetas coloridas que tínhamos,
daquelas de ponta pincel que Brian tanto adorava e eu não entendia o que
tinham de especial, e comecei a marcar a no desenho do prédio uma cor por
andar. Coloquei azul-escuro e rosa em andares próximos, uma referência
boba à minha cor preferida e a de Alice. Alice... eu havia estranhado a
mensagem dela, totalmente do nada, sem contexto, e o fato de não ter mais
resposta.
Fiquei me perguntando se ela estava bem, se por acaso alguma coisa
havia acontecido e a afetado, uma sensação estranha se apertando no meu
peito.
— Senhor Vanslow? Hector? O que foi? Está olhando essa caneta rosa
há uns três minutos.
— Nada, só... uma sensação estranha. Minha mãe chamaria de
pressentimento, mas não faz sentido ter pressentimentos do nada, sem um
motivo plausível para isso.
— Quer fazer uma pausa?
— Talvez, ou talvez seja melhor encerrarmos por hoje. Não estou mais
com cabeça pra isso, tem alguma coisa estranha. — Dei de ombros, achando
estranho aquele aperto no meu peito que só aumentava. — Diga a Nick que
ele está de folga hoje, vou pegar o carro. — Me levantei, vendo-a me encarar
com a cabeça inclinada, as sobrancelhas erguidas.
— Vai ver Alice, não é?
— Sim. Estou sentindo que ela precisa de mim.
— Vá lá, eu aviso a Nick. — Ela começou a juntar os papéis, e eu
peguei minha chave do carro, saindo do apartamento e indo até o
estacionamento.
O aperto no meu peito parecia aumentar, tanto que achei por um
momento que poderia ser um infarto precoce, alguma coisa física de errado.
Alice só sairia do ensaio em meia hora, e levaria mais quarenta minutos para
chegar em casa, então eu a esperaria. Provavelmente poderia passar numa
padaria no caminho e pegar um cupcake daqueles de chocolate que ela me
disse gostar.
A mãe dela e ela tinham me dado uma chave do prédio, pra que não
precisasse do interfone toda vez que chegasse lá, então seria perfeito para
surpreender a minha garota. Entrei no carro, e a sensação no meu peito ficou
mais pesada. Não era uma dor, era literalmente um peso, como se algo
estivesse muito errado. Balancei a cabeça, afastando esses pensamentos e saí
da garagem, pegando o caminho para o Brooklyn.
O trânsito estava curto, um verdadeiro milagre nova iorquino, e deu
tempo de parar numa padaria sem problemas. Peguei dois cupcakes, um com
recheio de chocolate e outro de morango, e voltei ao caminho, chegando na
rua dela em cerca de trinta e cinco minutos. Abri a grade, dessa vez a vizinha
do segundo andar não estava na varanda, e subi as escadas. Foi então que
tudo começou a ficar estranho.
A porta da frente estava aberta por uma fresta. Elas nunca deixavam a
porta aberta, no máximo destrancada quando estavam em casa. Empurrei a
porta, entrando na sala, vendo a mochila de Alice jogada junto da porta.
— Alice, já está em casa? — chamei, sem resposta. Talvez ela estivesse
dormindo, tivesse sido liberada mais cedo da aula. A cachorrinha dela,
Milady, veio chorando na minha direção. Segui pelo corredor até o quarto
dela, mas parei na porta do banheiro, onde meu mundo inteiro desabou.
Levei um segundo para reagir, para conseguir processar o que estava
vendo. Alice, deitada na banheira vazia, o braço estirado pra fora e pingando
sangue, um corte grotesco e fundo no pulso. Não, não, NÃO! Foi o segundo
mais longo da minha vida, o que eu levei para reagir e correr até ela,
repetindo “não” várias vezes, balançando ela, dando tapinhas em seu rosto,
mas ela não acordava. O sangue continuava a pingar.
— Alice, meu amor, não faz isso comigo, por favor, não me deixe —
pedi, me virando pelo banheiro, pegando meu celular e ligando para o
socorro.
— Boa tarde, qual sua emergência?
— Minha namorada, ela... ela tentou se matar, está desmaiada e... por
favor, venham rápido — implorei, desesperado, dando o endereço enquanto
me sentia começar a chorar. Desliguei o telefone e corri pelo banheiro,
pegando uma toalha e a rasgando, amarrando os pulsos dela com força, vendo
o tecido se encharcar de sangue mais rápido do que eu esperava. Tirei ela da
banheira, a colocando no chão e a abraçando, sentindo meu mundo inteiro se
despedaçar. — Não me deixe, não faça isso comigo minha deusa. Por favor,
se ainda estiver me ouvindo, aguente firme. Lute.
Implorei, sentindo-a ficar mais fria e pálida, meu desespero
aumentando. Não era justo, não era. Abracei ela mais forte, segurando seus
pulsos por cima da toalha, tentando manter o sangramento o mais controlado
que pudesse, até o socorro chegar. Eu não saberia dizer quanto tempo se
passou, pra mim pareceram horas, dias, séculos até que finalmente os
paramédicos invadiram a porta, e eu a entreguei para que a colocassem na
maca, e os segui até a ambulância. Não me questionaram quando entrei
também, nem tentaram me proibir de ir junto com eles.
Mais uma vez pareceu se passar uma eternidade até chegarmos ao
hospital mais próximo, que eu a princípio nem prestei atenção em qual era,
vendo eles correrem com a minha garota e me proibirem de passar da entrada
da emergência. Depois de me perguntar o nome dela para o prontuário,
disseram que eu não poderia entrar na sala de trauma com ela, que eu teria
que esperar aqui fora.
Andei até um dos bancos na sala de espera e me deixei desabar, meu
corpo tremendo enquanto chorava. Peguei meu telefone, precisava avisar a
mãe dela antes que Catarina fosse para casa e encontrasse a poça de sangue
no banheiro. Meus dedos estavam tremendo enquanto discava, minha voz
falhando quando ela atendeu.
— Hector, tudo bem querido? — A voz dela soou animada, e eu odiei
ter que dar aquela notícia.
— Catarina, Alice... ela tentou... — Tentei respirar, o choro me
travando, o desespero me travando. — Ela... ela está no... — Olhei em volta,
vendo o nome do hospital numa parede. — Presbyterian. — Não consegui
dizer as palavras “ela tentou se matar”, não de novo. Não conseguia aceitar
aquilo.
— Ah não... — Eu ouvi quando ela começou a chorar. — Eu estou indo
para aí... — E desligou, provavelmente indo correr para cá. Encarei meu
celular por um minuto, e tomei a única atitude que me restava, mandei uma
mensagem para meus irmãos: “Alice está no hospital. Presbyterian, no
Brooklyn”. Eu não seria capaz de suportar tudo isso sozinho.
Apoiei os cotovelos no joelho, o rosto nas mãos, e chorei. Chorei todo o
meu desespero, todo o meu medo. Flashes de Alice alegre me passavam pela
mente, dela rindo naquele fim de semana, dela deitada no meu colo enquanto
assistíamos séries, dela no barco dizendo que nunca esteve tão feliz... o que
teria acontecido? O que teria destruído ela a ponto de a levar tão longe, tão ao
extremo? Eu queria acabar com a existência de quem a tivesse magoado
desse jeito, de quem fosse culpado pela minha garota...
— Hector? — A voz de Catarina me fez erguer a cabeça, e ela se
sentou ao meu lado, me abraçando. Ela também estava chorando. — O que
aconteceu?
— Não sei, eu... eu ia fazer uma surpresa, esperá-la chegar da aula... —
Tive que fazer uma pausa, tentando segurar o choro na garganta. — Quando
cheguei a porta estava aberta, e ela estava no banheiro... coberta em sangue.
— Ah, minha filha... — Ela me abraçou mais forte, chorando comigo.
Éramos as pessoas no mundo que mais amavam Alice, e o medo de a perder
era real demais à nossa volta. Ouvi um pequeno tumulto na entrada, e quando
ergui a cabeça eram meus irmãos. Os quatro ali, vindo na minha direção. —
O que...?
— Eu os chamei. Alice também é uma Vanslow. — expliquei, e ela
assentiu. Em instantes, Brian estava na minha frente, me abraçando assim que
me levantei.
— Ela vai ficar bem, cara. Ela vai ficar bem — ele garantiu, e a voz
dele soou embargada também. Ethan me deu um tapinha no ombro quando
Brian se afastou, em silêncio, Roman e Phillip fazendo a mesma coisa. O
mais velho me abraçou também, um abraço rápido no estilo dele, mas ainda
assim me mostrando apoio. Brian já tinha se virado para Catarina, se
abaixando para ficar mais perto dela. — Alice é forte, ela vai aguentar firme.
— Brian, não é? — Ele assentiu. — Minha filha adorou você. Ela me
disse que você era o irmão que ela queria... — E então ela começou a chorar
de novo, e Brian a abraçou.
O tempo foi se passando, meus irmãos sentados de um lado meu,
Catarina do outro, e nem sombra do médico. Phill tinha acabado de pegar um
café para nós, depois do que pareceram séculos esperando, quando um
médico jovem apareceu na porta das salas de trauma.
— Família de Alice Rogers? — Nos levantamos de uma vez, e Catarina
agarrou minha mão, com medo da notícia que viria. Ele se aproximou de nós,
uma expressão fechada no rosto.
— Por favor, diga que ela está viva — a mãe dela implorou, e eu senti
que ela já estava se preparando para o pior.
— Está, sim. — Finalmente consegui respirar quando ele disse isso,
como se meu coração só agora tivesse lembrado como bater. — Mas por
pouco. Qualquer minuto a mais seria crucial... — Ele se virou para mim,
vendo as pequenas manchas de sangue na minha roupa. — Você agiu rápido.
— Podemos vê-la?
— Ainda não. Ela está sedada, e ainda será levada para um quarto.
Preciso que alguém preencha a ficha completa com os dados médicos dela,
tivemos que fazer uma transfusão para repor o sangue perdido, usamos O
negativo como doador universal, mas seria melhor se soubéssemos o tipo
específico dela.
— Ela é O positivo. — Foi tudo o que a mãe dela conseguiu falar, e o
médico, cujo crachá dizia Dr. O’Riley, entregou uma prancheta a ela.
— Eu aviso assim que puderem vê-la. Agora, se me permitem
perguntar, ela está com algum acompanhamento psiquiátrico? Eu posso
recomendar um daqui do hospital, se quiserem.
— Ela tem um médico, eu... posso ligar para ele. — Catarina estava
entrando em estado de choque, e quando o médico assentiu e se afastou, eu a
puxei para se sentar de novo.
— Alice está bem. Ela vai ficar bem, ela sobreviveu — acalmei tanto a
ela quanto a mim mesmo com isso, sentindo que aos poucos eu voltava a
respirar. Ela olhou para a ficha médica, segurando a caneta que vinha presa
na prancheta.
— Nós... não temos plano de saúde.
— Não se preocupe com isso, pode deixar que eu arco com qualquer
despesa que ela tiver aqui. Só quero garantir que Alice fique bem, o resto é o
resto — garanti, e ela apenas assentiu uma vez, começando a preencher os
dados da filha. Deixei-a fazer isso em paz e fui avisar aos meus irmãos que
Alice estava bem. Eles respiraram fundo, estavam tão assustados quanto eu
com tudo isso.
— Hector, eu não fazia ideia de que ela estava passando por tudo isso...
por que não me contou? — Roman me puxou de lado, segurando meu ombro,
naquela forma estranha dele de mostrar afeto.
— Brian sabia, achei que ele tivesse contado a vocês... e era a
privacidade dela, não poderia sair espalhando assim.
— Ah, irmão, não consigo imaginar como deve ser passar por isso. A
cara que você estava quando chegamos, nunca te vi tão apavorado em toda a
sua vida.
— Ela é tudo pra mim, Roman. — Me apoiei na parede, me deixando
deslizar até estar sentado no chão, cobrindo o rosto com as mãos de novo. —
Eu nunca pensei que pudesse amar alguém assim, mas ela... ela é minha vida
inteira, tudo que eu faço desde que a conheci é pensando nela ou por causa
dela. E a mera ideia de a perder já me assustava, e hoje que isso quase
aconteceu... eu não sei se suportaria. — Senti quando ele se sentou ao meu
lado, passando um braço em volta dos meus ombros.
— Ela ficou bem, ela vai ficar bem. Vamos garantir que ela fique bem,
que seja bem cuidada. Vamos transferi-la para o melhor hospital psiquiátrico
se for necessário, mas ela vai ficar bem. Se acalme, respire. — Ele deu dois
tapinhas no meu ombro, e senti alguém se sentar do outro lado. Ergui os
olhos para ver Phillip.
— Eu não consigo nem imaginar o que você está sentindo agora, irmão,
mas estamos aqui com você. Todos nós, e eu acho que deveria ligar para
nossa mãe também. Ela vai saber ser mais útil do que quatro marmanjos
perdidos, mesmo que eu e Brian tenhamos alguma noção de sentimento. —
Ele tentou me fazer rir, e quase funcionou. — Respire fundo, ela vai ficar
bem. O pior já passou, ela já foi medicada, e assim que acordar você vai
poder falar com ela.
— Só queria saber o que causou isso, ela estava indo também nas
últimas semanas...
— Às vezes nem foi nada específico, pode ter sido um acúmulo de
coisas. Seja o que for, ela vai contar, se ela se sentir confortável pra isso.
Talvez ela apenas queira esquecer e seguir em frente com tudo, não pensar
mais em tudo o que deu errado.
— Eu só quero vê-la bem. — Suspirei, abaixando a cabeça. — Só
quero a minha garota viva, curada desse mal que a persegue há tanto tempo.
Vai ser um longo processo, principalmente agora, mas eu não vou mais a
deixar sozinha. Se ela me aceitar por perto, eu vou fazer de tudo para garantir
que ela fique bem, para que ela se cure.
— Ela vai se curar. Tenho fé que vai. — Phill me abraçou de lado, se
levantando. — Ligue para nossa mãe. Ela vai ser mais útil do que nós, e vai
te acalmar. Respire. — Ele repetiu, e Roman se levantou também, os dois me
deixando ali. Peguei o celular, considerando a ideia deles. Eu era um homem
formado, com vinte e sete anos na cara, mas o que eu mais queria nesse
momento era ouvir minha mãe dizer que tudo ficaria bem. Então apertei o
telefone ao lado do contato dela.
— Hector, querido? Brian me mandou uma mensagem, eu sinto tanto
meu filho. Como Alice está?
— Viva, por pouco. O médico disse que um minuto a mais poderia ter
sido fatal, e eu fico me perguntando... e se tivesse trânsito da minha casa até a
dela? E se na padaria que eu parei tivesse uma fila? E se... se quando eu
chegasse já fosse tarde demais?! Eu nunca me perdoaria por não chegar a
tempo, por não a salvar.
— Ah, meu filho, não pense nessas coisas. Você chegou a tempo, você
a ajudou no momento exato — ela me garantiu, e eu conseguia até ver a
expressão que ela teria no rosto.
— Eu tive um pressentimento, daqueles que a senhora às vezes
costumava ter. Eu senti que tinha algo de errado, que precisava vê-la... e
quando eu a encontrei lá, a dor que eu senti foi como se cada corte dela fosse
no meu peito. Eu não saberia mais viver sem ela, mãe. Ela cresceu demais na
minha vida, de uma forma que nem eu mesmo esperava.
— Eu sei, meu filho, eu sei. Eu vi isso aquele dia no evento do seu
irmão, e vejo agora no seu tom de voz. E eu também me preocupo com ela,
imagino que tenha planos de um dia a tornar uma Vanslow de fato? Eu apoio
isso. Sempre quis uma filha, e ela é maravilhosa. Fique do lado dela, meu
filho. A ajude como puder, faça tudo o que puder, e se mantenha firme. Ela
vai ficar bem, vou torcer por isso e pedir para sua avó rezar por ela.
— Eu só queria que houvesse um jeito de tomar a dor dela pra mim. Eu
sofreria de bom grado em troca dos sorrisos dela, em troca de ver ela bem.
— Eu sei disso, meu filho. Você tem um coração bom, sei que se
pudesse faria isso sem nem pensar duas vezes, e essa é uma das qualidades
que mais me orgulho em você. Eu criei um bom menino, que se tornou um
bom homem. — A voz dela era cheia de afeto. — Lembre-se de manter a
calma, Alice vai precisar de um porto seguro ao lado dela.
— Farei isso. Vou me manter o mais calmo que puder, para me manter
ao lado dela. Serei a pedra no meio do furacão, mesmo que precise me
esconder para desabar depois... eu vou ser forte por ela. — Respirei fundo,
vendo de longe que o médico veio falar com Catarina de novo. — Mãe, eu
vou ter que desligar. O médico veio falar com a mãe dela, deve ter novas
notícias.
— Vá lá. Cuide dela e fique bem. Vocês todos, fiquem bem. Amo você,
meu filho.
— Também amo a senhora. — E desliguei, me levantando do chão e
indo até Catarina, que estava entregando a prancheta ao médico.
— Muito bem, vou adicionar as informações no prontuário dela. Já
sabe quando o médico dela pode vir?
— Ele disse que tentaria passar por aqui durante à noite.
— Certo. Ela está no quarto 303, da ala psiquiátrica. Ainda está sedada,
tivemos receio de que ela pudesse ter outra crise se acordasses
imediatamente, mas vocês já podem ir lá. Normalmente só permitiríamos um
acompanhante, — ele se virou para mim. — Mas, como foi você que a
encontrou e a trouxe até aqui, abriremos essa exceção.
— Obrigado — agradeci, e eu e Catarina o seguimos pelos corredores,
até o elevador. Fiz um sinal para os meus irmãos de que já podiam ir, e que
os chamaria novamente se precisasse. Brian veio se despedir de nós antes de
subirmos, dizendo que poderíamos contar com ele para qualquer coisa que
precisássemos.
Subimos o elevador, parando em frente à entrada da ala psiquiátrica, e
ganhamos crachás de visitantes autorizados daquele setor. Seguimos pelas
portas, até chegar à 303, e Catarina entrou primeiro.
A segui, meu coração se partindo ao ver Alice ali, deitada, com os
braços enfaixados e presos na lateral da cama por uma espécie de algema
acolchoada. Eu já tinha visto aquele tipo de coisa em filmes, faziam isso para
garantir que o paciente não ferisse ninguém ou a si mesmo, mas ver minha
garota naquele estado me partiu o coração. Eu só queria poder abraçá-la e a
cobrir de carinho e amor, garantir que ela ficaria bem.
Mas me contentei em me sentar em uma das poltronas ao lado da cama,
Catarina ficando na do outro lado. E então esperamos.
Uma hora passou e ela ainda não tinha acordado. Às vezes se movia um
pouco na cama, ou fazia algum barulhinho, mas ainda estava dopada com as
medicações. Vez ou outra eu me levantava da poltrona, fazia um carinho no
cabelo dela e beijava sua testa, e a mãe dela não soltava sua mão. Era nosso
jeito de mostrar que estávamos aqui.
— Acha que ela demora a acordar? — Catarina perguntou, e eu
suspirei.
— Não sei. Queria que ela acordasse logo, mas ao mesmo tempo tenho
medo de como ela vai reagir ao acordar.
— Sei bem o que quer dizer. — Ela suspirou também, soltando a mão
da filha e se levantando, passando uma mão no rosto dela. — Se incomoda de
ficar sozinho por um instante? Estou sem comer desde cedo, e sinto que
posso desmaiar a qualquer momento.
— Vá comer algo, eu fico aqui com ela. Você precisa reunir forças, vai
ser uma longa recuperação.
— Volto logo. — Ela passou pela porta, me deixando a sós com a
minha garota. Puxei minha poltrona mais para perto, segurando a mão dela, e
comecei a falar aleatoriamente.
— Vou te contar como foi o meu dia, ok? Não sei se está me ouvindo,
mas imagino que isso possa ajudar a te distrair, nem que seja só um pouco,
até você estar pronta para acordar. — Beijei os dedos dela, com carinho. —
Eu estava planejando o hotel na Flórida, e June deu a ideia de os quartos
serem cada andar de uma cor, já que eu queria algo ao menos razoavelmente
temático. Coloquei o azul-escuro e o rosa juntos, nossas cores favoritas. Sabe,
eu sei que pode ter parecido bobo, mas é um jeitinho de nos representar. Eu
realmente amo você, Alice. Então por favor, por tudo nesse mundo, acorde e
lute — pedi, fungando numa tentativa de segurar o choro.
Passaram-se mais dois minutos, e ela me surpreendeu ao abrir os olhos.
— O que... onde... ah! — Ela arfou, percebendo o que tinha acontecido,
e tentou se virar na cama, fazendo aquele barulhinho de chiado dolorido ao
tentar mover os braços e perceber que estavam presos.
— Shh, calma, meu amor, eu estou aqui, está tudo bem. — Me levantei
em um pulo, levando uma mão aos cabelos dela, num carinho suave até ela
parar de tentar se virar e me perceber ali. Os olhos dela se encheram de
lágrimas.
— Hector... — Ela começou a chorar e aquilo me partiu o coração. Me
curvei sobre a cama, a abraçando como podia, cobrindo seu rosto de beijos,
mostrando a ela que eu estava aqui com ela, que estava tudo bem. — Eu... me
desculpa, eu não... eu juro que não planejei isso, eu só... quando eu vi o quão
fundo tinha ido, eu ia pedir ajuda, eu juro que mudei de ideia, mas eu fui
ficando tão fraca...
— Shh, não precisa se explicar, meu amor, eu entendo, está tudo bem,
vai ficar tudo bem. Eu te trouxe para o hospital, já cuidaram de você, está
tudo certo agora. — Beijei sua testa, acariciando seus cabelos com cuidado e
carinho, sem me afastar muito, me mantendo perto dela.
— Você...? Ah, Hector... — Ela continuou chorando, e o monitor
cardíaco disparou um pouco, chamando a atenção de uma das enfermeiras.
— Está tudo bem aqui?
— Ela acabou de acordar, está meio abalada — expliquei, enquanto
Alice chorava baixinho. Lancei um olhar de súplica à enfermeira. — Posso
soltar as mãos dela?
— Não é recomendado, mas já que está aqui com ela, eu vou permitir.
— Ela se aproximou, soltando um lado e depois o outro, e os braços de Alice
voaram a minha volta, me apertando junto de si, chorando no meu pescoço.
— Me desculpa, me desculpa mesmo, eu não queria te machucar, não
queria nada disso... — Eu sentia as lágrimas mornas no meu pescoço, e me
mantive abraçado com ela, me sentando com cuidado na beirada da cama e
acariciando sua nuca com carinho, daquele jeito que eu sabia que a acalmava.
— Respire, meu amor, conseguimos evitar o pior, não precisa se
desculpar. Você não tem culpa, essa doença que te persegue não é culpa sua.
— Beijei sua testa com carinho, mantendo-a junto de mim. — Eu e sua mãe
amamos você, já, já ela deve voltar para cá, ela só foi pegar um lanche. Nós
estamos do seu lado, vamos cuidar de você.
— Hector, eu não quero morrer. Por favor, não me deixe morrer, não
quero que isso aconteça de novo, nunca, eu não quero mais aceitar essa
doença. — Ela me apertou mais forte, dando um chorinho pelo movimento
dos braços, e começou a beijar meu rosto, de novo e de novo.
— Eu vou te ajudar, você vai se curar. Vai ser um processo longo e que
pode doer, mas você vai se curar meu amor, eu vou garantir que você se cure.
Nós vamos garantir isso juntos, ok? — Beijei os cabelos dela, a aninhando
contra meu peito. — Quer... quer falar sobre o que aconteceu?
— Já vinha acontecendo há alguns dias. Eu vinha me sentindo estranha,
triste muitas vezes sem motivo, e hoje mais cedo... Isabella falou algumas
coisas maldosas, me tratou de uma forma horrível, e eu sei que pode parecer
bobo, mas foi a gota d’água e desencadeou tudo isso. — Ela fechou os olhos,
encostando a cabeça no meu peito.
— Não é bobo. Eu entendo que coisas pequenas quando acumuladas se
tornam imensas, e eu nunca consideraria uma crise sua como boba... devia ter
me contado que não estava bem, minha deusa. Não estou te cobrando, mas eu
poderia ter te ajudado... tive tanto medo de te perder. — Apertei-a um pouco,
querendo ter certeza de que ela era real, de que estava ali, viva, respirando
nos meus braços.
— Eu amo você. E eu sinto muito, muito mesmo. Prometo que vou me
tratar direito, que vou melhorar...
— Eu vou estar ao seu lado, pra sempre — prometi, me afastando
apenas um pouco para secar as lágrimas dela com os polegares, fazendo
carinho em seu rosto.
— Alice! — A mãe dela surgiu na porta, e eu me afastei para que as
duas se abraçassem. — Ah, minha filha, eu tive tanto, tanto medo de te
perder, eu te amo tanto minha menininha. — Catarina continuou sussurrando
coisas assim, as duas chorando, abraçadas.
— Me desculpa, mãe, eu mudei de ideia, eu juro, mas já era tarde
demais — Alice repetiu as mesmas palavras que me disse, abraçando a mãe
com força.
— Eu sei, minha filha, eu sei que você não queria aquilo, não queria
nada disso. Eu sinto muito por não estar em casa, por não ter estado lá ao seu
lado, mas eu estou aqui agora. Já liguei para o Dr. Ronald, ele disse que
passaria por aqui. Vai ficar tudo bem, minha menina.
— Mãe... — Alice caiu no choro de novo, apertando a mãe com
carinho, e eu senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Era um alívio
imenso ter a minha garota ali, viva, ainda que destruída, mas eu faria questão
de ajudar em tudo o que eu pudesse para reconstruí-la. O telefone de Catarina
tocou.
— É Ronald, eu vou atender. Já volto, está bem? — Ela beijou o topo
da cabeça de Alice, se afastando com o telefone na mão. Voltei para junto de
Alice, segurando suas mãos.
— Quer alguma coisa? Água, algum lanche bobo da máquina no final
do corredor... pode pedir que eu trago.
— Só... me abraça — ela pediu, e não havia hipótese no mundo em que
eu não diria que sim. Me aproximei, envolvendo-a com carinho, beijando sua
têmpora demoradamente.
— Eu amo você, minha garota. Amo muito você, com todo meu
coração, e vou estar sempre do seu lado. — Beijei-a de novo, demonstrando
de todas as formas possíveis o quanto a amava e o quanto havia me
preocupado com ela. Sua mãe voltou, aparecendo na porta, e estava pálida de
novo.
— Hector, posso falar com você por um momento?
— Claro. — Era um alerta vermelho nos olhos dela, eu tinha certeza.
Beijei o rosto de Alice mais uma vez, antes de me levantar. — Amor, eu já
volto, ok?
Ela assentiu e eu saí, parando do lado de fora do quarto, onde Catarina
suspirou.
— Ele não vem. Dr. Ronald, aquele maldito desgraçado, disse que não
vem e que não pode mais tratar Alice. Disse que que se ela chegou a esse
ponto, foi porque não estava seguindo o tratamento dele, e que não havia
mais nada que possa fazer. E simplesmente desligou na minha cara depois de
dizer isso.
— O quê?!
— Como eu vou dizer isso a ela? Como Alice vai reagir ao ser
abandonada por um médico, que deveria ajudá-la? — Ela balançou a cabeça
negativamente, e eu percebi que ela começava a se desesperar.
— Eu te ajudo a falar com ela. Não vamos mentir, mas podemos
conseguir um médico novo. Eu me ofereço para pagar o tratamento inteiro, e
não vou aceitar não como resposta. Ela é o amor da minha vida, e eu daria
toda minha fortuna em troca de um único sorriso dela. — Os olhos de
Catarina se encheram de lágrimas, e ela me abraçou com força.
— Obrigada, querido. Não sabe o quanto significa, pra mim, ver o
quanto ama minha filha. — Ela me soltou, respirando fundo e secando as
lágrimas. — Venha, vamos falar com ela. — Entramos de volta no quarto, e
Alice nos olhava meio assustada, com os olhos curiosos.
— O que aconteceu?
— Bem, filha, o Dr. Ronald, ele... ele não vai mais poder te tratar.
— Hein?
— Eu sinto muito, ele disse que se você chegou aonde chegou é porque
o tratamento não estava mais sendo efetivo, e que não fazia sentido
continuarmos com ele. — Ela foi se aproximando, segurando uma das mãos
da filha, e eu me aproximei também, me sentando ao lado de Alice.
— Mas... eu não posso ficar sem tratamento, principalmente agora.
Mãe, eu não quero morrer. — Alice começou a dar sinais de que choraria de
novo, e eu envolvi seus ombros com um braço, a mantendo perto de mim.
— Você não vai morrer, meu amor — assegurei, e a mãe dela assentiu.
— E não vai ficar sem tratamento. Eu vou agora mesmo em busca de algum
médico novo, um que seja bom de verdade e não um babaca como esse
Ronald.
— Hector, você já faz tanto por mim...
— E exijo fazer isso também. Você estando bem significa que meu
coração está bem, pois ele é todo seu. Deixe que eu faça isso por você, por
mim, por todos nós aqui nesse quarto — pedi, meus olhos suplicando que ela
dissesse sim. Ela suspirou, assentindo devagar.
— Tudo bem, eu aceito. Eu só quero ficar bem, por favor.
— Você vai ficar — garanti, beijando a testa dela e me afastando. — Já
volto, ok?
Ela e a mãe assentiram, e eu saí do quarto, pegando meu telefone e
ligando primeiramente para Brian. Ele trabalhou em clínicas com projetos
voluntários de pintura, talvez conhecesse algum médico bom de uma delas.
— Hector, alguma novidade? Alice acordou?
— Acordou, mas temos uma nova emergência. O psiquiatra que a
acompanhava, Ronald sei lá do que, simplesmente abandonou o caso ao saber
da tentativa de suicídio. Preciso encontrar um novo, e rápido, e como você
trabalhou naquelas clínicas...
— Não diga mais nada, sei o médico perfeito. Dr. Paul Travis, um cara
de meia idade que trabalha maravilhosamente bem, quando fazia os projetos
eu o via com os pacientes da clínica. Posso te passar o telefone de lá, e você
vê se ele está de plantão hoje.
— Você é maravilhoso, sabia? Me envie o número. Qual clínica é?
— Be a Light, em Manhattan. Paul é o médico principal de lá, diretor
da ala de distúrbios psicológicos e mentais.
— Perfeito para o caso. — Suspirei, mais aliviado. — Ok, vou esperar
o número. Obrigado, irmão.
— De nada. Diga à Alice que eu desejei melhoras, e que eu a adoro.
— Vou dizer. — Sorri e desliguei. Menos de um minuto depois chegou
à mensagem com número, que eu apertei na mesma hora, impaciente
enquanto chamava, até que uma voz anasalada atendeu.
— Clínica Be a light, boa noite, em que posso ajudar?
— Boa noite, por favor, o Dr. Paul Travis está de plantão esta noite? —
Fui direto ao assunto,
— Vou checar, só um instante. — Ela fez uma pausa, e eu ouvi o
barulho de um teclado. — Está sim. Sobre o que se trata, é algum paciente?
— Uma nova paciente. Minha namorada, ela quase... quase se suicidou
essa tarde, e meu irmão recomendou o Dr. Travis, ele já trabalhou em
projetos de arte aí, Brian Vanslow. — Torci para que Brian tivesse alguma
significância por lá, e pareceu funcionar.
— Ah, claro. Vou encaminhar a ligação para o consultório dele, só um
instante. — A linha ficou suspensa após ela dizer isso, e depois de um minuto
o médico atendeu.
— Dr. Paul Travis, boa noite, com quem falo?
— Boa noite. Com Hector. Hector Vanslow.
— Ah, Vanslow. Já trabalhei com seu irmão aqui na clínica, em que
posso lhe ajudar? — Ele tinha uma voz agradável, calma.
— É sobre a minha namorada, ela quase cometeu suicídio essa tarde, e
o psiquiatra que a tratava disse que não poderia mais trabalhar no caso. Eu
estava na esperança de que o senhor pudesse assumir o caso, pago o preço
que for, só peço que a ajude — expliquei por alto o caso, rezando por um
sim.
— Entendo. Claro, posso dar uma olhada no caso. Ela está em que
hospital?
— Presbyterian, no Brooklyn. Quarto 303 da ala psiquiátrica.
— Estarei aí em meia hora, no máximo. Vou chamar o meu substituto
em plantão para cobrir meu turno aqui e já vou. Como ela se chama?
— Alice Rogers.
— Certo. Até breve, senhor Vanslow.
— Até. — E desliguei, respirando fundo e indo de volta até o quarto.
Alice estava abraçada com a mãe, os olhos inchados pelo choro. — Consegui
um médico. Paul Travis, da clínica Be a Light. Brian quem recomendou, e ele
disse que estará aqui em meia hora.
— Brian sabe sobre hoje? — Alice arregalou os olhos, e eu fiz uma
careta, envergonhado.
— Bem, todos os meus irmãos sabem. Eu me desesperei e os chamei,
ficaram aqui comigo e sua mãe até nos liberarem para vir te ver. Sinto muito,
mas eles também te veem como família, e ficaram preocupados. Brian
mandou dizer que te adora, e que quer te ver melhor em breve — me
expliquei, torcendo para que ela não ficasse brava comigo. Ela apenas
assentiu, devagar.
— Está bem. — Ela estendeu uma mão para mim, e eu me aproximei
da cama, me sentando do lado livre, entrelaçando nossos dedos. — Eu quero
melhorar. O medo que eu senti hoje quando comecei a ficar fraca, o
arrependimento... nunca mais quero passar por isso de novo.
— Você vai melhorar. Não é uma dúvida, um “e se”, é um fato. Você
vai ficar bem, minha deusa, e daqui alguns anos você vai olhar para trás e ver
que tudo ficou no passado. Eu prometo. — Fiz um carinho nos dedos dela,
que assentiu, voltando a deitar no ombro da mãe.
— Você vai ficar bem, minha filha. Nós vamos garantir isso. —
Catarina beijou os cabelos da filha. — Quer uma água, alguma outra coisa?
Posso ir buscar.
— Água me parece bom.
— Volto logo. — Ela se levantou, e Alice simplesmente se transferiu
do ombro da mãe para o meu. Minha garota estava tão apática, tão triste e
quebrada, que me partia o coração não ser capaz de fazer nada para ajudar.
— Eu amo você, viu? Amo com todo meu coração, você é meu tudo,
Alice. — A envolvi, fazendo carinho em suas costas.
— Eu também te amo. Você não fugiu, nem hoje nem nunca...
obrigada, por estar do meu lado. Ajuda muito saber que nem no meu pior
momento eu estou sozinha.
— Você nunca vai estar sozinha, minha deusa. Vou sempre estar ao seu
lado, presencialmente ou não, sempre vou estar com você. Seu bem estar é
minha maior prioridade.
— Eu te amo. — Ela fungou baixinho, me abraçando e se encolhendo
no meu peito, fechando os olhos daquele jeitinho que eu sabia que ela estava
ouvindo meu coração bater. A mãe dela voltou com a água, e ela se afastou
dos meus braços, pegando a garrafinha e tomando um gole, depois outro.
— Quer assistir a alguma coisa, até o médico chegar? Aposto que eles
têm algum canal com filmes bobos aqui — ofereci, pegando o controle da tv
ao lado da cama.
— Se encontrar algum desenho... — Ela dobrou as pernas sobre a
cama, abraçando os joelhos, apoiando o queixo neles após puxar o cobertor
fino para os cobrir. Assenti, ligando a tv e procurando, até que encontrei um
canal infantil, que estava passando um filme da Barbie. Ela não sorriu, mas
seus olhos clarearam um pouco quando viu, e ficamos assistindo um pouco,
até que o homem gordinho de meia idade apareceu na porta, dando uma
batidinha.
— Com licença, acho que estou no quarto certo. Sou Paul Travis, o
psiquiatra. Vocês são Hector e Alice? — Me levantei, estendendo uma mão
para ele num cumprimento, assentindo.
— Nós mesmos. E aquela é Catarina, mãe de Alice.
— Boa noite. — Ele assentiu para ela, apertando minha mão e se
aproximando devagar da cama, parando a alguns passos. — Alice, não é?
Pode me chamar de Paul, ou Dr. Travis, ou como preferir. Estou aqui para te
ajudar, ok?
— Boa noite. — Ela assentiu, o olhando.
— Muito bem. Vou pedir que sua mãe e seu namorado saiam para
conversarmos, certo? Ou prefere que eles acompanhem? — Ele tinha uma
voz calma e paciente.
— Se não for problema, eu prefiro que fiquem.
— Certo, sem problemas, faremos do jeito que te deixar mais
confortável. Posso me sentar aqui? — Ele indicou uma das poltronas, a que
eu estava mais cedo, e Alice assentiu. — Muito bem, Alice. Como tudo isso
começou? Pode contar como preferir, a partir do que achar que é necessário
que eu saiba.
E então ela contou. Contou que era só uma menina quando tudo
começou a dar errado, contou tudo o que já tinha me contado e alguns
detalhes que eu ainda não sabia, detalhes do tipo de bullying que faziam com
ela. Coisas como empurrarem a porta do banheiro que ela estava e saírem
correndo, ou a perseguirem e atacarem fisicamente. Isso explicava porque ela
ficou tão abalada com o comportamento da tal Isabella, o trauma dela era
mais pesado do que eu sabia.
Fiquei em silêncio, apertando seu ombro em encorajamento enquanto
ela falava. Seus olhos se encheram de lágrimas quando ela contou que
recentemente tudo estava perfeito, e que ela não queria que tivesse acontecido
o que aconteceu hoje. Ele apenas a ouviu, assentindo algumas vezes e
fazendo perguntas para esclarecer uma dúvida ou outra que tinham surgido,
até que ela acabou de falar.
— Bem, Alice, você realmente tem traços muito fortes de borderline,
depressão crônica e ansiedade, que é a que está no grau mais leve dos três. Eu
vou fazer uma sugestão, e é inteiramente sua escolha aceitar ou não, ok? —
Ela assentiu, quietinha. — Você já considerou ser voluntariamente internada
por algumas semanas? Duas, de início, e aumentaríamos, caso fosse
necessário. Estou sugerindo isso, pois parece que você precisa se desintoxicar
do que te fez mal, e aprender a reagir aos gatilhos sem descontar em si
mesma.
— Me internar? — ela repetiu, o tom de voz surpreso. Eu também tinha
me surpreendido, mas à medida que ele falava, ia fazendo sentido. Ela talvez
realmente precisasse se afastar um pouco de tudo que a machucou.
— Sim. Na Be a Light temos ótimos programas, mas vou continuar seu
tratamento da mesma forma, caso prefira uma outra clínica.
— Eu não... nós não temos como... — Ela olhou para a mãe,
procurando uma confirmação, e eu me intrometi.
— Eu cuido dos custos. Faço isso por você, por nós. Quero que fique
bem, minha deusa, preço nenhum seria caro demais se a recompensa for seu
sorriso de volta. — Ela se virou para mim, espantada, mas assentiu uma vez,
se voltando novamente para o Dr. Travis.
— Quando? E o que faria com as minhas aulas, meus ensaios?
— Poderíamos começar amanhã mesmo, se assim quiser. Posso
providenciar um atestado oficial para a liberar das aulas e dos ensaios durante
essas semanas. Não entendo muito de teatro, mas tenho certeza de que sua
saúde vale a perda de alguns ensaios, não acha? — Ele deu um sorriso gentil,
e ela suspirou, assentindo.
— Tudo bem... eu posso receber visitas?
— Isso fica estabelecido no seu plano de internamento, mas eu
recomendaria a apenas uma ou duas visitas por semana. Imagino que esteja se
referindo à sua mãe e Hector, certo? — Ela assentiu. — Uma visita de cada
por semana. Você precisa se desapegar do mundo de fora durante esses dias e
focar no seu interior. Podemos discutir melhor os detalhes da internação
amanhã, ou no dia que decidir começar o tratamento.
— Amanhã, se eu já tiver recebido alta daqui. Eu quero melhorar o
mais rápido possível, quero ser normal.
— Começaremos com a questão de que não existe normal, mas
tratamos disso amanhã então. Como você está aqui hoje, não vou passar
nenhuma medicação específica, mas a partir de amanhã você receberá seus
remédios todo dia no horário marcado, está bem?
— Sim, está bem... o que eu posso levar para a clínica?
— Itens de higiene, um pijama que ache confortável, roupas sem
cadarços ou fios. Como você está sendo voluntariamente internada, e está
cooperando, eu vou permitir que leve também um único livro pessoal, que
passará por uma inspeção rápida na sua entrada, para garantir que não tenha
nenhum objeto escondido, ou nenhum tema perturbador. É recomendado que
leve um caderno, de brochura e não arame, para usar como diário. Itens como
joias, eletrônicos, maquiagem e afins não são permitidos. Como você
mencionou que usa lentes, recomendo que leve seus óculos, já que as
soluções e colírios não são permitidos. Se tiver um cobertor, almofada ou
pelúcia que julgar importante, você pode levar, mas esse tipo de item também
é oferecido pela clínica. — Ele acabou a explicação, e Alice assentiu,
provavelmente pensando e considerando pelo tempo que ficou calada.
— Ok. Amanhã eu vou para lá, e começo meu tratamento. Estou
falando sério sobre querer melhorar, não aguento mais o sofrimento que essa
doença causa na minha vida e na dos que eu amo. — Ela suspirou, se
inclinando e deitando a cabeça no ombro da mãe novamente, ainda olhando
para o médico.
— É bom que queira, o tratamento tende a funcionar melhor quando o
paciente está disposto a cooperar. — Ele sorriu, se levantando da poltrona e
estendendo uma mão para Alice. — Vou deixar que descanse, e pode
pesquisar no site da clínica ou me ligar caso tenha qualquer dúvida até
amanhã. — Ela apertou a mão dele, que deu um sorriso caloroso e amigável.
— Uma boa noite, para todos vocês.
— Boa noite. Obrigado por vir tão rápido.
— Não precisa agradecer, eu só estou fazendo meu melhor para
diminuir o sofrimento de quem precisa. — Ele sorriu mais uma vez, e saiu do
quarto. Alice se soltou da mãe e veio para o meu ombro um pouco, uma
expressão cansada no rosto.
— Quer dormir um pouco? Foi um dia longo — perguntei, fazendo
carinho em seu ombro. Ela assentiu de leve.
— Promete que vai estar aqui quando eu acordar?
— Prometo. Vou ter que ir em casa trocar de roupa, mas não vai nem
perceber que eu saí. — Beijei o rosto dela, descendo da pequena cama de
hospital para que ela se deitasse, e ela abraçou o travesseiro, se enroscando
em si mesma sobre a cama.
— Durma bem, minha deusa.
— Descanse, filha. Só me diga logo o que quer que eu busque para
você em casa, que eu já trago para irmos direto para a clínica amanhã, que
tal? — Alice assentiu, parecendo pensar por um instante.
— Meu pijama de preguiça e o de ursos, e meus conjuntos de ficar em
casa. Não precisa ser só manga comprida... acho que se tem um lugar que eu
não precisarei me esconder, é esse. E minha almofada de lua. O livro... eu
queria reler Corte de Névoa e Fúria, mas tem alguns momentos bem pesados,
então pode pegar um dos mais jovens, lembra que eu comentei de Percy
Jackson? Pode ser um da coleção. — Ela olhou pra mim quando falou do
livro, e eu assenti.
— Ok. Vamos providenciar tudo enquanto você dorme, e logo
voltamos — a mãe dela garantiu, beijando a testa da filha.
— Espera, eu tenho que tirar as lentes... — Ela se levantou da cama,
perdendo um pouco o equilíbrio, e a mãe a amparou, levando-a até o
banheiro. Esperei pacientemente, até que elas voltaram, e Alice se deitou de
novo, se aninhando na cama. — Boa noite.
Ficamos ali até ela pegar no sono, o que não demorou muito, e ao
sairmos pedimos que uma enfermeira ficasse de olho nela enquanto
estivéssemos fora.
— Não sei se tenho coragem de encarar a casa... a situação que deve
estar o apartamento — Catarina admitiu.
— Eu vou com você. Dividimos um Uber até lá, deixei meu carro na
frente do prédio, e posso te ajudar a separar as coisas dela, e a limpar a
bagunça. Não é justo que nenhum de nós fique sozinho, depois do susto que
passamos — ofereci, e ela aceitou. Chamei o Uber da porta do hospital, e
descobri que a viagem interminável da casa dela até ali na verdade só durou
cinco minutos.
Catarina respirou fundo algumas vezes, antes de abrirmos a porta do
prédio e entrarmos no apartamento. A acompanhei, segurando seu braço
quando ela quase desabou ao ver o estado do banheiro. Eu não tinha
percebido na hora, mais ocupado em ajudar Alice, e agora mesmo tinha até
esquecido das manchas de sangue na minha camisa e na minha calça, mas
aquele banheiro ensanguentado me trouxe de volta à realidade. Engoli em
seco ao ouvir de novo o chorinho de Milady, que devia ter se escondido no
quarto enquanto estávamos fora.
— Onde tem um pano e um desinfetante? Vou te ajudar com isso.
— No armário da cozinha. — Ela sufocou o choro, a voz trêmula, e
caminhou comigo até a cozinha, pegando dois panos, duas escovas e um tubo
de desinfetante, que ela jogou metade do conteúdo no chão do banheiro, e
começamos a esfregá-lo, espremendo o pano no ralo da banheira e
começando de novo, repetidas vezes, até a água sair quase transparente, e o
banheiro não ter mais aquele cheiro metálico de sangue.
Quando acabamos, fomos até o quarto de Alice, e enquanto Catarina
separava algumas roupas, eu olhei a pequena estante de livros. Peguei o
primeiro de Percy Jackson, como ela pediu. Olhei a escrivaninha dela, e achei
um caderninho pequeno estilo moleskine, com só três páginas gastas com
anotações do curso. Tomei a liberdade de arrancar aquelas três páginas,
escrever “eu te amo” na primeira folha e entregar o caderno para a mãe dela
colocar na bolsa, junto com a almofada de lua.
— Tudo pronto? — perguntei, e ela assentiu.
— Sim... você me esperaria tomar um banho rápido, e me daria uma
carona de volta para o hospital? É tarde, e eu não gosto de andar sozinha por
essas ruas à noite.
— Sem problemas, eu espero sim — ela agradeceu, desaparecendo para
o banheiro, e eu me sentei na cama de Alice, segurando uma das estrelinhas
que vieram com a lua. Eu só queria vê-la bem de novo, vê-la sorrir como no
dia que eu a pedi em namoro, como naquele dia que disse me amar pela
primeira vez. Só quero vê-la respirar fundo e gargalhar, como quando
tropeçou no píer.
Aquela noite no lago agora parecia ter ficado há milênios, num mundo
diferente onde não existiam dores nem tentativas acidentais de suicídio. Era
absurdo como tudo podia ir tão mal de uma hora para a outra.
A mãe dela apareceu de volta da porta, dizendo que estava pronta, e
descemos até meu carro. A deixei a porta do hospital e acelerei de volta para
o Upper East Side, parando na primeira vaga que encontrei no Empire, sem
nem me preocupar em ir até a minha vaga de fato. Subi de elevador,
impaciente com a demora. Quando entrei no apartamento Rudy veio correndo
com o rabinho abanando, e eu o peguei no colo.
— Oi, amiguinho. Hoje foi um dia difícil, quase perdemos sua mamãe.
Foi um desespero que nunca querio viver de novo, eu tive tanto, tanto medo
de a perder... não sei viver sem ela, Rudy. — Beijei o focinho dele e o
coloquei de volta no chão, indo para o banho, tirando as roupas sujas de
sangue a as jogando num canto do banheiro. Me deixei chorar mais um
pouco, o desespero do dia todo me consumindo, e saí do banheiro, vestindo
uma calça qualquer e uma camisa de botões. Parei apenas para comer um
sanduíche improvisado, sentindo meu peito se apertar ao lembrar dos queijos
quentes que ela havia feito naquela manhã enquanto brincávamos sobre um
laço de parceria.
Saí do apartamento, deixando uma quantidade generosa de água e ração
para Rudy, e voltei para o hospital. Quando cheguei lá, Alice ainda estava
dormindo, com a mãe cochilando na poltrona do lado. Me sentei na outra
poltrona, e quase nem cochilei, velando o sono da minha garota como se ela
pudesse desaparecer a qualquer momento.
Eu acordei me sentindo estranha, mas qual seria a outra opção ao
acordar depois de quase morrer? Eu ainda sentia um peso absurdo no peito,
um medo sobrenatural do que podia ter acontecido. Eu nunca me esqueceria
da visão que tive, dois cortes grandes em cada pulso, abertos e se enchendo
de sangue antes de começar a pingar, escorrendo pelo meu braço e pela
lateral da banheira. E no momento em que eu tentei me levantar, no momento
que eu entrei em pânico e ia procurar ajuda, a força simplesmente me faltou.
Se Hector não tivesse chegado, se ele não tivesse sentido que eu precisava
dele... eu nem estaria mais aqui. E teria partido os corações, dele; da minha
mãe; da minha vó e do meu pai.
Olhei em volta no quartinho de hospital, Hector estava cochilando na
poltrona do meu lado esquerdo, minha mãe na do direito. Suspirei, baixinho,
e comecei a pensar em como seria ir voluntariamente para uma clínica
psiquiátrica. Eu estava com medo, sem saber como funcionaria por lá, sem
saber o que aconteceria enquanto estivesse lá. Seria estranho me distanciar do
mundo inteiro, simplesmente deixar tudo para trás e focar em mim.
Estava preocupada com os ensaios que perderia, e talvez até me
tirassem do papel de Bianca, mas eu não me importaria com isso agora.
Precisaria me concentrar em ficar bem, no meu tratamento. Era estranho,
saber que eu seria praticamente presa em algumas horinhas, mas aquela parte
racional e antiga dentro de mim sabia que isso era necessário. E o médico
tinha sido tão simpático, com sorrisos e acenos amigáveis, abrindo uma
exceção para que eu levasse um livro de casa, me deixando confortável ao
permitir que mamãe e Hector ficassem no quarto enquanto eu contava meu
histórico. Ele de cara já era diferente de Ronald, que apenas me encarava e
digitava coisas no laptop dele. Eu ainda não conseguia acreditar que ele tinha
abandonado meu caso logo após o que aconteceu ontem...
Afastei os pensamentos tristes, sem querer me focar na parte ruim, com
medo de ficar mal de novo. Não podia me deixar cair naquele poço, teria que
ser bem firme daqui pra frente, pra evitar que o que aconteceu ontem se
repetisse.
Olhei para Hector, cochilando com o pescoço dobrado naquela poltrona
que deveria ser bem desconfortável, e me lembrei do desespero que vi nos
olhos dele ontem. Eu sabia que ele estava tentando ser forte na minha frente,
e ficava grata por isso, pois a força dele me ajudava a ficar forte também, mas
eu não deixei de notar os olhos inchados e avermelhados. Ele tinha chorado, e
muito. E minha mãe então, o coração dela tinha se despedaçado. Minha quase
morte tinha machucado demais as duas pessoas que eu mais amo nesse
mundo, e que mais me amam de volta. E era por eles que eu começaria esse
novo tratamento, era por eles que eu começaria a cuidar de mim mesma.
Nunca mais queria ver aquela expressão de desespero nos rostos deles.
Sentei na cama, respirando fundo, analisando os curativos nos meus
braços. Eu estava sem lentes, então não consegui ver bem, mas os curativos
estavam bem apertados, e cutuquei o esquerdo de leve. Doeu. Respirei fundo,
me levantando da cama, um pouco desestabilizada por estar deitada há tempo
demais, e andei até o banheiro. Quando saí, Hector estava acordando. Ele
piscou algumas vezes, abrindo os olhos, enquanto eu subia de volta na cama.
— Oi — murmurei, ainda envergonhada de tudo o que tinha feito. Ele
estendeu uma mão pra mim, que eu segurei, e beijou meus dedos.
— Oi. — Ele forçou um sorriso, que me pareceu triste, e veio se sentar
do meu lado, igual ontem. — Como está se sentindo?
— Culpada. Estranha. Eu... eu sinto muito, de verdade. Não queria ter
machucado vocês também. — Encostei minha cabeça no ombro dele, naquele
cantinho da curva de seu pescoço que era só meu.
— Está perdoada, meu amor. Eu sei que não fez por mal, que teve uma
crise. E as coisas que levaram a isso...Eu sinto tanto, minha deusa. Você não
merecia passar por tudo isso. — Ele envolveu minha cintura com carinho,
falando baixo para não acordarmos minha mãe. — Preparada para ir para a
clínica hoje? Trouxemos tudo na sua bolsa. Almofada de lua, roupas
confortáveis, um caderninho que encontrei na sua escrivaninha, seus óculos.
Sua mãe colocou até aquele seu shampoo com cheirinho de sobremesa. E eu
coloquei o primeiro livro de Percy Jackson.
— Obrigada. Significa o mundo pra mim, ter o apoio de vocês dois
nesse momento horrível da minha vida. Mas eu prometo que desta vez vou
melhorar de verdade, que vou lutar contra isso. Eu só quero ficar bem de
novo, sabe. Voltar a ser a garota que eu poderia ter sido se não tivesse
passado por tantas coisas ruins.
— Você vai conseguir. Eu vou estar ao seu lado, agora e sempre, minha
deusa. Eu amo você. — Ele beijou meu cabelo, e eu me aninhei mais nos
braços dele, respirando fundo e sentindo seu calor à minha volta, me
envolvendo e protegendo, me mantendo em segurança.
Minha mãe acordou e deu um sorriso aliviado ao me ver ali, nos braços
de Hector.
— Bom dia, querida. Como está se sentindo?
— Estranha, e um pouco culpada por tudo o que aconteceu. Mas vou
ficar bem, o tratamento novo começa hoje. — Ela deu um sorriso desanimado
e veio fazer um carinho nos meus cabelos. — E estou com fome.
— Vou pedir para a enfermeira se já podem servir seu café da manhã.
Volto logo. — Ela saiu do quarto, e eu continuei aninhada nos braços de
Hector, sentindo meu lar naquele abraço, meu porto seguro neste mundo
horrível e doloroso. Eu só queria que as últimas vinte e quatro horas não
tivessem existido, que eu abrisse os olhos e fosse ontem de manhã ainda. Que
eu pudesse evitar tudo isso que aconteceu.
Minha mãe voltou alguns minutos depois, seguida por uma enfermeira
que trazia uma bandeja, que deixou na mesinha de apoio ao meu lado e saiu.
Me sentei direito, pegando a bandeja e a trazendo para o meu colo, sentindo
meus pulsos doerem ao carregar o peso. Eu realmente tinha exagerado na
profundidade.
Na bandeja tinham duas torradas, uma rosquinha, um potinho com
geleia e um com cream cheese, e um suco de laranja numa garrafinha. Era
melhor do que eu esperava de um hospital, mas suspeitei que devia ter
alguma influência de Hector ou da minha mãe nisso.
— Se essa rosquinha tiver recheio de chocolate, eu vou querer ficar é
neste hospital — arrisquei uma tentativa de brincadeira, dando um sorriso
meio sem jeito. Como se sorria? Eu não parecia mais lembrar depois de
ontem.
— Vou torcer pra ser de morango. — Hector deixou uma mão
casualmente em volta da minha cintura, e minha mãe balançou a cabeça, mas
eu senti que eles respiraram mais profundamente depois da minha tentativa
falha de ser normal. Eu realmente precisava de um tratamento novo.
Comecei a comer devagar, mordendo a rosquinha. Olhei para Hector
quando o recheio de morango apareceu, e ele deu um ar de riso. Acabei meu
café, abrindo a garrafinha de suco e tomando um gole.
— E então... prontos para me deixar na clínica? — perguntei, achando
aquilo estranho. Eu nunca tinha ficado longe de todas as pessoas que eu
considero meu porto seguro por tanto tempo quanto ficaria agora. Duas
semanas.
— Não totalmente, mas sei que você precisa disso. — Hector me puxou
para seu ombro de novo, logo depois de eu deixar a bandeja na mesinha. —
Vou sentir sua falta.
— Nós dois vamos. — Minha mãe se aproximou, segurando uma de
minhas mãos. — Sempre detestei te deixar ir.
— Eu sei. Você chorou mais do que eu quando eu fui passar aquele
mês com a vó na Louisiana, uns anos atrás... já ligou pro papai?
— Você é meu bebê. E, sim, já falei com ele. Esperei até estar tudo
resolvido para dar a notícia, o acordei no meio da madrugada. Ele surtou um
pouco, mas ficou aliviado que você já esteja fora de perigo. — Eu percebi
que ela não disse que eu estava bem. Eu realmente não estava. — Ele disse
que vai tentar antecipar a passagem, mas que já tinha marcado pra vir à sua
grande apresentação em junho.
— Diga a ele que não precisa. Eu prefiro que ele me veja em junho,
quando eu já estiver melhor e mais estabilizada. Não quero que ele me veja
assim, você sabe que papai é emotivo, não vai dar certo ele vir agora. — Eu
podia estar no mais fundo dos poços, mas ainda precisava pensar
racionalmente.
— Bill realmente é emocionado. — Mamãe sorriu pela primeira vez
desde ontem, um sorriso pequeno, mas estava lá. — Vou ligar para ele então.
Volto logo. — Ela apertou meus dedos um pouco e saiu do quarto, pegando o
celular. Hector continuava fazendo carinho na minha cintura, e subiu a mão
para os meus cabelos.
— Amo você — ele sussurrou, me fazendo querer me aninhar mais
nele.
— Também te amo. Promete que vai gastar suas visitas nos dois
domingos? São nosso dia.
— Garota esperta, eu ia te surpreender com isso. — Ele beijou meu
cabelo, passando um segundo braço a minha volta e me abraçando como se
eu fosse uma pelúcia. — Fico tão aliviado em te ter aqui nos meus braços.
Não quero que se sinta culpada, você não teve culpa do que aconteceu, mas
eu tive tanto medo de te perder... foi como se um pedaço enorme de mim
estivesse se quebrando. — Ele se afastou um pouco para me olhar nos olhos,
e eu vi que os dele estavam marejados. — Você é minha vida, Alice. E eu
não consigo viver sem minha vida.
— Eu não consigo viver sem minha vida, não consigo viver sem minha
alma — recitei, vendo o olhar dele. — Ventos Uivantes. Não somos nada
tóxicos, e só eu sou surtada, mas essa frase se encaixou bem agora. — Eu
queria dar um sorriso pequeninho, mas não consegui.
— Eu reconheci. É meu filme preferido, lembra? — Ele se inclinou,
beijando minha testa. — Minha linda, amada e preciosa Alice. A deusa que
me atingiu com força total, que arrancou meu coração de disse “agora é
meu”. — A voz dele soou um pouquinho mais leve, como se finalmente
começasse a acreditar que eu não estava mais desaparecendo de sua vida.
— Foi uma troca justa, seu coração pelo meu. — Me aninhei no ombro
dele de novo, respirando fundo. — Que horas são?
— Nove horas.
— Eu deveria já ir me arrumar para ir pra clínica, né?
— Provavelmente. — Ele beijou meus cabelos de novo, se afastando e
me soltando, parecendo relutante em fazer isso. — Suas roupas estão na
bolsa.
— Já volto. — Me levantei da cama, agora sem cambalear, e peguei a
bolsa, entrando no banheiro. Vesti uma blusa rosa, sem me importar mais
com as mangas, não fazia sentido pra onde eu estava indo, e uma calça jeans.
Percebi que minha mãe não tinha colocado as de moletom que eu usava para
sair, e lembrei que elas tinham cordões. Ah.
Saí do banheiro, colocando a bolsa no chão do meu lado. Minha mãe já
estava de volta no quarto.
— Pronta para ir, querida? — ela me perguntou, e eu assenti,
respirando fundo.
— Pronta. Assustada, nervosa, mas pronta. Preciso disso, desse tempo,
tanto quanto preciso respirar... eu quero ficar bem, por mim e por vocês. —
Peguei a bolsa de novo, e Hector veio tirar ela das minhas mãos, beijando
minha testa. — Eu já recebi alta?
— Como está indo daqui para outra clínica, sim. O Dr. Travis assinou
ontem um termo para te liberar numa alta antecipada, e eu acabei de
confirmar tudo — minha mãe explicou, e eu só assenti.
Entrelacei meus dedos aos dela, querendo aproveitar aquele tempinho
que ainda tinha com a minha mãe do meu lado, e descemos pelo elevador até
o estacionamento, seguindo para o carro de Hector. Respirei fundo, entrando
no banco do passageiro, e minha mãe foi atrás, carregando minha bolsa no
colo.
— Eu... posso ligar a rádio? Me despedir das minhas músicas — pedi, e
Hector assentiu.
— Claro que pode.
Liguei o rádio na mesma estação das outras vezes, ouvindo o som de
Rumour do Lee Brice começar. Quase sorri, fechando meus olhos e sentindo
a música. Nunca tinha reparado muito na letra, mas ela agora me lembrou de
Ethan e Nicole. Eu adicionaria isso à minha nova lista de motivos para não
morrer: saber quem ganha a aposta sobre eles. Tocaram mais duas músicas e
meia, além de um comercial, e então o carro parou.
Abri os olhos, vendo a estrutura similar a um hospital à minha frente.
Era um prédio de tijolinhos, com janelas enormes de vidro, e totalmente
cercado por grades altas, como uma prisão. Eu sabia que não era para me
prender, era para manter o mundo do lado de fora, mas ainda assim tive uma
sensação estranha.
Hector desceu do carro, vindo abrir a porta pra mim e pra minha mãe,
pegando minha bolsa. Andamos até a porta, onde uma moça simpática sorriu
para nós.
— Bom dia, bem-vindos à Be a light, me chamo Denise, em que posso
ajudá-los hoje? — Ela não encarou as marcas óbvias e as ataduras nos meus
braços, em vez disso manteve o olhar em meu rosto.
— Eu vim me internar. Alice Rogers, falei com Dr. Travis ontem — me
apresentei, sentindo aquele peso de nervosismo no fundo do estômago. Era
como borboletas, mas pior.
— Ah, claro querida, fomos avisados para lhe aguardar. Seja bem-
vinda. Deixe que eu pego sua bolsa, o doutor avisou os itens proibidos? —
Assenti. — Muito bem. — Ela olhou para Hector e para minha mãe. — Vou
deixar que se despeçam, me avise quando estiver pronta.
— Ok. Obrigada. — Ela se afastou, levando minha bolsa consigo, e eu
me virei para Hector e mamãe, meus olhos marejando. — Então é isso.
— Vou sentir sua falta, minha filha. — Mamãe me abraçou, me
esmagando um pouco, e eu me aninhei nos braços dela, procurando aquele
calor de mãe que só ela tinha. — Se cuide, ok? Peça para me ligarem
qualquer coisa, e se concentre em ficar bem. Vamos torcer por você, e
viremos visitar nos dias permitidos — ela prometeu, me apertando mais uma
vez, e beijando minha testa ao se afastar. — Eu amo você, minha menina.
Com todo meu coração.
— Também te amo, mãe. — Senti duas lágrimas caírem, e respirei
fundo, me virando para Hector. Ele tinha uma expressão triste no rosto, quase
de dor, quando me puxou para os seus braços.
— Amo você, minha deusa. Vou sentir saudade todos os dias, minha
vida, meu amor. Fique bem, ok? Lute. Lute por mim, por sua mãe, e
principalmente por si mesma. — Ele me envolvia com cuidado, fazendo
carinho na minha nuca daquele jeitinho só dele, e eu o abracei mais forte,
chorando baixinho.
— Promete que não vai me esquecer?
— Não esqueceria nem em um milhão de anos. — Ele beijou meus
cabelos, se afastando um pouco e segurando meu rosto em uma mão. — Você
é preciosa, mais do que qualquer joia ou valor nesse mundo. Nunca se
esqueça disso. — Ele se inclinou, me dando um selinho demorado, e então
relutantemente me soltou. — Amo você.
— E eu amo você. — Olhei dele para a minha mãe. — Vocês dois.
Dei uma boa olhada nos dois, decorando cada detalhe das duas pessoas
que eu mais amava nesse mundo, e me virei, indo até a moça da entrada,
Denise. Ela me lançou um olhar compreensivo.
— Pense assim, não é um adeus. É só um até breve. — Ela deu um
sorriso simpático, ensaiado demais. — Venha, por aqui. Vamos começar seus
exames, pularemos a conversa psiquiátrica inicial, como já falou com o Dr.
Travis na noite passada, e iremos direto para o exame físico. A Dra.
Montgomery vai cuidar de você. — Comecei a segui-la, me virando para trás
uma única vez, vendo uma outra pessoa do hospital conversando com Hector
e minha mãe, provavelmente sobre a parte financeira da minha estadia.
Segui Denise até uma salinha de consultório, onde uma médica ruiva de
olhos gentis estava esperando.
— Bom dia. Sou a Dra. Montgomery. — Ela estendeu uma mão para
mim, que a cumprimentei por reflexo, tentando não pensar demais.
— Bom dia, doutora. — Denise sorriu para ela. — Essa é nossa nova
paciente, Alice Rogers. Vou fazer a checagem da bolsa dela, e a trouxe para o
exame físico enquanto isso. O teste psiquiátrico já foi feito pelo Dr. Travis,
ontem à noite.
— Certo — a médica assentiu, e Denise saiu pela portinha, me
deixando ali, segurando minhas mãos na frente do corpo, nervosa e sem saber
o que fazer. — Sente-se, querida. Vou fazer algumas perguntas sobre sua
saúde geral, e faremos um exame de sangue, ok? Um check-up de rotina, de
certa forma.
— Ok. — Me sentei na poltrona em frente à mesa dela, olhando em
volta. Eu nunca gostei muito de ir em consultas.
— Seu nome completo é Alice Rogers?
— Alice Caroline Rogers, mas raramente ou nunca uso meu nome do
meio.
— Certo. — Ela digitou isso, erguendo os olhos para mim de novo. —
Idade?
— Vinte e um anos. Meu aniversário é dia quinze de julho. —
Antecipei a pergunta seguinte, e ela assentiu, preenchendo isso também. Eu
me sentia numa espécie de entrevista esquisita.
— Estado civil?
— Namorando.
— Certo... eu preciso perguntar, neste caso, há alguma chance de que
esteja grávida?
— Talvez uma chance minúscula, nunca se sabe, mas eu e meu
namorado usamos proteção todas as vezes. Minha menstruação deve descer
semana que vem. — Só me faltava estar grávida. Respirei fundo, tentando
não me desesperar à toa. — Na verdade, eu gostaria de começar a tomar
anticoncepcional, se puder.
— Certo, posso conferir isso no exame de sangue, e veremos sobre a
pílula, mas fique tranquila, é apenas uma pergunta de rotina. — Ela me deu
um sorriso simpático, e continuou o questionário.
Perguntas do tipo se eu tinha alguma condição física pré-existente, se
eu já passei por alguma cirurgia, se eu tomava algum remédio além dos
psiquiátricos... E depois que terminou as perguntas, ela me examinou, dados
como altura, peso – eu tinha passado de 130 quilos – minha pressão e
batimentos cardíacos. Por fim, ela pediu meu braço, e eu dei permissão para
que tirasse os curativos. Eu mesma estava curiosa para ver embaixo deles.
As quatro cicatrizes, duas de cada lado, foram sendo reveladas. A
maior, no braço esquerdo, tinha um formato irregular, não era totalmente reta,
e eu contei dezoito pontos na mais longa, dez na menor. A mesma coisa no
braço direito, a grandona com quinze pontos, a menor com oito. Estavam
vermelhas, feias. Suspirei, triste.
— Não fique assim, querida. Estamos aqui para lhe ajudar a evitar que
isso se repita, você vai ser muito bem tratada na nossa clínica. Vou tirar seu
sangue enquanto deixo esses cortes respirarem um pouco, e refaço os
curativos, ok? — Assenti, e ela me deu uma palmadinha amigável no ombro,
indo pegar uma seringa com um tubinho no armário e voltando. Fiquei
parada, enquanto ela tirava o sangue, não era a maior fã de agulhas que não
fossem usadas por mim mesma.
Ela separou os dois tubinhos de sangue, colocou um daqueles band-aids
redondos no meu braço, e refez com cuidado os curativos nos pulsos, sem
enfaixar, usando só gaze e esparadrapo. Eu ainda estava chocada que tinha
feito nos dois pulsos, mal conseguia me lembrar claramente de tudo.
— Pronto? — perguntei, esperançosa. Ela sorriu.
— Pronto. E Denise já deve ter acabado com sua bolsa também, então
que tal eu a chamar para te mostrar o lugar? Vi aqui no seu prontuário que
vão ser duas semanas, a princípio. Melhor se familiarizar com os corredores.
— Ela deu outro sorriso, me levando até a porta do consultório. — Seja bem-
vinda, querida. Estamos todos aqui para colaborar com sua recuperação.
— Obrigada.
Ela abriu a porta e Denise estava nos esperando no banco do outro lado
do corredor. Se levantou imediatamente, sorrindo calorosamente para mim.
— E então, tudo certinho? — ela perguntou e a doutora assentiu. —
Muito bem, vamos lá, Alice. Suas coisas já foram levadas para o seu quarto,
vou te mostrar o lugar.
— Ok.
Eu estava falando pouco, ainda tentando me acostumar com o lugar,
com todo o ambiente. Segui ela pelo caminho que ela tomou, observando o
lugar. Os corredores eram meio sem graça, com pinturas de casas de campo
ou cachorrinhos, uma ou outra de um vaso de flor. Tinha uma ampla sala de
TV, onde estava passando algum desenho animado, três salas de artesanato,
além de algumas muitas de terapia grupal e individual. Nos corredores
tinham algumas estantes com livros pré-aprovados, que eu teria que dar uma
olhada quando acabasse o meu. Vi algumas pessoas por onde passei e
ninguém encarou meus curativos por mais que um segundo. Não era nada
extraordinário ou fora do comum aqui.
Passamos pelo enorme refeitório, e depois pela geladeira e o armarinho
de lanches curtos. Por fim chegamos no terceiro andar, os quartos. Eram
vários cubículos de uma ou duas camas, eu tinha ficado em um individual. As
paredes eram num tom de azul-esverdeado, e minhas coisas haviam sido
organizadas por alto ali. Meu livro e meu caderno estavam na escrivaninha,
minhas roupas num armarinho sem porta, e eu vi pela porta aberta do
banheiro que meus produtos de higiene estavam ali.
— Hoje durante o resto da manhã você pode ficar por aqui, e alguém
virá lhe chamar na hora do almoço. Ao lado daquele calendário ali tem os
horários que você seguirá enquanto estiver aqui, de terapias e atividades
ocupacionais. Esperamos que se adapte bem, e que tenha uma ótima
recuperação. Seja bem-vinda, mais uma vez.
— Obrigada. — Forcei um sorriso que não devia parecer simpático, e
comecei a andar pelo quarto assim que ela saiu, observando como era.
A janela dava vista para o jardim por onde eu entrei, e era
permanentemente trancada. O carro de Hector já não estava mais estacionado
ali. Engoli em seco, indo olhar os outros detalhes. As maçanetas eram todas
arredondadas de forma que nada pudesse ser pendurado nelas, o único
gancho de pendurar roupas era de plástico e preso por um imã. Todo o tipo de
prevenção ao enforcamento.
O banheiro tinha uma porta que não fechava, só ficava encostada, e o
chuveiro e torneiras da pia eram no mesmo esquema das maçanetas,
impossíveis de pendurar até mesmo um elástico de cabelo. Era estranho, mas
reconfortante, saber que tinham esse cuidado com os pacientes.
Dei uma olhada no meu horário, vendo como seria minha vida durante
duas semanas. Não parecia ruim.

