“Você não pode se curar onde ficou doente.
Eu tenho medo de recomeçar. Recomeços são assustadores. Eu sinto medo de qualquer
coisa relacionada, medo de errar, medo do meu passado voltar para me assombrar.
Mesmo eu tentando ser forte, eu sou fraca. Eu derramo lágrimas, tremo, choro e peço para
meus guias cuidem de mim toda noite antes de dormir. Mas será que eu faço valer a pena?
Eu não sou tão importante. Mas, merda. Como alguém pode ser tão cruel com outras
pessoas e agirem normalmente sabendo que a mentalidade da vítima acabou por causa
dele? Eu não sou cruel, eu tento, luto, mas não consigo.
Eu nunca teria coragem para dizer para os meus filhos o que disseram para mim. Eu nunca
teria coragem de por outro homem na minha casa pela minha filha. Eu preferia sofrer, do
que saber que eles passaram pelo o que eu passei.
Eu preferia viver o terror dos meus onze anos, onde eu me escondia embaixo dos
cobertores, colocava uma cadeira perto da cama, ficava encostada na parede fria e orava
para que Deus não deixasse ele me tocar.
Mas Deus não me ouviu. Deus deixou-me.
Ele me tocou, me sujou e eu acordei chorando. Não consegui pegar no sono. Me sentia
imunda.
Então, passava o dia todo de cara fechada, perdida em meus próprios pensamentos, com a
alma infectada. Eu pensava em criar coragem e dizer. Mas afinal, eu era só uma garotinha
indefesa. Sem voz, sem atitude, sem qualquer pingo de coragem. Somente com a alma
infectada.
E aí, no meu aniversário, eu coloquei uma coberta na minha coxa, tampei qualquer indício
de medo. E vendo as fotos hoje em dia, estava tudo tão óbvio. Minha péssima aparência,
minha péssima idéia, minha péssima falta de voz, minha pessoa versão.
E me pergunto onde eu errei pra isso acontecer comigo. Porque não é justo, não é justo!
E quando eu falo que desejo a morte dele, sinto que o karma voltará para mim. Só que, é
inevitável. Eu quero que ele morra.
Então, em minhas orações para sei lá quem. Eu peço muito para tirar ele da minha vida, eu
imagino ele em um caixão e eu paz.
Mas novamente, quando isso acontecer terei que recomeçar. E quando isso acontecer eu
vou sentir muito medo.
E minha única saída é não continuar de baixo deste teto.
Eu tenho receio, mas não posso continuar doente. Minha alma infectada está dolorida
demais para que a porra de uma adolescente de catorze anos possa lidar.
Eu não sou forte o suficiente, e minha única rede de apoio é quem está construindo uma
ponte para minha ruína.
Por favor, não me deixe atravessá-la.