8:30 – 9am: Café da manhã


9:15 – 9:45am: Grupo de objetivos
9:45 – 10:15am: Organização de quarto e rotina
10:15 – 11am: Grupo de recuperação
11 – 11:30am: Pausa para ar fresco
11:30 – 12:15pm: Terapia individual
12:30 – 1pm: Almoço
1:15 – 2pm: Mecanismos de resposta
2:30 – 3:15pm: Terapia artística
4:15 – 5pm: Tempo livre de TV ou jogos terapêuticos
5 – 6pm: Jantar
6:30 – 7pm: Caminhada no jardim
7:15 – 8pm: Tempo de recreação
8 – 9pm: Finalização do dia e toque de recolher.

Respirei fundo, até que não era ruim, e eu teria algum tempo livre para
cochilar, escrever no meu caderninho ou ler um pouco. Olhei o caderninho na
escrivaninha, abrindo a capa e sentindo meus olhos marejarem ao ver o “eu te
amo” escrito ali e circulado por um coração torto. Fui até a cama que seria
minha durante minha estadia aqui, me sentando. O colchão era duro,
totalmente diferente da minha cama já surrada ou do colchão super macio de
Hector. Por falar nele, peguei a almofada de lua, a abraçando.
E naquele momento eu fiz minha promessa. Eu iria melhorar, por todos
que eu amava e por mim mesma.
O resto da manhã passou rápido, e o almoço também. Pelo que eu tinha
percebido, aqui não era um lugar para fazer amigos, então me sentei quietinha
numa mesa meio afastada. Tinha uma atmosfera parecida com o colégio, mas
ao mesmo tempo totalmente diferente. As pessoas não me olhavam com
julgamentos, simplesmente era cada um focado no próprio prato, umas
pouquíssimas pessoas conversando um pouco enquanto comiam.
Meu almoço hoje tinha algumas opções para escolher, optei por carne
com batatas, e eu dei um sorriso bobo para o prato, minha memória voltando
para o dia maravilhoso na casa do lago. Queria que aquele dia voltasse.
Depois do almoço, eu fui pedindo ajuda para alguns funcionários até
achar a sala de terapia onde eu teria Mecanismos de resposta. Tinham
algumas pessoas sentadas num círculo, e eu escolhi uma cadeira. Parecia uma
reunião do AA, mas de certa forma éramos viciados nos nossos próprios
modos de lidar com a dor. Eu conhecia de perto como era a depressão.
Alguns bebiam para esquecer, outros fumavam, um ou outro se envolvia com
drogas, e eu cortava. Eram formas nocivas de lidar com a dor, vícios
perigosos.
Tinha uma moça numa cadeira que usava um crachá, e ela me deu um
sorriso receptivo. Tentei corresponder, mas meu quase sorriso saiu estranho.
Em poucos minutos a salinha encheu, com pessoas se sentando à minha
direita e esquerda, e então a moça do crachá abriu a boca.
— Boa tarde, queridos e queridas. Temos duas novas adições no nosso
grupo hoje, então vou me apresentar. Me chamo Meredith, sou psicóloga, e
trabalharei com vocês sobre como reagir a gatilhos. Primeiro, vou pedir que
nossas duas novatas se apresentem, por favor. Coisa simples, seu nome, se
esse é seu primeiro tratamento, e caso se sintam confortáveis, podem
compartilhar o motivo de estarem aqui. Esse é um lugar seguro. — Ela olhou
para mim e para uma garota que estava três lugares a minha esquerda. A
garota falou primeiro.
— Boa tarde. Eu me chamo Lyanne, e essa não é minha primeira vez
em uma clínica. Estou aqui porque quase tive uma overdose há alguns dias,
numa recaída.
— Bem vinda, Lyanne. Esperamos ajudar você a se recuperar e evitar
que isso se repita. — E então ela se virou para mim. Engoli em seco,
respirando fundo.
— Boa tarde. Meu nome é Alice, esta é minha primeira vez em uma
clínica psiquiátrica, e estou aqui por causa disso. — Balancei de leve os
pulsos, os curativos me poupando de explicar que quase me suicidei por
acidente, num impulso descontrolado que eu mal me lembrava de ter tido.
— Bem-vinda, Alice. Sei que pode parecer assustador, mas estamos
todos aqui com o objetivo de lhe ajudar a não passar mais por isso. — Ela
deu um sorriso caloroso de boas-vindas, para mim e para Lyanne, e então
começou a falar sobre a terapia de resposta.
O tema se encaixou perfeitamente com a minha situação, traumas do
passado e como reagir quando eles forem trazidos de volta à tona. Foi toda
uma longa conversa sobre mecanismos para respirar fundo e manter a calma
antes que o gatilho tomasse conta de nós. Fizemos exercícios de respiração,
de contar até quinze de trás para frente, coisas desse tipo. Eu nunca tinha
estado numa terapia de grupo antes, e achei interessante a forma como isso
foi trabalhado.
Depois dessa sessão, fui para a sala de arte, que eu achei quase sem
precisar de ajuda, e dei um sorriso quase completo quando entrei no lugar. Eu
sempre gostei de coisas artísticas, não é à toa que queria me tornar atriz, mas
o que quase ninguém sabia é que eu também gostava de desenho e pintura,
por mais que fosse péssima em ambos. Um moço com um crachá escrito
Blake veio falar comigo.
— Boa tarde, você deve ser Alice, certo? — Assenti. — Me chamo
Blake, sou o coordenador desse projeto de artes. Acreditamos que a criação
de um projeto e a conclusão dele podem ser de grande ajuda na saúde mental.
Você já trabalhou com alguma forma de pintura terapêutica antes?
— Não...
— Sem problemas, posso te explicar tudo o que precisar. Temos
algumas opções aqui, como livros de colorir, telas de pintura através da
colagem de pequenas pedrinhas, e telas de pintura por números. Na sala ao
lado, temos também projetos com argila, mas alguns casos não são
aprovados, por causa dos objetos.
— Casos como a garota que quase morreu há menos de vinte e quatro
horas, acertei? — Dei um sorriso amargo, e ele assentiu, com uma expressão
compreensiva. — Muito bem, me fale mais dessas telas de pedrinhas e de
números.
— As de pedrinhas são obras de arte trabalhosas, onde você usa uma
caneta para coletar as pedrinhas, que são como pequenos diamantes, e cola
uma por uma nos locais indicados para formar uma imagem. A pintura por
números é similar, mas usa tinta acrílica comum, e é só ir pintando com as
cores indicadas nos espacinhos. Temos vários modelos das duas opções. —
Ele começou a andar para um canto da sala e eu o segui, pensando. A pintura
com pedrinhas parecia bem interessante, mas eu sempre gostei de tinta. E
tinta me fazia lembrar da Feyre de acotar, e isso me fazia sentir mais
quentinha por dentro.
— Vou querer a pintura com tinta.
— Boa escolha. De tinta, no momento, temos essas opções aqui. — Ele
pegou o que à primeira vista parecia um baralho ou coleção de cartas, mas
eram miniaturas de pinturas genéricas. Fazendas, árvores, casinhas de campo
e flores. Encontrei uma no meio delas de um céu estrelado com uma lua cheia
e uma cidade embaixo, e dei até um sorrisinho pequeno.
— Esse aqui. Me lembrade um livro.
— Perfeito. — Ele sorriu, olhando as caixinhas que tinham no armário
e pegando uma, caminhando comigo até uma das mesas. Ele abriu a caixa,
que continha uma porção de potinhos de tinta, três pincéis de diferentes
tamanhos, e uma tela enorme, totalmente separada em setores com números
neles. Fiquei encarando por um tempinho. — Pra começar, é só escolher uma
cor e ir pintando na parte demarcada. Divirta-se, estarei ali naquela mesa se
precisar de mim. Lembre-se de se concentrar, a arte pode relaxar bastante a
mente.
Assenti, sem saber o que responder, e ele se afastou. Minha tela estava
estendida, e eu olhei os potinhos e os números da tela, me perguntando por
qual começar. Acabei decidindo ir pelos cinzas da lua, era enorme, então
tinha menos chances de começar fazendo besteira. A atividade realmente era
relaxante, o tempo foi passando e eu distraída, até que senti uma batidinha no
ombro, e ergui meu olhar para Blake.
— Já é hora de ir? — perguntei, e ele assentiu.
— Sim, sinto muito. Mas amanhã você pode continuar, vou colocar sua
tela para secar até lá.
— Ok. — Suspirei, fechando meu potinho de tinta cinza escuro e me
levantando, indo até o meu quarto olhar o horário. Eu agora tinha uma hora
livre antes do horário de tv ou jogos, e decidi pegar meu caderninho. Tive
que pedir à enfermeira do corredor por uma caneta ou lápis, e ganhei uma
caneta daquelas de ponta fina, bem do jeito que eu gostava, e um lápis mal
apontado. Nada de coisas afiadas na ala psiquiátrica.
Peguei o caderninho, me sentando na escrivaninha, e decidi fazer uma
lista de razões pra viver. Eu já tinha pensado nisso mais cedo, e fui
começando a lista. Comecei com coisinhas óbvias, e fui ficando mais criativa.

1 – Mamãe me ama
2 – Hector me ama
3 – Papai e vovó me amam
4 – Tenho amigas que sentiriam minha falta
5 – Quero saber quem ganha a aposta de “NicolEthan”
6 – Brian precisa de uma irmã pra lidar com Alec
7 – Os Vanslow também se preocupam comigo
8 – Apresentar “Espelhos” no final do semestre

Oito motivos eram suficientes? Eu acho que sim. Se me lembrasse de


mais algum, eu colocaria depois, mas já eram bons motivos, variados.
Respirei fundo, virando a página e começando a rabiscar uma espécie de
diário, anotando sobre o meu dia até agora, sobre tudo o que eu fiz aqui na
clínica desde que cheguei. Não tinha muito mais o que fazer, e eu não sabia
desenhar sozinha sem alguma base, então o jeito era escrever mesmo. Estava
pensando no que mais adicionar quando uma enfermeira deu uma batidinha
na porta.
— Boa tarde, querida. Desculpe incomodar, mas está na sua hora de
televisão.
— Ah, ok. Já estou indo. — Sorri, me levantando da escrivaninha e
fechando o caderno. Tive que entregar a caneta e o lápis para ela, e segui até
a sala de tv. Dei um sorriso rápido quando vi o que iríamos assistir, aquele
live action do Scooby Doo. Pelo visto, só teríamos conteúdos leves assim,
considerando que mais cedo eu vi que assistiam a desenhos. Não me
incomodei com isso, sempre gostei de desenhos e filmes infantis. São bobos e
alegres, até os mais loucos e absurdos.
Sentei no tapete enorme que tinha no chão, já que os sofás já estavam
ocupados, e assisti ao filme. Era bom, me fazia rir em alguns momentos,
mesmo já tendo assistido mil vezes enquanto crescia. E as risadas, mesmo
que provocadas por algo e não totalmente vindas do fundo do meu peito,
ajudavam bastante a esquecer a dor. Teve um breve momentinho que eu até
esqueci onde estava. Foi rápido, mas me senti bem, e as risadas das pessoas à
minha volta refletiam a mesma coisa.
Não acabamos o filme todo, e continuaríamos amanhã, pois já era hora
do jantar. Me servi de espaguete, pegando meu garfo — nada de facas,
principalmente para pacientes com meu diagnostico e situação — e me sentei.
A garota da minha turma de terapia, Lyanne, se aproximou.
— Posso sentar aqui?
— Claro.
Ela se sentou e comemos em silêncio. Como eu já havia percebido, aqui
não era um lugar para fazer amigos, mas havia uma certa camaradagem no ar,
uma forma de entendimento já que todos estávamos passando por situações
semelhantes. Acabei cedo o jantar, e peguei um potinho pequeno de gelatina
de morango como sobremesa. Ainda tinha algum tempo livre até a hora da
caminhada noturna, então peguei meu livro.
“Olhe, eu não queria ser um semideus”, Percy começou, e eu fui
sentindo aquele calorzinho de recordação da primeira vez que li, quando o
mundo ainda era suave e eu não tinha medo de tudo, nem colocava a mim
mesma em risco. Tinha uma sensação boa de nostalgia, e faziam séculos que
eu não relia Percy Jackson. Mais uma vez e enfermeira precisou me chamar
quando deu a hora, e fui para a caminhada no jardim. Tinham várias
luminárias na trilha pela qual passamos, e era um grupo muito maior que as
outras atividades. Acho que essa era com todos os pacientes juntos no mesmo
horário.
Caminhamos por meia hora, passeando por todo o exterior do prédio
principal. Quando voltamos para dentro, era horário livre.
Era um tempo livre em que, a enfermeira me explicou, podíamos
fazer o que quiséssemos. Ficar em nossos quartos, ler, assistir mais um pouco
de Tv. Algumas pessoas recebiam as visitas nesse horário livre, o horário de
visitação era das seis e quinze da noite até as oito. Um horário estranho, mas
fazia sentido, já que a maioria dos visitantes trabalhava durante o dia.
Escolhi a tv hoje, indo assistir a um pouco de desenho. Estava passando
hora de aventura, e eu gostei disso, era um desenho que eu adorava e tinha
umas mensagens bem profundos às vezes. Fiquei assistindo até o primeiro
sinal de recolher soar. Achei estranho, parecido com um alarme escolar, mas
entendi a necessidade dele. Vi algumas pessoas se levantarem, e perguntei a
um dos enfermeiros o que eu faria agora.
Ele me explicou que essa hora agora era dos remédios, e o tempo até
dormir era para revisar os objetivos do dia, tomar um banho.
Era estranho ter realmente uma fila para receber os remédios, mas eu a
segui, até chegar ao balcão. A moça sorriu pra mim.
— Primeiro dia, não é? — Assenti. — Aqui está. Você tomará esses
dois enquanto estiver aqui, e a Dra. Montgomery pediu que avisasse quando
sua menstruação descer para começar o anticoncepcional.
— Ok. — Peguei o copinho, com um comprimido amarelo pequeno e
um branco meio grandinho, e o copinho de água que ela me entregou junto.
Engoli os comprimidos, achando estranho, mas entendendo a necessidade,
quando ela me pediu para abrir a boca e erguer a língua para confirmar que
eu tinha engolido de fato. Fui liberada para voltar para o quarto.
Eu não tinha objetivos do dia, tinha perdido o horário em que são
definidos, então apenas segui para o quarto, fechando a porta do banheiro que
não fechava totalmente, e ligando o chuveiro estranho. Não saía muita água,
mas deu pra lavar meu cabelo, sentindo o cheirinho familiar de lavanda e mel
se espalhando pelo banheiro. Aquilo me dava uma sensação de lar.
Vesti um dos pijamas que mandaram pra mim, e me deitei. A porta do
quarto não fechava, só ficava encostada como a do banheiro, mas vieram me
explicar que ela tinha que ficar aberta durante à noite. Ok. Estranho, mas eu
entendia.
Abracei minha almofada de lua, pela primeira vez batendo a falta de
casa. A falta da minha cama, sim, mas mais especificamente da cama de
Hector. Depois do que aconteceu ontem, eu não conseguia mais pensar no
apartamento de mamãe como minha casa, mas sim como o lugar onde eu
quase morri. Não sabia como seria voltar pra lá depois do tratamento, mas
acho que teria que me acostumar com a ideia. Por hoje, eu me permiti sentir
falta de dormir aninhada no peito de Hector.

Era domingo. Eu tinha chegado na quinta e já era domingo. Hector


tinha ficado de visitar hoje, e mamãe viria amanhã. Eu teria passado o dia
inteiro ansiosa com isso, mas a rotina me mantinha ocupada. Café da manhã,
objetivos — os meus de hoje eram sorrir de verdade e abraçar Hector —
grupo de recuperação — que funcionava bem melhor do que eu pensei que
seria, era uma espécie de conversa coletiva sobre nossos traumas e todos
podíamos dar sugestões baseadas em experiências.
Na terapia individual, eu conversava com um psicólogo, Henry
Calvman, que estava me ajudando bastante. Eu, nos últimos anos, não tinha
feito nenhuma consulta com psicólogo, só psiquiatras mesmo, mas era
reconfortante ter alguém me escutando e não me dando as soluções, mas me
mostrando o caminho para encontrar elas por conta própria.
O resto do dia foi tranquilo, e logo era de noite, e a ansiedade começou
a bater enquanto fazia a caminhada. E então eu vi os portões se abrindo, e
aquela silhueta que eu tanto conhecia apareceu, olhando em volta. Estávamos
bem longe, e eu não enxergava quase nada mesmo com os óculos, mas na
hora que nosso olhar se cruzou meu coração acelerou.
— Enfermeira Dawson?
— Sim, querida?
— Aquele ali é meu namorado. Eu posso correr e abraçarele? — pedi,
enquanto os portões se fechavam e ele começava a caminhar na nossa
direção. Ela deu uma risada.
— Pode sim, querida.
— Obrigada. — E corri.
Corri até ele, que apressou o passo na minha direção também, e eu me
joguei nos braços dele, quase o derrubando no chão, sendo envolvida naquele
calor maravilhoso que eu tanto amava. Ele cheirou meus cabelos, me
abraçando apertado, e eu não queria soltar nunca. Eu tinha sentido saudade,
todos esses dias sem ter absolutamente nenhum contato com ele.
— Oi — ele murmurou, beijando meus cabelos, se afastando um pouco
e beijando meu rosto.
— Oi. — Abracei ele de novo, beijando seu pescoço e escondendo meu
rosto ali. — Senti saudade.
— Eu também, minha deusa. Eu também. — Ele beijou meus cabelos
de novo e se afastou um pouco, entrelaçando os dedos nos meus. — Vamos
entrar? Quero saber como estão sendo seus dias.
— Vamos. — Apertei a mão dele, andando pelo caminho até o interior
do prédio. Ouvi uma risadinha de duas das meninas, mas não era uma
risadinha maldosa como as que eu estava acostumada. Eram risadinhas
alegres, do tipo que são de admiração.
Caminhei com ele até a sala de visitas, que tinham várias mesas onde
havia algumas pessoas, e eu parei perto de uma delas, olhando em volta e
chamando a enfermeira. Hector ergueu uma sobrancelha, mas eu já tinha me
acostumado com aqueles detalhes.
— Com licença, ele pode se sentar do meu lado, ou tem que ser do
outro lado da mesa?
— Pode ser ao seu lado, querida. Só pedimos que não exagerem no
contato físico, para não constranger os outros pacientes, mas aqui não é uma
prisão. Podem aproveitar a companhia um do outro.
— Obrigada. — Dei um sorriso pequeninho, me sentando e puxando
Hector para ficar do meu lado. Automaticamente deitei minha cabeça em seu
ombro, meu porto seguro, e senti seu braço a minha volta. — Desculpe por
isso, ainda estou me acostumando com as regras.
— Tudo bem, eu entendo. — Ele beijou minha testa. — Como estão
sendo seus dias aqui? Tudo certinho?
— Uhum. Tenho um horário bem certinho pra seguir durante o dia, e
vários tipos de atividades terapêuticas. Conte a Brian que eu estou
aprendendo a pintar, inclusive. É pintura por números, então tecnicamente eu
só estou preenchendo os espaços vazios, mas estou quase acabando uma
pintura de uma lua enorme com uma cidade embaixo. Me lembrou de
Velaris.
— Ele vai adorar saber. Fico feliz que não tenha esquecido de nós —
ele brincou, me fazendo dar um riso bem de leve.
— Jamais esqueceria vocês. Na verdade, vocês todos estão na minha
lista de razões pra viver. Sim, eu fiz uma lista. Sabe qual o motivo número
cinco?
— Qual?
— Descobrir quem ganha a aposta sobre Nicole e Ethan. Inclusive,
juntei os nomes deles, Nicolethan. — Ele riu ao ouvir isso, apertando de leve
meu ombro. — E você é o motivo número dois. O primeiro é mamãe.
— Fico honrado. — Ele beijou meus cabelos, e eu conseguia sentir que
seu corpo ficava mais leve ao meu lado. — Fiquei preocupado, tive medo de
que talvez não se adaptasse bem.
— Foi estranho, mas é fácil de seguir os horários. Meus momentos
preferidos são a terapia de recuperação, a individual, a artística e o horário de
lazer. Nos dois primeiros dias assisti Tv, estávamos vendo Scooby Doo, e nos
dois últimos eu escolhi jogos terapêuticos. Sabia que aqui tem uma salinha
com notebooks? Tem algumas opções de jogos saudáveis, como The Sims ou
uma variedade de jogos de fazenda. Eu escolhi um desses, Stardew Valley.
— E como é? — Ele estava realmente interessado em como estavam
sendo meus dias, e eu amava isso. Amava o quanto ele se importava.
— É naquele estilo de quadradinhos, acho que é oito ou dezesseis bit o
nome, e dá pra criar o próprio personagem. O único objetivo do jogo é cuidar
da fazenda, do jeito que quiser, seguindo as habilidades que quiser. Eu gostei
bastante da pesca e do plantio, enquanto eu jogo nem vejo o tempo passar
direito. — Ergui meus olhos para ele. — E você, o que fez esses dias?
— Trabalhei. Continuamos cuidando do hotel na Flórida, que já está na
fase final do planejamento. Tive que ir em Atlantic City ontem, tivemos um
pequeno problema de polícia no cassino, alguém tentando fraudar as
máquinas, mas tudo se resolveu rápido. — Ele fez uma pausa, se
concentrando. — Ah, Brian pediu pra te contar que ele e Alec conversaram.
Alec está noivo mesmo, mas ele conseguiu manter a calma e aceitar serem
amigos.
— Que pena, eu tinha esperança de que eles fossem ficar juntos. Brian
ainda é muito apaixonado por Alec, qualquer um pode ver.
— Bem, quem sabe, se esse noivado não der certo, eles talvez tentem
de novo. Também torço pelos dois, principalmente por ser a felicidade do
meu irmão em jogo.
— Exatamente. — Deitei no ombro dele de novo, fechando meus olhos.
— Como ficaram as coisas na Lucille? Você ou mamãe resolveram minha
ausência?
— Explicamos que você estava de licença médica, e a parte
administrativa e os professores sabem exatamente que tipo de licença, mas
não contaram aos alunos. Cabe a você decidir, quando sair daqui, se vai
contar ou não onde estava.
— Eu vou. A primeira coisa que aprendi aqui foi a não ter vergonha da
minha doença. Uma pessoa com câncer não esconde o que sofre, e muitos
consideram a depressão como um câncer da alma — expliquei, me
lembrando da minha primeira sessão de terapia de recuperação. — Sei que
posso ser julgada, principalmente pelas Isabellas da vida, mas tenho
esperança de que quando sair daqui vou estar pronta para lidar com isso.
— Quatro dias e já amadureceu assim, me orgulho de você. — Ele
beijou minha testa de novo, dando um sorriso tranquilo.
— Cumprindo meu objetivo aqui. Sabia que fazemos objetivos diários?
O meu de hoje cedo foi sorrir mais e te abraçar. Metade está completo.
— Vou te ajudar a completar a segunda metade. Acho que não seria
apropriado te fazer cócegas, né?
— Nem pensar. — Balancei a cabeça, e ele deu um sorriso.
— Muito bem, então acho que vou ter que apelar para piadas toscas e
um tanto absurdas. Já ouviu a do anão, da colmeia e do burro?
— Já, pesquisei a primeira vez que foi mencionada em Game of
Thrones. E sei uma de uma velha avó e o marido de arrumando pra dormir,
que eu vi em Outlander.
— Essa eu que não conheço. E por falar em séries, continuei assistindo
a True Blood. Já estou no final da quinta temporada, com toda aquela
bagunça de Lillith. — Ele começou a fazer carinho no meu cabelo, e eu senti
meu corpo inteiro relaxar. — E não vou nem comentar sobre a quarta
temporada, aquela Marnie insuportável enchendo a paciência a temporada
inteira. E o sofrimento do Lafayette acabou comigo.
— Acho incrível que nossas opiniões são idênticas. — Dei um sorriso
pequeno, respirando fundo, sentindo o perfume dele.
— Eu andei lendo seus livros também. Comecei por aquela trilogia,
Starcrossed. Cada dia tenho mais noção de onde você aprendeu tudo — ele
baixou o tom de voz —, minha pervertida.
— Hector! — Senti meu rosto esquentar, mas ele conseguiu o que
queria, pois eu dei uma risadinha. — O que achou da história?
— Eu gostei. É bem profunda, mas é linda de se ler. Já estou no
começo do terceiro, Coração Perverso.
— Liam e Elissa, são um dos meus preferidos. Meu sonho é conseguir
comprar a edição autografada pela Leisa. E não, não é um pedido pra que
você faça isso... vou comprar com o dinheiro da aposta, quando eu
obviamente vencer. — Consegui dar um sorrisinho convencido, bem
pequeno, mas estava lá.
— E se não ganhar?
— Eu vou ganhar.
— Convencida. — Ele apertou o braço a minha volta, num carinho, me
fazendo suspirar baixinho.
— Eu tenho fé na vitória, é diferente. — Brinquei, fechando os olhos.
— É tão estranho, já estar me sentindo uma pessoa diferente depois de tão
pouco tempo que eu... — Movi os pulsos, sem querer falar. — Aliás, eu vou
tirar os pontos em alguns dias. Já estão bem fechadinhos, coça de vez em
quando.
— Você já está assim porque você está lutando, minha deusa. — Ele
sorriu, beijando meus cabelos com carinho. — Eu consigo ver nos seus olhos
o quanto você realmente quer isso, o quanto está lutando para melhorar. Fico
orgulhoso de ver isso, de ver seu esforço.
— Você tem tanta fé em mim, mesmo depois de tudo... tem uma
música country sobre isso. Eu sou difícil de amar, eu não facilito, eu sou uma
bola de destruição e você ainda assim me dá várias chances de melhorar e de
reagir, eu não sei se conseguiria se estivesse no seu lugar. — Abracei ele,
inspirando seu cheiro calmo de erva doce, a suavidade que eu tanto gostava
nele.
— Você merece cada pedacinho de amor que eu te dou, e todos mais
que ainda vou dar. Me orgulho mesmo de você. — Ele continuou abraçado
comigo, beijando meu rosto. — Mas então, me conte mais sobre a tal terapia
artística. Você se animou quando mencionou isso.
— Ah, é superlegal. Tem uma tela de pintura numerada, em que eu vou
pintando os espacinhos com a tinta certa, e a pintura vai se formando. Já
estou quase acabando a primeira, devo terminar até amanhã. A próxima
provavelmente vou escolher uma de praia, ou se ainda estiver disponível, a de
um píer num lago. Em homenagem ao melhor fim de semana da minha vida.
— Dei um sorriso pequeno, sem nem perceber direito, mas aquela memória
sempre fazia com que eu me sentisse bem.
— Você pode levar as pinturas embora quando sair? Eu adoraria ver.
— Não sei, mas qualquer coisa podemos descobrir onde comprar esses
kits de pintura numerada. Esses, eu deixo você me dar de presente, mas só
um por mês.
— Finalmente está cedendo, hein? — Ele sorriu, fazendo carinho no
meu rosto.
— Um mimo ou outro não vai me fazer mal — respondi, encostando
meu rosto na curva de seu pescoço. Não queria que ele tivesse que ir embora
daqui a pouco. — Sinto falta de dormir ao seu lado. Eu tenho dormido bem
aqui, melhor do que em casa, mas sinto falta de você sendo meu travesseiro,
fazendo carinho no meu cabelo ou na minha cintura até pegar no sono.
— Também sinto falta de você ao meu lado, resmungando coisas
aleatórias durante a noite, e me enchendo de beijos de manhã. Logo você
estará de alta para continuar o tratamento lá fora, e eu serei o melhor
travesseiro do mundo sempre que me quiser.
— Pra sempre, então. — Sorri, beijando o rosto dele com carinho. Era
mais fácil sorrir com ele aqui, ele me dava motivos para sorrir mais. Eu sabia
que não podia apoiar meu tratamento nele, e esse era um dos maiores motivos
pra o Dr. Travis só ter permitido duas visitas enquanto eu estiver aqui. Eu
precisava me distanciar do que, ou melhor, de quem eu usava de muleta, e me
apoiar em mim mesma. Eu estava começando a entender.
— Por mim, está ótimo. — Ele entrelaçou os dedos no meu cabelo,
fazendo aquele carinho na minha nuca que eu tanto amava. — Rudy está com
saudade também. Posso jurar que ele vai acabar aprendendo a latir a palavra
“mamãe” toda vez que eu falo em você.
— Você fala de mim com Rudy? Coitadinho, tendo que te ouvir
tagarelando por horas e horas.
— Horas e horas? Por acaso, tem alguém me espionando? — Ele riu,
aquele tom suave e brincalhão na voz. O primeiro alarme do toque de
recolher soou, e eu suspirei.
— Hora de ir embora — murmurei, fazendo um bico, enquanto me
afastava um pouco. — Vou sentir saudade.
— Também vou. Mas logo uma semana passa e eu venho te ver de
novo, e depois mais alguns dias e você estará em casa.
— Tomara. — Desejei com todas as minhas forças que eu realmente
conseguisse progredir rápido o bastante para ser liberada com duas semanas.
Esperava que sim. Me levantei da mesa, estendendo uma mão para ele se
levantar também. — Vamos, eu posso te levar até a porta. — Ele entrelaçou
os dedos nos meus, andando comigo até a entrada, que era meu limite. Não
dissemos nada nesse caminho curto, só curtimos aquele restinho de
companhia um do outro.
— Boa noite, meu amor. Vou sentir sua falta, mas sei que está bem
cuidada. — Ele me abraçou pela cintura, e eu o abracei pelo pescoço, na
ponta dos pés.
— Boa noite. Eu amo você, nunca se esqueça disso.
— Só se você prometer que também nunca vai esquecer o quanto eu te
amo. — Ele levou uma mão ao meu rosto, fazendo um carinho e se
inclinando para um beijo rápido. — Até mais.
— Até — sussurrei, vendo-o se virar, e percebi que não dissemos
tchau. Não era mais uma despedida, eu faria questão de não ter mais
despedidas. Era minha promessa: eu melhoraria.
Sábado de novo. Mais alguns dias e eu receberia alta, mais uns dias e
eu voltaria para a minha vida como uma pessoa nova. Eu conseguia sentir a
diferença em mim, e o psicólogo dizia que eu estava mostrando sinais de
melhora. Fui elogiada uma vez por estar cooperando bastante com o
tratamento, e na quarta quando vi o Dr. Travis ele disse que eu estava
progredindo bem.
Segunda, eu acabei o quadro da pintura com números, e comecei outro,
não achei mais o píer nem a praia, então escolhi o de um castelo. Perguntei a
Blake e não, não podíamos levar embora os quadros, mas quando eu fosse
liberada, ele poderia me indicar um bom fornecedor, já que viu o quanto eu
realmente tinha gostado dos projetos. Durante a semana me revezei entre sala
de tv e sala de jogos no horário das quatro e quinze, dependendo do filme que
estivessem exibindo. Assisti Como Treinar o Seu Dragão, e ninguém me
julgou quando chorei no final, não fui a única.
Nos outros dias, fiquei jogando aquele Stardew Valley, minha
fazendinha progrediu bem, já estava na metade da primavera. Teria que
aceitar mais esse mimo de Hector e pedir o jogo, que eu espero que seja
baratinho. Isso aliás era algo que eu tinha trabalhado na terapia individual:
tudo bem aceitar presentes. Eu não tinha motivos para me sentir culpada, não
estava extorquindo Hector, estava deixando que ele mostrasse seu carinho
através de presentes, algo que eu também faria se tivesse a condição que ele
tem.
Havíamos trabalhado muitos desses detalhes sobre mim nas terapias
individuais, e num plano mais geral nas terapias em grupo. Eu havia
aprendido que gatilhos sempre vão existir, mas que vou ter que aprender a
lidar com eles através dos mecanismos de reação para manter a calma e não
ter crises. Sempre que pensava em crise eu olhava para os pulsos, os pontos
tinham sido retirados na quinta. Eu ganhei uma pomadinha pra passar todas
as noites, pra ajudar na diminuição da cicatriz, que tinha ficado torta e
esquisita. Uma coisa que tinha sido trabalhada também foi a percepção das
cicatrizes.
Antes, eu as via como marcas da minha derrota, como provas vivas do
quanto eu fui fraca. Agora eu aprendi que vou ter que viver com elas pelo
resto da vida, que nem cirurgias e processos de remoção as tiram por
completo, que nem tatuagens fazem elas desaparecerem, então eu teria que
aceitá-las como parte de mim. Tivemos um dia completo focado em
autoestima, na terça, que foi quando abordaram isso. Eu agora via minhas
cicatrizes como marcas de guerra. Cada uma representava uma vez que eu
pensei em me matar e não o fiz, que “apenas” me machuquei. Era errado
reagir dessa forma, eu agora sabia disso, e nunca mais repetiria, mas isso não
mudava o passado.
Na terça, minha menstruação desceu, então eu avisei a Dra.
Montgomery e comecei com anticoncepcionais — com a graça de todos os
deuses existentes, eu não estava nem remotamente grávida, o exame de
sangue confirmou antes mesmo de descer. Eu tinha pedido para adicionar o
anticoncepcional no tratamento justamente para ter mais uma coisa para
adicionar na minha “lista de coisas que eu quero viver para fazer”. Tinha sido
divertido fazer essa.

1 – Ver o sol nascer de novo


2 – Ver o sol se pôr de novo
3 – Comer algodão doce no Central Park
4 – Visitar a casa do lago novamente
5 – Apresentar Bianca no final do semestre
6 – Dormir ao lado de Hector de novo
7 – Transar com ele sem camisinha

Eram coisas bobinhas, e eu quase tinha morrido, ficando vermelha


sozinha no meu quarto, ao escrever a última, mas tinha me feito rir baixinho,
então foi ótimo. E, de qualquer forma, ninguém mais iria ler.
Voltando à questão da autoestima, eu agora gostava um pouco mais de
mim. Não era um milagre, eu não tinha passado a me amar do dia para noite,
mas agora eu não me odiava mais. Eu havia encontrado vários detalhes que
eu gostava em mim. Fiz uma lista disso também, percebi que estava fazendo
muitas listas aqui.

1 – Eu gosto do meu cabelo


2 – Eu gosto dos meus olhos
3 – Eu gosto da minha risada
4 – Eu gosto dos meus peitos, mesmo eles sendo grandes demais
5 – Eu gosto dos meus pés

Eram cinco coisas bobas, mas já eram cinco coisas novas comparado ao
“ah, eu talvez curta meus olhos” de antigamente. Eu também já não tinha
mais vergonha dos óculos. Pra ser sincera, eu estava até orgulhosa de mim
mesma, tinha feito bastante progresso.
Agora estava na minha hora livre antes do horário de jogos ou tv, e
estava rabiscando desenhos como corações e florzinhas em volta das minhas
listas. Eu gostava de adicionar um desenho a cada vez que me animava com
algo, e agora eu estava animada com a visita de Hector amanhã, e a de
mamãe segunda. A visita dela dessa semana foi animada, ela tinha notícias de
tia Danny.
Tia Danny era minha tia insana, irmã mais velha de mamãe. Bem,
tecnicamente ela era irmã de consideração, vovó tinha ajudado a criar ela
quando os pais dela morreram, mas era irmã mesmo assim. Ela era mãe das
minhas primas, Beatriz e Breanna, e no momento estava viajando. Quando
mamãe contou à tia Danny o que aconteceu comigo, ela cancelou o voo para
o Canadá — elas tinham mais dinheiro que a gente — e comprou a primeira
passagem de volta pra cá.
Ela era minha tia favorita, me tratava com um carinho enorme, mesmo
quando brigava era porque se importava e queria meu bem. E diferentemente
de Tia Ellen, ela não me julgava nem me condenava pelo meu peso. Tia
Danny era incrível, e eu morria de saudade quando ela viajava, o que era
frequente. Quando não era por trabalho era por lazer.
Mamãe tinha dito que ela tinha trazido lembrancinhas de Vegas e de
Vermont, coisinhas cafonas que ela não me contaria o que era, mas que eu
iria adorar. Eu sorri mais facilmente ao pensar nisso, e hoje, quase uma
semana depois, sorri de novo. Estava dando tudo tremendamente certo até
agora.
Dei uma olhada no relógio e saí do quarto, indo até a sala de jogos.
Passei na de tv antes pra ver o que estavam assistindo, era Shrek. Bem... ah, a
fazenda poderia esperar até amanhã. Me sentei no cantinho do tapete que era
meu por essas duas semanas. Shrek era um filme que eu adorava, e sempre
me acabava de rir com o Burro.
Assistimos, como sempre, até a metade do filme, e o restante seria
amanhã, e eu não consegui conter algumas gargalhadas. Pessoas que tinham
chegado agora olhavam assustadas quando alguém gargalhava, assim como
eu logo quando cheguei, enquanto os antigos sorríamos um para os outros.
Sentíamos orgulho não só do nosso progresso, mas do progresso dos colegas
também. Era bom saber que estávamos progredindo.
Aquela garota, Lyanne, tinha sido liberada ontem. A estadia dela, eu
ouvi uma conversa por alto, nunca era grande. Era controle de crise imediato,
e depois a liberavam. Eu esperava que ela nunca precisasse voltar de novo.
Fui para o jantar, e sábado era o dia de guloseimas, então tínhamos
pizza, batatas fritas e hamburgueres. Peguei uma fatia de pizza, um
hamburguer pequeno e uma porção generosa de batatas. Era bom poder
abusar um dia por semana.
Cheguei na minha mesa, agora dois novatos que entraram quinta
sentavam comigo, e comemos em silêncio como sempre. Eu percebi que
quem conversava era quem tinha colegas de quarto, pessoas que
explicitamente precisavam de conversa para cooperar. Não era o meu caso,
eu sempre me dei bem com o silêncio. Acabei de comer, peguei um sorvete
com balas de gelatina de sobremesa, daquelas em formato de dentaduras de
vampiro, e depois fui para a caminhada.
Estava chegando no jardim quando uma enfermeira me alcançou,
dizendo que o Dr. Travis queria me ver. Fiquei confusa, só deveria ver ele de
novo na terça, mas segui até o escritório. Fui surpreendida ao ver Hector e
mamãe lá dentro.
— Hein? — Foi o que consegui dizer com a surpresa, arrancando uma
risada de Hector, que piscou um olho.
— Também senti saudade — ele brincou, e eu percebi que não era uma
alucinação. Sorri largamente, me jogando nos braços dele, e depois da minha
mãe, abraçando os dois bem forte. O Dr. Travis pigarreou e eu assenti, me
sentando na poltrona livre, os olhando confusa.
— O que está acontecendo?
— Bem, senhorita Rogers, Alice — Dr. Travis começou — eu chamei
seus dois contatos aqui, sua mãe e seu namorado, para conversarmos sobre
sua alta.
— Mas... não é só quarta ou quinta?
— Originalmente, esse era o plano. Chamei vocês três aqui, pois estou
pensando em antecipar, para amanhã ou segunda. — Meu queixo caiu quando
ele disse isso, e ele deu um sorriso que só podia ser de orgulho. — Você
progrediu muito bem, Alice. Você vem cooperando com o tratamento,
tomando a medicação de forma correta, seguindo as orientações dos
terapeutas... claro que o tratamento não terminaria com sua alta, e eu irei
recomendar um terapeuta fora do centro para dar continuidade, mas você
poderia retornar à uma rotina mais comum, na sua própria casa.
— Na minha casa... — Engoli em seco. O lugar onde eu quase morri.
— E se eu não quiser voltar ainda?
— Eu entenderia. Me permite perguntar por que não gostaria de voltar
agora? Seriam só alguns dias de antecipação.
— Porque... — Olhei para Hector de um lado, mamãe do outro, e
estendi as mãos para os dois, que as seguraram imediatamente. Voltei a olhar
para o doutor. — Foi a casa onde eu quase morri. Não sei se me sinto pronta
para ver todos os dias a mesma banheira onde tudo aconteceu, o mesmo
quarto onde tantas vezes eu me machuquei e chorei... eu gostaria de um novo
começo, e é meio difícil isso em casa.
— Ah, entendo. Supondo que tivesse outro lugar para ir, você se
sentiria mais confortável?
— Sim, imagino que sim, mas onde? Não posso pedir para mamãe que
se mude e comece a pagar aluguel, seria irracional e cruel da minha parte.
Acho que talvez eu só precise de mais alguns dias aqui, para me acostumar
com a ideia de que lugares não são ruins, e que posso superar o medo que
tenho de uma banheira ou de um cantinho num quarto.
— Só por dizer isso já me confirma que está pronta para ir. — Dr.
Travis sorriu, e desviou o olhar para Hector, fazendo um movimento
afirmativo com a cabeça. Hector se virou para mim.
— Bem, sobre ter outro lugar para morar... eu e sua mãe estávamos
conversando, e imaginamos que você pudesse se sentir assim. Ela me contou
que muitas vezes, após um surto, você ficava na casa da sua vó, ou dormindo
no quarto dela e não no seu... concluímos que não seria fora do comum isso
acontecer de novo. E estávamos conversando sobre isso com o Dr. Travis, se
você quiser pode ficar comigo por um tempo, até se acostumar com a ideia de
voltar pra casa.
— Hector, eu não poderia pedir que faça algo assim por mim. Estamos
juntos há pouco tempo, não vai ser uma mudança grande demais na sua vida?
— A mudança aconteceu no dia que você ergueu a mão naquela
palestra, de lá pra cá só vem sendo efeito colateral. Eu amo você, minha
deusa, e não me incomodaria nem um pouco em dividir minha vida com
você. Eu sabia que eventualmente faria esse pedido. Não pensei que fosse ser
tão cedo, mas eu estou pronto, e não precisa ser permanente se não quiser,
você pode ficar só pelo tempo que julgar necessário. Sabe que eu só faço o
que te fizer bem. — Engoli a vontade de virar uma bolinha de emoções e me
virei pra minha mãe.
— Mãe, isso está tudo bem com você?
— Vou sentir falta da minha menininha em casa, mas se isso te ajudar a
se sentir melhor, sim. Vai ter que me aturar ligando todas as noites pra saber
do seu dia, e aparecendo do nada pra visitar, mas sim, eu apoio essa decisão.
Sabia no momento que vi vocês juntos pela primeira vez que esse dia ia
chegar, era só questão de tempo, e você sabe que eu sempre te apoiei em tudo
o que te faz feliz. — Mamãe apertou minha mão, sorrindo com lágrimas nos
olhos. — Vá, minha menina. Seja feliz.
— Eu amo vocês — sussurrei, assentindo e me virando de volta para o
Dr. Travis, que nos observava. — Tudo bem, eu aceito começar o processo
de alta.
— Que maravilha ouvir isso! — Ele sorriu, pegando uma pequena pilha
de papéis. — Vou precisar que você e você — ele olhou para Hector —
assinem isso. No seu caso, é um compromisso em sempre tentar melhorar e
nos procurara qualquer sinal de piora, e no dele é o termo financeiro pela sua
estadia.
— Ok. — Peguei a caneta que ele me entregou, assinando Alice C.
Rogers nas linhas marcadas. Dei uma lida por alto, e não era um contrato
formal, e sim uma promessa de que eu ficaria bem. Gostei disso. Hector
assinou os papéis dele, e entregamos de volta ao Dr. Travis.
— Muito bem, agora as suas medicações. Aqui está a receita para as
duas que eu receitei, e a da pílula que a Dra. Montgomery passou. Além
disso, vou lhe dar duas outras receitas: uma para a pomada para as cicatrizes,
e outra para um remédio de emergência. É um comprimido sublingual, que
você só deve usar, caso sinta uma crise grande se aproximando.
— Certo — assenti, vendo-o colocar as receitas num envelope e
entregar não a mim, mas a Hector. Fazia sentido, já que eu moraria com ele.
— Pode arrumar suas coisas, e amanhã a qualquer horário do dia vocês
podem vir buscá-la. Alice fez um progresso imenso, e estou seguro de que
com a continuação da terapia ela em breve estará ainda melhor. Essa é uma
condição que não tem propriamente uma cura, mas que pode ser posta para
dormir, e ficar de forma passiva, guardada e controlada. Estejam cientes
disso, os dias ruins e desanimados ainda irão existir, o importante é como se
lida com eles. — Ele deu um sorriso, e eu assenti mais uma vez. — Bem,
podem ir. Aproveitem o resto do horário de visitação, e amanhã, sua nova
vida começa. Meus parabéns, Alice. Você sobreviveu ao pior.
— Obrigada. — Sorri, sentindo uma onda de emoção, e nós saímos do
escritório, indo até a sala de visitas. Engoli o choro e sorri mais amplamente
ainda, sentindo uma ansiedade que não era ruim. Era normal.
Conversamos sobre os detalhes, Hector passaria no apartamento do
Brooklyn e pegaria as minhas coisas e roupas, e prometeu tentar esvaziar a
bagunça da metade livre do closet, me fazendo rir. Era bom rir, e agora eu
conseguia fazer isso mais facilmente. Eles foram embora quando o horário
acabou, e eu voltei para o meu quarto.
Comecei a organizar minhas coisas na bolsa de volta, vendo meu
caderninho de diário e listas, e sorri para ele. Tinha conseguido, sobrevivi ao
pior momento da minha vida e amanhã estaria voltando ao mundo real. Seria
complicado, mas eu tinha pessoas que me amavam e minha terapia para me
ajudar. Eu não estava sozinha.
Considerei roubar minha pintura de lua, que durante minha estadia aqui
Blake permitiu que eu deixasse na parede do quarto, mas sabia que seria uma
péssima ideia, então apenas a tirei da parede e enrolei de volta. Percebi que
sentiria falta daqui, da rotina organizada, da forma como fui tratada e como
tudo deu certo. Sabia que para algumas pessoas não era assim, mas realmente
tinha sido posta na melhor clínica existente.
Me sentei na cama, vendo o quarto que eu tanto me acostumei, o
colchão duro que me fazia sentir falta de travesseiros, e bateu um frio na
barriga ao pensar que daqui pra frente Hector seria meu travesseiro. Era de
fato um novo começo. E sim, era rápido demais, tudo conosco era assim, mas
ser rápido não é algo ruim. Cada um, cada casal, funciona de uma forma
diferente. E está tudo bem nisso.
Vesti meu pijama e me deitei, sabendo que amanhã começava minha
vida.
Claro que eu estava nervoso com Alice se mudando pra cá, mas não
pelos motivos que se esperaria que eu estivesse. Eu tinha certeza sobre ela na
minha vida, ultimamente minha única certeza era de que queria ela ao meu
lado. Meu nervosismo se devia ao fato de que eu não sabia como ela se
adaptaria. Minha casa era um tanto impessoal, genérica de certa forma — só
não tanto quanto a de Roman.
Pedi à June que de última hora me conseguisse pinturas mais coloridas,
e que descobrisse onde arranjar aquelas telas de pintura numerada que Alice
gostou. Pelo visto, todas as lojas levavam um mínimo de sete dias para
entregar, então peguei logo uma porção de telas que imaginei que ela acharia
interessantes. Alice parecia mais solícita aos meus presentes agora,
provavelmente alguma coisa que falaram na clínica a fez perceber que não
era ruim aceitar presentes e mimos.
Fui um pouco além do limite, talvez, e comprei um notebook novo para
ela. Ela tinha um em casa, mas era um modelo antigo, então tomei a liberdade
de comprar um mais recente, além de um mouse adjacente e aquele joguinho
de fazenda que ela comentou. Eu decorava os detalhes que ela mencionava, e
tinha gravado o nome do jogo. Esperava que ela aceitasse bem.
Também pedi para June me arrumar colchas de cama mais bonitas, cor-
de-rosa e com flores ou com estrelas, como imaginei que Alice fosse adorar.
Ontem à noite tinha passado pela casa dela — ou seria só da mãe dela agora?
— e peguei duas malas com as roupas dela. Peguei também uma caixa com
os livros da faculdade e os pessoais, e uma com alguns poucos bichos de
pelúcia que ela guardava, além de uma Barbie. A mãe dela me ajudou a trazer
as coisas, e deixei as malas do lado do closet. Seria um desafio desocupar o
depósito na metade livre e levar as coisas para o depósito de fato que tinha
nos fundos do apartamento.
June tinha trabalhado excepcionalmente bem, correndo com tudo em
pleno sábado à noite e domingo de manhã, conseguindo tudo que eu pedi e
me prometendo que o restante estaria aqui até eu voltar com Alice. Uma
providência que eu tomaria assim que saísse da clínica, se Alice concordasse,
seria ir ao mercado. Ela estava certa quando dizia que eu não tinha comida
nos armários, e eu sabia que ela gostaria de cozinhar e não viver só dos pratos
de Geralt, por melhor que fossem. Também aproveitei e já comprei hoje os
remédios dela na farmácia aqui perto. Notei que um era um anticoncepcional.
Eu iria buscar ela sozinho, e mais tarde a mãe dela viria junto com a
avó e uma tal tia Danny jantar conosco. Uma pequena comemoração em
família, para qual eu perguntaria a ela se podia chamar meus irmãos todos.
Tinha tomado a liberdade de já convidar Brian, mas precisaria da permissão
dela para os outros que ela ainda não tinha tanta proximidade.
Cheguei à clínica logo cedo, e fui recebido por um enfermeiro que tinha
uma etiqueta de Blake, que sorriu quando eu disse que estava aqui para
buscar Alice.
— Venha, por aqui. E vou te dar uma dica, se a própria Alice não tiver
dito ainda, compre telas numeradas para ela. A garota tem talento para arte.
— Ela disse, e já encomendei algumas ontem. — Sorri, concluindo que
ele seria o responsável pela arte.
— Ligeiro. Mande fazer uma tela personalizada de uma foto de vocês
dois, ela vai adorar a surpresa. — Ele sorriu. — Ela é uma das pacientes que
eu tive que mais cooperou com o tratamento, ela realmente está disposta a
melhorar.
— Eu sei. Fico aliviado que ela esteja lutando, e consegui ver o
progresso nos olhos dela. Não estão mais nublados, estão brilhantes. — E
como se dizendo isso, eu a invocasse, Alice se levantou de um banco onde
estava esperando, correndo pra me abraçar.
— Hector! — ela gritou no meio do caminho, quase tropeçando com o
peso da bolsa que carregava, e se jogou nos meus braços, e eu a abracei
apertado, sabendo que não teria que me despedir em uma hora dessa vez. Ela
se soltou de mim, sorrindo abertamente, e viu quem estava do meu lado. —
Blake! Contou a ele que eu quase roubei a pintura de lua?
— Deixei que você mesma contasse. — Ele riu. — Boa sorte lá fora,
menina. Seja feliz.
— Vou ser. Posso te dar um abraço? — Ele riu e assentiu, e ela o
abraçou bem forte. — Diga a todos que eu agradeço bastante pela forma
como cuidaram de mim. Eu não estaria tão bem se não fosse por vocês. —
Ela se afastou dele e veio segurar minha mão, com o sorriso firme no rosto.
— Vou dizer. Tenham uma boa vida, vocês dois. — Ele se despediu e
seguiu para dentro, e eu me virei para Alice, pegando a bolsa e começando a
caminhar com ela para a entrada.
— Pronta?
— Prontíssima. — Ela sorriu, apertando meus dedos com carinho,
encostando a cabeça no meu ombro. — Senti sua falta. Foi estranho ficar sem
falar com você todos os dias... mas entendi a necessidade. Eu precisava me
desapegar um pouco, começar a apoiar minha melhora só em mim mesma e
não depender de você e de mamãe.
— Amadureceu tanto... — Dei um sorriso orgulhoso, caminhando com
ela até o carro, deixando a bolsa no banco de trás e abrindo o da frente para
ela. — Faço questão de te contar antes que descubra, o carro já está
programado na rádio country. Era minha forma de matar a saudade, ouvir
suas músicas. — Sorri, indo tomar meu lugar como motorista enquanto ouvia
a risada dela preenchendo o carro.
— Fico feliz de ter te transformado num cowboy. Vou arrumar um
chapéu pra você assim que puder — ela brincou, me fazendo sorrir ao ver o
quão mais animada ela estava. O progresso dela era palpável.
— Pode comprar as botas também. Dou até um jeito de colocar um
cavalo no apartamento. — Sorri, piscando um olho e saindo do
estacionamento. — Aliás, me deixe te perguntar uma coisa. Se incomodaria
de passarmos no mercado antes de irmos para casa? Eu posso pedir para June
fazer as compras em vez de nós, mas fiquei em dúvida se você iria querer ir.
Sabe, estava certa quando disse que eu precisava de comida nos armários.
— Podemos ir, sim, sem problemas. Parece fazer séculos desde a
última vez que pisei em um mercado, vai ser bom escolher o que comer. E
finalmente vamos pôr aquele seu fogão caro em uso, hein?
— Sim, mas não hoje. Já encomendei o jantar com Geralt, sua mãe,
avó, tia Danny — ela fez um barulhinho feliz — e Brian vão nos encontrar
para o jantar. Inclusive, queria saber se me permite convidar meus outros
irmãos também. Não quero te sobrecarregar com muita gente. — Virei na
direção do mercado mais próximo, de acordo com o GPS do celular.
— Hector, eles estavam lá quando tudo aconteceu, eles são bem-
vindos. São família, inclusive, estão na minha lista de motivos para viver.
“Os Vanslow também se preocupam comigo”. Eles me aceitaram de braços
abertos e não me julgaram, então eu os aceito também. — Ela realmente tinha
amadurecido, mudado enquanto estava na clínica, e eu não podia estar mais
orgulhoso.
— Fico tão feliz de te ver pensar assim. De aceitar ser parte do meu
mundo. — Soltei uma mão do volante, segurando a dela.
— Eu te amo. E seu mundo é parte de você, então eu o amo também.
— Ela sorriu, enquanto eu estacionava na esquina do mercado, era pertinho
da clínica.
— Muito bem, senhorita que me ama, me ensine a abastecer uma casa.
— Com prazer. — Ela sorriu, e descemos do carro, atravessando a rua e
entrando no mercado. Não era um Walmart gigantesco, era um mercado de
bairro razoavelmente grande, imaginei que ela gostaria mais desse. Quando
entramos ela fechou os olhos, respirando fundo e dando um sorriso. — Senti
falta de uma rotina normal.
— Imaginei. Vamos, eu pego o carrinho. — Me adiantei para a fila de
carrinhos, pegando um e começando a empurrar, seguindo os corredores por
onde ela ia. — O que primeiro?
— Vejamos... em casa você só tem queijo e pão, né?
— Talvez um único ovo também, e geleia.
— Uma vergonha, você é uma vergonha. — Ela riu, me guiando pelos
corredores. — Começaremos com o básico então. Mais pão, leite, ovos no
plural... — Ela ia seguindo as setas dos corredores enquanto falava, e eu a
observava em silêncio enquanto adicionava coisas no carrinho. — Farinha,
açúcar, sal... Deus, como é estranho ter que abastecer uma cozinha inteira, e
não só algumas coisas.
— Tecnicamente falando eu tenho uma cozinha abastecida, vinte e
cinco andares abaixo do apartamento. — Fiz graça, e ela me encarou, séria.
— Ok, você venceu, eu sou uma vergonha quando se trata de cozinha. — Ri,
e ela balançou a cabeça enquanto dava um sorrisinho, voltando a adicionar
coisas no carrinho.
Passamos pelo corredor de cereais e ela pegou duas caixas de um de
chocolate que vinha com marshmallows, dando de ombros quando eu ergui
uma sobrancelha.
— Algumas besteirinhas são essenciais, ok?
Ela colocou tudo o que se precisa para manter uma casa por um mês, de
acordo com a própria, além de coisas mais aleatórias. Numa hora estava
pegando frutas e verduras variadas, e depois estava enchendo o carrinho com
pacotes de cheetos e chocolates, me fazendo sorrir enquanto via o jeitinho
dela. Ela as vezes parecia estar dançando, girando nos calcanhares para pegar
uma coisa ou outra... eu podia ver que minha garota tinha mudado um pouco,
que estava com o espírito mais alegre. Eu estava orgulhoso dela.
Carnes, ingredientes para doces como canela e baunilha, sucos e
refrigerantes de lata. Ela pegou até uma lasanha congelada, e quando
chegamos no caixa o carrinho estava cheio até em cima, e precisei comprar
algumas daquelas sacolas reutilizáveis. Que deus me protegesse de ter que
carregar mil sacolinhas pequenas de plástico, o peso seria o mesmo, mas
sacolas grandes seriam mais fáceis.
Fomos acompanhados até o carro por um funcionário simpático do
mercado, que nos ajudou a colocar as compras no porta-malas, e eu dei uma
gorjeta de vinte dólares para ele, foi a primeira nota que achei.
— Pronta para ir pra casa?
— Pronta. — Alice sorriu, enquanto eu ligava o carro. Ela aumentou o
volume do rádio, dando um gritinho animado. — Estão tocando Dixieland
Delight, na rádio! Isso não deve acontecer há séculos — A música tinha uma
sonoridade antiga, devia ser um country clássico.
— De quando é isso?
— Dos anos 80. — Ela deu um risinho, fazendo uma dancinha que
quase tirou meu foco da estrada. Eu teria que me lembrar de dançar mais com
ela, e não só quando estivéssemos no carro.
Estávamos chegando ao hotel quando começou a tocar Whiskey
Glasses, que eu já tinha decorado uma parte. Essa música era bem popular na
rádio. Estacionei na minha vaga, pegando as duas sacolas mais pesadas, e
Alice pegou as outras duas. Ela fez uma careta, mas carregou até o elevador,
as soltando no chão dele.
— Tinha esquecido como era carregar peso — ela resmungou,
balançando a cabeça.
— Podíamos ter chamado algum assistente do hotel pra nos ajudar. Vou
mandar comprarem um carrinho de compras pra deixar aqui, pra quando for
necessário.
— É um ótimo plano. — Ela sorriu, pegando as sacolas do chão quando
chegamos no vigésimo quinto e saímos do elevador.
Eu raramente trancava a porta de casa, tinha segurança de sobra, então
apenas abri o trinco, e Alice só teve tempo de colocar as sacolas na entrada
antes de Rudy pular nos pés dela, latindo e abanando o rabinho.
— Bebê! Senti tanta saudade sua meu fofucho, a mamãe voltou,
uhum, voltei sim. — Ela se ajoelhou no chão, abraçando o cachorro e
enchendo ele de beijos, abraçando-o como se fosse um bebê.
— Ele também sentiu saudade. — Sorri, vendo aquela cena, achando
incrível a forma como até meu cachorro se alegrava mais na presença dela.
Ele encheu as mãos dela de lambidas, me fazendo rir, contagiado pela alegria
dos dois.
— Lindinho da mamãe. — Ela o abraçou, se levantando com ele no
braço, carregando-o pelo apartamento, dando um suspiro contente. — Senti
falta daqui. O sofá onde tudo começou... quem diria, hein? Dois meses em
que caberiam facilmente dois anos. — Ela se virou pra mim, colocando Rudy
no chão e se aproximando, enroscando os dedos no meu pescoço e me
puxando para perto. — Obrigada, por me amar, por não desistir, e por
funcionar no mesmo ritmo estranho que eu.
— Digo o mesmo. — Sorri, envolvendo a cintura dela com carinho, a
puxando pra perto, roçando meus lábios nos dela. — Amo você, e isso não
vai mudar nunca.
— Bom saber. — Ela deu um meio sorriso e cobriu a distância entre
nós, me beijando de verdade pela primeira vez em semanas. O gosto dela era
ainda melhor do que eu me lembrava, gosto do paraíso, um sabor doce e
suave, gosto de Alice. Foi como se meu coração se acendesse depois de
alguns dias dormente, como se finalmente eu estivesse de volta ao lugar onde
pertenço: nos braços dela.
Nos afastamos, devagar, com selinhos de quem não queria ter que
precisar respirar, e eu enrosquei meus dedos em sua nuca, a mantendo
juntinho de mim, meus olhos fechados.
— Senti falta disso — admiti, dando mais um selinho nela. — Mas
acima de tudo senti falta de ter você por perto, da sua companhia, da sua voz
conversando comigo sobre tudo e nada, cantarolando músicas country no
meu carro e me fazendo sentir o cara mais sortudo do mundo. — Abri meus
olhos para encontrar os dela marejados, um sorriso lindo e completo no rosto.
— Também senti falta disso tudo. Falta de nós. — Ela enroscou os
dedos na minha barba, daquele jeito que ela adorava fazer, e me puxou para
seus lábios de novo, num beijo rápido. — Vem. Vamos guardar as compras,
antes que as coisas azedem.
E me soltou, indo empurrar as sacolas até a cozinha e começar a
colocar as coisas na geladeira primeiro. Escapei por um instante, mandando
mensagens para os meus irmãos virem hoje à noite. Deixei Ethan trazer
Nicole, era óbvio que ela já estava a par de tudo, ele não sabia manter
segredos dela. Eu estava começando a achar que talvez alguém já tivesse
ganhado a aposta, mas que eles não contaram pra ninguém.
Deixei o telefone na mesinha e fui ajudar Alice com as coisas, mas na
maior parte do tempo só atrapalhei e fiz ela rir. Eu não sabia arrumar
armários, e ela constantemente tinha que me mandar colocar algo em outro
lugar. Acabei desistindo, para a alegria de nós dois, e fui até lá embaixo pegar
a bolsa dela, que tínhamos esquecido por causa das compras. Quando voltei
para cima, dava pra ouvir a música do corredor, e ao entrar de volta eu a
encontrei dançando com Rudy no colo, esse country eu conhecia. Any man of
mine, um clássico.
Fiquei parado na soleira da porta, quietinho, vendo-a rodopiar pela
minha – agora nossa – sala, fazendo uma dancinha maluca. Aproveitei
quando ela colocou Rudy no chão e me aproximei rápido, puxando-a pela
mão e a rodopiando, ouvindo a gargalhada dela se espalhar pelo ar.
Continuamos dançando até o final da música, e a seguinte também.
Hoje parecia ser o dia do country clássico. Eu rodopiava com ela, que ria e
me girava também, me mostrando uma dancinha com os pés.
— A lot about living and a little ‘bout love — Ela cantarolou, sorrindo
toda contente, e eu sentia meu coração quente ao vê-la tão alegre, tão
sorridente... tão feliz.
— Te amo. — Precisei dizer, e ela assentiu, me fazendo continuar a
dança até a música terminar e despencarmos no sofá, cansados, rindo e nos
divertindo.
— Quem diria, Hector Vanslow consegue dançar country! — Ela
sorriu, me abraçando e encostando a cabeça no meu ombro, jogada por cima
de mim daquele jeito que eu adorava.
— Culpa sua, minha cara influenciadora. — Beijei o rosto dela.
— De nada. — Ela piscou um olho, me enchendo de beijos. — Seus
irmãos e minha família vão vir de que horas?
— Devem chegar lá pelas seis. Agora são... três e meia.
— Ótimo, vai dar tempo de achar minhas roupas e tomar banho. Aliás,
onde estão minhas coisas?
— Duas malas e algumas caixas no chão do closet. Ainda vamos ter
que ajeitar a bagunça direito, mas já tem uma parte liberada pra você lá. June
me ajudou a cuidar disso hoje de manhã.
— Certo. Vou lá dar uma olhada, vem comigo? — Ela se levantou,
entendendo uma mão.
— Sempre. — Segui ela até o closet. Vendo a metade do lado direito
que tinha sido liberada, e as malas no chão, junto com as caixas.
Ela soltou minha mão e se abaixou, abrindo uma das malas, e depois a
outra, arregalando os olhos e balançando a cabeça.
— Nunca percebi que tinha tantas roupas, sempre achei que fossem
poucas.
— Sempre parece mais dentro de uma mala. Vamos, roupas eu sei
organizar, agora posso te ajudar de verdade — ofereci e ela sorriu, enquanto
começávamos a tirar as roupas da mala. Ela fez questão de esconder os
conjuntos de lingerie na primeira gaveta que viu, o rosto vermelho como se
eu não tivesse visto tudo aquilo antes, e nela vestida ainda por cima, mas
segurei a provocação. Dessa vez.
— Sabe, eu acho que vou começar a usar mais vestidos e saias — ela
comentou, pegando os três que tinha, incluindo aquele do lago, e colocando
nos cabides. — Você adora quando eu uso um, e eu sempre os achei lindos,
mas não tinha a confiança de usar. Agora eu acho que tenho. — Ela sorriu,
colocando um vestido amarelo no cabide, o olhando. — Talvez eu use esse
hoje.
— Vai ficar linda, como sempre. — Me aproximei dela, beijando seu
rosto e pegando algumas camisetas. Ela fez uma careta quando olhou para os
casacos, e os enfiou na gaveta debaixo, numa forma silenciosa de dizer que
não iria mais usar tantos. Eu estava me apaixonando por ela cada vez mais ao
ver o poder que duas semanas de dedicação tiveram sobre a doença, ao ver a
força dela.
Acabamos de arrumar as coisas, e já eram quatro e meia. Olhei para ela,
com um sorrisinho, e ela ergueu uma sobrancelha.
— O que foi?
— Nada, mas você mencionou antes que queria tomar um banho... ia
me oferecer pra ir junto.
— Hector! — Ela ficou vermelha como uma pimenta, o rosto
sorridente.
— O quê? Não tem nada aí que eu não já tenha visto, tocado e lambido.
E prometo que é só um banho, nada demais.
— Sei, “nada demais”, humpf. — Ela balançou a cabeça, fingindo uma
carinha de brava, mas pegou minha mão, me puxando para o banheiro. —
Sem mãos bobas por enquanto, ok? E nada de ficar olhando demais...
barbeadores eram proibidos na clínica.
— Não vejo onde isso é um problema, mas ok. — Sorri, empurrando a
porta do banheiro com o pé para fechar atrás de nós, e a puxei pra perto,
acariciando seu rosto. — Amo você.
— E eu amo você. — Ela me beijou bem rápido e se afastou, virando
de costas e puxando a blusa. Eu não precisava ver pra saber que ela estava
cor-de-rosa, e desabotoei a minha, jogando no cesto ao nosso lado. — É
estranho, sabe, ficar nua na sua frente de novo. Parece que nunca vou deixar
de ficar com vergonha.
— É errado que eu goste de você ficando vermelha? — Tirei minha
calça, empurrando a cueca junto, enquanto a observava tirar a dela junto com
a calcinha. Tínhamos até essa mesma forma de se despir. Ela se virou pra
mim, e estava linda.
— Pare de me comer com os olhos — ela resmungou, com um
sorrisinho tímido. — Ok, má escolha de palavras, considerando que a última
vez que eu disse isso você fez com as mãos.
— Senti sua falta — disse simplesmente, vendo-a dar um ar de riso e
me aproximei, beijando seu rosto e a puxando para debaixo do chuveiro. Ela
deixou um barulhinho de contentamento que era quase um gemido escapar.
— Água quente de verdade, e um chuveiro com pressão... pensei que
nunca mais veria isso. — Ela fechou os olhos por um momento, e eu fiquei
observando-a ali, o sorriso pairando nos lábios enquanto sentia a água no
rosto. Então ela afastou os cabelos dos olhos e os abriu, me olhando. — Vem.
— Ela me puxou pra debaixo d’água também, passando as mãos no meu
cabelo, sorrindo.
— Mandei comprar seu shampoo de mel, e o sabonete de lavanda.
Estão ali — comentei, apontando para a prateleira, onde o shampoo e
condicionador dela estavam junto dos meus. Ela assentiu, pegando primeiro o
meu e despejando na mão, ficando na ponta dos pés e me fazendo abaixar,
deixando ela lavar meu cabelo.
— Senti falta do seu cabelo. Se tem uma coisa que eu amo é mexer nele
e na sua barba. — Ela sorriu, descendo as mãos para a minha barba,
massageando os fios em forma de carinho, me puxando para deixar o
chuveiro afastar a espuma, os olhos suaves na minha direção. Fiz o mesmo
com ela, enchendo seu cabelo de espuma com cheiro de mel, juntando um
pouco nas mãos e fazendo graça ao soprar como se fossem bolhas.
Funcionou, ela deu risada.
Acabamos o banho ainda rindo, o banheiro numa mistura de lavanda,
erva doce e mel. O roupão que eu comprei pra ela estava pendurado ao lado
da minha toalha, e ela se enrolou nele, dando um sorriso alegre, e saímos para
o closet. Peguei meu desodorante, entregando a ela um que tinha comprado.
Não sabia qual marca ela usava, esse detalhe eu tinha deixado passar, mas
comprei um com o mesmo cheiro de lavanda do sabonete. Ela pareceu gostar.
Vesti o que sempre vestia, calça e camisa de botões, e ela colocou o
vestido amarelo que tinha dito antes. Ela achou o colar do evento, que tinha
deixado aqui, e o colocou. Sorri, achando ela o próprio sol, e a puxei para
perto, dando um selinho nela.
— Linda.
— Olha quem fala. — Ela sorriu, beijando meu rosto, me abraçando
pelo pescoço antes de me soltar e ir em direção ao quarto, parando em frente
à minha pequena estante. — Vamos ter que arrumar espaço aqui para os
meus livrinhos. Aliás, leu mais algum essa semana?
— Terminei Coração Perverso, e encontrei um na livraria que você não
tinha lido ainda, ou que ao menos não me recomendou. Aquele ali da capa
rosa, Vermelho, Branco e Sangue Azul.
— Já ouvi falar bastante, é o do filho da presidente com o príncipe, né?
— Assenti, e ela sorriu. — Vou ler. Estava esperando pra comprar, por isso
não tinha lido ainda, mas você passou na minha frente.
— O que posso fazer, eu leio mentes. — Dei de ombros, puxando-a
pela mão e roubando um beijo rápido antes de sair do quarto. — Vem,
precisamos ajeitar a mesa.. Caso não tenha notado, eu comprei uma mesa,
finalmente.
— Eu notei. Já era hora. — Ela sorriu, saindo do quarto atrás de mim e
vindo me ajudar a colocar pratos na mesa. Era quinze pras cinco quando
ouvimos a batida na porta. Alice fez as honras, indo receber seus primeiros
convidados na casa nova.
Eu mal precisei olhar, o gritinho de Alice já me disse quem era: a
família dela. Sorri, me aproximando da porta, vendo-a abraçar a mãe com
força, em seguida a vó e a tal tia Danny. A tia era loira com alguns fios
grisalhos, sorridente, e esmagou Alice em um abraço apertado.
— Ah minha menina! — ela murmurou, enquanto a mãe e a vó riam e
vinham falar comigo.
— Olá, bonitão. — Dona Mary Angela sorriu para mim, me abraçando
forte e se afastando. — Obrigada, por cuidar tão bem da nossa Alice.
— Sempre. — Sorri, e Catarina veio me abraçar também, e eu gostei de
ver todas assim, sorridentes. Quando ela me soltou, Alice se aproximou com
a tia.
— Hector, essa é minha tia Danny. Irmã de criação de mamãe, você só
não a conheceu ainda porque ela vive viajando. — Estendi uma mão para a
tia, que me puxou num abraço espontâneo.
— Sem formalidades comigo, garoto. — Ela se arriscou até mesmo a
bagunçar meus cabelos, como se eu fosse mesmo um garoto, me fazendo rir.
— Bem-vindo à família.
— Obrigado. Venham, entrem. O jantar só deve chegar por volta das
seis e meia, seis e quarenta, mas graças à Alice eu tenho uma geladeira
abastecida agora, e isso inclui bebidas de vários tipos. O que gostariam de
tomar? — Eu era bom em ser o anfitrião, tinha aprendido isso com Roman.
— Uma cerveja, se tiver. — Tia Danny foi a primeira a falar, e eu
assenti, indo até a geladeira.
— Refrigerante está bom para nós. — Catarina gesticulou para ela e
Mary Angela, dando uma encarada na irmã, e eu segurei a vontade de rir.
Com o canto dos olhos vi Alice fazer o mesmo. Peguei uma cerveja das
poucas que tinha e duas cocas, entregando a elas. Peguei em seguida uma
Pepsi para Alice e fui encher uma dose de whisky pra mim. Tinha arrumado
uma garrafa nova já que meus irmãos viriam.
— Se eu soubesse do whisky caro, teria pedido ele — tia Danny
comentou, me fazendo rir.
— Danielle! Se controle — Catarina ralhou, e parecia que ela quem era
a mais velha. Alice veio para o meu lado, se recostando no meu braço e
dando risadinhas.
— Relaxe um pouco, Cat. Sua filha está morando com um milionário, o
mínimo que eu posso fazer é me aproveitar do luxo.
— Por que eu fui te trazer? — Catarina balançou a cabeça, enquanto eu,
Alice e Mary Angela ríamos, observando a discussão das irmãs. Pelo jeito de
Alice, parecia que era algo frequente.
Ouvimos outra batida na porta e eu fui até lá dessa vez, deixando meu
copo sobre a bancada. Eram Ethan e Nicole, ele com uma roupa comum, uma
camisa amarela e jeans, e ela com um vestidinho curto azul. Ergui as
sobrancelhas.
— Ethan chegando na hora pra algo? Que bicho te mordeu?
— Culpe Nicole, ela não aguentava esperar mais pra ver...
— Alice! — Nicole deu um gritinho, correndo pra abraçar ela, a
pegando totalmente de surpresa e a fazendo quase derrubar a lata de Pepsi. —
Aimeudeus, eu fiquei tão preocupada, que bom que você está aqui! — Ela
quase esmagou Alice, e eu ergui uma sobrancelha para Ethan, esperando uma
explicação.
— Ela se convenceu de que as duas são destinadas a serem melhores
amigas. Vai por mim, só deixa rolar. Nicole sempre consegue o que quer
mesmo. — Ele deu de ombros, entrando no apartamento e indo falar com
Alice.
— E aí, baixinha. Você nos deu um baita susto, hein? — Ele passou um
braço em volta dela, num meio abraço. — Bem-vinda de volta.
— Obrigada. — Ela sorriu, e Nicole a puxou para conversar, sendo
totalmente indiscreta e perguntando como era a clínica, o que ela fazia lá, se
tinha algum enfermeiro gato que ela podia apresentar... apenas Nicole sendo
Nicole. E Ethan sem tirar os olhos dela, me deixando bem desconfiado de que
Alice poderia, de fato, ganhar a aposta.
A porta foi aberta, sem batida nem nada, e Brian apareceu, usando uma
camisa azul escuro, e ele tinha olheiras. Encarei ele, que deu de ombros.
— Nem pergunte. Estive trabalhando numa série nova de quadros, não
consegui parar pra dormir direito. Vida de artista. — Ele passou por mim, e
eu sabia o motivo de ele estar trabalhando tanto, mas hoje não era o momento
pra isso. Ele foi até Alice, que estava conversando com Ethan, e
sorrateiramente cobriu os olhos dela.
— Adivinha quem é.
— Não sei... um dos meus muitos cunhados? Difícil reconhecer... —
Ela fez graça, se virando pra abraçá-lo. — Oi.
— Oi, cunhadinha. — Ele sorriu, beijando a testa dela. — Soube que
aprendeu a pintar, não me diga que vai tentar roubar meu posto?
— Jamais, eu só sei pintar se tiverem numerozinhos me mostrando
onde colocar cada tinta. — Ela deu de ombros, rindo.
— Ei, já é um começo. — Ele sorriu, olhando em volta e se
aproximando da família dela. — Dona Catarina, bom te ver em uma situação
mais agradável. E é um prazer conhecer vocês duas. — Ele se virou para a
avó e a tia. — Sou Brian.
— Muito prazer, Brian. Alice falou bastante em você, sou a avó dela,
Mary Angela. — Dona Mary Angela sorriu, e a tia Danny o encarou de cima
a baixo.
— Ah, se eu fosse alguns anos mais jovem... muito prazer, querido. Sou
Danielle, mas pode me chamar de Danny. — Ela deu um sorriso enorme, me
fazendo segurar uma risada, enquanto eu via Catarina passada de vergonha, e
Alice segurando o riso também. Ela ainda estava conversando com Nicole,
Ethan pairando por perto delas. Ouvi mais uma batida na porta, e era em
horas assim que eu reclamava de ter tantos irmãos. Custava virem juntos de
uma vez?
Como se tivessem lido minha mente, Phill e Roman estavam na porta.
Os dois de terno, um azul e um preto, com a seriedade que sempre tinham.
— Acreditam que Ethan chegou antes de vocês? — Ri, vendo Roman
dar uma olhada lá dentro e balançar a cabeça.
— Milagres acontecem, afinal. — Ele me entregou uma garrafa de
whisky caro, mais caro do que os que eu tomava. — Presente de boa sorte
para a vida nova. Tenho algo para Alice também... ah, ali está ela. — Roman
entrou, e eu encarei Phill, que deu de ombros.
— Nem pergunte. Ele está estranhamente empolgado em finalmente ter
uma irmã, e ele viu o quanto ela importa pra você.
— Ok... — Segui até onde ele estava entregando uma caixinha da
mesma loja onde comprei o colar de Alice.
— É só um presente bobo, pra combinar com seu colar. Bem vinda à
família, Alice. Que você se mantenha nela. — Ele sorriu, e ela pegou a
caixinha, arregalando os olhos ao ver um bracelete de rubis e diamantes, no
mesmo estilo do colar. Eu vi com o canto do olho tia Danny se abanar e levar
um tapa no braço da irmã.
— É lindo... obrigada, Roman. É bom ser aceita como uma de vocês.
— Ela sorriu, os olhos marejando um pouco, e tirou o bracelete da caixa, me
entregando ela e o colocando no braço. Eu tinha a impressão de que ela me
perguntaria depois qual a noção de “presente bobo” que temos, mas ao menos
ela aceitou numa boa.
— É bom ver meu irmão feliz — ele disse simplesmente, indo até a
bandeja na cozinha se servir de uma dose de whisky. Phill aproveitou a deixa
pra ir cumprimentar ela e a família dela.
— Não tenho nenhum presente, mas também quero te dar as boas-
vindas à família. Nunca vimos Hector tão alegre quanto ao seu lado, é bom
pra variar daquela cara séria dele. — Ele riu, beijando o rosto dela e indo
encher a paciência do gêmeo. Alice sorriu, vindo pra junto de mim.
— Então, seus irmãos pelo visto gostam mais de mim que de você —
ela brincou, me dando um empurrãozinho com o ombro, encostando
a cabeça no meu.
— O que eu posso dizer, é difícil não gostar de você. — Sorri, beijando
o cabelo dela, passando um braço a sua volta.
— Tenho algum charme especial para milionários com gosto por
presentes absurdos, pelo visto. — Ela deu uma risadinha, balançando a
cabeça. — Qual a noção de vocês de “presente bobo”?
— Sabia que você perguntaria isso. E, para nós, bobo é abaixo de
quinze mil — murmurei, vendo-a arregalar bem os olhos. — Não se assuste,
isso não é quase nada para nós. Um dia não será pra você também. — Deixei
no ar que queria um futuro grande com ela, que entendeu, porque ficou
vermelha e me deu um beijinho na bochecha. Antes que ela pudesse dizer
algo, Nicole se aproximou de novo, sorrindo e puxando-a consigo.
— Vem, quero ver suas roupas. E cadê o cachorro? Ele é tão fofinho,
Ethan não me deixa ter um cachorro, diz que eu não cuidaria. Mas, poxa, eu
sou quase responsável, não é o bastante? — Ela riu, arrastando Alice até o
quarto, e eu ouvi um latido de Rudy quando foi acordado.
Me aproximei da família dela, sorrindo.
— Então, o que acharam dos caóticos Vanslow?
— Bem mais normais do que eu esperava — dona Mary Angela
admitiu.
— Bem mais bonitos do que eu imaginava. Aquele seu irmão mais
velho tem o que, trinta anos? Sabe se ele gosta de mulheres mais velhas? —
Tia Danny riu, desviando do olhar de Catarina. Eu gargalhei. Ela tinha uma
alma bem jovem pra alguém de quase sessenta anos.
— Danielle, se controle, ele tem a idade da sua filha mais velha!
— E daí? Eu estou velha, não morta — ela respondeu, me arrancando
outra risada.
— E aí, qual a graça? — Ethan apareceu, com uma garrafa de cerveja
roubada da minha geladeira.
— Nem pergunte — respondi, antes que tia Danny soltasse uma
gracinha pra ele também, e Nicole apareceu correndo com meu cachorro no
colo, erguendo o focinho dele para Ethan.
— Olha, olha que fofo, olha que lindinho, ele é perfeito, por que eu não
posso ter um desses? — Ela quase enfiou Rudy no rosto de Ethan, e Alice
veio atrás dela, dando de ombros como quem dizia “não foi culpa minha”.
— Porque você não sabe cuidar nem de si mesma direito, muito menos,
eu, nunca daríamos certo com um filhote.
— Mas eles são tão fofinhos... — Ela fez um bico, balançando o
cachorro, que lambeu o nariz de Ethan.
— São, mas não dariam certo com a gente, ao menos não por agora. Me
peça de novo ano que vem, ok? Se até lá um de nós criar juízo, eu aceito.
— Tá... — ela resmungou, abraçando Rudy, ainda com um bico. O
olhar de Ethan me fez pensar se ele não queria desfazer aquele bico, mas ele
só balançou a cabeça e sorriu.
— Pare de drama, sabe que uma vez por mês eu consigo resistir ao que
você teima querer, e essa é a deste mês. — Ele deu de ombros, tomando um
gole da cerveja, e Nicole colocou Rudy no chão.
— Odeio você, Ethan Morgan Vanslow. — Ela mostrou a língua, e ele
riu.
— Uhum, sei.
— Vem, Alice, vamos nos afastar desse insuportável. Você deu sorte,
pegou um dos Vanslow legais. De cinco, eu tinha que crescer junto com o
mais insuportável. Eu só queria um cachorrinho, não é pedir demais... — Ela
saiu resmungando enquanto Alice continha o riso, e eu balancei a cabeça,
ouvindo a batida na porta. O jantar.
— Bem, pessoal, parece que a comida chegou. — Sorri, e todo mundo
começou a ir para a mesa, enquanto eu ia abrir a porta. Geralt tinha vindo
pessoalmente trazer o jantar, dando um sorriso enorme quando viu toda a
família ali.
— Geralt! — Brian gritou, quando ele se aproximou.
— Oi, garoto. Como andam as coisas, ainda pintando as paredes? —
Geralt fez graça, colocando os pratos enormes no meio da mesa.
— Às vezes. — Ele deu de ombros, rindo.
— Bem, aproveitem o jantar. Caprichei em especial para vocês e... ah,
essa deve ser a famosa Alice. É um prazer finalmente lhe conhecer. — Ele
sorriu para Alice, puxando o carrinho onde trouxe os pratos de volta para
fora. Alice acenou de leve.
Sentei ao lado dela, na cabeceira da mesa, vendo que só faltavam meus
pais ali. Eu teria convidado eles, mas seria muito em cima da hora.
Começamos a nos servir, Geralt tinha preparado um verdadeiro banquete.
Um assado de carne e uma porção de acompanhamentos. Batatas em
rodelinhas finas, aspargos com queijo, couve-flor assada, purê de batatas,
vários vegetais e legumes, batatas assadas... ele caprichou nos três tipos de
batata, eu tinha dito que era uma das coisas preferidas de Alice. Ele também
tinha trazido os dois espumantes que eu pedi, normal e sem álcool, para um
brinde.
— Três tipos de batatas... seria deselegante pegar os três? — tia Danny
perguntou a Phill, sentado do lado dela, e eu o vi sorrir e dizer que, na
verdade, ele mesmo pegaria um pouco de cada. Num jantar formal não seria
recomendado, mas aqui estávamos em família.
Nicole estava sentada ao lado de Alice, conversando animada com ela,
agora sobre séries. Tentei prestar atenção na conversa, enquanto Alice
explicava algo.
— ... e aí a série engata numa trama política absurda, que envolve
desde coisas simples como eleições até organizações secretas da CIA e
sequestros. Você tem que assistir, sério. O nome é Scandal, não esquece.
— Não vou esquecer. A garota se envolve com o presidente, pelo amor
de Deus, isso é louco o bastante pra me fazer querer assistir! — Nicole sorriu,
fazendo uma pausa para levar um pedaço de carne à boca e mastigar. Ethan
aproveitou pra se meter no assunto.
— Ah não, Alice, você não recomendou uma série pra Nicole.
— Qual o problema?
— Ela vai viciar, me obrigar a assistir junto, ou pior, me chamar de três
da madrugada porque aconteceu algo absurdo. Essa garota não tem limites,
ela já invadiu meu quarto uma vez, enquanto tinha uma ficante de uma noite
dormindo do meu lado, pra me falar que alguém numa série tinha morrido.
Sinceramente só me lembro de ter arremessado um travesseiro pra expulsar
ela. — Ele riu, e Alice quase engasgou com a risada, balançando a cabeça.
— Nicole, não invada o quarto dele às três da manhã quando o coitado
estiver acompanhado. Ele não faz isso com você, faz?
— Já fez, uma vez. Veio me perguntar às duas da manhã, com meu ex
dormindo do meu lado, se eu que tinha acabado com o leite. Só moramos ele
e eu, meu ex nunca comia lá, se não fui eu, foi quem, um fantasma?! Ethan
consegue ser bem burrinho às vezes.
— Com isso eu tenho que concordar! — Roman se intrometeu,
claramente tão concentrado na conversa caótica quanto eu, dando um sorriso.
— Ah não, Roman, nem vem — Ethan resmungou, pegando um pedaço
de cenoura e mordendo. Continuei a comer em silêncio, mais concentrado na
conversa bagunçada deles do que na de Phill com a família de Alice. Pelo que
ouvi, ele estava explicando a elas sobre a gravadora.
— Enfim — Nicole começou —, eu vou ver a série, e Ethan que
aprenda a lidar com meus surtos de madrugada. Se não gostasse ele trancaria
a porta, mas ele nunca faz isso. Nunca! Podia ao menos, sei lá, comprar um
“não perturbe” pra quando tivesse companhia. O traseiro dele não é nada
agradável de se ver. — Dessa vez Alice engasgou mesmo, enquanto tomava
um gole de refrigerante, tossindo ao engolir de uma vez pra não cuspir tudo, e
eu comecei a gargalhar também. O resto da mesa se virou pra nós, e Ethan
estava com a cabeça enfiada nas mãos.
— Eu odeio vocês — ele resmungou, e a gente continuava rindo.
— Podemos saber o que aconteceu? — tia Danny perguntou, nos
encarando como se fôssemos doidos.
— Nicole falando o que não devia, só isso — Ethan resmungou de
novo, e eu e Alice trocamos um olhar, caindo na gargalhada de novo.
— Só falei verdades, queridinho, você que não sabe lidar com elas. —
Nicole deu de ombros, como se falar da bunda do melhor amigo na mesa de
jantar fosse algo comum. No mundo dela deveria ser, Nicole seguia as
próprias regras.
— Continue a comer, vai. Quem sabe não se entala com um pedaço de
cenoura e para de me irritar.
— Você não saberia viver sem mim, Ethan. Apenas aceite os fatos e
siga em frente. — Ela sorriu, bagunçando o cabelo já bagunçado dele e
voltando a comer como se nada tivesse acontecido. Alice tinha lágrimas nos
olhos de tanto rir, e eu achei aquele o momento perfeito para abrir os
espumantes.
— Bem, mudando para um assunto menos... estranho, eu proponho um
brinde. — Abri a primeira garrafa, servindo minha taça e passando para o
resto da mesa, fazendo o mesmo com a segunda e servindo a de Alice, que
me deu um sorriso agradecido. — Um brinde aos novos começos, à vida que
continua, e à essa mulher maravilhosa aqui do meu lado. — Sorri, erguendo
minha taça, e ela ficou adoravelmente corada, erguendo a taça dela também,
junto com todos os outros.
— Aos novos começos!
— À Alice!
— Ao traseiro do Ethan! — Nicole tinha que soltar essa, fazendo todo
mundo rir de novo antes de beber.
Essa era minha família agora. Três senhoras incrivelmente jovens para
a idade que tinham, quatro irmãos totalmente diferentes, a melhor amiga
insana de um deles, e a garota que eu vou amar pelo resto da minha vida. E
eu não conseguia pensar numa família melhor.
Quando o jantar acabou, ainda ficamos conversando até dar a hora dos
meus irmãos irem embora. Nicole saiu provocando Ethan, fazendo graça e
deixando ele a beira de querer esganar ela, enquanto Phill iria de carona com
Roman. Todos fizeram questão de dizer de novo o quanto Alice era bem-
vinda na família, e Brian foi o último dos quatro a sair, fazendo ela prometer
que visitaria o estúdio dele algum dia. Ela prometeu.
Ficamos só nos dois e a família dela, e Catarina suspirou quando viu a
hora. Já passava das nove e pouco, e Alice tinha bocejado duas vezes.
— Bem, acho melhor irmos, você precisa descansar minha filha, foi um
dia longo. — Ela abraçou Alice, como quem não queria soltar. — Vou sentir
sua falta em casa, mas acho que é hora de deixar minha passarinha bater as
asas. — Ela fez um carinho no rosto da filha, dando um sorriso um pouco
triste.
— Pode vir me visitar ou ligar quando quiser, mãe. Prometo. — Alice a
abraçou de novo, esmagando a mãe nos braços. — Amo você.
— Também te amo, minha menininha. — Catarina devagar foi soltando
a filha, suspirando. — Vamos? — Ela olhou para a mãe e para a irmã, que
assentiram e foram se despedir de Alice, enquanto ela vinha até mim. —
Cuide bem da minha menina, ok?
— Vou cuidar com toda minha vida. Ela é o que eu tenho de mais
importante. — Garanti, e Catarina me abraçou, beijando meu rosto.
— Sejam felizes. — Ela sorriu, dando uma batidinha no meu rosto e se
afastando, indo abraçar a filha mais uma vez.
Tia Danny e vovó Mary — ela insistiu que eu a chamasse assim de
agora em diante — se despediram de mim também, e as três saíram. Ficamos
só eu e Alice, que veio me abraçar.
— Gostou de hoje? — perguntei, abraçando-a forte, beijando seu
cabelo.
— Eu amei! Foi perfeito, desde o mercado, o banho, e até esse jantar
maluco com comentários sobre a bunda do seu irmão. — Ela riu, aquela
gargalhada residual ainda presente ali. Sorri, beijando o rosto dela.
— Você se encaixou bem na minha família caótica e estranha. Nicole já
ama você mais do que tudo, o que significa que Ethan não tem escolhe a não
ser te amar também. Brian já tínhamos, Phill por tabela, e Roman com o
bracelete... parabéns, você arrebatou os cinco Vanslow e a agregada. — Ri,
dando um selinho nela.
— Ainda não acredito que seu irmão me deu esse bracelete... deve ter
sido uma fortuna!
— Pra ele não foi. Roman é o mais rico de nós cinco, não deve ter nem
sentido. Vá se acostumando com essa vida, um dia será você comprando
presentes absurdos sem nem perceber.
— Acho que nunca vou me acostumar. — Ela suspirou, me abraçando
de lado com um braço a minha volta e olhando o monte de pratos na mesa. —
O que fazemos com isso tudo? Estou morta de sono, normalmente a essa hora
já tinha tomado os remédios e estava dormindo.
— Posso pedir pra alguém vir buscar, e eles cuidam lá embaixo com o
resto das louças, e amanhã mandam de volta os pratos vazios.
— Ah, as vantagens de se morar em um hotel... — Ela riu, assentindo e
ficando na ponta dos pés para me dar um selinho. — Vou ir me arrumar pra
dormir enquanto você faz isso, ok?
— Ok, minha deusa.
Ela se afastou e eu peguei o telefone na parede, ligando lá para baixo e
pedindo que mandassem alguém para recolher a louça. Não demorou nada e
um garoto novo, se não me engano seu nome era Colin, veio buscar tudo com
um carrinho. Dei uma bela gorjeta de cinquenta dólares, o garoto merecia por
carregar a louça de dez pessoas.
Assim que ele saiu eu fui para o quarto, encontrando Alice em frente ao
espelho, se olhando no pijama. Era um que eu nunca tinha visto, short e uma
regata que deixava sua barriga a mostra, com um desenho de um gatinho na
frente. Até assim, toda desmontada e pronta pra dormir, ela era a coisa mais
sexy e linda que eu já tinha visto. Me aproximei dela, envolvendo sua cintura
por trás.
— Você é linda, sabia?
— Estou começando a acreditar. — Ela deu um sorrisinho de quem
estava orgulhosa, e eu percebi que isso era um sinal do tratamento. — Você
comprou os remédios, né?
— Estão todos no armário do banheiro... incluindo o anticoncepcional.
— Dei um sorrisinho, vendo-a ficar vermelha e fugir dos meus braços, indo
pegar os comprimidos.
— Era pra ser uma surpresa! Eu estava planejando um belo dia te
seduzir, e dizer que não precisaria mais usar camisinha dessa vez. Você
estragou a surpresa. — Ela apareceu de volta na porta, me mostrando a língua
numa careta adorável e indo pegar água na cozinha.
— Bem, não tinha como eu não saber! — me defendi, começando a
desabotoar a camisa, vendo ela voltar com uma garrafinha de água na boca,
tomando mais um gole enquanto andava. — Mas, sabe, ainda pode me
seduzir... eu iria adorar.
— Sei que sim. — Ela sorriu, deixando a garrafinha na cabeceira e
vindo soltar o resto dos meus botões. — Sabe, eu posso me acostumar com
essa rotina. Parece bobeira da minha cabeça, mas tem algo sobre só te ajudar
a soltar os botões, sem segundas intenções, que transforma esse momento em
algo mais de casal, sabe?
— Até que eu entendo. Eu também poderia facilmente me acostumar
com isso, você sendo parte do meu dia a dia, nós dois nos enchendo de
mimos... vão ter dias complicados, dias em que você nem vai querer olhar na
minha cara, mas eu vou lembrar que te amo e te lembrar que me ama mesmo
nesses momentos. Vão ter altos e baixos, mas vão valer a pena.
— Por que isso parece um pedido de casamento? — Ela fez graça, me
fazendo rir.
— Ainda não. — Beijei a ponta do nariz dela, me afastando em direção
ao closet, tirando a camisa agora desabotoada e a calça, pegando uma de
pijama, e a vestindo, voltando ao quarto e encontrando Alice na cama,
sentada com as pernas cruzadas, me esperando. — Linda.
— Vem logo, eu quero dormir. — Ela deu um risinho, e eu pulei na
cama, vendo-a balançar a cabeça e vir se aninhar no meu peito, fazendo
aquele barulhinho de contentamento de novo. — Senti falta disso, do seu
coração batendo embaixo de mim.
— Ele é seu, sabe disso, não sabe?
— Assim como o meu é seu. — Ela beijou meu peito, erguendo uma
mão para acariciar minha barba, e eu puxei uma manta fininha sobre nós, e
ela jogou uma perna por cima das minhas, me abraçando mais forte. — Amo
você. Boa noite, amor.
— Boa noite. Amo você também. — Enrosquei meus dedos no cabelo
dela, sobre a nuca, fazendo carinho ali até a respiração dela se suavizar e ela
pegar no sono.
Confirmei naquele momento o que eu já sabia, eu a amaria pelo resto
dos meus dias, talvez até além, e não conseguia mais ver um futuro que não
envolvesse essa garota nos meus braços. E isso era perfeito.
Eu acordei cedo. Tinha me acostumado com a rotina da clínica, onde
estava acordando todo dia às sete horas, então hoje não foi diferente. Hector
ainda estava dormindo do meu lado, eu sabia que ele acordava entre oito e
nove da manhã quando não tinha reuniões. Eu me sentia bem. Estava aqui, do
lado de fora, e estava bem.
Fiquei olhando-o dormir enquanto pensava, percebendo o quanto eu
tinha dado sorte em ter encontrado ele que, no sentido mais literal possível,
tinha salvado minha vida. Se ele não tivesse me encontrado, não serviria de
nada o fato de que eu me arrependi no último momento. Ele apareceu na hora
certa de me trazer de volta, e eu seria eternamente grata por isso. Ele me deu
a chance de encontrar minha própria força, foi de certa forma o degrau que eu
precisava de apoio. Na clínica usávamos muitas metáforas, e eu já era assim
antes, então acabei me acostumando.
Ele tinha me ajudado a enxergar a possibilidade de mudança em mim
mesma. Não era como se eu estivesse me curando por culpa dele e tudo fosse
desabar se eu o perdesse, era que ele estava caminhando ao meu lado nessa
jornada, me segurando se eu tropeçasse. A vida inteira eu só tive mamãe pra
me segurar, e era bom poder tirar esse peso das costas dela, deixar que ela
vivesse por si mesma, e não em função da minha doença. E eu cuidaria para
não pesar em Hector, me apoiar em mim mesma acima de tudo.
Me esgueirei devagarinho pra fora da cama, com cuidado pra não
acordar ele, indo até o banheiro. Quando saí andei mais uma vez de fininho
até o lado de fora do quarto, indo até a cozinha e encarando a cafeteira dele.
Era um pouco complicada, daquelas cheias de botões com opção até de
espuma de leite, mas eu sabia como mexer. Na adolescência tinha trabalhado
em um café nas férias.
Apertei os botões certos, preparando uma caneca de café até a metade e
saindo para a varanda. O ar fresco de primavera me fez sorrir, e eu tomei um
gole do café. Percebi que eu não tinha mais medo de olhar pra baixo – não
dava mais aquela vontade estranha de pular. Observei a cidade, parte
acordada, parte ainda dormindo. Deixei a caneca vazia na mesinha de vidro
pequena que tinha ali, e me apoiei na borda coberta de vidro azul, olhando lá
pra baixo. O mundo era lindo quando não se tinha medo dele.
Senti braços em volta da minha cintura e um sorriso se esticou pelo
meu rosto, minha cabeça se inclinando para trás, de encontro ao peito dele.
Ele me abraçou mais forte, beijando o espaço livre do meu pescoço.
— Bom dia — ele murmurou, a voz abafada na minha pele.
— Bom dia, amor — respondi, cobrindo as mãos dele com as minhas,
ainda olhando para frente. — Nunca tinha percebido o quanto o mundo pode
ser bonito, quando não se está morrendo de medo dele. — Comentei o que
tinha acabado de pensar, e senti o sorriso dele em mais um beijo.
— Não tão lindo quanto você, mas sei o que quer dizer. Fico feliz que
não esteja mais com medo. — Ele me virou pra ele, me dando um sorriso
largo. Ele estava lindo, iluminado pelo sol da manhã, o cabelo bagunçado.
Era minha definição de perfeição.
— Amo você. — Fiquei na ponta dos pés, dando um selinho nele, que
sorriu e me puxou para um beijo maior. Ele estava com gosto de pasta de
dente e eu de café, a combinação perfeita para um beijo de manhã cedo.
— Tão bom te ver assim, sorridente, alegre — ele comentou,
enroscando os dedos nos meus e me levando para dentro do apartamento de
volta, se sentando no sofá e me puxando para o seu colo, aquele lugar que
pertencia a mim desde a segunda vez que vim parar nesse apartamento. — E
pensar que tudo começou nesse mesmo sofá. — Ele leu meus pensamentos,
me fazendo sorrir mais largamente.
— Quem diria que só faz dois meses, hein?
— Os dois primeiros de muitos, minha deusa. — Ele falava com uma
certeza tão grande sobre nós, que eu, aos poucos, estava começando a confiar
também. Nós iriamos durar, por quanto tempo o destino quisesse. Se
dependesse de mim, seria pra sempre.
— Aonde acha que vamos estar daqui a um ano? Era um exercício que
fazíamos na clínica às vezes, imaginar um futuro.
— Não sei. Juntos, com certeza. Talvez viajando, quero te levar pra
conhecer o mundo comigo... ou talvez eu esteja te pedindo em casamento,
com algum gesto exagerado e romântico como nos livros que você gosta.
— Gosto desse futuro. Também imagino que estaremos juntos, talvez a
gente adote um irmãozinho pra Rudy... e pode me pedir em casamento
quando quiser, já sabe a resposta. — Senti meu rosto esquentar e ele riu, me
roubando um selinho, depois outro, mais um, e então um beijo de verdade.
Suspirei nos lábios dele, enroscando meus dedos em seu cabelo como
sempre, enroscada nele, o beijando com tudo o que eu tinha. Eu amava ter ele
na minha vida, amava ter o amor dele me rodeando, e amava muito esses
beijos doces e cheios de duplo sentido escondido. Ele deixou uma mordida no
meu lábio inferior ao se afastar, um meio sorriso no rosto.
— Senti falta de você no meu colo. Pode me chamar de pervertido, mas
o que eu posso dizer? Gosto de ter a garota gostosa que eu namoro em cima
de mim. — Ele deu de ombros, e eu dei uma gargalhada, me movendo
devagarinho e parando, numa provocação silenciosa.
— Faz o que, quase um mês? — Ele assentiu. — Coitadinho do meu
Hector, tendo que se resolver na mão. — Fiz um biquinho dramático, vendo-
o gargalhar, as mãos descendo até minha bunda e me puxando.
— Não brinque com o perigo, deusa — ele falou o meu apelido de
forma arrastada, rouca, arrepiando meu corpo inteiro. Ah, eu tinha sentido
falta disso. — Lembre-se que eu sei exatamente como te provocar, como te
deixar louquinha... eu posso ser malvado se quiser, sabia? Posso te deixar
implorando até finalmente te dar o que deseja.
— Pode nada, você é fofo demais para isso — provoquei, querendo
descobrir esse lado necessitado dele. Eu disse que tinha planejado toda uma
sedução, mas aqui estava eu com um pijama de gatinho, começando a rebolar
em cima dele devagarinho, meus olhos falhando quando ele começou a beijar
meu pescoço.
— Está me desafiando? Tem muito que você não viu ainda... tivemos
tão pouco tempo na casa do lago... ainda tenho muito o que mostrar. — Ele
mordeu meu pescoço, bem de leve, só o suficiente pra arrancar um
gemidinho que eu não consegui conter. Eu não tinha percebido até agora o
quanto sentia falta do corpo dele no meu.
— Hector... me diz do que é capaz. — Eu queria aquela voz rouca dele
no meu ouvido, dizendo a quantidade absurda de indecências que faria
comigo, me fazendo tremer de antecipação. Eu queria todas aquelas
sensações de volta, porque agora eu sentia que merecia elas. Merecia a
atenção dele, merecia os toques e tudo mais.
— Ah, minha pervertida, desta vez eu não vou falar... desta vez eu vou
fazer. — Ele se afastou pra puxar meu pijama de uma vez, jogando a blusa do
nosso lado, mordendo o lábio inferior enquanto me olhava. Senti a mudança
dele embaixo de mim, o corpo pedindo por aquilo, por mim. Ele levou as
mãos aos meus seios, contornando-os de leve, com as pontas dos dedos. —
Senti falta deles...
Um polegar atingiu meu mamilo e eu gemi, começando a me esfregar
em cima dele, meu corpo perdendo a noção de controle. Era fácil me entregar
quando estava nos braços dele, ainda mais agora que não tinham mais medos.
Ele me tocou devagar, rodeando o polegar, me fazendo ter espasmos
pequenos, girando os quadris. E então veio a boca, descendo pelo meu
pescoço, deixando lambidas pela minha pele, substituindo os dedos e me
fazendo revirar os olhos. Ele agiu com mais determinação agora do que no
lago, a saudade falando junto, me sugando com força, me fazendo arfar e
arfar, meu corpo todo pedindo por mais daquilo.
— Isso, amor... geme pra mim. Mostra o quanto quer isso, e talvez eu
decida ser bonzinho... — A voz dele foi como fogo nas minhas veias, me
fazendo agarrar os cabelos dele e começar a rebolar mais, querendo provocar
ele como ele me provocava. Ele era tão gostoso, tão meu.
A boca dele deslizou de um seio para o outro, dando a mesma atenção a
esse, minhas pernas se apertando à sua volta. Eu queria que ele me tocasse
logo, que saciasse esse meu desejo, mas ele estava determinado a me
provocar. Quase levei uma mão até entre as pernas eu mesma, mas me
lembrei vagamente de ele ter mencionado algo sobre querer ver isso uma
vez... deixaria essa ideia para o surpreender depois. Hoje me deixaria ser
torturada de prazer.
Ele apertou minha cintura, me afastando um pouco, e eu resmunguei.
— Fique de pé, e tire o resto de suas roupas pra mim. — Ah. Ele sabia
dar ordens, e eu me surpreendi com o quanto gostei disso. Assenti, me
afastando e me levantando, tirando primeiro o short colorido do pijama, e
depois a calcinha que eu estava usando. Senti meu rosto queimar um pouco.
— Eu avisei que na clínica não tinham giletes, e ontem eu não tive a
oportunidade de... você sabe.
— Já disse que isso não é problema. — Ele se recostou um pouco no
sofá, me observando, sendo extremamente pornográfico ao agarrar o volume
na calça com uma mão, por um momento. — Tão mais gostosa pessoalmente
do que nos meus sonhos... vai me matar assim, Alice. — Ele se levantou,
avançando em mim, me agarrando e me beijando de uma vez, me fazendo
arfar com a intensidade daquilo.
Ele me beijou até não poder mais, me virando e levemente empurrando
para que eu sentasse no sofá de novo, e eu obedeci, vendo ele se ajoelhar.
Suas pupilas dilataram, aquele sorriso pervertido que eu adorava surgindo em
seus lábios enquanto ele afastava minhas pernas, a antecipação me matando.
— Hector... — pedi, e ele deu uma risada rouca e baixa, os dedos
percorrendo o interior da minha coxa.
— Já? Mas eu ainda nem comecei a brincar... — Ele continuou a subir
os dedos, fazendo com que eu me movesse impaciente, até que ele finalmente
chegou onde eu queria, deslizando um dedo por ali, me explorando. Ele deu
um riso rouco, como se estivesse contente com o que achou, e os dedos
começaram a brincar com aquele meu pontinho sensível. Me recostei no sofá,
inclinando mais meu corpo em direção a ele, deixando que fizesse o que bem
entendesse comigo naquele momento.
Ele fez um barulhinho de aprovação, e eu olhei bem a tempo de ver a
cena mais pervertida possível: ele, ajoelhado na minha frente, levando dois
dedos à boca e os chupando antes de os levar até mim, dentro de mim, me
fazendo dar um gritinho. Tinha esquecido aquela sensação, como podia ter
esquecido?!
Movi os quadris quando ele apenas manteve os dedos parados ali, e a
outra mão dele segurou minha cintura, me mantendo no lugar. Era uma
ordem silenciosa, um aviso de que ele é quem decidiria a hora de fazer algo.
E ele fez, ah como fez. Os dedos se movendo, devagar, num movimento que
parecia puxar, e de alguma forma ele descobriu que existia um lugar sensível
dentro de mim também, um lugar que eu mesma mal sabia da existência, e ele
pressionou ali. Eu gritei, sem conseguir continuar parada, rebolando nos
dedos dele. Ele continuou aquele toque, me fazendo arfar e gemer e querer
puxar os cabelos quando ele parou, bem na hora que eu ia explodir.
— Hector! — gritei, reclamando, e ele riu. Riu!
— Eu disse que podia ser malvado... — Ele lambeu os lábios, como se
estivesse diante da melhor das sobremesas, e avançou em mim com a boca,
os dedos voltando a se mover, me deixando sensível pelo orgasmo arruinado.
Não demorei mais que uns instantes pra estar ofegante e gemendo de
novo, a língua dele brincando de circular e sugar, fazendo movimentos que
eu não conseguia compreender, e meu corpo inteiro só queria alívio. De
novo, ele parou bem na hora que eu estava chegando lá. Choraminguei, me
remexendo, tentando conseguir algo dos dedos dele ainda dentro de mim,
mas não foi o bastante.
— Vai me pedir com jeitinho? Se pedir com jeitinho eu talvez te deixe
gozar agora... ou talvez eu ainda espere mais um pouco, te faça choramingar
de novo e implorar por alívio. Eu avisei que não conhecia tudo de mim ainda.
— O sorriso dele foi perversamente delicioso, me fazendo dar um gritinho
quando sem aviso prévio ele começou a me chupar de novo. Eu sentia meu
corpo prestes a explodir, tão perto, tão perto... e ele parou. Pela terceira vez!
Eu estava com lágrimas nos olhos, meu corpo trêmulo pelo prazer
negado, e eu comecei a rebolar nos dedos dele, bem devagarinho, só pra não
ficar sem contato.
— Hector, por favor... por favor, amor, deixa... me deixa... — pedi,
implorei como ele disse, e senti o hálito dele contra mim, quando ele riu e
moveu os dedos naquele ritmo que eu gostava, a língua brincando comigo.
Dessa vez ele não parou.
Eu senti as ondas crescerem e crescerem, todo meu corpo se
concentrando ali, e explodi, gritando e rebolando contra a boca e os dedos
dele. Tive a impressão de ouvir ele gemer um “porra”, mas estava perdida
demais nos espasmos, meu corpo inteiro sentindo as ondas e ondas de alívio
enquanto ele continuava, e ele não parou mais. Senti a mão dele soltar minha
cintura, enquanto ele continuava a me levar ao céu e ao inferno com a boca e
os dedos, meu corpo agora livre para tremer como quisesse, e eu já estava
fraca quando consegui puxar os cabelos dele para que parasse. Os lábios dele
brilharam com a umidade presente ali, aquele sorriso pervertido sendo a visão
mais perfeita que eu já tive. Não deixei de notar a mão dele apertada na frente
da calça, se dando um pouco de alívio. Tão necessitado quanto eu.
— Vem cá — chamei, ainda ofegante, puxando os cabelos dele pra vir
me beijar, sentindo meu gosto misturado com o sabor da boca dele, e puxei
ele pro sofá, fazendo-o sentar do meu lado e ficando por cima dele. — Minha
vez.
— Hoje não. Vai me matar se usar essa boquinha maravilhosa em mim
hoje. Vou ser bonzinho e deixar que me tome assim que se recuperar o
bastante, me faça seu como bem entender. Sou seu. — A voz dele saiu rouca,
tão rouca que me arranhou por dentro, causando arrepios em partes de mim
que eu mal estava ciente de ter.
Me levantei e puxei a calça dele pra baixo, trazendo a cueca junto, com
pressa. E então subi nele de novo, deixando um gemidinho manhoso sair
quando nossos corpos se encontraram, o meu ainda tão sensível pelo orgasmo
recente.
— Meu — murmurei, rebolando devagarinho em cima dele,
percorrendo sua extensão com meu corpo, provocando a nós dois. Não
aguentei mais. Desci minha mão até entre nossos corpos, o segurando e me
erguendo um pouco, o posicionando contra mim. Fui deixando meu corpo
descer sobre ele, um gemido arrastado na minha garganta com a sensação.
Era diferente só pele com pele, era mais gostoso.
Desci até ele estar inteiro dentro de mim, e a expressão no rosto dele
enquanto me olhava foi mais quente que qualquer outra coisa. Era devoção
pura, entrega total.
Enrosquei meus braços em volta dele e comecei a me mover, pra frente
e pra trás, rebolando devagarinho às vezes e então voltando a me mover
rápido. Não sei quantos minutos se passaram, mas foram poucos. Eu á estava
à beira de explodir de novo, soltando gemidos que eram uma mistura entre
arfar e gritar, meus braços apoiados no sofá atrás dele, procurando apoio para
continuar.
Parei um instante pra poder me concentrar em beijá-lo, com força, com
desejo, com um gemido na metade do beijo, e então voltei a me mover, mais
rápido, mais necessitada ainda. Eu não precisei falar nada, ele apenas deu um
meio sorriso e subiu as mãos pela minha cintura, agarrando meus seios, me
fazendo tremer sobre ele.
— Goza pra mim, Alice — ele me pediu, e meu corpo inteiro obedeceu,
os espasmos de prazer me varrendo. Meu rosto foi parar no pescoço dele,
procurando apoio enquanto continuava a me mover até não conseguir mais,
sentindo os braços dele me envolvendo com o encontro perfeito entre desejo
e carinho. Eu estava ofegante, sem força nas pernas, e as mãos dele desceram
até meu traseiro, fazendo com que eu me movesse em mais algumas
estocadas e então parando com um gemido rouco no meu ouvido, alcançando
o próprio prazer. Eu amava como ele sempre esperava por mim.
— Cacete... — gemi baixinho, sentindo meu corpo ainda sensível,
qualquer pequeno movimento me arrancando arrepios, e deixei uma trilha de
beijos pelo pescoço dele até os lábios. — Eu amo você.
Ele deu uma risada alegre, me puxando contra si e me beijando de
novo, nossos peitos ofegantes um contra o outro, o beijo sem poder durar
muito pela falta de ar.
— Você acaba comigo. Amo você — ele murmurou, me erguendo um
pouco pra sair de dentro de mim, e eu senti aquilo escorrer um pouquinho.
Era uma sensação nova.
— Eu?! Eu que acabo com você?! Não fui eu que te fez implorar por
uma gota de alívio.
— Eu te dei mais que uma gota. — Ele deu um sorrisinho, e foi minha
ver de rir alegre, puxando os cabelos dele para mim e dando vários selinhos
nele. — Vem, acho que deveríamos tomar um banho.
— Vou fingir que não tem a intenção de um round 2 no banho — fingi
resmungar, rindo enquanto ele me fazia ficar de pé, minhas pernas
fraquejando um pouco, e ele se levantou também, me puxando pela mão até o
banheiro. Bem, finalmente iríamos estrear aquela banheira gigantesca do
apartamento.
O dia tinha começado perfeito, e eu não me incomodaria nem um
pouquinho se os próximos daqui para frente fossem todos nesse estilo.
Primeiro dia de volta à faculdade, e eu estava nervosa. Era quarta,
assim como no dia que tudo foi pelos ares, mas em apenas duas exatas
semanas eu tinha me tornado uma pessoa nova e mais forte. Ainda tinha
muito da Alice assustada em mim, anos de traumas não desapareciam do
nada em apenas algumas semanas, mas eu agora tinha uma noção melhor de
como lidar com tudo isso. E de como não deixar gatilhos me derrubarem.
Hector ainda estava dormindo, mas eu continuava acordando cedo,
então deixei ele no quarto e fui preparar o café. Fiz torradas e peguei uma das
geleias da geladeira, a de morango, e coloquei na mesa. Era uma mesa
enorme de dez lugares que não fazia sentido quando estávamos só nós dois,
mas ele me explicou que tinha sido de propósito para noites como aquela que
eu cheguei, que a família toda veio. Era uma sensação nova e boa, ter uma
família grande.
Estava comendo minha segunda torrada, quando ele apareceu na porta,
ainda sonolento, e sorriu pra mim.
— Você precisa parar de acordar antes de mim. — Ele riu, vindo pra
perto de mim e me dando um selinho, antes de se sentar do meu lado. —
Bom dia.
— Bom dia. — Empurrei o prato de torradas na direção dele, sorrindo.
— E não é culpa minha se você não criou uma rotina estranha de acordar
cedo. — Dei de ombros, dando mais uma mordida na minha torrada.
— Pois trate de acordar tarde, quero te surpreender com lanches e cafés
na cama. E melhor do que isso, quero te acordar com beijos.
— Está começando a me convencer...
— Posso acordar com mais que beijos também. Muito mais, tudo
depende do seu humor...
— Ok, me convenceu. A partir de amanhã eu volto pra cama quando
acordar cedo. — Ri, tomando mais um gole do meu café, enquanto ele dava
um sorrisinho.
— Sabia que isso te convenceria — ele provocou, me fazendo revirar
os olhos e segurar um sorriso. — Ansiosa pra hoje? Voltar às aulas e aos
ensaios.
— Bastante. Mas agora eu sei como reagir se falarem alguma merda
para mim, e acima de tudo tenho pessoas que me apoiam. Vai dar tudo certo,
sem falar que Eric deve estar morrendo de saudade. E não sei como não me
tiraram da peça, duas semanas podem ser cruciais.
— Eles entenderam o motivo. Na verdade, acho que não te contei isso,
mas eu fiz uma crítica formal na sua faculdade pela forma como a garota agiu
com você.
— Fazem isso na faculdade? Achei que só acontecessem coisas assim
no ensino médio.
— Fazem quando é alguém disposto a dar uma doação generosa para o
centro de atuação. — Ele deu aquele sorrisinho metido. — Vez ou outra
posso usar minha riqueza para o bem.
— Você é terrível. — Balancei a cabeça, levando uma mão ao rosto
dele e fazendo um carinho na barba, sorrindo. — Amo você.
— Assim como eu amo você. — Ele beijou minha mão antes que eu a
afastasse. — A terapia começa amanhã, né?
— Sim. Terças e quintas, começando amanhã, e seguindo pelo tempo
que for necessário. Vou sentir falta do psicólogo da clínica, mas o Dr. Travis
disse que esse novo é muito bom, e é perto da faculdade.
— Eu pesquisei sobre ele, Oliver Strode, dizem na internet que é
maravilhoso, tem vários relatos dele, de gente que ele ajudou — ele
comentou, mordendo uma torrada. — Ah, nem te contei segunda e ontem,
mas comprei um presente. Mais de um, na verdade, mas um deles ainda falta
chegar.
— Hector, o que você fez? — Ergui uma sobrancelha, e ele riu,
continuando a comer.
— Já te mostro. É o tipo de presente que se precisa ver, não tem graça
se eu contar.
— Eu te odeio, sabia?
— Odeia nada. — Ele riu, piscando um olho e pegando um pouco de
geleia e passando na torrada. — Enfim, acho que vai gostar do presente. Se
bem te conheço, vai reclamar um pouco por ser “absurdo”, e depois vai ver o
detalhe incluso e vai adorar.
— Você está fazendo mistério demais, sabia?
— É de propósito. — Ele riu, e eu considerei seriamente arremessar
meu último pedaço de torrada na cabeça dele, só de implicância.
— Acabe de comer e me mostre logo então, estou morrendo de
curiosidade. Prometo até que não vou reclamar tanto se me mostrar logo.
— Eu chamo isso de progresso. — Ele realmente comeu rápido o resto
da torrada e se levantou, ainda tomando o café. — Vem. — Ele me estendeu
a mão livre e eu fui, seguindo-o até o quarto, esperando enquanto ele mexia
na prateleira de cima do lado dele no closet. Claro que ele tinha escondido o
presente ali, eu era uns bons dez ou quinze centímetros mais baixa, não
enxergava nada da prateleira. Ele pegou uma caixa larga e grande com uma
fita vermelha e me entregou. — Abra. Com cuidado!
— Ok... — Com cuidado? Então era algo frágil. Andei até o quarto, me
sentando na cama desarrumada e tirando o laço, rasgando o pacote de forma
nada graciosa, ofegando ao ver a caixa do notebook. Era um notebook! —
Hector pelo amor de Deus, você não fez isso.
— Fiz. — Ele sorriu, dando de ombros e se sentando do meu lado.
Deixou a caneca vazia de café na mesinha de cabeceira e ficou me olhando.
— Abra. Tem algo nele que você vai gostar.
— Eu juro, se for mais alguma coisa cara... — ameacei, segurando o
sorriso. Ele sabia que eu tinha gostado.
— Você vai gostar do mesmo jeito. Mas não é, prometo. — Ele sorriu,
me ajudando a tirar a tampa da caixa, e eu peguei o notebook, o colocando no
colo. Era prateado e largo, e quando eu abri a tela se acendeu, pedindo a
senha. Olhei pra ele, erguendo uma sobrancelha. — Coloquei o seu
aniversário. Pode mudar depois, se quiser. — Ele sorriu, e eu digitei 1507,
me surpreendendo com um sorriso quando a tela apareceu. Era uma foto
nossa, rindo e dançando no evento do irmão dele.
— Onde conseguiu essa foto?
— Nicole. Ela disse que queria registrar nosso começo pra garantir que
tivesse algo do qual se gabar quando nos casássemos. — Ele riu, e eu ficava
olhando dele pra foto e da foto pra ele, sorrindo toda boba. — Estava
esperando o momento certo pra te mostrar.
— Eu adorei. — Sorri, já esquecida de brigar com ele pelo preço do
presente.
— Tem mais. Abra aquela pasta ali, chamada “Surpresa”. — Obedeci,
dando um gritinho quando reconheci o ícone do jogo. Era Stardew Valley!
— Como você....? Você realmente prestou atenção quando eu falei no
jogo?
— Claro que sim. E nas pinturas com números também, elas são o
segundo presente, mas só chegam semana que vem. — Ele me deu aquele
olhar de melhor namorado do mundo, e eu coloquei o notebook do meu lado,
me jogando no abraço dele.
— Eu te amo. Queria ter como te dar algo em troca.
— Você me dá tudo só por respirar, Alice. — Ele beijou meus cabelos,
segurando minha cintura. — Você é minha vida, agora e sempre. Demorei
vinte e sete anos pra te encontrar, e não podia ter valido mais a pena. — Eu
não precisei olhar pra saber que ele estava sorrindo enquanto me abraçava, e
apertei mais ele nos braços, enchendo seu rosto e seu pescoço de beijos.
— Te amo. Te amo muito, te amo com todo meu coração. E serei
eternamente grata por você ser tão perfeito, tão certo pra mim.
— Linda. — Ele se afastou um pouco pra poder tocar os lábios nos
meus, me beijando devagar, com um carinho que queimava por dentro,
aquela mesma devoção e entrega de quando me olhava.
Me separei dele com um sorriso no rosto, animada.
— Vem, vou te mostrar como é o jogo. Você vai gostar, é bem
simplinho de entender, e se quiser você pode colocar no seu notebook
também e a gente joga no modo cooperativo. Você daria um cowboy
fazendeiro gostosão, sabia? — Suspirei com a imagem dele usando um
chapéu de cowboy, me chamando de senhorita e andando a cavalo... ficaria
lindo.
— Ok, me mostre. Ah, aqui está o mouse. — Ele me entregou um
mouse sem fio que tirou da caixa, e nos sentamos na cabeceira da cama, o
notebook no meu colo enquanto eu mostrava pra ele como se fazia. — Eu não
sou nenhuma expert, na clínica não nos deixavam acessar a internet pra
pesquisar dicas de como fazer as coisas, então eu tive que me virar sozinha.
Pelo que sei tem até livro-guia do jogo. — Fui comentando, enquanto criava
a personagem e abria a fazenda.
Coloquei pra deixar a introdução, pra ele ver a historinha. Eu não tinha
prestado tanta atenção na primeira vez, então queria ver de novo também. A
fazenda era do falecido avô da personagem, e ela larga o emprego na Joja
Cola — um nome bem estratégico — pra ir viver lá na Vila Pelicanos.
Prestei bastante atenção, mostrando a Hector como plantava, como
cuidar das plantas. Quando começou o segundo dia eu o ensinei a pescar, o
que ele achou extremamente difícil, e mostrei como falar com o pessoal da
vila. Ele estava realmente interessado, e gastamos a manhã praticamente toda
nisso, até precisamos colocar o notebook pra carregar.
Quando me dei conta já era hora do almoço. Salvei o jogo e fechei o
notebook, me levantando da cama com Hector me seguindo. Ainda estava de
pijama, e corri pra cozinha, pensando em algo rápido.
— Me lembre de nunca jogar de manhã em dias de aula — comentei,
enquanto enchia uma panela de água, sal e óleo para fazer macarrão, e
colocava outra panela com manteiga e cebola pra começar o molho.
— Ei, calma, tem tempo ainda. Agora você mora só a quinze minutos
de carro de lá, lembra?
— É, mas de metrô são mais de vinte.
— E quem disse que você vai ir de metrô? — Ele ergueu uma
sobrancelha, e eu me virei pra ele enquanto mexia a cebola na manteiga,
esperando dourar.
— Não está falando sério.
— Claro que estou, se quiser. Eu posso te levar, ou Nick nos dias que
eu estiver ocupado. Só precisa ir de metrô, se quiser, ou nos dias que eu
estiver usando o carro... se dirigisse, eu compraria um carro pra você.
— Ainda bem que não dirijo. — Balancei a cabeça, rindo e pegando o
extrato de tomate, jogando uma boa porção por cima da cebola. — Não tem
medo de me deixar mal acostumada, me levando todo dia?
— Você merece. Sem falar que eu não faço nada da vida além de
resolver um problema ou outro que pode surgir, vai ser bom ter uma função:
motorista particular do amor da minha vida.
— Fofo — comentei, mexendo o molho e indo pegar o macarrão,
colocando uma quantidade razoável para duas pessoas, sem partir ao meio.
Gostava do macarrão inteiro. Mexi a panela até o macarrão inteiro entrar nela
e deixei o garfo de lado, indo abaixar o fogo do molho pra deixar no mínimo,
e me virei pra ele, encostada no balcão. — Acha que vão me aceitar bem?
Tipo, eu sumi, e prejudiquei os ensaios. Só tenho certeza de Eric me
recebendo bem.
— Vão aceitar sim. Devem ter ensaiado as outras partes sem você, e se
precisarem tenho certeza de que podem aumentar o número por semana pra
cobrir os ensaios perdidos. Vai dar tudo certo, você vai ver. — Ele sorriu,
vindo pra junto de mim e segurando minha cintura, me dando um selinho.
— Tomara. Quero muito que essa peça dê certo, será super importante
pra o meu currículo como atriz. Sabia que meu sonho é conseguir um papel
na Broadway?
— Você nunca tinha comentado.
— Eu não tinha um sonho fixo antes. Sabe como é, não conseguia ver
mais longe que alguns dias, mas agora... estou começando a enxergar um
futuro. É estranho, acreditar que vou estar viva em anos, mas é um tipo bom
de estranheza.
— Fico tão feliz de ouvir isso, que você não faz ideia... onde eu estou
nesse futuro aí? — ele provocou, com um risinho, me fazendo sorrir em
resposta.
— Nos bastidores, me aplaudindo e apoiando em tudo, como sempre
faz. Me acompanhando nos ensaios, e tendo pequenas crises de ciúme dos
meus pares românticos. — Ele pareceu gostar da resposta, pois no momento
seguinte estava me enchendo de beijos pelo rosto, a barba fazendo cócegas na
minha pele daquele jeito que eu amava. — Hector! Eu preciso mexer o
macarrão, me solta, ah! — Ele começou a me fazer cócegas de fato, me
puxando contra si e me abraçando. Eu não conseguia parar de sorrir.
— Eu te amo tanto, minha deusa, tanto! — Ele parecia querer gritar, e
eu achei aquilo a coisa mais linda do mundo.
— Assim como eu te amo, agora me deixa desligar o molho antes que
queime! — Ri, puxando-o pela barba pra um beijo, e em seguida fugindo dos
braços dele, indo desligar o fogo do molho e mexer o macarrão pra não
grudar. Estava quase pronto.
— Me trocou por um molho, que tristeza. — Ele fez graça, rindo e indo
pegar dois pratos no armário, colocando eles e os talheres na bancada. Nossa
bancada, onde comemos juntos pela primeira vez. Ah, os dois meses mais
longos da minha vida.
— Bem, você é gostoso, mas o molho também é. — Dei de ombros,
com uma risadinha, testando o ponto do macarrão e desligando o fogo, indo
pegar o escorredor e colocando ele na pia, virando o macarrão ali. Deixei a
água escorrer bem e coloquei de volta na panela, jogando o molho ali e
misturando. Levei a panela até a bancada, indo pegar queijo ralado e um
pegador de macarrão. — Bom apetite. Coma logo, já, já tenho que ir pra
faculdade.
— Eu sei. Temos tempo, venha cá e coma com calma — ele me
chamou, e eu sorri, me sentando ao lado dele e nos servindo de macarrão. Um
prato pra ele, um pra mim, e ainda sobrou um pouco.
Joguei um exagero de queijo no meu prato, vendo-o rir quando eu fiz
isso, e começamos a comer. Como quase sempre, comemos em silêncio, e
quando acabamos eu deixei a louça com ele e corri pra me arrumar. Era meu
primeiro dia de volta, afinal. Primeiro dia da nova vida, da nova Alice.
Vesti uma calça jeans, daquelas de cintura alta, e uma blusa de manga
curta. Já era primavera, final de abril, e o tempo começava a esquentar
bastante. E eu não precisava mais esconder meus braços, não teria vergonha
da minha história e do que passei.
A blusa ainda era daquelas compridas, que cobriam a barriga inteira,
mas era um progresso ela ser um pouco justa na cintura. Calcei minhas
sapatilhas que tinham um mini saltinho, e passei até um batom rosa claro e
rímel. Eu raramente me arrumava, mas um dia como esse merecia uma
atenção especial.
Saí do closet e Hector estava entrando no quarto. Parou pra me encarar,
murmurou “deusa”, deu um tapa na minha bunda quando passou. Eu ri,
balançando a cabeça e indo organizar minha mochila com minhas coisas. Os
dois livros que eu tinha do curso, que não era muito teórico e mais prático, e
meu caderno. Eu ainda tinha o chaveiro de estrela no zíper, e sorri para ele.
Meu símbolo de força nos dias difíceis.
Hector saiu do closet, abotoando uma camisa, e eu o esperei terminar,
segurando a bolsa num ombro.
— Está linda. Linda, forte, perfeita. — Ele sorriu, pegando meu celular
no carregador e me entregando. Quase esqueci, fiquei acostumada a não ter
um. — Vamos?
— Vamos. — Sorri, e ele pegou a chave do carro. Descemos direto até
o estacionamento, o elevador não parou nenhuma vez, e fomos pra o carro.
Em doze minutos eu estava chegando à Lucille, já que o trânsito estava bem
leve. Respirei fundo, a ansiedade batendo um pouco.
— Calma. Vai dar tudo certo, não tem por que ficar nervosa, e se algo
acontecer eu venho te buscar no mesmo momento — ele me garantiu,
esticando a mão pra segurar a minha enquanto parava no estacionamento. —
Eu te amo.
— Ok, ficar calma, vai dar certo. — Apertei a mão dele, me inclinando
sobre o banco para que ele me desse um beijo rápido. — Amo você. Até mais
tarde. — Dei mais um selinho nele e saí do carro, vendo algumas pessoas me
olharem e desviarem em seguida.
Mantive a calma, entrando na faculdade, olhando pra trás e vendo o
carro sair do estacionamento. Ok, vai dar tudo certo, eu sei controlar os
gatilhos se vier algum.
Estava chegando perto do corredor das salas, quando Eric me viu e veio
correndo me abraçar, quase me esmagando. Eu ri, abraçando-o de volta.
— Peloamordedeus, eu senti sua falta! — ele começou, falando ligeiro.
— Como você está? Deu tudo certo? Digamos que eu subornei uma
secretária pra me dizer o que tinha acontecido com você. Não é o mais certo a
se fazer, mas eu queria minha coestrela de volta, e precisava saber quando
isso aconteceria. Queria minha amiga de volta também.
— Eric! Você é terrível! — Ri, balançando a cabeça. — E, sim, eu
estou bem. Deu tudo mais do que certo lá, virei outra pessoa.
— Bem, espero que essa outra pessoa ainda tenha talento, porque temos
duas semanas de ensaio pra pôr em dia. — Ele sorriu, enroscando o braço no
meu e caminhando comigo até minha sala. Em nenhum momento ele encarou
as marcas. — Diga que ao menos continuou ensaiando.
— Eu não podia levar meu script, mas ainda lembro minhas falas. E o
trouxe pra ler durante o intervalo essa tarde, então vai dar tudo certo —
afirmei, caminhando com ele. — Como as coisas ficaram por aqui?
— O mesmo de sempre. Ensaiamos cenas com coadjuvantes, e eu tive
uma Bianca de mentirinha pra repetir as falas comigo, mas não tinha a
emoção que tem quando é você. Realmente foi a Bianca perfeita. Ah, e
aquela Isabella foi suspensa por três dias, e perdeu a posição de assistente na
peça. — Ele virou o rosto pra mim, erguendo uma sobrancelha. — Imagino
que não tenha sido coincidência, você sumir e ela ser expulsa da peça, dois
dias depois.
— Não foi. Eu sumi por culpa dela, algumas coisas que ela disse e fez
tiveram... consequências. — Agi de forma estranha pra mim mesma ao não
me envergonhar e erguer de leve o pulso, as cicatrizes recém fechadas ali. Ele
assentiu, com uma expressão triste. — Ao menos, ela pagou pelo que fez. E
se fizer de novo, eu agora estou pronta pra encarar.
— É assim que se fala! — Ele sorriu. — Agora ande, vá pra aula, que
logo mais temos ensaios e vamos decidir o que fazer pra compensar os
perdidos. Provavelmente vamos ter que ensaiar todo dia, mas tudo bem, né?
— Sim. Terça e quinta eu tenho terapia, mas é no horário depois dos
ensaios, então tá tranquilo. — Paramos na frente da minha sala, e eu o
abracei. — É bom estar de volta.
— É bom te ter de volta. — Ele sorriu, me soltando, e eu entrei na sala.
Até agora tudo bem, e continuaria assim. Quando entrei na sala,
Isabella estava sentada num canto, e eu ergui meu queixo, sentando na
cadeira que costumava ser minha. Algumas pessoas me cumprimentaram,
dizendo que era bom me ver, e eu sorri de volta para elas.
Mal notei que estava sorrindo de verdade, e não no automático.
O tempo pareceu voar nas últimas duas semanas. Alice estava tendo
ensaio todos os dias, e duas vezes por semana indo pra terapia. A melhora
dela continuava, parecia que aquela luz dela que eu tinha visto algumas vezes
agora brilhava constantemente, sem nunca parar. Sempre que eu achava que
não podia amar mais ela, ela vinha e me surpreendia de novo.
Eu tinha passado essas semanas observando o quanto ela melhorou, e
era visível demais. Ela quando chegava e me contava da faculdade estava
animada, contando que conheceu amigos novos na peça, que não era mais só
Eric, que estava ensaiando como louca. Eu só tinha a visto feliz assim na casa
do lago, e era bom ver essa felicidade se espalhar por toda a vida dela.
Já era sábado, e ela iria sair com Eric e mais alguns colegas de elenco
durante à tarde. Minha Alice, saindo pra passear com amigos. Me enchia o
coração de orgulho vê-la assim. Ela tinha acabado de sair, iriam literalmente
brincar de atuar em pleno Central Park, fazendo cenas improvisadas. Eu tinha
achado a ideia louca, mas atores eram todos um pouco loucos mesmo.
Eu não tinha muito o que fazer hoje, então só fiquei assistindo a nova
série que ela tinha me recomendado. Tínhamos acabado True Blood logo
depois de ela sair da clínica, e agora eu estava vendo Scandal. Ela tinha
comentado algumas coisas sobre a série, e eu acabei decidindo ver. Era uma
trama política absurda, envolvendo uma amante do presidente que era uma
espécie de “resolvedora de problemas” pra gente que estava na mídia. Era
insano, mas viciante.
Mais tarde, meus irmãos viriam pra cá, noite de jogos, a primeira de
Alice como parte da família. Nicole viria também, obviamente. Ela e Alice
tinham realmente se tornado boas amigas, Alice em alguns dias ficava horas
com ela no telefone dando risadinhas, e sábado passado foram passar o dia
juntas no apartamento de Nicole e Ethan. Eu estava começando a ficar
tentado a falar como Alice, chamar os dois de NicolEthan, porque encaixava
demais. E isso irritaria profundamente eles, então era um bônus.
O apartamento tinha outra vida agora que ela morava aqui. Paredes
genéricas e bem arrumadas agora tinham alguns quadros e posters que eram
dela, a mesinha da sala tinha manchas de tinta das pinturas numeradas dela,
meu notebook e meu computador agora tinham o bendito jogo da fazenda que
ela me convenceu a jogar com ela. Eu tinha até encomendado o livro guia do
jogo pra nos ajudar e não termos que ficar olhando o site o tempo todo, deve
chegar essa semana. Tudo tinha mudado com ela por aqui, e eu estava
amando cada detalhe.
Meus dias eram mais vivos, sendo acordado com beijos ou com o
cheiro de café, que inclusive eu havia me acostumado a comer de manhã,
coisa que antigamente não fazia com frequência. Alice era uma força da
natureza na minha vida, e eu a amava demais por isso. Eu sabia que ainda era
cedo, mas às vezes quando passava por uma loja ou por um anúncio de anéis
na internet eu ficava pensando no dia que a pediria para ser minha pra
sempre, pois eu já era dela.
É um detalhe curioso, mas quando estava com Elisa eu sempre via um
final. Eu conseguia saber que chegaria um dia em que nossas visões
diferentes de futuro nos separariam, o que de fato aconteceu. Já com Alice, eu
não consigo ver um fim nem tentando. Consigo ver possíveis brigas e
discussões por coisas grandes e bobas que podem acontecer, mas não consigo
ver um dia em que não estaremos juntos. Ela me fez acreditar em almas
gêmeas.
Suspirei sozinho, pausando a série já que não estava prestando atenção
mesmo, e fui pegar alguns dos jogos no closet. Tínhamos conseguido arrumar
direito todas as coisas de Alice nele, e os jogos tinham ficado nas prateleiras
de cima, metade do lado dela e metade do meu. Peguei os que sempre
jogávamos, como Monopoly, clue, e um que Alice viu na internet e me
convenceu a comprar, Zombicide. Esse era diferente dos outros, uma espécie
de RPG cooperativo com uma porção de peças de zumbi e de sobreviventes.
Pegamos uma edição chamada Rue Morgue, que tinha até doze participantes,
por causa do tamanho do nosso grupo. As normais eram só seis e alguém
teria que ficar de fora. Provavelmente Roman, ele adoraria se safar.
Levei os jogos pra sala, abrindo a caixa do Zombicide e pegando o
manual. Alice tinha dito que leu na internet que era super complicado mas
interessante, então imaginei que seria uma boa ideia ler logo. Me arrependi na
hora que vi a quantidade de páginas. Que tipo de jogo precisava de um
manual tão grande?!
Alice me mete em cada uma...
Fiquei lendo o manual, grifando algumas partes com uma caneta pra
achar mais fácil na hora do jogo, e no final estava torcendo pra os meus
irmãos não quererem jogar esse. Extremamente complicado, com regras
absurdas. Inclusive eu tiraria a regra onde se atirar numa zona com um
sobrevivente e zumbis, o sobrevivente morre antes do zumbi. Isso era
ridículo, qualquer pessoa num apocalipse conseguiria mirar mesmo que
porcamente pra não acertar o amigo.
Balancei a cabeça, jogando o livro de regras no sofá e indo na geladeira
ver se tínhamos porcarias suficientes pra comermos hoje. Parecíamos
adolescentes quando nos reuníamos assim, então basicamente comeríamos
salgadinhos, chocolates e balas de gelatina, além de enchermos a cara em
whisky e cerveja. Alice seria a única sóbria, mas eu faria questão dela se
divertir também. E eu teria que esconder o whisky caro que ganhei de
Roman, antes que Ethan, Nicole e Brian se juntassem pra beber todo de uma
vez.
Voltei para o sofá, continuando a ver a série, até a porta se abrir no final
da tarde com Alice de volta. Ela estava com o rosto cor-de-rosa pelo dia no
sol, e deu um gritinho, largando a bolsa junto da porta e vindo pular no meu
colo.
— Imagino que o dia tenha sido bom?
— Você nem imagina! Ganhamos até gorjetas, juntei dez dólares da
minha parte. As pessoas paravam pra assistir, como se estivéssemos
apresentando de fato! Foi incrível! — Ela sorriu, me beijando de uma vez,
segurando meus lábios nos seus e então soltando. — Você devia ter ido.
— Lidar com um bando de atores loucos? Você sabe que meu mundo é
outro. — Ri, vendo-a revirar os olhos.
— Você vive com uma atriz louca, se acostume. — Ela me beijou de
novo, sorrindo entre um beijo e outro. — Vou tomar banho, estou com cheiro
de grama. E não, você não pode vir junto, ou vamos ainda estar lá quando
seus irmãos chegarem, e não quero ouvir gracinhas de NicolEthan.
— Eu nem disse nada!
— Mas pensou. — Ela riu, me beijando de novo e se levantando do
meu colo, correndo rapidinho pra o quarto. Ouvi por alto ela brincar com
Rudy, que era um belo preguiçoso e só dormia o dia todo e ficava latindo
durante a noite querendo brincar até dormir de novo.
Esperei-a sair do banho, que surgiu com o cabelo molhado sorrindo pra
mim, usando um short de tecido e uma blusa folgada por cima, totalmente
confortável e linda. Ela se aproximou de novo, sentando de lado no meu colo,
passando os braços em volta do meu pescoço.
— Cheirosa — comentei, sentindo aquele cheirinho doce dela de mel e
lavanda. — Pronta para encarar uma noite de jogos com os Vanslow?
— Prontíssima. Vi que pegou o Zombicide. — Ela sorriu, animada, e
eu revirei os olhos.
— Sim, peguei essa pocaria complicada. Sabia que tem quase setenta
páginas no manual? E que é extremamente complicado e cheio de regras,
algumas inclusive que eu nem entendi e outra que eu preferi decidir que
iremos ignorar.
— Nem é tão ruim, eu li o manual na internet e achei apenas complexo,
mas com um pouco de atenção fica fácil de entender. — Ela deu de ombros,
enroscando os dedos na minha barba. — Deixe de fazer esse bico e se anime,
eu ajudo vocês a jogarem. Ok, eu mesma nunca joguei, mas posso ensinar
vocês mesmo assim só com o manual, sabe por quê? Porque eu sou um
gênio!
— Humildade mandou lembranças — brinquei, rindo e puxando-a mais
pra perto, roçando nossos lábios. — Pra cada vez que eu fizer algo errado
nesse seu joguinho, você vai ter que me encher de beijos.
— Não vale, assim você vai errar de propósito. Faço assim, te encho de
beijos toda vez que fizer uma jogada bem pensada.
— Trato feito. — Sorri e beijei-a, nossos lábios deslizando juntos
naquele ritmo só nosso que eu tanto amava, funcionando em sintonia. Me
afastei um pouco, em busca de ar, mas ela logo me puxou de volta, me
beijando com aquele carinho e aquela doçura que só ela tinha. Eu realmente
não saberia mais viver sem ela, era um fato.
Ficamos ali no sofá, conversando sobre o dia dela, enquanto escurecia
lá fora, e logo ouvimos a primeira batida na porta. Alice se levantou, indo
pegar os lanches na cozinha, enquanto eu ia abrir a porta. Brian, carregando
uma caixa enorme de... garrafas?
— Que porra...?
— Pensei em incluir Alice na bebedeira, então comprei um kit e um
manual de drinks sem álcool. É basicamente suco, mas é cheio de xaropes
doces e canudos coloridos, então tem a alma de um drink perfeito. — Ele deu
de ombros, e eu o deixei entrar, surpreso que ele tenha pensado nisso. Com
certeza era uma ideia melhor do que deixá-la tomando apenas refrigerante a
noite toda. — Irmãzinha!
— Brian! Que diabos é isso aí? — Ela sorriu, indo remexer a caixa
quando ele a colocou sobre a bancada.
— Seus drinks sem álcool, milady. Coquetéis de todo tipo de fruta que
eu consegui achar, misturas coloridas que eu provavelmente vou fazer errado
e rodelas de limão com mini guarda-chuvas e canudos bonitinhos. — Ele
sorriu, e ela deu um gritinho, dando a volta na mesa e indo abraçar ele.
— Não acredito que pensou nisso! Você é o melhor irmão do mundo,
sabia?
— Por favor, conte aos outros. — Ele riu, soltando-a e indo pegar uma
porção de balas de gelatina que ela tinha colocado numa tigela.
A porta não bateu dessa vez, Ethan e Nicole simplesmente entraram,
com Nicole correndo pra abraçar Alice, quase fazendo-a derrubar uma das
garrafas que estava tirando da caixa.
— Alice! Sua primeira noite de jogos como uma Vanslow. Já aviso que
é uma loucura, e que eles são competitivos babacas, mas se eu sozinha
conseguia dar um jeito de vencer, imagina nós duas juntas! — Ela riu,
balançando Alice no abraço e soltando ela em seguida. Alice rapidamente
colocou a garrafa na bancada, antes de outro ataque. — O que é isso tudo?
— Brian teve a ideia de trazer drinks sem álcool pra mim.
— Tá vendo, Ethan! Seu irmão é mais inteligente que você, por que
não pensamos nisso? — Nicole se virou pra ele, que deu de ombros, indo se
apoiar na bancada junto delas.
— Eu nem sabia que existiam drinks de verdade sem álcool. Achava
que era só ponche de frutas, suco e refrigerante. Mas eu estou vendo — ele
começou a remexer a caixa — rodelas de limão, canudos que giram, e
garrafas com dosadores e xaropes coloridos. Acho que até eu vou provar um
desses, mas vou enfiar vodka junto, obviamente.
— Você é patético. — A loira riu, pegando uma das garrafas, abrindo,
cheirando e dando um sorriso. — Morango!
— É, Brian, parece que você vai virar bartender por hoje. — Alice riu,
e meu irmão deu de ombros. A porta bateu de novo, e eram Roman e Phillip.
Eles moravam menos de cinco minutos um do outro, então fazia sentido
virem juntos.
— Agora sim, família completa. — Sorri, deixando eles passarem.
— Ethan chegou antes de nós, de novo? — Roman deu uma olhada em
volta, rindo quando viu o mais novo. — Me deixe adivinhar, culpa de Nicole
de novo?
— Pelo visto. — Dei de ombros, ouvindo Phillip rir enquanto Roman
balançava a cabeça.
— Pelo visto, a aposta está perto de ser encerrada.
— Finalmente. — Ri, entrando com eles, Roman indo abraçar Alice
rapidamente. Ele era mais fechado que nós, mas ele claramente tinha adorado
a nova adição na família.
— E aí, cunhada, gostando de viver com nosso irmão? — Phill
abraçou-a também. — Espero que ele não seja mais insuportável como era na
adolescência.
— Ele é ótimo, mesmo deixando a toalha molhada em cima da cama de
vez em quando. — Ela fez graça, e eu ri, me aproximando e beijando o rosto
dela, indo pegar as garrafas de whisky e uma de vodka no canto da cozinha.
Meus irmãos se alegraram quando viram o álcool, Nicole vindo pegar uma
das garrafas e enchendo um copo até a metade de vodka, em seguida pegando
o suco de morango e completando. A garota bebia, e não era pouco.
— E então, o que vamos jogar hoje? — ela perguntou, antes de dar um
gole na bebida.
— Por mim, seria algo comum, mas Alice sugeriu Zombicide. É aquele
ali da caixa quadrada e gigante, com um manual de sessenta páginas. —
Apontei para o jogo, e ela deu uma engasgada.
— Sessenta páginas?! Alice, querida, você é louca. Nós te amamos,
mas é louca. — Ela riu, e Alice deu de ombros, com um sorrisinho.
— É um jogo ótimo, ok? Cooperativo, luta contra zumbis, estratégia
pura. Mapas divertidos, cartas de armas, regras especiais, já que Hector
estava reclamando de uma delas que eu também achei boba... vamos, por
favoooor. — Ela fez um charminho, e a garota tinha jeito em domar
Vanslow.
— Sabe que se eu morrer, eu vou ficar revoltado, né? — Brian riu, indo
olhar a caixa.
— Prometo que não vai morrer, basta ser inteligente e ter um pouco de
sorte. — Ela riu.
— Inteligente? — Roman se intrometeu, indo olhar o manual que ainda
estava em cima do sofá. — Nesse caso, deixem que eu cuido de tudo, se
formos depender de Brian os zumbis nos massacram em dez minutos. — Ele
riu, e eu vi Brian considerar arremessar um limão nele. No fim ele realmente
arremessou, acertando o ombro de Roman.
— A agressão começou cedo hoje — Phill comentou, rindo e pegando
um copo bem cheio de whisky, vindo se sentar no chão ao lado do sofá. Alice
pegou a caixa do jogo e colocou na frente deles. Nicole só encarou,
balançando a cabeça.
— Eu tô fora. Não sei nada de estratégia, e não tô a fim de ser comida
por zumbis. Eu cuido dos drinks! Brian, problema seu, eu sou a bartender
agora.
— Nem pensar. Alice me fez comprar a versão mais complicada porque
podia jogar mais que seis pessoas, ninguém vai pular fora — avisei, e ela fez
uma careta, cruzando os braços. — Se for boazinha, eu te deixo começar com
uma arma mais forte.
— Isso não vale! — Alice reclamou, rindo. — Vocês vão massacrar as
regras do jogo, né?
— Eu não chamaria de massacrar e, sim, adicionar um toque Vanslow.
— Ethan riu, pegando um pote de doces e trazendo com ele enquanto se
sentava ao lado de Phill. Alice pegou a caixa do jogo, deixando a tampa de
lado e se sentando no chão, colocando a caixa ali no meio e começando a
tirar as peças diversas. Vi os olhos de Roman se arregalarem quando ele viu
realmente a quantidade de zumbis que tinha ali, e ele começou a folhear o
manual.
— Missões de duas, três horas de duração? Alice, irmã, você acha que
conseguimos ficar sóbrios o bastante por três horas?
— Acho que vou ter que salvar a pele de vocês, isso sim. — Ela deu de
ombros, com um sorriso alegre enquanto separava as peças de zumbis, e
pegava as nove cartolinas de mapa modular. — Vou te deixar escolher a
missão, pode dar uma olhada aí.
— Por que ele? — Brian reclamou, me fazendo rir.
— Porque ele me deu uma pulseira absurda de linda — “e cara” ficou
subentendido — e eu precisava o recompensar de alguma forma. Vamos,
Roman, escolha logo. — Eu adorava o quanto ela se aproximou dos meus
irmãos. Me sentei junto dela, começando a ajudar a esvaziar a caixa e separar
as fichas e cartas.
— Ok, pode ser... essa aqui. — Ele entregou a página virada a ela, que
sorriu. Dei uma olhada por cima do ombro, era uma missão grande, daquelas
de três horas, chamada Nosocomephobia, medo de hospitais. Obviamente, a
missão se passava num hospital.
— Corajoso, já vamos cair de cara na confusão. Gostei. — Alice sorriu,
pegando os nove tabuleiros e montando na ordem que tinha na folha. — Vão
olhando seus personagens enquanto isso. Cada um tem uma habilidade
especial inicial, escolham qualquer um menos a de chapéu, ela é minha. —
Eu entreguei os cards de personagens para os outros.
Separei o da Jane — a do chapéu de Alice — e o Dan, com quem eu
jogaria. Tive que responder o que eram as habilidades de alguns cujo nome
não deixava óbvio, e os outros acabaram escolhendo James, Cathy, Louise,
Travis e Parker. Eram todos com habilidades úteis, como empurrar zumbis
para outra zona, puxar sobreviventes da zona em que estavam em risco, e até
uma médica! Claro que Phill tinha escolhido essa.
Alice ajeitou as peças do tabuleiro, colocando os sobreviventes no
lugar, as barracas, as armas especiais e os objetivos.
— Então, o jogo é simples... — Alice começou a explicar as regras que
não eram nada simples, mas todo mundo assentiu e concordou, e então
começamos a jogar.
Nessa missão tínhamos que pegar todos os objetivos, e depois tinham
dois modos de vencer: se trancar no hospital e matar todos os zumbis, ou
escapar. Claro que meus irmãos decidiram que mataríamos os zumbis, e eu já
conseguia ver o fiasco.
Brian ficou de pé, olhando de cima e dando ordens sobre o personagem
dele enquanto fazia um drink cor-de-rosa pra Alice. Ele fez um com laranja e
vermelho e vodka para si mesmo. Roman e Phill continuavam no whisky,
Nicole com a vodka e morangos, e Ethan na cerveja, de vez em quando
dando um gole no copo dela. Esses dois tinham que terminar juntos, nem que
fosse só uma vez. Nada faria mais sentido do que esses dois juntos.
Continuamos o jogo, e eu quase surtei quando uma carta nos fez
colocar um balofo — um dos zumbis gigantes, menor apenas que o
Abominação — bem na zona que eu estava.
— Ah não, nananinanão, eu não vou enfrentar esse bicho sozinho! E
não tem como fugir... Alice, você vai vir aqui e vai empurrá-los pra outra
zona.
— Como?! Eu estou do outro lado do mapa... Roman! Você está com o
James e tem uma espingarda, se você andar uma zona você consegue atirar ao
menos no balofo, já que tiramos a regra do friendly fire e você não vai ferir
Hector.
— Depende... — Roman estava a algumas zonas de distância da
vizinha a minha, e encarou o tabuleiro, coçando o queixo. Ele já tinha tomado
uma boa quantia de whisky, e estava solto como só ficava quando estávamos
entre nós. — O que eu ganho por te salvar?
— Tá brincando, né? Eu sou seu irmão!
— E daí? — Ele riu, observando o bonequinho cor de vinho dele. —
Vamos, quero ofertas. Estamos num apocalipse, mas negócios são negócios!
— Eu te odeio — reclamei, e todos riram. Brian já estava enchendo o
copo de Nicole com mais vodka, e o de Alice com mais morango e cereja. O
dele nunca ficava vazio, e a garrafa já estava no fim. — Muito bem, eu
ofereço... aquele meu relógio de ouro que você elogiou quando comprei. Mas
dessa vez ninguém pode pisar no relógio!
— Só aconteceu uma vez, ok? — Phillip riu, erguendo o copo acima da
cabeça. — Brian, seja o amor de pessoa que você é e encha pra mim.
— Isso, abuse da boa vontade do seu gêmeo. — Brian riu, enchendo o
copo dele. Vi um sorrisinho surgir, mas ele viu minha cara e mudou de ideia.
Se eu bem conhecia meu irmão, ele ia virar meu whisky na cabeça de Phill.
— Tudo bem, o relógio é suficiente. Se considere salvo. — Roman riu,
e moveu o personagem dele, jogando os dados. No final ele conseguiu matar
quase todos os zumbis, deixando só um pra mim, que eu demorei duas
jogadas de dados pra matar. Saí dali no terceiro movimento, a última coisa
que eu precisaria seria mais zumbis nascendo daquele maldito bueiro.
O jogo continuou, mas a partir do momento que trancamos o hospital
com a gente dentro, tudo foi pelos ares. Nasceram zumbis demais, eram
quatro cartas na zona de nascimento, e não estávamos dando conta. Phill já
tinha tido que curar Brian e Nicole três vezes, ela já estaria morta se não fosse
por ele. Brian agora estava com um ferimento, e longe demais pra ser
alcançado, e com um zumbi corredor na zona ao lado dele. Ele já era.
Na fase dos zumbis seguinte, Brian realmente foi o primeiro a morrer,
tendo que ouvir a risada e piadinhas de Ethan, em quem ele arremessou o
personagem. Se ainda tivéssemos quinze anos pra baixo, ele já teria virado o
tabuleiro.
Olhamos a situação dos zumbis, estávamos cercados e completamente
ferrados. Nos entreolhamos, todos um pouco alterados, e Alice — a única
sóbria — foi a primeira a gargalhar.
— Ok, Roman, a culpa é toda sua que escolheu essa missão!
— Minha?! A culpa é deles que quiseram se trancar num hospital cheio
de zumbis. — Ele apontou para Brian e Ethan, que deram de ombros.
— Desculpe se eu sou corajoso e não quis tomar o caminho mais fácil.
— Você está morto, Brian! Literalmente, você foi devorado por um
zumbi. Tem certeza de que está em posição de dizer algo? — Roman o
encarou, virando mais um gole longo de whisky, finalizando o copo pela...
qual vez era mesmo? Eu não fazia ideia, eu mesmo já tinha virado meu copo
vezes demais para contar.
— Chega- vocês dois... perdemos, fazer o quê?! — Nicole riu, deitada
com a cabeça no ombro de Ethan, que tinha um braço em volta dos ombros
dela.
— Ah, pelo amor de Deus — resmunguei, me calando quando vi que ia
dizer para eles se beijarem logo e encerrar nossa aposta. Todos se viraram pra
mim, e eu tive que improvisar. — Parem de reclamar, mortos não falam.
— Amor, então por que você está falando? — Alice brincou, e eu
fechei a cara, ouvindo a gargalhada dela enquanto se aproximava e me dava
beijinhos no rosto.
— Não, nada disso, vocês não vão ficar nos humilhando com a
felicidade romântica que tem — Brian resmungou, nos encarando. —
Tenham pena do pobre coitado de coração partido, dos dois encalhados e do
que está obviamente apaixonado pela garota ao lado! — Ele apontou para si
mesmo, depois Roman e Phill, e depois Ethan, que gritou eu “ei!” enquanto
Nicole gargalhava.
— Ethan, apaixonado? — Ela engasgou enquanto ria, todo mundo
encarando. — Vocês não conhecem o irmão que tem? Ethan não se apaixona.
Nunca. — Ela continuou rindo, e Ethan deu de ombros, erguendo a garrafa
em um cumprimento silencioso e virando um gole até o final. Talvez tenha
sido loucura minha, pelo efeito do álcool, mas foi tristeza o que eu vi no olho
dele? Passou rápido demais para ter certeza.
— Sou um homem de todas e de nenhuma, apenas isso. — Ele riu,
pegando o drink da mão de Nicole e virando a vodka com morango dela
também. Foi a vez dela de dizer “ei!” — Brian, encha esse copo de novo
antes que ela me mate.
— É o final da vodka — Brian avisou, enchendo o copo até quase o
fim, completando com suco de morango. Ele tropeçou enquanto voltava pra
cozinha, quase caindo enquanto tomava o resto da vodka direto da garrafa.
Ficamos por ali, guardando devagar as peças do jogo e rindo,
conversando como loucos bêbados. Eu ainda era o mais sóbrio depois de
Alice. Ok, não sóbrio, minha cabeça estava girando e tudo um pouco
embaçado, mas eu e Roman ainda tínhamos controle de nós mesmos. Ethan,
Nicole e Brian não paravam de rir, Brian jogado no meu sofá, e Phill estava
num meio termo.
Acabamos de arrumar a caixa do jogo, que acabou sendo bem divertido
mesmo com o fracasso, e no final Alice tinha um sorriso gigante quando nos
despedimos deles, Ethan e Nicole aos tropeços apoiados um no outro, Brian
encarando o celular, provavelmente pensando em fazer alguma besteira e
ligar pra quem não devia – eu esperava que ele não fizesse isso — e Roman e
Phill fazendo pose de sóbrios, mas as pupilas dilatadas deixavam claro que
não estavam normais.
Ficamos só Alice e eu, e eu me virei pra ela com um sorriso, a puxando
nos meus braços, ouvindo ela dar um gritinho misturado com uma risada,
beijando seu rosto de novo e de novo, sentindo-a me abraçar.
— Você é linda, sabia?
— Você diz frequentemente, então sim, sabia. — Ela riu, me beijando
devagar, fazendo uma caretinha adorável quando se afastou. — Você está
com gosto de whisky.
— Sinto muito.
— Eu amo você. — Ela riu, me puxando pela mão até o nosso quarto e
então até o banheiro, começando a tirar minha roupa. Dei um sorrisinho, e
recebi um tapa no braço. — Nada de gracinhas. Você vai tomar um banho e
vamos dormir, já está bem tarde e você está bebinho. — Ela me empurrou
para o chuveiro, me fazendo reclamar.
— Vem comigo. Prometo que sou tão bom bêbado quanto sóbrio.
— Sei disso, lembra que estava um pouco alterado naquela noite do
evento? E ah como foi bom... — Ela deu um sorrisinho, ficando na ponta dos
pés e me beijando. — Mas hoje não. Hoje você vai dormir bonitinho e
vestido.
— Você é cruel.
— Sim. — Ela sorriu, me empurrando para o chuveiro de novo, e dessa
vez eu fui. Ela ficou sentada na lateral da banheira, conversando comigo,
enquanto eu tomava um banho morno, e depois me entregou uma calça de
moletom, daquelas que eu sempre usava pra dormir.
Me joguei na cama, e ela riu, indo vestir um pijama — que na verdade
era uma regata minha, que ficava meio colada nela, mas ela adorava — e se
jogou na cama comigo, pegando os remédios na cabeceira ao lado e a
garrafinha de água, engolindo os comprimidos.
— Vem cá. — Puxei-a pra perto, e me deitei com a cabeça no peito
dela, ouvindo seu coração. — Vou dormir assim hoje, ouvindo o som mais
bonito do mundo.
— Meu coração?
— Sim. A prova de que você está viva e aqui comigo, nos meus braços,
me amando mais e mais a cada dia, tanto quanto eu amo você.
— Você é um bêbado fofo. — Ela enroscou os dedos no meu cabelo,
fazendo carinho. Eu ia dizer que a amava de novo, mas peguei no sono antes
disso.
Mais uma semana passou voando, e Alice agora ensaiava todos os dias.
Era a penúltima semana de ensaios agora, a noite de estreia seria no primeiro
fim de semana de junho. Ela teria um ensaio extra, em pleno sábado, e eu iria
junto. Tinham permitido acompanhantes nesse ensaio extra, onde eles já
estariam com figurinos. Eu estava louco pra ver o progresso de Alice como
Bianca, ela as vezes ensaiava comigo repetindo as falar, e a mudança nela
quando incorporava a personagem era incrível.
Ela agora estava se arrumando, e eu brincando com Rudy no sofá,
coçando a barriga dele. Nosso filhote era a coisa mais fofa do mundo, e já
estava bem grandinho e gordo. Adorável.
Deixei ele no sofá e fui até o quarto, sorrindo ao ver Alice com um
short jeans e uma blusa sem manga de botões. Eu adorava ver a confiança
que ela estava desenvolvendo. Quando a conheci ela só usava moletons e
roupas folgadas, tinha vergonha do próprio corpo, e olhe pra ela agora! Todo
e qualquer sinal de progresso me aquecia o coração, me fazia ter fé de que
realmente teríamos um futuro longo juntos. Ela se virou pra mim e sorriu,
vindo me abraçar.
— E aí, estou bonita? Não que isso importe, assim que chegar vou ter
que trocar para o figurino, mas, né. — Ela deu de ombros, sorrindo e
beijando meu rosto antes de se afastar.
— Está linda, minha deusa. — Beijei a testa dela. — Pronta? Aposto
que estão te esperando.
— Devem estar. Vamos, mal posso esperar pra ver Eric de figurino, é
um estilo tão diferente do dele. Jonathan é um bad boy, daqueles de jaquetas
de couro e calças rasgadas. Eu vou ter que segurar uma crise de riso quando
ver.
— Então vamos logo, também quero ver isso. — Sorri, segurando a
mão dela e pegando as chaves do carro. Desde que comecei a sair com ela, eu
estava dirigindo mais, gostava de estarmos no mesmo carro. June me
perguntou um dia se eu dispensaria Nick do trabalho de vez, mas eu nunca
faria isso. Enquanto ele quisesse, ainda teria um emprego comigo. Sem falar
que eu precisava de alguém pra me dirigir quando fosse beber, e pra levar
Alice pra faculdade quando eu não pudesse.
Descemos até o estacionamento, e em pouco tempo, cerca de quatro das
músicas dela na rádio, chegamos à Lucille. Estacionei e andamos até o
auditório principal, uma verdadeira estrutura de teatro, e ela correu pra junto
do elenco, me dando um selinho de despedida. Andei até uma cadeira na
segunda fileira e me sentei, vendo-a conversar com os outros no palco.
Alguém se sentou do meu lado.
— Hector, não é? Sou Rob, namorado de Eric — ele se apresentou, e
eu sorri, assentindo. — Qual a sensação de saber que sua namorada beija o
meu quase todos os dias desde março? — ele brincou.
— Fico mais confortável sabendo que ele não está solteiro. — Ri de
volta, balançando a cabeça. — Acho que não sou do tipo ciumento. Meus
irmãos são, e provavelmente surtariam com uma namorada atriz que precisa
beijar outros caras, mas eu sou o mais tranquilo.
— Sorte a sua. Eu só fico tranquilo porque é uma garota, mas no dia em
que ele for contracenar par romântico com um cara eu sei que vou precisar de
toda minha confiança pra não ter uma crise — ele admitiu, suspirando e
olhando o palco, por onde eles tinham desaparecido nos bastidores. — Ela
também te faz ensaiar as falas?
— Desde o começo. Já sei quase todas as falas do Jonathan decoradas,
de tanto ler pra ela.
— Eu sou a mesma coisa com as da Bianca. Eric me fez repetir mil
vezes até ele memorizar todas as cenas, e quantas vezes eu escutei o
monólogo principal então?
— Eu sei o dela inteiro. Vou assistir à peça como quem assiste o filme
favorito de infância, repetindo as falas. — Ri.
— Eu também. Olhe lá, eles estão vindo.
Logo quando ele disse isso, as luzes se acenderam mais fortes no palco,
e entrou Alice na frente, a narração da voz dela, enquanto ela e Eric
encenavam o início de Bianca e Jonathan, vistos da perspectiva dela. Era uma
história bonita, eu já tinha decorado toda. O casal se conheceu ainda
adolescente, namoraram por um tempo, mas ele a deixou pra seguir o sonho
de ser famoso. Alguns dias depois de ele partir, ela descobriu que estava
grávida, e a única escolha que sobrou foi abortar, ela não tinha condições
financeiras e muito menos psicológicas de criar aquele filho sozinha. Anos
depois, quando se reencontram de fato, algumas coisas são jogadas na cara
um do outro, e eles começam a se entender. No final eles ficam juntos, ele a
pede em casamento e ela diz que sim.
Eu sabia que quando meus irmãos assistissem, a história ia pegar
pesado em Brian, e Phill iria querer escalá-la como atriz em algum clipe da
gravadora. Mal podia esperar pra ver como isso se desenrolaria, mas já sabia
que ia dar certo. Bem, menos a parte de Brian. Desde que ele soube que Alec
estava noivo, ele ficou um tempo estranho. A verdade é que, por mais que ele
tivesse dito aquele dia que Alec foi o que ele “quase queria”, todos sabíamos
que Alec era o amor da vida dele. Eu sabia que era errado, mas torcia que ele
acabasse o noivado e voltasse para Brian. Sempre vou me preocupar acima de
tudo com a felicidade do meu irmão.
Afastei essas preocupações da minha cabeça e me foquei no palco.
Alice com as roupas da jovem Bianca, era fascinante vê-la usando uma saia
jeans e uma blusa curta que quase mostrava a barriga. Ela entrava tanto na
personagem que esquecia qualquer insegurança que pudesse ainda existir, e
eu me orgulhava demais dela por isso. Ela era o amor da minha vida.
O ensaio continuou sem pausas, apenas como seria no dia com os
tempos da troca de figurino, e a peça tinha ficado incrível. Eu e Rob nos
acabamos de rir na cena de sexo que tinha logo no final, a cama suspensa
como ela tinha dito que ia ser, no melhor estilo de Rocky Horror Picture
Show em teatros, e eu a vi querendo rir também quando nos ouviu. Bem, não
era culpa nossa se sabíamos que aquela cena fora dos palcos nunca seria nem
remotamente real.
Ensaiaram algumas cenas mais uma vez, onde tinham algo a
aperfeiçoar, e então foram liberados. Alice demorou um pouco para se trocar,
então Eric apareceu primeiro, vindo beijar o rosto de Rob e se sentar do lado
dele, dando um sorriso pra mim.
— E aí, Hector. Eu vi vocês dois se acabando de rir aqui, me façam o
favor de não repetir isso na estreia, ok?
— Não é culpa nossa! — Rob se defendeu, e eu apenas ri, dando de
ombros. Alice apareceu na lateral do palco, descendo as escadinhas e vindo
pra junto da gente, parando na lateral da fileira.
— Eles já começaram a se defender pela crise de riso? — ela
perguntou, me encarando, e eu fiz cara de inocente.
— Desculpe?
— Bem que seus irmãos me avisaram que eu às vezes ia querer te
esganar. — Ela fez uma careta e riu. — O que acharam do ensaio, tirando
aquela cena?
— Ficou ótimo. — Sorri. — Vocês conseguiram passar bem as
emoções. Ainda acho que deviam tirar a cena da cama? Acho, mas vou me
segurar pra não cair na risada no dia.
— Você é péssimo, Hector Vanslow. Péssimo. — Ela balançou a
cabeça, um sorriso tranquilo nos lábios.
— Mas falando sério, vocês arrasaram. — Rob sorriu, e eu assenti. —
Mal posso esperar pra ver a produção completa no dia.
— A trilha sonora está perfeita, só não mostraram hoje justamente pra
não dar spoiler pra quem veio ver o ensaio. — Eric parecia orgulhoso do
trabalho que estavam fazendo.
— Verdade. Aquela música na cena da primeira despedida deles me
parte o coração... aliás, vou dar um pequeno spoiler: eu convenci a produção
a colocar uma música country. Só uma, mas encaixou perfeitamente no
momento. — Alice fez aquela carinha orgulhosa de quando conseguia o que
queria, me fazendo sorrir em resposta.
— Quero só ver.
— Bem, nós temos que ir, estamos procurando um apartamento novo e
marcamos com uma consultora de imóveis daqui a pouco, mas espero te ver
de novo, Hector. — Eric sorriu para mim. — Vá com Alice da próxima vez
que a gente for se aventurar no Central Park.
— Vou pensar no caso de vocês — prometi, vendo eles se levantarem,
abraçarem Alice e irem embora. Me levantei também, indo até ela. — Você
estava incrível.
— Eu me senti incrível. É como se Bianca realmente existisse, e eu
saísse do meu corpo pra dar lugar a ela. Eu adorei esse papel, tão cheio de
sentimentos, tão profundo. — Ela sorriu, entrelaçando os dedos aos meus. —
Vamos pra casa?
— Se quiser. Estava pensando em te levar pra jantar, comemorar as
conquistas recentes.
— Mas eu nem estou arrumada pra um jantar, e você só vai em lugares
chiques. — Ela olhou para si mesma, fazendo uma expressão fechada e
balançou a cabeça. — Aceito ir a um café, estou boa o bastante para um café.
— E um café será. — Sorri, caminhando com ela até o estacionamento.
O lugar estava bem deserto, a maioria do pessoal do ensaio já tinha ido
embora, e logo fomos também. Em alguns minutos estávamos numa cafeteria
que eu conhecia, perto do prédio de Roman. Costumava tomar café lá quando
ainda era meu pai na administração do hotel.
Estacionei na lateral e saímos do carro, indo até lá de mãos dadas. Ela
balançou a cabeça, sorrindo.
— Até seus cafés são chiques, eu devia saber — ela murmurou,
beijando meu rosto, e fomos nos sentar numa mesa no canto, ao lado da
janela. A garçonete veio perguntar o que queríamos, bem rápido. — Um café
com chocolate pra mim.
— Um expresso, e uma cesta de cookies — pedi, vendo Alice sorrir
quando mencionei os cookies. A moça assentiu e se foi com nossos pedidos.
Ergui minha mão sobre a mesa, e Alice esticou a dela pra entrelaçar nossos
dedos. Ela inclinou a cabeça um pouco, com aquela expressão de quem está
pensando demais, e sorriu.
— Sabia que eu já perdi a conta de quanto tempo faz da gente? Vai
fazer três meses né? Parecem séculos juntos. Os primeiros de muitos.
— Sim, três meses esta semana. Começamos no final de fevereiro, e
olhe pra nós agora. — Sorri, olhando naqueles olhos tão perfeitos e cheios de
emoção. — Eu já tinha lido histórias na internet, matérias de Buzzfeed que
contavam sobre casais que se conheceram num dia e dois meses depois
estavam se casando, um primo da família conheceu a segunda esposa e
fugiram juntos pra se casar um fim de semana depois, mas nunca achei que
eu fosse ser arrebatado assim. Não até te conhecer.
— Eu achei que nunca seria arrebatada, nem rápido nem devagar. Você
sabe, passei anos me sentindo um lixo que não merecia amor ou atenção, se
lembra como foram os primeiros momentos, eu morria de vergonha de tudo.
E olha pra mim agora! Você me ajudou bastante, foi um bom apoio até que
eu conseguisse ficar de pé sozinha. Te amo muito por isso.
— Não mais do que eu amo você.
— Quer mesmo começar essa discussão? — Ela ergueu uma
sobrancelha, rindo. — Sabe que vai perder, né?
— Nossa primeira briga, hein? — brinquei, recebendo nossos cafés e os
cookies. Alice avançou logo em um. — É estranho não termos brigado até
hoje?
— Eu acho saudável. As pessoas têm uma cultura estranha de que
“quem não briga não se importa”, mas não é assim. Sim, alguns casais
precisam de brigas e discussões pra se acertarem, mas alguns funcionam na
base da calmaria. Em vez de brigarmos no começo, vamos discutir no futuro,
quando não soubermos quem vai acordar de madrugada com o bebê
chorando, ou quando um de nós for o bonzinho e o outro deixar nossos filhos
de castigo. Vamos brigar quando estivermos velhos, por causa do canal da tv,
e vamos ter brigas catastróficas pelas flores do nosso casamento e... o que
foi? Por que está me olhando assim?
— Porque você acabou de admitir que vê um futuro comigo. — Eu
sentia a emoção dentro de mim, o peso e a beleza daqueles comentários que
ela fez tão inocentemente. — Você, a mesma garota que me disse que não
conseguia imaginar um futuro para si mesma... eu te amo. — Levei uma mão
ao rosto dela, fazendo um carinho suave com as pontas dos dedos, e ela deu
um sorriso grande e bonito. — Você já tinha comentado um pouco naquele
dia sobre o sonho de atuar na Broadway, mas ali era seu futuro profissional...
fico feliz em saber que consegue imaginar um futuro pessoal também, o
mesmo que eu imagino.
— Consigo. Eu e você, juntos, nossos futuros bebês daqui uns bons
anos, você me enchendo de abraços e beijos quando ficarmos velhos e
lembrarmos do que vivemos... é o sonho perfeito. E pela primeira vez eu
acredito que ele pode se realizar. — Ela deu um gole no café, sorrindo em
seguida. — Você é tão emocionado e se joga de cabeça como eu. Se tem
alguém com quem eu daria certo pra sempre, é você.
— Minha linda, linda e perfeita deusa. Abençoado seja o dia que
Roman me mandou fazer aquela palestra na Lucille, e bendito seja o papel do
sorteio que tinha seu nome. Coisa do destino mesmo.
— Louvadas sejam mamãe e vovó que me convenceram a ir falar com
você. Parece que tudo à nossa volta deu um empurrãozinho pra que
acabássemos juntos. — Ela sorriu, pegando mais um cookie, dando uma
mordida. — Não sei se eu já te contei isso, mas sabia que eu nem ia naquela
palestra? Achei que seria chata, mais um riquinho privilegiado falando que
todos tinham chance como se fosse verdade. Só fui porque valeria presença
na aula, e aí você apareceu e falou desse seu jeito lindo que reconhece o que
tem e se ofereceu pra ajudar uma completa desconhecida... — Ela suspirou,
pegando um outro cookie e trazendo até a minha boca, me esperando morder.
— Você me amou e aceitou com todos os defeitos, viu qualidades onde eu
mesma não via.
— Você só precisava de óculos melhores pra se ver como eu te vejo.
Fico feliz de ter ajudado, meu maior objetivo sempre foi te ver sorrir. Te
fazer ver o quanto era preciosa.
— Tem uma música, Wanted do Hunter Hayes, que eu sempre ouvi e
ficava tristinha porque ninguém nunca me amaria do jeito que ele fala na
música, ninguém me faria sentir o quanto eu era desejada e amada. Queria
poder voltar no tempo e dizer pra Alice de dezessete anos que ela só
precisava de um pouco de paciência, e o cara mais perfeito do mundo ia se
apaixonar por ela. Ela nunca acreditaria, mas eu gostaria que ela soubesse. —
Ela sorriu, os olhos perdidos em lembranças. — Acha que teria se
apaixonado por mim do mesmo jeito, se tivéssemos nos conhecido naquela
época?
— Eu teria vinte e três, bem na época que estava com Elisa. Talvez se
tivéssemos nos conhecido naquele tempo, eu não teria percebido de cara o
quanto precisava de você. Talvez ficasse cego por mais dois anos, até meu
namoro com ela acabar, e só então percebesse que não parava de pensar em
você. Ou talvez eu terminasse com ela imediatamente ao te conhecer, e
teríamos esse tempo a mais juntos. E você, acha que se apaixonaria por mim,
há quatro anos?
— Acho que sim, mas eu nunca teria a coragem de te dizer algo. Eu era
ainda mais assustada e fechada na época, a maioria dos traumas muito
recentes, então eu me fecharia. Foi na época que eu bebia escondida também,
eu não era a melhor das pessoas. É uma pena não termos tido esse tempo
extra, mas faz sentido ter acontecido esse ano. Tudo acontece quando é pra
ser, do jeito que é pra ser. Li essa frase num livro uma vez, e faz todo o
sentido com a gente.
— Por que conversas bobas sempre viram algo profundo conosco? —
brinquei, vendo-a rir baixinho.
— Somos intensos. Lembra daquela manhã na casa do lago? Não
sabemos ir devagar ou com leveza. Temos sentimentos demais, que são fortes
demais.
— Amo você.
— E eu você. — Ela sorriu, me olhando com olhos brilhantes.
E naquele momento eu tive certeza de que ela era meu motivo de
existir.
A estreia da peça estava cada dia mais perto. Era depois de amanhã, e
hoje papai chegaria. Eu estava muito ansiosa, sentada aqui no banco do
aeroporto, esperando o voo dele pousar. Mal podia esperar pra que ele
conhecesse Hector.
Ele não pôde vir comigo, tinha uma reunião sobre a inauguração do
Empire na Flórida, mas nos esperaria em casa. Nick tinha vindo dirigindo, e
eu sabia que papai ia achar um luxo o fato de que eu agora tinha um
motorista. A gente não conversava muito, eu e ele éramos estranhos em
ligações, mas todo dia ele me manda um bom dia e um boa noite, e quando
estamos juntos eu consigo passar horas contando da minha vida pra ele. Eu
sabia que papai teria sido meu melhor amigo tanto quanto mamãe se eu
tivesse tido a chance de crescer ao lado dele.
Encarei a tela dos voos que chegavam, sorrindo ao ver que o de
Oklahoma pra cá estava no horário certo. Ótimo, mais dez minutos e ele
chegaria. Fazia quase dois anos desde a última vez que eu tinha visto ele
pessoalmente, quando eu visitei da última vez, no aniversário de oitenta anos
da minha avó paterna, quando fomos pra Louisiana. Eu mal podia esperar, e
os minutos pareceram se arrastar até aquela telinha avisar que o avião estava
na pista de pouso. Corri pra o portão de desembarque indicado, esperando
ansiosa, quase pulando no lugar, me esticando enquanto as portas se abriam e
as pessoas começavam a aparecer.
E então eu o vi, lá no fundo, vindo nessa direção. William “Bill”
Rogers, com os mesmos olhos verdes que eu tinha, os mesmos cachos, agora
grisalhos, alto como uma porta, e mais gordo que da última vez. Quando ele
se aproximou eu vi o bigode quase todo branco, o ar sulista que ele
carregava, só faltava o chapéu de cowboy. Ele me lembrava uma mistura
entre Alan Jackson e Charlie Swan. E então ele me viu, e eu dei um gritinho
animado, correndo até ele assim que passou da porta.
— Pai! — gritei, o abraçando bem forte, dando graças a Deus por ele
ser enorme, senão eu teria derrubado ele no chão.
— Minha menininha. — Ele me abraçou de volta, beijando meu cabelo
com carinho. — Senti sua falta, pequena.
— Eu também senti, velhinho. — Sorri, me afastando pra olhar ele
melhor. Ele era exatamente como eu me lembrava, principalmente os olhos,
tão emotivos quanto os meus.
— Tive medo de nunca mais te ver. — Os olhos dele se encheram de
lágrimas, e eu sabia do que ele estava falando.
— Eu sei. Eu sinto muito. — Abracei ele de novo, bem forte.
— Você ainda está aqui, é isso que importa. — Ele me apertou mais
uma vez antes de soltar, sorrindo. — Vem, vamos sair daqui antes que
reclamem de estarmos obstruindo a passagem.
— Boa ideia. Nick, o motorista, está nos esperando no carro.
— Minha filha tem um motorista... — Ele balançou a cabeça, puxando
a mala enquanto andávamos, sorrindo. — E então, como é a vida com um
milionário?
— Estranhamente normal. Tipo, ok, ele me deu um colar que deve ter
sido uma fortuna, e o irmão dele me deu as boas-vindas pra família com um
bracelete combinando que deve ter sido outra fortuna, e quando nos reunimos
eu vejo eles apostando coisas como relógios de ouro ou mil dólares na aposta
de que um irmão dele e a melhor amiga vão acabar juntos até tal prazo. Eu
entrei com quinze dólares nessa, se eu vencer vai ser um lucro e tanto. — Ri.
— Mas de resto é bem normal.
— Sua definição de normal nunca foi muito confiável, então vou ter
que perguntar de outra forma, como está sendo morar com seu namorado em
tão pouco tempo?
— Mesma resposta, estranhamente normal. É natural estar do lado dele,
como se tivesse sido sempre assim. Semana passada estávamos falando disso,
de como somos intensos e andamos rápido demais. Acho que puxei isso de
você, mamãe vive dizendo o quanto o senhor é emocionado. — Ri, vendo-o
balançar a cabeça.
— Até parece que Cat pode falar de mim, ela era louca na nossa
juventude! — Ele riu. Eu gostava de ver o quanto ele e mamãe ainda eram
amigos depois de todo esse tempo, isso com certeza tinha me poupado o que
seriam alguns traumas extras. — E então, qual desses carros é do meu genro?
— Aquele ali, o sedan preto com o cara de terno na frente. — Nos
aproximamos do carro, e Nick deu um sorriso.
— Bem-vindo, senhor Rogers. — Ele abriu a porta pra nós, e meu pai
parecia ainda não estar acreditando que eu tinha um motorista. Segurei a
risada. Nick abriu o porta-malas, pegando a do meu pai e colocando lá, em
seguida assumindo o volante. Ele deu um sorriso pelo retrovisor. — Me
deixem adivinhar, estação de country?
— A de country antigo, em homenagem a esse quase idoso aqui. — Ri,
meu pai me encarando. Ele ia reclamar, mas na hora que a rádio ligou estava
tocando On the road again, do Willie Nelson, uma das que ele me fazia ouvir
quando eu era pequena, uma das que me levou pra o country. Ele sorriu,
começando a cantar. Ele tinha uma voz boa, até tinha tentado uma carreira no
country quando mais novo, mas não deu certo.
E então começou Take me home, country roads, e eu cantei junto.
Totalmente desafinada, de forma que tive até pena de Nick por ter que aturar
nossa loucura de família. Foi uma jornada e tanto de música velha até
chegarmos no Empire, e eu pedi que a mala fosse deixada no quarto que meu
pai ficaria hospedado. Hector tinha insistido em deixar ele num quarto de
luxo aqui, e papai aceitou sem nem reclamar.
— E aí, pronto pra conhecer seu genro?
— O motorista, eu já assustei, falta ele — papai brincou, me fazendo rir
e revirar os olhos.
— Ele não se assusta facilmente, então boa sorte. — Entramos no
elevador, e eu apertei o 25. Papai fez uma careta, ele não gostava de lugares
muito altos. Encontramos dois hóspedes no caminho, que já me conheciam e
me deram boa tarde. E então chegamos.
Abri a porta do apartamento, e Hector levantou do sofá assim que nos
viu, vindo se apresentar. Meu pai o encarou de cima abaixo, fazendo cara de
bravo como se estivesse julgando. Mal sabia ele que eu já tinha contado a
Hector que no fundo ele era tão fofo quanto um ursinho carinhoso.
— Boa tarde, senhor Rogers. É um prazer te conhecer. — Hector
estendeu a mão, que meu pai apertou com força demais. Revirei os olhos,
sorrindo.
— Pai, pare com essa cara, vai acabar com rugas — brinquei, e ele riu.
— Está arruinando meu plano de intimidar seu namorado. — Ele fez
uma careta pra mim e se virou para Hector. — Pode me chamar só de Bill,
filho. A partir do momento em que salvou minha menina, você já passou
qualquer teste de aprovação.
— Obrigado. — Hector sorriu, e eu também.
— Ok, sem conversa emotiva hoje, vou pegar uma bebida pra vocês e
os dois vão se tornar melhores amigos, porque são os homens mais
importantes na minha vida.
— Sim, senhora. — Os dois falaram ao mesmo tempo, se olhando em
seguida e rindo, enquanto eu ia até a cozinha, pegando uma dose de whisky
para Hector e uma cerveja para o meu pai. Tinha comprado aquelas bud light
que ele tanto gosta e que vivem sendo mencionadas em músicas country.
Voltei pra sala, entregando o copo e a garrafa a eles.
— Pai, sabia que eu ensinei Hector a ouvir country? — comentei,
sorrindo enquanto me sentava ao lado de Hector no sofá.
— Country de verdade, ou aqueles novos e estranhos?
— Os dois. Até dançamos ao som de Chattahooche quando me mudei
pra cá! E o country novo não é estranho.
— Alguns são. — Papai balançou a cabeça, rindo e se virando para
Hector. — Me conte mais de você, filho. Como é trabalhar com hotéis?
— Difícil e fácil ao mesmo tempo. Tem momentos em que eu
literalmente não preciso fazer nada, os gerentes resolvem os problemas e eu
só fico aqui vendo o tempo passar, mas tem outros que são um verdadeiro
inferno, como o caso do hotel cassino em Atlantic City. Foi uma ideia do
meu irmão, Ethan, e eu fui burro em considerar. Foram semanas e semanas
tendo problemas porque nem eu nem o gerente de lá sabíamos administrar
cassinos, até que consegui um especialista de Vegas. Alice acompanhou boa
parte dessa jornada, teve que me ouvir reclamando dia após dia.
— Foi um verdadeiro caos. — Comentei, balançando a cabeça.
— Consigo imaginar. Cassinos são complicados, no bar onde eu
trabalhei inventaram de colocar uma máquina de caça niqueis uma vez, deu
uma confusão danada.
— O senhor já trabalhou num bar?
— Eu era bartender quando Catarina me conheceu, ela tinha recém-
feito vinte e um e foi ao Wolf’s comemorar, eu fiz o primeiro drink que ela
bebeu legalmente. — Papai deu um daqueles sorrisos de quando falava da
minha mãe, um sorriso que refletia um passado distante. — Só larguei o bar
cinco anos depois, quando Alice nasceu.
— Vai ter que me ensinar alguns truques de bartender, tenho um irmão
que se mete a fazer drinks, Brian, e não seria nada mal o superar. — Hector
riu e papai também.
— Como são seus irmãos? Eu também sou de uma família de cinco,
mas nunca fui muito próximo dos meus. Crescemos brigando, e acabamos
indo cada um pra um lado. — Papai deu de ombros. Meus tios eram... sei lá,
distantes. Dos dois lados, eu só tinha tia Danny de realmente próxima. Tio
George era sei lá, se afastou da família desde que casou com tia Ellen.
— Eles são loucos, sendo sincero. Somos grudados desde pequenos, a
maior distância de idade são oito anos entre Roman e Ethan, Brian e Phill são
gêmeos que de idêntico só tem a data de nascimento. Roman é o mais sério e
responsável, mas é só virar algum whisky caro que ele começa a apostar
relógios. Por trás da fachada séria ele tem o maior coração dos cinco. O
segundo sou eu, depois vem os gêmeos. Brian é mais velho por alguns
minutos, e é um artista de alma romântica perdido no mundo, inclusive ele
adotou Alice como irmã, e disse que se eu a magoar quem será expulso da
família sou eu.
— Já gostei desse. — Papai riu.
— Ele é incrível. Aí vem Phill, que trabalha com a Vans Records, e
tenta bancar o sério. No fundo nem ele sabe exatamente como quer ser, é a
mistura perfeita entre todos nós. E é um galinha conquistador. — Hector riu.
— E por último, Ethan, o “caso perdido” da família. — Ele fez aspas no ar.
— Vinte e dois anos, ainda não sabe o que fazer da vida além de viajar e ir
em festas. Ele mora com a melhor amiga, Nicole, e temos uma aposta
correndo na família de quanto tempo vai até eles se envolverem.
— Alice comentou algo de uma aposta sobre um irmão. Eu deveria
bancar o adulto e dizer que isso é errado, mas sinceramente? Vou é torcer pra
que ela ganhe. — Papai riu, balançando a cabeça. — A família de vocês
parece ótima. Fico feliz que minha filha esteja se tornando parte.
— Ela já é da família. A partir do momento em que ela atacou meu
irmão com uma almofada ela se tornou uma Vanslow. — Hector riu.
— Agressão entre irmãos, o maior símbolo dos Vanslow — brinquei.
— Devo perguntar o motivo da agressão?
— Brian ameaçou dar spoilers de uma série que eu convenci Hector a
ver. Tive que calar a boca dele de alguma forma, e o jeito foi arremessar uma
almofada. — Dei de ombros, fazendo uma carinha de inocente.
— Perfeitamente aceitável. — Papai riu. — Gosto de te ver assim,
pequena. Sorrindo, dando risada... depois de tantos anos numa área cinza, é
bom ver que seu sol voltou a brilhar.
— Tive uma ajudinha pra empurrar as nuvens pra longe. — Sorri,
entrelaçando meus dedos aos de Hector.
— Bom, não sei se a esse ponto isso vai valer de algo, mas vocês têm
minha aprovação. É fácil ver o quanto ele te faz feliz, e essa cara de bobo
quando ele te olha prova que ele vai continuar. — Ele olhou bem paa mim e
pra Hector, dando um sorriso que me avisou que lá vinha algo. — Quando for
pedi-la em casamento, saiba que tem minha permissão e minha benção.
— Pai!
— O quê? Só estou poupando-o de ter que fazer uma ligação
futuramente. — Papai deu de ombros, mas Hector ficou calado, apenas rindo.
— Bom, que tal parar de tentar assustar meu namorado, e pedirmos o
jantar? Eu poderia cozinhar, mas você precisa provar a comida de Geralt, o
chef aqui do hotel. Sim, temos um chef à nossa disposição, e ele tem até uma
estrela Michelin.
— Me ganhou na primeira vez que falou chef. — Papai riu. — Ele, por
acaso, sabe mexer com carne? Já sinto falta dos meus churrascos.
— Sabe, sim — Hector garantiu, e eu me levantei, indo até o telefone
na parede. Geralt a esse ponto já me conhecia como “a nova Vanslow”.
— Geralt? Boa noite, sim, vamos querer o jantar hoje. Pra três, meu pai
veio nos visitar. Faça sua melhor versão de assado de carne em estilo sulista.
— Pode deixar, nova Vanslow. Logo mando o jantar. Alguma
sobremesa?
— Nos surpreenda. — Sorri, desligando logo depois dele confirmar e
voltando para o sofá.
Meu pai tinha começado a contar histórias da minha infância pra
Hector, que estava se acabando de rir com a vez que a pequena Alice de dois
anos escalou o berço e caiu de cara no chão, quebrando um dente de leite.
Meu pai adorava essa história. A maioria das que ele tinha eram de mim até
os quatro anos, e depois algumas isoladas das vezes que ele vinha ou que eu
ia visitar.
O jantar chegou algum tempo depois, e Geralt tinha feito questão de
mandar um vinho caro junto. Ele sabia que eu não bebia, então também veio
uma garrafa daquele espumante sem álcool que eu gostava.
Já era bem tarde quando meu pai foi embora, Hector tinha conseguido
para ele o quarto 2352, o mesmo que eu fiquei da primeira vez que vim ao
hotel. Fechei a porta quando meu pai entrou no elevador, e sorri, me virando
para Hector.
— E então, o que achou?
— Adorei seu pai. Agora sei de quem você puxou muitas coisas, não só
na aparência. — Ele sorriu, me olhando. — Está feliz?
— Muito. Agora todas as minhas pessoas favoritas estão aqui, e depois
de amanhã é a estreia de Espelhos. Mal posso esperar. — Sorri, dando um
pulinho animada.
— Ótimo. Vem, hora da minha atriz preferida ir descansar, amanhã tem
ensaio o dia todo.
— Eu sei. Vai ser um longo dia, mas tudo pra garantir que vai dar certo
na apresentação. Todo mundo vai, né?
— Pela milésima vez, sim. Eu, meus irmãos, meus pais, seus pais, sua
vó e sua tia Danny. E depois vamos vir pra cá comemorar em grande estilo a
primeira de muitas estreias na sua carreira.
— Eu te amo. — Sorri, indo me sentar de lado no colo dele, o
abraçando.
— Eu sei. Também te amo. Agora ande, vá tomar banho, depois os
remédios, e depois dormir.
— São só oito e meia!
— Até você sair da banheira, já vai ser nove horas, e isso porque eu não
vou junto. — Ele riu, beijando meu rosto.
— Ok, já vou. Preferia que você viesse junto, mas sei que não posso me
cansar demais hoje e amanhã. — Suspirei, balançando a cabeça. — Mas
depois da festa da estreia, eu vou te jogar naquela cama e fazer tudo o que
quiser com você. Esteja avisado.
— Mal posso esperar. — Ele foi cruel, dando uma mordidinha na
minha orelha antes de me soltar. Levantei rindo, andando até o banheiro e
ligando a banheira, jogando a essência de lavanda lá dentro. Hector me
mimava com coisas bobas como essências de lavanda que faziam espuma
lilás, e eu amava esses pequenos detalhes.
Respirei fundo, suspirando ao me afundar na espuma, deixando a água
quente me relaxar. Amanhã e depois seriam dois grandes dias, mas eu me
sentia preparada. Pela primeira vez em séculos, estava vindo algo grande,
mas o medo não estava me consumindo.
Dia de estreia. Eu acordei mega cedo, mesmo sabendo que a peça só
seria de noite, mas não consegui pegar no sono de volta. Em vez disso, fiquei
caminhando pela sala, com Rudy no colo, repetindo todas as minhas falas
durante a hora e meia até Hector aparecer na porta, me encarando com uma
sobrancelha erguida, provavelmente achando que fiquei louca de vez. Dei de
ombros, colocando o cachorro no chão e indo dar um selinho nele.
— Bom dia.
— Não vou nem perguntar se está nervosa. — Ele riu, segurando minha
cintura e me mantendo no lugar. — Vai dar tudo certo.
— Certeza? E se o som falhar? E se alguém adoecer? E se eu adoecer?
— Bem, você não está com febre — ele colocou a mão na minha testa
— nem pálida, nem tossindo ou espirrando, então eu diria que está tudo bem.
Vai dar certo, minha deusa.
— É minha grande estreia. Isso vai interferir pra sempre na minha
carreira, tem noção disso? É meu momento, não pode ter nenhum errinho.
— E não vai ter. — Ele me abraçou, beijando meu rosto, meu cabelo,
fazendo carinho na minha nuca. — Você vai ser brilhante. Vai ser incrível em
todos os sentidos, e vamos ter todos os motivos do mundo pra comemorar
depois... lembra em Meu Romeu, como a Cassie se apoia no Ethan e eles
ficam abraçados antes de começar a peça? — Assenti. — Pode fazer isso
comigo. Posso me esgueirar para os bastidores e ficar lá, abraçado com você
até a hora de começar.
— Acho que meu diretor te esgana se fizer isso. — Ri baixinho,
beijando o rosto dele e o abraçando bem forte.
— Eu posso me fantasiar de figurante, ele não vai nem notar.
— Nada disso. Você vai usar um desses seus ternos bonitos e ficar na
plateia com nossas famílias. E vai me dar flores depois, rosas vermelhas. —
Sorri, beijando o rosto dele de novo e de novo. — Te amo.
— Também te amo. Que horas você precisa estar lá mesmo?
— A apresentação é às sete horas, a entrada do público é liberada às
seis e meia, e eu preciso estar lá de no máximo quinze para as seis. —
Suspirei, a taquicardia voltando. — Promete que vai me aplaudir, não
importa o que aconteça?
— Não precisa nem pedir. — Ele sorriu, beijando meu rosto,
deslizando a boca até a minha, e enquanto o beijo durou eu esqueci todas as
preocupações, totalmente entregue a ele, como sempre ficava. — Melhor
agora?
— Uhum. — Beijei-o de novo, rapidinho, e me afastei um pouco. —
Vou fazer o café. Quer torradas ou waffles?
— Waffles, com aquele seu caramelo... queria te cobrir de caramelo,
mas podemos deixar isso pra mais tarde. — Ele deu um sorrisinho, me
fazendo rir e bater no braço dele, indo pra cozinha.
— Você é cheio de fetiches que eu não conhecia. Dar ordens, me cobrir
de caramelo... o que acha de chocolate derretido e um chalé no inverno? Não
me olhe assim, eu também sei ser pervertida quando quero. — Ri da cara que
ele fez, fazendo um charminho enquanto ia pegar a mistura de waffles no
armário, e a maquininha similar a uma sanduicheira embaixo do balcão.
Comecei a preparar a massa, vendo com o canto do olho quando ele se
sentou na bancada, me observando em silêncio e no fim balançando a cabeça.
— Sabe que eu vou te cobrar essa ideia do chocolate um dia, não sabe?
Assim que o tempo começar a esfriar de novo eu te arrasto para o chalé mais
próximo. — Me virei pra ver ele dar um sorrisinho, e pisquei um olho,
colocando a massa na máquina e indo pegar o açúcar enquanto os waffles
ficavam prontos. — Aliás, acho que nunca te perguntei as suas fantasias. Sou
sempre eu, falando e falando e te provocando...
— Por que nossas conversas matinais sempre acabam em emoção ou
sexo? Não podemos ser normais uma única vez? — Ri, jogando uma boa
quantidade de açúcar na panela pra começar o caramelo.
— Qual seria a graça de sermos normais?
— Faz sentido. — Ri, fugindo do assunto. Ah, eu tinha muitas fantasias
desde que começamos a sair juntos, mas eu me distrairia demais se falasse
elas agora. Sem falar que pretendia mostrá-las uma a uma quando fosse tendo
a oportunidade. Queria surpreendê-lo do jeito que ele fazia comigo.
— Não vai responder à pergunta, né?
— Um dia eu te mostro a resposta... se for bonzinho — brinquei,
mexendo o caramelo, esperando dar o ponto.
— Vou viver o resto dos meus dias na expectativa. — Ele deu um
sorrisinho de canto, e eu uma risadinha, fingindo um sorriso inocente e
desligando o fogo, indo abrir a máquina de waffles e colocar uma segunda
porção da massa, tirando a primeira e pondo num prato. Tinha torrado um
pouco, mas tudo bem.
— Não exagere.
— É sério. Agora serei constantemente assombrado por saber que a
qualquer momento você pode estar planejando uma surpresa pervertida pra
mim. Nunca mais vou ter sossego! — Ele exagerou na voz dramática,
segurando o riso. Balancei a cabeça, tirando os waffles da máquina e
colocando junto no prato, virando o caramelo por cima e indo até a bancada,
colocando o prato na frente dele.
— Pare de drama e coma. — Ri, pegando um pedaço do waffle com um
garfo e levando até a boca dele.
— Essa conversa não acaba aqui — ele avisou, rindo e mordendo o
waffle, começando a comer.
O resto do dia passou voando de uma forma estranha, ficamos
conversando sobre a peça, repassando minhas falas mais complicadas, e
depois jogamos Stardew Valley pra me distrair por alguns minutos.
De quase cinco horas eu fui tomar banho, e cinco e vinte estávamos
saindo de casa. Hector ia me levar até a Lucille, e depois voltaria na hora da
apresentação com o resto do pessoal. Eu estava ansiosa.
— Respire, não deixe a ansiedade vencer. Vai dar tudo certo, você vai
ser incrível, e todos vão querer te contratar pra mil peças novas depois dessa.
Em quatro anos você vai estar na Broadway, e essa jornada começa hoje. —
Ele estendeu a mão pra mim, estacionados em frente ao teatro, e eu assenti,
entrelaçando nossos dedos.
— Se Cassie Taylor conseguiu ser Julieta, eu consigo ser Bianca. Sim,
ela só existe no livro, mas é de onde eu tiro boa parte da minha confiança. —
Ri, respirando fundo, me acalmando do nervosismo. — Ok, está na hora. Te
vejo na plateia.
— Vou ser o cara gritando e assobiando na primeira fileira. — Ele
sorriu, se inclinando para me dar um selinho, e eu assenti, respirando mais
uma vez e saindo do carro e entrando pela porta lateral do teatro, que dava
acesso aos camarins.
Já estava tudo uma correria. Assistentes de palco terminando de
finalizar a iluminação definitiva, figurinistas correndo com cabides, e Eric
com os olhos arregalados na porta do meu camarim, parecendo dar graças a
deus quando me viu.
— Alice! Por favor, me diga que eu não sou o único que está em pânico
aqui! — Ele veio pra junto de mim, e eu vi as mãos dele tremendo.
— Acho que todos estão em pânico, mas a gente principalmente. —
Segurei as mãos dele, o olhando nos olhos. — Respire fundo. Não sei como,
mas vamos fazer isso dar certo, porque tem que dar certo. É nosso grande
começo. Nosso primeiro papel principal, nosso primeiro passo, meu em
direção à Broadway, seu em direção a Hollywood. Vai dar tudo certo, e nosso
futuro começa hoje. Hector passou o dia me acalmando com essas palavras,
acho que valem pra você também.
— Você é incrível, sabia? — Ele me puxou num abraço, quase me
esmagando. — É estranho que eu te considere como uma irmã, sendo que a
gente vai ter que se beijar uma porção de vezes em cena daqui a uma hora e
pouco? — Ele riu.
— Olha, considerando que não são beijos de verdade, acho que é
tranquilo. — Ri também, e nós dois respiramos fundo, suspirando. — Já
conferiu os figurinos?
— Já. Tudo certinho, e os cenários também. Só estão acabando de
programar a iluminação com as lâmpadas mais fortes, e configurando o
volume das caixas de som. O dia chegou.
— O dia chegou — repeti, segurando a vontade de gritar. — Acha que
alguém vai vomitar? Li que toda estreia tem algum ator que vomita antes.
— Estou surpreso de não ter sido eu. — Ele riu. — Mas acho que vai
ser Logan, por incrível que pareça. Ele estava quase morrendo ali no canto na
hora que chegou.
— Ainda bem que ele não ficou com o papel de Jonathan — comentei,
balançando a cabeça. — Foi bem mais fácil contracenar com você até agora.
E ainda bem que não me tiraram por causa daquelas duas semanas, teria sido
uma pena.
— Nenhuma outra aluna daqui faria uma Bianca melhor. Você
transmite a emoção dela até no olhar, e mesmo que só eu esteja vendo de
perto, sua voz transmite até a última fileira. Você já viu Glee? — Assenti. —
Então, você é a nossa Rachel Berry, só que sem a parte de ser insuportável.
— Obrigada, eu acho. — Ri, balançando a cabeça. Eu ia comentar que
se eu era a Rachel, ele seria o meu Kurt, mas um assistente de palco veio nos
chamar pra começarmos a nos arrumar. Já eram seis e quinze. Respirei fundo,
assentindo e seguindo até o meu camarim, e deixando que me maquiassem e
me transformassem em Bianca, me concentrando na personagem e aos
poucos deixando de ser eu mesma. Precisava dessa concentração. Durante as
próximas duas horas de palco eu não seria Alice Caroline Rogers, filha de
Catarina e William, namorada de Hector. Eu seria Bianca Cassidy, filha de
Juliette, eternamente apaixonada por Jonathan.
Estava pronta, com o figurino da primeira cena, e andei até a coxia,
encontrando Eric ali, também pronto. Nesse momento éramos Bianca e
Jonathan no ensino médio, logo quando se conheceram pela primeira vez,
quando descobriram um no outro tudo o que mais queriam e temiam.
— Pronto? — perguntei, e ele assentiu.
— Pronto. E você?
— Pronta. — Dei uma espiadinha pela cortina na lateral, e vi as minhas
pessoas, logo na primeira fileira. Minha mãe, meu pai, vovó, tia Danny e
Breanna, uma das minhas primas. Ao lado estavam os cinco Vanslow,
chamativos em seus ternos e camisas de luxo, Nicole ao lado de Ethan, e
mais no canto Frederick e Carmen, meus sogros. Junto deles estava Rob, ao
lado de um senhor e uma senhora que só podiam ser os pais de Eric.
Um assistente de palco passou por ali e brigou comigo por estar
espiando, então me afastei da cortina, dando um risinho de desculpas. O
relógio anunciou sete horas, e meus três professores passaram pelas cortinas,
apresentando a introdução.
Tinha chegado a hora. Eles desceram do palco, as cortinas se abriram, e
a música introdutória começou. Olhei para Eric, e assentimos ao mesmo
tempo. Na minha deixa eu entrei, Bianca caminhando pelos corredores do
colégio, indo deixar os livros no armário, quando um aluno novo chega no
armário do lado. A narrativa da minha voz contava essa história, o ponto de
vista dela de como tudo começou. E então era trocado para voz dele, dizendo
que no momento que a viu, ficou encantado. Ela era a garota sobre quem
todas as músicas falavam quando mencionavam a perfeição.
A narração ia sendo trocada, enquanto encenávamos uma conversa
silenciosa do primeiro “oi” que eles disseram. E então saíamos de cena, eu
colocava um casaco e ele uma jaqueta do time e voltávamos, enquanto a
narração dizia que o tempo foi se passando e Bianca e Jonathan se
apaixonaram cada vez mais. O primeiro beijo, no canto do palco, embaixo
das arquibancadas do colégio. Na narração um ano foi passando,
E então saíamos de novo, ele voltava antes, andando impaciente de um
lado para o outro, e eu aparecia depois. O cenário agora era o do centro do
enorme palco, uma sala com um sofá. Era aqui que a narração parava e
começava o diálogo.
— Jonathan, o que foi?
— Eu... eu preciso ir embora, Bianca. Eu não posso perder a porra da
minha vida nessa cidadezinha ridícula, eu tenho uma carreira pela frente.
— Mas e quanto a mim, a nós?
— Sinto muito. Eu tenho que levar meus sonhos em primeiro lugar,
meu futuro.
— Pensei que eu fosse seu futuro!
— A música é minha vida, você sempre soube disso! Desde que eu era
menino, desde que eu te conheci ano passado você sempre soube que essa
hora chegaria.
— Sim, mas eu... pensei que me levaria junto.
— Te levar junto? Não fale idiotices, esse é meu sonho, minha vida.
Não sua. — A risada cruel dele parecia ressoar nos ouvidos de Bianca, nos
meus, já que eu era ela.
— Então nosso ano inteiro juntos, tudo o que vivemos, não serve de
nada pra você?
— Vai ser uma boa memória pra me manter aquecido nas noites frias
da estrada, mas é só isso. Acabou, Bianca.
— Simples assim? Acabou?! Jonathan, eu não estou te entendendo, até
ontem estávamos bem, e agora você me diz que acabou?
— A hora chegou. Sinto muito por te magoar, mas em pouco tempo
você nem vai lembrar mais de mim. Vai seguir com a sua vida, e eu com a
minha. — E então ele dava um passo à frente, como se fosse abraçá-la, mas
desiste e se vira, indo embora, deixando Bianca, eu, e toda a plateia com
aquele sentimento de confusão que uma despedida abrupta e sem sentido
causava.
Fim do primeiro ato, a cortina se fechou. Era só o tempo de trocarmos
de roupa e o cenário estava sendo trocado quando Bianca volta a narrar. Era
minha voz, mas era a história dela. Ela contou que os meses seguintes ao
término foram os piores. Ela não mencionou o aborto, não ainda, esse seria o
plot twist, a grande revelação da história, mas ela mencionou um evento
traumático, um momento que a assustou mais do que tudo e revelou que ela
era muito mais forte do que um dia havia imaginado ser.
Os anos vão se passando enquanto ela contava que foi embora daquela
cidadezinha cheia de memórias ruins, e metade da cortina se abriu, na parte
onde eu estava, mostrando uma Bianca já adulta, trabalhando numa empresa
qualquer na costa leste, vivendo uma vida normal. A cortina voltou a se
fechar nessa metade e se abriu na outra, mostrando Jonathan em um show, o
público gritando seu nome, cantando uma música sobre uma garota que
perdeu há tanto tempo.
A cortina ficou fazendo isso, focando em um lado e no outro, Bianca
com uma colega de trabalho, recebendo ordens de irem fechar um negócio
em Los Angeles, e então focando na tour de Jonathan pela costa oeste, onde
tocaria num festival na praia. As duas extremidades da cortina se fecharam
por pouco tempo, apenas o suficiente para a produção empurrar o bar para o
centro do palco e meu blazer ser retirado, um vestido jogado por cima da saia
colada do conjunto. Quando as cortinas reabriram, Bianca estava no bar do
hotel, tomando um martini, quando Jonathan se sentou duas cadeiras depois,
pedindo um old fashioned.
Ele se virou para o lado, eu me virei, surpresa.
— Jonathan? — A voz soa fraca, sem ar. Hurricane tocava baixinho ao
fundo, o trecho que dizia que ele estava bem até vê-la, que a lua se escondeu,
as estrelas pararam de brilhar e ela o atingiu como um furacão.
Os dois conversaram, beberam, saíram bêbados aos tropeços, ela
puxando ele pelo cinto da calça, revivendo o passado. Fim do segundo ato.
Quando as cortinas se abriram de novo, os dois estão acabando de se
vestir com as roupas da noite anterior, ao lado de uma cama desfeita, uma
conversa estranha sobre ter sido um erro e estar tudo bem.
A partir desse momento começava minha parte favorita da história.
Bianca e Jonathan entre idas e vindas, se encontrando por acaso em festivais
que ela jurava não saber que ele ia se apresentar, ou em um evento da
empresa onde ele jurava não saber que ela trabalhava. A tensão entre os dois
era sensível no ar nesses momentos, até explodir na grande briga, quando o
aborto é revelado. O ofegar da plateia confirmou que o elemento surpresa
funcionou.
Começaram as brigas, eles se afastando, e então já estávamos no último
ato, quando eles se reconciliam. Teve a cena quase explícita da cama erguida,
e eu e Eric quase saímos dos personagens com a vontade de rir, mas a luz do
palco se apagou, e a narração entrou de novo enquanto as cortinas se
fechavam. Eram os dois, contando como se fosse em uma conversa, que após
aquele dia nunca mais se separaram. Havia uma frase que adicionamos
depois no roteiro, quando os dois diziam juntos que espelharam os erros um
do outro, até finalmente conseguirem enxergar o próprio reflexo, a imagem
de um futuro. Adicionamos isso pra que o título da peça fizesse sentido.
Dessa vez as cortinas não se abriram de novo, e a peça foi encerrada com a
voz de Bianca, a minha voz, dizendo a frase de efeito. “Às vezes é preciso dar
errado para poder dar certo”. Tosco, talvez, mas foi um bom encerramento.
A plateia começou a aplaudir, e Eric e eu finalmente respiramos, saindo
das personagens e nos abraçando, rindo. Todos foram chamados para o centro
do palco, e fizemos a reverência final, agradecendo ao público. Foi uma
ótima noite de estreia.
Voltamos para os camarins, conversando e rindo, e era bom ser eu
mesma de novo. A sensação depois de uma peça enorme dessas era cansativa
e estranha, tinha passado duas horas sem pausa sendo outra pessoa, vivendo
outra história.
Me vesti de volta como eu mesma, um vestido amarelo e florido que
Hector me deu há alguns dias, e calcei minhas sapatilhas, saindo do camarim.
Eric estava me esperando do lado de fora, rindo e segurando um buque de
rosas vermelhas e um de rosas brancas.
— Parece que nossos namorados pensam igual. — Ele me entregou o
vermelho, que tinha um cartão com um H na caligrafia de Hector. Sorri,
balançando a cabeça.
— Fomos incríveis. Perfeitos. — Sorri, respirando, aliviada.
— Fomos mesmo. No final deu tudo certo, pra nossa sorte. E ao menos
a próxima apresentação é só sexta. Vamos morrer sendo o fim de semana que
vem três dias seguidos? Talvez, mas temos uma semana pra descansar da
grande estreia. É estranho, né? Nos ensaios tínhamos pausas, até no ensaio
final ontem, a gente saía do personagem entre as cenas. Hoje não, foi direto.
— É como se eu saísse do meu corpo, e no final do nada voltasse a ser
eu mesma, e não mais Bianca. — Ri, feliz que ele também sentia aquela
mesma confusão.
— Um dia talvez a gente se acostume. — Ele riu, e começamos a andar
pra fora dos bastidores e do teatro, que já tinha esvaziado bastante. Do lado
de fora, nossas famílias e amigos estavam esperando, e fomos bombardeados
com elogios.
É, tudo tinha dado extremamente certo. E dessa vez eu não tinha mais a
sensação de que algo precisava dar errado pra equilibrar.
Alice tinha sido incrível. Vê-la naquele palco, assumindo totalmente a
personagem e se entregando ao que tanto amava fazer, eu não conseguia me
imaginar mais orgulhoso que aquilo. Sempre que eu achava que a amava o
suficiente, que não tinha mais como ficar maior, ela vinha e me surpreendia
com algo, dessa vez seu talento. Eu tinha visto-a atuar em casa, tinha visto o
ensaio semana passada, mas nada se compara ao momento real da
apresentação. Era como se ela tivesse deixado de existir e Bianca fosse real.
Agora estávamos no elevador, ela; meus irmãos; Nicole e eu; a família
dela subiria no próximo, junto com meus pais. Ela estava sorrindo sem parar,
um braço em volta da minha cintura, me fazendo sentir o homem mais
sortudo do mundo por tê-la.
— Sério, foi incrível! — Nicole repetiu pela milésima vez.
— Eu ainda não consigo acreditar que deu tudo certo, ninguém
vomitou, ninguém errou a fala, o timing com a narração se encaixou direito.
Quer dizer, nós entramos com uns dois segundos de atraso numa das vezes, e
eu não vou dizer qual, mas conseguimos encaixar certinho depois.
— Você arrasou, irmãzinha. — Brian sorriu. Paramos na cobertura e eu
sorri ao abrir a porta do apartamento, observando a reação dela. Eu tinha
pedido para June que mandasse arrumarem um verdadeiro salão de festas na
minha sala enquanto estivéssemos fora. Nesse momento o sofá estava
empurrado num canto, a mesa recente no outro, e tinham colocado umas
luzes daquelas que piscavam, além de uma porção absurda de garrafas de
sucos, xaropes e bebidas em cima da bancada.
Alice merecia uma after party de estreia, e logo Eric e Rob deviam
estar chegando, eu os convidei também. Teria convidado mais do elenco, se
os conhecesse. Alice encarou o apartamento por um instante, se virando pra
mim em seguida.
— Hector, o que aconteceu com a nossa casa?
— Surpresa. Sua festa de estreia, minha deusa. Somos só nós, e chamei
Eric e Rob também, mas já é algo.
— É tudo! — Ela empurrou as flores nas mãos de Phill, que era quem
estava mais perto, e jogou os braços a minha volta, enchendo meu rosto de
beijos. — Eu te amo. Amo muito, amo pra sempre, e essas surpresas... eu
amo o quanto consegue me deixar feliz.
— Tudo pela minha deusa. — Sorri, e ela se afastou, entrando na sala.
— Cadê Rudy?
— Nick e June vão ficar com ele esta noite. Não seria uma boa ideia
um cachorrinho perdido no meio de Vanslow bêbados. Já basta o que
aconteceu com o relógio daquela vez.
— Mas de novo isso?! — Roman riu, e eu dei de ombros. A porta do
elevador abriu, era a família dela, a tia Danny ficando tão de queixo caído
quanto a própria Alice quando viu a situação da sala, que mais parecia uma
boate.
— Hoje é meu dia.
— Mãe, se controle — a prima de Alice, Breanna, censurou o
comportamento solto da mãe. Eu só ri. Meus pais vieram logo atrás, sorrindo.
Minha mãe foi até Alice.
— Querida, você foi tão maravilhosa... meus parabéns. — Ela abraçou
Alice, com um carinho que me aqueceu a alma. — E eu não tive a
oportunidade de dizer antes, mas bem-vinda oficialmente à família. Você
agora é uma Vanslow, em todos os sentidos que importam. Os homens dessa
família são um pouco loucos, mas conseguimos domar eles, não é mesmo? —
Ela e Alice riram, e Catarina e Bill passaram pela porta também, os olhos
dele se iluminando ao ver a variedade de garrafas na bancada.
— Pronto pra voltar aos velhos tempos de bartender?
— Sempre estive. — Meu sogro sorriu, piscando um olho e indo na
direção da bancada, começando a fazer charme arremessando as garrafas pra
cima, fazendo um drink e entregando à ex-mulher. Nicole, é claro, logo foi
atrás pedir a vodka com morango dela.
Liguei o home theater, onde eu tinha já deixado separadas as músicas
favoritas dela, principalmente as de country, novas e antigas. Ela deu um
gritinho animado quando a música começou, por uma aleatória da playlist, e
veio pra junto de mim.
— Vai dançar comigo, né?
— Sempre que me pedir. — Sorri, deixando-a me puxar e a rodopiando
pela sala iluminada. Nossa dança não durou muito tempo, um country dos
anos noventa começou a tocar e ela na hora me largou, virando para o pai, e
os dois começaram a cantar bem alto, se acabando de rir.
— And I’m about to bid my heart goodbye! — eles acompanharam,
rindo, Bill deixando as garrafas de lado por um momento e vindo girar ela,
segurando uma mão dela no alto e a fazendo rodopiar no lugar. Eu ri, me
divertindo com aquele momento. A dinâmica dela com o pai era fascinante,
se veem tão raramente, e ainda assim era como se nunca tivessem sido
separados. Eu ficava imensamente feliz pela família dela a amar tanto. Pelo
que eu tinha visto e vivido ao lado dela, eu tinha grandes dúvidas se ela ainda
estaria aqui hoje se não fosse pelo apoio deles.
Eric e Rob chegaram um pouco depois, com sorrisos radiantes, e Eric
correu até Alice, a mão esquerda erguida, um anel reluzindo nas luzes
coloridas. Ela deu um grito, não um gritinho como sempre, mas um
verdadeiro grito de animação, abraçando o amigo.
— Eric, isso é incrível! Fique avisado que eu vou ser uma das
madrinhas, e não vou aceitar não como resposta. — Ela riu, erguendo a mão
dele e analisando o anel. — É tão bonitinho, vocês são dois fofos. — Ela o
abraçou de novo, e eu balancei a cabeça, sorrindo.
Vi Brian dar um sorriso triste do outro lado da sala e encher um copo
de whisky, virando quase todo de uma vez. Me aproximei dele.
— Tudo bem? — perguntei e ele deu de ombros. — Quer conversar?
— E estragar a festa de Alice com minha melancolia? Não, valeu. Já, já
eu volto ao normal, é só que ver um casal de dois caras ficando noivos me
lembrou que podia ter sido eu com Alec, e não qualquer que seja o nome do
cara de quem ele está noivo.
— Você vem pensando bastante nele ultimamente, né?
— Desde que ele inventou de voltar pra cá, sim. Eu jurava que tinha
superado, que ele era só um “e se” do meu passado de quem eu hoje era
amigo, mas pelo visto foi só saber que ele estava por perto que tudo voltou
como uma avalanche.
— Vou dizer algo clichê e ridículo, mas o tempo é o melhor amigo do
coração partido. Você vai ficar bem, eventualmente. — Tentei consolá-lo. Eu
nunca tinha tido meu coração partido dessa forma, mas conseguia imaginar
como ficaria se Alice me deixasse.
— Você é ridículo, senhor vida perfeita. — Não tinha ressentimento na
voz dele, só uma risada. — Sabe que vai ter que arrumar um anel pra ela
também, não sabe?
— Desconfiei. — Ri, me virando para o balcão e pegando uma dose de
whisky pra mim.
A noite foi passando de forma meio caótica. Começamos bebendo
normalmente, e Alice mesmo sóbria parecia, tão inebriada quanto os outros,
perdida na própria alegria.
Não sei quantos drinks depois, não fiz as contas, Phill estava girando
pela sala com tia Danny, fazendo com que eu e Alice gargalhássemos,
enquanto Catarina ficava passada de vergonha pela irmã. Meu pai e minha
mãe pareciam perdidos com as músicas country, mas encontraram um jeito
de dançarem juntos. Eu esperava ter um futuro com Alice como o deles dois.
Eu estava cambaleando, quando a puxei de volta para os meus braços,
numa música lenta, falando de coisas que funcionavam melhores juntas.
Alice não tinha parado de sorrir em um minuto sequer da festa, sempre rindo
e fazendo graça, dançando com todos nós em algum momento, e eu percebi
que ela era uma ótima anfitriã, mesmo numa festa que ela nem sabia que
existiria. Eu já conseguia vê-la organizando eventos aqui no hotel, era fácil
imaginá-la como Alice Vanslow.
Era madrugada quando todos foram embora, o pai dela se acabando de
rir enquanto acompanhava Catarina e as outras no elevador, meus pais
descendo apenas um andar, ficariam hospedados aqui no hotel e voltariam
pra casa amanhã. Depois Brian, rindo e esquecido da tristeza de antes. Phill e
Roman talvez conseguissem se passar por sóbrios, se não fossem os olhos
que mais pareciam os de um peixe, e Ethan saiu quase carregado por Nicole.
Ela bebeu bem mais que ele, mas tinha uma resistência melhor.
Ficamos só eu e Alice com as luzes coloridas, e eu sorri pra ela, a
puxando pra perto e dançando só nós dois, em silêncio, ignorando o ritmo
agitado da música e girando devagarinho, grudados.
— Acha que ela estaria orgulhosa? — perguntei, entre uma música e
outra.
— Quem?
— A Alice mais nova, que você comentou no outro dia. Se ela te visse
agora, estaria orgulhosa?
— Bastante — ela assentiu, parando de dançar e ficando na ponta dos
pés, me beijando devagar. — Se eu, ao menos, imaginasse, tantos anos atrás,
que encontraria você, que teria uma estreia de sucesso, que tinha uma luz no
fim do túnel me esperando... teria sido mais fácil de suportar tudo, sabendo o
que me esperava.
— Eu amo você. Cada vez que você fala assim, quanto mais dimensão
eu tenho do que você passou, mais eu amo. Você é tão perfeita pra mim, que
minha única prova de que você realmente existe é o fato de que minha mente
nunca seria capaz de criar alguém tão complexa. Você é tudo na minha vida,
minha luz e estrelas, minha... não tem outra palavra além de deusa.
— Você é um bêbado fofo. Mas já é fofo normalmente, então nem me
surpreendo. — Ela me beijou de novo, segurando meu rosto pela barba. —
Vem, hora de dormir.
— Pensei que tinha me prometido algo sobre me jogar na cama e fazer
tudo o que quisesse de mim...
— Tinha mesmo, mas não vou me aproveitar do meu namorado
bêbado. — Ela me puxou pela mão até o quarto, começando a desabotoar
minha camisa. — Quanto eu te encher de beijos e te mostrar as coisas que eu
imagino, eu quero você bem consciente, pra nunca mais esquecer. — Ela deu
um sorrisinho de canto, empurrando minha camisa para o chão e soltando o
cinto da calça, me deixando só de cueca e em seguida desaparecendo no
closet por um instante, voltando com um pijama daqueles que eu adorava ver
nela.
— Certeza que não quer se aproveitar de mim? Eu deixo.
— Quem sabe da próxima vez. — Ela dessa vez sumiu na direção da
cozinha, voltando com a garrafinha de água e tomando os remédios. — Vem,
vamos dormir. Eu deveria te obrigar a tomar banho e eu mesma tomar um
também, mas eu estou exausta e você lindamente embriagado, então
resolvemos isso amanhã. — Ela puxou minha mão, subindo na cama
devagarinho, me dando a ideia perfeita de me jogar no colchão, vendo-a rir.
— Amo você.
— E eu amo você. — Ela se deitou com a perna por cima das minhas, a
cabeça no meu peito, fechando os olhos. — Boa noite.
— Durma bem — murmurei, meus olhos pesando. O dia tinha sido tão
movimentado que mal consegui pensar antes de adormecer.
As apresentações seguintes foram ainda melhores. Eu assisti às três,
sexta, sábado, e o encerramento no domingo. No final da última, eu
realmente estava repetindo as falas em silêncio junto com eles. A crítica tinha
louvado a apresentação, principalmente a emoção que Alice e Eric deram aos
personagens. De acordo com os blogs de teatro, a carreira deles era
promissora.
Eu mal podia esperar para ver os caminhos que a minha garota ia
seguir, as portas que se abririam agora. Ela ainda tinha mais dois anos de
curso, e depois estaria livre para o mundo.
Essa semana ela estava tendo provas, as últimas do semestre. Metade
da aprovação dela foi da peça, em todas as matérias práticas, mas as teóricas
como história do teatro ela precisaria da prova escrita. Eu, essa semana,
também estava trabalhando feito louco, a inauguração do hotel na Flórida
seria em duas semanas, e eu precisava garantir que estivesse tudo certo.
Roman tinha convocado mais uma reunião, com nós cinco, começaríamos o
projeto do meio do ano.
Eu agora estava no elevador do Pallace, chegando à cobertura de dois
andares onde ele morava. Dessa vez fui o segundo a chegar, só tinham
Roman e Phill na sala de reuniões. Brian chegou dois minutos depois, e pra
variar, nada de Ethan.
— Querem apostar que se convidássemos Nicole pra reunião, ele
chegaria na hora? — Brian riu.
— Vou começar a pagá-la pra o obrigar a sair de casa na hora certa.
Um dia, Ethan ainda vai levar um baque e ter que tomar rumo, e eu quero
assistir de camarote. — Roman balançou a cabeça, e como se invocado por
esse comentário, Ethan entrou na sala de reuniões.
— Antes que reclamem, dessa vez eu me atrasei por um bom motivo.
— E qual motivo seria esse?
— Nicole queria me contar do cara que conheceu, e perdemos a hora
conversando. — Ele deu de ombros, e todos reviramos os olhos.
— Isso não é um bom motivo — comentei, e ele deu de ombros de
novo, vindo se sentar do meu lado.
— Enfim, já que todos chegaram, finalmente, vamos resolver logo o
projeto deste semestre. Camilla separou algumas sugestões. Ela teria vindo
hoje pra mostrar as ideias, mas a filhinha dela está com febre, então vão ter
que se virar comigo. — Roman pegou algumas pastas, como sempre,
empurrando uma pra cada um de nós. — Tem cinco propostas pra cada um,
com projetos de ajuda em financiamentos coletivos, coisas que cada um de
vocês se identificaria.
— Vou dizer o que disse em janeiro: não era mais fácil só mandar por
e-mail e não nos fazer vir até aqui? — Ethan abriu a pasta dele, dando uma
olhada por alto.
— Quer que eu te acerte com uma pasta na cabeça de novo? — Roman
ameaçou, e ele revirou os olhos, voltando a olhar para as opções que tinha,
ficando calado. Olhei as minhas, erguendo uma sobrancelha.
— Financiamento para abertura de uma editora independente, projeto
de teatro para crianças carentes... isso é pra mim ou pra Alice?
— Digamos que ela agora é oficialmente uma Vanslow, alguns sites
aleatórios que nos consideram uma versão masculina e menos escandalosa
dos Kardashian já postaram fotos de vocês juntos na peça dela. E
sinceramente, as causas que ela gosta são bem mais úteis do que você dando
palestras. — Roman riu.
— Vou fingir que não me ofendi, e escolher o projeto de teatro pra
mim. Alice disse que se fosse uma Vanslow, o ramo dela seriam editoras,
então vou deixar que ela cuide dessa parte futuramente.
— Viu só? Eu nunca erro.
— Camilla nunca erra — corrigi, e ele riu, assentindo.
Ethan escolheu um projeto de doação de recursos para hospitais de
campanha em lugares precários, Brian ia mais uma vez trabalhar com cursos
de pintura em clínicas de reabilitação e orfanatos, Phill abriria uma vertente
da Vans Records especializada em ensinar música de graça. Roman já tinha
escolhido o projeto dele, uma doação generosa para um abrigo que recebia
mães solteiras e outras mulheres vítimas de agressão doméstica. Ele disse que
havia tirado a ideia de Camilla, que era filha de mãe solteira, e comentou uma
vez que o abrigo onde ficaram após largar o pai dela era ridiculamente
precário e mal cuidado. Era óbvio a admiração que Roman tinha pela
assistente, e eu não duvidava que em breve ela subisse de posto dentro da
Vanslow Corp.
Os outros saíram logo, e ficamos só eu e Roman. Eu estava com
preguiça de ir pra casa, Alice não estaria lá me esperando ainda, e o
apartamento ficava vazio demais sem ela, então resolvi ficar por aqui.
— E então, como é a vida de quase casado? — Estávamos agora na sala
dele, Roman em uma poltrona e eu na outra.
— Estranhamente mais fácil do que eu esperava. Não sei explicar, mas
é como se ela estivesse na minha vida desde sempre, e não só há alguns
meses.
— Você é sortudo. Vocês dois são, por terem se encontrado. — Ele
balançou a cabeça, sorrindo. — Sempre achei que o primeiro a se resolver
seria Brian, romântico do jeito que é. Mas até que faz sentido ter sido você,
sempre se jogou de cabeça em tudo.
— Também jurava que seria Brian o primeiro. Agora o último eu tenho
certeza de que vai ser Ethan, se é que um dia ele vai se aquietar com alguém.
Não que seja um problema se ele decidir ser um solteirão, mas algum rumo
na vida ele vai ter que tomar eventualmente.
— É como eu disse antes, alguma coisa vai fazê-lo tomar jeito, e eu vou
assistir de camarote quando ele cair em si.
— Eu ainda aposto que vai ser Nicole. Mesmo que no final ninguém
ganhe a aposta, que eles continuem só amigos, é claro como o sol que ela traz
o melhor dele à tona, e eu não duvido que um dia vai ser ela a convencê-lo
que precisa fazer algo da vida além de viver de herança e investimentos.
— Está tentando começar uma nova aposta sobre a vida do nosso
irmãozinho? — Roman ergueu uma sobrancelha, e eu ri.
— Qualquer oportunidade pra arrancar dinheiro dos seus bolos, e
recuperar meus relógios.
— Vá sonhando. — Ele riu. — Mas voltando à sua nova vida, posso
esperar sobrinhos em breve?
— Se em breve for daqui uns quatro ou cinco anos, talvez. — Balancei
a cabeça, rindo. — Eu e Alice não estamos nem de longe prontos pra isso.
Ela está em processo de cura ainda, se adaptando ao tratamento, e uma
gravidez poderia complicar tudo. Sem falar na depressão pós-parto que ela
poderia ter... Eu quero uma família com ela, mas acima de qualquer outra
vontade eu quero vê-la bem. Sabia que ela antigamente não imaginava um
futuro para si? E umas semanas atrás ela comentou, casualmente como se não
fosse nada demais, sobre o nosso futuro juntos.
— Dê a ela esse futuro. Sabe que não estamos brincando quando
dizemos que se algo der errado, ela fica e você vai, né? — Ele sorriu.
— Sei disso. Mas eu juro pelo que for, eu só me separo dela no dia em
que ela não me quiser mais, porque no que depender de mim, vamos estar
velhos e juntos, nos lembrando do passado e gratos pela jornada que tivemos.
— Hector Daniel Vanslow, quando você se tornou tão adulto e
romântico? Parece que ainda ontem você era um molequinho querendo ser
meu melhor amigo e subir em árvores.
— No dia em que você se apaixonar vai entender o quanto isso muda a
gente, o quanto faz crescer. — Dei de ombros. — E assim como você falou
sobre Ethan, eu vou assistir de camarote você pagar a língua. Como é que
você dizia aos vinte anos mesmo? “Eu nunca vou perder meu tempo me
apaixonando, é bonito, mas eu vou ser um homem de negócios”. Vou guardar
essa frase pra dizer no seu casamento.
— Você é terrível.
— E ainda assim sou seu irmão preferido. — Ri.
— Errado, Phill é o favorito. — Ele riu, piscando um olho. Não
tínhamos favoritos, mas adorávamos fazer graça com isso.
Ficamos jogando conversa fora até o final da tarde, Alice me mandou
uma mensagem avisando que tinha acabado a prova e ia sair com Eric pra
comemorar, mas logo voltava pra casa. Eu tinha deixado ela com o carro, e
consequentemente com Nick, e tinha vindo andando. Era meia hora de
caminhada do Empire pra cá, e já estava escurecendo quando eu decidi voltar.
Saí caminhando pelas ruas, distraído em pensamentos, as mãos nos
bolsos enquanto olhava vitrines. Passei por algumas lojas, considerando
comprar um presente pra Alice, algo pra comemorar o final das aulas dela, o
sucesso da peça e o futuro que tínhamos pela frente. A voz de Roman ficava
me voltando à mente, com ele me dizendo para dar a ela o futuro que ela
queria.
Eu queria dar esse futuro. Queria garantir que ela conseguisse realizar
todos os sonhos que tinha. O de ir para a Broadway, o de ser Julieta, o de
brigarmos pra ver quem cuidaria do bebê de madrugada... eu queria que ela
tivesse tudo o que sempre quis, tudo o que sempre sonhou e desejou. Queria
dar a ela anos e anos de felicidade, queria que ela tivesse a melhor vida que
pudesse ter. Eu já conseguia visualizar ela num vestido branco, dizendo “eu
aceito”. Conseguia vê-la grávida do nosso primeiro bebê, e conseguia vê-la
de cabelos grisalhos. Conseguia ver os altos e baixos que viriam no caminho,
mas tinha a certeza de que esse caminho seria o melhor a ser seguido, pois
seria o nosso.
Estava já na metade do caminho, quando algo me chamou atenção.
Uma vitrine brilhante, e eu fiquei ali, por alguns minutos, encarando através
do vidro, pensando naquilo. Fazia sentido. Fazia total sentido, na verdade,
tudo se encaixava agora. Dei um sorriso e entrei na joalheria.
Minha semana de provas foi bem mais fácil do que eu esperava,
diferente do semestre passado, mas no passado eu tive provas práticas e
teóricas, nesse a minha nota prática ficou em cargo da apresentação de
Espelhos. Havia acabado de sair da sala, oficialmente livre até o próximo ano
letivo começar.
Eu tinha um plano pra hoje à noite, uma surpresa preparada pra Hector,
mas ainda faltavam alguns detalhes, então inventei que sairia com Eric pra
comemorar e chegaria um pouco tarde em casa. Originalmente eu e Eric
realmente íamos sair, mas Rob estava gripado, e de acordo com Eric ele
gripado ficava igual a um bebê manhoso, então vamos ter que remarcar.
Fui até o carro, onde Nick estava me esperando, e pedi para ele me
levar até a Dreamsize. Hector mal imaginava o que o esperaria mais tarde.
Quando cheguei lá fui atendida pela mesma garota da outra vez, a ex de
Brian, Daphne. Ela deu um sorrisinho de quem sabia exatamente o meu
motivo de estar ali, quando perguntei sobre o departamento de lingerie.
Tinha uma parte toda separada que parecia saída de um catálogo da
Victoria Secrets, mas na versão plus size. Tinham de vários tipos, e eu me
foquei nas vermelhas. Sabia que Hector gostava de me ver em vermelho, e ia
combinar direitinho com o colar de rubi que ele me deu. Acabei escolhendo
uma que era perfeita. Eu nunca tinha comprado lingeries combinando, muito
menos uma lingerie sedutora, nunca achei que tinha corpo pra isso. Mas
agora eu entendia que meu corpo era tão perfeito quanto qualquer outro,
padrão de beleza ou não.
A lingerie que eu escolhi era num tom forte de vermelho, toda rendada,
com um monte de transparência nos lugares certos pra mostrar muito, mas
não tudo. Era de três peças, o sutiã, a calcinha e aquela parte extra que eu não
fazia ideia do nome, que ficava por cima da calcinha, na cintura, e tinha fitas
com presilhas para encaixar naquelas meias que iam até o meio da coxa.
Comprei um par dessas, na cor preta, o contraste certo pra ser usado com
vermelho.
Desci até o térreo, indo até o caixa. Eu até hoje não tinha estreado o
cartão de crédito que Hector me deu, alguns dias depois de ir morar com ele,
não queria abusar de um dinheiro que não era meu, mas esse mimo valia a
pena. Era um presente tanto pra mim quanto pra ele, afinal de contas.
Voltei para o carro, carregando a pequena sacola como se fosse um
bem precioso e não apenas uma roupa íntima. Dessa vez pedi pra Nick me
levar até alguma loja de velas aromáticas, e eu adorava que ele não fazia
perguntas, apenas obedecia. Comprei algumas com cheiro de canela, iguais às
que Hector levou na nossa primeira vez. Nick me levou de volta para o
apartamento, e então eu botei meu plano em ação. Hector ainda não tinha
chegado da casa do irmão, e isso era vantagem pra mim.
Quando entrei, fui direto para o banheiro, jogando minhas roupas no
cesto e ligando o chuveiro. Fiz questão de me depilar de novo, só por
garantia. Hector não reclamava quando eu tinha preguiça, mas eu queria que
hoje fosse especial. Peguei um dos hidratantes com cheirinho doce que eu
raramente usava, caprichando mesmo, em seguida vestindo a bendita lingerie,
colocando o colar de rubi e voltando pro quarto, respirando fundo ao me
olhar no espelho. Eu me sentia sexy. Normalmente eu me sentia desejada
quando estava com Hector, mas hoje eu me sentia sexy por conta própria.
Merecedora dos olhares que ele me dava, dos toques e das reações que eu via.
Eu tinha prometido a ele que eventualmente mostraria minhas fantasias,
mas algumas eu tive que pensar para encontrar. Ele me satisfazia sem
esforço, era difícil pensar em algo novo, mas me lembrei dele comentar em
algum momento algo sobre querer ver como eu me tocava. E com isso eu
comecei a imaginar o contrário, me lembrando do calor que senti aquele dia
quando ele, sendo o pervertido perfeito que era, ficou segurando o volume na
calça, enquanto me olhava ficar nua, e depois quando eu o vi se tocando
enquanto me chupava. Pensando nisso, percebi que gostava de ver que ele
ficava tão louco quanto eu, e era isso que eu pediria hoje.
Eu o provocaria, deitada na nossa cama com essa lingerie, mostrando a
ele tudo que quisesse, mas sem deixar que me tocasse a princípio, deixando
ele com nenhuma saída a não ser a própria mão. Ah, seria maravilhoso.
Enquanto acendia as velas e sentia o perfume se espalhar pelo quarto, eu
pensei se ele obedeceria ao que eu pedisse, se eu saberia ser autoritária. Eu
esperava que sim.
Respirei fundo, olhando meu celular na mesinha, pensando se colocava
música ou não. Me veio à mente Skin, da Rihanna, e Ride, na versão do
Chase Rice. Or Nah também, na versão do SoMo, mas essa já era
pornográfica demais. Acabei colocando Ride, num volume baixinho, e me
sentei na cama, aleatoriamente mexendo no Instagram e no Twitter enquanto
esperava ouvir a porta da frente. Demorou uns dez minutos, até que ouvi a
voz dele. Meu coração disparou.
— Alice? — ele chamou da porta, e eu coloquei o celular com a música
de volta na mesinha, me deitando de lado, numa pose sexy que normalmente
se via em revistas de lingerie e filmes.
— No quarto, amor. — Sorri, mordendo meu lábio inferior com a
ansiedade, e então ele chegou na porta, afrouxando a gravata distraidamente,
congelando no lugar quando me viu. — Surpresa. — Ele balançou a cabeça,
bem devagar, como se não acreditasse no que estava vendo. Meu sorriso
virou uma risadinha baixa, minha mão deslizando pelo lado do meu corpo,
pelas curvas que eu um dia odiei e agora aceitava, as curvas que ele amava.
— Gostou?
— O que está planejando fazer comigo, minha deusa? — Foi o que ele
disse, dando um passo à frente, e eu ergui uma mão para que ele parasse.
— Você perguntou das minhas fantasias... bem, te seduzir é uma delas.
Te deixar louco, me vingar por aquele dia de manhã e fazer com que você
peça com jeitinho dessa vez... quer que eu fale, como você fez tantas vezes
por mim? — Ele assentiu, os olhos fixos em mim. — Vou contar a primeira
vez que imaginei nós dois juntos. Foi depois daquele fim de semana, o
primeiro de todos, depois que você me fez gozar sem nem me tocar direito.
Durante aquela semana, quando estava na banheira, eu nem percebia que
minhas mãos começavam a descer e descer, imaginando que os dedos eram
seus. Veja bem, naquela época além dos remédios prejudicando minha libido,
eu mesma não me achava desejável, então era um pouco difícil ir até o fim,
mas...
— Alice... — A voz rouca me causou arrepios.
— Eu começava, devagar. Eu ia descendo meus dedos por aqui — me
sentei direito na cama, as pernas pra fora, só um pouquinho de nada
separadas, e comecei a descer uma mão entre meus seios — e ia descendo. E
então eu começava, meus dedos se movendo bem devagar, no ritmo que eu
tinha me movido sobre você. Eu sempre acabava perdendo o controle
eventualmente, na hora que eu me lembrava dos seus beijos no meu pescoço,
ia rápido demais e não chegava onde queria, apenas perto. — Parei minha
mão sobre minha coxa, meu olhar descendo por ele. — Hm... você está
vestido demais. Se eu te pedir pra tirar a camisa, vai me obedecer?
Ele não disse nada, só continuou me encarando enquanto tirava a
gravata, o blazer sendo jogado no chão, fazendo um barulho que imaginei ser
o celular dele batendo na madeira, e então começou a desabotoar a camisa.
— Continue falando — ele pediu, como eu tinha pedido em outras
vezes.
— Bem, depois disso veio aquela noite maravilhosa do evento, nós dois
sentados nesta cama, suas mãos me mostrando do que eram capazes. Pensei
naquilo todos os dias seguintes, mas além de você me tocando, quando eu
queria sentir algo eu me lembrava de como eu te toquei. Eu me lembrava do
som rouco do seu gemido, e da forma como seu sorriso tremia quando
chegou lá. Mas o que quase me fazia explodir era me lembrar de você
dizendo que me amava. — Minhas pernas foram lentamente se separando,
meus dedos deslizando pela parte interna da coxa. — Você já imaginou isso,
né? Eu, me satisfazendo sozinha na sua frente, gemendo seu nome... Hector...
— Suspirei lentamente o nome dele, minhas pernas agora abertas, dando uma
visão privilegiada a ele quando pressionei meus dedos sobre a calcinha. Ele
deu um passo à frente de novo, as mãos se fechando ao lado do corpo, o
desejo palpável no ar.
— Você está me matando...
— Mal comecei, amor. Pare, você vai assistir primeiro. Vai ter só a
visão do meu corpo por enquanto, não o toque. Ah! — Fechei os olhos por
um instante, girando meus dedos devagarinho sobre o tecido, um sorriso
brincando nos meus lábios. — É melhor com você aqui, me olhando. E é
melhor agora que eu gosto de mim, que desejo meu próprio corpo. Acha que
eu consigo sozinha dessa vez? — Ele assentiu, segurando a própria coxa.
Isso, estava quase fazendo o que eu queria, mas eu não iria pedir. Ele iria
fazer por conta própria, perderia o controle, e só então eu revelaria essa parte
da fantasia.
— Vai ficar me torturando, não é?
— Uhum — assenti, rindo baixinho, deixando um gemido baixinho
escapar entre os lábios. Mantive as pernas como estavam, puxando a calcinha
de lado, sem tirar os olhos dele, enquanto passava um dedo pela minha
umidade, o deslizando para dentro com um arfar. Ouvi o “porra” sair dos
lábios dele, e então sua mão estava exatamente onde eu queria, por cima da
calça, se segurando, o volume marcado ali. — Ah, finalmente. Era isso que
eu queria, sabe? Você não é o único a ter fantasias envolvendo toques
solitários.
— Pervertida... — Ele entendeu o que eu queria, movendo a mão pela
extensão marcada, os olhos variando dos meus até entre minhas pernas.
— Aprendi com você. — Comecei a mover meu dedo, bem devagar,
entrando e saindo, e então adicionei um segundo. Ele que arfou dessa vez. —
Pode tirar a calça. Eu quero ver. — Não tinha certeza se pedi ou se ordenei,
mas de um jeito ou outro ele fez o que eu disse, soltando o cinto e descendo
as calças, levando a cueca cinza junto, a ereção livre por apenas um instante,
até ser envolvida pela mão dele, cujos os olhos agora estavam totalmente
concentrados nos movimentos dos meus dedos. Ele começou a seguir o
mesmo ritmo em si próprio.
— Até aonde vai esse joguinho? — A voz dele ficava linda assim,
rouca e arrastada, e eu observei a mão dele parar de se mover, agora o
polegar rodeando a ponta, fazendo meu corpo todo se arrepiar.
— Até eu dizer que acabou — provoquei, minha voz baixa, tão
arrastada quanto a dele, meus dedos retrocedendo por um instante para
circularem aquele pontinho inchado e necessitado logo acima. — Era assim
que imaginava? Eu aqui, segurando gemidos, te mostrando meus segredos
mais íntimos, a forma como me viro quando não tenho você pra me
satisfazer... está igual nos seus sonhos?
— Está melhor. — Ele voltou a mover a mão no momento que meus
dedos desceram de novo, começando um ritmo controlado dessa vez. Me
inclinei um pouco para trás, minha mão livre servindo de apoio na cama
enquanto eu deixava a visão dele ainda melhor. E a minha também, visto que
ele aumentou o próprio ritmo.
— Conta para mim. Conta todas as coisas deliciosas que devem estar se
passando na sua mente agora, tudo o que vai fazer comigo, assim que eu
permitir.
— Você vai pagar por isso, Alice. Primeiro com essa boca maliciosa, e
então me cavalgando. Você vai gritar, e vai gozar até não ter forças pra se
levantar sozinha. Vou fazer questão disso, de que fique tão sensível que
qualquer toque meu te faça explodir de novo.
— Só isso? — provoquei, meus dedos se tornando mais firmes, me
sentando de novo, enquanto a outra mão entrava pelo sutiã, gemendo
manhosa ao sentir um arrepio. Eu não tinha raciocinado de que isso seria uma
tortura pra mim também.
— Quer mais? Quer ouvir o quanto eu estou pulsando aqui, o quanto
me dói fisicamente te ver aí, pronta pra mim, e ter só minha mão de alívio?
Ou prefere ouvir que eu quero mandar meu prazer para o inferno, me ajoelhar
na sua frente e sugar cada gota de prazer que tiver pra me dar? Talvez queira
saber o que eu penso quando faz isso aí que fez agora, essa língua deliciosa
passando pelo seu lábio, quando podia estar fazendo algo muito mais
interessante.
— Quero que continue, que não pare até explodir nos próprios dedos,
como me contou que já fez pensando em mim — admiti o que queria, e ele
assentiu uma vez, separando um pouco os pés para conseguir mais equilíbrio,
e aumentou o ritmo. Fiz o mesmo, sentindo que estava perto. Encontrei em
mim aquele mesmo movimento que ele fazia, os dedos puxando algo que
estava ali, me fazendo gemer mais alto ao encontrar onde era, entender
finalmente como fazer isso.
Comecei a me mover, os primeiros espasmos vindo, e puxei meus
dedos de dentro de mim, subindo-os só um pouquinho, girando e
pressionando meu clitóris, lutando para manter os olhos abertos, fixos nos
movimentos que ele fazia. O ritmo dele foi aumentando de novo, e eu o ouvi
gemer, a mão livre apertando a coxa.
— Eu... — ele começou, e foi a minha vez de usar as palavras
preferidas dele.
— Goza pra mim — pedi, dando um gritinho porque meu corpo
também obedeceu àquela ordem, meus espasmos começando quase que ao
mesmo tempo em que o líquido esbranquiçado escorreu pela mão dele, seus
gemidos me servindo de combustível. Não consegui olhar até o fim, caindo
deitada na cama, continuando a me tocar agora mais devagar, da mesma
forma como ele me guiava quando eu explodia, minhas costas arqueadas. —
Hector! — chamei, e meu tom de voz foi tudo o que ele precisou, e mais
rápido do que eu achei ser possível ele estava em cima de mim, a boca na
minha, me beijando com tanta força que eu pensei que fossemos morrer sem
ar.
Deixei meu corpo desabar, agarrando a nuca dele, o beijando com todo
o desejo acumulado desde a hora em que ele passou por aquela porta, com
toda a entrega que eu dava a ele. A boca dele foi descendo pelo meu pescoço,
puxando meu sutiã pro lado com os dentes, não me dando tempo nem de
respirar antes levar os dedos até onde os meus estiveram, me fazendo
realmente gritar. Ele bem que avisou que eu ia pagar por ter torturado ele, e
esse era o melhor castigo que já recebi.
A língua dele brincando com meu mamilo, os dedos entrando e saindo
enquanto o polegar traçava círculos, e eu não demorei até estar me
contorcendo na cama de novo. Ele continuou pelo que pareceu uma
eternidade, arrancando orgasmos novos, fracos e fortes, usando a boca
quando se cansou dos dedos.
— Amor, eu preciso de você... por favor — pedi, quase
choramingando, achando que não aguentaria mais um instante sem ele dentro
de mim. Ele deixou um último beijo entre minhas pernas e subiu na cama, se
deitando e dando um tapinha na coxa, me chamando para cima dele. Quase
não consegui me erguer, as pernas realmente fracas, mas consegui o
suficiente para descer de uma vez por ele, gritando de novo num gemido
arrastado.
Eu não tinha forças pra subir e descer, não mais, então fiquei rebolando
ali, em círculos, e então pra frente e pra trás, ele deitado embaixo de mim,
minhas mãos em seu peito. Deixei um gemido que também era um
choramingo escapar, e ele começou a se impulsionar na minha direção,
completando os movimentos que eu não tinha mais forças para realizar. A
mão dele subiu pelo meu corpo, se enroscando no meu cabelo, acariciando a
lateral do meu pescoço, seus olhos escuros e as pupilas dilatadas, me olhando
com tanta devoção, tanto amor, que eu explodi pela última vez. Ele
impulsionou os quadris mais algumas vezes enquanto eu caía por cima de seu
peito, sentindo as vibrações de seu corpo enquanto era a vez dele, o gemido
rouco abafado pelo meu pescoço.
Eu não tinha forças para mais nada, então ele me tirou de cima dele, me
deitando ao seu lado, e ficamos ali, ofegantes, encarando o teto em busca de
ar. Uma mão dele estava sobre a minha coxa, como se quisesse ter certeza de
que eu estava de fato ali, e eu tinha uma mão sobre o peito, tentando me
lembrar de como se respira após ser quase morta de prazer.
— Eu te amo — murmurei, quando consegui ar o bastante para isso, me
virando de lado, chegando mais perto e deitando no ombro dele. Ficamos em
silêncio mais um tempinho, a mão dele nas minhas costas, traçando o
contorno do fecho da lingerie que não nos incomodamos em tirar, apenas
afastar. Ele riu baixo, beijando minha testa. — Gostou da surpresa?
— Ainda tem coragem de perguntar? — Ele riu, beijando minha testa
de novo. — Eu adorei... e eu tenho uma surpresa também.
— Tem? — Ele assentiu, me beijando por um instante e então me
afastando, saindo da cama. Me sentei, observando-o ir até o blazer no chão,
mexendo nos bolsos. Ele então se levantou de novo, vindo na minha direção,
parando ao lado da cama, com uma caixinha pequena nas mãos.
E então ele se abaixou em um joelho.
Eu pisquei uma, duas, três vezes, bem rápido, vendo-o tomar coragem e
abrir a caixinha, revelando um anel de noivado. Eu arfei, cobrindo minha
boca com as mãos. O anel era lindo, prateado com uma pedra em tom claro
de rosa, cercada por pequenos diamantes e dois um pouco maiorzinhos do
lado. Mais lindo que ele era o olhar nervoso de Hector.
— Hector, eu...
— Shh, me deixe falar primeiro. Eu não tenho nada ensaiado, então vai
ser com o coração, peço logo desculpas se eu me atrapalhar com as palavras,
mas... eu amo você, Alice. — Ele sorriu, e eu percebi a respiração dele
levemente irregular. Eu nunca tinha visto Hector nervoso com algo, não desse
jeito. — Eu estava voltando da casa de Roman quando vi esse anel na vitrine.
Bem, na verdade eu vi uma porção de diamantes brilhantes que me chamaram
a atenção, e no meio deles tinha este aqui. Rosa, sua cor preferida. Pequeno,
assim você não brigaria comigo por te dar uma pedra gigante. Eu soube
naquele momento que esse anel seria seu.
Ele deu um riso baixo, segurando a caixinha e me olhando, respirando
fundo antes de voltar a falar.
— Eu não tenho nada planejado, porque não ia ser hoje. Eu ia planejar
direito, esconder o anel enquanto organizava uma surpresa digna de um dos
romances que você tanto ama. De jeito nenhum pensei que eu estaria aqui,
pelado, e você com essa lingerie maravilhosa toda bagunçada. — Ele riu, e eu
também, meus olhos já se enchendo de lágrimas. — Mas assim como da
primeira vez que eu disse te amar, o momento certo chegou antes que eu
pudesse decidir por conta própria. Deixei escapar um “eu te amo”, depois de
você me tocar pela primeira vez, e agora estou indo em direção a um “quer
casar comigo”, num momento bem parecido.
As palavras me fizeram arfar de novo, e eu assenti, quietinha. Ele não
tinha perguntado ainda, mas eu já sabia minha resposta.
— Poderia parecer estranho, esses momentos sempre estarem ligados a
sexo, mas você sabe que não é pelo sexo em si, e sim pela forma como nos
ligamos nesses momentos. Quando estamos juntos, não é como se fossem só
nossos corpos, é como... como naquela cena em que as almas do Rhys e da
Feyre se entrelaçam pelo laço de parceria. Nossas almas estão entrelaçadas do
mesmo jeito, de uma forma que mesmo quando nossos corpos se separam eu
não sei mais dizer onde você começa e eu termino.
Eu vi a mão dele tremer um pouco, enquanto ele respirava fundo,
olhando nos meus olhos.
— Tudo em mim ama tudo em você. Todas as pequenas coisas que te
fazem perfeita. Amo como sua mão se encaixa perfeitamente na minha. Eu
sei que tem muito em você que passou anos sem gostar, detalhes que me
fascinam desde o primeiro dia. Cada curva sua, cada pintinha perdida no seu
corpo, cada marca, natural ou não, que traça sua jornada. Você é perfeita pra
mim, e eu nunca brinquei quando disse que é uma deusa. Eu por esses meses
quis tanto que pudesse se ver pelos meus olhos, que se amasse tanto quanto
eu te amo, e hoje eu vi essa mudança. Não precisei que me contasse, a
confiança nos seus olhos me disse tudo. Eu me orgulho tanto de você.
Eu, a esse ponto, já estava soluçando, chorando baixinho, emocionada,
minha mente tentando processar tudo o que estava acontecendo.
— Não tem como mencionar nossa até agora curta e intensa história
sem mencionar a perda, o medo e a dor. Não tenho como falar do quanto eu
te amo sem somar isso ao quanto eu temi ter que viver num mundo em que
você não existisse mais. Duas vezes você me assustou, duas vezes eu vi você
sangrar, e desde a primeira eu soube que não conseguiria seguir em frente se
você não estivesse respirando. — Ele começou a se emocionar, lágrimas
surgindo nos olhos. — E então aquela noite no hospital, o terror puro e
absoluto que eu senti... acho que não sabe disso, mas desde aquele dia eu de
vez em quando fico te olhando dormir, só pra ter certeza de que está do meu
lado, de que não é um sonho.
— Amor...
— Você é meu bem mais valioso, Alice. Seus olhos valem mais que
todos os diamantes existentes, brilham mais que todas as estrelas juntas. Sua
risada me faz vibrar por dentro.... ah! Acho que também nunca mencionei
mesmo isso, mas no começo eu catalogava seus sorrisos. Você me contou
que eram raros, e eu fiquei obcecado por cada risinho, cada pequena amostra
de alegria ou contentamento. Enfim, voltando ao foco principal aqui, eu vou
dizer isso agora e mais mil vezes durante os anos, mas eu já não te amo como
te amei na primeira vez que disse. Fica mais forte a cada dia, a cada beijo, a
cada gesto seu.
Ele respirou fundo, secando o rosto com uma mão, me olhando nos
olhos de uma forma que era como se o universo inteiro estivesse ali nos dele.
Eu queria falar, queria dizer minha versão de tudo isso, mas estava tão
apaixonada por aquela declaração que as palavras me faltavam.
— Essa parte agora eu já vim pensando no caminho até aqui, então vai
soar menos bagunçada que esse discurso. Você me fez ouvir músicas com
histórias lindas de amor, me fez ler livros tão fortes quanto, e isso me faz
querer viver uma dessas histórias ao seu lado. Não temos ápices e plot twists,
somos só mais um caso de amor entre tantos que existem por aí, mas somos
meu favorito. Lembrei de pedacinhos de músicas que você gosta que se
encaixem aqui. Lembrei daquela que dançamos na festa da estreia, “se for pra
ser sincero, seu primeiro e meu último nome soariam melhor juntos”. Você já
é Alice Vanslow em vários sentidos, e meus irmãos te consideram como se
estivesse estado aqui desde sempre, você se encaixou na minha vida como a
peça perfeita no meu quebra-cabeça.
Ele estava com a respiração trêmula, a voz falhando quando voltou a
falar.
— Não precisa me responder agora, pode pensar por quanto tempo
quiser, e não precisa acontecer logo. Pode até nunca acontecer, sermos
namorados pra sempre, mas eu quero que você saiba que isso é uma
promessa de futuro. O futuro que você finalmente aprendeu a ver para si
mesma, para nós, a promessa dele está aqui, nesse anel e no meu coração.
Você é tudo o que eu sempre quis e ainda mais. Sabe, eu sempre ouvi que
nada dura pra sempre, mas você me fez reconsiderar essa ideia. Você me fez
repensar muitas coisas, eu...
Ele me olhou, dando um riso baixo, estendendo uma mão pra segurar a
minha, e eu entrelacei nossos dedos na hora, minha visão dele embaçada
pelas lágrimas de alegria.
— Você já ouviu a lenda do fio vermelho? Eu conversei sobre isso com
Brian, quando ainda estávamos no começo, depois da sua primeira crise.
Quando eu falei com ele sobre aquilo, de você ser meu presente do destino,
eu também me lembrei dessa lenda do fio vermelho. Akai ito é asiática, mas
não consigo me lembrar de qual país exatamente. Ela diz que almas gêmeas
nascem com um fio vermelho amarrado no dedo mindinho, as ligando. Esse
fio se estica e se enrosca, mas nunca se quebra, nem mesmo após a morte. Eu
achava que isso era só uma história bonita, até te conhecer e perceber que
fazia sentido de verdade.
— Hector...
— Eu vou pedir logo, porque você já deve estar agoniada pra falar
também diante desse meu monólogo. — Ele riu, apertando minha mão. —
Alice Caroline Rogers, você é tudo pra mim. Você é toda e qualquer metáfora
bonitinha, desde “o gelo no meu whisky” até “o ar que eu respiro”. Você é
minha vida, Alice. Então, depois de dizer tudo isso, lá vai. Meu amor, minha
deusa, você aceitaria se casar comigo?
Eu sabia que ele diria isso, ele literalmente me avisou logo no começo,
mas ouvir a pergunta em si foi diferente. Meu corpo inteiro congelou, e eu
precisei me concentrar pra conseguir assentir devagarinho.
E ali, ao som baixo de Ride, com velas de canela queimando à nossa
volta, totalmente desarrumados e sem roupa, eu disse sim.
Eu não percebi que estava segurando a respiração até sentir o ar voltar
aos meus pulmões quando ela disse que sim. Minhas mãos estavam tremendo
e as dela também, quando tirei o anel da caixa e ela estendeu a mão esquerda.
Deslizei o anel por seu dedo, levando sua mão até minha boca e beijando a
pedra cor-de-rosa. Ergui meu olhar e ela estava rindo em meio as lágrimas, os
dedos vindo se enroscar na minha barba e me puxar pra perto, e então seus
lábios estavam me cobrindo de beijos e mais beijos.
— Eu te amo. Te amo, te amo e te amo, e agora você vai me ouvir
tagarelar também. — Ela riu, me puxando de volta pra cama, e eu me sentei
ao lado dela, sua mão em meu rosto, os lábios tremendo com o choro lindo de
emoção.
— Pode falar. Eu já monopolizei seus ouvidos por tempo suficiente.
— Primeiro de tudo, você me paga por superar minha surpresa tão
rápido. Juro, vai ter volta, Hector Daniel Vanslow — ela ameaçou, com um
sorriso, fungando baixinho. — Por onde eu começo? Vou de trás pra frente.
A lenda do fio vermelho, eu já conhecia, inclusive, sempre achei linda. E
sempre achei que eu era uma das almas que nascia sem fio nenhum, destinada
a ficar sozinha pela eternidade. Sempre foi meu maior medo, sabe, ficar
sozinha.
— Eu sei. Mas você tem a mim, pra sempre.
— E eu te amo imensamente por isso. Você comentou sobre nosso
primeiro eu te amo, e agora isso, terem sido logo depois do sexo, e eu entendi
bem o que falou sobre a intensidade do momento, o entrelaçamento de almas.
Nossos corpos são tão dependentes um do outro quanto minha alma é da sua.
Também não sei onde um começa e o outro termina, estamos ligados demais
para sermos separados. E quanto a um futuro... eu quero qualquer futuro que
possamos ter juntos.
Ela fez uma pausa, me beijando devagarinho, nosso primeiro beijo
oficial como noivos. Noivos!
— E sobre ter quase me perdido, eu vou eternamente sentir muito por
ter te assustado, por ter assustado todo mundo. Sabe, eu não disse isso pra
ninguém, mas quando eu mudei de ideia e tentei levantar, um pouco antes de
perder a consciência, foi seu rosto que eu vi. Eu podia ouvir a risada da
minha mãe, sentir o abraço de vovó, mas tudo que eu via eram seus olhos
cheios de amor. — Ela me abraçou de novo, escondendo o rosto no meu
pescoço, as lágrimas caindo na minha pele. — E são seus olhos que eu vejo
quando tenho medo. São eles que me dão confiança, que me dão um
propósito maior pra continuar lutando.
Ela fungou, se afastando e secando as lágrimas, respirando fundo.
— Eu quero me casar com você. Quero essa promessa de futuro, e
quero começar logo. Eu passei tempo demais fugindo da vida, com medo de
tentar ser feliz e ter minha alegria destruída em instantes. Sei que não vai ser
sempre perfeito, mas sei que eu tenho você pra me ajudar a juntar os
caquinhos que se partirem e encaixar de volta no lugar. E é por isso que sim,
eu aceito me tornar Alice Vanslow, mas com uma condição.
— Qual?
— De que seja logo. Só não sugiro fugir pra Vegas hoje mesmo, porque
nossas famílias nos esfolariam vivos, e eu quero usar um vestido bonito e ter
toda a cerimônia que eu passei anos achando que não era pra mim. Quero
meu dia de princesa e tudo mais, quero você num terno me esperando no
altar, e quero todo sonho bobo que a menininha romântica em mim sempre
sonhou. — Ela sorriu, segurando meu rosto nas mãos, encostando a testa na
minha.
— Três meses, que tal?
— Perfeito. — Ela fechou os olhos, encostando mais a testa na minha,
subindo no meu colo dessa vez sem provocações, se aninhando no meu
abraço. — Eu te amo tanto, meu futuro. Eu amo você agora, amo a imagem
que eu tenho de você velhinho do meu lado, amo nossos possíveis filhos e
netos, amo cada briga e cada reconciliação que vamos ter durante os anos. Eu
amo a vida que você está me dando, amo nossa intensidade louca, a forma
como tudo aconteceu rápido. Quatro meses até aqui, sete quando nos
casarmos. Só tenho essa coragem de me jogar porque é com você, porque sei
que nunca vai partir meu coração.
— Nunca. Seu coração é a coisa mais preciosa que já existiu neste
mundo... você toda é. Amo você, Alice Vanslow. — Ela deu uma risadinha
ao ouvir isso, me abraçando, o rosto na curva do meu pescoço.
— Vou demorar um pouco pra me acostumar com o nome novo, mas
soa bonito. Alice Caroline Rogers Vanslow... gigante. — Ela riu de novo, o
som da alegria dela em preenchendo. Ela se afastou, ficando de pé e
estendendo as mãos para mim. — Vem, nós dois precisamos de um banho. E
de roupas. Ainda não acredito que fui pedida em casamento com uma lingerie
bagunçada, e você totalmente nu!
— Se quiser, eu peço de novo quando estivermos vestidos — ofereci,
vendo-a rir enquanto me puxava pela mão até o banheiro, ligando a água
morna pra encher a banheira e esperando enquanto soltava a lingerie
elaborada.
— Me parece uma boa ideia. — Ela jogou o sabonete perfumado de
lavanda na banheira, formando espuma, e entramos, aproveitando a banheira
gigante pra ficarmos um de frente para o outro. Ela passou os braços pela
água, pegando um pouco da espuma e soprando na minha direção.
— O que está fazendo?
— Sendo boba e feliz. — Ela deu de ombros, me olhando. — Se não
fôssemos dois impulsivos malucos, como você teria feito o pedido?
— Boa pergunta. Eu estava pensando em fazer algum gesto fascinante,
usar alguma música bonita de fundo e decorar trechos de outras para dizer.
Teria te chamado pra jantar antes, só pra te ver em um vestido vermelho... ao
menos acertei a cor que estaria usando. — Ri, vendo-a balançar a cabeça com
uma risadinha, esticando a mão pra segurar a minha sobre o mármore da
banheira.
— Percebeu que eu estou usando o colar?
— Sim. Combinou perfeitamente... e você nessa banheira, usando só
esse colar, cercada de espuma... tão linda. Amo você. — Sorri, fazendo
carinho nos dedos dela, contornando o anel. — Pra quem vai contar
primeiro?
— Mamãe. Ela vai enlouquecer quando souber! — Ela riu. — E você?
— Vou jogar uma mensagem no grupo dos Vanslow. “Pedi Alice em
casamento”, e aí esperamos pra ver qual vai ligar gritando comigo primeiro.
— Balancei a cabeça. — Aposto que vai ser Brian ou Ethan. São sempre os
que leem mensagens mais rápido.
— Se for Brian, diz que eu vou manter a promessa do lago e colocar
Ethan e Phillip de minhas madrinhas, com vestido rosa e tudo — ela brincou,
e eu comecei a gargalhar de novo com aquela imagem dos dois na minha
cabeça.
— Pronto, assim todos os Vanslow participam do casamento. —
Segurei as mãos dela, a puxando pra perto, e ela veio deitar com as costas
contra meu peito, a água oscilando à nossa volta enquanto ela se mexia. —
Sabe que agora vai ter que se acostumar a ser rica, não sabe?
— E você sabe que agora que eu talvez comece a ter noção de preços,
eu vou te esganar quando me der coisas caras, né? — ela brincou, segurando
minhas mãos em volta de sua cintura.
— Quando tiver noção do quanto realmente temos, vai ver que meus
presentes não são caros. E agora tudo que é meu vai ser seu também. —
Beijei o rosto dela. — Inclusive, se quiser abrir uma companhia de teatro, ou
aquela editora que comentou uma vez, vai ter todo meu apoio.
— Que tal esperarmos eu me formar primeiro, e aí vemos meu ramo
como Vanslow? Talvez eu estoure na Broadway e fique rica por conta
própria. Quem sabe eu não vou até pra Hollywood?! — ela falou em tom de
brincadeira, mas eu senti o brilho na voz dela.
— Se esse for o caso, eu exijo que na nossa mansão nas colinas tenha
uma pista de boliche. Eu nem gosto de jogar, mas acho fascinantes os
famosos que fazem isso. — Beijei o pescoço dela, sorrindo ao ouvir sua
risadinha.
— Se sobrar espaço depois da biblioteca, claro. — A voz dela soava
animada, tão alegre que meu coração derretia. A felicidade dela vai ser
sempre um presente tão bonito, nunca vou me cansar.
— Ah, e eu tenho uma exigência para o nosso casamento, que vai durar
a longo prazo. — Usei a minha voz de duplo sentido, ela virando o rosto para
mim com uma sobrancelha erguida.
— É mesmo? Qual?
— Essa sua surpresinha pra mim, de lingerie na minha cama... quero
uma dessas por mês. Pode gastar uma fortuna em lingeries chiques, pode
investir até em certo tipo de acessórios, mas quero que me seduza sempre.
Quero manter essa nossa chama descontrolada acesa. — Dei um sorrisinho,
vendo que ela não ficava mais vermelha e nervosa quando eu mencionava
algo assim. — Em troca, eu prometo que seu prazer vai ser sempre em
primeiro lugar.
— Essa é a parte secreta dos nossos votos, né? Não podemos dizer isso
em frente aos amigos e família, então dizemos agora. Muito bem, Hector
Vanslow, eu prometo sempre te surpreender em lingeries especiais, prometo
descobrir de que acessórios está falando e testar tudo o que se há para testar
ao seu lado. — Ela deu um sorrisinho, piscando um olho, e eu soube que se
não estivesse tão exausta por antes, ela teria me provocado agora mesmo.
— Amo você, minha garota intensa, apaixonada e entregue. Vou amar
sempre, cada dia mais. Seja daqui a vinte segundos ou vinte anos.
— Ei, isso me lembra uma música! Lover, da Taylor Swift. Inclusive
esse trecho combina com quando nos conhecemos, “eu te conheço há vinte
segundos ou há vinte anos?”
— Há vinte vidas, eu diria. Se existirem de fato reencarnações e vidas
passadas, eu te conheci e te amei em cada uma delas, e te amarei em todas as
que virão.
— Amo você. Hoje, amanhã, e pra sempre. — Ela se esticou pra me dar
um beijo rápido, voltando a se deitar no meu peito. — Quer avisar minha mãe
e seus irmãos amanhã, ou ainda hoje?
— Assim que sairmos do banho, se quiser. Ou, se achar melhor,
cancelamos as ligações e fazemos um jantar aqui no sábado, e à medida que
forem chegando, você vai os surpreendendo com o anel. Eu vou adorar ver a
reação deles.
— Gostei desse plano. Imagine mamãe gritando, Brian dizendo “eu
sabia!” e Roman se perguntando por que você não contou a ele hoje cedo que
faria isso.
— Ele vai ficar todo orgulhoso quando eu disser que a conversa que
tivemos me ajudou a tomar a decisão de comprar o anel. — Sorri. — Ele
disse hoje, quando eu comentei que você imaginava um futuro comigo, “dê a
ela esse futuro”. Foram essas palavras que ecoaram quando eu vi o anel na
vitrine.
— É lindo, inclusive. — Ela ergueu a mão esquerda em frente ao rosto,
vendo a pedra rosa. — Que pedra é essa?
— Morganita. Eu ia comprar esse só por ser cor-de-rosa, sua cor, mas
aí a vendedora me contou as propriedades que acreditam estar ligadas a essa
pedra. Usada em técnicas de cura com cristais, é dito que ela acalma a mente
e traz tranquilidade, além de ajudar com desequilíbrios mentais e emocionais.
Também acreditam que ela traz e cuida do amor... a pedra perfeita para nós.
— Quem diria que uma pedrinha rosa podia significar tanto. — Ela riu
baixinho, movendo a mão e vendo o anel brilhar nas luzes do banheiro. Ela
suspirou. — Eu amo o quanto você me conhece, desde o tamanho da pedra
até o significado dela... você é perfeito.
— Fui feito pra te amar, Alice. Demorei vinte e sete anos pra te
encontrar, mas já era seu desde o dia que nasci.
— Para, vai me fazer chorar de novo! — ela reclamou, sorrindo e se
afastando ao ficar de pé pra sair da banheira, estendendo a mão pra mim. —
Vem, nossos dedos já estão enrugados pela água.
Segurei a mão dela e me levantei, pegando o roupão e entregando a ela,
em seguida enrolando minha toalha na cintura.
— O que acha de pedirmos um jantar especial para Geralt hoje? Não é
justo que a noiva cozinha esta noite.
— Noiva... — Ela fez um barulhinho alegre, sorrindo de orelha a
orelha. — Acho uma ótima ideia. E peça aquele espumante sem álcool
também, nós merecemos um brinde. — Fomos andando até o closet, onde ela
pegou aquele vestido branco e azul que usou no lago, se virando pra mim. —
Acho que é a roupa perfeita pra celebrar, né?
— Acho que está certa, futura esposa.
Esperei-a se vestir enquanto colocava uma calça e uma camisa, e então
puxei-a pra perto, as mãos em sua cintura. Naquele momento eu vi nossa vida
inteira em seus olhos, tudo o que vivemos e viveríamos daqui até a
eternidade... e soube que tinha feito a coisa certa, meses atrás, quando ofereci
meu número para a garota dos olhos tristes.
Três meses depois, final de setembro.

Alice
O dia tinha chegado. O casamento seria hoje, daqui a algumas horas.
Nos casaríamos no final da tarde, e a festa viraria a noite, principalmente no
que dependia dos Vanslow. Eu ainda ria quando lembrava da reação deles
com a notícia de que estávamos noivos e íamos nos casar em três meses.
Roman ficou orgulhoso, Phill disse que não se surpreendia, Brian e Ethan
gritaram e comemoraram, e Nicole teve um absoluto surto porque seria
madrinha. Eu só teria três, Nicole, minha prima Breanna, e tecnicamente Eric.
Ele ficaria no lado da noiva do altar, usando um terno vermelho escuro que
eu ajudei a escolher. Ele tinha se tornado um dos meus melhores amigos, era
mais do que justo.
Hector teria os quatro irmãos do lado dele, e as alianças estariam no
bolso de Roman, à espera de serem pedidas pelo ministro. Não teríamos
daminha de honra ou pajem, considerando que a pessoa mais nova das duas
famílias era meu primo Eddie, de dez anos, e eu tinha zero proximidade com
ele, então achamos melhor tirar essa parte. Seria um casamento de certa
forma pequeno, eu não tinha muita gente pra convidar além da família,
alguns ex colegas de ensino médio que tinham me tratado bem em algum
momento, e só. Boa parte dos convidados era preenchida por Vanslows que
eu nem conhecia ainda. O avô dele, alguns muitos primos e tios, alguns da
parte de mãe, os Sterling.
Meus parentes do sul tinham vindo, uma grande parte graças a Hector
que se ofereceu pra pagar todas as passagens, então até minha avó Jenna
tinha chegado antes de ontem. Estavam todos hospedados aqui no Empire, e a
cerimônia seria lá embaixo, na capela, e depois a festa no salão principal.
Tínhamos escolhido aqui mesmo, pois foi onde tudo começou naquele fim de
semana, e com a vantagem de ele ser o dono — em breve eu também seria,
não conseguia acreditar nessa parte — conseguimos a data que queríamos.
Os últimos três meses foram completamente caóticos, com
organizações de todo o tipo. Realmente discutimos por causa das flores,
como eu havia previsto uma vez, e acabamos concordando com um meio
termo. Não seriam os crisântemos que eu queria e nem as camélias que ele
tinha achado bonitas, no final concordamos em decorar com as flores do meu
buquê: rosas e peônias. No meu buquê também teriam ramos de lavanda, e os
das madrinhas seriam só a lavanda. O “madrinho” teria um ramo de lavanda
no paletó.
Teve também toda a busca pelo vestido. Lojas plus size especializadas
em noivas foram difíceis de achar, principalmente porque a maioria só tinha
vestidos que me deixavam parecendo um barril envolvido em renda branca.
Era ridículo a falta de consideração que tinham, não é por ser gorda que eu só
poderia me vestir com algo folgado e genérico. Eu queria um vestido de
princesa, que demorei séculos até achar, mas consegui um exatamente como
eu queria.
Estava encarando-o agora mesmo, pendurado em um cabide no quarto
que eu estava hospedada desde ondem, a suíte da noiva. Em dez minutos, as
pessoas começariam a chegar. A cabeleireira e a maquiadora, minhas
madrinhas e madrinho e fotógrafos para a filmagem e registros... em breve eu
não teria um segundo de paz, então aproveitei pra encarar o vestido enquanto
podia.
Ele era branco, obviamente, e seguia perfeitamente as minhas curvas
até a cintura onde começava a se soltar. As curvas que eu um dia odiei, que
eu um dia quis arrancar de mim, hoje me faziam sentir perfeita. A parte de
cima do vestido era coberta por rendas e bordados, o meio parecido com um
coração se observasse bem. Tinha uma saia transparente, de tecido bem fino,
que ficava por cima da saia de verdade, e ela tinha rendas mais espaçadas que
iam até um terço da saia, e reapareciam na parte que arrastava no chão. Não
tinha mangas de fato, só duas mini manguinhas laterais de renda que ficavam
caídas de lado, de enfeite, então eu pedi que apertassem bem pra não cair ou
escorregar, pois eu pretendia aproveitar bem a minha festa.
E então veio a batida na porta e meu tempo para observar o vestido no
cabide acabou, indo abrir para a equipe de maquiagem e cabelo. Já tínhamos
feito testes antes, e sabiam exatamente como eu iria querer. Respirei fundo e
me sentei na cadeira de salão que tinham trazido pra cá, em frente ao espelho,
e deixei que começassem.
A maquiagem demorou mais que o cabelo, fazendo detalhes
específicos, colocando uma micro camada de glitter nos meus olhos, e o
batom em tom rubi de vermelho. Eu sabia que noivas normalmente optavam
por batons nude ou em tons bem claros de rosa, mas eu gostava de vermelho.
Combinava comigo, e Hector sempre gostou de me ver de vermelho, e a
maquiadora fez um trabalho tão bom que não ficou nada estranho ou
destoando.
O cabelo foi rápido, a moça usou um babyliss pra definir melhor meus
cachos rebeldes, e uma parte foi presa pra cima, deixando o resto solto atrás.
Na parte presa tinham duas pequenas tranças, uma de cada lado, misturadas a
uma fita branca, que caía onde elas se encontravam, se misturando ao cabelo.
Encaixaram a tiara de flores feitas de pérolas e diamantes entre as tranças. Eu
não usaria véu, já tinha informação demais no meu cabelo.
Estavam acabando de aplicar mais spray pra segurar meu cabelo
quando bateram na porta de novo, e Nicole enfiou a cabeça ali dentro.
— Posso entrar?
— Sua cabeça já entrou. — Ri, assentindo. Ela já estava pronta, com
um vestido azul escuro lindo de morrer, colado no corpo e com a saia solta,
uma fenda até o joelho. Eu tinha deixado a cor livre, já que não seria algo tão
elaborado. Então era Nicole de azul, Eric com o terno vermelho escuro, e
Breanna com um vestido coral de saia solta e com um tecido transparente do
decote até o pescoço. Pra mim estava ótimo.
— Engraçadinha. Está linda. — Ela entrou. — Nervosa?
— Morrendo. — Sorri, balançando a cabeça. — E se eu tropeçar?
— Se essa é sua maior preocupação, eu diria que está até bem segura.
— Ainda bem. — Ri baixinho, respirando fundo e ficando de pé. —
Pronta para me ajudar a entrar no vestido?
— Finalmente! Mal posso esperar pra te ver de noiva. — Nicole sorriu,
assentindo e vindo pra junto de mim. A maquiadora e a cabeleireira saíram,
deixando nós duas. — Sua mãe e os outros já, já chegam para as fotos,
melhor nos apressarmos.
— Cuidado pra não rasgar um dos botões, ou eu juro que te mato.
— Noiva ameaçadora, gostei. — Ela sorriu, e eu respirei fundo,
deixando meu roupão chique de cetim cair no chão. Eu por baixo estava
usando uma lingerie que também era tomara que caia, e que se prendia em
duas cintas nas minhas coxas. Nicole deu um sorrisinho perverso. — Você
pretende matar Hector do coração, né?
— Com certeza. — Ri, e ela tirou o vestido do cabide, vindo me ajudar.
Precisei me segurar no ombro dela pra conseguir entrar no vestido, uma perna
de cada vez, e então ela me ajudou a puxar pra cima, começando a fechar os
botões um por um, realmente tomando cuidado. — Sabe me dizer como ele
está?
— Falei com Ethan agora há pouco, ele disse que Hector está “tão
calmo que dá medo”. — Ela deu de ombros, rindo. — Se eu bem conheço seu
noivo, ele deve estar tranquilamente tomando um gole de whisky caro com os
irmãos. E apostando o relógio com Roman.
— Sempre o relógio. — Balancei a cabeça, rindo. — E você, como
está? Sei que deve ter sido ruim terminar com Arthur semana passada,
mesmo que você teime em não conversar pra não me distrair.
— Eu estou bem, de verdade. Ele me traiu, ele que saiu perdendo. —
Ela deu de ombros, fechando o último botão e me empurrando pra frente do
espelho. — Anda, vá ver a obra prima que está.
Respirei fundo e me virei, meu queixo caindo. Eu estava digna de um
conto de fadas, de uma das modelos que eu via nos catálogos da Dreamsize...
eu estava linda. Respirei fundo, tentando segurar a emoção e dando graças a
deus pela maquiagem a prova d’água.
— Ei, sem chorar ainda, espere a hora dos votos.
— Vou tentar. — Funguei, sorrindo entre a emoção. A porta bateu de
novo, e agora minha mãe, Breanna e Eric entraram, todos parando e fazendo
carinha de choro ao me ver de noiva.
— Filha... você está linda. — Minha mãe cobriu a boca com as mãos,
vindo me abraçar com cuidado pra não borrar nem amassar nada.
— Eu? Olhe pra senhora! — Sorri. Ela estava usando um vestido verde
escuro, similar aos que Carmen normalmente usava, e eu sabia que tinha
influência da minha sogra na escolha.
Não tivemos tempo de conversar, os fotógrafos vieram logo em seguida
pra fazer minha parte do álbum, que incluía mamãe colocando meu colar, –
uma pedra solitária de morganita, pra combinar com meu anel de noivado –
nós todos brindando com uma taça de champanhe, a minha sempre sem
álcool, eu rindo com as meninas, entregando os buquês de lavanda a elas e
prendendo o raminho no paletó de Eric... eu tinha certeza de que aquelas
fotos tinham ficado lindas.
E então já eram quatro e meia, e estava na hora de ver Hector.
Tínhamos escolhido fazer igual no clipe de Speechless do Dan & Shay,
aquela tradição de ver a noiva um pouco antes do casamento, sem os
convidados, com as câmeras registrando a primeira vez que ele me visse de
branco.
Peguei meu buquê, as flores rosadas com folhas e ramos de lavanda no
meio, e respirei fundo. A revelação do vestido seria no pequeno salão ao lado
da capela, que também estava todo decorado e enfeitado com flores e velas.
Me deixaram na porta, e os fotógrafos e equipe de filmagem entraram
primeiro... e então eu.
Hector estava de costas, o cabelo perfeitamente penteado pra trás, os
ombros balançando um pouco, me dizendo com isso que ele sorriu ao ouvir
meus passos. Então me aproximei, mais e mais, parando a um passo de
distância dele, respirando fundo e tocando seu ombro.

Hector
Eu poderia ter morrido ali, vendo-a de noiva na minha frente, e
morreria feliz. Alice tinha superado um nível de beleza que eu nem sabia
existir, de alguma forma conseguindo ficar ainda mais bonita, mais similar a
uma deusa e menos a uma garota normal. Eu fiquei sem fala, sorrindo
boquiaberto, os flashes das câmeras a nossa volta enquanto ela dava sorrisos
e risadinhas da minha reação.
Engoli em seco, vendo a garota da minha vida ali, pronta pra selar um
compromisso comigo para o resto de nossas vidas, e tive que secar as
lágrimas antes que caíssem. Estendi a mão e ela aceitou, levei seus dedos até
minha boca, beijando sua aliança de noivado, onde em breve a de casamento
faria companhia.
— Eu amo você. — Foram as únicas palavras que eu encontrei, e ela
sorriu, os olhos transmitindo toda a emoção do mundo, assentindo.
— E eu amo você.
Ela apertou minha mão, e os fotógrafos começaram a dar pequenas
ordens para as fotos do nosso álbum, as fotos que um dia estariam sobre a
lareira da nossa casa, ao lado de todas as outras que teríamos ao passar dos
anos. Ela não parava de sorrir, e eu também não, sussurrando mil vezes o
quanto ela estava linda e o quanto a amava. E então chegou a hora da
cerimônia e ela foi tirada dos meus braços pela última vez, enquanto eu ia até
a capela, onde todos já esperavam. Andei até meu posto, em frente ao altar, e
então a música começou.
Era um instrumental simples, clássico. Meus irmãos já estavam do meu
lado, e as madrinhas dela entraram de braços dados com Eric, uma de cada
lado, carregando os buquês de lavanda. E então a música mudou, o
instrumental de a Thousand years começando no piano e então o violoncelo
entrando também, enquanto Alice aparecia na porta, de braço dado com o pai.
Eu sorri, num riso alegre e emocionado, meus olhos mais uma vez se
enchendo de lágrimas enquanto eu a via vir na minha direção. Foi como se o
lugar estivesse vazio, se o mundo estivesse vazio, e tudo o que existisse fosse
Alice Caroline Rogers, em breve Vanslow, minha quase esposa.
À medida que a música foi aumentando e ficando mais forte ela se
aproximou mais, e então estava na minha frente. Bill me entregou a mão dela,
os olhos emocionados.
— Cuide bem dela.
— Sempre — murmurei, a música ficando mais calma e mais baixinha
enquanto acabava, e então ela estava na minha frente, de mãos dadas comigo,
enquanto o ministro começava a falar.
Eu sinceramente não prestei atenção em nada do que ele disse, a
princípio, não precisava ouvir um discurso sobre amor. A garota na minha
frente já tinha me ensinado tudo e mais um pouco. Chegou à parte dos votos,
os meus primeiro. Respirei fundo, tirando o papel meio amassado de dentro
do meu paletó. Tinha feito questão de escrever, memorizar e ainda ler
algumas partes, pra garantir que não soasse confuso e perdido na emoção.
— Alice, você é o amor da minha vida. Em tão pouco tempo você se
tornou tudo no meu mundo, o sol que eu gravito em volta, com duas semanas
eu já te amava, e esse amor só cresceu com o tempo. O sentimento que temos
é pacífico, é calmo e equilibrado. Você as vezes pode ser um furacão, mas eu
sempre vou estar aqui pra te trazer de volta ao lugar. Você é meu céu, lua, sol
e estrelas, você é a batida do meu coração, é cada sorriso que eu dou, todos os
dias e todos os momentos, sempre pensando em você. A partir de hoje, eu
nunca mais pertencerei a mim mesmo, e não podia estar mais contente com
esse fato. Sou seu desde que existo, e minha vida até aqui foi no aguardo de
que você me tomasse para si. Eu amo você.
Não me estendi como no pedido, não precisava. Já tínhamos dito tudo o
que tínhamos a dizer entre nós mesmos, aqui era uma mera afirmação diante
aos outros. O ministro assentiu, se virando para ela, que estava fungando
baixinho, soltando uma mão minha para segurar as lágrimas antes que
caíssem.
— Hector Daniel Vanslow, meu lindo e amado quase marido. Eu te
amo tanto, mais do que um dia pensei que poderia amar alguém. E o mais
incrível é ver você me amar da mesma forma! Você me aceitou como eu sou,
já esteve comigo no melhor e no pior, na saúde e na doença, em todos os
momentos que eu precisei. Se você me pertence, então estamos numa troca
justa, pois meu coração é eternamente seu para cuidar. Tem mil coisas que eu
gostaria de dizer, mas no fundo nós sabemos que eu apenas estaria ampliando
três palavrinhas. Amor parece ser pouco perto do que eu sinto, mas na falta
de uma palavra melhor, eu amo você. Pra sempre.
Murmurei um “pra sempre” silencioso, e o ministro seguiu com a
cerimônia. Nos aceitamos para o melhor e o pior, na riqueza e na pobreza, na
saúde e na doença, para amar e respeitar eternamente, enquanto trocávamos
as alianças douradas.
— Pelo poder investido em mim por Deus e pelo estado de Nova
Iorque, eu os declaro marido e mulher. — E com essas palavrinhas do
ministro, ela agora era Alice Vanslow, minha esposa, minha companheira
pelo resto da vida.
E ali, na frente de todos os nossos amigos e familiares, selamos esse
contrato com um beijo. E esse foi só o começo da nossa história.
Sinopse
Ethan Vanslow é o irmão mais novo e, por acaso, o mais irresponsável
também. Vivendo a vida de forma intensa e inconsequente, se dizendo novo
demais para tomar responsabilidades grandes como as que os irmãos têm. E
não teria companhia melhor para essa vida do que a melhor amiga, Nicole.
Criados juntos desde que nasceram, com apenas dois dias de diferença, os
dois sempre foram inseparáveis, dividem um apartamento, e tem até apostas
correndo pela família sobre quando vão se tornar algo mais. “Nunca” é a
resposta padrão, mas o álcool e um término recente são o empurrãozinho
perfeito para que os dois considerem os riscos. Afinal, que mal uma única
noite pode causar? As coisas continuariam as mesmas na manhã seguinte.
O problema viria na manhã do mês seguinte, quando os enjoos começaram e
os dois se viram perdidos com a última situação que esperariam viver juntos.

AVISO: Este capítulo é um rascunho, podem sofrer mudanças até o


lançamento final.
Capítulo 1
Ethan

Fazia uma hora e meia que eu tinha uma nova irmã, e eu não podia
estar mais orgulhoso de Hector pelo casamento. Não é o tipo de vida que eu
planejava pra mim, mas combinava perfeitamente com ele e Alice, o casal
perfeito que nunca brigou ou teve problemas, o conto de fadas em que o
cavalheiro salvou a princesa de um monstro terrível — a própria mente dela.
E se eu estava feliz, Nicole estava radiante pela nova amiga ser agora
eternamente uma parte da família. O casamento estava sendo um estouro e,
depois do jantar, começaram as músicas. A primeira dança foi bonita, uma
música country das que Alice amava e ninguém mais conhecia, e então a
pista foi liberada.
— Nicole, eu não danço.
— Comigo você dança, sim. Vem, só uma. — Ela fez aquela carinha
manhosa que arrancava tudo de mim desde que tínhamos três anos e eu bufei,
assentindo e me levantando, deixando-a me puxar pela mão. — Viu?! Você
sabe ser bonzinho quando quer!
— Não me faça mudar de ideia.
— “Não me faça mudar de ideia” — ela imitou minha voz
ridiculamente, fazendo uma careta e rindo, segurando minha mão, e eu levei a
outra até sua cintura, contornando o cetim azul do vestido, até estar na parte
das costas, que era totalmente aberta. Ela amava roupas abertas e reveladoras.
Dançamos meio desajeitados, eu realmente era um péssimo dançarino quando
sóbrio e ela suspirou, desistindo da música lenta. — Sabe do que você
precisa?
— De quê?
— Álcool. Você sempre fica mais solto quando bebe, e o tempo que
vamos gastar no bar é o tempo exato de acabarem as danças bonitinhas e
começar a festa de verdade. E aí, meu amigo, você já vai estar louco o
bastante pra dançar comigo.
— E não é que você às vezes consegue ter boas ideias? — Ri, andando
atrás dela até o bar. Como sempre, ela estava estonteante. Eu já era tão
acostumado com Nicole, que esquecia o quanto ela era bonita, mas eventos
assim sempre me faziam lembrar. Loira, praticamente tão alta quanto eu –
quando estava sem saltos – olhos azuis e um corpo digno de uma revista... Eu
ainda não entendia por que ela desistiu de ser modelo. Teria facilmente dado
certo.
O vestido de hoje era azul, cor favorita dela, de um cetim escuro que
reluzia na iluminação amarelada dos lustres, e com o salto gigante, ela ficava
alguns poucos centímetros maior do que eu. Me sentei ao lado dela no bar,
comparando meu reflexo no espelho com o dela.
Meu cabelo estava com a frente presa ra cima em um coque, a parte de
trás solta. Um pouco rebelde pra um casamento, mas era meu jeito. O terno
era preto, com uma gravata azul-escura que Nicole escolheu, dizendo que se
estaríamos colados a festa inteira, ao menos deveríamos combinar. Não
reclamei, ela quase sempre fazia coisas assim, já nasci acostumado.
Sem falar que fazia só uma semana que ela terminou com Arthur, e ele
seria o par dela no casamento. Três meses juntos e o cara simplesmente a
traiu... Não foi à toa o soco que eu dei no dia que ele veio tentar se desculpar.
E eu socaria de novo, no minuto que ela me pedisse, ninguém magoa minha
loira e sai ileso.
Meu primeiro copo de Bourbon apareceu à minha frente, e ela tinha um
drink com morangos, que estava quase transparente, me fazendo pensar
quanto de vodka teria ali. Ela ergueu o copo enfeitado na minha direção,
encontrando o meu Bourbon no meio do caminho, e começamos a beber.
Ela estava girando o canudo no copo, que já era quase só gelo, quando
deu um sorrisinho
— O que acha de ficarmos embriagados? Eu bem que preciso encher a
cara.
— Me parece uma ótima ideia. Mas com uma condição: sem más
decisões.
— E eu, por acaso, já fiz alguma má decisão na minha vida? — Ela riu,
piscando um olho. — Ok, não responda. — Ela se virou para o bartender. —
Um daqueles triple berry martini, por favor. E um Kentucky mule pra ele. —
Ela me olhou de novo. — Se vai beber comigo, vai beber drinks e coquetéis,
nada de whisky puro e sem graça.
— Por que eu acho que vou me arrepender da mistura que vai ser isso?
— Besteira, você no máximo vai acordar com a pior ressaca da sua
vida, amanhã de manhã, nada que um hamburguer gorduroso não cure. —
Nossos drinks chegaram, os três bartenders trabalhando bem rápido, e Nicole
ergueu uma sobrancelha ao ver os dois coraçõezinhos de morango no drink
dela. Tirou um e me entregou. — Pra você, o único homem imprestável que
eu quero na minha vida. — Ela riu e eu peguei o morango.
— Vou fingir que foi um elogio. — Mordi o morango, tomando um
gole do meu drink. Pelo amor de Deus, a mistura de whisky com algo cítrico
e alguma especiaria era estranha, mas até que não era tão ruim. Ela pediu um
sex on the beach para ela e um Manhattan pra mim. Ela estava mantendo os
dela com vodka e os meus com whisky, ao menos por enquanto. E então
começou a tocar uma música animada, que provavelmente ela quemtinha
convencido Alice a pôr na playlist, porque ela deu um grito animado, virou o
resto do drink de forma nada graciosa e me puxou pra pista de dança,
começando a dançar de qualquer jeito, me ameaçando com o olhar, até que eu
fiz o mesmo.
Comecei a dançar sem prestar muita atenção no que estava fazendo,
segurando a mão dela e fazendo-a girar algumas vezes no lugar. Hector e
Alice passaram por nós, o vestido branco chamando atenção, e ela sussurrou
algo no ouvido dele, que gargalhou. Casal bonito.
E então começou a bagunça de country seguido de pop, Alan Jackson
misturado com Maroon 5, mas Nicole e eu estávamos dançando não
importava o que fosse. Teve uma hora que a música parou, e eu não entendi
por que, ainda segurando a mão dela, minha visão só um pouquinho turva.
Ah, o bolo.
Nicole me puxou lá pra frente, querendo ver de perto, aplaudindo feito
louca, totalmente feliz pela amiga. Alice e Hector fizeram aquele ritual de
darem o bolo um na boca no outro, ele beijando o canto da boca dela onde
ficou um resto de glacê. Eles se olharam, com tanto amor nos olhos, que eu
tive que desviar minha atenção, vendo Nicole quase chorando ao meu lado.
— Ei, nada de ficar emotiva.
— Hoje eu posso, ok? — Ela fungou, e enquanto os convidados
começaram a se dispersar para pegarem fatias do bolo, ela me empurrou de
volta para o bar. — Quatro shots de tequila.
— Louca.
Ela deu de ombros, empurrando dois shots na minha direção, erguendo
o primeiro e virando de uma vez, fazendo isso com o segundo. Nicole era
extremamente forte pra bebida, toda vez ela bebia o mesmo que eu, até mais,
e saía mais sóbria. Parecia que tinha nascido com álcool na veia.
Virei meus shots, piscando feito louco, enquanto a tequila me queimava
por dentro. Eu dava graças a Deus por ela não curtir muito moonshine, ou
nenhum de nós teria fígado depois da adolescência. Tecnicamente só
podíamos beber legalmente há um ano e pouco? Sim, mas quem disse que
isso um dia fez diferença? Ilegalmente bêbados, desde os dezessete.
Ela deu outro grito animado quando começou a tocar Animals, me
puxou pela mão, carregando a margarita que recém tinha pedido, na outra, e
começou a dançar, se remexendo de um lado para o outro. Eu adorava vê-la
solta assim, a Nic selvagem.
— Just like animals... — ela cantarolou, gritando o uivo que tinha na
música, me fazendo gargalhar, enquanto ela me empurrava o copo vazio,
ficando com as mãos livres, as erguendo acima da cabeça quando começou
uma música nova.
Dei um jeito de entregar o copo a um garçom corajoso que passou pela
pista de dança, e então a música mudou de novo e ela e Alice gritaram ao
mesmo tempo, se entreolhando e indo na direção uma da outra. Hector e eu
ficamos parados, encarando enquanto as duas dançavam e cantavam juntas,
sendo melhores amigas perfeitas.
— No rules in breakable heaven, but it’s a cruel summer with you! —
Elas apontaram uma para outra, rindo, gritando a parte seguinte. — He looks
up grinning like a devil!
Elas realmente estavam empolgadas, e eu sempre me surpreendia em
como Alice conseguia se soltar sem beber nem um gole de álcool. Ela voltou
para os braços do marido, e Nicole pra junto de mim, rindo toda alegre e me
puxando pela gravata, me forçando a dançar junto. Nem reclamei, já estava
no nível de embriaguez que me permitia dançar como um louco.
Começou uma música lenta e ela me puxou pra junto, passando os
braços em volta do meu pescoço, e começamos a balançar devagarinho de um
lado para o outro. Os olhos dela estavam acesos, as pupilas dilatadas, e eu me
peguei pensando em como Arthur foi burro em deixar essa garota escapar,
mas que ela encontraria alguém melhor, que a merecesse de verdade. A
música acabou, mas eu ainda estava a segurando, perdido em pensamentos.
A festa foi passando e quando vimos, já era hora do buquê. Tive que
empurrá-la pra lá, ela não queria ir, mas no final acabou rindo, gritando
quando o buquê foi certeiro nas mãos dela. Eu gargalhei, aplaudindo.
Nós dividimos nosso tempo entre dançar feito loucos, encher a cara
com drinks multicoloridos e comer os doces caros e cheios de chocolate da
mesa principal. Nem percebemos que o lugar começou a esvaziar, alguns
familiares mais velhos já voltando para os quartos, e então Alice desapareceu,
voltando depois com um vestido curto, ainda branco. Era hora de irem pra lua
de mel.
Ela foi se despedir da família, passariam duas semanas em uma ilha na
América do Sul, e eu me juntei aos meus irmãos, chegando a tempo de ouvir
uma piada sem graça qualquer de Brian.
— E aí, como é ser um homem casado há algumas horas?
— Incrivelmente bom. — Hector riu. — Agora eu sei que ela será
sempre minha, e eu dela. É uma ótima certeza pra ter.
— Isso, fique fazendo inveja para os pobres coitados aqui — Brian
fingiu resmungar, rindo.
Não deu tempo de conversar muito, Alice veio abraçar cada um de nós,
nos chamando de irmãos dela. Sorrimos, todos orgulhosos da nossa nova
Vanslow.
Assim que eles saíram, a festa já estava quase no fim, e ficamos só a
família pra trás. Bem, quase a família, já que Phill desapareceu com uma das
colegas de faculdade ou primas de Alice, sei lá, a conquista dele da noite.
Nicole e eu ainda pedimos uma última dose de tequila, e saímos tontos
até o térreo, pedindo ao nosso motorista pra nos levar pra casa. Jake era um
cara legal, eu o chamava em eventos que ia beber e não queria ter que chamar
um Uber depois, mas normalmente Nicole e eu dirigíamos; eu, minha moto; e
ela, o carro.
Ela foi deitada no meu ombro até chegarmos em casa, aturando o
elevador por dezoito andares até nosso apartamento. Tínhamos um
apartamento gigante, que era a junção de dois normais. Éramos duas pessoas,
afinal, e éramos bem espaçosos.
Entramos cambaleando, rindo por nada, e com um olhar ela assentiu,
indo até a geladeira e pegando duas cervejas, trazendo uma para mim,
enquanto nos sentávamos no chão em frente ao sofá, minha gravata já frouxa,
o vestido dela amassado. Tomei um gole grande, e ela também.
— Sabe, eu te amo pra caralho. — A voz dela saiu meio arrastada,
passando uma mão por cima dos meus ombros.
— Sabe que se meus irmãos sonham que você diz isso, eles vão levar
para o lado errado, né? — Ri, apoiando um braço no chão atrás dela, o outro
sobre o joelho dobrado, segurando a cerveja.
— Uhum. — Ela riu, finalizando a cerveja e deixando de lado. — Eles
devem criar tantos rumores sobre a gente... Aposto que hoje demos um monte
de ideias novas pra família toda.
— Com certeza. — Bebi o resto da minha, encarando-a ali, com as
pupilas dilatadas, os olhos azuis incandescentes, e ela deu um risinho,
mordendo o lábio inferior.
— E se a gente desse motivo pra eles falarem?
— Como? — Ergui uma sobrancelha, e ela se inclinou pra perto,
encostando a testa na minha.
— E se... a gente cometesse o erro mais inevitável das nossas vidas?
Eu, você, o chão da sala...
— Você está bêbada, Nicole. — Ri, tentando ignorar o formigamento
que senti com essa sugestão.
— Você também, e sabe que eu sempre fico mais sóbria. — Ela riu,
levando a mão livre ao meu rosto, arranhando minha barba curta com as
unhas. — Vai dizer que em vinte e dois, quase vinte e três anos, você nunca
pensou na possibilidade?
— Nunquinha. — Era uma mentira, e ela sabia.
— Mesmo? Nem no nosso aniversário de vinte e um, quando você
estava caindo de bêbado, e só não me beijou porque ouvimos um barulho na
porta?
— Você estava pior do que eu, como se lembra disso?
— Minha memória sempre foi melhor que a sua, sabe disso. — Ela deu
um sorrisinho, passando a língua nos lábios. — E você também lembra...
— Tá, eu considerei naquela noite. Mas seria um erro, sabemos disso.
— Um erro inevitável, como eu disse. Anos e anos juntos, aquela vez
que eu te peguei no flagra batendo uma quando éramos adolescentes, aquela
vez que você me pegou no flagra, ano passado... vai dizer que não temos nem
um pouquinho de tensão sexual? — Ela se inclinou, os lábios roçando na
minha orelha. Porra, ela sabia que era meu ponto fraco, a maldita sabia tudo
sobre mim.
— Mais que um pouco... o que só torna isso uma péssima ideia. Você
acabou de terminar um namoro, está sensível...
— Uma porra que eu estou. Ele quem saiu perdendo, esse corpinho
aqui está livre de novo, e você está recebendo a oferta de tê-lo por uma noite.
Só hoje, nós dois bêbados, e amanhã culpamos na bebida e fingimos que
nunca aconteceu. Um errinho divertido...
— Nic, o quão bêbada você está, exatamente? — Ergui uma
sobrancelha e ela se afastou da minha orelha, me encarando com um
sorrisinho perverso.
— Você não estaria se aproveitando de mim, Ethan. Pode ficar
tranquilo quanto a isso, eu posso estar bêbada, mas tenho plena consciência
de que não seria uma má ideia. Mas se não quer, eu não vou forçar. Daqui
uns cinco anos, eu sugiro de novo. — Ela riu, começando a se afastar. Mil
pensamentos passaram pela minha mente, uma infinidade de possibilidades.
— Que se foda o erro. — E avancei sobre ela, agarrando sua nuca e a
beijando.

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